Prosas seguidas de odes mínimas (1992) – José Paulo Paes
Prof. Gustavo Brotas
ESTILO DO AUTOR
Cronologicamente, o poeta José Paulo Paes foi ligado à “Geração de 45”, mas também
participou da poesia concreta. A expressão “arte mínima” orienta seu fazer poético, em que se
evidencia sua busca incessante pelo “máximo no mínimo”, em conformidade com as propostas
inovadoras da geração concretista. Acerca da importância da concisão na sua criação literária,
o próprio autor comenta:
As discussões, as teorizações sobre poesia me interessavam menos, pois o que me atraiu
sempre foi a concisão. Desloco o centro de atenção do verso para a palavra, numa espécie de
virada intraverbal, para os "semas", unidades elementares da palavra.
Paes preocupa-se com a palavra em si, no entanto, com a condição de que o conjunto de
palavras criteriosamente escolhidas sejam apropriadas a exprimir “vivências, reais ou
imaginárias” (Paes, 1996, p. 11). Comprometido com a pesquisa estética, Paes faz releituras
inovadoras de gêneros clássicos. Entre eles, destaca-se o gênero epigrama, cuja fórmula
concisa está em conformidade com o estilo do autor: “pela fórmula peculiar de redução do
mundo, cada poemeto traz em seus próprios fundamentos os traços típicos do epigrama e sua
vocação para exprimir os traços da modernidade” (Arrigucci Júnior, 1998, p. 30).
RECEPÇÃO DE PROSAS SEGUIDAS DE ODES MÍNIMAS
Prosas seguidas de odes mínimas, décimo livro de poesias de José Paulo Paes, publicado em
1992, é avaliado por críticos literários como sendo sua melhor obra. Para o escritor e crítico
Marcelo Coelho, nesse livro, José Paulo Paes faz “uma poesia que, sem ser confessional, é
íntima, cheia de lembranças e experiências biográficas. Fala de seus pais, de amigos mortos,
da perna que teve de amputar, mas não cede nunca às tentações da autopiedade e do
desespero”.
Na obra, Paes “percorre os principais temas que compõem toda sua produção, marcada pela
lucidez, ironia, concisão verbal, crítica política e aversão ao sentimentalismo. Entre outros
motes, os poemas tratam de amor, de memórias e da proximidade da morte – com alguma
descrença, mas também com intenso lirismo e uma boa dose de experimentalismo formal”.
São aspectos característicos da poesia de Paes em Prosa seguida de odes mínimas: a
rememoração (de eventos, de espaços e de pessoas significativas), a poetização do trivial (de
objetos do cotidiano), a concisão (o máximo no mínimo), o humor (de matriz irônica) e o diálogo
com formas da tradição literária, revistas pelo poeta de uma perspectiva moderna.
DIVISÃO DO LIVRO PROSAS SEGUIDAS DE ODES MÍNIMAS
O livro se divide em duas partes. A primeira denomina-se “Prosas” e é composta por vinte
textos, dentre os quais sete não são escritos em versos. O tom de conversa íntima evidencia-
se em muitos deles. Neles, a voz poética dirige-se aos leitores, ou a pessoas falecidas que
fizeram parte da formação do autor. Essa parte apresenta “atenuação de sua veia satírica” e
“refluxo dos temas sociais” (Secchin, 1996, p.122), características marcantes de obras
anteriores de Paes. A segunda parte chama-se “Odes mínimas” e é formada por treze poemas
que, no geral, referem-se a objetos observados por Paes a partir de uma perspectiva irônica de
falsa celebração. Neles, o humor é traço notável.
SOBRE AS DEDICATÓRIAS DO LIVRO
Primeira dedicatória
“Para a Dora, em vez do rubi de praxe” (Paes, 2023, p.7). Nessa dedicatória, Paes refere-se,
com humor, ao fato de Prosas seguidas de odes mínimas ser mais um dos seus livros
dedicados à Doroteia Costa, com quem ele se casou em 1952. O relacionamento com Dora é
mencionado no livro Prosas seguidas de odes mínimas. Nos poemas “Um retrato” e “À minha
perna esquerda”, que fazem referência à morte do pai de Paes e à amputação de sua perna
esquerda, respectivamente, a presença solidária e carinhosa de Dora é evidenciada com afeto.
Segunda dedicatória
“À memória de Fernando Góes, que um dia chamou de Poesias um livro seu de crônicas”
(Paes, 2023, p. 13) Nessa dedicatória, José Paulo Paes relativiza os limites entre prosa e
verso. Essa relativização indica uma das características fundamentais da primeira parte do
livro, intitulada “Prosas”: o tom de conversa, de intimismo, constante de grande parte dos
textos, quer sejam escritos em linhas contínuas, quer escritos em versos. Sobre essa
dedicatória, Secchin faz a seguinte observação:
À guisa de explicação (e de homenagem), o poeta informa que o escritor Fernando Góes
intitulou Poesias uma publicação de crônicas. Estamos, pois diante de uma obra que em seu
pórtico já instala uma ambiguidade: insinua uma escrita em prosa: mas, pela utilização do
plural, remete de pronto à noção de conversa, de diálogo”. Lidas as vinte peças da parte I, as
duas hipóteses se confirmam. A ausência de verso é a marca de sete textos. O tom de
conversa é tônica de inúmeros (Secchin, 1996, p. 121).
