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Mecânica Quântica: Teoria e Aplicações

O documento aborda a mecânica quântica, apresentando uma exposição moderna e abrangente da teoria, com foco em conceitos fundamentais e aplicações práticas. Escrito por José Roberto Pinheiro Mahon, o texto é destinado a estudantes avançados de graduação e pós-graduação, dividido em vinte capítulos que cobrem desde a equação de Schrödinger até teorias relativísticas. O autor, com vasta experiência em física de partículas, busca facilitar a compreensão dos tópicos através de deduções claras e exemplos atuais.

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Mecânica Quântica: Teoria e Aplicações

O documento aborda a mecânica quântica, apresentando uma exposição moderna e abrangente da teoria, com foco em conceitos fundamentais e aplicações práticas. Escrito por José Roberto Pinheiro Mahon, o texto é destinado a estudantes avançados de graduação e pós-graduação, dividido em vinte capítulos que cobrem desde a equação de Schrödinger até teorias relativísticas. O autor, com vasta experiência em física de partículas, busca facilitar a compreensão dos tópicos através de deduções claras e exemplos atuais.

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Mecânica Quântica

desenvolvimento contemporâneo com aplicações

José Roberto Pinheiro Mahon

Rio de Janeiro
Mecânica Quântica
desenvolvimento contemporâneo com aplicações

José Roberto Pinheiro Mahon


Instituto de Física Armando Dias Tavares
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, 2011


A meus pais, José e Zélia.
A Geisa, com amor.

A meus mestres,
Luiz Barco,
Mário Biazzi,
Elly Silva,
Armando Turtelli Jr.,
Carlos Ourivio Escobar e
Cesare Mansueto Giulio Lattes.
Sobre o Autor

José Roberto Pinheiro Mahon, nascido em Bauru, no Estado de São Paulo, em 1955, é professor e pes-
quisador do Departamento de Física Nuclear e Altas Energias, no Instituto de Física Armando Dias Tavares
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Graduado em matemática e tecnologia mecânica
em Sorocaba (FAFI e FATEC-UNESP), fez seu mestrado em física na Universidade Estadual de Campi-
nas (UNICAMP) e obteve seu doutorado em física pela Universidade de São Paulo (USP). Com formação
científica na área de física de partículas, desenvolveu pesquisas em física experimental de altas energias e
trabalhou em colaborações internacionais tanto no Fermilab, Estados Unidos, como no CERN, na Europa.
Atualmente dedica-se a fenomenologia de partículas e fundamentos de física. Publicou mais de 130 traba-
lhos em periódicos científicos internacionais, além de apresentações em congressos internacionais. Orienta
alunos de graduação e de pós-graduação. É coautor do livro Estimativas e erros em experimentos de Física,
primeira (2005) e segunda edição publicado em 2008 pela EdUERJ.

vii
Prefácio

A mecânica quântica é, ao lado da relatividade, um dos pilares fundamentais da física moderna. Este texto é
baseado em um curso de graduação, para estudantes avançados, e de pós-graduação em mecânica quântica
que ministrei nos últimos anos no I NSTITUTO DE F ÍSICA DA U NIVERSIDADE DO E STADO DO R IO DE
JANEIRO, é uma exposição básica e com uma abordagem moderna da teoria quântica.
O objetivo do texto é apresentar a Mecânica Quântica numa forma moderna, desde os conceitos funda-
mentais, passando pela equação de onda, pelo formalismo matemático da mecânica quântica, pelas integrais
de caminho até as equações relativística. Ainda incluímos vários exemplos atuais, suas aplicações (técnico
científica) e experimentos recentes. Tento colocar no texto as informações que deverão ser úteis aos estu-
dantes que irão utilizá-lo.
Os tópicos introduzidos são tratados de forma compreensiva, procurando-se expor claramente as dedu-
ções dos principais resultados. Espera-se que o estudante tenha familiaridade com o material básico de um
curso de estrutura da matéria e mecânica analítica (nível de graduação), bem como de álgebra linear e de
física matemática abordados nos cursos de Física.
Os temas da mecânica quântica tratados neste texto foram divididos em vinte capítulos assim distri-
buídos: Introdução aos Conceitos Fundamentais, A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores,
Aplicações da Equação de Schrödinger, Aproximação WKB, Formalismo da Mecânica Quântica, Dinâmica
Quântica, Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman, Potenciais Centrais e Momentum Angular, Es-
palhamento, Rotações o Operadores Tensoriais, Não Localidade na Mecânica Quântica, Matriz Densidade,
Simetrias e Leis de Conservação, Teoria das Perturbações Estacionárias, Teoria das Perturbações Depen-
dente do Tempo, Teoria da Resposta Linear, Teoria Formal do Espalhamento, Partículas Idênticas, Campo
Eletromagnético e Equações Relativísticas. Como o texto está preparado para estudantes avançados de gra-
duação (um semestre) e para estudantes de pós-graduação (dois semestres), podemos utilizá-lo da seguinte
forma: Para a graduação, os capítulos 1, 2, 3, 5, 6, 8, 9 e 14; para a pós-graduação usamos o texto completo.
Desejo agradecer aos estudantes que proporcionaram a motivação para escrever este texto. Em espe-
cial André Calvet Correa solucionando problemas em teoria de perturbação e colisões, Ana Thereza Bastos
Garcia da Rosa desenvolvendo através das integrais de caminho o problema do oscilador harmônico for-
çado, Victor Galvão desenvolvendo o mesmo problema através da regra dos operadores, Diego Figueiredo
colaborando com efeito Aharonov-Bohm, Alan Guzmán colaborando com teoria de gauge e monopolos
magnéticos, Márcio Capri que solucionou os problemas propostos durante o período em que foi meu moni-
tor no curso de graduação e Jordan Martins que propôs problemas interessantes quando foi meu estudante
de graduação.
Agradeço também aos colegas do Instituto que incentivaram na preparação deste trabalho. Em especial
aos Profs. José Umberto Cinelli Lobo de Oliveira, pelas discussões dos aspectos fundamentais da mecânica
quântica e valiosa ajuda na apresentação do texto; Vitor Oguri, pelas valiosas sugestões, discussões dos
aspectos fundamentais, conceituais e da matemática usada na mecânica quântica, longas horas de discussão
sobre os experimentos básicos e suas interpretações; e Francisco Caruso Neto, pelo apoio, incentivo e su-
gestões dadas. Também um agradecimento especial ao Prof. Arnaldo José Santiago, pela leitura detalhada
de todo o texto, comentários e sugestões. Cabe aqui ressaltar que o capítulo da Teoria da Resposta Linear
se deve ao Prof. Vitor Oguri, que sugeriu, discutiu e desenvolveu este problema; portanto, meu especial

ix
x P REFÁCIO

agradecimento por permitir utilizar suas notas. Cabe lembrar que o prof. Vitor Oguri utilizou parte desse
material no curso por ele oferecido aos estudantes de graduação. Minhas longas conversas com esses amigos
e colegas de trabalho foram um grande estimulo para realização deste texto.
Finalmente, porém não menos importante, gostaria de agradecer ao grupo editorial GEN/LTC, em espe-
cial ao Ricardo Redisch, pela confiança e apoio durante a realização deste trabalho; bem como, ao pessoal
do editorial técnico, Bernardo Severo, Carla Nery e Raquel Barraca, pela paciência, discussões e sugestões
gráficas. A todos muito obrigado.

UERJ, Rio de Janeiro


J. R. P. Mahon
P REFÁCIO xi
xii P REFÁCIO
Sumário

Sobre o Autor vii

Prefácio ix

1 Introdução aos Conceitos Fundamentais 1


1.1 Radiação do Corpo Negro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
Lei de Stefan-Boltzmann . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
Lei de Wien . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
Densidade Espectral de Rayleigh-Jeans . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
Distribuição Espectral de Planck . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4
1.2 Calor Específico dos Sólidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4
1.3 Efeito Fotoelétrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
1.4 Efeito Compton . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
1.5 Espectros Atômicos e Séries Espectrais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
1.6 O Modelo de Bohr para o Átomo de Hidrogênio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
1.7 Experiência de Franck-Hertz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
1.8 Regras de Quantização de Wilson-Sommerfeld . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
1.9 Mecânica Quântica Matricial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
1.10 Postulados de de Broglie . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
1.11 Interferência em um Sistema de Duas Fendas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
1.12 O Princípio da Superposição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.13 O Princípio da Incerteza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
1.14 Pacotes de Onda e Relação de Incerteza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
1.15 Princípio da Complementaridade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
1.16 Equação de Onda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

2 A Equação de Schrödinger e Álgebra dos Operadores 25


2.1 A Equação de Onda e a Interpretação de ψ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
2.2 Conservação da Probabilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
2.3 Normalização da Função de Onda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
2.4 Equação de Onda – Sistemas Estacionários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
2.5 Estados Não Estacionários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
2.6 Ortogonalidade dos Autoestados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
2.7 Valor Esperado – Espaço de Coordenada e de Momentum . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
2.8 Operadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
2.9 Adição e Multiplicação de Operadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
2.10 A Derivada Temporal de um Operador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39

xiii
xiv S UMÁRIO

2.11 Teorema de Ehrenfest . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40


2.12 Teorema Virial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
2.13 Comutadores e Regras de Comutação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
2.14 Operadores Unitários – Operador Deslocamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46

3 Aplicações da Equação de Schrödinger 47


3.1 A Função Delta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
3.2 Analogia entre a Quântica e a Óptica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
3.3 Potencial Degrau – Barreira de Potencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
Caso 1 - E > V0 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
Caso 2 - 0 < E < V0 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
Caso Especial - E < 0 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54
3.4 Barreira de Potencial Retangular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54
Caso 1 - E, V0 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
Aplicações Importantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
Caso 2 - E > V0 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
3.5 Poço Quadrado Unidimensional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
Caso 1 - −V0 < E < 0 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
Caso 2 - E > 0 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
3.6 Potencial Delta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
3.7 Potenciais Periódicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
Exemplo: Potencial de Kronig-Penney . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
Aplicações Tecnológicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
3.8 Oscilador Harmônico Linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78

4 Aproximação WKB 79
4.1 Aproximação Semiclássica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79
4.2 Aproximação de Wentzel, Kramers e Brillouin . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
Situação em que E > V (x) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
Situação em que E < V (x) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
Condição de Validade da Aproximação WKB . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83
4.3 Fórmulas de Conexão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
Ponto de Inversão Linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
4.4 Aplicação WKB para Barreira de Potencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88
Exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90
Nota sobre Nanotecnologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
4.5 Aplicação WKB para Estados Ligados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
Última Observação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 94
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 94
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96

5 Formalismo da Mecânica Quântica 97


5.1 Experimento de Stern-Gerlach . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97
Notas sobre o Spin . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
Experimento Stern-Gerlach Sequencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
5.2 Notação de Dirac – Bra e Ket . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100
Kets . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100
Bra e Produto Interno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101
S UMÁRIO xv

5.3 Operadores Lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103


5.4 Base dos Kets e Representação Matricial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
Base dos Kets . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
Representação Ortonormal de Base Discreta ou Contínua . . . . . . . . . . . . . . . . . . 106
Representação Matricial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107
5.5 Mudança de Base – Transformação Unitária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110
Transformação Unitária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110
Mudança de Base . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110
Matriz Unitária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111
Transformação Unitária de Operadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111
Transformação Unitária Infinitesimal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111
5.6 Observáveis e Relação da Incerteza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113
Autovalores Degenerados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113
Princípio de Incerteza - Relação Geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 114
Princípio de Incerteza - Nota Especial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116
Pacotes de Mínima Dispersão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116
Desigualdade de Schwarz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117
5.7 Posição, Momentum e Translação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117
Translação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118
Espaço de Momentum . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119
5.8 Aplicações no Experimento de Stern-Gerlach . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120
Preparação dos Estados |±⟩x , |±⟩y e |±⟩u . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127

6 Dinâmica Quântica 129


6.1 Evolução Temporal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129
6.2 Derivação da Equação de Schrödinger . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130
6.3 Solução Formal para U(t, t0 ) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
Primeiro Caso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
Segundo Caso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
Terceiro Caso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
6.4 Dependência Temporal do Valor Esperado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132
6.5 Representações de Schrödinger, Heisenberg e Interação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
Representação de Schrödinger . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
Representação de Heisenberg . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134
Equação de Movimento de Heisenberg . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134
Representação de Interação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135
6.6 Precessão do Spin . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137
Nota sobre o Fator g . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139
6.7 Ressonância Magnética . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139
Experimento de Rabi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141
6.8 Oscilador Harmônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142
Autokets e Autovalores de Energia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142
Elementos de Matriz dos Operadores a† e a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144
Funções de Onda no Espaço de Posição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146
Propriedades Estatísticas do Oscilador Quântico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147
Incertezas na Posição e no Momentum . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 148
6.9 Evolução Temporal do Oscilador Harmônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 148
6.10 Estados Coerentes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149
6.11 Oscilador Harmônico Forçado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 152
6.12 Equação de Onda de Schrödinger . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156
xvi S UMÁRIO

Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159

7 Propagadores e Integrais de Caminho de Feynman 161


7.1 Propagadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 161
Exemplos de Propagador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 162
Notas sobre o Kernel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163
7.2 Evolução da Amplitude de Transição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164
7.3 Integrais de Caminho de Feynman . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165
7.4 Aproximação Semiclássica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 167
7.5 Oscilador Harmônico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 169
Autofunções e Autovalores do Oscilador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173
7.6 Oscilador Harmônico Forçado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 174
7.7 Efeito Aharonov-Bohm . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177
SQUID . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 179
Sumário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 179
7.8 Monopolos Magnéticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 179
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 182
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184

8 Potenciais Centrais e Momentum Angular 185


8.1 Momentum Angular Orbital . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185
8.2 Energia Cinética e Momentum Angular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 187
8.3 Problema de Autovalores do Momentum Angular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 188
Método Algébrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 190
Representação Matricial do Operador Momentum Angular . . . . . . . . . . . . . . . . . 193
8.4 Autofunções do Momentum Angular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194
Função Geratriz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 195
Função Associada de Legendre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 196
8.5 Harmônicos Esféricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 196
Determinação dos Harmônicos Esféricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 197
Relações de Recorrência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 199
Teorema da Adição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
Discussão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201
8.6 Redução do Problema de Força Central . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201
8.7 Partícula Livre como Problema de Força Central . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 203
Funções Esféricas de Bessel, Neumann e Hankel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204
Resumo para Partícula Livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205
8.8 Ondas Planas em Termos dos Harmônicos Esféricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 206
8.9 Caixa Esférica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 207
8.10 Potencial de Coulomb – Átomo de Hidrogênio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209
Polinômios de Laguerre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 210
Autovalores e Autofunções Normalizadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 212
Discussão dos Resultados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213
Equação de Kummer e Solução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 214
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 215
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 217
S UMÁRIO xvii

9 Espalhamento 219
9.1 Amplitude de Espalhamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219
9.2 Seção de Choque Diferencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 220
9.3 Método de Ondas Parciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222
Espalhamento por um Poço de Potencial Retangular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225
Espalhamento por uma Esfera Rígida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 227
9.4 Teorema Óptico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 228
9.5 Espalhamento Elástico e Inelástico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 228
9.6 Espalhamento Ressonante . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 230
Potencial Delta de Casca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 231
9.7 Efeito Ramsauer-Townsend . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 231
9.8 Espalhamento – Função de Green . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 232
9.9 Aproximação de Born . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 234
Potencial Coulombiano Blindado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 235
Espalhamento de Elétrons por um Átomo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236
9.10 Aproximação Eikonal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 237
9.11 Espalhamento de Partículas Idênticas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 239
9.12 Espalhamento em um Campo Coulombiano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 240
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 242
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 244

10 Rotações e Operadores Tensoriais 245


10.1 Rotações e Momentum Angular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 245
Rotações na Mecânica Quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 246
Nota sobre o Momentum Angular ⃗J . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248
10.2 Sistema de Spin 21 e Rotações Finitas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248
Precessão do Spin - Revisado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 250
10.3 Formalismo de Pauli . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 251
Rotações no Formalismo de Pauli . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253
Aplicação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253
10.4 Os Grupos SO(3), SU (2) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253
Alguns Grupos Matriciais Importantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 254
Grupo Ortogonal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 254
Grupo Unimodular Unitário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 255
Forma Geral das Matrizes de SU (2) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 255
Relação entre SO(3) e SU (2) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 257
10.5 O Grupo SU (3) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 257
10.6 Rotações de Euler . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 258
10.7 Rotações e Momentum Angular – Parte 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 261
Representação do Operador de Rotação para ⃗J . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 261
Harmônicos Esféricos como Matrizes de Rotação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 262
10.8 Adição de Momentum Angular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 263
Momentum Angular Orbital e Spin 12 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 263
Duas Partículas de Spin 21 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 265
Teoria Formal - Caso Geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 266
Relação de Recorrência para os Coeficientes de Clebsch-Gordon . . . . . . . . . . . . . . 270
Coeficientes de Racah . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 272
Séries de Clebsch-Gordon . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 273
10.9 Teorema de Wigner-Eckart . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 274
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 277
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 279
xviii S UMÁRIO

11 Não Localidade na Mecânica Quântica 281


11.1 Paradoxo de Einstein, Podolsky e Rosen . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 281
11.2 Variáveis Ocultas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 283
11.3 Teorema de Bell . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 284
11.4 Desigualdade CHSH . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 286
Violação dessa Desigualdade pela Mecânica Quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 288
11.5 Experimento de Aspect . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 288
11.6 Teoria das Variáveis Ocultas Não Locais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 290
Experimento de Zeilinger . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 293
11.7 Emaranhamento e Decoerência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 295
11.8 Teleportação e Criptografia Quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 296
Informação Quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 296
Codificação Superdensa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 297
Teleportação Quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 297
Criptografia Quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 299
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 301
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 301

12 Matriz Densidade 303


12.1 Operador Matriz Densidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 304
Propriedades da Matriz Densidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 306
Estados Puros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 307
12.2 Matriz Densidade – Sistemas de Spin 12 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 308
Exemplo 1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 308
Exemplo 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 308
Exemplo 3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 308
Última Observação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 309
12.3 Evolução Temporal de um Sistema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 310
12.4 Sistemas de Dois Níveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 311
12.5 Polarização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 314
12.6 Precessão do Vetor Polarização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 315
Exemplo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 316
12.7 Polarização e Espalhamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 316
12.8 Mecânica Estatística Quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 318
Exemplo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 320
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 321
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 322

13 Simetrias e Leis de Conservação 323


13.1 Simetrias na Física Clássica e Quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 323
Simetrias na Mecânica Clássica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 323
Simetrias na Mecânica Quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 324
13.2 Invariância Temporal e Energia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 324
13.3 Invariância Espacial e Momentum Linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 325
13.4 Invariância Rotacional e Momentum Angular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 326
13.5 Simetria Discreta, Paridade ou Inversão Espacial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 326
Não Conservação da Paridade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 328
Decaimento Não Leptônico Λ → p + π − . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 329
13.6 Poço Duplo Simétrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 329
A Molécula de Amônia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 332
13.7 Simetria Discreta, Inversão Temporal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 333
Sistema com Spin . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 336
S UMÁRIO xix

Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 336
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 338

14 Teoria das Perturbações Estacionárias 339


14.1 A Série Perturbativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 339
14.2 Equações da Série Perturbativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 340
14.3 Perturbação – Caso não degenerado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 341
Correção de Primeira Ordem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 341
Exemplo para Correção de Primeira Ordem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 342
Correção de Segunda Ordem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 343
Caso Geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 344
14.4 Perturbação – Caso degenerado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 344
Sistema de Dois Níveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 344
Ordem Zero . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 345
Correção de Primeira Ordem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 345
Oscilador Harmônico Bidimensional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 347
14.5 Perturbação – Observações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 348
14.6 Partícula de Spin 12 em um Campo Magnético . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 350
14.7 Efeito Stark . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 351
Polarizabilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 351
14.8 Interação Spin-Órbita e Estrutura Fina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 354
14.9 Efeito Zeeman . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 356
14.10Método Variacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 360
Aspectos Teóricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 360
Método de Rayleigh-Ritz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 361
Exemplo 1 - Átomo de Hidrogênio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 361
Exemplo 2 - Oscilador Duplo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 362
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 368
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 370

15 Teoria das Perturbações Dependente do Tempo 371


15.1 Equação de Movimento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 371
15.2 Representação de Interação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 372
15.3 Sistema de dois Níveis Dependente do Tempo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 373
Ressonância Magnética . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 376
15.4 Séries de Dyson . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 377
15.5 Probabilidade de Transição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 378
15.6 Perturbação Constante . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 379
Regra de Ouro de Fermi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 380
Correção de Segunda Ordem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 381
15.7 Perturbação Harmônica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 382
15.8 Campo Clássico de Radiação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 383
Absorção e Emissão Induzida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 383
Aproximação Dipolo Elétrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 385
Efeito Fotoelétrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 388
15.9 Vida Média dos Estados Excitados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 389
Aproximação Dipolo Elétrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 394
15.10Aproximação Adiabática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 394
A Fase de Berry . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 395
Efeito Aharonov-Bohm Revisado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 396
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 397
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 399
xx S UMÁRIO

16 Teoria de Resposta Linear 401


16.1 Perturbação por um Agente Externo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 401
16.2 Perturbação por um Campo Clássico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 402
16.3 Primeira Ordem de Perturbação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 402
16.4 Funções de Correlação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 403
Nota 1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 404
Nota 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 405
16.5 Teorema de Flutuação-Dissipação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 405
Relação entre ΦBA (ω) e ΨBA (ω) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 406
Relação entre χ(ω) e ΦBA (ω) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 406
16.6 Exemplos Simples . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 407
16.7 Regra de Soma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 410
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 411
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 411

17 Teoria Formal do Espalhamento 413


17.1 Equação de Lippmann-Schwinger . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 413
17.2 Espalhamento – Função de Green – Parte 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 415
17.3 Aproximação de Born – Termos de Ordem Superiores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 417
17.4 Fórmula de Gell-Mann e Goldberger para Dois Potenciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . 419
17.5 Matriz S de Espalhamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 420
17.6 Invariância Rotacional e Matriz S . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 423
17.7 Teorema Óptico – Demostração Formal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 425
17.8 Simetria de Reversão Temporal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 427
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 427
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 429

18 Partículas Idênticas 431


18.1 Princípio da Indistinguibilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 431
18.2 Operadores de Permutação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 433
18.3 Alguns Efeitos Observados Devidos à Indistinguibilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . 434
Efeito nos Níveis de Energia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 434
18.4 Correlação Espacial entre as Partículas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 436
Partículas Distinguíveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 436
Bósons ou Férmions . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 436
Molécula de Hidrogênio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 437
18.5 Átomo de Hélio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 438
Estado Fundamental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 438
Estados Excitados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 440
18.6 Tabela Periódica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 440
18.7 Aproximação de Thomas-Fermi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 442
18.8 Método Hartree-Fock . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 446
18.9 Segunda Quantização – Bósons . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 448
18.10Segunda Quantização – Férmions . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 452
18.11Espalhamento de Partículas Idênticas – Parte 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 453
18.12Elementos de Estatística Quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 454
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 455
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 456
S UMÁRIO xxi

19 Campo Eletromagnético 457


19.1 Partícula Carregada em um Campo Eletromagnético . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 457
19.2 Transformação de Galileu e Invariância de Calibre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 460
19.3 Partículas de Spin 21 em um Campo Eletromagnético . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 463
19.4 Simetria de Calibre Local . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 464
19.5 Quantização do Campo Eletromagnético Livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 466
19.6 Energia do Campo Livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 470
19.7 Momentum do Campo Livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 471
19.8 Momentum Angular do Campo Livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 472
19.9 Interação com um Sistema de Partículas Carregadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 475
19.10Estados Coerentes e Óptica Quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 476
19.11Estados de um Simples Fóton . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 480
Estado de Um Fóton . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 481
Verificação Experimental do Estado de Um Fóton . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 481
Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 482
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 483

20 Equações Relativísticas 485


20.1 Transformações de Lorentz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 485
Postulado 1 (Postulado de Relatividade - Primeiro) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 485
Postulado 2 (Postulado da Constância da Velocidade da Luz) . . . . . . . . . . . . . . . . 486
Quadrivetores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 487
Intervalo Invariante e Tempo Próprio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 488
20.2 Grupo de Lorentz e de Poincaré . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 489
20.3 Campos Escalares e Tensores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 490
20.4 Dinâmica Relativística . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 491
20.5 Eletrodinâmica na Forma Covariante . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 492
20.6 Equação de Klein-Fock-Gordon . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 494
20.7 Equação de Dirac . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 498
Spinores de Weyl . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 501
Forma Covariante da Equação de Dirac e Matrizes γ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 502
Equação Adjunta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 503
20.8 Equação de Dirac e o Spin do Elétron . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 503
20.9 Solução para Partícula Livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 504
Interpretação da Energia Negativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 506
Helicidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 508
Conjugação de Carga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 508
20.10Elétron num Campo Eletromagnético . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 509
20.11Covariância Relativística da Equação de Dirac . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 510
Rotações de um Ângulo θ em Torno do Eixo z . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 512
Transformação de Lorentz Pura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 512
20.12Transformações Bilineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 513
Inversão Temporal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 515
20.13Forças Centrais e o Átomo de Hidrogênio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 515
Simetrias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 516
Estrutura das Soluções da Equação de Dirac . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 516
Equações Radiais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 518
O Átomo de Hidrogênio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 520
Espectro Discreto ou Estados Ligados (E < µe c2 ) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 521
Espectro Contínuo (E > µe c2 ) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 523
20.14Propagador de Feynman para Férmions . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 524
20.15Elétron em um Campo Eletromagnético . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 527
xxii S UMÁRIO

20.16Propagador do Fóton e de Bósons . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 528


Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 531
Leitura Recomendada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 532

Bibliografia 533

Índice Remissivo 537


Capítulo 1
Introdução aos Conceitos Fundamentais

A mecânica quântica é um tratamento teórico na qual podemos descrever, relacionar e prever vasto campo
de sistemas físicos, desde partículas através do núcleo, átomos e radiação até moléculas e matéria conden-
sada. Esta disciplina é um dos pilares da física contemporânea.
A mecânica quântica se aplica a sistemas microscópicos, aonde a mecânica clássica perde a validade,
como por exemplo a dualidade onda-partícula ou partícula-onda. A descrição quântica é de tal natureza que
dá margem, em particular, a que um mesmo sistema físico tenha comportamento contraditório em situações
observáveis diferentes, novamente usamos o exemplo do comportamento ondulatório e do comportamento
corpuscular.
Não é possível deduzir a mecânica quântica de noções ou esquemas clássicos, nem tão pouco construí-
-la como uma extensão da mecânica clássica. O objetivo deste capítulo é apresentar uma introdução aos
conceitos fundamentais da mecânica quântica.

1.1 Radiação do Corpo Negro


Até o final do século XIX, ainda não havia sido encontrada uma explicação correta dos resultados experi-
mentais obtidos para o espectro de radiação do corpo negro. Por definição, um corpo negro é aquele capaz
de absorver todo a radiação que sobre ele incide. Um corpo negro perfeito é uma idealização. Na prática
o que mais se aproxima dessa definição é uma cavidade isotérmica em que temos uma abertura, através
da qual a radiação pode penetrar ou escapar. Quando em equilíbrio térmico, a uma dada temperatura abso-
luta T , a radiação no interior da cavidade e que dela escapa pela abertura se aproximam bastante da emitida
por um corpo negro. A experiência mostra que a abertura por onde a radiação escapa somente aparece negra
em temperatura baixas, quando a radiação emitida possui comprimento de onda longo, comparado ao do
espectro visível. Quando a temperatura da cavidade aumenta, sua abertura fica mais clara, aproximando-se
do branco, em temperaturas muito elevadas.

Lei de Stefan-Boltzmann Em estudos da radiação emitida pela cavidade, Stefan 1 , em 1897, através de
um procedimento empírico, e Boltzmann 2 , em 1884, através de um tratamento termodinâmico, formularam
uma expressão para a emitância espectral da radiação do corpo negro, 3 dada por

E (T ) = σ T 4 , (1.1)

em que a constante σ = 5, 67 × 10−8 W m−2 K−4 é conhecida como constante de Stefan, e a relação acima
é usualmente denominada lei de Stefan-Boltzmann.
1
Joseph Stefan (1835–1893), físico alemão.
2
Ludwig Boltzmann (1844–1906), físico austríaco.
3
J. Stefan, Wiener Berichte, 79, 391–428 (1879); L. Boltzmann, Wiedemannsche Annalen der Physik, 22, 291–294 (1884).

1
2 C AP. 1 I NTRODUÇÃO AOS C ONCEITOS F UNDAMENTAIS

Lei de Wien Essa, conhecida como lei de Wien 4 , nos dá que a distribuição espectral da radiação, em
função da frequência ν, deve ter a forma
ρν = ν 3 f ( Tν ) , (1.2)
ou em função do comprimento de onda λ, será

f (λT )
ρλ = , (1.3)
λ5

que pode ser obtido de considerações termodinâmicas gerais e do efeito Doppler 5 que altera a frequência da
radiação num processo adiabático de compressão ou expansão. 6 A forma da função f ( Tν ) não é fixada por
essas considerações gerais, mas pode ser obtida a partir de um modelo para a interação entre a radiação e
a cavidade. Entretanto, a generalidade do argumento termodinâmico mostra que a forma de f ( Tν ) não deve
depender do particular modelo considerado.

Densidade Espectral de Rayleigh-Jeans Numa tentativa de encontrar a função f (λT ) analiticamente,


Lord Rayleigh 7 usou conhecimentos da termodinâmica e do eletromagnetismo clássico, supondo que a
radiação térmica dentro da cavidade tenha um comportamento similar aos das ondas estacionárias, natural-
mente a cavidade era equivalente a um conjunto discreto e infinito de osciladores harmônicos independentes.
Rayleigh calcula as frequências dos osciladores a partir da equação de onda homogênea, escrita na
seguinte forma: ( )
1 ∂2
∇ − 2 2 ψ (⃗r, t) = 0 ,
2
(1.4)
c ∂t
onde ψ é a função que descreve o campo estabelecido no interior da cavidade cúbica de lado L, com volume
L3 , sujeito a condição de contorno
ψ (0, 0, 0, t) = ψ (L, L, L, t) .

Com a frequências das vibrações harmônicas ν = ω , temos

ψ (⃗r, t) = ϕ(⃗r)e− i ωt

e a parte espacial da função de onda satisfaz à equação de Helmholtz 8


( ) ω
∇2 − k 2 ϕ(⃗r) = 0 , onde k= .
c
A solução da equação acima, pode ser escrita da seguinte forma

ϕlmn ∼ sen kl x sen km y sen kn z

onde os valores de kl , km e kn são discretos e dados por


   
kl l
km  = m π com (l, m, n = 0, 1, · · · ) ,
L
kn n
ω
lembrando que k = c. Em termos de frequência ν, no modo (l, m, n), a frequência de oscilação angular
assume a forma √
c
ν= 2L l 2 + m2 + n2 . (1.5)
4
Wilhelm Wien (1864–1928), físico alemão.
5
Johann Christian Andreas Doppler (1803–1853), matemático e físico australiano.
6
W. Wien, Königlich Preussische Akademie der Wissenschaften (Berlin). Sitzungsberichte, 55–62 (1893); W. Wien, Wiedmanns-
che Annalen der Physik, 52, 132–165 (1894).
7
Lord Rayleigh - John William Strutt (1842–1919), físico inglês.
8
Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz (1821–1894), físico alemão.
1.1. R ADIAÇÃO DO C ORPO N EGRO 3

Desse modo, Rayleigh estabeleceu que o campo eletromagnético no interior da cavidade resulta da
superposição de modos de vibração, como a corda vibrante com extremos fixos. Considerando que cada
modo de vibração da radiação eletromagnética constitui um grau de liberdade no interior da cavidade e
que os diferentes modos de vibração são independentes entre si, usamos o princípio da equipartição da
mecânica estatística para determinar o intervalo de energia dU da radiação, com frequência compreendida
entre ν e ν + dν, para uma dada temperatura T . A energia média ⟨ε⟩, associada a cada grau de liberdade da
radiação, será calculada através da distribuição estatística de Boltzmann,

P (ε) dε = C e− kT dε
ε

expressando essa energia média por


∫ ∞ −βε ∫ ∞ d −βε ∫ ∞
εe dε − 0 dβ e dε d d 1
⟨ε⟩ = ∫ ∞ −βε
0
= ∫ ∞ −βε =− ln e−βε dε = − ln
0 e dε 0 e dε dβ 0 dβ β
1
= = kT (1.6)
β
em que k é a constante de Boltzmann. A última relação mostra que a energia associada ao intervalo de
frequência ν e ν + dν é kT vezes o número de frequências permitidas, em modos normais, nesse intervalo.
Visto que l, m e n são números positivos, cada conjunto desses números corresponde a um ponto de
uma rede cúbica no volume de um oitavo de uma esfera,9 cujo raio é obtido de (1.5) na forma
4L2 2
l 2 + m2 + n2 = ν ,
c2
que corresponde à equação de uma esfera de raio 2L
c ν. Assim, o número de frequências permitidas no
volume é ( )
1 4 2L 3
N= π ν .
8 3 c
Devemos multiplicar esse resultado por 2, pelo fato de que a radiação eletromagnética possui dois estados
de polarização para cada modo de vibração. Assim, o número dN de oscilações permitidas no intervalo de
frequência ν e ν + dν é
( )3
2L
dN = π ν 2 dν .
c
Com isso, a energia por unidade de volume da cavidade, no intervalo de frequência indicado, será
dU 1 8πkT 2
= 3 kT dN = ν dν ,
V L c2
onde dU = kT dN , o que nos permite escrever
8πkT 2
ρ(ν, T ) dν = ν dν , (1.7)
c3
que é a lei de Rayleigh-Jeans 10 em função da frequência ν e da temperatura T . Dessa relação, podemos
obter a função
ν 8πk T
f( ) = 3 .
T c ν
A densidade de energia ρ(ν, T ) dν pode ser expressa em termos do comprimento de onda λ, fazendo
uso da relação c = λν. Assim, obtemos a densidade espectral, devido a Rayleigh-Jeans, como
8πk
ρ(λ, T ) dλ = λT dλ , (1.8)
λ5
9
Originalmente, Rayleigh considerou todo o volume da esfera. A correção de um oitavo foi feita por Jeans, em 1905. Ver, Lord
Rayleigh, Philosophical Magazine 49, 539–540 (1900); J. H. Jeans, Philosophical Magazine 10, 91–98 (1905); Idem 17, 229
(1909); Ibidem, 273 (1909); Idem 18, 209 (1909).
10
Sir James Hopwood Jeans (1877–1946), matemático, físico e astrônomo inglês.
4 C AP. 1 I NTRODUÇÃO AOS C ONCEITOS F UNDAMENTAIS

dessa relação, podemos obter a função


f (λT ) = 8πkλT .
Pelo fato da função ρ(λ, T ) divergir para comprimentos de onda curtos, i.e., frequências elevadas, essa
divergência foi designada por Ehrenfest 11 como catástrofe do ultravioleta.

Distribuição Espectral de Planck Em 1900, supondo que a emissão de energia sob forma da radiação
eletromagnética (considerado como um oscilador harmônico) de frequência ν por um corpo negro esti-
vesse associado a pacotes discretos (“quantum de energia”) de grandeza hν, Max Planck 12 deduziu para a
radiação de corpo negro a distribuição espectral 13

8πν 2 hν
ρν = , (1.9)

c3 e kT −1
onde ρν dν é a energia da radiação do corpo negro à uma temperatura T , por unidade de volume, com
frequência entre ν e ν + dν. Essa distribuição concorda extremamente bem com os resultados experimen-
tais, utilizando um valor conveniente para a constante de Planck h. Essa hipótese, dos quantum de energia,
contradiz profundamente o que se poderia esperar a partir da mecânica e da eletrodinâmica clássica.
Devemos mencionar ainda um importante detalhe nessa teoria. De acordo com sua hipótese, um oscila-
dor harmônico pode ter energias que são múltiplas de uma quantidade fixa, hν:

E = 0, h ν, 2 h ν, . . . , n h ν, . . .

A emissão (e a absorção) de radiação pelo oscilador ocorre somente quando ele “salta” de um estado de ener-
gia para um outro vizinho. Passando do estado de energia nhν para um imediatamente abaixo, (n − 1)h ν,
o oscilador perde uma quantidade de energia hν que é emitida na forma de “pulso” de radiação. Quando
o oscilador passa de um estado de energia hν para um imediatamente acima, (n + 1)hν, uma quantidade
de energia hν é absorvida pelo oscilador. Essas ideias (principalmente a de absorção) não eram ainda muito
claras quando Planck postulou sua teoria, pois ele não havia incluído a quantização da energia radiante
(o fóton), que seria introduzida mais tarde por Albert Einstein 14 .

1.2 Calor Específico dos Sólidos


Logo de início a hipótese de Planck foi aplicada no caso do calor específico dos sólidos. Einstein, em
1907,15 usou o resultado de Planck para a energia média de um conjunto de osciladores, considerando os
átomos do sólido como um conjunto de 3N osciladores de Planck unidimensionais com frequência ν, sendo
portanto a energia média por mol dada por:


U = 3N ⟨E⟩ = 3N hν (1.10)
e kT −1

resultando imediatamente que

( )2 hν
∂U hν e kT
Cv = = 3N k ( hν )2 . (1.11)
∂T kT
e kT − 1

11
Paul Ehrenfest (1880–1933), físico austríaco.
12
Karl Ernst Ludwig Max Planck (1858–1947), físico alemão.
13
M. Planck, Verhandlungen der Deutschen Physikalishen Gesellschaft v.2, 202–204 (1900); Ibidem, 237–245 (1900);
M. Planck, Annalen der Physik, Ser. 4 1, 69–122 (1900).
14
Albert Einstein (1879–1955), físico alemão.
15
A. Einstein, Annalen der Physik, Ser. 4, 22, 180–190 (1907).
1.3. E FEITO F OTOELÉTRICO 5

Para hν ≪ kT esta expressão reproduz o resultado “clássico” 3N k conhecido como lei de Dulong e Petit. 16
Mas, para temperaturas baixas (na escala hν/k), quando temos o limite T → 0, a expressão (1.11) vai a zero.
Esse comportamento reproduz razoavelmente os valores medidos de Cv para diversos sólidos, mediante um
ajuste do valor de ν para cada caso.

1.3 Efeito Fotoelétrico

Por volta de 1887, H. Hertz 17 realizava a série de experimentos com os quais demonstrou a existência das
ondas eletromagnéticas, quando observou que no receptor das ondas eletromagnéticas, a energia eletromag-
nética capturada pelo sistema era utilizada para produzir a faisca nas correspondentes pontas (do receptor).
Utilizando vários obstáculos colocados entre as pontas dos aparelhos, como papelão, vidro e quartzo, ob-
servou que o vidro, diferentemente do quartzo, afetava a distância máxima e concluiu, corretamente, que
o efeito era causado pela incidência, nas pontas do receptor, de luz ultravioleta produzida na descarga do
transmissor. Este fenômeno é conhecido como efeito fotoelétrico: a luz ultravioleta (ou radiações mais ener-
géticas como raios X e raios gama) incidindo num metal faz com que elétrons sejam ejetados da superfície
metálica.
Em 1905,18 Albert Einstein utilizando, de uma forma mais geral, as ideias de Planck para a energia
dos osciladores na cavidade do corpo negro, conseguiu explicar as propriedades observadas no efeito foto-
elétrico. Planck, em sua demonstração, se restringiu à quantização da energia para o caso dos osciladores
(elétrons) nas paredes da cavidade. As ondas no interior da cavidade (produzida pelos elétrons oscilando)
eram quantizadas em decorrência disso. Einstein, ao invés disso, considerou que a própria energia radiante
era quantizada, sendo portanto constituída de corpúsculos, cada um portando uma quantidade fixa de ener-
gia. Os fenômenos usuais não permitiam observar essa característica devido ao enorme número de fótons
normalmente associado à energia radiante (assim como um líquido aparenta ser um fluido contínuo e não
formado por elementos discretos). É interessante notar, que antes da descoberta da difração da luz, New-
ton 19 desenvolveu um modelo corpuscular para a luz, que no entanto não corresponde às ideias de Einstein,
principalmente porque seu modelo não previa a difração da luz (fenômeno tipicamente ondulatório). Para
explicar a difração e a interferência, Einstein supôs que as partículas de luz (fótons) não se movem como
partículas usuais, mas que se propagam com intensidades médias dada pela amplitude da onda eletromagné-
tica associada, dada pelo modelo ondulatório. O caráter corpuscular seria manifestado apenas no processo
de interação da radiação eletromagnética com a matéria (na emissão e absorção). Seguindo as ideias de
Planck, associou à radiação de frequência ν, fótons de energia E = hν. A intensidade de luz é agora dada
pelo número de fótons emitidos por unidade de tempo. Supôs também, que no efeito fotoelétrico, um único
fóton interage com um elétron, sendo completamente absorvido por este, que após a interação terá uma
energia cinética Eco = hν
Após receber esta energia pela interação com o fóton, o elétron deve ainda perder alguma energia até
escapar da superfície do metal. A energia cinética do elétron ejetado do metal será portanto:

Ec = Eco − W = hν − W , (1.12)

onde W é a função trabalho realizado para arrancar o elétron do metal. Com essa teoria, Einstein explicou o
fenômeno do efeito fotoelétrico, até então não entendido na física moderna, mostrando um comportamento
de dualidade onda-partícula para os fótons.

16
Pierre Louis Dulong (1785–1838), físico francês;
Alexis Thérèse Petit (1791–1820), físico francês;
A. T. Petit et P. L. Dulong, Annales de Chimie et de Physique [2], 10, 395–413 (1819).
17
Heinrich Rudolph Hertz (1857–1894), físico alemão.
18
A. Einstein, Annalen der Physik (Leipzig), 17, 132–148 (1905).
19
Sir Isaac Newton (1642–1727), matemático, físico e filósofo inglês.
6 C AP. 1 I NTRODUÇÃO AOS C ONCEITOS F UNDAMENTAIS

1.4 Efeito Compton


A observação do espalhamento Compton só foi possível após a descoberta dos raios X e do enorme interesse
em seu estudo, que se seguiu após sua descoberta. Em 1918, Arthur H. Compton 20 iniciou uma série de
experimentos visando o estudo do espalhamento de raios X. Esses experimentos o levaram a descobrir,
em 1923,21 um importante efeito, hoje conhecido como efeito Compton, que não tem explicação dentro da
teoria clássica da radiação eletromagnética. É interessante notar que aqui também temos o comportamento
dual onda-partícula dos fótons, pois os fótons interagem com a matéria e produzem uma colisão com o
comportamento de partícula-partícula. A explicação é dada fazendo uso da teoria de Planck para a energia
dos fótons.
Num processo de colisão entre um fóton, i.e., raio X, com energia inicial E0 = hν, momentum p0 = λh0
e um elétron estacionário com energia de repouso µ0 c2 , através das leis de conservação podemos mostrar
que a variação do comprimento de onda entre o fóton espalhado e o fóton incidente é dada por

h
∆λ = (1 − cos θ) , (1.13)
µ0 c

sendo µ0 a massa de repouso do elétron e θ o ângulo de espalhamento.

1.5 Espectros Atômicos e Séries Espectrais


A partir de 1880, o estudo dos espectros da radiação visível emitida por chamas e posteriormente por
descargas produzidas em gases ou em vapores metálicos tomou um grande impulso. Os espectros atômicos,
tanto na região visível, quanto na do infravermelho e do ultravioleta, têm enorme importância ainda nos dias
atuais, principalmente por sua aplicação em processos de análise de composição de materiais, composição
da matéria estrelar, etc., dada a enorme precisão com que se pode determinar os comprimentos de onda da
radiação (λ) emitida pelos átomos.
Embora os espectros observados sejam relativamente complexos, com um número muito grande de
raias, elas podem em muitos casos ser classificadas em grupos, de acordo com suas características principais.
No espectro do hidrogênio, por exemplo, o mais simples de todos, dado que o hidrogênio é também o átomo
mais simples, duas séries eram conhecidas. Uma na faixa do visível e do ultravioleta próximo, e outra,
observada posteriormente, na região do ultravioleta (hoje são conhecidas cinco séries distintas no espectro
do hidrogênio, as outras três na região do infravermelho). Nos espectros dos materiais alcalinos, como o
sódio, as raias mais intensas eram classificadas em três séries: a nítida (sharp), a principal e a difusa (s, p
e d). Logo que essas regularidades foram identificadas, iniciou-se uma busca para a origem dessa ordem.
Em 1885, Balmer 22 descobriu as raias da série do visível do átomo de hidrogênio. 23 Em 1889, Rydberg 24
encontrou a formulação geral: 25
( )
1 1 1
k= =R −
λ (m − a) 2 (n − b)2

onde R é a constante de Rydberg. Para as três primeiras séries do espectro do átomo de hidrogênio, temos:
( )
1 1
k=R 2
− 2
1 n
20
Arthur Holly Compton (1892–1962), físico americano.
21
A. H. Compton, Physical Review, 21 n.5, 483–502 (1923).
22
Johann Jakob Balmer (1825–1898), matemático e físico suíço.
23
J. J. Balmer, Verhandlungen der Naturforschenden Gesellschaft Basel, 7, 548–560 (1885); Ibidem, p. 750; J. J. Balmer, Annalen
der Physik und Chemie, Ser. 3, 25 n. 5, 80–87 (1885).
24
Johannes Robert Rydberg (1854–1919), físico sueco.
25
J. R. Rydberg, Den Kongliga Svenska Vetenskaps Akademiens Handlingar, 23, 11 (1889).
1.6. O M ODELO DE B OHR PARA O ÁTOMO DE H IDROGÊNIO 7

para n = 2, 3, 4, · · · , conhecida como série de Lyman 26 (m = 1),


( )
1 1
k=R −
22 n2

para n = 3, 4, 5, · · · , conhecida como série de Balmer (m = 2), e


( )
1 1
k=R −
32 n2

para n = 4, 5, 6, · · · , conhecida como série de Paschen 27 (m = 3).


Para os átomos dos elementos alcalinos como Li, Na, K, as constantes a e b são não nulas (são conhe-
cidas como defeito quântico).

1.6 O Modelo de Bohr para o Átomo de Hidrogênio


Em 1911, Niels Bohr 28 foi à Inglaterra para uma visita científica, inicialmente ao Laboratório Cavendish
(com J. J. Thomson 29 ) e posteriormente à Universidade de Manchester onde trabalhou com Rutherford 30 e
seu grupo. Embora sendo um teórico, Bohr acompanhou de perto os trabalhos desenvolvidos por Geiger 31 e
Marsden 32 com espalhamento de partículas α,33 bem como o desenvolvimento do modelo do átomo nuclear
proposto por Rutherford: 34 uma carga central (positiva), pesada, é circundada por uma distribuição muito
mais extensa e leve de carga de sinal oposto (negativa). No caso do átomo de hidrogênio temos um próton
e um elétron, respectivamente.
Assim, cerca de dois anos depois, introduzindo ideias revolucionárias em relação à física clássica, Bohr
conseguiu desenvolver um modelo simples que garantia as características observadas no modelo de Ruther-
ford, dava estabilidade ao átomo e previa as séries espectrais observadas para o átomo de hidrogênio, deter-
minando portanto a origem das séries empíricas de Balmer e Rydberg.
O chamado modelo de Bohr pode ser expresso em termos dos postulados, conhecido como postulados
de Bohr: 35

1. No átomo, o elétron se move em órbitas circulares, cujo movimento é descrito em termos das leis gerais
da mecânica e da eletrostática, com a limitação de que apenas algumas órbitas são possíveis, sendo essas
h
determinadas pela imposição de que o momentum angular do elétron deve ser um múltiplo inteiro de 2π ;

2. Enquanto descreve o movimento acelerado em sua órbita, o elétron não irradia energia como prevê a
teoria eletromagnética clássica;

3. O elétron pode saltar de uma órbita para outra. Se ele “salta” espontaneamente de uma órbita em que sua
energia total é Ei para uma outra órbita de energia menor Ef , a energia perdida é emitida na forma de
(E −E )
radiação, cuja frequência é dada pela relação ν = i h f .

Entretanto, está implícita no trabalho de Bohr uma série de outras hipóteses que valem mencionar:

1. Os átomos produzem as linhas espectrais uma de cada vez;


26
Theodore Lyman (1874–1954), físico americano.
27
Louis Karl Heinrich Friedrich Paschen (1865–1947), físico alemão.
28
Niels Henrik David Bohr (1885–1962), físico dinamarquês.
29
Joseph John Thomson (1856–1940), físico inglês.
30
Ernest Rutherford (1871–1937), físico neozelandês.
31
Hans Geiger (1882–1945), físico alemão.
32
Ernest Marsden (1889–1970), físico neozelandês.
33
H. Geiger and E. Marsden, Philosophical Magazine, 25, n. 148, 604–623 (1913).
34
E. Rutherford, Philosophical Magazine, 21, 669–688 (1911); E. Rutherford, Nature, 92, n. 2302, 423 (1913); E. Rutherford, Phi-
losophical Magazine, 27, n. 158, 488–498 (1913).
35
N. Bohr, Philosophical Magazine S. 6, 26, n. 151, 1–25 (1913); Ibidem, 476–502; Ibidem, 857–875.
8 C AP. 1 I NTRODUÇÃO AOS C ONCEITOS F UNDAMENTAIS

2. O átomo de Rutherford oferece uma base satisfatória para os cálculos exatos dos comprimentos de onda
das linhas espectrais;

3. A produção dos espectros atômicos é um fenômeno quântico;

4. Um simples elétron é o agente desse processo;

5. Dois estados distintos do átomo estão envolvidos na produção de uma linha espectral;

6. A relação E = hν, correlacionando a energia e a frequência da radiação, é valida para a emissão como
para a absorção.

Um cálculo simples realizado para o átomo de hidrogênio, dá para a energia dessas órbitas circulares,
em termos do número quântico n, onde µ é a massa do elétron,

2π 2 µe4
En = − . (1.14)
n2 h 2

Esta fórmula obteve grande sucesso na explicação dos espectros atômicos. Átomos alcalinos como o Li
e o Na, podem ter seus primeiros níveis de energia dados pelo modelo de Bohr em forma aproximada
(introduzindo os tais defeitos quânticos, como mostrado na fórmula de Rydberg).
Além disso, Bohr está fornecendo a chave para a formulação da mecânica quântica matricial de Hei-
senberg 36 , Born 37 e Jordan 38 .

1.7 Experiência de Franck-Hertz


Embora o modelo atômico de Bohr tivesse um sucesso muito grande, dado a exatidão de suas previsões para
os espectros atômicos, não havia outra indicação de que realmente os estados de energia do átomo eram
quantizados. Em uma experiência muito simples, realizada em 1914 por James Franck 39 e Gustav Hertz 40 ,
o modelo de Bohr, ou mais precisamente a quantização dos estados de energia do átomo foi comprovada
por um processo puramente mecânico - o espalhamento inelástico de elétrons por átomos de mercúrio.

1.8 Regras de Quantização de Wilson-Sommerfeld


O impressionante acordo entre as previsões do modelo de Bohr e os resultados experimentais determinaram
seu imediato sucesso. Entretanto, do ponto de vista de uma estrutura organizada do conhecimento como
se conhecia com a mecânica clássica e o eletromagnetismo, a situação da chamada “física quântica” era
bem caótica. Planck havia postulado a quantização da energia de um oscilador (E = nhν), Bohr, com seu
modelo, introduziu a quantização do momentum angular L = nh 2π , fazendo com que as energias das órbitas
atômicas fossem também quantizadas, mas com uma relação diferente daquela encontrada por Planck.
Uma ordenação parcial desse conjunto de novas ideias aparentemente desconexas foi introduzida em
1916, por Wilson 41 e Sommerfeld 42 . Então foi enunciado o postulado que ficou conhecido como a regra de
quantização de Wilson-Sommerfeld: 43
36
Werner Karl Heisenberg (1901–1961), físico alemão.
37
Max Born (1882–1970), físico e matemático alemão.
38
Ernest Pascual Jordan (1902–1980), físico alemão.
39
James Franck (1882–1964), físico alemão.
40
Gustav Hertz (1887–1975), físico alemão.
41
William Wilson (1875–1965), físico inglês.
42
Arnold Johannes Wilhelm Sommerfeld (1868–1951), físico alemão.
43
W. Wilson, Philosophical Magazine S. 6, 24, n. 173, 795–802 (1916); Idem 31, 156 (1916); A. Sommerfeld, Annalen der Physik,
51, n. 17, 1–94 (1916); Ibidem n. 18, 125–167; A. Sommerfeld, Physikalische Zeitschrift, 17, 491–507 (1916).
1.9. M ECÂNICA Q UÂNTICA M ATRICIAL 9

Para qualquer sistema físico com movimento periódico, sendo ⃗p o momentum generalizado44 associado
à coordenada generalizada de posição ⃗q, tem-se a relação,
I
p dq = nq h . (1.15)

A integral acima já era conhecida da Mecânica Clássica e é chamada integral de ação ou simplesmente
ação. As variáveis q e p são por exemplo x e px , no caso de um oscilador harmônico, usando a regra de
quantização de Wilson-Sommerfeld, temos

E = nhν ,

que é a relação de Planck. Mas as variáveis q e p podem ser φ e L, no caso de uma partícula descrevendo
um movimento circular, através da regra de quantização de Wilson-Sommerfeld, analogamente podemos
obter a relação de Bohr,
h
L=n = n~ .

Essas regras de quantização propiciaram por exemplo a obtenção, pelo próprio Sommerfeld, da chamada
constante de estrutura fina para os espectros atômicos. Espectros atômicos de alta resolução mostravam
que algumas linhas eram na verdade duplas ou triplas, detalhes que são conhecidos como estrutura fina dos
espectros. Sommerfeld admitiu a possibilidade de órbitas elípticas de diferentes excentricidades. Utilizando
expressões relativísticas, uma vez que em órbitas de alta excentricidades os elétrons têm velocidades muito
maiores ao passar próximo ao núcleo, Sommerfeld obteve para a chamada constante de estrutura fina, 45 a
seguinte relação:
e2
α= .
~c
Embora a regra de quantização de Wilson-Sommerfeld fosse ainda muito limitada (só é válida para
sistemas com movimento periódico), foi um avanço na compreensão dos sistemas físicos de pequenas di-
mensões. Uma relação entre os resultados clássicos e os da teoria quântica foi ainda introduzida por Bohr,
por volta de 1923, segundo a qual “As previsões da teoria quântica devem corresponder aos resultados das
teorias clássicas no limite de grandes números quânticos”, conhecido como Princípio de Correspondência.

1.9 Mecânica Quântica Matricial


Em 1925, Heisenberg deu os passos decisivos para a construção de uma teoria quântica completa, com base
em dois pontos centrais: o primeiro é que a mecânica clássica não é válida na escala atômica; o segundo
consiste que o princípio de correspondência de Bohr é uma condição fundamental para a nova teoria. 46
O caminho seguido por Heisenberg foi reter a equação de movimento clássica

d2 q
µ − f (q) = 0 , (1.16)
dt2
o que significa reter de certo modo o esquema dinâmico formal da mecânica clássica, mas sem interpretar
q (t) como uma função do tempo com o significado de posição. O proposto por Heisenberg é que q (t) deva
ser visto em geral como um objeto associado à quantidades atômicas observáveis, como proposto por Bohr.
44
momentum, do latim, é o equivalente a quantidade de movimento, as vezes também usamos momento linear, seu plural em latim
é momenta.
45
Recentemente, observações de detalhes de espectros atômicos produzidos por galáxias distantes, mostraram uma constante de
estrutura fina ligeiramente diferente da que conhecemos, indicando que as constantes fundamentais podem variar no tempo.
Esses resultados precisam ainda ser confirmados
46
W. Heisenberg, Zeitschrift für Physik, 33, 879–893 (1925).
10 C AP. 1 I NTRODUÇÃO AOS C ONCEITOS F UNDAMENTAIS

Assim, no caso de um movimento clássico, periódico, é possível obter elementos de frequência bem
definida expandindo q (t) em séries de Fourier 47 , e que satisfaz uma condição de quantização. Dessa forma
a expansão de Fourier aparece como


q (n, t) = qk (n) ei kωn t , (1.17)
k=−∞

em que o número quântico n provém da condição de quantização da ação, ver Eq. (1.15). Aqui interpreta-
mos que as frequências observadas são as frequências de Bohr associadas a transições entre dois estados
estacionários, 48 Heisenberg substitui, portanto, kωn → ω (n, n − k) e qk (n) → q (n, n − k), nas quais as
frequências de Bohr será entre dois estados estacionários n e n − k = m correspondem à

ω (n, m) = (En − Em )
h
e as amplitudes q (n, m) são entendidas como estando associadas também a essas transições entre n e n−k =
m. Logo,
qk (n) ei kωn t → q (n, n − k) ei ω(n,n−k)t .
Para o momentum p(t) = µq̇ (t), e usando os mesmos argumentos, encontramos


p(n, t) = pk (n) ei kωn t ,
k=−∞

com pk (n) = i µkωn qk (n), o que nos leva à substituição

pk (n) → p(n, n − k) = i µω (n, n − k) q (n, n − k) .

Uma classe importante de variáveis dinâmicas a ser considerada é a que envolve produtos de q (t) e p(t),
exemplo q 2 (t), p2 (t), p(t)q (t) etc. Assim


qn2 (t) = Qk (n) ei kωn t
k=−∞

pode ser facilmente relacionada com a expansão correspondente de q (t) usando a regra de composição das
frequências que dá
∑∞
Qk (n) = qk−l (n)ql (n) . (1.18)
l=−∞

Fazendo agora as devidas substituições Qk (n) → Q(n, n − k) e kωn → ω (n, n − k), e tendo em conta a
regra de composição das frequências quânticas

ω (n, n − k) = ω (n, n − l) + ω (n − l, n − k) (1.19)

temos que a tradução quântica natural da Eq. (1.18) é dada por




Q(n, n − k) = q (n, n − l)q (n − l, n − k) . (1.20)
l=−∞

Uma característica dessa regra de multiplicação quântica é que o produto de variáveis dinâmicas diferentes,
q (t) e p(t), deve ser visto em geral como não comutativo, i.e., [q, p](t) ̸= [p, q](t).
47
Jean Baptiste Joseph Fourier (1768–1830), matemático francês.
48
Conjuntos de quantidades físicas são denominados conjuntos completos de observáveis compatíveis. Um conjunto completo
fornece uma descrição máxima do sistema, e portanto, caracteriza um estado do sistema.
1.9. M ECÂNICA Q UÂNTICA M ATRICIAL 11

Resta agora determinar as frequências ω (n, n − k) e as amplitudes q (n, n − k) a partir da equação de


movimento (1.16). Não podemos esquecer da reinterpretação da condição de quantização de Bohr ou da
regra de quantização de Wilson-Sommerfeld. Heisenberg reinterpretou essa condição em termos da cine-
mática quântica, o que na realidade é uma das passagens mais livres e ao mesmo tempo mais cruciais de
seu trabalho, mas mantendo-a consistente com o princípio de correspondência. Em particular, para que o
período clássico das órbitas de Bohr coincida, para valores grande da ação
I
S = p dq = nh ,

com n ≫ 1, com as frequências de Bohr (En −En−1 )/h, para duas órbitas consecutivas basta que ∆S = h.
Então, desse ponto de vista temos
I
d d
h= (nh) = pn (t) q̇n (t) dt ,
dn dn

ou usando as expansões de Fourier para pn (t) e qn (t),




h d ( )
=µ k kωn |qk (n)|2 .
2π dn
k=−∞

O derivação da expressão acima com relação a n não tem maior relevância, mas servem para motivar a
reinterpretação quântica da condição de quantização como sendo

∑[ ∞
h ]
= 2µ | q (n, n + k)|2 ω (n + k, n) − | q (n, n − k)|2 ω (n, n − k) . (1.21)

k=0

A Eq. (1.21), obtida por Heisenberg em 1925, expressa a principal condição imposta à teoria na formu-
lação da mecânica quântica matricial 49 e foi generalizada no mesmo ano por Born e Jordan. 50
A representação de grandezas físicas cinemáticas por matrizes implica a possibilidade de não comutati-
vidade entre pares de grandezas.
A fórmula generalizada de Born e Jordan adota um ponto de vista hamiltoniano, no sentido de que
utiliza coordenadas e momenta51 em vez de coordenadas e velocidades. Então a coordenada espacial ⃗q e o
momentum ⃗p que devem ser representados por matrizes dependentes do tempo,
{ } { } d⃗q { }
⃗q ≡ qnl ei ωnl t , ⃗p ≡ pnl ei ωnl t = µ ≡ i µωnl qnl ei ωnl t , (1.22)
dt
estão associadas a um átomo, e ωnl = −ωln são as frequências associadas a transições entre estados des-
critos pelos números quânticos n e l. Essas matrizes devem ser hermitianas, 52 assim como a matriz qnl , ou
∗ =q .
seja, qnl ln
Assim, a relação de Heisenberg, Eq. (1.21), pode ser escrita na forma

h ∑
∗ ∗
=µ (ωnl qnl qnl − ωln qnl qnl )
2π n

mas como pnl = i µωnl qnl da relação acima temos

h ∑
= −i (pnl qln − pln qnl )
2π n

49
Quem identificou o caráter matricial dos arranjos numéricos propostos por Heisenberg foi Max Born.
50
M. Born and P. Jordan, Zeitschrift für Physik, 34, 858–888 (1925).
51
Plural de momentum.
52
Para qualquer t real, as matrizes devem ser iguais às complexo-conjugadas de suas transpostas.
12 C AP. 1 I NTRODUÇÃO AOS C ONCEITOS F UNDAMENTAIS

ou seja, a relação de Heisenberg (1.21) pode ser vista como uma regra de comutação entre as matrizes que
representam a coordenada espacial e o momentum de uma partícula,
∑ h
(qln pnl − pln qnl ) = i = i~
n

ou ainda
(q p − p q)lk = i ~ δlk ⇔ [q, p] = i ~ . (1.23)
A regra de comutação entre as matrizes de coordenada espacial e de momentum é a relação fundamental
da mecânica quântica matricial e sua conexão entre a mecânica clássica e a quântica foi evidenciada por
Dirac 53 ao relacionar os comutadores aos parênteses de Poisson 54 .
De modo geral, qualquer grandeza periódica ⃗g(⃗p,⃗q) associada a um oscilador harmônico pode ser
escrita como
gnl (t) = Gnl ei ωnl t
onde ωnl = (En − El )/~, o que implica

d i
gnl (t) = i ωnl Gnl ei ωnl t = (En − El ) Gnl ei ωnl t
dt ~
o que pode ser reescrito, usando o fato de que H(⃗p,⃗q) ≡ {En δnl } é a matriz correspondente à hamiltoniana
e é uma matriz diagonal, na seguinte forma

d⃗g i
= − (⃗gH − H⃗g) ,
dt ~
ou seja, a evolução temporal da grandeza ⃗g é dada pela equação de movimento de Heisenberg

d⃗g
i~ = [⃗g, H] . (1.24)
dt
Apesar de terem sido estabelecidos aqui um sistema cujo comportamento é periódico, as equações de
movimento de Heisenberg, devido ao caráter linear da teoria, são válidas para a descrição da evolução
temporal de grandezas associadas a qualquer sistema cuja matriz hamiltoniana H representa sua interação
com a vizinhança, nas quais as energias En são os elementos diagonais de H, que representam portanto às
energias dos estados estacionários.
Nesta seção, e na precedente, usamos q e p como coordenada e momentum generalizados, respectiva-
mente.

