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Interpretação e Contextualização de Textos

O documento explora a noção de texto, destacando a importância da interação entre leitor, texto e autor na construção de sentido. Ele aborda a interpretação textual como um processo ativo que vai além da decodificação, enfatizando a necessidade de conhecimentos linguísticos, enciclopédicos e interacionais. Além disso, discute fatores de contextualização e textualidade que influenciam a coerência e coesão dos textos.

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Interpretação e Contextualização de Textos

O documento explora a noção de texto, destacando a importância da interação entre leitor, texto e autor na construção de sentido. Ele aborda a interpretação textual como um processo ativo que vai além da decodificação, enfatizando a necessidade de conhecimentos linguísticos, enciclopédicos e interacionais. Além disso, discute fatores de contextualização e textualidade que influenciam a coerência e coesão dos textos.

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Interpretação de texto

-> MÓDULO 01/A - Noção de Texto

De acordo com o linguista Luiz Antônio Marcuschi, o ato de ler exige


três elementos: habilidade, interação e trabalho. Isso significa que o
leitor tem um papel ativo na construção do sentido do texto.
Então, para compreender o que é realmente o ato de ler, é preciso
considerarmos a relação que existe entre leitor, texto e autor no
momento da leitura.

Mas, antes, é preciso refletir: o que é texto?

Foi só lá pelo século XIV que a evolução semântica da palavra atingiu o sentido de
“tecelagem ou estruturação de palavras", ou ‘composição literária', e passou a ser
usado em
inglês, proveniente do francês antigo texte.

Conforme
afirma Beaugrande “O texto é um evento comunicativo em
que convergem ações lingüísticas, sociais e cognitivas.”

Seu conceito parece ser muito amplo, pois há textos verbais e não-verbais, com
características muito distintas: um artigo, uma reportagem, uma peça publicitária
ou uma imagem são exemplos de textos. Afinal, o que todas essas manifestações
possuem em comum, para que possam ser consideradas sob o mesmo conceito?
O que as reúne sob a definição de texto é o fato de constituírem uma unidade de
sentido, que se caracteriza por um conjunto de relações responsáveis pela sua
composição, independentemente de sua extensão e de sua linguagem.
O texto não é, portanto, composto apenas dos elementos linguísticos formais,
como um conjunto de regras fixas ali presentes para serem decodificadas pelo
leitor.
O texto, na realidade, vai além da sua materialidade, pois considera as relações
existentes entre os indivíduos, consistindo, portanto, em um ato de comunicação.

Há, dessa forma, dois planos de relações a serem considerados na leitura:

• a articulação dos elementos no interior do texto, para


a compreensão de sua materialidade;
• as relações contextuais, estabelecidas com elementos
exteriores ao texto.

Nesse sentido, o texto não é um produto pronto que o leitor apenas recebe, mas sim
um fenômeno, ou seja, um acontecimento
em transformação. Isso porque a existência do texto não se baseia apenas no fato de
estar produzido materialmente,
mas no depender de alguém que faça sua leitura em algum contexto.

Assim, para fazer a interpretação de um texto, o leitor deve buscar trazer


à tona informações que, mesmo não estando expressas na materialidade
do texto, são fundamentais para efetivar o trabalho de interpretação.
Isso porque a interação social e discursiva é parte relevante da
composição do texto e deve ser considerada no momento da leitura.
Desse modo, pode-se compreender que os sentidos de um texto
não são estáticos, pois não chegam prontos e previamente definidos
na materialidade do texto. Para que o sentido seja construído,
é necessário que o leitor empreenda realmente um trabalho
para descobrir as possibilidades de interpretação.

Considerando o texto como fenômeno em movimento, pode-se apontar três elementos que
o leitor deve ativar para sua leitura
e interpretação, de acordo com a linguista Ingedore Koch: os conhecimentos
linguístico, enciclopédico e interacional.
Vejamos em que consiste cada um deles:

Conhecimentos linguístico:
Está relacionado com uma bagagem
presente na memória individual
que conta com as experiências
pessoais e os conhecimentos
gerais do leitor. Assim, quanto
mais leituras realizarmos, mais
esse conhecimento será acionado
no momento de uma interpretação.
O contato com diversos textos
amplia a receptividade e faz com que
perceba mais elementos do mundo.

Enciclopédico:
Se relaciona com os aspectos
formais da materialidade do texto,
ou seja, diz respeito à seleção
e à organização dos elementos
gramaticais e lexicais – ou, no
caso de uma imagem, à seleção e
à organização de formas e cores –
para a compreensão dos elementos
no interior do texto.

Interacional:
Se relaciona com as formas de interações mediadas pela
linguagem, em que participa a possível intenção do autor
ao produzir o texto e a possibilidade de reconstrução de seu
sentido por parte do leitor.

O QUE É INTERPRETAÇÃO TEXTUAL?

Ler é um processo que vai além da mera decodificação de palavras. É assumir uma
postura
ativa na leitura, porque LER é essencialmente uma atividade de produção de
significados. É o leitor
que dá sentido ao que lê. Nesse processo, ele analisa, avalia, julga, comenta,
processa e critica
aquilo que está lendo. Todo esse processo constitui a INTERPRETAÇÃO TEXTUAL, ou
seja, o leitor
reflete e se posiciona diante das questões que o texto levanta.

Textos em que predomina a função referencial têm uma interpretação mais simples
pela
natureza objetiva da linguagem empregada (DENOAÇÃO). Já os textos em que predomina
a função
poética como poemas, contos, romances, letras de música exigem um esforço maior dos
leitores,
pois a linguagem empregada é plurissignificativa (CONOTAÇÃO).

Enem

As questões são desenvolvidas a partir de uma matriz de competências.


A cada competência corresponde um conjunto de habilidades, que são a aplicação
prática
dessas competências em situações bem específicas, como veremos adiante.

Portanto, cada questão da prova faz correspondência com uma competência e uma
habilidade,
as quais, quando corretamente identificadas, possibilitam a resolução apropriada do
problema
proposto. Elas indicam o caminho a ser percorrido pelo raciocínio para se chegar ao
gabarito,
tornando a tarefa de interpretar a questão mais fácil e acertada.

Estratégias de trabalho

Cada questão da prova é dividida em três partes: texto, enunciado e


alternativas. O texto permite identificar a questão por tema, mas o nosso foco é
a identificação da questão por habilidade, o que é feito com base no enunciado.
As alternativas, por sua vez, nos apresentam as possibilidades de resolução.

