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UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE
Faculdade de Filosofia
Departamento de Graduação
Ericson Sembua
Filomena Bombi
Florentina Gave
Lénia Osvaldo
Manuel Honwana
Racismo Epistêmico e Produção do Conhecimento - por uma Justiça Cognitiva
(Licenciatura em Filosofia)
Maputo
Maio de 2024
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UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE
Faculdade de Filosofia
Departamento de Graduação
Ericson Sembua
Filomena Bombi
Florentina Gave
Lénia Osvaldo
Manuel Honwana
Racismo Epistêmico e Produção do Conhecimento - por uma Justiça Cognitiva
Trabalho de investigação científica apresentado à
Unidade Curricular de Epistemologia na
Faculdade de Filosofia da UEM como requisito
parcial de avaliação.
Docentes:
Mestre Elias Macuacua
Maputo
Setembro de 2023
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INTRODUÇÃO
Este trabalho tem como tema Racismo epistémico e produção do conhecimento: por uma
justiça cognitiva e pretende....
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1. Noção de Racismo Epistémico
O Racismo Epistêmico é um conceito que descreve como o conhecimento de determinados
grupos racializados1 é sistematicamente desvalorizado ou desconsiderado em comparação
com o conhecimento de grupos dominantes, geralmente brancos e ocidentais. Este fenómeno
implica não só avaliar o valor do conhecimento produzido, mas também influenciar o que é
reconhecido como conhecimento legítimo.
Historicamente, a produção de conhecimento tem sido dominada por perspectivas
eurocêntricas, que marginalizam outras formas de conhecimento, como as tradições indígenas,
africanas e asiáticas. Esta hierarquia cria uma estrutura onde o conhecimento dos grupos
racializados é muitas vezes visto como inferior, exótico ou não científico.
Na perspectiva de Maldonado-Torres (2008; 79), o racismo epistêmico ignora a capacidade de
certos grupos de pessoas para produzir conhecimento. Para este, embora essa visão possa ter
raízes em na Metafísica ou na Ontologia, o resultado é sempre o mesmo: deixar de reconhecer
plenamente a humanidade e o valor intelectual dos povos não ocidentais.
O conceito de racismo epistêmico ganhou destaque nas últimas décadas, especialmente dentro
dos estudos críticos da ciência e da academia. Surgiu da necessidade de compreender como o
racismo permeia não apenas as relações sociais, mas também as estruturas e produções do
conhecimento. O racismo epistêmico surge da necessidade de compreender como o racismo
não se limita apenas às interações sociais e estruturas políticas, mas também permeia as
instituições de conhecimento e produção intelectual. A emergência desse conceito está
profundamente enraizada na história colonial e imperialista, onde os saberes e conhecimentos
das culturas não-ocidentais foram sistematicamente desacreditados, suprimidos e até mesmo
destruídos em favor do conhecimento eurocêntrico “o termo colonialismo e usado no seu
sentido mais amplo, significando um dos dois modos eurocêntricos modernos de dominação
baseados na privação ontológica, isto e, na recusa de reconhecer a humananidade integral
do outro” (SANTOS, 2019: 162).
1 A racialização é o processo pelo qual as categorias raciais são criadas, mantidas e usadas para classificar e
diferenciar grupos de pessoas com base nas características físicas percebidas, como cor da pele, características
faciais e outras características fenotípicas. Esse processo envolve atribuir significados sociais, culturais,
econômicos e políticos a essas diferenças físicas, que acabam por influenciar a forma como as pessoas são
tratadas e percebidas na sociedade. “A criação de raças também pode ser entendida como um processo de
"alterização". Definir grupos de pessoas como ‘outros’ obviamente não se restringe a distinções baseadas na
raça. Género, classe, sexualidade, religião, cultura, língua, nacionalidade e idade, entre outras distinções
percebidas, são frequentemente evocadas para justificar estruturas de desigualdade, tratamento diferenciado,
status subordinado e, em alguns casos, conflitos violentos e guerra” (OMI & WINANT, 2015: 105). [Tradução
livre]
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O Racismo Epistêmico reforça a desvalorização dos conhecimentos não ocidentais ao
privilegiar o conhecimento de um grupo específico (ocidental), conferindo-lhe acesso e
disseminação da 'verdade' que deve ser universalizada.
