Adequação do Teste SON-R 6-40 em Deficiência Intelectual
Adequação do Teste SON-R 6-40 em Deficiência Intelectual
ISSN: 1516-3687
revistapsico@[Link]
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Brasil
Abstract: Intelligence tests are essential tools for the diagnosis of intellectual disabili-
ties. The present study aimed at evaluating the adequacy of the SON-R 6-40, a intelli-
gence nonverbal test, for people with intellectual disability. The SON-R 6-40 consists of
four subtests: Categories and Situations (reasoning subtests) and Mosaics and Patterns
(performance subtests). The test was administered to 50 people with intellectual disa-
bility. For this group, a average IQ score of 73 (SD = 2,08) was observed. Exploratory
factor analysis indicated two factors, the first being composed of performance subtests,
and the second of reasoning subtests. The average score of men on the performance
factor was significantly higher than the average score of women (p < .01; Cohen’s d =
0,58). The obtained results give support to previous studies of the SON-R 6-40 and
suggest the adequacy of this test for people with intellectual disability.
Keywords: intellectual disability; intelligence nonverbal test; SON-R 6-40; SON tests;
psychometry.
1
Endereço para correspondência: Talita de Araújo Alves, QI 10, bloco P, apt. 306. Guará – DF. CEP: 71.010-167.
Telefone: E-mail: [Link]@[Link]
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Introdução
152 Revista Psicologia: Teoria e Prática, 19(2), 151-163. São Paulo, SP, maio-ago. 2017.
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O SON-R 6-40 e deficiência intelectual
so ou muito intenso de limitação. Ressalta-se, ainda, que apenas 30,4% das pessoas
com deficiência intelectual frequentam algum tipo de serviço de reabilitação. Nesse
contexto, considera-se a importância da identificação da pessoa com deficiência inte-
lectual enquanto passo inicial do processo que culmina na prestação de serviços e su-
porte adequados para essa realidade.
A utilização de instrumentos psicológicos faz parte do processo de avaliação da
deficiência intelectual. Sobretudo ao considerar o uso de testes de inteligência padro-
nizados para avaliar as habilidades cognitivas. Para os testes utilizados, destaca-se a
importância da apresentação de evidências de validade, propriedades psicométricas
satisfatórias e normas que estejam condizentes com o contexto sociocultural e com o
idioma nativo dos sujeitos (Conselho Federal de Psicologia, 2003).
Os escores nos testes podem ser influenciados por diversos fatores, entre eles o
efeito Flynn, em que há uma sobre-estimação dos escores quando são utilizadas nor-
mas desatualizadas (Flynn, 2009). Além disso, na testagem de populações especiais são
necessários alguns cuidados específicos, considerando as possíveis limitações apresen-
tadas pelos indivíduos, desde deficits motores até dificuldades relacionadas à comuni-
cação e à linguagem. A utilização de testes de inteligência que exigem habilidades
verbais e/ou escritas pode limitar a avaliação cognitiva, através da subestimação dos
escores dos sujeitos (Tellegen, 1993).
Em um estudo de comparação entre a utilização de instrumentos verbais e não ver-
bais, Jansen (1991) apontou uma grande diferença entre os escores obtidos a partir de
quatro subtestes verbais do WISC-R e os escores obtidos no teste não verbal de inteligên-
cia SON-R. A pesquisa foi realizada com um grupo de crianças que apresentavam prejuí-
zos específicos na linguagem. A diferença encontrada entre o QI verbal no WISC-R
(M = 83,1; DP = 14) e o QI SON-R (M = 97,5; DP = 14) foi significativa (p < 0,01).
Em casos como a deficiência intelectual ou nos diagnósticos de dificuldades de
aprendizado os sujeitos apresentam prejuízos no domínio acadêmico, pois este
está relacionado às habilidades de leitura, escrita e raciocínio quantitativo. Nesse
sentido, os testes de inteligência tradicionalmente utilizados não são considerados
adequados para a avaliação do funcionamento cognitivo dessa população. Em
estudo realizado com o WISC-IV, Giofrè & Cornoldi (2015) encontraram que o QI
obtido por meio do WISC-IV pode não ser uma medida adequada do funcionamento
cognitivo em pessoas com dificuldades específicas de aprendizagem, sobretudo por
considerar um prejuízo nos índices de Memória de Trabalho (WM) e Velocidade de
Processamento (PS).
A utilização de instrumentos não verbais de inteligência é uma alternativa favorá-
vel para a avaliação de pessoas com deficiência intelectual (Macedo et al., 2013). A
não dependência da linguagem nos testes não verbais permite a testagem de indiví-
duos com dificuldade de comunicação, estrangeiros, pessoas que não apresentam to-
tal domínio da língua do país de residência, pessoas com deficiência auditiva e pessoas
de difícil testagem (Laros, Jesus & Karino, 2013).
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O SON-R 6-40 e deficiência intelectual
do SON-R 6-40. Esse procedimento possibilita que o sujeito possa refletir sobre o próprio
desempenho, buscando engajamento na atividade para alcançar respostas corretas. O
material do SON-R 6-40 é composto por diferentes peças e ilustrações, desenvolvidas
com intuito de tornar o processo de testagem mais atrativo (Tellegen & Laros, 2014).