1.10 Postulados de de Broglie


A partir de 1923, Louis de Broglie 55 apresentou uma série de trabalhos sobre a teoria dos quanta que cul-
minaram com a apresentação de sua tese para obtenção do título de Doutor em 1925, intitulada Recherches
sur la théorie des quanta, onde introduziu ideias ainda mais fantásticas para as propriedades dos sistemas
microscópicos. 56 Essas novas ideias foram fundamentais para o desenvolvimento, pouco depois, de uma
teoria mais formal, chamada mecânica quântica ondulatória ou simplesmente mecânica quântica.
A hipótese básica de de Broglie se relaciona com uma simetria que poderia estar implícita nas proprie-
dades de dualidade introduzidas por Planck e principalmente por Einstein para a radiação eletromagnética.
53
Paul Adrien Maurice Dirac (1902–1984), físico inglês.
P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society of London, A109, 642–653 (1926).
54
Siméon-Denis Poisson (1781–1840), matemático e físico francês.
55
Louis Victor Pierre Raymond de Broglie (1892–1987), físico francês.
56
L. de Broglie, Comptes Rendus, 177, 507–510 (1923); Ibidem, 548–560 (1923); L. de Broglie, Nature, 112 n. 2815, 540 (1923);
L. de Broglie, Thèse de Doctorat, Annales de Physique (10ème. serie), 3, 22–128 (1925).
1.11. I NTERFERÊNCIA EM UM S ISTEMA DE D UAS F ENDAS 13

Neste caso, a luz, que apresenta propriedades claras de ondas (produzindo fenômenos como difração e in-
terferência) tinha também propriedades que só poderiam ser interpretadas se ela fosse tratada como um
conjunto de corpúsculos, os fótons, ver efeito fotoelétrico e efeito Compton. As relações entre as proprie-
dades ondulatórias da luz (frequência, comprimento de onda) com as de corpúsculos (energia, momentum
linear) são dadas pelas relações bem conhecidas, introduzidas por Einstein:
h
E = hν ; p= . (1.25)
λ
Louis de Broglie postulou que por uma questão de simetria, a matéria, que tem caráter corpuscular,
deveria também apresentar, em certas circunstâncias, características ondulatórias, i.e., dualidade partícula-
onda. As relações que permitem obter a frequência e o comprimento de onda associados a uma partícula
são dadas pelas chamadas relações de de Broglie:
E h
ν= ; λ= . (1.26)
h p
Em seu trabalho original, de Broglie, apresentou evidências de suas ideias, aplicando os conceitos acima
no modelo de Bohr para o átomo de hidrogênio. Ele notou que a condição de Bohr para a quantização do
momentum angular, utilizada agora com as novas ideias, correspondiam à condição de ondas estacionárias
para as órbitas eletrônicas. Utilizando as relações de de Broglie, podemos calcular o comprimento de onda
associado a um elétron com energia E. Supondo a energia não muito grande, de modo que não precisamos
utilizar as relações relativísticas, temos:
h h
λ= =√ .
p 2µE
Isso sugere que propriedades ondulatórias dos elétrons possam ser observadas em situações semelhantes
àquelas em que os efeitos de difração e interferência foram observados com uso de raios-X, ou seja em
cristais. Em 1927, essas ideias foram confirmadas em experimentos realizados independentemente por Da-
visson 57 e Germer 58 nos Estados Unidos e por G. Thomson 59 na Escócia. 60 Fazendo um feixe de elétrons
acelerados incidir num monocristal, observa-se uma distribuição angular dos elétrons espalhados. Essa dis-
tribuição, só pode ser interpretada se pensarmos num processo de difração de Bragg 61 , como a observada
para raios-X. 62

1.11 Interferência em um Sistema de Duas Fendas


Pela seção anterior sabemos que de Broglie postulou que a matéria tendo caráter corpuscular, deveria tam-
bém apresentar, em certas circunstâncias, características ondulatórias, dualidade partícula-onda. Para esta
descrição faremos uso de uma experimento conceitual, i.e., um experimento de dupla fenda utilizando um
canhão de elétrons.
O sistema de duas fendas é muito bem conhecido da física ondulatória tradicional. Inicialmente vamos
considerar um sistema simples, com ondas em um tanque de água. Um pequeno objeto (fonte de ondas)
é balançado periodicamente, para cima e para baixo, produzindo ondas circulares na superfície do tanque.
A uma certa distância da fonte, temos uma parede com duas fendas verticais (duas portas). A seguir, as
ondas que passam pelas duas fendas (produzindo por difração duas novas fontes de ondas circulares) são
absorvidas num anteparo. Próximo ao anteparo absorvedor temos um medidor de intensidade de onda,
57
Clinton Joseph Davisson (1881–1958), físico americano.
58
Lester Halbert Germer (1896–1971), físico americano.
59
George Paget Thomson (1892–1987), físico inglês.
60
C. Davisson and L. H. Germer, Physical Review, 30, n. 6, 705–740 (1927); C. Davisson and L. H. Germer, Nature, 119 n. 2998,
558–560 (1927); G. P. Thomson, Proceedings of the Royal Society of London, A117, 600–609 (1928).
61
William Henry Bragg (1861–1942), físico inglês.
William Lawrence Bragg (1890–1971), físico inglês.
62
L. Bragg, Proceedings of Cambridge Philosophical Society, 17, 43–57 (1912).
14 C AP. 1 I NTRODUÇÃO AOS C ONCEITOS F UNDAMENTAIS

cuja indicação é proporcional ao quadrado da amplitude das oscilações em uma dada posição. O detector
pode ser deslocado ao longo da posição vertical da Fig. 1.1, de modo que podemos medir a intensidade
das ondas como função da posição x. Deslocando-se então o detector, percebemos que a intensidade varia
continuamente com a posição, tendo vários pontos de máximo e de mínimo, conforme visto na curva I12 da
parte (c) da Fig. 1.1. Essa é uma figura típica de interferência produzida pelas fendas 1 e 2. Se fecharmos
uma das fendas e medirmos a nova distribuição de intensidades, vamos observar um padrão diferente, re-
presentado pelas curvas I1 ou I2 na parte (b) da Fig. 1.1, correspondentes ao fechamento das fendas 2 e
1 respectivamente. O padrão de interferência I12 claramente não corresponde à soma dos padrões I1 e I2 ,
sendo característico de um fenômeno ondulatório. Ondas originadas nas fendas 1 e 2 que chegam em fase
numa dada posição do medidor, se somam sofrem uma interferência construtiva, produzindo um máximo
e nas posições em que chegam com oposição de fase sofrem uma interferência destrutiva, produzindo um
mínimo de intensidade.

Figura 1.1 Interferência: ondas de água em um tanque.

Agora faremos uso de um experimento conceitual (Gedankenexperiment), i.e., utilizaremos um feixe


de elétrons produzidos em um canhão eletrônico e acelerados em direção a uma placa metálica com duas
fendas, vide Fig. 1.2. Após as fendas, temos um detector de elétrons, podendo ser, por exemplo, um contador
Geiger. Esse detector pode estar conectado a um sistema ligado a um alto-falante, produzindo um som (um
clique), cada vez que um elétron é detectado. Suponhamos que a intensidade do feixe de elétrons produzido
seja pequena o suficiente para que haja, em média, um intervalo de tempo relativamente grande entre um
elétron e o consecutivo no feixe, maior que ∼ 1 s.
Em um primeiro momento observamos é que numa dada posição do detector, ouve-se uma sucessão
de cliques mais ou menos aleatoriamente distribuídos no tempo. Entretanto, se contarmos o número de
cliques num intervalo de tempo relativamente longo (dezenas de minutos), o número médio de cliques por
unidade de tempo será constante. Também, se colocarmos dois detectores em duas posições diferentes,
nunca se ouvirá dois cliques simultâneos (exceto, cliques que chegam muito próximos em tempo e que
nosso sistema auditivo não consegue separar, mas que poderiam ser separados com um sistema eletrônico
mais sensível). Verificamos ainda que os sinais nos detectores ocorrem em grãos. Todos os cliques são
exatamente idênticos, de mesmo tamanho.
Então, qual o padrão da distribuição de intensidade (número/unidade de tempo) de elétrons como função
da posição ao longo do eixo x? O resultado é a curva P12 mostrado na parte (c) da Fig. 1.2. Um padrão
completamente análogo àquele produzido no experimento com ondas na água, ou seja, o elétron mostrou
um comportamento ondulatório.
Ora, se o elétron é uma partícula, ele passa ou pela fenda 1 ou pela 2. Como vimos, sempre chega
um elétron inteiro no contador Geiger, e não uma fração de elétron. Para verificar por qual fenda passou
o elétron, podemos, por exemplo, colocar uma fonte de luz atrás das fendas, de modo que ao passar por
uma das fendas, o elétron espalha luz e verificamos então um clarão luminoso próximo à fenda 1 ou à
fenda 2, dependendo da fenda por qual passou o elétron. Poderíamos agora contar os cliques no detector
como função de x em duas tabelas: uma quando o clarão indicar que o elétron passou pela fenda 1 e a
outra, quando vier da fenda 2. Essa experiência permite ainda verificar que o clarão vem sempre apenas de
uma das fendas, nunca das duas simultaneamente. Os resultados dessas medidas correspondem às curvas
1.12. O P RINCÍPIO DA S UPERPOSIÇÃO 15

Figura 1.2 Interferência: com feixe de elétrons.

P1′ e P2′ da Fig. 1.3, correspondentes a elétrons que passaram pela fenda 1 e 2 respectivamente. A curva
′ = P ′ + P ′ corresponde à condição do elétron passando pela fenda 1 ou pela fenda 2.
P12 1 2

Figura 1.3 Identificação da fenda pela qual passou o elétron.

Concluímos então que quando observamos os elétrons, o resultado (a distribuição de posições ao longo
de x) é diferente daquele obtido quando não observamos os elétrons nas proximidades das fendas. A obser-
vação perturba o movimento dos elétrons. De um modo diferente, esses resultados indicam que quando não
observamos, os elétrons se propagam como uma onda, desde o canhão de elétrons até o detector, produzindo
o padrão típico de interferência. Quando observamos, vemos um comportamento de partícula, com o elétron
passando por uma dada fenda, mas nesse caso, o fenômeno de interferência não é observado. Os elétrons
são ainda observados no contador Geiger como partículas. Esta característica, vista também com os fótons,
indica uma característica dual onda-partícula para os elétrons bem como para todas as outras partículas. Em
sistemas macroscópicos, as propriedades ondulatórias não são observadas pois os comprimentos de onda
correspondentes são muito menores que o tamanho de uma partícula, como o próton, e os fenômenos de
difração e interferência não podem ser observados.
A interferência ocorre, matematicamente, quando tomamos P = |ϕ|2 , e ϕ(x) chamamos de amplitude
de probabilidade do elétron chegar em x. Porém, ϕ(x) é a soma das duas contribuições: ϕ1 , a amplitude
quando o elétron passa pela fenda 1, mais ϕ2 , a amplitude quando o elétron passa pela fenda 2. Em outras
palavras, P = |ϕ|2 e ϕ = ϕ1 + ϕ2 , com ϕ1 e ϕ2 sendo números complexos. Temos ainda P1 = |ϕ1 |2 e
P2 = |ϕ2 |2 , mas
P = |ϕ1 + ϕ2 |2 ̸= P1 + P2 . (1.27)

1.12 O Princípio da Superposição


Sabemos portanto que o fenômeno de interferência ocorre tanto para os fótons (ondulatório) quanto para
os elétrons (corpuscular). Então, matematicamente podemos descrever o nosso sistema como: Seja ⃗r o
conjunto das coordenadas de um sistema quântico, e d⃗r o produto das diferenciais dessas coordenadas. Por
exemplo, se⃗r = {x, y, z}, temos d⃗r = dx dy dz.
16 C AP. 1 I NTRODUÇÃO AOS C ONCEITOS F UNDAMENTAIS

O estado de um sistema é descrito por uma função complexa ψ (⃗r) das coordenadas. O quadrado do
módulo dessa função determina a distribuição de probabilidades dos valores das coordenadas:

|ψ (x, y, z)|2 dx dy dz , (1.28)

é a probabilidade de que uma medida realizada sobre o sistema encontre os valores das coordenadas entre
x e x + dx, y e y + dy, z e z + dz. A função ψ é denominada função de onda do sistema.
O conhecimento da função de onda permite, em princípio, calcular a probabilidade dos vários resultados
de qualquer medida (não necessariamente das coordenadas). Essas probabilidades são expressões bilineares
em ψ e ψ ∗ ,63 como por exemplo: ∫

ψ (⃗r)∗ ψ (⃗r) d⃗r .
∂⃗r
O estado de um sistema varia, em geral, com o tempo. Em consequência, a função de onda é uma função
também do tempo, ψ(⃗r, t). Se a função de onda é conhecida em um instante inicial, segue, do conceito da
descrição completa, que ela está, em princípio, determinada em cada instante sucessivo. A dependência
precisa da função de onda com o tempo é determinada por uma equação conhecida como equação de
Schrödinger 64 .
A probabilidade de que as coordenadas de um sistema tenham qualquer valor, é 1. Devemos, então, ter

|ψ (⃗r)|2 d⃗r ,

pois a integral acima é exatamente esta probabilidade.


Seja ψ (⃗r) a função de onda de um sistema. Considere a função

ψ ′ (⃗r) = ψ (⃗r) ei α

onde α é um número real. Se ψ (⃗r) é função de onda de um sistema, a menos de uma fase (α), ψ ′ (⃗r) também
o é.
Seja um sistema físico que pode existir tanto num estado de função de onda ψ1 (⃗r) como no estado
de função de onda ψ2 (⃗r). A medida de uma quantidade física F será, por hipótese, o resultado f1 , com
probabilidade 1, se o sistema estiver em ψ1 (⃗r), e o resultado f2 , também com probabilidade 1, se o sistema
estiver em ψ2 (⃗r). Postula-se então que, ψ (⃗r) = ψ1 (⃗r) + ψ2 (⃗r) é também um estado do sistema. Neste
estado, uma medida de F dará ou o resultado f1 ou o resultado f2 . Esse postulado é denominado princípio
da superposição. Segue dele que a equação de Schrödinger deve ser linear em ψ (⃗r).
Voltando então ao nosso experimento conceitual da seção anterior, utilizando o canhão de elétrons,
a intensidade produzida na tela quando apenas uma fenda está aberta é |ψ1 |2 ou |ψ2 |2 . Quando as duas
fendas estão abertas, a intensidade é determinada por |ψ1 + ψ2 |2 . Esse resultado difere da soma das duas
intensidades |ψ1 |2 + |ψ2 |2 , pelo termo de interferência ψ1 ψ2∗ + ψ2 ψ1∗ .
O experimento que analisamos na seção anterior, ver Fig. 1.2, foi durante muitos anos simplesmente
um experimento conceitual, i.e., Gedankenexperiment; mas finalmente foram feitas medidas experimentais
entre 1961 e 1974.65 Atualmente é possível realizar esses experimentos com mais facilidade usando mi-
croscópio eletrônico.66 Também foram realizados experimentos de difração de neutrons com uma fenda e
dupla fenda,67 experimentos de interferência com moléculas,68 assim como experimentos de difração com
átomos.69
63 ∗
representando o complexo conjugado.
64
Erwin Rudolf Josef Alexander Schrödinger (1887–1961), físico austríaco.
65
C. Jönsson, Zeitschrift für Physik, 161, 454–474 (1961); J. Faget, Revue d’Optique Théorique et Instrumentale, 40, 347 (1961);
C. Jönsson, American Journal of Physics, 42, 3–11 (1974).
66
O. Donati, G. F. Missiroli and G. Pozzi, American Journal of Physics, 41, 639 (1973); Idem, 44, 306 (1976); G. Matteucci and
G. Pozzi, American Journal of Physics, 46, 619 (1978); A. Tonomura et al., American Journal of Physics, 57, 117–120 (1989).
67
A. Zeilinger et al., Review of Modern Physics, 60, 1067 (1988); R. Gähler and A. Zeilinger, American Journal of Physics, 59,
316–324 (1991).
68
O. Nairz, M. Arndt and A. Zeilinger, American Journal of Physics, 71, 319–325 (2003).
69
O. Carnal and J. Mlynek, Physical Review Letters, 66, 2689 (1991); M. S. Chapman et al., Physical Review Letters, 75, 3783-
-3787 (1995).
1.13. O P RINCÍPIO DA I NCERTEZA 17

Ainda com relação aos experimentos conceituais da seção anterior, a Fig. 1.3 procura identificar por
qual das fendas os elétrons passa. Na última década do século passado, experimentos utilizando fótons 70 e
elétrons 71 comprovam os resultados apresentados.

1.13 O Princípio da Incerteza


Como veremos a seguir, a propagação ondulatória das partículas em conjunto com a relação de de Broglie
p = ~k nos leva a relação de incerteza

~ ∆k ∆x = ∆p ∆x ≥ ~ , (1.29)

a qual significa que não podemos medir simultaneamente a posição e o momentum de uma partícula com
precisões arbitrárias. Isto não impede de podermos medir, por exemplo, a posição x com uma precisão
arbitrária, desde que não nos preocupemos em medir o momentum p. Esse fato contraria radicalmente a me-
cânica newtoniana, pois esta assume que podemos medir simultaneamente as duas grandezas com precisão
absoluta.
A “experiência de dupla fenda (de Young 72 )” para elétrons, em particular a formação de uma figura
de interferência mesmo quando o feixe de elétrons é tão rarefeito que não há dúvida de que os elétrons
chegam um a um na tela, mostra que a física dos elétrons é incompatível com o conceito de trajetória. Não
existe, na mecânica quântica, o conceito de trajetória. Esse é o conteúdo do princípio da incerteza, um dos
fundamentos da mecânica quântica, descoberto por Werner Heisenberg em 1927.73
É importante lembrar que os erros ∆x e ∆p são intrínsecos da natureza ondulatória da matéria e não
estão correlacionados com os erros experimentais que ocorrem nos processos de medida.

1.14 Pacotes de Onda e Relação de Incerteza


Usaremos a análise de Fourier como ferramenta matemática para descrever uma partícula localizada no
espaço formada pela superposição de ondas planas, pacote de onda, de diferentes números de onda k, cuja
amplitude seja não nula apenas numa pequena região do espaço, como no caso de um pulso em uma corda.
O pacote de onda, em três dimensões, pode ser escrito na forma:

1 ⃗
ψ (⃗r, t) = 3/2
ϕ(⃗k)ei(k ·⃗r−ωt) d3 k , (1.30)
(2π)

onde d3 k representa o volume infinitesimal no espaço ⃗k: dkx dky dkz . Por simplicidade faremos o estudo
do pacote de onda em uma dimensão, no caso em que as ondas se propagam paralelas ao eixo x. Assim, a
função de onda depende somente de x e t:
∫ +∞
1
ψ (x, t) = ϕ(k) ei(kx−ωt) dk . (1.31)
(2π)1/2 −∞
Se escolhermos o instante inicial na origem t = 0, podemos escrever a função de onda como:
∫ +∞
1
ψ (x, 0) = 1/2
ϕ(k) ei kx dk , (1.32)
(2π) −∞

e ϕ(k) é a transformada inversa da integral de Fourier para ψ (x, 0):


∫ +∞
1
ϕ(k) = ψ (x, 0) e− i kx dx . (1.33)
(2π)1/2 −∞
70
X. Y. Zou, L. J. Wang and L. Mandel, Physical Review Letters, 67, 318 (1991).
71
E. Buks et al., Nature, 391, 871–874 (1998).
72
Thomas Young (1773–1829), cientista inglês.
73
W. Heisenberg, Zeitschrift für Physik, 43, 172–198 (1927).
18 C AP. 1 I NTRODUÇÃO AOS C ONCEITOS F UNDAMENTAIS

Nos assumiremos que ϕ(k) é uma função real positiva e tenha uma distribuição simétrica de k ao redor
do valor médio k̄. Fazendo uma mudança de variável u = k − k̄, escrevemos (1.32) como:
∫ +∞
1 i k̄x
ψ (x, 0) = e ϕ(u + k̄) ei ux du . (1.34)
(2π)1/2 −∞

Assim, a partícula terá uma probabilidade maior de ser encontrada na posição em que ψ tem um pico
pronunciado. Logo, fica fácil notar pela análise de Fourier a relação:

∆x ∆k ∼
= 1. (1.35)

Para provar a relação (1.35), denotamos um intervalo ∆x no qual |ψ| é diferente de zero. Desde que ϕ
seja diferente de zero somente no intervalo centrado em u, onde k = k̄, a fase de ei ux em (1.34) varia
de −x∆k/2 até +x∆k/2, ou seja varia uma grandeza x ∆k para um valor fixo de x. Se x ∆k for menor
que ∼= 1, nenhum cancelamento apreciável no integrando irá ocorrer. Por outro lado, quando x ∆k ≫ 1,
violentas oscilações do fator ei ux ocorrerá, tendo como consequência a interferência destrutiva. Então,
teremos a relação ∆x ∆k ≃ 1.
Como a incerteza no momentum do elétron ∆p = ~ ∆k, para um elétron descrito por ψ o princípio da
incerteza de Heisenberg será
∆x ∆p ≃ ~ .
Esta relação de incerteza, tem um análogo para o tempo e energia. A energia cinética da partícula é dada
por E = p2 /2µ, e a incerteza

p ∆x
∆E = ∆p = v∆p , mas ∆t = .
µ v
Então,
∆E ∆t ≃ ~ .

1.15 Princípio da Complementaridade


O principal resultado da discussão sobre dualidades partícula-onda pode ser sintetizado da seguinte forma:
em qualquer situação experimental, na qual a entidade física envolvida (matéria ou radiação) exibe sua pro-
priedade de onda, torna-se impossível que ela apresente qualquer caráter corpuscular. A entidade comporta-
-se como partícula se representada por um pacote de onda bastante compacto. Mas quando isto acontece,
ela perde sua habilidade de manifestar-se como onda. Assim, o caráter de partícula ou de onda de uma
entidade física é complementar e não pode ser exibido ao mesmo tempo. Esse é o chamado princípio da
complementaridade de Bohr.

1.16 Equação de Onda


Através da representação da onda plana (1.30):

1 ⃗
ψ (⃗r, t) = ϕ(⃗k) ei(k ·⃗r−ωt) d3 k
(2π)3/2

dado como forma mais geral de uma função de onda de uma partícula, é conveniente obter uma equação
de onda para descrever seu movimento. A proposta é encontrar uma equação diferencial parcial linear que
admite (1.30) como solução geral.
Em três dimensões um pacote de onda inicial ψ(⃗r, t) pode ser representado pela integral de Fourier

1 ⃗
ψ (⃗r, 0) = ϕ(⃗k) ei k ·⃗r d3 k (1.36)
(2π)3/2
1.16. E QUAÇÃO DE O NDA 19

e sua inversa ∫
1 ⃗
ϕ(⃗k) = ψ (⃗r, 0) e− i k ·⃗r d3 r . (1.37)
(2π)3/2
Se a função de onda descreve o movimento de uma partícula livre, então pelo princípio da superposição
cada componente da onda plana contida em (1.36) propaga independentemente de todas as outras de acordo

com a descrição arbitrária, ≃ ei(k ·⃗r−ωt) . Assim a função de onda em um tempo t será

1 ⃗
ψ (⃗r, t) = ϕ(⃗k) ei(k ·⃗r−ωt) d3 k . (1.38)
(2π)3/2

A Eq. (1.38) é incompleta até determinarmos a dependência de ω em ⃗k.


Em três dimensões vale as relações:

∆x ∆kx ≥ 1, ∆y ∆ky ≥ 1, ∆z ∆kz ≥ 1 .

Essas relações são generalizações de casos em uma dimensão. Mas, sabemos que ∆⃗p = ~∆⃗k; então as
relações de incerteza em três dimensões serão

∆x ∆px ≥ ~, ∆y ∆py ≥ ~, ∆z∆pz ≥ ~ . (1.39)

Vamos considerar a inversa de Fourier ϕ(⃗k) com valor apreciavelmente diferente de zero somente na região
limitada ∆⃗k ao redor do vetor de onda médio ⃗k0 . No espaço de coordenadas, o pacote de onda ψ (⃗r, t)
moverá aproximadamente como uma partícula livre clássica com momentum ⃗p = ~⃗k. Para ver este fato,
expandimos ω (⃗k) em relação ao valor médio ⃗k0 :
( ) ( )
ω (⃗k) = ω (⃗k0 ) + ⃗k − k⃗0 · ∇⃗⃗ω
k
+ ···
⃗k=⃗k0

e usando a notação para valor médio ω̄ = ω (⃗k0 ),


( ) ( )
ω (⃗k) = ω̄ + ⃗k − k⃗0 · ∇⃗ ⃗ ω̄ + · · ·
k0
(1.40)

Se substituirmos os dois primeiros termos de (1.40) em (1.38), temos


( ) ( )
− i ω̄t + ⃗k0 · ∇
⃗ ⃗ ω̄t
ψ (⃗r, t) = e k0 ψ ⃗r − ∇
⃗ ⃗ ω̄t, 0 .
k0
(1.41)

Ignorando o fator de fase em frente a Eq. (1.41), vemos que esta descreve um pacote de onda em movimento
de translação uniforme, com velocidade de grupo

⃗vg = ∇
⃗⃗ω.
k
(1.42)

Nossa interpretação, baseado na correspondência entre as mecânicas clássica e quântica, permite identificar
a velocidade de grupo da função ψ com a velocidade média da partícula

⃗p ~⃗k
⃗v = = ,
µ µ
onde µ é a massa da partícula. Assumimos um movimento não relativístico. Assim,

~⃗k = µ∇
⃗⃗ω.
k
(1.43)

Integrando (1.43), obtemos


~ 2
ω (⃗k) = k + const. (1.44)

ou
~2 k 2 p2
~ω (⃗k) = +V = +V (1.45)
2µ 2µ
20 C AP. 1 I NTRODUÇÃO AOS C ONCEITOS F UNDAMENTAIS

onde V é constante, e podemos identificar como uma energia potencial constante. Ainda podemos identificar
E = ~ω como a energia total da partícula.

A equação diferencial de onda para a onda plana ei(k ·⃗r−ωt) , com

~2 2
~ω (k) = (k + ky2 + kz2 ) + V
2m x
sendo V constante, é obviamente

∂ ~2
i~ ψ (⃗r, t) = − ∇2 ψ (⃗r, t) + V ψ (⃗r, t) (1.46)
∂t 2µ
que é conhecida como a equação de Schrödinger dependente do tempo. Assim, podemos ver que a partir dos
trabalhos de de Broglie, em 1926, Schrödinger desenvolveu em uma série de artigos seminais a formulação
da mecânica quântica ondulatória. 74
Aqui daremos atenção para uma forma alternativa de função de onda, obtida pela transformação

ψ (⃗r, t) = ei S (⃗r,t)/~ .

Se essa expressão for substituída em (1.46), temos a equação


{ }
∂S (⃗r, t) [∇S
⃗ (⃗r, t)]2 i~ 2
+ − ∇ S (⃗r, t) + V ei S (⃗r,t)/~ = 0 . (1.47)
∂t 2µ 2µ

A função S (⃗r, t) é geralmente complexa, mas em casos especiais poderá ser real, como quando ψ (⃗r, t)
representa uma onda plana, para tal caso temos

S (⃗r, t) ⃗
= k ·⃗r − ωt .
~
A Eq. (1.47) indica que a função de onda ψ (⃗r, t) não anula, e temos a equação diferencial não linear

∂S (⃗r, t) [∇S
⃗ (⃗r, t)]2 i~ 2
+ − ∇ S (⃗r, t) + V = 0 (1.48)
∂t 2µ 2µ

que, exceto pelo termo que contém i e ~, corresponde à equação clássica de Hamilton-Jacobi 75 , em que
S(⃗r, t) é a função principal de Hamilton, para o problema de uma partícula de massa µ sujeita ao potencial
V .76 Essa equação pode portanto ser usada para identificar um limite clássico do tratamento quântico do
problema de uma partícula em um potencial externo. De fato, sempre que os efeitos do penúltimo termo
puderem ser ignorados quantitativamente na determinação de S (⃗r, t) pela Eq. (1.48), essa função será tal
que estarão satisfeitas as relações clássicas

∇S
⃗ (⃗r, t) = ⃗pc (⃗r, t) = µ⃗vc (⃗r, t) ,

em que ⃗pc e ⃗vc são o momentum e a velocidade clássica, respectivamente. Se a energia total tiver um valor
bem definido vale:
∂S (⃗r, t)
= −E .
∂t
Nesse limite, as linhas de velocidade associadas à densidade de corrente de probabilidade, definida no
próximo capítulo, se reduzem às trajetórias clássicas.
74
E. Schrödinger, Annalen der Physik, Ser. 4, 79, 361–376 (1926); Ibidem, 489–527 (1926); Idem, 80, 437–490 (1926); Idem, 81,
109–139 (1926).
75
William Rowan Hamilton (1805–1865), matemático e físico irlandês.
Carl Gustav Jacob Jacobi (1804–1851), matemático alemão.
76
Para uma revisão dos elementos da mecânica clássica Hamiltoniana, ver Goldstein, Classical mechanics, (1980), ou o livro de
Landau e Lifshitz, Mechanics, (1993).
1.16. E QUAÇÃO DE O NDA 21

É importante notar que a descrição do sistema permanece como sendo feito em termos de uma distri-
buição contínua de probabilidades, de modo que a situação clássica a que esse limite se refere deve ser
entendida como sendo realizada em termos de propriedades médias em uma coleção de sistemas idênticos
com uma distribuição de condições iniciais dada. As condições em que esse limite pode ser usado como
aproximação para o problema quântico podem ser caracterizadas da seguinte forma: supondo que a energia
tenha uma dispersão pequena em torno de E, a Eq. (1.48) pode ser aproximada por
i~ 2
⃗ (⃗r, t)]2 ≃ 2µ(E − V ) +
[∇S ∇ S (⃗r, t) .

Uma aproximação clássica, consistindo em ignorar o último termo, será válida quando
( )
2µ 2π 2
∇ S (⃗r, t) ≪ 2 (E − V ) ≡
2
,
~ λ(⃗r)
em que λ(⃗r) é o chamado comprimento de onda de de Broglie. Essa condição mostra, em termos qualitati-
vos, que efeitos de curvatura na dependência espacial da amplitude de S (⃗r, t) devem ser pequenos na escala
de comprimento de onda de de Broglie.

Problemas
1.1 Deduza a distribuição espectral de Planck (1.9).
Sugestão: Consulte os livros do Prof. Leite Lopes [57] e dos Profs. Caruso e Oguri [20].
1.2 Mostre que a lei de radiação de Planck e a lei de Rayleigh-Jeans são idênticas se o quantum ϵ tende a
anular, ou se a temperatura for muito alta. O que é a catástrofe ultravioleta?
Sugestão: Consulte os livros do Prof. Leite Lopes [57] e dos Profs. Caruso e Oguri [20].
1.3 Mostre que a constante de Planck tem as mesmas dimensões do momentum angular.
∫ ∞
1.4 Usando a lei de radiação de Planck, calcule uν dν e derive a formula de σ (constante de Stefan)
0
da lei de Stefan-Boltzmann.
1.5 Derive a lei de deslocamento de Wien, i.e., λmáx T = constante , diretamente da densidade de energia
espectral de Planck V1 dE
dω . Interprete o resultado.
Sugestão: Consulte os livros do Prof. Leite Lopes [57] e dos Profs. Caruso e Oguri [20].
1.6 Uma radiação com comprimento de onda λ = 290 nm incide em uma superfície metálica na qual a
função trabalho é W = 4, 05 eV. Que diferença de potencial é necessário para parar os foto-elétrons
mais energéticos.
1.7 Mostre que, no efeito Compton, a relação entre o ângulo do elétron recuado (ϕ) e o ângulo do fóton
1 ( )
espalhado (θ) é tan (ϕ) = hν0
cot 2θ . Derive uma expressão para a energia cinética do elétron
1 + µc2
recuado.
Sugestão: Consulte os livros do Prof. Leite Lopes [57] e dos Profs. Caruso e Oguri [20].

1.8 Mostre que a energia do elétron no espalhamento Compton, máxima permitida, é igual a Ee = µc2
.
2hν
+1

1.9 Determine a energia, em eV, de um fóton cujo comprimento de onda é de 912 Å.


1.10 Verifique a fórmula de espalhamento de Rutherford.
Sugestão: Consulte os livros do Prof. Leite Lopes [57] e dos Profs. Caruso e Oguri [20].
1.11 Calcule os comprimentos de onda para as primeiras transições nas séries de Balmer, Lyman e Paschen
para o átomo de hidrogênio.
22 C AP. 1 I NTRODUÇÃO AOS C ONCEITOS F UNDAMENTAIS

1.12 Deduza a relação de Bohr para o átomo de hidrogênio.


Sugestão: Consulte os livros do Prof. Leite Lopes [57] e dos Profs. Caruso e Oguri [20].

1.13 Considere a radiação emitida por átomos de hidrogênio que realizam transições do estado n = 5 para
o estado fundamental. Determine quantos comprimentos de onda diferentes estão associados à radiação
emitida.

1.14 Considere um corpo rodando livremente ao redor de um eixo fixo. Aplicando a regra de quantização
de Wilson-Sommerfeld, mostre que os valores possíveis para a energia total são previsto por E = n2I~ ,
2 2

onde I é o momento de inércia ao redor do eixo fixo.


[ ]
1
2 −2
1.15 Use a regra de quantização de Wilson-Sommerfeld para verificar que Jr = Jϕ (1 − ε ) − 1 para
Jr . Aqui as componentes de J são as componentes do momentum angular total.
Sugestão: Consulte o livro do Prof. Max Born [14].

1.16 Aplique a regra de quantização de Wilson-Sommerfeld para o átomo de hidrogênio. Usando coorde-
nadas esféricas, a hamiltoniana do sistema
[ poderá(ser escrita na forma
)]
2
1 1 p ϕ Ze2
H= p2r + 2 p2θ + − .
2µ r sen2 (θ) r
Sugestão: Consulte os livros do Prof. Max Born [14] e dos Profs. Caruso e Oguri [20].

1.17 Se [x, p] = i ~ e H = T + V, onde T = p2 /2µ e V = µω02 x2 /2, mostre que:


a) [p, H] = [p, V] = − i ~µω02 x
b) [x, H] = [x, T] = i ~p/µ
c) [x2 , H] = [x2 , T] = i ~(xp + px)/µ
d) [xp, T] = [px, T] = i ~p2 /µ.

1.18 Dado o pacote de onda, em três dimensões, escrito∫ na forma:


1 ⃗
ψ (⃗r, t) = 3/2
ϕ(⃗k) ei(k ·⃗r−ωt) d3 k .
(2π)
Deduza explicitamente a relação de incerteza utilizando as integrais de Fourier.

1.19 Verifique que: ∆x ∆px ≥ ~; ∆ϕ ∆Lz ≥ ~ e ∆t ∆E ≥ ~.

1.20 Uma bola de ping pong perfeitamente elástica é deixada cair de uma altura igual a 10 vezes o seu raio
sobre uma esfera fixa, de mesmo raio e perfeitamente elástica. Desprezando-se os efeitos do movimento
da terra, estime o número máximo de pulos sobre a esfera fixa que esta bola pode dar nas condições
ideais de lançamento.

1.21 Valendo-se das relações de incerteza, estime a energia do estado fundamental de um oscilador harmô-
nico.

1.22 Argumente, usando as relações de incerteza, que não é possível


[( ) a existência do Hélio sólido.
σ 12
( σ )6 ] 77
Sugestão: Use o potencial de Lennard-Jones U (R) = 4ϵ R − R . Para o átomo de Hélio:
ϵ = 10−34 erg, σ = 2, 56 Å, onde 1 Å = 10−8 cm.

1.23 Utilizando a relação de incerteza ∆E ∆t, estime a massa do pion (π), o qual é a partícula responsável
pela força nuclear na teoria de Yukawa 78 .

1.24 Dado um pacote de onda gaussiana, mostre que(esse pacote


) se move com velocidade de grupo
∂ω (k)
vg = .
∂k k=k0
77
Sir John Edward Lennard-Jones (1894–1954), matemático e físico inglês.
J. E. Lennard-Jones, Proceedings of Royal Society, A106, 463 (1924).
78
Hideki Yukawa (1907–1981), físico japonês.
1.16. E QUAÇÃO DE O NDA 23

1.25 Obtenha a equação de Schrödinger independente do tempo fazendo uma analogia com o problema da
“corda vibrante” e usando as hipóteses de L. de Broglie.
Sugestão: Consulte os livros do Prof. Leite Lopes [57] e dos Profs. Caruso e Oguri [20].

1.26 Descreva e interprete: a) O experimento de dupla fenda de Young usando elétrons. b) A radiação do
corpo negro. c) O experimento de Franck-Hertz. d) O experimento de Stern-Gerlach.
Sugestão: Consulte os livros do Prof. Leite Lopes [57] e dos Profs. Caruso e Oguri [20].

Leitura Recomendada
Recomenda-se ao leitor, como pré-requisito e requisito paralelo, a leitura dos seguintes livros:

– J. Leite Lopes [57];


– F. Caruso e V. Oguri [20];
– A. F. R. de Toledo Piza [79];
– R. P. Feynman, R. B. Leighton, and M. Sands [30].

Nesses livros, o leitor encontrará deduções detalhadas, claras e históricas da mecânica quântica antiga de
Planck, Einstein, Bohr, Wilson e Sommerfeld, e descrições dos experimentos fundamentais. Ainda nesses
livros, poderão estudar a mecânica matricial de Heisenberg, Born e Jordan, bem como a dedução de de
Broglie e da equação de Schrödinger. Com relação a mecânica matricial, o livro do Prof. Toledo Piza está
numa forma moderna e elegante.
Solicita-se ao leitor que estude, antes de prosseguir na leitura deste texto, o capítulo 1 do Volume III
do Feynman lectures on physics, que contém uma excelente descrição da experiência da difração por duas
fendas, conhecida como experiência de Young, realizada com elétrons, em lugar da luz (que Young usou).
Quando eu conseguir realizar essa descrição tão bem quanto Feynman, a minha tentativa me deixará muito
honrado.
24
Capítulo 2
A Equação de Schrödinger e Álgebra dos
Operadores

Neste capítulo iremos estudar as propriedades da equação de onda de Schrödinger como função do es-
paço e do tempo. Também faremos um estudo dos operadores hermitianos e suas propriedades algébricas.
O objetivo é extrair informações da função de onda e das propriedades dos operadores

2.1 A Equação de Onda e a Interpretação de ψ


No caso da equação de onda (1.46), temos a energia potencial V constante, um caso particular é quando
temos o movimento de uma partícula livre de massa µ, i.e., V = 0. A generalização dessa equação é quando
temos o caso de uma partícula de massa µ em um campo de força representado pela energia potencial V (⃗r, t),
para qual é dependente da posição⃗r e, possivelmente, também dependente do tempo t. Assim reescrevemos
essa equação como
∂ ~2
i ~ ψ (⃗r, t) = − ∇2 ψ (⃗r, t) + V (⃗r, t) ψ (⃗r, t) (2.1)
∂t 2µ
usando a seguinte relação
ψ (⃗r, t) = ei S (⃗r,t)/~ ,
encontramos a equação

∂S (⃗r, t) [∇S
⃗ (⃗r, t)]2 i~ 2
+ − ∇ S (⃗r, t) + V (⃗r, t) = 0 , (2.2)
∂t 2µ 2µ
que é semelhante a equação clássica de Hamilton-Jacobi na presença de forças, novamente com a presença
do termo quântico proporcional à ~.
Usamos a relação (2.1) como equação fundamental da mecânica quântica não relativística para partícu-
las sem spin e a chamamos de equação de onda ou equação de Schrödinger dependente do tempo.
Note que para partícula de massa µ na presença de um campo de força ⃗F = −∇V ⃗ (⃗r), onde a energia
potencial não depende do tempo, a energia total é a soma da energia cinética à energia potencial, i.e.,

p2
E= + V (⃗r) .


Note que (2.1) é a equação diferencial de onda para a onda plana ei(k ·⃗r−ωt) , que satisfaz a relação

~2 2
~ω (k) = (k + ky2 + kz2 ) + V (x, y, z) ,
2µ x
a qual pode ser identificada com a energia total, em termos de relações de de Broglie. Assim, comparando
a energia total e a Eq. (2.1) podemos definir os operadores diferenciais, para a energia total E e para o

25
26 C AP. 2 A E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER E Á LGEBRA DOS O PERADORES

momentum ⃗p, da seguinte forma:



E → i~ , ⃗p → − i ~∇
⃗ . (2.3)
∂t
Muitas vezes é conveniente escrever a equação de Schrödinger em uma forma mais compacta. Isso pode
ser feito utilizando o operador H
~2
H = − ∇2 + V (⃗r) , (2.4)

chamado operador hamiltoniano, para reescrever a equação de Schrödinger da seguinte forma:

Hψ (⃗r, t) = i ~ ψ (⃗r, t) . (2.5)
∂t
A função de onda ψ é uma função complexa. Isso impede que ela seja observada ou medida diretamente,
como acontece com funções de onda clássicas. O fato de ψ ser uma função complexa é uma condição
inibidora para atribuir-lhe qualquer interpretação física real. A fim de que possamos extrair dessa função
de onda algum significado físico, devemos procurar estabelecer uma conexão da função com quantidades
dinâmicas associadas à partícula.
A forma de extrair qualquer informação de um estado quântico representado pela função ψ (⃗r, t) foi
apresentado por Max Born em 1926, e constitui um dos postulados fundamentais da mecânica quântica. 1
Por esse postulado temos que, a probabilidade dP (⃗r, t) de uma partícula associada a função de onda ψ (⃗r, t)
ser encontrada, em um determinado instante t, no interior de um elemento de volume d3 r = dxdydz em
torno do ponto localizado por⃗r, é igual a

ψ ∗ (⃗r, t)ψ (⃗r, t)d3 r . (2.6)

Portanto, a probabilidade será

dP (⃗r, t) = |ψ (⃗r, t)|2 d3 r = ψ ∗ (⃗r, t)ψ (⃗r, t)d3 r (2.7)

onde, definimos uma quantidade real

ρ(⃗r, t) = |ψ (⃗r, t)|2 = ψ ∗ (⃗r, t)ψ (⃗r, t) (2.8)

que representa uma densidade de probabilidade.


Schrödinger interpretou e|ψ (⃗r, t)|2 , onde e é a carga do elétron, como a densidade de carga. Apesar
dessa última interpretação poder ser aplicada apenas em alguns casos especiais, a interpretação aceita para
a função de onda ψ deve-se a Max Born.

2.2 Conservação da Probabilidade


Considerando a taxa de variação temporal da densidade de probabilidade de encontrar a partícula associada
a função de onda ψ, temos:
∂|ψ|2 ∂ψ ∗ ∂ψ
= ψ + ψ∗
∂t ∂t ∂t
usando as Eqs. (2.4) e (2.5) podemos escrever
[ ( 2 ) ( 2 ) ]
∂|ψ|2 i ~ 2 ∗ ∗ ~ 2
= ψ − ∇ +V ψ −ψ − ∇ +V ψ
∂t ~ 2µ 2µ
e levando em conta a relação
( )
ψ ∗ ∇2 ψ − ψ∇2 ψ ∗ = ∇
⃗ · ψ ∗ ∇ψ ⃗ ∗
⃗ − ψ ∇ψ

1
M. Born, Zeitschrift für Physik, 37, 863–867 (1926); Idem, 38, 803–827 (1926).
2.2. C ONSERVAÇÃO DA P ROBABILIDADE 27

obtém-se
∂|ψ|2 i~ ⃗ ( ⃗ ∗ )
=− ∇ · ψ ∇ψ − ψ ∗ ∇ψ
⃗ . (2.9)
∂t 2µ
Assim, definimos uma nova quantidade física
( )
⃗J(⃗r, t) = i ~ ψ ∇ψ
⃗ ∗ − ψ ∗ ∇ψ
⃗ , (2.10)

em que ⃗J(⃗r, t) é chamada de densidade de corrente de probabilidade ou fluxo de probabilidade. Com isso,
a Eq. (2.9) pode-se escrever na forma:
∂ρ ⃗ ⃗
+ ∇·J = 0. (2.11)
∂t
Essa equação é conhecida como equação de continuidade devido a sua semelhança com a equação diferen-
cial da teoria eletromagnética que recebe esse nome.
Intuitivamente esperamos que o fluxo de probabilidade esteja relacionado com o momentum. Para isso,
tomemos o caso em que ⃗J é integrado em todo o espaço. Da Eq. (2.10), temos ⃗J(⃗r, t) = µ~ ℑ(ψ ∗ ∇ψ).
⃗ Então,

⃗J(⃗r, t) d3 r = ⟨⃗p⟩t , (2.12)
µ
onde ⟨⃗p⟩t é o valor médio do momentum em um tempo t.
Uma outra forma de interpretar a função de onda é escrever
[ ]
√ i S (⃗r, t)
ψ (⃗r, t) = ρ(⃗r, t) exp ,
~
com S real e ρ > 0. Note que,
√ ⃗ √ i ⃗
ψ ∗ ∇ψ
⃗ = ρ ∇ ( ρ) + ρ∇S
~
e então podemos escrever o fluxo de probabilidade como:

⃗J = ρ∇S .

(2.13)
µ

Assim, podemos ver que há mais informação para a função de onda além do fato de |ψ|2 ser a densidade de
probabilidade; o gradiente da fase S contém uma peça vital de informação. Da Eq. (2.13) podemos ver que
a variação espacial da fase S da função de onda caracteriza o fluxo de probabilidade, quanto mais intensa a
fase, mais intenso o fluxo. A direção do fluxo ⃗J em um ponto ⃗r é visto como a normal da superfície. Fica
como um tipo de velocidade, ⃗v = ∇S

evidente que ∇S
⃗ = ⃗p, mas geralmente podemos interpretar ∇S/µ⃗
µ ,
e a equação de continuidade pode ser escrita na forma
∂ρ ⃗
+ ∇ · (ρ ⃗v) , (2.14)
∂t
como na dinâmica dos fluidos.
A equação de movimento, utilizando e equação de Schrödinger dependente do tempo, é
[ ]
∂S (⃗r, t) [∇S
⃗ (⃗r, t)]2 ~2 (∇ρ)
⃗ 2 ∇2 ρ
+ +V + − =0 (2.15)
∂t 2µ 4µ 2ρ2 ρ

ou √
∂S (⃗r, t) [∇S
⃗ (⃗r, t)]2 ~2 ∇2 ρ
+ +V − √ =0 (2.16)
∂t 2µ 2µ ρ
onde novamente temos a equação de Hamilton-Jacobi para a dinâmica da partícula, onde o último termo
contém o potencial quântico adicionado a energia potencial convencional V .
28 C AP. 2 A E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER E Á LGEBRA DOS O PERADORES

2.3 Normalização da Função de Onda


De acordo com a interpretação de Born, para todo o espaço deve valer a chamada condição de normalização
para a função de onda ψ, ∫ ∫
ρ(⃗r, t)d3 r = ψ ∗ (⃗r, t)ψ (⃗r, t)d3 r = 1 , (2.17)
V V
que simplesmente expressa o fato de que a partícula deve ser encontrada em qualquer ponto do espaço.
Entretanto, para uma interpretação consistente, além da conservação local de probabilidade, é necessário
que haja também uma conservação global. De acordo com a equação de continuidade, Eq. (2.11), pode-se
escrever ∫ ∫
∂ρ(⃗r, t) 3
d r=− ∇
⃗ · ⃗J(⃗r, t) d3 r
V ∂t V
e, aplicando o teorema da divergência no segundo membro da equação acima, obtém-se
∫ I

ρ(⃗r, t) d r = − ⃗J(⃗r, t) · n̂ d2 r
3
∂t V S

onde S é a superfície que envolve todo o volume V . Observando-se a definição de densidade de corrente de
probabilidade,H ⃗J(⃗r, t), dado por (2.10), e supondo-se que ψ (⃗r, t) seja uma função de onda bem comportada,2
temos que − S ⃗J(⃗r, t) · n̂ d2 r = 0 e, portanto


ρ(⃗r, t) d3 r = 0 , (2.18)
∂t V
que expressa a conservação global, ou seja, a normalização da função não deve depender do tempo.
Para um feixe homogêneo constituído de N elétrons que possuem basicamente a mesma energia, e
portanto, estão associados à mesma função de onda ψ, os elétrons ocupam regiões distintas do espaço, e a
probabilidade da presença de qualquer um deles é proporcional a |ψ|2 d3 r. Nessas circunstâncias, ψ pode
ser normalizada como ∫
ψ ∗ (⃗r, t)ψ (⃗r, t)d3 r = N , (2.19)
V

onde podemos interpretar |ψ|2


como a densidade de partículas, e e|ψ|2 como a densidade de carga em uma
dada região, tal como Schrödinger havia interpretado.

2.4 Equação de Onda – Sistemas Estacionários


Para campos conservativos, a equação de Schrödinger dependente do tempo

Hψ (⃗r, t) = i ~ ψ (⃗r, t) (2.20)
∂t
pode ser resolvida através da separação de variáveis. No caso em questão, esse procedimento poderá ser
empregado desde que a energia de potencial do sistema quântico considerado não apresente explícita de-
pendência do tempo, i.e., V = V (⃗r). Com isso, o operador H torna-se independente do tempo e a função
de onda ψ (⃗r, t) pode ter a solução na forma,

ψ (⃗r, t) = φ(⃗r)Φ(t) . (2.21)

Substituindo na Eq. (2.1),

∂ ~2
i ~ φ(⃗r) Φ(t) = − Φ(t) ∇2 φ(⃗r) + V (⃗r) φ(⃗r)Φ(t) (2.22)
∂t 2µ
2
Funções de onda ψ (⃗r, t) que obedecem à condição ψ (⃗r, t) = 0, para x → ±∞, y → ±∞, z → ±∞, e que são contínuas e
deriváveis em todo seu espaço de definição, são chamadas de funções de onda bem comportadas.
2.4. E QUAÇÃO DE O NDA – S ISTEMAS E STACIONÁRIOS 29

e dividindo por φ(⃗r)Φ(t), obtém-se

1 ∂ ~2 1
i~ Φ(t) = − ∇2 φ(⃗r) + V (⃗r) . (2.23)
Φ(t) ∂t 2µ φ(⃗r)
Como o lado esquerdo da equação depende somente do tempo e o outro lado depende apenas da posição,
a equação será satisfeita se os dois lados forem iguais a uma mesma constante E com dimensão de energia.
Assim, temos duas equações diferenciais
[ 2 ]
∂ ~
i~ Φ(t) = E Φ(t) e − ∇ + V (⃗r) φ(⃗r) = E φ(⃗r) .
2
∂t 2µ
A primeira equação diferencial no domínio do tempo não depende da dinâmica de interação e pode ser
integrada imediatamente,
Φ(t) = e− ~ Et .
i
(2.24)
Devemos observar que se E na equação acima for uma quantidade real, Φ(t) é uma função oscilante no
tempo, com frequência angular ω = E~ .
A segunda equação diferencial é a equação de Schrödinger independente do tempo e do ponto de vista
matemático, constitui um problema de autovalor, tal que, dependendo das condições impostas à função de
onda φ(⃗r), o autovalor E, i.e. a energia da partícula, poderá assumir valores discretos ou contínuos. As
soluções, φE (⃗r), associadas a cada valor E, são conhecidas como autofunções de energia.
Assim a solução geral para (2.21) será

ψ (⃗r, t) = φE (⃗r) e− ~ Et .
i
(2.25)

que configura-se como um estado estacionário.


A cada possível valor de energia E pode corresponder um ou mais estados da partícula. Se para um
dado valor de energia tivermos associados dois ou mais estados independentes, esse autovalor é conhecido
como degenerado. Por serem representados por autofunções φ(⃗r), são chamados de autoestado de energia
e o conjunto de autovalores são conhecidos como espectro de energia.
Em geral, a equação de Schrödinger independente do tempo, é escrita como

H ψ (⃗r, t) = E ψ (⃗r, t) (2.26)

onde H é o operador hamiltoniano. Desse modo, temos que o espectro de energia de um sistema é consti-
tuído dos autovalores do operador H.
Substituindo ψ (⃗r, t) = φ(⃗r) e− ~ Et na equação da continuidade, podemos verificar que a energia E,
i

dessa equação, é uma quantidade real. Dessa forma a densidade de probabilidade ρ(⃗r, t) pode ser colocada
como

ρ(⃗r, t) = ψ ∗ (⃗r, t)ψ (⃗r, t) = φ∗ (⃗r)φ(⃗r) e− ~ (E−E )t ,
i

derivando a densidade de probabilidade em relação ao tempo


∂ i ∗
ρ(⃗r, t) = − (E − E ∗ ) φ∗ (⃗r)φ(⃗r) e− ~ (E−E )t = −∇
i
⃗ · ⃗J(⃗r, t) ,
∂t ~
integrando essa equação no volume V e utilizando o teorema da divergência, temos
∫ ∫ I
∗ ∗ − ~i (E−E ∗ )t 3
(E − E ) φ (⃗r)φ(⃗r) e d r = −i~ ∇ · J(⃗r, t) d r = − i ~ ⃗J(⃗r, t) · n̂ d2 r .
⃗ ⃗ 3
V V S

Lembrando que ∫ I

ρ(⃗r, t) d3 r = − i ~ ⃗J(⃗r, t) · n̂ d2 r = 0
V ∂t S
obtém-se ∫
∗ ∗ )t
φ∗ (⃗r)φ(⃗r) e− ~ (E−E
i
(E − E ) d3 r = 0 .
V
30 C AP. 2 A E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER E Á LGEBRA DOS O PERADORES

∫ ∗
Como V φ∗ (⃗r)φ(⃗r) e− ~ (E−E )t d3 r > 0, se φ(⃗r) não for identicamente nula, consequentemente temos
i

E = E ∗ , o que mostra que a energia E é uma quantidade real. O fato de a energia E ser real nos garante que
a função Φ(t) seja puramente oscilatória. Com isso, podemos observar que as funções φ(⃗r) e Φ(t) diferem
por um fator de fase que depende do tempo.
As autofunções da equação de Schrödinger correspondem aos estados estacionários de Bohr, se o estado
inicial, ψ (⃗r, 0), é um dado autoestado φE de energia,

ψ (⃗r, 0) = φE (⃗r)

a solução da equação de Schrödinger, ψ (⃗r, t), para um instante t qualquer, será dada por

ψ (⃗r, t) = φE (⃗r) e− ~ Et .
i

Assim, as densidades de probabilidades associadas às soluções que evoluem de um autoestado de ener-


gia não dependem do tempo,
ρ(⃗r) = φ∗E (⃗r) φE (⃗r) .
Portanto, os autoestados de energia de uma partícula em um campo conservativo são também chamados de
estados estacionários.

2.5 Estados Não Estacionários


Mesmo que o estado inicial, ψ (⃗r, 0), da equação de Schrödinger, não seja um dos autoestados de energia,
mas sendo a equação de Schrödinger linear e homogênea, a solução geral para uma partícula em um campo
conservativo, será expressa como a combinação linear de seus possíveis estados estacionários,
∑ ∑
cn φn (⃗r) e− ~ En t =
i
ψ (⃗r, t) = cn (t) φn (⃗r)
n n

onde {En } é o conjunto de valores do espectro de energia, {φn (⃗r)} é o conjunto de autoestados, e os
coeficientes cn (t) = cn e− ~ En t são determinados pelo estado inicial.
i

Neste caso, a densidade de probabilidade depende do tempo



ρ(⃗r, t) = c∗l (t) cn (t) φ∗l (⃗r) φn (⃗r)
l,n

e o estado ψ (⃗r, t) é chamado estado não estacionário.

2.6 Ortogonalidade dos Autoestados


A ortogonalidade é uma das principais propriedades das soluções da equação de Schrödinger independente
do tempo. Se {φn (⃗r)} é o conjunto de autoestados estacionários de uma partícula de massa µ em um campo
conservativo V (⃗r), confinada em uma dada região do espaço

φ∗l (⃗r) φn (⃗r) d3 r = 0 (l ̸= n) (2.27)
V

é a condição de ortogonalidade.
Uma vez que φl (⃗r) e φn (⃗r) satisfazem a equação de Schrödinger,
[ 2 ]
~
Hφn (⃗r) = − ∇ + V (⃗r) φn (⃗r) = En φn (⃗r)
2
(2.28)

e [ 2 ]
~
Hφ∗l (⃗r) = − ∇2 + V (⃗r) φ∗l (⃗r) = En φ∗l (⃗r) (2.29)

2.6. O RTOGONALIDADE DOS AUTOESTADOS 31

multiplicando a Eq. (2.28) por φ∗l (⃗r) e a Eq. (2.29) por φn (⃗r), e então subtraindo uma da outra, temos

~2 [ ∗ 2 ]
− φl ∇ φn − φn ∇2 φ∗l = (En − El ) φ∗l φn

ou seja
~2 ⃗ [ ∗ ⃗ ]
⃗ ∗ = (En − El ) φ∗ φn .
− ∇ · φl ∇φn − φn ∇φ l l

Integrando em todo o espaço,
∫ [ ] ∫
∗⃗ ∗ 2µ
∇ · φl ∇φn − φn ∇φl d r = 2 (El − En )
⃗ ⃗ 3
φ∗l φn d3 r
V ~ V

e aplicando o teorema da divergência, resulta uma integral sobre uma superfície de raio arbitrariamente
grande na qual as autofunções se anulam, ou seja
∫ [ ] I [ ]
∗⃗ ∗ ∗⃗ ∗
∇ · φl ∇φn − φn ∇φl d r =
⃗ ⃗ 3
φl ∇φn − φn ∇φl · n̂ d2 r = 0 .

V S

Logo, se φl e φn são autofunções associadas a autovalores de energia distintos, El ̸= En , obtemos a relação


de ortogonalidade, ∫
φ∗l (⃗r) φn (⃗r) d3 r = 0 (l ̸= n) .
V
Assim, podemos afirmar que os autoestados de energia de uma partícula em um campo conservativo
são representados por autofunções ortogonais e normalizadas.
A condição de ortogonalidade e normalização implicam que os coeficientes, cn (t), da função de onda,
ψ (⃗r, t), em termos das autofunções normalizadas, φn , satisfazem à relação de completeza,
∑ ∑
|cn (t)|2 = |cn |2 = 1 . (2.30)
n n
∑ ∑
Uma vez que ψ (⃗r, t) = n cn (t) φn (⃗r) e ψ ∗ (⃗r, t) = l c∗l (t) φ∗l (⃗r), pela normalização,
∫ ∑ ∫
ψ ∗ (⃗r, t) ψ (⃗r, t) d3 r = c∗l cn e− ~ (El −En )t φ∗l (⃗r) φn (⃗r) d3 r = 1 .
i

V l,n V

Se as autofunções são ortogonais e normalizadas,



φ∗l (⃗r) φn (⃗r) d3 r = δln
V

onde δln é igual a unidade, se l = n, e igual zero, se l ̸= n, e é conhecido como delta de Kronecker 3 . A
equação acima satisfaz a relação de completeza (2.30).
Podemos também determinar o peso cn (t) de cada autoestado φn no estado atual da partícula, ψ (⃗r, t), a
partir do estado inicial, ψ (⃗r, 0). Escrevendo o estado inicial como

ψ (⃗r, 0) = cn φn (⃗r)
n

multiplicando por φ∗l (⃗r) e integrando em todo espaço,


∫ ∑ ∫
∗ 3
φl (⃗r) ψ (⃗r, 0) d r = cn φ∗l (⃗r) φn (⃗r) d3 r
V n V

pelo delta de Kronecker, temos ∫


cn = φ∗n (⃗r) ψ (⃗r, 0) d3 r . (2.31)
V
3
Leopold Kronecker (1823–1891), matemático e lógico alemão.
32 C AP. 2 A E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER E Á LGEBRA DOS O PERADORES

2.7 Valor Esperado – Espaço de Coordenada e de Momentum


Para um estado normalizado, o valor médio ou valor esperado de uma observável física, por exemplo a
coordenada x, é representado pela integral
∫ ∫
⟨x⟩ = x |ψ| dx = ψ ∗ x ψ dx .
2
(2.32)

O valor esperado para o vetor posição⃗r, ou o centro do pacote de onda, é definido por
∫ ∫
⟨⃗r⟩ = ⃗r |ψ| d r = ψ ∗ ⃗r ψ d3 r .
2 3
(2.33)

E o valor esperado para uma função arbitrária f (⃗r), é dado por


∫ ∫
⟨f (⃗r)⟩ = f (⃗r) |ψ|2 d3 r = ψ ∗ f (⃗r) ψ d3 r . (2.34)

Assim, lembrando das definições dos operadores diferenciais, E → i ~ ∂t



e ⃗p → − i ~∇,
⃗ para a energia
total e para o momentum respectivamente, ou para qualquer outra quantidade física, podemos expressar os
valores estimados em termos da coordenada de posição, espaço de coordenada. Exemplo, valor esperado
para o momentum ∫ ∫
⟨⃗p⟩ = ⃗p |ψ| d r = ψ ∗ (− i ~∇)
2 3 ⃗ ψ d3 r . (2.35)

Vamos agora verificar o desenvolvimento da equação de Schrödinger e dos valores esperado em espaço
de momentum, como por exemplo expressar⃗r como um operador diferencial (similar ao operador diferencial
para o momentum). Partindo da transformada de Fourier e sua inversa

1
ϕ(⃗p, t) e ~ ⃗p ·⃗r d3 p
i
ψ (⃗r, t) = (2.36)
(2π~)3/2
e ∫
1
ψ (⃗r, t) e− ~ ⃗p ·⃗r d3 r .
i
ϕ(⃗p, t) = (2.37)
(2π~)3/2
Note que nessas equações usamos ⃗p no lugar de ⃗k = ⃗p/~, para recuperarmos as informações em espaço de
⃗k, basta fazer as substituições

⃗p → ~⃗k, d3 p → ~3 d3 k, ϕ(⃗p) → ~−3/2 ϕ(⃗k) .

Note que usamos a função ψ em espaço de coordenada e a função ϕ em espaço de momentum, mas
ambas são igualmente válidas para descrever o mesmo estado do sistema considerado. Dado um ou outro,
podemos desenvolver a equação de movimento usando (2.36) ou (2.37). As duas funções dependem do
tempo t. Para o caso especial da partícula livre, a onda plana de momentum ⃗p = ~⃗k desenvolve no tempo
através da equação
ϕ(⃗p, t) = ϕ(⃗p, 0) e− i ω(⃗p)t . (2.38)
Para um caso geral, na presença de um potencial, a evolução no tempo de ϕ(⃗r, t) é mais complexa do
que a da equação acima. Mas podemos obter uma equação de onda em espaço de momentum fazendo uso
da diferenciação em relação ao tempo t de (2.37),

∂ϕ(⃗p, t) 1 ∂ψ (⃗r, t) − i ⃗p ·⃗r 3
i~ = 3/2
i~ e ~ d r
∂t (2π~) ∂t
ou ∫ [ 2 ]
∂ϕ(⃗p, t) 1 ~
e− ~ ⃗p ·⃗r
i
i~ = − ∇2 + V (⃗r) ψ (⃗r, t) d3 r .
∂t (2π~)3/2 2µ
2.7. VALOR E SPERADO – E SPAÇO DE C OORDENADA E DE Momentum 33

Usando novamente as transformadas de Fourier (2.36) e (2.37), e fazendo pequenos ajustes, obteremos

∂ϕ(⃗p, t) p2 1 i ′
e− ~ ⃗p ·⃗r V (⃗r) e ~ ⃗p ·⃗r ϕ(⃗p′ , t) d3 r d3 p′ .
i
i~ = ϕ(⃗p, t) + (2.39)
∂t 2µ (2π~)3
Lembrando que ϕ é uma equação de onda em espaço de momentum. Podemos ainda transformá-la em uma
equação diferencial se V for uma função analítica de x, y, z, e se ainda escrevermos
⃗ ⃗p ) e− ~ ⃗p ·⃗r ,
e− ~ ⃗p ·⃗r V (⃗r) = V (i ~∇
i i

onde ⃗r aparece como um operador diferencial ⃗r → i ~∇⃗ ⃗p . Substituindo a equação acima em (2.39), exe-
cutando a integral, temos a solução com o auxilio da função delta de Dirac, e o resultado final será uma
equação diferencial parcial em espaço de momentum:
∂ϕ(⃗p, t) p2
i~ = ϕ(⃗p, t) + V (i ~∇
⃗ ⃗p ) ϕ(⃗p, t) (2.40)
∂t 2µ
que é completamente equivalente a (2.1).
É importante observar que
∫ ∫
|ϕ(⃗p, t)| d p = |ψ (⃗r, t)|2 d3 r
2 3
(2.41)

ou seja, se ψ é normalizada para qualquer tempo t, da mesma forma ϕ é automaticamente normalizado.


