-Mas que dia terrível!
- Grito irritada batendo a porta do meu quarto,
jogando minha bolsa na cama.
O dia estava indo de mal a pior. Tirei uma nota deprimente na
primeira prova do quarto semestre e meu carro quebrou no meio do
caminho, me obrigando a voltar para casa caminhando na chuva. Maldito
dia que decidi fazer faculdade de Nanotecnologia. Sinceramente, o dia
não tem como piorar.
-Paft!- Escuto o barulho de algo caindo e quando me viro vejo minha
gata, Millie, em cima da cama e minha bolsa no chão.
-Millie! Não acredito nisso! - Reclamo enquanto junto o objeto caído
e o estrago feito.
Quando vejo o espelho especial completamente destruído e me
desespero. Esse espelho de bolso é muito importante para a minha
família, afinal foi minha tia Luísa que o criou. Ela era uma cientista
extremamente inteligente e habilidosa, ganhando diversos certificados e
prêmios durante sua carreira.
Não sei o motivo do espelho ter sido nomeado assim, e também não
entendo o porquê minha tia havia deixado ele para mim, afinal, nem
éramos tão próximas.
-Lia, que barulho foi esse? - Perguntou mamãe, levando embora
meus pensamentos.
-Meu deus! - Murmuro, lembrando do aviso que ela havia me dado
assim que recebi o espelho. Eu não poderia deixa-lo quebrar, ou algum
desastre iria acontecer. Não sabia o que era já que mamãe não explicara
claramente.
Nervosa, recolhi o espelho do chão e o observei melhor.
Aparentemente, não havia tanto estrago, exceto o vidro que se
encontrava espalhado por todo o quarto. Investigando detalhadamente o
objeto presente em minhas mãos, encontrei um pequeno botão, um
dispositivo talvez. Não contendo minha curiosidade, apertei esse círculo e
tudo a minha volta começou a tremer, minha gata corria
desesperadamente de um lado ao outro e eu senti minha alma e meu
corpo serem sugadas para dentro do espelho de bolso antes de ficar
inconsciente.
Quebra de tempo
-Ai! Minha cabeça! - É a primeira coisa que falo ao recordar a
consciência, o que faz com que o eco cause mais dor.
-Ei, calma. Não precisa gritar- Diz uma voz completamente
desconhecida.
Quando me viro em direção ao som, finalmente consigo observar o
lugar em que me encontro, reparei que era uma espécie de galpão, cheio
de caixas de papelão e escuro com apenas alguns feixes de luz, bem
assustador. Mas quando vi o que se encontrava a minha frente, entendi o
que realmente significava ser assustador.
-Quem é você? Ou melhor o que é você? - Pergunto, já procurando
uma arma para que pudesse me defender.
-Como assim? - Perguntou a criatura a minha frente, possuía uma
cabeça normal, mas seu corpo era diferente, feito de metais coloridos, me
lembrava um robô.
-Como assim o quê? Eu te fiz uma pergunta- Respondo já irritada.
-Ok, mas só você deixar eu fazer uma também.
-Aceito.
-Eu sou o Cyborg 2000, porém meu nome ‘’humano’’ é Louie-
Responde ele, devagar, como se estivesse explicando isso para uma
criança de seis anos.
-Sério isso? Um Cyborg? Acha que eu sou burra? A tecnologia não
evoluiu no nível de existirem Cyborgs em 2024, isso obviamente é uma
fantasia! - O questiono, completamente furiosa e confusa. O tal garoto
também aparentava estar confuso, provavelmente pela quantidade de
perguntas e a rapidez em minha voz.
-Ei! É logico que eu sou um Cyborg e nós estamos no ano de 2210.
Entretanto, eu compreendi o que te aconteceu.
-Sério? - Perguntei esperançosa.
-Sim, você é uma sub-viva que tentou fugir do distrito lmo e
provavelmente machucou a cabeça durante a sua fuga, por isso está
confusa. - Disse Louie de forma convencida.
-É isso? - Perguntei, sentindo a esperança se esvair do meu corpo.
-Sim, inclusive, isso é bem comum, sub-vivos como você tentando
escapar e acabarem aqui, machucados e sem memória alguma. -
Comentou lamentando- Porém, não se desespere, eu sei exatamente
como te ajudar.
-Sabe?
-Sei, mas você vai ter que me acompanhar- Disse dando um
sorrisinho tímido e reconfortante.
-Pensando logicamente, isso é uma decisão péssima- Falei, estava
com medo e me sentindo insegura, não estava entendendo nada e queria
permanecer no conforto daquele galpão assustador. - Contudo, não tem
nada de logico aqui, então eu concordo em te acompanhar.
