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Estigma da AIDS e Desemprego: Impactos na Saúde

O estudo analisa como a estigmatização e discriminação no ambiente de trabalho afetam a saúde e o bem-estar de homens vivendo com HIV/Aids. Os resultados mostram que a necessidade de ausências frequentes para tratamento pode levar a demissões e dificuldades de emprego, exacerbando o estigma. A pesquisa conclui que é essencial planejar assistência que considere as necessidades dos pacientes, visando mitigar os efeitos do estigma e discriminação.
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Estigma da AIDS e Desemprego: Impactos na Saúde

O estudo analisa como a estigmatização e discriminação no ambiente de trabalho afetam a saúde e o bem-estar de homens vivendo com HIV/Aids. Os resultados mostram que a necessidade de ausências frequentes para tratamento pode levar a demissões e dificuldades de emprego, exacerbando o estigma. A pesquisa conclui que é essencial planejar assistência que considere as necessidades dos pacientes, visando mitigar os efeitos do estigma e discriminação.
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Rev Saúde Pública 2007;41(Supl.

2):72-9

Pedro B. GarridoI
Aids, estigma e desemprego:
Vera PaivaI

Vanda L. V. do NascimentoII
implicações para os serviços de
João B. SousaIII saúde
Naila J. S. SantosIII

AIDS, stigma and unemployment:


implications for health services

RESUMO

OBJETIVO: Analisar o efeito do processo de estigmatização e discriminação


no ambiente de trabalho sobre os cuidados cotidianos à saúde e o bem-estar de
homens vivendo com HIV/Aids.
MÉTODOS: Estudo qualitativo com 17 homens vivendo com HIV, realizado em
2002. Foram estudados os depoimentos em grupo para discutir as dificuldades
sobre discriminação no ambiente de trabalho, utilizando análise das práticas
discursivas. O grupo, proveniente de centro especializado em HIV/Aids da
cidade de São Paulo, representou segmento de pesquisa anterior.
RESULTADOS: O debate entre os participantes indicou que o tratamento
anti-retroviral exige idas freqüentes aos serviços de assistência médica, que
implicam em faltas ou atrasos no trabalho. A apresentação de atestados médicos
para justificar ausência no trabalho, mesmo sem indicar Aids, pode resultar em
demissão. Desempregados, muitos são barrados nos exames médicos e têm o
direito ao sigilo de sua condição violado. Como último recurso, o pedido de
aposentadoria implica em cenas de humilhação ou discriminação na perícia
médica.
CONCLUSÕES: A assistência planejada com o envolvimento dos pacientes
consegue ampliar a atenção psicossocial e considerar as necessidades do
paciente trabalhador ou desempregado, reconhecendo que o estigma limita o
I
Núcleo de Estudos para a Prevenção da
cuidado, afetando a saúde mental e a evolução da infecção. Mitigar o efeito do
AIDS. Instituto de Psicologia. Universidade estigma e da discriminação requer articulação política intersetorial e contribuirá
de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil para atingir metas globalmente reconhecidas como fundamentais para o controle
II
da epidemia.
Centro Universitário Capital. São Paulo, SP,
Brasil
DESCRITORES: Homens. Síndrome de imunodeficiência adquirida,
psicologia. Trabalhadores. Satisfação no emprego. Desemprego.
III
Centro de Referência e Treinamento DST/
AIDS-SP. Secretaria da Saúde do Estado de
São Paulo. São Paulo, SP, Brasil Preconceito. Carência psicossocial. Saúde do trabalhador.

Correspondência | Correspondence:
Vera Paiva
Instituto de Psicologia da Universidade São
Paulo
Av. Prof. Mello Moraes, 1721
05508-030 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: veroca@[Link]

Recebido: 8/8/2006
Revisado: 13/2/2007
Aprovado: 14/7/2007
Rev Saúde Pública 2007;41(Supl. 2):72-9 73