Para elucidar melhor, vamos deduzir explicitamente a componente x como um operador diferencial
x → i ~ dpdx . Partindo do valor esperado ⟨x⟩,

⟨x⟩ = ψ ∗ (x) x ψ (x) dx ,

da transformada de Fourier ∫
1 i
ψ (x) = 1/2
ϕ(p) e ~ px dp ,
(2π~)
e das propriedades da função delta de Dirac (a função delta será detalhada no próximo capítulo), dadas por
∫ ∞ ∫ ∞
′ 1 i(p−p′ )x
δ(p − p ) = e dx e f (x′ ) δ(x − x′ ) dx′ = f (x) .
2π −∞ −∞

Sabemos que
∫ ∫ ∫ ∫
1 ′
ψ ∗ (x) x ψ (x) dx = ϕ∗ (p) e− ~ px dp dx x ϕ(p′ ) e ~ p x dp′ ,
i i
⟨x⟩ =
2π~
integrando por partes a última integral
d
u = ϕ(p′ ) → du = ϕ(p′ ) dp′
dp′
e ∫
i ′ ′ ′

x e ~ p x dp′ = − i ~ e ~ p x ,
i i
dv = x e ~
px
dp → v=

assim ∫ [ ]+∞ ∫
i ′ i ′ d i ′
x ϕ(p′ ) e ~ p x dp′ = − i ~ ϕ(p′ ) e ~ p x + i~ ′
ϕ(p′ ) e ~ p x dp′ .
−∞ dp
Então,
∫ ∫ ∫
1 ′ d
e ~ (p −p)x dx ϕ∗ (p) i ~ ′ ϕ(p′ ) dp′ dp
i
⟨x⟩ =
2π~ dp
∫ ∫
d
= ϕ∗ (p) i ~ ′ ϕ(p′ ) δ(p′ − p) dp′ dp
dp

d
= ϕ∗ (p) i ~ ϕ(p) dp .
dp
34 C AP. 2 A E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER E Á LGEBRA DOS O PERADORES

Portanto, o operador diferencial para a componente x da coordenada será


d
x → i~ (2.42)
dp
e em três dimensões teremos:
⃗r → i ~ ∇
⃗ ⃗p , (2.43)
onde ∇
⃗ ⃗p é o gradiente no espaço de momentum.
Assim, teremos todos os casos no espaço de momentum:
∫ ∫
|ψ (⃗r, t)| d r = |ϕ(⃗p, t)|2 d3 p
2 3
(2.44)

⟨⃗p⟩ = ⃗p |ϕ(⃗p, t)|2 d3 p (2.45)

⟨⃗r⟩ = ϕ∗ (⃗p, t) i ~ ∇
⃗ ⃗p ϕ(⃗p, t)d3 p . (2.46)

Podemos generalizar para uma função arbitrária de posição, onde o valor esperado é dado por:
∫ ∫
⟨f (⃗r)⟩ = f (⃗r) |ψ (⃗r, t)|2 d3 r = ϕ∗ (⃗p, t) f (i ~ ∇
⃗ ⃗p ) ϕ(⃗p, t) d3 p . (2.47)

Similarmente, podemos usar para obter o valor esperado de uma função arbitrária de momentum,
∫ ∫
⟨g (⃗p)⟩ = g (⃗p) |ϕ(⃗p, t)|2 d3 p = ψ ∗ (⃗r, t) g (− i ~ ∇)
⃗ ψ (⃗r, t) d3 r . (2.48)

Com essas relações podemos calcular para todo sistema físico, os valores esperados para os operadores
associados a energia, posição, momentum e qualquer função arbitrária de posição e de momentum, utilizando
tanto o espaço de posição bem como o espaço de momentum.

2.8 Operadores
Seja F as coordenadas ou as componentes uma quantidade física que caracteriza o estado de um sistema
quântico.4 Os valores que uma dada quantidade física pode assumir são chamados de autovalores. O con-
junto dos autovalores é o espectro. Na mecânica clássica as quantidades físicas são contínuas. Porém na
mecânica quântica, não necessariamente. Pode haver espectros discretos ou espectros contínuos. Vamos
supor, para simplificar, que o espectro de F seja discreto. Os autovalores de F serão denotados por fn ,
(n = 0, 1, 2, · · · ). A função de onda do sistema, no estado em que F tem os valores fn , será denotada por
ψn . Essas funções são chamadas autofunções de F. Assim,

Fψn = fn ψn . (2.49)

Um operador é dito linear se sua ação em duas funções ψ1 e ψ2 é tal que:

F(c1 ψ1 + c2 ψ2 ) = c1 Fψ1 + c2 Fψ2 ,

onde c1 e c2 são números complexos arbitrários. A maior parte dos operadores em mecânica quântica são
lineares.
Somente uma outra categoria de operadores são importantes na mecânica quântica, que é o antilinear,
caracterizado pela propriedade

F(c1 ψ1 + c2 ψ2 ) = c∗1 Fψ1 + c∗2 Fψ2 .


4
Para o operador F, devemos ter em mente que ele representa as coordenadas ou as componentes de uma grandeza vetorial,
tensorial ou espinorial, ver o excelente livro do Prof. P. A. M. Dirac, The principles of quantum mechanics, (1958).
2.8. O PERADORES 35

Os complexo conjugados são eles próprios um exemplo de operadores antilineares. Esses operadores são
importantes na mecânica quântica quando processos físicos com reversão temporal são considerados
Assim, uma quantidade física, a qual é função da coordenada e do momentum linear, temos um operador
linear associado que nos dá o valor esperado. O valor esperado tem o mesmo conceito de valor médio ⟨F⟩
da quantidade física F em um dado estado. Sejam fn os valores possíveis de F, ou seja, seus autovalores.
Sejam |cn |2 as probabilidades de cada um dos autovalores, no estado em questão. Define-se então o valor
médio como ∑
⟨F⟩ = fn |cn |2 .
n
Como queremos encontrar uma expressão para F em termos da função de onda do estado considerado, e ψ
é esta função, vamos associar à quantidade física ao operador linear F que atua sobre as funções de onda.
Seja Fψ a função obtida quando F atua sobre ψ. Assim,
∫ ∫
⟨F⟩ = ψ F ψ d r = ϕ∗ F ϕ d3 p
∗ 3
(2.50)

para qualquer estado ψ em espaço de coordenadas, ou ϕ em espaço de momentum. Então


∑ ∫ ∑
⟨F⟩ = fn cn cn = ψ ∗

cn fn ψn d3 r
n n

onde usamos cn = ψ ∗ ψn d3 r. Vemos, primeiramente, que

⟨F⟩ = cn fn ψn
n

e que ψ = n cn ψn , de maneira que ⟨F⟩ é linear, então

Fψn = fn ψn

como já havíamos mencionado.


Do fato do valor esperado F ser real segue uma propriedade importante dos operadores associados a
quantidades físicas: ∫ (∫ )∗
∗ ∗ ∗
⟨F⟩ = ψ F ψ d r = ⟨F ⟩ =
3
ψ Fψd r 3
. (2.51)

Mas
(∫ )∗ ∫ ∫ ∫

( ∗
)∗ ∗ ∗
ψ Fψd r 3
= 3
ψ (F ψ) d r = ψ (F ψ ) d r = 3
ψ F∗ ψ ∗ d3 r , (2.52)

onde F∗ é definido por: se Fψ = ϕ, então F∗ é o operador tal que F∗ ψ ∗ = ϕ∗ .5 Então,


∫ ∫
ψ F ψ d r = ψ F∗ ψ ∗ d3 r .
∗ 3

Vamos definir o operador transposto Ft do operador F. Sejam ψ e ϕ funções arbitrárias. Então Ft é tal que
∫ ∫
ψ ∗ (Ft ) ϕ d3 r = ϕ F ψ ∗ d3 r .

Se tomarmos como exemplo ψ = i ϕ,


∫ ∫ ( t)
ψ F ψ d r = ψ ∗ F∗ ψ d3 r .
∗ ∗ 3

5
Por exemplo, seja F = − i ∂x

. Então, dado uma ψ qualquer, temos Fψ = − i ∂ψ
. O operador complexo conjugado F∗ deve
∗ ∗
( )
∂ψ ∗ ∗
∂x
ser tal que F ψ = − i ∂x = i ∂ψ ∂x
. Logo, F∗ = i ∂x

.
36 C AP. 2 A E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER E Á LGEBRA DOS O PERADORES

Da condição de F ser real, da Eq. (2.52), temos


∫ ∫ ∫ ( t)
ψ F ψ d r = ψ F ψ d r = ψ ∗ F∗ ψ d3 r .
∗ 3 ∗ ∗ 3
(2.53)

Comparando os dois extremos da equação acima, vemos que

F = (Ft )∗ .

Operadores com esta propriedade são ditos hermitianos. Logo, os operadores associados a quantidades
físicas são operadores lineares hermitianos.
Podemos, formalmente, considerar quantidades físicas complexas, i.e., cujos autovalores são comple-
xos. Por exemplo, dadas as coordenadas x e y, podemos considerar a quantidade x + i y. Seja a função
F uma quantidade desse tipo, e seja F ∗ a quantidade cujos autovalores são os complexo conjugados dos
autovalores da função F . À quantidade F corresponde o operador F. Denotemos por F† o operador corres-
pondente à quantidade F ∗ . Este operador é denominado o operador adjunto de F.
O valor médio da quantidade F ∗ é dado por

⟨F ⟩ = ψ ∗ F† ψ d3 r

onde apenas adaptamos a definição de média de um operador.


Ora, ∫
⟨F⟩ = ψ ∗ F ψ d3 r

logo (∫ )∗ ∫ ∫
∗ ∗ ∗ ∗
⟨F⟩ = ψ Fψd r 3
= ψF ψ d r= 3
ψ ∗ (Ft )∗ ψ d3 r .

Mas ( )∗
∑ ∑
⟨F∗ ⟩ = fn∗ |cn |2 = fn |cn |2 = ⟨F⟩∗ .
n n
Ou seja, ∫ ∫
∗ †
ψ F ψd r= 3
ψ ∗ (Ft )∗ ψ d3 r .

Comparando, temos F† = (Ft )∗ . Em palavras, o adjunto é o transposto do conjugado.


A condição de hermiticidade de um operador, escrita anteriormente como

Ft = F∗

pode agora ser escrita como:


F = F†
e os operadores hermitianos são aqueles que coincidem com os adjuntos. Daí serem chamados também de
operadores autoadjuntos.
Fica fácil demonstrar a ortogonalidade das autofunções de um operador hermitiano. Sejam fn e fm dois
autovalores diferentes do operador hermitiano F. Sejam ψn e ψm as autofunções correspondentes. Então,

Fψn = fn ψn (2.54)

e
Fψm = fm ψm . (2.55)
∗ , temos
Multiplicando a (2.54) por ψm
∗ ∗ ∗
ψm Fψn = ψm fn ψn = fn ψm ψn
2.8. O PERADORES 37

e ∫ ∫
∗ 3 ∗
ψm Fψn d r = fn ψm ψn d3 r . (2.56)

Tomando o complexo conjugado de (2.55) e multiplicando por ψn , temos ψn F∗ ψm


∗ = f ψ ψ ∗ . Inte-
m n m
grando, ∫ ∫
∗ ∗ 3 ∗
ψn F ψm d r = fm ψn ψm d3 r (2.57)
∫ ∫ ∫
∗ † ∗ ∗
ψm Fψn d r−3
ψn F ψm d r = (fn − fm )
3
ψn ψm d3 r . (2.58)

Mas
∫ ∫ ∫ ∫
∗ ∗ 3 ∗
( )
t ∗ 3 ∗ † 3 ∗
ψn F ψm d r= ψm F ψn d r = ψm F ψn d r= ψm Fψn d3 r .

Pois F é hermitiano. Logo, o primeiro termo de (2.58) é nulo. Portanto,




(fn − fm ) ψn ψm d3 r = 0

e, como fn ̸= fm , segue a relação de ortogonalidade



∗ 3
ψn ψm d r=0 (n ̸= m) . (2.59)

Seguem propriedades elementares a respeito dos operadores. 6

1. A soma de dois operadores hermitianos é um operador hermitiano.

2. O operador identidade I, para qual opera todas as funções nelas próprias, é hermitiano. Se λ é um
número real, λ I é hermitiano.

3. Se F é um operador não hermitiano, F + F† e i(F − F† ) são hermitianos desde que, F possa ser escrito
como a combinação linear dos dois operadores hermitianos:

F + F† F − F†
F= +i . (2.60)
2 2

4. Se F e G são dois operadores arbitrários, o adjunto de seu produto é dado por

(FG)† = G† F† . (2.61)

Prova.
∫ ∫ ∫ ∫
∗ † ∗ ∗ †
ψ (FG) ψ d r = 3
(FGψ) ψ d r = 3
(Gψ) F ψ d r = 3
ψ ∗ G† F† ψ d3 r .

Mas ψ é arbitrária, desde que segue (2.61). Se F e G são operadores hermitianos,

(FG)† = GF .
6
Dois livros fazem a ponte entre a análise funcional e a teoria de operadores lineares: T. F. Jordan, Linear operators for quantum
mechanics, (1969), e J. M. Jauch, Foundations of quantum mechanics, (1968); ver também o magnífico livro de Landau e
Lifshitz, Quantum mechanics, (1989)
38 C AP. 2 A E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER E Á LGEBRA DOS O PERADORES

Consequência O produto de dois operadores hermitianos é hermitiano se e somente se eles comutam.

5. O adjunto de um número complexo λ é seu complexo conjugado λ∗ .

6. É fácil verificar a natureza dos seguintes operadores hermitianos: operador de posição ⃗r, operador mo-
mentum ⃗p = − i ~∇, ⃗ operador energia H = ⃗p2 + V (⃗r), operador momentum angular ⃗L = ⃗r × ⃗p =

⃗r × ~ ∇.
i

2.9 Adição e Multiplicação de Operadores


Sejam F e G duas quantidades físicas que podem ter valores definidos simultaneamente. Sejam F e G seus
operadores associados. Os autovalores da soma F + G são a soma dos autovalores de F e de G. Considere
o operador F + G, e sejam ψn as autofunções comuns a F e G. Então,

Fψn = fn ψn Gψn = gn ψn portanto (F + G)ψn = (fn + gn )ψn .

Esse resultado pode ser generalizado para funções de onda quaisquer, assim:

(F + G)ψ = Fψ + Gψ .

Neste caso, tem-se


∫ ∫ ∫
∗ ∗
⟨F + G⟩ = 3
ψ (F + G)ψ d r = ψ Fψ d r +3
ψ ∗ Gψ d3 r = ⟨F⟩ + ⟨G⟩ .

A multiplicação de operadores é definida assim:

(FG)ψ = F(Gψ) .

Suponhamos que ψn seja autofunção comum a F e G. Então,

FGψn = F(Gψn ) = Fgn ψn = gn Fψn = gn fn ψn

e
GFψn = G(Fψn ) = Gfn ψn = fn Gψn = fn gn ψn .
Logo, para as autofunções simultâneas, temos

(FG − GF)ψn = 0 .

Porém esse fato não é suficiente para se concluir que o operador

FG − GF = 0 .

Contudo, como o conjunto das autofunções ψn é completo, temos, dada uma função de onda arbitrária, que

ψ= cn ψn
n

e ∑
(FG − GF)ψ = cn (FG − GF)ψn = 0 .
n
Logo, o operador FG − GF é zero como operador, pois leva qualquer função ao valor zero. Nota-se que
esse fato foi demonstrado para dois operadores que possuem um conjunto completo de autofunções comuns.
No caso geral, este comutador,
[F, G] ≡ FG − GF
é diferente de zero.
2.10. A D ERIVADA T EMPORAL DE UM O PERADOR 39

2.10 A Derivada Temporal de um Operador


Podemos dizer que um operador dF dt é a derivada no tempo do operador F se, sendo ⟨F⟩ o valor médio de
F num estado arbitrário, e ⟨ dt ⟩ o valor médio de dF
dF
dt nesse mesmo estado, tivermos

d dF
⟨F⟩ = ⟨ ⟩ . (2.62)
dt dt
Explicitando, devemos ter
∫ ∫ ∫ ∫
d d ∗ ∗ ∂F ∂ψ ∗ ∂ψ 3
⟨F⟩ = 3
ψ Fψ d r = ψ 3
ψd r+ Fψ d r + ψ ∗ F
3
d r (2.63)
dt dt ∂t ∂t ∂t
e usando a equação de Schrödinger,
∂ψ ∗ i ∂ψ i
= H∗ ψ ∗ , = − Hψ .
∂t ~ ∂t ~
Substituindo esses resultados em (2.63), temos 7
∫ ∫ ∫
d ∂F i i
⟨F⟩ = ψ ∗ ψ d3 r + (H∗ ψ ∗ )Fψ d3 r − ψ ∗ F(Hψ) d3 r (2.64)
dt ∂t ~ ~
usando o fato de H ser hermitiano, temos
∫ ∫
(H ψ )Fψ d r = ψ ∗ HFψ d3 r
∗ ∗ 3
(2.65)

e, consequentemente, ∫ ( )
d ∗ ∂F i i
⟨F⟩ = ψ + HF − FH ψ d3 r . (2.66)
dt ∂t ~ ~
Como, por definição, ∫
d dF
⟨F⟩ = ψ∗ ⟨ ⟩ψ d3 r
dt dt
temos que:
dF ∂F i
= + (HF − FH) . (2.67)
dt ∂t ~
∂F
A maioria dos casos são aqueles em que ∂t = 0, onde o operador não tem dependência explícita no tempo.
Nesse caso,
dF i
= (HF − FH) . (2.68)
dt ~
As Eqs. (2.67) e (2.68) são as equações de movimento de Heisenberg para os casos em que F é explicita-
mente dependente do tempo e não explicitamente dependente do tempo, respectivamente.
Se F for uma constante de movimento, dFdt = 0. Assim, [H, F] = 0. Na mecânica quântica, a constância
de uma quantidade física no tempo quer dizer isto: que o valor médio dessa quantidade independe do tempo.
Considere o operador H, temos, evidentemente, que [H, H] = 0. Logo, se H não depende explicitamente
do tempo,
dH i
= [H, H] = 0 , (2.69)
dt ~
7
O termo que contém a derivada parcial do operador só existe quando a expressão do operador contém parâmetros que dependam
do tempo. Por exemplo, se tivermos uma partícula livre de massa variável, seu hamiltoniano será

~2
H=− ∇2
2µ(t)
e sua derivada será
∂H ~2 dµ 2
= ∇
∂t 2µ2 (t) dt
Mas, na grande maioria dos casos estudados esse termo é inexistente.
40 C AP. 2 A E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER E Á LGEBRA DOS O PERADORES

d
e dt ⟨H⟩ = 0. A quantidade física associada ao operador hamiltoniano é a energia. Logo, a energia se
conserva. 8

2.11 Teorema de Ehrenfest


Paul Ehrenfest mostrou que os valores médios da posição⃗r e do momentum ⃗p de uma partícula de massa µ,
em um campo conservativo V (⃗r), obedecem a expressões análogas às equações de movimento da mecânica
clássica de Isaac Newton. 9
Por exemplo, partindo da expressão para o valor médio da posição ⟨⃗r⟩, derivando em relação ao tempo
temos:
∫ ∫ ( ) ∫ ( ∗)
d ∂ρ 3 ∗ ∂ψ ∂ψ
⟨⃗r⟩ = ⃗r d r = ⃗r ψ 3
d r + ⃗r ψ d3 r
dt ∂t ∂t ∂t
∫ ∫ [ ( )]
i~ [ ∗ 2 2 ∗
] 3 i~
= ⃗r ψ ∇ ψ − (∇ ψ )ψ d r = − ⃗r ∇ ⃗ ∗ − ψ ∗ ∇ψ
⃗ · ψ ∇ψ ⃗ d3 r
2µ 2µ
∫ ( )
= − ⃗r ∇ ⃗ · ⃗J d3 r . (2.70)

Uma vez que os termos que envolvem componentes distintas de⃗r e ⃗J são nulas, a taxa de variação do valor
médio de⃗r é dada por
∫ ∞ ∫ ∞
∂Jx
x dx = Jx dx
−∞ ∂x −∞

ou seja

d
⟨⃗r⟩ = ⃗J d3 r .
dt
( )
i~ ⃗ ∗ − ψ ∗ ∇ψ
Usando ⃗J = 2µ ψ ∇ψ ⃗ e integrando por partes, obtemos finalmente

∫ ( )
d
µ ⟨⃗r⟩ = ψ ∗ − i ~∇
⃗ ψ d3 r = ⟨⃗p⟩ . (2.71)
dt

Agora faremos a derivada da expressão do valor médio do momentum em relação ao tempo,


[∫ ( ) ∫ ( ∗)( ) ]
d ∗⃗ ∂ψ ∂ψ
⟨⃗p⟩ = − i ~ ψ ∇ 3
d r+ ∇ψ
⃗ 3
d r
dt ∂t ∂t
∫ [ ∫ [
~2 ∗⃗
( 2 ) ( 2 ∗) ( )] ( )]
= ψ ∇ ∇ ψ − ∇ ψ ∇ψ
⃗ 3
d r+ −ψ ∗ ∇
⃗ (V ψ) + V ψ ∗ ∇ψ
⃗ d3 r . (2.72)


8
Como |ψ|2 d3 r = 1, é a integral estendida a todo o espaço, temos que
∫ ∫ ∫ ( ∗ )
d d ∂ψ ∂ψ
0= |ψ|2 d3 r = ψ ∗ ψ; d3 r = ψ + ψ∗ d3 r .
dt dt ∂t ∂t
Eliminando as derivadas no tempo através da equação de Schrödinger , temos:
(∫ ∫ )
i
0= ψH∗ ψ ∗ d3 r − ψ ∗ Hψ d3 r
~
(∫ ∫ ) ∫ ( )
i ∗ t ∗ ∗ i
= ψ (H ) ψ d r − ψ Hψ d r =
3 3
ψ ∗ H † − H ψ d3 r .
~ ~

Segue então que H = H† , ou seja, que H é um operador hermitiano.


9
P. Ehrenfest, Zeitschrift für Physik 45, 455–457 (1927).
2.12. T EOREMA V IRIAL 41

Usando o teorema de Green 10 na primeira integral, temos:


∫ [ ∫ [(
∗⃗
( 2 ) ( 2 ∗) ( )] )( ) ( )]
ψ ∇ ∇ ψ − ∇ ψ ∇ψ
⃗ 3
d r= ∇ψ
⃗ ⃗ ∗ − ψ∗∇
∇ψ ⃗ ∇ψ⃗ · d⃗S
S
que para uma grande superfície, a integral é nula. Para resolver a segunda integral, temos que integrar por
partes duas vezes no termo ψ ∗ , logo
∫ ( )
d
⟨⃗p⟩ = − ψ ∗ ∇V ⃗ ψ d3 r = −⟨∇V⃗ ⟩ = ⟨⃗F⟩ . (2.73)
dt
A Eq. (2.73), conhecida como teorema de Ehrenfest, é semelhante à segunda lei de Newton, de acordo com
o valor esperado e o princípio de correspondência.
Para um caso geral, a fórmula da derivada temporal do valor esperado de uma quantidade física qualquer
associada a um operador F, tal que a equação de onda está na forma
∂ψ ~2 2
i~ = Hψ com H=− ∇ + V (⃗r)
∂t 2µ
será
d ∂F
i~
⟨F⟩ = ⟨FH − HF⟩ + i ~⟨ ⟩. (2.74)
dt ∂t
Esta fórmula é de muita importância para mecânica quântica, e já discutimos anteriormente seu significado.

2.12 Teorema Virial


Vamos considerar um simples exemplo para nossa ilustração. Considere a equação de movimento do ope-
rador⃗r ·⃗p. De acordo com (2.74),
d
i ~ ⟨⃗r ·⃗p⟩ = ⟨[⃗r ·⃗p, H]⟩ ,
dt
usando a relação dada em (1.23) para a componente x, x px − px x = i ~, temos
p2x
[xpx , H] = i ~ + x[px , V ]
µ
e relações similares encontramos para as componentes y e z. Combinando os resultados, temos
∫ [ ] ∫ ( )
d p2 p2
⟨⃗r ·⃗p⟩ = ⟨ ⟩ + ψ ⃗r · ∇(V ψ) − V (∇ψ) d r = ⟨ ⟩ + ψ ∗ ⃗r · ∇V
∗ ⃗ ⃗ 3 ⃗ ψ d3 r . (2.75)
dt µ µ
Como na mecânica clássica, 11 podemos obter de (2.75) o valor médio em todo tempo τ
1
[⟨⃗r ·⃗p⟩t=τ − ⟨⃗r ·⃗p⟩t=0 ] = 2⟨T ⟩ − ⟨⃗r · ∇V
⃗ ⟩ = 2⟨T ⟩ + ⟨⃗r · ⃗F⟩ .
τ
Se o valor esperado dessa expressão é finito quando τ → ∞, o lado que contém 2⟨T ⟩ − ⟨⃗r · ∇V
⃗ ⟩ → 0,
assim
2⟨T ⟩ = ⟨⃗r · ∇V
⃗ ⟩ = −⟨⃗r · ⃗F⟩ . (2.76)
Para os estados estacionários, todos os valores esperados em (2.76) são constantes no tempo, e então
2⟨T ⟩ = ⟨⃗r · ∇V
⃗ ⟩ = −⟨⃗r · ⃗F⟩ . (2.77)
Os resultados encontrados em (2.76) e (2.77) são conhecidos como o teorema virial. Uma aplicação impor-
tante é quando temos moléculas de gás interagindo fracamente.
10
George Green (1793–1841), matemático inglês.
O teorema de Green para as funções continuas e diferenciáveis, ϕ e ψ, é dado por:
∫ I [ ]
(ϕ∇2 ψ − ψ∇2 ϕ) d3 r = ϕ∇ψ⃗ − ψ ∇ϕ⃗ · d⃗S
V S

onde a superfície S envolve todo o volume V.


11
Ver o livro de Goldstein, Classical mechanics, (1980), seções 3–4.
42 C AP. 2 A E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER E Á LGEBRA DOS O PERADORES

2.13 Comutadores e Regras de Comutação


Vamos considerar algumas propriedades dos operadores lineares:

1. Sendo A e B dois operadores lineares, temos que (A + B)ψ = (B + A)ψ, o que significa que esses
operadores são comutativos em relação a soma;

2. O produto de dois operadores lineares, em geral, não é comutativo, i.e., AB ̸= BA;

3. A diferença do produto de dois operadores lineares quânticos, escrita na forma AB − BA é chamada


de comutador de A e B e é representada por

[A, B] = AB − BA ; (2.78)

4. A soma do produto de dois operadores lineares A e B, escrito na ordem AB + BA é chamada de


anticomutador ou operador de anticomutação desses operadores e é representado por

{A, B} = AB + BA . (2.79)

Um exemplo de duas variáveis dinâmicas que não se comutam é x e px = − i ~ ∂x ∂


, atuando em uma
função de onda arbitrária ψ(x)
( ) ( )
~ ∂ ~ ∂ ∂ψ (x) ∂(xψ (x))
[x, px ]ψ (x) = x − x ψ (x) = − i ~ x −
i ∂x i ∂x ∂x ∂x
( )
∂ψ (x) ∂ψ (x)
= −i~ x − ψ (x) − x = i ~ ψ (x) ,
∂x ∂x

logo,
[x, px ] = i ~ . (2.80)
O mesmo vale para as componentes y e z. Assim,

[x, px ] = [y, py ] = [z, pz ] = i ~ . (2.81)

Na notação dos comutadores, para qualquer variável dinâmica, é fácil verificar as seguintes regras ele-
mentares:

[A, B] + [B, A] = 0
[A, A] = 0
[A, B + C] = [A, B] + [A, C]
[A + B, C] = [A, C] + [B, C] (2.82)
[AB, C] = A[B, C] + [A, C]B
[A, BC] = [A, B]C + B[A, C]
[A, [B, C]] + [C, [A, B]] + [B, [C, A]] = 0 .

Sendo a última relação conhecida como identidade de Jacobi. 12 Ainda podemos provar que, para um inteiro
positivo n,

[A, B n ] = nB n−1 [A, B]


[An , B] = nAn−1 [A, B] . (2.83)
12
Assumimos que a identidade de Jacobi em mecânica quântica é bem mais fácil de provar do que seu análogo clássico; para uma
revisão dos parênteses de Poisson, ver Goldstein, Classical mechanics, (1980).
2.13. C OMUTADORES E R EGRAS DE C OMUTAÇÃO 43

Uma relação de uso frequente, com importante relevância na mecânica quântica, pois envolve funções
eA , é dada pela função:
F(λ) = eλA Be−λA (2.84)
onde λ é um número real. Faremos uma expansão em série de Taylor 13 , observando que
dF
= AF(λ) − F(λ)A = [A, F(λ)]
dλ [ ]
d2 F dF
= A, = [A, [A, F(λ)]]
dλ2 dλ
e então, desde que F(0) = B, nós teremos a relação
λ2 λ3
eλA Be−λA = B + λ[A, B] + [A, [A, B]] + [A, [A, [A, B]]] + . . . (2.85)
2! 3!
e quando λ = 1, temos a série de Lie 14 :
1 1
eA Be−A = B + [A, B] + [A, [A, B]] + [A, [A, [A, B]]] + . . .
2! 3!
Se as variáveis dinâmicas A e B satisfazem a condição [A, B] = γB, onde γ é um número, a equação
acima reduz à
eA Be−A = eγ B . (2.86)
Um caso particular da Eq. (2.85), nos leva a uma simples relação eA eB = eA+B , mas em geral não é
valida para operadores. Em seu lugar, normalmente usamos a fórmula de Baker-Campbell-Hausdorff 15 .
1 1 1
eA eB = eA+B+ 2 [A,B]+ 12 [A,[A,B]]+ 12 [B,[B,A]]+...
A série dentro da exponencial no lado direito da equação acima é um tanto complexa, mas envolve apenas
comutadores múltiplos de A e B.
Temos outras relações importantes que são usadas na mecânica quântica, como:
1
eA eB = eA+B+ 2 [A,B] . (2.87)
Prova. Consideremos o operador G(α) = eαA eαB , sendo α real. Derivando G(α) em relação a α, temos
d [ ]
G(α) = AeαA eαB + eαA BeαB = AeαA eαB + eαA Be−αA eαA eαB = A + eαA Be−αA G(α) .

Usando (2.85), podemos reescrever a equação acima do seguinte modo:
d
G(α) = [A + B + α[A, B]]G(α) ,

o que nos permite escrever:
dG(α)
= [A + B + α[A, B]] dα .
G(α)
Integrando essa expressão, obtemos
1 2 [A,B]
G(α) = eαA eαB = G(0) eα(A+B)+ 2 α . (2.88)
Nessa equação, podemos observar que para α = 0, temos G(0) = 1 e, portanto, fazendo α = 1, demons-
tramos a relação (2.87).
13
Brook Taylor (1685–1731), matemático inglês.
14
Marius Sophus Lie (1842–1899), matemático norueguês.
15
Henry Frederick Baker (1866–1956), matemático inglês.
John Edward Campbell (1862–1924), matemático inglês.
Felix Hausdorff (1868–1942), matemático alemão.
H. Baker, Proceeding London Math. Sociaty (1) 34, 347–360 (1902); Idem, (1) 35, 333–374 (1903); Idem, (Ser. 2) 3, 24–47
(1905); J. Campbell, Proceeding London Math. Sociaty 28, 381–390 (1897); Idem, 29, 14–32 (1898); F. Hausdorff, Ber Verh
Saechs Akad. Wiss Leipzig 58, 19–48 (1906).
44 C AP. 2 A E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER E Á LGEBRA DOS O PERADORES

2.14 Operadores Unitários – Operador Deslocamento


As quantidades observáveis (resultados de medidas) aparecem, na mecânica quântica, sob a forma de norma
de todos os estados, ∫
ψ ∗ (⃗r) ψ (⃗r) d3 r ,

e o valor esperado de uma observável O é dado por,



⟨O⟩ = ψ ∗ (⃗r) O ψ (⃗r) d3 r .

Como toda teoria, a mecânica quântica admite transformações “de linguagem”: por exemplo, quando eu
descrevo o mesmo fenômeno usando dois sistemas de eixos ortogonais, obtenho descrições distintas do
mesmo fenômeno. Essas descrições devem ser equivalentes, já que representam o mesmo fenômeno de
pontos de vista distintos: as descrições são diferentes, mas têm o mesmo conteúdo.
Como as quantidades físicas preservam o produto escalar (produto interno ou escalar hermitiano) de
dois estados, é importante o estudo dos operadores que conservam os produtos escalares, ou seja, dos ope-
radores U que são tais que
∫ ∫
ψ1 (⃗r) ψ2 (⃗r) d r = [Uψ1 (⃗r)]∗ Uψ2 (⃗r) d3 r .
∗ 3
(2.89)

Pela definição do operador adjunto U† , escrevemos (2.89) como


∫ ∫
ψ1 (⃗r)U Uψ2 (⃗r) d r = [U† Uψ1 (⃗r)]∗ ψ2 (⃗r) d3 r .
∗ † 3

Assim, um operador linear é dito operador unitário, se satisfaz a relação

UU† = U† U = I , (2.90)

onde I é o operador identidade.


Seja U um operador unitário e considere as transformações de funções de onda:

ψ ′ (⃗r) = Uψ (⃗r) e ϕ′ (⃗r) = Uϕ(⃗r) .

Então, ∫ ∫ ∫ ∫
′∗ ′ ∗ ∗ †
ψ ϕ d r= 3
[Uψ] Uϕ d r = 3
ψ U Uϕ d r = 3
ψ ∗ ϕ d3 r

mostrando que uma transformação implementada por um operador unitário conserva os produtos escalares.
Como exemplo de operadores unitários vamos considerar o operador deslocamento ou de translação,
definido por Da ψ (x) = ψ (x + a) no caso de um deslocamento na direção x, onde a é um número real.
Então, podemos escrever
ψ ′ (x) = Da ψ (x) = ψ (x + a) .
Se a for apenas um deslocamento infinitesimal, podemos expandir a função ψ em série de Taylor, em torno
do ponto (x, y, z), do seguinte modo:

ψ ′ (x) ∼
= ψ (x) + a ψ (x) = (1 + i aTx ) ψ (x) , (2.91)
∂x
em que Tx = − i ∂x ∂
. Dessa forma, podemos observar que a diferença entre ψ ′ (x) e ψ (x) é originada pela
ação do operador i aTx sobre a função de onda ψ (x). Chamamos Tx de gerador infinitesimal de translação
so longo da direção x. A relação expressa em (2.91) não é restrita somente à mecânica quântica. Porém,
no seu contexto, Tx tem um significado especial em mecânica quântica, pelo simples fato do momentum
px = − i ~ ∂x

. Diante deste fato, o gerador infinitesimal de translação pode ser representado por
∂ px
Tx = − i = . (2.92)
∂x ~
2.14. O PERADORES U NITÁRIOS – O PERADOR D ESLOCAMENTO 45

Então o operador deslocamento Da = 1 + i aTx , mas como D†a Da = I é unitário, segue que Tx = Tx† é um
operador hermitiano.
( )finita a, podemos ver como n translações infinitesimais, em
Se temos uma translação numa distância
que devemos considerar o limite limn→∞ na , atuam. Então, podemos escrever (2.91) como
( a px )n apx
ψ ′ (x) = lim 1+i ψ (x) = ei ~ ψ (x) . (2.93)
n→∞ n ~
Generalizando para as três dimensões, temos
⃗·
p ⃗r
ψ ′ (⃗r) = ei ~ ψ (⃗r) . (2.94)

Logo, nesse caso o operador deslocamento unitário é definido por



p ⃗r·
D⃗r = ei ~ . (2.95)

e fica claro que D†a Da = I, como havíamos dito.

Problemas

2.1 a) Mostre que os operadores correspondentes para energia e momentum são: E = i ~ e ⃗p = − i ~∇.

∂t
b) Mostre que o operador correspondente para o momentum ⃗p é hermitiano.
[ ]
(x−x0 )2
2.2 Considere o pacote de onda dado pela gaussiana ψ (x) = exp ~ p0 x − 2a2 . Mostre que a sua
i

( 1 )1 ∫ i px
transformada de Fourier ϕ(p) = 2π~ 2
ψ (x) e− ~ dx pode ser expressa por
[ ]
a i 1 a2
ϕ(p) = √ exp x0 (p0 − p) − (p − p0 ) .
2
~ ~ 2 ~2

2.3 Mostre que a solução geral da equação de Schrödinger é dada por


∫ [∑ ]
i E(t−t0 )
ψ (⃗r, t) = φE (⃗r′ ) φE (⃗r) e− ~ ψ (⃗r′ , t0 ) d3 r .
E
Sugestão: Consulte o livro do Prof. L. I. Schiff [77].

2.4 Mostre que a densidade de corrente de probabilidade ⃗J(⃗r) pode ser expressa por ⃗J(⃗r) = − µ~ ℑ[Ψ∇Ψ
⃗ ∗]
ou ainda ⃗J(⃗r) = ~ ℜ[Ψ∗ (− i)∇Ψ].
µ

[ ] 2
px px −i p t
2.5 Considere a função de onda ψ (x, t) = A ei ~ + B e− i ~ e 2µ~ . Encontre a corrente de probabili-
dade correspondente para essa função de onda.

2.6 Mostre que, normalizando a função ψ (x) = e−α|x| sen βx ela adquire a forma
[ ]1
2α(α2 + β 2 ) 2 −α|x|
ψ (x) = e sen βx
β2
Observe que ψ (x) = eαx sen βx, para x < 0 e ψ (x) = e−αx sen βx, para x > 0.

2.7 Mostre que, se considerarmos o potencial escrito na forma V = V0 + i α em que V0 e α são quanti-
dades reais e positivas, a equação de Schrödinger passa a descrever a presença de fontes ou sumidouros
de probabilidades.

2.8 Utilizando a∫expressão(⟨pnx ⟩ = ) ϕ∗ (⃗p, t) pnx ϕ(⃗p, t) d3 p em que n é um número positivo inteiro, mostre
∂ n
que ⟨pnx ⟩ = ψ ∗ (⃗r, t) − i ~ ∂x ψ (⃗r, t) d3 r .
46 C AP. 2 A E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER E Á LGEBRA DOS O PERADORES

x2
2.9 A função de onda normalizada de uma partícula em linha reta, é dada por φ(x) = √ 1√ e− 2σ2 ei
px
~ .
σ π
a) Onde é o lugar mais provável da partícula? b) Qual o momentum linear médio da partícula?
µωx2
2.10 O estado de um oscilador de frequência angular ω é representado por φ(x) = e− ~ . Quais são as
expectativas do momentum e da posição?
( π )− 1 x2 √
2.11 Dada a função de onda φ(x) = α
4
e−α 2 . Calcule: a) ⟨xn ⟩. b)
⟨x2 ⟩ − ⟨x⟩2 ≡ ∆x.

2.12 Use a função de onda dada no problema anterior e calcule: a) ⟨pn ⟩. b) ⟨p2 ⟩ − ⟨p⟩2 = ∆p. Calcule
também ∆x ∆p usando o resultado acima e o resultado do ítem b) do problema anterior.

2.13 Mostre que a soma e o produto de dois operadores lineares também são operadores lineares.

2.14 Demonstre a ortogonalidade das autofunções de um operador hermitiano.



2.15 O operador eA tem sentido se puder ser expandido como uma série, da forma eA = ∞ 1 n
n=0 n! A .
a) Mostre que se φa é um autoestado de A com autovalor a, então φa é também um autoestado de eA .
b) Determine o autovalor do operador eA .

relação de operadores e ~ pa x e− ~ pa = x + a, onde o operador eA está definido


i i
2.16 Mostre que é valida a∑
através da série e = ∞
A 1 n
n=0 n! A .

2.17 a) Mostre explicitamente que [x, px ] = i ~. b) Determine [xn , px ]. c) Determine [x, pnx ]. d) Determine
[An , Am ].

2.18 Considere que eA eB e eB eA são operadores construídos a partir dos operadores A e B. Que
condição deve ser obedecida para que possamos escrever eA eB = eA+B ?
( )†
2.19 Mostre explicitamente que: a) A† = A. b) O valor esperado de um operador hermitiano é pura-
mente real. c) O valor esperado de um operador anti-hermitiano, definido por A = −(A† ) é puramente
imaginário.

2.20 Considere a função de onda ψ (θ) da variável angular θ, limitada ao intervalo −π < θ < π. Se a função
de onda satisfaz à condição ψ (π) = ±ψ (−π), mostre que o operador L = − i ~ dθ d
é hermitiano.

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomenda-se ao leitor, uma leitura paralela dos clássicos livros:

– E. Merzbacher [61];
– L. D. Landau and E. M. Lifshitz [52].

Nesses livros podemos encontrar um trabalho muito bom sobre a equação de Schrödinger e a interpreta-
ção probabilística. Com relação ao estudo dos operadores usando mecânica quântica ondulatória, temos o
elegante trabalho apresentado no magnífico livro do Landau.
Capítulo 3
Aplicações da Equação de Schrödinger

Do mesmo modo que os processos abordados pela mecânica clássica são calculados através de modelos que
permitem a determinação de suas soluções, em mecânica quântica ocorre o mesmo. Assim, neste capítulo
faremos um estudo das soluções de modelos abordados pela mecânica quântica ondulatória, i.e., pelas apli-
cações da equações de Schrödinger. Iremos mostrar modelos matematicamente simples, usando potenciais
constantes em uma dimensão.

3.1 A Função Delta


Normalmente a normalização da função ψ é realizada em todo o espaço, mas os modelos utilizados em
mecânica quântica podem apresentar degraus, como a barreira de potencial ou mesmo o poço de potencial
retangular, além disto, não podemos esquecer que a função ψ é contínua e bem comportada. Assim, uma
ferramenta conveniente em nossa discussão é a função delta de Dirac, ou simplesmente função delta.
A função delta é uma generalização do delta de Kronecker para o caso de variáveis contínuas. O delta
de Kronecker é dado por {
1 se i = j,
δij =
0 se i ̸= j.
Alternativamente podemos definir


f (j) = δij f (i) (3.1)
i=1
onde i e j tomam valores discretos 1, 2, 3, . . .
Generalizando (3.1), temos a definição da função delta, dada pela equação
∫ +∞

f (x ) = δ(x, x′ ) f (x) dx (3.2)
−∞

onde f (x) é uma função arbitrária bem estudada. Desde que f (x) possa ser alterada sem afetar o valor
de f (x′ ), fica claro que δ(x, x′ ) = 0 para todos os valores de x, exceto quando x = x′ , i.e., estão muito
próximos. Pela definição (3.2), δ(x, x′ ) e δ(x + a, x′ + a) são equivalentes, onde a é arbitrário. Se ajustamos
a = −x′ , δ(x, x′ ) depende somente de x − x′ . Assim escrevemos
{
′ ′ 1 se x = x′ ,
δ(x, x ) = δ(x − x ) = (3.3)
0 se x ̸= x′ ;
e ∫ {
+∞
′ f (x′ ) se x = x′ ,
δ(x − x ) f (x) dx = (3.4)
−∞ 0 ̸ x′ .
se x =
Em particular, se x′ = 0, teremos ∫ +∞
f (0) = δ(x′ ) f (x′ ) dx′ (3.5)
−∞

47
48 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

e se δ(x) for uma função par,


δ(x − x′ ) = δ(x′ − x) . (3.6)
Nesse momento, faz sentido compararmos a integral de Fourier
∫ +∞ ∫ +∞
′ 1 ′
f (x ) = du ei u(x−x ) f (x) dx
2π −∞ −∞

com (3.4) para vermos a equivalência da função delta


∫ +∞
′ 1 ′
δ(x − x ) = ei u(x−x ) du . (3.7)
2π −∞

Fisicamente, (3.7) será interpretada como a superposição de funções de onda com amplitudes e fases iguais
de um oscilador harmônico de todas as frequências. A contribuição da integral de Fourier cancelam com-
pletamente, por interferência destrutiva, argumentos que se anulam, i.e., x = x′ .
Se a condição (3.5) for aplicada para uma função simples definida como f (x) = 1 para x1 < x < x2 , e
f (x) = 0 para qualquer x fora do intervalo [x1 , x2 ], a função delta satisfaz
∫ +∞ {
0 se x = 0 e x ̸∈ [x1 , x2 ],
δ(x) dx = (3.8)
−∞ 1 se x1 < 0 < x2 .

Portanto apresentamos a função delta de Dirac, que será de grande utilidade nestas notas. Vale lembrar
que em uma dimensão, a função delta, escrita como δ(x − x′ ), é uma função matematicamente imprópria
na qual valem as seguintes propriedades e representações, além das já apresentadas:

1. O limite da função delta, (3.7), pode ser representadas por


1 1 x2
δ(x) = √ lim √ e− ε
π ε→0 ε

1 ε
δ(x) = lim 2
π ε→0 x + ε2

1 sen N x
δ(x) = lim .
π N →∞ x

2. Se a é uma constante real, mas a ̸= 0, então


1
δ(ax)= δ(x)
|a|
e
f (x)δ(x − a)=f (a)δ(x − a).

3. Se a ̸= b
1
δ ((x − a)(x − b)) = [δ(x − a) + δ(x − b)].
|a − b|

4. Se A ⊂ R então ∫ {
′ −f ′ (a) se a ∈ A
δ (x − a) f (x) dx =
A 0 se a ∈
̸ A
onde f ′ (a) e a derivada da função f (x) com x = a, e

d
xδ ′ (x) = −δ(x), δ ′ (x) = δ(x).
dx
3.2. A NALOGIA ENTRE A Q UÂNTICA E A Ó PTICA 49

5. Seja f (x) uma função que tem raízes simples em x=xi , i=1, . . . , N , então

N
1
δ(f (x)) = δ(x − xi ).
|f ′ (x i )|
i=1

6. Em três dimensões e em coordenadas cartesianas temos


δ(⃗r − ⃗a) = δ(x1 − a1 ) δ(x2 − a2 ) δ(x3 − a3 ).

Introduzimos aqui uma fórmula importante obtida da identidade


1 ω ∓ iε ω iε
= 2 = 2 ∓ 2 . (3.9)
ω ± iε ω +ε 2 ω +ε 2 ω + ε2
O segundo termo nos leva a função delta, segunda equação do item 1 acima, e o primeiro termo do lado
direito tende a ω1 quando ε → 0, exceto se ω = 0. Se f (ω) é uma função bem conhecida, temos
∫ +∞
ω
lim f (ω) 2 dω
ε→0 −∞ ω + ε2
∫ −ε ∫ +∞ ∫ +ε
dω dω ωdω
= lim f (ω) + lim f (ω) + lim f (ω) 2
ε→0 −∞ ω ε→0 +ε ω ε→0 −ε ω + ε2
∫ +∞ ∫ +ε
dω ωdω
=P f (ω) + f (0) lim f (ω) 2
−∞ ω ε→0 −ε ω + ε2
onde P denota o valor principal de Cauchy 1 , e última integral é nula. Se temos uma função bem conhecida
de ω, do limite de (3.9) temos
1 1
lim = P ∓ i πδ(ω) . (3.10)
ε→0 ω ± i ε ω
Em adição a função delta, é conveniente introduzir a função degrau de Heaviside 2 definida por 3
∫ x {
0 se x < 0,
η(x) = δ(x′ ) dx′ = (3.11)
−∞ 1 se x > 0.
Para ε > 0 temos ∫ +∞
1
= e−(i ω+ε)x η(x) dx (3.12)
iω + ε −∞
e ∫ +∞
1 1 ei ωx
η(x) = + P dω . (3.13)
2 2π i −∞ ω

3.2 Analogia entre a Quântica e a Óptica


As equações de Maxwell 4 para os campos eletromagnéticos ⃗E, D,
⃗ ⃗B e H,
⃗ em meios materiais e isotrópicos,
na ausência de cargas, podem ser escritas como
∇ ⃗ =0
⃗ ·D (3.14a)


⃗ · ⃗B = 0 (3.14b)

⃗ × ⃗E = − 1 ∂ B
∇ (3.14c)
c ∂t


⃗ ×H⃗ = 1 ∂D , (3.14d)
c ∂t
1
Augustin Louis Cauchy (1850–1925), matemático francês.
2
Oliver Heaviside (1850–1925), engenheiro, matemático e físico inglês.
3
Para um estudo do valor principal de Cauchy e da função de Heaviside, ver o livro dos Profs. Whittaker and Watson, A course
in modern analysis, (1950).
4
James Clark Maxwell (1831–1879), físico escocês.
50 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

⃗ = ϵ⃗E, sendo ϵ a permissividade elétrica do meio; e H


onde D ⃗ = µ−1 ⃗B, sendo µ a permeabilidade
magnética. Logo, podemos escrever as equações de Maxwell como


⃗ · ⃗E = 0 (3.15a)


⃗ · ⃗B = 0 (3.15b)

⃗ × ⃗E = − 1 ∂ B
∇ (3.15c)
c ∂t

⃗ × ⃗B = µϵ ∂ E ,
∇ (3.15d)
c ∂t

onde sabemos do eletromagnetismo clássico que o índice de refração pode ser definido por n = µϵ.
Em um meio homogêneo, onde a permissividade não depende da posição

∇ ⃗ = ϵ∇
⃗ ·D ⃗ · ⃗E = 0 ⇒ ∇
⃗ · ⃗E = 0

e as equações de Maxwell serão as mesmas que descrevem a propagação de campos eletromagnéticos no


vácuo, com velocidade v = √cµϵ = c, desde que µ = ϵ = 1.
Em um meio não homogêneo, onde a permissividade varia suavemente com a posição em relação as
variações dos√campos, podemos considerar ∇ ⃗ ·D ⃗ ≃ ϵ∇ ⃗ · ⃗E = 0 ⇒ ∇ ⃗ · ⃗E = 0, teremos que o índice de
refração n = µϵ(r) dependente da posição.
Para os dois casos, a dependência espacial da equação de onda eletromagnética obedece à equação de
Helmholtz, [ ( ω )2 ]
∇ + n (r)
2 2
ψ (⃗r) = 0 , (3.16)
c
onde ψ (⃗r) representa qualquer componente dos campos, elétrico ou magnético.
De acordo com a mecânica quântica, a parte espacial da função de onda associada a uma partícula de
massa µ, em um campo conservativo V (r) é dada pela equação de Schrödinger independente do tempo,
[ ]
~2 2
− ∇ + V (r) ψ (⃗r) = Eψ (⃗r) ,

ou [ ]

∇ + 2 (E − V (r)) ψ (⃗r) = 0 .
2
(3.17)
~
Comparando as Eqs. (3.16) e (3.17), encontramos
( ω )2 2µ
n2 (r) = (E − V (r)) .
c ~2
Assim, definindo o índice de refração quântico por
c √
n(r) = 2µ [E − V (r)] . (3.18)

temos que as Eqs. (3.16) e (3.17) tornam-se formalmente idênticas.
Portanto, podemos associar um problema de mecânica quântica a um problema de óptica. Esta analogia
mostra que enquanto na mecânica clássica não podemos ter uma partícula com E < V , na mecânica
quântica é possível a partícula penetrar em uma região classicamente proibida, com índice de refração dado
por (3.18). Situação parecida ao caso clássico onde temos a penetração de ondas eletromagnéticas em um
meio altamente dissipativo.
É importante, entretanto, estar consciente que isto é meramente uma analogia. A interpretação dada
para a função de onda na mecânica quântica é fundamentalmente diferente daquela dada a função de onda
clássica na óptica, atribuída a onda eletromagnética.
3.3. P OTENCIAL D EGRAU – BARREIRA DE P OTENCIAL 51

3.3 Potencial Degrau – Barreira de Potencial


Neste caso a dependência de x do potencial se reduz a uma descontinuidade finita em um determinado
ponto, que pode ser tomado como correspondente a x = 0, conforme Fig. 3.1:
{
V0 > 0 para x ≥ 0
V (x) = V0 η(x) =
0 para x < 0 ,

onde η(x) é a função degrau de Heaviside, (3.11).

Figura 3.1 Potencial degrau de altura V0 em x = 0.

Caso 1 - E > V0 Primeiramente, procuremos analisar o caso em que a partícula de massa µ possui
energia total E > V0 . Visto o potencial ser independente do tempo, a equação de Schrödinger na região I,
i.e., x < 0, será
~2 d2
− φI (x) = EφI (x) . (3.19)
2µ dx2
Nessa região, a energia da partícula e puramente cinética, pois V (x) = 0. Assim,

d2 2µE
φI (x) = − 2 φI (x)
dx 2 ~
p2 2µE
sendo E = 2µ e p = ~k. Introduzindo a quantidade kI2 = ~2
, teremos

d2
φI (x) = −kI2 φI (x)
dx2
cuja solução geral é
φI (x) = Aei kI x + Be− i kI x (3.20)
em que A e B são constantes arbitrárias.
Para a região II, i.e., x ≥ 0, a equação de Schrödinger será

d2 2µ(E − V0 )
φII (x) = − φII (x)
dx2 ~2
2 = 2µ(E−V0 )
definindo a quantidade kII ~2
, teremos

d2
φII (x) = −kII
2
φII (x)
dx2
cuja solução geral é
φII (x) = Cei kII x + De− i kII x . (3.21)
Considerando a situação inicial de uma partícula de massa µ vindo da esquerda, −∞, para a direita, temos
D = 0, pois não há partículas vindo de +∞. A descontinuidade do potencial em x = 0 exige cuidados
52 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

d
adicionais, pois φ(x) e dx φ(x) devem ser finitas, continuas e unívocas, i.e., φ(x) é uma função bem compor-
tada. Como o potencial V (x) é finito (embora descontínuo) nesse ponto, é preciso que a segunda derivada,
da equação de Schrödinger, esteja definida e seja também finita em x = 0. Isso só será possível aplicando e
satisfazendo as condições de continuidade de φ e sua derivada em x = 0, tais que:

φI (x = 0) = φII (x = 0)
A+B =C, (3.22)

e
d d
φI (x = 0) = φII (x = 0)
dx dx
kI
i kI A − i kI B = i kII C ⇒ C = (A − B) . (3.23)
kII
Das Eqs. (3.22) e (3.23), podemos determinar a razão
B kI − kII
= , (3.24)
A kI + kII
substituindo em (3.22), temos
C 2kI
= . (3.25)
A kI + kII
A densidade de corrente de probabilidade ⃗J(⃗r, t) pode ser expressa por
[ ]
⃗J(⃗r, t) = − ~ ℑ ψ ∇ψ⃗ ∗ . (3.26)
µ
e com o uso dessa equação, podemos determinar a densidade de corrente de probabilidade para a onda
incidente, para a onda refletida e para a onda transmitida através da barreira. Para o caso em questão,
[ ]
~ d ∗
J (x) = − ℑ φ(x) φ (x) . (3.27)
µ dx
Assim, para a onda incidente, temos
~ [ ] ~k
Jinc (x) = − ℑ Aei kI x (− i kI )A∗ e− i kI x =
I
|A|2 . (3.28)
µ µ
Usando de forma similar para as ondas refletida e transmitida, temos
~kI
Jref (x) = − |B|2 , (3.29)
µ
e
~kII
Jtrs (x) = |C|2 . (3.30)
µ
Com esses resultados podemos calcular os coeficientes de reflexão e de transmissão da partícula pelo po-
tencial degrau (barreira de potencial). Esses coeficientes são definidos por:
Jref (x)
R= , (3.31)
Jinc (x)
e
Jtrs (x)
T = . (3.32)
Jinc (x)
Então, das Eqs. (3.28), (2.28) e (2.29), teremos
(kI − kII )2
R= , (3.33)
(kI + kII )2
3.3. P OTENCIAL D EGRAU – BARREIRA DE P OTENCIAL 53

e
4kI kII
T = . (3.34)
(kI + kII )2
Note que R + T = 1. Os coeficientes de reflexão e transmissão podem ainda ser escritos em termos de E e
V0 :
 √ 2
1 − 1 − VE0 E
R=1−T = √  para >1
1 + 1 − V0 V0
E
e
E
R=1−T =1 para ≤ 1,
V0
que será examinado a seguir.
Note também que a reflexão ocorre da mesma maneira quando a partícula vem de uma região com
potencial constante e “cai” numa região de potencial menor (ou nulo). O fenômeno de reflexão descrito
acima é devido basicamente à passagem abrupta da partícula de um potencial para outro. Este tipo de
reflexão já era conhecido na óptica, quando a luz passa, perpendicularmente entre dois meios com diferentes
índices de refração.

Caso 2 - 0 < E < V0 Consideremos agora o caso em que a energia total tem um valor 0 < E < V0 .
Do ponto de vista clássico não há nenhuma possibilidade da partícula ser encontrada na região II, x > 0.
Na região I, x < 0, a solução da equação de onda não é alterada, logo

φI (x) = Aei kI x + Be− i kI x . (3.35)


[ ]1
Entretanto, na região II, x ≥ 0, temos κ = 2µ
2
~ (V0 − E) . Assim, encontramos a seguinte equação
diferencial
d2
φII (x) = κ2 φII (x) (3.36)
dx2
cuja solução é
φII (x) = Ce−κx + Deκx .
Para que φII (x) seja uma função finita quando x → +∞, devemos ter D = 0, e a equação acima será

φII (x) = Ce−κx . (3.37)

Utilizando as mesmas condições de contorno do caso anterior, encontramos as razões:

A+B =C
i kI (A − B) = −κC

ou
B i kI + κ
= = ei α (α : real) (3.38a)
A i kI − κ
C 2 i kI
= = 1 + ei α . (3.38b)
A i kI − κ
Substituindo esses valores em (3.35) e (3.37), obtemos
α
( α)
φI (x) = 2Aei 2 cos kI x − para x<0 , (3.39a)
(α) 2

φII (x) = 2Ae cos
2 e−κx para x>0 . (3.39b)
2
54 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

Calculando os coeficientes de reflexão e de transmissão para esse caso, encontramos T = 0, uma vez que
[ ]
~ d ∗
Jtrs (x) = − ℑ φII (x) φII (x) = 0
µ dx

pois nesse caso, φII (x) é uma função real. O coeficiente de reflexão R será

2
Jref B
R= = = 1.
Jinc A

Um resultado que concorda com o caso clássico de uma partícula ser totalmente refletida pela barreira de
potencial.
Para x > 0, a probabilidade decresce de acordo com e−2κx . Nesta região, temos E < V0 e portanto
a energia cinética seria negativa. Classicamente esta é uma região proibida para as partículas. Do ponto de
vista quântico, pode-se encontrar a partícula nessa região, porém esta não poderá permanecer nessa região
pelo fato do coeficiente de transmissão ser nulo e do coeficiente de reflexão ser igual a unidade. A penetração
da partícula na região proibida (por intervalos de tempo muito pequenos) é possível devido o princípio da
incerteza. Durante um pequeno intervalo de tempo, a energia pode não se conservar. A profundidade da
penetração também é muito pequena e pode ser caracterizada pela distância em que a probabilidade cai
para cerca da metade de seu valor em x = 0, correspondendo a uma penetração estimada pelo princípio da
incerteza ∆x∆p > ~, isso implica que a penetração é da ordem de

1 ~
∆x ≃ =√ .
κ 2µ(V0 − E)

Como R = 1, a amplitude de onda refletida difere da amplitude de onda incidente por uma fase, que é
explicitada em (3.38a),
i kI + κ
= ei α .
i kI − κ
O fato de que a defasagem da onda refletida com relação à onda incidente ser uma função de kI (ou, equiva-
lentemente, da energia E) tem consequências físicas importantes que pode ser identificadas construindo um
pacote de onda com evolução temporal que irá mostrar um atraso ou um adiantamento do pacote refletido,
com relação ao tempo livre de trânsito de ida e de volta à origem. 5

Caso Especial - E < 0 Não há soluções fisicamente aceitáveis para esse caso, devido o fato de que a
energia total E nunca poderá ser menor que o valor mínimo absoluto de V (x).

3.4 Barreira de Potencial Retangular


Este é um dos problemas simples que podemos resolver analiticamente e cuja solução traz em evidência
fenômenos muito interessantes, com aplicações em muitos problemas físicos, como o tunelamento quântico,
também conhecido como penetração de barreira, ou efeito túnel. Vamos considerar uma partícula, vindo de
x = −∞ em direção à barreira de potencial vista na Fig. 3.2, definida por:
{
V0 > 0 para |x| ≤ a ,
V (x) = V0 η(a − |x|) =
0 para |x| > a .

5
Uma excelente discussão desse aspecto, tratando detalhadamente todos os cálculos envolvidos, podemos encontrar no magnífico
livro do Prof. Toledo Piza, Mecânica quântica, (2002).
3.4. BARREIRA DE P OTENCIAL R ETANGULAR 55

Figura 3.2 Barreira de potencial regular de altura V0 e largura 2a.

Caso 1 - E < V0 Vamos iniciar procurando seus estados estacionários. Para especificar mais o problema,
digamos que a partícula incide sobre a barreira vindo da esquerda (−∞). No regime estacionário esperamos
ter, como no caso clássico, ondas incidentes e ondas refletidas, à esquerda da barreira. Mas, tendo em
vista a principal diferença introduzida pela mecânica quântica nesse problema, pode haver ondas saindo da
barreira, no lado direito, indo para +∞. O que caracteriza o problema estacionário como advindo de uma
partícula incidente da esquerda para a direita é que, do lado direito da barreira, existem apenas partículas
afastando-se da barreira. Note que a partícula é livre para x < −a e x > a. Por essa razão, a barreira
de potencial retangular simula, de forma esquemática, o espalhamento de uma partícula livre sofrendo a
influência desse potencial.
A solução geral da equação de Schrödinger nesse caso:

 Aei kx + Be− i kx x < −a
φ(x) = Ce −κx + De κx −a ≤ x ≤ a (3.40)

F ei kx + Ge− i kx x>a
√ √
onde os números de onda são k = ~1 2µE e κ = ~1 2µ(V0 − E). As condições de contorno de φ(x) e sua
derivada em x = −a requer

Ae− i ka + Bei ka = Ceκa + De−κa (3.41a)


( ) ( )
i k Ae− i ka − Bei ka = −κ Ceκa − De−κa . (3.41b)

Essas relações lineares homogêneas entre os coeficientes A, B, C e D são convenientemente representadas


em termos de matrizes:
( − i ka ) ( ) ( κa )( )
e ei ka A e e−κa C
= (3.42)
e− i ka −ei ka B i κ κa
k e − i κ −κa
k e D
mas ( ) ( )
A C
= M(a)
B D
onde M(a) é dado por
( ) ( ) 
1+ iκ
k eκa+i ka 1− iκ
k e−κa+i ka
1 .
M(a) = (3.43)
2 ( ) ( )
1− iκ
k eκa−i ka 1+ iκ
k e−κa−i ka

Similarmente, para as condições de contorno de φ(x) e sua derivada em x = a, teremos


( ) ( )
F C
= M(−a)
G D
56 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

e combinando para obtermos a relação entre a função de onda dos dois lados da barreira
( ) ( )
F A
= M(a)M−1 (−a)
G B

onde M−1 (−a) é dado por


( ) ( ) 
1− ik
κ eκa+i ka 1+ ik
κ eκa−i ka
1 
M−1 (−a) = (3.44)
2 ( ) ( )
1+ ik
κ e−κa+i ka 1− ik
κ e−κa−i ka

e finalmente ( ) ( )
A F
=M
B G
podendo escrever M = M−1 (a)M(−a) como
( ) iη 
cosh 2κa + i2ε senh 2κa e2 i ka 2 senh 2κa
M=  (3.45)
( )
− i2η senh 2κa cosh 2κa − iε
2 senh 2κa e−2 i ka

onde as notações abreviadas usadas são ε = κk − κk e η = κk + κk .