Método
Participantes
Instrumentos
Para a avaliação das habilidades cognitivas dos participantes, foi utilizada a bate-
ria SON-R 6-40 (Tellegen & Laros, 2014). O SON-R 6-40 é a versão revisada do SON-R
5½ -17, sendo a quinta versão dos testes SON. O instrumento é de aplicação individu-
al e pode ser administrado de forma não verbal, permitindo a avaliação de um espec-
tro relativamente amplo das funções cognitivas, independentemente das habilidades
de linguagem. Os quatro subtestes do SON-R 6-40 são: Analogias, Categorias, Mosai-
cos e Padrões.
Os subtestes do SON-R 6-40 podem ser divididos em dois tipos: testes de raciocínio
abstrato e concreto (Analogias e Categorias) e testes de raciocínio viso-espacial (Mo-
saicos e Padrões). Cada subteste é introduzido com dois ou mais itens de exemplo e
iniciado a partir dos primeiros itens da primeira série. Os itens do teste estão dispostos
em ordem crescente de dificuldade e há interrupção da série quando o sujeito comete
dois erros no total, não necessariamente consecutivos.
Além do SON-R 6-40, também foi utilizada uma escala de avaliação dos seguintes
aspectos: motivação, cooperação, concentração e compreensão das instruções. A esca-
la possui formato Likert e apresenta as seguintes pontuações, 1 (Muito baixa), 2 (Bai-
xa), 3 (Bom) e 4 (Muito bom). Além disso, a escala contém campos para observações
adicionais em cada um dos domínios avaliados. Também se obteve acesso às fichas
individuais dos participantes para o levantamento de informações adicionais, tais co-
mo: data de nascimento, local de residência, renda familiar e diagnóstico.
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Procedimento
A coleta de dados contou com a participação de dois aplicadores treinados. Todas
as aplicações ocorreram na instituição da qual o grupo faz parte. A seleção do grupo
foi feita a partir do critério da idade. A amostra dos sujeitos foi uma amostra de
conveniência. As aplicações do SON-R 6-40 foram realizadas em sessões únicas e in-
dividuais, com tempo médio de aplicação de 30 minutos. Para a testagem, os parti
cipantes foram retirados das salas de aula e oficinas durante o período de
permanência na instituição.
Inicialmente foi realizada a transformação dos escores brutos do SON-R 6-40 em esco-
res normatizados. O escore total do teste (QI-SON) é expresso em uma escala padronizada
com M = 100 e DP = 15, enquanto os escores normatizados nos subtestes são expressos em
uma escala com M = 10 e DP = 3. As transformações dos escores foram realizadas usando
o CD versão 5.4 com a correção informatizada fornecida com a bateria SON-R 6-40. As
normas do SON-R 6-40 foram baseadas na amostra Holandesa junto com a amostra Ale-
mã (n = 1.933). Foram utilizadas essas normas uma vez que as normas brasileiras ainda
não estavam disponíveis. A normatização brasileira do SON-R 2½-7 [a] apresentou uma
diferença entre a população de normatização da Holanda e do Brasil de 16,7 na escala de
QI (100,15). Com base nesse achado foi realizada uma correção nos escores normatizados
do SON-R 6-40, aumentando 16,7 pontos para cada escore normatizado.
As análises exploratórias dos dados foram realizadas a fim de verificar a integrida-
de da base de dados. Dessa forma, foram feitas análises de frequência, normalidade
univariada, dados missing e outliers. Todas as análises foram realizadas com o softwa-
re SPSS, versão 20. O pressuposto da normalidade da distribuição dos escores no SON-
-R 6-40 foi verificado de acordo com os índices de assimetria e curtose (Miles & Shevlin,
2001). O critério para avaliar a assimetria e curtose foi adaptado de Miles e Shevlin: os
autores defendem que um índice de assimetria e curtose menor de que 2,00 geral-
mente não traz problemas à análise dos dados.
A análise da fidedignidade dos escores do teste foi feita a partir do coeficiente
Lambda 2 de Guttman. De acordo com Sijtsma (2012), a escolha desse coeficiente é
mais indicada para amostras pequenas ou instrumentos que contêm poucos itens. Pa-
ra as análises de correlação dos escores normatizados no SON-R 6-40 com as variáveis
afetivo-comportamentais avaliadas pelos examinadores durante a testagem foi utili-
zado o coeficiente de correlação bivariada r de Pearson.
Foi conduzida uma análise fatorial exploratória (AFE) a fim de verificar a dimensiona-
lidade do SON-R 6-40 e, ainda, obter evidências de validade de construto do instrumento
para a amostra estudada. Considerou-se o índice KMO (Kaiser Meyer Olkin) para verifi-
car se a matriz dos dados é passível de fatoração, de acordo com essa medida os valores
ideais de KMO giram entre 0,80 e 0,90, de modo que valores abaixo de 0,50 são conside-
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Resultados e discussão
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Baixa 4% 2 8% 4 2% 1 14% 7
Notas. * Compreensão das instruções; **Correlações significativas = p < 0,05; *** Correlações significativas= p < 0,01.
