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Encontro com a Bruxa nas Sombras

Vin, um ladrão, segue uma mulher misteriosa chamada Irisia na floresta, onde tenta roubar um pingente mágico. Após um confronto, Irisia revela que precisa da habilidade de Vin para encontrar um artefato poderoso que pode mudar destinos. Juntos, eles partem em uma jornada para Eldarion, enfrentando perigos e revelando segredos ocultos.

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Encontro com a Bruxa nas Sombras

Vin, um ladrão, segue uma mulher misteriosa chamada Irisia na floresta, onde tenta roubar um pingente mágico. Após um confronto, Irisia revela que precisa da habilidade de Vin para encontrar um artefato poderoso que pode mudar destinos. Juntos, eles partem em uma jornada para Eldarion, enfrentando perigos e revelando segredos ocultos.

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Capítulo 1 - O Encontro nas Sombras

A floresta se estendia ao redor como um abismo insondável, suas sombras dançando ao sabor
do vento frio que cortava a noite. Vin movia-se como um predador, seus passos leves e
calculados. O brilho pálido da lua refletia-se por entre as folhas, iluminando brevemente a
figura solitária de seu alvo: uma mulher envolta em um manto escuro, seu rosto oculto pela
penumbra.

Ele a havia seguido desde o vilarejo. Havia algo nela que chamava atenção, um brilho estranho
no pingente que pendia de seu pescoço, uma sensação de poder que tornava aquele roubo
mais arriscado do que qualquer outro. Mas Vin não era do tipo que recuava diante de desafios.
Seu instinto lhe dizia que aquele artefato valia mais do que ouro.

Aproximou-se sem pressa, controlando a respiração, cada movimento calculado para que nem
mesmo os animais da floresta notassem sua presença. Quando seus dedos roçaram o metal
frio do pingente, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Não teve tempo de reagir.

O mundo ao seu redor se dissolveu em trevas.

Vin sentiu um peso esmagador em seus ombros, como se a própria noite tivesse ganhado
substância e o envolvesse. Um sussurro preencheu o vazio, não uma voz comum, mas algo
mais profundo, vibrante, carregado de poder ancestral.

— Roubar de mim… foi um erro, ladrão.

O ar voltou aos pulmões de Vin em um suspiro forçado. A escuridão dissipou-se tão rápido
quanto viera, deixando-o ajoelhado no chão, a respiração pesada. Quando ergueu o olhar,
encontrou-se diante da mulher. Seus olhos eram ouro líquido, faiscando em meio à noite. A
magia pulsava ao seu redor como uma tempestade contida.

Ao lado dela, empoleirado sobre uma rocha, um gato negro o observava com olhos atentos. O
felino não era comum. Vin percebeu isso de imediato. Sua presença era sólida, densa, como se
ele também fizesse parte da feitiçaria que o envolvera.

— Quem é você? — a voz de Vin saiu mais áspera do que pretendia. Ele não gostava de ser
pego desprevenido.
A mulher inclinou levemente a cabeça, estudando-o como quem avalia um problema a ser
resolvido.

— Meu nome é Irisia — disse, sua voz firme. — E este é Void.

Vin sentiu um gosto amargo na boca. Conhecia histórias de bruxas, histórias que preferia
manter no reino das lendas. Mas ali estava ela, bem diante dele, e qualquer dúvida sobre sua
natureza se dissipara no momento em que ele fora arrastado para aquela escuridão.

— Você poderia ter me matado. — Ele limpou a poeira das roupas, tentando recuperar a
compostura.

— Poderia — ela concordou, sem qualquer emoção. — Mas talvez você me seja útil.

Vin ergueu uma sobrancelha. Não gostava da ideia de ser manipulado, mas menos ainda da
ideia de ficar no caminho dela. Havia poder ali, um poder que ele não compreendia, mas
reconhecia. E ele aprendera, ao longo dos anos, a respeitar aquilo que não entendia.

— E se eu não quiser? — desafiou.

Irisia sorriu, um sorriso frio.

— Então eu encontro outra utilidade para você. — Seu olhar se desviou para Void, que piscou
lentamente, como se compreendesse exatamente o que ela queria dizer.

O ar ao redor pareceu se tornar mais denso. Vin cerrou os dentes. Não era tolo. Se quisesse
sair daquela floresta vivo, teria que jogar conforme as regras dela.

— O que você precisa de mim? — perguntou, cruzando os braços.

Irisia deu um passo à frente, a luz da lua tocando seus traços afiados.

— Um artefato. Algo que pode mudar tudo. E para encontrá-lo… vou precisar de um ladrão.
Vin não respondeu de imediato. Algo dentro dele dizia que esse seria um caminho sem volta.
Mas talvez, só talvez, valesse o risco.

Ele soltou um suspiro.

— Parece que acabamos de fazer um acordo, então.

Capítulo 2 - Pactos e Sombras

O silêncio da floresta parecia ainda mais denso depois do que acontecera. Vin mantinha os
olhos fixos em Irisia, tentando decifrar suas intenções. Bruxas não eram confiáveis. Ele
aprendera isso com os sussurros nas tavernas e os olhares supersticiosos de viajantes que
juravam ter visto coisas inexplicáveis. Ainda assim, ali estava ele, diante de uma delas, prestes a
aceitar um pacto do qual não poderia escapar.

— Esse artefato — Vin quebrou o silêncio, sua voz baixa, controlada —, o que exatamente ele
faz?

Irisia observou-o por um instante, como se decidisse quanta verdade revelar.

— Ele é antigo. Poderoso. E essencial. — Ela girou o pingente entre os dedos. — Se cair em
mãos erradas, pode trazer ruína não apenas para mim, mas para este mundo.