Considerando uma onda incidente da esquerda (−∞) para a direita (+∞), a amplitude da onda incidente
é dada por A, já a amplitude da onda refletida é dada por B, o fluxo transmitido é dado por F e G = 0.
Então, de (3.45) temos:
( )

A = F · cosh 2κa + senh 2κa e2 i ka (3.46a)
2

B = −F · senh 2κa . (3.46b)
2
B
Assim, a amplitude A devida a reflexão, será
−iη −2 i ka
B 2 senh 2κa e
= (3.47)
A cosh 2κa + i2ε senh 2κa

e o coeficiente de reflexão
−iη 2
B 2
2 senh 2κa e−2 i ka
R= = iε
A cosh 2κa + 2 senh 2κa
η2
4 senh2 2κa
= ε2
(3.48)
cosh2 2κa + 4 senh2 2κa

pelo fato de ( )
2 ε2 2 ε2
cosh 2κa + senh 2κa = 1 + 1 + senh2 2κa
4 4
teremos
η2
senh2 2κa
R= (4) . (3.49)
2
1 + 1 + ε4 senh2 2κa
F
E a amplitude de transmissão A é dado por

F e−2 i ka
= (3.50)
A cosh 2κa + i2ε senh 2κa
3.4. BARREIRA DE P OTENCIAL R ETANGULAR 57

e o coeficiente de transmissão será


2
F 2
e−2 i ka
T = =
A cosh 2κa + i2ε senh 2κa
1
= ( ) . (3.51)
2
1 + 1 + ε4 senh2 2κa

Considerando o caso limite em em que a barreira é alta e larga, temos κa ≫ 1. Expandindo senh 2κa ≈
1 2κa
2e ≫ 1, encontramos
( )2
−4κa kκ
T ≈ 16e
k 2 + κ2
16(V0 − E)E − 4 √2µ(V0 −E)a
= e ~ . (3.52)
V02

Então, para esse caso de barreira de potencial, o efeito túnel é suprimido exponencialmente. Se a barreira
for alta, porém estreita, ocorre o efeito túnel. Note que o efeito de tunelamento quântico de uma partícula
através da barreira de potencial é bastante sensível a sua largura. Um exemplo é o decaimento α de núcleos
instáveis. De fato, em situações reais, as barreiras de potencial em que ocorrem esses fenômenos físicos
não são quadradas e nem retangulares, e as expressões obtidas para o coeficiente de transmissão são apenas
aproximações.
É interessante saber o que ocorre dentro da barreira de potencial −a < x < a? Nesta região encontra-
mos
( )
1 ik
C=F· 1− e(κ+i k)a (3.53a)
2 κ
( )
1 ik
D=F· 1+ e(−κ+i k)a . (3.53b)
2 κ

Considerando novamente o caso limite em em que a barreira é alta e larga, i.e. κa ≫ 1,

F ∝ e−2κa

C ∝ e−κa+i ka
D ∝ e−3κa+i ka
⇒ Ce−κx |x=a ∝ e−2κa ∝ Deκx |x=a .

Portanto, F consiste de duas partes, uma exponencialmente decrescente Ce−κx e outra exponencialmente
crescente Deκx , tal que as duas partes se encontram em x = a, conforme mostra a Fig. 3.3.

Figura 3.3 Função de onda na região −a < x < a.


58 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

Um caso interessante em que temos tunelamento é a barreira de potencial contínua, como visto na
Fig. 3.4. Então faremos uma aproximação de V (x) em pequenas barreira retangulares de largura dx, i.e.,
substituímos a largura 2a por dx. Logo,


n √
e− ~ 2µ(V (xi )−E) dx
2
T =
i=1
∑n √
= e− ~ 2µ(V (xi )−E) dx
2
i=1

∫ √
− ~2 ab 2µ(V −E) dx
Ln→∞ ⇒ e . (3.54)

Figura 3.4 Barreira de potencial contínua - gaussiana.

Aplicações Importantes Vários processos que ocorrem na natureza dependem do fenômeno de tunela-
mento, tais como:

1. Um dos mais importantes é o da fusão de dois prótons no interior do Sol, o mecanismo básico de produ-
ção de energia nesse tipo de estrela. A energia cinética decorrente da temperatura do Sol é insuficiente
para vencer a barreira de repulsão coulombiana entre dois prótons. Somente uma pequena fração dos
prótons teriam energia acima deste valor e a taxa de fusão e portanto de produção de energia, seria cerca
de 1000 vezes menor que a realizada pelo Sol. O processo de fusão de dois prótons é dominado pelo
tunelamento dessas partículas pela barreira coulombiana;

2. O diodo de efeito túnel é um dispositivo eletrônico disponível comercialmente, baseado nesse efeito
quântico. Com técnicas especiais de construção, pode-se fazer um diodo semicondutor cuja barreira de
potencial é extremamente fina, propiciando que partículas a atravessem por tunelamento. As consequên-
cias são uma inversão na curva característica corrente × tensão desses dispositivos, como mostrado na
Fig. 3.5. Numa pequena região, há uma reversão da curva e neste trecho, a derivada dV dI é negativa,
correspondendo a uma resistência negativa. Dispositivos como esse podem ser utilizado em circuitos
osciladores ou de chaveamento de altíssimas frequências;

3. O decaimento radiativo por emissão de partículas alfa, que ocorre em vários elementos pesados próximos
ao urânio também depende do tunelamento. Nesse decaimento, as partículas alfa α são emitidas com
energia cinética de cerca de 5 MeV. Como essa energia é medida longe do núcleo, onde o potencial é
nulo, podemos supor que esse é o valor da energia total da partícula alfa dentro do núcleo. Se tomarmos
uma partícula alfa com essa energia se aproximando de um núcleo, por exemplo, o de Tório (Th), a
distância de maior aproximação, quando toda a energia está na forma de energia potencial, será na
ordem de 30 fm (3, 0 × 10−14 m). Se considerarmos o raio do núcleo de Th da ordem de 10 fm, o valor
da barreira coulombiana nessa distância será:

Zze2
V (r)|r=10−14 = ≃ 30 × 106 eV .
r
3.5. P OÇO Q UADRADO U NIDIMENSIONAL 59

Figura 3.5 Curva característica de um diodo túnel.

Como para distâncias menores que o raio nuclear esta partícula alfa está ligada ao núcleo, e sabendo-se
que sua energia total é 5 MeV, para escapar, ela deve sofrer o efeito túnel com a barreira de altura máxima
de 30 MeV. Embora não seja uma barreira de altura constante como a que estudamos, o problema pode
ser resolvido de maneira análoga, substituindo-se a barreira coulombiana por uma série de barreiras de
pequena largura e alturas decrescentes. Um cálculo aproximado pode ser feito trocando-se a barreira
original por uma barreira média equivalente. Por simplicidade, vamos tomar uma barreira de altura 30
MeV e largura de 10 fm. Nesse caso, temos o produto

2µc2 V0 a(1 − VE0 )
κa = ≃ 20
~c
e podemos usar a expressão aproximada para o coeficiente de transmissão T :
T ≃ 10−28 ;

4. Um outro exemplo é o microscópio de varredura por tunelamento. O efeito túnel é o fenômeno utilizado
no microscópio de varredura por tunelamento, no qual uma ponta de prova metálica se desloca bem
próxima à superfície do material observado, de modo que as variações da corrente estabelecida entre
ambas, revelam as irregularidades da superfície do material. Mais detalhes, ver em exemplos do próximo
capítulo.

Caso 2 - E > V0 Neste caso as funções de onda nas regiões x < −a e x > a não mudam suas formas.
No entanto, na região −a < x < a, a função de onda passa a ser oscilatória, sendo representada por
φII (x) = Cei βx + De− i βx

onde β = ~1 2µ(E − V0 ). Assim, para encontrar o coeficiente de reflexão pela barreira de potencial,
faremos a substituição de κ por i β. Visto que senh (i x) = i sen x e cosh (i x) = cos x, o coeficiente de
reflexão R será:
(β 2 − k 2 )2 sen2 2βa
R= 2 2
4k β + (β 2 − k 2 )2 sen2 2βa
e o coeficiente de transmissão T será:
4k 2 β 2
T =1−R= .
4k 2 β 2 + (β 2 − k 2 )2 sen2 2βa

3.5 Poço Quadrado Unidimensional


Uma partícula de massa µ se move sob a ação de um campo de forças que confere à partícula uma energia
potencial V (x) tal que
{
−V0 para |x| ≤ a
V (x) = −V0 η(a − |x|) = V0 > 0 real ,
0 para |x| > a
60 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

como descrito na Fig. 3.6, que representam um poço quadrado unidimensional.

Figura 3.6 Poço quadrado de potencial.

Caso 1 - −V0 < E < 0 Neste caso, onde E < 0 é a energia total da partícula, temos estados ligados.
No caso clássico, a partícula não pode atingir as regiões x < −a e x > a. De fato, sua energia total é
E = 21 µv 2 + V (x), ou seja, 12 µv 2 = E − V (x). Nas regiões mencionadas temos V (x) = 0, o que daria
1 2 6
2 µv = E. Mas E < 0, o que daria uma energia cinética negativa, portanto impossível.
Na região −a < x < a não há problema, pois teríamos
1 2
µv = E + V0
2
e é possível ter energia cinética positiva mesmo com E < 0.
A equação de Schrödinger para as regiões I e III, i.e., x < −a e x > a respectivamente, é
~2 d2
− φ(x) = Eφ(x)
2µ dx2
d2 2µE 2µ|E|
φ(x) = − 2 φ(x) = φ(x)
dx 2 ~ ~2

1

fazendo κ = ~ 2µ|E| temos
d2
φ(x) = κ2 φ(x)
dx2
cuja solução geral é
φ(x) = A′ e−κx + Aeκx para x < −a , (3.55)
e
φ(x) = Ce−κx + C ′ eκx para x > a. (3.56)
Para x > a o termo em eκx
é inadequado, pois daria uma probabilidade de localização da partícula tendendo
a infinito para x → ∞. Logo, temos que tomar C ′ = 0. Assim,

φ(x) = Ce−κx para x > a. (3.57)

Por raciocínio análogo,


φ(x) = Aeκx para x < −a . (3.58)
Nas soluções acima C e A são constantes arbitrárias, a ser determinada posteriormente.
Na região II, i.e., −a < x < a e V (x) = −V0 , a equação de Schrödinger é
d2 2µ
φ(x) = (V0 − |E|) φ(x)
dx2 ~
6
O leitor poderia se surpreender com a ideia de que uma partícula possa ter energia negativa, mas essa é uma situação bastante
comum. Considere a “partícula” Terra, em seu movimento em redor da “partícula” Sol. A energia total da Terra é negativa! De
fato, precisamos realizar trabalho para levá-la ao “infinito” (livrá-la da ação do Sol) e deixá-la por lá, em repouso, i.e., com
energia total zero. Logo, fornecemos energia à Terra para levá-la a um estado de energia zero. Sua energia inicial era, portanto,
menor do que zero!
3.5. P OÇO Q UADRADO U NIDIMENSIONAL 61

fazendo q = 1
~ 2µ(V0 − |E|), a solução geral é

φ(x) = B sen qx + B ′ cos qx . (3.59)

Usando as condições de contorno para uma função bem comportada em x = a, temos

Ce−κa = B sen qa + B ′ cos qa (3.60a)


−κa ′
−κCe = qB cos qa − qB sen qa , (3.60b)

e em x = −a

Ae−κa = −B sen qa + B ′ cos qa (3.61a)


−κa ′
κAe = qB cos qa + qB sen qa . (3.61b)

Dividindo (3.60a) por (3.61a) temos:

C B sen qa + B ′ cos qa B tan qa + B ′ tB + B ′


= = = (3.62)
A −B sen qa + B ′ cos qa −B tan qa + B ′ −tB + B ′
onde t = tan qa. Dividindo (3.60b) por (3.61b) temos:

C qB cos qa − qB ′ sen qa
− = (3.63)
A qB cos qa + qB ′ sen qa
ou
C tB ′ − B
= . (3.64)
A tB ′ + B
Combinando (3.62) e (3.64), temos

C tB + B ′ tB ′ − B
= = , (3.65)
A −tB + B ′ tB ′ + B
e finalmente temos sem nenhuma dificuldade

(t2 + 1)BB ′ = 0 .

A última relação nos dá que: ou B = 0 ou B ′ = 0. Para B = 0 as funções são, na região −a < x < a,
cossenos, ou seja, são funções pares de x. Para B ′ = 0, são senos, ou seja, funções ímpares de x. Podemos
tratar os dois casos separadamente.
B ′ = 0 - funções ímpares.

 −Ceκx x < −a
φ(x) = B sen qx −a ≤ x ≤ a . (3.66)

Ce−κx x>a

Note que A = C, pois φ(a) = −φ(−a), já que a função é ímpar.


Para x = a temos as relações:

B sen qa = Ce−κa
qB cos qa = −κCeκa .

É desnecessário fazer uso das relações em x = −a, porque, sendo uma função ímpar, elas repetem as
relações em x = a. Dividindo a relação de cima pela de baixo, temos:
q
tan qa = − . (3.67)
κ
62 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

Essa equação irá determinar para que valores da energia existem estados estacionários nesse poço de po-
tencial. Equações desse tipo, que não são equações algébricas, 7 só em raros casos podem ser resolvidas
analiticamente. Esse não é, infelizmente, um desses raros casos. Recorre-se então a soluções numéricas.
Porém, para nossa sorte, neste particular caso, é possível usar um método gráfico que ilustra muito bem as
características gerais da solução.
Introduzindo as variáveis ξ = qa e η = κa, tais que

ξ 2 + η 2 = q 2 a2 + κ2 a2 = a2 (q 2 + κ2 )

ou

ξ2 + η2 = V0 a2 . (3.68)
~2
A Eq. (3.67) ficará
ξ
tan ξ = − . (3.69)
η
Mas

η2 = V0 a2 − ξ 2
~2
logo,
[ ]− 1
ξ 2µ 2
− = −ξ 2 V0 a − ξ
2 2
η ~
substituindo em (3.69)
[ ]− 1
2µ 2
tan ξ = −ξ 2 V0 a2 − ξ 2 . (3.70)
~
Cada solução dessa equação dá um valor de ξ, e, portanto, um valor de q, ou seja, de |E|. Logo, essa é a
equação para os autovalores de energia. Para isso faremos os gráficos da função tan ξ e da função f (ξ) que
está no segundo membro de (3.70). Na intersecção das curvas teremos os valores de ξ que são as soluções
de (3.70).
Para fazermos a curva da função que está no segundo membro, vamos estudar um pouco suas proprie-
dades. Analisando a função
[ ]− 1
2µ 2 [ ]− 1
f (ξ) = −ξ 2 V0 a2 − ξ 2 = −ξ A2 − ξ 2 2 .
~

Sua derivada será


A2
f ′ (ξ) = − 3
(A2 − ξ 2 ) 2
e é sempre negativa, tornando-se −∞ para ξ = A, i.e.


ξ= V0 a .
~2
A Fig. 3.7 contém as curvas y = tan ξ e y = f (ξ). As soluções da equação
[ ]− 1
2µ 2
tan ξ = −ξ 2 V0 a2 − ξ 2
~

são as intersecções dessas duas curvas, pontos 1 e 2 no gráfico. Como ξ = qa e q = ~1 2µ(V0 − |E|),
os valores de ξ que satisfazem a equação acima permitem calcular os valores de E correspondentes. Estes
serão os valores possíveis para a energia do sistema.
7
Uma equação algébrica tem a forma de um polinômio igualado a zero.
3.5. P OÇO Q UADRADO U NIDIMENSIONAL 63

Figura 3.7 Função y = tan ξ e função y = f (ξ), solução ímpar.

B = 0 - funções pares. Temos,



 Ceκx x < −a
φ(x) = B ′ cos qx −a ≤ x ≤ a . (3.71)

Ae−κx x>a

Aplicando as condições de contorno em x = −a e x = a temos

Ce−κa = B ′ cos qa (3.72a)


−κa ′
−κCe = −qB sen qa , (3.72b)

Ae−κa = B ′ cos qa (3.73a)


−κa ′
κAe = qB sen qa . (3.73b)

Comparando (3.72a) e (3.73a), temos A = C. Dividindo (3.73b) por (3.73a) temos


κ
= tan qa ,
q
introduzindo as variáveis ξ = qa e η = κa
η
tan ξ =
ξ
com √
2µa2
η= V0 − ξ 2
~2
de maneira que a equação que determina os autovalores da energia é dado por

1 2µa2
tan ξ = V0 − ξ 2 . (3.74)
ξ ~2
Seja √
1 2µa2 1√
f (ξ) = V0 − ξ 2 = A − ξ2
ξ ~2 ξ
64 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

Figura 3.8 Função y = tan ξ e função y = f (ξ), solução par.

novamente temos a solução gráfica, mostrada na Fig. 3.8.


Interpretando, temos que ξ ≤ A (ξ > 0) e f (A) = 0 e ainda

lim f (ξ) = ∞
ξ→0
df 1 1√
= −√ − 2 A − ξ2 < 0 para todo ξ.
dξ A − ξ2 ξ

A figura mostra algumas soluções da equação para os autovalores da energia. Essas soluções são as
intersecções entre a curva pontilhada e o gráfico da tangente. Note-se que, por pequeno que seja A, sempre
haverá ao menos uma solução.
Podemos concluir então que o poço quadrado possui sempre soluções de energia negativa. Os autova-
lores da energia de tais estados são discretos e em número finito. O menor valor, correspondente ao estado
fundamental, ocorre para um estado cuja função de onda é par.

Caso 2 - E > 0 Neste caso, a solução geral da equação de Schrödinger para as três regiões (I quando
x < −a, II quando −a < x < a e III quando x > a) será:

 Aei kx + Be− i kx x < −a
φ(x) = Cei κx + De− i κx −a ≤ x ≤ a (3.75)

F ei kx + Ge− i kx x>a

em que A, B, C,√D, F e G são as √ novas constante arbitrárias a serem determinadas para este caso, e onde
definimos k = ~1 2µE e κ = ~1 2µ(E + V0 ). Uma partícula descrita por essas funções não é localizada,
i.e., ela não está confinada em uma região do espaço, visto que, para este caso, φI (x) e φII (x) não se anulam
quando x → ±∞.
A condição E > 0 forma um espectro contínuo de energia, ao contrário da condição E < 0. Se a
partícula incide na barreira da esquerda para a direita, i.e., caminhando na direção positiva do eixo x, temos
G = 0. Aplicando as condições de contorno quando x = −a e x = a, encontraremos as relações:

Ae− i ka + Bei ka = Ce− i κa + Dei κa (3.76a)


kAe− i ka − kBei ka = κCe− i κa − κDei κa , (3.76b)
3.6. P OTENCIAL D ELTA 65

Cei κa + De− i κa = F ei ka (3.77a)


κCei κa − κDe− i κa = kF ei ka . (3.77b)

Fazendo uma manipulação algébrica, é fácil verificar que o coeficiente de transmissão T será expresso pela
relação
F 2 16k 2 κ2
T = = (3.78)
A 16k 2 κ2 cos2 2κa + 4(k 2 + k 2 )2 sen2 2κa
e o coeficiente de reflexão R pode ser determinado por

4(k 2 − κ)2 sen2 2κa


R=1−T = . (3.79)
16k 2 κ2 + 4(k 2 − k 2 )2 sen2 2κa

A partícula sofre um espalhamento quando passa pela região de influência do potencial.

3.6 Potencial Delta


Vamos considerar um potencial V (x) que é dado pela função delta δ(x), e este potencial é atrativo,

~2 λ
V (x) = − δ(x) . (3.80)

Mais uma vez vamos procurar autoestados normalizáveis, os quais obedecem a condição de contorno
φ(x) → 0 para x → ±∞. A equação de Schrödinger associada a esse problema é

~2 d2 ~2 λ
− φ(x) − δ(x) φ(x) = E φ(x) , (3.81)
2µ dx2 2µ

e para x ̸= 0 toma a forma


~2 d2
− φ(x) = E φ(x) , (3.82)
2µ dx2
~2 k2
já que a função delta anula-se nesta região. Para E = 2µ positivo, as soluções da equação de Schrödinger

φ(x) = Aei kx + Be− i kx (3.83)

não são normalizáveis e portanto devem ser descartadas. Assim, iremos então analisar o caso em que temos
E = − ~2µκ negativo. Nesse caso a solução geral de (3.82) é
2 2

{
Ae−κx + Ceκx x > 0,
φ(x) = (3.84)
Beκx + De−κx x < 0.

Aplicando a condição de contorno, temos que C = D = 0. Devemos agora impor as duas soluções, a
condição em x = 0. Uma vez que φ(x) é contínua em x = 0 temos que

φ(0) = A = B .

A presença da função δ(x) no potencial em (3.81) manifesta-se no fato de dφdx(x) não ser contínua na
origem. De fato, integrando essa equação entre −ϵ e ϵ temos que
( ) ( ) ∫ ϵ
dφ(x) dφ(x)
− + λ φ(0) = κ 2
φ(x) dx . (3.85)
dx ϵ dx −ϵ −ϵ
66 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

No limite ϵ → 0 temos que a última integral é nula, já que a função φ(x) é contínua. Logo o salto da
derivada em x = 0 é dado por
( ) ( )
dφ(x) dφ(x)
− = −λ φ(0) , (3.86)
dx 0+ dx 0−

o que implica que κ = λ2 . Note que só existe solução para potenciais atrativos (λ > 0) já que usamos
explicitamente κ > 0. Logo o único autovalor discreto de (3.81) é

~2 λ2
E=− ,

e o correspondente autoestado é
φ(x) = Ae− 2 |x| .
λ

3.7 Potenciais Periódicos


Um caso importante em mecânica quântica é o estudo de potenciais periódicos devido a sua aplicação.
Consideremos um modelo unidimensional simples para um sólido, no qual os íons positivos encontram-se
fixos e igualmente espaçados enquanto os elétrons livres movem-se no potencial V (x) gerado pelos íons
positivos. Se a distância entre os íons positivos for dada por a esse potencial satisfaz

V (x + a) = V (x) (3.87)

e a hamiltoniana do sistema é invariante pelo deslocamento a.


Discutindo o problema mais formalmente, vamos usar o operador deslocamento,

Da φ(x) = φ(x + a)

este operador comuta com o operador hamiltoniano H do sistema. De fato, para um estado arbitrário φ(x)
temos que
( 2 2 )
~ d
Da Hφ(x) = Da − φ (x) + V (x) φ(x)
2µ dx2
~ d
2 2
=− φ(x + a) + V (x + a)φ(x + a)
2µ dx2

mas por outro lado, temos


( 2 2 )
~ d
HDa φ(x) = − + V (x) φ(x + a)
2µ dx2
~2 d2
=− φ(x + a) + V (x + a)φ(x + a)
2µ dx2

logo,
[Da , H] φ(x) = 0
como φ(x) é arbitrário podemos concluir que os operadores Da e H comutam. É conveniente diagonalizar
simultaneamente H e Da e os autoestados de H neste caso são chamados de estados de Bloch 8 .
A equação de autovalores para Da é dada por

Da φ(x) = φ(x + a) = λφ(x) (3.88)


8
Felix Bloch (1905–1983), engenheiro e físico suíço-americano.
3.7. P OTENCIAIS P ERIÓDICOS 67

e o produto interno de Da φ(x) é dado por


∫ ∫
[Da φ(x)] Da φ(x) dx = φ∗ (x + a) φ(x + a) dx


= |λ|2
φ∗ (x) φ(x) dx .

Tendo em vista que as duas integrais da última expressão são iguais segue que

|λ|2 = 1 .

Podemos então escrever λ = ei ka onde k é real.


Para encontrar a forma geral dos autoestados de Da definamos

φk (x) = e− i kx φ(x) ,

o qual é uma função periódica de x já que

φk (x + a) = e− i k(x+a) φ(x + a) = e− i kx e− i ka ei ka φ(x) = φk (x)

onde usamos (3.88). Logo, os autoestados de Da são da forma

φ(x) = ei kx φk (x)

onde φk (x) é uma função periódica. Esse resultado é conhecido como teorema de Bloch. 9
Cristais contém um número N ≃ 1023 de átomos, mas não são infinitos. Tendo em vista que as pro-
priedades dos elétrons dependem pouco de efeitos de superfície, i.e., das condições de contorno, vamos
considerar a condição de contorno periódica

φ(x = N a) = φ(x = 0) , (3.89)

a qual preserva as propriedades acima. Dada essa condição, os autovalores do operador deslocamento Da
podem tomar apenas um número finito de valores visto que

φ(x = N a) = φ(x = 0)
= Dna φ(x = 0) = ei N ka φ(x = 0) .

Logo,
2πj
k= para j = 0, ±1, ±2, · · · , ±(N − 1) . (3.90)
Na

Exemplo: Potencial de Kronig-Penney Um potencial periódico de fácil solução conhecido como poten-
cial de Kronig-Penney é dado por 10

V (x) = V0 δ(x − na) , (3.91)
n

onde somamos sobre todos os sítios da rede. Quando diagonalizamos simultaneamente Da e H, precisamos
resolver a equação diferencial associada a HφE (x) = EφE (x) apenas no intervalo 0 < x ≤ a uma vez que
a autofunção para outros valores de x pode ser obtida usando o operador Da :

φ(x + ja) = Dja φ(x) = ei jka φ(x) . (3.92)


9
F. Bloch, Zeitschrift für Physik, 52, 555–600 (1928).
10
Ralph Kronig (1904–1995), físico germânico-americano.
William George Penney (1909–1991), físico inglês.
R. Kronig and W. G. Penney, Proceeding of Royal Society (London), A 130, 499 (1931).
68 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

A equação diferencial associada a esse problema de autovalores no intervalo 0 ≤ x < a é dada por
~2 d2
− φ(x) + V0 δ(x) φ(x) = E φ(x) . (3.93)
2µ dx2
No intervalo 0 < x < a o potencial é nulo, sendo a solução geral da equação acima dada por

φ(x) = A sen qx + B cos qx , (3.94)



onde q = ~1 2µE. Analisando o caso em que E > 0, i.e., q é real, temos pela condição de contorno em
x = 0 (φ(x) contínua) e fazendo uso de (3.92) a relação abaixo:

e− i ka [A sen qa + B cos qa] = B . (3.95)

Conforme vimos anteriormente, a derivada de φ(x) apresenta uma descontinuidade na posição do delta de
Dirac. O salto da derivada para x = 0 é dado por (3.86), que conduz à relação
2µV0
qA − e− i ka q [A cos qa − B sen qa] = B. (3.96)
~2
A partir das duas últimas expressões podemos obter a equação que determina q para um dado valor de k
µV0 a sen qa
cos ka = cos qa + . (3.97)
~2 qa
Comecemos analisando o caso em que a partícula está livre, i.e., V0 = 0. Para um valor fixo de k temos
que
2πj
q=k+ com j = 0, ±1, ±2, · · ·
a
Quando consideramos todos os valores possíveis de k dados por (3.90) segue que
2πn
q= com n = 0, ±1, ±2, · · ·
a
No caso geral V0 ̸= 0 os valores possíveis de q que satisfazem (3.97) dependem da constante β = µV~20 a .
Para ilustrar o comportamento do lado direito da Eq. (3.97) com qa exibimos na Fig. 3.9 o gráfico da função
cos qa + 2 senqaqa , i.e., assumimos β = 2.

Aplicações Tecnológicas Hoje, físicos e engenheiros projetistas de dispositivos eletrônicos e ópticos têm
usado a excepcional flexibilidade dos materiais semicondutores para produzir uma grande variedade de es-
truturas, nas quais poços, barreiras ou potenciais periódicos se aproximam bastante das situações ideais,
como as que estudamos até o momento. Um caso comum é quando uma camada muito fina (≃ 5 nm) de
arseneto de gálio (AsGa) pode ser depositado (epitaxialmente) sobre um substrato de arseneto de alumínio
e gálio (AsAlGa) para formar uma estrutura chamada poço quântico. Nos poços quânticos, os portadores
de carga (elétron e buracos) não se movimentam com os três graus de liberdade usuais. Nessas estruturas,
seu comportamento é unidimensional na direção perpendicular aos planos das camadas formadas e bidi-
mensional nos planos dessas camadas. Quando as barreiras de potencial formadas são bastante estreitas ou
quando a energia dos portadores de carga é comparável à energia de descontinuidade entre as camadas, as
funções de ondas associadas a essas partículas são estendidas perpendicularmente às camadas, modificando
o comportamento dos portadores de carga, devido à periodicidade e ao caráter modulador de longo alcance
que se superpõe ao potencial da rede cristalina. Quando o número de poços quânticos numa super-rede é
muito grande, o problema pode ser tratado, sob determinadas condições, como uma potencial periódico
de Kronig-Penney. Por exemplo, considerando a largura das camadas dos dois semicondutores, AsGa e
AsAlx Ga1−x , com aproximadamente 3 nm, o tratamento apresentado no modelo Kronig-Penney pode ser
usado para determinar as bandas de energia de elétrons confinados nessas estruturas quânticas. 11
11
D. S. Chemia, Physics Today, 57, May (1985); L. Esaki and R. Tsu, IBM Research Center Note, March (1969); F. A. P. Osório,
M. H. Degani and O. Hipólito, Physical Review, B37, 1402 (1988).
3.8. O SCILADOR H ARMÔNICO L INEAR 69

Figura 3.9 Gráfico de cos qa + 2 senqaqa como função de qa.

3.8 Oscilador Harmônico Linear


O oscilador harmônico constitui um dos problemas mais importantes na física moderna. O oscilador harmô-
nico tem grande importância na física, pois muitos problemas de sistemas ligados em equilíbrio, como mo-
léculas, átomos ou moléculas em uma rede cristalina, e mesmo partículas no núcleo atômico, podem, para
pequenos deslocamentos da posição de equilíbrio (pequenas energias de excitação) ser descritos por um
potencial do tipo:

1 2 1 2 2 k
V (x) = kx = µω x , ω= . (3.98)
2 2 µ
Os autovalores e as autofunções ou autoestados estacionários de energia do oscilador são soluções da
equação de Schrödinger independente do tempo

~2 d2 1
− φ(x) + µω 2 x2 φ(x) = E φ(x) , (3.99)
2µ dx2 2

uma importante propriedade dessa equação é o fato de que o potencial é uma função par. Assim podemos
dizer que o potencial é simétrico em relação a reflexões especulares, V (−x) = V (x). Se φ(x) é solução da
equação de Schrödinger, então φ(−x) também o é. A equação de Schrödinger, devido a condição de simetria
do potencial (função par), é invariante sob a reflexão. A densidade de probabilidade para as posições da
partícula, em um estado estacionário, apresenta a mesma simetria ρ(x) = ρ(−x) ⇒ |φ(−x)|2 = |φ(x)|2 e,
portanto
{
φ(−x) = φ(x) par
φ(−x) = −φ(x) ímpar
ou seja, os autoestados estacionários possuem paridades par e ímpar.
A Eq. (3.99) pode ser transformada se substituirmos

µω 2E
ξ= x e λ= .
~ ~ω

Logo
d2
φ(ξ) + (λ − ξ 2 ) φ(ξ) = 0 . (3.100)
dξ 2
70 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

∫ ∞ Temos agora uma equação do tipo Sturm-Liouville 12 . Impondo que φ(x) seja normalizável, i.e., que
−∞ |φ| dx seja finita, implica que φ(x) deve se anular para x → ±∞. Isso sugere que o parâmetro λ
2

ficará restrito a um certo conjunto de valores permissíveis. O comportamento assintótico (ξ 2 ≫ λ) das


soluções dessa equação é governado por

d2
φ(ξ) − ξ 2 φ(ξ) ≃ 0 , (3.101)
dξ 2
cuja solução aproximada é
φ(ξ) ≃ e± 2 ξ .
1 2

Para levar em conta este comportamento e a condição de contorno, bem como simplificar os cálculos
posteriores, escrevemos que
φ(ξ) = e− 2 ξ h(ξ) .
1 2
(3.102)
Substituindo esta expressão em (3.100) temos a equação diferencial

d2 d
2
h(ξ) − 2ξ h(ξ) + (λ − 1) h(ξ) = 0 , (3.103)
dξ dξ

conhecida como equação diferencial de Hermite 13 . Uma vez que φ(ξ) → 0 para ξ → ±∞, escolhemos
h(ξ) e λ tais que essas condições sejam satisfeitas. Neste ponto aplicaremos o método de Frobenius 14 para
resolver a equação diferencial (3.103), o que é feito expandindo h(ξ) em série de Taylor,


h(ξ) = aj ξ j , (3.104)
j=0

que substituindo na equação diferencial acima, teremos




{(j + 1)(j + 2)aj+2 − 2jaj + (λ − 1)aj } ξ j = 0 .
j=0

Dado que os coeficientes dos ξ j devem se anular, obtemos a seguinte relação de recorrência
2j + 1 − λ
aj+2 = aj . (3.105)
(j + 1)(j + 2)
O teste da razão
aj+2 2
lim = lim = 0
j→∞ aj j→∞ j
mostra que a série convergirá para todos os valores de ξ. Isso é naturalmente esperado, pois todos os pontos
do plano ξ finito são pontos ordinários para a equação diferencial de Hermite.
Como era de se esperar, obtemos duas soluções linearmente independentes:
1. Uma solução par (hP (ξ)) para a qual a0 ̸= 0 e a1 = 0. Note que essa escolha e a relação de recorrência
acima garantem que a série contém apenas as potências pares de ξ.

hP (ξ) = a0 + a2 ξ 2 + a4 ξ 4 + · · ·

2. Uma solução ímpar (hI (ξ)) para a qual a0 = 0 e a1 ̸= 0.

hI (ξ) = a1 ξ + a3 ξ 3 + a5 ξ 5 + · · ·
12
Jacques Charles François Sturm (1803–1855), matemático franco-suíço.
Joseph Liouville (1809–1882), matemático francês.
13
Charles Hermite (1822–1901), matemático francês.
14
Ferdinand Georg Frobenius (1849–1917), matemático alemão.
3.8. O SCILADOR H ARMÔNICO L INEAR 71

Com o intuito de determinar qual é a solução física, i.e., qual a que satisfaz as condições de con-
torno, precisamos obter o comportamento assintótico das soluções par e ímpar para ξ → ±∞. Isto é feito
analisando-se a série (3.104) para grandes valores de j. Neste caso temos que aj+2 ≃ 2j aj . É fácil de-
2 2
monstrar que esta relação de recorrência implica que hP (ξ) ∼ ξ 2 eξ (hI (ξ) ∼ ξeξ ). Este comportamento
não é aceitável já que ele conduz a funções de onda não normalizáveis. Logo, para que tenhamos soluções
normalizáveis, a serie deve terminar, i.e., λ deve ser tal que a partir de um certo ponto todos os aj são zero
e a série é na verdade um polinômio. Inspecionando (3.105) vemos que isto ocorre para

λ = 2n + 1 , (3.106)

onde n = 0, 1, 2 · · · . Além disso, ainda a partir de (3.105), vemos que para n par (ímpar) apenas a série para
hP (ξ) (hI (ξ)) termina enquanto que hI (ξ) (hP (ξ)) apresenta um comportamento indesejado para ξ → ±∞.
Portanto, a autofunção é dada por hP (ξ) para n par e por hI (ξ) para n ímpar.
Visando usar uma notação padrão para as soluções do problema, adotamos as seguintes convenções:

1. Para n par definimos o polinômio de Hermite Hn (ξ) = hP (ξ) com

n n!
a0 ≡ (−1) 2 ( n )
2 !
e
n n!
Hn (ξ) = (−1) 2 ( n ) hP (ξ) .
2 !

2. Para n ímpar definimos o polinômio de Hermite Hn (ξ) = hI (ξ) com a escolha

n−1 2(n)!
a1 ≡ (−1) 2 ( n−1 )
2 !
e
n−1 2(n)!
Hn (ξ) = (−1) 2 ( n−1 ) hI (ξ) .
2 !

Note que Hn (ξ) é um polinômio de Hermite de ordem n. Aqui, listamos os primeiros seis polinômios de
Hermite, mostrado na Fig. 3.10:

Figura 3.10 Funções de Onda do Oscilador Harmônico.


72 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

H0 (ξ) = 1
H1 (ξ) = 2ξ
H2 (ξ) = −2 + 4ξ 2
H3 (ξ) = −12ξ + 8ξ 3
H4 (ξ) = 12 − 48ξ 2 16ξ 4
H5 (ξ) = 120ξ − 160ξ 3 + 32ξ 5 .

Esses polinômios satisfazem a equação diferencial

d2 d
2
Hn (ξ) − 2ξ Hn (ξ) + 2n Hn (ξ) = 0 , (3.107)
dξ dξ
Finalmente, temos que os autovalores da hamiltoniana do oscilador harmônico são dados por
( )
1
En = n + ~ω (3.108)
2
e as correspondentes autofunções são

φn (ξ) = e− 2 ξ Hn (ξ) .
1 2
(3.109)

No estudo das autofunções, se n é um inteiro, são conhecidos os polinômios de Hermite de grau n. As


completas autofunções são dadas na forma
(√ )
µω µω 2
φn (x) = cn Hn x e− 2~ x , (3.110)
~
onde cn é uma constante a ser determinada.
Se fizermos a derivada em ξ da (3.107) temos
d
Hn (ξ) = 2n Hn−1 (ξ) . (3.111)

Uma particular representação dos polinômios de Hermite é obtido pela função geratriz


2 Hn (ξ)
F (s, ξ) = e2ξs−s = sn . (3.112)
n!
n=0

Como consequência de (3.111), temos


∂F
= 2sF .
∂ξ
Essa equação pode ser integrada
F (s, ξ) = F (s, 0)e2sξ .
O coeficiente F (s, 0) pode ser determinado de (3.112) e dos polinômios par e ímpar:

∑ (−1)k
s2k = e−s
2
F (s, 0) =
k!
k=1

e então a função geratriz F (s, ξ) terá a forma


2 2 −(s−ξ)2
F (s, ξ) = e2ξs−s = eξ , (3.113)

então fica claro que


∂n n ∂
n
ξ2
e−(s−ξ) .
2
n
F (s, ξ) = e (−1) n
∂s ∂ξ
3.8. O SCILADOR H ARMÔNICO L INEAR 73

No entanto, ( )
∂ n F (s, ξ)
= Hn (ξ)
∂sn s=0
por conseguinte,
2 dn −ξ2
Hn (ξ) = (−1)n eξ e , (3.114)
dξ n
que é a fórmula de Rodrigues 15 para os polinômios de Hermite.
Podemos usar a fórmula de Rodrigues para calcular a normalização:
∫ +∞ ∫ +∞
−ξ 2 dn
Hn (ξ)(−1)n n e−ξ dξ
2 2
e [Hn (ξ)] dξ =
−∞ −∞ dξ
+∞ ∫ +∞
dn−1 dHn (ξ) dn−1 −ξ2
= (−1) Hn (ξ) n−1 e−ξ
n 2 n−1
+ (−1) e dξ
dξ −∞ −∞ dξ dξ n−1

onde integramos por partes. O primeiro termo da integral se anula.16 Podemos usar a fórmula de diferen-
ciação para substituir dHdξ
n (ξ)
por 2nHn−1 (ξ) e repetir a integração por parte (n − 1) mais vezes, obtendo
∫ +∞ ∫ +∞
−ξ 2 √
e−ξ dξ = 2n n! π .
2 n 2
e [Hn (ξ)] dξ = 2 n! (3.115)
−∞ −∞

Essa relação pode ser estendida para uma relação geral de ortogonalidade
∫ +∞

e−ξ Hl (ξ)Hn (ξ) dξ = 2n n! π δln .
2
(3.116)
−∞

Dessa maneira, as autofunções de energia normalizadas do oscilador harmônico são dadas por
( )1 ( )1
1 2 µω 4 − ξ2
φn (ξ) = n
e 2 Hn (ξ) , (3.117)
2 n! π~
ou em função de x
( )1 ( )1 (√ )
1 2 µω 4 − µω x2 µω
φn (x) = e 2~ Hn x . (3.118)
n
2 n! π~ ~
Finalmente vamos analisar o caso geral, o movimento da função de onda (pacote de onda) dependente
do tempo ψ (x, t) em que a condição inicial ψ (x, 0) é dada. A equação de Schrödinger dependente do tempo
∂ ~2 ∂ 2 µω 2 2
i~ ψ (x, t) = − ψ (x, t) + x ψ (x, t) (3.119)
∂t 2µ ∂x2 2
determina o desenvolvimento temporal da função de onda. Se ψ (x, 0) é normalizável, podemos expandir
como


ψ (x, 0) = cn φn (x) (3.120)
n=0
com os coeficientes da expansão dados por
∫ +∞
cn = φ∗n (x)ψ (x, 0) dx (3.121)
−∞
( )
então, conhecendo a energia do oscilador harmônico, En = n + 12 ~ω, podemos construir a função de
onda dependente do tempo t usando

cn φn (x)e− ~ En t
i
ψ (x, t) =
n
15
Benjamin Olinde Rodrigues (1795–1851), matemático Francês.
dn−1 −ξ2 2
16
Pois dξ n−1 e = −Hn−1 (ξ)e−ξ .
74 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

que em nosso caso será




ψ (x, t) = e− cn φn (x)e− i nωt .
i ωt
2 (3.122)
n=0
O centro de probabilidade do pacote de onda normalizado, i.e., o valor esperado do operador posição x
é ∫ +∞
⟨x⟩ = ψ ∗ (x, t) x ψ (x, t) dx .
−∞
Logo,
∞ ∑
∑ ∞ ∫ +∞
⟨x⟩ = c∗n ck e i(n−k)ωt
φ∗n (x) x φk (x) dx . (3.123)
n=0 k=0 −∞

Note que o termo integral ∫ +∞


xnk = φ∗n (x) x φk (x) dx
−∞
formam as quantidades xnk dos elementos da matriz de x.
Assim, poderemos calcular os elementos da matriz de posição associada ao operador x explicitamente
( )1 ∫ ∞ (√ ) (√ )
− n+k − 12 − 21 µω 2 − µω x2 µω µω
xnk = 2 2 (n!) (k!) e ~ Hn x x Hk x dx
~π −∞ ~ ~
√ ∫ ∞
~ − n+k
2 2 (n!)− 2 (k!)− 2 π − 2 Hn (ξ)Hk (ξ)ξe−ξ dξ .
1 1 1 2
=
µω −∞


Usando a função geratriz dos polinômios de Hermite, (3.112), e considerando ∂s F (s, ξ), teremos a relação
de recorrência
2ξHn (ξ) = 2nHn−1 (ξ) + Hn+1 (ξ) (n ≥ 1) ,
e naturalmente
∫ ∞ √ n−1
Hn (ξ)Hk (ξ)ξe−ξ dξ =
2
π2 n! [δk,n−1 + 2(n + 1)δk,n+1 ] .
−∞

Assim, √ [√ ]

~ n n+1
xn,k = δk,n−1 + δk,n+1 (3.124)
µω 2 2
e usando a notação convencional de matriz
 √ 
√0 1 √0 0 ·
√  1 0 2 0 ·
~  0
√ √ 
(x) =  2 √0 3 ·. (3.125)
2µω 
0 0 3 0 ·
· · · · ·
A maioria dos elementos dessa matriz são nulos, e temos uma matriz real simétrica.

Problemas
3.1 Mostre que, no problemas em uma dimensão, o espectro de energia de estados ligados é sempre não
degenerado.
3.2 Qual conclusão poderá ser feita a respeito da paridade das autofunções da hamiltoniana
~2 d2
H=− + V (x)
2µ dx2
se a energia potencial for uma função par de x, i.e., V (x) = V (−x).
3.8. O SCILADOR H ARMÔNICO L INEAR 75

3.3 Mostre que a função delta, definida no texto pela Eq. (3.2), é uma função par.

3.4 Considere o potencial como sendo uma dupla função delta V (x) = −α [δ(x + a) + δ(x − a)], onde
α e a são constantes positivas.
a) Esboce esse potencial.
~2 ~2
b) Quantos estados ligados possui? Quais as energias para α = µa e para α = 4µa , esboce as funções
de onda.
c) Calcule o coeficiente de transmissão para esse potencial.

3.5 Considere um potencial arbitrário, localizado numa região finita do eixo-x. As soluções da equação de
Schrödinger à esquerda e à direita do potencial são dadas de acordo com a Fig. 3.11. Mostre que se

Figura 3.11 Potencial arbitrário.

escrevermos
C = S11 A + S12 D
B = S21 A + S22 D
valem as relações
|S11 |2 + |S21 |2 = 1
|S12 |2 + |S22 |2 = 1
∗ + S S∗
S11 S12 21 22 = 0
o que equivale a dizer que a matriz
( )
S11 S12
S=
S21 S22
é unitária.

3.6 Considere a matriz de espalhamento S, dada no problema anterior, usando o potencial delta de Dirac

~2
V (x) = λa δ(x − b). Mostre que essa matriz tem a forma
 2 i ka λ −2 i kb 
2 i ka−λ 2 i ka−λ e
 .
λ 2 i kb 2 i ka
2 i ka−λ e 2 i ka−λ
Prove também que essa matriz é unitária e que fornecerá a condição para a existência de estados ligados
quando os elementos dessa matriz tornarem-se infinitos.

3.7 Vamos supor um potencial definido por


{
0 se 0 ≤ x ≤ a ,
V (x) =
∞ se x fora dessa região ,
conforme vemos na Fig. 3.12. Determine, os autovalores de energia e as autofunções normalizadas.

3.8 Usando o problema anterior. Em t = 0 a partícula está num estado descrito pela combinação
( 2 linear
) dos
dois estados estacionários de menor energia, ψ (x, 0) = αφ1 (x) + βφ2 (x) com |α| + |β| = 1
2

a) Calcule a função de onda ψ (x, t) e o valor esperado dos operadores x e px como função do tempo.
b) Verifique o teorema de Ehrenfest, µ d⟨x⟩
dt = ⟨px ⟩.

3.9 Encontre as autofunções de onda e os autovalores de energias para elétrons confinados em uma caixa
cúbica.
76 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

Figura 3.12 Potencial de barreira infinita.

3.10 Considere o potencial unidimensional dado por



 +∞ se x < 0
V (x) = −V0 se 0 < x < a

0 se x > a .
a) Esboce o gráfico desse potencial.
b) Qual a condição sobre V0 e a para que exista um e somente um estado ligado.

3.11 Para uma partícula sob a ação do potencial unidimensional do problema anterior, calcule os autova-
lores de energia e os autoestados. Compare esses resultados para os estados ligados com o problema
resolvido no §3.5 do texto.

3.12 Dado o potencial



 ∞ se x < 0
V (x) = V0 se 0 < x < a com E > V0 :

0 se x > a .
a) Quais as condições de fluxo?
b) É a reflexão ressonante?
c) O que temos se V0 = −V0 ?
d) Faça as considerações sobre o coeficiente de reflexão.

3.13 Uma partícula de massa µ está sujeita a ação de um potencial unidimensional dado por:
{
∞ se x ≤ 0
V (x) =
−gδ(x − a) se x > 0 .
Determine a equação que fornece os estados ligados, E < 0. Ache o valor mínimo de g para que haja
pelo menos um estado ligado.

3.14 Mostre que se o potencial for periódico de período a, V (x + na) = V (x), onde n = 0, ±1, ±2, · · ·
Então podemos escrever as funções de onda φ(x) = uk (x) ei kx , onde uk (x + a) = uk (x). Esse é o
teorema de Bloch.

3.15 Mostre que o espectro de energia de uma partícula em um potencial periódico, como mostramos na
Fig. 3.13, tem uma estrutura de banda.
V0
3.16 Resolva a equação de Schrödinger para o potencial de Pöschl-Teller 17 , V (x) = cos2 α x
, onde V0 é
uma constante positiva.
V1 V2
3.17 Resolva a equação de Schrödinger para o potencial generalizado V (x) = sen2 α x
+ cos2 α x
, no
π
intervalo 0 < x < 2α , com V1 e V2 sendo constantes positivas.
17
Edward (Ede) Teller (1908–2003), físico húngaro-americano.
G. Pöschl, físico americano.
G. Pöschl and E. Teller, Zeits. für Physik, 83, 143-151 (1933).
3.8. O SCILADOR H ARMÔNICO L INEAR 77

Figura 3.13 Potencial periódico.

3.18 Considere um oscilador harmônico e mostre que para um estado inicial ψ0 , o estado ψt é uma função
periódica do tempo.

3.19 Com o resultado do problema anterior, escreva ψt como combinação linear quando temos n = 0 e
n = 1.

3.20 Use a relação de recorrência (3.105) para obter H5 (ξ) e H6 (ξ).

3.21 Use a função geratriz dos polinômios de Hermite para calcular


∫ ∞
φn (x)x2 φm (x) dx
−∞
onde φ(x)’s são as funções de onda normalizadas do oscilador harmônico.

3.22 A hamiltoniana para um oscilador harmônico tridimensional, isotrópico, pode ser escrito na forma
( 2 )
~2 ∂ ∂2 ∂2 1 ( )
H=− 2
+ 2 + 2 + µω 2 x2 + y 2 + z 2
2µ ∂x ∂y ∂z 2
a) Mostre que o espectro de energia desse oscilador é dado por
( )
En = ~ω nx + ny + nz + 23 .
b) Escreve a forma geral dos autoestados desse sistema.
c) Faça um estudo sobre os estados degenerados.

3.23 O valor esperado de uma observável física associada ao operador A é definido por

⟨A⟩ = φ∗k (x) A φk ((x) dx
a) Use a relação
1 ξ2
φn (ξ) = √√ e− 2 Hn (ξ)
π2n n!
onde Hn (ξ) são os polinômios de Hermite, para calcular os valores esperados ⟨x⟩, ⟨p⟩ e ⟨p2 ⟩ para o
oscilador harmônico simples.
b) Use a mesma função de onda para calcular ⟨x2 ⟩.
c) Encontre o princípio de incerteza no estado fundamental n = 0.

3.24 Do problema anterior:


a) Encontre uma expressão que permite calcular os elementos da matriz expressos por

xkn = φ∗k (x) x φn (x) dx.
b) Repita o problema para encontrar os elementos da matriz do operador momentum pkn .
c) Encontre a hamiltoniana H na forma matricial.

3.25 Encontre os autovalores de energia para um meio oscilador


{ 1 2 2
V (x) = 2 µω x se x > 0
∞ se x < 0 .
78 C AP. 3 A PLICAÇÕES DA E QUAÇÃO DE S CHRÖDINGER

Esse problema representa, por exemplo, um salto repentino que pode ser estendido, mas não compri-
mido.

3.26 Considere o estado de um oscilador harmônico unidimensional de frequência ω descrito pela função
de onda
∑∞
vn
φv (x) = N √ un (x) ,
n=0 n!
onde os termos un são as autofunções normalizadas da hamiltoniana, correspondentes a
( )
En = n + 12 ~ω .
O termo v é um número complexo e N é a constante de normalização.

a) Obtenha N para que dx |φv |2 = 1.
b) Calcule o valor médio de H nesse estado.
c) Usando φv como condição inicial, i.e., ψ (x, t = 0) = φv (x), obtenha ψ (x, t).
d) Calcule o valor esperado de H no estado ψ (x, t) obtido acima.

3.27 Considere o pacote de ondas gaussiano, ϕ(x, t) = Ae−[a(t)x +c(t)] . Usando a equação de Schrödinger:
2

1
a) Mostre que para uma partícula livre, a(t) = a10 + 2mi ~ t .
b) Quem é c(t)?
c) Se no instante t = 0, o pacote de ondas acima descreve um elétron confinado numa região de
dimensão 1 , qual será a dispersão desse pacote após 1 s? Use que µ~ = 1, 2 × 10−4 m2 s−1 .
( π )− 1
e− 2 x . Usando a representação de
α 2
3.28 Considere o pacote de ondas gaussiano, ϕ(x, t = 0) = α
4

momentum encontre ψ (x, t).

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomenda-se ao leitor, uma leitura paralela dos clássicos livros:

– E. Merzbacher [61];
– L. D. Landau and E. M. Lifshitz [52];
– C. Cohen-Tannoudji, B. Diu and F. Laloë [21];
– R. H. Dicke and J. P. Wittke [23];
– K. Gottfried [36];
– L. I. Schiff [77];
– J. S. Townsend [81].

Nesses livros podemos encontrar um trabalho muito bom sobre as soluções da equação de Schrödinger para
diferentes casos e suas aplicações.
Capítulo 4
Aproximação WKB

Neste capítulo iremos apresentar um método de aproximação que pode ser aplicado quando a energia po-
tencial apresenta uma variação lenta com a posição. Na mecânica quântica, esse método foi proposto por
G. Wentzel 1 , H. A. Kramers 2 e L. Brillouin 3 e é conhecido como aproximação WKB, 4 ou aproximação
WKBJ, devido à H. Jeffreys 5 . Este método foi introduzido pela primeira vez por Lord Rayleigh que desen-
volveu a técnica matemática para outras situações.6 Inicialmente faremos uma introdução da aproximação
semiclássica e a seguir o método de aproximação WKB, e aplicações para estados ligados e transmissão
através de uma barreira de potencial.

4.1 Aproximação Semiclássica


A discussão das propriedades gerais da dinâmica quântica de uma partícula sujeita a um potencial externo,
pode ser adequada no sentido de dar uma aproximação semiclássica, ou de aproximar à grandes números
quânticos, na qual o último termo da Eq. (2.16)

∂S (⃗r, t) [∇S
⃗ (⃗r, t)]2 ~2 ∇2 ρ
+ +V − √ =0 (4.1)
∂t 2µ 2µ ρ

pode ser ignorado em relação aos demais termos, i.e., consideramos ~ = 0. Aqui, usaremos A(x) = ρ.
Vamos então ao problema unidimensional de um estado estacionário de energia E cuja a hamiltoniana
do sistema é dada por
p2
H= + V (x)

que tem como solução a função de onda do tipo

ψ (x, t) = φ(x)e− ~ Et ≡ A(x)e ~ [S (x)−Et]


i i
(4.2)

onde as funções reais A(x) e S (x) correspondem ao módulo e à fase de φ(x), respectivamente. Substituindo
a equação acima na equação de Schrödinger

∂ ~2 d2
i~ ψ (x, t) = − ψ (x, t) + V ψ (x, t) (4.3)
∂t 2µ dx2
1
Gregor Wentzel (1898–1978), físico teuto-suíço.
2
Hendrik Anthony Kramers (1894–1952), físico holandês.
3
Léon Nicolas Brillouin (1889–1969), físico francês.
4
G. Wentzel, Zeitschrift für Physik, 38, 518–529 (1926); H. A. Kramers, Zeitschrift für Physik, 39, 828–840 (1926); L. Bril-
louin, Comptes Rendus de l’Academie des Sciences, 183, 24–26 (1926).
5
Sir Harold Jeffreys (1891–1989), matemático, estatístico, geofísico e astrônomo inglês.
H. Jeffreys, Proceedings of the London Mathematical Society, 23, 428–436 (1923).
6
Lord Rayleigh, Proceedings of the Royal Society, A86, 207 (1912).

79
80 C AP. 4 A PROXIMAÇÃO WKB

temos, nesse caso particular


( )2
dS 1 d2 A(x)
= 2µ [E − V (x)] + ~2 . (4.4)
dx A(x) dx2

Em procedimento análogo ao §2.2, porém levando em consideração somente a parte imaginária, e tendo em
conta que ∂A∂t = 0, temos
d2 S (x) dA(x) dS (x)
A(x) 2
+2 = 0. (4.5)
dx dx dx
Faremos agora o estudo dinâmico dessas duas equações. A dinâmica do sistema se dá no regime semi-
clássico, assim o último termo de (4.4) é muito menor que o termo precedente, i.e.

1 d2 A(x)
~2 ≪ 2µ [E − V (x)]
A(x) dx2

ou seja
~2 1 d2 A(x)
≪ 1.
2µ [E − V (x)] A(x) dx2
O primeiro fator dessa última relação é de fato o inverso do quadrado do vetor de onda local de de Broglie,
( )2
1 λ(x)

k 2 (x) 2π

de modo que a última condição implica comprimentos de onda locais λ(x) pequenos ou A(x) de pequena
curvatura, tal que
λ2 (x) d2 A(x)
≪ (2π)2 .
A(x) dx2
Nos pontos de inversão clássica x0 , V (x0 ) = E, esta condição é violada. Mas numa região em que a
condição esteja satisfeita é possível usar a aproximação

dS √ 2π~
≃ ± 2µ [E − V (x)] = ±
dx λ(x)

da qual resulta
∫ √ ∫
x x
dx′
S (x) ≃ S (x0 ) ± dx′ 2µ [E − V (x)] = S (x0 ) ± 2π~ .
x0 x0 λ(x′ )
dS (x)
Da parte imaginária Eq. (4.5), encontramos A(x) em termos de dx ,

( )− 1
dS (x) 2
A(x) = C
dx

onde C é uma constante que está relacionada com a normalização da função de onda. Note que essa relação
é exata. Usando a expressão aproximada no regime semiclássico obtida para S (x) temos
√ [ ∫ x ]
′ λ(x) i dx′
ψ (x, t) ≃ C+ exp − Et + 2π i ′
2π ~ x0 λ(x )
√ [ ∫ x ]
λ(x) i dx′
+ C−′ exp − Et − 2π i ′
(4.6)
2π ~ x0 λ(x )

onde a dependência com S (x0 ) foi incluída nas constantes C±′ . A determinação dessas constantes depende
das condições impostas sobre ψ (x, t).
4.2. A PROXIMAÇÃO DE W ENTZEL , K RAMERS E B RILLOUIN 81

Dessa expressão podemos ver: tendo em vista que λ(x) é inversamente proporcional à raiz quadrada
da energia cinética local, a densidade de probabilidade, em consequência, será inversamente proporcional a
velocidade local. Por outro lado, S (x) é a fase acumulada medindo distâncias em unidades de comprimento
de onda local λ(x). Essa fase pode ser vista como uma extensão da fase da função de onda de uma partícula
livre e± i kx , levando em consideração que o vetor de onda k varia lentamente com x temos o equivalente à
∫ x
kx → dx′ k (x′ ) .

A implicação dessa relação é a de que o efeito dominante do potencial V (x) altere o momentum da partícula
sem que ocorra termos ondulatórios, como reflexões, interferências entre outros. Nosso próximo passo será
estudar o método WKB propriamente dito, e suas aplicações.

4.2 Aproximação de Wentzel, Kramers e Brillouin


O ponto inicial para a obtenção da aproximação semiclássica (4.6), dada acima, foi a representação (4.2)
de ψ (x, t) em termos das duas funções A(x) e S (x), o que leva à substituição da equação de Schrödinger
pelo par de Eqs. (4.4) e (4.5). Entretanto, essas equações podem ser obtidas através de um critério para a
determinação de A(x) e S (x) que não impõe a realidade física dessas duas funções. Esse novo critério pode
ser motivado observando que a aproximação semiclássica para a Eq. (4.4) será independente de ~, enquanto
correções provenientes do último termo são proporcionais a ~2 . Isso sugere substituir a decomposição (4.2)
por
i ~
ψ (x, t) = e ~ W (x,t) sendo W (x, t) = S (x, t) + T (x, t) (4.7)
i
onde as funções S (x, t) e T (x, t) são definidas de tal forma que contêm apenas as potências pares de ~. Isso
corresponde à decomposição da função W (x, t) em duas partes, que envolvem respectivamente potências
pares, S (x, t), e potências ímpares, ~i T (x, t), de ~. Em particular, agora não existe qualquer restrição de
realidade sobre essas duas funções. Um tratamento que esteja limitado aos termos de ordem mais baixa em
~ deve coincidir com o tratamento anterior com uma amplitude A(x, t) dada por

A(x, t) = eT (x,t) . (4.8)

Para implementar esse esquema basta substituir o ansatz (4.7) na equação de movimento

∂ψ (x, t) ~2 ∂ 2 ψ (x, t)
i~ =− + V (x)ψ (x, t)
∂t 2µ ∂x2
e escrever as duas equações resultantes da separação de potências pares e ímpares de ~. Esse procedimento
substitui a separação de termos reais e imaginários discutidos anteriormente, e nos leva as equações
( )
~2 ∂ 2 A A ∂S 2 ∂S
− 2
+ + V (x)A + A =0 pares
2µ ∂x 2µ ∂x ∂t
(4.9)
1 ∂A ∂S A ∂ 2 S ∂A
+ + =0 ímpares
µ ∂x ∂x 2µ ∂x2 ∂t
onde a amplitude A(x, t) corresponde à expressão (4.8). Particularizar para um estado estacionário de ener-
gia E corresponde tomar S (x, t) e A(x, t) como sendo da forma

S (x, t) → −Et + SE (x) e A(x, t) → AE (x)

onde SE (x) e AE (x) são independentes do tempo, porém agora não mais necessariamente reais. Nesse caso
a função de onda será
ψ (x, t) → AE (x)e ~ SE (x) e− ~ Et ≡ φE (x)e− ~ Et
i i i
82 C AP. 4 A PROXIMAÇÃO WKB

e as Eqs. (4.9) serão


( )2
dSE (x) 1d2 AE (x)
= 2µ [E − V (x)] + ~2 (4.10)
dx AE (x) dx2
e
d2 SE (x) dAE (x) dSE (x)
AE (x) 2
+2 =0 (4.11)
dx dx dx
que são exatamente as Eqs. (4.4) e (4.5), sem que exista uma condição de realidade imposta sobre as funções
SE (x) e AE (x). Essas duas equações são equivalentes a forma estacionária da equação de Schrödinger. A
solução para Eq. (4.11) tem a forma
( )− 1
dSE (x) 2
AE (x) = C
dx
que substituindo em (4.10) nos dá
 ( )2 ( 3 )
( )2 d2 SE (x) d SE (x)
dSE (x) 3 dx2 1 dx3 
= 2µ [E − V (x)] + ~2  ( )2 − ( dS (x) )  (4.12)
dx 4 dSE (x) 2 E
dx dx

que também é uma equação exata.


