Amor e Amizade em Manobra Final
Amor e Amizade em Manobra Final
Manobra Final.
NOTA DA AUTORA
Querido leitor,
Os livros desta série são em sua maioria inspirados em acontecimentos reais
e na vida de pessoas presentes no círculo social da escritora. Por esta razão é
importante informar que esta obra apresenta linguagem imprópria, conteúdos
sensíveis relacionados a crises de ansiedade, doenças graves, além de tratar de
assuntos como abandono familiar.
Caso não se sinta confortável com esses temas, é de minha
responsabilidade pedir que tome os devidos cuidados e avisar que talvez este livro
não seja para você. Quero que se sinta bem ao ler um dos meus livros.
Boa leitura!
Para Kamily, que tornou o meu silêncio um lugar confortável muitas vezes e se
importou o suficiente para ficar nele comigo.
Para todos aqueles que estão se afogando
sem ninguém vê.
PRÓLOGO
LUKE
9 anos.
VERDADE OU MENTIRA?
QUERIDA LIANA
A HONRA EXIGE
O PEQUENO PRÍNCIPE
— Já terminou?
Estamos aqui a um tempão com ela segurando o livro e um cookie com
sorvete na mão, e eu com um caderno e lápis. Não fizemos absolutamente nada
depois da escola, daqui a pouco o céu vai ficar escuro e vou ter que ir embora para
casa. Isso só porque ela tem que terminar de ler.
— Estou quase.
— Está ficando de noite, Hazel, nós nem brincamos hoje. — Resmungo, ela
não responde. — Você nunca lê livros. — Ela engole o último pedaço do biscoito.
— Eu sei, mas a professora nos obrigou a escolher um na biblioteca durante
a aula. Vamos fazer um trabalho depois. — Quase não entendo o que disse com a
boca cheia.
Volto a rabiscar no caderno apoiado nas minhas pernas, deitado no gramado
do quintal atrás da sua casa.
— Não estou entendendo quase nada pra falar a verdade, só peguei esse
por causa que os desenhos são fofos. — Aproveito para escrever na folha de trás e
mostro para ela. — Estou entediado. — Lê o que escrevi em voz alta. — Faltam só
duas páginas.
— Vamos fazer alguma coisa depois? Podíamos jogar Blackjack com a sua
mãe. — Ela dá de ombros.
— Tudo bem.
Deslizo a ponta do lápis, finalizando o segundo desenho em silêncio de
novo. Então lembro que daqui a duas semanas é o aniversário dela de onze anos e
o meu é dez dias depois. Comemoramos todos os anos juntos e não falamos nada
dessa vez. Queria muito que fizéssemos algo com carros.
— Pronto. — Fecha com dez minutos. — Não gostei muito, mas pelo menos
encontrei uma frase favorita. — Balanço o lápis entre os dedos.
— Qual? — Folheia o livro, procurando com os olhos.
— “Que quer dizer ‘cativar’? É algo quase sempre esquecido, disse a
raposa.” — Começa a ler o pedaço de papel. — “Significa ‘criar laços’. Criar laços?,
Exatamente, disse a raposa, tu não és ainda para mim senão um garoto
inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu
também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa
igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade
um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no
mundo...”.
Observo os seus olhos azuis de baixo das lentes redondas permanecerem
fixos no livro aberto que segura, como se as palavras pulassem para fora e
tocassem o seu coração.
— É bem bonito. — Vejo ela pisca uma única vez antes de se virar para mim.
— Também achei. — Volta a encarar as letras de preto até ao ponto de
memoriza-las.
— Qual o nome do livro? — Apenas mostra o nome “O pequeno príncipe”
escrito na capa branca para finalmente o fechar.
— Esse ficou bonito. — Fala, então percebo que está prestando atenção no
meu desenho no caderno.
— Ainda não está tão bom.
Analiso os traços de lápis formando o carro. É o segundo que fiz hoje, tive
que arranjar algo já que Hazel ficou deitada aqui a tarde toda. Depois do
relâmpago McQueen, que não tenho lápis de cor vermelho para pintar agora,
decidi fazer um que eu mesmo inventei, não ficou tão legal, mas falta terminar. Eu
gosto de imaginar carros e corridas no tempo livre, e as folhas dos meus cadernos
já estão acabando.
— Os seus desenhos são sempre bons. O meu preferido continua sendo
aquele que você pintou de roxo. — Passo as folhas até encontrar. Seus dedos
brincam com a minha orelha, sempre tem essa mania. — Quando crescermos, eu
vou ser pilota de aviões. Deve ser muito divertido. — Solto uma risada baixa.
— Acho que seus pés não vão alcançar os pedais. — Cruza os braços.
— Eu sou quase da sua altura. — Murmura.
— Mas eu ainda sou cinco centímetros mais alto.
— Tudo bem, mas vou ser uma ótima pilota do mesmo jeito. — Ajeita os
óculos no nariz. — E você? O que vai ser quando crescer? — Rabisco os cantos
do caderno.
— Não sei. — Curvou as sobrancelhas.
— Não gosta de jogar hóquei?
— Gosto, mas ainda gosto mais dos carros. — Coloco o caderno de lado e
olho para ela. — Queria poder dirigir um.
— Acho que você não deve alcançar os pedais. — Brinca em ironia e
vingança. Ela gargalha, e eu bufo.
— Claro que os meus pés alcançam, sou alto.
— O menino que brigou aquele dia no jogo era maior, por que bateu nele? —
Dou de ombros.
— Ele começou primeiro. — Franze as sobrancelhas, mas aceita a minha
resposta.
— Vamos ser os melhores pilotos de todo o país. — Decreta, cheia de
animação e inteiramente ela. Inteiramente Hazel. Brilhando como as estrelas. —
Você de carro e eu de aviões.
Continuamos deitados com os seus dedos voltando a brincar com a minha
orelha até ouvir sua mãe nos chamar para entrar e avisar que meu pai já estava
me esperando na porta. Quando estou pronto para me deitar na cama de noite
para ir dormir, bato na janela sete vezes, mas Hazel não responde, mesmo que eu
saiba que ouviu. Vejo seu corpo de lado debaixo do cobertor abraçado com o Caro
Capitão, O Capitão um momento antes das luzes do seu quarto se apagarem.
Fico sem entender, mas também não comento nada no outro dia na escola.
11 anos.
MCQUEEN
HAZEL
12 anos.
RESSACA
OLHOS DE CAPITU
LÍRIOS DO CAMPO
Eu vou embora.
Luke ficou três dias sem falar comigo. Sem folhas na janela, sem conversas
no recreio, sem passar a tarde lá em casa, sem noites no telhado. Os três dias
mais difíceis. Sabia que sentiria sua falta, só não sabia que seria tão ruim. É por
saber disso que estou com medo de ir embora. Não quero ir embora.
Assim que tudo ficou bem de novo entre nossa amizade, meus pais
contaram que iriamos mudar de estado. A minha avó ficou doente, muito. Minha
mãe precisa ir cuidar dela, meu avô morreu a anos e não tem ninguém para ajudar
agora. Meu pai conseguiu um bom emprego, arrumamos tudo depois de conseguir
uma casa no bairro perto da casa da minha vó.
Já colocamos todas as caixas no caminhão e estamos terminando de pôr as
últimas coisas no carro. Foram duas semanas tão rápidas que ainda não me dei
conta do quanto isso é horrível. Não vou mais ver Luke, nem o tio Owen. Não
vamos mais conversar pela janela, não vamos mais jogar Blackjack, não vamos
mais ao telhado, nem comer cookies com sorvete e nem estudar juntos. Nunca
mais vou ir a um jogo seu.
Os três dias mais difíceis da minha vida se tornaram uma eternidade.
Fecho a porta do carro e vejo tio Owen parado com a mão no ombro de Luke
na calçada para se despedirem. Minha barriga dói e corro até ele. Prendo os meus
braços ao redor do seu pescoço, quase me jogando em cima dele, porque agora já
está ficando bem mais alto do que eu. Abraço mais forte sentindo seus braços
apertarem as minhas costas.
Meus olhos embaçam por baixo dos óculos, fungo na sua camisa e começo
a acariciar a sua orelha uma última vez. Ele cheira meu cabelo, então percebo que
todos os minutos que passamos juntos ainda não foram os suficientes. Podemos
não ter nos desgrudado desde o dia em que fiquei sabendo que teria que ir embora
sem nenhuma escolha, mas mesmo assim não acho que valorizei cada minuto o
bastante.
Preciso de mais tempo. Não aproveitei o bastante ainda.
— Vou sentir a sua falta. — Sussurro, desenhando círculos atrás da sua
orelha.
— Eu também vou. — Aperto os olhos até a dor na minha barriga passar. Eu
não quero que me solte. Por favor, não me solte. — Melhores amigos para sempre.
— Diz no meu ouvido, baixinho, somente para mim.
— Melhores amigos para sempre. — Concordo, somente para ele também.
Valorizo cada detalhe do nosso abraço. Não quero ir embora. Não quero
viver os piores anos da minha vida longe dele.
Eu deveria ter valorizado mais o nosso tempo juntos. Se eu soubesse que
fosse acabar...
— Hazel... Nós temos que ir agora. — Minha mãe aparece, me arrancando
de perto dele. — Adeus, Owen. — Ela fala logo que ele aparece parado atrás do
Luke. Os dois se olham por pouco tempo em silêncio.
— Adeus, Marjorie.
Gravo a cor dos fios do seu cabelo, o pequeno tom de frieza cinza dos olhos
castanhos claros, a covinha em todas as vezes em que gargalhamos e os traços
duros do seu rosto antes de entrarmos no carro. Não paro de observar os dois na
calçada pelo vidro de trás até quando desaparecem após estarmos longe.
Eu te amo, Luke.
Não quero te esquecer.
Não vou deixar que a minha mente te esqueça.
Você é o meu melhor amigo. Para sempre.
01
LUKE
Atualmente.
Três, dois, um.
Os três começam a falar. Estava gostando muito de todo o silêncio desde
que saímos do racha a meia hora atrás. Em geral, eu não sou o responsável no
grupo por fazer merda, esse papel normalmente fica com o Dylan, que as vezes
reveza com o Nick, e Liam apenas incendeia a fogueira ou dá a receita da merda
para um dos dois fazer. Fico com a parte final de consertar tudo e dizer “eu avisei”.
Só que agora estou do outro lado.
Eles estão dizendo “você vai ser preso” e eu “que se dane”, o que significa
que parece que estamos em um filme de terror. Nunca nesses anos de
universidade com esses caras colocaria a minha mão no fogo apostando que esse
momento chegaria. Não sou o tipo de pessoa que geralmente faz coisas assim, e
eles sabem disso. São meus melhores amigos, moramos juntos, eles me
conhecem muito bem, é por isso que agora não param de falar.
Estamos sentados na mesa no bar do The Five, os três de frente para mim
em uma meia lua enquanto bebo um copo de refrigerante com álcool que o barman
preparou.
— Desde quando você sabe correr? — Dou atenção primeiro a pergunta de
Nick.
— Eu disse que o meu pai trabalha em uma oficina de carros.
Nós já conversamos sobre as nossas famílias, conhecemos os pais um do
outro, mas é claro que não ficamos nesse assunto sempre. É óbvio que não iriam
imaginar que foi por isso que acabei gostando mais e mais de carros, nunca
comentei muito com eles.
— E o que isso tem com você correr? — Cruza os braços.
— Sempre gostei de carros e aprendi tudo com ele, eu gostava de ir na
oficina em que trabalha.
— Foi por isso que vendeu a sua queridinha moto? — Liam fala, levando a
sua latinha de refrigerante até a boca.
— Era uma boa oportunidade. — Dou de ombros. Posso nunca ter deixado
claro o quanto sou apaixonado pelo o que eu faço, mas como eu disse... eles me
conhecem.
— Não tem medo de perder o seu carro?
— Não. Evito apostar o carro. — Tombo a cabeça para trás.
— Já perdeu alguma vez a corrida? — Dylan enche a mão de batata com
queijo que está em cima da mesa. Levanto a cabeça e o encaro, sem deixar de
estar ofendido.
Não posso brigar com eles por fazerem perguntas assim. Guardei isso esse
tempo todo porque não tinha certeza se daria certo, e eu queria de verdade que
desse. Foi algo planejado. E não os culpo por serem idiotas as vezes.
— Sim, quando estava no ensino médio. — Eles fecham a matraca.
Tinha prometido a mim mesmo que não correria mais depois que fosse para
a faculdade, Cameron também concordou. Era a nossa promessa. Nós
aproveitamos todas as chances enquanto estávamos no colégio, briguei muito com
o meu pai naqueles anos. Mudamos de ideia recentemente quando passamos a
sentir falta, muita falta.
— Pode ir preso, e sua ficha não vai ficar limpa depois. — Liam afirma, com
o seu famoso tom e olhar sérios.
— Relaxa, fazia isso antes. Ninguém vai me pegar. — Se entreolham.
— Tá bom, só não esquece que estamos nessa junto. — Nesse instante a
nossa frase ecoa na minha mente em automático.
Se um está fodido, todos nós estamos também.
— Quando é o próximo? — Pergunta Dylan antes de terminar o seu copo.
— Tem um evento de drift que participo amanhã, mas os rachas não são
todos. Hoje fui só porque precisaram.
Consigo entende-los, não é todo dia que você descobre que um dos seus
melhores amigos está participando de corridas clandestinas. É comum a
preocupação, mesmo que eu a ache exagerada, e o mínimo que deveria fazer é
agradecer por se importarem.
— Podem parar de encher o saco agora? — Essa é a maneira que digo
obrigado por não pararem de fazer perguntas.
— Depende. — Nick dá de ombros. — Você vai deixar a gente dar uma volta
no seu Skyline?
… 🏒🏒 … 🏒🏒 … 🏒🏒 ...
Meu celular vibra no assento do carro pela quinta vez, que garoto
impaciente. Deixo apenas uma única mão no volante e atendo.
— Já estou chegando, cara, tem como você parar de me ligar?
— Só falta você. — Resmunga, então desligo sem dizer mais nada.
Chego minutos mais tarde no kartódromo visualizando o carro cinza de
Cameron parado ao lado do laranja com preto de Naomi e do verde de Zac,
esperando o meu para começarmos a noite.
Hoje nós vamos fazer drift, mas sem deixar de correr.
Existem eventos em uma cidade próxima em que moro, organizados para
competições de drift. As pessoas pagam e nós corremos em uma pista estreita e
formada por curvas enquanto deslizamos com os carros. Quem for melhor, fica
com o maior cachê, mas sempre recebemos uma porcentagem. Não é muito
divulgado, então são quase sempre o mesmo público. A menos que você conheça
as pessoas certas ou descubra. São legalizados, é o que importa.
— Pensei que estava esperando que a gente fosse te buscar em casa. — Os
olhos azuis e os fios escuros do cabelo do meu amigo de infância é o primeiro a
me notar, encostado no carro.
— Ou talvez você seja prematuro. — Ele sorri aberto para o meu comentário.
Durante todo esse tempo, nós nunca perdemos o contato. A amizade
continua a mesma, ainda que não nos falamos com frequência. Não trocamos
muitas mensagens, conversamos só aqui já que estudamos em faculdades
diferentes. O que realmente vale é que sabemos que podemos contar um com o
outro.
Ele que me colocou em tudo isso. Sempre soube conhecer as pessoas, ao
contrário de mim. Pensei duas vezes antes de aceitar, mesmo que no fundo eu
soubesse desde o início que não iria conseguir recusar. Eu amo correr.
— Podia ter se perdido no caminho. — Naomi murmura, com os braços
cruzados cobertos de tatuagem, igual todas as outras vezes em uma voz
ironicamente cheia de amor.
Ela é impiedosa atrás do volante. Considero todos eles bons, posso me
considerar o melhor, mas tenho medo de todos, principalmente dela. Não porque a
ache boa demais, isso está mais para Cameron, nós dirigimos parecido. Tenho
medo porque ela não tem quando está em alta velocidade.
É uma competidora forte e perigosa nos dois sentidos.
— Também é bom te ver. — Os olhos escuros repuxados dela me encaram
com tédio.
— Podemos andar logo? Está quase na hora. — Zac, o mais novo, com os
cabelos ruivos bagunçados e os olhos verdes com o rosto cheio de sardas abre a
porta do carro, nos aguardando.
De nós quatro, acho que ele é o único que teria chance e talento para seguir
essa vida. Se quisesse de verdade e tivesse a oportunidade necessária, tenho uma
boa certeza de que seria um bom piloto. Mas como toda estrelinha, ele precisa de
um mestre, alguém para ensiná-lo. Graças a Deus não vai ser eu.
O seu único defeito é que se perde na pista, talvez seja porque é cauteloso
demais. Suas curvas não são tão boas. Falta algo para aprender.
— Tudo bem, pirralho.
Cada um entra no seu carro e nos posicionamos em duplas, dois na frente e
dois atrás. Observo a multidão em pé e sentada ao redor da pista, ansiosos pelo
barulho do motor e cheiro de borracha. Fecho os olhos, me preparando. A ponta do
meu pé pesa no pedal, fazendo o meu carro ranger igual uma canção de ninar para
os meus ouvidos.
Imagina a rota, sente o carro e deixa correr.
Velocidade. Respire velocidade.
Abro e piso no acelerador. Puxo o freio de mão, deslizando o pneu na
primeira curva a frente de Zac, o carro gira aos poucos ao se aproximar da
segunda. Mantenho o controle e sinto a adrenalina cobrir o meu corpo a todo o
momento. A sensação é a mesma de voar sem paraquedas, como se viver não
fosse o bastante.
Estou chegando na metade das curvas assim que sou obrigado a afundar o
pé no freio antes que atropele a pessoa perdida no meio da pista. Não uma
pessoa, uma garota parada bem no meio. Em uma fração de segundos consigo
evitar usar meu celular para chamar uma ambulância, mesmo que eu esteja muito
puto agora por estar estragando a minha corrida.
Consigo pensar com mais calma depois de frear o carro praticamente em
cima dela. A primeira coisa que vejo são os seus cabelos lisos escorrendo nos
ombros, estreito o olhar e de longe consigo perceber o azul mar dos seus olhos
redondos. Ela é bonita. Na verdade, parece que tenho a sensação de um dejá vù.
Essa garota lembra muito al...
Não.
Não é ela.
Não. Não. Não.
Analiso mais uma vez, mais outra, e mais uma última. É a Hazel.
Hazel voltou.
Observo o carro verde no retrovisor, estico o corpo, abro a porta do carona e
coloco a cabeça do lado de fora da janela.
— Entra no carro. — Grito pra ela. Olho Zac se aproximando pelo vidro de
trás. Ela ainda não entrou, continua parada no lugar me encarando. — Entra agora!
Acelero de novo assim que bate a porta do carro enquanto coloca o cinto de
segurança. Consigo sentir o seu olhar surpreso em cima de mim. Pessoas se
tornam fantasmas na sua vida depois que passam quase dez anos sem contato.
Foi difícil reconhecer sem os óculos redondos de grau no rosto da época de
criança.
— É bom te ver de novo, Hazel, quer que eu me apresente?
— Não, obrigado, Luke. — Sorriu de canto. — Posso saber por que você
está participando de um evento de drift? — Ainda é do jeito que me lembro.
— Que tal nós conversamos depois que eu ganhar?
02
HAZEL
Meu cérebro virou um sorvete.
Tenho quase certeza disso, porque até nesse momento eu o sinto congelado
na minha cabeça, e só existe um culpado por isso. Luke Coleman.
Sabe o pirralho que era meu melhor amigo? Aquele que eu cresci, que vivia
na minha casa e era meu vizinho? Aquele que eu prometi ser meu melhor amigo
pra sempre, que eu pedi pra perder o meu primeiro beijo e era apaixonada desde
os oito anos? Esse Luke. Incrível como parece que no momento que a minha saúde
mental parece ficar um pouco menos ruim, bem pouco, a vida vem e ferra de novo.
Pelo amor de Deus, ultimamente eu estou sem dinheiro pra terapia. Para de
ser um bolo mal amassado.
Se Naomi não tivesse insistido tanto para ir a ver correr, o que eu nunca
concordei, ainda iríamos ter zero chances de nos reencontrar, mas ela estava no
meu pé a semanas. Eu sabia que não deveria ter ido, e o que eu ganhei com isso?
quase sendo atropelada, descobrindo que quem iria me atropelar é o meu ex
melhor amigo e participando da corrida sem querer.
Ótimo.
Reparo que talvez eu tenha que parar de pensar nisso quando recebo uma
bola na cara no meio do treino. Nem sei porque continuo pensando tanto nesse
assunto, Luke mal deve ter se lembrado da minha existência nos últimos anos, a
última vez que nos vimos tínhamos doze anos.
— Presta atenção! — Naomi grita na beirada da quadra.
Nós somos praticamente melhores amigas, nos conhecemos porque
dividimos o mesmo dormitório para atletas desde o primeiro ano da faculdade. Ela
é a levantadora do nosso time, a responsável por armar os nossos ataques, tem
uma ótima precisão dos passes e no volante também nas horas vagas.
Seu braço é fechado por tatuagens que combinam com o seu humor de um
gato preto ranzinza, mas isso não me impede de gostar dela por perto. Sei que
todos os seus xingamentos são a sua forma de amor. Sua família inteira tem
origem japonesa, ela mesma não liga muito pra isso. A única coisa que tem de lá
são os olhos repuxados.
Sou a oposta da equipe, fico na posição contrária dela, então normalmente
eu ataco, mas também jogo de líbero, depende do dia. No geral, o importante é
estar em quadra, e por mais que na maioria dos dias eu prefira estar no ataque,
salvar a bola tem uma emoção diferente. É por isso que agora estou fazendo
exercício de defesa no treino de vôlei e o motivo de ter levado uma bola na cara
por estar viajando.
O nosso treinador García volta a lançar a bola pra cima de qualquer jeito
pela quadra quando entende que estou finalmente concentrada. Corro para salvar
a primeira, assim que consigo tenho que ir atrás da segunda, depois a terceira e já
começo a ficar ofegante na quarta.
— Isso porra! — Ouço ela gritar de novo.
Caiu no chão na quinta e da mesma forma não deixo que a sexta toque na
quadra. Salvo a sétima com uma única mão, voltando a respirar fundo ao ver que
acabou.
— Fora a bolada, você foi muito bem, fracote. — Aparece em pé do meu
lado, estendendo a mão para me ajudar a levantar. Andamos em direção ao
vestiário enquanto limpo o suor da testa com o braço. — Ainda estava pensando
naquilo? — Não respondo. Infelizmente ela entende o meu silêncio muito bem. —
Pelo amor de Deus, Hazel, deve fazer uns cinco dias já.
— Você ficou me perturbando pra ir. — Murmuro.
— Como eu ia adivinhar que ele era a sua paixonite de infância? — Tive que
contar pra ela toda história depois que sai de dentro do carro de Luke quando
ganhou a corrida de drift. — Você ainda gosta dele?
— Nossa, não! — Aponta o dedo em minha direção.
— Respondeu muito rápido, deve estar mentindo para si mesma.
— Nós ficamos esse tempo todo sem se ver. — Argumento logo em seguida.
Continuamos olhando pra frente sabendo que estamos quase dentro do vestiário.
— Calma, não estou te julgando por não saber que ainda gosta dele. — Faz
uma pausa até que volta a resmungar. — Tinha que ser justo ele? Aquele
merdinha ganha praticamente todas. Detesto ele.
Não duvido nada.
Pelo que eu conhecia, ele é fascinado por carros. Acredito que seu pai
trabalhou na oficina por muitos anos, porque nunca pensava em sair de lá, e isso
provavelmente só contribuiu para sua paixão. Ele tinha um caderno de desenhos
de carros quando éramos crianças.
Com certeza deve ter aprendido tudo o que precisa para montar e desmontar
um de cabeça e ainda dirigir. Senão, deve estar muito perto disso. De acordo com
o mínimo que vi dias atrás, ele não mudou muito.
— Quando vai ser a próxima? — Pergunto no corredor do vestiário.
— Está querendo ir por acaso? — A corto antes mesmo do seu sorriso estar
completo.
— Não, eu ainda te acho maluca por estar nessa. — Revira os olhos.
— Já disse que é tranquilo. Ninguém vai me pegar e nem todas as corridas
são clandestinas. — Concordo assim que passamos pela porta, encontrando com
o resto do time.
Nós temos uma boa união dentro e fora de quadra, mas não somos todas
amigas. O importante é que independente das nossas situações particulares, nós
funcionamos muito bem e sabemos que nas horas que realmente está valendo,
vamos nos encontrar através da bola. Sem falar que se precisarmos de ajuda em
alguma outra coisa, estaremos disponíveis.
Coloco a minha roupa e sei que já está na hora de ir, caso contrário vou
chegar muito tarde.
— Te vejo mais tarde? — Faço que sim para Naomi ao meu lado.
— Vai ficar no dormitório hoje?
— Vou, tenho trabalho da faculdade pra fazer.
Me despeço dela, vou andando até meu pequeno e velho carro que
agradeço muito por ainda não ter estragado. Jogo a bolsa no banco de trás e dou
partida. Normalmente, demoro cerca de duas horas para chegar lá, mas na
velocidade em que estou indo, acho que vou levar mais tempo.
Paro no sinal uma hora e meia depois com as minhas pernas doendo de
tanto cansaço. Meu carro morre quando tento avançar ao ver a cor verde, aperto o
pé no acelerador e giro a chave. Forço por alguns minutos ouvindo um som
estranho vir dele, então percebo a fumaça saindo do motor.
Não, agora não! Por favor!
Droga!
Tinha que ser agora?!
Suspiro, fechando os olhos e vendo o quanto estou ferrada. Extremamente
ferrada. Estou andando sem dinheiro ultimamente, a verdade é que eu nunca
tenho, e preciso muito desse carro. Abro de novo pensando em uma forma de ir
embora daqui, já que os meus planos foram cancelados. Reparo em uma oficina a
alguns metros de onde estou parada. É a sua única saída, Hazel.
Saio de dentro e caminho, atravessando a rua. Vou direto no homem com a
idade na faixa dos trinta anos que está mexendo em um carro levantado no alto. O
lugar é consideravelmente grande, uma oficina comum cheia de equipamentos
espalhados, alguns parecem ser novos. Deve ser boa pela quantidade de carros
ocupando para conserto e está tudo até que bem organizado.
— Posso ajudar? — Vira pra mim quando me repara parada na entrada sem
dizer nada. Limpa as mãos no seu macacão azul sujo ao dar passos na minha
direção.
— Meu carro estragou aqui perto, poderia dar uma olhada? — Ele para e
gira o corpo para o carro um pouco atrás ao seu lado que tem uma pessoa em
baixo, por causa das pernas grandes esticadas que nem tinha visto.
— Luke, pode ir ajudar a moça? — Assim que fala, ele sai debaixo do Opala
preto.
Ele de novo. O meu Luke Coleman.
Está vestindo uma camiseta branca com a parte de cima do macacão caída
na cintura e consigo enxergar claramente tudo que mudou nele nesses anos agora
que estamos na luz do sol. Seus braços estão grandes, marcados por músculos
que fazem meus olhos pularem, igual ao peitoral, e quase posso imaginar um
tanquinho repleto de gominhos.
Os fios de cabelos escuros grossos estão maiores, ainda tem aquela
pequena frieza nos olhos e está mais alto. Bem mais alto do que eu. Me sinto a
menininha de doze anos de novo, principalmente ao ver seu maxilar marcado ao
se aproximar cada vez mais de onde estou.
Acho que me esqueci de como falar.
— Onde está seu carro? — Pisco. Uma, duas vezes.
É só isso que ele vai dizer? Cadê o resto?
Coço a garganta e aponto para fora, então lembro que estou atrapalhando o
seu serviço. Que vergonha, Hazel, fale alguma coisa.
— Parado a alguns metros daqui. — Ele assente. Observo que o cara de
trinta anos continua o que estava fazendo, então giro o corpo, levando Luke até o
carro.
Atravesso novamente a rua, sentindo a sua presença emanando atrás de
mim. Estou andando igual um robô, tenho um bom chute de estar suando também.
Abre o capô assim que paramos de frente, voando fumaça no nosso rosto.
— Provavelmente o filtro de ar está sujo. — Diz, inclinando o corpo e
mexendo nas peças de dentro.
— Isso é muito ruim? — Mordo as unhas da mão direita. Vira sua atenção
pra mim, analisando os braços cruzados na altura do peito, o cabelo preso e o
dedo na minha boca.
— Não. — Tira os olhos de cima de mim. — Não vai ficar tão caro também.