Segundo Mbembe (2018: 70) A fabricação deliberada da diferença racial não só justifica
processos desumanizantes, mas também sustenta relações de poder desiguais, constituindo
assim o cerne do projeto hegemônico de dominação.
O impacto da consideração da raça como elemento central nas estruturas sociais é inegável.
Conforme destaca Mignolo (2003: 42), por um lado, ela serve como base para classificações e
hierarquias que moldam nossas interações e oportunidades; por outro lado, o racismo emerge
como o principal mecanismo social responsável por manter intacta a diferença colonial e
geopolítica no domínio do conhecimento.
1.1. Hegemonia epistêmica
Um dos actos mais marcantes do colonialismo é a alienação de vastos segmentos da
humanidade, cujos seres foram reduzidos a mercadorias, fundamentado em visões dualistas e
evolucionistas da narrativa histórica. Tais ideologias legitimaram a dominação e exploração
de povos colonizados, fortalecendo a noção de superioridade europeia e perpetuando
desigualdades e exclusões no conhecimento global.
Segundo a visão de Mignolo (2003: 41), o saber europeu e suas narrativas locais foram
historicamante elevados a projetos globais, promovendo a ideia de um conhecimento
universal centrado na Europa. Desde o ideal de um Orbis universalis christianus2 até a visão
de Hegel de uma história universal, a Europa tem sido posicionada como o ponto de
referência e destino final. “A história universal contada por Hegel é um a história universal
na qual a maioria dos atores não teve a oportunidade de ser também narradores”
(MIGNOLO, 2003: 41). Nessa perspectiva, a Europa ocupa o centro da história, enquanto a
maioria dos outros atores globais não tem a oportunidade de contar suas próprias histórias.
Essa centralização do conhecimento europeu cria uma hierarquia epistêmica, onde
conhecimentos e histórias de outras culturas são frequentemente desvalorizados ou ignorados.
2 A expressão "Orbis Christianus Universalis" (em latim) refere-se à visão do mundo como uma comunidade
cristã universal. Historicamente, era uma concepção comum na Europa medieval, especialmente durante a era
das Cruzadas, quando se acreditava que o Cristianismo deveria ser a religião predominante em todo o mundo
conhecido. Essa ideia influenciou a política, a cultura e até mesmo as explorações marítimas da época. A frase
também pode ser usada para descrever a expansão do Cristianismo ao redor do mundo ao longo dos séculos.
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A hegemonia epistêmica, portanto, sustenta desigualdades ao impor uma visão de mundo
única e exclui contribuições valiosas de outras tradições de conhecimento.
Influenciado pela dinâmica desigual das relações raciais, o discurso hegemônico do ocidente
não apenas se estabelece, mas também se fortalece através da supressão e marginalização de
outras formas de vida, pensamento e conhecimento. Essa hegemonia se constrói sobre a base
de um "processo persistente de produção da indigência cultural" (FANON, 2008: 97), no
qual as vozes, saberes e experiências não alinhadas com a narrativa dominante são
sistematicamente desvalorizadas e subjugadas. Nesse cenário, a diversidade cultural é
reprimida, enquanto a uniformidade e a homogeneidade impostas pelo discurso monológico-
universal do ocidente ganham força. Essa dinâmica não apenas perpetua a marginalização de
grupos e perspectivas não europeias, mas também reforça a hierarquia de poder que subjuga e
desumaniza aqueles que são rotulados como "outros".
2. Nova dinâmica de produção e validação do conhecimento
Ao questionar como o conhecimento foi moldado pelo colonialismo e por uma visão de
mundo dominante, as emergentes visões decoloniais incentivam a considerar para além das
divisões simplistas do pensamento ocidental. Por outro lado, ao questionar a divisão entre
corpo e razão, sujeito e objeto, natureza e sociedade, nota-se que essa abordagem simplista
reduz a complexidade das experiências humanas. As categorias que, no conhecimento
ocidental, são tratadas como universais e imutáveis, na verdade escondem a diversidade e a
riqueza dos saberes não ocidentais.