Em seguida, faremos uma expansão da função SE (x) em série de potência, em termos de ~2 , do seguinte
modo:
SE (x) = S0 (x) + ~2 S2 (x) + ~4 S4 (x) + · · ·
e a aproximação de ordem mais baixa nos dará
( )
dS0 (x) 2
= 2µ[E − V (x)] .
dx
No entanto, agora não existe uma condição de realidade imposta sobre S0 (x) e portanto, embora temos o
fato de que essa aproximação sendo inválida nas vizinhanças de pontos de inversão do movimento clássico,
ela poderá ser utilizada em regiões classicamente proibidas, onde temos E < V (x). Existem portanto duas
situações a ser consideradas:

Situação em que E > V (x) Neste caso temos,


∫ x √ ∫
(>) (>) ′ ′
x
dx′
S0 (x) = S0 (x0 ) ± dx 2µ[E − V (x )] = S (x0 ) ± 2π~
(>)
x0 x0 λ(x′ )
com a aproximação correspondente para a função de onda
√ ∫ ′
√ ∫
λ(x) 2π i xx λdx λ(x) −2π i xx dx′
(>) (>) (>)
φE (x) ≃ C+ e 0 (x′)
+ C− e 0 λ(x′ ) . (4.13)
2π 2π

Situação em que E < V (x) Neste caso temos as regiões classicamente proibidas que nos leva a
∫ x √ ∫ x
dx′
dx′ 2µ[V (x′ ) − E] = S (<) (x0 ) ± 2π i ~
(<) (<)
S0 (x) = S0 (x0 ) ± i ′
x0 x0 ℓ(x )

onde
2π~
ℓ(x) = √
2µ[V (x) − E]
com a aproximação correspondente para a função de onda
√ ∫ ′
√ ∫
ℓ(x) 2π xx ℓdx ℓ(x) −2π xx dx′
(<) (<) (<)
φE (x) ≃ C+ e 0 (x′)
+ C− e 0 ℓ(x′ ) . (4.14)
2π 2π
4.2. A PROXIMAÇÃO DE W ENTZEL , K RAMERS E B RILLOUIN 83

As expressões (4.13) e (4.14) são as mais frequentemente usadas na aproximação WKB. Correções da
ordem ~2 podem ser obtidas diretamente da Eq. (4.12) e usando o resultado obtido para a aproximação de
ordem zero. A equação para S2 (x) será portanto
( )2 ( )
d2 S0 (x) d3 S0 (x)
dS2 (x) 3 1
dx2 dx3
= ( )3 − ( ) ,
dx 8 dS0 (x) 4 dS0 (x) 2
dx dx

onde o termo S2 (x) irá fornecer uma correção de primeira ordem para S0 (x). O segundo termo da equação
acima pode ser calculado facilmente usando

(>) (<)
dS0 2π~ dS0 2π i ~
=± e =±
dx λ(x) dx ℓ(x)

onde teremos [
(>) ( ) ]
dS2 1 d2 λ(x) 1 dλ(x) 2
=± −
dx 8π~ dx2 2λ(x) dx
e [
(<) ( ) ]
dS2 i d2 ℓ(x) 1 dℓ(x) 2
=∓ −
dx 8π~ dx2 2ℓ(x) dx

ou ainda, fazendo uma integração em x


[ ∫ ( )2 ]
1 dλ(x) 1 x
′ 1 dλ(x′ )
S2 (x) = ± − dx (4.15a)
8π~ dx 2 λ(x) dx′

[ ∫ ( )2 ]
i dℓ(x) 1 x
1 dℓ(x′ )
S2 (x) = ∓ − dx′ , (4.15b)
8π~ dx 2 ℓ(x) dx′

onde usamos λ(x) para E > V (x) e − i ℓ(x) para E < V (x) respectivamente.
As amplitudes corrigidas pelos efeitos de ordem ~2 , de fato, têm a forma
( )− 1
dS0 (x) 2 dS2 (x)
2
AE (x) ≃ C +~
dx dx
( )− 1 [ ( )( ) ]
dS0 (x) 2 ~2 dS2 (x) dS0 (x) −1
≃C 1−
dx 2 dx dx
[ ( )( ) ]
~2 dS2 (x) dS0 (x) −1
= A0 (x) 1 − (4.16)
2 dx dx

que representa na realidade quatro diferentes


√ tipos de amplitude, correspondentes respectivamente às solu-
ções com cada um dos dois sinais de ± |E − V (x)|, para os casos em que E > V (x) e E < V (x).

Condição de Validade da Aproximação WKB Usando as expressões (4.15) e (4.16) para as correções
de ordem ~2 podemos estabelecer critérios para condição de validade da aproximação WKB de ordem mais
baixa. De fato, a validade da aproximação de ordem zero
i
φE (x) ≃ A0 (x) e ~ S0 (x)
84 C AP. 4 A PROXIMAÇÃO WKB

depende das seguintes condições serem satisfeitas


( )( )−1
~2 dS2 (x) dS0 (x)
|~S2 (x)| ≪ 1 e ≪1
2 dx dx

que mostram a irrelevância das correções de segunda ordem respectivamente para o fator exponencial e para
a amplitude da função de onda aproximada.
Olhando a expressão (4.15) para S2 (x), a primeira dessas duas condições será satisfeita quando dλdx(x)
ou − i dℓdx
(x)
for suficientemente pequeno, i.e., quando for ≪ 1. Esse critério equivale tomar a desigualdade

dV (x)
2πµ~ dx
3 ≪1 (4.17)
|2µ[E − V (x)]| 2

mostrando mais uma vez que essa condição falha completamente nas vizinhanças dos pontos de inversão
do movimento clássico, i.e., nas vizinhanças do ponto de retorno clássico x = x0 , sendo E = V (x0 ). A
segunda forma da relação acima tem ainda uma interpretação clara: a estimativa linear para a variação do
potencial ao longo de um comprimento de onda local 7 deve ser muito menor que a energia cinética local. 8
A condição referente à amplitude também pode ser escrita em termos de λ(x) ou − i ℓ(x) usando as
relações obtidas para dS0 dS2
dx e para dx . Disso resulta a condição

( )2
1 d2 λ(x) 1 dλ(x)
λ (x) − ≪1
32π 2 dx2 2 dx

ou
( )2
1 d2 ℓ(x) 1 dℓ(x)
ℓ (x) − ≪1
32π 2 dx2 2 dx

que também envolve explicitamente a segunda derivada do comprimento de onda local. 9 Isso introduz a
restrição adicional em relação à expressa pela Eq. (4.17) em que a variação em x de dλ dx ou de − i dx
dℓ

é suficientemente suave. Mesmo quando o valor absoluto dessa derivada seja pequeno em toda a região
examinada, variações descontínuas ou quase descontínuas dessa derivada acarretam valores muito grandes
2 d2 ℓ
de ddxλ2 ou de − i dx 2 . As propriedades que o potencial V (x) apresentam em situações desse tipo podem ser
identificadas calculando
( )2
dV (x) d2 V (x)
d2 λ(x) 2 3 dx 1 dx2
λ(x) = |λ(x)| +
dx2 4 [E − V (x)]2 2 E − V (x)

ou
( )2
dV (x) d2 V (x)
d2 ℓ(x) 2 3 dx 1 dx2
ℓ(x) = |ℓ(x)| +
dx2 4 [E − V (x)]2 2 E − V (x)

que nos aponta a uma descontinuidade ou quase descontinuidade na derivada do potencial, i.e., apresenta
uma força clássica descontínua ou quase descontínua, fazendo com que a segunda derivada assuma valores
absolutos muito grandes.
7
Ou, no caso E < V (x), ao longo de uma distância igual ao módulo do comprimento de onda local imaginário.
8
Ou que o seu módulo, no caso E < V (x) em que ela é negativa.
9
Real ou imaginário para E > V (x) ou E < V (x) respectivamente.
4.3. F ÓRMULAS DE C ONEXÃO 85

4.3 Fórmulas de Conexão


A quebra da validade da aproximação WKB de ordem mais baixa em determinados intervalos de x nos leva
a uma limitação séria do ponto de vista de suas aplicações. As dificuldades que ocorrem devido a isso podem
ser contornadas através de um tratamento especial da função de onda nos intervalos restritos. Sabemos que
a solução exata para a equação de onda de Schrödinger deve ser contínua em todo o espaço de definição da
função φ(x). Essa condição irá permitir que sejam estabelecidas fórmulas de conexão para juntar as duas
soluções WKB através do ponto de inversão clássica considerado. A equação de onda de Schrödinger pode
ser levemente modificada, de modo que seja possível viabilizar o encontro de uma solução exata no ponto
de inversão clássica e em suas vizinhanças. Essa modificação requer que uma suposição especial seja feita
com respeito ao comportamento do potencial V (x) nas proximidades de x = x0 , i.e., região crítica.

Ponto de Inversão Linear A situação na região crítica mais comum é a que envolve um ponto de inver-
são linear, em que x0 é um ponto de inversão do movimento clássico na qual o potencial V (x) será bem
aproximado por uma função linear em x, i.e.,

dV
V (x) ≃ E + (x − x0 ) ≡ E − (x − x0 )F0 .
dx x=x0

A Fig. 4.1 mostra o potencial V (x) com ponto de inversão linear no ponto x0 , com a região classicamente

Figura 4.1 Potencial V (x) com ponto de inversão linear no ponto x0 .

proibida à esquerda do ponto de inversão. O intervalo sombreado que aparece na figura é a região perigosa,
onde a aproximação WKB deixa de ser válida. Assim a aproximação WKB terá validade tanto na região
classicamente permitida à direita do intervalo sombreado como na região classicamente proibida à esquerda
do intervalo sombreado. A constante F0 que aparece na equação acima é a força que age classicamente no
ponto de inversão x0 . Nesse caso, a equação de Schrödinger estacionária pode ser escrita nas vizinhanças
de x = x0 como
d2 φE 2µF0
+ 2 (x − x0 )φE = 0
dx 2 ~
( ) 1

introduzindo a variável z = 2µF


3
~2
0
(x − x0 ) temos

d2 φE
+ zφE = 0 (4.18)
dz 2
86 C AP. 4 A PROXIMAÇÃO WKB

onde φE é tratada como função de z. Esta equação pode ser resolvida exatamente. Antes de resolvermos a
equação acima, veremos o seguinte: as soluções da equação diferencial de Airy 10 dada por

d2 ψ
− zψ = 0
dz 2

podem ser expressas em termos das chamadas funções de Airy 11 Ai (z) e Bi (z), vide Fig. 4.2. Assintotica-

Figura 4.2 Gráficos das funções de Airy.

mente, para valores grandes e positivo de z, temos

Ai (z) ∼ Bi (z) ∼
= π − 2 z − 4 eζ ,
1 1
π − 2 z − 4 e−ζ
1 1 3
= 1
2 e onde ζ= 2
3 |z| 2 ,

para valores grandes e negativo de z, temos


( π)
Ai (z) ∼
= π − 2 |z|− 4 cos ζ −
1 1

( 4π)
∼ − 12 − 14
Bi (z) = −π |z| sen ζ − .
4
Note que a Eq. (4.18) tem um sinal positivo quando comparado com a equação diferencial de Airy, o que
nos leva para argumentos negativos. Quando temos argumentos negativos, as funções de Airy podem por
ser escritas em termos de funções de Bessel cilíndricas 12 de ordem ± 13 , i.e., J± 1
3

1√ [ 3 3
]
Ai (−z) = z J 1 ( 23 z 2 ) + J− 1 ( 23 z 2 ) ,
3 3 3

1√ [ 3 3
]
Bi (−z) = z J− 1 ( 23 z 2 ) − J 1 ( 23 z 2 ) .
3 3 3

Desse modo, voltando ao nosso problema, a solução geral da Eq. (4.18) pode ser escrita como
√ [ 3 3
]
φE (z) = z c1 J 1 ( 23 z 2 ) + c2 J− 1 ( 23 z 2 ) . (4.19)
3 3

As constantes arbitrárias c1 e c2 podem ser ajustadas de modo que a solução satisfaça condições de contorno
apropriadas.
10
George Biddell Airy (1801–1892), matemático e astrônomo inglês.
11
Para um estudo das funções de Airy, ver Abramowitz and Stegun, Handbook of mathematical functions, (1965).
12
Friedrich Wilhelm Bessel (1784–1846), matemático e astrônomo alemão.
4.3. F ÓRMULAS DE C ONEXÃO 87

Fórmulas de conexão para esse caso podem ser obtidas comparando essa solução com a solução obtida
através da aproximação WKB onde ambas sejam válidas. Assim, os coeficientes c1 e c2 de (4.19) podem
ser escolhidos tal que
c 3
φE (z → −∞) → (−z)− 4 e− 3 (−z) 2 + O(−z − 4 )
1 2 7

2
e ( )
− 14 2 3 π
+ O(z − 4 )
7
φE (z → +∞) → cz sen z +
2
3 4
onde c é um fator multiplicativo global, a ser determinado pela normalização da função φE (z). Utilizando
a aproximação linear para o potencial,
( ) 13
2π~ 2π~ ~2
z− 2
1
λ(x) = √ ≃√ = 2π
2µ[E − V (x)] 2µ(x − x0 )F0 2µF0

de modo que
∫ x ∫ x−x0
dx 2 3
dz z − 2 = z 2
1
2π =
x0 λ(x) 0 3
e o termo dominante da expressão assintótica para z → +∞ se reduz
√ ( ∫ x )
′ λ(x) dx π
φE (x ≫ x0 ) → c sen 2π +
2π x0 λ(x) 4
( )− 1
~2
onde temos c′ = c
6
2µF0 . Um procedimento análogo para a expressão assintótica quando z → −∞
nos dará √
c′ ℓ(x) 2π ∫xx ℓdx
φE (x ≪ x0 ) → e 0 (x) .
2 2π
Esta última expressão pode ser identificada com a solução (4.14) da aproximação WKB, na região classica-
(<) (<) ′
mente proibida, 13 para C− = 0 e C+ = c2 , ao passo que a expressão válida para x ≫ x0 corresponde à
(>) (>)
particular escolha dos coeficientes C+ e C− da expressão WKB (4.13), válida na região classicamente
permitida,
c′ (>) (>)
. C+ = −C− =
2i
Desse modo, a extensão para a região classicamente permitida da função de onda da aproximação WKB
que envolve a exponencial decrescente na região classicamente proibida, ou vice-versa, deve ser feita do
seguinte modo: da região proibida, x ≪ x0 , para a região permitida, x ≫ x0 ,
√ ∫x ′ √ ( ∫ )
ℓ(x) −2π 0 dx
x dx′
φE = c
2 2π e x ℓ(x′ ) ↔ φE = c λ2π
(x)
sen 2π x0 λ(x′ ) + π
4
(4.20)

que é uma das fórmulas de conexão relevantes para o caso de um ponto de inversão linear como o represen-
tado na Fig. 4.1.
Como indicado na Eq. (4.14), a forma geral da aproximação WKB para a função de onda na região clas-
sicamente proibida consiste de uma superposição de contribuições com dependências exponenciais cres-
centes e decrescentes. Porém, além da fórmula de conexão para a componente exponencial decrescente,
precisamos verificar a extensão para a região permitida da componente crescente. Isso pode ser obtido atra-
vés do procedimento descrito acima com uma escolha diferente dos coeficientes c1 e c2 na Eq. (4.19), que
nos leva da região proibida, x ≪ x0 , para a região permitida, x ≫ x0 ,
√ ∫x dx′
√ ( ∫ )
(x) 2π x 0 x dx′
φE = c ℓ2π e ℓ(x′ ) ↔ φE = c λ2π
(x)
cos 2π x0 λ(x′ ) + π
4 . (4.21)

13
∫x dx
Note que a integral x0 ℓ(x)
é negativa nas condições representadas na Fig. 4.1, em que o ponto x está à esquerda do ponto x0 .
88 C AP. 4 A PROXIMAÇÃO WKB

Um ponto que deve ser observado com relação a esse procedimento para obter as fórmulas de conexão
é o de que as funções de onda na aproximação WKB foram comparadas às formas assintóticas da solução
da equação de Airy (4.18), que envolve a aproximação linear para o potencial nas vizinhanças do ponto
de inversão. A implicação desse fato é que a validade das fórmulas obtidas depende de que os parâmetros
do problema sejam tais que a aproximação WKB seja válida numa região em que tanto a forma assintótica
da solução para o potencial linear quanto a própria forma linearizada do potencial sejam válidas. Para que
isso seja possível, é preciso que em regiões suficientemente próximas do ponto de inversão os efeitos da
curvatura do potencial sejam desprezíveis, os valores do argumento z se tornem suficientemente grandes
para permitir o uso das relações assintóticas e da aproximação WKB, ver Eq. (4.17). Isso ocorrerá se λ(x) e
ℓ(x) se tornarem suficientemente pequenos dentro da região em que a aproximação linear para o potencial
possa ser usada.
As conexões (4.20) e (4.21) são característica da inversão linear apresentada na Fig. 4.1. No caso em
que esta região esteja à direita do ponto de inversão, como mostra a Fig. 4.3, temos F0 < 0, mas a

Figura 4.3 Região proibida à direita do ponto de inversão x0 .

mesma Eq. (4.18) é obtida para a função de onda φE (x) quando considerada função da nova variável
( )1
0| 3
z = − 2µ|F~2
(x − x0 ). Isso permite adaptar facilmente os resultados (4.20) e (4.21) a essa nova situa-
ção. Assim, as fórmulas de conexão neste novo caso são simplesmente formas refletidas especularmente no
ponto de inversão x = x0 das soluções do caso ilustrado na Fig. 4.1. Logo, as fórmulas de conexão deste
novo caso, como ilustrado na Fig. 4.3, são dadas por: da região permitida, x ≪ x0 , para a região proibida,
x ≫ x0 ,
√ ( ∫ ) √ ∫ x dx′
x ′ ℓ(x) −2π x0 ℓ(x′ )
φE = c λ2π (x)
sen 2π x 0 λdx
(x′ )
+ π
4 ↔ φ E = c
2 2π e
(4.22)
√ ( ∫ ) √ ∫x dx′
x dx′ (x) 2π x0
φE = c λ2π
(x)
cos 2π x 0 λ(x′ ) + π
4 ↔ φE = c ℓ2π e ℓ(x′ ) .

4.4 Aplicação WKB para Barreira de Potencial


Nesta seção faremos o estudo da aproximação semiclássica WKB para uma barreira de potencial. O inte-
resse deste problema remonta a um trabalho clássico de 1928 de G. Gamow 14 , esse problema para uma
barreira de potencial é relacionado com a dependência que as vidas médias observadas para o decaimento
alfa de núcleos radioativos tem com a energia das partículas alfa emitidas. 15
14
George Gamow (Georgiy Antonovich Gamov) (1904–1968), físico e cosmólogo alemão.
15
G. Gamow, Zeitscrift für Physik, 51, 204 (1928).
4.4. A PLICAÇÃO WKB PARA BARREIRA DE P OTENCIAL 89

O problema consiste em obter uma aproximação para a função de onda no caso de um potencial como
mostrado na Fig. 4.4. Para uma partícula com energia E, note que esse potencial tem dois pontos de inversão

Figura 4.4 Barreira de Potencial de forma arbitrária.

clássicos em x = x1 e x = x2 . A região I, x < x1 , e a região III, x > x2 são classicamente acessíveis para
a partícula. A região II, x1 < x < x2 , é classicamente proibida. As fórmulas de conexão permitem deter-
minar a aproximação WKB para a função de onda na região II em termos da aproximação correspondente
na região I, e em seguida a aproximação WKB na região III em termos da correspondente na região II.
Isso permite relacionar as aproximações WKB para as funções de onda nas regiões classicamente permiti-
das I e III, e com isso estimar a probabilidade de tunelamento através da região classicamente proibida
II.
De um feixe de partículas com energia E, incidente pela direita sobre a barreira de potencial, ver Fig. 4.4,
algumas são refletidas no ponto de retorno clássico x = x2 , outras atravessam a região II e podem even-
tualmente alcançar a região I, através do efeito túnel.
Na região I, quando x ≪ x1 , a função de onda é oscilatória e a solução WKB pode ser conveniente-
mente colocada na forma √ [ ∫ ′
]
I λ(x) i 2π xx λdx π
′) + 4
φE (x) = c e 1 (x ,

onde c é uma amplitude arbitrária e a fase π4 foi introduzida explicitamente para conveniência posterior, no
uso das fórmulas de conexão. A condição x ≪ x1 é para excluir devidamente o intervalo perigoso em torno
do ponto de inversão linear x1 . Escrevendo a exponencial em termos de seno e cosseno, e usando as fórmulas
de conexão (4.22), resulta que a aproximação WKB para a função de onda na região II, x1 ≪ x ≪ x2 será
dada por
√ [ ∫ ′ ∫ x dx′ ]
ℓ(x) 2π xx ℓdx′ i −2π x1 ℓ(x′ )
φII
E (x) =c e 1 (x ) + e
2π 2
√ [ ∫ ′ ∫ ′ ∫ ∫x ]
ℓ(x) 2π xx2 ℓdx i −2π xx2 dx′ dx′
′ 2π xx ℓdx′ ℓ(x′ )
−2π x2 ℓ(x′ )
=c e 1 (x ) e 2 (x ) + e 1 e .
2π 2

A primeira forma da expressão acima resulta diretamente das fórmulas de conexão (4.22). Em seguida
fizemos uma transformação para conter a dependência com o segundo ponto de inversão x2 , o que faz com
que as amplitudes apareçam multiplicadas por exponenciais das integrais sob a barreira
∫x ′
± 2 dx
I± ≡ e x1 ℓ(x′ )
.
90 C AP. 4 A PROXIMAÇÃO WKB

Para a região III, quando x ≫ x2 , podemos usar as fórmulas de conexão (4.20) e (4.21). Assim a aproxi-
mação WKB para a função de onda sera dada por
√ ( ) [ ∫ ′
]
III(−) λ(x) I− − i 2π xx λdx π
′) + 4
φE (x) = i c I+ + e 2 (x
2π 4
que representa partículas incidindo pela direita sobre a barreira de potencial, e ainda
√ ( ) [ ∫x ′
]
III(+) λ(x) I− i 2π x λdx + π
φE (x) = i c −I+ + e ′
2 (x ) 4
2π 4
que representa partículas refletidas pela barreira e se afastando da mesma.
Uma amplitude de transmissão da barreira de potencial à energia E pode então ser definida através da
razão √ √
φIE (xI ) 1 λ(xI ≪ x1 ) λ(xI ≪ x1 )
TE ≡ III(−) = = I−
φ (xIII ) I+ λ(xIII ≫ x2 ) λ(xIII ≫ x2 )
E
já que na aproximação WKB o expoente de I± é tipicamente muito maior que a unidade (≫ 1), de modo
que I+ = I1− ≫ I− . Escolhendo xI e xIII nas regiões assintóticas, i.e., quando VI e VIII têm valores
constantes nas regiões I e III, resulta que
( )1
E − VIII 4
TE → I− .
E − VI
Assim, a probabilidade de tunelamento será dada por

E − VIII 2
PE = |TE | =
2
I
E − VI −
√ ∫
E − VIII −2 xx2 dx′
= e 1 ℓ(x′ ) .
E − VI

Exemplos O primeiro exemplo da aplicação da aproximação WKB em barreira de potencial pode ser
feita em um metal, onde elétrons ficam ligados por um potencial que pode ser representado por um poço
quadrado de altura finita. No metal, os níveis de energia ficam preenchidos por elétrons até o nível de Fermi
EF 16 . A diferença entre o nível de Fermi e o topo do poço de potencial V0 é a função trabalho W do metal.
Um meio de retirar os elétrons da superfície do metal é aplicar um campo elétrico ⃗E que altera a função
potencial na forma −eEx. Esse processo é conhecido como emissão a frio de elétrons pelos metais e o
coeficiente de transmissão pode ser expresso por
( 1 3
)
4 (2µ) 2 W 2
T = exp − .
3 ~eE

O segundo exemplo da aplicação da aproximação WKB em barreira de potencial é tunelamento em


física nuclear onde explicamos o efeito túnel de uma partícula α através de uma barreira de potencial
coulombiana 17 , ilustrado na Fig. 4.5, onde R é o raio nuclear e b é o ponto de inversão. O coeficiente de
transmissão, para este caso, será dado por
( )
2π Z1 Z2 e2
T = exp −
~v

2E
onde v = µ é a velocidade clássica da partícula, Z1 é a carga nuclear e Z2 (aqui = 2) é a carga da
partícula emitida, nosso caso partícula α. Este coeficiente também é chamado de fator de Gamow. Este
fator é decisivo na descrição da emissão de partículas α por alguns átomos pesados.
16
Enrico Fermi (1901–1954), físico italiano.
17
Charles Augustin Coulomb (1736–1806), físico francês.
4.4. A PLICAÇÃO WKB PARA BARREIRA DE P OTENCIAL 91

Figura 4.5 Barreira de potencial para o decaimento α.

Um terceiro e último exemplo da aplicação da aproximação WKB em barreira de potencial é a mi-


croscopia de tunelamento. O instrumento de varredura mais famoso é o microscópio de tunelamento, 18 de-
senvolvido por Binnig 19 e Rohrer 20 , que causou uma verdadeira revolução no campo da nanociência e
nanotecnologia. Em um microscopia de tunelamento, uma agulha de metal de ponta muito fina, de prefe-
rência com um único átomo na extremidade, é colocada a uma distância da ordem de um nanômetro da
amostra condutora a ser examinada. A posição da agulha é controlada com precisão de picômetros através
do uso de materiais piezelétricos, que se expandem ou se contraem em resposta a sinais elétricos. Uma
tensão de polarização V é aplicada à amostra e uma corrente de tunelamento I entre a agulha e a amostra
é medida. A corrente é proporcional a probabilidade de tunelamento através do espaço vazio entre a agulha
e a amostra. A probabilidade de tunelamento varia exponencialmente com a distância entre a agulha e a
amostra. Usando a aproximação WKB, a probabilidade de tunelamento é dada por

T ∝ e−2 2µU/~ z ,
2

onde z é a distância entre a agulha e a amostra e U é a barreira de potencial. Para valores típicos dos
parâmetros, uma variação de 0, 1 nm na altura da agulha produz uma variação de uma ordem de grandeza no
valor de T . Quando o microscópio de tunelamento trabalha no modo realimentado, um sistema de controle
faz variar a altura da agulha z, de modo que a corrente I permaneça constante. Dessa forma, o microscópio
de tunelamento é capaz de fazer um mapa topográfico da superfície, com uma resolução da ordem de 1 pm.
A medida da corrente de tunelamento I em função da tensão de polarização V pode fornecer informações
espaciais e espectroscópicas a respeito dos estados quânticos de uma nanoestrutura. No zero absoluto, a
densidade da corrente em relação à tensão é dada por
dI ∑
∝T |ψj (⃗rt )|2 δ(EF + eV − Ej ) .
dV
j

dI
De acordo com a relação acima, dV é proporcional à densidade de estados para a energia de tunelamento
dos elétrons, EF + eV , pesada de acordo com a densidade de probabilidade desses estados na posição⃗rt da
ponta da agulha.

Nota sobre Nanotecnologia A nanotecnologia e as nanociências constituem uma área multidisciplinar


voltada ao planejamento, controle e transformação de estruturas, organização especial e funcionalidades de
18
G. Binnig and H. Rohrer, IBM Journal of Research and Development, 30, 4 (1986).
19
Gerd Binnig (1947– ), físico alemão.
20
Heinrich Rohrer (1933– ), físico suíço.
92 C AP. 4 A PROXIMAÇÃO WKB

átomos e moléculas para construir sistemas maiores, tipicamente entre 1-100 nm. Por exemplo, 100 nm cor-
respondem a 1613 átomos de hidrogênio, 100 fulerenos (C60 ), 5 grãos de pólen, 21 4 RNA-ribossômicos, 22
2,5 virus da poliomielite ou 2 centésimos de eritrócito humano. Suas ideias foram primeiramente lançadas
por Feynman 23 , em 1959, na famosa palestra “Há muito espaço lá embaixo”, quando apresentou ideias que
cobriam desde como colocar o conteúdo inteiro de enciclopédias na cabeça de alfinetes até ao tratamento de
sistemas de massa bastante reduzida e área superficial elevada, chamando a atenção para o fato de que, na
dimensão atômica, trabalha-se com leis diferentes e, assim, devem ser esperados eventos diferentes: novos
tipos de efeitos e novas possibilidades. Feynman já argumentava: “Não há nenhuma violação das leis da
física nos princípios da nanomanipulação. É apenas uma questão de tempo”. 24
Fascinantes características dos nanomateriais devem-se ao número finito de elementos regulando di-
mensão, fração de espécies superficiais ou até se constituem meios contínuos. Por exemplo, quando se
abaixa além de certo número de átomos os metais começam a perder as estruturas de banda. 25 Por ou-
tro lado, as estruturações nanométricas sobre superfícies podem em certas condições alterarem localmente
os valores dos índices de refração, afetando propriedades ópticas como a capacidade de transmissão e de
reflexão da luz. 26
Em 2004, Andre Geim 27 e Konstantin Novoselov 28 foram os primeiros cientistas a identificar, isolar e
caracterizar o primeiro cristal bidimensional já descoberto, o grafeno,29 composto por uma única camada
de átomos de carbono. 30
As pesquisas em nanociência e nanotecnologia vem tendo um enorme desenvolvimento nos últimos
anos e é sem duvida uma das grandes linhas de pesquisa em andamento no fascinante mundo da física
moderna.

4.5 Aplicação WKB para Estados Ligados


Este problema consiste, de uma forma geral, em obter uma aproximação para a função de onda no caso de
um poço de potencial como mostrado na Fig. 4.6, que tende ao infinito para grandes valores de x, tanto po-
sitivo quanto negativo. Para uma partícula com energia E, como mostrada nessa figura, existem dois pontos
de inversão lineares, indicados por x1 e x2 . As regiões I e III são classicamente proibidas para a partícula
e a região II é classicamente permitida. A solução procurada para o problema deve ser exponencialmente
decrescente nas regiões I e III e, como acontece na solução da equação de Schrödinger, essa condição nos
leva à obtenção de estados ligados.
Na região I, a função de onda será puramente decrescente no sentido x ≪ x1 , podendo ser expressa por
√ ∫ ′
I c ℓ(x) 2π xx ℓdx ′
φE (x) = e 1 (x )
2 2π
então, sendo x1 um ponto de inversão linear, a sua continuação na região II, x1 ≪ x ≪ x2 , é dada pela
fórmula de conexão (4.20) como
√ ( ∫ x )
II λ(x) dx′ π
φE (x) = c sen 2π ′
+ . (4.23)
2π x1 λ(x ) 4
21
P. Aussilous and D. Quéré, Nature, 411, 924-927 (2001).
22
G. M. Whitesides, Nanoscience, Nanotechnology, and Chemistry. Small, 1(2), 172-179 (2005).
23
Richard Philips Feynman (1918–1988), físico americano.
24
R. Feynman, Reunião anual da American Physical Society (1959).
25
B. M. Quinn et al., J. Am. Chem. Soc., 125(22), 6644-6645 (2003).
26
H. Kikuta, H, Toyota and W. Yu, Opt. Rev., 10(2), 63-73 (2003).
27
Andre Konstantinovich Geim (1958– ), físico russo.
28
Konstantin Sergeevich Novoselov (1974– ), físico russo-britânico.
29
Do inglês graphene. Folha de grafita, com a espessura de um átomo, com uso proposto em dispositivos nanotecnológicos, cf.
Aurélio.
Grafita, forma alotrópica do carbono, cristalina, com sistema hexagonal, negra, usada como mina de lápis e em diversos equi-
pamentos e peças industriais, cf. Aurélio.
30
K. S. Novoselov, A. K. Geim, S. V. Morozov, D. Jiang, Y. Zhang, S. V. Dubonos, I. V. Grigorieva and A. A. Firsov, Science,
306, 666-669 (2003).
4.5. A PLICAÇÃO WKB PARA E STADOS L IGADOS 93

Figura 4.6 Poço de Potencial de forma arbitrária.

Por outro lado, se a solução na região III, x ≫ x2 , é também decrescente, i.e., tem a forma
√ ∫
III c′ ℓ(x) −2π xx ℓdx ′

φE (x) = e 2 (x )
2 2π
sendo também x2 um ponto de inversão linear, a sua extensão para a região permitida II, x1 ≪ x ≪ x2 , é
dada pela primeira das fórmulas de conexão (4.22) como
√ ( ∫ x2 )
II ′ λ(x) dx′ π
φE (x) = c sen 2π + . (4.24)
2π x λ(x′ ) 4
Para que exista um estado estacionário à energia E é preciso que as expressões (4.23) e (4.24) coincidam.
Portanto os valores de E para os quais existem estados estacionários são tais que
√ ( ∫ x2 ) √ ( ∫ x )
λ(x) dx ′ π λ(x) dx′ π

c sen 2π + =c sen 2π +
2π x λ(x′ ) 4 2π ′
x1 λ(x ) 4
ou seja
√ [ ∫ x2 ] √ [ ∫ x2 ( ∫ x2 )]
′ λ(x) dx′ π λ(x) dx′ π dx′ π
c sen 2π + = c sen 2π + − 2π + .
2π x λ(x′ ) 4 2π ′
x1 λ(x ) 2 x λ(x′ ) 4
Esta condição estará satisfeita para valores de E tais que
( ∫ x2 ) ( ∫ x2 )
dx′ π c dx′ π
sen 2π ′
+ =0 e − ′ cos 2π ′
+ = 1,
x1 λ(x ) 2 c x1 λ(x ) 2
ou seja, ∫ ( )
x2
dx′ 1 c
2π = n+ π e = (−1)n (4.25)
x1 λ(x′ ) 2 c′
com n ≥ 0, inteiro. Lembrando que

2π 2µ[E − V (x)] p(x)
= =
λ(x) ~2 ~
a primeira dessas duas condições pode ser expressa como
∫ x2 ( )
′ ′ 1
p(x )dx = n + π~
x1 2
94 C AP. 4 A PROXIMAÇÃO WKB

ou ainda como I ( )
′ ′1
p(x )dx = n + h
2
onde a integração se estende sobre um período completo do movimento clássico da partícula. Esta condição
reproduz a condição de quantização usada por Bohr na velha teoria quântica, ver (1.15), exceto pela presença
do fator h2 devido a energia de ponto zero. O inteiro n pode ser interpretado como o número de zeros da
função de onda, e a fase (−1)n em (4.25) tem em conta o fato de que as caudas decrescentes da função
de onda nas regiões classicamente proibidas têm fases opostas quando se ligam a soluções oscilatórias com
um número ímpar de zeros na região classicamente permitida, ver Fig. 4.7, onde mostra o comportamento

Figura 4.7 Comportamento qualitativo das funções de onda.

qualitativo das funções de onda para estados estacionários com n = 1 e n = 2 mostrando a diferença de
fase nas regiões I e III nos casos em que n é ímpar.

Última Observação Da mesma forma que no caso do tunelamento de uma barreira de potencial em
energias próximas à do topo da barreira, o uso da aproximação WKB para o cálculo de energias de estados
estacionários próximos ao mínimo do poço de potencial não é a rigor justificável, devido à diminuição da
distância entre os dois pontos de inversão lineares e à consequente violação das condições de validade dessa
aproximação agora na região classicamente permitida. É fácil verificar, no entanto, que uma aplicação direta
da condição (4.25) a um potencial quadrático, como o oscilador harmônico, leva ao espectro quântico exato
para esse potencial. Devido a esse fato, sempre que o potencial possa ser bem descrito por uma aproximação
quadrática numa região suficientemente extensa em torno de seu mínimo, o espectro obtido através de (4.25)
dará uma boa aproximação para o espectro exato também para valores pequenos de n. No entanto, a validade
da aproximação WKB na região classicamente permitida a rigor só se justifica para valores grandes de n, o
que está relacionado com o princípio de correspondência de Bohr.

Problemas
4.1 A função de onda na aproximação WKB para um problema unidimensional é escrita como
1 ∫
e ~ p(x) dx ei ~S2 (x) ,
i
φE (x) = √
√ p(x)
com p(x) = 2µ[E − V (x)]. Mostre que ~S2 (x) ≪ 1 se √~2µ [p(x) 1 dV
]3 dx
≪ 1.

d2 ψ 2µ
4.2 Encontre a solução da equação de Schrödinger unidimensional dx2
+ ~2
[E − V (x)] ψ = 0, na qual a
∫x
√1 e± ~
i 0 p dx
aproximação WKB tem a forma p
x para que abandone o ponto de inversão dado na Fig. 4.3.
4.5. A PLICAÇÃO WKB PARA E STADOS L IGADOS 95

2
4.3 Encontre a solução da equação de Schrödinger unidimensional ddxψ2 + 2µ
~2
[E − V (x)] ψ = 0, na qual

1 x0
± |p|
a aproximação WKB tem a forma √ e ~ x
1 dx
para que abandone o ponto de inversão dado na
|p|
Fig. 4.1.

4.4 Mostre que, na aproximação WKB, o coeficiente de transmissão de uma partícula de massa µ e energia
( )−2
E através
∫ de um potencial dado pela Fig. 4.4 é dado pela expressão T = e−2L 1 + 14 e−2L , onde
x
L = ~1 x12 |p| dx .

4.5 Calcule, usando aproximação WKB, o coeficiente de transmissão para uma barreira de potencial para-
bólica {
V0 (1 − x2 /x20 ) se |x| < x0 ,
V (x) =
0 se |x| > x0 ,
conforme vemos na Fig. 4.8.

Figura 4.8 Barreira de potencial parabólica.

4.6 Determine, na aproximação WKB, os níveis de energia discreto de uma partícula nos seguintes poten-
ciais:
a) V (x) = 12 µω 2 x2 do oscilador harmônico.
b) V (x) = − coshV20 x , conforme Fig. 4.9,
(c)

(x)
Figura 4.9 Potencial −V0 cosh−2 c .

4.7 Uma partícula de massa µ move-se em uma dimensão entre duas barreiras de potencial de altura infinita
em x = −a e x = a. Nesse intervalo, a energia potencial é V (x) = −A|x|, sendo A uma constante
positiva. Usando a aproximação WKB, obtenha uma expressão para os níveis de energia no caso de
E ≤ 0. Estime o valor mínimo que a constante A requer para que os níveis de energia com E ≤ 0
exista.

4.8 Use a aproximação WKB e discuta o problema do decaimento da partícula α, ver Fig. 4.5.

4.9 Usando a aproximação WKB, discuta o movimento de uma bola saltando sobre uma superfície dura,
através do potencial
{
µgx para x > 0 ,
V (x) =
∞ para x < 0 ,
onde x é a altura da bola medida da superfície dura. Sugestão: Consulte o livro do Prof. J. J. Sakurai
96 C AP. 4 A PROXIMAÇÃO WKB

[74].

4.10 Mostre que a aplicação das relações (4.25) a um oscilador harmônico unidimensional de frequência
ω0 leva ao espectro quântico exato do oscilador.

4.11 Aplique a aproximação WKB para um partícula de massa µ movendo-se com energia E no campo
2 2
de um oscilador de potencial invertido, V (x) = − µω2 x . Determine as funções de onda WKB para
valores positivo e negativo de energia. Estime os limites da região na qual as funções de onda WKB são
aproximadas da funções de onda exatas da equação de Schrödinger.

4.12 Aplique o método WKB para determinar a energia dos estados estacionários de partículas que se
movem dentro de uma caixa de paredes impenetráveis. Analise os resultados e compare com os valores
exatos.

Leitura Recomendada
Com relação a aproximação WKB, recomendo ao leitor uma leitura paralela dos livros:

– A. F. R. de Toledo Piza [79];


– E. Merzbacher [61];
– W. Wolney Filho [89];
– A. Messiah [62].

O livro do Prof. Toledo Piza, é um dos melhores textos que encontrei e recomendo fortemente, esse trabalho
está de forma moderna, lucida e elegantemente escrito.
Solicita-se ao leitor que estude fortemente as funções especiais usadas em física, como as funções de
Airy e funções cilíndricas de Bessel. Uma excelente discussão sobre essas funções poderá ser encontrada
nos livros:

– G. Arfken [3];
– P. M. Morse and H. Feshbach [65].
Capítulo 5
Formalismo da Mecânica Quântica

Neste capítulo iremos estudar o formalismo matemático da mecânica quântica, utilizaremos a notação de
Dirac, bra e ket, e a estrutura algébrica da representação matricial. Como motivação para o desenvolvimento
deste capítulo iremos utilizar o experimento de Stern-Gerlach, originalmente proposto por O. Stern 1 em
1921 e realizado em colaboração com W. Gerlach 2 em 1922. O entendimento dos experimentos proposto
serão a nossa base para o formalismo que queremos desenvolver.

5.1 Experimento de Stern-Gerlach


Começaremos nossa discussão com o experimento de Stern-Gerlach, que podemos ver seu esquema na
Fig. 5.1, mostrando: o forno de onde sairá o feixe de prata E, a trajetória do feixe F e o ímã A com a

Figura 5.1 Esquema do experimento de Stern-Gerlach.

orientação do campo magnético ⃗B. 3


O aparato utilizado por Stern-Gerlach consistia essencialmente de um ímã que produzia um campo
magnético não uniforme. Um feixe direcionado de átomos de prata (Ag) era obtido aquecendo a prata em
um forno com pequeno orifício por onde os átomos escapavam. A escolha da prata deve-se ao fato dela
possuir apenas um elétron na sua camada mais externa, pois o átomo de prata contém 47 elétrons dos quais
46 deles são visualizados como uma nuvem de elétrons esfericamente simétrica sem momentum angular
“liquido”. Sendo assim a contribuição do momentum angular está associada ao 47o elétron (5s1 ). Se esses
elétrons não tivessem spin, seria observado o mesmo que na ausência do campo magnético, ou seja, os
átomos não seriam desviados pelo ímã. A observação do deslocamento do feixe em dois pode ser facilmente
compreendida atribuindo um momentum angular intrínseco, ou spin, ⃗S aos elétrons tal que, ao interagirem
com um campo magnético na direção z, ficasse evidente que os autovalores associados à componente Sz
valem ± ~2 .

1
Otto Stern (1888–1969), físico alemão.
2
Walther Gerlach (1899–1979), físico alemão.
3
W. Gerlach and O. Stern, Zeitschrift für Physik 9, 349–352 (1922); Ibidem, 353–355 (1922); W. Gerlach and O. Stern, Annalen
der Physik 74, 673–699 (1924).

97
98 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Isso ocorre porque ao elétron é associado um momento magnético, proporcional ao spin, dado por
e ⃗
⃗s = −
µ gs S ,
2µc

onde gs = 2, é chamado de fator g para o elétron. Assim, quando o elétron interage com um campo
magnético não uniforme ⃗B = Bz k̂, sofre a ação de uma força proporcional ao gradiente do campo, i.e.,

⃗F = −∇V
⃗ = ∇(⃗
⃗ µs · ⃗B) ∂Bz
⇒ Fz = (µs )z .
∂z
Na configuração do experimento, os átomos podiam ser desviados para cima ou para baixo, caso tivessem
spin.
Classicamente espera-se uma distribuição contínua, porém o experimento apresentou uma distribuição
com dois picos, um para cima (up) com Sz = ~2 no estado |+⟩ e outro para baixo (down) com Sz = − ~2 no
estado |−⟩. Em mecânica quântica podemos escrever as relações de autoestado e autovalores,

~
Sz |+⟩ = + |+⟩
2
~
Sz |−⟩ = − |−⟩ .
2
Esse experimento também ficou conhecido como quantização do espaço.

Nota sobre o Spin Em 1925, George Uhlenbeck 4 e Samuel Goudsmit 5 sugeriram um novo grau de liber-
dade para o elétron, um momentum angular intrínseco, o spin, independente do momentum angular orbital e,
portanto, de qualquer interação. 6 Com o resultado deste trabalho, Uhlenbeck e Goudsmit deram uma expli-
cação para os resultados obtidos no experimento de Stern-Gerlach, compatível com apenas dois autovalores
para a projeção do momento dipolar magnético na direção z, seria possível se fosse atribuído ao elétron um
momentum angular intrínseco (⃗S).
A principal aplicação do conceito de spin, no entanto, veio com o princípio de exclusão de Pauli 7 . Ape-
sar da relutância inicial de aceitar o conceito de spin, em 1925 Pauli propõe que a estrutura eletrônica dos
átomos seria explicada com o chamado princípio de exclusão, o qual estabelece que os números quânticos,
incluindo os de spin, que caracterizam dois elétrons, não podem ser todos simultaneamente iguais. 8 Em
1927, Pauli apresentou uma equação que descreve fenomenologicamente a dinâmica da interação entre uma
partícula com spin e um campo magnético. 9
É interessante notar que o momento angular intrínseco, spin de uma partícula pode ser inteiro ou semi-
-inteiro, dependo da partícula considerada. Por exemplo, elétrons, prótons e neutrons possuem spin 12 , en-
quanto que os pions (π 0 , π ± ) e os kaons (K 0 , K ± ) possuem spin zero. São também conhecidas partículas
com spin 1, tais como o fóton (γ), o Z 0 , os W ± , e o ρ, e com spin 23 , tais como ∆++ .

Experimento Stern-Gerlach Sequencial Vamos considerar uma série de experimentos Stern-Gerlach


SG sequenciais. A Fig. 5.2, mostra três experimentos para ilustração o problema

Experimento 1 No primeiro arranjo da figura, temos inicialmente um SGẑ que produz os dois picos, um
para cima e outro para baixo. Iremos bloquear o feixe de spin down, teremos então somente o feixe de spin
up, com Sz = + ~2 no estado |+⟩. Esse feixe caminha para outro SGẑ. Aqui encontramos todas as partículas
no estado |+⟩ com autovalor de Sz = + ~2 .
4
George Eugene Uhlenbeck (1900–1988), físico holandês.
5
Samuel Abraham Goudsmit (1900–1978), físico holandês.
6
G. E. Uhlenbeck and S. Goudsmit, Nature 117, 264–265 (1926)
7
Wolfgang Pauli (1900–1958), físico austríaco.
8
W. Pauli, Zeitschrift für Physik 31, 765 (1925)
9
W. Pauli, Zeitschrift für Physik 43, n. 8, 601–623 (1927)
5.1. E XPERIMENTO DE S TERN -G ERLACH 99

Figura 5.2 Experimento de Stern-Gerlach sequencial.

Experimento 2 No segundo arranjo da figura, considera-se o feixe de spin up, como no primeiro caso.
Esse feixe irá para um SGx̂, com seu campo magnético orientado ao longo do eixo x. Ao passar pelo
segundo SG teremos 50% do feixe de partículas com Sx = + ~2 , estando no estado |+⟩x e 50% do feixe de
partículas com Sx = − ~2 , estando no estado |−⟩x . Por outro lado, se considerarmos o feixe inicial saindo
do primeiro SG com spin down, encontramos o mesmo resultado.

Experimento 3 No terceiro arranjo da figura, temos o caso mais interessante para a nossa discussão,
onde é adicionado um terceiro SGẑ na linha do feixe. Até o segundo SGx̂ temos o experimento 2, porém
iremos bloquear o feixe de spin down do segundo SG, e teremos somente o estado |+⟩x indo para o terceiro
SGẑ. Como resultado temos 50% do feixe de partículas com Sz = + ~2 , no estado |+⟩ e 50% do feixe
de partículas com Sz = − ~2 , no estado |−⟩. Essa situação é uma surpresa pois como aparece o estado
|−⟩ após o terceiro SG, se inicialmente temos certeza de que a componente |−⟩ após o primeiro SG foi
completamente bloqueada. Há em fato uma analogia na física clássica, a transmissão de luz polarizada
através de filtros de polarização. A correspondência associada com a luz pode ser feita por

Sz ± átomo ↔ eixos x, y luz polarizada


Sx ± átomo ↔ eixos x′ , y ′ luz polarizada

onde os eixos x′ e y ′ são os eixos x e y rodados em 45o . Assim, podemos escrever os estados |±⟩x como
superposição dos estados |±⟩ de Sz
1
|+⟩x = √ [|+⟩ + |−⟩] , (5.1a)
2
1
|−⟩x = √ [|+⟩ − |−⟩] . (5.1b)
2
E a respeito dos estados |±⟩y , esses também formam uma combinação linear dos estados |±⟩ de Sz .
Aqui a analogia clássica é a luz de polarização circular que poderá ser expressa como
[ ]
⃗E = √1 x̂ei(kz−ωt) + i ŷei(kz−ωt)
2
π
onde podemos usar i = ei 2 . A correspondência associada com a luz polarizada circularmente pode ser feita
por

Sy + átomo ↔ luz polarizada circularmente direita


Sy − átomo ↔ luz polarizada circularmente esquerda

e teremos
1
|±⟩y = √ [|+⟩ ± i |−⟩] . (5.2)
2
100 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Uma excelente discussão desses experimentos poderá ser aprofundada no excelente Feynman lectures
on physics.10

5.2 Notação de Dirac – Bra e Ket


Na seção anterior fizemos uma analise do experimento Stern-Gerlach, e indicamos que podemos representar
as equações através do estado | ⟩ para Sx , Sy e Sz . Nesta seção começamos por supor que a teoria quântica
seja formulada em termos de um espaço vetorial complexo, em geral de dimensão infinita, munido de um
produto escalar hermitiano. A partir desse ponto, para escrever os vetores desse espaço vetorial vamos
utilizar uma notação muito conveniente, desenvolvida por P. A. M. Dirac,11 na qual um vetor genérico é
indicado pelo símbolo | ⟩. Aqui o espaço vetorial em questão é conhecido como espaço de Hilbert 12 , que
estudou espaços vetoriais em dimensões infinita. Vetores específicos, designados por rótulos identificadores
como φ, ψ, etc. aparecem então na forma de vetores kets |φ⟩, |ϕ⟩, etc.

Kets Usando a notação ket, temos a informação completa à respeito do estado físico; toda a informação
que podemos obter está contida no vetor ket, como o spin, sua orientação, etc. Dado os vetores kets, esses
satisfazem as seguintes propriedades

1. A soma de dois kets resulta em um outro ket

|χ⟩ = |φ⟩ + |ψ⟩ ; (5.3)

2. Associativa
|χ⟩ + (|φ⟩ + |ψ⟩) = (|χ⟩ + |φ⟩) + |ψ⟩ ; (5.4)

3. Comutativa
|φ⟩ + |ψ⟩ = |ψ⟩ + |φ⟩ ; (5.5)

4. Existe um vetor ket nulo |∅⟩ tal que


|φ⟩ = |φ⟩ + |∅⟩ (5.6)
para todo |φ⟩;

5. Para todo vetor ket |φ⟩ existe um outro ket | − φ⟩ tal que

|φ⟩ + | − φ⟩ = |∅⟩ . (5.7)

O produto de um vetor ket |φ⟩ por um número complexo c tem como resultado um vetor ket c|φ⟩.
Um importante postulado é que |φ⟩ e c|φ⟩, com c ̸= 0 corresponde à um mesmo estado físico. Em outras
palavras, somente a "direção" no espaço vetorial é significante. O número complexo c pode operar, sem
fazer diferença, da seguinte forma
c|φ⟩ = |φ⟩c . (5.8)
No caso particular onde c = 0, teremos um ket nulo.
Uma observável física, tais como o momentum ou spin, está associada a um operador, tal como A, no
espaço vetorial em questão. Então o operador atuando no vetor ket será

A · (|φ⟩) = A|φ⟩ . (5.9)

Em geral
A|φ⟩ ̸= c|φ⟩
10
R. Feynman et al., The Feynman lectures on physics, (1963).
11
Ver esse magnífico trabalho no maravilhoso livro, P. A. M. Dirac, The principles of quantum mechanics, (1958).
12
David Hilbert (1862–1943), matemático alemão.
5.2. N OTAÇÃO DE D IRAC – Bra E Ket 101

onde c é complexo. Mas em analogia com os autovetores da álgebra linear, existem os autokets do operador
A, onde
A|φ′ ⟩ = a′ |φ′ ⟩, A|φ′′ ⟩ = a′′ |φ′′ ⟩, · · · (5.10)
onde a′ , a′′ , · · · são apenas números. O conjunto de números dado por {a′ , a′′ , · · · } são conhecidos
como o conjunto dos autovalores do operador A. E, finalmente o estado físico correspondente ao autoket é
chamado de autoestado.
Como exemplo, vamos usar o sistema de spin 12 , em que temos as relações de autovalores e autokets
expressa por
~
Sz |+⟩ = + |+⟩
2
~
Sz |−⟩ = − |−⟩
2
onde |±⟩ são os autokets do operador Sz com os autovalores ± ~2 . No caso do operador Sx aplicado em |±⟩x
teremos
~
Sx |+⟩x = + |+⟩x
2
~
Sx |−⟩x = − |−⟩x .
2
Para um ket arbitrário |φ⟩ podemos escrever como a combinação linear

|φ⟩ = cn |ϕn ⟩ , (5.11)
n

onde cn são coeficientes complexos.

Bra e Produto Interno: Uma classe importante de objetos que é possível definir em um espaço vetorial
complexo é a classe de todas as funções lineares, com valores complexos, cujo o argumento é um vetor
do espaço. A notação genérica introduzida por Dirac para esses objetos é ⟨ |. Funções lineares específicas,
designadas por rótulos identificadores a, b, etc. aparecem como vetores bra ⟨a|, ⟨b|, etc.. Assim, o resultado
da ação da função linear ⟨a| sobre o ket |φ⟩, ⟨a|φ⟩, é um número complexo. A linearidade de um ⟨χ|
qualquer significa que
⟨χ| (c1 |φ1 ⟩ + c2 |φ2 ⟩) = c1 ⟨χ|φ1 ⟩ + c2 ⟨χ|φ2 ⟩ , (5.12)
i.e., o número complexo que resulta da aplicação de uma função linear qualquer a uma combinação linear
de vetores kets é a combinação linear dos números complexos que resultam dessa aplicação.
Algumas propriedades importantes das funções lineares são:
1. A soma (associativa e comutativa) de duas funções

(⟨a| + ⟨b|) |φ⟩ = ⟨a|φ⟩ + ⟨b|φ⟩ ; (5.13)

2. O produto de uma função por um número complexo

(c⟨a|) |φ⟩ = c⟨a|φ⟩ ; (5.14)

3. A função nula ⟨⊘| tal que


⟨⊘|φ⟩ = 0 (5.15)
para qualquer |φ⟩;

4. Para cada ⟨a| podemos ter ⟨−a| através de ⟨−a|φ⟩ = −⟨a|φ⟩, tal que

⟨a| + ⟨−a| = ⟨⊘| . (5.16)


102 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Com essas propriedades e definições, resulta que o conjunto de funções lineares sobre o espaço vetorial
considerado tem por sua vez uma estrutura de espaço vetorial, chamado de espaço dual do espaço de partida.
Note que o vetor bra é o correspondente dual do vetor ket

|φ⟩ ↔ ⟨φ|
|φ⟩ + |ψ⟩ ↔ ⟨φ| + ⟨ψ|
c|φ⟩ ↔ c∗ ⟨φ| não c⟨φ|

onde c∗ é o complexo conjugado de c, no qual é um ponto muito importante. Geralmente temos

c1 |φ1 ⟩ + c2 |φ2 ⟩ = c∗1 ⟨φ1 | + c∗2 ⟨φ2 | (5.17)

onde essa é uma correspondência antilinear. É fácil verificar que o correspondente dual do vetor nulo |∅⟩ é
a função nula ⟨⊘|, i.e.,
|∅⟩ ↔ ⟨⊘| ≡ ⟨∅| .

Agora podemos definir o produto interno de um bra e um ket, da seguinte forma ⟨φ|ψ⟩. 13 Esse produto
é, em geral, um número complexo. Assim, temos as seguintes propriedades do produto interno:

⟨φ|ψ⟩ = ⟨ψ|φ⟩∗ (5.18a)


⟨φ|c1 ψ1 + c2 ψ2 ⟩ = c1 ⟨φ|ψ1 ⟩ + c2 ⟨φ|ψ2 ⟩ (5.18b)
⟨c1 φ1 + c2 φ2 |ψ⟩ = c∗1 ⟨φ1 |ψ⟩ + c∗2 ⟨φ2 |ψ⟩ (5.18c)
⟨φ|φ⟩ ≥ 0, somente = 0 se |φ⟩ = 0 . (5.18d)

Ainda, se tomarmos dois kets, tal que

⟨φ|ψ⟩ = 0 ⇒ ⟨ψ|φ⟩ = 0 (5.19)

a última parte da equação acima vem de (5.18a), se diz que |φ⟩ e |ψ⟩ são ortogonais. E ainda podemos
explicitamente normalizar um ket |φ̃⟩ por

1
|φ⟩ = √ |φ̃⟩ (5.20)
⟨φ̃|φ̃⟩

onde ⟨φ̃|φ̃⟩ é a norma de |φ̃⟩.
Cabe nesse momento uma nota final. Um espaço vetorial complexo, de dimensão infinita, munido de
um produto escalar que define, em particular, a norma dos vetores que o constituem, é chamado espaço
de Hilbert quando dotado ainda da propriedade adicional de completeza. Esta propriedade consiste em que
toda sequência infinita de vetores {|φi ⟩}, i = 1, 2, · · · , tal que

∥|φi ⟩ − |φj ⟩∥ < ϵ

com ϵ arbitrariamente pequeno, desde que i e j sejam maiores que algum N (ϵ), chamadas sequências de
Cauchy, tem um limite |φ⟩ que é um vetor pertencente ao espaço. No que se segue vamos supor também que
o espaço a ser considerado é tal que admite bases constituídas de um conjunto enumeráveis de vetores |an ⟩,
n = 1, 2, · · · , que é uma propriedade conhecida como separabilidade. Um espaço de Hilbert separável
será então tomado como substrato natural sobre o qual pode ser desenvolvida a cinemática e a dinâmica da
mecânica quântica.
13
Na literatura o produto interno é frequentemente mencionado como produto escalar por causa de sua analogia com ⃗a · ⃗b no
espaço euclidiano.
5.3. O PERADORES L INEARES 103

5.3 Operadores Lineares


Na seção §2.8, fizemos um estudo detalhado de operadores usando a função de onda. Nesta seção vamos
rever este estudo fazendo uso da notação de Dirac.
Um operador linear A, num espaço de Hilbert, transforma vetores kets desse espaço em outros vetores
kets do mesmo espaço,
|ψ⟩ = A|φ⟩ , (5.21)
e se comporta com relação às operações lineares como

A (c1 |φ1 ⟩ + c2 |φ2 ⟩) = c1 A|φ1 ⟩ + c2 A|φ2 ⟩ . (5.22)

Uma exceção é o operador reverso temporal que é um operador antilinear.


A soma e o produto de dois operadores lineares A e B podem ser definidos na forma

(A + B) |φ⟩ = A|φ⟩ + B|φ⟩ (5.23a)


(AB) |φ⟩ = A (B|φ⟩) (5.23b)

e correspondem também a operadores lineares. Em geral, o produto de dois operadores é não comutativo e
obedece a regra de comutação

(AB) |φ⟩ ̸= (BA) |φ⟩ (5.24a)


[A, B] = AB − BA ̸= 0 . (5.24b)

Se os dois operadores A e B são iguais, então

A=B se A|φ⟩ = B|φ⟩ , (5.25)

para um ket arbitrário. O operador A é dito operador nulo se, para um ket arbitrário, temos

A|φ⟩ = 0 . (5.26)

O produto de um operador por um número complexo c também é definido simplesmente por

(cA) |φ⟩ = c (A|φ⟩) . (5.27)

Um operador atua em um vetor bra pelo “lado direito”

(⟨φ|) · A = ⟨φ|A

e o produto resulta em outro vetor bra. Note que A|φ⟩ e ⟨φ|A em geral não são uma correspondência dual.
O correspondente dual nesse caso é
A|φ⟩ ↔ ⟨φ|A† . (5.28)
Naturalmente o operador A† é o operador adjunto hermitiano, ou simplesmente operador adjunto, de A.
O operador A é hermitiano se
A = A† . (5.29)
Dado dois vetores, um bra ⟨φ| e um ket |ψ⟩, o resultado do produto

(|ψ⟩) · (⟨φ|) = |ψ⟩⟨φ| (5.30)

é conhecido como produto externo, que atua como um operador. De fato, se

(|ψ⟩⟨φ|) · |χ⟩ = |ψ⟩ · (⟨φ|χ⟩) (5.31)


104 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

onde ⟨φ|χ⟩ é um número, tal que o produto externo atuando em um ket é exatamente um outro ket, em
outras palavras |ψ⟩⟨φ| atuou como um operador. Se defino um operador como

A = |ψ⟩⟨φ| (5.32)

então
A† = |φ⟩⟨ψ| . (5.33)
Outra importante ilustração, é quando temos o operador A entre dois kets |φ⟩ e |ψ⟩, o produto escalar
será:
⟨ψ| (A|φ⟩) = (⟨ψ|A) |φ⟩ = ⟨ψ|A|φ⟩ . (5.34)
Note que temos os elementos da matriz associada ao operador A. Usando o correspondente dual (5.28),
então
{( ) }∗
⟨ψ|A|φ⟩ = ⟨ψ| (A|φ⟩) = ⟨φ|A† |ψ⟩
= ⟨φ|A† |ψ⟩∗ . (5.35)

Para A hermitiano, i.e., A = A† teremos

⟨ψ|A|φ⟩ = ⟨φ|A|ψ⟩∗ . (5.36)

A definição do operador adjunto permite verificar as seguintes propriedades:

1. (A† )† = A, de fato,
⟨φ|(A† )† |ψ⟩ = ⟨ψ|A† |φ⟩∗ = ⟨φ|A|ψ⟩
para quaisquer |φ⟩ e |ψ⟩;

2. (A + B)† = A† + B† , pois

⟨φ| (A + B)† |ψ⟩ = ⟨ψ|A + B|φ⟩∗ = ⟨ψ|A|φ⟩∗ + ⟨ψ|B|φ⟩∗


= ⟨φ|A† |ψ⟩ + ⟨φ|B† |ψ⟩ = ⟨φ|(A† + B† )|ψ⟩ ;

3. (AB)† = B† A† , de fato,

⟨φ|(AB)† |ψ⟩ = ⟨ψ|AB|φ⟩∗ = ⟨φ|B† A† |ψ⟩ ;

4. (cA)† = c∗ A† , o operador cA é definido como o produto da "multiplicação do número complexo c" com
o operador A.

Usando a relação (AB)† = B† A† , podemos estabelecer a seguinte correspondência dual

AB|φ⟩ = A (B|φ⟩) ↔ (⟨φ|B† )A† = ⟨φ|B† A† .

Uma extensão dessa correspondência dual é

c1 A|φ1 ⟩ + c2 A|φ2 ⟩ ↔ c∗1 ⟨φ1 |A† + c∗2 ⟨φ2 |A† .

Finalizando esta seção, se temos uma observável física associada a um operador A, o valor esperado é
representado por
⟨A⟩ = ⟨φ|A|φ⟩ , (5.37)
para o qual existe um análogo na mecânica quântica ondulatória.
5.4. BASE DOS Kets E R EPRESENTAÇÃO M ATRICIAL 105

5.4 Base dos Kets e Representação Matricial


O operador A, atuando sobre um dado autoket |φ⟩, produz um outro autoket, cuja direção não é alterada
pela ação do operador, i.e., a ação do operador apenas multiplica-o por um certo fator numérico, tornando-o
um múltiplo de si mesmo. O fator real ou complexo pelo qual o autoket fica multiplicado é o conhecido
autovalor do operador A. O conjunto de números dado por {a1 , a2 , · · · } são conhecidos como o conjunto
dos autovalores dos correspondentes autokets. Assim,

A|φ1 ⟩ = a1 |φ1 ⟩, A|φ2 ⟩ = a2 |φ2 ⟩, ··· (5.38)

Seja A um operador hermitiano, i.e., A = A† . Usando a relação

0 = ⟨φ2 |A|φ1 ⟩ − ⟨φ2 |A|φ1 ⟩ = a1 ⟨φ2 |φ1 ⟩ − a∗2 ⟨φ2 |φ1 ⟩


= (a1 − a∗2 )⟨φ2 |φ1 ⟩

onde temos:

1. Se |φ1 ⟩ = |φ2 ⟩, implica a1 = a2 . Então,

(a1 − a∗1 )⟨φ1 |φ1 ⟩ .

A menos que |φ1 ⟩ = 0, temos ⟨φ1 |φ1 ⟩ ̸= 0. Assim, a1 = a∗1 . Concluímos então que os autovalores do
operadores autoadjuntos ou hermitianos são reais;

2. Se a1 ̸= a2 , temos que
⟨φ2 |φ1 ⟩ = 0
o que implica |φ1 ⟩ e |φ2 ⟩ serem autokets ortogonais. Logo, os autovalores dos operadores hermitianos
são reais e os correspondentes autokets são ortogonais.