Será que ele conseguiu ouvir o meu suspiro forte de alivio? De nenhuma
forma eu tenho dinheiro para algo caro, dependendo, nem para um barato. A
minha situação financeira está complicada e entrar em uma como essa apenas
piora.
Encaro ele remexendo no meu carro, me distraindo da minha nuvem de
problemas, sem impedir a cosseira de ficar fingindo que nunca fomos melhores
amigos ou do que aconteceu a cinco dias.
— Você trabalha ali a muito tempo? — Pronto, falei. Afasto a mão da boca.
— Desde o início da faculdade. — Responde sem olhar pra mim.
— Está em qual campus?
— Na Mavericks, estudo engenharia mecânica. — O que? Fecha o capô. —
E você?
— Biotecnologia em Stanford, especificamente engenharia genética. —
Aguardo uma reação sua e não gosto ao ver seu pequeno choque. — Por que está
surpreso? — Encosta, cruzando os braços e direcionando os olhos no meu rosto.
— Você parecia odiar essas coisas quando éramos crianças. — Riu um
pouquinho, porque é verdade. A última coisa que queria era ser cientista.
— As paixões mudam. E você ainda odeia hóquei? — Balança a cabeça em
negativo.
— Pegou pesado com a palavra odiar. — Sorri de canto, dando de ombros.
— Jogo no time de hóquei da Mavericks, eu gosto.
A Universidade da Mavericks é a principal rival da galera de Stanford em
várias áreas, entre elas obviamente o esporte. Temos sorte de não terem programa
de vôlei, mas no hóquei eles são os melhores. Não acompanho os times, muito
menos conheço os jogadores, mas quem pratica esporte sempre escuta alguma
coisa. Sem falar que as torcidas de cada uma vivem atentas.
É um dos melhores campos com programas de esporte, além do
investimento anual em outros cursos. Qualquer um sonha com a Mavericks na
época do colegial, claro que se você não quiser ser cientista. Nesse caso, com
certeza vai preferir Stanford. As melhores oportunidades da área estão lá junto aos
laboratórios e professores.
Tudo o que sei sobre eles é pura fofoca e falatório, nunca pisei no campus,
nem assisti a um jogo. Sei que são bons, que a rivalidade é grande e sempre tem
briga e que são populares. Os fãs da NHL dizem que as prováveis futuras estrelas
estão lá, não sei quais exatamente porque não tive curiosidade o suficiente para
procurar. São os atuais campeões do Frozen Flour.
O celular dele toca no momento que estou prestes a continuar a conversa.
Retira do bolso de trás, atendendo.
— Oi. — Não consigo ouvir absolutamente nada da pessoa do outro lado,
mas fico imaginando quem seja quando sorri, aparecendo as suas covinhas na
bochecha.
Quem é? Que saco, não posso perguntar.
Eu amo essas covinhas.
— Sim, senhora. — Ele parece estar se divertindo.
É uma garota, sem dúvidas. O que ele é dela? São namorados? Ficantes?
Ela é muito bonita? Se conhecem há muito tempo?
— Vou ver o que posso fazer. — Murmura entediado, mas claramente ele vai
fazer o que sei lá quem está pedindo. — Tudo bem, tudo bem.
Caramba, nunca foi tão difícil ficar quieta. Desliga, graças a Deus,
desencostando e guardando o celular no bolso.
— Vai demorar quanto tempo pra ficar pronto? — Aperto mais os braços
contra o corpo.
— Não muito, nós te avisamos. — Assinto.
— Tá bom.
Giro de costas e saio andando de volta para a oficina.
Odeio me sentir como aquela menininha.
03
LUKE
Acho que vou pintar a parede do meu quarto de azul.
Ou talvez roxo, ou verde, ou até mesmo rosa. Não sei, tenho que descobrir
ainda. Estou a mais de vinte minutos encarando o teto deitado na cama e por mais
idiotice que seja, ou proibido por causa do aluguel, de repente estou pensando que
não seria tão ruim a ideia.
Fala sério, Luke, pintar a parede?
Tudo o que você fez já é mais do que o suficiente.
Pego o celular na beirada da cama e vejo as horas, tenho muito tempo antes
de ir para o treino. Leio as mensagens de Cameron pela barra de notificações,
decido responder, e quando menos percebo fico encarando o número de celular
salvo nos contatos. Ela deixou na oficina ontem para saber sobre o conserto do
carro.
Hazel voltou.
Uma parte minha ainda não consegue acreditar que após oito anos ela
apareceu quase sendo atropelada meu carro em uma pista de corrida e de novo na
oficina mecânica onde trabalho, como um raio caído do céu. Em todo esse tempo,
tinha certeza que jamais a veria de novo. Fomos melhores amigos de infância,
coisas assim é comum acabarem acontecendo.
Não sabia que sentia tanta falta.
Tudo o que lembrava dela até hoje eram fragmentos dos nossos momentos
crianças, o cheiro de cookies na cozinha da senhora Marjorie, as noites no telhado,
as plaquinhas na janela, alguns dos nossos aniversários, os meus primeiros jogos
de hóquei e também que me senti perdido nos dias seguintes que se mudou.
Nunca tinha caído a ficha em mim que não sentia falta só disso, mas dela também.
Levanto da cama, saiu do quarto digitando na tela do celular e desço as
escadas sem reparar ninguém na sala, apenas a torre de peças de madeira do
Nick em cima da mesa de centro. Meu dedo está prestes a derrubar assim que
ouço a voz na cozinha.
— Faça logo, antes dele sonhar e socar o seu olho. — Encosto, sorrindo
com a sensação de paz ao ver peça por peça bater no vidro.
Entro na cozinha a vendo sentada no banquinho da ilha lendo algum livro no
seu tablet. Beijo o topo da sua cabeça no meio do caminho para abrir a geladeira.
— O que está lendo agora?
— Uma mulher tentando matar seus bebes com um cabide. — Sua extrema
naturalidade não me assusta, só fico preocupado com o quanto provavelmente
deve estar gostando e por não ser uma história de amo fofinha cheia de rosas.
— Cadê os romances? Você não estava lendo um a três dias atrás? —
Fecho a geladeira segurando uma maçã pequena. — E o seu livro favorito é “O
Pequeno Príncipe”. — Mexe os ombros sem desviar os olhos da tela.
— Estou tentando um gênero novo. — Debruço na ilha, mordendo um
pedaço.
— Anna já foi embora?
— Ela não passa à noite durante a semana, esqueceu? — Na verdade, é
difícil ela sequer ficar a noite qualquer dia.
Ela não gosta de dormir aqui, e tenho certeza que pelo Nick ela ficaria todas
as vezes, mas Anna sabe manter os pés no chão. Até hoje, o máximo de noites
que passou foram três.
— Fazia tempo que você também não ficava. — Hawkins não me olha em
nenhum segundo, se estou a irritando, não demonstra, também não me importo.
— Fizemos um acordo de não passarmos dos limites fora dos finais de
semana e feriados, precisamos focar mais.
Pela agenda dos dois que observo, costuma vir aqui duas vezes para passar
algumas horas não só com o Liam, mas todos nós, o que inclui as noites de jogos,
e dorme aos finais de semana. As coisas devem mudar a partir de hoje.
Maya e Anna namoram os meus melhores amigos, foi fácil nos aproximar
delas também. As duas são muito unidas, e ironicamente bem diferentes se você
não parar para reparar demais. Gosto de pensar que se namorar alguém um dia,
vão ser amigas delas e dos caras também, detestaria se não fossem.
— E ele aceitou? — Pela primeira vez, Hawkins desvia a atenção do seu
livro. É explicito o suficiente para eu entender. — É por isso então que anda tão
mal humorado.
— Também percebi. — Fala muito consciente de quem é a culpada.
Mandona.
Desliga o seu míni tablet com o seu livro, as mãos no colo, me olhando
enquanto eu termino de mastigar as últimas mordidas da minha maçã. Sei quais
vão ser as suas próximas palavras e só a consigo lançar uma expressão de tédio.
— Não vou te dar lição de moral. — Se defende. — Você é grandinho, sabe
se cuidar e... é o que tem menos chances de fazer merda dos quatro. — Jogo fora
o carroço no lixo.
— Quer alguma coisa pra comer? — Me esforço para fugir desse mesmo
assunto pela quadragésima vez.
— Por que demorou tanto pra contar? — Viro de volta pra ela. — Sabe o que
eu estava começando a achar? Que você tinha entrado para uma gangue de
assassinos que usam capuz. — Estico a sobrancelha.
— Em que livro você leu isso?
— E importa? Aliás, não cheguei a ler.
— Não contei porque precisava ter certeza que iria me estabelecer nisso
depois de entrar.
— Você ganha dinheiro? — Assinto. — Você aposta? — Movimento a
cabeça de novo. — Você é bom? — Agora a encaro me sentindo insultado, porque
eu estou. Dirigi a minha vida toda, se estou nessa não é porque sou ruim. — Meu
Deus, até você?
Meu celular que tinha colocado no bolso vibra assim que resmunga, destravo
e respondo a mensagem rápido, andando até a porta da frente.
— Tchau, Hawkins.
— Vocês têm treino hoje. — Grita quando estou quase batendo.
— Tenho que resolver um negócio, encontro com eles lá.
Não acredito que dirigi praticamente duas horas para entrar em uma
lanchonete. Vou tentar ser o mais rápido que posso, não quero ouvir mais do que o
necessário de xingamentos do treinador Porter pelo atraso, mas vai ser só dessa
vez, isso não vai acontecer de novo.
Não tem necessidade de eu estar aqui, poderia falar com ela por ligação
mais tarde ou enviar uma mensagem... Estou inventando desculpas sem sentido
para ter dirigido duas horas para falar com ela e chegar atrasado no treino. Ela foi
a minha melhor amiga e teve que ir embora por anos, é normal que eu queira
saber como está... talvez, sermos amigos de novo... não é?
De qualquer forma, estou aqui com objetivos profissionais. Reparo no interior
da lanchonete Dinna’s que Hazel trabalha, as mesas com bancos compridos azuis
e brancos que são meio acolchoados encostados na parede com janelas, uma
estética que dá impressão de ter sido copiada de um filme dos anos noventa de
adolescentes idiotas que se envolvem em um assassinato. É legal.
O lugar não está tão cheio. Sento em um dos bancos no balcão largo de
frente as mesas, onde as atendentes com um uniforme azul de gola branca, botões
e uma saia que vai até a metade da coxa ficam ou passam para pegar os pedidos.
Uma menina baixa de cabelos castanhos e mexas azuis enrolados no topo da
cabeça próximo ao caixa me vê e vem até mim.
— Quer fazer o pedido? — Sorriu pra ela em agradecimento, cruzando os
braços em cima do balcão.
— Obrigado, mas não vou querer nada. — Olho o fundo nas suas costas. —
Você poderia chamar a Hazel, por favor? — Os ombros da garota na minha frente
se encolhem, engolindo em seco e sorrindo de volta.
— Claro, só um minuto.
Desaparece do meu campo de visão atrás do balcão, instantes depois Hazel
surge na minha frente com os cabelos loiros em uma trança de lado, os olhos azuis
e vestindo o uniforme. Fico a analisando um pouco e um pouco mais enquanto
para pra fazer o mesmo do outro lado. Ao mesmo tempo que está diferente, não
mudou em nada.
— Você não usa mais óculos. — Declaro, como se não soubesse disso.
— Passei a usar lentes quando fui pro ensino médio. — Inclina levemente a
cabeça para o lado. Não consigo parar de tentar enxergar tudo o que mudou e o
que conheço que permanece ali.
— Por vontade própria?
— Aproveitei a oportunidade que meus óculos tinham quebrado, mas depois
comprei outro, ainda uso às vezes. — Desvio para o ambiente ao redor.
— Trabalha aqui a muito tempo? — Assente.
— Desde que entrei da Universidade. — Concordei. — O que precisávamos
conversar sobre o carro? — Objetivos profissionais.
— O problema é mesmo o filtro de ar sujo, mas as velas de ignição estão
ficando desgastadas, pode acabar acontecendo o mesmo de novo. Se quiser,
posso trocar. — Hazel abaixa a cabeça, balançando a cada palavra que eu digo, e
continua quando termino. Raciocinando.
— Tudo bem. — Suspira, erguendo de volta. — E quanto vai ficar?
Pela forma como parece morder a pontinha do lábio inferior, os olhos azuis
de mar focados em mim, a postura tensa, está nervosa.
— Só o filtro não vai ficar caro, não precisa trocar as velas agora. — Os seus
dedos começam a bater, mexerem, discretamente no balcão.
— E com as velas?
— Um pouco mais.
— Tá bem. — Balança a cabeça novamente, dizendo mais para ela do que
pra mim. — Consigo pegar umas horas extras, já teria que fazer isso de qualquer
jeito... — Murmura baixinho, falando com si mesma.
— Você sai que horas? — Dirigi os olhos pra mim em choque, se lembrando
que não fui embora.
— Daqui uns vinte minutos.
— Posso dar uma carona. — Dou de ombros. Pensa um pouco.
— Tá bom, obrigada. — Talvez eu esteja imaginando, mas tenho quase
certeza de que seu sorriso agora tem um vislumbre de animação.
O barulho do sino ecoa na lanchonete com clientes novos entrando, ela se
vira, levanta uma parte do balcão e vai atendê-los. Espero sentado até aparecer de
novo e dizer que podemos ir, verifico as horas fazendo um cálculo rápido do quanto
vou demorar para chegar em casa. Entramos no Skyline e começo a dirigir.
— Pode ir por ali. — Aponta no banco do lado. — Moro no dormitório de
atletas. — Atleta? Ela nunca gostou de esportes.
— O que você joga?
— Vôlei.
— Não sabia que tinham programa de vôlei em Stanford.
— É um dos melhores na verdade. — Menos no hóquei.
— Não parecia que você se interessava por isso. — Reparo no seu pequeno
sorriso de canto de olho.
— Eu nem sabia que podia gostar disso. — Solta uma risada baixa. —
Descobri um tempo depois que me mudei. — Franzo as sobrancelhas antes de
virar o rosto rápido pra ela.
— Foi na mesma época que decidiu ser cientista?
— Mais ou menos. — A forma que seu sorriso diminui é tão mínimo que se
ainda não estive prestando atenção, não perceberia. — Uma amiga da escola
acabou me influenciando.
— Fico feliz que desistiu de ser piloto de avião. — Ouço sua risada ao
lembrar do que falávamos quando éramos crianças enquanto me concentro no
volante.
Há uma pausa de silêncio no carro, então sinto seus olhos fixarem em mim
focado na estrada. Não paro para virar pra ela, nem mesmo quando pergunta.
— Por que decidiu participar dessas corridas? — Aperto a nuca com uma
das mãos, deixando apenas a outra conduzir.
— É um dinheiro legal. — Uso a mesma resposta de sempre.
— Como começou? Alguém falou com você?
— Cameron ajudou, ele conversa com muita gente. — Os dois não tiveram
tanto tempo pra se conhecer, mas sei que imagina bem como é. — Eu sempre
gostei de correr. No ensino médio, continuamos estudando juntos e corríamos
sempre que podíamos. Quando chegou a faculdade, nós paramos, acabamos
perdendo um pouco o contato também. Então, voltamos a conversar e sentimos
falta, foi como começou.
— Ele está em qual universidade?
— Acho que Califórnia.
Não temos tempo para conversar mais, porque logo estaciono em frente a
seu dormitório. Segura a maçaneta da porta, antes de descer gira o corpo apenas
o suficiente para me encarar.
— É bom te ver de novo. — As palavras são fracas, parece estar com
vergonha de falar.
— Também é bom te ver. — Sorri em minha direção e salta do carro.
— Nos vemos por aí? — Pergunta antes de fechar, só concordo com a
cabeça, a vendo em seguida se afastar.
Nos vemos por aí, Hazel.
04
HAZEL
Sou muito esquisita.
No começa eu me sentia meio ofendida pelos comentários, como toda a
sociedade e pirâmide universitária nos chama de estranhos e nerds, as piadinhas
assim que passamos, só que depois de passar metade de uma tarde conversando
sobre defuntos de maneira tão natural, animadora e psicopata pensei pela primeira
vez que talvez pudessem estar certos.
Cientistas são mesmo esquisitos. Nós fazemos piadas sem graças de tiozão,
piadas científicas internas que só nós vamos entender e gostamos da maioria das
coisas que alguém comum acharia nojento e chato. Eu não me acho tão esquisita
em comparação aos meus colegas de profissão, existem muitos piores, mas gosto
da minha quantidade de esquisitice.
Tenho orgulho de ser assim, do que eu faço, e não tenho nenhum problema
de ignorar tudo o que falam. Posiciono no microscópio a minha lâmina com a
corrente sanguínea que recolhi de amostra de uma das meninas no laboratório,
ligo a luz, mexo no revólver, colocando a objetiva correta, arrumo a platina e ajusto
o foco pouco a pouco com calma. Microscópios pra mim são os meus preciosos
bebês.
Abro um sorriso bem largo quando vejo o que eu tanto quero, células do
sistema imune. Identifico um por uma delas pelo formato do seu núcleo, encontro
uma muito rosa que corresponde apenas uma porcentagem mínima do corpo
humano, não aguento e tiro uma foto. Bem que eu queria uma amostra de uma
pessoa doente, como malária, mas acho que seria considerado falta de educação
se eu chegasse e disse: “sei que você está mal, mas eu poderia recolher uma
amostra sua?”.
Fico mais um tempo no laboratório, quando vejo que já está no horário, me
desparamento, lavo a mão e ajeito o cabelo antes de sair. Termino de comer,
fechando o vídeo de células natural killer em ação no meu celular. Entro no carro
emprestado de Jennie, uma das garotas que mora no mesmo prédio do meu
dormitório, já que ainda estou sem o meu.
Vou até a oficina que é distante demais. Nem para o meu carro estragar
perto de casa. Pelo menos não precisaria dirigir isso tudo. Luke não está na hora
em que apareço, só Jimmy, o cara de trinta anos que falou comigo aquele dia, e
um outro mais novo. Ele avisa que está quase pronto e que posso buscar amanhã.
Saio dali pensando se todo o dinheiro que tenho na conta vai ser o bastante
para pagar tudo o que preciso esse mês, quantas horas extras vou ter que pegar a
mais e levemente cabisbaixa por ter gastado uma gasolina que nem é minha para
saber que o serviço no meu carro acabou que não foi terminado, de mãos
abanando e continuar a pé.
Vida de adulto é realmente um saco.
Paro no sinal vermelho sentindo os meus ombros pesarem junto com o meu
peito, encosto a cabeça no banco e descanso um minuto. Obrigo o meu cérebro a
voltar a funcionar assim que reparo que conheço o cara no lado da rua, usando
calça jeans e uma camiseta, os cabelos bagunçados e bem alto.
É ele. Tenho certeza que é.
Ele não está sozinho, tem uma garota com ele.
Luke para em frente ao seu carro estacionado, encarando a garota de
cabelos castanhos lisos, alta e um corpo bonito que me dá vontade de me encolher
listando alguma coisa com os dedos das mãos. Continua a ouvindo enquanto
parece argumentar com ele, abre a porta do motorista e chega um momento em
que ele desiste, gira e entrega o que aparenta ser as chaves do seu Skyline.
Ela comemora e ele balança a cabeça em negação, como se estivesse
arrependido. O sinal volta a ficar verde e sou forçada a seguir meu caminho.
Ela é a garota da ligação? Ou são duas diferentes? Eles pareciam próximos,
ele gosta dela? Os dois estão juntos?
Talvez sejam amigos, mas pelo o que conheço Luke, não tem amigas
mulheres. Na infância era só eu. E ele não disse nada que namorava. Óbvio que
ele não disse né, Hazel, vocês mal conversaram.
Guardo essa nuvem no fundo do meu cérebro, mas mesmo assim continua
flutuando dentro de mim ligeiramente. Bato a porta do dormitório, jogando o meu
corpo na cama e verificando as horas. O que eu divido com a Naomi não é
enorme, mas é melhor do que o restante da faculdade, as camas são largas e
cabem duas pessoas, ficam de frente uma pra outra com uma janela no meio com
um armário acolchoado que podemos usar pra sentar.
Também tem mais outros armários para colocar os nossos pertences, duas
mesas de escrivaninha e um frigobar em um lugar relativamente espaçoso. O bom
é que não nos sentimos espremidas em uma lata de sardinha, tem espaço mais do
que o suficiente para nós duas, o que torna tudo bem tranquilo.
Enfio o rosto no travesseiro. Os meus ombros relaxam por um momento e a
minha mente parece fluir um rio de água, até que eles se tensionam de novo.
Acendo o visor do meu celular e clico no número da minha mãe.
Em dois dos toques ouço a voz da April do outro lado.
Isso não é nada bom.
April é a nossa vizinha por bons pequenos anos, desde que nos mudamos
para a nossa cidade atual, deve estar por volta da faixa dos quarenta. Ela
trabalhou por bastante tempo em hospitais e clínicas. Virou uma ótima amiga para
a minha mãe, por isso que não foi muito incômodo aceitar o meu pedido para
cuidar dela quando percebi que não conseguiria sozinha.
Minha mãe está doente, muito. Descobrimos meses depois de eu ter
entrado na faculdade, ficou difícil equilibrar tudo. Perdi provas, fiquei noites sem
dormir e passei a economizar o dinheiro que se tornou pouco para pagar as
minhas despesas mais o tratamento, às vezes ainda tenho que fazer horas extras,
mas no geral consigo ficar bem. Agradeço todos os dias por April me cobrar um
preço amigável pelo serviço.
Visito a minha mãe duas vezes no mês, dependendo, mais. É um gasto
considerável de combustível, mas é necessário, sorte que meu carro ainda
consegue ser econômico. Costumo ligar quase todos os dias da semana, sei que
nas situações que não é ela que atende é porque não está nada bem.
— Oi, April. — Engulo em seco, puxando o ar pelo nariz. — Como está a
minha mãe?
— Oi, Hazie. — Sua voz é tão gentil que esqueço que hoje foi um dos dias
ruins. — Ela está cansada, está deitada na cama agora, mas está tudo bem.
Meu peito dói, tenho a sensação da minha garganta se fechar. Meu cérebro
corre igual a um trem de metrô.
— O corpo dela está doendo? Continua enjoada?
— Só um pouco, mas se alimentou bem. Ela reclamou de dor, então
evitamos de fazer esforço demais. — Assinto com a cabeça.
— Certo. — Tento puxar o ar antes de falar. — Liguei apenas pra saber
como ela está e me desculpar por não conseguir ir essa semana, tive um
imprevisto.
— Tudo bem, eu aviso. — Há uma pausa na ligação, porque não consigo
dizer mais nada.
— Obrigado, April. — Não sei se soou tão sincero quanto eu queria, mas
acho que entendeu.
— Sem problemas. — Posso imaginar o seu sorriso cheio de compaixão no
telefone. — Qualquer coisa eu te ligo, Hazie. — Quero desligar logo.
— Ok.
Agradeço novamente e aperto o botão vermelho, vendo a tela do celular na
minha mão se apagar. Igual a mim.
Sento na cama, encarando o nada enquanto meu coração bate cada vez
mais rápido, cada vez mais forte. Os pensamentos são tão rápidos, mas parece
que estou vivendo cada um deles por uma eternidade. Eles ficam presos dentro da
minha cabeça.
Penso no carro estragado, no quanto de dinheiro vou ter que arrumar para
substituir o valor do conserto, as economias esse mês, em Luke que apareceu de
volta, a ligação de Luke aquele dia, em Luke com aquela garota, na faculdade, nos
jogos de vôlei e na minha mãe doente.
Não consigo mais. Não aguento mais. Não era pra ser assim.
Como vou dar um jeito nisso tudo? Eu estou sozinha. Não tenho ninguém.
Puxo as minhas pernas para cima assim que meus olhos ardem e meu rosto
molha. Aperto forte contra o meu peito a cada batida mais forte e acelerada, e
permaneço encolhida em silêncio no quarto olhando para o nada até passar. Tento
encher meu pulmão de ar ao sentir os portões dele se fechando pra mim, como se
estivesse me enforcando.
Tento respirar uma, duas, três, quatro vezes. Meu coração uma, duas, três,
quatro vezes mais rápido. Fecho os olhos, tentando fazer o trem do meu cérebro
parar. Tenho que me aliviar, tenho que me aliviar... Respire, Hazel, Respire,
Hazel...
Ando para onde guardo as minhas tintas, trago o cavalete para perto da
cama, penduro o primeiro quadro branco que encontro e separo todas as cores e
pincéis que acho que vou usar. Sento na cama de pernas cruzadas, de frente para
o cavalete, começando a fazer a única imagem que vem a minha mente enquanto
meu peito dói acelerado.
Dou a primeira pincelada com a tinta azul; respire, Hazel. Dou a segunda
com outro tom de azul; pare de pensar. Dou a terceira com a cor branca; está tudo
bem. Pare de choramingar. Dou a quarta, a quinta, a sexta instintivamente em
automático até acabar.
Largo o pincel e vejo o quatro completamente pintado na minha frente, um
mar azul com o rosto de uma mulher. Os olhos fechados, o nariz e a boca para
fora, o resto se afundando. Não gosto do resultado das minhas pinturas, mas sou
apegada a cada uma. Essa em específico me faz observar mais um pouco do que
o normal antes de guardar.
Meus olhos estão secos, meu peito não dói e consigo respirar agora. Me
estico na cama para pegar o meu celular, acho que já está na hora de ir para o
Dinna’s para o extra da noite. Coloco o uniforme e saio, deixando o quadro secar.
05
HAZEL
Acho que ainda estou meio drogada de sono.
Trabalhei até às onze na lanchonete, só fui deitar na cama às meia noite e
meia. Dormi o máximo de tempo, que foi até a metade da manhã, então fui
obrigada a simplesmente viver igual o resto dos seres humanos. Sorte que
consegui um breve cochilo após o almoço no limite para voltar de novo ao Dinna’s.
O importante é que de acordo com os meus cálculos, vou ter no meu pagamento o
suficiente para pagar todas as contas.
Enviei mensagem a April hoje, minha mãe acordou melhor, o que me deixou
menos preocupada, ou seja, dois problemas a menos por enquanto. Desço do
carro chamativo da Naomi — que negociei essa carona com bolos e cafés da
manhã por tempo indeterminado — na rua da oficina, eles me avisaram que já
estava pronto.
Caminho para encontrar Luke abaixado de macacão azul sujo de graxa,
mexendo no lugar que seria a roda de um carro assim que entro.
— O Jimmy está? — Ele percebe que estou parada na entrada,
interrompendo o que está fazendo para ficar de pé e limpar as mãos com um pano
que estava no seu bolso de trás.
— Está lá trás na sala. — Aponta com a cabeça sem tirar os olhos de mim.
— Hm... Eu vim buscar o carro. Ele tinha avisado que ficaria pronto hoje. —
Começo a gesticular ao explicar, então enfio as mãos no meu bolso de trás da
calça.
— Seu carro está ali. — Dirigi a atenção pra onde está estacionado na
oficina, voltando logo em seguida para mim, se formando um silêncio tenso. Então
ele solta: — Se preferir, posso pagar pra você.
Ai não! Não, não, não, não! Não acredito! Eu sou uma vergonha.
Fecho os olhos e escondo meu rosto nas mãos enquanto continuo o ouvindo
falar.
— Não tem problema, Hazel, você me devolve quando puder. Não vai me
fazer falta agora. — Faço uma pausa para respirar e abro espaços devagar entre
os meus dedos, o enxergando por ali. Luke sorri, bem pequeninho.
Luke sorriu pra mim, um parecido com aquele seu com covinhas.
— Obrigada, mas está tudo bem. — Assente para a minha voz que soa
abafada. Tiro as mãos do rosto.
— Se quiser falar com o Jimmy, a sala fica por ali. — Aponta com o dedo
dessa vez em direção ao fundo da oficina.
— Obrigada mais uma vez. — Falo em um duplo sentido.
Vejo o homem na faixa de trinta anos para mais ao telefone no momento em
que apareço na porta, deixa que eu entre e logo em seguida que desliga estou
pagando o dinheiro mais desesperador, sentindo uma pontinha do meu peito doer.
Me despeço, agradecendo pelo serviço. A interação é tão rápida quanto é de se
imaginar.
A voz do Luke, mexendo de novo no mesmo carro, me chama a atenção
quando estou passando por ele, indo embora sem dizer absolutamente nenhuma
palavra.
— Está livre hoje? — Vira o rosto pra mim. Abre a boca para se explicar ao
perceber que vou dizer não. Eu deveria dizer não. — Vai ter um negócio mais
fechado lá na minha casa hoje, sem muita gente. — Dá de ombros. — Pode ir
comigo, se quiser.