ABSTRACT

OBJECTIVE: To analyze the effect of the stigmatization and discrimination


process in the work environment on the routine healthcare and well-being of
men living with HIV/AIDS.
METHODS: Qualitative study with 17 men living with HIV, conducted in
2002. Testimonies given in a group to discuss the difficulties concerning
discrimination in the work environment were studied, by means of discursive
practice analysis. The group, originating from a specialized center for HIV/
AIDS treatment in the city of São Paulo, represented a segment of previous
research.
RESULTS: The discussion among participants pointed out the fact that
antiretroviral treatment requires frequent visits to medical assistance services,
resulting in absences and delays at work. To show medical certificates to
justify absences at work, even without indicating AIDS, can lead to dismissal.
Unemployed, many are barred during medical examinations and have their right
to confidentiality violated. As a last resource, the request for retirement results
in a humiliating or discriminatory scene during the medical inspection.
CONCLUSIONS: Assistance planned with the patients’ participation enables
the broadening of psychosocial attention and the consideration of the needs of
both employed and unemployed patients, acknowledging that the stigma limits
care, affecting mental health and the evolution of infection. To reduce the effect
of stigma and discrimination is something that requires intersectoral political
articulation and will contribute to reach goals that are globally recognized as
fundamental to control the epidemic.

KEY WORDS: Men. Acquired immunodeficiency syndrome,


psychology. Workers. Job satisfaction. Unemployment. Prejudice.
Psychosocial deprivation. Occupational health.

INTRODUÇÃO

O estigma é uma situação comum a doenças infec- Goffman4 definiu estigma como um significativo des-
ciosas ou mentais, com implicações reconhecidas em crédito atribuído a uma pessoa com uma diferença inde-
várias áreas da saúde pública.5,8,16 No caso da Aids, sejável e indicou que o estigma é um poderoso signo de
uma série de metáforas tem reforçado e legitimado controle social usado para marginalizar e desumanizar
processos de estigmatização tanto das “vítimas” como indivíduos que apresentam certos traços desvalorizados.
dos “culpados” pela expansão da pandemia em todo o Os portadores desses traços podem ser “desacreditados”
mundo.2,6,10 Associa-se o HIV/Aids com morte iminente, imediatamente, quando na vida cotidiana essas marcas
comportamentos imorais merecedores de punição, com desvalorizadas estão visíveis; ou “desacreditáveis”,
a guerra necessária para deter a expansão do vírus.6,12 quando não estão imediatamente visíveis, mas podem
Os estereótipos fundamentaram numerosas respostas so- ser denunciadas, reveladas ou descobertas.
ciais e programáticas estigmatizantes e têm contribuído
para que as pessoas não reconheçam as situações que as Mais recentemente, Jacoby5 identificou duas dimensões
expõem à infecção para não se identificarem com rótulos da experiência do estigma ao estudar pessoas com epi-
desvalorizados e vergonhosos.6,10,* Mitigar o impacto lepsia. O “estigma sentido” (felt stigma) faz com que
do estigma e da discriminação relacionados à Aids é as pessoas limitem desnecessariamente seu cotidiano
uma das metas transversais a todos os setores dedicados buscando o isolamento, por exemplo, com medo da
ao controle da epidemia e a melhorar a assistência aos discriminação. O “estigma efetivado” (enacted stigma)
afetados, objetivo transversal do compromisso sobre se refere à experiência real de discriminação, quando a
HIV/Aids assumido pela Assembléia da Organização exclusão em função do estigma já ocorreu, resultando
das Nações Unidas (UNGASS).7,11 em violação de direitos e implicando ostracismo social.

* Nascimento VLV. Práticas sociais em situação de discriminação no cenário da Aids: sobre direitos, demandas e encaminhamentos [tese de
doutorado] São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2007.
74 HIV/Aids, estigma e desemprego Garrido PB et al.