Base dos Kets Considerando um conjunto completo de autokets de base, linearmente independente, re-
presentado por {|φi ⟩}, esse conjunto obedece a relação de ortogonalidade

⟨φi |φj ⟩ = δij . (5.39)

O conjunto {|φi ⟩}, constitui uma base. Assim, qualquer ket |ψ⟩ poderá ser escrito como uma combinação
linear da base, ∑
|ψ⟩ = ci |φi ⟩ . (5.40)
i

Multiplicando essa relação pelo bra ⟨φj |, obtemos


∑ ∑
⟨φj |ψ⟩ = ci ⟨φj |φi ⟩ = ci δij
i i
= cj (5.41)

onde interpretamos cj como sendo o componente do ket |ψ⟩ na base |φ⟩ na direção |φj ⟩. Em outras palavras,
temos ∑
|ψ⟩ = |φi ⟩⟨φi |ψ⟩ . (5.42)
i

Note que a relação de ortogonalidade (5.39) expressa o fato de que os autokets do conjunto {|φi ⟩} são
normalizados à unidade e ortogonais. Podemos ainda estabelecer uma outra relação que expressa o fato
desse conjunto de autokets constituir uma base. De (5.42) temos

|φi ⟩⟨φi | = I (5.43)
i
106 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

onde I desempenha o papel de um operador identidade. A relação (5.43) é conhecida como relação de
completeza ou fechamento. Cada elemento |φi ⟩⟨φi | seleciona a porção do ket |ψ⟩ paralelo a base |φi ⟩. Esse
elemento é conhecido como operador de projeção, e escrevemos

Pφi = |φi ⟩⟨φi | . (5.44)

Aplicando no ket arbitrário |ψ⟩:


Pφi |ψ⟩ = |φi ⟩⟨φi |ψ⟩ .
O significado “geométrico” de Pφi é claro, pois representa a “projeção ortogonal”. Essa interpretação é
confirmada pelo fato de P2φi = Pφi :

P2φi = Pφi Pφi = |φi ⟩⟨φi |φi ⟩⟨φi | .

Como ⟨φi |φi ⟩ = 1, temos


P2φi = |φi ⟩⟨φi | = Pφi .
Da relação de completeza (5.43) podemos escrever

P φi = I . (5.45)
φi

Representação Ortonormal de Base Discreta ou Contínua Um conjunto de kets, discreto {|ui ⟩}, ou
contínuo {|wα ⟩}, se diz ortonormal se os kets desses conjuntos satisfazem a relação de ortonormalização:

para {|ui ⟩} ⇔ para {|wα ⟩}


⟨ui |uj ⟩ = δij ⇔ ⟨wα |wα′ ⟩ = δ(α − α′ ) . (5.46)

No caso de um conjunto contínuo {|wα ⟩} não podemos normalizar os vetores da base.14 Os autokets com
espectro contínuo têm norma infinita, dimensão infinita. Muito dos resultados derivados de espaço vetorial
de dimensão finita obtidos com espectro discreto podem ser generalizado a espectro contínuo.
Um conjunto de kets, discreto {|ui ⟩}, ou contínuo {|wα ⟩}, constituem uma base para qualquer ket, se
podemos escreve-lo como
∑ ∫
|ψ⟩ = ci |ui ⟩ ⇔ |ψ⟩ = c(α)|wα ⟩ dα (5.47)
i

com as componentes cj e c(α′ ) dados por

cj = ⟨uj |ψ⟩ ⇔ c(α′ ) = ⟨wα′ |ψ⟩ . (5.48)

A relação de fechamento será:


∑ ∫
|ui ⟩⟨ui | = I ⇔ |wα ⟩⟨wα | dα = I . (5.49)
i

Temos ainda outras analogias:


∑ ∫
|ψ⟩ = |ui ⟩⟨ui |ψ⟩ ⇔ |ψ⟩ = |wα ⟩⟨wα |ψ⟩ dα (5.50a)
i
∑ ∫
2
|⟨ui |ψ⟩| = 1 ⇔ |⟨wα |ψ⟩|2 dα = 1 (5.50b)
i
∑ ∫
⟨φ|ψ⟩ = ⟨φ|ui ⟩⟨ui |ψ⟩ ⇔ ⟨φ|ψ⟩ = ⟨φ|wα ⟩⟨wα |ψ⟩ dα (5.50c)
i
⟨ui |A|uj ⟩ = ui δij ⇔ ⟨wα |W|wα′ ⟩ = αδ(α − α′ ) . (5.50d)
14
Ver livro do Prof. P. A. M. Dirac, The principles of quantum mechanics, (1958).
5.4. BASE DOS Kets E R EPRESENTAÇÃO M ATRICIAL 107

Representação Matricial Na base {|ui ⟩}, o ket |ψ⟩ é representado por um conjunto de seus componentes,
i.e., por um conjunto de números ci = ⟨ui |ψ⟩. Na representação matricial, esses números podem ser
arranjados na forma de uma matriz coluna:
 
⟨u1 |ψ⟩
⟨u2 |ψ⟩
 
 .. 
|ψ⟩ =  . 

. (5.51)
 ⟨ui |ψ⟩ 
 
..
.

Para um bra ⟨φ| arbitrário, na base {|ui ⟩}, podemos escreve-lo na forma,

⟨φ| = ⟨φ|ui ⟩⟨ui |
i

onde ⟨φ|ui ⟩ = b∗i é o complexo conjugado de ⟨ui |φ⟩ = bi . Assim, na representação matricial será uma
matriz linha.
( )
⟨φ| = ⟨φ|u1 ⟩ ⟨φ|u2 ⟩ · · · ⟨φ|ui ⟩ · · ·
( )
= ⟨u1 |φ⟩∗ ⟨u2 |φ⟩∗ · · · ⟨ui |φ⟩∗ · · · . (5.52)

Usando essa representação, o produto interno ⟨φ|ψ⟩ é o produto da matriz linha ⟨φ| pela matriz coluna |ψ⟩.
O resultado é um número
 
⟨u1 |ψ⟩
⟨u2 |ψ⟩
 
( )  .. 
⟨φ|ψ⟩ = ⟨φ|u1 ⟩ ⟨φ|u2 ⟩ · · · ⟨φ|ui ⟩ · · ·   . 
 (5.53)
 ⟨ui |ψ⟩ 
 
..
.
ou seja ∑
⟨φ|ψ⟩ = ⟨φ|ui ⟩⟨ui |ψ⟩ = b∗i ci . (5.54)
i
Seja {|ui ⟩} o conjunto de autovetores que formam a base ortonormal. O operador linear A poderá ser
associado com uma séries de números definidos que será representado pela matriz,
 
A11 A12 · · · A1j · · ·
A21 A22 · · · A2j · · ·
 
 .. .. .. 

Aij = ⟨ui |A|uj ⟩ =  . . . . (5.55)

 Ai1 Ai2 · · · Aij · · ·
 
.. .. ..
. . .

Fazendo uso da relação de fechamento para calcular a matriz que representa o operador AB na base {|ui ⟩}

⟨ui |AB|uj ⟩ = ⟨ui |AIB|uj ⟩



= ⟨ui |A|uk ⟩⟨uk |B|uj ⟩ , (5.56)
k

ou seja, a equação acima expressa o fato de que a matriz que representa o operador AB é o produto das
matrizes associadas com A e B.
Podemos também fazer a representação matricial para o autoket |ψ ′ ⟩ = A|ψ⟩. Conhecido as compo-
nentes de |ψ⟩ e os elementos da matriz A, temos |ψ ′ ⟩ = A|ψ⟩ na base {|ui ⟩} dado por

c′i = ⟨ui |ψ ′ ⟩ = ⟨ui |A|ψ⟩ . (5.57)


108 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Usando a relação de fechamento



c′i = ⟨ui |A|uj ⟩⟨uj |ψ⟩
j

= Aij cj (5.58)
j

que na expressão matricial, teremos


 ′   
c1 A11 A12 · · · A1j ··· c1
c′  A21 A22 · · · A2j · · · c2 
 2   
 ..   .. .. ..   .. 
.= . . .  .  . (5.59)
    
 c′   Ai1 Ai2 · · · Aij · · ·  
 i   cj 
.. .. .. .. ..
. . . . .

Ainda usando a base {|ui ⟩} fica fácil escrever ⟨φ|A|ψ⟩ na representação matricial,

⟨φ|A|ψ⟩ = ⟨φ|ui ⟩⟨ui |A|uj ⟩⟨uj |ψ⟩
i,j

= b∗i Aij cj , (5.60)
i,j

onde novamente usamos a relação de fechamento. A equação em forma de matriz será então
  
A11 A12 · · · A1j · · · c1
A21 A22 · · · A2j · · · c2 
  
( ∗ ∗ )  .. .. ..   .. 

⟨φ|A|ψ⟩ = b1 b2 · · · bi · · ·  .  . .  .  . (5.61)
 
 Ai1 Ai2 · · · Aij · · · cj 
  
.. .. .. ..
. . . .

Da transformação |ψ ′ ⟩ = A|ψ⟩, podemos ter a transformação inversa |ψ⟩ = A−1 |ψ ′ ⟩, desde que A−1
exista. Essa matriz inversa vai existir sempre que tivermos |Aij | ̸= 0, em que |Aij | é o determinante da
matriz. Designando esse determinante por ∆, ele poderá ser representado por

∆= (−1)i+k aik |aik |
i

onde |aik | é chamado de determinante menor do elemento da matriz Aik . Assim, a quantidade |aik | é
um escalar cujo valor é dado pelo determinante de ordem n − 1, obtido do determinante original após
retiradas desse determinante a i-ésima linha e a k-ésima coluna. A representação (−1)i+k |aik | é o cofator
do elemento Aik . Assim teremos:
1. Matriz cofator - É formada dos cofatores de Aij . Então,
( )
Cof(Aij ) = (−1)i+j |aij | ;

2. Matriz transposta - É formada trocando-se as linhas pelas colunas da matriz original

Trans(Aij ) = (Ãij ) = Aji ;

3. Matriz adjunta - É a transposta da matriz cofator 15


( )
Adj(Aij ) = Cof(Aji ) = (−1)i+j |aji | ;
15
Essa é uma definição clássica para a matriz adjunta
5.4. BASE DOS Kets E R EPRESENTAÇÃO M ATRICIAL 109

4. Matriz inversa - É formada pela divisão da matriz adjunta por seu determinante
Adj(Aij )
A−1 = (Aij )−1 = .

Para resolvermos a equação de autovalor e autoket na forma matricial faremos uma escolha de base
ortonormal de kets {|ui ⟩}, tal que

⟨ui |A|ψ⟩ = λ⟨ui |ψ⟩



⟨ui |A|uj ⟩⟨uj |ψ⟩ = λ⟨ui |ψ⟩ (5.62)
j

com a notação usual


ci = ⟨ui |ψ⟩ e Aij = ⟨ui |A|uj ⟩
temos

Aij ci = λ ci
j

[Aij − λδij ] cj = 0 . (5.63)
j

Esse sistema é linear e homogêneo. Se o sistema acima consiste de N equações (i = 1, 2, · · · , N ) em


N cj incógnitas (j = 1, 2, · · · , N ), temos uma solução não trivial (a solução trivial é que um dos cj seja
zero) se e somente se o determinante dos coeficientes for zero. A condição é escrita na forma

Det[A − λI] = 0 (5.64)

onde A é a matriz N × N de elementos Aij e I é a matriz unidade e a (5.64) é a equação característica.


Assim, explicitamente escrevemos
 
A11 − λ A12 ··· A1N
 A21 A22 − λ · · · A2N 
 
 .. .. ..  = 0. (5.65)
 . . . 
AN 1 AN 2 ··· AN N − λ
Então, os autovalores de um operador são as raízes de sua equação característica.
Podemos ainda escrever o produto externo |ψ⟩⟨ψ| pela matriz quadrada
 
c1
c2 
 
 ..  ( ∗ ∗ )
|ψ⟩⟨ψ| =  
 .  c1 c2 · · · cj · · ·

 ci 
 
..
.
 ∗ 
c1 c1 c1 c∗2 · · · c1 c∗j · · ·
c2 c∗ c2 c∗ · · · c2 c∗ · · ·
 1 2 j 
 . .. .. 

= . . . . . (5.66)

 ci c∗ ci c∗ · · · ci c∗ · · ·
 1 2 j 
.. .. ..
. . .
Ainda podemos analisar o seguinte teorema: Sendo A um operador matricial definido pelos elementos
de matriz ⟨ui |A|uj ⟩, onde {|ui ⟩} e {|uj ⟩} formam um sistema de base ortonormal completo, mostre que o
operador matricial A† , com elementos de matriz definidos por A†ij = ⟨ui |A† |uj ⟩, é a transposta conjugada
de A, i.e., A† = Ã∗ .
110 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Prova. Tomemos a (5.60), fazendo



⟨φ|A|ψ⟩ = ⟨φ|ui ⟩⟨ui |A|uj ⟩⟨uj |ψ⟩ = ⟨ψ|A† |φ⟩∗
i,j
∑( )∗
= ⟨ψ|uj ⟩⟨uj |A† |ui ⟩⟨ui |φ⟩ ,
i,j

em que identificamos
Aij = ⟨ui |A|uj ⟩ = (⟨uj |A† |ui ⟩)∗ = (A†ji )∗ .
Tomando o complexo conjugado de ambos os lados da igualdade acima e transpondo, obteremos
A∗ji = A†ij
e a demonstração está completa.

5.5 Mudança de Base – Transformação Unitária


Por definição, ver §2.14, um operador U é unitário se seu inverso U−1 for igual ao seu adjunto U† , i.e.,
UU† = U† U = I . (5.67)

Transformação Unitária Considere dois kets arbitrários |ψ1 ⟩ e |ψ2 ⟩ do espaço vetorial, e suas transfor-
mações |ψ̃1 ⟩ e |ψ̃2 ⟩ através da ação de U
|ψ̃1 ⟩ = U|ψ1 ⟩
|ψ̃2 ⟩ = U|ψ2 ⟩ . (5.68)
Vamos calcular o produto escalar ⟨ψ̃1 |ψ̃2 ⟩,
⟨ψ̃1 |ψ̃2 ⟩ = ⟨ψ1 |U† U|ψ2 ⟩ = ⟨ψ1 |ψ2 ⟩ . (5.69)
A transformação unitária associada com o operador U conserva o produto escalar, e consequentemente a
norma, no espaço vetorial. Quando o espaço vetorial tem dimensão finita, essa propriedade é característica
de um operador unitário.

Mudança de Base Sendo {|vi ⟩} a base ortonormal de um estado no espaço vetorial considerado, assumi-
mos ser discreto. Chamamos |ṽi ⟩ a transformação de |vi ⟩ sob a ação do operador U
|ṽi ⟩ = U|vi ⟩ (5.70)
mas o operador U é unitário, então
⟨ṽi |ṽj ⟩ = ⟨vi |vj ⟩ = δij (5.71)
e a nova base {|ṽi ⟩} é ortonormal. Para mostrar que é uma nova base, vamos considerar o ket |ψ⟩ do espaço
vetorial, tal que ∑
U† |ψ⟩ = ci |vi ⟩ (5.72)
i
aplicando o operador U nessa equação, teremos

UU† |ψ⟩ = ci U|vi ⟩ (5.73)
i
e ∑
|ψ⟩ = ci |ṽi ⟩ . (5.74)
i
Essa equação expressa o fato de que o ket |ψ⟩ pode ser expandido em termos dos vetores |ṽi ⟩, no qual
constituem uma base. Podemos concluir desse resultado que: uma condição necessária para um operador U
ser unitário é que os vetores de uma base ortonormal do espaço vetorial, transformada por U, constituam
outra base ortonormal.
5.5. M UDANÇA DE BASE – T RANSFORMAÇÃO U NITÁRIA 111

Matriz Unitária Consideremos


Uij = ⟨vi |U|vj ⟩ (5.75)
sendo os elementos de matriz de U. Como podemos observar se a matriz desse operador é unitária? Para
isso, começamos por: ∑
⟨vi |U† U|vj ⟩ = ⟨vi |U† |vk ⟩⟨vk |U|vj ⟩ (5.76)
k
e ∑

Uki Ukj = δij (5.77)
k

onde temos uma matriz unitária.

Transformação Unitária de Operadores Por definição, a transformação à do operador A será o opera-


dor em que, na base {|ṽi ⟩}, tem os mesmos elementos da matriz do operador A na base {|vi ⟩}

⟨ṽi |Ã|ṽj ⟩ = ⟨vi |A|vj ⟩

substituindo (5.70) nessa equação, temos

⟨vi |U† ÃU|vj ⟩ = ⟨vi |A|vj ⟩ . (5.78)

Desde que i e j sejam arbitrários, temos


U† ÃU = A (5.79)
ou aplicando U no lado esquerdo da equação e U† no lado direito:

à = UAU† (5.80)

que é a transformação inversa de (5.79).

Transformação Unitária Infinitesimal Considerando o operador unitário U(ε) que depende de uma
quantidade real infinitesimal ε, tal que: U(ε) → I quando ε → 0. Expandindo esse operador em séries de
potência em ε, teremos
U(ε) = I + εG + · · ·
e
U† (ε) = I + εG† + · · ·
temos
U(ε)U† (ε) = U† (ε)U(ε) = I + ε(G + G† ) .
Desde que U† (ε)U(ε) = I, i.e., unitário, e desprezando termos de ordem superior em ε, teremos

G + G† = 0 .

Essa equação expressa o fato de que o operador G é anti-hermitiano. Assim, é conveniente que ajustamos
F = i G, tal que
F − F† = 0 ⇒ F = F†
onde F é hermitiano. Logo, o operador infinitesimal será escrito na forma

U(ε) = I − i εF . (5.81)

Substituindo (5.81) em (5.80), obteremos

à = (I − i εF )A(I + i εF † ) = (I − i εF )A(I + i εF ) , (5.82)


112 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

e finalmente
à − A = − i ε[F, A] . (5.83)

A variação do operador A através da transformação U é, em primeira ordem de ε, proporcional ao comuta-


dor [F, A].
Consideremos em seguida algumas quantidades que permanecem invariantes sob a ação de uma trans-
formação unitária. Tomemos o caso da equação secular, expressa por (5.63), qual seja

|Aij − λδij | = 0 .

Efetuando uma transformação unitária nessa equação, escrevemos

|Ã − λ′ I′ | = |U−1 (A − λI)U| .

Visto que U e U−1 comutam com λ e I e lembrando que o determinante do produto de diversas matrizes é
igual ao produto de seus determinantes, temos que

|U−1 (A − λI)U| = |U−1 | · |A − λI| · |U|


= |U−1 | · |U| · |A − λI|
= |U−1 U| · |A − λI|
= |A − λI| ,

ou seja
|Ã − λ′ I′ | = |A − λI| .

Isto é, a equação secular é invariante sob a ação de uma transformação unitária. De maneira análoga, pode-
mos mostrar que o traço de uma matriz é também invariante sob a ação de uma transformação unitária.

Prova.

tr(X) = ⟨ai |X|ai ⟩
i
∑∑∑
= ⟨ai |bj ⟩⟨bj |X|bk ⟩⟨bk |ai ⟩
i j k
∑∑∑
= ⟨bk |ai ⟩⟨ai |bj ⟩⟨bj |X|bk ⟩
i j k
∑∑
= ⟨bk |bj ⟩⟨bj |X|bk ⟩
j k

= ⟨bj |X|bj ⟩ . (5.84)
j

Temos também outras propriedades de traço

tr(XY ) = tr(Y X) (5.85a)



tr(U XU ) = tr(X) (5.85b)
tr(|ui ⟩⟨uj |) = δij (5.85c)
tr(|vi ⟩⟨ui |) = ⟨ui |vi ⟩ . (5.85d)
5.6. O BSERVÁVEIS E R ELAÇÃO DA I NCERTEZA 113

5.6 Observáveis e Relação da Incerteza


Considerando duas observáveis físicas associadas aos operadores A e B, respectivamente. Dado o sistema
físico que se encontra no estado ket |φ⟩ quando aplicamos sobre ele o operador A, seguido do operador
B e, de modo reverso, quando aplicamos o operador B seguido pela aplicação do operador A. Os valores
esperados para essas operações são representados por

⟨BA⟩ = ⟨φ|BA|φ⟩ (5.86)

e
⟨AB⟩ = ⟨φ|AB|φ⟩ . (5.87)
O ket |φ⟩ é um autovetor normalizado e a e b são os autovalores dos operadores A e B respectivamente,
ambos pertencentes ao mesmo ket |φ⟩, i.e.:

A|φ⟩ = a|φ⟩ (5.88)

e
B|φ⟩ = b|φ⟩ . (5.89)
Utilizando esses resultados em (5.86) e (5.87), teremos

⟨BA⟩ = a⟨φ|B|φ⟩ = ab⟨φ|φ⟩ = ab (5.90)

e
⟨AB⟩ = b⟨φ|A|φ⟩ = ba⟨φ|φ⟩ = ba . (5.91)
Se a e b são apenas números ordinários, eles comutam. Sendo assim, a ordem em que esses operadores atuam
em |φ⟩, não altera o resultado final. Fisicamente, isso significa que o estado de um sistema quântico, que
seja simultaneamente autoestado de dois operadores diferentes, não é alterado pela sequência das operações
das medidas dessas observáveis. Matematicamente,

[A, B] = 0

e dizemos que são observáveis compatíveis.


Porém, se os autovalores a e b não comutam, não poderemos medir simultaneamente as observáveis
associadas aos operadores A e B, respectivamente. Logo,

[A, B] ̸= 0

e para esse caso temos observáveis incompatíveis. Um bom exemplo dessas observáveis são: ⃗S2 e Sz são
observáveis compatíveis, mas Sx e Sy são incompatíveis.

Autovalores Degenerados Um autovalor a associado a um operador A é degenerado se a ele está asso-


ciado mais de um autovetor. Note, o autovalor a é N vezes degenerado se existirem N autovetores, linear-
mente independentes, correspondendo a esse autovalor. Um conjunto de autovetores {|φi ⟩} é linearmente
independente se a relação
∑N
ci |φi ⟩ = 0 (5.92)
i=1
for satisfeita. Porém, isso só ocorre se todos os ci ’s forem nulos. Sendo assim, na expressão (5.92), temos
que nenhum dos kets |φi ⟩ pode ser escrito como uma combinação linear dos outros N − 1 kets do conjunto.
Um conjunto de N autovetores |φi ⟩, linearmente independentes, ortonormalizado, pode servir de base
para representar qualquer autovetor |ψ⟩ nesse espaço vetorial. Sendo isso possível, os autovetores da base
considerada formam um conjunto completo de kets {|φi ⟩}. Um teorema importante é que: Qualquer com-
binação linear de autovetores degenerados, linearmente independentes, é também um autovetor pertencente
ao mesmo autovalor.
114 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Prova. Dado um conjunto de N autovetores |φi ⟩, todos correspondendo ao mesmo autovalor a associado
ao operador A, i.e.,
A|φi ⟩ = a|φi ⟩ ,
para i = 1, 2, 3, · · · , N , escrevemos a combinação linear


N
|ψ⟩ = ci |φi ⟩ .
i=1

Aplicando o operador A nos dois lados da equação acima, teremos


N ∑
N
A|ψ⟩ = ci A|φi ⟩ = a ci |φi ⟩ = a|ψ⟩ ,
i=1 i=1

o que mostra que |ψ⟩ também e um autovetor do operador A.

No caso de uma degenerescência de ordem N , combinações lineares de N autovetores degenerados


podem ser encontrados de modo a formar N autovetores linearmente independentes, ortogonais, correspon-
dendo ao mesmo autovalor.

Princípio da Incerteza - Relação Geral Vamos considerar dois operadores hermitianos A e B, que estão
associados a duas observáveis físicas. Tomemos a relação de comutação entre eles

[A, B] = AB − BA = i C , (5.93)

em que C, em geral, é um operador hermitiano. No caso de C nulo, os operadores A e B comutam.


Seja um ket arbitrário |φ⟩ que não necessariamente precisa ser autoestado de A e B. Os valores médios
dessas observáveis são

⟨A⟩ = ⟨φ|A|φ⟩ (5.94a)


⟨B⟩ = ⟨φ|B|φ⟩ (5.94b)

e os desvios desses valores médios são dados por

∆A = A − ⟨A⟩ (5.95a)
∆B = B − ⟨B⟩ . (5.95b)

Visto que os valores esperados são apenas números, torna-se fácil mostrar a relação de comutação para ∆A
e ∆B

[∆A, ∆B] = [A − ⟨A⟩, B − ⟨B⟩]


= [A, B] − [⟨A⟩, B] − [A, ⟨B⟩] + [⟨A⟩, ⟨B⟩]
= [A, B] = i C . (5.96)

Para nosso propósito, temos:


⟨(A + i B)† (A + i B)⟩ ≥ 0
ou
⟨(A† − i B † )(A + i B)⟩ ≥ 0
pois
(i B)† = − i B † .
Como temos operadores hermitianos

⟨(A − i λB)(A + i λB)⟩ ≥ 0


5.6. O BSERVÁVEIS E R ELAÇÃO DA I NCERTEZA 115

onde λ é uma variável numérica real. O valor mínimo da forma quadrática em λ

⟨B 2 ⟩λ2 + i⟨AB − BA⟩λ + ⟨A2 ⟩ ≥ 0 , (5.97)

obtém-se para
2λ⟨B 2 ⟩ + i⟨AB − BA⟩ = 0 ,
ou seja,
i ⟨AB − BA⟩
λ=− .
2 ⟨B 2 ⟩
Então, substituindo em (5.97), temos
1
⟨A2 ⟩ · ⟨B 2 ⟩ ≥ − ⟨AB − BA⟩2 . (5.98)
4
O valor médio dos quadrados dos desvios, chamamos de flutuações, são dados por

⟨(∆A)2 ⟩ = ⟨A2 ⟩ − ⟨A⟩2 (5.99a)


⟨(∆B) ⟩ = ⟨B ⟩ − ⟨B⟩ .
2 2 2
(5.99b)

Logo, teremos
1
⟨(∆A)2 ⟩⟨(∆B)2 ⟩ ≥ − ⟨AB − BA⟩2 .
4
√ √
Mas ∆A = ⟨(∆A) ⟩ e ∆B = ⟨(∆B) ⟩. Lembrando que [A, B] = AB − BA = i C, então 16
2 2

1
∆A · ∆B ≥ ⟨C⟩ . (5.100)
2
No caso de variáveis canonicamente conjugadas, como as coordenadas e componentes do momentum
linear de uma partícula, temos que ⟨C⟩ = ~. Assim o princípio da incerteza de Heisenberg será:
1
∆qi · ∆pi ≥ ~ para i = 1, 2, 3. (5.101a)
2
∆qi · ∆pj = 0 para i ̸= j . (5.101b)

Essa demonstração do princípio de Heisenberg se deve a Max Born.


Vemos que não existe estado quântico que seja simultaneamente autoestado das variáveis canônicas
conjugadas. Isso significa, em particular, que as trajetórias (no espaço de fase) de elétrons igualmente prepa-
rados diferem de elétron para elétron, de tal forma que as flutuações de qi e pi satisfazem em todo momento
a desigualdade (5.101a). Vemos que a teoria desenvolvida, pela sua natureza estatística, não permite deter-
minar as trajetórias individuais, mas somente a soma de certas propriedades estatísticas do movimento. É
comum nos textos de mecânica quântica ler que não existem as trajetórias das partículas. Em fato, a descri-
ção quântica não contêm a noção de trajetória e não as descreve, mas isso não necessariamente significa que
as trajetórias não existem na natureza. Se aceitamos como princípio geral que todo sistema físico é finito e
também contém energia finita, é preciso que se cumpra que ⟨(∆qi )2 ⟩ < ∞ e ⟨(∆pi )2 ⟩ < ∞ em todos os
casos. Isto traz como consequência que para todo sistema quântico realista, tanto qi como pi têm dispersão
necessariamente distinta de zero e que, portanto, não são feitos autoestados qi ou pi em sistemas reais.
A Eq. (5.100) é geralmente interpretado como se as observáveis A e B não pudessem ser medidas simul-
taneamente com precisão arbitrária. Mas se for esse o caso a desigualdade de Heisenberg correspondente
não seria verificável experimentalmente, o que tiraria todo o conteúdo científico. A interpretação natural, de
acordo com o esquema utilizado aqui é que se trata de medições, elas são colocadas em um ensemble em que
as observáveis A e B, são medidas, determinando seus correspondentes desvios. Segundo a interpretação
de ensemble estatístico, as relações (5.100) e (5.101) não se aplicam a uma partícula individual.17
16
Ver trabalhos originais de H. P. Robertson, Physical Review, 34, 163-164 (1929) e E. Schrödinger, Preuss. Akad. Wiss. Berlin,
Berlin 19, 296 (1930).
17
L. E. Ballentine, Reviews of Modern Physics, 42, 358-381 (1970).
116 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Princípio da Incerteza - Nota Especial É possível obter uma relação mais forte do que a obtida em
(5.100); dado o interesse do resultado e sua derivação que é um exercício ilustrando a utilização dos valores
esperados, vamos incluí-las nesse momento. Para ⟨A⟩ = ⟨A⟩ = 0 temos:
[∫ ] [∫ ]
∗ ∗
⟨(∆A) ⟩⟨(∆B) ⟩ =
2 2
(ψ A)(Aψ)dx (ψ B)(Bψ)dx
[∫ ] [∫ ]
= (Aψ)† (Aψ)dx (Bψ)† (Bψ)dx
[∫ ] [∫ ]
= |Aψ| dx
2
|Bψ| dx
2

∫ 2 ∫ 2

≥ (Aψ) (Bψ)dx = ψ ∗ ABψ dx ,

onde usamos a propriedade dos operadores hermitianos. Introduzindo agora a identidade entre os operadores

1 1
AB = [A, B] + {A, B} ,
2 2

onde {A, B} = AB + BA é um anticomutador, temos


∫ 2
1
⟨(∆A) ⟩⟨(∆B) ⟩ ≥
2 2
ψ ∗ ABψ dx = |⟨AB⟩|2 = |⟨[A, B] + {A, B}⟩|2 .
4

Como para operadores hermitianos ⟨[A, B]⟩† = −⟨[A, B]⟩ e ⟨{A, B}⟩† = ⟨{A, B}⟩, temos

1 1
⟨(∆A)2 ⟩⟨(∆B)2 ⟩ ≥ |⟨[A, B]⟩|2 + |⟨{A, B}⟩|2 . (5.102)
4 4

Este resultado também poderá ser obtido, usando o processo anterior, quando tomamos λ como um parâ-
metro complexo.

Pacotes de Mínima Dispersão A partir da relação

⟨ψ|[A − ⟨A⟩ − i λ(B − ⟨B⟩)][A − ⟨A⟩ + i λ(B − ⟨B⟩)]|ψ⟩ ≥ 0 ,

onde a desigualdade vale para qualquer valor da constante da constante real de λ, cujo valor mínimo é

1 ⟨ψ|C|ψ⟩
λ= ,
2 ⟨ψ|(∆B)2 |ψ⟩

e das propriedades do produto escalar, podemos ver que a igualdade é alcançada para os estados tais que

[A − ⟨A⟩ + i λ(B − ⟨B⟩)]|ψ⟩ = 0 , (5.103)

naturalmente para qualquer que seja λ, inclusive o mínimo. Por exemplo, para A = x e B = p a solução da
Eq. (5.103) será
( )1 [ ]
1 2 (x − ⟨x⟩)2 i⟨p⟩x
|ψ⟩min = √ exp − + , (5.104)
2π (∆x)2 4(∆x)2 ~

onde eliminamos λ em favor de ∆x. A Eq. (5.104) corresponde a uma distribuição gaussiana com dispersão
∆x centrada em ⟨x⟩. Esse estado é simultaneamente coerente e de mínima dispersão, correspondente ao
deslocamento por uma quantidade ⟨x⟩ do estado base do oscilador.
5.7. P OSIÇÃO , Momentum E T RANSLAÇÃO 117

Desigualdade de Schwarz Para um dado ket |ψ⟩, temos que


⟨ψ|ψ⟩ ≥ 0 (5.105)
sendo que ⟨ψ|ψ⟩ = 0, somente quando |ψ⟩ = 0. Usando a relação (5.105), podemos derivar a desigualdade
de Schwarz 18 , para qual tomamos dois kets arbitrários |φ1 ⟩ e |φ2 ⟩ do espaço vetorial, então
|⟨φ1 |φ2 ⟩|2 ≤ ⟨φ1 |φ1 ⟩⟨φ2 |φ2 ⟩ . (5.106)
Prova. Dado |φ1 ⟩ e |φ2 ⟩, considere o ket |ψ⟩ definido por
|ψ⟩ = |φ1 ⟩ + λ|φ2 ⟩
onde λ é um parâmetro arbitrário. Assim,
⟨ψ|ψ⟩ = ⟨φ1 |φ1 ⟩ + λ⟨φ1 |φ2 ⟩ + λ∗ ⟨φ2 |φ1 ⟩ + λλ∗ ⟨φ2 |φ2 ⟩ ≥ 0 .
Vamos escolher o valor de λ como
⟨φ2 |φ1 ⟩
λ=− .
⟨φ2 |φ2 ⟩
Substituindo na equação anterior, teremos
⟨φ1 |φ2 ⟩⟨φ2 |φ1 ⟩
⟨φ1 |φ1 ⟩ − ≥ 0.
⟨φ2 |φ2 ⟩
Desde de que ⟨φ2 |φ2 ⟩ é um número positivo, podemos multiplicar a equação acima por ⟨φ2 |φ2 ⟩ para obter
⟨φ1 |φ1 ⟩⟨φ2 |φ2 ⟩ ≥ ⟨φ1 |φ2 ⟩⟨φ2 |φ1 ⟩
que é a desigualdade de Schwarz. Teremos ⟨ψ|ψ⟩ = 0, somente se |φ1 ⟩ = −λ|φ2 ⟩, e os kets |φ1 ⟩ e |φ2 ⟩
são proporcionais.

5.7 Posição, Momentum e Translação


Os autokets |x′ ⟩ do operador posição X satisfaz
X|x′ ⟩ = x′ |x′ ⟩ (5.107)
e são postulados para formar um conjunto completo. Aqui x′ é o autovalor do operador X aplicado no ket
|x′ ⟩. O estado ket para um estado físico arbitrário, pode ser expandido em termos de {|xi ⟩} discretos:

|ψ⟩ = |xi ⟩⟨xi |ψ⟩ , (5.108)
i
e para o caso de um espectro contínuo, temos
∫ ∞
|ψ⟩ = |x⟩⟨x|ψ⟩ dx . (5.109)
−∞
Agora, a probabilidade de encontrarmos a partícula em um intervalo dx é
|⟨x|ψ⟩|2 dx = ⟨ψ|x⟩⟨x|ψ⟩ dx . (5.110)
Neste formalismo a função de onda é definida, e identificada, como o produto interno
⟨x|ψ⟩ = ψ(x) . (5.111)
Esta é a função de onda ψ(x) do estado |ψ⟩. No formalismo de Dirac será desenvolvida como uma expansão
dos coeficientes. Finalmente o produto interno ⟨φ|ψ⟩ pode ser interpretado como a amplitude de proba-
bilidade de encontrarmos |φ⟩ em |ψ⟩
∫ ∞
⟨φ|ψ⟩ = ⟨φ|x⟩⟨x|ψ⟩ dx
∫−∞∞
= φ∗ (x)ψ(x) dx . (5.112)
−∞
18
Karl Herman Amandus Schwarz (1843–1921), matemático alemão.
118 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Translação Agora, iremos introduzir um importante conceito que é o da translação, ou deslocamento


espacial. Suponhamos um estado físico bem localizado ao redor de x (uma dimensão). Vamos considerar
um operador que muda este estado para outro bem localizado ao redor de x + dx. Tal operador é definido
por uma translação infinitesimal de dx, assim

T(dx)|x⟩ = |x + dx⟩ , (5.113)

em termos de estado físico


T(dx)|ψ⟩ = |ψ ′ ⟩ . (5.114)
Então, ∫ ∫
′ ′ ′
T(dx)|ψ⟩ = T(dx) |x ⟩⟨x |ψ⟩ dx = |x′ + dx′ ⟩⟨x′ |ψ⟩ dx′ , (5.115)

usamos a variável x′ para não confundir quando calculamos a amplitude de translação do estado na posição
x:

ψ ′ (x) = ⟨x|ψ ′ ⟩ = ⟨x|T(dx)|ψ⟩


∫ ∫
= ⟨x|x + dx ⟩⟨x |ψ⟩ dx = δ[x − (x′ + dx′ )]⟨x′ |ψ⟩ dx′
′ ′ ′ ′

= ⟨x − dx|ψ⟩ = ψ (x − dx) . (5.116)

Como primeira observação, parece estranho ψ ′ (x) ̸= ψ (x + dx). Mas se, ψ (x) tem um máximo em
x = b, então ψ ′ (x) = ψ (x − dx) tem um máximo em x − dx = b, ou x = b + dx, i.e., o estado está
transladando na direção positiva do eixo x.
Note que o operador de translação é um operador unitário, já que,

⟨ψ ′ |ψ ′ ⟩ = ⟨ψ|T† (dx)T(dx)|ψ⟩ = ⟨ψ|ψ⟩ , (5.117)

o que requer
T† (dx)T(dx) = I . (5.118)
Podemos ver a vantagem do resultado de (5.116) de outro modo. De (5.113) temos que

⟨x|T† (dx) = ⟨x + dx| . (5.119)

Mas desde que o operador translação é unitário, T† (dx) = −T(dx), logo

⟨x|T(dx) = ⟨x − dx| . (5.120)

Entretanto,
⟨x|T(dx)|ψ⟩ = ⟨x − dx|ψ⟩ = ψ (x − dx) (5.121)
como já havíamos obtido.
Se dx for apenas um deslocamento infinitesimal, podemos expandir a função ψ em série de Taylor, em
torno do ponto x, do seguinte modo:


|ψ ′ (x)⟩ ∼
= |ψ (x)⟩ + dx |ψ (x)⟩ = (1 + i dxTx ) |ψ (x)⟩ , (5.122)
∂x
onde desprezamos derivadas de ordem superior e

∂ px
Tx = − i = . (5.123)
∂x ~
Logo
i
T(dx) = 1 − px dx (5.124)
~
5.7. P OSIÇÃO , Momentum E T RANSLAÇÃO 119

que opera a posição dando


T(dx)|x⟩ = |x + dx⟩ (5.125)
em aproximação de primeira ordem. Note que px é o gerador da translação. E para uma translação finita em
dx através da aplicação de um número infinito de translações infinitesimais, temos
[ ( )]n
i dx
T(dx) = lim 1 − px
n→∞ ~ n
= e− ~ px dx .
i
(5.126)

O operador de translação é exatamente o mesmo que foi dado em §2.14, ou seja, o operador deslocamento,
Ddx .
Note que o operador de translação espacial, cujo gerador é o momentum linear, comuta com o momentum

[⃗p, T(d⃗r)] = 0

com isso podemos generalizar a relação de comutação para as componentes do momentum

[pi , pj ] = 0 .

Assim, quando os geradores de uma translação comutam, temos um grupo correspondente conhecido como
grupo comutativo ou grupo abeliano 19 . Logo, o grupo de translação em três dimensões é um grupo abeliano.

Espaço de Momentum Iremos agora introduzir o operador momentum P, tal que aplicado em um con-
junto de kets |p′ ⟩, teremos
P|p′ ⟩ = p′ |p′ ⟩ ⟨p′ |p′′ ⟩ = δ(p′ − p′′ ) . (5.127)
Aqui, o estado ket para um estado físico arbitrário, pode ser expandido em termos de {|p⟩} da mesma forma
que anteriormente fazíamos a expansão em {|x⟩}, como:
∫ ∞
|ϕ⟩ = |p⟩⟨p|ϕ⟩ dp (5.128)
−∞

com a função de onda no espaço de momentum

⟨p|ϕ⟩ = ϕ(p) , (5.129)

e podemos identificar em ∫ ∞
⟨ϕ|ϕ⟩ = |⟨p|ϕ⟩|2 dp (5.130)
−∞

a quantidade |⟨p|ϕ⟩|2 dp como a probabilidade da partícula no estado |ϕ⟩ ter seu momentum entre p e p+dp.
Podemos determinar ⟨x|p⟩, a função de onda dos autoestados momentum no espaço de posição. Vamos
para isso usar o produto interno ⟨x|px |ϕ⟩, onde obtemos um importante resultado:

⟨x|px |ϕ⟩ = − i ~ ⟨x|ϕ⟩ (5.131)
∂x
já que o operador momentum na base de posição é o gerador da translação. Agora iremos substituir |ϕ⟩ por
|p⟩

⟨x|px |p⟩ = p⟨x|p⟩ = − i ~ ⟨x|p⟩ . (5.132)
∂x
A solução da equação diferencial (5.132) é
i
⟨x|p⟩ = N e ~ px
19
Niels Henrik Abel (1802–1829), matemático norueguês.
120 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

onde N é a constante de normalização a ser determinada. Assim iremos considerar



|p⟩ = |x⟩⟨x|p⟩ dx .

Então,
∫ ∫ ∞

⟨p′ |p⟩ = ⟨p′ |x⟩⟨x|p⟩ dx = N ∗ N
i
e ~ (p−p )x dx
−∞
= |N |2 (2π~)δ(p − p′ ) . (5.133)

Logo, N = √1 e
2π~
1 i
⟨x|p⟩ = √ e ~ px . (5.134)
2π~
Finalmente podemos escrever em espaço de momentum e espaço de posição as relações, usando um ket
|α⟩:

⟨p|α⟩ = ⟨p|x⟩⟨x|α⟩ dx (5.135a)

⟨x|α⟩ = ⟨x|p⟩⟨p|α⟩ dp (5.135b)

ou em termos das funções de onda:



1
e− ~ px ψα (x) dx
i
ϕα (p) = √ (5.136a)
2π~ ∫
1 i
ψα (x) = √ e ~ px ϕα (p) dp . (5.136b)
2π~
Estas equações mostram que ⟨p|α⟩ e ⟨x|α⟩ formam um par de transformada de Fourier.

5.8 Aplicações no Experimento de Stern-Gerlach


Usando todo o desenvolvimento realizado até o momento, voltemos à nossa análise do experimento de
Stern-Gerlach, agora não somente na forma qualitativa, mas também quantitativamente.
Sabemos que o experimento apresentou uma distribuição com dois picos, um para cima (up) com valor
Sz = ~2 no estado |+⟩ e outro para baixo (down) com valor Sz = − ~2 no estado |−⟩. Logo, podemos
escrever as relações de autoestado e autovalores,

~
Sz |+⟩ = + |+⟩ (5.137a)
2
~
Sz |−⟩ = − |−⟩ (5.137b)
2
onde |+⟩ e |−⟩ formam a base ortonormal do espaço vetorial em questão

⟨+|+⟩ = ⟨−|−⟩ = 1 (5.138a)


⟨+|−⟩ = 0 (5.138b)

e vale a relação de fechamento


|+⟩⟨+| + |−⟩⟨−| = 1 . (5.139)
O ket normalizado e mais geral do espaço vetorial é a superposição linear de |+⟩ e |−⟩:

|ψ⟩ = α|+⟩ + β|−⟩ (5.140)


5.8. A PLICAÇÕES NO E XPERIMENTO DE S TERN -G ERLACH 121

com
|α|2 + |β|2 = 1 . (5.141)
Na base {|+⟩, |−⟩}, a matriz que representa Sz é obviamente diagonal, pois

~
Sz = [|+⟩⟨+| − |−⟩⟨−|] (5.142)
2
mas ( ) ( )
1 0
|+⟩ = , |−⟩ = (5.143)
0 1
então ( )
~ 1 0
Sz = . (5.144)
2 0 −1
O operador Sz é obviamente hermitiano.
Vamos introduzir dois operadores importantes,

S+ = ~|+⟩⟨−| S− = ~|−⟩⟨+| (5.145)

no qual ambos não são hermitianos. O operador S+ atuando no ket |−⟩, muda-o para o ket |+⟩ multiplicado
por ~. Por outro lado, se atua no ket |+⟩, teremos um ket nulo. A interpretação física de S+ é que esse
operador levanta a componente do spin em uma unidade de ~. Logo, esse operador S+ é conhecido como
operador de levantamento. Consequentemente, S− abaixa a componente do spin em uma unidade de ~, e é
conhecido como operador de abaixamento. Ainda podemos definir S± como:

S± = Sx ± i Sy (5.146)

usando (5.145) a representação matricial de S± será,


( ) ( )
0 1 0 0
S+ = ~ , S− = ~ . (5.147)
0 0 1 0

Pelas definições (5.145) e (5.146) os operadores Sx e Sy representados na base {|+⟩, |−⟩} são também
matrizes 2 × 2 hermitianas,
~
Sx = [|+⟩⟨−| + |−⟩⟨+|] (5.148a)
2
~
Sy = [− i |+⟩⟨−| + i |−⟩⟨+|] (5.148b)
2
que nos leva à ( ) ( )
~ 0 1 ~ 0 −i
Sx = , Sy = . (5.149)
2 1 0 2 i 0
Os operadores Sx e Sy , juntamente com o operador Sz , satisfazem a relação de comutação20

[Si , Sj ] = i εijk ~Sk (5.150)

onde εijk é o tensor de Levi-Civita 21 , e a relação de anticomutação

1
{Si , Sj } = ~2 δij (5.151)
2
onde o comutador [ , ] e o anticomutador { , } estão definidos em (2.78) e (2.79) respectivamente.
20
O grupo que satisfaz essa relação de comutação é conhecido como grupo não abeliano.
21
Tullio Levi-Civita (1873–1941), matemático italiano.
122 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Podemos definir também o operador ⃗S2 = ⃗S · ⃗S, como

⃗S2 = S 2 + S 2 + S 2 (5.152)
x y z

e fica fácil verificar que


⃗S2 = 3 ~2 I (5.153)
4
onde I é a matriz identidade. Obviamente teremos a relação de comutação
[ ]
⃗S2 , Si = 0 (5.154)

para i = 1, 2, 3.

Preparação dos Estados |±⟩x , |±⟩y e |±⟩u Na análise realizada nos três experimentos sequenciais de
Stern-Gerlach tiramos algumas conclusões úteis. Podíamos escrever os estados |±⟩x como superposição
dos estados |±⟩ de Sz
1
|±⟩x = √ [|+⟩ ± |−⟩] . (5.155)
2
E a respeito dos estados |±⟩y , esses também formavam uma combinação linear dos estados |±⟩ de Sz .
Aqui fazíamos uma analogia clássica com a luz de polarização circular, e tínhamos

1
|±⟩y = √ [|+⟩ ± i |−⟩] . (5.156)
2
As relações (5.155) e (5.156) podem ser deduzidas diretamente pela seguinte análise geral. Primeiro,
recordamos quando o feixe |+⟩x vai em direção ao SGẑ, temos o feixe abrindo em duas componentes com
iguais intensidades. Então,
1
|⟨+|+⟩x | = |⟨−|+⟩x | = √ . (5.157)
2
e podemos construir |+⟩x geral como

1 1
|+⟩x = √ |+⟩ + √ ei δ1 |−⟩ (5.158)
2 2

com δ1 real é a fase que iremos estudar. Para construirmos um ket |−⟩x ortogonal à |+⟩x teremos

1 1
|−⟩x = √ |+⟩ − √ ei δ1 |−⟩ (5.159)
2 2

por convenção o coeficiente de |+⟩ é real e positivo. Aqui podemos escrever o operador Sx em uma forma
mais geral como segue:

~
Sx = [|+⟩x ⟨+|x − |−⟩x ⟨−|x ]
2
~ [ − i δ1 ]
= e |+⟩⟨−| + ei δ1 |−⟩⟨+| . (5.160)
2
Note que Sx é hermitiano, como deveríamos esperar. Com argumento similar, podemos construir Sy e o
feixe |±⟩y

1 1
|±⟩y = √ |+⟩ ± √ ei δ2 |−⟩ (5.161)
2 2
~ [ − i δ2 ]
Sy = e |+⟩⟨−| + ei δ2 |−⟩⟨+| . (5.162)
2
5.8. A PLICAÇÕES NO E XPERIMENTO DE S TERN -G ERLACH 123

Vamos considerar o experimento sequencial de Stern-Gerlach com SGx̂ seguido do SGŷ. Então,
1
|y ⟨±|+⟩x | = |y ⟨±|−⟩x | = √ , (5.163)
2
o que não é nenhuma surpresa devido a invariância do sistema físico sob uma rotação. Substituindo (5.159)
e (5.161) em (5.163), obtemos
1 1
1 ± ei(δ1 −δ2 ) = √ (5.164)
2 2
a qual é satisfeita somente se
π π
δ2 − δ1 = ou − . (5.165)
2 2
Isto mostra que os elementos das matrizes Sx e Sy não podem ser todos reais. Se os elementos da matriz Sx
são reais, os elementos da matriz Sy serão puramente imaginários, e vice-versa. Por conveniência tomamos
os elementos da matriz Sx reais e fixaremos δ1 = 0; se nossa escolha fosse δ1 = π, o eixo x positivo
estaria orientado em direção oposta. A segunda fase δ2 poderá ser − π2 ou π2 . O fato é que ainda temos uma
ambiguidade. Podemos escolher o sistema de coordenadas que obedeça as rotações usando a regra da mão
direita. Assim, temos que δ2 = π2 é nossa melhor escolha. Com isso temos
1 1
|±⟩x = √ |+⟩ ± √ |−⟩ (5.166)
2 2
~
Sx = [|+⟩⟨−| + |−⟩⟨+|] (5.167)
2
e
1 i
|±⟩y = √ |+⟩ ± √ |−⟩ (5.168)
2 2
~
Sy = [− i |+⟩⟨−| + i |−⟩⟨+|] (5.169)
2
como havíamos mencionado anteriormente.
Para uma componente de ⃗S ao longo do vetor unitário û, caracterizado pelos ângulos polares θ e φ,
conforme Fig. 5.3, usamos as expressões para Sx , Sy e Sz na forma matricial, e então será fácil encontrar a

Figura 5.3 Definição dos ângulos polares θ e φ.

matriz que representa a correspondente observável Su = ⃗S · û na base {|+⟩, |−⟩}


Su = Sx sen θ cos φ + Sy sen θ sen φ + Sz cos θ
( )
~ cos θ sen θe− i φ
= (5.170)
2 sen θei φ − cos θ
e seus autokets nessa base serão
θ θ
|+⟩u = cos |+⟩ + sen ei φ |−⟩ (5.171a)
2 2
θ −iφ θ
|−⟩u = − sen e |+⟩ + cos |−⟩ . (5.171b)
2 2
124 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Prova. Os autovalores de Su são + ~2 ou − ~2 , e os autokets na base {|+⟩, |−⟩} são


|+⟩u = a|+⟩ + b|−⟩
~
Su |+⟩u = + |+⟩u
2
e
|−⟩u = c|+⟩ + d|−⟩
~
Su |−⟩u = − |−⟩u
2
onde a e b são números imaginários. Assim,
~
(Sx sen θ cos φ + Sy sen θ sen φ + Sz cos θ)(a|+⟩ + b|−⟩) = (a|+⟩ + b|−⟩)
2
onde podemos escrever ( )( ) ( )
~ cos θ sen θe− i φ a ~ a
= .
2 sen θei φ − cos θ b 2 b
Aqui temos um sistema de duas equações e duas incógnitas,
a cos θ + b sen θ cos φ − i b sen θ sen φ = a
a sen θ cos φ + i a sen θ sen φ − b cos θ = b
onde
(1 + cos θ)b
a=
sen θ(cos φ + i sen φ)
mas
|a|2 + |b|2 = 1
então ( )
(1 + cos θ)2
|b| 1 +
2
=1
sen2 θ
ou, depois de alguma álgebra
θ
|b|2 = sen2 .
2
Então poderei escolher b = ei φ sen 2θ , e
1 + cos θ θ θ
a= sen2 ei φ = cos
sen θ ei φ 2 2
logo
θ θ
|+⟩u = cos |+⟩ + sen ei φ |−⟩ .
2 2
Desde que |+⟩u e |−⟩u são ortonormais
θ θ
|−⟩u = − sen e− i φ |+⟩ + cos |−⟩
2 2
como queríamos demonstrar. Assim, a probabilidade de termos Su = + ~2 é
( )
~ θ
P + = cos2
2 2
e a probabilidade para termos Su = − ~2 é
( )
~ θ
P − = sen2 .
2 2

Note que todos os operadores Sx , Sy e Su têm os mesmos autovalores, + ~2 e − ~2 , como Sz . Isso é


possível desde que possamos rodar o aparato Stern-Gerlach de tal forma que definimos o campo magnético
paralelo ao eixo x̂, ŷ ou û.
5.8. A PLICAÇÕES NO E XPERIMENTO DE S TERN -G ERLACH 125

Problemas
√ √
5.1 Derive a desigualdade de Schwartz, |⟨u|v⟩| ≤ ⟨u|u⟩ ⟨v|v⟩, onde |u⟩ e |v⟩ são dois vetores quaisquer
no espaço de Hilbert.
√ √ √
5.2 Derive a desigualdade triangular, ⟨u + v|u + v⟩ ≤ ⟨u|u⟩ + ⟨v|v⟩, onde |u⟩ e |v⟩ são dois kets
no espaço de Hilbert.

5.3 Seja V o espaço de funções infinitamente diferenciáveis em uma dimensão. Prove que a diferenciação
é um operador linear.

5.4 Um operador projeção PM é tido como maior ou igual a outro operador projeção PN , i.e., PM ≥ PN ,
se o subespaço N esta contido em M . Então:
a) Mostre que PM ≥ PN satisfaz os axiomas requeridos de uma relação de desigualdade.
b) Mostre que [PM , PN ] = 0.
c) A relação PM ≥ PN é equivalente a ⟨u|PM |u⟩ ≥ ⟨u|PN |u⟩ para um vetor |u⟩ no espaço de Hilbert.

5.5 Mostre que se um operador unitário U pode ser escrito na forma infinitesimal U = I + i εF, onde ε é
um número real infinitamente pequeno, então o operador F é hermitiano.

5.6 Mostre que os autovalores de um operador hermitiano são reais.

5.7 Mostre que autovetores que correspondem à diferentes autovalores de um operador hermitiano são
ortogonais.

5.8 Um operador hermitiano A é tido como definido positivo se, para qualquer ket |u⟩, ⟨u|A|u⟩ ≥ 0.
Mostre que o operador A = |a⟩⟨a| é um operador hermitiano e definido positivo.

5.9 Se A é um operador hermitiano e definido positivo, ver problema anterior, então


√ √
|⟨u|A|v⟩| ≤ ⟨u|A|u⟩ ⟨v|A|v⟩ .
Mostre que tr(A) ≥ 0, e que a igualdade ocorrerá se e somente se A = 0.

5.10 O operador translação T(a) é definido por T(a)φ(x) = φ(x + a) .


a) Mostre que T(a) poderá ser expresso em termos do operador px = − i ~ dx
d
.
b) Mostre que T(a) é unitário.

5.11 A derivada de um operador A(λ) no qual depende explicitamente do parâmetro λ é definida por
dA(λ) A(λ + ε) − A(λ)
= lim .
dλ ε→0 ε
−1 −1 dA A−1 .
dλ (A ) = −A
d
Mostre que: dλ (AB) = dA dB
dλ B + A dλ e d

5.12 Mostre que o operador B(t) definido pela expressão B(t) = ei At B0 e− i At , onde A e B0 são opera-
dores independentes do parâmetro t, é a solução da equação integral
[ ∫ τ ]
B(t) = B0 + i A , B(τ )dτ .
0

[ ] ∫β
5.13 Verifique a identidade de Kubo 22 , A , e−βH = e−βH 0 eλH [A, H]e−λH dλ, onde A e H são dois
operadores quaisquer.

5.14 Supondo que uma matriz 2×2, X, não necessariamente hermitiana nem unitária, seja escrita na forma
X = a0 + ⃗σ ·⃗a, onde a0 e a1,2,3 são números.
a) Como são a0 e a1,2,3 ligados com tr(X) e tr(σk X)?
b) Obtenha a0 e a1,2,3 em termos dos elementos da matriz Xij .
22
Ryogo Kubo (1920–1995), físico-matemático japonês.
126 C AP. 5 F ORMALISMO DA M ECÂNICA Q UÂNTICA

5.15 Considere um espaço dado pelos autokets {|a′ ⟩} de um operador hermitiano A. Não há nenhuma
degenerescência.∏
a) Prove que a′ (A − a′ ) é um operador nulo.
∏ ′′ )
b) Qual o significado de a′′ ̸=a′ (A−a
a′ −a′′ ?
c) Ilustre os itens anteriores usando A como o operador Sz de um sistema de spin 12 .
5.16 Usando a ortonormalidade, definida no texto, para |+⟩ e |−⟩, prove que
( 2)
~
[Si , Sj ] = i εijk Sk e {Si , Sj } = δij ,
2
onde Sx está definida por (5.148a), Sy por (5.148b) e Sz por (5.142), respectivamente.
( )
5.17 Construa |⃗S · n̂; +⟩ tal que ⃗S · n̂|⃗S · n̂; +⟩ = ~2 |⃗S · n̂; +⟩ onde n̂ é caracterizado pela Fig. 5.4.
Expresse sua resposta como uma combinação linear de |+⟩ e |−⟩.

Figura 5.4 Definição do versor n̂.

5.18 A hamiltoniana para um sistema de dois estados é dada por H = a (|1⟩⟨1| − |2⟩⟨2| + |1⟩⟨2| + |2⟩⟨1|),
onde a é um número com a dimensão de energia. Encontre os autovalores de energia e os correspon-
dentes autokets,como combinações lineares de |1⟩ e |2⟩.
5.19 Um sistema de spin 12 é conhecido por ser um autoestado de ⃗S · n̂ com autovalor ~2 , onde n̂ é um vetor
unitário no plano-xz e que faz um ângulo γ com o eixo-z positivo.
a) Suponha que Sx foi medido. Qual é a probabilidade de termos + ~2 ?
b) Calcule a dispersão em Sx , i.e., ⟨(Sx − ⟨Sx ⟩)2 ⟩ .
c) Verifique sua resposta para os casos especiais em que γ = 0, π2 e π.
5.20 a) Calcule ⟨(∆Sx )2 ⟩ = ⟨Sx2 ⟩ − ⟨Sx ⟩2 , onde o valor esperado é tomado para o estado Sz +. Usando seu
resultado, verifique a relação de incerteza ⟨(∆A)2 ⟩⟨(∆B)2 ⟩ ≥ 41 |⟨[A, B]⟩|2 , onde A → Sx e B → Sy .
b) Verifique a relação de incerteza quando A → Sx e B → Sy , porém o valor esperado é tomado para
o estado Sx +.
5.21 a) Sejam x e px a coordenada e o momentum linear, respectivamente, em uma dimensão. Calcule o
colchete de Poisson clássico [x, F (px )]cl . Sugestão: Consulte o livro do Prof. Goldstein [35].
[ ]
i px a
b) Sejam x e px os correspondentes operadores em mecânica quântica. calcule o comutador x , e ~ .
i px a
c) Usando o resultado obtido no item anterior, prove que e ~ |x′ ⟩ , x|x′ ⟩ = x′ |x′ ⟩ é um autoestado
do operador x. Qual o autovalor correspondente?
5.22 Considere um espaço de kets tridimensional. Se um certo conjunto de kets ortonormais, |1⟩, |2⟩ e |3⟩,
são usados como os kets da base, os operadores A e B são representados por
   
a 0 0 b 0 0
. .
A = 0 −a 0  , B = 0 0 − i b
0 0 −a 0 ib 0
5.8. A PLICAÇÕES NO E XPERIMENTO DE S TERN -G ERLACH 127

com a e b reais.
a) A e B exibem um espectro degenerado?
b) Mostre que A e B comutam.
c) Encontre um novo conjunto de kets ortonormais que são simultaneamente autokets de A e B. Espe-
cifique os autovalores de A e B para cada um dos três autokets.

5.23 O operador de translação para um deslocamento espacial finito é dado por T(⃗l) = e− ~ ⃗p · l , onde ⃗p é o
i

operador associado ao momentum.


a) Calcular [xi , T(⃗l)] .
b) Usando o item anterior, demonstre como o valor esperado ⟨⃗x⟩ varia com a translação.

5.24 a) Prove as seguintes relações:


i) ⟨p′ |x|α⟩ = i ~ ′ ⟨p′ |α⟩ ,
∂p


ii) ⟨β|x|α⟩ = dp′ ϕ∗β (p′ ) i ~ ′ ϕα (p′ ) ,
∂p

onde ϕα (p′ ) = ⟨p′ |α⟩ e ϕβ (p′ ) = ⟨p′ |β⟩ são as funções de onda no espaço de momentum.
i
b) Qual é o significado físico de e ~ xΩ , onde x é o operador posição e Ω é algum número com a
dimensão de momentum? Justifique sua resposta.
 
0 1 0
5.25 Uma observável física tem como operador uma matriz 3 × 3 dada por √12 1 0 1 .
0 1 0
a) Quais os autovalores e os autovetores dessa observável.
b) De um exemplo físico que use essa matriz como operador.

5.26 O spin pode ser representado por ⃗S = ~2 ⃗σ , onde


( ) ( ) ( )
0 1 0 −i 1 0
σx = , σy = e σz = :
1 0 i 0 0 −1

a) Calcular os autovalores e os autovetores de Sx , Sy e Sz .


b) Calcular ⃗S2 , i.e., o vetor spin total.

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomenda-se ao leitor, uma leitura detalhada da obra prima do Prof. Paul Dirac

– P. A. M. Dirac [25].

Um estudo paralelo poderá ser realizado com os livros:

– J. J. Sakurai [74];
– L. E. Ballentine [4];
– C. Cohen-Tannoudji, B. Diu and F. Laloë [21];
– A. Messiah [62].

Uma excelente discussão sobre os experimentos sequenciais de Stern-Gerlach poderá ser aprofundada no
excelente livro Feynman lectures on physics:

– R. P. Feynman, R. B. Leighton, and M. Sands [30].


128
Capítulo 6
Dinâmica Quântica

No capítulo anterior discutimos o formalismo matemático, porém não discutimos como o sistema físico
evolui com o tempo. Fizemos esse trabalho usando equações de onda, no capítulo dois. Neste capítulo
iremos dedicar ao estudo da dinâmico de um sistema físico. Em outras palavras faremos aqui as equações
de movimento análogas as equações de movimento de Newton (ou Lagrange 1 ou Hamilton).

6.1 Evolução Temporal


Vamos começar nossa discussão da evolução temporal na mecânica quântica com a definição do operador
de evolução temporal U(t, t0 ) que opera em um ket da seguinte forma,

U(t, t0 )|ψ (t0 )⟩ = |ψ (t)⟩ (6.1)

onde |ψ (t0 )⟩ é o estado inicial do sistema no tempo t = 0 e |ψ (t)⟩ é o estado do sistema em um tempo t
qualquer, t > t0 . Esses estados podem ser estendidos em termos de uma combinação linear de autokets da
mesma quantidade física observável A:

|ψ (t0 )⟩ = cn (t0 )|φn ⟩ (6.2)
n

|ψ (t)⟩ = cn (t)|φn ⟩ . (6.3)
n

Em geral,2
̸ |cn (t0 )| .
|cn (t)| =
Uma importante propriedade é a conservação da probabilidade antes, em um tempo t0 , e depois, em um
tempo t qualquer, t > t0 , ∑ ∑
|cn (t0 )|2 = |cn (t)|2 .
n n
Isso não afeta a normalização do estado:

⟨ψ (t)|ψ (t)⟩ = ⟨ψ (t0 )|U† (t, t0 )U(t, t0 )|ψ (t0 )⟩ = ⟨ψ (t0 )|ψ (t0 )⟩ = 1 (6.4)

então
U† (t, t0 )U(t, t0 ) = I (6.5)
ou seja, o operador de evolução temporal é unitário. Podemos ainda considerar a propriedade da composição
de dois operadores
U(t2 , t0 ) = U(t2 , t1 )U(t1 , t0 ), (t2 > t1 > t0 ) . (6.6)
1
Giuseppe Luigi Lagrangia (Joseph-Louis Lagrange) (1736–1813), matemático franco-italiano.
2
Se o hamiltoniano comuta com A, então |cn (t)| = |cn (t0 )|.

129
130 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

Se considerarmos uma translação temporal infinitesimal, dt, como no caso do operador deslocamento
ou de translação espacial, temos

|ψ (t0 + dt)⟩ = U(t0 + dt, t0 )|ψ (t0 )⟩ . (6.7)

Devido a continuidade, se t → t0 ⇒ |ψ (t)⟩ = |ψ (t0 )⟩, o operador de evolução temporal se reduz à um


operador identidade
lim U(t0 + dt, t0 ) = U(t0 , t0 ) = I . (6.8)
dt→0
Então, o operador que satisfaz as condições acima, será
i
U(t0 + dt, t0 ) = 1 − H dt , (6.9)
~
onde o operador H é o gerador da translação temporal. Naturalmente esse operador é hermitiano, H† = H.
Precisamos definir o significado físico de H. Da Eq. (6.9), a dimensão de H é a constante de Planck dividido
pelo tempo, ou seja, nominalmente a energia. Na ideia da mecânica quântica antiga, a frequência angular
está relacionada com a energia através da relação de Planck-Einstein

E = ~ω .