Pisco, chocada demais. O que é isso? Por que decidiu me chamar? Não
entendo ele. O certo seria responder que não, é longe para eu voltar depois, nem
sei quem são essas pessoas que vão estar lá, mas minha boca não obedece ao
meu cérebro.
— Claro. — Sorriu, o vendo concordar.
— Ainda tenho uns minutos para sair, se importa de esperar? — Balanço
que não.
Encosto no meu carro dentro da oficina e espero, com o meu coração se
agitando igual um tambor idiota. Estou criando expectativas demais para serem
frustradas. Luke é seu ex melhor amigo, só, e te convidou para... para que? Sair
com os amigos dele? Conversar? Passar um tempo? Pare de ficar tão animadinha
igual uma criança apaixonada.
Nós éramos melhores amigos quando crianças, fim de papo, somos colegas
agora que estão tentando ter uma relação legal. Nós mudamos, somos pessoas
diferentes, não é igual mais a nossa infância. Mando uma mensagem para Naomi
avisando que vou chegar mais tarde, sinto o seu olhar sobre mim e levanto o rosto.
— Vamos com o meu carro. — Franzo as sobrancelhas pra ele.
— Mas, e o meu carro?
— Jimmy mora aqui do lado, podemos vir pegar depois. — Penso um pouco,
o encarando aguardar pacientemente. Vou até onde está, ele gira de costas pra
mim e sai da oficina.
O sigo em direção ao seu carro parado, ele dirige após já estarmos os dois
sentados no banco.
— As pessoas que vão está lá, conhece todas elas? — Concorda com os
olhos fixos a sua frente.
— Metade mora comigo, nós dividimos o aluguel da casa.
— Eles são seus amigos? — Faz que não.
— São meus melhores amigos. — Corrigi casualmente, sem piscar. Soou tão
confiante que fico um tempo quieta aderindo a informação.
— Jogam hóquei também? — Volto a perguntar.
— Foi como nos conhecemos. — Ele verifica como estou apenas pelo olhar
de canto. — Não se preocupe, vai gostar deles.
O tempo que demora para chegar é rápido, não deve ter sido mais do que
dez minutos. Não tenho certeza porque depois que parei de falar, fiquei viajando
em um pote de maionese, poderia ter sido tranquilamente sequestrada, não
registrei nada de como parei aqui em frente a uma casa que parece relativamente
grande, maior do que eu esperava.
Reparo em outros dois carros parados bem na entrada. Luke bate na porta e
não sei como, realmente não faço a mínima ideia de como não arregalei os olhos e
meus ombros não despencaram. Eu congelo assim que a mesma menina que vi
com ele naquele dia aparece para atender. Ela é ainda mais bonita de perto.
Perco o completo controle do meu cérebro enquanto acompanho os dois
agirem como um ser humano comum deveria e não igual eu estou.
— É você, achei que fosse a pizza. — É a primeira coisa que diz. A garota
linda-de-morrer percebe que Luke não está sozinho e sorri pra mim, tão receptiva
que me sinto uma rainha má. — Oi, sou a Anna. — Aperto a sua mão estendida.
— Sou a Hazel. — Olha para ele do meu lado por um momento e abre
espaço para entrar.
— Já tá todo mundo aí? — Ele beija o topo da sua cabeça ao passar por ela
de uma forma gentil e cuidadosa, dando um pequeno tapa depois. Os dois se
afastam bem no momento que sinto a minha garganta se fechar mais do que o
normal.
Namorados? Ficantes? Amigos coloridos? Quem ela é?!
— Sim, só faltava você.
Dou de cara com três homens altos, bastante altos, assim que estamos na
cozinha, chamam tanto a atenção que nem reparo nas outras duas pessoas com
eles.
O maior deles tem os fios curtos e loiros, pelo o que vejo, olhos verdes claros
também. O segundo é moreno chocolate, tão bonito que sinto as minhas pernas
ficarem fracas e a uma linha fina de derreterem. Os seus cabelos são escuros com
pequenos cachos e os olhos castanhos claros. O último tem os olhos tão escuros
que aparentam ser pretos e os cabelos lisos castanhos do mesmo tom.
A coisa que mais vejo de comum entre todos eles são os músculos por toda
parte. É impressionante; quatro homens gostosos, bonitos e altos morando juntos.
Acho que deveria ter uma plaquinha na porta avisando que é perigoso a pessoa
parar em uma ambulância.
— A... achei que fosse a pizza. — O loiro murmura decepcionado quando vê
Luke, logo em seguida começando a cutucar o cotovelo na costela do
olhos-castanhos-escuros-quase-pretos do seu lado, focando em mim.
— Por que você está me batendo, caramba?! — O encara fulminante, que
apenas aponta a cabeça na minha direção em uma resposta silenciosa.
Consegue disfarçar, mas por um segundo vejo os seus olhos arregalarem
explicitamente olhando de mim para ele do meu lado. O terceiro,
de-deixar-as-pernas-bambas, vira o rosto para entender o que está acontecendo e
simplesmente congela.
Meu Deus, o que foi? Parece que eu sou a assombração do verão passado.
Espero que parem com isso para que então eu pare de me sentir esquisita.
Uma garota de cabelos cacheados, mais morena, os olhos castanhos em um corpo
atlético, repara nos três.
— Por que estão com essa cara estranha? — Franze as sobrancelhas. Ela
segue a direção que estão encarando fixamente, que sou eu, sussurrando algo que
não escuto para outra menina com a altura menor.
Ela gira o corpo sentado no banco da ilha de costas para nós e abre um
sorriso confortador.
— Ei, sou a Maya. — Cumprimenta. Os seus olhos são de um marrom claro,
como mel, os cabelos são compridos e cacheados nas pontas.
— Hazel. — Engulo em seco, forçando um sorriso animado, ainda me
sentindo esquisita.
— Aquela é a Riley. — Aponta para a outra que sussurrou para ela enquanto
a menina linda-de-morrer da porta, Anna, para ao lado do loiro de olhos verdes e
bate o seu ombro no dele fazendo os três voltarem ao normal.
— E aqueles são Nick, Liam e Dylan. — Luke indica na ordem, o loiro, o
olhos-castanhos-escuros-quase-pretos e o de-deixar-as-pernas-bambas. — São os
meus melhores amigos.
Quantos nomes... Tenho uma memória de peixe, acho que vou por enquanto
chamar esses aí de um, dois e três. Mais fácil.
— Quem disse? — Resmungou imediatamente o terceiro.
— Não me lembro de nada disso, devia estar bêbado. — E depois o
primeiro.
O som da porta nos interrompe e logo Maya vai atender.
— Finalmente, estou morrendo de fome! — Anna tomba a cabeça,
agradecendo aos céus.
Em dois minutos ela volta com cinco caixas de pizza quase não aguentando
de segurar nos braços colocando em cima da ilha da cozinha.
— Cara, vai tomar um banho. — Fala o número dois.
— Não vai comer se estiver fedendo. Já lavou a mão? — O um diz quando
ele abre a torneira da pia e depois se senta no banquinho da ilha.
Luke me olha de pé de cima a baixo. — Não vai sentar? — Observo todos
eles destampando as caixas, pegando os pedaços para comer ao redor da ilha e
me sento do seu lado.
— Ondo você estuda, Hazel? — Ouço a pergunta que acho vir do número
três ao levar uma fatia de pepperoni a boca.
— Standford. — Senhor, acabei de falar de boca cheia. Mamãe iria puxar a
minha orelha agora. Pelo menos eles não parecem se importar.
— Nós estamos nos relacionando com o inimigo. — Usa um tom indignado o
número um, por um momento acredito que cometeram um assassinato. — Tem um
inimigo na nossa casa. — Cochicha para o outro do lado, como se eu não pudesse
ouvir.
— Vocês não cansam de acabar com a nossa reputação. — O três
resmunga. Eu preciso treinar os nomes deles, vai ser vergonhoso se eu acabar
chamando por números.
— Sério? De todas as pessoas tinha que ser alguém da linha inimiga? — O
Liam, que chuto ser o nome do dois, diz. Me sinto saltitar por dentro, mesmo que
uma outra parte fique tímida quando Luke só o encaram cheio de tédio.
— Não acompanho hóquei, nem converso com os caras do time. — Tento
ajudar, mas não sei se funciona muito bem.
— Como vamos saber que não está mentindo?
— E que não vai nos trair?
Mastigo mais dois pedaços de pizza enquanto os escuto e penso em uma
resposta.
— Não sei nenhum nome de um jogador do time, podem perguntar. Todo
mundo sabe que o time de vocês é o melhor, ganharam o último campeonato e
estão indo bem de novo. E nunca assisti um jogo de hóquei inteiro.
— Cox? — Faço que não quando dizem o nome de um deles para ver se
conheço.
— Craig? — Não.
— Patrick? — Não.
Seguro a fatia em uma mão, levanto a outra e falo: — Eu, Hazel Laughlin,
prometo solenemente não cooperar com o lado sombrio da força.
— Acabou de citar Star Wars? — Balanço que sim. Os três se entreolham e
quase que poderia suar frio agora. — Tudo bem, aceitamos você.
— Se sinta bem-vinda na nossa casa, Hazel.
— O que você estuda? — Maya pergunta, próxima a mim.
— Sou cientista, e também jogo no time de vôlei.
Ela fica super animada e descubro que está estudando jornalismo esportivo
na Mavericks, que está sempre assistindo a diferentes esportes. Quando caiu em
mim, já estou envolvida em uma conversa com ela, Anna e Riley. É tão natural que
a sensação é de que fiz isso tantas e tantas vezes que perdi a conta.
Não sei explicar como acontece, mas no fim me sinto inteiramente
confortável no meio deles enquanto acabamos com as fatias de pizzas. Acho que
quase fiz xixi nas calças umas três vezes e minha barriga doeu umas cinco de
tanto rir, além de ouvir dezenas fofocas diferentes do campus. Consigo rápido
demais compreender o porquê Luke os considera seus melhores amigos e
aparenta gostar tanto deles.
Observo Anna jogar as caixas de papelão na lixeira perto da pia e Nick, que
acredito ser o que chamo de número um, beijar o seu ombro ao passar o braço na
sua cintura. Pisco atentamente com uma carranca afundando nas linhas da minha
testa, porque não é possível eu ter a capacidade de ler inúmeras fórmulas
químicas e não entender o que está havendo aqui.
Que? Ela não está com o Luke? Eles meio que não tem uma amizade
colorida? Ou ela namora com o loiro?
— Hora de jogar! — Anuncia Riley, arrancando a minha concentração dos
dois.
— Que tal... revanche no stop? — Maya propõe, mas ninguém se interessa
muito.
— Torre? — Dessa vez quem sugere é Liam.
— Minha torre não é brinquedo para vocês. — Nick revida instantâneo
fazendo careta.
— Cartas. — Falo. — Podemos jogar Blackjack.
— Acho uma boa ideia. — A voz do Luke sentado ao meu lado faz a boca do
meu estômago encher de borboletas e por um segundo eu quase sorrio.
Nós amávamos jogar quando éramos pequenos. Jogávamos todas as
sextas-feiras.
Fico cercada por uma nuvem de nostalgia assim que distribuímos as cartas
para cada um, como se tivesse sido teletransportada para os anos das lembranças
boas na minha memória. Me sinto tão animada que não consigo parar de sorrir.
— Regras. — Diz Maya antes de começarmos.
— Não vale roubar. — Dylan fala a primeira.
— Isso aí é só para o Nick. — Anna provoca logo em seguida, recebendo
uma expressão de “você vai ver”.
— Não vale ficar bravo com ninguém. — Ela continua.
— Nós nunca ficamos. — Responde Liam.
Duas rodadas depois, tenho certeza que eles sempre ficam bravos um com o
outro. Liam já xingou Nick três vezes, Anna e Riley discutiram com Dylan e até
mesmo Luke entrou nessa com Maya, ainda não argumentei com ninguém pra
valer. Agora estamos em um silêncio tenso, duvidando até do mexer da mão dos
nossos adversários.
— Você tá blefando. — Resmunga Anna para Nick quando estamos
finalizando a rodada, cada um com a sua mão.
— Você que deve estar desesperada por perder. — Contesta, sorrindo
presunçoso pra ela. Tenho a sensação que os dois sempre tem essa interação.
— Está apertando o maxilar.
— Hawkins também está mentindo e ninguém está falando nada. Não é
contra as regras.
Ainda bem que não estamos apostando nada.
— Eu não estou não. — Revida indignada.
— Suas expressões são péssimas, tampinha. — Verdade, elas são. Não
precisa a conhecer muito tempo para saber que é expressiva.
O round termina e Luke ganha, pela terceira vez seguida. Ele fez Blackjack,
é como se nós estivéssemos sendo os fantoches toda vez.
— Tem como você parar de ganhar? — Rosno. Eu sabia que ele iria ganhar,
mas precisava ser todas?!
— Deveria estar acostumada. — Sorri de lado pra mim. Borboletas surgem
na boca do meu estômago de novo.
— Cara, você nasceu com a bunda virada pra lua? — A voz de Liam corta as
lembranças da menininha de nove anos que jogava cartas fim de tarde.
— Não, eu sou só bom. — Balançou os ombros. — Vocês reclamam demais.
— Idiotinha. — Luke mostra o dedo do meio e beija pra ele.
Por algumas horas, sentada entre eles, tudo parece estar bem. Eu não me
matei de trabalhar em horas extras, meu carro não estragou, a minha mãe não
está doente e a faculdade não está me amassando em uma prensa. É exatamente
como suspirar de alívio.
Tudo está mais do que bem.
06
LUKE
Ela não para de rir.
Tinha me esquecido o quanto a gargalhada dela é boa de ouvir. Está rindo
tanto que tem alguns momentos que leva a mão a barriga de dor e eu acho que vai
fazer xixi nas calças. Devem fazer mais de duas horas que estamos aqui em casa,
e fazem quase duas horas que praticamente revivi os vagos momentos que a vi tão
feliz.
Lembro que quando estudávamos juntos, todos os dias eu sentava na
mesma mesa com ela no intervalo para não ficar sozinha, porque na época não
tinha nenhuma amiga além da Sara. Não sei se hoje em dia é diferente, a única
coisa que eu sei nesse momento é que gosto muito de ver Hazel feliz,
principalmente no meio dos meus melhores amigos.
Estou evitando ver as horas de propósito, porque eu sei que se ver, vou ser
obrigado a avisar que tem que ir embora para não chegar tão tarde em casa, e sei
muito bem que ela não quer. Pela maneira que está se divertindo, sei que não quer
que a noite acabe ainda. Ou nunca.
— Isso é horrível. — Nick murmura para o desenho do Liam no papel colado
na parede. Eu espero que o dono nunca descubra as coisas que fazemos aqui e
nos expulse.
Nós paramos de jogar Blackjack a meia hora atrás, quando tudo pareceu
começar a sair do controle e nossa amizade correr risco grandes. A cada noite de
jogos, nós ficamos pior.
— Cara, você não sabe fazer nem um boneco de palitinho?! — Aponta Dylan
puto sentado no chão.
— Tenho quase certeza de que fiquei cego.
— Vou enfiar isso no seu olho se não parar de encher a merda do meu saco.
— Ameaça, o que é o mesmo que nada pra mim.
— Depois eu que deixo as pessoas em coma. — Nicolas volta a falar. Ele
está de sacanagem. Podemos ser agressivos no gelo e algumas vezes fora, se for
necessário, mas ele? Está mais para um lobo em caça.
— E é mesmo. — Afirma Dylan enquanto Liam nos olha, aguardando.
— Nunca fiz nada perto disso. — Cruza os braços, igual um desentendido.
— Falou o que quebrou o maxilar de alguém.
— E o dente. — Completo.
— Sempre tenho bons motivos. — Balançou os ombros sem se abalar
nenhum pouco, com a risada da Hazel bem no fundo da nossa conversa.
— A Cinderela, a Branca de neve e a Pocahontas acabaram? — Liam
resmungou com o braço encostado na parede.
— Quem que você está chamando de Cinderela? — Verifico de relance ela
sentada no sofá ao lado da Maya nos observando com a mão na boca,
aumentando o volume das suas risadas na sala.
— Eu prefiro a Bela.
— Eu que sou a Bela — Revida pra mim.
— Não, você pode ficar com a... Mia do “Diário de uma Princesa”. — Revira
os olhos para o Dylan. — O que foi? É um filme clássico.
Nós jogamos o terceiro round do jogo, meninos contra meninas. Agora que
Hazel está aqui, os números estão divididos de forma justa. O que não é uma coisa
boa. Nada boa. Porque as chances de travarmos uma guerra civil no meio da sala
são maiores. Eu não estou brincando; da maneira que estamos gritando, temos
sorte da casa estar inteira e nenhum vizinho ter batido na porta.
— Uma casa com balões voando. — Hazel balança a cabeça em negativo
em pé ao lado do papel deslizando o canetão para a tentativa de Anna.
— Um canguru com uma bola de basquete! — Assim que Riley fala, ela se
anima, levantando as mãos para bater com cada uma das meninas.
— Tem certeza que não é um elefante? — A pergunta vem de Liam,
observando o desenho sentado no chão próximo ao sofá.
— Ainda acho que é uma senhora atravessando a rua de bengala. — Nick
diz confiante, mesmo que claramente o desenho não tenha nada haver.
Não precisaram nem de três tentativas para acertar. Essa foi a rodada que
acabou mais rápido de todas, os nossos desenhos são de ter pesadelos e assustar
criancinhas em comparação. Enquanto o dela parece ter sido feito por Da Vinci, o
nosso parece ter sido por alguém no maternal. Chega a ser ridículo.
Nós vamos passar a perder pelo resto da vida.
A vejo pegar o celular guardado no bolso quando se afasta um pouco das
três e seu sorriso de segundos atrás se desmanchar como poeira, desligando a
tela. Então sei exatamente o que vem a seguir, o fim. A noite acabou.
— Tenho que ir, já deu a minha hora. — Avisa, encolhendo os ombros.
Se despede um por um com o mesmo sorriso no rosto. Acompanho ela até a
porta e depois até a oficina para buscar o seu carro, como tínhamos combinado.
Estamos chegando no instante que finalmente quebra o silêncio desconfortável
que ficou durante o caminho inteiro.
— Obrigado por ter me convidado. — Viro o rosto para ela. Não parece ser
um simples obrigado.
— Não foi nada.
— Não, sério... eles são legais. — Abaixa a cabeça, brincando com os dedos
da mão no colo.
Não tenho tempo de responder, porque logo estou estacionando. Nós
seguimos para a parte dos fundos, parando em frente a porta. Tiro uma chave do
bolso que peguei emprestado com Jimmy antes de sair, encaixo e abro. Ligo a
lanterna do celular para procurar o interruptor. Acendo as luzes e vou direto atrás
da chave do seu carro na sala de escritório.
Ouço o barulho da porta batendo com força enquanto estou mexendo no
porta chaves de madeira pendurado na parede, preciso de apenas dez segundos
para entender o tamanho da merda que acabou de acontecer.
— Luke, a porta não abre. — A voz dela soa desesperada na entrada,
tentando empurrar com a mão na maçaneta.
— Eu sei. — Ela para, franzindo as sobrancelhas. — Só abre com a chave.
A chave que está do lado de fora.
Pela expressão no seu rosto, sei que entendeu o que não estou dizendo.
Nós estamos presos.
— O que vamos fazer? Não posso ficar presa aqui. — Retiro o meu celular
do bolso de novo.
— Tem outra chave com o Jimmy, vou tentar ligar. — Clico no nome dele nos
meus contatos. A ligação cai no segundo toque; tento de novo, e cai no primeiro
dessa vez. Envio uma mensagem, mas provavelmente devo estar sem internet,
porque não chega pra ele. — Ele não atende e a mensagem não carregou.
— Meu celular está sem sinal. — Diz encarando a tela na sua mão. Seus
ombros despencam, decepcionada e desesperada. — Não tem outro jeito?
— A chave da frente fica na casa dele e a porta está estrag... — Paro,
raciocinando, se isso der certo, vou dar umas cinco torres de peças diferentes para
o Nick. — Tem algum clip no seu carro?
— O que? Pra que?
Destranco a porta do motorista e procuro nos compartimentos qualquer coisa
que possa funcionar, um cartão velho ou uma presilha de cabelo. Nada. Então vou
de novo a sala de Jimmy, remexendo nas gavetas e acho, um único clip. Faço com
que se encaixe na fechadura e tento girar.
— O que está fazendo?
— Nick sabe abrir portas. — Respondo, vendo suas sobrancelhas esticarem
pra cima. — Tentou explicar pra gente, mas essa é a primeira vez que estou
fazendo.
Nunca mais vou rir daquele desgraçado por saber fazer essas coisas.
Fico tanto tempo ajoelhado no chão que eles começam a doer, só para
conseguir lembrar que nunca vai dar certo enquanto estiver a chave no outro lado.
É inútil.
— Desculpe, Hazel. — Largo o clip no chão, me sentando. Acompanho ela
fazer o mesmo, puxando as pernas para si e escondendo o rosto, se encolhendo
em um casulo.
Verifico as horas, faltam meia hora para as onze, mas pelo o que conheço,
sei que são pequenas as chances de retornar a mensagem ou a ligação agora. É
bem provável que vamos passar a noite toda aqui.
— Jimmy mora aqui perto, deve vir logo de manhã. — Não diz nada. Então,
eu olho em volta. — Acho que não é bom nós ficarmos sentados nesse chão. —
Digo já levantando e andando até a porta da frente do banco ao lado do motorista.
Encosto, colocando os braços no teto, aguardando os seus olhos azuis se
erguerem para mim. Eles cedem, mas com os braços tampando o resto do rosto,
aparecendo apenas metade deles. Seu corpo se levanta do chão, indo para o lado
do motorista com a porta aberta. Entro logo depois dela.
— Como Nick aprendeu? — Pergunta, abaixando o banco e se deitando
virada de frente para mim com uma mão debaixo da cabeça como travesseiro.
— O irmão dele ensinou quando era adolescente. — Também abaixo o meu
banco e deito para ficar de frente para ela.
— Por que? — Não gosto de mentir, e sempre detestei mentir para Hazel,
mas Nicolas é o meu melhor amigo.
— Ele achava que fosse precisar.
— Acho que ele estava certo. — Sorri um pouco menos triste do que antes.
Graças a Deus já estamos fazendo piada disso.
— Nick aprendeu a falar em código morse também. — Suas sobrancelhas
levantam levemente. Não é todo dia que você tem amigos que façam isso.
— Como se aproximou tanto deles?
— Nós nos juntamos no primeiro treino de hóquei na Mavericks. Estávamos
precisando de um lugar para morar na época. — Dei de ombros. — Só...
funcionou.
— E as meninas?
— Maya começou a namorar Liam no segundo ano, Riley já dividia o
apartamento com ela. Anna é a melhor amiga dela desde os treze, mas só se
mudou pra cá ano passado, faz poucos meses que está com o Nick. — Uma
expressão surpresa preenche instantaneamente seu rosto. Ela congela, e então,
fico sem entender nada. — O que foi?
— Anna namora o Nick? — Assinto. Ela pisca duas vezes, desviando de
mim. — Achei que... que... — Quando não consegue terminar de falar, seus olhos
voltam em minha direção de novo e é como se eles me dissessem.
Puta que pariu.
Balanço a cabeça em negação, quase querendo rir de nervoso. Ela achava
mesmo que eu estava com Anna? Nós dois juntos? Ela achava que eu gostava
dela? A ideia é tão absurda que chega a ser nojento.
— Não, não, de jeito nenhum. — Não consigo evitar de fazer uma careta.
Rapidamente sua risada preenche o carro e não consigo me conter também. —
Somos todos melhores amigos. Elas são praticamente irmãs pra mim. — Acho que
não consegui esconder o tom absurdo na minha voz.
Eu e Anna? Absolutamente não.
— Desculpe, só pareceu que... — Ela se encolhe no banco com um
pouquinho de vergonha. — ... vocês eram muito próximos depois da ligação
naquele dia. — Claro, o dia que atendi o celular depois de ver o seu carro.
— Maya que me ligou, ela queria que eu prometesse que iria ajudar ela em
algo da faculdade e levar para ver drift. — Um sorriso permanece nos seus lábios.
— Desculpe.
— Tudo bem. — Seus olhos azuis me analisam antes de falar.
— Eles realmente são importantes pra você, não é?
— Tem momentos que eu me esqueço que eles me conhecem tão bem,
mais do que eu deixo. — Abaixo a voz na última parte, e lembro o quanto Maya,
Anna e Riley estão dentro disso também. — Nós quatro faríamos qualquer coisa
para proteger o outro.
O silêncio surge entre nós de novo. Aproveito para fazer o meu cérebro
acreditar que Hazel realmente está de volta, deitada de frente pra mim dentro de
um carro. Após tantos anos, você acaba aprendendo a sua costumar com a
ausência. Quando não precisa mais, a sensação é estranha o bastante pra
decifrar.
— É tão ruim assim passar a noite presa aqui?
— Tenho treino de vôlei amanhã, aula de laboratório e ainda tenho que ir
trabalhar na lanchonete à tarde, então...
— Como aguenta fazer isso tudo?
— Sei lá. — Faz uma pausa. — Às vezes é bom ter uma rotina agitada. Eu
preciso de dinheiro para pagar as contas e preciso me dedicar pra não perder a
bolsa.
— Achei que não se interessava por esportes.
— E não mesmo. — Suspira. — Depois que me mudei, as coisas ficaram
difíceis. Era tudo novo e diferente. Tudo tinha mudado. Estava vivendo um dos
piores dias da minha vida quando apenas me sentei no sofá na sala, liguei a tv no
primeiro canal e assisti ao jogo de vôlei que estava passando. Foi como se tudo
tivesse ficado calmo. Uns dias depois uma amiga me chamou pra jogar no time
dela e nunca mais quis parar. Se tornou a minha rota de fuga.
Não falo nada imediatamente, fico gravando as suas palavras na minha
cabeça. Pensando quantos dias difíceis ela teve e quão difíceis quis dizer.
— Sinto muito. — Não sei, mas por algum motivo tenho a necessidade de
dizer isso olhando bem no fundo dos seus olhos.
— Não tem porquê. — Balançou os ombros, desviando o olhar de mim de
novo.
— Eu sentia a sua falta — Admito, trazendo o seu foco de volta em minha
direção. — Principalmente nos meus aniversários.
— Eu também. Não comemorei mais nenhum deles. — Ela sorri grande, mas
não some com o peso pairando sobre nós. — Foram os piores anos da minha vida
sem você, Luke. Não deixei nenhum dia que a minha mente te esquecesse.
Nem eu, Hazel.
— Foram os anos mais difíceis para mim também. — Suspiro. — Às vezes
eu ficava pensando como teria sido se você nunca tivesse ido embora, o que
estaríamos fazendo.
— Essa é fácil. — Diz, sorrindo grande de novo. — Jogaríamos Blackjack
toda sexta-feira e nos tornaríamos piloto de carro e avião. — Nós dois rimos juntos.
Com certeza as coisas teriam saído diferente, e só de pensar um pouquinho
nisso, ainda que difícil, eu agradeço por ter sido exatamente como foi. Não teria o
meu grupo se não fosse.
Hazel boceja, esticando a boca na minha cara. Sorriu para a sensação de
nostalgia para todas as vezes que fez exatamente igual no telhado ou na janela do
quarto.
— Vou jogar na sexta-feira. — Isso faz com que preste um pouco mais de
atenção em mim do que nos seus olhos pesando. — Você poderia ir, as meninas
podem passar para te buscar de carro e eu te levo depois. — Assente.
— Estou apenas descansando os olhos. — Grunhi ao fechar os olhos com a
necessidade de se explicar. Nós ficamos em silêncio até que ela me chama. —
Luke, promete que vamos ser amigos de novo? — Prometo.
— Nós já somos. — Somos melhores amigos.
— Ótimo, porque eu ainda gosto muito de você. — A observo cair no sono.
— Também gosto muito de você, Hazel. — Abaixo o tom de voz, quase em
um sussurro. — Você ainda é importante pra mim.
Não sei se ela escuta a última parte, já que não diz mais nada e aparenta
realmente estar dormindo.
07
HAZEL
Estou vivendo o filme: “de volta ao passado”.
Ou seria: “de volta ao futuro?”, não sei, nunca assisti na minha vida. O que
eu sei é que estou em um looping infinito de dejá vù. Se eu acreditasse que
cientificamente é possível criar uma máquina do tempo, com certeza acharia que
acabei de usar uma agora.