O enunciado da questão indica o recurso cognitivo a ser ativado pelo aluno


para sua interpretação, exigindo do aprendiz uma ação. É esse recurso que será
importante para a resolução do problema proposto e que geralmente coincidirá
com o verbo que inicia a descrição da habilidade que norteará a interpretação
da questão, permitindo a identificação da alternativa correta.

As perguntas “o quê” e / ou “em quê”, feitas para o verbo, nos direcionam para
o foco da habilidade, que consiste no recurso cognitivo aplicado no contexto do
problema proposto no enunciado. Vejamos, a seguir, como se aplica esse método
de reconhecimento do recurso ativado pelo enunciado:

Recurso ativado: O enunciado vai ativar um recurso cognitivo


específico por meio do comando. O recurso é representado
principalmente por um destes verbos: identificar / interpretar /
reconhecer, explicar, aplicar, confrontar / relacionar ou julgar.

O quê? / Em quê? Fazer essa pergunta para o verbo nos permitirá compreender o que a
questão solicita. Se o recurso ativado for, por exemplo, representado pelo verbo
“relacionar”,
faremos a pergunta: “Relacionar o quê?”. Por meio da resposta a essa pergunta,
definiremos
os elementos a serem relacionados para resolvermos o problema proposto.

FATORES LINGUÍSTICOS E PRAGMÁTICOS DA TEXTUALIDADE

Para que um texto não seja um conjunto aleatório de frases organizadas em uma
sequência qualquer, deve obedecer a
critérios de textualização. Assim, denomina-se textualidade o conjunto de
características que permitem que o texto seja
um texto, e não um amontoado de frases.

Atualmente, como
passou a considerar os textos de uma perspectiva pragmática, levando em conta a
situação sociocomunicativa em que se
apresentam, a linguística textual identifica, além da coesão e da coerência, outros
cinco fatores de textualidade, todos
ligados ao contexto.

A coesão e a coerência são consideradas fatores linguísticos e semânticos de


textualidade, pois estão centradas no
texto, embora só se concretizem na recepção. Os outros cinco fatores –
aceitabilidade, intertextualidade, informatividade,
intencionalidade e situacionalidade – dizem respeito ao contexto e, portanto, estão
centrados nos agentes envolvidos na
produção e na recepção.

Os critérios da textualidade não devem ser vistos como estanques; muitas vezes
são redundantes e se recobrem.

A coerência é fundamental para a textualidade porque


é a partir dela que se estabelece o sentido do texto. Pode
ser entendida como o nexo, a lógica entre as diversas ideias
apresentadas e a relação entre elas e o contexto. Ela não
é inerente ao texto, mas é inferida no processo de leitura.
Por isso, depende também da interação entre o receptor
do texto e os conceitos nele apresentados.

A coesão é a expressão linguística da coerência e,


como esta, também é de fundamental importância para a
textualidade. Pode ser entendida como representação das
diversas relações entre as ideias apresentadas em um texto,
por meio do uso de uma série de mecanismos gramaticais
e lexicais.

Coerência → nexo entre conceitos.


Coesão → expressão desse nexo no plano linguístico.

-> MÓDULO 02/A - Fatores de contextualização

O texto será incoerente se seu produtor não souber adequá-lo


à situação, levando em conta a situação comunicativa,
objetivos, destinatário, regras socioculturais, outros
elementos da situação, uso dos recursos lingüísticos
KOCH; TRAVAGLIA, 2003, p. 59.

Para se redigir um bom texto, seja no cotidiano, seja


em uma proposta de redação, é preciso estar atento ao
contexto de produção.
Assim, pode-se
afirmar que o processo de produção de um texto inicia-se com
a análise do contexto em que ele deverá se inserir.

Neste módulo, vamos conhecer alguns fatores que devem


ser considerados no processo de contextualização e de
produção de um texto. Vamos conhecer também os principais
verbos de comando encontrados em questões objetivas e
em propostas de redação de provas de vestibular.

1. FATORES DE CONSTRUÇÃO
DA COERÊNCIA E DA COESÃO
TEXTUAL

O conhecimento de mundo

Esse fator refere-se ao conhecimento que um indivíduo


adquire ao longo de sua vida, no contato com o mundo
circundante, por meio das experiências vividas. Os saberes
resultantes desse processo são armazenados na memória
em forma de blocos, também denominados modelos
cognitivos. Conheça alguns deles.

A leitura de um livro se dá em vários níveis,


e processos acontecem ao mesmo tempo, em
intensidades que variam de leitor para leitor.

- Leitura da história de nossa vida, pois os exemplos


da vida dos personagens fazem surgir memórias
de fatos semelhantes acontecidos na vida do leitor.
É a leitura da memória pessoal.
- Leitura
dos sentimentos dos personagens e do autor,
que provocam sentimentos análogos no leitor, que
pode experimentar novas emoções, ou emoções
esquecidas e não realizadas na vida cotidiana.
- Leitura da linguagem que o livro apresenta, em
que assimilamos novas palavras, expressões, dicções,
vindas de diversas partes e tempos do mundo,
e desenvolvemos nossa percepção lingüística, e a de significados.
- Leitura gramatical, em que
nossa mente se acostuma às formas vernaculares ou
não, registrando e incorporando as grafias corretas, as
maneiras de pontuação, as apresentações normativas
do idioma.
- Leitura das formas narrativas nos leva
a identificar inúmeras possibilidades de expressão.
- Leitura do gênero – romance, conto, poesia, etc. –
nos põe diante de estruturas clássicas, e das maneiras
infinitas de misturar esses formatos.
- Leitura da
estrutura do texto nos ensina a organizar nosso
pensamento.
- Leitura da personalidade do autor do livro,
pois tudo o que ele escreve, ainda que seja ficção,
é um registro da sua maneira de ser.
- Leitura
da realidade versus sonho nos leva a experimentar
as tênues fronteiras entre esses universos.
- Leitura
da imaginação do autor provoca uma leitura de
nossa própria imaginação.
- Leitura do ritmo, em que a cadência da
escrita nos leva a respirações, a pausas, a silêncios,
e a melodias, pois cada palavra tem um som, uma
tonalidade e causa uma sensação.
- Leitura das
palavras em si, e a forma como se organizam
nas frases, provoca também um sentimento de
prazer estético, afinando nossos sentidos.
- Leitura
ideológica nos faz pensar em nossas próprias
crenças e nas alheias, medimos as diferenças pessoais
e sociais.
- Leitura filosófica nos leva a questões
da existência humana, o mesmo se passando com a
Leitura da moral e da ética.
- Leitura política nos
questiona e descobrimos nossos limites de tolerância.
- Leitura religiosa e a ontológica nos aproximam
de Deus.
A leitura, enfim, da literatura nos traz toda
a história do espírito humano. Assim, aprendemos a
ler, a falar, a pensar, a escrever, a olhar, a imaginar,
a sonhar, a viver, enfim.