Assim, para Walter Mignolo (2008: 42) emergência de novas formas de produção de
conhecimento vem acompanhada pela necessária 'desobediência epistêmica'. Esta atitude de
desafio deliberado, amplamente adotada como uma estratégia de resistência nos círculos de
saberes emancipatórios e estético-corpóreos das populações afrodiaspóricas e ameríndias,
questiona de maneira contundente a lógica binária, racista e sexista que há tanto tempo molda
a geografia do pensamento 'ocidental-cêntrico'.
Neste contexto, a emergência das epistemologias decoloniais e das práticas educativas
interculturais propõe um realinhamento fundamental no modo de conceber o conhecimento e
a compreensão do mundo. Ao reconhecer e valorizar a pluralidade de perspectivas e
conhecimentos, abre-se caminho para uma abordagem mais inclusiva e holística, que honra as
diversas formas de ser, conhecer e existir no mundo.
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2.1. Epistemologia decolonial
(a escrever...)
2.3. Práticas educativas interculturais
Ao adoptar uma abordagem intercultural na educação, pode-se criar espaços de aprendizado
mais inclusivos e enriquecedores, onde o conhecimento é construído de forma colaborativa e
respeitosa. Essas práticas não apenas ajudam a descolonizar as mentes e os currículos, mas
também contribuem para a construção de sociedades mais justas, equitativas e plurais.
Mignolo (2008: 109) e Souza Santos (2019: 78) sugerem que, ao repensar as tradições críticas
de pensamento e abraçar a opção decolonial, surge a necessidade de promover práticas
educativas interculturais não apenas voltadas para o Sul, mas concebidas e implementadas
'desde' o Sul. Essas práticas são fundamentais para compreender um mundo profundamente
marcado pela persistência da colonialidade em todos os aspectos da vida, tanto individual
quanto coletiva.
O desafio que se enfrenta no campo do ensino da filosofia e da educação para as relações
étnico-raciais exige que se questione os modos unilaterais, monofônicos e universalistas de
enunciação que são impostos pelo cânone moderno/colonial, presentes de forma evidente nos
currículos acadêmicos e na produção científica contemporânea.
Para abordar essas questões de forma eficaz, as práticas educativas interculturais devem ir
além de simplesmente reconhecer a diversidade cultural. Elas precisam promover um diálogo
genuíno entre diferentes tradições de pensamento e perspectivas epistemológicas, desafiando
assim a hegemonia do conhecimento eurocêntrico. Isso implica em repensar não apenas o que
ensinamos, mas também como ensinamos, incorporando diferentes vozes e experiências no
processo educacional.
3. Justiça Cognitiva
A justiça cognitiva surge através “através do acreditar na diversidade epistemológica e nos múltiplos
olhares e saberes “ (VALENÇA, Marcos. 2014:8). Tudo começa quando ciência moderna ocidental,
que, sob uma ótica hegemônica, é reconhecida socialmente como um conhecimento absoluto,
superior a outros conhecimentos e saberes, e único detentor da verdade, oriundo da produção
eurocêntrica do conhecimento no sistema-mundo.E essa concepção é ainda mantido na
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contemporaneidade devido à colonialidade, à hierarquização e à subalternização sofrida por grupos
sociais com os seus respectivos saberes segundo escreve Marcos Valença.
A justiça cognitiva busca equilibrar a valorização dos diferentes tipos de conhecimento, combatendo
a hegemonia e a subalternização dos saberes.