Estou caminhando para o estádio de hóquei da Mavericks ao lado de Anna,
Maya e Riley e só consigo pensar nisso. Pensar que nos últimos dias estou
constantemente revivendo a menininha de nove anos dentro de mim. A cada
situação que vivenciei na semana que passou, me sentia ser teletransportada para
a época que comia cookies com sorvete, fugia para o telhado a noite e tudo era
melhor. Cada situação relembrava uma memória.
Igual agora.
Se a Hazel de doze anos me visse neste momento, sua mente entraria em
colapso ao perceber que estamos indo assistir ao jogo de hóquei do Luke, mais
uma vez, como os velhos tempos, como deveria ser sempre. Estou tão animada
que a todo instante giro a cabeça para conseguir absorver tudo o que eu quero
deste momento e do campus da Mavericks que eu não vou poder explorar com
calma hoje.
Eu sei que toda a parte dentro de mim que quer ir dando pulinhos de alegria
até a arquibancada é a Hazel de doze anos, é ela que não deixa o sorriso de um
canto da orelha ao outro desaparecer. As pessoas devem estar olhando para mim
assustadas. Pelo amor de Deus, se controle.
Eu sempre passo vergonha.
Fico impressionada com a estrutura assim que entramos. É enorme. Sabia
que os atletas daqui tinham ótimos equipamentos e instalações, mas é
completamente diferente quando se está vendo na sua frente. As meninas
disseram que chegamos em um bom horário, então conseguimos escolher os
nossos lugares tranquilamente na torcida deles.
Nós passamos o trajeto inteiro conversando sem parar, sabia que
poderíamos nos dar bem, só não esperava que iria ser rápido. O que é bom,
porque estou bem mais à vontade sozinha com elas agora do que no início.
Conforme falamos como o costume uma com as outras sentadas, fico surpresa
com a torcida preenchendo o estádio.
E ainda mais quando o time entra no rinque, fazendo um show e incendiando
a arquibancada. Nunca vou deixar de amar as torcidas universitárias.
O jogo começa e já sinto toda a adrenalina junta e emoção de estar aqui
ocuparem o meu sangue. Procuro Luke no meio dos jogadores no gelo e o vejo
próximo ao gol com o taco na mão, espero para conseguir memorizar o número da
sua Jersey.
Vinte e nove.
Luke usa a 29.
Pode parar, Hazel, não invente coisas agora.
Não entendo muito como funciona e quais são as regras do jogo, mas as
meninas me ajudam quando eu pergunto ou simplesmente quando reparam que
estou perdidamente confusa. Meus olhos não desviam nenhum minuto deles no
gelo, a forma que jogam é eletrizante. O meu sangue corre cada vez mais rápido e
todas as vezes que a equipe adversária ataca, a impressão que tenho é que meu
coração vai parar.
O primeiro período é tranquilo, mas tenso o tempo inteiro. Os jogadores da
Mavericks são esmagados contra o vidro de proteção muitas vezes, e me pergunto
se sou eu que não estou acostumada com isso ou são eles que não tem piedade
de ninguém. Por enquanto foram apenas três faltas, mas não duvido nada das
penalidades aumentarem em breve.
É difícil saber quem está melhor, a Mavericks ataca e, em seguida, o time
adversário puxa o contra-ataque. Graças a uma jogada criada por Liam
repassando o disco entre dois jogadores para outro de cabelos escuros que não
sei o nome, estamos na frente no placar por um a zero.
Quando chegamos na metade da partida, a equipe de fora empata tocando o
disco tão rápido que parece que eu apenas pisquei. Mal deu tempo de prever tudo
dando errado. Agora faltam três minutos pra sair para o intervalo. Os jogadores da
Mavericks estão na zona de ataque, rondando o gol. Estou tão agoniada que quero
gritar para acabarem com isso logo.
Nick dá uma pancada em um jogador do time contrário, me obrigando a
deixar para depois o fato do tamanho da sua força. A sobra do disco cai para Luke
que joga para o cara que não-sei-o-nome-de-cabelos-escuros que tacar para
dentro da rede, acendendo a luz um minuto antes do som sinalizando que o
segundo período acabou.
A Mavericks sai para o intervalo com dois a um no placar. Posso imaginar as
minhas pernas me agradecendo por finalmente sentar, o alívio que eu sinto me diz
isso.
— Nick sempre é... — Viro para elas do meu lado.
— Meio bruto? — Anna deduz o que quero dizer. Eu assinto. — A maioria
das vezes.
Dylan e Luke tiveram muito mais confrontos com o corpo durante o jogo até
aqui, mas nas três vezes que Nick fez isso foi de sentir dor pelo cara. De verdade,
por alguns momentos eu me esqueci que ele era o mesmo que conheci dias atrás
na cozinha da sua casa que fazia piadinhas o tempo todo. E não sei como pude
cogitar que Anna estaria com Luke, desde que descobri só consigo olhar para eles
e pensar que fui muito lerda.
Os times voltam rápido para o gelo e iniciar o terceiro período. Não sei nada
sobre tática ou técnica de hóquei, mas estou realmente acreditando quando todos
dizem que eles são bons. Jogam de maneira fria, concentrados a cada tacada,
como se soubessem exatamente o que seus adversários vão fazer e esperassem
por isso.
Procuro sempre por Luke no rinque usando patins e vestindo a vinte e nove
nas costas. Os fios do seu cabelo escuro e grosso saem um pouco pra fora do
capacete e seu olhar é daqueles que falam: “não brinque comigo”, quase como se
toda aquela pequena frieza em seus olhos o dominassem. Ele comanda toda e
qualquer área do gelo em que está. Seus movimentos são precisos e controlados.
A equipe visitante luta para alcançar um empate, pelo o que entendi,
precisam disso para continuarem vivos na competição, mas ele e Dylan
permanecem sólidos na defesa. Se posicionam na sua zona de ataque, criando
tentativas de converter o gol, mas o goleiro da Maves usa as pernas para defender.
O som do meu coração batendo forte preencher os meus ouvidos a cada vez
que verifico o cronômetro.
Luke briga pelo disco, ganhando e repassando para Liam que corre sobre os
patins. Usa a parede do rinque para fazer com que o disco chegue até Nick do
outro lado, marcado por um jogador contrário, mas que não o impede de fazer a
tacada no cantinho da rede. A luz acende de novo junto a atmosfera do estádio.
Todos os torcedores comemoram enchendo o estádio de gritos de alívio e emoção.
Abraço as meninas, pulando na arquibancada de uma maneira louca,
literalmente. Nunca senti uma adrenalina tão grande. Por fim, o jogo terminou
quatro a dois.
Uma boa partida de hóquei para relembrar os velhos tempos.
Acompanho elas para o lado de fora para podermos esperar os garotos
saírem do vestiário com o time. Por alguma razão mínima, fico nervosa. Não perco
muito tempo com isso, logo vejo um bando de homens altos e de certo modo
grandes aparecerem.
Grande parte dos jogadores do time param para falar com as três paradas
ao meu lado, eles me cumprimentam e... só, logo estão caminhando cada um para
uma direção para o estacionamento. Restam somente nós e os quatro.
Os olhos dele caem em mim e vejo os cantinhos do seu lábio repuxar bem
pequenininho em minha direção. Então ele faz uma coisa que eu não esperava
nem nos meus maiores sonhos, ele me abraça.
Abrace ele de volta, Hazel! Anda logo!
— Você veio. — Cochicha, os braços apertando timidamente as minhas
costas.
— Você pediu.
Mesmo eu detestando ficar presa aquela noite na oficina, repetiria de novo
se fosse preciso. É quase como se a nossa amizade tivesse voltado um pouco
mais ao normal de como era, e como eu queria que tivesse sido todos esses anos.
Jimmy realmente apareceu logo pela manhã bem cedo, igual tinha dito, portanto
não tive problemas, além de um cansaço imenso durante o dia.
Mas do jeito que estou andando cansada, uma noite dessas foi mais do que
boa, foi ótima. Assim como os jogos.
— Foi muito bem no jogo. — Falo assim que nos afastamos.
— Sou melhor dirigindo. — Bufo, mesmo com um pequeno sorriso. — Você
sabe que não estou mentindo. — Talvez.
— Ei, vamos?! A galera toda já tá indo. — Dylan chama a nossa atenção.
— Ir aonde?
— Nós comemoramos todo pós-jogo. — Luke me responde, fixando os olhos
no meu rosto.
— Principalmente as vitórias. — Ele, de novo, acrescenta.
Festa? Agora? A essa hora?
— Posso te levar em casa antes de ir, não é problema. — Luke oferece,
claramente não querendo jogar uma pressão em mim.
— Vai abandonar na melhor parte? — Ele lança um olhar fulminante para
Dylan.
— Não gosto muito de festa, mas as vezes até que é divertido. — Maya
tenta ajudar no meu dilema. — Você pode conhecer todo mundo.
Observo cada um deles, um por um, até parar nele a minha frente ainda me
encarando tranquilo, paciente.
— Posso te levar na hora que quiser ir embora. — Diz, me instigando mais.
Não frequento muitas festas, porque simplesmente não tenho círculo social
suficiente pra tornar isso frequente.
Não vou chegar muito tarde? E se achar um enorme arrependimento? É,
mas eu estou merecendo me divertir um pouco.
Quebro toda a minha batalha interna ao meio, escolhendo a minha resposta.
— Tudo bem.
08
LUKE
Meu cérebro está explodindo.
Sei que o seu corpo não sai de perto do meu assim que vou entrando na
fraternidade sem nem precisar olhar para trás. O meu passado e o meu presente
se tornaram uma coisa só na minha cabeça, a sensação é a mesma se dois
mundos completamente diferentes se unissem e explodissem juntos. Uma esfera
chocando com a outra.
Crio um caminho pela multidão de pessoas com copos na mão se
espremendo em um único quadrado em meio ao som alto de pulsar os ouvidos.
Algumas nos encaram, ou me encaram, enquanto vou andando até o espaço que
nós normalmente ficamos. Desvio para uma área mais isolada, já vim tantas vezes
aqui que sei exatamente onde fica cada lugar.
Jason está fazendo dupla com Payback e Brandon com Nate do outro lado
da mesa cheia de copos. Reconheço os rostos do resto do time ao redor,
acompanhando a partida, bebendo e jogando conversa fora, inclusive os meus
amigos. Finalmente verifico ela parada do meu lado, perdida, mas animada. Hoje
vou tomar o cuidado de não tirar os olhos dela.
Ouço a voz do meu pai sussurrando no meu ouvido, a honra exige.
— O bostinha chegou. — Brandon é o primeiro que repara em nós,
segurando a bolinha de beer pong na mão. — Oi, bostinha. — Cantarola. Jason
agradece sua distração, porque isso lhe dá a brecha perfeita para alcançar a
vitória.
— Obrigado, bundão! — Comemora levantando a mão para bater com
Payback. Ele tomba a cabeça, resmungando, mostrando o dedo do meio e depois
virando para mim.
— Você que foi otário. — Murmuro. Percebo os olhos deles recaírem para
ela do meu lado, aguardando que eu fale alguma coisa. — Essa é a Hazel.
— Oi, pessoal. — Sorri, acenando tímido.
— E aí, Hazel?! — Respondem, usando outras variações parecidas.
— Agora você vai fazer parte da linhagem real da elite? — Levando um copo
a boca, Payback pergunta e tenho vontade de o mandar a merda.
— O que? — Faz uma careta franzindo as sobrancelhas.
— Meu Deus, tentem não assusta-la.
Liam nos chama, onde organizou vários copinhos de shots. Nós formamos
uma rodinha, cada um segurando o seu, todos do time cheios de agitação. Após a
vitória de hoje, sei que vão cair de beber.
Começamos a temporada com um arrombo no time, os primeiros jogos
foram uma grande merda. Se colocassem o primário contra a gente, teríamos
perdido de três a zero. Foi tenebroso, mas agora estamos a alguns jogos do
Frozen Flour e com as ótimas vitórias que tivemos, estamos confiantes que o
campeonato é nosso de novo. E se fizermos isso, vamos ficar na memória por um
bom tempo.
Antes de Liam fazer o seu discurso de capitão gritando por cima da música,
quero virar para Hazel e dizer que não precisa beber se quiser, mas ela ergue o
copo no alto com uma expectativa que não quero atrapalhar.
— Queria dizer que estou orgulhoso do nosso trabalho em equipe durante a
temporada, por terem se esforçado ao máximo e acreditarem até o fim. Nós somos
os Mavericks, vamos com tudo. Aproveitem a noite, sem extrapolar, e foco total na
final.
Depois de brindarmos, nós viramos os shots. Alguns engolem, soltando um
“Mavericks!” fazendo o resto se animar e repetir, os outros caem na risada. Quando
sentamos um ao lado do outro, inclino um pouco o corpo para que ela consiga
ouvir a minha voz.
— Se não estiver gostando e quiser ir embora, é só me avisar. — Concorda
sorrindo com um mínimo brilho nos olhos por causa do álcool.
Por favor, não me diga que Hazel é mole pra bebida, ou que nunca fez isso.
— Estou achando divertido. A festa de vocês consegue ser melhor que as de
lá.
— Você costuma sempre ir?
— Não, fico meio perdida sem ninguém.
— E a Naomi?
— Ela é um pouco mal humorada para festas. Às vezes nós vamos juntas, é
legal, só que tudo pra mim parece ser quase o mesmo. Não tenho círculo social o
bastante pra essas coisas. — Assinto.
— Vocês são muito próximas? — Balança a cabeça.
— Nós dividimos o dormitório e jogamos juntas no time de vôlei, acabamos
nos aproximando. Gosto de como é a nossa amizade. Ela é a melhor pessoa que
eu tenho. Não conheço muitas pessoas, igual a você. — Provoca por fim. Coço a
nuca.
— Todos do time são meio que amigos, nós nos damos muito bem, é quase
uma família de idiotas. — Ela solta uma risada. Posso ter falado brincando, mas é
verdade.
— O nosso time não tem isso. — Abaixa levemente a cabeça. — Somos
apenas colegas que sabem que se precisar, nós podemos pedir ajuda. — Diz, sem
se incomodar, levantando para olhar pra mim novamente.
— Você gosta mesmo de jogar vôlei? — Analiso a expressão no seu rosto e
sei a sua resposta antes mesmo de dizer.
— Acho que, talvez, poderia fazer isso pelo resto da vida. — Fala de um
modo que é como se todas as estrelas que existem brilhassem em todo canto.
— Quando é o jogo de vocês?
— Daqui alguns dias, estamos treinando para os playoffs.
— Hazel. — A voz de Liam corta a nossa conversa do outro lado da mesa de
beer pong, prestes a começar uma partida contra Jason e agora Peter. — Quer
jogar?
Seus olhos passeiam pela mesa de beer pong, os copos, Liam e a bolinha
na sua mão. Um sorriso empolgante cresce no seu rosto, em questão de segundos
está pronta para jogar em pé do lado dele. Volto para Maya conversando com Nick,
da mesma forma que Anna está gargalhando com Dylan do outro lado do espaço
que estamos.
— Não está preocupada? — Aponto na direção dele em frente a vários
copos de cerveja. Hawkins simplesmente me encara e dá de ombros.
Hazel está por minha conta hoje, e não faço a mínima ideia se é fraca pra
bebida, se nunca bebeu ou faz isso tão raramente que é quase considerada uma
virgem de álcool ou se é uma bêbada que vira copos até cair no chão.
Independente de qual seja, quero que se divirta, ainda que tenha que ficar sem
piscar os olhos um minuto a noite inteira.
— Sou só a namorada dele, não a mãe da Rapunzel.
— O que aconteceu com você? — Sorrio ao ver seus olhos revirarem.
Aponto em sua direção. — Vai ter que achar outra carona hoje.
— Agora você está sendo a mãe da Rapunzel. — Acusa com seu tom de voz
indignado.
— Seria mais fácil se aprendesse a dirigir sabia?
— Eu posso dirigir. — Riley oferece do meu lado, consigo ouvir o suspirar de
alivio de Hawkins.
— Não veio com o seu carro? — Faz que não.
— Peguei carona. — Ela vira o líquido do copo na boca.
— Está parada aqui a noite toda? — Pergunto, porque quando se convive
com certa frequência com alguém, é quase impossível não aprender sobre ela. E
sei que nós dois podemos ser parecidos em muitos sentidos.
— Joguei uma partida assim que cheguei. — Passeio os meus olhos no
ambiente ao redor e paro nela de novo.
— Podemos dançar se quiser. — Maneia a cabeça, considerando por um
momento, mas descartando a ideia.
— Estou bem por enquanto. — Tira a concentração de cima de mim para
seguir a direção que estou atento. — Conheceu ela como? — Volto pra ela.
— Somos amigos de infância. — Pela sua expressão, acho que acabei de
quebrar alguma caixa na sua cabeça.
— E...? — Ergue a sobrancelha em sugestão.
— Mais nada. Só tínhamos perdido o contato, mas agora estamos nos
aproximando de novo. — Olha pra mim e depois volta-se pra Hazel tentando
acertar uma bolinha no copo de Jason e Peter.
— Tá bom. — A fico encarando. Então ela sente e inclina em minha direção.
— Ei, eu não disse nada. — Estende o copo de cerveja, me oferecendo. Eu aceito
e nós passamos a dividi-lo.
É comum todo pós-jogo ter uma festa, na derrota ou na vitória. Às vezes
vamos para alguma que tenha no campus em uma das fraternidades ou para o The
Five que é o ponto de encontro dos estudantes da Mavericks. Diferente do que
normalmente é, sou obrigado a me impedir de estreitar os olhos para ter certeza
que o que estou vendo na minha frente não é uma alucinação.
Em nenhum sonho que tive até hoje, Hazel estava jogando beer pong com
um dos meus melhores amigos contra os caras do meu time em um pós-jogo que
ela também foi. Não sou um cara burro com a mente devagar, só que isso está
sendo um pouco surreal para acompanhar.
Ela levanta as mãos sorrindo animadamente para bater com Liam em
comemoração assim que acerta uma bolinha. Contei uns três copos que bebeu até
agora e parece estar se divertindo muito com a quantidade de gargalhas que deu.
Sorte que não está reparando em todas as mulheres meio sedentas demais
rodeando a mesa tentando despertar o interesse dos caras. É difícil lembrar a
última vez que alguma delas me interessou de verdade, na minha cabeça elas já
estão se tornando as mesmas.
O meu cérebro entra em alerta vermelho quando ela vira o quinto copo, mas
Riley decide finalmente dançar e não quero que vá sozinha. Sei que Liam vai ficar
de olho nela, por isso apenas aviso para onde estou indo caso precise de mim.
Não sou o melhor nisso, nem muita fã, mas me esforço ao balançar o meu corpo
de um modo que seja engraçado para fazer Riley rir e se sentir confortável.
Dá certo, porque logo está fazendo o mesmo entre as suas risadas altas.
Seguro a sua mão e a giro entre o formigueiro de pessoas dançando. Pela primeira
vez ela aparenta estar realmente gostando da noite. Nós continuamos assim até
que eu percebo alguém cutucar as minhas costas. Viro e vejo ser Hazel com,
agora, aquele brilho nos seus olhos do início da festa mais intenso.
Droga, ela só pode estar bêbada.
— Acho melhor eu ir embora, deve estar ficando tarde. — Grita por cima do
barulho da pista improvisada de dança. Eu assinto.
— Tudo bem, eu te levo.
— Vou ao banheiro antes, sabe onde fica?
— No corredor à direita. — Concorda e saí.
Me despeço de Riley e do resto da galera enquanto aguardo ela reaparecer,
mas isso não acontece após alguns minutos, nem depois de dez ou quinze. É
quando decido sair procurando pela casa.
Droga, Luke, não deveria ter deixado beber aquilo tudo. Provavelmente deve
estar passando mal ou perdida.
Merda, você prometeu que não deixaria ela sozinha.
Se algo acontecer, a culpa é sua.
Caramba, preciso encontrar ela agora!
Saiu abrindo todas as portas, uma por uma, que se dane privacidade.
Confiro em todos os cômodos do andar de baixo, o quintal e pergunto se a viram
antes de subir para o segundo. Ignoro os dois casais que deparo transando sem
pedir desculpas. Estou pensando em fazer um boletim de ocorrência ao entrar no
quinto quarto e a encontrar saindo do banheiro da suíte.
— Achei que tinha se perdido. — Demonstro uma fina linha de desespero na
voz.
— O banheiro de baixo estava ocupado, então sai procurando por outro. — A
minha expressão deve estar muito ruim, por causa do modo que seus ombros se
encolhem em seguida, arrependida. — Foi mal. — Se desculpa timidamente.
Balanço a cabeça, não era essa a intenção, não era para ficar com vergonha. —
Obrigado, tinha muito tempo que não fazia isso. — Cruzo os braços, sem entender
droga nenhuma.
Ela sempre vai ficar me agradecendo? Qual é?!
— Fazia o que?
— Relaxar, me divertir de verdade. — Se senta na beirada da cama.
Hazel não parece bêbada o suficiente para duvidar de tudo o que está
falando. Não aparenta agir igual uma louca, nem que vai vomitar, muito menos está
falando arrastado. Somente está com os olhos iguais vagalumes, super solta,
confortável e extremamente feliz. Não a vi misturar bebidas, foi apenas vários
copos de cerveja a noite inteira. Não tem com o que se preocupar.
— Tem dias que fico tão exausta que quero apenas usar alguém. —
Continua. Ela suspira, tombando o corpo na cama. — Não no mal sentido, é que...
queria ter uma pessoa para os momentos que preciso só me encolher nos braços,
igual uma criança, entende? Sem complicações e tudo mais. Como um acordo
usado para o benefício de ambos. — Apoia as mãos na barriga. Deita o rosto de
lado para conseguir manter a atenção em mim que estou em silêncio. — Desculpa,
sei que é muito errado.
É um pensamento completamente egoísta, seria ridículo também aceitar
uma coisa dessas, mas se ela ou qualquer outra garota importante na minha vida
precisasse de ajuda, e fosse necessário concordar com uma ideia maluca como
essa para que acreditasse que não estou brincando ao dizer que me importo e me
preocupo, eu toparia.
— Eu aceitaria esse acordo. — Digo casualmente, encostando as costas na
porta fechada. Ela começa a rir, muito.
— Está falando sério? — Pergunta, escondendo a boca com a mão e o rosto
vermelho de tanto ri.
— Estou. — Afirmo, sem mostrar um pingo de incerteza. Prende a risada,
sem acreditar, quando vê que não estou sendo irônico.
— Devo avisar que tem muitas chances de dar tudo errado? — Mantém um
sorriso sarcástico.
Certeza que agora eu estou alucinando. Possivelmente estou pirando muito
para conversar sobre um assunto desse.
Nunca vi Hazel de maneira diferente, nós crescemos juntos, temos foto dos
dois recém-nascidos na banheira tomando banho na sua casa. Acho que a gente
tem capacidade de deixar tudo como está, sem mudar a nossa amizade e sem nos
apaixonarmos.
— Não tem como ter certeza. — Enrugou a testa.
— Por que está falando isso? É quase impossível não acontecer, você sabe
que é verdade.
— Bom, então, eu prometo não me apaixonar e não deixar dar tudo errado.
— Abro um sorriso de lado.
— Duvido. — Retruca, lançando uma risada cheia de ironia. Muito
engraçadinha, querida Hazie.
— É uma aposta? — Estreito os olhos.
— Não sei, é? — A respondo erguendo a mão em juramento igual a um
tribunal.
— Eu prometo cumprir todas as cláusulas da aposta/acordo idiota e fazer
Hazel Laughlin não se apaixonar por mim. — Estala a linda no céu da boca,
achando graça desse diálogo puramente idiota antes de erguer a mão em
juramento igual a mim.
— Prometo cumprir todas as cláusulas da aposta/acordo idiota e fazer Luke
Coleman não apaixonar por mim.
Nós abaixamos, vou até a mesa de escrivaninha, começando a procurar pelo
quarto um papel e uma caneta.
— O que vamos ganhar com isso? — Dou de ombros de costas pra ela, sei
que seus olhos estão me observando.
— O que quisermos decidir depois.
Anoto todas as cláusulas que acho que são necessárias e que vai concordar,
mas deixo um espaço por precaução caso outra hora nós mudemos de ideia ou
decidirmos que queremos acrescentar outra. Faço uma linha com o meu nome em
baixo e outra com o seu. Assino e estendo pra ela.
— Assinar? — Assinto, a vendo se sentar de volta com sono. Está achando
isso tudo ridículo.
Eu também, mas espero não repensar e concluir que é uma ideia ainda
mais horrível que já acho mais tarde.
— Se você se esquecer, quero ter uma prova pra amanhã. — Segura a
caneta, encarando o papel durante um bom tempo antes de assinar.
— Não devíamos fazer isso.
— Não. — Falo instantaneamente. Nenhum ser humano normal faria. —
Foca no acordo, tudo bem? Vamos nos ajudar, se algo acabar acontecendo... —
Respiro fundo. — Nós pensamos nisso depois.
Acho que agora nós somos de novo aquelas duas crianças de onze anos.
09
HAZEL
Não quero abrir os olhos.
Um fino fio de consciência no fundo do meu cérebro é mais do que o
suficiente para me convencer que não quero acordar e muito menos levantar da
cama. Não me lembrava de achar o meu colchão e o cobertor de baixo de mim tão
macios quanto hoje, parece que eu estou deitada nas nuvens. Com certeza um dos
melhores sonos em meses, mas sei que a partir do instante que abrir os olhos,
tudo vai acabar e vou ficar cega.
É exatamente o que acontece assim que meus olhos encaram a luz. Por um
momento, que devo acrescentar que é enorme, eu tenho certeza que vou ficar
cega, ainda mais ao sentir uma pontada de dor de cabeça me perfurar. Odeio!
Espero todos os meus neurônios pararem de correr, pegar fogo na minha mente e
iniciarem o seu trabalho.
Só depois que percebo que não estou no meu quarto e essa não é a minha
cama. Verifico as minhas roupas automaticamente, são as mesmas de ontem.
Graças a Deus, ainda estou com elas. Nada aconteceu. Estou segura. Então me
lembro da festa, o beer pong, vários copos de cerveja, o banheiro, Luke, o
contrato.
A não, não, não, não!
A maior vergonha da minha vida!
Meu Deus, Hazel, o que deu em você? O que você fez?
Meus olhos percorrem o quarto ao meu redor. A cama que agora estou
sentada é gigante, devem caber umas cinco de mim aqui; o restante não é nada de
muito diferente, uma mesa extensa com papéis espalhados em cima, gavetas em
baixo e uma cadeira giratória preta e um lugar onde provavelmente guarda as
roupas. A não ser pela parede decorada com várias prateleiras cheias de carrinhos
de brinquedo.
São muitas cores, alguns são comuns, mas outros? Tenho certeza que
devem ter valido metade de um salário meu. São um pouco maiores, carros
específicos; consigo identificar uns de fórmula um, Skyline, mais antigos, modelos
da Ferrari, Porshe, Aston Martin, um Dodge Charger e até mesmo umas motos
perdidas no meio. É óbvio que ele coleciona. Quanto de dinheiro ele gasta nisso?
Paro de xeretar e vejo uma folha de papel e uma caneta em cima do único
cômodo menor ao lado da cama junto a uma luminária e o que parece ser um
projetor. Meus olhos se arregalam e quero cavar uma toca de coelho e enfiar a
minha cabeça a cada palavra que eu leio.
Acordo/Aposta idiota
Cláusulas:
- Proibido envolvimento da família;
- Proibido compromisso;
- Sem exclusividade;
- Sem sentimentos;
- O primeiro a se apaixonar, perde.
LUKE
Acho que Hazel Laughlin é uma mentirosa.
Reli aquele contrato/aposta tantas vezes que memorizei, qualquer brecha
que a minha mente encontra, começa a recitar de novo cláusula por cláusula. A
última que ela mesmo escreveu, as palavras batem na minha cabeça: “sem beijos
ou sexo”. Não acredito que achou preciso colocar como uma regra. É claro que não
iríamos fazer nenhuma variação disso, é por causa disso que escrevi “sem
exclusividade” para que não se sentisse presa.
Meus olhos pularam com as letras cursivas no papel, o problema é que não
consegui chegar à conclusão se entrei em choque por ser bom ou ruim. Tinha
nenhuma expectativa de algo acontecer, iria complicar muito as coisas e a aposta;
uma parte de mim se sente meio mortificado por ela imaginar que teria um risco
entre a gente; a outra parecia que tinha perdido o chão sob os meus pés.
Independente, nunca fantasiei isso com Hazel e seria difícil começar agora.
Estou acreditando que não vai levar todo esse negócio a sério, ainda que tenha a
feito prometer. Acho tudo uma enorme idiotice, mas estou tentando me convencer
que vou ajudar ela de alguma forma que também não vou entender, e quero que
me deixe fazer isso. Por todos os anos de amizade que ficamos separados.