Vin arqueou uma sobrancelha. Soava como as muitas histórias que circulavam entre
contrabandistas e caçadores de tesouros, lendas que sempre terminavam mal para aqueles
que ousavam persegui-las.

— Isso me diz pouco — respondeu, cruzando os braços. — E você não me parece o tipo que
aceita ajuda de bom grado. Por que eu?

A bruxa deu um passo à frente, e Vin conteve o instinto de recuar. O cheiro dela era uma
mistura de ervas, terra molhada e algo indescritível, um vestígio de magia impregnado em sua
pele.
— Porque você é um ladrão — disse ela, com simplicidade. — E o lugar onde o artefato está
escondido não pode ser acessado por alguém como eu. Preciso de alguém com suas
habilidades. Discrição. Agilidade. Astúcia.

Void se moveu pela sombra de Irisia, sua cauda negra ondulando suavemente. Os olhos do gato
fixaram-se em Vin, avaliando-o tanto quanto sua dona. Havia algo de inquietante naquela
criatura, algo que fazia o ar parecer mais denso ao redor dela.

Vin soltou uma risada curta e sem humor.

— E se eu simplesmente desaparecer na primeira oportunidade?

Irisia não sorriu, mas seus olhos brilharam de um jeito que fez um calafrio percorrer a espinha
de Vin.

— Você não vai. — A certeza em sua voz não deixava espaço para dúvidas. — Porque este não
é um trabalho qualquer. E porque agora que tentou me roubar, você faz parte disso.

As palavras pairaram entre eles, carregadas de um significado que Vin não conseguia
compreender totalmente. Mas ele sabia que estava preso àquilo, de um jeito ou de outro.

Suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros.

— Certo — disse, enfim. — Mas quero saber tudo. Onde está esse artefato e quem mais está
atrás dele?

Irisia virou-se, caminhando para longe sem se preocupar em verificar se ele a seguia.

— Então venha, ladrão. Há muito o que discutir antes do amanhecer.

Vin hesitou por um instante, lançando um último olhar para a floresta escura ao seu redor. A
sensação de que cruzara uma linha invisível era forte, mas ele já tomara sua decisão.

Seguiu a bruxa e seu gato pelas sombras da noite, sem perceber que, a partir daquele
momento, seu destino estava irrevogavelmente ligado ao dela.
Capítulo 3 - Ecos do Passado

A floresta parecia mais densa conforme avançavam. Vin seguia a poucos passos de Irisia, atento
a qualquer som incomum entre as árvores. O ar carregava umidade e um frio cortante, e a
trilha era pouco visível sob a vegetação rasteira. Void caminhava silencioso ao lado da bruxa,
seus olhos brilhando na penumbra como brasas vivas.

O ladrão não gostava do silêncio entre eles, mas também não sabia o que dizer. Aceitara aquele
acordo por necessidade, mas confiar em Irisia era outra questão. Bruxas sempre tinham
segundas intenções.

— Estamos longe o bastante? — Ele quebrou o silêncio, a voz baixa.

— Não ainda. — Irisia não desacelerou. — Meu refúgio fica em um lugar protegido. Não
podemos nos arriscar a sermos seguidos.

Vin olhou ao redor. Até onde sabia, estavam sozinhos. Mas a forma como Irisia falava sugeria
que havia mais na floresta do que seus olhos podiam ver.

Depois de mais alguns minutos de caminhada, o terreno começou a mudar. A vegetação se


tornou mais densa, e então surgiu uma névoa fina que pairava sobre o solo. Vin sentiu um
arrepio involuntário quando a bruxa levantou uma das mãos e murmurou algo em uma língua
desconhecida. A névoa se dissipou imediatamente, revelando uma construção de pedra
coberta de musgo, oculta entre as árvores como um segredo há muito enterrado.

— Entre — disse ela, empurrando a porta de madeira envelhecida.

Vin hesitou por um instante. Estava prestes a se trancar no domínio de uma bruxa. Mas Void
cruzou a soleira sem hesitação, e, por algum motivo, isso o convenceu de que aquele era o
único caminho.

O interior da cabana era surpreendentemente acolhedor. Uma lareira crepitava em uma das
paredes, lançando sombras dançantes pelo ambiente. Prateleiras repletas de frascos,
pergaminhos e livros ocupavam cada canto do lugar. No centro, sobre uma mesa de madeira
escura, um mapa antigo estava aberto, coberto de anotações e símbolos que Vin não
reconhecia.
Irisia se aproximou e passou os dedos sobre um ponto marcado com tinta escura.

— O artefato está aqui — disse, sua voz firme. — Debaixo das ruínas de Eldarion.

Vin cruzou os braços. Eldarion. O nome despertava histórias de advertência, lendas sobre
ambição desmedida e destruição inevitável. Não era um lugar que qualquer um ousava
explorar.

— E o que exatamente estamos buscando? — Ele estreitou os olhos.

Irisia hesitou por um breve instante antes de responder.

— Uma chave. Mas não para portas comuns. — Ela encontrou o olhar dele. — Uma chave
capaz de abrir caminhos entre mundos.

Vin sentiu o peso daquelas palavras. Não era ouro, nem joias, nem um mero objeto de magia.
Era algo maior. Algo que poderia mudar destinos.

Ele expirou lentamente, mantendo a expressão neutra, mas por dentro, sabia que acabara de
se envolver em algo muito além do que poderia ter imaginado. E, por mais que quisesse negar,
uma parte dele estava intrigada.

— Então, como começamos? — perguntou, enfim.

O brilho nos olhos de Irisia confirmou o que ele já suspeitava.

Não havia mais volta.