Após ouvir minha resposta, o garoto abre a porta do galpão e
finalmente vejo o sol. Louie começa a andar em direção a saída e eu o
sigo, rezando para tudo ser um sonho, para que tudo esteja normal, para
que eu esteja em 2024, mas o que eu vejo a seguir é completamente
bizarro.
Apesar do mesmo sol brilhante de sempre, tudo se encontrava
diferente. O céu estava mais cinza, eu não conseguia identificar a
natureza, o lugar não tinha arvores, flores, plantas e por um momento
nem ar puro senti, completamente aterrorizante. No entanto, quando me
obriguei a observar as pessoas quase saí correndo, elas eram iguais a
Louie, cabeças humanas e corpos robóticos. Todos tinham as
‘’armaduras” de diferentes cores. A do garoto a minha frente era azul
claro, vi algumas mulheres utilizando rosa, vermelho, laranja e roxo, já a
dos homens cinza, preto, verde, azul e marrom. Vendo tudo isso, tive
vontade de chorar.
-Que universo paralelo é esse? -Resmungo para mim mesma
enquanto observo um gato e um cachorro andando juntos na rua, ambos
tinham suas cabeças normais e seu corpo robótico.
-Eu sei que agora você deve estar confusa, mas tudo vai voltar ao
normal - Responde Louie enquanto me lança um olhar de pena.
-Voltar ao normal? Acho que você não entendeu. Meu nome é Lia
Àvila e eu tenho vinte anos, eu pertenço ao ano de 2024 e não sei como
vim parar aqui! - Nesse momento, estava me segurando para não sair
correndo. - Eu estava juntando os estilhaços do espelho de bolsa que
minha tia Luísa havia me presenteado, quando de repente algo aconteceu
e fui sugada para dentro do objeto ou sei lá.
-Peraí, sua tia é Luísa Àvila?- Perguntou o garoto a minha frente,
cuja expressão havia mudado de pena para espanto.
-Sim, porquê? Não me diga que é fã dela- Falei, achando um pouco
engraçado.
-Ah sim, isso mesmo. Sou fã, um super fã dela- Respondeu ele,
aparentando estar nervoso.
Alguns longos segundos de silencio se fizeram entre nós.
-Viagem no tempo?!- Falei quebrando o silêncio, surpreendendo a
nós dois. Quando foi que eu pensei nisso?
-Não estou entendendo- Disse o menino, claramente confuso.
-Momentos antes de vir parar aqui, eu estava no meu quarto
recolhendo estilhaços do espelho de bolsa da minha tia que havia
quebrado, quando percebi um pequeno botão nele e cometi um erro ao
apertá-lo- Falei, tentando organizar todos os acontecimentos em minha
mente- E, de repente vim parar aqui, no que você diz ser o ano de 2210.
Se isso realmente for verdade, significa que eu viajei no tempo, para o
futuro.
-É, isso explicaria tudo- Disse Louie, calmamente.
-Então você acredita em mim? - Perguntei insegura.
-Sim, afinal sua tia era extremamente inteligente, não duvido que
ela realmente possa ter descoberto a viagem no tempo.
-Ah sim, mas como vou voltar para o meu tempo?
-Isso eu não sei, porém quero te ajudar a descobrir- Falou me
lançando um olhar de pena e solidariedade.
-Muito obrigada! - Sorri, mostrando minha gratidão
-No entanto, Lia, você gostaria de conhecer um pouco sobre o
futuro?
-Parece divertido.
-Que bom! Já tenho um lugar em mente, mas antes vou chamar a
carona- Após dizer isso, Louie começou a mexer em seu braço esquerdo e
uma tela apareceu, parecia ser um celular.
Interessante, ser um Cyborg não parece ser tão ruim assim.
-O que está fazendo?
-Chamando a carona- Ele me olhou com uma expressão de ‘’isso é
óbvio’’ e voltou sua atenção ao braço.
Em um piscar de olhos, literalmente, uma caixa metálica com duas
portas parou na minha frente, parecia ser um elevador ou uma geladeira.
Possuía botões que indicavam a direção, um para cima e outro para baixo,
completamente estranho.
-Essa é a Speed Box, o transporte de 2210, e quem vai nos levar ao
nosso destino- Louie falava enquanto me direcionava para dentro daquele
negócio. - Só cuidado para não vomitar, a Speed anda na velocidade da
luz.
Quebra de tempo
-Mas o que foi isso?! Perguntei assustada e enjoada após a viagem
naquela caixa voadora super rápida.
-Eu avisei- Disse o garoto cyborg com um ar presunçoso.
-Hum...Então que lugar é esse? - Questionei novamente, olhando a
paisagem a minha volta.
Nós estávamos em um lugar deserto, com muita areia e pouco
verde. Alguns metros a minha frente, eu conseguia visualizar um terreno
não muito extenso, com enormes muros o cercando. Não era possível
enxergar o que tinha lá dentro.