— Se você derrubar a minha torre, vou encher a porra do seu quarto com
urubu. — Resmunga fuzilando o meu pé descansando em cima da mesa de centro
da sala, perto demais das suas peças de madeira.
— Vai limpar a bunda. — Respondo concentrado em finalizar o segundo
desenho no meu caderno.
Isso é uma das minhas principais paixões desde que aprendi a segurar um
lápis na mão. Os carros fazem o meu coração vibrar, e é o que mais amo fazer,
pensar, criar, mas nunca consegui viver só disso. Não consigo ignorar todas as
outras coisas que me fascinam. É por todas as paixões no meu caminho que me
fizeram chegar onde eu estou e ser quem eu sou.
Quando o caos me assombra ao meu redor e paredes invisíveis parecem me
pressionar, deito na minha cama, pego um lápis e deslizo no papel, e é o mesmo
que deitar na grama verde e respirar ar fresco. Uma única puxada de fôlego. O
único lugar que posso vomitar sem me preocupar.
— Alguém vai pra festa na Hangman? Quero carona. — Dylan pergunta sem
piscar encarando a tv enquanto movimenta os dedos no controle do videogame.
— Não.
— Estou fora. — Gritou Liam da cozinha.
— Vou terminar de planejar o pedido hoje.
— Pelo amor de Deus, aquele tanto de roupa não já foi um pedido?! —
Pausa o videogame, murmurando indignado para Nick e depois para mim. — Só
falta você arrumar uma.
— Cara, no dia que você se arrastar por uma mulher e parar com essa
merda, nunca mais vou deixar de encher o seu saco.
— Vai ser o melhor dia da minha vida. — Adiciono. Ele olha para nós quieto
por um momento, então balança a cabeça, girando o corpo de volta para frente no
sofá e despausa o jogo.
— Calem a boca. — Resmunga baixinho, fazendo exatamente o que estava
a segundos atrás. Nunca muda. — Você não ia pro estúdio de tatuagem hoje?
— Cancelei, decidi fazer várias de uma vez.
— Quantas? — Paro pra pensar, não sei ainda, só tenho certeza que vou
fazer uma.
— Umas três.
Meu celular acende do meu lado, recebendo uma notificação, fecho o
caderno e deslizo a tela ao ver que a mensagem é da Hazel.
Eu: Q malvada.
Eu: Obrigado por avisar. Vou evitar sair na rua quando vc estiver,
assassina.
Analiso a sala para ter certeza que nem Dylan nem Liam na cozinha ouviram
a baboseira que acabou de sair da sua boca. Chuto seu ombro com o pé
escondido pra depois derrubar as peças na mesa.
— Babaca, vou te fazer dormir com uma ninhada de pombos. — Ignoro seu
comentário, segurando o caderno e indo em direção a escada. Coloco o pé no
primeiro degrau da escada, finalmente respondendo alto para que escute.
Vou direto para o banho, entro no quarto com a toalha enrolada na cintura e
os fios de cabelo úmido. Vejo a folha de papel arrancada de um caderno dobrada
debaixo do meu abajur, pego o celular ao sentar na cama e clico nos contatos
salvos.
Um, dois, três, quatro toques na linha.
— Oi, pai. — Pigarreio. Faz mais de duas semanas que não ligo.
— Luke, e aí, filhão? — A mesma voz grossa e rouca que vivem em minha
cabeça soam do outro lado da linha, animada e receptiva, exatamente como
sempre foi.
Meu pai continua sendo o meu super-homem, a maioria das coisas em que
faço é com a voz dele me guiando. Owen Coleman é um dos melhores homens
que conheço.
— Estou sentindo falta de ganhar de você no gelo. — Sou péssimo em
admitir mais do que um “eu te amo” pro meu pai, ou qualquer outra pessoa
importante.
— Acho que não... Você está muito mal, filhão, tenho quase certeza que
errou feio aquela defesa no último jogo. — Bufo na linha, posso imaginar o seu
sorriso do outro lado.
Não gosto de hóquei igual a Nick e Liam que são obcecados. Se quisesse
entrar para uma liga profissional, pelo menos acho que deveria ser viciado pelo
esporte, e não sou. Não me vejo vivendo disso, apenas quero experimentar ao
máximo tudo o que a liga universitária e a paixão dentro de mim me proporcionam.
Toda vez que piso com os patins naquele gelo, imagino o meu pai sentado
no sofá da sala com um copo de suco e pipoca me assistindo na tv cheio de
orgulho. É o bastante pra mim. Não luto só por mim, luto por ele, Liam, Nick e
Dylan, em todos os sentidos.
Eu gosto muito do hóquei, a sensação de competir e estar no gelo é algo
que não me arrependo de viver em nenhum minuto e só penso em me divertir
enquanto durar, mas eu amo os carros e não quero que nunca acabe.
Termino de ouvir a voz dele contar como tem andado a rotina e os
acontecimentos nos últimos dias após termos conversado sobre a faculdade, o
time, o trabalho e a situação por aqui. Observo o perfume de estrutura de vidro
transparente e tampa preta guardado escondido atrás dos outros objetos, fico
pensando, pensando, pensando...
— Hazel voltou. — Falo, assim que a ligação fica em silêncio. Ele deve estar
tão surpreso quanto eu fiquei, porque não diz nada de imediato.
— É? Como ela está?
— Bem, está estudando em Stanford.
— Isso é muito bom, Luke. — A animação retorna a ele. Suspiro, abaixando
o pouco a cabeça com o celular no ouvido.
— É...
— Como encontrou com ela? — Droga. Discussões nunca são boas e é isso
o que vamos ter se eu abrir a boca.
— Esses dias, quando saí com uns amigos. — Não é completamente
mentira.
— Senti falta dela esses anos. — Também. — Ela sempre foi brilhante. —
Concordo em um balançar de cabeça, mesmo que não possa vê.
Brilhante, a palavra se repete na minha mente um segundo depois de
falarmos mais um pouco e desligar por estar cansado, lanço o celular em cima da
cama. Tenho que fazer com que Hazel confie em mim. Agora que disse que todo
esse contrato é sério, não posso voltar atrás, e para dar certo, é o primeiro passo
que tem que acontecer, caso contrário, não muda nada, e essa não é a intenção.
Vou cuidar da Hazel de agora em diante.
11
HAZEL
— Não tem chance de sermos presas, não é?
Naomi desvia o olhar da estrada por um minuto apenas para virar pra mim e
dizer:
— Eu disse para você parar de assistir a Bob esponja.
Qual o problema dela com o meu Bob esponja? É um desenho cultural.
Estamos nesse carro a quarenta minutos e não estou aguentando mais, já
estou criando diversos cenários de provável perigo eminente na minha cabeça a
cada vez que observo a paisagem correr pelo vidro da janela. É sempre bom se
precaver, nunca se sabe quando vai precisar. Mas se antes eu estava repensando
se isso era realmente uma boa ideia, agora estou começando a ficar agoniada pra
chegar logo.
— Bob esponja ensina coisas muito úteis, sabia?
— Como a ser uma pessoa chata cheia de animação logo de manhã usando
calças debaixo da água? — Ela inclina levemente a cabeça para o lado, fingindo
pensar. — É... isso pode ser útil pra ajudar a despertar raiva por você e fazer os
outros imaginarem formas de te matar, tem razão fracote.
— O que eu deveria assistir então?
— Mindhunter, Criminal minds, documentários de assassinato... — Franzo as
sobrancelhas.
— E o que esses têm de útil?
— Se estivesse vendo, não estaria perguntando. — Bufo. — Não sou sua
mãe. Sabia que a maioria das vítimas de assassinato são mulheres e que a série
The Last Of Us pode acontecer um dia?
— É sério?
— Aquecimento Global, fungos, evolução, fim do mundo e tudo mais.
— E isso é verdade?
— Por que? Você não acredita em mim? — Dá de ombros. — Tudo bem,
fracote, continue assistindo a Bob esponja, tenho certeza que vai estar preparada
para quando estivermos sendo mortos por zumbis controlados por fungos.
Meu Deus, ela é horrível. Eu a amo.
Não demora mais do que poucos minutos para estarmos passando por entre
uma multidão de pessoas, o que inclui mulheres de saias e blusas curtas para
todos os cantos cheio de caras envolta. É muita gente sem medo de ser presa.
Não há nada ao redor, nenhuma casa ou estabelecimento aberto, só prédios
abandonados ou fechados em uma rua larga o bastante para ter muitos carros
espalhados de diferentes tipos.
Menos chance de a polícia bater aqui.
— Ele é bom? Tipo... bom mesmo? — Pergunto assim que finalmente
atravessa todo o aglomerado de pessoas e para ao lado de um carro cinza.
Ela solta uma risadinha irônica e balança os ombros antes de abrir a porta e
sair. Eu desço também, caminhando para o meio da multidão e me afastando dos
carros prontos para correr.
No dia em que descobri no que Naomi estava metida, passei uma
madrugada inteira argumentando o quanto é uma louca, que se ela me ligasse da
prisão no meio da noite eu iria a deixar dormir lá e que se alguém do time
descobrisse, sou uma péssima mentirosa. Vamos ser sinceros, é uma ideia
horrível; não, ninguém é o Dominic Toretto ou o Brian O’Conner.
Só que é o que dizem, só se vive uma vez. Nunca tive tanto amor por
carros, entendo o básico? Sim (tio Owen ficaria orgulhoso), sou relativamente fã?
Sim, gosto? Com certeza, mas desde criança sempre deixei isso para o Luke. Essa
é a paixão dele. É por conta dele que eu estou aqui (“você pode me atropelar de
novo” “óbvio que não” “você provavelmente vai perder” “duvido, mas você pode
acreditar nisso se quiser. Melhores amigos apoiam um ao outro”).
Estamos conversando com frequência nos últimos dias, mais do que eu
poderia esperar, mas não voltamos a tocar no assunto do nosso acordo, nem
precisamos usá-lo de alguma forma, e espero que continue assim. Meu cérebro já
me envergonha o suficiente todos os dias.
Duas garotas estão pichando uma linha vermelha no chão quando todas as
pessoas abrem caminho para o seu carro roxo passar, igual Moisés abrindo o mar
vermelho. Exibido. Algumas pessoas comemoram enquanto estaciona ao lado do
carro laranja de Naomi e um outro vermelho.
Não. É. Possível. O que ele é, o rei das corridas clandestinas?
Fico de longe com os braços cruzados quase que escondida no meio de
tanta gente acompanhando Luke e os três pilotos apostarem — Sim, apostarem —
quinhentos dólares cada. Meu Deus. Sabe o quanto cada centavo disso vale pra
mim no mês? MUITO. Vejo um sorriso malicioso crescer no seu rosto assim que
todos entregam a grana na mão do cara esperando para dar a largada.
Eles entram em seus respectivos carros enquanto o mesmo cara grita para
todos se afastarem da rua. Os roncos dos motores se tornam altos o bastante para
ocupar todo e qualquer espaço, posso senti-los em sincronia com a batida do meu
coração a cada vez que pisam mais fundo no acelerador.
Os carros pedem por uma corrida.
Não escuto a largada, só o som dos pneus queimando no asfalto invadindo
os meus ouvidos; assisto os quatro sumirem na rua no tempo em que eu inspiro,
espalhando fumaça para trás em meio aos muitos gritos animados.
É isso? Acabou?
Há, que divertido.
Espero, espero, espero e espero até que o carro roxo de Luke aparece ao
fundo da rua ao lado do laranja de Naomi. Os dois brigam por espaço, por
velocidade, e por poder. Porque, se uma coisa que aprendi é, uma corrida nunca
vai ser somente sobre carros, mas limites. Se você não está confortável em
ultrapassar seus limites, talvez seja melhor manter seus pés longe do acelerador.
A lateral laranja de Naomi esbarra na sua esquerda, bem na porta do
motorista, quase se batendo. As dianteiras dos carros revezam na frente um do
outro, intensificando a expectativa e toda a emoção de adrenalina do resultado
fluindo no sangue. Eu mal pisco. Consigo acompanhar as batidas dentro do meu
peito.
Droga, não acredito que estou gostando disso.
Os pneus praticamente ficam grudados um no outro, vejo eles se chocarem
antes de Luke acelerar só o suficiente para ter a brecha que ele tanto quer. Vencer.
O Skyline gira, deslizando de lado, deixando as linhas pretas marcadas no asfalto
enquanto o som da borracha queimando se torna dominante; até parar na
chegada.
Ele sai de dentro do carro com o mesmo sorriso malicioso estampado, olha
para trás e cumprimenta Naomi em um balançar de cabeça. As pessoas o rodeiam
próximo ao carro, aplaudindo e comemorando, cadê o champanhe galera? O vejo
falar com alguns então em seguida os seus olhos se desviam, e por mais distante
que eu esteja, Luke me encontra. Quase mais feliz agora do que parecia segundos
atrás.
Tenta se desvencilhar do meio de todos, mas um barulho tenebroso, horrível,
péssimo faz todo o chão desmoronar. Não, não, isso tá mais para um tsunami. Não
sei quem grita primeiro, se foram mais de duas pessoas ou todos ao mesmo
tempo, o que eu sei é que meu coração para de funcionar quando ouço a palavra:
“polícia” acompanhado da sirene se aproximando.
A minha primeira reação é ficar congelada, como se caso eu deseje muito,
ficaria invisível e ninguém me veria. Você não é cientista? Conceito de viagem no
tempo e invisibilidade não são possíveis igual a teoria celular. Que pensamento
lento é esse? Shiu, alguém que está se especializando para descobrir a cura do
câncer tem direitos. A minha segunda reação é seguir a maré, é por isso que corro.
Corro o mais rápido que consigo.
Viu, Hazel? Esse é o resultado de escolher fazer corpo mole nos treinos.
Começo a ficar ofegante quando o Skyline roxo para do meu lado. A porta se
abre e me deparo em um dejá vù do dia em que nos reencontramos mil vezes pior.
— Vem logo! — Luke grita e eu entro, me acomodando no banco do carona.
Observo suas mãos apertarem mais o volante, acelerando sem se importar
com as curvas. Viro o corpo ligeiramente para trás, verificando pelo vidro e no
espelho retrovisor se estão na nossa cola. Meu coração bate tão alto que posso
escutar o tum tum tum.
Merda, estamos ferrados.
Despista seguindo na pista pouco escura mais próxima, diminuindo as luzes
dos faróis. Nós ficamos em silêncio, aguardando enquanto sentimos a tensão nos
espremer, ouvindo nossas respirações preenchendo as paredes do carro. As cores
da sirene da polícia passam na rua atrás, afastando o som estridente
gradativamente.
Tombo a cabeça no banco e fecho os olhos, colocando a mão no peito
apenas para sentir tudo voltar ao ritmo normal.
— Ha... — Não tem chance de termina de falar, porque eu começo a rir.
Mais, mais e mais alto. Minha atenção vai para o seu rosto, o que só causa um
efeito pior. — Hazel?! — Me chama.
Curvo o corpo, abraçando a minha barrida de dor. Não consigo parar de rir.
Meu maxilar está doendo e não consigo parar. É nesse momento que a risada de
Luke ao meu lado me atinge ainda mais forte. Solto uma gargalhada tão alta que
tenho certeza que vai fazer a minha garganta doer mais tarde. Toda a inquietude
de minutos se esvai e agora nós a substituímos, eu e Luke, as nossas risadas
juntas.
Nossos olhos se encontram, fixando-se ali. Aos poucos tudo vai se tornando
pequenos sorrisos, a calmaria invadindo o interior do carro de novo.
— Isso foi incrível! — Sorrio, com animação demais na voz, gesticulando
sem parar.
— Espero que não esteja me pedindo para fazer de novo. — Ele diz
sarcástico retribuindo o meu sorriso pra depois sumir lentamente do seu rosto. —
Desculpe, Hazel, nós poderíamos...
— Não, não, foi demais! — Me olha surpreso.
— Acho que alguém aqui gosta então de rachas.
— Talvez. — Dou de ombros, erguendo um dedo pra ele em seguida. — Mas
não vou parar de pegar no seu pé.
— Ninguém disse nada. — Levanta as mãos em defesa. Ele verifica o
retrovisor e o vidro de trás. — Acho melhor ficarmos por aqui mais um pouco, só
pra ter certeza.
— E não tem como arranjar comida enquanto isso? Estou com fome.
— Deve ter alguma lanchonete aqui perto. — O encaro sugestivo em silêncio
até ele ceder. — Podemos dar uma olhada.
Nós saímos com o carro da rua escura. Abro a aba de pesquisa no celular,
procurando algum fast food, cafeteria ou bar que ainda estão abertos nesse
horário, rodamos dois quarteirões para encontrar uma perto de fechar. Luke paga
nossos hamburgueres com batata e milkshake após ignorar a minha insistência pra
dividir.
— E o jogo de vocês? — Pergunto quando estamos comendo sentados no
capô do carro no final do estacionamento.
— Vai ser na quarta-feira. — Sugo com o canudo o meu milkshake de
morango. — Espero que não sejamos eliminadas.
— Você joga em qual posição?
— Oposto — Percebo pela expressão no seu rosto que falar isso ou alemão
dão no mesmo. — Gosto de ficar no ataque.
— E quer continuar nisso, depois da faculdade? — Penso, suspirando.
— É uma merda que alguns esportes ganhem uma micharia comparado a
outros, como basquete e futebol. — Falo, mesmo sabendo que não é bem essa a
resposta.
— Existem esportes piores. Jogadoras de vôlei dependendo podem … —
Balanço a cabeça.
— Não logo no início, e só se tiverem sorte. De qualquer forma, meu corpo
não aguenta uma carreira profissional. Meu tornozelo já está pedindo ajuda com os
jogos da universidade.
— O que vai fazer?
— A ciência sempre está por aí, em todo lugar. Cura do câncer, DNA, novos
microrganismos… essas coisas. Tenho sorte de ter sido escolhida por ela. —
Mordo um pedaço do meu hambúrguer, mastigando. — Sabia que os nossos
cromossomos diminuem conforme envelhecemos, que é possível comprar enzimas
e remodelar microrganismos e que existe um anime sobre o nosso sistema
imunológico?
Caramba, Hazel, para de falar de boca cheia. Mamãe sempre dizia que é
mal educado e nojento.
— É mesmo? — Tampo a boca com a mão, mas ele não parece se importar.
Na verdade, parece concentrado em tudo o que eu disse.
— É o meu favorito, assisti três vezes. — Viro o rosto pra ele ao pegar uma
porção de batata. — E você, tá pensando em que? Vocês meio que não são os
garanhões do hóquei?
— É, mais ou menos. Ainda não decidi nada. Estou analisando as minhas
opções. — Há uma pausa entre nós enquanto fico refletindo por um minuto
concentrada em terminar de comer as minhas batatas. Ao menos planejo antes de
falar de novo.
— As pessoas dizem que você deve ouvir o seu coração, por um lado acho
que está certo, mas pelo outro, acho que ele só vai te enganar. Na verdade, acho
que tem que ser algo que faça sua mente e seu coração estarem em acordo. Um
equilíbrio. De tudo o que você gosta, quais delas sua mente e seu coração tem a
mesma opinião? É aí que vai encontrar o caminho.
— Você sempre foi boa nisso. — Amassa o papel do hamburguer em uma
bolinha, engolindo o último pedaço.
— Em que? — Curvo as sobrancelhas.
— Dar concelhos.
— Está dizendo que devo abandonar tudo e virar psicóloga?
— Estou dizendo que gosto de ouvir você. — Assinto, porque estou
constrangida demais para fazer mais do que isso no momento.
— Você tapou os ouvidos quando comecei a falar durante o filme quando
éramos crianças.
— Era relâmpago McQueen. — Diz, como se fosse uma explicação óbvia.
— Nós estávamos assistindo pela quinta vez! — Retruco. — Fico surpresa
por você não ter guardado o seu pijama até hoje. — Vejo o seu sorriso minúsculo
de canto.
— Não me subestime.
— E as cartas? — Franziu as sobrancelhas.
— Que cartas?
— As que você recebia na escola. — De Candace declarando o seu amor
eterno que me faziam querer vomitar na sua cara.
— Joguei fora depois de uns três anos. — Obrigado. Obrigado. Obrigado.
Toma essa, Candace! Concordo com a cabeça, forçando o meu rosto a ficar
parado e não ceder ao sorriso vitorioso dentro de mim.
— Você manteve contato com ela?… An… — Coço a garganta
distraidamente. — Quero dizer, com a galera da turma?
— Não muito, mais com Cameron.
— Quando começou a apostar dinheiro em corridas?
— Assim que tirei minha carteira de motorista com dezesseis. Perdi vinte
pratas e amassei a traseira do carro do meu pai na minha primeira vez. —
Gargalho o imaginando chegando em casa de cabeça baixa, desesperado. —
Depois que andamos de kart no nosso aniversário, sabia que não conseguiria
parar.
Foi o nosso aniversário de onze anos, o último que tivemos juntos, nunca
consegui esquecer. Nós brigamos pela primeira vez depois. Ficamos uma semana
sem nos falar, passei os dias me corroendo de tanto medo por achar ter perdido
nossa amizade que, no fim, a perdi por anos. Talvez seja principalmente por isso
que estou fingindo que não firmamos esse acordo vergonhoso, porque não quero
perde-lo pra sempre dessa vez.
O celular no meu bolso de trás vibra, atendo sem ler o nome no visor antes,
sei muito bem quem é.
— Cadê você? Não me fala que foi pega, fracote.
— Você está falando pelo número do meu celular.
— Um policial pode ter te entregado na cela. — Apenas admito para mim
mesmo que é inútil.
— Vou te mandar a minha localização.
— Tá bom, daqui a pouco chego aí.
Desligo, guardando de volta. Explico pro Luke que Naomi está vindo me
buscar. Ela chega vinte minutos depois e vou dormir repetindo para mim mesma
que não somos crianças de doze anos fazendo promessas.
12
LUKE
Estou nem aí se eu for morto.
Hoje é sexta-feira. O dia que provavelmente alguém está fazendo
aniversário, ou que uma pessoa perdeu um ente querido, ou que teve a chance
mais importante na sua vida, uma data esperada, ou o dia que vai ficar marcado
para sempre na vida de uma pessoa em algum lugar. E também é o dia do primeiro
jogo dos playoffs da temporada de vôlei de Stanford.
Não é à toa que dirigi uma hora e meia por causa de um trânsito absurdo e
horrível, é por causa que Hazel vai estar em quadra hoje. Existem boas chances,
talvez, de eu arranjar problemas; todos conhecem a rivalidade entre Mavericks e
Stanford, como se fosse praticamente a mesma entre Boston Celtics e Golden
State Warriors, Kansas City Chiefs e Buffalo Bills ou Bruins e Canadiens.
Agora estou em território inimigo parecendo a merda de um espião, sem
nada a não ser eu mesmo. Sei muito bem dar uma porrada, não sou igual ao Nick,
mas já deixei muitos hematomas, de qualquer jeito espero que não tenha que fazer
nada sozinho. Tranco a porta do carro e caminho até a entrada.
Sento cinco fileiras acima próximo à quadra, assistindo as equipes se
aquecerem. Procuro o seu nome nas camisetas roxas que reparo ser de Stanford,
então a vejo treinando levantamentos com o cabelo loiro preso, tornozeleiras,
meias e tênis brancos e um short preto em um comprimento curto que marca e
arredonda tanto a sua bunda pequena que fico em dúvida se eu posso manter
meus olhos abertos.
Droga, não deveria estar reparando nisso. Ou vendo isso.
O público no estádio não é muito grande por enquanto, mas conforme o
início do jogo vai chegando, todos os assentos ficam ocupados. As jogadoras de
ambas os times entram em quadra, se reunindo em um círculo antes do apito
inicial. Não sou o cara mais especializado em sistema tático de vôlei, ou em
qualquer coisa além do básico. Fora o hóquei, só acompanho basquete e futebol
americano. Mas tenho certeza que vou conseguir torcer por Hazel.
O primeiro saque é de Stanford, mas o primeiro ponto é adversário. Uma das
jogadoras faz a recepção, seguido do levantamento, o primeiro ataque de Hazel e
logo o contra-ataque; a líbero joga o corpo no chão, fazendo a defesa, ela ataca
mais uma vez, mas recebe o bloqueio, ampliando o placar para dois a zero.
E continuam aumentando até o final do primeiro set. Elas são boas, por mais
que odeie admitir isso, dou completa razão para Hazel ter ficado preocupada nos
últimos dias. Todos os pontos foram feitos basicamente em bloqueios e saques ou
falhas na nossa defesa, o ataque delas é certeiro e rápido. O time de Stanford
tenta reagir, e conseguem, mas não para impedir que façam 1x0.
Aperto os olhos reparando na sua tensão no rápido intervalo, ela escuta
quieta as orientações do treinador junto às outras, mas sua mente parece ficar
trabalhando. Em alguns minutos, todas retornam à quadra para iniciar o segundo
set. As adversárias novamente são as primeiras a dar a largada no placar, durante
a pequena comemoração, vejo todas se comunicarem entre si. Então, finalmente
parece que o time se encaixa.
A bola volta de graça para organizar o ataque, algumas das jogadoras estão
bem marcadas, porém Hazel consegue bater na diagonal, arrancando gritos do
fundo dos pulmões da torcida da casa em todo o estádio. Não sou nenhum fã de
vôlei, mas isso foi bem maneiro. A partida inteira é vibrante, cada segundo a mais
que a bola não cai no chão, o seu peito bate mais rápido, mais forte. Só posso
sentir muito por aqueles que estão perdendo a chance de acompanhar isto.
Os caras tinham que estar aqui.
Nós vamos para o segundo intervalo com tudo igual no placar. Verifico
disfarçadamente as pessoas sentadas dos meus lados e respiro um pouquinho
melhor percebendo que não fui reconhecido. Talvez esteja sendo idiota com isso
tudo, só que depois da vez que caímos na porrada em um pós-jogo e tivemos que
ficar fora de dois jogos, parei de subestimar. Respondo as mensagens do nosso
grupo sobre ganharmos … assim que sinto olhares sobre mim, desço os olhos
para a fileira de baixo.
Merda.
Duas garotas e dois caras. Não é nada demais. Nada absolutamente vai
acontecer, pelo menos não aqui. Não agora. Sem falar que se tiver que ouvir umas
merdas ou socar alguém, o que tem? Eles não são donos da universidade.
Observo Hazel caminhar em direção a sua posição na quadra, o short modelando
a carne do seu corpo, os fios loiros presos balançando.
Se concentre no que interessa.
Com certeza o terceiro set é o pior de todos, é angustiante. O time de
Stanford começa em um nível superior, abrindo uma enorme vantagem de
pontuação. Os contra-ataque são letais, até aprendo os nomes de algumas
jogadoras de tão foda que fazem algumas jogadas. O problema do mundo dos
esportes é que nunca se pode permitir que seu oponente sobreviva, e elas deixam.
Deixam que elas cheguem.
Hazel não está no seu melhor momento no jogo. Muitos dos seus bloqueios
falharam e se o seu ataque não gerou uma oportunidade para o lado oposto, foi
impedido. Ainda que não entendo porcaria de nada tecnicamente, é perceptível
que é uma peça importante; é uma das que não ficou de fora até agora, está
sempre chamando o time e cooperando de todas as formas.
Sem querer bate o queixo no chão ao tentar salvar mais uma das bolas que
acabam sendo ponto para a outra equipe. Ela se levanta mais devagar do que as
outras vezes, demorando alguns segundos abaixada com as mãos apoiadas nos
joelhos. Fecha os olhos e fica, fica, fica…
— Vamos, Hazel! — Grito com as mãos ao redor, sentado na arquibancada.
As pessoas viram para mim e eu continuo. — Vamos, Hazel!
Seu rosto vira na minha direção, seus olhos encontrando os meus e é como
se eu pudesse ver o azul se tornando escuro. Assente minimamente com a
cabeça, ergue o corpo e está pronta para voltar à guerra. Fico em pé e bato palma,
quando faz uma jogada pelo meio bato de novo e quando se lança na quadra,
resgato a bola pro contra-ataque bato mais forte.
Só me sento de novo no fim do set, assim que fazem 2x1. No último período,
nós saímos atras, porém mantendo sempre a pontuação acirrada. A liderança no
placar intercala entre as duas equipes; o técnico rival pede um desafio quando
abrimos certa vantagem, demora mais do que simples minutos para verificar se a
ponteira de Stanford encostou o ombro na rede antes da bola tocar no chão.
E o nosso ponto vai para elas.