ASPECTOS DA PRIMEIRA PARTE DO LIVRO: “PROSAS”
O título “Prosas”, dado à primeira parte do livro, designa textos em que predomina um tom
intimista, de conversa. Podem ser escritos em versos ou apresentar ausência deles. Os
escritos em linhas contínuas são: “J.V”, “Dona Zizinha, “Um empregado”, “Loucos”, “A casa”,
“Iniciação”, “Reencontro”. Quanto à temática, há poemas que:
- abordam o tema da morte e do próprio fazer poético: “Escolha de túmulo” e “Ceia”;
- tecem considerações sobre anseios da juventude e/ ou do mal-estar no mundo: “Canção do
adolescente”, “Noturno”, “Canção de exílio”, “Iniciação”;
- refletem sobre problemas da contemporaneidade: “Balancete”, “Mundo novo”, “Sobre o fim da
história”;
- homenageiam amigos escritores: “Prosa para Miramar” (Oswald de Andrade), “Reencontro”
(Osman Lins), “Balada do Belas Artes”;
- esboçam retratos de familiares do poeta: “Um retrato” (o pai do poeta), “Outro retrato”, “J.V.”
(o avô), “Dona Zizinha” (a avó), “Uma casa” (membros de sua família) e “Nana para Glaura”
(uma criança “nunca nascida”);
- remetem a figuras singulares da infância do poeta: “Um empregado”; “Loucos”.
Na primeira parte do livro, Paes atenua a veia satírica e a denúncia social apresentada em
obras anteriores. Mas continua sendo “um poeta do pouco”, “arquiteto de sentimentos que
exclui sentimentalismo e autocomplacência” (Secchin, 1996, p.122).
ANÁLISE DOS TEXTOS DA PRIMEIRA PARTE DO LIVRO
“Escolha de túmulo”
Mais bien je veux qu’un arbre
m’ombrage au lieu d’un marbre (Ronsard)
Onde os cavalos do sono
batem cascos matinais.
Onde o mundo se entreabre
em casa, pomar e galo.
Onde ao espelho duplicam-se
as anêmonas do pranto.
Onde um lúcido menino
propõe uma nova infância.
Ali repousa o poeta.
Ali um voo termina,
outro voo se inicia.
Comentário:
Esse poema, que abre o livro, traz uma epígrafe com versos do poeta renascentista francês
Pierre de Ronsard (1524 -1585). Nela, o eu lírico afirma preferir a sombra de uma árvore a ficar
sob o mármore frio de uma sepultura. Sua preferência, portanto, recai sobre um lugar
associado à vida, simbolizado pela árvore. Também em “Escolha de túmulo”, elege-se um lugar
associado a imagens vitais para servir de túmulo ao poeta. Evidencia-se, assim, que, “persiste
o desejo [do autor] de que, em meio ao dano, algum saldo seja possível” (Secchin, 1996, p.
124). No primeiro poema do livro, há a afirmação do espaço da finitude como lugar de um novo
começo: “Ali repousa o poeta. / Ali um voo termina, / Outro voo se inicia.”
Esse lugar, que está na interioridade do poeta, na dimensão onírica, surge-lhe no momento do
quase despertar: “Onde os cavalos do sono/ batem cascos matinais.” Representa um lugar da
memória afetiva do poeta, que transporta o eu poético para uma província (a terra natal, o lar
de origem), no momento de um amanhecer cheio de paz: “Onde o mundo se entreabre/ em
casa, pomar e galo.” A lembrança, no entanto, é expressa sem saudosismo piegas. Esse
comedimento emocional, em que não falta ternura, é característico da poesia de Paes. Trata-se
de um lugar em que é possível a retomada de emoções vivenciadas, que se refletem em
composições artísticas: “Onde ao espelho duplicam-se/ as anêmonas do pranto.” Ali, o impulso
ao novo, que já fora vivenciado na infância, é retomado com clareza: “Onde um lúcido menino/
propõe uma nova infância.” A repetição do advérbio “Onde” (anáfora) no primeiro verso dos
quatro dísticos (estrofes de dois versos) contribui para a formação de um bloco cujas imagens
sugerem a ideia de um movimento cíclico. Na quinta estrofe, está o tema do poema: “Ali
repousa o poeta”, expresso de modo eufemístico. A finitude está associada à ideia de
recomeço, como expressa a antítese “termina” × “inicia” dos versos finais, sugestiva de
continuidade perene. A ressignificação do túmulo e, por contiguidade da morte, dá-se pela
referência a esse espaço como fonte de criação poética. O poeta acessa-o pela via do sonho e
da memória, permanece ali por um tempo, para lançar-se novamente em “outro voo”, metáfora
da criação artística. A forma como os versos heptassílabos estão encadeados colaboram na
sugestão rítmica do movimento cíclico expresso no poema.