-Lembra que eu havia te chamado de sub-viva e que tinha fugido do
distrito Imo?
-Sim, mas sinceramente não me recordava disso e nem sei o que
significa- Confessei, meio constrangida.
-Sem problemas- Ele deu um sorrisinho sincero- Quando as pessoas
começaram a ser transformadas em cyborgs, houve uma preocupação de
que a população se extinguisse rapidamente, pois robôs não se
reproduzem. Então, por esse motivo, os políticos criaram o distrito Imo,
constituído por humanos, que recebem o nome de sub-vivos. Eles viviam
na pobreza, e alguns tipos de animais como cachorros e gatos. Assim,
quando novos seres nascem, eles vivem durante dois anos aqui antes de
passarem pela cirurgia de transformações e se tornam cyborgs.
-Dois anos? Como vocês crescem, tipo, de altura?
-Nossa, eu não esperava essa pergunta, mas respondendo, nós
trocamos nossa ‘’armadura’’ até chegarmos em uma altura que julgamos
ser a ideal.
-Hum, interessante- Resmunguei, ficando cada vez mais curiosa-
Como foi que se iniciou essa transformação de humano para robô?
-Carlos Reunomid, ele era um físico, historiador, médico e
pesquisador muito inteligente e conhecido, porém quando o filho dele,
Luke, nasceu ele surtou. O menino tinha uma síndrome totalmente
desconhecida que não permitia o movimento do pescoço para baixo.
Durante anos, Reunomid tentou buscar a cura, entretanto, falhou
terrivelmente e chegou à conclusão que a única chance do filho era se
tivesse um novo corpo. E assim, surgiu o primeiro cyborg, ao longo do
tempo as pessoas simplesmente decidiram que ter um corpo robótico era
uma coisa boa e agora, cá estamos nós- Disse Louie, tomando fôlego após
um longo discurso.
-Uau! Isso é completamente bizarro- Eu falei, não aguentava mais
tantas informações.
-Pois é. Hum, tudo isso deve ser completamente assustador, né?
-Demais.
-Sinto muito- Falou ele, me lançando pela milésima vez aquele olhar
de pena.
-Ao menos, eu encontrei você. Obrigada pela ajuda, Louie- Ofereci
meu sorriso mais sincero ao dizer essas palavras.
-Isso não é nada- Ele me deu um sorrisinho tímido muito fofo.
Um momento de paz e quietude se fez presente, me fazendo
observar o distrito Imo e pensar em uma forma de voltar para o meu
tempo, para a minha vida normal.
-O espelho! Se eu vim pra cá por causa dele, talvez eu possa voltar
com ele- Eu disse agitada, finalmente a esperança retornando ao meu
corpo- Temos que voltar ao galpão, só pode estar lá.
-Ok, boa ideia. Vou chamar a Speed box- Falou Louie já mexendo no
dispositivo de seu braço esquerdo.
-Ah não, de novo não! - Reclamei, me sentindo enjoada desde já.
Quebra de tempo
-Não vou sentir falta da Speed box- Falei, tentando me recuperar.
-Sei- O garoto dava altas gargalhadas da minha expressão- Vamos
entrar.
Ao adentrar o galpão, uma sensação ruim me percorreu. Quando
cheguei perto das caixas aonde eu acreditava ser o lugar em que o
espelho estava, esbarrei em quatro cyborgs bem maiores que o garoto
atrás de mim. Eles tinham cores diversificadas e eram bem aterrorizantes,
e o pior, estavam vindo em minha direção com um olhar não muito
agradável.
-Louie? Me ajuda! - Tentei sussurrar o máximo que pude.
-Desculpa Lia, mas eu não posso.
Após dizer isso, ele deu um sinal positivo e os cyborgs correram até
mim, agarrando meus braços e colocando algemas extremamente
pesadas nos mesmos. O que estava acontecendo?
-Como assim, Louie?! Eu confiei em você, estava até começando a
te ver como um amigo- Eu falei, quase chorando.
-Eu sei, Lia. Mas sua tia é muito inteligente, ela criou diversos
dispositivos de viagem no tempo, você não é a primeira viajante, mas
espero que seja a última. Nossa sociedade de cyborgs não pode acabar,
por esse motivo vamos ter que eliminar você e seu espelho de bolsa,
espero que me entenda- Ele falou, sem nenhuma expressão no rosto,
talvez fosse mesmo um robô.
-Por favor! Prometo que não farei nada, só quero voltar para 2024-
Supliquei a ele, lágrimas rolando do meu rosto e caindo no chão sujo.
-Adeus, Lia.
Foi a última coisa que escutei antes de ser arrastada para fora do
galpão e minha consciência apagar, para sempre.