No caso da Aids, Parker & Aggleton12 discutiram como O estudo foi aprovado pelos comitês de ética das
no processo de estigmatização das pessoas vivendo instituições envolvidas. Os nomes dos participantes
com HIV somam-se atributos desvalorizáveis e desa- são fictícios.
creditáveis que já as desqualificavam como portadores
de direitos antes da infecção – como ser trabalhador do ANÁLISE DOS RESULTADOS
sexo, negro, homossexual ou desempregado. O estigma
e a discriminação associados à Aids frequentemente Os 17 participantes na etapa de seguimento expressaram
reforçam, portanto, a ordem social que mantém dife- a diversidade do perfil de todos os 125 indivíduos en-
renças e desigualdades sociais pré-existentes como as trevistados na primeira etapa do estudo naquele centro
produzidas pelo sexismo ou pelo racismo. especializado: hetero ou bissexuais, usuários ou não
de drogas, homens com ou sem filhos, empregados ou
Questiona-se como as pessoas vivendo com HIV lidam
desempregados, aposentados ou com benefícios (au-
com o estigma e a discriminação associados à Aids, e
xílio-doença), em diferentes faixas etárias. Os partici-
como os serviços de saúde podem apoiá-las para lidar pantes conversaram sobre as dificuldades de conseguir
com a discriminação e evitar que a estigmatização emprego e mantê-lo, e o tema da discriminação emergiu
seja um obstáculo ao seu bem-estar e ao acesso ao como articulador da discussão. A discriminação foi
cuidado. Assim, o objetivo do presente artigo foi des- entendida como obstáculo importante para o bem-estar
crever como os efeitos do processo de estigmatização dos participantes, que afeta sua identidade masculina,
e discriminação no ambiente de trabalho afetam o com implicações para a saúde pouco consideradas no
bem-estar e os cuidados à saúde de homens vivendo planejamento da assistência.
com HIV/Aids.
A Tabela mostra a caracterização dos homens em
relação a sua situação de trabalho, na forma como
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
a nomearam. Dos 17 participantes do grupo, quatro
O estudo constituiu a segunda etapa de uma pesquisa declararam que foram demitidos e cinco se demitiram
quali-quantitativa para descrever como homens vivendo por serem soropositivos. Alguns estão em mais de uma
com Aids e que fazem sexo com mulheres percebem o categoria, o que caracteriza a vulnerabilidade desse
cuidado à sua saúde e realizam o auto-cuidado, espe- grupo ao estigma efetivado (discriminação), resultante
cialmente no campo da saúde sexual e reprodutiva. Na do processo de estigmatização.
primeira etapa da pesquisa,3,10 uma amostra consecutiva
Os participantes descreveram de que forma o cuidado
de pacientes de dois centros especializados em HIV/
com a saúde inerente à condição soropositiva causa
Aids da cidade de São Paulo foi convidada a participar
faltas ou atrasos no trabalho. A apresentação dos ates-
de uma entrevista com base em questionário com per-
tados no emprego, mesmo sem indicar “Aids”, marcava
guntas abertas e fechadas, segundo a ordem de chegada
o início de um processo de visibilidade da condição de
aos serviços para consulta com infectologista.
portador e da sua estigmatização, afetando sua condição
Os critérios de inclusão foram: ser do sexo masculino, de funcionário “normal”, palavra recorrente nas conver-
apresentar boas condições de saúde física e mental, ter sas do grupo. “Normal” era o que todos os participantes
18 anos de idade ou mais e manter contato sexual com desejariam ser na empresa em que trabalhavam. Artur
mulheres. Em todos os centros estudados, todos os en- descreveu a diferença entre o funcionário soropositivo
trevistados foram convidados a participar da segunda e o funcionário normal:
etapa de seguimento, segundo os mesmos critérios. Os “Eu acho que o pior (...) pra quem quer trabalhar como
homens que compareceram à primera reunião levanta- nós é que vai ter que se ausentar no emprego muito mais
ram temas para discussão nas sessões de grupos cujo vezes do que um funcionário ‘normal’. Isso que eu acho
objetivo era, ao mesmo tempo, apoiá-los como sujeitos que acaba acarretando problemas profissionais. Você
dos cuidados à saúde. Os temas indicados pelos parti- arruma um emprego, aí, um dia você chega mais tarde
cipantes foram: o desejo e a possibilidade de ter filhos; porque caiu o CD4 [exame de imunidade], noutro dia
trabalho, dificuldades enfrentadas para conseguir e se você sai mais cedo (...)”.
manter no emprego; dificuldades em manter ou iniciar
relacionamentos amorosos e sexo seguro; preconcei- No momento em que um aspecto “desacreditável” se
to. As sessões de grupo se desenvolveram por duas torna visível, o estigmatizado se arrisca a perder direitos
horas, no formato de grupo focal, auxiliado por dois – o direito aos cuidados com a saúde ou o direito de
pesquisadores, coordenada por um psicólogo, gravada trabalhar. Nesse momento do processo, o chefe nas ce-
e transcrita. nas descritas parecia “desconfiando” ou “desconfiado”,
como sugerem as falas dos participantes:
Optou-se pela análise das práticas discursivas,14 que
pretende compreender a linguagem em uso entendida “Eu trabalhava numa agência de segurança e eu pega-
como prática social. va muita febre à noite. Então, o gerente de lá começou
Rev Saúde Pública 2007;41(Supl. 2):72-9 75