O eurocentrismo é a base da ciência moderna ocidental. Esta gera conceitos
como “desenvolvimento” e “civilização”, sempre relacionando o que é
“civilizado” à Europa e indicando que para se chegar ao “desenvolvimento”
máximo, tem-se que seguir o padrão europeu. A ciência apresenta-se como
conhecimento absoluto e repudia a existência de outras formas de
conhecimento, geradas em múltiplos contextos, por inúmeros sujeitos
sociais: conhecimentos produzidos na Europa-não-vista, oculta, na América
Latina, na África, na Ásia, por outros cientistas ou por artistas, filósofos,
ativistas dos movimentos sociais, pastores de Igrejas, pais e mães de santo,
campesinos, povos indígenas, quilombolas, dentre outros, ou seja,
subalternos.
A justiça cognitiva, sob sua ótica, é um princípio que visa corrigir as desigualdades e injustiças na
produção e validação de conhecimentos, reconhecendo a multiplicidade de saberes que existem
além da ciência moderna ocidental.
A justiça cognitiva, segundo Valença, é um esforço para reequilibrar o campo do conhecimento,
garantindo que diferentes formas de saberes sejam reconhecidas e respeitadas. Este conceito desafia
a supremacia do conhecimento eurocêntrico, que historicamente subalternizou outros saberes
através da colonialidade do poder, e propõe uma inclusão efetiva dos conhecimentos tradicionais,
indígenas, populares e outros marginalizados.
A justiça cognitiva requer a aceitação e valorização da diversidade de formas de conhecimento.
Valença enfatiza que todos os saberes, incluindo aqueles que foram desconsiderados pelo paradigma
ocidental, devem ser reconhecidos por sua contribuição única para a compreensão do
[Link] o conhecimento é central para a justiça cognitiva. Isso envolve desafiar e
desmantelar as estruturas de poder que privilegiam o conhecimento ocidental e perpetuam a
marginalização dos saberes não ocidentais. A descolonização busca libertar os sistemas de
conhecimento das influências coloniais que os [Link] saberes tradicionais e locais muitas
vezes contêm conhecimentos valiosos sobre sustentabilidade e resiliência que são cruciais para
enfrentar desafios ambientais contemporâneos. A justiça cognitiva leva à democratização do
conhecimento, onde todos têm a oportunidade de contribuir para a produção e aplicação do saber.
3.1. Princípios de Justiça cognitiva
A justiça cognitiva busca garantir que todas as formas de conhecimento sejam tratadas de
maneira justa, equitativa e inclusiva. Isso implica reconhecer e valorizar a diversidade de
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perspectivas, experiências e saberes que contribuem para a compreensão do mundo. Alguns
princípios fundamentais da justiça cognitiva incluem:
a) Equidade: Todos os conhecimentos são considerados igualmente válidos e dignos de
respeito, independentemente de sua origem ou contexto cultural.
Inclusão: As vozes e perspectivas de grupos historicamente marginalizados são incorporadas e
valorizadas em todos os aspectos da produção e disseminação do conhecimento.
b) Pluralismo: Reconhecer que não existe uma única forma de conhecimento universalmente
aplicável, mas sim uma multiplicidade de saberes que complementam e enriquecem uns aos
outros.
c) Empoderamento: Capacitar comunidades e grupos marginalizados a participar ativamente
na produção e compartilhamento de conhecimento, promovendo a autodeterminação e a
autonomia intelectual.
CONCLUSÃO
(a escrever...)
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BIBLIOGRAFIA
FANON, Frantz. (2008) Pele negra, máscaras brancas. Trad. Renato da Silveira. Salvador:
EDUFBA.
MALDONADO-TORRES, Nelson. (2008). “A topologia do Ser e a geopolítica do
conhecimento. Modernidade, império e colonialidade”. Crítica de Ciências Sociais, 80, 71-
114.
MBEMBE, Achille. (2018) Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política de
morte. São Paulo: N-1 edições.
MIGNOLO, Walter. (2003). Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes
subalternos e pensamento liminar. Trad. Solange Ribeiro de Oliveira. Belo Horizonte: UFMG.
OMI, Michael; WINANT, Howard. (2014). "Racial formation in the United States". 3. ed.
Nova Iorque: Routledge.
SOUSA SANTOS, Boaventura de. (2019). O fim do império cognitivo: a afirmação das
epistemologias do Sul. Belo Horizonte: Autêntica.