“Canção do adolescente”
Se mais bem olhardes
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.
Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu pobre corpo.
Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?
Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
Comentário:
Em “Canção do adolescente”, o eu poético revela seu mal-estar por sua condição existencial de
adolescente, focalizando, para tanto, a aparência descontínua de seu corpo. Desde o início do
poema, ele confessa sua angústia a um interlocutor (a), referido pela segunda pessoa do plural.
Revela não possuir ainda experiências próprias de vida e isso o atormenta: “Se mais bem
olhardes/ notareis que as rugas/ umas são postiças/ outras literárias".
O poema é composto por 23 versos, a grande maioria deles são pentassílabos (redondilhas
menores). Esse tipo de verso, que expressa a musicalidade de ritmo tradicional, em razão dos
encadeamentos sintáticos, no poema, apresenta um tom de prosa, de conversa. Não há divisão
em estrofes. Há uma quebra na regularidade dos versos do poema no seguinte trecho:
“Notareis ainda/ o que mais escondo:/ a descontinuidade/ do meu corpo híbrido”. Em “a
descontinuidade”, verso heptassílabo (redondilha maior), há interrupção do padrão rítmico
apresentado no restante do poema. Não por acaso, forma e conteúdo expressam a
descontinuidade sentida de forma dolorosa pelo eu lírico. Refere-se à “anomalia” do
adolescente especificada em “corpo híbrido”, formado por “pedaços/ de criança e homem”.
O eu lírico questiona que “força macabra” teria misturado essas partes, dando-lhe uma
aparência que o desgosta. Seu mal-estar intensifica-se quando ele cruza com mulheres em seu
caminho: “Quando corto a rua / para me ocultar / as mulheres riem (sempre tão agudas!)”. Nos
versos finais, o eu poético lança um apelo: “Se quereis salvar-me/ desta anatomia, / batizai-me
depressa / com as inefáveis / as assustadoras / águas do mundo.” Os verbos “salvar-me” e
“batizai-me”, nesse contexto, não estão associados a uma dimensão sagrada como costumam
ser usados, mas ao desejo de uma espécie de iniciação em experiências mundanas, ansiadas
com força pelo eu lírico.
Considerando esse apelo, compreende-se que a descontinuidade do corpo adolescente, que o
eu lírico tanto busca esconder, diz respeito à sua inexperiência. O eu lírico anseia por
experiências qualificadas como indescritíveis e intimidantes, pois são desconhecidas por ele.
“Noturno”
O apito do trem perfura a noite.
As paredes do quarto se encolhem.
O mundo fica mais vasto.
Tantos livros para ler
tantas ruas por andar
tantas mulheres a possuir ...
Quando chega a madrugada
o adolescente adormece por fim
certo de que o dia vai nascer especialmente para ele.
Comentário:
O poema “Noturno” é composto por três tercetos com versos livres (sem regularidade rítmica) e
brancos (sem esquema de rimas). Escrito em terceira pessoa, em formato narrativo, contém o
relato de uma noite insone vivida por um adolescente, que não consegue dormir, tamanho é
seu desejo de ter experiências no mundo. No primeiro verso – “O apito do trem perfura a noite”
–, sugerido pela aliteração do/ p/ e do/ t/, instaura-se um desequilíbrio na existência do
adolescente. É noite e ele não consegue adormecer pelo conflito interior. A imagem do “trem”
sugere seu desejo de ir em busca de tudo que anseia experimentar fora de seu lar.
O som do “apito do trem” desperta seu anseio por sair do quarto (símbolo de um lugar de
escassas vivências) e adentrar no mundo grande (espaço de amplas e significativas
experiências almejadas). Durante a noite, no quarto de sua casa, o adolescente percebe o
quanto seu real é limitado em oposição à vastidão do mundo: “As paredes do quarto encolhem/
O mundo fica mais vasto”. Essa oposição é sugerida pela antítese entre “paredes encolhem” x
“mundo (...) mais vasto”.
Em “Tantos livros para ler/ tantas ruas por andar/ tantas mulheres a possuir...”, evidencia-se
que o adolescente anseia por ampliar sua esfera de ação no mundo, nos planos cultural,
geográfico e sexual. A repetição de “tantos/ tantas” enfatiza a intensidade sentida por ele de
ampliar seu universo de experiências pessoais. A resolução do seu conflito interno ocorre ao
amanhecer: “Quando chega a madrugada/ o adolescente adormece por fim/ certo de que o dia
vai nascer especialmente para ele”. Da perspectiva do adolescente, o final é otimista, pois com
o amanhecer ele adquire confiança de que estaria próxima a concretização de seus anseios.
“Canção de exílio”
Um dia segui viagem
sem olhar sobre o meu ombro.
Não vi terras de passagem
não vi glórias nem escombros.
Guardei no fundo da mala
um raminho de alecrim.