Tabela. Situação trabalhista dos 17 homens participantes de um grupo de apoio em um ambulatório de DST/Aids. Município
de São Paulo, 2002.
Participante Aposentadoria/auxílio-doença Atual relação com o trabalho Por ser portador: foi demitido/ demitiu-se
Artur Aposentadoria por invalidez Camelô -
Léo Processando auxílio-doença Desempregado -
Paulo Aposentadoria por invalidez Radialista Foi demitido
Jorge Não falou a respeito Não falou a respeito Não falou a respeito
José Aposentadoria por invalidez -
Felipe Auxílio-doença - Demitiu-se
Matias Aposentadoria por invalidez - -
Luis Aposentadoria por invalidez - Demitiu-se
Manoel Aposentadoria por invalidez Vendedor Foi demitido
Djé Aposentadoria por invalidez Desempregado Foi demitido
Beto Aposentadoria por invalidez - Demitiu-se
Marco Processando auxílio-doença Desempregado Demitiu-se
Daniel Aposentadoria por invalidez Técnico em informática Demitiu-se
Nelson - Desempregado Foi demitido
Souza - Vendedor -
Lima Aposentadoria por idade - -
Inácio Auxílio-doença - Demitiu-se

a ‘desconfiar’. Um dia perguntou por que eu tinha tá sendo discriminado, mas o cara num fala, você tá
tanta febre à noite. Eu falei ‘não sei’. Ele já tava meio indo embora por conta disso. E é uma questão muito
‘desconfiando’. Foi aí, eu pedi as contas, saí, logo em delicada. Eu sei que isso aconteceu, por quê? Porque
seguida.” (Luís) eu não tive promoção, a minha bolsa foi, por pouco, foi
recusada. (...) E até a forma dele se dirigir a mim era
“Na última empresa que eu trabalhei, trabalhei doze diferente. Eu falei, ‘Como é que eu vou provar isso?’
anos. Como eu tinha uma vez por mês consulta aqui, (...) eu precisaria de duas testemunhas, mas como
chegou uma hora que o meu gerente começou a me eu não tornei isso público, eu não tinha testemunhas
questionar porque eu tinha tanto atestado. Porque ele (...) Discriminação, você sabe que é muito difícil você
já tava ‘desconfiado’ (...) Porque que ele começou a conseguir provar. Então, às vezes, a empresa acaba
implicar só com os meus [atestados]?”(Paulo) ganhando. Ela te manda embora e é a palavra dela
contra a sua (...) Se você não contou pra ninguém da
A partir da desconfiança, se caminha do invisível ao vi- empresa e a empresa não sabe (...) Não tem como você
sível (de desacreditável à condição de desacreditado),4,5 arrumar testemunha.”(Paulo)
para a estigmatização e a discriminação (por exemplo,
ao desemprego). A necessidade de manter invisível Quando se é obrigado ao “encobrimento” e ao “aco-
uma informação deixa pistas que provocam a descon- bertamento”, como definiu Goffman,4 não se garan-
fiança. Para garantir o direito à privacidade e ao sigilo tem testemunhas.*,** Ao mesmo tempo, o processo
em relação à condição soropositiva, o portador precisa de estigmatização compõe a sinergia de estigmas,
desenvolver habilidade na interação social. como descreveram Parker & Aggleton.12 Luís é negro
e comentou em seguida: “Discriminação é como o
Paulo sentiu que não tinha como provar que foi demi- preconceito racial: existe, mas é tudo oculto”. Artur
tido por discriminação. Tentou processar legalmente relatou a dispensa do trabalho também em função do
a empresa que o demitiu e constatou a necessidade de estigma de ex-presidiário.
testemunhas.
A decisão de “contar” ou “não contar” é vivida en-
“Acho que a discriminação é uma coisa que, na quanto se elabora o medo da discriminação, como
maioria das vezes, não é explícita. Você sabe que você esclareceu Manoel:

* Abbade ACS. Questões do direito do trabalho e do direito previdenciário no contexto da AIDS. In: Ministério da Saúde. Coordenação
Nacional de DST e Aids. O outro como um semelhante: direitos humanos e AIDS. Brasília; Secretaria de Políticas de Saúde. Coordenação
Nacional de DST e Aids; 2002. p. 93-108.
** Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Coordenação Nacional de DST e Aids. Diretrizes dos Centros de Testagem e
Aconselhamento (CTA): Manual. Brasília (DF); 1999
76 HIV/Aids, estigma e desemprego Garrido PB et al.