Naomi conversa com todas, não deixando que ninguém abaixe a cabeça
agora. Não sei se surte o efeito esperado, porque as outras disparam na frente,
pontuando a cada jogada, então o time solicita um time out. Dá certo. O primeiro
ataque é sensacional, agressivo e brutal. É lindo de assistir. O que não adianta de
porcaria de merda de nada se a defesa não trabalha.
Acho pessoas que pensam que a defesa não é tão importante — as vezes
senão mais — que o ataque, burras.
Quando toda a torcida começa a ver a luz no fim do túnel se apagar,
reagimos. A defesa se consolida e ficamos colocados no placar. Entram no 3RD
set point com o oponente um ponto atrás, e aí, elas cometem invasão.
Stanford vence por 3x1.
Saio do estádio indo direto para o estacionamento, onde o meu carro está
parado. Aproveito para observar o campus no caminho. A arquitetura é
completamente diferente da Mavericks, mas igualmente boa. Nada mal, na
verdade. Estamos um pouquinho a mais na frente. Destravo o carro, retirando o
celular do bolso logo em seguida para ler a mensagem dela.
Ela: Já foi embora?
Ele: Não, estou no estacionamento.
Ela: Espera um pouco.
Faço o que ela me pede e espero.
Hazel aparece quase meia hora depois ainda com o cabelo amarrado, mas
dessa vez com calça jeans, blusa e tênis. Sorriu e abro os braços antes mesmo
que ela me alcance. Ergo os seus pés do chão, a apertando o máximo que posso e
plantando um beijo na sua testa.
— Enfrentei o território inimigo para assistir você, espero que valorize a
nossa amizade.
— Mais do que você imagina.
13
HAZEL
Nada pode dar errado.
Existem algumas técnicas — as minhas favoritas — que são as mais usadas
atualmente e que exigem uma enorme precisão. As do tipo que se você treme a
mão é sinônimo de luz vermelha piscando, gritando: pen! Você falhou, por favor
recomece do zero. É uma dessas que vou fazer na aula de hoje.
Olho para a pequena caixa transparente na minha frente em cima da
bancada e coloco o meu gel de agarose por toda a parte principal, conecto os
eletrodos nas extremidades, positivo e negativo, e preencho com uma solução
tampão sem deixar que chegue ao nível do gel. Pipeto as minhas amostras,
transferindo para os poços. Ligo a caixa e espero a magia acontecer.
A corrente começa a fluir através do gel. As moléculas de DNA são
negativas, devido ao grupamento fosfato; não sei se na sua vida amorosa a frase:
“os opostos se atraem” funciona, mas na ciência é muito real. Isso explica o porquê
quando ligamos as energias dos eletrodos, a corrente se move e passa pelo gel, as
cargas negativas do DNA estão sendo atraídas pelas positivas, o que faz dessa
técnica, na minha concepção, a mais genial de todas.
EU AMO A CIÊNCIA.
Torço muito mentalmente para ter feito uma eletroforese decente e conseguir
visualizar perfeitamente todos os fragmentos. A rotina em laboratório tem dessas
coisas, nunca se sabe se vai dar certo. Não temos certeza, temos grandes
probabilidades. Acho que é por isso que gosto tanto, o motivo pelo qual me
apaixonei, toda vez que estou aqui preciso usar toda a fé dentro de mim. Erramos
várias e várias vezes até acertar, mas quando conseguimos é como se tudo fosse
possível.
É a maior satisfação que posso sentir.
Vejo os fragmentos ficarem separados por tamanhos nas escadas, os
maiores aos menores. Deu certo. FICOU PERFEITO. Começo a examinar os
tamanhos das bandas; é o que utilizamos para testes de paternidade, por exemplo,
ou suspeitos de um crime, comparamos cada banda com um “padrão” definido.
Fico tão concentrada que não percebo que fiquei por último no laboratório.
Lavo todos os utensílios que usei e limpo toda a bancada assim que Naomi
passa igual um vulto pela porta aberta segurando um sanduíche. Um. Sanduíche.
— Você não vai acreditar! — Fala, mordendo o pão em seguida.
— Não pode comer no laboratório. — Repreendo, a assistindo mastigar.
— Por que não?
— Não é um lugar apropriado, pode acabar contaminando. — Como se nem
tivesse me ouvido (o que aposto que não), ela dá outra mordida. Suspiro e ignoro
enquanto come na minha frente. — O que foi?
— As pessoas estão falando. — Conta de boca cheia.
— Sobre o que? — Passo álcool na bancada, espalhando e secando com o
papel.
— O que mais poderia ser?
— Sei lá. — Ela revira os olhos, bufando.
— O Luke ter vindo ao nosso jogo de vôlei. — Jogo o papel no lixo quando
ouço sua voz acrescentar, me fazendo a encarar imediatamente. — Por sua causa.
Ainda estou forçando o meu fraco coração a lidar com o fato dele ter vindo
até bem aqui na faculdade, sem eu pedir ou sequer perguntar se estava a fim. Não
é nada demais, fomos melhores amigos e somos amigos agora, e amigos podem
torcer um pelo outro, mesmo que eu já tenha me esquecido como era a sensação
de ter uma pessoa na arquibancada.
A última vez que eu me lembro de olhar para cima e ver alguém gritando o
meu nome enquanto torcia por mim fazem quase três anos. Minha mãe trabalhava
muito antes mesmo de eu ingressar no ensino médio e meu pai não ligava mais
fazia um tempo, na verdade, acho que ele nem sabe que pratico um esporte.
Estou evitando ficar relembrando o quanto foi legal por precaução, fazia um
tempo que eu não sentia ter uma pessoa que dirigiria uma hora para ficar
assistindo um jogo por mim. Sorri muito, muito grande, mais do que poderia
imaginar, porque ver Luke de pé naquele momento quando parecia que estava
sendo esculachada, me fez lembrar o quanto eu me esforçava para fingir que não
me importava com um momento como aquele.
— O que estão falando?
— Não estão... bem... falando, falando, apenas estão comentando. Não é
todo dia que o cara aparece aqui.
— Quem?
— O pessoal do time e o resto que baba ovo. — Ou seja, uma boa
quantidade de pessoas. Saio de trás da bancada, andando até a entrada do
laboratório. — Você sabe a rivalidade que os times têm.
— Estou nem aí pra eles. — Uma meia verdade.
— Nós sabemos que os Mavericks são melhores. — Ergo a sobrancelha
para ela, sem acreditar no que acabei de ouvir. — O que foi? Só porque o
merdinha é irritante não quer dizer que não sei reconhecer o potencial.
Ele tem. Um ótimo potencial. Sabia que seu time era bom, que ele deveria
ser bom, e provavelmente conhecido, mas não estava preparada para o quanto.
Muito menos em relação aos seus melhores amigos. Os caras são as fichas de
todos os apaixonados por hóquei. Não são simplesmente Liam, Nick, Dylan e Luke.
São O Liam, Nick, Dylan e Luke, sentiram a diferença?
E com isso acontecendo, não consigo esquecer da pergunta feita tão rápida
naquela festa que parece que foi quase uma alucinação: “agora você vai fazer
parte da linhagem real da elite?”.
No geral, não lido bem com as pessoas falando de mim. Eu nunca precisei
lidar. Sempre cumprimentei todo mundo, sempre tentei ser legal e conversar com
todos que me permitiam, e mesmo se não gostavam, só reclamavam com meio
dúzia de pessoas de forma que eu nunca ficaria sabendo. Essa é a primeira vez
que o meu nome está na mesma frase que a palavra comentando. Poderia mentir
ainda mais para mim mesma e dizer que não ligo para o que os outros pensam,
mas ligo, e dependendo, bastante.
Por isso que só respiro fundo e forço a minha boca a dizer:
— Amanhã todo mundo já vai estar com amnésia disso.
Tenho certeza que ninguém se importa como a minha vida amorosa anda —
sem parar para pensar que ela não existe, porque tudo o que realmente existe
entre mim e o Luke é um acordo — a galera só está se animando, porque não teve
nenhuma fofoca boa de verdade esse ano ainda no campus e tem toda a rixa entre
as universidades.
Está tudo na boa.
— Ele vai assistir aos jogos com frequência agora? — Pergunta enquanto
me desparamento.
— Não sei nem quando vamos nos ver de novo.
— O que tá rolando? — Guardo os meus pertences, utilizando todo o tempo
que tenho para isso. Respondo só quando fechamos a porta do laboratório e
entramos no corredor.
— Nada.
— Nada foi o Harry Potter ganhando o cálice de fogo, o Hulk perdendo para
o Thor ou o Jon Snow ter sido morto, mas tudo bem se você enxerga isso igual
nada.
— O Jon Snow ter sido morto não foi nada. — Revido, indignada. — O cara
era um dos personagens principais da saga, o maior de todos. Ele não merecia só
porque os diretores estragaram com ele.
— Ele era um idiota. Deveria ter continuado morto.
— Igual a sua rainha lá que pirou e queimou a cidade.
— Então está dizendo que é nada igual o Jon Snow ter sido morto? —
Penso em algo que não entenda muito bem.
— Nada como a cena do homem aranha sendo recrutado pelo homem de
ferro.
Já teve a sensação das pessoas não estarem cochichando, fofocando ou
fazendo todo esse ritual ao comentarem sobre você, mas por mais que não
estejam fazendo e não se sinta péssima de certa forma, você sabe que eles sabem
e eles sabem que você sabe?
É exatamente o que acontece ao adentrar o lugar com piso largo, paredes
com janelas grandes e cheio de mesas na cafeteria, finalmente consciente do
ambiente ao meu redor e não em Naomi.
Eles não sabem de nada. Ninguém sabe de nada. É só a sua cabeça.
Pego um achocolatado e cookies com a senhorinha que abre um sorriso
largo em minha direção e vou me sentar na mesa onde ela está mordendo uma
maçã após ter terminado o sanduiche no corredor. Coloco o meu livro, o tablet em
cima da mesa e foco no meu trabalho.
— Decidiu voltar a ler? — Fala, um bom tempo depois que fico sem prestar
atenção nela na minha frente.
— Achei perdido na biblioteca. Foi o único que li até o fim quando era
criança.
— Podíamos fazer alguma coisa legal amanhã. — Continuo sem tirar os
olhos da tela.
— Desculpa, tenho que visitar a minha mãe.
— Tudo bem, me manda mensagem qualquer coisa.
Espero que eu não precise.
14
HAZEL
Estou surtando pra caramba.
Igual todas as vezes.
Não posso chorar. Não vou chorar. Tenho que ser forte. Seja forte, Hazel.
Por você. Por ela. Para o bem dela. Já inspirei e expirei fundo tantas vezes que
não sei por qual razão ainda estou tentando.
Hoje é dia do tratamento de quimioterapia da minha mãe. Sou a única que
consigo ir de acompanhante, poderia pedir para a April, mas não quero exigir mais
do que ela já faz normalmente e meu pai deve estar bem longe nesse momento.
Por isso que costumo implorar para minha gerente na lanchonete dar um jeito de
colocar as minhas folgas conforme as consultas da minha mãe sempre que pode.
Sorte que ela gosta de mim.
Estaciono do lado de fora e entro dentro de casa, passando pelo gramado
que precisa ser urgentemente aparado e cuidado. Imediatamente sinto o cheiro de
casa, o aroma da minha mãe e dos produtos de limpeza que não mudam. Grito o
seu nome da sala vendo os dois sofás cinzas pequenos com a manta por cima, o
tapete também cinza intactos e a televisão na parede que não é ligada a um bom
tempo.
Vou atrás dela assim que não recebo uma resposta. Subo a escada para o
segundo andar, mas vejo seu rosto um pouco abatido e o lenço rosa enrolado na
cabeça no lugar do seu antigo cabelo castanho curto no alto da escada. Ajudo a
descer e ir até o carro do lado de fora perto da calçada.
Aperto o volante, esperando até eu conseguir reunir toda a coragem que
tenho antes de poder falar.
— Mãe, como você tá?
— Ótima. — Cantarola sorrindo, mas suspirando um pouquinho ligeiramente
depois. Dia do tratamento é sempre tenso. — Sem dores e sem enjoos por
enquanto.
Por enquanto.
— E a nova alimentação, o que achou? — Ela bufa. Faz algumas semanas
que fui a um nutricionista por indicação do próprio médico e enviei a receita por
mensagem.
— Não paro de comer, e April não me deixa mais comer bolo, acredita? Nem
se eu disser que você não vai ficar sabendo.
— Mãe!
— A vida é uma só, filha. O que tem eu comer um pedaço de bolo?! — Por
que precisamos cuidar de você. Tenho vontade de repreende-la, mas tudo o que
eu faço é permanecer em silêncio. No fim, ela está certa. Só vivemos uma vez. —
Como está indo o time?
— Nós ganhamos o último jogo, avançamos nas eliminatórias.
— Contra quem?
— Grizzlies.
— E você está cuidando do tornozelo, né? Tem que estar preparada para o
final do campeonato. — Balanço a cabeça em positivo. — Não esquece de ficar de
olho no seu levantamento de costas, você se... — Evito falar sobre o tornozelo
— Prometo que estou melhorando, mãe. — Sorrio, porque gosto de ter a
minha mãe pegando no meu pé as vezes.
— Como vai a faculdade?
— Bem. — Falei. — Daqui a pouco chegam as provas, aí vai ficar mais
complicado.
— Você tem que arrumar um emprego na sua área. Aquela lanchonete não
te permite ter vida e não vai te dar futuro. — Suspiro. Sei muito bem que está certa,
mas agora só preciso de algo que pague as contas. — Tem conseguido sair com
Naomi?
Não.
— Não muito. — Ela faz aquela mesma expressão, do tipo: Obrigado por
cuidar de mim. Porém, você só tem essa idade uma vez, filha, tem que aproveitar.
Passamos o trajeto em parte conversando, em parte ela puxando a minha
orelha, ignorando o fato que estamos indo enfrentar mais uma batalha. Até eu
estacionar o carro.
É agora.
Abro a porta e engancho o meu braço no seu ao chegar no hospital. Em dez
minutos estou sentada em uma cadeira do lado da poltrona onde a minha mãe está
recebendo o medicamento com a cabeça careca a mostra descansando no
encosto com o lenço rosa ao redor do pescoço.
Observo a sala com outras pessoas sentadas, acompanhadas e sozinhas,
escolhendo lutar. Fico me perguntando se elas têm filhos, ou se querem ter um dia,
se viveram os seus sonhos, se são casadas, se namoram ou sequer já se
apaixonaram, se são felizes ou já foram alguma vez.
Essas pessoas são filhos, pais, irmão ou amigo de alguém. Talvez nunca
mais tenham que acordar e sair para trabalhar, entrem em casa, deem bom dia,
comam sua comida favorita, se arrependem, riam ao ponto de a barriga doer,
saiam para se divertir, comemorem o seu aniversário ou voltem a viver como antes.
Viro para a minha mãe visualizando o seu rosto cansado. Não estou no lugar
dela, mas gostaria. Um dia posso estar. Um dia, em anos ou não, pode ser eu
nessa cadeira e a minha filha do meu lado. Um dia, amanhã ou depois, outras
pessoas vão estar aqui.
Quando estava pesquisando faculdades no final do ensino médio e
pensando que curso faria, por mais paixões que já tivesse, li uma frase uma única
vez para não conseguir esquecer, escrita em um papel pequeno em cima de uma
das mesas de universidade em uma feira.
Nós fazemos cerveja, curamos o câncer, salvamos o mundo.
Não quero descobrir um novo elemento, não preciso ficar marcada na
história da ciência. Apenas quero ser útil. Quero ajudar para que outras pessoas
não precisem estar aqui, pessoas como eu e a minha mãe. Tenho certeza disso
todas as vezes que piso nesse lugar e fico observando essas vidas.
— Não fique em um relacionamento ruim, Hazel. — Diz assim que
finalmente me pega ainda olhando para ela. — Se um homem cuspir na sua cara,
se jogar palavras maldosas em você, se te machucar... não aceite. Escolha o
cuidadoso, o que te traz paz e te respeita. Escolha o que vai te proteger e te
entender. Escolha alguém bom. — Cobriu a minha mão com a sua. Mordo a parte
de dentro da bochecha e assinto.
Desculpe, mãe.
Ela sabe.
Frequentemente ela fala coisas como essa, e não gosto de pensar o porquê.
Então me ocupo em tentar não esquecer.
— Encontrei o Luke esses dias. — Conto, sem nem pensar. Se tem algo que
ela vai gostar de saber é disso.
— É mesmo? — Seu rosto se ilumina. — Isso é ótimo, filha. Ele mudou
muito? — Balanço a cabeça, não dando o braço a torcer pro meu sorriso.
— Mais ou menos. Ele joga hóquei na universidade agora e é muito bom.
Está mais alto também.
— Continua com a mesma carinha de criança? — Confirmo, vendo que está
muito mais animada. — Está estudando o que?
— Engenharia mecânica. — Ela ri, como se soubesse que era óbvio. —
Esbarrei com ele na oficina que trabalha.
— Está feliz? — Afirmo mais uma vez.
— Tem muitos amigos.
— Nenhuma namorada? — Arqueia a sobrancelha, sugestiva.
— Mãe!
— O que foi, Hazie? Só perguntei. Você sempre gostou dele. — Eu não
nego. — Aposto que ele também gosta de você.
Duvido muito.
— Tenho certeza que vai ser um esposo muito bonzinho. O Owen foi um
bom exemplo. — Fala, refletindo cheia de admiração. — Poderia levar ele lá em
casa qualquer dia. — Engulo em seco.
— Não sei se é uma boa ide...
— É sim, iria amar recebe-lo. — Eu sei, você sempre cuidou dele como seu
menininho. Talvez eu realmente devesse contar para o Luke e leva-lo lá em casa,
sem expectativas.
Cogito muito a ideia no processo comum da hora de irmos embora. Deixo
uma fresta da minha janela e dirijo devagar, acompanhando o silêncio da minha
mãe, porque sei que os medicamentos a fazem ficar enjoada, sem força e
péssima. A levo para se deitar na cama, entrego um copo de água e desço para
verificar os armários e a geladeira. Faço uma lista de mercado na cabeça e vejo se
tem comida pronta.
Envio uma mensagem para April, pedindo para vir dar uma olhada nela mais
tarde e para caso precise de ajuda. Finalmente quando estou sentada no carro
estacionado que permito os meus ombros desabarem.
Dois minutos. Apenas dois minutos.
Tombo a cabeça no encosto com os olhos fechados, criando uma barreira,
mas não impeço da primeira lágrima escorrer, e a segunda; após a quarta preciso
tampar a boca com as duas mãos para gritar entre as paredes. Mas não tem som.
Posso perder a minha mãe. Posso nunca mais sentir o seu cheiro ou ouvir a
sua voz. Posso esquecer como ela é. Posso vê-la definhar na minha frente.
Pelo amor de Deus, por favor, não me deixa ver a minha mãe morrer.
Vou viver o resto da vida sozinha. Sem pai. Sem mãe. Sem ninguém. Não
vou ter quem pedir ajuda quando a situação ficar difícil. Não vou ter para quem
correr. Não vou ter quem vai me dar beijo de boa noite. Não vou ter quem vá cuidar
de mim quando ficar doente. Não vou poder ficar encolhida nos braços da minha
mãe quando minha barriga doer, porque talvez não tenha mais mãe.
Preferia eu estar nessa situação do que ela.
Faria de tudo para arrancar essa doença dela.
Fecho os olhos com mais força. Estou com medo. Estou com tanto medo...
Estou desesperada. Meu coração bate tão forte e rápido. Consigo ouvi-lo. Consigo
ouvir minha respiração falhar.
Eu não quero perder a minha mãe. Eu não quero perder a minha mãe.
Eu não quero perder a minha mãe. Eu não quero perder a minha mãe.
Eu não quero perder a minha mãe. Eu não quero perder a minha mãe.
Eu não quero perder a minha mãe. Eu não quero perder a minha mãe.
Eu não quero perder a minha mãe. Eu não quero perder a minha mãe.
Eu não quero perder a minha mãe. Eu não quero perder a minha mãe.
Eu não quero perder a minha mãe. Eu não quero perder a minha mãe.
Eu não quero perder a minha mãe. Eu não quero perder a minha mãe.
Eu não quero perder a minha mãe. Eu não quero perder a minha mãe.
Poderia tirar o meu coração fora agora para parar de vê-la desse jeito. Tudo
o que eu quero é que seja feliz.
Recomponha-se, Hazel. Recomponha-se imediatamente.
Seus dois minutos acabaram.
Seco o rosto com as mãos, abrindo os olhos embaçados. Fungo, forçando a
puxar o ar para dentro e viro a chave na ignição. Acelero, acelero, acelero,
acelero... e só paro quando estou em frente à casa dele.
Encaro a maçaneta da porta, deliberando uma última vez. Ouvindo a sua voz
ecoar no fundo da minha cabeça.
“Poderia levar ele lá em casa qualquer dia”.
“Tenho certeza que vai ser um esposo muito bonzinho”.
Bato. Garanto que meu rosto não esteja tão ruim quanto a dez minutos atrás
antes de ver Liam atender do outro lado.
— Quem te bateu, Stanford? — Pergunta assim que nota o estado do meu
rosto. — Ou você machucou um filhote de cachorrinho no caminho? — Sorriu um
pouquinho enquanto o vejo se afastar da entrada sem dizer mais nada.
Fecho a porta e giro o corpo já me deparando com Luke parado na minha
frente. Ele encara o meu rosto tão profundamente que parece que estou nua.
— Você estava chorando. — É só o que diz, simples e direito, mais para si
mesmo. Eu assinto, optando por não responder.
Ele leva a mão direita no meu rosto, deslizando o dedo delicadamente pela
minha bochecha. Ele também me puxa para mais perto sem fazer força enquanto
se aproxima para beijar a minha testa. Mas sou eu que jogo os braços ao redor do
seu pescoço e encaixo o rosto fungando o seu cheiro igual uma criancinha que
ralou o joelho.
Por um instante, quase não percebo os seus braços rodearem a minha
cintura, apertando, tirando os meus pés do chão. Choro de novo. Só que dessa
vez, molhando a sua pele quente. Me concentro no movimento que fazemos
quando Luke começa a andar, subir as escadas e entrar no quarto, e não nos
batimentos no meu peito, nem nas vozes na minha cabeça.
— Desculpa. — Sussurro quando meu nariz passa a escorrer, porque não
paro de chorar e por causa disso ele está todo melecado.
— Hazel... — Desliza os dedos de uma das mãos no meu cabelo. Ele fala o
meu nome tão doce que me distraio por menos de um instante. — O que
aconteceu? — Escondo ainda mais o rosto e aperto mais os braços. Não vou
responder. Não quero responder. Não quero pensar.
Caminha comigo para cama, caindo em si que não vou falar uma única letra.
Deitamos virados de frente, eu de um lado e ele do outro com pequeníssimos
centímetros nos separando; Luke analisando o meu rosto e eu olhando a manta
esticada em silêncio. Então, seus dedos engancham nos fios de trás da minha
nuca, massageando. Meu corpo relaxa instantaneamente e sou obrigada a fechar
os olhos que sinto que estão inchados, focada demais no modo como seus dedos
trabalham.
O calor do seu corpo aquece o meu e sei que agora está mais perto,
confirmo essa certeza assim que seus lábios retornam mais uma vez a beijar a
minha testa delicadamente, como se pudesse quebrar ou desaparecer.
Não faço a mínima ideia de quanto tempo dormi ao abrir os olhos e reparar
que estou encolhida quase em cima do Luke deitado com um caderno e um lápis
na mão. Coço os olhos, bocejando de boca aberta.
— Bom desenho. — Transfere a atenção do papel para mim. — É um carro
muito legal.
Não fico muito surpresa, porque esse sempre foi o seu hobby, desenhos. Na
verdade, mais especificamente, desenhos de carros. Lembro de vê-lo usando as
folhas do caderno da escola para desenhar durante as aulas, de ter um somente
para isso que vivia com as folhas acabando, reproduzir os carrinhos que tinha e de
uma vez que ficou com medo de ter perdido e ficou o dia inteiro procurando para
depois achar debaixo do sofá.
Talvez não estivesse esperando que fosse continuar com os cadernos, mas
sem dúvidas eu não esperava esses tipos de desenhos. Ele não fez apenas um
carro. Ele criou o desenho técnico de um. A folha está cheia de cálculos
matemáticos que eu mal entendo. Isso é física? Meu Deus, é mesmo física. Tudo o
que entendo desse troço é só o bastante para sobreviver como profissional. Tem
absolutamente tudo, cada peça, medidas e funcionalidade.
É bom. E parece promissor.
— Ainda tem uns ajustes pra fazer.
— E pra que são esses cálculos? — Dá de ombros.
— Não sei, caso... — O interrompo.
— Consiga um dia montar esse carro e já tenha tudo pronto? — Termino a
sua frase, mesmo que saiba que não seja isso que iria falar. Não importa, porque
no fundo é exatamente isso. A sua expressão dividida entrega.
— Eu gosto de fazer esses desenhos. — Não assinto. Não falo. Só o encaro.
— Sabia que a matéria de desenhos técnicos é o terror para muitas
pessoas? — Não fala nada, nem se mexe, então continuo. — E sabia também que
acho que você pode montar esses carros um dia? — Isso faz com que arquei as
sobrancelhas em minha direção. — Você disse que estava analisando as opções.
É uma opção.
— Iniciar uma empresa de carros? Igual Ford, Toyota ou Ferrari? — Nem
preciso me dar o trabalho de responder, a minha expressão e o silêncio são o
suficiente. — Não tenho condições pra isso, Hazel. Não é algo simples de se fazer.
— Sua voz é em um tom de absurdo.
É sim absurdo, mas não impossível.
— Tá, mas poderia tentar, ou analisar a opção. — Suspira, sem conseguir
acreditar no que estou sugerindo. — Deixa eu ver. — Peço e espero, mas ele não
demonstra nenhum indício de me entregar.
Então me estico por cima dele para conseguir alcançar no seu outro lado.
Antes que possa encostar, ele ergue o caderno com o braço levantado para cima.
Me estico de novo para pegar da sua mão dessa vez, só que acabo ficando
próxima demais do seu rosto, e com o corpo apoiado no seu peito.
Estamos tão perto que posso ver as linhas meio acinzentadas dos seus
olhos. Eles percorrem pelo meu rosto de uma forma profunda e dominante, preciso
me esforçar ao máximo para manter a minha respiração o mais normal possível.
Somos amigos. Amigos com um contrato. Minha boca se torna uma linha fina, seca
como o deserto, aguardando para ver o que vai fazer, ou se vai fazer.
Seus dedos acabam parando em cima dos meus olhos, rodeando
carinhosamente.
— O que aconteceu, Hazel? — A mesma pergunta de mais cedo. Toda a
tensão levemente excitante é desmanchada para dar lugar a uma tensão
melancólica. — Seus olhos estão inchados. — Diz, como se fosse uma explicação
do porque está insistindo nisso.
— É o que tínhamos combinado. — Digo casualmente enquanto me afasto,
voltando a deitar do seu lado. — Quando estiver cansada ou precisar de ajuda,
usar o outro. É o que fiz.
— Por que estava cansada e precisava de ajuda?
— Não colocamos isso no acordo. — Luke levanta da cama, indo até a mesa
do seu quarto para guardar o caderno. Suspiro e começo a pensar em alguma
desculpa crível. — Só é muita coisa, tá legal? Tenho o trabalho, matérias da
universidade, o vôlei... — o tratamento da minha mãe. — Às vezes fico desse jeito.
Detesto mentir pra ele, mas prefiro isso por enquanto a ver o seu rosto assim
que eu contar. Não quero sequer pensar em nada relacionado a isso. Vim aqui por
um motivo, me distrair. Me sento na cama quando o quarto vira um completo
silêncio.
— Tudo bem.
Então, ele vem para perto de mim e puxa o meu corpo para envolver em
seus braços de novo.
15
LUKE
Tudo pelo troll.
Os treinos dessa semana estão sendo de uma calmaria ensurdecedora. O
time mal tem trocado palavras, é somente o som do apito do treinador, as lâminas
dos patins, o disco, os tacos ecoando na arena vazia e a água do chuveiro caindo
no vestiário. Todo mundo está meio tenso com o nosso próximo adversário,
Harvard.
Não tivemos uma boa pré-temporada, conseguimos nos classificar na risca,
completamente o oposto do time de Harvard que até agora tem arrasado na
maioria dos jogos, e se quisermos avançar na pós-temporada para chegar no
Frozen Flour de novo, vamos ter que enfrentar esses caras de algum jeito. O que
está deixando todos um pouco assustados.
Nick tem ficando mais tempo do que o costume após os treinos e estamos
nos forçando a juntarmos a ele também. Queremos muito ganhar esse
campeonato, entrar na história. E parece que todos estão com o mesmo
pensamento, focados em exercer cada um o seu papel da melhor maneira.