Capítulo 4 - O Caminho para Eldarion

A alvorada trouxe um céu cinzento, e o vento frio carregava o cheiro úmido da floresta. Vin
despertou ao ouvir o crepitar das chamas na lareira e o leve farfalhar das páginas que Irisia
folheava. Void dormia enrolado em um canto, seus olhos semicerrados brilhando sob a
penumbra do aposento.

Vin se levantou, esticando os músculos doloridos da noite mal dormida. Seu olhar pousou na
mesa, onde o mapa ainda estava aberto, ladeado por frascos e pergaminhos.

— Quanto tempo levará até Eldarion? — perguntou, sua voz rouca pelo sono.

Irisia ergueu os olhos do pergaminho que lia e respondeu com naturalidade:

— Se seguirmos pela trilha oculta, dois dias. Mas não seremos os únicos interessados no que
está lá.

Vin franziu a testa. Sabia que algo assim não permaneceria um segredo por muito tempo. Onde
havia poder, havia cobiça.

— Quem mais pode estar atrás disso? — ele perguntou, cruzando os braços.

Irisia suspirou e fechou o pergaminho. Havia uma sombra de preocupação em seus olhos
quando respondeu:

— Caçadores de artefatos, mercenários, aqueles que sentem a magia no ar e desejam controlá-


la. E… talvez algo pior.

Vin arqueou uma sobrancelha.

— Algo pior? Isso não é exatamente encorajador.

— Não estou aqui para te encorajar, ladrão. Estou aqui para encontrar a chave e garantir que
ela não caia em mãos erradas. — Ela se levantou, recolhendo alguns frascos e os guardando
em uma bolsa de couro. — Se isso significa enfrentar ameaças no caminho, que seja.

Ele observou seus movimentos, notando a precisão com que ela organizava seus pertences.
Não havia hesitação em sua postura, como se já estivesse acostumada a esse tipo de perigo.
— Certo. — Ele soltou um suspiro e passou a mão pelos cabelos. — Então, partimos agora?

Irisia assentiu. Void, como se entendesse que a jornada estava prestes a começar, se
espreguiçou e saltou para o ombro dela com a leveza de uma sombra.

Pouco tempo depois, deixaram o refúgio e seguiram pela trilha que os levaria até Eldarion. O
caminho era traiçoeiro, e a sensação de que estavam sendo observados não os abandonou por
um instante sequer.

A floresta se fechava ao redor deles conforme avançavam. A névoa que se erguia do solo e as
sombras alongadas entre as árvores criavam um ambiente opressor. Vin não gostava daquilo.
Não gostava do silêncio pesado nem da forma como tudo parecia à espreita.

— Há algo errado — murmurou, seus olhos percorrendo o caminho à frente.

Irisia parou, franzindo a testa. Antes que pudesse responder, um farfalhar rápido cortou o
silêncio, e Vin agiu por instinto. Ele empurrou Irisia para o lado no momento exato em que uma
lâmina brilhou na penumbra, deslizando pelo espaço onde ela estivera segundos antes.

Eram três. Homens cobertos por mantos escuros, os rostos escondidos por capuzes. Moviam-
se com precisão, assassinos treinados.

— Tínhamos companhia, afinal — murmurou Vin, um sorriso afiado surgindo em seus lábios.

O primeiro atacante avançou, a lâmina indo direto para o peito de Vin. Ele desviou com um
passo ágil, girando o corpo e agarrando o pulso do inimigo. Com um movimento rápido, torceu
o braço do adversário e puxou sua adaga, fincando-a na lateral de seu pescoço. O homem caiu
sem emitir som.

O segundo investiu contra Irisia, mas antes que pudesse alcançá-la, Vin já estava em seu
caminho. Ele deslizou por baixo do golpe, aproveitando o movimento para desferir um chute
na perna do agressor, derrubando-o. Em um piscar de olhos, Vin finalizou o ataque, preciso e
letal.
O terceiro hesitou. Vin ergueu a lâmina roubada, o brilho metálico refletindo a pouca luz que
restava no ambiente. Ele não disse nada, apenas encarou o último inimigo, um convite
silencioso para que tentasse a sorte.

O homem recuou um passo. Depois outro. Então virou-se e fugiu entre as árvores,
desaparecendo na escuridão.

Vin limpou a lâmina no manto de um dos corpos e se virou para Irisia. Ela o observava, os olhos
carregando algo diferente desta vez. Algo além da desconfiança inicial.

— Impressionante — murmurou ela.

Vin deu de ombros, guardando a adaga no cinto.

— Eu sou um ladrão, não um guerreiro — disse. — Mas acredite, é melhor não subestimar
alguém que passou a vida fugindo de guardas e assassinos.

Irisia sorriu de leve, um lampejo de respeito passando por seus olhos.

— Parece que fiz a escolha certa, afinal.

Void saltou do ombro dela, caminhando até um dos corpos e farejando-o com desinteresse.
Então, sem aviso, as sombras ao redor da criatura se moveram sutilmente. Vin prendeu a
respiração.

— O que foi isso? — ele perguntou.

— Nada que precise entender agora — respondeu Irisia, enigmática. — Vamos seguir antes que
mais apareçam.

Vin olhou para ela por um longo instante, mas decidiu não insistir. Algo naquela bruxa e em seu
gato ia além do que ele compreendia, e parte dele começava a querer descobrir o que era.
A jornada até Eldarion estava apenas começando, e já havia mais segredos do que ele
esperava.

Capítulo 5 - Entre Sombras e Confissões

A floresta parecia menos ameaçadora após o confronto, mas a tensão ainda pairava no ar. Vin e
Irisia seguiram viagem em silêncio por um tempo, cada um perdido em seus próprios
pensamentos. Void caminhava entre eles, seus olhos brilhando na penumbra como duas faíscas
de mistério.