“Em 89, eu fiquei sabendo dessa doença, né. Daí, eu Artur: “A pessoa (...) procura emprego, procura em-
ia levando sem falar, não quis falar pros meus colegas, prego, não acha. Aí (...) vou tentar me aposentar. Mas
fiquei com medo de ser discriminado. (...) E o chefe a burocracia para chegar a ser aposentado é grande,
começou a reclamar que eu faltava muito”. é grande. Eu consegui a aposentadoria, graças a Deus,
eu tinha muito tempo de registro. Mas eu fiz um monte
As alternativas nessas situações seriam afastar-se do tra- de perícia, passei por um monte de coisa pra conseguir
balho, aposentar-se ou procurar outro emprego. No diá- a aposentadoria.”
logo que se segue nomearam o direito de trabalhar:
Marco: “Tô tentando aposentadoria.”
Manoel: “Você vai preencher uma ficha, você tem lá:
‘você tem alguma doença grave?’. Você vai mentir?” Felipe: “Tem outra coisa... pra entrar no INSS, a gente
tem que mentir, porque, se a gente for com uma boa
Paulo: “Não. Se você quiser trabalhar, você fala
aparência, for bem arrumado, a gente não consegue
‘tenho’.”
nunca.”.
Manoel: “Aí, você já sabe o que vai acontecer.”
Artur: “Até cair na cara do médico, eu caí (...) Fingi
Paulo: “Mas isso te tira o direito de poder trabalhar? que tava passando mal e tudo.”
Sabe, nem todo mundo que tá num estado de invalidez
tá necessariamente inválido.” Souza: “Eu comecei a conviver com as pessoas que
freqüentavam aqui. (...) Antigamente, eu só falava com
Léo passou por um processo de seleção e foi dispensado as pessoas que estavam em melhor estado, queria saber
após o exame médico. Ele desconfia que o direito à o que elas comiam, o que elas faziam. Eu aprendi muito
privacidade e ao sigilo sobre sua condição não foram (...) e continuei trabalhando. Então, me mandaram
respeitados conforme normas do Ministério da Saúde.* embora. Por que eu não notifiquei a empresa? Hoje eu
Mais tarde, abandonou o processo seletivo quando no- me arrependo amargamente. Porque eu pensei assim: é
tou que seria testado, concordando com Paulo, que co- uma faca de gumes, quer dizer, se eu for pro auxílio-do-
mentou que não quis “passar por essa humilhação”. ença, com a idade que eu tenho, vai ser o meu atestado
de exclusão do mercado de trabalho.”
Na Tabela nota-se que cinco participantes declararam
que trabalhavam na ocasião na entrevista. Daniel era Nelson: “Ah, mexe com a pessoa. Porque, tipo assim,
autônomo e ficou dois anos sem trabalhar após desco- eu tenho muito que fazer pela frente ainda... Eu vou
brir o diagnóstico e estava “voltando aos poucos”. Artur querer procurar um serviço, eu vou querer fazer alguma
e Manoel estavam aposentados e buscaram no trabalho coisa. A minha única saída é me aposentar por quê?(...)
informal uma saída para a condição de “invalidez”. Se a pessoa teve uma discriminação comigo por eu ser
soropositivo, a minha única saída é me aposentar?”
“Eu tô aposentado. Eu tô e não tô, que eu tenho uma
barraquinha lá, mas, tipo assim, eu não posso ficar dire- A oportunidade de compartilhar experiências com
to. Porque eu faço outras coisas, eu tenho que cuidar da outros pacientes pode ajudá-los a não se identificar
minha saúde, eu tenho médico, eu tenho...” (Artur) como inválidos ou a reagir aos processos de estigma-
tização que resultam em discriminação.2,9,15 Ao longo
“(...) eu trabalho como vendedor (...) O tipo de apo-
dos encontros em grupo, entretanto, os homens bis-
sentadoria por invalidez não permite a gente trabalhar
sexuais e heterossexuais participantes declararam-se
pela lei, né, registrado. Então, trabalho como autôno-
pouco confortáveis em grupos de apoio existentes em
mo, mas sem registro, sem nada...” (Manoel)
serviços e organizações não-governamentais, bastante
Dos 17 participantes, dez estavam aposentados (nove freqüentados por ativistas do movimento homossexual
por invalidez) e três com auxílio doença. O auxílio com quem nem sempre se identificam ou gostariam de
doença ou a aposentadoria por invalidez é uma saída ser identificados.15
conflitante e soma à sinergia de estigmas uma dimensão
especialmente delicada para a auto-estima. A identi- “Se você falou que é soropositivo, a pessoa já olha
dade social masculina valoriza o trabalhar fora e ser pra você como perda total, um carro que bateu e deu
provedor da família. Aposentar-se pode ser o último perda total, entendeu?!...você vai numa entrevista de
recurso e um “atestado de exclusão” como se vê no trabalho (...) ‘ah, você tem alguma coisa?’. ‘Ah, eu sou
diálogo a seguir: diabético’. Você pode ser até tolerado. Agora, fala que
é soropositivo... entendeu? Porque gera na cabeça das
Beto: “Se o perito não aposenta, o tempo vai pas- pessoas: ou é homossexual, ou é promíscuo, saiu com
sando, ele vai retornar ao trabalho, a empresa não São Paulo inteira, entendeu? É um problema.... por
aceita ele.” isso que eu fiquei na dúvida: eu conto ou não conto?

* Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Coordenação Nacional de DST e Aids. Diretrizes dos Centros de Testagem e
Aconselhamento (CTA): Manual. Brasília (DF); 1999
Rev Saúde Pública 2007;41(Supl. 2):72-9 77

Porque você acaba se sentindo um impotente. Porque “Eles deviam ter feito uma lei específica para HIV, não
se você revela a sua sorologia, as pessoas já te excluem, deficiente físico, deficiente imunológico. Uma coisa
já caem no prejulgue ‘Ah, coitado! Olha, é uma doen- específica.” (Daniel)
ça crônica e degenerativa, não tem cura, vai morrer
amanhã. Tá com o pé na cova’”. (Beto) Entretanto, nem todos os participantes do grupo anali-
sado foram discriminados no trabalho. Beto descreveu
Os entrevistados se sentiam humilhados com o sistema como o estigma associado ao HIV o afetava na vida
nacional de seguro social, ou se humilhavam drama- cotidiana, mas foi apoiado pela empresa onde traba-
tizando uma fragilidade maior que a real, seguindo lhava, não perdeu o direito ao trabalho e ao cuidado
a “carreira moral” compartilhada por vários grupos com a saúde:
estigmatizados,4 sofrendo o impacto psicossocial da
“escolha” da aposentadoria “por invalidez”, que foi “No meu caso, foi o oposto do que o pessoal tá co-
discutida longamente pelo grupo. Alguns deles passa- locando. Eu, ao contrário, a empresa me deu total
ram fases de adoecimento que os incapacitou para o liberdade para ir trabalhando. Quando me descobri
trabalho; outros decidiram “manipular o estigma” ou soropositivo, eu caí em depressão profunda e me senti
utilizar “sua desvantagem como base para reorganizar incapaz de dar oportunidade pro meu trabalho na área
sua vida, mas para consegui-lo devem resignar-se a de RH. A empresa falou: ‘você pode chegar a hora
viver num mundo incompleto”, como descreveu Gof- que você quiser, sair a hora que você quiser, você tem
fman (1980, pag. 30).4 carta branca’.”