Chegar na final está começando a cobrar o seu preço, porque nunca fiquei
com tantos hematomas em anos e meu corpo está ficando cada vez mais cansado,
mas nós sabemos que esse tempo nunca mais vai voltar. Assim que terminarmos a
faculdade, acabou. Vamos aproveitar enquanto podemos.
Então preferimos, antes da situação ficar mais feia, jogar uma partida de
paintball contra alguns dos caras do futebol americano valendo um boneco do troll.
Dylan achou divertido só por causa da impressionante cara assassina dele, e
também porque não tinha muitas outras opções.
Tanto nós quanto eles estamos precisando dar uma relaxada. Principalmente
falando por mim que não estou mais transando com frequência. A cidade inteira
está com a expectativa de finalmente conseguirem o título após uma década,
pressão demais.
Somos nós quatro contra Mason, Ethan e mais dois jogadores da defesa. O
que é uma enorme merda. Porque, por mais que sejamos grandes, não é nada
comparado a eles que são gigantes. Vamos ter trabalho. Sem contar que
jogadores de futebol são incrivelmente tão competitivos quantos a gente, tem uma
probabilidade relativamente alta de confusão.
— Podia ensinar aquele negócio que você faz — Diz Dylan assim que
estamos vestidos com os macacões, coletes, os capacetes e com as armas
carregadas de tinta na mão esperando na nossa base a sirene para começar.
— Demorei anos para memorizar, e quer fazer isso agora? Em menos de
vinte minutos?
— Tem outra forma melhor de nos comunicarmos?
— O que acha de sinais, besta?! — Murmura Liam, e ele bufa.
— Código morse ainda seria melhor.
— Precisamos de um plano. — Falo, imaginando que nosso tempo deve
estar acabando.
— Fácil. Atacar. — Responde Nick.
Certo. Acho que vamos perder.
— Vamos nos dividir em duplas. — Nós apenas assentimos ao comando de
Liam, um minuto antes de tocar a sirene.
A zona de combate é um campo com pneus, cercas e galpões de madeira,
latões e ferros velhos abandonado espalhados, usados como obstáculos para nos
abrigar. Vou direto me esconder atrás de uma kombi enferrujada caindo aos
pedaços com Nick bem atrás de mim. Ouço tiros perto de onde estamos e faço
sinal pra ficarmos em silêncio.
Deito no chão, deitando a cabeça só o suficiente para enxergar a
movimentação redor, bem na hora que percebo o farfalhar de passos no gramado
se aproximando. Aperto o dedo e disparo.
— Me cobre. — Não tenho tempo de contradizer. Nick sai correndo e se joga
atrás de uma pilha de pneus do outro lado enquanto mantenho a mira ajustada.
Não tenho tempo de identificar de quem é a perna andando quase perto
demais de onde estou deitado, porque logo vejo os muitos tiros disparados vindo
por detrás dos pneus, pegando primeiro no saco e depois direto no peitoral. 4x3.
Filho do cão.
— Isso é por ter dado em cima da minha namorada. — Grita para Ethan,
tecnicamente morto/eliminado.
— Eu não dei em cima da sua namorada. — Resmunga, mas Nick atira de
novo. — Querer e poder são coisas diferentes. — Ele está mostrando o dedo do
meio para ele assim que noto um dos caras da defesa prestes a pegá-lo por trás.
Atiro. Atiro. Atiro. Não acerto nenhum. Corro na sua direção quase para
dentro das árvores na lateral do campo. Fico atrás das cercas altas de madeira em
pé tão próximas que poderia facilmente ser um labirinto. Porra, isso foi uma
péssima ideia. Labirinto sempre é uma péssima ideia. Procuro manter a respiração
regular, o mais baixa que consigo, pensando, analisando as possibilidades.
Sempre tem uma saída. Uma janela ou uma porta escondida, lembro do meu
pai dizer quando estava no inicio do ensino médio que cometi um erro dos grandes
que o fez brigar comigo.
Ache a janela.
Viro o rosto, encostando do lado do quadrado na parede de madeira,
vasculhando algum sinal; nada. Eu entro. Andando cautelosamente, calculando a
próxima etapa e não abaixando a guarda. Me concentro nos barulhos que posso
ouvir. Movimentações ao longe, passos se tornando mais altos, uma série de tiros
perto demais daqui e... alguém correndo.
Reparo em Liam acelerado por entre as poucas arvores a direita e também
acompanho o instante em que o tiro acerta a sua perna seguida das costelas.
Merda. Essa fração de segundos me custa a minha sobrevivência no jogo. Quando
volto a atenção de onde estou, o jogador da defesa de dois metros de altura, mais
de cento e vinte quilos aparece na minha frente e atira no meu abdômen. Tão
rápido quanto piscar os olhos. 3x2.
Caralho, essa merda é uma bomba.
Xingo baixinho caminhando de volta para a nossa base. Tenho certeza de
que vamos perder ao ver não apenas Liam e foi morto junto comigo, como Nick.
— O que você está fazendo aqui?
— Mason me matou atacando as minhas costas. — Suspiro. Vai se ferrar.
— Só nos resta o Dylan agora.
— E eles?
— Só o Mason. Dylan conseguiu acertar o outro jogador que restava.
Por sorte a quantidade de vídeo game que joga vai servir hoje. Se tem algo
que ele gosta mais de gastar tempo do que com mulheres é disso. Com certeza, é
o que tem mais chance de todos nós de ganhar esse jogo.
Esperamos, esperamos, esperamos... até que avistamos no centro da zona
de treinamento Mason se aproximar da nossa bandeira com a arma pronta,
disparando em qualquer mínimo farfalhar por todos os cantos. Então Dylan surge
do lugar mais silencioso da zona de combate em um ataque surpresa, deslizando o
corpo na grama entre três latões pretos e um carro desfazendo sem rodas com a
arma apontada.
Só que Mason aperta mais depressa e com uma pontaria perfeita,
exatamente na sua barriga.
Game over.
— Sortudo do caramba. — Murmurou, o vendo pegar a nossa bandeira e a
erguer.
— Vai limpar a bunda, cagão. — Mason pula, batendo em comemoração
com Ethan.
— Teremos a revanche. — Aponta para ele.
— Não sei. Talvez eu vá estar ocupado com a Clark. — A menina que estava
a duas noites atrás com Dylan no quarto. Impressionante como esses dois estão
sempre de olho no mesmo alvo.
— Seu prostituto.
— Vou estar torcendo para vocês darem mais sorte contra Havard.
Na saída, recebe o troll de cabelo azul e olhar assassino e guarda no bolso.
Nunca fiquei tão puto por perder um troll.
16
LUKE
Quinta-feira estou indo buscar Hazel no Dinna’s.
Já faz alguns dias que ela apareceu lá em casa, e alguns dias que estou
achando que deveria me esforçar mais por esse acordo. Porque depois que vi seus
olhos inchados por não parar de chorar, me dei conta que toda essa palhaçada
realmente importa. Pode ser um acordo ridículo na minha cabeça, pode significar
nada para mim, mas pra ela significa.
Não sei o porquê, mas sei que Hazel precisa de mim de alguma forma. Sei
que está escondendo alguma coisa e sei que por mais que ela mesma não
entenda ou não acredite, precisa de apoio. Dá para perceber que bem dentro dela
esse acordo é importante. Eu prometi que iria cuidar dela de agora em diante.
Em toda a minha infância o meu pai me ensinou muitas coisas que ao longo
de todos os anos nunca esqueci. São princípios que vou carregar comigo.
Família são aqueles que não nos abandonam, não importa o que aconteça.
Família vem sempre em primeiro lugar, Luke. Devemos proteger a nossa família e
quem amamos. A honra exige, lembro da sua voz dizendo.
Ouço o som do sino assim que passo pela porta da lanchonete. Vou direto
me sentar nos bancos do balcão sabendo que em algum momento ela vai
aparecer. Em três minutos Hazel vem me atender com uma expressão claramente
surpresa, as sobrancelhas levemente arqueadas e um sorriso profissional fingido.
— O que vai querer? — Cruzo os braços em cima da bancada.
— Te levar para casa. — Por um momento ela parece se engasgar com a
própria saliva, tossindo sem parar.
Pigarreou.
— Como é?
— Quero te levar para casa. — Suas sobrancelhas se franzem mais. — Vim
buscar você no serviço.
— Pra que?
— Achei que podíamos fazer alguma coisa hoje. — Ela balança a cabeça
parecendo finalmente entender e gostar da ideia.
— Tá. Saio em quinze minutos.
— Eu sei. — Luta contra o sorrisinho que quer surgir no seu rosto.
— Mais alguma coisa, senhor Coleman? — Provoca. Apenas nego com a
cabeça.
Quase meia hora depois, estamos subindo o prédio de alojamento dos
atletas que Hazel fica. Duas garotas relativamente altas me olham antes de
passarem por nós no corredor enquanto destranca a porta.
— Todas as jogadoras do seu time também ficam aqui? — Pergunto, a
vendo entrar e abrir passagem para mim.
— Nem todas.
— Você divide com quem?
— Naomi. — Falou. — Ela vai chegar só mais tarde hoje.
Bato a porta atrás de mim reparando que o quarto é bem maior do que eu
esperava e bastante confortável. Os lados das duas refletem visivelmente a
personalidade de cada uma; o espaço da Hazel tem objetos de diferentes cores,
organizado e com cores abertas; o espaço de Naomi está bagunçado, é simples,
tem cores fechadas e poucos itens.
— Já volto. — Diz antes de bater à porta do banheiro.
Aproveito para ver ela através do seu quarto. O que ela gosta. O que faz no
tempo livre. O que cada pedacinho quer dizer sobre ela. A primeira coisa que me
chama a atenção é a quantidade de objetos do Bob esponja e do Van Gogh, sem
contar as científicas; caneca, caderno, biografia, manta, colar com uma fórmula
química, uma lâmina de decoração, uma flor da noite estrelada.
A segunda coisa é o Caro Capitão em cima da cama junto a um ursinho
também do Bob esponja. Ela ainda tem. Lembro da primeira vez que me mostrou,
do sorriso no rosto dela naquele dia, de como ficava abraçada com ele
praticamente toda noite, o motivo. Porque sua barriga estava doendo. Porque
estava triste. Então, uma terceira coisa me chama a atenção.
Quadros de pintura.
Seguro cada um à medida em que vou vendo. Uma mulher se afogando,
coberta por água com apenas o centro do rosto para fora; o rosto escuro e sombrio
de um homem cheio de máscaras saindo do seu rosto, espalhadas ao redor e nos
bolsos da roupa; as costas nuas inteiras de uma mulher abraçando um homem;
uma mulher voando e um homem a puxando de volta, a prendendo, a usurpando.
São vários nessa variação. Não solto, não paro de analisa-los mesmo quando se
passa muito tempo, mesmo quando a porta do banheiro se abre.
— Achou alguma ocupação? — Sua voz suave me atinge sobre o meu
ombro, mas na igual velocidade que elas entram, elas saem.
O que essas pinturas significam? O quanto valem para você? Por que você
as faz? Em que momento as fez?
— Tem nomes? — Minha voz é tão casual que fico surpreso.
— Algumas, escritos atrás.
Encaro todas por mais segundos antes de virar. O quadro do homem com
máscaras se chama “Árvore envenenada”; do casal nu tem o nome de “Duvide...”;
são as únicas que encontro escrito atrás.
Não consigo afastar os olhos de nenhum. As perguntas ficam brincando de
ping pong no meu cérebro. O melhor de tudo é que todos são assombrosamente
bonitos, bem feitos. Os meus desenhos são puramente técnicos, são ideias
saltando na minha cabeça, mas os dela? São artísticos. Suas pinturas falam.
Contam segredos.
Ninguém conseguiria passar menos de cinco minutos apreciando. Os
sentimentos puros nos traços são vibrantes. Cada pincelada é planejada e está ali
por alguma razão. Tudo é intenso demais.
— Essa é uma das minhas favoritas. — Pega um com o retrato da “noite
estrelada” no meio dos outros que ainda não vi.
— Imaginei depois de ver a flor em cima da mesa. — Sorrio, mordendo a sua
isca e quebrando o clima em volta de nós. — Quanto tempo você pinta? — Acabo
com o seu sorriso antes mesmo de terminar de se formar.
— O primeiro foi com doze, meses depois que perdemos contato. — Largo o
quadro. — Comecei a gostar de Van Gogh porque “A noite estrelada” me lembrava
as cores do desenho que você tinha feito pra mim de aniversário. Por isso que
também pintei. — Fico de frente para ela.
— Você se lembra? — Colocou o quadro junto aos outros.
— Tenho guardado até hoje. — Me dá só breves segundos até voltar a falar.
— Passei a gostar depois da segunda vez.
— O que significam? — Seu corpo fica duro dos pés a cabeça.
— São... os sentimentos que eu sinto quando fico mal. A mulher se afogando
foi de um dia que aconteceram várias situações que me afetaram, fizeram o copo
de água transbordar. É a forma que me expressei. — Explica como se não fosse
nada demais, mas é.
— E esse aqui? — Mostro uma tela com a pintura de uma pessoa caindo e
outra tentando a salvar.
— Foi dias depois que entrei no time de vôlei do colégio. Fiquei
extremamente feliz em semanas.
— Por que escolheu esse desenho então? — Balançou os ombros.
— É difícil eu planejar o desenho, normalmente só deixo minha mão fazer o
que quiser. As pinturas são os meus sentimentos; me ajudam a acalmar.
Acalmar o que exatamente?
— O que quer fazer? — Assunto encerrado por hoje.
Aceito a sua mudança abrupta.
— O que acha de um anime? — Ela sorri. Vacilando no instante seguinte.
— Podemos pedir comida antes?
Em tempo recorde, estamos deitados na sua cama que tem o tamanho exato
para nós dois. Consequências de ser grande, fazer o que. Entre nós uma caixa de
pizza e o seu computador que ainda não colocamos o anime.
— Você não tinha que estar de dieta? — Pergunta segurando o seu
milkshake de morango na mão enquanto cruza as pernas ao se sentar, só então
que percebo que está usando meias do Bob esponja.
— Um ou quatro pedaços não vão fazer diferença. — Dou uma mordida na
fatia logo em seguida. — E você?
— Ninguém vai ficar sabendo. — Falou me encarando sugestiva, puxando o
milkshake pelo canudo. — Qual anime vamos ver?
— O seu favorito.
— De imunologia? — Não respondo nem que sim, nem que não. — Você
não vai gostar. — Dou de ombros.
Ela continua parada.
— Nós trocamos depois. — Proponho, somente agora que concorda.
Abre o computador, entra em um site e deixa um dos episódios rodar. Coloco
em cima de mim enquanto Hazel se aconchega no meu lado. Os personagens são
componentes do sistema de defesa do nosso corpo e cada episódio tem uma
situação em que eles têm que agir, não entendo metade das explicações nem
grande parte do que acontece, mas é fofo e um pouquinho engraçado, e vendo
que ela está tão concentrada, não conseguiria dizer que estou entediado.
— Sabia que é impossível um neutrófilo viver um romance com uma
hemácia, porque eles só sobrevivem no máximo seis horas em meio sanguíneo e
dois dias nos tecidos?! — Sorrio.
Aposto que fingi que não é verdade. E que fingi que são exatamente desse
jeito no nosso corpo.
— Como entrou esse anime?
— Minha professora do ensino médio passou uma vez pra minha turma. A
gente deve ser os únicos que conhecem. — Com certeza. — Acho que vou obrigar
os meus filhos a assistirem também.
— E a Bob esponja. — Ela sorri discretamente.
— Esse está no topo da lista.
Viro para ela com os cabelos loiros espalhados no travesseiro, agradecendo
por um momento nós deixarmos esse desenho de lado.
— Como teve certeza de que era isso que queria fazer pelo resto da vida? —
Ela passa o dia inteiro estudando e ainda no tempo livre assisti sobre o assunto.
Afasta os olhos da tela e fixa no meus, animada para caramba.
— Existem técnicas em laboratório que se pensar em errar, seu trabalho está
perdido; mas você não vê. Não sabe se tudo o que você leu ou estudou está
acontecendo como deveria. Então tem que acreditar que está. Sempre fiquei
fascinada com isso. — Faz uma pausa para terminar de refletir. — Mas tive certeza
mesmo depois que uns cinco testes meus deram errado. Toda vez que não
funcionava, eu tentava mais, e quando finalmente consegui... me senti útil. Senti
que poderia fazer aquilo quantas vezes fosse preciso, porque no final a sensação
valeria a pena. E que poderia contribuir para algo realmente importante.
Ela fala com tanta certeza e paixão que fico pensando que deu sorte por
poder dar vida a isso.
— E você?
Me ajeito do seu lado, encarando o teto do seu alojamento enquanto ganho
um pouco de tempo.
— No tempo em que estiver na faculdade, vou fazer de tudo para aproveitar
o hóquei e ajudar o time. É o sonho do Liam e do Nick, o mínimo que puder fazer
para contribuir... vou fazer. Eu gosto de jogar. É diferente quando estou dirigindo.
— Desvio a atenção em sua direção. — Com as mãos no volante, nada importa.
Tudo se torna um completo vazio. E apenas o que consigo fazer é acelerar.
Ela me olha, como se soubesse tudo sobre mim. Espero que diga mais
alguma coisa, mas deixa que o silêncio se estabeleça entre nós. Estou prestes a
tirar o pause do anime quando escolhe voltar a perguntar.
— Qual o seu piloto favorito?
— Fácil. Ayrton Senna. — Curva as sobrancelhas.
— Você nunca assistiu ele correr.
— Eu vi todos os vídeos disponíveis na internet. — Agora sou eu que sorrio
empolgado para ela. — Lewis Hamilton é sete vezes campeão, o Senna foi três,
por que ele não é considerado o maior? — Não espero que responda. — Porque
ele fazia coisas que todos que assistiam pensavam que um ser humano comum
não faria. O Senna não pilotava um carro, ele era o carro.
— E você? Por que não fez isso? Você ama os carros, Luke, desde que
aprendeu a mexer os pés. Poderia ter dado um jeito. — O meu humor desaparece
um pouco.
— Não sei.
— Acha que pode fazer algo com os carros um dia?
— Talvez.
Hazel me lança a mesma certeza de antes.
— Tenho certeza que sim.
Fico os próximos minutos me esforçando para aprender a gostar disso.
Então trocamos por Bob esponja. Nunca gostei de Bob esponja, mas Hazel gosta e
estou aqui por causa dela, para cuidar dela, é por isso que escolho quando
questiona. Estamos na metade, mesmo assim a vejo lutar contra os seus olhos
pesados. Estico o braço ao seu redor e deslizo os dedos por entre os fios dourados
do seu cabelo.
— Não vou dormir. — Avisa, como se tivesse a necessidade de eu saber
disso. — Só estou descansando. — Dessa vez, sua voz saí mais rouca e distante.
— Eu sei. — Sussurro.
Continuo massageando o seu cabelo enquanto assisto a cor azul dos seus
olhos sumirem, pouco a pouco. Mesmo quando tenho certeza que caiu no sono,
não paro de escorrer os dedos, não consigo parar de a observar, não consigo sair
do lugar.
17
HAZEL
Não consigo dormir.
Na verdade, mal respiro direito. Faz meia hora que estou sentada na cama
encarando as pilhas de papel espalhadas ao meu redor. Fiquei a semana inteira
trabalhando nesse trabalho e vou apresenta-lo amanhã. No minuto que cheguei do
Dinna’s hoje, tomei banho e enfiei o nariz nas fichas de papel. Já reli tantas vezes
que memorizei cada palavra.
Agora não consigo fazer minha mente parar de trabalhar. Quanto mais leio
os rascunhos da apresentação, mais parece que ainda não é o suficiente. Não sou
a pior pessoa para falar em público, mas definitivamente não me dou bem. Tenho
prováveis nove horas para a aula e já estou ficando nervosa; pensando em todas
as situações vergonhosas possíveis que podem acontecer e um meio de me livrar
em cada uma delas.
Talvez eu trave igual uma idiota lá na frente; talvez não consiga formar
frases coerentes; talvez gagueje, meu cérebro pare de funcionar, ninguém entenda
nada do que eu diga, a professora ache minha pesquisa uma porcaria...
Pare. Pare. Apenas pare. Pare de pensar.
Esvazie a sua mente. Esvazie a sua mente, Hazel.
Pense em outra coisa. Pense em qualquer coisa. Pense em algo que goste.
Fecho os olhos. Inspiro e expiro duas, três, quatro vezes até sentir os
batimentos do meu coração normal de novo. Então forço o meu cérebro a se
concentrar no presente, no ambiente a minha volta.
A escuridão do quarto. O colchão da cama. O cobertor em cima das minhas
pernas. O silêncio. Nada. A escuridão do quarto. O colchão da cama. O cobertor
em cima das minhas pernas. O silêncio. Nada. A escuridão do quarto. O colchão
da cama... Luke.
Luke deitado na minha cama. Luke assistindo anime comigo. Luke
comprando comida para mim. Luke me abraçando.
Abro os olhos e instintivamente procuro o celular de baixo de todos os
montes de papel. Pairo o dedo dois segundos a mais sobre o número de telefone
na tela, decidindo se é mesmo uma boa escolha. Aperto o botão.
Olho para ter certeza que Naomi está dormindo e a vejo deitada na sua
cama do outro lado do quarto de costas para mim. Escuto os primeiros toques.
Ele não deve atender, está muito tarde, já de... Luke atende.
Sua voz rouca e sonolenta preenche o meu ouvido.
— Oi.
Hesito.
— Oi — deito de costas na cama, encostando a cabeça no travesseiro. —
Desculpa te ligar essa hora.
— Sem problema — Me forço a pensar em algo para ocupar o silêncio na
ligação, mas acaba que não preciso. — Está tudo bem?
— Tá, só não consigo dormir. — Há uma pausa. — Estou nervosa. Vou
apresentar um trabalho amanhã.
— Sobre o que?
— Uma pesquisa... sobre acessibilidade a exames de câncer de mama —
engulo em seco. — Tem muitas mulheres de baixa renda que não tem condições
de fazer ou não tem acesso ou tempo — coloco toda a minha concentração em
cada palavra que pronuncio. — É a segunda principal causa de morte entre
mulheres.
— Você que escolheu?
— Não, foi sorteio — falei, a voz meio rouca, meio distante. Teria escolhido
mesmo assim. — A professora quer fazer uma espécie de debate.
— Vai se sair bem, Hazel — Não sei se vou saber responder todas as
perguntas. Eu posso acabar congelando lá na frente. Luke parece que lê a minha
mente. — Se algo acontecer, me imagine dançando branquelas de cueca. — Solto
uma risada alta e instantaneamente tenho que cobrir a boca para não acordar
Naomi do outro lado.
— Hm... — Tusso bruscamente. — Você já fez isso?
— Não, foi o Nick, e no caso não foi Branquelas, a música era da Taylor
Swift, e ele estava bêbado e usando a máscara do Batman. — Gargalho ainda
mais.
— Isso acontece com muita frequência?
— Sabe as festas pós-jogo que falamos? — Grunhi, entendendo o que quer
dizer. — É, pois é... o bastante para estarmos acostumados.
— Quando vocês jogam?
— Nós ganhamos de Minnesota hoje. — Engulo em seco. Deveria estar
sabendo disso? Ou não sou uma péssima amiga/melhor amiga/aproveitadora
horrível por isso?
— E como foi?
— Fazia tempo que não levava umas pancadas desse jeito. Meu corpo
inteiro dói, estou me sentindo um velho. — .
— Foi mal por não conseguir fazer nada pelos seus dodóis.
— Posso ir te buscar se quiser.
— Agora? Nem ferrando, está muito tarde.
— Quem liga?
— E o que eu iria fazer pra você? Sopinha?
— Se for a sopa da sua mãe, vou te buscar agora. — Marjorie Laughlin,
minha mãe. Realmente a sopa dela é muito boa, já faz um tempo da última vez.
— Você não tinha que estar em uma festa?
— Não estava no clima.
— Fique livre para desligar se estiver com sono.
— Não, quero ter certeza que você conseguiu dormir.
Luke Coleman vai me matar qualquer dia.
Por esse motivo que o certo seria não ligar para ele e também não ter
concordado com o acordo, porque é isso o que acontece; Ele é atencioso, fala
frases bonitas e eu crio esperança. A expectativa de que um dia Luke não vai me
ver mais como a menininha que tem que cuidar, mas vai me enxergar. E toda vez
que faz algo desse tipo, ele sem querer alimenta isso dentro de mim, e quase me
mata.
Não tinha certeza, mas sabia que tinha uma alta probabilidade de não ter
mais o sentimento tosco de criança. Errei bem feio. Ainda gosto dele. Ainda gosto
muito, e estou com medo de nunca mais isso deixar de ser verdade.
— Está aí? — Minha respiração pesada corta a chamada.
— Estou. — .
— Qual a sua cor favorita?
— Vai mesmo ficar até eu dormir? — Não consigo me impedir de arquear a
sobrancelha, mesmo que não veja.
— Vou.
Dou uma pequena pausa para morder por dentro da boca e respirar bem
fundo antes de responder.
— Azul royal. E a sua... continua sendo vermelho? Verdade ou mentira? —
Ouço a vibração da sua risada do outro lado. Nesse momento quase posso escutar
a sua voz de criança dizendo que o relâmpago McQueen é incrível e quer seu
quarto pintado de vermelho, porque é a única cor que nunca iria enjoar.
— Mentira. É azul... só que como o mar. — Penso na próxima pergunta.
— Se pudesse fazer qualquer coisa nesse momento, o que faria?
— Abraçaria a minha mãe. — A voz de Luke é vazia. Meu coração dói e me
sinto uma enorme mesquinha.
Minha mãe está comigo a vida toda. Sei o som da sua voz, sei a sensação
de abraça-la, sei como é chegar em casa e vê-la, sei como é ter uma mãe.
Ouço ele limpar a garganta e penso que vai dizer mais alguma coisa ou
revidar a pergunta para mim, mas percebo que me engano muito feio.
— Por que realmente quis fazer o acordo? — A sensação é a mesma que a
de levar um soco no estômago.
— Não tenho muitas pessoas — falei, meia verdade, meia mentira. — Às
vezes preciso aliviar a cabeça, relaxar um pouco.
Sei que tem uma parte que sabe que não estou contando, mas também sei
que não vai insistir.
— Vai trabalhar amanhã? — Bocejo, virando o corpo de lado na cama
deixando o celular entre o travesseiro e o ouvido.
— Vou pegar o turno da noite.
Não recebo uma resposta sua, também não escuto sua voz por um tempo,
muito menos depois que fecho os olhos repetindo para mim que não vou dormir
agora enquanto me imagino sequenciando um DNA.
18
HAZEL
Não gagueje.
Reviso mais uma vez a apresentação digitada no bloco de notas do celular
com os braços apoiados na frente e as mãos na cabeça, escondendo que não
estou prestando atenção em nada do que o meu colega de classe está falando. Sei
que estou sendo uma desrespeitosa enorme, mas sou a próxima e, nesse
momento, é a única forma de me acalmar e não acabar tendo uma turma inteira
rindo da minha cara.
Desligo a tela assim que termino a revisão pela nonagésima vez, mantendo
a minha respiração o mais regular que consigo. Acho que nunca me concentrei
tanto no processo de inspirar e expirar. Quando reparo que a apresentação do
Jonathan — um cara legal que me emprestou uma caneta no meio da prova e que
conversei tantas vezes que posso contar na mão — está prestes a terminar,
concentro meus olhos em um ponto de foco e repito mentalmente as palavras que
queria ouvir de alguém agora.
Você vai se sair bem. Você sempre se sai bem. Apenas faça o que tem que
fazer.
Volto a atenção para a professora argumentando contra a sua pesquisa, mas
acho que não é mesmo o dia de ser uma aluna minimamente descente, porque um
cara sentado do meu lado — que não faço a mínima ideia de qual é o seu nome, já
que provavelmente cumprimentei no máximo três vezes — vira e me chama.
— Pediram para entregar pra você.
Desço os olhos para o pequeno papel amarelo dobrado na sua mão
estendido para mim e pego sem pensar duas vezes. Quem que em sã vivencia iria
recusar? Só alguém que não queira saber o que é e de quem. Desdobro e não
reconheço a caligrafia.
Você vai se sair bem. Não tem ninguém melhor que você.
Ass: Luke.
Continuo encarando o papel por tanto tempo sem acreditar que demoro a
escutar a voz da professora chamando o meu nome que parece não ter nem a
primeira nem a segunda vez. Guardo dentro da bolça antes de andar até a frente
da sala, atrás do pódio de apresentação.