Apaguei a luz da sala
que ainda brilhava por mim.
Fechei a porta da rua
a chave joguei ao mar.
Andei tanto nesta rua
que já não sei mais voltar.
Comentário:
“Canção de exílio", poema formado por seis dísticos (estrofes de dois versos), distribuídos em
redondilhas maiores, apresenta o seguinte esquema de rimas: AB AB CD CD EF EF.
Trata de um exílio realizado pela vontade própria do eu lírico, conforme os versos: “Um dia
segui viagem/ sem olhar sobre o meu ombro.” Ele parte do lugar de origem de forma decidida,
sem olhar para trás. A viagem, no entanto, quebrou suas expectativas: “Não vi terras de
passagem/ Não vi glórias nem escombros”. O eu lírico não encontra nada de extraordinário em
sua viagem, ao contrário do que pensara encontrar. Evidencia-se aqui a ruptura com a
idealização juvenil.
Há enumeração das ações relativas ao momento de sua partida: “Guardei no fundo da mala/
um raminho de alecrim.” / Apaguei a luz da sala/ que ainda brilhava por mim./ Fechei a porta da
rua/ a chave joguei no mar.” A preparação da viagem está sintetizada no verso em que é
mencionado o ramo de alecrim no fundo da mala. Usado para repelir traças de roupas, o
alecrim por extensão, pode indicar signo de proteção pessoal. Os versos “Apaguei a luz da
sala/ que ainda brilhava por mim. / Fechei a porta da rua/ a chave joguei no mar evidenciam um
gesto de ruptura decisiva com o lar de origem.
O eu lírico, então, inicia sua viagem para o desconhecido, conforme analisado nos primeiros
versos. Os verbos estão no pretérito perfeito, indicando ações concluídas. Mas, como
apresentado nos versos iniciais, o desconhecido, para onde o eu lírico se lançou, não tem nada
de épico, de grandioso.
No dístico final, o verbo, no presente do indicativo, aponta para um momento de reflexão do eu
lírico acerca de sua viagem, revelando seu amadurecimento: “Andei tanto nesta rua/ que já não
sei mais voltar”. Nota-se que o título do poema não apresenta artigo determinando o exílio, que,
no contexto do poema, significa uma condição existencial permanente de quem deixou o lar de
origem.
“A casa”
Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.
E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe-o até ali o
pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também morto.
Comentário:
Esse texto em prosa tem início com o seguinte apelo: “Vendam logo esta casa, ela está cheia
de fantasmas.”. Em seguida, destacam-se um cômodo diferente da casa e as ações
costumeiras que nele ocorriam.
É a casa do avô J.V. e, nela, estão os que ali habitavam, agora ressurgidos como lembranças.
Em cada ambiente, uma ação repetida. Na livraria, um avô decora cartões de boas-festas; na
tipografia, um tio imprime avisos fúnebres e programas de circo; na sala de visitas, um pai lê
romances policiais; no quarto, uma mãe “está sempre parindo a última filha”; na sala de jantar,
uma tia lustra o próprio caixão; na copa, uma prima passa a ferro as mortalhas da família; na
cozinha, uma avó conta “histórias de outro mundo”; no quintal, um preto velho que morreu na
Guerra do Paraguai racha lenha; e, no telhado, está um menino que, vivo, espia os fantasmas.
Os verbos estão conjugados no presente atemporal. As atividades descritas comportam
associações fúnebres.
Um menino acessa esse mundo de recordações pela via do sonho: “trouxe-o até ali o pássaro
dos sonhos”. O enunciador apela para que o menino continue dormindo, mas que “vendam a
casa (...) depressa”. O acesso é decorrente da falta que o menino sente dessas pessoas
queridas. Aqui, o tema da efemeridade está presente.
A visita do menino à casa familiar em sonho suaviza a ideia de sua própria morte: “Antes que
ele acorde e se descubra também morto”. Também sugere que grande parte do enunciador
permanece naquele lugar do passado, pois ele ainda está ligado afetivamente àquelas pessoas
importantes na sua formação existencial e com as quais ainda mantém constante interação por
meio de recordações indeléveis.
“Prosa para Miramar”
Rua Ricardo Batista.
Bela Vista.
Segundo andar? Eu já nem lembro.
A primeira vez fui levado por Francisco
na sua derradeira aparição entre nós
como aluno e filho torto de Tarsila.
(...)
O cabelo cortado bem curto
por sob a boina azul (na rua).
Os olhos a olhar sempre de frente
numa interrogação ou desafio.
O sorriso, os dentes de antropófago.
A língua afiada
nos ridículos de gregos e troianos.
Não de pobres interioranos como eu,
recruta da geração de 45
(inofensiva, apesar do nome de calibre de arma de fogo)
com a qual ele gostava de brigar
nas suas horas vagas
de guerrilheiro já sem causa.
(...)
Nunca mais o vi? Mentira. Vi-o uma última vez
em 65 ou 66, estreia
de O rei da vela no Oficina.