A atribuição de incapacidade associada à invalidez não O depoimento de Beto mostra que os participantes do
foi percebida como adequada. presente estudo não tiveram acolhimento adequado
por despreparo das empresas onde trabalhavam. Rele-
“Não pelo fato de eu ser soropositivo (...) Se eu posso vantes para o domínio mais institucional, Brown et al2
trabalhar, se eu tenho força, se eu tenho ânimo, posso indicaram quatro tipos de intervenções com impacto na
tá produzindo, por que não? Eu ser aposentado assim redução do estigma do HIV/Aids: 1) uso de material
do nada assim... Realmente, esse negócio de invalidez educativo para diminuir a rejeição aos portadores e
é um negócio pra quem não tem disposição nenhuma aumentar o acolhimento na comunidade; 2) role-playing
mesmo. Então, acho que mexe bastante com a pessoa. para a construção de habilidades para lidar com o medo
Se eu sou capaz, se eu posso (...)” (Nelson) e ansiedade em atividades de grupo; 3) aconselhamento
“O médico ‘você foi, segundo a lei, não sei o que lá, foi em grupo ou individual para apoiar comportamentos
concedida a sua aposentadoria por invalidez’, foi um não-estigmatizantes; 4) estimular a interação com
tranco. Sabe, nem todo mundo que tá num estado de pessoas vivendo com HIV. Iniciativas de trabalho em
invalidez tá necessariamente inválido Quando eu recebi empresas públicas e privadas com base nessa aborda-
a aposentadoria, eu não esperava ser aposentado ‘por gem ou como as que têm sido iniciadas pelo Programa
invalidez’. Eu pensei: ‘mas eu não tô inválido!’ Como Nacional de DST/Aids11 devem ser estimuladas. Terto
se tivessem falado ‘olha, você tá cego’ e eu dissesse Jr14 alerta para a importância da ampliação de políticas
‘não, mas eu tô enxergando!’ Acho que o que define empresariais e governamentais que possibilitem ao por-
a coisa da invalidez é uma coisa que ele falou duas tador e à sua família os devidos cuidados à saúde sem
vezes aqui: você se sente excluído, injustiçado, né, e que sejam discriminados. Ressalta que o empregador
improdutivo. (...) Vamos imaginar que nós não somos pode ganhar ao promover um ambiente de trabalho
soropositivos aqui e a gente vê a palavra deficiente saudável, fortalecer a imagem positiva da empresa,
físico. (...) O mercado, hoje, oferece uma oportunidade evitar litígios judiciais e participar do esforço mundial
pra essa classe [deficiente físico]. Eu tô excluído ou de prevenção da Aids, cumprindo um importante papel
eu tô incluído nessa classe dos deficientes físicos? (...) de responsabilidade social no esforço de mitigar a es-
Quer dizer, na verdade, a gente tá excluído, mas não tigmatização das pessoas vivendo com HIV.
tá incluído nem como deficiente físico, a gente não tá
Estudos com pessoas vivendo HIV/Aids no Bra-
em lugar nenhum.” (Paulo)
sil1,9,10,15,*,** descreveram como o impacto psicossocial do
(...) Porque eu não me sinto aleijado em nenhuma estigma em outras interações (com familiares, amigos,
perna, em nenhum braço. (...) Então, eu acho esquisito vizinhos e parceiros amorosos) implica em encobrimen-
um pensamento assim, né. Então, me sinto uma vítima to, isolamento e depressão. Com medo do mau-trato e
de sorte, porque sou considerado inválido, mas um da rejeição, essas pessoas avaliam em cada contexto
inválido, assim, que tem uma agilidade como se fosse intersubjetivo a possibilidade de ser ou não discrimina-
uma pessoa normal. (Manoel) do. Por outro lado, nos estudos com mulheres vivendo

* Nascimento VLV. Contar ou não contar: a revelação do diagnóstico pelas pessoas com HIV/Aids [dissertação de mestrado]. São Paulo:
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2002.
** Nascimento VLV. Práticas sociais em situação de discriminação no cenário da Aids: sobre direitos, demandas e encaminhamentos [tese de
doutorado] São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2007.
78 HIV/Aids, estigma e desemprego Garrido PB et al.