Conecto os slides no projetor, sorrio forçadamente e começo a falar. Sem
parar. Os primeiros minutos são densos e monótonos como exatamente um robô,
mas aí eu chego na minha parte preferida, e esqueço que estou na frente de todas
essas pessoas e que tem uma mulher enjoada que deve comer a mesma refeição
chata todos os dias me avaliando.
Meu foco vai completamente para o modo como quero fazer com que essas
pessoas amem isso tanto quanto eu. Quero que vejam o quanto é incrível e
necessário. Quero que sintam tanta curiosidade e paixão por isso que seu coração
pulse forte.
No minuto que calo a boca, três mãos são levantadas e depois mais outras,
engulo em seco com mais um sorriso forçado no rosto antes de pedir que diga a
pergunta, fazendo também ao mesmo tempo uma súplica ao grandão lá de cima.
Síndrome de adolescente rebelde. Síndrome de adolescente rebelde, Hazel.
É nessa hora que lembro da minha professora do ensino médio que me
tirava dez pontos se eu tossisse no meio de uma apresentação — eu a amava.
Espero que tenha arrumado um parceiro para substituir a alegria que a humilhação
frequente que fazia com seus alunos trazia para a sua vida.
Minta. Se não tiver certeza de uma informação ou a resposta de alguma
pergunta. Invente, sorria e faça ninguém duvidar.
Dá certo, mas não preciso necessariamente usar, porque debato com os
argumentos na ponta da língua. Os sons dos aplausos ecoam nas paredes da sala
e em seguida escuto as palavras da professora sobre a sua avaliação da pesquisa,
só que estou muito ocupa pensando que eu arrasei e devo ganhar uma boa nota.
Envio uma mensagem para Naomi quando finaliza a aula após mais três
apresentações diferentes.
Eu: Fui ótima na apresentação.
Ela: Onde está a novidade? Vc recebeu o bilhete?
Eu: Recebi. Vc ajudou ele?
Ela: Sob suborno eu ajudo qualquer um.
Eu: Ele te pagou?
Ela: Só uma porcentagem pequena do dinheiro do ultimo racha que ele
ganhou. Deveria ter cobrado mais.
Ainda estou entendendo o que aconteceu ao pisar fora do prédio, guardar o
celular e ver Luke de braços cruzados encostado no Skyline estacionado na
entrada do campus. Vou andando até ele, então lembro do bilhete e ando mais
rápido. Vejo o seu meio sorriso enquanto me aproximo, é o suficiente para jogar os
braços ao redor do seu pescoço.
— Como foi? — Pergunta, a voz soprando contra os fios do meu cabelo e os
braços presos ao meu redor.
— Acho que tenho chance de ir com a nota máxima.
Ele tira os meus pés do chão e me gira, como se eu pudesse ser tudo para
ele. E eu deixo, fingindo acreditar que sou.
— O que veio fazer aqui? — Falo quando me coloca de volta no chão, nos
afastando de novo.
— Queria ter certeza que foi a melhor.
— Podia só ter mandando mensagem.
— É, mas você disse que estava nervosa né? — Sorrio para ele. Acho que
foi a coisa mais legal que alguém já fez por mim.
— Então, que tal... comermos porcaria? — Arqueou a sobrancelha, e sorriu
para mim com covinhas aparecendo.
Hora da morte, 11: 41 p.m.
Hazel Laughlin. Viva eternamente em nossos corações e covinhas de Luke
Coleman.
— Sabe, as meninas devem ir lá pra casa hoje, se importa? — Balanço a
cabeça dizendo que não.
… 🏒🏒 … 🏒🏒 … 🏒🏒 ...
Ele me abandonou.
Alguns minutos que chegamos, ele saiu e me deixou sozinha. Nenhum dos
meninos praticamente estão em casa. Nick está com Anna sei lá onde e ainda não
apareceram, Dylan pelas palavras de Liam “provavelmente está extremamente
ocupado comendo alguém. Não liga muito para horários”. Então para ocupar o
tempo, decidi assar um bolo formigueiro da receita da senhora minha mãe.
Quando morávamos juntas, toda semana tinha um bolo em casa que ela
fazia e acabei pegando o costume e memorizando todas as receitas. Por isso que
aos finais de semana estou sempre cozinhando cookies, bolos ou tortas. É mais
um dos meus hobbys, e não consigo ficar sem. Já posso colocar o meu nome na
cozinha do dormitório. Bom que ninguém se importa, porque sobra para todo
mundo comer.
Abaixo para ver o bolo dentro do forno contando mais ou menos quantos
minutos mais precisa. Guardo todos os utensílios na lava-louças e quando termino,
sem querer fico presa, parada atrás da ilha, observando Liam e Maya conversando
sentados no sofá na sala.
Claramente ele disse algo que a irritou, porque seus braços estão cruzados
e sua expressão é fechada igual uma tempestade com trovoadas direcionada para
ele. Ela começa a argumentar, mas tudo o que o percebo fazer é implicar e rir
ainda mais. Nesse momento que Maya revira os olhos e o fulmina com o olhar
antes de acidentalmente soltar uma risadinha também.
Só após isso que Liam finalmente parece falar de uma forma menos
brincalhona. Sua mão puxa as pernas delas para ficar em cima das dele; ela
assente para algo que acabou de dizer e recebe um beijo na testa. O barulho da
porta alcança os meus ouvidos e noto Luke entrar na cozinha segurando uma
sacola, mas continuo focada nos dois. Intrigada.
— Quanto tempo eles estão juntos?
— Quase um ano — Falou, encostando-se na ilha ao meu lado, observando
rapidamente os dois também. — Pelo visto, acho que devem estar falando da
carteira de motorista que Liam pagou pra ela. — Arregalo os olhos, somente assim
que consigo parar de prestar atenção neles e me virar para ele do meu lado.
— Ele fez isso mesmo? — Assentiu calmamente.
— Disse que estava guardando dinheiro a um tempo e que tinha que fazer
isso sem ela saber, senão não ia dar certo. Dito e feito. Maya ficou brava. — Franzi
as sobrancelhas.
— Por que?
— Ela tem um pouco de medo de dirigir e não gosta que ele gaste dinheiro
assim.
— E por que ele fez?
— Pelo o que falou, ele não quer que ela dependa dele. Liam pensa na
frente, quando tiver um calendário cheio de jogos. Ele não quer prendê-la. —
Concordo mesmo que esteja aderindo lentamente as palavras.
Olho para os dois uma última vez e tiro o bolo de dentro do forno, deixando
enfriar em cima da ilha.
— O que você comprou? — Me viro para ele. Luke tira a sacola de cima da
bancada e retira um pote de sorvete de dentro.
Não acredito.
— Tudo é melhor com sorvete, não é? — Sorrio.
— É, mas principalmente... — Começo a falar, mas ele completa a frase
junto comigo em um uníssono.
— Principalmente cookie com sorvete.
Ele lembra. Ele sabe. Minha comida favorita e o meu maior vicio de infância,
cookie com sorvete. Mamãe ficava louca comigo, porque sempre queria comer
todos os dias depois do almoço. Ela passou a esconder de mim, e era o único
castigo que me dava.
Às sextas eram os dias que jogávamos Blackjack e fazíamos cookie com a
minha mãe na cozinha. Luke não esqueceu.
— Como sabia que ainda era a minha comida favorita?
— Você com o milkshake aquele dia. Foi um chute. — Jogou fora a sacola.
— E pelo jeito que era viciada, achei que iria continuar sendo.
Certo para Luke Coleman.
— Nossa, parece bom. — A voz da Maya soa atrás de mim e noto que os
dois agora estão se sentando na ilha da cozinha.
— Obrigado.
— O que acham de ir todo mundo no The Five amanhã? — Liam sugeriu
parecendo querer já comer.
— Você está livre, Hazel? — Ela pergunta logo em seguida.
— É, vai ser bom se você for.
— Bom que ficamos em número par.
Estava planejando pegar umas horas extras no Dinna’s amanhã ou estudar
alguns conteúdos da faculdade antes de ficar atolada demais, não posso ficar me
permitindo o luxo de sair tanto. Só que eu os encaro, aguardando uma resposta, e
não consigo dizer não.
Vou voltar cedo pra casa.
E prometo que vou recompensar outro dia.
— Claro. Que horas?
19
HAZEL
Isso é bem melhor que estudar.
O The Five é um bar esportivo, é a primeira informação que recebe ao
passar pela porta e ver todos os quadros de atletas do futebol americano, hóquei e
basquete pendurados, os equipamentos usados como decoração e as pinturas
feitas na parede. Mas também, pelo que reparei, é o ponto de encontro e o
estabelecimento mais frequentado e conhecido da região.
Eles disseram que hoje o movimento está fraco, mas mesmo assim enxergo
vários velhinhos com barriga de shop no seu provável nono copo, jovens
universitários jogando sinuca e talvez alunas do ensino médio, chuto que por volta
dos dezessete anos, que estatisticamente falando tem uma enorme chance de
terem saído escondidas de casa e usado identidades falsas, cantando no karaokê
e achando plenamente que são donas do jukebox.
Ou seja, ou isso é considerado vazio para este bar ou sou uma jovem
senhora que detesta bares — não descartaria de jeito nenhum a segunda opção,
fui em toda a minha vida três vezes a um bar, definitivamente é bem válido eu ser
uma careta. De qualquer forma, juro que fazia tempo que não me divertia tanto
assim. Pelo menos não só de ficar sentada conversando.
Os meninos já jogaram sinuca, Dylan beijou duas garotas e eu e as meninas
já fomos no karaokê, agora estamos todos sentados nas mesas que juntamos nos
fundos do bar envolvidos a um tempão em debates aleatórios. Nesse instante,
estamos conversando sobre espécies de insetos, depois que Maya comentou que
acabou de terminar um livro de assassinatos e eu acabar dizendo que aceitaria
trabalhar em um necrotério ou como perícia criminal. O negócio é que
acidentalmente entramos no assunto da decomposição de cadáveres, enfim, uma
coisa levou a outra e chegamos aqui.
— Já ouviram falar do rola-bosta? — Liam pergunta antes de dar um gole
demorado no seu único copo de cerveja da noite que parece fazer uma hora que
está evitando terminar.
— Que rola-bosta? — Dylan olha para ele.
— O besouro que recicla.
Nick pergunta curvando as sobrancelhas:
— Latinha?
— Não, a bosta.
Nenhum de nós consegue segurar a risada.
— Como ele recicla a bosta?
— Ele rola.
— Na bosta?
— E onde mais seria? — Ele protesta exasperado.
— Na areia.
— Porra. — Luke resmungou.
Riley intervém e outra rodada de assuntos aleatórios animados começa, mas
Maya me chama para acompanha-la urgentemente ao banheiro, porque precisa
trocar o absorvente e de alguém para segurar a porta. Por um segundo me
pergunto porque não pediu a Anna, elas são visivelmente muito próximas, então
noto que está super concentrada em uma conversa com Nick.
— Como esse lugar não tem banheiro descentes? — Questiono quando já
estou segurando a porta pelo lado de fora.
— É um bar. — Ela dá uma explicação completamente óbvia, mas mesmo
assim acredito que deveriam investir em trancas. — Também tenho medo de ficar
presa.
Isso faz mais sentido.
Em dois minutos, escuto sua batidinha na porta.
— Obrigada. — Fala, indo direto para a pia lavar a mão.
— Sem problemas.
A espero, assistindo seu reflexo pelo espelho. Então, ela decide erguer a
cabeça, sorri e sua voz preenche o banheiro.
— Como se conheceram? — Nem preciso perguntar de quem exatamente
está se referindo.
— Éramos vizinhos quando crianças. — Falo, acompanho sua mão fechar a
torneira para acrescentar. — E melhores amigos.
Seus olhos arregalam surpresos para mim durante um minuto. Penso que é
apenas isso, mas ela retorna ao assunto assim que pega o papel para secar as
mãos.
— E você gosta dele? — Fico quieta. — Ou já gostou? — Continuo quieta
por mais um tempo, e um pouco mais.
— Não. — Só que agora já era, porque independentemente do que eu diga,
Maya não acredita.
Ela para na minha frente, sorri e estende o dedo mendinho.
— Prometo que não vou fofocar nem pro meu namorado. — Sorrio, mas não
deixo de ainda a olhar apreensiva. Suspirou. — Eu escrevi um livro, e o
protagonista é o Liam. — Maneou a cabeça, pensando. — E também tenho um
manuscrito com tudo o que eu penso. Pronto, agora você também tem um segredo
meu.
Encaro seu dedo mendinho por mais um segundo antes de enganchar o
meu.
— Se precisar de mim, é só falar. — Sua voz é tão genuína que eu
realmente acho que é verdade. — E vamos marcar uma noite das meninas na
minha casa. — Balanço a cabeça e nós finalmente saímos do banheiro fedorento
de bar.
O barulho da música misturado as vozes horrivelmente desafinadas e os
ruídos de conversas se infiltram no meu ouvido até alcançar o meu cérebro
novamente, e me lembro a razão porque sai para ir ao bar três vezes na minha
vida. O que não fazemos por amizades... Não preciso me aproximar muito da
nossa mesa para constatar que perdemos os nossos lugares.
Liam, Luke, Nick, Anna e Riley estão conversando enquanto do outro lado
Dylan está empoleirado de meninas, sem aparentar se incomodar nenhum pouco.
Riley, pelo contrário, parece se esforçar para prestar atenção no que os dois estão
falando e esconder a expressão desconfortável no rosto. Procuro ao redor um
lugar para sentar, ou uma cadeira para puxar, qualquer coisa.
Eles se tocam que voltamos e estamos em pé, sem lugar para sentar. Liam é
o primeiro a estender a mão para Maya que rapidamente senta entre as suas
pernas, enquanto eu fico encarando a mesa, ponderando se posso ser expulsa ou
multada por se sentar em cima dela.
— Quer ficar com o meu lugar? — Luke me encara parada igual uma estátua
de gelo, pronto para se levantar.
— Não, estou bem. — Ele faz o movimento para se levantar mesmo assim.
— Não, não. É sério, estou bem.
— Dividimos a cadeira então. — Meu rosto tem paralisia facial por um
minuto. Não sabia que isso poderia acontecer com um ser humano ao entrar em
desespero. Acho que eu deveria comunicar ao comitê de saúde, sabe... só por
precaução
— Não, estou bem em pé. — Estou tão nervosa e com vergonha que não
paro de gesticular e mexer as mãos. É aí que aponto para o chão. — Posso sentar
no chão, não me importo.
Ele desce os olhos para onde estou apontando, sobe de volta para o meu
rosto e quase, por um fio, resmunga.
— Acho que você não vai querer sentar aí. — Reflito na sua sugestão, na
expressão que fez, e tenho certeza que não vou querer sentar no chão.
Respiro fundo internamente, mordendo o interior da bochecha e calço a
minha calcinha de garota adulta e madura.
— Chega pro lado. — Comando, continuando a gesticular com a mão.
— É desconfortável desse jeito. Você já viu meu tamanho? — Já. Suspiro.
Senhor, amado, me ajuda. Não posso sentar com ele. Não tenho estrutura
para sentar com ele.
— Senta no meu colo. — Suas palavras quase me fazem vomitar.
Impossível.
Ele realmente quer me matar. É a missão da vida dele.
— Vem logo. — Murmurou impaciente, estendendo a mão. Arqueio a
sobrancelha, tentando vê se vai mudar de ideia e usar a cabeça direito, mas não.
Isso não aconteceu.
Puxo o ar forte. Força, guerreira. Aceito a sua mão e em um único
movimento estou sentado no seu colo. Meu corpo enrijece sobre ele e tento regular
como me mexo, minha respiração... absolutamente tudo.
Não posso me mexer, não posso me mexer.
Por favor, grandão, não deixa sua filha ser humilhada.
A mão de Luke passa pela minha cintura assim que percebe que estou
inquieta e desconfortável, então com a facilidade de carregar uma pena, me ajeita
em cima dele; jogando minhas pernas na sua, deixando meu corpo de lado.
Garota madura, garota madura...
Nada de garotinha de doze anos agora.
Mordo o interior da bochecha para não permitir que um minúsculo sorriso
insistente apareça. Forço meu cérebro a se concentrar na conversa e não em
como e onde estou sentada. Nick chama Anna para dançar na pequena pista em
frente ao palco e aproveito a deixar para falar em um tom de voz que apenas nós
dois conseguimos ouvir.
— Desculpe se estiver te incomodando.
— Não está. — Responde no mesmo tom. Olho de canto para as meninas
ao redor de Dylan e não evito de falar.
— E também... por atrapalhar a sua noite.
— Não estou com interesse em ninguém. — Preciso olhar para ele por um
momento para ter certeza que não acabei de imaginar sua voz distraída dizer
essas palavras. — Quer uma bebida? — Afirmei, ele vai em direção ao bar sem
nem esperar para ouvir qual bebida eu quero.
Desvio minha atenção dele, e acontece o mesmo de ontem. Meus olhos
caem em Nicolas e Anna dançando juntos. Ele segura a mão dela e a gira
enquanto vê ela gargalhar. Os dois tem uma sintonia ótima. Descobri recentemente
que é bailarina e recebeu sondagens de algumas das melhores escolas depois da
sua apresentação de inverno, mas ele também não é nada mal. Não é à toa que
foi o seu parceiro. Os dois parecem se divertir tanto... Estão o tempo inteiro rindo e
o modo como dançam não me faz querer desviar os olhos. Estão tão concentrados
um no outro que não percebem como todos ao redor param por um minuto para
olharem para eles.
Então o mesmo sentimento de ontem me atinge de novo. Quando observei
Maya e Liam no sofá e agora ao observar Nick e Anna.
Eu quero isso.
Eles se amam, é perceptível isso cada um a sua maneira, e tem um
relacionamento saudável. Na única vez que me relacionei sério com um cara, fiquei
tão cega que demorei muito tempo para cair na real que estava vivendo uma das
piores mentiras. Agora, estou apaixonada por um outro cara que fui metade da
minha vida, que tem probabilidades gigantescas de nunca retribuir aquilo que eu
sinto e nunca poder me dar aquilo que eu quero.
Você tem um gosto péssimo, Hazel.
Relembro as palavras da minha mãe, “escolha o cuidadoso, o que te traz
paz e te respeita. Escolha o que vai te proteger e entender. Escolha alguém bom”.
A música que tocava finaliza, eu pisco retornando a minha mente para onde
estou. Retorno a atenção novamente para Luke no balcão do bar para vê se já está
vindo com as bebidas, mas claramente é um não. Porque uma das garotas
farsantes de maior de idade que deve ter posteres da Polly pregados na parede do
quarto está inclinada de lado dando em cima dele.
O pior é que não parece se importar.
ARGHT! QUE CANALHA MENTIROSO.
“Não estou interessado em ninguém” nhem-nhem-nhem, blá-blá-blá. Vá a
merda!
Ele permanece com os braços apoiados no balcão, os ombros totalmente
relaxados, com as duas bebidas recém colocadas na sua frente enquanto ela bate
os malditos cílios na direção dele. Ele sorri preguiçoso; ela evidencia o decote do
vestido; ele fala alguma coisa; ela estica os lábios no seu rosto de criança; ele
balança os ombros; ela mexe o cabelo preto, longo e escorrido.
Vou derramar bebida nela.
Luke, enfim, responde algo e decidi pegar as nossas bebidas e trazer para a
mesa. Vejo um vislumbre de decepção na expressão do rosto dela, mas estou
muito ocupada bufando e contando quantas novas bebidas vou querer tomar no
restante da noite.
Sete.
LUKE
Hazel acaba de virar o copo número sete.
Contando com os outros dois de antes, totalizam nove. Ela está prestes a
virar praticamente de uma única vez o décimo quando eu a impeço. O que deu
nela? A duas horas atrás estava ótima, com certeza longe de tomar vários copos.
Só que, nesse instante, às uma da manhã, está pra lá de bêbada.
Ela já tinha que ter ido para a casa a horas atrás, mas se recusa a parar e
entrar dentro do carro. Pelo andar da carruagem, é essencial que eu a leve para o
seu alojamento logo. Dylan se junta a uma Hazel risonha, no número oito na escala
de bêbados, segurando o microfone, a voz arrastando cada vez mais no volume
mais alto que consegue enquanto canta a terceira música do Chase Atlantic,
“friends”, no karaokê e começando a fazer tudo de uma forma sugestiva até
demais.
Meu melhor amigo, que está distante de ser idiota, aproveita a oportunidade
que cai de bandeja na sua mão. Hazel está com os olhos brilhando de alegria e
diversão e ele escolhe este momento para abaixar e sussurrar no seu ouvido com
a mão encostada na sua cintura como se não fosse nada demais, parecendo
disposto a qualquer segundo a beija-la.
Meu ovo que ele não fez isso propositalmente.
Preciso por um fim nisso. Imediatamente. Avanço até o palco e separo os
dois a força.
— Vamos embora. — Comando por cima da música, tirando o microfone da
sua mão.
— Mas eu não terminei de cantar! — reclama, exatamente igual quando
criança.
— Relaxa, cara. — Viro para retrucar meu melhor amigo sem nenhum
remorso.
— Fica na sua.
Arrasto Hazel até a saída do The Five em meio as suas reclamações. Assim
que fico de saco cheio delas, jogo o seu corpo por cima do ombro para conseguir
abrir a porta do carro e coloca-la sentada no banco do carona. Ela só volta a falar
quando chegamos na porta da minha casa.
— Eu estava me divertindo. — Murmurou.
— É, mas já está tarde. — Demoro poucos segundos na cozinha antes de
retornar até onde está. — Vem, amanhã levo você bem cedo para o alojamento.
A arrasto pelos degraus da escada tentando fazer o mínimo barulho possível
para não atrapalhar os caras que vieram para casa a horas atrás. Alcançamos a
segurança do quarto e ela vai direto se jogar na cama, soltando um suspiro
exagerado.
Sorrio.
— Não durma ainda. — Vou ao banheiro, abrindo o armário para tirar um
analgésico da caixa. Sento na beirada da cama, ajudando Hazel a se sentar
também. Afasto seu cabelo do rosto e entrego o remédio na sua mão. — Tome, vai
se sentir melhor mais tarde. — Encaixo o copo na sua boca e a faço engolir a água
toda.
Ela se joga no colchão de novo depois de seguir as minhas instruções e
caminho em direção ao banheiro para trocar de roupa. Meu coração dispara
quando me deparo com a calça e os sapatos dela espalhados no chão e Hazel de
calcinha deitada de bruços.
Uso toda a concentração para pronunciar as palavras pausadamente de
maneira calma.
— O que aconteceu? — Conto a respiração pelo nariz, como um meio de
fazer minha mente focar no que nós somos e no seu rosto, e não na... todo o resto.
— Tá muito calor aqui. — Declara, bem confortável.
Aproximo da beirada da cama para ficar com um dos travesseiros para
montar um cafofo no chão, procurando evitar direcionar o olhar para ela mesmo
que seja por um segundo. Não gosto da sensação de olhar pra ela desse jeito. Não
posso me permitir olhar para ela agora. E definitivamente não é uma boa ideia
dormir na mesma cama.
— Não vamos dividir a cama? — Ela se senta automaticamente, surpresa.
— Vou deixar para você.
— E onde vai ficar? — Não preciso responder, rapidamente ela entende e
puxa o meu travesseiro. — A cama é enorme. Nós podemos dividir.
— É apenas por hoje. — Dou de ombros. — Vou ficar bem.
Hazel agarra o meu travesseiro contra o seu peito, em seguida acompanho
os seus olhos descerem ao reparar pela primeira vez que estou sem blusa, indo
direto para os hematomas azulados nas minhas costelas.
— Luke, isso tá muito feio. — Disse, analisando um por um, horrorizada.
— São as consequências do esporte. — A tranquilizo, mesmo sabendo que
ainda que esteja menos dolorido, está sendo um saco para dormir.
— Tem muitos. Não achei que estivesse tão ruim. — Percorre os dedos pela
minha costela com preocupação.
— Hazel... — Gemo de dor na hora que toca na parte sensível de um dos
hematomas.
— Desculpa. — Afasta as mãos, se levantando. — Vamos dividir a cama. —
Decretou.
— Nã... — Ela sequer me deixa começar.
— Não tem o porquê, cabe nós dois. — Sorri, lançando o travesseiro de
volta para a cama.
— Ok. — Concordo, mas retiro uma das minhas camisetas velhas da gaveta
e jogo para ela. — Melhor se trocar.
Hazel bufa e em menos tempo que imagino está arrancando a própria blusa,
ficando apenas com seu sutiã preto. Respiro fundo e viro o rosto.
Ela está bêbada. Não. Olhe.
Torço para que já esteja vestida quando a encaro de novo; e está. Só que
agora está parada a centímetro na minha frente. Fico rígido, sem conseguir me
afastar e de me impedir também de ficar obcecado pelos contornos do seu rosto.
Meu pulso acelera quando ela coloca os braços em volta do meu pescoço.
— O que está fazendo? — Pergunto calmamente. Sinto seus dedos
deslizarem na parte de trás do cabelo.
Não faz menção de responder. Ao invés disso, decide ficar na ponta do pé
para conseguir se aproximar mais. Está tão perto que posso acabar colando os
nossos lábios involuntariamente a qualquer instante, sem ter tempo de pensar. Um
nó do tamanho de Nova York rasga a minha garganta só de cogitar essa
possibilidade.
Tudo nessa situação é péssima.
Ela não sabe o que está fazendo, está bêbada.
— Por que você não me beija? — Sua voz é sensual para caramba. Em um
nível que agradeço por estar de calça.
Droga. Hazel não é o tipo de garota que eu deveria me preocupar com isso.
Praticamente crescemos juntos. Brincávamos sozinho no quintal, tomamos
banhos recém-nascidos, dormíamos no mesmo quarto... e agora estamos aqui. Ela
claramente dando em cima de mim e eu preocupado de não aguentar,
principalmente por ser a primeira vez que meu cérebro e o cara lá embaixo não
estarem ligando se somos melhores amigos ou não.
— Não podemos fazer isso. — Afirmo, mas só eu estou tentando manter
boas intenções hoje.
Por um momento, tenho certeza que vai me beijar. Minha mão em
automático vai parar em sua cintura para afasta-la, o que piora a merda toda com a
sua pele lisa e quente. Uma dor imensa me atinge. Quero dizer, atinge o pior lugar.
— Por que não? — Mantém a voz rouca, sussurrada e a merda de sugestão
de propósito.
Preciso controlar a situação. Não posso ceder.
— Não sabe o que está falando.
— Sei, sim. — O ar quente da sua respiração mistura com o meu. — Você
prometeu. — Faz uma pausa para fixar os olhos um pouco acima do meu queixo, e
sem querer faço o mesmo. Apenas para ela subir os olhos de volta e me pegar
fazendo exatamente o que quer. — Quando tínhamos doze anos, prometeu que
me beijaria.
E você quebrou. E nós discutimos. E semanas depois você foi embora.
Nunca esqueci. Mas éramos crianças, não somos mais. Se eu fizer isso, não
tem volta depois. Me conheço muito bem para saber disso. Mesmo assim, estou
considerando... minha mente não para de considerar, e não consigo afastar minha
mão da sua cintura.
— Agora é diferente. — Murmuro. — Não é isso o que você quer.
— É, sim. — Retruca, então escolhe essa hora para encaixar o rosto na
curva do meu pescoço, aspirar o cheiro e beijar. — Quero a tanto tempo que não
acreditaria.
Merda. Ela acabou de dizer as palavras que faria qualquer homem jogar tudo
para o alto e beijá-la agora. Só que não posso. Não vou. Não hoje. Não com ela
bêbada. Mas não sei se vou ter certeza disso amanhã, ou outro dia. Sinto o
arrependimento em seguida que tenho força para afastá-la.
— Não vai me beijar? — Sussurrou, os olhos brilhando, mas acho que dessa
vez não é só por culpa da bebida. — Não vai nem prometer fazer um dia?
Parece que estou vivendo um dejá vù, vendo Hazel pedir para prometer que
vou beijá-la enquanto está com a exata expressão que me lembro daquele dia no
refeitório da escola. A diferença é que eu quero. A enorme diferença é que o Luke
de doze anos estava preocupado em não a magoar, o Luke de agora está
preocupado por gostar demais da possibilidade.
Porém, tem outra coisa que permanece igual. Eu observo a cor dos seus
olhos azuis, os fios de cabelo loiro escorrido, a linha reta e arrebitada do nariz, a
forma como seus olhos brilham e parecem cheio de expectativa. E de um modo
egoísta, sem pensar em mais nada, não consigo dizer não.
— Prometo. Um dia... em que se lembre.
20
HAZEL