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Análise do Auto da Barca do Inferno

O 'Auto da Barca do Inferno', de Gil Vicente, é uma peça teatral de 1517 que critica comportamentos sociais e promove a moralização através da alegoria, representando a transição entre a vida e a morte com personagens julgados por suas ações. A obra é estruturada em quadros sucessivos e apresenta personagens que simbolizam diferentes vícios e classes sociais, com destinos no Inferno ou Paraíso. Através do humor e da sátira, Vicente expõe os erros da sociedade, destacando temas como moralidade, justiça divina e a valorização da simplicidade.

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Análise do Auto da Barca do Inferno

O 'Auto da Barca do Inferno', de Gil Vicente, é uma peça teatral de 1517 que critica comportamentos sociais e promove a moralização através da alegoria, representando a transição entre a vida e a morte com personagens julgados por suas ações. A obra é estruturada em quadros sucessivos e apresenta personagens que simbolizam diferentes vícios e classes sociais, com destinos no Inferno ou Paraíso. Através do humor e da sátira, Vicente expõe os erros da sociedade, destacando temas como moralidade, justiça divina e a valorização da simplicidade.

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O AUTO DA BARCA DO INFERNO

1. Informações Gerais sobre a Obra

● Título: Auto da Barca do Inferno

● Autor: Gil Vicente

● Data: 1517

● Trilogia: Primeira peça da “Trilogia das Barcas”, seguida por:

○ Auto da Barca do Purgatório (1518)

○ Auto da Barca da Glória (1519)

● Local de apresentação: Representada na câmara da rainha Dona Leonor ao rei D.


Manuel I.

2. Gênero e Estilo

● Gênero: Auto – peça teatral de caráter religioso, comum na Idade Média.

● Subgênero: Auto de Moralidade – transmite ensinamentos éticos e religiosos por


meio da alegoria.

● Objetivo: Criticar comportamentos da sociedade e promover a moralização por meio


do riso (máxima “Ridendo castigat mores” – “a rir se castigam os costumes”).

3. Elemento Alegórico

● Estrutura simbólica da peça:

○ Representação da transição entre a vida e a morte.

○ As almas chegam a um cais, onde encontram duas barcas:

■ Barca do Inferno: comandada pelo Diabo (representante do Mal).

■ Barca do Paraíso: comandada pelo Anjo (representante do Bem).


○ Cada personagem é julgada por suas ações em vida.

4. Estrutura Externa

● Sem divisão em atos ou cenas.

● Composta por quadros sucessivos, cada um com uma personagem principal (ou
duas) e o diálogo com as figuras alegóricas (Diabo e Anjo).

● Métrica predominante: Redondilha maior (7 sílabas).

● Versificação: Versos organizados em oitavas, com rimas interpoladas e


emparelhadas (ABBAACCA).

5. Estrutura Interna de Cada Quadro

1. Exposição: Apresentação da personagem e dos objetos que simbolizam seus


pecados.

2. Conflito: Diálogo com o Diabo e o Anjo.

3. Desenlace: Sentença (aceitação ou recusa em cada barca).

6. Personagens e Simbolismos

Personagem Classe Pecado e Símbolos Destino


Representada Crítica Social Cênicos

Fidalgo Nobreza Arrogância, Manto e cadeira Inferno


abuso de poder de espaldas
e luxo; carregada por
desrespeito ao pajem.
povo.

Onzeneiro Burguesia Ganância, Bolsão de Inferno


(usurários) exploração moedas.
financeira por
meio de juros
abusivos.

Parvo Povo simples Inocência, Nenhum objeto. Paraíso


pureza de
espírito, crítica
social indireta
através de
comentários.

Sapateiro Artesãos Desonestidade Avental e Inferno


profissional e formas de
falsa sapato.
religiosidade.

Brísida Vaz Alcoviteiras / Feitiçaria, Casa móvel Inferno


Prostitutas exploração da com virgos
prostituição, postiços,
mentira, roubo. feitiços,
mentiras.

Judeu Judeus (visão Tentativa de Bode (símbolo Inferno


antissemita da suborno, apego do ritual do Yom
época) ao dinheiro, Kippur).
resistência à fé
cristã.

Corregedor e Magistratura, Corrupção, Vara, processos Inferno


Procurador justiça parcialidade, e livros
corrompida hipocrisia jurídicos.
religiosa.

Enforcado Criminosos Cometeu Baraço (corda Inferno


influenciados crimes, de
manipulado por enforcamento).
figuras
influentes como
Garcia Moniz.
Cavaleiros Cruzados Defesa da fé Cruz, espada, Paraíso
cristã, idealismo escudo.
religioso.

7. Temas Centrais

● Moralidade e julgamento pós-morte.

● Crítica social e religiosa.

● Condenação dos vícios (luxo, ganância, corrupção, hipocrisia, falsidade religiosa).

● Valorização da simplicidade e da fé genuína.

● Justiça divina x justiça humana.

8. Recursos Expressivos

● Cômico e sátira: Para expor erros da sociedade.

● Alegoria: Representações simbólicas de conceitos morais e sociais.

● Personagens-tipo: Estereótipos que representam classes, profissões ou


comportamentos.

● Simbolismo dos objetos: Revelam os pecados e identidades das personagens.

1. O Fidalgo (nobre)

● Classe representada: Nobreza.

● Símbolos cênicos: Manto de luxo e cadeira de espaldas, carregada pelo pajem.

● Pecado principal: Arrogância, orgulho e abuso de poder.

● Motivo da condenação: Viveu com luxo e privilégios sem se preocupar com os


pobres ou com boas ações. O pajem, que carrega seus objetos, simboliza a
opressão do povo.
● Destino: Barca do Inferno.