com HIV9,10 a dinâmica familiar e os filhos parecem freqüentes no ambiente de trabalho. A reorganização
organizar mais fortemente sua preocupação com a do agendamento das consultas e exames de forma a
estigmatização e discriminação que o trabalho fora de não prejudicar os trabalhadores seria uma contribui-
casa. No caso dos homens, o tema da “invalidez” deu ção específica dos serviços de saúde. Entretanto, os
sentido forte à humilhação e ao sofrimento psíquico resultados do presente estudo reforçam necessidade
resultante da estigmatização. de respostas intersetoriais, ou seja, de atingir outros
setores, como o sistema nacional de seguro social, ou
CONSIDERAÇÕES FINAIS organizar intervenções no campo da desconstrução
cultural do estigma.
O presente estudo confirmou a importância da dis-
criminação de pessoas vivendo com HIV no mundo A capacidade pessoal de resistir ao processo de estig-
do trabalho descrita nas experiências de um grupo de matização e discriminação pode ser estimulada com
homens que são pacientes de um centro de referência a participação dos pacientes em grupos de apoio e
de DST/Aids, indicando implicações importantes para compartilhamento. Planejar a assistência com o envol-
os serviços públicos que lidam com o adoecimento. vimento de cada paciente permitiria identificar como
os serviços podem contribuir para mitigar o efeito da
O processo de estigmatização pode se iniciar com as discriminação nas especificidades do cotidiano de cada
necessidades do tratamento anti-retroviral, que exige um, melhorando a qualidade da atenção psicossocial.
muitas consultas, faltas ou atrasos no trabalho. Atual-
mente, tais necessidades são mais comuns do que na Diminuir o impacto da estigmatização depende também
primeira década da epidemia, quando o adoecimento de ações no plano legal. Abbade** relata situações de
resultava rapidamente em óbito. Essas situações for- dispensa arbitrária de trabalhadores com suspeita ou
çam a revelação do diagnóstico e a estigmatização com HIV, exigência (ilegal) de exames anti-HIV no
associadas à Aids seguida da discriminação. Muitos período admissional ou periodicamente, que têm sido
não suportaram a pressão (ou “humilhação”) e se coibidas por ações judiciais. Negociações entre as partes
demitiram, outros foram demitidos. Ao longo do têm garantido a reintegração do trabalhador e indeni-
debate dos participantes notou-se que o sigilo sobre zações. Deve-se, portanto, ampliar as ações articuladas
sua condição, direito assegurado ao portador, pode com a mídia, com secretarias da justiça, do trabalho, e
ser violado no exame admissional, contrariando nor- com entidades que defendem direitos de trabalhadores
mas do Ministério da Saúde e Lei do Estado de São e/ou das pessoas vivendo com HIV visando discutir
Paulo.* A aposentadoria por invalidez pode ser uma normas que considerem a especificidade das limitações
restrição desnecessária, uma saída para o estigma de associadas ao HIV resultantes do processo de estigma-
desempregado que soma ao conjunto de atributos asso- tização e não somente da infecção. A estigmatização é
ciados à Aids a desacreditada invalidez, com impacto um processo social que desempenha um papel chave
emocional importante. na ampliação da desigualdade e legitima a violação dos
direitos humanos das pessoas vivendo com HIV, com
A análise qualitativa do processo do grupo descreveu
repercussões sobre sua integridade e bem-estar. Tanto
algumas das experiências do viver com HIV. Novos
os serviços de atenção especializada em Aids, como os
estudos que estimem a prevalência e fatores associados
de perícia médica para aposentadoria, devem reconhecer
a esses tipos de experiência são indicados.
o impacto do estigma na evolução da infecção (quando
O desafio mais imediato é estimular intervenções impede o cuidado) ou para a saúde mental, especialmen-
efetivas iniciadas no sistema de saúde para diminuir o te quando criam situações desnecessárias de humilhação
efeito do estigma e da discriminação, reconhecidamente ou discriminação – como no caso do desemprego.

* Ministério da Saúde. Coordenação Nacional de DST e Aids. Legislação Brasileira sobre DST e aids. [Link]
[Link] [2007 maio 28]
** Abbade ACS. Questões do direito do trabalho e do direito previdenciário no contexto da AIDS. In: Ministério da Saúde. Coordenação
Nacional de DST e Aids. O outro como um semelhante: direitos humanos e AIDS. Brasília; Secretaria de Políticas de Saúde. Coordenação
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PB Garrido foi apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp – Processo 02/04196-2; bolsa de iniciação científica).
V Paiva foi apoiada pelo Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico e tecnológico (CNPq – Processo
30044448/01-5; produtividade em pesquisa)

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