Conhecimento compartilhado

Esse fator diz respeito aos conhecimentos partilhados


entre os interlocutores – ou pressupostos como tal. São esses
conhecimentos que dão a medida do que deve ficar explícito
e do que pode ficar implícito no texto. Caso o balanceamento
entre ideias explícitas e implícitas não seja ajustado,
haverá processamento inadequado do texto por parte do
interlocutor, o que prejudica não somente a compreensão,
mas também a construção da própria coerência textual.

Inferências

As inferências correspondem ao resultado da operação


dedutiva que permite ao receptor, no momento da
interlocução, estabelecer a(s) relação(ões) de sentido não
explícita(s) no texto, pela mobilização do conhecimento de
mundo e do conhecimento partilhado.

2. FATORES DE CONTEXTUALIZAÇÃO

Os fatores de contextualização são os responsáveis pela


“ancoragem do texto” numa dada situação comunicativa,
segundo Marcuschi (1983). Subdividem-se em:
• contextualizadores propriamente ditos: data, local,
assinatura, diagramação da página, timbre em
documentos oficiais, recursos gráficos em geral.
• contextualizadores prospectivos, que permitem
avançar perspectivas sobre os textos: título, nome
do autor, suporte, etc.

Todas as vezes que você ler um texto, seja


ele oral ou escrito, seja em seu cotidiano ou em uma prova
de vestibular, procure pistas que lhe permitam ancorá-lo,
de modo a fazer uma leitura aprofundada de seu conteúdo.
Lembre-se ainda de que, como já se afirmou aqui, a tarefa
de se redigir um bom texto começa com uma análise atenta
do contexto em que ele se insere.
Focalização

A focalização refere-se à “concentração dos usuários,


no momento da interação verbal, em apenas uma parte
de seu conhecimento, bem como à perspectiva sob a
qual são vistos os componentes do mundo textual. [...]
A focalização permite determinar, também, no texto, o
significado de palavras homônimas ou polissêmicas, bem
como o uso adequado de certos elementos lingüísticos [...]”
(KOCH, 2006, p. 45).

Consistência e relevância

A consistência corresponde à relevância e à pertinência


das relações estabelecidas em um texto. A condição
de consistência exige que todos os enunciados de um
texto possam ser considerados verdadeiros, ou seja, não
contraditórios. A relevância relaciona-se à propriedade,
à importância de um tópico discursivo focalizado; por isso, ela
se dá entre conjuntos de enunciados e um tópico discursivo.

VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

Saber reconhecer as variedades da língua e usar a


mais adequada a cada situação que nos é apresentada no
cotidiano são estratégias muito importantes no processo
sociocomunicativo, seja em textos orais ou escritos.
Vale observar que a possibilidade de variação da língua
expressa, também, a variedade cultural existente em
qualquer grupo. Portanto, não existe forma certa ou errada
de expressão, e sim a forma mais adequada a cada situação
sociocomunicativa.

Dessa forma, não se pode dizer que


há uma hierarquia entre os variados usos da língua, mas
existe, certamente, a adequação à instância da comunicação.
Em uma mesma comunidade linguística, portanto, coexistem
usos diferentes, não existindo um padrão de linguagem que
possa ser considerado superior.

Níveis de variação linguística:


A variação linguística pode ocorrer em diferentes aspectos
da língua.

Nível fonológico → diz respeito à forma como


se pronunciam as palavras. Esse tipo de variação
pode ser observado em diferentes regiões do país.
Nível morfossintático → diz respeito à observância
das regras prescritas pela gramática normativa para
a modalidade culta. Desvios de concordância, de
regência e no uso das formas verbais são exemplos
desse tipo de variação. Nesse caso, o nível social e de
escolaridade do falante contribui para que ele use um
registro mais ou menos próximo do padrão culto-formal.
Nível semântico → diz respeito ao uso de diferentes termos, às vezes, para
designar uma mesma coisa.
Os termos “macaxeira”, “mandioca” e “aipim” são exemplos desse tipo de variação.

Variedade linguística é o nome dado a diferentes


modos de se falar uma mesma língua.
Esses modos podem
ser condicionados por fatores externos ou pela vontade do
falante. Nesse caso, cabe uma distinção.
Quando a variação decorre de fatores como a região, a
idade, o sexo, o nível de escolaridade e a classe social a que
pertence o falante, a variedade linguística usada é chamada
de DIALETO.
Quando a variação decorre de uma opção do falante, feita
de modo a adequar sua linguagem a diferentes situações
sociocomunicativas, diz-se que ele está a usar diferentes
REGISTROS.

-> MÓDULO 03/A - Tipos textuais e gêneros textuais

1. DISTINÇÃO ENTRE TIPOS


TEXTUAIS E GÊNEROS TEXTUAIS

O termo “tipologia textual” é usado para fazer referência


a um modo de análise que, a fim de organizar os textos,
leva em consideração principalmente suas características
estruturais, linguísticas. Embora seja difícil dissociar
totalmente a forma da principal função social a que um
texto se destina, nesse tipo de organização, a ênfase está
na maneira de dizer. Assim, é possível citar, por exemplo,
quais são as estruturas frasais, os tempos e modos verbais,
os tipos de conectivos mais recorrentes em cada tipo textual.
Além disso, há poucos tipos textuais, e os principais são:
o dissertativo (ou expositivo), o argumentativo, o narrativo,
o descritivo e o injuntivo.

Usamos a expressão “tipo textual” para designar uma espécie de construção teórica
definida pela natureza lingüística de
sua composição (aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas).
[...]
Usamos a expressão “gênero textual” como uma noção propositalmente vaga para
referir os textos materializados que
encontramos em nossa vida diária e que apresentam características
sociocomunicativas definidas por conteúdos, propriedades
funcionais, estilo e composição característica.
MARCUSCHI, 2000

Procurando uma forma de organizar o texto que o


considerasse não apenas estruturalmente, mas também
pragmaticamente, ou seja, tendo em vista sua função prática,
social, comunicativa, foi proposta uma ressignificação do
conceito de “gêneros”, antes usado apenas para fazer
referência a textos literários – gêneros épico, lírico e
dramático. Assim, gênero textual é o nome que se
dá para um conjunto concreto de textos com funções e
com características formais, contextuais e intertextuais
semelhantes. Dessa forma, não há poucos gêneros, mas
inúmeros, já que também são inúmeras as situações
sociocomunicativas possíveis. Alguns deles foram citados na
introdução (telefonema, panfleto, bilhete, cardápio, romance,
artigo de opinião, etc.), mas seria exaustivo enumerar todos,
se isso fosse possível.