2. O Onzeneiro (agiota)

● Classe representada: Burguesia gananciosa.

● Símbolo cênico: Um grande bolsão cheio de dinheiro.

● Pecado principal: Usura (cobrança de juros altíssimos), ganância.

● Motivo da condenação: Aproveitou-se da necessidade alheia para enriquecer,


agindo sem compaixão.

● Destino: Barca do Inferno.

3. O Sapateiro

● Classe representada: Artesãos.

● Símbolos cênicos: Avental e formas de sapato.

● Pecado principal: Engano nos negócios (exploração do povo), hipocrisia religiosa.

● Motivo da condenação: Além de explorar os clientes, fingia ser devoto e achava que
frequentar a igreja bastava para ser salvo.

● Destino: Barca do Inferno.

4. Brísida Vaz (a Alcoviteira)

● Classe representada: Casamenteiras/prostitutas.

● Símbolos cênicos: Vários objetos ligados à prostituição e feitiçaria (virgos postiços,


armários de mentiras, feitiços, joias, etc.).

● Pecado principal: Exploração de jovens mulheres, feitiçaria, engano, luxúria.


● Motivo da condenação: Facilitava relações ilícitas, lucrava com a prostituição e
enganava tanto mulheres quanto homens.

● Destino: Barca do Inferno.

5. O Judeu

● Classe representada: Judeus (visto pela ótica cristã da época).

● Símbolo cênico: Um bode (símbolo do ritual judaico de Yom Kippur).

● Pecado principal: Persistência na fé judaica, tentativa de suborno.

● Motivo da condenação: Não abandonava seus rituais nem aceitava os valores


cristãos; tentou subornar o diabo.

● Destino: Barca do Inferno.

6. O Corregedor e o Procurador

● Classe representada: Magistrados e sistema judiciário.

● Símbolos cênicos: Vara do corregedor e livros do procurador.

● Pecado principal: Corrupção, abuso de autoridade, injustiça.

● Motivo da condenação: Usavam seus cargos para benefício próprio, com


julgamentos injustos e subornos.

● Destino: Barca do Inferno.

7. O Enforcado

● Classe representada: Criminosos.

● Símbolo cênico: Uma corda (baraço) no pescoço.

● Pecado principal: Crimes e influência de más companhias.


● Motivo da condenação: Seguiu maus exemplos e cometeu crimes que o levaram à
forca. Foi manipulado por figuras poderosas como Garcia Moniz.

● Destino: Barca do Inferno.

8. O Parvo

● Classe representada: Pobres de espírito / Inocentes.

● Símbolos cênicos: Nenhum.

● Pecado principal: Nenhum grave – representa simplicidade e inocência.

● Motivo da salvação: Viveu de forma honesta e humilde.

● Função na peça: Comentador cômico das cenas, introduz crítica com leveza.

● Destino: Barca do Paraíso.

9. Os Cavaleiros (Cavaleiros das Cruzadas)

● Classe representada: Guerreiros religiosos.

● Símbolos cênicos: Espada, escudo e cruz de Cristo.

● Pecado principal: Nenhum – considerados heróis cristãos.

● Motivo da salvação: Morreram lutando pela fé cristã nas Cruzadas.

● Destino: Barca do Paraíso.

Comportamento do Diabo e do Anjo


O Diabo

● Representa: O Mal, o pecado, o Inferno.


● Função na peça: É o arrais (barqueiro) da barca do Inferno, responsável por julgar e
atrair as almas pecadoras.

● Comportamento:

○ Sarcástico e irônico: Recebe os passageiros com zombarias, ridicularizando


seus pecados.

○ Cínico: Usa o humor para revelar e expor os defeitos e vícios das


personagens.

○ Persuasivo: Tenta convencer as almas de que seus pecados não são tão
graves, como forma de atraí-las para a sua barca.

○ Justo, paradoxalmente: Apesar de ser o Diabo, ele não mente sobre os


pecados. Apenas escancara o que os personagens tentam esconder.

● Importância: Sua linguagem sarcástica é a ferramenta principal da crítica social e


moral de Gil Vicente — “ridendo castigat mores” (“rindo se castigam os costumes”).

O Anjo

● Representa: O Bem, a salvação, o Paraíso.

● Função na peça: É o arrais da barca do Paraíso, encarregado de acolher as almas


justas.

● Comportamento:

○ Sério, calmo e justo: Não usa de ironia como o Diabo. É direto e firme.

○ Exigente e criterioso: Apenas aceita as almas que realmente viveram


segundo os princípios cristãos de humildade, caridade e fé.

○ Silencioso na maior parte do tempo: Só intervém quando necessário,


geralmente para rejeitar as justificativas falsas das almas ou para acolher os
verdadeiramente justos (como o Parvo e os Cavaleiros).

● Importância: Representa o ideal de conduta moral, exigindo ações verdadeiras e não


apenas aparência religiosa.

Comparação entre os dois:

Elemento Diabo Anjo


Representa Mal / Inferno Bem / Paraíso

Comportamento Irônico, sarcástico, Sério, calmo, justo


persuasivo

Linguagem Popular, zombeteira, Elevada, formal


coloquial

Acolhe quem? Pecadores não Almas justas e humildes


arrependidos

Estratégia de julgamento Zomba dos erros para Analisa com firmeza e


ridicularizar justiça

Papel na crítica Expõe os vícios com humor Reforça o modelo ideal de


mordaz virtude

Essa contraposição entre Diabo e Anjo é essencial para a estrutura alegórica e moralizante
da obra, além de criar o efeito cômico e crítico que caracteriza o teatro vicentino.

Se quiser, posso montar uma ficha de leitura completa com tudo isso organizado por tópicos
(obra, estrutura, personagens, crítica, linguagem etc). Deseja?

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