Na mecânica clássica, 3 a ideia do hamiltoniano ser o gerador da evolução temporal, nos dá a conservação
de energia.

6.2 Derivação da Equação de Schrödinger


Podemos mostrar que U(t, t0 ) satisfaz, em primeira ordem uma equação diferencial no tempo. Desde que
( )
i
U(t + dt, t0 ) = U(t + dt, t)U(t, t0 ) = 1 − H dt U(t, t0 )
~
i
U(t + dt, t0 ) − U(t, t0 ) = − H dt U(t, t0 ) . (6.10)
~
Usando a definição de derivada, 4 temos

i~ U(t, t0 ) = H U(t, t0 ) . (6.11)
∂t
Aplicando na equação acima o estado ket inicial |ψ (t0 )⟩, obtemos

i~ U(t, t0 )|ψ (t0 )⟩ = H U(t, t0 )|ψ (t0 )⟩ (6.12)
∂t
e

i~ |ψ (t)⟩ = H |ψ (t)⟩ . (6.13)
∂t
Essa é a equação de Schrödinger usando o operador de evolução temporal, U(t, t0 ). É a equação fundamen-
tal de movimento que determina como os estados evoluem no tempo na mecânica quântica. Schrödinger
propôs essa equação em 1926, não envolvendo um ket mas sim uma função de onda na representação es-
paço de posição. 5
3
H. Goldstein, Classical mechanics, (1980).
4
A derivada de um operador e definido como
dU U (t + ∆t) − U (t)
= lim .
dt ∆t→0 ∆t

5
Como vimos em §1.16.
6.3. S OLUÇÃO F ORMAL PARA U(t, t0 ) 131

6.3 Solução Formal para U(t, t0 )


Para a solução formal do operador U(t, t0 ) há três casos a serem tratados separadamente:

Primeiro Caso O operador hamiltoniano é independente do tempo, i.e., quando o tempo varia, o operador
H não muda. Um exemplo para este caso é o hamiltoniano para a interação do momento spin-magnético
com um campo magnético constante independente do tempo. A solução de (6.11) neste caso é dado por

U(t, t0 ) = e− ~ H(t−t0 ) .
i
(6.14)
Para provar isto basta expandir a exponencial e derivar
[ ][ ]
i H(t − t0 ) (− i)2 H(t − t0 ) 2
e− ~ H(t−t0 ) = 1 −
i
+ + ··· (6.15)
~ 2 ~
( )2
∂ − i H(t−t0 ) −iH 2 H
e ~ = + (− i) (t − t0 ) + · · · (6.16)
∂t ~ ~
então
H2
HU(t, t0 ) = H − i
(t − t0 ) + · · · (6.17)
~
comparando (6.16) com (6.17), temos que (6.14) satisfaz a equação diferencial (6.11), como queríamos
provar.
Uma demonstração alternativa para obter (6.14) é considerar uma série de translações temporais infini-
tesimais, tal que
[ ( )]
i t − t0 N
= e− ~ H(t−t0 ) ,
i
U(t, t0 ) = lim 1 − H (6.18)
N →∞ ~ N
logo, para t0 = 0
|ψ (t)⟩ = e− ~ Ht |ψ (0)⟩ .
i
(6.19)
Para solucionarmos a equação de movimento quando H é independente do tempo, precisamos conhecer o
estado inicial do sistema, |ψ (0)⟩, e estar pronto para trabalhar com o operador (6.18) nesse estado.

Segundo Caso O hamiltoniano é explicitamente dependente do tempo, mas em diferentes tempos comu-
tam. Um exemplo para este caso é o momento spin-magnético sujeito à um campo magnético que varia com
o tempo, porém não altera a direção. Assim temos

i~ U(t, t0 ) = H(t′ ) U(t, t0 )
∂t ∫
− ~i t
H(t′ )dt′
U(t, t0 ) = e t0 (6.20)
∫t
que pode ser facilmente provado, somente substituindo H(t − t0 ) nas Eqs. (6.15) e (6.16) por t0 H(t′ )dt′ .

Terceiro Caso O hamiltoniano é dependente do tempo, mas em tempos diferentes não comutam. O exem-
plo para esse caso será o momento spin-magnético sujeito à um campo magnético que varia com o tempo
e também varia a direção: em t = t1 o campo magnético está na direção x̂, em t = t2 está na direção ŷ
e assim por diante. Devido Sx e Sy não comutarem, i.e., [Sx , Sy ] = i ~Sz , H(t1 ) e H(t2 ), tais como ⃗S · ⃗B,
não comutam. A solução formal para essa situação é dado por
∞ (
∑ ) ∫ ∫ t1 ∫ tn−1
−i n t
U(t, t0 ) = 1 + dt1 dt2 · · · dtn H(t1 ) H(t2 ) · · · H(tn ) , (6.21)
~ t0 t0 t0
n=1

conhecida como série de Dyson, devido ao fato de que F. J. Dyson 6 desenvolveu a expansão perturbativa
dessa série na teoria quântica de campos. 7
6
Freeman John Dyson (1923– ), físico e matemático anglo-americano.
7
F. J. Dyson, Physical Review, 75, 486, p. 1736 (1949).
132 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

6.4 Dependência Temporal do Valor Esperado


Quando o operador H é ele próprio independente do tempo, o valor esperado da observável correspondente
é também independente do tempo:

⟨ψ (t)|H|ψ (t)⟩ = ⟨ψ (t0 )|U† (t)HU(t)|ψ (t0 )⟩ = ⟨ψ (t0 )|H|ψ (t0 )⟩ (6.22)

desde que H comute com U. 8 Naturalmente sugerimos que a identidade H seja o operador de energia, i.e.,
o operador hamiltoniano. Assim, o valor esperado da energia é

E = ⟨ψ|H|ψ⟩ . (6.23)

Os autokets do hamiltoniano, são os autoestados de energia que satisfazem

H|φn ⟩ = En |φn ⟩ (6.24)

e que têm um papel fundamental na mecânica quântica. É fácil determinar a ação do operador evolução
temporal U(t) nesses estados, para isso usaremos a série de Taylor para a exponencial
[ ( )2 ]
i Ht 1 i Ht
e− ~ Ht |φn ⟩ = 1 −
i
+ − + · · · |φn ⟩
~ 2! ~
[ ( ) ]
i En t 1 i En t 2
= 1− + − + · · · |φn ⟩
~ 2! ~

= e− ~ En t |φn ⟩ ,
i

onde podemos observar que En = ~ωn .


Usando o operador de evolução temporal em termos de |φn ⟩⟨φn |
∑∑
e− ~ Ht = |φm ⟩⟨φm |e− ~ Ht |φn ⟩⟨φn |
i i

n m

|φn ⟩e− ~ En t ⟨φn | ,
i
= (6.25)
n

mas, em t = 0

|ψ (0)⟩ = |φn ⟩⟨φn |ψ⟩
n

= cn |φn ⟩ (6.26)
n

e em t qualquer

|ψ (t)⟩ = e− ~ Ht |ψ (0)⟩
i


|φn ⟩⟨φn |ψ⟩ e− ~ En t .
i
= (6.27)
n

Assim, quando cn (t = 0) temos


cn (t) = cn (t = 0)e− ~ En t .
i
(6.28)
Se o estado inicial do sistema é o autoestado de energia, |ψ (0)⟩ = |φn ⟩, então

|ψ (t)⟩ = e− ~ En t |φn ⟩
i
(6.29)
8
Para estabelecer que H comuta com U, use a expansão da série de Taylor para U.
6.5. R EPRESENTAÇÕES DE S CHRÖDINGER , H EISENBERG E I NTERAÇÃO 133

dizemos que os autoestados de energia formam o conjunto de estados estacionários, como já discutido no
capítulo 2.
Então, se o sistema é um autoestado simultâneo da observável A, não dependente explicitamente do
tempo, e do operador hamiltoniano H, assim o será em todo tempo,
( ) ( )
d d d d
⟨A⟩ = ⟨ψ (t)|A|ψ (t)⟩ = ⟨ψ (t)| A|ψ (t)⟩ + ⟨ψ (t)|A |ψ (t)⟩
dt dt dt dt
i i
= (⟨ψ (t)|HA|ψ (t)⟩ − ⟨ψ (t)|AH|ψ (t)⟩) = ⟨ψ (t)|[H, A]|ψ (t)⟩
~ ~
i
= ⟨[H, A]⟩ = 0 . (6.30)
~
Assim, o operador associado à observável A é uma constante de movimento.
Também podemos mostrar que o valor esperando de uma observável A com respeito à um autoket para
o caso estacionário é independente através de outra relação. Usando (6.29) temos:
⟨A⟩ = ⟨ψ (t)|A|ψ (t)⟩ = ⟨φn |e+ ~ En t A e− ~ En t |φn ⟩
i i

= ⟨φn |A|φn ⟩ . (6.31)


Consideremos agora o valor esperado da observável A quando levamos em conta a superposição dos
autoestados de energia, ou estados não estacionários. Começaremos por

|ψ (0)⟩ = cn |φn ⟩ .
n
Logo,
[ ] [ ]
∑ ∑
c∗n ⟨φn |e+ ~ En t − ~i Em t
i
⟨A⟩ = A cm e |φm ⟩
n m
∑∑
c∗n cm ⟨φn |A|φm ⟩ e− ~ (Em −En )t .
i
= (6.32)
n m

Esse valor esperado depende da frequência angular de Bohr, ou seja, consiste de valores em função dos
termos de oscilação
Em − En
ωmn = . (6.33)
~

6.5 Representações de Schrödinger, Heisenberg e Interação


Representação de Schrödinger Faremos um sumário do desenvolvimento temporal na conhecida e fa-
miliar representação de Schrödinger que usamos em nossa discussão da evolução temporal
|ψ (t)⟩ = U(t)|ψ (0)⟩ (6.34a)

⟨ψ (t)| = ⟨ψ (0)|U (t) , (6.34b)
onde
U(t) = e− ~ Ht
i
(6.35)
com o hamiltoniano H independente do tempo. Sabemos que o operador de evolução temporal satisfaz a
equação diferencial

i ~ U(t) = H U(t) . (6.36)
∂t
Assim, a variação temporal do valor esperado de um operador OS é dado por
d i
⟨ψ (t)|OS |ψ (t)⟩ = ⟨ψ (t)|[H, OS ]|ψ (t)⟩ (6.37)
dt ~
onde assumimos que o operador OS não depende explicitamente do tempo, mas os kets variam com o
tempo.
134 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

Representação de Heisenberg Uma alternativa para a representação de Schrödinger na descrição da


evolução temporal é a representação de Heisenberg. Nesta representação, os estados kets são constantes no
tempo
|ψH (t)⟩ = U† (t)|ψ (t)⟩ = e ~ Ht |ψ (t)⟩ = |ψ (0)⟩ .
i
(6.38)
Por outro lado, o valor esperado de OS , pode ser escrito como

⟨ψ (t)|OS |ψ (t)⟩ = ⟨ψ (0)|e ~ Ht OS e− ~ Ht |ψ (0)⟩


i i

= ⟨ψH |U† (t) OS U(t)|ψH ⟩ . (6.39)

Essa relação, sugere a definição de um operador OH na representação de Heisenberg dado por

OH = U† (t) OS U(t) (6.40)

que carrega toda a dependência temporal. Logo,

⟨ψ (t)|OS |ψ (t)⟩ = ⟨ψH |OH |ψH ⟩ . (6.41)

Concluindo, na representação de Heisenberg os autokets são fixos no tempo, enquanto os operadores são
dependentes do tempo.

Equação de Movimento de Heisenberg Iremos deduzir a equação fundamental de movimento na re-


presentação de Heisenberg. Assumindo um caso geral, OS depende explicitamente do tempo. A equação
diferencial será
d H d ( † S )
O = U O U
dt dt
∂U† S ∂U ∂OS
= O U + U† OS + U† U
∂t ∂t ∂t
i i ∂OS
= U† HUU† OS U − U† OS UU† HU + U† U
~ ~ ∂t
i ∂OH
= [U† HU, OH ] + . (6.42)
~ ∂t
Como H e U comutam, resulta que
U† HU = H
e a equação diferencial será
d H i ∂
O = [H, OH ] + OH . (6.43)
dt ~ ∂t
Se OS não depende explicitamente do tempo, que são os casos de situações físicas de maior interesse, temos

d H i
O = [H, OH ] (6.44)
dt ~

que é a conhecida equação de movimento de Heisenberg. 9 Historicamente, essa equação foi escrita primei-
ramente por Paul Dirac, que a chamou de equação de movimento de Heisenberg. É instrutivo comparar
a Eq. (6.44) com a sua correspondente em mecânica clássica para a observável O(q, p). Classicamente a
equação de movimento, através do parênteses de Poisson, poderá ser escrita na forma:

d
O(q (t), p(t)) = {O, H}(q, p) (6.45)
dt
9
Note que a hamiltoniana é a mesma nas duas representações.
6.5. R EPRESENTAÇÕES DE S CHRÖDINGER , H EISENBERG E I NTERAÇÃO 135

onde H é a hamiltoniana clássica do sistema e (q (t), p(t)) é a trajetória clássica no espaço de fase, obede-
cendo as equações de Hamilton, 10
∂H ∂H
q̇ (t) = , ṗ(t) = − . (6.46)
∂p ∂q
A comparação entre (6.44) e (6.45) remete-nos mais uma vez ao princípio de correspondência
1
{A, B} = [A, B] (6.47)
i~
entre a mecânica clássica e a mecânica quântica, a qual é usada como guia para a quantização de sistemas
com análogos clássicos. Essa relação foi observada por Dirac ao relacionar o comutador aos parênteses de
Poisson. 11

Representação de Interação Aqui estudaremos uma representação intermediária em que operadores e


kets carregam alguma informação da dependência temporal. Podemos considerar a hamiltoniana H em
duas partes,
H = H0 + H1 (6.48)
onde H0 não contém dependência temporal explícita. Quando assumimos H1 = 0, voltamos ao nosso
problema usual
H0 |φn ⟩ = En |φn ⟩ (6.49)
que são completamente conhecidos.
Definimos um estado |ψI (t)⟩ na representação de interação por
i
|ψI (t)⟩ = e ~ H0 t |ψ (t)⟩ . (6.50)

Note que
d i i d
i~ |ψI (t)⟩ = −H0 e ~ H0 t |ψ (t)⟩ + e ~ H0 t i ~ |ψ (t)⟩
dt dt
i i
= −H0 e ~ H0 t |ψ (t)⟩ + e ~ H0 t (H0 + H1 )|ψ (t)⟩
= e ~ H0 t H1 |ψ (t)⟩ = e ~ H0 t H1 e− ~ H0 t |ψI (t)⟩ .
i i i
(6.51)

A dependência temporal do autoket na representação de interação é governada por H1 .


Se examinarmos o valor esperado de um operador, temos

⟨ψ (t)|O|ψ (t)⟩ = ⟨ψI (t)|e ~ H0 t O e− ~ H0 t |ψI (t)⟩


i i
(6.52)

que nos leva a definir um operador na representação de interação por

OI = e ~ H0 t O e− ~ H0 t .
i i
(6.53)

Partindo que o operador na representação de Schrödinger não depende explicitamente do tempo, a equação
de movimento usando OI é dada por
d I i ( i H0 t )
H0 O e− ~ H0 t − e ~ H0 t OH0 e− ~ H0 t
i i i
O = e~
dt ~
i
= [H0 , OI ] . (6.54)
~
10
Para uma excelente revisão dos colchete de Poisson e das equações de Hamilton, ver Goldstein, Classical mechanics, (1980),
ou o livro de Landau e Lifshitz, Mechanics, (1993).
11
Ver Dirac, The principles of quantum mechanics, (1958) e o artigo original P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society of
London, A109, 642–653 (1926).
136 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

O desenvolvimento temporal dos operadores na representação de interação é determinado por H0 . Da de-


finição (6.53), vemos que a hamiltoniana H0 é a mesma tanto para a representação de Schrödinger quanto
para a de interação. Por outro lado, H1 e

HI = e ~ H0 t H1 e− ~ H0 t
i i
(6.55)
diferem, desde que H0 e H1 não comutem. A evolução temporal (6.51) dos estados na representação de
interação pode ser escrita em termos de HI como
d
i~ |ψI (t)⟩ = HI |ψI (t)⟩ (6.56)
dt
da mesma forma que a equação de Schrödinger, onde substituímos H por HI . As Eqs. (6.54) e (6.56)
são as equações fundamentais na representação de interação. Nesta representação, como vimos, a evolução
temporal dos operadores é determinada por H0 e a evolução temporal dos autokets é determinada por H1 .
Esta representação é um intermediário entre a representação de Schrödinger, em que os kets carregam a
dependência temporal, e a representação de Heisenberg, em que os operadores carregam a dependência
temporal.
Podemos expressar a solução de (6.56) em termos do operador de evolução temporal na representação
de interação,
|ψI (t)⟩ = UI (t)|ψI (0)⟩ (6.57)
de (6.56) teremos
d I
i~ U (t) = HI UI (t) (6.58)
dt
que tem a solução formal dada por
∫ t
i
U (t) = 1 −
I
dt′ HI (t′ )UI (t′ ) (6.59)
~ 0

que pode ser verificado, facilmente, substituindo essa expressão em (6.58) e tomando UI (0) = 1, como
condição inicial. A solução perturbativa para a interação é dada por
∫ t [ ∫ t′ ]
i i
UI (t) = 1 − dt′ HI (t′ ) 1 − dt′′ HI (t′′ )UI (t′′ )
~ 0 ~ 0
∫ ( ) ∫ ∫ t′
i t ′ I ′ i 2 t ′ I ′
=1− dt H (t ) + − dt H (t ) dt′′ HI (t′′ ) + · · · (6.60)
~ 0 ~ 0 0

Tipicamente essa série converge rapidamente de tal forma que os primeiros termos da série são suficientes
para nos dar uma boa aproximação do desenvolvimento temporal do sistema.
Finalmente, se ∑
cn (t)e− ~ En t |φn ⟩
i
|ψ (t)⟩ =
n
então,
i
|ψI (t)⟩ = e ~ H0 t |ψ (t)⟩

cn (t)e− ~ En t |φn ⟩
i i
= e ~ H0 t
n

= cn (t)|φn ⟩ (6.61)
n
e
ci (t) = ⟨φi |ψI (t)⟩ . (6.62)
As relações (6.60), (6.61) e (6.62) serão importantes quando estudarmos a teoria de perturbação dependente
do tempo, e na dedução da regra de ouro de Fermi. 12
12
E. Fermi, Nuclear physics, (1950).
6.6. P RECESSÃO DO Spin 137

6.6 Precessão do Spin


Devido ao spin do elétron, esse possui um momento magnético µ
⃗ s que é dado por
e ⃗
⃗s = −
µ gs S
2µc

onde o fator g para o elétron vale aproximadamente 2, i.e., gs = 2. Assim, na presença de um campo
magnético externo ⃗B = B k̂, a hamiltoniana será

H = −⃗
µs · ⃗B . (6.63)

Como e < 0 para o elétron,


e⃗ ⃗ eB
H=− S · B = − Sz (6.64)
µc µc
onde Sz comuta com H, ou seja eles têm autokets simultâneos. Definindo a frequência angular, ou frequên-
cia de Larmor 13 , ω = |e|B
µc , a hamiltoniana será
14

H = ωSz . (6.65)

Portanto, seus autovalores serão:


H|+⟩ = ωSz |+⟩ = |+⟩ = E+ |+⟩
2

H|−⟩ = ωSz |−⟩ = − |−⟩ = E− |−⟩
2
isto é,
e~B
E± = ∓ Sz para Sz ± . (6.66)
2µc
Podemos perguntar: o que acontece com a evolução temporal do sistema? Desde que a hamiltoniana
seja independente do tempo,

U(t) = e− ~ Ht = e− ~ ωSz t = e− ~ Sz ϕ = R(ϕk̂)


i i i
(6.67)

assumimos o operador de evolução temporal como um operador de rotação girando ao redor do eixo z por
um ângulo ϕ = ωt. É fácil notar que a partícula de spin- 21 na presença de um campo magnético na direção
z, terá seu spin girando em torno do eixo z com um período de T = 2π ω .
Vamos trabalhar com um exemplo específico para detalhar nossa dinâmica. Com ⃗B = B k̂, escolhemos
o estado inicial ψ(0) = |+⟩x . O estado |+⟩x é a superposição dos estados de Sz . Naturalmente, em um
tempo t
( )
e− 2
i ωt i ωt
− ~i Ht 1 1 e 2
|ψ (t)⟩ = e √ |+⟩ + √ |−⟩ = √ |+⟩ + √ |−⟩
2 2 2 2
( )
1 ei ωt
= e−
i ωt
2 √ |+⟩ + √ |−⟩ . (6.68)
2 2

Note que, esse estado é justamente o fator de fase vezes o estado spin up de |+⟩u , com a escolha do ângulo
azimutal ϕ = ωt.
13
Joseph Larmor (1857–1942), físico e matemático irlandês.
14 2µB B |e|~
Também podemos escrever a frequência de Larmor como ω = ~
, em que µB = 2µc
é o magneton de Bohr.
138 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

Vamos investigar as probabilidades e os valores esperados do spin envolvendo o tempo. Usando a equa-
ção acima para |ψ (t)⟩, vemos que:
i ωt 2
e 2 1
|⟨+|ψ (t)⟩| = √
2
= (6.69)
2 2
2
e− 2
i ωt
1
|⟨−|ψ (t)⟩| = √
2
= (6.70)
2 2

são independentes do tempo. Então,


( ) ( )
1 ~ 1 ~
⟨Sz ⟩ = + − =0 (6.71)
2 2 2 2

também é uma constante de movimento.


Quando examinamos as componentes do spin no plano xy, vemos a dependência explícita do tempo.
Desde que
( ) ( − i ωt i ωt
)
1 1 e 2 e 2
x ⟨+|ψ (t)⟩ = √ ⟨+| + √ ⟨−| · √ |+⟩ + √ |−⟩
2 2 2 2
( i ωt )
1 ( ) 1 e− 2 ωt
=√ 1 1 √ i ωt = cos . (6.72)
2 2 e 2 2

Logo,
ωt
|x ⟨+|ψ (t)⟩|2 = cos2 (6.73)
2
note que esse valor de probabilidade é para spin up em x. Para o spin down temos
( ) ( − i ωt i ωt
)
1 1 e 2 e 2
x ⟨−|ψ (t)⟩ = √ ⟨+| − √ ⟨−| · √ |+⟩ + √ |−⟩
2 2 2 2
( i ωt )
1 ( ) 1 e− 2 ωt
= √ 1 −1 √ i ωt = − i sen (6.74)
2 2 e 2 2

e,
ωt
|x ⟨−|ψ (t)⟩|2 = sen2 . (6.75)
2
Assim, o valor esperado será
( ) ( )
ωt ~ 2 ωt ~
⟨Sx ⟩ = cos2
+ sen −
2 2 2 2
~
= cos ωt . (6.76)
2
Similarmente, para os estados em y temos:

1 + sen ωt
|y ⟨+|ψ (t)⟩|2 = (6.77)
2
1 − sen ωt
|y ⟨−|ψ (t)⟩|2 = (6.78)
2
e
~
⟨Sy ⟩ = sen ωt . (6.79)
2
6.7. R ESSONÂNCIA M AGNÉTICA 139

Todos esses resultados são consistentes com a precessão do spin na forma anti-horária ao redor do eixo
z, com período T = 2π ω . De acordo com a nossa análise usando o operador de evolução temporal (6.67)
como um operador de rotação, é fácil observar que

d i
⟨Sz ⟩ = ⟨ψ|[H, Sz ]|ψ⟩ (6.80)
dt ~
pois podemos ver explicitamente que H comuta com Sz . Isso nos leva dizer que Sz é uma constante de
movimento. Por outro lado, Sx e Sy variam no tempo. Logo, H não comuta com esses operadores.

Nota sobre o Fator g Para uma partícula com fator g = 2, o spin precessa com a mesma frequência
que a frequência de cíclotron da partícula no campo magnético. O fator g, também é conhecido como fator
giromagnético. Em virtude das correções radiativas dadas pela eletrodinâmica quântica, o elétron tem um
fator g ̸= 2 por uma pequena quantidade da ordem de α = 137 1
, onde α é a constante de estrutura fina.
Assim, podemos escrever ( )
α
g =2 1+ + · · · = 2, 0023192

ou
(g ) 1α ( α )2 ( α )3
−1 = − 0, 328478 + 1, 195 + ···
2 2π π π
= (115.965, 54 ± 0, 33) × 10−8 .

Essa correção radiativa permite a determinação experimental do fator (g/2 − 1) com grande precisão. Este
fator é denominado de momento magnético anômalo do elétron. Uma aplicação interessante da precessão
do spin é a determinação do fator g para o muon (µ). A primeira medida desse fator g para os muons foi
realizada por Garwin 15 , Lederman 16 e Weinrich 17 , que obtiveram g = 2, 00 ± 0, 10. 18 Na final da década
de 1970, vários experimentos ocorridos no CERN 19 determinaram este fator, e os resultados mais recentes
são

(g/2 − 1)(e− ) = (115.965, 77 ± 0, 35) × 10−8


(g/2 − 1)(e+ ) = (116.030 ± 120) × 10−8
(g/2 − 1)(µ± ) = (116.616 ± 31) × 10−8 .

Estes resultados estão de acordo com as previsões da eletrodinâmica quântica. 20

6.7 Ressonância Magnética


Vamos agora descrever uma técnica para a medida do fator giromagnético do próton gp , ou seja de seu
momento de dipolo magnético intrínseco. Conforme vimos na seção anterior, um momento magnético as-
sociado a uma partícula de spin 12 imerso em um campo magnético uniforme ⃗B na direção z apresenta dois
estados de energia bem definida. Consideremos um dipolo magnético que se encontra inicialmente no es-
tado de energia mais baixa, i.e., alinhado com o campo magnético externo, e então aplicaremos um campo
magnético perpendicular ao original o qual oscila com frequência ω. Mostraremos que a probabilidade do
estado do sistema passar para o estado de energia mais alta é maximizada para ω ∝ gp , o que nos permite a
determinação deste parâmetro. Várias aplicações tais como, o relógio atômico e tomografia por ressonância
magnética nuclear estão baseadas nos resultados desenvolvidos nessa seção.
15
Richard Lawrence Garwin (1928– ), físico americano.
16
Leon Max Lederman (1922– ), físico americano.
17
Marcel Weinrich (1927–2008), físico polonês-americano.
18
R. L. Garwin, L. M. Lederman and M. Weinrich, Physical Review, 105, 1415 (1957).
19
CERN - European Organization for Nuclear Research, Genebra, Suíça.
20
J. Bailey et al., Nuclear Physics, B150, 1 (1979).
140 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

Consideremos um próton cujo momento de dipolo magnético é dado por

e~ ⃗S ⃗S
µ
⃗ próton = gp ≡ gp µp (6.81)
2Mp c ~ ~
e~
onde µp = 2Mp c é o magneton nuclear. Consideremos que esse próton esteja na presença de um campo
magnético
⃗B = BT (ı̂ cos ωt − ȷ̂ sen ωt) + BL k̂ . (6.82)
Como a hamiltoniana do sistema é
H = −⃗
µpróton · ⃗B
e a equação de Schrödinger dependente do tempo escreve-se como


i~ µpróton · ⃗B|ψ (t)⟩
|ψ (t)⟩ = −⃗
∂t
onde o estado do sistema é ( )
a(t)
|ψ (t)⟩ = ,
b(t)
temos que a equação de movimento para o spin desse próton é dada por
( ) ( )( )
∂ a(t) gp µp BL BT ei ωt a(t)
i~ =− . (6.83)
∂t b(t) 2 BT e− i ωt BL b(t)

Definindo as frequências
gp µp BL gp µp BT
ΩL = e ΩT = (6.84)
2~ 2~
podemos reescrever (6.83) como um par de equações diferenciais acopladas

∂a ( )
= i ΩT ei ωt b + ΩL a ,
∂t
(6.85)
∂b ( )
= i ΩT e− i ωt a − ΩL b .
∂t
Para resolvermos a equação acima, devemos procurar soluções da seguinte forma

a = a0 ei ωa t e b = b0 ei ωb t (6.86)

onde a0 , b0 , ωa e ωb são constantes. Substituindo essas relações em (6.85) temos


( )( )
(ωa − ΩL ) −ΩT e− i φt a0
=0 (6.87)
−ΩT e− i φt (ωb + ΩL ) b0

onde φ = ωa − ωb − ω. Tendo em vista que fizemos a suposição de que a0 e b0 são constantes, devemos ter
que φ = 0, ou seja
ωa = ωb + ω . (6.88)
E para que obtenhamos uma solução não trivial, o determinante da matriz quadrada que aparece em (6.87)
deve anular-se, o que nos conduz a
ω ω
ωa = ± ω̄ e ωb = − ± ω̄ (6.89)
2 2
com ( ω )2
ω̄ 2 = ΩL − + Ω2T . (6.90)
2
6.7. R ESSONÂNCIA M AGNÉTICA 141

Agora podemos escrever a solução geral de (6.83)

a(t) = a1 ei( 2 −ω̄)t + a2 ei( 2 +ω̄)t


ω ω
(6.91)

b(t) = b1 e− i( 2 +ω̄)t + b2 e− i( 2 −ω̄)t .


ω ω
(6.92)
Para especificarmos completamente o problema assumiremos que o sistema encontra-se no instante t = 0
no estado de energia mais baixa, a saber, quando a(0) = 1 e b(0) = 0. Utilizando essas condições iniciais,
bem como (6.85) para obter as derivadas em t = 0, segue que
[ ( ω ) ] sen ω̄t ω
a(t) = i − + ΩL + ω̄ cot ω̄t ei 2 t (6.93)
2 ω̄

ΩT
sen ω̄t e− i 2 t .
ω
b(t) = − (6.94)
ω̄
Logo a probabilidade de transição para o estado de energia mais alta é dada por
Ω2T
|b(t)|2 = ( ) sen2 ω̄t (6.95)
ω 2
ΩL − 2 + Ω2T
que é conhecida como fórmula de Rabi 21 .
Note que essa probabilidade será máxima quando tivermos a condição de ressonância ωres = 2ΩL , i.e.,
para
gp µp BL
ωres = (6.96)
~
e ainda, quando queremos aplicar esse cálculo para elétrons trocamos os parâmetros do próton pelos parâ-
metros do elétron. Com isso é fácil verificar que a frequência de ressonância dos elétrons é muito diferente
da frequência de ressonância dos prótons, permitindo assim a separação dos efeitos devidos aos prótons e
aos elétrons.

Experimento de Rabi O experimento de Rabi consiste de dois aparatos de Stern-Gerlach com campos
magnéticos opostos separados por uma região contendo um campo estático e um campo oscilante como
na Eq. (6.82), 22 conforme Fig. 6.1. Na ausência do campo oscilante o feixe gerado com autovalor ~2 de Sz

Figura 6.1 Esquema do experimento de Rabi.

no primeiro aparato de Stern-Gerlach é detectado integralmente após o segundo desses aparatos. Quando
o campo oscilante é ligado o número de átomos detectados é menor, sendo que o número de átomos que
chegam ao detector depende da frequência do campo oscilante. Quando esta frequência é a frequência
de ressonância dada por (6.96) o número de átomos detectados será mínimo. Isso irá permitir medir com
precisão ωres , e consequentemente o valor de gp , como podemos ver na Fig. 6.2.
21
Isidor Isaac Rabi (1898–1988), físico austro-húngaro americano.
22
I. I. Rabi, J. R. Zacharias, S. Millman and P. Kusch, Physical Review, 53, 318 (1923).
142 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

Figura 6.2 Número de átomos detectados em função do frequência do campo magnético BL num experimento de
Rabi.

6.8 Oscilador Harmônico


O oscilador harmônico é um dos mais importantes problemas abordados pela mecânica quântica. Do ponto
de vista pedagógico, ilustra conceitos básicos e o método dos operadores. Do ponto de vista prático, pode
ser aplicado em espectroscopia molecular, matéria condensada, estrutura nuclear, teoria quântica de campos,
óptica quântica, mecânica estatística quântica, e outros. Historicamente foi M. Planck quem propôs associar
unidades discretas de energia com a radiação dos osciladores dando início aos conceitos quânticos. Porém
foi P. Dirac que elegantemente introduziu o conceito de operadores para solucionar o problema do oscilador
harmônico, e aplicou as mesmas técnicas para a quantização do campo eletromagnético. 23

Autokets e Autovalores de Energia A hamiltoniana básica do oscilador harmônico é dada por


p2 µω 2 x2
H= + , (6.97)
2µ 2
onde ω é a frequência angular do oscilador clássico. Os operadores ⃗x e ⃗p são hermitianos, e obedecem a
relação de comutação
[x, px ] = i ~ . (6.98)
Nota-se que a hamiltoniana é quadrática tanto na posição x como no momentum px . Para o oscilador
iremos introduzir dois operadores não hermitianos
√ ( )
µω i
a= x+ p (6.99)
2~ µω
√ ( )
µω i
a† = x− p (6.100)
2~ µω
conhecidos como operador de aniquilação e operador de criação, respectivamente. Usando a relação de
comutação (6.98), temos
1
[a, a† ] = (− i[x, p] + i[p, x]) = 1 . (6.101)
2~
Dos operadores (6.99) e (6.100), obtemos

~ ( )
x= a + a† (6.102)
2µω

µω~ ( †
)
p = −i a−a . (6.103)
2
23
Ver o excelente livro de P. Dirac, The principles of quantum mechanics, (1958) e os artigos originais P. A. M. Dirac, Proceedings
of the Royal Society of London, A109, 642–653 (1926); Idem, A114, 243–265 (1927).
6.8. O SCILADOR H ARMÔNICO 143

Logo, podemos escrever a hamiltoniana como


( )
~ω ( † †
)
† 1
H= a a + aa = ~ω a a + . (6.104)
2 2

Nessa última equação usamos a relação de comutação (6.101). Para encontrarmos os autoestados de H é
suficiente encontrarmos os autoestados de
N = a† a (6.105)
conhecido como operador número, o qual é hermitiano, pois

N † = (a† a)† = a† (a† )† = a† a = N .

Assim, a hamiltoniana será ( )


1
H = ~ω N + . (6.106)
2
No tratamento que iremos apresentar, vamos introduzir a seguinte abreviação |φn ⟩ = |n⟩, para represen-
tar os autokets do oscilador quântico. Na óptica quântica, os estados |n⟩ são chamados estados de Fock 24 .
Como H é uma função linear de N , o operador N pode ser diagonalizado simultaneamente com H. Assim,

N |n⟩ = n|n⟩ . (6.107)

O valor esperado do operador número no autoket é dado por

⟨n|N |n⟩ = ⟨n|a† a|n⟩ = n⟨n|n⟩ . (6.108)

Chamamos
a|n⟩ = |ψ⟩ (6.109)
podemos escrever (6.108) como
⟨ψ|ψ⟩ = n⟨n|n⟩ . (6.110)
Desde que ⟨ψ|ψ⟩ ≥ 0 e ⟨n|n⟩ ≥ 0, a equação acima mostra que os autovalores esperados n ≥ 0 são
números positivos.
Para termos uma melhor compreensão dos operadores a, a† e N , notemos que

[N, a] = [a† a, a] = a† [a, a] + [a† , a]a = −a , (6.111)

similarmente
[N, a† ] = a† . (6.112)
Como resultado, temos
( )
N a† |n⟩ = [N, a† ] + a† N |n⟩
= (n + 1)a† |n⟩ (6.113)

indicando que
a† |n⟩ = c+ |n + 1⟩ . (6.114)
Essas relações implicam que a† |n⟩ é um autoket de N com autovalor n + 1. Então a† é um operador de
criação ou operador de levantamento. Similarmente

N a|n⟩ = ([N, a] + aN ) |n⟩


= (n − 1)a|n⟩ (6.115)
24
Vladimir Aleksandrovich Fock (1898–1974), físico russo.
Ver livro D. F. Wals and G. J. Milburn, Quantum optics, (1994).
144 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

com
a|n⟩ = c− |n − 1⟩ . (6.116)
Essas relações implicam que a|n⟩ é também um autoket de N com autovalor n − 1, e a é um operador de
aniquilação ou operador de abaixamento.
Como n ≥ 0, existe um autovalor mínimo, chamado nmin , tal que o ket com esse autovalor satisfaz

a|nmin ⟩ = 0 (6.117)

pois a|nmin ⟩ = c|nmin − 1⟩, violando a condição de mínimo nmin . Se aplicarmos o operador de levanta-
mento a† , teremos
a† a|nmin ⟩ = nmin |nmin ⟩ = 0 . (6.118)
Desde que |nmin ⟩ exista, requer que nmin = 0. Então podemos escrever o autoket mínimo como |0⟩.
Aplicando o operador de levantamento (ou criação) n vezes, fica claro que n deve ser um inteiro positivo.
Naturalmente
N |n⟩ = n|n⟩ n = 0, 1, 2, 3, · · · (6.119)
Assim, os autovalores do operador número N são inteiros positivos. Logo, os autovalores da hamiltoniana
são determinados por
( ) ( )
1 1
H|n⟩ = ~ω N + |n⟩ = ~ω n + |n⟩ = En |n⟩ . (6.120)
2 2
Então, a energia do oscilador harmônico
( )
1
En = n + ~ω n = 0, 1, 2, 3, · · ·
2
é quantizada, i.e., toma valores discretos. No estado fundamental, n = 0, o oscilador quântico tem energia
1
E0 = ~ω .
2
Note que o espectro de energia tem um espaçamento uniforme entre os níveis.

Elementos de Matriz dos Operadores a† e a Inicialmente iremos determinar as constante c+ em (6.114)


e c− em (6.116). Por exemplo, a equação bra correspondente a equação ket

a† |n⟩ = c+ |n + 1⟩ (6.121)

é dada por
⟨n|a = c∗+ ⟨n + 1| . (6.122)
Do produto interno dessas equações, temos

⟨n|aa† |n⟩ = ⟨n|a† a + 1|n⟩ = (n + 1)⟨n|n⟩


= c∗+ c+ ⟨n + 1|n + 1⟩ . (6.123)

Se os autoestados são normalizados,


√ i.e., eles satisfazem a relação ⟨n|n⟩ = 1 para todos os valores de n,
podemos escolher c+ = n + 1, ou

a† |n⟩ = n + 1|n + 1⟩ . (6.124)

Similarmente, se usarmos o ket


a|n⟩ = c− |n − 1⟩ (6.125)
e seu bra será
⟨n|a† = c∗− ⟨n − 1| (6.126)
6.8. O SCILADOR H ARMÔNICO 145

o produto internos é dado por

⟨n|a† a|n⟩ = n⟨n|n⟩


= c∗− c− ⟨n − 1|n − 1⟩ (6.127)

novamente usando a normalização para todos os valores de n, podemos escolher c− = n . Logo,

a|n⟩ = n|n − 1⟩ . (6.128)

Portanto para a base {|n⟩}, os elementos de matriz dos operadores de criação e aniquilação são dados
pela relação de ortogonalidade

⟨n′ |a† |n⟩ = n + 1 δn′ ,n+1 (6.129)


⟨n′ |a|n⟩ = n δn′ ,n−1 . (6.130)

Logo,
 
√0 0 0 0 ·
 1 0 0 0 ·
 √ 
† 
(a ) =  0 2 √0 0 · (6.131)

 0 0 3 0 ·
· · · · ·
e  √ 
0 1 √0 0 ·
0 0 2 √0 ·
 
(a) = 
0 0 0 3 ·. (6.132)
0 0 0 0 ·
· · · · ·
Como √ √
~ ( ) µω~ ( )
x= a + a† e p=i −a + a† ,
2µω 2
temos as seguintes matrizes

~ (√ √ )
⟨n′ |x|n⟩ = n δn′ ,n−1 + n + 1 δn′ ,n+1 (6.133)
2µω

µω~ ( √ √ )
⟨n′ |p|n⟩ = i − n δn′ ,n−1 + n + 1 δn′ ,n+1 . (6.134)
2
Então, √ 
0
√ 1 √0 0 ·
√  1 0 2 √0 ·
~  0
√ 
(x) = 2 0 3 · (6.135)
2µω 
 0
√ 
0 3 0 ·
· · · · ·
e  √ 
√0 − 1 0
√ 0 ·
√  1 0 − 2 0 ·
µω~ 

√ √ 
(p) = i 0 2 √0 − 3 · (6.136)
2  0

0 3 0 ·
· · · · ·
como esperado. Essas matrizes são hermitianas, porém não são diagonais na representação N que estamos
usando, claro que as matrizes x e p assim como a e a† não comutam com N .
146 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

Finalmente, podemos aplicar sucessivamente o operador de criação a† no estado fundamental |0⟩.


Usando a relação (6.124), teremos

|1⟩ = a† |0⟩
a† (a† )2
|2⟩ = √ |1⟩ = √ |0⟩
2 2
a † †
(a )3
|3⟩ = √ |2⟩ = √ |0⟩
3 3·2
..
.
(a† )n
|n⟩ = √ |0⟩ . (6.137)
n!
Desse modo garantimos a construção de simultâneos autokets de N e H com autovalores de energia
( )
1
En = n + ~ω (n = 0, 1, 2, 3, · · · ) .
2

Funções de Onda no Espaço de Posição Iremos usar o método dos operadores para obter as autofunções
no espaço de posição. Vamos iniciar com o estado fundamental |0⟩ que satisfaz

a|0⟩ = 0 . (6.138)

Projetando essa equação no espaço de posição, temos


√ ( )
µω i
⟨x|a|0⟩ = ⟨x| x + p |0⟩ = 0 . (6.139)
2~ µω
Mas sabemos que
~ ∂⟨x|0⟩
⟨x|p|0⟩ = (6.140)
i ∂x
onde ⟨x|0⟩ é a amplitude de encontrarmos uma partícula no estado fundamental na posição x. Temos tam-
bém,
⟨x|x|0⟩ = x⟨x|0⟩ . (6.141)
Assim, a Eq. (6.139) se reduz a uma equação diferencial de primeira ordem 25
d⟨x|0⟩ µωx
=− ⟨x|0⟩ (6.142)
dx ~
cuja solução é
µωx2
⟨x|0⟩ = N e− 2~ . (6.143)
Normalizando essa gaussiana 26 , teremos
( µω ) 1 µωx2
e−
4
⟨x|0⟩ = 2~ . (6.144)
π~
Note que determinamos a função de onda do estado fundamental, para determinar todas as autofunções
de energia usamos (6.137):
1
⟨x|n⟩ = √ ⟨x|(a† )n |0⟩
n!
(√ )n ( )
1 µω ~ d n ( µω ) 14 − µωx2
=√ x− e 2~ . (6.145)
n! 2~ µω dx π~
25
Desde que ⟨x|0⟩ é uma função somente de x, podemos substituir a derivada parcial por uma derivada total.
26
Johann Carl Friedrich Gauss (1777–1855), matemático alemão.
6.8. O SCILADOR H ARMÔNICO 147

Essa equação é uma forma alternativa de obtermos as autofunções do oscilador harmônico.


Podemos √ verificar que essas autofunções formam os polinômios de Hermite através da mudança de
µω
variável y = ~ x. Assim, a Eq. (6.145) será
( )
1 ( µω ) 41 d n − y2
⟨y|n⟩ = √ y− e 2 . (6.146)
2n n! π~ dy
Considerando o operador identidade
( ) 2
− y2
2
d y d
e y− e2 =−
dy dy
( )
y2 d n y2 dn
e− 2 y− e 2 = (−1)n n
dy dy
o que simplifica o termo
( ) ( ) ( )
d n − y2 − y2 y2 d n − y2 − y2 2 −y
2
d n y2 −y2
y− e 2 =e 2 e2 y− e 2 =e 2 e e 2 y−
y
e2e
dy dy dy
y2 dn y2
= e− 2 ey (−1)n n e−y = e− 2 Hn (y)
2 2
(6.147)
dy
pois
2 dn −y2
Hn (y) = ey (−1)n e
dy n
são os polinômios de Hermite. Logo

1 ( µω ) 14 − y2
⟨y|n⟩ = √ e 2 Hn (y) (6.148)
2n n! π~
como vimos na §3.8.

Propriedades Estatísticas do Oscilador Quântico Considerando os operadores x e p, é fácil perceber


por (6.133) e (6.134) que
⟨x⟩ = ⟨p⟩ = 0 (6.149)
e ainda podemos expressar x2 e p2 pelas relações
~ [ 2 ]
x2 = a + (a† )2 + a† a + aa† (6.150)
2µω
e
~µω [ 2 ]
p2 = − a + (a† )2 − a† a − aa† . (6.151)
2
Desse modo, quando procuramos determinar os valores esperados desses dois operadores para um estado
estacionário |n⟩ do oscilador, os únicos termos que dão contribuições não nulas são aqueles que envolvem
os produtos aa† e a† a. Os valores esperados serão expressos por
~
⟨x2 ⟩n = (2n + 1) (6.152)
2µω
e
~µω
⟨p2 ⟩n =
(2n + 1) . (6.153)
2
Com isso, no estado fundamental do oscilador, n = 0, temos
~ ~µω
⟨x2 ⟩0 = , ⟨p2 ⟩0 = .
2µω 2
148 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

Segue-se que o valor esperado para a energia total do oscilador quântico, no estado fundamental será
⟨ 2⟩ ⟨ 2 2⟩
p µω x ~ω ~ω
⟨E⟩0 = + = +
2µ 0 2 0 4 4
1
= ~ω .
2
Com o resultado previamente encontrado, podemos ver que os valores esperados da energia cinética e da
energia potencial são dados pelo teorema virial para a mecânica quântica.

Incertezas na Posição e no Momentum No caso do oscilador harmônico, as dispersões associadas a


posição e ao momentum para qualquer estado estacionário |n⟩, podem ser expressas pelas relações

⟨(∆x)2 ⟩n = ⟨x2 ⟩n − ⟨x⟩2n (6.154)

e
⟨(∆p)2 ⟩n = ⟨p2 ⟩n − ⟨p⟩2n (6.155)
como resultado,
[ ]1
[ ]1 ~ 2
⟨∆x⟩n = ⟨x ⟩n − 2
⟨x⟩2n 2
= (2n + 1)
2µω
e
[ ]1
[ ]1 ~µω 2
⟨∆p⟩n = ⟨p ⟩n −2
⟨p⟩2n 2
= (2n + 1) .
2
Para o estado fundamental, n = 0, teremos
[ ]1
[ ]1 ~ 2
⟨∆x⟩0 = ⟨x ⟩0 2 2
=
2µω
e
[ ]1
[ 2 ]1 ~µω 2
⟨∆p⟩0 = ⟨p ⟩0 2 = .
2
Essas duas relações podem ser usadas para obter a mínima incerteza para a posição e para o momentum no
estado fundamental do oscilador, i.e.,
~
⟨∆x⟩0 ⟨∆p⟩0 = .
2
Para estados excitados do oscilador harmônico, n > 0, o produto acima passa a ser
( )
1
⟨∆x⟩n ⟨∆p⟩n = n + ~
2

mostrando que a relação de incerteza é sempre maior que aquela do estado fundamental.

6.9 Evolução Temporal do Oscilador Harmônico


De acordo com as equações de movimento de Heisenberg, temos

dp 1 ∂H
= [p, H] = − = −µω 2 x (6.156)
dt i~ ∂x
e
dx 1 ∂H p
= [x, H] = = . (6.157)
dt i~ ∂p µ
6.10. E STADOS C OERENTES 149

Esse par de equações diferenciais acopladas é equivalente à duas equações diferenciais não acopladas para
a e a† ,
√ √
µω~ d † ~
i [a − a] = −µω 2
(a + a† )
2 dt 2µω
d †
[a − a] = i ω(a + a† ) (6.158)
dt
e
√ √
~ d † i µω~ †
[a + a] = (a − a)
2µω dt µ 2
d †
[a + a] = i ω(a† − a) . (6.159)
dt
Logo,
da da†
= − i ωa e = i ωa† (6.160)
dt dt
cuja soluções são
a(t) = a(0) e− i ωt e a† (t) = a† (0) ei ωt . (6.161)
Essas equações mostram que, tanto o hamiltoniano H quanto o operador número N não dependem do
tempo, visto que no produto a† (t)a(t) o tempo é eliminado. A dependência temporal para os operadores x e
p pode ser obtida usando as definições dos operadores a e a† , Eqs. (6.99) e (6.100), respectivamente. Assim,
i i
x(t) + p(t) = x(0)e− i ωt + p(0)e− i ωt (6.162)
µω µω
i i
x(t) − p(t) = x(0)e+ i ωt − p(0)e+ i ωt . (6.163)
µω µω
Igualando as partes hermitianas e não hermitianas dessas equações separadamente, deduzimos
1
x(t) = x(0) cos ωt + p(0) sen ωt (6.164)
µω
p(t) = −µωx(0) sen ωt + p(0) cos ωt . (6.165)

Essas equações apresentam a mesma forma que a equação clássica de movimento do oscilador. No entanto,
quando procuramos calcular os valores esperados de ⟨x(t)⟩ e ⟨p(t)⟩ para qualquer estado |n⟩, o resultado
encontrado é nulo, i.e.,
⟨x(t)⟩n = ⟨p(t)⟩n = 0
pois
⟨n|x(0)|n⟩ = ⟨n|p(0)|n⟩ = 0
são resultados que estão de acordo com aqueles obtidos para o caso do estado fundamental do oscilador
quântico.

6.10 Estados Coerentes


Calculamos o valor médio da posição, ⟨x⟩, nos estados estacionários do oscilador harmônico e vimos até
agora que esse valor é nulo, ou seja, nenhuma oscilação! Estados estacionários não são apropriados para
comparar o sistema quântico com o análogo clássico. Para obter algo semelhante a um pêndulo, devemos
estudar pacotes de onda. Os particulares pacotes de onda, que vamos estudar agora, se chamam estados
coerentes. Os estados coerentes foram introduzidos por Glauber 27 e são largamente empregados no estudo
27
Roy Jay Glauber (1925– ), físico americano.
150 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

da óptica e eletrônica quântica. 28 Consideremos as autofunções do operador a. Como a não comuta com H,
as autofunções de a não serão, em geral, autofunções de H, ou seja, não serão estados estacionários. Sejam
então |α⟩ funções tais que
a|α⟩ = α|α⟩ . (6.166)
Como o operador a não é hermitiano, os autovalores α serão números complexos quaisquer.
Lembremos que os estados estacionários podem ser escritos em termos do estado fundamental. Assim:
(a† )n
|n⟩ = √ |0⟩ . (6.167)
n!
Vai ser importante para os cálculos que faremos, a seguinte quantidade:
1
⟨n|α⟩ = √ ⟨0|an |α⟩
n!
αn
= √ ⟨0|α⟩ . (6.168)
n!
Vamos agora expandir |α⟩ em estados estacionários
∑ ∑ αn
|α⟩ = |n⟩ ⟨n|α⟩ = √ |n⟩ ⟨0|α⟩
n n n!
∑ αn ∑ αn (a† )n
= c0 √ |n⟩ = c0 √ √ |0⟩
n n! n n! n!
∑ (αa† )n
= c0 |0⟩ (6.169)
n
n!

pois usamos o coeficiente c0 = ⟨0|α⟩, naturalmente esse coeficiente é determinado pela normalização de
|α⟩. Logo,
∑ (α∗ )n ∑ αm
1 = ⟨α|α⟩ = |c0 |2 ⟨0|am (a† )n |0⟩
n
n! m
m!
∑ |α|2n ∑ |α|2n (√ )2
= |c0 |2 ⟨0|an (a† )n |0⟩ = |c0 |2 n! ⟨n|n⟩
n
(n!)2 n
(n!)2
∑ |α|2n ∑ |α|2n
= |c0 |2 n! = |c0 |2
n
(n!)2 n
n!
2 |α|2
⇒ |c0 | e =1 (6.170)
pois
∑ |α|n
= e|α|
n
n!
onde obtemos
|α|2
c0 = e− 2 .
Portanto, o estado coerente do oscilador harmônico quântico é
|α|2 ∑ αn
|α⟩ = e− 2 √ |n⟩ . (6.171)
n n!

Para obter a dependência temporal de |α⟩ precisamos mostrar o resultado geral: Seja H o hamiltoniano de
um sistema físico, e sejam |n⟩ suas autofunções. Sabemos que

|n(t)⟩ = |n⟩ e− ~ En t
i

28
Para aplicações em física de laser, ver M. Sargent III, M. O. Scully and W. E. Lamb Jr., Laser physics, (1974).
6.10. E STADOS C OERENTES 151

onde En são os autovalores de H, ou seja, satisfazem as equações

H|n⟩ = En |n⟩ .

Seja |ψ⟩ um estado qualquer desse sistema, e



|ψ⟩ = an |n⟩
n

sua expansão nas autofunções de H no instante t = 0. Então para uma tempo t posterior teremos

an |n⟩ e− ~ En t .
i
|ψ (t)⟩ = (6.172)
n

Essa relação é de fácil demonstração, pois consiste em mostrar que |ψ (t)⟩ satisfaz a equação de Schrödinger.
Aplicando (6.172) em
|α|2 ∑ αn
|α⟩ = e− 2 √ |n⟩
n n!
temos
|α|2 ∑ αn |α|2 ∑ αn
|α(t)⟩ = e− √ |n⟩ e− ~ En t = e− 2 √ |n⟩ e− ~ ~ω(n+ 2 )t
i i 1
2

n n! n n!
|α|2 ∑ (α e− i ωt )n
= e− |n⟩ e− i 2 t .
ω
2 √ (6.173)
n n!

Comparando esse resultado com (6.171), vê-se que

|α(t)⟩ = |α[α(t)] ⟩ e− i 2 t
ω
(6.174)

o índice α(t) é o autovalor de |α⟩ em função do tempo que é igual

α(t) = α e− i ωt . (6.175)

Agora podemos calcular o valor esperado de x e p no estado |α(t)⟩.

⟨x⟩ = ⟨α(t)|x|α(t)⟩ = ⟨α[α(t)] |x|α[α(t)] ⟩ (6.176)


⟨p⟩ = ⟨α(t)|p|α(t)⟩ = ⟨α[α(t)] |p|α[α(t)] ⟩ . (6.177)

Das definições de a† e a obtém-se facilmente os operadores x e p


( )1
~ 2
x= (a + a† ) (6.178)
2µω
( )1
µ~ω 2
p = −i (a − a† ) . (6.179)
2

Visto que a|α[α(t)] ⟩ = α(t)|α[α(t)] ⟩ e que ⟨α[α(t)] |a† = α∗ (t)⟨α[α(t)] |, temos


( )1
~ 2
⟨x⟩ = ⟨α[α(t)] |a + a† |α[α(t)] ⟩
2µω
( )1 ( )1
~ 2
∗ 2~ 2
= (α(t) + α (t)) = ℜ[α(t)]
2µω µω
( )1
2~ 2 [ − i ωt ]
= ℜ αe (6.180)
µω
152 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

e
( )1
µ~ω 2
⟨p⟩ = − i ⟨α[α(t)] |a − a† |α[α(t)] ⟩
2
( )1
µ~ω 2 1
= −i (α(t) − α∗ (t)) = (2µ~ω) 2 ℑ[α(t)]
2
1 [ ]
= (2µ~ω) 2 ℑ α e− i ωt . (6.181)

Note que do valor esperado ⟨x⟩ surgiu finalmente a oscilação procurada! O valor médio da posição, nesse
estado, oscila exatamente como o previsto, i.e., a equação é similar ao caso clássico.
A energia média do oscilador é independente do tempo
( )
1
⟨H⟩ = ~ω |α| + 2
2

mas ainda temos ( )


~ [ ]
⟨x2 ⟩ = 1 + (α(t) + α∗ (t))2
2µω
e ( )
µ~ω [ ]
⟨p ⟩ =
2
1 − (α(t) − α∗ (t))2 .
2
Temos então que os valores médios quadráticos de ∆H, ∆x e ∆p ficam expressos por,
( )1 ( )1
~ 2 µ~ω 2
∆H = ~ω |α| , ∆x = e ∆p = .
2µω 2

Note que ∆x e ∆p não são dependentes do tempo, então o pacote de onda retém um pacote de onda mínimo
por todo o tempo, ou seja, podemos dizer que os estados coerentes correspondem a uma pacote de onda de
mínima dispersão.
Os estados de mínima dispersão que não satisfazem as condições ∆x e ∆p se chamam estados com-
primidos ou prensados. 29 Esses são estados de mínima dispersão, mas uma de suas quadraturas (de ∆x
ou de ∆p) tem menos dispersão do que corresponde ao estado coerente, e a outra mais dispersão do que o
correspondente estado coerente, de maneira que satisfaçam a condição de que seu produto deva ser igual
a ~4 . 30 Os estados coerentes são portanto o caso particular desses estados, squeezed states, em que ambas
2

quadraturas têm o mesmo ruído.

6.11 Oscilador Harmônico Forçado


Para muitas aplicações, especialmente em teoria de campo, é importante considerar os efeitos dinâmicos
produzidos pela adição de uma força externa dependente do tempo, mas não dependente da coordenada, x
em uma dimensão. A hamiltoniana deste oscilador forçado assume a forma

p2 1
H= + µω 2 x2 − xF (t)
2µ 2

onde F (t) é uma função real de t. Podemos incluir, sem perda de informação, termos proporcionais ao
momentum. A hamiltoniana será
p2 1
H= + µω 2 x2 − xF (t) − pG(t) (6.182)
2µ 2
29
Squeezed states em inglês.
30
S. Howard and S. K. Roy, American Journal of Physics, 55, 1109 (1987).
6.11. O SCILADOR H ARMÔNICO F ORÇADO 153

onde G(t) também é uma função real de t.


Os termos F (t) e G(t) representam as forças externas agindo sobre o oscilador. A ideia inicial consiste
em escrever os operadores posição e momentum através dos operadores de criação e de aniquilação, dados
por: √ ( ) √ ( )
† µω i µω i
a = x− p , a= x+ p .
2~ µω 2~ µω
Portanto, √ √
~ ( ) µω~ ( )
x= a + a† , p = −i a − a† .
2µω 2
Substituindo em (6.182), após uma pequena álgebra, temos
√ √
~ω † † ~ † µ~ω
H= (aa + a a) + F (t)(a + a ) − i G(t)(a − a† ) .
2 2µω 2

Definindo a função complexa


√ √
~ µ~ω
f (t) = − F (t) + i G(t) ,
2µω 2

e considerando a relação de comutação para tempos iguais [a, a† ] = 1, a hamiltoniana será dada por
( )
† 1
H= a a+ ~ω + f (t)a + f ∗ (t)a† . (6.183)
2
A análise deste problema levará em conta que a interação f (t) só existe em um intervalo finito de
tempo ∆t = t2 − t1 . Assim, antes do tempo t1 e depois do tempo t2 o oscilador deverá ser descrito
através da hamiltoniana tradicional. Devemos considerar então que a interação irá alterar os operadores a
e a† , após o intervalo de tempo. Note que estamos interessados nos efeitos posteriores da ação da força,
e não nos efeitos transientes. A representação de Heisenberg é conveniente para a descrição temporal do
sistema, onde 31 Vamos chamar
( os operadores
) têm evolução temporal e os estados permanecem
( constantes.
)
de Hin = a†in ain + 12 ~ω a hamiltoniana para t < t1 e Hout = a†out aout + 21 ~ω a hamiltoniana para
t > t2 .
Na representação de Heisenberg, a evolução temporal de um operador é dada por,
d H i d i
O = − [OH , H] ⇒ a(t) = − [a(t), H] .
dt ~ dt ~
Dado que [a, H] = ~ωa, temos a equação que descreve a evolução temporal do operador a, no intervalo
∆t:
da(t) i
+ i ωa(t) = − f ∗ (t) . (6.184)
dt ~
Essa equação diferencial inomogênea é de fácil solução. Para tal escolhemos a função de Green apropriada
que nos permitirá extrair informações mais substanciais acerca da dinâmica do oscilador forçado.
Vamos considerar inicialmente uma função de Green G(t − t′ ) que satisfaça a equação
d
G(t − t′ ) + i ωG(t − t′ ) = δ(t − t′ ) .
dt
A vantagem deste método é que essa função permite escrever uma solução particular para (6.184) como

i ∞
ap (t) = − G(t − t′ )f ∗ (t′ )dt′ . (6.185)
~ −∞
31
Usando a representação de Heisenberg para o cálculo do movimento exato do oscilador harmônico forçado, ver H. Kim, M. Lee,
J. Ji, and J. K. Kim, Physical Review, A53 (1996).
154 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

Obviamente, existe uma descontinuidade na solução particular quando t = t′ . A solução no intervalo ∆t


pode ser escrita através de duas funções de Green, denominadas funções retardada e avançada,
 ′
 GR = η(t − t′ ) e− i ω(t−t )
 ′
GA = −η(t′ − t) e− i ω(t−t ) ,

onde η(t − t′ ) é a função de Heaviside.


A solução homogênea associada à (6.184) pode ser escrita a partir dos operadores ain e aout , definidos
anteriormente. Esses operadores deverão obedecer à equação diferencial
da(t)
+ i ωa(t) = 0 .
dt
Assim, podemos escrever a solução durante o tempo de interação, que poderá ser escrita tanto a partir do
operador ain quanto do operador aout . Essas soluções para o intervalo t1 < t < t2 serão

i ∞
a(t) = ain (t) − GR (t − t′ )f ∗ (t′ )dt′
~ −∞

i t − i ω(t−t′ ) ∗ ′ ′
= ain (t) − e f (t )dt (6.186)
~ −∞
ou

i ∞
a(t) = aout (t) − GA (t − t′ )f ∗ (t′ )dt′
~ −∞

i ∞ − i ω(t−t′ ) ∗ ′ ′
= aout (t) + e f (t )dt . (6.187)
~ t
Comparando as Eqs. (6.186) e (6.187), temos a relação

i ∞ − i ω(t−t′ ) ∗ ′ ′
aout (t) = ain (t) − e f (t )dt
~ −∞

i ∗
aout (t) = ain (t) − g (ω) (6.188)
~
onde ∫ ∞

g (ω) = e− i ωt f (t′ )dt′
−∞
é a transformada de Fourier da força f (t).
Note que temos uma relação bem definida entre os operadores ain e aout . Podemos assim tentar encon-
trar uma transformação unitária que nos dê a relação (6.188). Como consequência, conseguimos correla-
cionar os estados do oscilador antes e depois da interação. O operador dessa transformação será

|n⟩out = T|n⟩in .

As hamiltonianas para instantes t < t1 e t > t2 não são afetadas pela interação f (t), e seus autoestados
podem ser escritos de maneira convencional,
( )n
a†in,out
|n⟩in,out = √ |0⟩in,out .
n!
O proximo passo é encontrar um operador T, tal que
i
aout (t) = T† ain (t)T ⇒ T† ain (t)T = ain (t) − g ∗ (ω) . (6.189)
~
6.11. O SCILADOR H ARMÔNICO F ORÇADO 155

Sendo assim, o próximo passo é considerar a série de Lie

1 1
eA Be−A = B + [A, B] + [A, [A, B]] + [A, [A, [A, B]]] + . . .
2! 3!

e a relação de comutação para a e a† de tal forma que a transformação satisfaça a relação (6.189). Logo,
uma boa escolha para o operador T é
† −α∗ a]
T† aT = a + α ⇒ T = e[αa (6.190)

onde α é um número complexo. No caso do oscilador harmônico forçado, α = − ~i g ∗ (ω). Assim,


[ ]
i ∗ † i
T = exp − g (ω)a − g (ω)a . (6.191)
~ ~

Ainda podemos notar que


∫ ∞ [ ]

g (ω)ain + g ∗
(ω)ain = f (t)e− i ωt ain + f ∗ (t)ei ωt a†in dt .
−∞

Portanto, [
i
∫ ∞ [ ] ]
− i ωt ∗ i ωt †
T = exp − f (t)e ain + f (t)e ain dt . (6.192)
~ −∞

As expressões encontradas estabelecem a conexão entre os instantes antes e depois da interação. Usando
essas relações, podemos calcular a amplitude de probabilidade de transição entre o estado fundamental antes
da ação da força, |0⟩in e um estado excitado qualquer após essa interação |n⟩out

out ⟨n|0⟩in = out ⟨n|T|0⟩out = in ⟨n|T|0⟩in = ⟨n|T|0⟩ .