2. TIPOS TEXTUAIS

- Tipo dissertativo ou expositivo:

O autor apenas expõe


informações que ajudam a entender esse conceito, às vezes
com suas palavras, às vezes com citações do documento da
WCED. Não há a intenção de opinar sobre o assunto, mas
apenas de apresentá-lo. Um texto puramente dissertativo
talvez nem exista, mas o mais próximo que há disso são
artigos acadêmicos, como monografias e dissertações
(trabalho de conclusão de Mestrado).

• Introdução: normalmente apresenta o assunto e


expõe, de modo sucinto, o que será desenvolvido no
texto;
• Desenvolvimento: expõe detalhadamente o
assunto à luz de conhecimentos compartilhados
culturalmente, bem como reflexões de ordem teórica;
• Conclusão: apresenta uma avaliação do assunto
fundamentada no que foi exposto.

- Tipo argumentativo:

Há uma clara intenção


de se defender uma opinião sobre o tema.
Tem uma tese, ou seja, o ponto de vista que ele quer
provar. Para cumprir esse propósito, ao longo do texto, ele
faz uma série de considerações que dão sustentação a seu
posicionamento. Cita argumentos históricos, humanitários,
sociais, filosóficos, evolucionistas e até implacáveis leis da
Física. Tais argumentos, concatenados, configuram uma
linha de raciocínio, cujo objetivo é levar o leitor a concordar
com a tese defendida, a qual é reafirmada no final do texto.

• Tese: é a principal ideia defendida no texto,


o ponto de vista que se deseja provar;
• Argumentação: apresenta argumentos de diferentes
naturezas e os relaciona, de modo a compor uma
linha de raciocínio, a qual convença o leitor a
concordar com a tese;
• Conclusão: reafirma a tese, com base no raciocínio
exposto na fase de argumentação.

- Textos dissertativo-argumentativos
** Atualmente, nas provas de vestibular de todo país,
há uma forte tendência de se explorar o estudo de gêneros
textuais, e não de tipos textuais. Isso ocorre porque as
bancas entendem que, no dia a dia, os textos cumprem
funções sociocomunicativas específicas e, dificilmente,
apresentam características de um só tipo textual. Além
disso, as bancas desejam saber se o candidato é capaz de
defender uma opinião sobre o tema, respaldando-a com
conhecimentos socialmente compartilhados. Assim, as
propostas de redação normalmente cobram a produção de
textos mistos, genericamente denominados dissertativoargumentativos. **

- Tipo narrativo:

A história
desenrola-se em uma linha temporal, e a situação inicial,
confortável tanto para a vaca quanto para os bernes,
complica-se paulatinamente, até se tornar insustentável,
a ponto de conduzir todos a um final trágico.

Entre os gêneros narrativos ficcionais, podem-se citar os


romances, as novelas, os contos, as crônicas narrativas e
mesmo as telenovelas, filmes e seriados. Há, entretanto,
textos de natureza narrativa não ficcionais, como os
depoimentos e as notícias, os quais relatam o que aconteceu,
com quem aconteceu, onde, quando e como se deu um fato.
Os textos narrativos não ficcionais têm um compromisso
com a veracidade dos fatos, ou seja, são fiéis à realidade.

• Apresentação: si tua o lei tor na hi s tória ,


apresentando-lhe as personagens, o local e o tempo
em que ocorrem os fatos;
• Complicação: introduz um elemento desencadeador
de um conflito, um problema, que é responsável por
movimentar a história;
• Clímax: é o momento de maior tensão da narrativa,
quando o conflito se torna insustentável e força uma
modificação na situação inicial;
• Desfecho: apresenta a situação em que se encontram
as personagens após a resolução do conflito.

- Texto descritivo:

Todas as informações são


apresentadas, de modo que, finda a leitura, obtém-se uma
ideia geral do objeto descrito. É como se o leitor estivesse
diante de um “retrato verbal”.

É possível descrever pessoas, objetos, lugares, instituições


e mesmo situações, desde que estas sejam estáticas. Isso
porque, em um texto descritivo, não deve haver passagem
de tempo, caso contrário, ele adquire caráter narrativo.
Há poucos textos reais que sejam puramente descritivos, e
os relatórios seriam um bom exemplo.

Os textos descritivos não têm, como os outros tipos


apresentados anteriormente, uma estrutura preestabelecida.
Normalmente, configuram-se em torno das características
do objeto descrito, organizando-as em categorias: físicas,
psicológicas, funcionais, sociais, econômicas, etc.

- Texto injuntivo:
São instrucionais. Como se observa, há uma série de
frases imperativas, as quais indicam ações individuais
que podem contribuir para a sustentabilidade das ações
humanas.
Não é possível generalizar a estrutura de textos
injuntivos, mas eles são comumente organizados em
itens, cada um contendo uma instrução específica.
Entretanto, isso não é uma regra. Muitas vezes,
as instruções são apresentadas em parágrafos e são
articuladas com conjunções coordenativas, como ocorre
em receitas culinárias.
Dificilmente se encontra um texto que seja puramente
in jun tivo . Os gêneros tex tuais ins trucionais são
normalmente mistos e misturam características do
tipo descritivo e do tipo injuntivo. Esse é o caso dos
manuais de instrução, das bulas de remédio, das receitas
médicas, das leis, dos regulamentos, das sentenças
judiciais, etc.

3. TIPOLOGIA TEXTUAL NA COMPOSIÇÃO DE GÊNEROS TEXTUAIS

Como já foi dito, a tipologia textual é uma classificação


teórica, genérica, a qual não considera as situações
sociocomunicativas concretas em que os textos são
produzidos. Isso ocorre porque os textos se manifestam, no
cotidiano, em forma de gêneros textuais, que, como se viu,
são composições orais ou escritas nas quais, comumente,
há características de mais de uma tipologia.

Assim como essa propaganda, são os textos com que lidamos diariamente. Há neles a
presença de características de
diferentes tipos textuais.