Ele estava sentado na plateia bem atrás
com sua boina azul
já póstumo mas divertido de ver o irrespeitável público
comendo finalmente do biscoito de massa mais fina
que com suas próprias mãos ele amassara
para o futuro, seu melhor freguês.
“Mundo novo”
Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.
E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que a pomba iria trazer não um ramo
de oliva mas de espinheiro.
Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora vês lavrando com as mesmas
enxadas de Caim e Abel a terra mal enxuta do Dilúvio.
Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.
Comentário:
Nesse poema, há um paralelo entre a construção da arca de Noé e a do mundo
contemporâneo. O eu poético, em conversa com seu interlocutor, afirma não ter valido a pena
todos os detalhes envolvidos na construção da referida arca. Note-se o recurso da
intertextualidade com o texto bíblico, usado pelo autor para fazer uma crítica ao tempo atual,
em que as experiências humanas estão marcadas por sofrimento, como conota a metáfora
textual “ramo do espinheiro”.
“Sobre o fim da história”
A pólvora já tinha sido inventada, a Bastilha posta abaixo e o czar fuzilado quando eu nasci.
Embora não me restasse nada mais por fazer, cultivei ciosamente a minha miopia para poder
investir contra moinhos de vento.
Eles até que foram simpáticos comigo e os de minha geração. Fingiam de gigantes, davam
berros horríveis só para nos animar a atacá-los.
Faz muito tempo que eu os sei meros moinhos. Por isso os derrubei e construí em seu lugar
uma nova Bastilha. Vou ver se escondo agora a fórmula da pólvora e arranjo outro czar para o
trono.
Quero que meus filhos comecem bem a vida.
Comentário:
O enunciador (eu lírico) afirma que grandes acontecimentos históricos já tinham ocorrido antes
de ele nascer. Cita a invenção da pólvora, a queda de Bastilha, o fuzilamento do czar. Portanto,
a Era das Revoluções - Francesa (séc. XVIII) e Russa (séc. XX), respectivamente -, já tinha
terminado. Uma vez que os grandes acontecimentos históricos já tinham acontecido, o
enunciador, sem qualquer feito épico a realizar, decidiu cultivar a sua miopia “para poder
investir contra moinhos de vento”. Ao mencionar “moinhos de vento”, a voz poética afirma ter
assumido uma atitude quixotesca, utópica, em relação ao mundo.
No entanto, a realidade se impôs. Embora os opositores de sua época tentassem fingir serem
gigantes, o enunciador compreendeu que eles não passavam de “meros moinhos” e que não
valia a pena lutar contra eles. Passou, então, a buscar construir “uma nova Bastilha”, esconder
“a fórmula da pólvora” e “arranjar um outro czar para trono”. Ironicamente, passou a repetir o
passado, projetando a construção de sentido para o tempo futuro: “Quero que meus filhos
comecem bem a vida.”
“Ceia”
Pesca no fundo de ti mesmo o peixe mais luzente.
Raspa-lhe as escamas com cuidado: ainda sangram.
Põe-lhe uns grãos do sal que trouxeste das viagens
e umas gotas de todo o vinagre que tiveste de beber na vida.
Assa-o depois nas brasas que restem em meio a tanta cinza.
Serve-o aos teus convivas, mas com pão e vinho
do trigo que não segaste, da uva que não colheste
mas que de alguma forma foram pagos
em tempo ainda hábil
pelo teu muito suor e por um pouco do teu sangue.
Não te desculpes da modéstia da comida.
Ofereceste o que tinhas de melhor.
Podes agora dizer boa-noite, fechar a porta, apagar a luz
e ir dormir profundamente.
Estamos quites tu e eu, teu mais hipócrita leitor.
Comentário:
Esse poema, no contexto da obra, aborda de forma figurada a poética constante da primeira
parte do livro Prosas seguidas de odes mínimas. Com ele, há o encerramento dessa seção,
assim como a “Ceia” é uma refeição feita ao encerrar o dia de trabalho.
No poema, os pronomes em segunda pessoa do singular referem-se ao poeta. Na primeira
estrofe, há menção ao fato de que o poeta retira de sua própria interioridade (suas vivências e
seu aprendizado no mundo) parte da matéria são feitos seus poemas. Esse material escolhido
(“o peixe mais reluzente”) passa por um processo de elaboração poética (raspagem das
escamas, tempero do peixe).
Os verbos no imperativo, dispostos ao longo do poema, referem-se a ações que caberiam ao
poeta executar. Feito o poema (a refeição), cabe ao poeta servi-lo a seus convivas (possíveis
leitores). Depois da ceia, a voz poética afirma: “Podes agora dizer boa-noite, fechar a porta,
apagar a luz”. Essa preparação para dormir sugere a preparação para a morte, pois o trabalho
já fora concluído, e, com modéstia, o poeta oferecera o que “tinha de melhor”. O poema termina
com: “Estamos quites/ tu e eu, teu mais hipócrita leitor”. Há um diálogo entre leitor e poeta. A
expressão “hipócrita leitor” é tomada de Baudelaire, em Fleur du mal: “hypocrite lecteur, mon
semblable, mon frère” (“hipócrita leitor, meu igual, meu irmão”).