O sol já começava a se pôr quando chegaram a um pequeno riacho. A água límpida corria
preguiçosamente entre as pedras, refletindo o céu em tons alaranjados. Irisia parou e soltou
um suspiro.

— Precisamos descansar — disse ela. — Viajar à noite não será seguro, não depois do que
aconteceu.

Vin olhou ao redor e avaliou o local. A clareira parecia isolada o suficiente para que não fossem
surpreendidos novamente.

— Concordo. — Ele se abaixou perto do riacho e lavou o rosto, deixando a água fria aliviar a
tensão acumulada. Quando se virou, percebeu que Irisia havia acendido uma pequena fogueira
com um estalar de dedos. Um truque simples, mas que ainda assim o fez arquear uma
sobrancelha.

— Conveniente — comentou ele.

— Útil. — Ela se sentou sobre uma pedra, retirando a capa para se acomodar melhor. Vin
observou a forma como as chamas dançavam em seus olhos, refletindo algo que ele não
conseguia decifrar.

O silêncio se estendeu entre eles por alguns instantes, até que Vin decidiu quebrá-lo.

— Você nunca me disse de onde vem — disse ele, pegando um galho e girando-o entre os
dedos.
Irisia desviou o olhar para o fogo, como se decidisse se queria responder.

— De um vilarejo pequeno, muito longe daqui. — Sua voz saiu mais suave do que o normal. —
Não existe mais. Foi destruído há anos, quando eu ainda era criança.

Vin percebeu a dureza contida em suas palavras e decidiu não pressionar.

— E a magia? — perguntou, mudando levemente de assunto. — Como alguém se torna uma


bruxa?

Ela riu, mas sem humor.

— Alguns nascem com magia correndo no sangue. Outros a aprendem. No meu caso, foi um
pouco dos dois. — Seus dedos traçaram padrões invisíveis sobre a pedra. — Minha mãe era
uma bruxa, mas tentou manter isso em segredo. Não foi suficiente. Quando descobriram,
vieram atrás de nós. Ela morreu tentando me proteger.

Vin ficou em silêncio por um momento. Não era o tipo de história que ele esperava ouvir, mas
fazia sentido. O medo do desconhecido levava as pessoas a cometerem atrocidades.

— Sinto muito — disse ele, e surpreendeu-se ao perceber que realmente sentia.

Irisia apenas assentiu, como se já estivesse acostumada com esse tipo de reação. Depois,
ergueu os olhos para ele.

— E você, ladrão? — Sua voz agora tinha um tom curioso. — Como alguém se torna um?
Escolha ou necessidade?

Vin sorriu de canto, jogando o galho no fogo.

— Necessidade, no começo. — Ele se recostou contra uma pedra. — Cresci nas ruas, sem
família, sem nada. Roubar era a única maneira de sobreviver. Mas, com o tempo, percebi que
era bom nisso. E quando você é bom em algo, as pessoas começam a querer seus serviços. —
Ele deu de ombros. — E assim me tornei o que sou.
Irisia o observou por um instante antes de falar:

— Você diz isso como se fosse simples. Mas sobreviver assim… não é fácil.

— Não, não é. — Ele lançou um olhar para as estrelas que começavam a surgir no céu. — Mas
eu nunca precisei de ninguém. Sempre fiz as coisas do meu jeito. Até agora.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— E como se sente sobre isso? Trabalhando comigo?

Vin riu baixo.

— Ainda estou decidindo. — Seus olhos encontraram os dela, e por um momento, o fogo
pareceu ser a única coisa separando-os. — Mas, admito, você me intriga.

Irisia ergueu uma sobrancelha, um brilho divertido cruzando seu olhar.

— Isso é bom ou ruim?

— Ainda estou decidindo isso também. — Ele sorriu, mas havia sinceridade em suas palavras.

Void se moveu, saltando silenciosamente para o colo de Irisia, como se o momento precisasse
ser interrompido. Ela sorriu e acariciou o pelo macio do gato, enquanto Vin desviava o olhar
para as chamas, refletindo sobre o que acabara de compartilhar.

A confiança entre eles ainda não estava consolidada, mas, de alguma forma, a barreira que os
separava parecia um pouco menos intransponível.

A noite avançava, e a jornada para Eldarion continuaria ao amanhecer.

Capítulo 6 - A Sombra de Void


A alvorada tingia o céu de tons dourados quando Vin despertou. O calor da fogueira havia
diminuído, e apenas brasas crepitavam fracamente. Irisia já estava de pé, observando o riacho
com um olhar distante. Void se enroscava perto dela, parecendo tão atento quanto sua dona.

Vin se espreguiçou e se levantou, esfregando a nuca enquanto se aproximava.

— Já acordada há muito tempo? — perguntou ele, quebrando o silêncio.

— O suficiente. — Irisia respondeu sem desviar os olhos da água corrente. — Algo está
diferente hoje.

Vin arqueou uma sobrancelha, intrigado.

— Diferente como?

Ela hesitou antes de responder, seus dedos deslizando distraidamente pelo pelo macio de Void.

— Não sei dizer. Apenas sinto.

Ele não insistiu, mas ficou pensativo. Conhecia histórias sobre bruxas que percebiam o que
olhos comuns não podiam ver. Depois de apagarem o restante da fogueira e se certificarem de
que não deixavam rastros, seguiram viagem. A floresta começava a se abrir, revelando uma
estrada antiga de pedras cobertas de musgo. O silêncio ao redor era quase inquietante.

Vin, sempre atento, percebeu pegadas recentes misturadas às marcas do tempo.

— Alguém passou por aqui — murmurou ele, abaixando-se para analisar as marcas no solo.