4. SUPORTES DOS GÊNEROS TEXTUAIS

De qualquer forma, o
modo como uma carta aberta se apresenta à leitura é muito
mais variado do que o modo como se apresenta uma carta
particular.
Foi justamente da reflexão sobre como se apresentam
os gêneros textuais que surgiu o conceito de suporte do
gênero. De acordo com o professor Luiz Antônio Marcuschi,
pode-se definir suporte como o local, físico ou virtual,
em que o gênero se apresenta.

Relacionados ao conceito de suporte aparecem ainda


outros dois conceitos:

• Canal → é “o meio físico de transmissão de sinais”


(MARCUSCHI, 2003. p. 6).
Exemplos:
– aparelhos e emissoras de rádio e TV;
– aparelhos de telefone e serviço de
telefonia;
– computador e serviço de Internet.
• Serviço → é “um aparato específico que permite a
realização ou a veiculação de um gênero em algum
suporte” (MARCUSCHI, 2003. p. 5).
Exemplos:
– correio;
– programas de e-mail;
– mala-direta.

Os estudos sobre suportes dos gêneros ainda são novos


e pouco conclusivos, dada a variedade de gêneros e de
formas como estes se apresentam no dia a dia. Na verdade,
não é muito fácil estabelecer regras em se tratando de
produções humanas, principalmente porque elas se renovam
constantemente.

Em alguns casos, o gênero textual sofre poucas influências


em função do suporte em que é veiculado. O texto de Marina
Silva, por exemplo, não deixaria de ser uma carta aberta,
caso fosse impresso, ou disponibilizado na Internet, ou
lido em uma emissora de rádio ou de TV. Em outros casos,
o suporte pode modificar substancialmente a classificação de
um texto.

Observe a reflexão desenvolvida por Marcuschi:


Tome-se o caso deste breve texto:
Paulo, te amo, me ligue o mais rápido que puder.
Te espero no fone 55 44 33 22. Verônica.
Se isto estiver escrito num papel colocado sobre a mesa da
pessoa indicada (Paulo), pode ser um bilhete; se for passado
pela secretária eletrônica, é um recado; remetido pelos
correios num formulário próprio, pode ser um telegrama;
exposto num outdoor pode ser uma declaração de amor. O
certo é que o conteúdo não muda, mas o gênero é sempre
identificado na relação com o suporte.
MARCUSCHI, 2003, p. 2.

Marcuschi divide os suportes em convencionais e incidentais.


No primeiro caso, trata-se de locais criados especificamente
para a veiculação de certos textos: um livro, um outdoor, um
website; no segundo caso, trata-se de locais que ocasionalmente
veiculam textos e, nesse sentido, as possibilidades são
inúmeras: um muro, o corpo de alguém ou mesmo uma coluna
de fumaça poderiam ser considerados suportes.

Como já foi dito, os próprios linguistas admitem haver


muito que se discutir sobre os suportes e o modo como
interferem na configuração dos gêneros. É muito complexo,
por exemplo, relacionar os textos orais com seus suportes;
às vezes, é difícil até saber qual é o suporte de alguns deles.
Marcuschi afirma que, no caso dos textos orais, seria possível
considerar a própria situação em que os textos ocorrem como
seu suporte, mas essa afirmação também não é conclusiva.

-> MÓDULO 01/B - Figuras de linguagem

1. PRINCIPAIS FIGURAS DE LINGUAGEM:


As figuras de linguagem são recursos estilísticos que
proporcionam aos textos um caráter de literariedade, em
oposição à literalidade tão comum nos textos informativos,
jornalísticos e ensaísticos. Os textos literários são marcados
pelo forte emprego de figuras de linguagem, tanto no plano
sintático quanto no morfológico, no semântico e no sonoro da
língua. A linguagem mais convencional, que prioriza a função
referencial, preocupa-se em transmitir uma informação,
relatar um fato de modo objetivo, instruir o leitor sobre
alguma questão social, política, econômica ou científica,
por isso, ela emprega as palavras no sentido denotativo.
Já a linguagem literária não possui necessariamente uma
finalidade objetiva, o que lhe proporciona maior liberdade criativa
para empregar os vocábulos de modo lúdico e polissêmico,
o que, por sua vez, possibilita aos leitores construir inúmeras
interpretações. Para que você consiga perceber a riqueza
dos textos literários, é importante ter consciência desses
exercícios estéticos explorados pelos autores. Vejamos,
então, as principais figuras de linguagem e a intencionalidade
dos autores ao empregá-las. Lembre-se de que mais
importante que identificar as figuras é saber o porquê de
seu emprego.

- Metáfora:

A metáfora é a figura de linguagem mais significativa nas


produções literárias. É ela que permite aos textos inúmeras
possibilidades de leitura, ampliando, assim, o não dito,
as entrelinhas, os significados que não foram escritos,
mas apenas evocados, sugeridos. As palavras metafóricas
suspendem o significado cristalizado dos vocábulos na
língua, ou seja, extrapolam o sentido denotativo dos
termos, a compreensão convencional das palavras como
elas se encontram no dicionário.

Por isso, a metáfora exige


do interlocutor um raciocínio mais sofisticado, subjetivo,
poético e amplo, pois uma expressão metafórica exige a
leitura daquilo que não se encontra nela, mas que nela vive
em estado de potência, de possibilidade lírica.

A metáfora
é o que está à margem da língua, é a figura que precisa da
palavra para dela se desprender. A metáfora promove, desse
modo, uma ruptura e um desvio com o padrão, instituindo
para um único significante vários significados.

- Comparação ou Símile:

Essa figura de linguagem é um tipo de metáfora realizada


de modo mais nítido, pois a relação de similaridade entre os
termos aparece construída por alguns elementos conectivos, tais
como: igual a, tal qual, da mesma forma que, semelhante
a, parecido com, que nem, como, também, entre tantos
outros. É importante perceber que a diferença entre a metáfora
e o símile é justamente o emprego de tais conectivos.
Veja como as metáforas de Mario Quintana se transformarão em
comparação, caso sejam acrescidas de conectivos:

• Amar é (como) mudar a alma de casa.


• A esperança é (tal qual) um urubu pintado de verde.
• A mentira é (semelhante) a uma verdade que se
esqueceu de acontecer.