Dessa forma, o leitor acaba por identificar-se com o poeta, pois ambos têm aqui a mesma
compreensão de que a obra poética, com tudo que ela contém de vivências pessoais e
coletivas, consiste numa obra de ficção.
ASPECTOS DA SEGUNDA PARTE DO LIVRO: “ODES MÍNIMAS”
A segunda parte do livro, “Odes mínimas”, compõe-se de treze poemas. Nesse grupo,
prevalece o humor e a ironia. Quanto aos temas, há os que:
• abordam aspectos da condição humana: “À minha perna esquerda” e “A um recém-nascido”; •
fazem referência a modos de ser regionais: “Ao compromisso”, “À impropriedade”;
• tratam de objetos contíguos ao poeta: “À bengala”, “Aos óculos”, “À tinta de escrever”;
• dizem respeito ao fazer poético: “À garrafa”, “Ao fósforo”;
• elaboram reflexões sobre a existência: “Ao espelho”;
• criticam a alienação do ser humano: “À televisão”, “Ao shopping center”, “Ao alfinete”.
Na segunda parte, “Odes Mínimas”, focaliza-se a exaltação de coisas simples e rotineiras da
vida. Por outro lado, opera-se em alguns poemas uma forma irônica, uma pseudocelebração. A
glorificação é um aspecto importante de odes tradicionais, mas a exaltação de objetos banais
do cotidiano é característica de poemas do modernismo, como é o caso das odes constantes
deste livro de Paes. No diálogo com a forma clássica, Paes busca e conquista o máximo de
expressão, usando o mínimo de efeitos retóricos.
ANÁLISE DOS POEMAS DA SEGUNDA PARTE: “ODES MÍNIMAS”
“À minha perna esquerda” (fragmento)
Pernas
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar.
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?
Basta uma.
Comentário:
Poema longo, composto de sete partes, com formatos e tamanhos variados de estrofes e
versos (brancos e livres) e alguns recursos gráficos. O acontecimento central dele é a
amputação da perna esquerda de José Paulo Paes. [Em 1986, um acidente circulatório na
perna esquerda do poeta forçou-o a amputar aquela parte de seu corpo.]
No poema, há recriação da expressão “Perna pra que te quero”, que sugere fuga iminente.
Nele, essa expressão modifica-se para “Pernas/ para que vos quero?”, evidenciando a
resignação da voz poética diante do fato inevitável da amputação necessária. Delirante, o eu
poético imagina estar subindo e descendo da cama hospitalar, tais ações são expressas pelas
formas verbais antitéticas “desço” e “subo”, dispostas de maneira sugestiva no branco da
página, à maneira da poesia concreta. O eu poético está muito angustiado e, por breve
momento, não quer aceitar a dura realidade. Em completo desamparo, no entanto, é acolhido
pela mulher amada, Dora. Ele se despede da perna amputada, sem saber para onde ela seria
levada: “cemitério/ ou lata de lixo/ que importa?”. Diz a ela para ficar à espera do restante do
corpo. E busca seguir em frente, numa marcha em que falta a perna esquerda;
esquerda direita
esquerda direita
direita
direita
Nenhuma perna
é eterna.
O eu poético busca consolar a si mesmo, afirmando que nenhuma perna é eterna. Trocadilho
com a expressão do campo jurídico: “nenhuma pena [castigo, suplício] é eterna”. Continua até
o final conversando com sua perna, que se encontra agora separada de seu corpo. Diz que ela
teria “doravante de caminhar sozinha” até o dia do juízo final, dia em que se reencontrarão. A
voz poética isenta a perna amputada da culpa dos maus passos dados em vida. Afirma que os
erros cometidos foram consequência de ter cabeça arrogante, glândulas afoitas e coração
incuravelmente cego. Ao final de tudo, a perna se reintegraria ao corpo para, unidos,
cumprirem a sentença no dia do juízo final. Cabe ainda mais uma observação relevante sobre
esse poema: O poema sobre a amputação constitui, na verdade, um testemunho da integridade
do poeta enquanto ser no mundo. Nisso reside a sua maior ironia, que é um modo de exprimir
a pequenez, a fragilidade, mas também a dignidade de sua condição. Dessa integridade faz
parte ainda o desejo de saber o que nos espera, para o qual falta resposta. (Arrigucci)
“À bengala”
Contigo me faço
pastor do rebanho
de meus próprios passos.
Comentário:
É o poema mais conciso do livro, formado apenas por três versos pentassílabos (redondilhas
menores). A aliteração do fonema “p” enfatiza a ideia do ato de caminhar. A voz poética
conversa com sua bengala, designada pelo pronome pessoal “contigo”, reconhecendo seu
valor. Assim, a bengala deixa de ser um mero objeto do cotidiano. Acompanhado pela bengala,
comparada de modo implícito a um cajado, o eu lírico se faz “pastor do rebanho” de seus
“próprios passos”. Por meio dessa linguagem figurada, exprime uma mudança qualitativa
ocorrida em sua trajetória existencial: agora ele guia (apascenta como um pastor) sua vida (o
rebanho de seus passos). Esse poema segue a ode “À minha perna esquerda”, que aborda a
amputação da perna esquerda de José Paulo Paes. Considerando esse fato biográfico, é
notável o modo não dramático com que Paes trata de sua necessidade de usar bengala.