Irisia olhou ao redor, os olhos atentos.

— Caçadores de recompensas? Ou algo pior?

— Não sei dizer. Mas não gosto da sensação.


Continuaram a jornada, agora mais atentos. Ao meio-dia, pararam para descansar à sombra de
uma árvore retorcida. Void pulou para uma pedra próxima e ali permaneceu, o olhar fixo em
Vin de uma maneira incomum. O ladrão sentiu um arrepio involuntário.

— Seu gato me encara como se soubesse de algo que eu não sei — comentou ele, cruzando os
braços.

Irisia observou Void e sorriu de leve.

— Talvez ele saiba.

Vin riu com sarcasmo, mas seu sorriso vacilou quando uma sensação estranha o percorreu. A
sombra de Void parecia se mover de forma independente, como se tivesse vontade própria. Ele
piscou, achando que era um truque da luz, mas então a sombra se alongou e sussurros quase
imperceptíveis preencheram o ar.

Ele se enrijeceu.

— Você ouviu isso? — perguntou.

Irisia franziu o cenho.

— Ouvi o quê?

Vin olhou para a sombra do gato, que se agitava como névoa negra sobre o chão. Os sussurros
se tornaram mais nítidos, não palavras, mas uma sensação, um chamado.

Ele estendeu a mão, hesitante, e no instante em que seus dedos tocaram a sombra, uma
corrente de energia percorreu seu braço. Sua visão escureceu por um instante e então, como
um lampejo, ele viu imagens que não lhe pertenciam.

Ruínas antigas. Um pedestal de pedra. O artefato.


Vin arfou e recuou bruscamente, seus olhos voltando ao presente. Void o observava, sua cauda
oscilando preguiçosamente, mas seus olhos continham algo diferente, algo ancestral.

Irisia aproximou-se rapidamente.

— O que aconteceu?

Vin respirou fundo, tentando organizar as palavras.

— Eu… vi algo. O artefato. Em um templo antigo… Eu não sei como, mas a sombra do seu gato
me mostrou.

Ela arregalou os olhos, surpresa e intrigada.

— Void nunca fez algo assim antes. Ou nunca permitiu que alguém o percebesse.

Vin olhou para o gato, que agora se lavava como se nada de extraordinário tivesse acontecido.

— Ele não é só um gato, não é?

Irisia suspirou, cruzando os braços.

— Nunca achei que fosse. Mas parece que estamos começando a entender o porquê.

O silêncio entre eles foi carregado de mistério e novas perguntas. Vin não sabia dizer se sentia
medo ou fascínio. Mas algo dentro dele dizia que Void era mais do que um simples
companheiro. E que talvez, ele soubesse muito mais sobre a missão do que qualquer um deles.

Capítulo 7 - Os Segredos de Eldarion

O caminho para Eldarion tornou-se mais árduo à medida que a floresta se tornava menos
densa e a paisagem revelava colinas cobertas por ruínas. O tempo parecia ter parado naquele
lugar, onde antigas construções de pedra se erguiam como esqueletos de um passado
esquecido. O vento soprava entre os escombros, trazendo consigo o sussurro de histórias há
muito enterradas.

Vin e Irisia avançavam com cautela, os sentidos aguçados para qualquer sinal de perigo. Void
caminhava à frente, seu olhar felino atento a cada movimento ao redor.

— Este lugar… — murmurou Irisia, observando as inscrições desbotadas nas pedras.

— Parece morto — completou Vin. — Mas algo me diz que não estamos sozinhos.

Ele tinha razão. Desde que cruzaram os primeiros arcos de pedra, sentia-se observado. O
silêncio era espesso demais, como se o próprio ar estivesse retendo sua respiração. A cada
passo, a presença invisível parecia se intensificar.

— Precisamos encontrar a entrada da câmara subterrânea — disse Irisia, consultando o


pergaminho envelhecido que carregava. — As ruínas indicam que deve estar abaixo do templo
principal.

Vin assentiu e observou as estruturas ao redor. Havia uma grande construção semi-destruída
no centro da cidade esquecida. As colunas quebradas ainda sustentavam partes do teto, e a
entrada parecia levar a um salão escuro e sombrio.

— Aquele parece um bom lugar para começar — disse ele, apontando.

Ao se aproximarem, Void parou abruptamente e soltou um miado baixo, quase um aviso. Suas
pupilas se estreitaram, e sua cauda ondulou de forma inquietante.

— Algo está errado — alertou Irisia, segurando seu colar com um leve brilho azulado.

Vin desembainhou sua adaga por instinto, os olhos vasculhando a penumbra do templo. De
repente, um sussurro ecoou pelo ar. Não um sussurro humano, mas algo mais profundo,
antigo.

— Vocês vieram longe demais… — a voz parecia vir de todos os lados.


As sombras dentro do templo se moveram, tomando forma. Seres envoltos em escuridão, sem
rostos, deslizaram para fora das paredes de pedra, cercando-os.

Vin girou a adaga entre os dedos, pronto para lutar.

— Acho que a recepção não será calorosa — murmurou ele.

Irisia ergueu uma das mãos, e um círculo de runas brilhou ao seu redor. Void, no entanto, não
se moveu. Seus olhos brilharam de um jeito diferente, e as sombras que o cercavam hesitaram.

— Vin… Void tem algo a ver com isso — disse Irisia, sua voz tensa.

O ladrão olhou para o gato e, mais uma vez, viu as sombras se torcerem ao seu redor. Então,
sem pensar, ele se concentrou como fizera antes. Sentiu a conexão, o sussurro do vazio dentro
de sua mente.

— Eles… temem ele — disse Vin, surpreso.

Void avançou, e as criaturas tremeram antes de recuarem. Um caminho se abriu à frente deles,
levando a uma escadaria oculta.

