Capítulo 1 – Salto alto, batom vermelho e… física quântica?
Lorena Moreira tinha certeza de que havia nascido para brilhar — só não sabia exatamente
onde. Com 23 anos, cursava Engenharia de Produção por influência do pai (“porque precisa de
um diploma, filha”), mas sua paixão mesmo era moda, viagens e brigadeiro de colher. Era
daquelas que usava salto alto até pra ir ao mercado e não sabia fazer uma equação sem pedir
ajuda no grupo do WhatsApp.
Lorena era mimada, sim. Tinha uma coleção de bolsas com nome próprio, uma voz afinada
para o drama e uma necessidade quase biológica de reclamar do calor, do frio ou do que quer
que estivesse fora do seu controle. Mas era também generosa, engraçada e tão leal que seria
capaz de brigar com o gerente do banco por causa do erro na fatura da amiga — e já fizera
isso, inclusive.
Tudo ia bem (dentro do caos que era sua organização) até que um professor muito querido do
departamento ficou doente e não poderia acompanhar os grupos do trabalho de conclusão em
Física Aplicada. Para “ajudar” os grupos de alunos, o coordenador sugeriu que cada um
recebesse um tutor de apoio — e foi assim que Lorena conheceu o professor Álvaro
Fernandes.
Álvaro tinha 35 anos, barba bem feita, óculos discretos e um senso de humor que só aparecia
depois da segunda conversa. Era daqueles que tomava café sem açúcar e lia livros de mil
páginas nas férias. Ele era professor de física teórica, mas seu olhar era quase sempre prático:
não tinha paciência para firulas, adorava o silêncio e acreditava que se todo mundo se
esforçasse um pouco mais, o mundo seria bem mais simples.
Quando Lorena entrou na sala dele com uma saia plissada cor de lavanda, um fichário florido e
um copo de cappuccino do tamanho de um extintor, Álvaro achou que fosse uma pegadinha.
— Você é o professor Álvaro? — ela perguntou, ajeitando o cabelo.
— Sou. E você é…?
— Lorena. Mas pode me chamar de Lô. Não precisa formalidade, somos praticamente uma
dupla agora, né?
— Isso é um trabalho técnico. Não um reality show — respondeu, sem tirar os olhos do
computador.
Mas Lô era do tipo que fazia até as plantas sorrirem. Em duas reuniões, já estava chamando
Álvaro de “prof” e levando croissants para os encontros (“Porque ninguém pensa direito de
estômago vazio, prof!”). Ele, a contragosto, passou a guardar uma xícara extra no armário só
pra ela.
No começo, achava-a insuportável. Depois, instigante. Depois, engraçada. E, quando percebeu
que ela realmente tentava aprender, mesmo se enrolando toda, começou a admirá-la. Lorena,
por sua vez, descobriu que aquele homem sério escondia comentários sarcásticos geniais, e
que seu olhar ficava meio torto quando ele explicava algo com paixão.
Um dia, ao fim de uma explicação sobre partículas e ondas, Lorena soltou:
— Você fala dessas coisas como se fossem poesia. Se física fosse sempre assim, eu teria me
apaixonado antes.
Álvaro, que não era de se desconcentrar, ficou em silêncio por uns bons segundos. Depois
murmurou:
— Talvez não seja a física que esteja te encantando.
Ela sorriu, os olhos brilhando como se soubesse de algo que ele ainda estava tentando
entender.