“Aos óculos”
Só fingem que põem
o mundo ao alcance
dos meus olhos míopes.
Na verdade me exilam
dele com filtrar-lhe
a menor imagem.
Já não vejo as coisas
como são: vejo-as como eles querem
que as veja.
Logo, são eles que veem,
não eu que, mesmo cônscio
do logro, lhes sou grato
por anteciparem em mim
o Édipo curioso
de suas próprias trevas.
Comentário:
Poema composto por cinco estrofes, formadas por versos livres e brancos. Aborda um
aprendizado a partir da ressignificação da utilidade de um objeto trivial. Para a voz poética, os
óculos apenas “fingem” aproximar o mundo dele, porém, o que fazem, de fato, é reduzir o
mundo. Há aqui uma espécie de elogio à miopia, pois graças a ela, o eu poético veria o mundo
de maneira ampliada. Nesse caso, a miopia pode ser interpretada como uma visão de mundo
ampliada, que pode se referir à perspectiva poética. Com os óculos, o eu lírico afirma não ver
as coisas como elas são, mas como os óculos querem que sejam vistas. Ou seja, com um
olhar baseado no senso comum, estereotipado. Apesar de perceber o engano provocado pelos
óculos, o eu lírico sente gratidão, pois isso antecipa nele um conhecimento dos mais
relevantes: o da “cegueira” estrutural do ser humano. Para simbolizar essa inconsciência
inerente aos indivíduos, o mito de Édipo é mencionado no poema.
“À tinta de escrever”
Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhas
mais duradouro o pergaminho
onde pudesses, arte longa em vida breve
inscrever, vitríolo o epigrama, lágrima
a elegia, bronze a epopeia.
Mas já que o duradouro de hoje nem
espera a tinta do jornal secar,
firma, azul, a tua promissória
ao minuto e adeus que agora é tudo História.
Comentário:
Poema composto por três estrofes de quatro versos cada uma. Aborda a questão do tempo e
da efemeridade. A voz poética conversa com a tinta de escrever. A ela, atribui o desgosto por
ter que executar tarefas como “registrar notícia”, “escrever bilhete”, “assinar promissória”. O
desprezo pela escrita de tais tipos de textos advém de serem textos “filhos do momento”, isto é,
fadados ao breve esquecimento. O azul da tinta de escrever é qualificado como fidalgo. Em sua
nobreza, sonha redigir textos de gêneros considerados elevados (epigrama, elegia, epopeia),
pois assim, poderia eternizar-se. Tal anseio por permanência é expresso no célebre aforismo
“arte longa em vida breve” (que pode ser entendido, no contexto do poema, como a vida é
breve, mas a arte de boa qualidade perdura). A conjunção adversativa “mas”, que inicia o
último quarteto, evidencia que o desejo da tinta não irá se realizar. Cabe ao poeta (a tinta de
escrever o representa por relação de contiguidade) resignar-se ao fato de que não há mais
espaço para a escrita artística que aborda temáticas mais densas: “agora tudo é História”.
“Ao compromisso”
Não sou homem de extremos.
Não sou do mais
nem do menos.
Tanto assim que nasci
em Brasília mesmo.
Não no Oiapoque ou no Chuí.
Comentário:
Poema composto por dois tercetos. Nele, o eu poético afirma não ser “homem de extremos” e
expressa essa maneira de ser por meio de lugares pertencentes à geografia brasileira: “Tanto
assim que nasci / em Brasília mesmo. / Não no Oiapoque ou no Chuí”. A ironia aqui consiste no
fato de que a maneira de ser de tal indivíduo revela falta de comprometimento, justamente o
contrário do que indica o título.
“À garrafa”
Contigo adquiro a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.
Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.
Até que, farta da constante
prisão de forma, saltes
da mão para o chão
e te estilhaces, suicida,
numa explosão
de diamantes.
Comentário:
O eu poético dialoga com a garrafa e exprime o que aprende com ela: “Contigo adquiro a
astúcia / de conter e de conter-me. / Teu estreito gargalo / é uma lição de angústia.” Trata-se
de um poema que fala sobre o próprio fazer poético: nesses versos, a lição aprendida é a de
contenção na expressão artística. Nele, há referência à necessidade de grande elaboração da
linguagem poética. No entanto, essa elaboração tem um limite: “Até que, farta da constante /
prisão da forma, saltes / da mão para o chão / e te estilhaces, suicida, / numa explosão de
diamantes”. No próprio fazer poético, surge esse limite e o poema se realiza: torna-se uma
“explosão de diamantes”.