— O artefato está lá embaixo — disse Irisia, puxando Vin pelo braço.

Ele olhou para Void, que agora os observava com um olhar indecifrável.

— O que mais você está escondendo, hein, gato? — murmurou ele antes de seguir Irisia.

A verdade esperava por eles na escuridão abaixo. E com ela, segredos que mudariam tudo.

Capítulo 8 - O Beijo na Escuridão

A escadaria que levava ao subterrâneo era estreita e envolta em trevas. O ar tornava-se mais
frio a cada passo, e o silêncio era absoluto, como se o mundo acima tivesse desaparecido por
completo. A única coisa que os acompanhava era o brilho fraco do colar de Irisia e os olhos
cintilantes de Void, que se movia silenciosamente entre as sombras.

Vin seguia à frente, seus passos cautelosos ecoando pelas paredes de pedra. A umidade
impregnava o ambiente, e um cheiro de terra antiga e magia esquecida preenchia o ar. Irisia
caminhava logo atrás, os olhos atentos a qualquer movimentação estranha.

— Alguma ideia do que nos espera lá embaixo? — perguntou Vin em voz baixa.

— Apenas fragmentos de lendas — respondeu Irisia. — Dizem que esta câmara esconde um
poder adormecido há séculos. Mas os pergaminhos não explicam o que exatamente iremos
encontrar.

— Ótimo — murmurou ele. — Eu adoro surpresas.

De repente, uma corrente de ar passou por eles, trazendo consigo um sussurro distante. As
tochas fixadas nas paredes se apagaram de uma vez, mergulhando-os em uma escuridão densa
e sufocante. Vin parou imediatamente, segurando o braço de Irisia por reflexo.

— Você sentiu isso? — sua voz soava tensa.

— Magia sombria — ela sussurrou. — Estamos sendo testados.

Antes que pudessem reagir, a escuridão se tornou tão absoluta que nem mesmo o brilho do
colar de Irisia podia atravessá-la. Era como se o mundo ao redor tivesse desaparecido,
deixando-os suspensos no vazio.

Vin sentiu o coração acelerar. Ele sempre confiara em seus sentidos para sobreviver, mas ali,
sem ver ou ouvir nada, sentia-se completamente vulnerável.

— Irisia? — chamou, incerto.

— Estou aqui — respondeu ela, sua voz próxima, mas indistinta, como se a própria escuridão
distorcesse o som.
Ele estendeu a mão, e seus dedos tocaram os dela. O contato foi instintivo, um gesto de
ancoragem no meio do nada absoluto. Para sua surpresa, Irisia segurou sua mão com firmeza.

— Não solte — disse ela, sua voz carregada de algo que Vin não conseguiu identificar.

O silêncio entre eles foi preenchido apenas pela respiração controlada de ambos. Então, sem
perceber exatamente por quê, Vin riu baixinho.

— Nunca pensei que morreria ao lado de uma bruxa.

— E eu nunca pensei que um ladrão me faria sentir... segura — respondeu ela.

As palavras pairaram entre eles, carregadas de uma intensidade silenciosa. Vin podia não
enxergar, mas sentia a presença dela, o calor de seu corpo tão próximo ao dele. Foi então que
Irisia se moveu, sua mão subindo lentamente pelo braço de Vin até tocar seu rosto. Ele
inclinou-se levemente para o toque, sua respiração se entrelaçando com a dela.

A hesitação foi breve. O desejo, inevitável.

Seus lábios se encontraram na escuridão.

O beijo foi suave no início, uma exploração incerta, mas conforme o medo e a incerteza se
dissipavam, ele se tornou mais profundo, mais urgente. Era uma promessa silenciosa em meio
ao vazio, um elo que transcendia a escuridão que os rodeava.

Foi então que algo aconteceu.

Uma luz suave surgiu entre eles, vinda de seus peitos, crescendo como uma chama dourada. O
calor percorreu seus corpos, e aos poucos, as sombras se dissiparam. Quando se afastaram,
ainda ofegantes, viram-se rodeados por uma aura cintilante.

A escuridão cedeu.

O caminho diante deles tornou-se visível, revelando degraus que levavam para uma grande
câmara subterrânea.
Irisia olhou para Vin, os olhos brilhando com a luz recém-descoberta.

— Acho que encontramos a saída — murmurou ela.

Vin sorriu, o gosto do beijo ainda presente em seus lábios.

— E talvez algo mais. — Ele entrelaçou os dedos nos dela antes de dar o primeiro passo rumo
ao desconhecido.

Capítulo 9 - O Coração da Câmara

O brilho dourado que emanava de seus peitos aos poucos começou a se dissipar, deixando um
rastro tênue que parecia pulsar com a própria energia do templo. Vin e Irisia trocaram um
olhar rápido antes de descerem os últimos degraus da escada recém-revelada.

A câmara subterrânea se abriu diante deles como um salão colossal. As paredes eram cobertas
por inscrições antigas, e no centro do salão, uma estrutura de pedra esculpida em espiral
envolvia um pedestal. No topo, um pequeno orbe brilhava com uma luz azul etérea, sua
energia oscilando no ar.

Void foi o primeiro a se mover, caminhando lentamente até o círculo de pedras e parando
diante do pedestal. Suas pupilas dilataram, e um brilho profundo surgiu em seus olhos. Vin
sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— Esse deve ser o artefato… — murmurou Irisia, dando um passo à frente.

Antes que pudessem se aproximar mais, uma nova presença se manifestou. As sombras do
recinto começaram a se agitar, e uma silhueta indistinta emergiu do nada. Sua forma oscilava
como névoa negra, sem rosto, mas claramente ciente de sua presença.