A Tabela 2 apresenta que a maior parte dos sujeitos obteve a pontuação referente
a “muito bom” para cooperação (58%) e para motivação (50%). A avaliação dos apli-
cadores referentes à motivação e à cooperação pode ser um indicador da predisposi-
ção e aceitação dos participantes ante o material do teste e a situação de testagem.
Verifica-se, ainda, que em nenhum dos casos a motivação e cooperação dos sujeitos
durante a aplicação do SON-R 6-40 foram pontuadas como “muito baixas”. Entretan-
to, também observa-se que a variável Compreensão das Instruções é aquela que apre-
senta a maior porcentagem de sujeitos (26%) que pontuaram como “muito baixas”.
As análises de correlação apontaram uma relação de efeito pequeno e não signifi-
cativa entre a motivação e o QI-SON, r = 0,21, IC 95% [- 0,05, 0,44], p = 0,17. As corre-
lações entre cooperação e concentração com o QI-SON foram significativas e
representam um efeito médio, para a cooperação, r = 0,33, IC 95% [0,03, 0,57], p = 0,03
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O SON-R 6-40 e deficiência intelectual
e para a concentração, r = 0,39, IC 95% [0,10, 0,62], p = 0,01. Das quatro observações
feitas pelo aplicador, a compreensão das instruções demonstrou ser aquela que tem
maior associação com o desempenho no SON-R 6-40, r = 0,52, IC 95% [0,26, 0,71], p <
0,01. A correlação alta indica que a compreensão das instruções está significativamen-
te relacionada ao desempenho no SON-R 6-40.
Os resultados encontrados são semelhantes ao estudo de Tellegen & Laros (2014) com
crianças holandesas que apresentavam dificuldades severas no aprendizado (n = 57).
A associação entre o QI-SON e a motivação foi a mais baixa, r = 0,20, seguida por efeitos
médios para cooperação e concentração, r = 0,34 e r = 0,30. A correlação foi alta para a
compreensão das instruções, r = 0,62.
O mesmo padrão de associação entre a avaliação do aplicador e o desempenho no
SON-R 6-40 foi encontrado no estudo com a amostra de normatização alemã (n = 938).
Nesse estudo foi encontrada uma correlação significativa entre os escores de QI e a
compreensão das instruções r = 0,29, p < 0,01 (Tellegen & Laros, 2014). A amostra de
normatização brasileira do SON-R 2½-7 [a] também apresentou maior correlação en-
tre o QI-SON e compreensão das instruções, r = 0,44, p < 0,01 (Laros, Tellegen, Jesus, &
Karino, 2015).
A análise Fatorial Exploratória (AFE) foi conduzida a fim de verificar a estrutura
fatorial do SON-R 6-40. A partir da análise dos eixos principais (Principal Axis Facto-
ring, PAF) com a rotação Promax, verificou-se uma solução fatorial de dois fatores. Os
resultados da AFE podem ser observados na Tabela 3.
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mais alta para os subtestes Mosaicos (0,67) e Padrões (0,66). O primeiro fator apresen-
tado pela solução fatorial apresenta itens dos subtestes Mosaicos e Padrões e o segun-
do fator apresenta itens agrupados dos subtestes Categorias e Analogias. A correlação
entre os dois fatores encontrados foi de 0,33, resultado que confirma a escolha pela
rotação oblíqua dos fatores.
O primeiro fator, composto por itens dos subtestes Mosaicos e Padrões, está rela-
cionado ao raciocínio espacial e abstrato, pois as atividades desses subtestes envolvem
a análise visual e a manipulação do material do teste para a resolução da tarefa. En-
quanto o segundo fator, com itens dos subtestes Analogias e Categorias, está associa-
do ao raciocínio abstrato, pois os sujeitos devem aplicar a lógica observada para as
figuras ou imagens seguintes.
Na pesquisa brasileira de normatização do SON-R 2½-7 [a] também foi encontrada
uma solução fatorial com dois fatores. No SON-R 2½-7 [a], os escores nos subtestes
Mosaicos e Padrões formam uma escala de execução SON-EE, enquanto os subtestes
Analogias e Categorias formam uma escala de raciocínio SON-ER (Laros, Tellegen, Je-
sus & Karino, 2015).
De acordo com Hogan (2006), a fidedignidade dos escores também deve ser consi-
derada a fim de avaliar a validade de um teste, de modo que a fidedignidade pode ser
considerada como um prerrequisito para a validade. Assim, também foi verificada a
fidedignidade dos escores para os quatro subtestes do SON-R 6-40, para o QI total e
para os escores fatoriais obtidos a partir da solução fatorial. A fidedignidade dos esco-
res obtidos foi calculada por meio do índice lambda 2 de Guttman. A Tabela 4 apre-
senta os resultados da fidedignidade para os escores obtidos no SON-R 6-40.
Na Tabela 4 são indicados valores altos para a fidedignidade dos escores no SON-R
6-40 (índices variaram de 0,88 a 0,95). Após encontrar uma solução fatorial composta
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Referências
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Submissão: 2.12.2015
Aceitação: 20.6.2017
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