“À televisão”
Teu boletim meteorológico
me diz aqui e agora
se chove ou se faz sol.
Para que ir lá fora?
A comida suculenta
que pões à minha frente
como-a toda com os olhos.
Aposentei os dentes.
Nos dramalhões que encenas
há tamanho poder
de vida que eu próprio
nem me canso em viver.
Guerra, sexo, esporte
- me dás tudo, tudo.
Vou pregar minha porta:
já não preciso do mundo.
Comentário:
Nesse poema, composto por quatro quadras rimadas nos versos pares, a voz poética se dirige
à televisão, referida pelo pronome pessoal de segunda pessoa do singular. A televisão é
apresentada como substituta plena do mundo real, as imagens televisas parecem ao
telespectador melhores do que sua própria vida.
Tal troca do real por imagens ilusórias pode ser interpretada como a alienação do indivíduo na
contemporaneidade. Enfatiza-se a condição de passividade insensata do telespectador, que
abdica totalmente do esforço de viver: “Guerra, sexo, esporte / – me dás tudo, tudo. / Vou
pregar minha porta: / já não preciso do mundo”. Aquele que se contenta apenas com as
imagens, acaba por perder o mundo. Essa ode consiste numa pseudocelebração da televisão,
apresentando caráter irônico.
“Ao shopping center”
Pelos teus círculos
vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.
De elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.
Cada loja é um novo
prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus
nós que por teus círculos
vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liquidação.
Comentário:
Nesse poema, composto por quatro quadras rimadas nos versos pares, a voz poética se dirige
ao shopping center, referido pelo pronome possessivo “teus”. A voz poética, designada pelo
pronome pessoal “nós”, representa os frequentadores do centro de compra, que, como “almas
penadas”, percorrem a esmo o espaço do shopping, representado como círculos infernais.
A prática de consumir é designada de modo depreciativo como condenação eterna. Cada ato
de compra representa um novo suplício, é um processo infindável, pois o desejo dos
consumidores de adquirir coisas nunca é satisfeito: “Por mais que compremos/ estamos
sempre nus”.
Verifica-se, no poema, referências ao simbolismo religioso; a metáfora “Grande Liquidação”,
expressão do campo semântico comercial usada para designar ofertas a preços baixos, conota
a finitude dos consumidores de forma irônica. Essa ode consiste na depreciação de um espaço,
que por contiguidade, representa o “mundo do consumo” em que estamos inseridos na
contemporaneidade.
“A um recém-nascido”
Que bichinho é este
tão tenro
tão frágil
que mal aguenta o peso
do seu próprio nome?
— É o filho do homem.
Que bichinho é este
expulso de um mar
tranquilo, todo seu
que veio ter à praia
do que der e vier?
— É o filho da mulher.
Que bichinho é este
de boca tão pequena
que num instante passa
do sorriso ao bocejo
e dele ao berro enorme?
— É o filho da fome.
Que bichinho é este
que por milagre cessa
o choro assim que pode
mamar numa teta
túrgida, madura?
— É o filho da fartura.
Que bichinho é este
cujos pés, na pressa
de seguir caminho
não param de agitar-se
sequer por um segundo?
— É o filho do mundo.
Que bichinho é este
que estende os braços curtos
como se estivesse
já ao alcance da mão
algum dos sonhos seus?
— É um filho de Deus.
Comentário:
Esse poema encerra o livro. Os versos são dispostos em seis estrofes. Cada uma delas
contém uma interrogação focalizando a condição existencial de um bebê, um “bichinho” que um
dia se tornará homem. O tom da voz poética é de ternura. Depois de cada estrofe, uma
resposta é dada à interrogação feita, à maneira de um refrão, em que se atribui um aspecto
relativo a contingências enfrentas por todo ser humano. No poema, destaca-se a condição
inicial de completo desamparo do recém-nascido. Evidencia-se a sua condição de um ser
expulso (exilado) de um lugar onde estava plenamente acolhido, o ventre materno. Exprimem-
se seus apelos movidos pelo instinto de sobrevivência. Apresenta-se um momento de
saciedade, de satisfação do bebê. Focaliza-se sua pressa em seguir seus próprios caminhos e,
por fim, sua capacidade de sonhar, que é inerente ao ser humano e manifestada desde cedo:
“Que bichinho é este / que estende os braços curtos / como se estivesse/ já ao alcance da mão
/ algum dos sonhos seus? — É um filho de Deus”. A condição existencial do recém-nascido
reporta `a do ser humano: ser nascido desamparado, que, no entanto, adquire autonomia e
capacidade de sonhar e de criar.
Prosas seguidas de odes mínimas é um livro iniciado com um poema que aborda morte e
concluído com um que trata de nascimento. Essa obra de Paes”, “mesmo, ou sobretudo,
quando fala de perdas e mortes, constitui-se numa vigorosa celebração da vida, no que
ela possa conter, sem hierarquia, de irrisório ou grandioso. Persiste sempre o desejo de
que, em meio ao dano, algum saldo sempre seja possível” (Secchin)