— Vocês não deviam estar aqui — a voz reverberou, fria e antiga.

Vin instintivamente puxou sua adaga, mas Irisia ergueu a mão, indicando que ele deveria
esperar.
— Viemos em busca da verdade — ela disse com firmeza. — Do artefato.

A sombra riu, um som baixo e ameaçador.

— A verdade tem um preço. E a pergunta é: vocês estão dispostos a pagá-lo?

O chão sob eles tremeu, e as paredes da câmara começaram a brilhar com inscrições que não
haviam visto antes. O verdadeiro teste estava prestes a começar.

A silhueta negra se expandiu, tomando a forma de algo maior e mais imponente. Vin e Irisia
sentiram uma pressão invisível os cercar, como se a própria sala os estivesse avaliando. Void,
no entanto, não se moveu. O pequeno gato ergueu a cabeça, seu olhar fixo na entidade à
frente deles. Então, para surpresa de todos, ele miou — um som simples, mas que ecoou pelo
salão como um trovão distante.

A sombra hesitou.

Vin trocou um olhar com Irisia antes de apertar o punho em torno da adaga. O destino deles
estava prestes a ser decidido.

Capítulo 10 - O Guardião das Sombras

A silhueta negra continuou a crescer até tomar quase todo o espaço da câmara. Seus olhos,
duas fendas brilhantes, fixaram-se no grupo com uma intensidade penetrante.

— Prove que são dignos. — A voz reverberou pelas paredes do templo.

Sem aviso, tentáculos sombrios se lançaram na direção deles. Vin esquivou-se por instinto,
puxando Irisia para trás. Ela ergueu as mãos e um escudo de luz azulada brilhou ao redor deles,
repelindo a investida das sombras.

Void, porém, permaneceu imóvel. Seus olhos começaram a brilhar em um tom ainda mais
profundo, e um círculo de energia negra se formou ao seu redor. A criatura hesitou ao perceber
isso.
A sala inteira pulsou como se estivesse viva. As inscrições nas paredes começaram a brilhar em
um ritmo acelerado, respondendo ao embate de forças.

Irisia manteve o escudo ativo, mas sentia a pressão da magia sombria tentando penetrá-lo. Vin,
por sua vez, sacou sua adaga e avançou em um movimento rápido, cortando um dos tentáculos
negros que se aproximavam. O membro da criatura se dissolveu em névoa antes de se
reformar.

— Atacar não adianta! — alertou Irisia. — Precisamos entender o que ele quer provar!

Vin recuou ao lado dela, respirando fundo.

— Certo, então o que sugere?

Antes que ela pudesse responder, Void deu um passo à frente. Sua cauda se ergueu e sua
silhueta parecia se expandir momentaneamente, como se sua sombra estivesse se fundindo
com a do guardião. O ar ficou pesado, e o próprio ser sombrio hesitou.

— O Senhor do Vazio… — a voz ecoou novamente, mas dessa vez sem o mesmo tom de
desafio. Parecia… reverente.

Void miou mais uma vez, e o som reverberou por toda a câmara, fazendo as inscrições
brilharem ainda mais. O guardião, antes ameaçador, começou a encolher, sua forma oscilando
como se estivesse se curvando diante do pequeno felino.

Irisia e Vin se entreolharam, incrédulos.

— Void… está controlando ele? — Vin perguntou, ainda segurando sua adaga.

Irisia assentiu lentamente.

— Ou talvez o guardião reconheça que ele é superior. Algo nessa câmara responde ao Void de
uma forma que nem imaginávamos.
O guardião então se ergueu uma última vez antes de se dissolver no ar, deixando para trás um
silêncio absoluto. A energia na sala mudou instantaneamente, e a escuridão começou a se
dissipar. O caminho até o pedestal agora estava livre.

Vin abaixou a adaga, ainda tentando processar o que havia acabado de acontecer.

— Bom, isso foi… inesperado.

Irisia soltou um suspiro aliviado e voltou sua atenção para Void, que agora se sentava
calmamente diante do pedestal, como se nada tivesse acontecido.

— Ele nunca deixa de me surpreender — murmurou ela.

Com cautela, ela e Vin caminharam até o centro da câmara. O orbe azul que repousava no
pedestal pulsava levemente, sua energia dançando no ar.

— Este é o artefato… — Irisia sussurrou, estendendo a mão.

Vin segurou seu pulso por um instante.

— Tem certeza? Não sabemos que tipo de magia está ligada a ele.

Ela olhou nos olhos dele e assentiu.

— Nunca estive tão certa de algo em minha vida.

Com um último olhar para Void, que apenas os observava em silêncio, Irisia tocou o artefato.

Capítulo 11 - Visões do Infinito

Assim que os dedos de Irisia tocaram a superfície do orbe, um clarão azul preencheu a câmara,
forçando Vin a cobrir os olhos. Um vórtice de energia se formou ao redor deles, e por um
instante, o tempo pareceu se dobrar sobre si mesmo.
Irisia sentiu como se sua mente estivesse sendo puxada para todas as direções ao mesmo
tempo. Imagens começaram a surgir em sua visão — cidades de ouro, campos de batalha
esquecidos, oceanos sem fim. E, em todas elas, havia uma constante: ela e Vin. Juntos.

Ela piscou e viu uma versão de si mesma vestindo um manto real, sentada ao lado de um Vin
que usava uma armadura ornamentada. Piscou novamente, e agora estavam em uma pequena
cabana à beira-mar, rindo sob um céu estrelado. Mais uma vez, e se viu dançando em meio a
uma festa sob lanternas flutuantes, com Vin segurando sua mão.