- Alegoria:

É uma imagem que já está consagrada pela cultura ou


então uma representação metafórica que se repete ao longo
de um texto. Por exemplo, a alegoria da morte é “desenhada”
no imaginário ocidental como uma figura macabra segurando
a foice, ou então pela imagem de uma caveira, ou ainda por
animais satânicos que indicam agouro, como a coruja, o corvo,
o urubu, etc.; a alegoria da justiça é uma mulher de olhos
vendados (representação da imparcialidade), segurando uma
balança para poder “pesar” e julgar uma causa, assim como a imagem de um casal
feliz é retratada alegoricamente pela cena dos “pombinhos
que se amam”.

- Catacrese:

É o emprego de uma certa expressão metafórica, com um


caráter mais coloquial, que ficou consagrado na língua para
denominar algo concreto. São exemplos de catacrese as
seguintes expressões: pé da mesa, asa da xícara, braço do
rio, cabeça de alfinete, céu da boca, batata da perna, orelha
do livro, pé de página, maçã do rosto, embarcar no trem,
tomar um ônibus, dente de alho, boca do estômago, etc.

- Metonímia:

Consiste na utilização de um termo por outro, tendo


como sustentação um raciocínio de prolongamento de
sentido. É a figura que representa a parte pelo todo.
As relações metonímicas podem ser de:

Parte / Todo:
• “O bonde passa cheio de pernas...” (pessoas)
• “As velas do Mucuripe vão sair para pescar.” (barcos
/ pescadores)
• “Um par de seios caminha em minha direção.”
(mulher)

Marca / Produto:
Devido ao poder emblemático da mídia, é comum a utilização
de uma marca em vez do nome do produto. São exemplos disso:
Toddy / Nescau (em vez de achocolatado em pó), Maisena
(no lugar de amido de milho), Chicletes (como termo para
denominar goma de mascar), Cotonete (para se referir a
hastes de algodão), etc.

Artista / Obra:
• Sou alucinado por Guimarães Rosa, mas leio mais
Drummond.
• Estava em dúvida se ouviria Caetano Veloso ou se
veria um Fellini.
• Aquela mulher é encantada pelo cubismo, há horas
que está aqui no museu diante de um Picasso.

Continente / Conteúdo:
• Ela tomou oito taças de vinho.
• Ele comeu três pratos de feijoada e bebeu dois
engradados de cerveja.

Nas artes plásticas, a metonímia também é extremamente empregada, principalmente


nas obras de vanguarda do início
do século XX, que retrataram o estilhaçamento do mundo pelas guerras, como se
verifica em Guernica, de Picasso.

- Antonomásia:

É uma espécie de metonímia, pois, em vez de se empregar


o nome da pessoa, utiliza-se de uma expressão que possa
identificá-la.
Exemplos:
• Comemorou-se em 2006 o centenário do voo do 14
Bis, criado pelo pai da aviação. (= Santos Dumont)

- Perífrase:

Consiste na substituição de um nome curto por uma


expressão mais longa que o caracterize. É muito semelhante
à antonomásia, mas enquanto esta diz respeito às
expressões que permitem identificar os nomes próprios,
a perífrase – ou circunlóquio – envolve as expressões que
caracterizam também os nomes comuns.
Exemplos:
• O rei da selva (= leão)
• A cidade luz (= Paris)
• A última flor do Lácio (= língua portuguesa)

- Hipérbole:

Ocorre quando se emprega uma expressão exagerada


para traduzir uma ideia. Na maioria das vezes, isso se dá
porque o autor ou falante quer impressionar, comover ou
“chocar” seu interlocutor.
Exemplos:
• “Rios te correrão dos olhos, se chorares!” (Olavo
Bilac)
• “Por você eu dançaria tango no teto
Eu limparia os trilhos do metrô
Eu iria a pé do Rio a Salvador” .

- Eufemismo:

O eufemismo é empregado para abrandar uma informação,


evitando a utilização de termos que possam agredir ou
assustar o receptor da mensagem.
Exemplos:
• “No mucambo si alguma cunhatã se aproximava dele pra
fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças
dela, cunhatã se afastava.” (Seduzir / seios, genitália)
• Ele contraiu o mal de Lázaro. (A lepra)
• Eu os vi daquele jeito, como vieram ao mundo.
(nus)
• Você faltou com a verdade. (Você mentiu.)

- Antítese:

Emprego de termos antagônicos para reforçar a ideia de


oposição.
Exemplos:
• “Última flor do lácio, inculta e bela, és, a um tempo,
esplendor e sepultura.” (Olavo Bilac)
• “Todo sorriso é feito de mil prantos, toda vida se
tece de mil mortes.” (Carlos de Laet)
• “Residem juntamente no teu peito um demônio que
ruge e um Deus que chora.” (Olavo Bilac)

- Paradoxo ou Oxímoro:

Expressão absurda que pode inclusive ser gerada por


imagens antitéticas inconcebíveis.

Em seu clássico soneto,


Camões utilizou o paradoxo:

O amor é fogo que arde sem se ver


é ferida que dói e não se sente
é um contentamento descontente
é dor que desatina sem doer...

- Prosopopeia:

Atribuição, a seres inanimados, de capacidade dos seres


animados. Ou atribuição de características humanas a animais
e coisas, por isso é também chamada de personificação.
Os textos de literatura infantil e as fábulas empregam
frequentemente essa figura de linguagem, o que garante o
caráter fantástico e lúdico a tais produções literárias.
Exemplos:
• “A lua / tal qual a dona do bordel / pedia a cada
estrela fria / um brilho de aluguel” (João Bosco e
Aldir Blanc)
• “As casas espiam os homens / que correm atrás de
mulheres.” (Drummond)

- Pleonasmo:

Também recebe o nome de redundância, pois se repete


a mesma ideia com palavras similares. O pleonasmo pode
ser um recurso estilístico que poeticamente é explorado
pelo autor, ou pode ser considerado um vício de linguagem
quando é pronunciado equivocadamente em algumas
situações coloquiais da fala. Veja exemplos dos dois casos:
Exemplos:
• “Morrerás morte vil na mão de um forte.” (Gonçalves
Dias)
• “Me sorri um sorriso pontual.” (Chico Buarque)

Como exemplos de pleonasmos viciosos, podem-se


citar as expressões: subir para cima, hemorragia de
sangue, narcisismo egocêntrico, estabelecer um elo
de ligação, repetir de novo, monopólio exclusivo, novo
lançamento, principal protagonista, latifundiário de
muitas terras, encarar de frente, etc.

- Sinestesia:

Fusão de sensações, confluência dos sentidos (audição,


tato, visão, paladar, olfato). Essa figura de linguagem foi
marcadamente utilizada pelos escritores do Simbolismo,
no final do século XIX, e pelos neossimbolistas da Segunda
Fase do Modernismo brasileiro.
Exemplos:
• “Tem cheiro a luz, a manhã nasce...
Oh! Sonora audição colorida do aroma.” (Cruz e
Sousa)
• “Estou vendo aquele caminho / cheiroso da
madrugada.” (Cecília Meireles)
• Ela estava usando um perfume doce.

- Ironia:

Expressão de sentido inverso que é reconhecida por uma


entonação sarcástica ao se pronunciar a ideia. É a afirmação
de algo diferente do que se deseja comunicar. A ironia é
um modo debochado, paródico e satírico de ridicularizar ou
insultar alguém, um contexto político ou alguma obra de
arte. É uma forma crítica utilizada por meio do humor, por
isso é tão utilizada nas revistas em quadrinhos.

- Gradação:

É a apresentação de uma série de ideias em progressão


ascendente (clímax) ou descendente (anticlímax).
Exemplos:
• “Amor é assim – o rato que sai dum buraquinho: é
um ratazão, é um tigre leão!” (Guimarães Rosa)
• “O trigo nasceu, cresceu, espigou, amadureceu,
colheu-se, mediu-se.” (Padre Antônio Vieira)
• “Eu era pobre. Era subalterno. Era nada.” (Monteiro
Lobato)

- Hipérbato:

Consiste na alteração da ordem direta dos termos de uma


oração, por isso é chamado também de inversão.
Exemplos:
• “Passarinho, desisti de ter.” (Rubem Braga). Ordem
direta: Desisti de ter passarinho.

- Anacoluto:

Palavras ou expressões inseridas no início de um período


sem desempenhar função sintática.
Exemplos:
• “Eu, também me parece que as leio, mas vou sempre
dizendo que não...” (Almeida Garrett).

- Apóstrofe:

É uma interpelação da voz poética às divindades,


pessoas, ou coisas personificadas. A apóstrofe traduz uma
sensação de súplica e lamentação. No início das orações,
portanto, é comum a presença da apóstrofe, já que a voz
devota clama: “Pai Nosso que estais no céu...”, “Ó Deus tão
misericordioso...”, “Virgem Maria, cheia de graça, rogai por
nós, pecadores...”
Veja o emprego da apóstrofe nos seguintes fragmentos
do poema “O navio negreiro”, de Castro Alves:
Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?!
[...]
Ó mar, por que não apagas
Com a espuma de tuas vagas
De teu manto este borrão?

-> MÓDULO 02/B - Os gêneros literários

A partir de agora, você aprenderá as principais características


dos gêneros lírico, épico e dramático, além das espécies
mais clássicas de cada um deles.

Diante de
tal confluência, o leitor deverá distinguir o que é típico de
cada gênero para entender a intencionalidade do autor ao
apresentá-los em diálogo.

1. GÊNERO LÍRICO

No início de sua existência, a poesia era composta para


ser declamada ao som da lira, o que legitimou o nome dessa
produção textual. Contrapondo-se ao gênero dramático e
ao épico, na maioria das vezes, as obras líricas não têm o
objetivo de representar o mundo exterior, mas de criar e
dar vazão ao mundo interior e subjetivo do Eu. Esse caráter
intimista, típico da poesia lírica, está presente até nos
possíveis trechos narrativos nela inseridos. Extremamente
alusiva e metafórica, a poesia lírica possibilita diversas
interpretações, o que lhe garante um caráter polissêmico:
um único significante propicia vários significados.

Entre as principais espécies do gênero lírico, destacam-se:

- Soneto:

Poema dotado de uma regularidade métrica: constitui-se


de dois quartetos e dois tercetos, com versos decassílabos
ou alexaxndrinos (doze sílabas poéticas). Além disso, outra
característica marcante dos sonetos é a musicalidade, que
se manifesta não só pelo ritmo, mas também pelas rimas,
quase sempre empregadas

- Elegia:

Poema de tom funesto, macabro, melancólico e


pessimista. Tamanha descrença presente nas elegias
pode aparecer associada a uma questão particular
(uma decepção amorosa) ou social, política, econômica
(retratação de temáticas, como a seca nordestina, as
guerras mundiais...

- Ode:

Poema construído com o objetivo de elogiar alguém ou


algo. Por isso apresenta uma linguagem grandiloquente,
exaltatória, entusiasta. Entretanto, alguns poetas
empregam o termo “ode” de maneira irônica. O conteúdo
do poema, nesse caso, será paródico e sarcástico.

- HaiKai:

O haikai, em sua origem oriental, apresenta uma forma


fixa (formado por três versos: o primeiro com cinco sílabas,
o segundo com sete e o terceiro com cinco). Geralmente,
retrata cenas da natureza, principalmente as estações do
ano.

2. GÊNERO ÉPICO

As primeiras manifestações literárias, de que se


tem notícia – no campo dos estudos literários –,
pertencem ao gênero épico, como exemplificam as
epopeias Odisséia e Ilíada, de Homero. Vinda dos gregos
e, posteriormente, passando por outras culturas, a poesia
épica narrou os grandes acontecimentos da história da
humanidade. A Eneida, de Virgílio, A Divina Comédia, de
Dante, o Paraíso Perdido, de Milton, e Os Lusíadas, de
Camões, são o retrato de um povo e de uma cultura, narrado,
simultaneamente, com elementos reais, históricos e míticos.

Entre as principais variações do gênero épico, merecem


destaque as epopeias e, entre os textos em prosa, a fábula,
a novela, o conto, a crônica, o diário, entre outros.

- Epopeia:
Texto narrativo (ainda que escrito em versos) que se
constitui de cinco partes: proposição, invocação, dedicatória,
narração e epílogo.

- Literatura de cordel:

Também é um texto narrativo produzido em versos, o que


o aproxima das antigas epopeias. Amplamente divulgada
no Nordeste, a literatura de cordel é uma manifestação
literária produzida pelo povo e para o povo, o que legitima
o seu intuito didático, moralizante e lúdico. O cordelista é
um poeta popular que se vê no direito e no dever de alertar,
conscientizar e instigar a população contra os desmandos
do mundo: quer seja sobre as questões políticas, quer
seja a respeito do êxodo para os grandes centros urbanos.
Além disso,
destaca-se a função do cordel de ser uma “história” em
versos que retrata heróis do sertão, como Lampião, Maria
Bonita, Antônio Silvino, Padre Cícero e Antônio Conselheiro.