Vin, por sua vez, foi dominado pelas mesmas visões. Em cada uma delas, independentemente
do cenário ou do tempo, Irisia estava ao seu lado. Às vezes como uma maga poderosa, outras
como uma simples viajante, mas sempre juntos.

— Você está vendo isso? — ele perguntou, ofegante.

Irisia assentiu, os olhos brilhando com o reflexo das infinitas realidades que se desenrolavam
diante deles.

— São… possibilidades — murmurou ela. — Todas as vidas que poderíamos ter vivido… e as
que ainda podemos viver.

Void saltou para o pedestal e tocou o orbe com a pata. Imediatamente, as imagens se
dissiparam, e o brilho ao redor deles se suavizou. A sensação avassaladora de estar perdido
entre múltiplas realidades foi substituída por uma calma profunda.

Vin soltou um suspiro trêmulo.

— Então, isso significa que… não importa onde ou quando…

— Sempre estaremos juntos — completou Irisia, olhando para ele com um misto de fascínio e
ternura.

O ladrão passou a mão pelos cabelos, tentando absorver a magnitude da revelação. Ele sempre
acreditara no acaso, no destino moldado por escolhas momentâneas. Mas agora… agora sabia
que algo muito maior os unia.
Ela entrelaçou os dedos aos dele, apertando suavemente.

— O artefato nos mostrou a verdade. E se estamos aqui agora, nesta versão de nossa história, é
porque temos um propósito a cumprir.

Vin sorriu de leve.

— Então, que seja juntos.

O brilho do orbe se intensificou por um instante, como se aceitasse sua promessa. A jornada
deles estava longe de terminar, mas agora carregavam consigo um conhecimento que ninguém
mais possuía: eles eram parte de algo eterno, e não havia força neste ou em qualquer outro
mundo que pudesse separá-los.

Capítulo 12 - O Destino Entre Mundos

O brilho do orbe começou a pulsar em um ritmo constante, como se estivesse esperando que
tomassem a próxima decisão. Irisia e Vin se entreolharam, sabendo que a escolha que fariam
naquele instante definiria não apenas seus destinos, mas de todo aquele mundo.

— O artefato nos conecta a todas as realidades — murmurou Irisia. — E se pudermos usá-lo


para salvar este mundo?

Vin franziu a testa, ponderando.

— Você acha que podemos reverter o que foi feito? Restaurar o equilíbrio?

Void, sentado ao lado do orbe, piscou lentamente, como se estivesse aguardando a resposta
deles. O artefato havia revelado suas infinitas existências, mas a única coisa que realmente
importava era o presente, a realidade em que estavam agora. E nessa, o mundo ainda
precisava de salvação.
Irisia ergueu as mãos sobre o orbe e fechou os olhos, sentindo a magia fluir através dela. Vin
manteve sua mão sobre a dela, sentindo o mesmo poder pulsar. Juntos, concentraram seus
pensamentos no desejo de restaurar Eldarion.

O artefato reagiu.

Ondas de energia se expandiram da câmara, atravessando o templo e ecoando pelas ruínas. O


céu, antes coberto por nuvens pesadas, começou a se abrir, revelando uma luz dourada. A
terra, castigada pela magia sombria, absorveu a nova energia, e os vestígios da decadência
começaram a se dissipar. O ciclo de destruição que assombrava aquele reino foi quebrado.

Irisia abriu os olhos, sentindo o peso da magia aos poucos se acalmar dentro dela. Vin a
segurou antes que ela perdesse o equilíbrio, sorrindo suavemente.

— Conseguimos — ele sussurrou.

Void saltou do pedestal e roçou sua cabeça contra eles, como se concordasse. O templo que
antes parecia um túmulo agora emanava uma aura de renovação.

Mas o orbe ainda pulsava. Ainda havia algo a ser feito.

Irisia olhou para Vin com um olhar de compreensão. A visão das múltiplas realidades não havia
sido apenas um vislumbre de possibilidades, mas um chamado. O artefato não apenas
restaurava, ele também concedia uma escolha.

— Se usarmos esse poder uma última vez — começou Irisia —, podemos renascer… em outro
mundo.

Vin soube exatamente do que ela falava. As visões haviam mostrado que, em todas as
realidades, eles sempre se encontravam. Se escolhessem partir, poderiam viver juntos em um
lugar onde a magia não governava o destino, mas onde seu amor ainda os uniria.

Ele segurou sua mão com firmeza.

— Onde quer que seja, eu irei com você.


Ela sorriu, e juntos, tocaram o artefato pela última vez.

A câmara foi inundada por uma luz branca e pura, e o tempo pareceu parar. Tudo ao redor
deles começou a se desvanecer, como se fossem partículas sendo levadas pelo vento. A última
coisa que ouviram foi um ronronar suave de Void, antes de tudo se tornar silêncio.

Um novo amanhecer.

O cheiro de café preenchia o ar. O som de carros na rua, vozes distantes e uma brisa morna
passando pela janela entreaberta.

Iris abriu os olhos lentamente, piscando contra a claridade suave do quarto. Ela sentiu uma
presença ao seu lado e virou-se, encontrando Vinicius dormindo tranquilamente. Um sorriso se
formou em seus lábios antes que uma pequena bola de pelos saltasse sobre a cama.

Void, o pequeno gato negro, os observava com olhos brilhantes, sua cauda balançando de
maneira travessa.

Ela passou os dedos pelos cabelos de Vinicius, que murmurou algo sonolento antes de abrir os
olhos.

— Bom dia — ele disse, sorrindo preguiçosamente.

Iris sentiu seu coração aquecer.

Eles haviam renascido, como sempre deveria ter sido. E em qualquer mundo, em qualquer
realidade, sempre se encontrariam.

O destino deles nunca poderia ser outro.

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