- Novela:

Desde a Idade Média, a novela já existia e era lida


pelos integrantes da nobreza e do clero. Estruturada com
um número grandioso de personagens, que aparecem e
desaparecem dentro da narrativa, ainda que mantendo a
continuidade do enredo, a novela atrai o público pelo seu
dinamismo.
É importante que não se confunda a novela com a
telenovela, que é uma das mais recentes espécies do gênero
dramático.

- Romance:

O surgimento e a divulgação do romance estão relacionados


com a ascensão da burguesia no século XIX e com a invenção
da imprensa. Inicialmente, o romance foi divulgado nos jornais
da época por meio de folhetins que lançavam os capítulos
com uma certa periodicidade, prendendo a atenção do novo
público que se formava. Somente depois, os romances foram
lançados em formato de livro. Nas obras de Machado de
Assis, o autor ridiculariza a atração do público, principalmente
o feminino, em busca dos romances românticos, tão
recorrentes na sociedade oitocentista. Diferentemente da
novela, que se constitui apenas de um núcleo narrativo,
a estrutura do romance apresenta vários agrupamentos
épicos: o enredo principal (construído pelos protagonistas) e
as cenas secundárias, além das micronarrativas, que formam
o segundo plano da obra

- Crônica:

Como o nome evidencia, o tempo utilizado nessa espécie


do gênero épico é o cronológico, linear. Isso significa que
os episódios são relatados em uma ordem sequencial,
progressiva, como o arrastar das horas, dos dias, dos meses
ou das estações do ano na realidade. Essa proximidade com
o tempo real, bem como a intenção de retratar cenas do
cotidiano, faz com que uma das principais características
da crônica seja a verossimilhança.

- Conto:

Relato conciso, centrado apenas em um núcleo narrativo.


Outra característica do conto é a “superficialidade” utilizada
para descrever a maioria das personagens, muitas delas
nem mesmo recebem nome. São tratadas apenas como a
mulher do professor, o médico, o vizinho, a filha do jornalista,
o mendigo, etc.
Os fatores que diferenciam o conto da crônica são: a temática
(o conto é mais lúdico enquanto a crônica é mais verossímil)
e a linguagem empregada neles (o conto utiliza expressões
mais metafóricas, enquanto a crônica trabalha com um
vocabulário mais denotativo).
Por sua vez, há também os contos que retratam o cotidiano
de maneira poética e subjetiva.

- Fábula:

A fábula é uma narrativa de cunho didático-pedagógico,


em que as personagens (animais personificados) encenam
uma “moral da história”. Ela é, portanto, um texto produzido
para conscientizar e educar os leitores.

3. GÊNERO DRAMÁTICO

A palavra drama, em sua etimologia, significa ação,


por isso, nas espécies do gênero dramático, há o
privilégio da ação sobre a narração, o emprego do tempo
presente e a estruturação textual feita a partir de diálogos.
Ao eliminar a figura do narrador, o texto dramático, em vez
de contar um fato, descrevendo-o, opta por encená-lo diante
do público, por vivenciá-lo cenicamente.

As principais espécies do gênero dramático são:

- Tragédia:

Teve seu ápice no século V a.C., na Grécia. É a mais antiga


espécie do gênero dramático, que buscou representar, de
modo catastrófico, acontecimentos que causavam no público
não só terror, mas também compaixão. Sempre pressionado
por forças antagônicas, o herói da tragédia tem, na maioria
das vezes, de se sacrificar, ou sacrificar a própria família,
para proteger ou salvar a sociedade como um todo. Essa
atitude é que o torna um herói, livre do egoísmo humano,
que privilegia o individual em detrimento do coletivo. Diante
da atitude nobre do herói e de sua vida trágica, os homens
reconhecem como o destino é algo dado, ao qual todo ser deve
se resignar.

Ex: Édipo Rei e Antígona, de Sófocles; Prometeu acorrentado,


de Ésquilo; e Medéia, de Eurípedes.

- Comédia:
Assim como a tragédia, a comédia também apresenta um
aspecto educativo, pedagógico e moralizante. Entretanto, ela
ensina ao público o que ele deve ou não fazer por meio do
riso sarcástico. Em vez de moralizar pela repreensão e pelo
sofrimento, a comédia ensina através do humor grotesco.
Enquanto na tragédia as personagens são figuras superiores
aos homens normais, na comédia, as personagens são
caricatas, picarescas, pois correspondem ao que o homem
tem de mais ridículo e sórdido, tanto no aspecto moral, quanto
no aspecto físico. Por isso, o herói da comédia é denominado
clown ou bufão.

[...] nada repreende melhor a maior parte dos homens


do que a pintura dos seus defeitos. É um belo golpe para
os vícios expô-los ao riso de toda a gente. Suportam-se
facilmente as repreensões; mas não se suporta de modo
nenhum a troça. [...] O dever da comédia é corrigir os
homens, divertindo-os.

- Drama:

Diferentemente do que
ocorre na comédia e na tragédia, no drama as personagens
assemelham-se às pessoas do cotidiano. Além disso, as
ideias de destino, estagnação e manutenção de normas são
substituídas pela força de vontade e pela liberdade.
A mudança se fez não só no aspecto temático, mas
também no estrutural, propiciando a confluência de
tempos, espaços, ações e vozes na construção teatral. Isso
proporcionou uma enriquecedora modificação no gênero
dramático, que, utilizando-se dessas técnicas, encontra-se
cada vez mais consagrado na arte contemporânea.

- Auto:

Essa espécie dramática, muito comum desde a Idade


Média, esteve inicialmente vinculada aos interesses religiosos
do cristianismo. Por isso, o que caracteriza um auto é o fato
de suas cenas e personagens serem bíblicas.
No caso brasileiro, o trabalho de catequização realizado
pelo Padre Anchieta foi o marco do teatro na historiografia
nacional, o que comprova como os autos estiveram a serviço
da Igreja e diretamente vinculados a um “projeto civilizatório”.

Além dessas espécies do teatro, o surgimento do cinema, do


rádio e da televisão fez com que novos formatos dramáticos
fossem construídos, tais como os filmes, as novelas de
rádio, as telenovelas e as minisséries.

2. CONFLUÊNCIA DOS GÊNEROS LITERÁRIOS

É possível que em um único texto ocorra o emprego de


características dos vários gêneros literários. Nesse caso, o leitor
deverá identificar os elementos típicos do lírico, do épico e do
dramático, além de conseguir visualizar como o autor promove
a mescla dos gêneros.

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