Usando a Eq. (2.87)


1
eA eB = eA+B+ 2 [A,B]
e a|0⟩ = 0, temos
† −α∗ a] † ∗ †
|0⟩ = e− 2 |α| eαa eα a |0⟩ = e− 2 |α| eαa |0⟩ .
1 2 1 2
T|0⟩ = e[αa (6.193)

Assim, a probabilidade será dada por



|out ⟨n|0⟩in |2 = |⟨n|T|0⟩|2 = |⟨n|e− 2 |α| eαa |0⟩|2
1 2

2n
α2n |g (ω)|2 1 g (ω) ⟨n⟩n −⟨n⟩
= e−|α| = e− ~2
2
= e . (6.194)
n! n! ~ n!

Essa é a distribuição de Poisson com valor esperado

|g (ω)|2
⟨n⟩ = in ⟨0|a†out aout |0⟩in = (6.195)
~2
para o número quântico do oscilador.
Uma interessante consequência do formalismo usado é aplicado ao estado |0⟩in = T|0⟩out . Esse autoket
satisfaz a relação
aout |0⟩in = α|0⟩in , (6.196)
ou seja, podemos concluir que |0⟩in é um autoket do operador aout com autovalor α = − ~i g ∗ (ω). Devido
sua importância na óptica e na eletrônica quântica, esses estados são também conhecidos como coerentes.
156 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

6.12 Equação de Onda de Schrödinger


Vamos voltar a representação de Schrödinger e examinar a evolução temporal do ket |ψ (t)⟩ na representação
de espaço de posição. Em outras palavras, vamos estudar o desenvolvimento da função de onda

ψ (⃗r, t) = ⟨⃗r|ψ (t)⟩ (6.197)

como função do tempo, onde |ψ (t)⟩ é o estado ket na representação de Schrödinger em um tempo t, e ⟨⃗r| é
o vetor bra de posição independente do tempo, com autovalor⃗r. A hamiltoniana do sistema é dada por

⃗p2
H= + V (⃗r) . (6.198)

O potencial V (⃗r) é um operador hermitiano e na representação espaço de posição

⟨⃗r′ |V (⃗r)|⃗r⟩ = V (⃗r) δ 3 (⃗r −⃗r′ ) (6.199)

onde V (⃗r) é uma função real de⃗r.


Para derivar a equação de Schrödinger, i.e., da mecânica quântica ondulatória vamos partir da equação

i~ |ψ (t)⟩ = H |ψ (t)⟩ , (6.200)
∂t
multiplicando os dois lados pelo vetor bra, ⟨⃗r|, temos

i~ ⟨⃗r|ψ (t)⟩ = ⟨⃗r|H|ψ (t)⟩ . (6.201)
∂t
Mas sabemos que
⟨ ⟩ ( 2)
⃗p2 ~
⃗r ψ (t) = − ∇2 ⟨⃗r|ψ (t)⟩ e ⟨⃗r|V (⃗r)|ψ (t)⟩ = V (⃗r) ⟨⃗r|ψ (t)⟩
2µ 2µ
onde no primeiro termo da última expressão, V (⃗r) é o operador e no segundo termo da mesma expressão é
o autovalor. Combinando esses resultados na Eq. (6.201) temos
( 2)
∂ ~
i ~ ⟨⃗r|ψ (t)⟩ = − ∇2 ⟨⃗r|ψ (t)⟩ + V (⃗r) ⟨⃗r|ψ (t)⟩ (6.202)
∂t 2µ
na qual podemos reescrever a equação acima como
( 2)
∂ ~
i ~ ψ (⃗r, t) = − ∇2 ψ (⃗r, t) + V (⃗r) ψ (⃗r, t) , (6.203)
∂t 2µ
que é a equação de Schrödinger dependente do tempo.
Como sabemos, se o estado inicial do sistema é o autoestado de energia, |ψ (0)⟩ = |φn ⟩, então

|ψ (t)⟩ = e− ~ En t |φn ⟩
i
(6.204)

e dizemos que os autoestados de energia formam o conjunto de estados estacionários. Multiplicando essa
expressão por ⟨⃗r| em ambos os lados, temos

⟨⃗r|ψ (t)⟩ = ⟨⃗r|φn ⟩ e− ~ En t


i
(6.205)

onde no sistema temos H|φn ⟩ = En |φn ⟩ e N |φn ⟩ = n|φn ⟩ simultaneamente. Assim, substituindo em
(6.202) e cortando a parte exponencial comum em todos os termos, temos
( 2)
~
− ∇2 ⟨⃗r|φn ⟩ + V (⃗r) ⟨⃗r|φn ⟩ = En ⟨⃗r|φn ⟩ (6.206)

6.12. E QUAÇÃO DE O NDA DE S CHRÖDINGER 157

como ⟨⃗r|φn ⟩ = φn (⃗r) podemos reescrever a expressão acima como


( )
~2
− ∇2 φn (⃗r) + V (⃗r) φn (⃗r) = E φn (⃗r) . (6.207)

Essa é a conhecida equação de Schrödinger independente do tempo.


Com essa demonstração vimos que podemos escrever a equação de Schrödinger na forma usual, i.e., da
mecânica quântica ondulatória, através da notação de Dirac, o que mostra sua equivalência. Podemos ver
as interpretações e aplicações dessas equações nos capítulos 2 e 3.

Problemas
6.1 Se o operador U(t), diferenciável em t, é unitário, o operador H(t) = i ~ dU †
dt U é necessariamente
hermitiano. Reciprocamente, se U satisfaz a equação i ~ dt U(t) = HU, onde H é um operador hermi-
d

tiano possivelmente dependente do tempo, U† U é independente de t, enquanto que UU† é solução da


equação i ~ dt
d
UU† = [H, UU† ] . Em particular, se U é unitário quando t = t0 , prove que continua a
ser assim para todos os valores de t.
( )
6.2 Usando a hamiltoniana H = − eB µc Sz = ωSz escreva as equações de movimento de Heisenberg
para os operadores dependentes do tempo Sx (t), Sy (t) e Sz (t). Resolva para obter Sx,y,z como função
do tempo.

6.3 a) Mostre que na representação de Heisenberg, o operador Q ≡ P sen ωt − µωX cos ωt para um
oscilador harmônico é independente do tempo.
b) Q é uma constante de movimento?

6.4 Considere x(t) como o operador coordenada para uma partícula livre unidimensional na representação
de Heisenberg. Calcule [x(t), x(0)].

6.5 Um elétron move-se na presença de um campo magnético uniforme na direção z, i.e., ⃗B = B k̂. Calcular
[Πx , Πy ], onde Πi ≡ pi − ec Ai .

6.6 Prove o teorema de Ehrenfest para o caso de uma partícula no campo eletromagnético
⟨ ⟩
d i ∂F 1 ⃗ ⃗ e⃗
⟨F ⟩ = ⟨[H, F ]⟩ + , H= Π · Π + eΦ onde ⃗ = ⃗p −
Π A
dt ~ ⟨ ⟩ ∂t 2µ c
mostre que: d
⟨⃗r⟩ = 1 Π
dt

µ e ⟨Π⟩ = força de Lorentz .
d ⃗
dt

2
6.7 Considere uma partícula em três dimensões cuja hamiltoniana é dada por H = ⃗p2µ + V (⃗r) . Pelo calculo
⟨ 2⟩
de [⃗r ·⃗p, H] obtenha d ⟨⃗r ·⃗p⟩ = ⃗p − ⟨⃗r · ∇V
dt
⃗ ⟩ . Para identificar a relação acima com o análogo
µ
da mecânica quântica do teorema virial é essencial que o lado esquerdo da equação se anule. Em que
condições isso acontece?

6.8 Considere uma partícula sujeita ao potencial de um oscilador harmônico simples. Em t = 0 o ve-
tor estado é dado por e− ~ pa |0⟩, onde p é o operador momentum e a é um número com dimensão de
i

comprimento. Usando a representação de Heisenberg, desenvolva o valor esperado ⟨x⟩ para t ≥ 0.

de coordenadas, para o estado e− ~ pa |0⟩ . Você poderá usar


i
6.9 a) Escreva a função de [
onda, em espaço
]
( )2 ( )1
− 14 − 2
1
′ 1 x′ ~ 2
⟨x |0⟩ = π x0 exp − 2 x0 , com x0 ≡ µω .
b) Obtenha uma expressão simples para a probabilidade de que o estado se encontre no estado funda-
mental em t = 0. Qual a probabilidade quando t > 0?
158 C AP. 6 D INÂMICA Q UÂNTICA

6.10 Para o estado inicial do oscilador harmônico dado por ψ0 = √12 φ1 + √12 φ2 , determine:
a) ψt para um tempo t qualquer.
b) ⟨ψt |p|ψt ⟩, ⟨ψt |q|ψt ⟩, ⟨ψt |p2 |ψt ⟩ e ⟨ψt |q 2 |ψt ⟩.
p2 2 2
c) T = ⟨φn |ET |φn ⟩ e V = ⟨φn |EV |φn ⟩ onde ET = 2µ e EV = µω2 q . Relacione com o teorema virial.

6.11 Para o oscilador harmônico, mostre que:


(i) p(t) = ⟨ψt |p|ψt ⟩
(ii) q(t) = ⟨ψt |q|ψt ⟩
(iii) a(t) = ⟨ψt |a|ψt ⟩
(iv) a† (t) = ⟨ψt |a† |ψt ⟩
satisfaz as equações clássicas de movimento:
a) dp(t)
dt = −µω q(t)
2

b) dq(t)
dt = µ
p

da(t)
c) dt = − i ωa(t)
da† (t) †
d) dt = + i ωa (t).
Resolva essas equações diferenciais tomando ψ0 = √1 φ1 + √1 φ2 .
2 2

6.12 Usando a equação de movimento de Heisenberg para o oscilador harmônico simples, mostre que
dx(t) p(t) dp(t)
dt = −µω x(t) .
2
dt = µ e

6.13 Tomando o oscilador harmônico simples como exemplo, procure ilustrar a diferença entre a repre-
sentação de Heisenberg e a representação de Schrödinger. Mostre de que modo os operadores x e px
evoluem com o tempo na representação de Heisenberg.

6.14 Considere uma função, conhecida como a função de correlação, definido por C (t) = ⟨x(t)x(0)⟩ , onde
x(t) é o operador posição na representação de Heisenberg. Avalie a função de correlação explicitamente
para o estado fundamental do oscilador harmônico simples unidimensional.
p 2 2
6.15 Determine os autovalores e autovetores da hamiltoniana H = 2µ + µω2 q 2 − eEq, que descreve uma
partícula carregada na presença de um campo elétrico E e de um potencial de um oscilador harmônico.

6.16 Considere um oscilador harmônico simples unidimensional. Faça algebricamente, ou seja, sem usar
funções de onda o seguinte:
a) Construa uma combinação linear de |0⟩ e |1⟩ tais que ⟨x⟩ seja o maior possível.
b) Suponha que o oscilador foi construído em (a) quando t = 0. Qual é o vetor de estado para t > 0
na representação de Schrödinger? Avalie o valor esperado ⟨x⟩ como uma função do tempo para t > 0
usando a representação de Schrödinger e a representação de Heisenberg.
c) Determine ⟨(∆x)2 ⟩ como função do tempo usando qualquer representação.
k2
6.17 Mostre que para um oscilador harmônico simples unidimensional ⟨0|ei kx |0⟩ = e− 2
⟨0|x2 |0⟩
, onde x
é o operador posição.

6.18 O estado coerente de um oscilador harmônico simples unidimensional é definido como sendo um au-
toestado do operador de aniquilação a (não hermitiano): a|λ⟩ = λ|λ⟩ , onde λ é, em geral, um número
complexo.
|λ|2 †
a) Mostre que |λ⟩ = e− 2 eλa |0⟩ é um estado coerente normalizado.
b) Prove a relação de incerteza
∑∞mínima para tal estado.
c) Escreva |λ⟩ como |λ⟩ = n=0 f (n)|n⟩ . Mostre que a distribuição de |f (n)|2 em relação a n é uma
distribuição de Poisson. Encontre o valor mais provável de n, portanto de E.
d) Mostre que um estado coerente também pode ser obtido através da aplicação do operador de trans-
lação e− ~ pl (onde p é o operador momentum e l é o deslocamento) no estado fundamental. Sugestão:
i

Consulte o livro do Prof. Gottfried [36], 262-264.


6.12. E QUAÇÃO DE O NDA DE S CHRÖDINGER 159

e) Mostre que o estado coerente |λ⟩ continua a ser coerente com a evolução temporal. Calcular esse
estado dependente do tempo |λ(t)⟩.

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomenda-se uma leitura detalhada do livro do Prof. Paul Dirac

– P. A. M. Dirac [25].

Um estudo também poderá ser realizado com os seguintes livros:

– J. J. Sakurai [74];
– L. E. Ballentine [4];
– A. Messiah [62];
– J. S. Townsend [81].

Uma excelente discussão ainda sobre os estados coerentes poderá ser encontrada nos livros:

– C. Cohen-Tannoudji, B. Diu and F. Laloë [21];


– E. Merzbacher [61];
– W. Wolney Filho [89].
160
Capítulo 7
Propagadores e Integrais de Caminho de
Feynman

Tomando como motivação os trabalhos originais de P. A. M. Dirac sobre a conexão entre a mecânica clássica
e quântica, 1 Richard Feynman desenvolveu o conceito de integral de caminho para a teoria quântica, assim a
mecânica quântica foi praticamente reinventada de forma genial e elegante nos anos 40 do século passado. 2
Esta forma de desenvolver a mecânica quântica, diferente das versões de Heisenberg e Schrödinger,
oferece pontos de vista novos, de muito interesse, e úteis. Hoje grande parte dos trabalhos realizados em
teoria quântica de campos e física estatística fazem uso deste formalismo.

7.1 Propagadores
Vamos iniciar escrevendo a amplitude de transição ⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ para uma partícula que inicialmente en-
contra-se no estado |x0 , t0 ⟩ (em um tempo t0 ) e evolui para a posição |x′ , t′ ⟩ (num tempo posterior t). No
capítulo anterior, quando introduzimos o operador de evolução temporal, nós ajustamos nosso relógio no
estado inicial da partícula em t = 0, e então consideramos a evolução para o tempo t. Aqui, o tempo inicial
será t0 e a evolução temporal será para o intervalo t′ − t0 . Então a amplitude de transição será dada por

⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ = ⟨x′ |U(t′ − t0 )|x0 ⟩ = ⟨x′ |e− ~ H(t −t0 ) |x0 ⟩
i
(7.1)
onde U(t′ − t0 ) é o operador de evolução temporal. O hamiltoniano, que aqui assumimos ser independente
do tempo, é em geral função do momentum e da posição, H = H(p, x). Em uma dimensão
p2
H= + V (x) . (7.2)

Uma vez conhecida a amplitude, podemos determinar como o estado ket |ψ⟩ evoluí no tempo. Desde
que podemos escrever o estado |ψ⟩ como a superposição de autokets de posição |x′ ⟩ então

⟨x′ |ψ (t)⟩ = ⟨x′ |e− ~ H(t −t0 ) |ψ (t0 )⟩
i

∫ ∞

dx0 ⟨x′ |e− ~ H(t −t0 ) |x0 ⟩ ⟨x0 |ψ (t0 )⟩
i
=
∫−∞

= dx0 ⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ ⟨x0 |ψ (t0 )⟩ . (7.3)
−∞

A amplitude ⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ que aparece dentro da integral (7.3), é frequentemente chamada em mecânica
ondulatória como kernel do operador integral que representa o propagador das ondas mecânicas, do estado
inicial ao estado final.
1
P. A. M. Dirac, Physikalische Zeitschrift der Sowjetunion, 3, 64 (1933); Idem, Reviews of Modern Physics, 17, 195 (1945).
2
R. P. Feynman, The Principle of Least Action in Quantum Mechanics, Ph.D. Thesis, Princeton University, May (1942); Idem, Re-
views of Modern Physics, 20, 367 (1948).

161
162 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN

Exemplos de Propagador Vamos calcular o propagador para uma partícula livre. O hamiltoniano da
partícula livre é dado por
p2
H= . (7.4)

Inserindo um conjunto completo de estados de momentum
∫ ∞
dp |p⟩⟨p| = 1 (7.5)
−∞

em (7.1), temos
( )
∫ ∞ p2
− ~i (t′ −t0 )
⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ = dp ⟨x′ |e |p⟩ ⟨p|x0 ⟩

−∞
( )
∫ ∞ p2
− ~i (t′ −t0 )
dp ⟨x′ |p⟩ ⟨p|x0 ⟩ e

= . (7.6)
−∞

Usando
1 i
⟨x|p⟩ = √ e ~ px (7.7)
2π~
vemos que ( )
∫ ∞ p2
1 ′ − ~i (t′ −t0 )
⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ = dp e ~ p(x −x0 ) e
i 2µ
. (7.8)
2π~ −∞

Essa é uma integral gaussiana. 3 Logo temos,


√ i µ(x −x0 ) ′ 2
µ
⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ = ′
e 2~(t′ −t0 ) . (7.9)
2π i ~(t − t0 )

Essa expressão é usada para um problema típico de evolução temporal quando a partícula livre é represen-
tada por um pacote de onda gaussiano e que se propaga como função do tempo.
Um segundo exemplo é o caso do oscilador harmônico, onde a função de onda de um autoestado de
energia é dada por
( ) ( )1 (√ )
1 µω 4 − µωx2 µω
− ~i En t
x e− i ω(n+ 2 )t
1
φn (x) e = √ e 2~ Hn (7.10)
2n/2 n! π~ h

o propagador, cuja prova é encontrado em livros de funções especiais, como Morse e Feshbach (1953) 4 , é
3
Uma integral gaussiana é dada por √
∫ ∞ 2 π
I (a) = dx e−ax = .
−∞ a
Se tivermos ∫ ∞ 2
I (a, b) = dx e−ax +bx

−∞
podemos fazer
( )2
b b2
ax2 − bx = a x − −
2a 4a
mudando de variável
b
x′ = x −
2a
temos ∫ ∞ 2

b2 ′ −ax′ b2 π
I (a, b) = e 4a dx e =e 4a .
−∞ a
4
Philip McCord Morse (1903–1985), físico americano.
Herman Feshbach (1917–2000), físico americano.
P. M. Morse and H. Feshbach, Methods of theoretical physics, (1953).
7.1. P ROPAGADORES 163

dado por

′′ ′ µω
⟨x , t|x , t0 ⟩ =
2π i ~ sen [ω(t − t0 )]
[{ }{ }]
i µω ′′2 ′2 ′′ ′
× exp (x + x ) cos [ω(t − t0 )] − 2x x . (7.11)
2~ sen [ω(t − t0 )]
Note que (7.11) é uma função periódica do tempo t com frequência angular ω, a frequência do oscilador
clássico. A ideia é que a partícula que inicialmente está localizada em x′ retornará a sua posição de origem
quando t = 2π 4π
ω ( ω e assim por diante).

Notas sobre o Kernel Do operador evolução temporal temos

|ψ (t)⟩ = e− ~ H(t−t0 ) |ψ (t0 )⟩


i


|a′ ⟩⟨a′ |ψ (t0 )⟩ e− ~ Ea′ (t−t0 )
i
= (7.12)
a′

mas ∑
⟨⃗r′ |ψ (t)⟩ = ⟨⃗r′ |a′ ⟩⟨a′ |ψ (t0 )⟩ e− ~ Ea′ (t−t0 ) .
i
(7.13)
a′
Note que ∫

⟨a |ψ (t0 )⟩ = d3⃗r′ ⟨a′ |⃗r′ ⟩⟨⃗r′ |ψ (t0 )⟩ (7.14)

usando (7.13) e (7.14), o desenvolvimento do estado inicial em⃗r′ para o estado final⃗r′′ será
∫ ∑
⟨⃗r |ψ (t)⟩ = d3⃗r′
′′
⟨⃗r′′ |a′ ⟩⟨a′ |⃗r′ ⟩⟨⃗r′ |ψ (t0 )⟩ e− ~ Ea′ (t−t0 )
i
(7.15)
a′

onde ∑
⟨⃗r′′ |a′ ⟩⟨a′ |⃗r′ ⟩ e− ~ Ea′ (t−t0 )
i
K (⃗r′′ , t;⃗r′ , t0 ) = (7.16)
a′
é o kernel do operador integral que representa o propagador. Algumas propriedades importantes:

1. Para qualquer problema dado, o propagador depende somente do potencial e é independente da função
de onda inicial;

2. A evolução temporal da função de onda é completamente prevista se K (⃗r′′ , t;⃗r′ , t0 ) for conhecido e a
função de onda ψ (⃗r′ , t0 ) for dada inicialmente;

3. Se t > t0 , K (⃗r′′ , t;⃗r′ , t0 ) satisfaz a equação de Schrödinger dependente do tempo nas variáveis⃗r′′ , t com
⃗r′ , t0 fixos. Evidentemente, de (7.16)

⟨⃗r′′ |a′ ⟩ e− ~ Ea′ (t−t0 ) → U(t, t0 )|a′ ⟩ ;


i

4. limt→t0 K (⃗r′′ , t;⃗r′ , t0 ) = δ 3 (⃗r′′ −⃗r′ ).

Com essas propriedades, é fácil verificar que de (7.16) temos

K (⃗r′′ , t;⃗r′ , t0 ) = ⟨⃗r′′ |e− ~ H(t−t0 ) |⃗r′ ⟩ = ⟨⃗r′′ , t|⃗r′ , t0 ⟩


i
(7.17)

a última passagem se deve à (7.1). A Eq. (7.17) nada mais é do que o operador de evolução temporal.
Finalmente, a solução geral para a evolução temporal da função de onda será

ψ (⃗r , t) = d3⃗r′ K (⃗r′′ , t;⃗r′ , t0 ) ψ (⃗r′ , t0 )
′′
(7.18)
164 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN

onde ∑
φa′ (⃗r′′ ) e− ~ Ea′ t φ∗a′ (⃗r′ ) e ~ Ea′ t0
i i
K (⃗r′′ , t;⃗r′ , t0 ) =
a′
é o kernel, núcleo, propagador de Feynman ou função de Green do propagador de Feynman.
Como em mecânica quântica não relativista um sistema físico só se propaga para o futuro, para satisfazer
o princípio da causalidade de Galileu 5 , devemos ter

K (⃗r′′ , t;⃗r′ , t0 ) ̸= 0 (t > t0 ) (7.19a)


′′ ′
K (⃗r , t;⃗r , t0 ) = 0 (t < t0 ) . (7.19b)

Essas duas expressões podem ser escritas por intermédio de uma única expressão, usando a função de
Heaviside, definida em (3.11), i.e.,
∫ x {
0 se x < 0,
η(x) = δ(x′ ) dx′ = (7.20)
−∞ 1 se x > 0.

Desse modo ∑
φa′ (⃗r′′ ) e− ~ Ea′ t φ∗a′ (⃗r′ ) e ~ Ea′ t0 η(t − t0 )
i i
K (⃗r′′ , t;⃗r′ , t0 ) = (7.21)
a′
que satisfaz a equação de onda dependente do tempo
[( 2 ) ]
~ ′′ 2 ∂
− ′′
∇ + V (⃗r ) − i ~ K (⃗r′′ , t;⃗r′ , t0 ) = − i ~δ(⃗r′′ −⃗r′ )δ(t − t0 ) . (7.22)
2µ ∂t

7.2 Evolução da Amplitude de Transição


Para resolver a evolução da amplitude de transição ⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ iremos usar pequenos intervalos de tempo.

Assim, dividiremos o intervalo de tempo t′ −t0 em N intervalos iguais, cada um com a grandeza ∆t = t −t 0
N .
Podemos tomar um número muito grande de intervalos, tal que N → ∞ e naturalmente ∆t → 0. Em
intervalos de tempo muito pequeno, podemos expandir a exponencial no operador de evolução temporal em
série de Taylor.
i
e− ~ H∆t = 1 − H∆t + O(∆t2 )
i
(7.23)
~
onde os termos de ordem O(∆t2 ), incluindo ∆t2 e de ordem superiores, podem ser ignorados. Assim,
[ ]
′ − ~i H∆t ′ i
⟨x |e |x⟩ = ⟨x | 1 − H∆t |x⟩
~
[ ( ) ]
′ i p2
= ⟨x | 1 − + V (x) ∆t |x⟩ . (7.24)
~ 2µ

É fácil desenvolver a equação acima, desde que conhecemos o autoestado do operador posição e momentum

V (x)|x⟩ = V (x)|x⟩

e
p|p⟩ = p|p⟩ .
Desse modo,
∫ ∞ ( [ ) ]
′ − ~i H∆t i p2

⟨x |e |x⟩ = dp ⟨x |p⟩⟨p| 1 − + V (x) ∆t |x⟩
−∞ ~ 2µ
∫ ∞ [ ]
′ i
= dp ⟨x |p⟩⟨p| 1 − E∆t |x⟩ (7.25)
−∞ ~
5
Galileu Galilei (1564–1642), matemático e físico italiano.
7.3. I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN 165

onde a energia total, E, é dada por


p2
E (p, x) = + V (x) . (7.26)

Agora, com o uso da energia total, podemos fazer o inverso de (7.23)

i
1 − E∆t + O(∆t2 ) = e− ~ E∆t .
i
(7.27)
~
Então, a amplitude de transição (7.25) será
∫ ∞ ∫ ∞
′ − ~i H∆t ′ − ~i E∆t 1 ′
dp e ~ p(x −x) e− ~ E∆t
i i
⟨x |e |x⟩ = dp ⟨x |p⟩⟨p|x⟩ e =
−∞ 2π~ −∞
∫ ∞ [ ( ′
) ]
1 i (x − x)
= dp exp p − E ∆t . (7.28)
2π~ −∞ ~ ∆t

7.3 Integrais de Caminho de Feynman


Estamos preparados para resolver a amplitude de transição ⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ em intervalos de tempo finito.
Novamente faremos uma divisão do intervalo de tempo t′ − t0 por N intervalos iguais ∆t, com tempos
intermediários t1 , t2 , · · · , tN −1 . Então,

⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ = ⟨x′ |e− ~ H∆t · · · e− ~ H∆t e− ~ H∆t |x0 ⟩


i i i
(7.29)

onde temos N vezes o produto de operadores de evolução temporal e− ~ H∆t · · · e− ~ H∆t . No próximo passo,
i i

vamos inserir um conjunto completo de estados de posição |xi ⟩


∫ ∞
dxi |xi ⟩⟨xi | = 1 i = 1, 2, · · · , N − 1 (7.30)
−∞

entre cada um desses operadores de evolução temporal


∫ ∫
′ ′
⟨x , t |x0 , t0 ⟩ = dx1 dx2 · · ·

× dxN −1 ⟨x′ |e− ~ H∆t |xN −1 ⟩⟨xN −1 |e− ~ H∆t |xN −2 ⟩ · · ·
i i

× ⟨x2 |e− ~ H∆t |x1 ⟩⟨x1 |e− ~ H∆t |x0 ⟩ .


i i
(7.31)

Analisando essa expressão da direita para a esquerda temos: a amplitude de transição para a partícula na
posição x0 em t0 chegar na posição x1 em t1 = t0 + ∆t, multiplicado pela amplitude de transição em que
a partícula na posição x1 em t0 + ∆t tem para chegar na posição x2 em t2 = t0 + 2∆t, e assim por diante.
Essa sequência termina com a amplitude de transição de termos a partícula em x′ no tempo t′ partindo
da posição anterior xN −1 no tempo ∆t anterior. Note que estamos integrando sobre todos os valores de
x1 , x2 , · · · , xN −1 na Eq. (7.31). Assim, se tomarmos ∆t → 0, estaremos efetivamente integrando sobre
todos os caminhos possíveis para alcançar a posição x′ em t′ quando partimos da posição x0 em t0 . A
Fig. 7.1 mostra os possíveis caminhos no plano x − t para a partícula que saiu de x0 em t0 até chegar em x′
no tempo t′ .
Usaremos a expressão (7.28) para N amplitudes de transição

⟨xi+1 |e− ~ H∆t |xi ⟩


i

em (7.31). Devemos ter o cuidado ao inserir os intervalos apropriados para as posições inicial e final em cada
caso. Se N → ∞, consequentemente ∆t → 0, podemos com certeza ignorar O(∆t2 ) para cada amplitude
166 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN

Figura 7.1 Amplitude sobre os possíveis caminhos.

individualmente, a expressão para a completa amplitude de transição é dada por


∫ ∫ ∫
dp1
⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ = lim dx1 · · · dxN −1 ···
N →∞ 2π~
∫ { N [ ] }
dpN i ∑ (xi − xi−1 )
× exp pi − E(pi , xi−1 ) ∆t . (7.32)
2π~ ~ ∆t
i=1

Em fato, (7.32) envolve tanto um número infinito de integrais de momentum como de integrais de posi-
p2
ção. Felizmente para a hamiltoniana H = 2µ + V (x), cada integral de momentum é uma integral gaussiana
do tipo ∫ ∞ √
b2
′ −ax ′2 b2 π
I (a, b) = e 4a dx e = e 4a ,
−∞ a
i ∆t i(xi −xi−1 )
com a = 2µ~ eb= ~ . A integral típica de momentum é dada por
∫ [ ] √ [ ( )( ) ]
dpi p2i ∆t pi (xi − xi−1 ) µ i µ∆t xi − xi−1 2
exp − i +i = exp . (7.33)
2π~ 2µ~ ~ 2π i ~∆t ~ 2 ∆t

Depois de realizar todas as integrais em p, encontramos


∫ ∫ ( )N
µ
⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ = lim
2
dx1 · · · dxN −1
N →∞ 2π i ~∆t
{ [ ( ) ]}
i ∑ N
µ xi − xi−1 2
× exp ∆t − V (xi−1 ) . (7.34)
~ 2 ∆t
i=1

Para N → ∞, ∆t → 0, o argumento do expoente torna-se a definição padrão de uma integral de Riemann 6


[ ( ) ] ∫ ′
i ∑
N
µ xi − xi−1 2 i t
lim ∆t − V (xi−1 ) = dt L(x, ẋ) (7.35)
N →∞ ~ 2 ∆t ~ t0
i=1

onde ( )2
1 dx 1
L(x, ẋ) = µ − V (x) = µẋ2 − V (x) (7.36)
2 dt 2
é a lagrangiana usual da mecânica clássica. 7
Finalmente, é conveniente escrever as integrais de posição numa notação mais compacta
∫ x′ ∫ ∫ ( )N
µ 2
D[x(t)] = lim dx1 · · · dxN −1 (7.37)
x0 N →∞ 2π i ~∆t
6
Georg Friedrich Bernhard Riemann (1826–1866), matemático alemão.
7
Para um estudo da lagrangiana e do princípio da mínima ação, ver Goldstein, Classical mechanics, (1980), ou o livro de Landau
e Lifshitz, Mechanics, (1993).
7.4. A PROXIMAÇÃO S EMICLÁSSICA 167

no qual é o modo simbólico de indicar que a integramos sobre todos os possíveis caminhos que conectam
x0 e x′ . Então,
∫ x′
⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ =
i
D[x(t)] e ~ S[x(t)] (7.38)
x0

onde ∫ t′
S[x(t)] = dt L(x, ẋ) (7.39)
t0

é a ação para uma particular trajetória tomada pela partícula. A integral (7.38) é conhecida como uma inte-
gral funcional ou integral de caminho de Feynman. 8 Na soma sobre todos os possíveis caminhos, estamos
realmente integrando sobre todas as possíveis funções x(t) cuja condições de contorno são x(t0 ) = x0 e
x(t′ ) = x′ . Mais tarde, Kac 9 mostrou com rigor matemático que usando o expoente real é possível uma
formula análoga à integral de Feynman. 10 Essa integral funcional é muito importante em física estatística e
na teoria dos processos estocásticos, e ficou conhecida como fórmula de Feynman-Kac.

7.4 Aproximação Semiclássica


Para obter a aproximação semiclássica das integrais de caminho, seguiremos o seguinte passo: Numa típica
aproximação semiclássica, a ação ao longo das trajetórias representada pelo kernel
∫ x′
K (x′ , t′ ; x0 , t0 ) = ⟨x′ , t′ |x0 , t0 ⟩ =
i
D[x(t)] e ~ S[x(t)] (7.40)
x0

satisfaz á condição S~ >>> 1, e, para pequenas variações δx(t) das trajetórias, a variação correspondente
da fase será tal que δS~ >>> 1, de modo que as contribuições resultantes à integral de Feynman tendem a
se cancelar por interferência destrutiva. A Fig. 7.2 mostra que a interferência destrutiva só ocorre quando
afastado da trajetória clássica, xc (t), caso contrário haverá uma interferência construtiva na vizinhança dessa
trajetória clássica, tais que

Figura 7.2 Aproximação semiclássica.

∫ t′
( )
δS [xc (t)] , x′ , x0 ; t = δ dt L = 0 (7.41)
0
pois nesse caso a fase é estacionária para pequenas variações δx(t) em torno de xc (t). Como L é a lagran-
giana clássica, a Eq. (7.41) é o princípio de Hamilton, e naturalmente xc (t) liga os pontos (x0 , 0) e (x′ , t′ ).
A contribuição resultante à (7.40) deve ser proporcional a
i i ′
e ~ Scl = e ~ S([xc (t)],x ,x0 ;t) (7.42)
8
Para um estudo detalhado da integral de caminho de Feynman, ver Feynman and Hibbs, Quantum mechanics and path integrals,
(1964).
9
Mark Kac (1914–1984), matemático polonês-americano.
10
M. Kac, Trans. Am. Math. Soc., 65, 1 (1949).
168 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN

onde Scl é a ação clássica. Em geral, pode haver mais de uma trajetória clássica ligando os pontos consi-
derados, sendo de se esperar que a aproximação semiclássica da integral de Feynman seja uma soma de
termos desse tipo.
Considerando a situação análoga para a integral ordinária de uma função de uma única variável,
∫ b
i
K (~) = dx e ~ S (x) (7.43)
a

onde ~ é um parâmetro pequeno (~ → 0), de modo que a integral seja rapidamente oscilante. A contribuição
dominante deve vir da vizinhança de um ponto de fase estacionária x̄,
dS
S ′ (x̄) = = 0, (7.44)
dx x=x̄
e suponhamos para simplificar que exista precisamente um ponto de fase estacionária interno ao intervalo
[a, b].
Para aproximar assintoticamente (7.43), expandimos a fase em torno de x̄,
1 ( )
S (x) = S (x̄) + (x − x̄)S ′ (x̄) + (x − x̄)2 S ′′ (x̄) + O (x − x̄)3 (7.45)
2
note que S ′ (x̄) = 0. Substituindo em (7.43), temos
( )
∫ b i 2 S ′′ (x̄)+O (x−x̄)
3
i (x−x̄) ~
K (~) = e ~ S (x̄)
2~
dx e
a
∫ √
√ i (b−x̄)/ ~ i ′′ (x̄)y 2 +O

~ y3 )
= ~ e ~ S (x̄) e2S (
√ dy (7.46)
−(x̄−a)/ ~

onde usamos a nova variável x−x̄



~
= y. Quando ~ → 0, os limites de integração tendem a ±∞, e podemos
aproximar K (~) usando a integral de Fresnel 11
∫ ∞ √
i(ax2 +bx) i π − i b2
dx e = e 4a
−∞ a
dando, √
2π~ i
S (x̄)±i π4
K (~) = e ~ + O(~) (7.47)
|S ′′ (x̄)|
onde, na equação acima o sinal + é para S ′′ (x̄) > 0 e o sinal − é para S ′′ (x̄) < 0.
O método pode ser estendido a uma integral múltipla n-dimensional
∫ ∫
i
K (~) = · · · dx1 · · · dxn e ~ S (x1 ··· xn ) . (7.48)

Se há apenas um ponto de fase estacionária (x̄1 , · · · , x̄n ) dentro do domínio de integração, a expansão
análoga à (7.45) é
1 ∑ ∂2S
n
S (x1 · · · xn ) = S (x̄1 · · · x̄n ) + (x − x̄i )(x − x̄j ) + · · · (7.49)
2 ∂xi ∂xj x̄i ,x̄j
i,j=1

Substituindo em (7.48), obtemos no expoente uma forma quadrática nas variáveis yi = x − x̄i . Por uma
transformação linear, podemos diagonalizá-la e reduzir o resultado12 a um produto de integrais de Fresnel.
Obtém-se assim13 n
(2π~) 2 i S (x1 ··· xn )+ i π ν
K (~) = 1 e
~ 4 (7.50)
|det D| 2
11
Augustin-Jean Fresnel (1788–1827), físico francês.
12
Ver o livro de Bellman, Introduction to matrix analysis, (1960).
13
Note que o det D é o produto dos autovalores.
7.5. O SCILADOR H ARMÔNICO 169

onde D é a matriz
∂2S
D= (7.51)
∂xi ∂xj x̄i ,x̄j

de S no ponto de fase estacionária, e ν = P − N é a diferença entre o número de autovalores positivos P e


negativos N da forma quadrática associada a D.
Para a integral de Feynman (7.40), o análogo da expansão (7.49) é a expansão funcional da ação S em
série de Taylor funcional em torno de xc (t) que corresponde a uma trajetória clássica:
∫ t′
1
S= dt L(x(t), ẋ(t)) = Sc + δ 2 S (xc ) + · · · (7.52)
0 2
onde o termo δS = 0 e a variação δ 2 S é um funcional quadrático na variação

X (t) = δx(t) = x(t) − xc (t)

em torno da trajetória clássica, como mostra a Fig. 7.2, temos


∫ t′ {( ) ( 2 ) ( 2 ) }
2 δ2L 2 δ L δ L 2
δ S= dt X (t) + 2 X (t)Ẋ (t) + Ẋ (t) (7.53)
0 δx2 x=xc δxδ ẋ x=xc δ ẋ2 x=xc

e as expressões entre parênteses são derivadas funcionais.


A aproximação semiclássica da integral de Feynman (7.40) será então
i
K (x′ , t′ ; x0 , 0) = e ~ Scl ϕ(t′ ) (7.54)

onde ( )
Scl = S [xc (t)] , x′ , x0 ; t
é a ação clássica pois apenas uma trajetória clássica contribui nesse caso, e
∫ x′
i 2

ϕ(t ) = D[x(t)] e 2~ δ S[xc (t)]
x0

tem uma interpretação física muito simples, pois podemos notar que ϕ(t′ ) representa precisamente o efeito
das flutuações quânticas em torno da trajetória clássica.

7.5 Oscilador Harmônico


A lagrangiana para o oscilador harmônico em uma dimensão é dada por
1 1
L(x, ẋ) = µẋ2 − µω 2 x2 (7.55)
2 2
da equação de Euler-Lagrange 14 , temos
∂L d ∂L
− =0 ⇒ ẍ + ω 2 x = 0 (7.56)
∂x dt ∂ ẋ
cuja solução é dada por
x(t) = A cos ωt + B sen ωt . (7.57)
Aplicando as condições de contorno, t = 0 e t = T

x(t = 0) = x0 = A (7.58)
x(t = T ) = xT = x0 cos ωT + B sen ωT
xT − x0 cos ωT
⇒B= . (7.59)
sen ωT
14
Leonhard Paul Euler (1707–1783), matemático e físico suíço.
170 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN

Assim
xT sen ωt + x0 sen ω(T − t)
x(t) = (7.60)
sen ωT
xT ω cos ωt − x0 ω cos ω(T − t)
ẋ(t) = . (7.61)
sen ωT
Então
∫ T ∫ T ( )
1 2 1 2 2
Scl = dt L(x, ẋ) = dt µẋ − µω x
0 0 2 2
∫ T [ ] ∫ T
1 d 1 1 2 2 1 µ T
= dt µ (xẋ) − µxẍ − µω x = − µ dt x[ẍ + ω 2 x] + xẋ
0 2 dt 2 2 2 0 2 0
2
mas ẍ + ω x = 0, logo
µ µ [ xT ω x0 ω ]
= [x(T )ẋ(T ) − x(0)ẋ(0)] = (xT cos ωT − x0 ) − (xT − x0 cos ωT )
2 2 sen ωT sen ωT
µω [ 2 ]
= (xT + x0 ) cos ωT − 2x0 xT .
2
(7.62)
2 sen ωT
O fator de flutuação é definido pela parte flutuante da ação
∫ T
µ( 2 )
(fl)
S [X] = dt Ẋ − ω 2 X 2 (7.63)
0 2
e o cálculo explicito é dado pelas múltiplas integrais de caminho, com N aproximações de infinitesimal
dimensão ε. Então,
 
√ N [∫ ∞ √ ]  [ ] 
µ ∏ µ iµ ∑
N +1
ϕN (T ) = dXj exp ε Xj −∂ (ε) ∂¯(ε) − ω 2 Xk . (7.64)
2π i ~ε −∞ 2π i ~ε ~ 2 jk 
j=1 j,k=0

Aqui usamos os operadores ∂ (ε) e ∂¯(ε) definidos por


1
∂ (ε) x(t) ≡ [x(t + ε) − x(t)]
ε
¯ 1
∂ x(t) ≡ [x(t) − x(t − ε)] ,
(ε)
(7.65)
ε
no limite contínuo, temos
lim ∂ (ε) x(t), ∂¯(ε) x(t) → ∂t .
ε→0
Então, se esses operadores atuam como funções diferenciáveis
1
∂ (ε) xj ≡ (xj+1 − xj ) 0≤j≤N
ε
1
∂¯(ε) xj ≡ (xj − xj−1 ) 1 ≤ j ≤ N + 1. (7.66)
ε
Em particular, eles satisfazem a regra de soma por parte a qual é análoga a integração por partes


N +1 N (
∑ )
ε pj ∂¯(ε) xj = pj xj |N
0
+1
−ε ∂ (ε) pj xj . (7.67)
j=1 j=0

Assim, temos alguns casos úteis:


1. Se xN +1 = x0 = 0 temos

N +1 N (
∑ )
pj ∂¯(ε) xj = − ∂ (ε) pj xj ;
j=1 j=0
7.5. O SCILADOR H ARMÔNICO 171

2. Se p0 = pN +1 e x0 = xN +1 temos


N +1 ∑
N +1 ( )
pj ∂¯(ε) xj = − ∂ (ε) pj xj .
j=1 j=1

Para funções cujos pontos extremos se anulam, das relações acima temos


N +1 ( )2 ∑
N +1 ( )2 ∑
N
∂¯(ε) xj = ∂ (ε)
xj =− xj ∂ (ε) ∂¯(ε) xj (7.68)
j=1 j=1 j=0

que pode ser apresentado como uma matriz padrão


N ∑
N ( )
− xj ∂ (ε) ∂¯(ε) xj = − xj ∂ (ε) ∂¯(ε) xk
j=0 j,k=0

onde a matriz (N + 1) × (N + 1), com ∂ (ε) ∂¯(ε) , simétrica é dada por


 
2 −1 0 · · · · · · ··· 0
−1 2 −1 · · · · · · ···  0
 
 0 −1 2 · · · · · · ···  0
 
1  
∂ ∂ = ∂¯ ∂ = 2  ...
(ε) ¯(ε) (ε) (ε) ..
.
..
.
..
. .
..
. (7.69)
ε  
 0 ··· ··· ··· 2 −1 0 
 
 0 · · · · · · · · · −1 2 −1
0 ··· ··· ··· 0 −1 2

Esse é obviamente a versão da derivada ∂t2 no limite contínuo.


Usando as componentes da expansão da integral de Fourier, em que usamos a decomposição
∫ ∞
x(t) = dω e− i ωt x(ω) (7.70)
−∞

vemos facilmente que as componentes de Fourier são autofunções das derivadas discretas

i ∂ (ε) e− i ωt = Ωe− i ωt (7.71)


i ∂¯(ε) e− i ωt = Ω̄e− i ωt (7.72)

com os respectivos autovalores


i ( − i ωε )
Ω= e −1 (7.73)
ε
i( )
Ω̄ = − ei ωε − 1 . (7.74)
ε
Está claro que no limite contínuo
lim Ω, Ω̄ → ω ,
ε→0

isto é, ambos Ω e Ω̄ tornam-se autovalores de i ∂t . De (7.73) e (7.74) vemos que Ω̄ = Ω∗ , tal que o operador
−∂ (ε) ∂¯(ε) = −∂¯(ε) ∂ (ε) é real e tem autovalores não negativos,
1
− ∂ (ε) ∂¯(ε) e− i ωt = [2 − 2 cos ωε] e− i ωt (7.75)
ε2
ou seja
[2 − 2 cos ωε] ≥ 0 .
172 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN

Voltemos agora a solução da Eq. (7.64), podemos escrever essa equação como
√ N [∫ ∞ √ ]∏ { }
µ ∏ iµ( ) 2
N
µ
N
ϕ (T ) = dan exp Ωn Ω̄n − ω an
2
(7.76)
2π i ~ε −∞ 2π i ~ε ~2
n=1 n=1

onde an são os coeficientes da expansão de Fourier de X (τ ).


Calculando essa integral temos uma importante distinção para os autovalores
1 [ ( πn )]
Ωn Ω̄n − ω 2 = 2 2 − 2 cos ε − ω2 (7.77)
ε T
do operador na exponencial do integrando da Eq. (7.76). Esse poderá ser negativo para casos em que o
intervalo de tempo, T = t − t0 , seja suficientemente grande.
Primeiro, vamos considerar os autovalores inteiramente positivos. A formula gaussiana nos dá

µ ∏N
1
N
ϕ (T ) = √ ( ), (7.78)
2π i ~ε ε2 Ωn Ω̄n − ω 2
n=1

e , que satisfaz
introduzindo uma nova variável para a frequência, ω
εe
ω εω
sen = ,
2 2
o produto dos autovalores pode ser decomposto em resultados conhecidos para o fator de flutuação. 15 Assim,
( )
∏N
sen2 b 1 sen (2(N + 1)b)
1− 2 nπ = (7.79)
sen 2(N +1) sen 2b (N + 1)
n=1

εe
ω
naturalmente, usando b = 2 , temos
[ ( )]

N
( ) ∏
N ∏N
ε2 Ωn Ω̄n − ω 2
ε 2
Ωn Ω̄n − ω 2
= 2
ε Ωm Ω̄m
n=1 m=1 n=1
ε2 Ωn Ω̄n
( )
∏N ∏N
sen2 εeω
= ε2 Ωm Ω̄m 1− 2
. (7.80)
sen2 2(Nnπ+1)
m=1 n=1

Como resultado, chegamos em

( ( )) ∏
N
( ) sen ωeT
det −ε2 ∂ ε ∂¯ε − ω 2 = ε2 Ωn Ω̄n − ω 2 = (7.81)
N sen εe
ω
n=1

e o fator flutuante total será √ √


N µ sen εe
ω
ϕ (T ) = . (7.82)
2π i ~ eT
ε sen ω
Esse resultado é válido para autovalores positivos, em particular para o intervalo de tempo que satisfaz
π
T = (t − t0 ) < .
e
ω
Se o intervalo de tempo T = t − t0 aumentar e ficar maior que ωπe , o menor autovalor Ω1 Ω̄1 − ω 2 se
torna negativo e a amplitude resultante carregará um fator de fase extra e− i 2 que será válido até T = t − t0
π

tornar-se maior que 2π


e , onde oπ segundo autovalor se torna negativo também e sendo necessário a introdução
ω
de um outro fator de fase e− i 2 , e assim por diante.
15
Ver Gradshteyn and Ryshik, Table of integrals, series and products, (1980), formula 1.391.1.
7.5. O SCILADOR H ARMÔNICO 173

No limite contínuo ε → 0, o fator de flutuação será então


√ √
µ ω
ϕ(T ) = . (7.83)
2π i ~ sen ωT
Logo o kernel será,
i
K (xT , T ; x0 , 0) = ⟨xT , T |x0 , 0⟩ = e ~ Scl ϕ(T )
√ { }
µω i µω [ 2 ]
= exp (xT + x0 ) cos ωT − 2x0 xT
2
(7.84)
2π i ~ sen ωT 2~ sen ωT
que é a expressão da amplitude de evolução temporal para um oscilador harmônico.

Autofunções e Autovalores do Oscilador Para obter os autoestados e autovalores de energia, precisa-


mos reformular o propagador (7.84) de tal forma que permita uma comparação direta com a representação
espectral do propagador de Feynman dado por

φn (x)φ∗n (x′ ) e− ~ En T .
i
K (x, T ; x′ , 0) = η(T ) (7.85)
n

onde η(T ) é a função degrau de Heaviside. Se definimos a variável z = e− i ωT , podemos escrever


1 1 − z2
sen ωT = ,
2i z

1 + z2
cos ωT = .
2z
√ √
µω µω
Além disso, definimos ξ0 = ~ x0 e ξT = ~ xT . Assim, expressamos o propagador do oscilador
harmônico como:
√ { [ ( )]}
µωz 2 − 12 1 1 + z2
K (xT , T ; x0 , 0) = (1 − z ) exp 2ξ0 ξT z − (ξ0 + ξT )
2 2
π~ 1 − z2 2

√ { } { }
µωz 2 − 12 1 2 2ξ0 ξT z − (ξ02 + ξT2 )z 2
= (1 − z ) exp − (ξ0 + ξT ) exp
2
, (7.86)
π~ 2 1 − z2
onde usamos a identidade
1 + z2 1 z2
= + .
2(1 − z 2 ) 2 1 − z2
Agora, vamos considerar a fórmula de Mehler 16
{ } ∑∞
2 − 12 2xyz − (x2 + y 2 )z 2 zn
(1 − z ) exp = H n (x) H n (y) (|z| < 1) . (7.87)
1 − z2 2n n!
n=0

Entretanto, algum cuidado devemos tomar ao usar a Eq. (7.87) na Eq. (7.86), pois |z| = 1 e a fórmula de
Mehler (7.87) requer |z| < 1. Esse problema pode ser solucionado se adicionarmos uma parte imaginária
em ω, nominalmente, se fizermos ω → ω − i ε, e após os cálculo colocamos a condição de ε → 0. Assim,
se usamos (7.87), a Eq. (7.86) terá a forma
√ { µω }∑∞ (√ ) (√ ) − i ωT (n+ 1 )
µω µω µω e 2
K (xT , T ; x0 , 0) = exp − (xT + x0 )
2 2
Hn xT Hn x0 ,
π~ 2~ ~ ~ n
2 n!
n=0
(7.88)
16
Gustav Ferdinand Mehler (1835–1895), matemático alemão.
Ver livro do Prof. G. Arfken, Mathematical methods for physicist, (1970); A. Erdélyi, W. Magnus, F. Oberhettinger and F. G. Tri-
comi (Eds.), Higher transcendental functions, (1955), [Link], p.272.
174 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN

√ √
onde usamos x = ξT = µω ~ xT e y = ξ0 = µω
~ x0 .
Comparando a Eq. (7.88) com a representação espectral (7.85), temos
( )1 ( )1 (√ )
1 2 µω 4 − µω x2 µω
φn (x) = e 2~ Hn x , (7.89)
n
2 n! π~ ~
e ( )
1
En = n + ~ω (7.90)
2
que são os conhecidos resultados para as autofunções (a menos de um fator de fase) e os autovalores de
energia do oscilador harmônico. 17

7.6 Oscilador Harmônico Forçado


A lagrangiana do oscilador harmônico forçado, de massa µ e frequência ω, é dada por
1 1
L = µẋ2 − µω 2 x2 + xf (t) (7.91)
2 2
onde f (t) representa uma força externa dependente do tempo que pode ser devida a um campo externo como
por exemplo, o campo elétrico de acoplamento através da interação de um dipolo a uma partícula carregada.
Podemos escrever o kernel, utilizando a aproximação semiclássica, como

i
K (xf , t; xi , 0) = Dx e ~ S (x) .

De acordo com a equação acima, podemos obter o kernel para todos os caminhos possíveis começando em
xi quando t = 0 e terminando em xf quando t = t. É conveniente decompor os caminhos em

x(s) = xcl (s) + ξ (s) (7.92)

onde s é uma variável auxiliar temporal, e onde o caminha clássico xcl satisfaz as condições de contorno
xcl (0) = xi , xcl (t) = xf e uma parte da flutuação quântica ξ desaparece no contorno, i.e., ξ (0) = ξ (t) = 0.
O caminho clássico tem que satisfazer a equação de movimento

µẍcl + µω 2 xcl = f (s) (7.93)

que é obtida da lagrangiana.


A ação é dada por ∫ t
S= dt L .
0
Substituindo a lagrangiana na relação acima
∫ t ( )
µ 2 1 2 2
S= ds ẋ − µω x + xf (s)
0 2 2
e usando a Eq. (7.92)
∫ t ( )
µ 2 1
S= ds ẋcl − µω 2 x2cl + xcl f (s)
0 2 2
∫ t ( )
+ ds µẋcl ξ˙ − µω 2 xcl ξ + ξf (s)
0
∫ t ( )
µ ˙2 1 2 2
+ ds ξ − µω ξ . (7.94)
0 2 2
17
F. A. Barone, H. Boschi-Filho and C. Farina, American Journal of Physics, 71(5), 483–491 (2003).
7.6. O SCILADOR H ARMÔNICO F ORÇADO 175

Para o nosso caso, de um potencial harmônico, o terceiro termo é independente do valor de contorno xi
e xf assim como condições externas. O segundo termo desaparece em consequência da expansão em torno
do caminho clássico. Isso pode ser visto pela integração por partes e usando o fato de que xcl é solução da
equação de movimento clássica,
∫ t ( ) ∫ t
( )
˙
ds µẋcl ξ − µω xcl ξ + ξf (s) = −
2
ds µẍcl + µω 2 xcl − f (s) ξ = 0 . (7.95)
0 0

Vamos agora proceder em duas etapas, primeiro determinando a contribuição do caminho clássico e,
em seguida, abordando as flutuações quânticas. A solução da equação de movimento clássica que satisfaz
as condições de contorno é dada por

sen ωs sen ω(t − s)


xcl (s) = xf + xi
sen ωt
[∫ s sen ωt ]

1 sen ωs t
+ du sen ω(s − u) f (u) − du sen ω(t − u) f (u) , (7.96)
µω 0 sen ωt 0
onde u também é uma variável auxiliar temporal.
A ideia de avaliar a ação do caminho clássico pode ser simplificada por uma integração por partes
∫ t ( )
µ 2 1 2 2
Scl = ds ẋ − µω xcl + xcl f (s)
0 2 cl 2
∫ t ( )
µ t µ 1 2 2
= xcl ẋcl − ds xcl ẍcl + µω xcl − xcl f (s)
2 0 0 2 2
∫ t
µ 1
= (xf ẋcl (t) − xi ẋcl (0)) + ds xcl (s)f (s) (7.97)
2 2 0
onde usamos a equação de movimento clássico para obter a terceira linha. Da solução (7.96) temos
∫ t
xf − xi cos ωt 1
ẋcl (0) =ω − ds sen ω(t − s) f (s) (7.98)
sen ωt µ sen ωt 0
∫ t
xf cos ωt − xi 1
ẋcl (0) =ω + ds sen ωs f (s) . (7.99)
sen ωt µ sen ωt 0
Inserindo as velocidades inicial e final em (7.97), achamos a ação clássica
µω [( 2 ) ]
Scl = xi + x2f cos ωt − 2xi xf
2 sen ωt
∫ t ∫ t
xf xi
+ ds sen ωs f (s) + ds sen ω(t − s) f (s)
sen ωt 0 sen ωt 0
∫ t ∫ t
1
− ds du sen ωu sen ω(t − s) f (s) f (u) (7.100)
µω sen ωt 0 0

sendo t o tempo necessário para deslocar da posição inicial xi para posição final xf .
Como um segundo passo temos que calcular a contribuição das flutuações quânticas que é determinado
pelo terceiro termo da Eq. (7.94). Depois de uma integração por partes esse termo fica
∫ t ( ) ∫ t ( 2 )
µ ˙2 1 2 2 µ d
(2)
S = ds ξ − µω ξ = − ds ξ 2
+ω ξ. (7.101)
0 2 2 0 2 ds2

Aqui, o número (2) acima de S indica que esse termo corresponde a uma contribuição de segunda ordem
em ξ. É apropriado expandir a flutuação ξ


ξ (s) = an ξn (s) (7.102)
n=1
176 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN

em autofunções de ( )
d2 2
+ ω ξn = λn ξn (7.103)
ds2
com ξn (0) = ξn (t) = 0. Como autofunções de um operador autoadjunto, ξn , são completos e podemos
também dizer que são ortonormais. Resolvendo (7.103), temos para as autofunções
√ ( s)
2
ξn (s) = sen πn (7.104)
t t
e os correspondentes autovalores
( πn )2
λn = − + ω2 . (7.105)
t
Devemos enfatizar que (7.102) não é uma série de Fourier usual, em um intervalo t. Uma expansão
semelhante pode ser usada na forma
√ ∞ [ ( (
2∑ s) ) ( s )]
ξ (s) = an cos 2πn − 1 + sen 2πn (7.106)
t t t
n=1

que nos garante que as flutuações desaparecem nos contornos. Se refizermos as contas substituindo (7.104)
por (7.106), vamos observar que no final encontramos o mesmo propagador.
A integração sobre as flutuações agora se torna uma integração sobre os coeficientes da expansão, an .
Inserindo a expansão (7.104) na ação, encontramos
∞ [ ]
µ ∑ ( πn )2

µ∑
S =−
(2) 2
λ n an = − ω a2n .
2
(7.107)
2 2 t
n=1 n=1

Como esse resultado mostra, a ação clássica é somente um extremo da ação, mas não necessariamente
um mínimo, embora este seja o caso para pequenos intervalos de tempo t < ωπ . A existência de pontos
conjugados nos tempos Tn = nπ ω mostra aqui um desaparecimento do autovalor λn . A ação é independente
de an , o que implica que para um intervalo de tempo Tn todos os caminhos xcl + an ξn com coeficientes
arbitrários an são soluções da equação de movimento clássica.
Depois da expansão das flutuações em termos das autofunções (7.104), o propagador tem a forma
[ ] ∫ (∏∞
) [ ∞
]
i iµ∑
K (xf , t; xi , 0) ≈ exp Scl dan exp − λn a2n . (7.108)
~ ~2
n=1 n=1

Como o determinante de Jacobi é independente da frequência de oscilação, podemos comparar com a


partícula livre. Resolvendo as integrais de flutuação gaussianas, encontramos a relação entre os fatores dos
propagadores Kω e K0 do oscilador harmônico e da partícula livre,

Kω e− ~ Scl,ω
i
D0
= . (7.109)
− ~i Scl,0 D
K0 e
Aqui introduzimos o determinante da flutuação para o oscilador harmônico
( 2 ) ∏ ∞
d 2
D = det + ω = λn (7.110)
ds2
n=1

e o da partícula livre
( ) ∞

d2
D0 = det = λ0n . (7.111)
ds2
n=1
Os autovalores para a partícula livre
( πn )2
λ0n = −
t
7.7. E FEITO A HARONOV-B OHM 177

são obtidos dos autovalores do oscilador harmônico colocando a frequência ω igual a zero em (7.105).
Usando o fator do propagador de uma partícula livre

− ~i Scl,0 µ
K0 e = (7.112)
2π i ~t
e a Eq. (7.109), o propagador do oscilador harmônico fica
√ √
µ D0 i Scl,0
K (xf , t; xi , 0) = e~ . (7.113)
2π i ~t D
Cada um dos determinantes (7.110) e (7.111) divergem por si só. Entretanto estamos interessados na
relação entre eles que é bem definida

[ ( )2 ]
D ∏ ωt sen ωt
= 1− =
D0 πn ωt
n=1

Colocando esse resultado em (7.113), temos a forma final do propagador do oscilador harmônico forçado

µω i
K (xf , t; xi , 0) = e ~ Scl
2π i ~ sen ωt

µω
e[ ~ Scl −i( 4 +n 2 )]
i π π
= (7.114)
2π~| sen ωt|
com a ação clássica definida em (7.100). O índice de Morse n no fator de fase é dado pela parte inteira de
ωt
π .
É interessante notar que o fator de fase e− i n 2 em (7.114) implica que
π

K (xf , 2π/ω; xi , 0) = −K (xf , 0; xi , 0) = −δ(xf − xi ) ,

ou seja, a função de onda depois de um período de oscilação difere da função de onda original por um fator
−1. O oscilador então retorna ao seu estado original somente após dois períodos, sendo portanto parecido a
uma partícula de spin 12 . Esse efeito pode ser observado no caso do oscilador harmônico deixando interferir
as ondas de dois osciladores com frequências diferentes.
Esse resultado tem grande importância em muitos problemas avançados, em particular quando apli-
camos em eletrodinâmica quântica devido o fato do campo eletromagnético ser representado como um
conjunto de osciladores harmônicos forçados.

7.7 Efeito Aharonov-Bohm


Vamos discutir se o potencial vetor eletromagnético A⃗ é um campo real ou apenas uma conveniência ma-
temática. A existência de A não nulo em regiões onde o campo magnético ⃗B = 0 indica que A
⃗ ⃗ é um
campo real e que podemos testar experimentalmente está afirmação. Classicamente não existe este efeito.
Entretanto Aharonov 18 e Bohm 19 fizeram uma descrição quântica para uma partícula sensível à presença
⃗ 20
do potencial vetor A.
Este efeito constitui uma importante aplicação da Eq. (7.38) ou (7.40) em particular da fase
i
e ~ S[x(t)] .

O efeito Aharonov-Bohm que mostra um efeito físico direto do potencial eletromagnético sobre elétrons
quânticos (contrariamente aos elétrons clássicos) pode ser testado experimentalmente. Um arranjo expe-
rimental para medir este efeito é apresentado na Fig. 7.3, onde elétrons são emitidos de uma fonte para
18
Yakir Aharonov (1932– ), físico israelense.
19
David Joseph Bohm (1917–1992), físico anglo-americano.
20
Y. Aharonov and D. Bohm, Physical Review, 115, 485–491 (1959).
178 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN

chegar ao detector. Um obstáculo é colocado de tal forma que o feixe de elétrons tomará o caminho C1
ou C2 , após esse obstáculo um solenóide é colocado entre o caminho da fonte de elétrons e o detector.
Existem certos cristais de ferro, que podem ser feitos crescer sob a forma de filamentos muito alongados,
microscopicamente finos, chamados fios de cabelo (ou bigode de gato), em inglês whiskers, que, quando
magnetizados, produzem campo magnético estático concentrado no interior do cristal, mas praticamente
nulo fora do cristal. 21 Embora nesses pontos exteriores temos ⃗B = 0, existe neles um potencial de calibre
⃗ ̸= 0.22
A

Figura 7.3 Efeito Aharonov-Bohm - Arranjo Experimental

Quando os elétrons passam em torno do cristal não magnetizado, produz-se interferência como em
um experimento de óptica. Quando magnetizamos o cristal da maneira indicada, há uma interação com o
potencial, e a imagem de interferência muda em relação à anterior.
Na Eq. (7.38) a fase na experiência sem campo magnético se escreve
i i
F = e ~ S1 + e ~ S2
onde S1 e S2 correspondem às trajetórias alternativas tomadas C1 e C2 .
Quando o cristal é magnetizado, a S acrescenta-se a ação correspondente à interação dada pela lagran-
giana ( )
1 2 ⃗v ⃗
L = µ⃗v − e ϕ − · A ,
2 c
e teremos: ∫ ∫
i ie µ i ie µ
F (A) = e ~ S1 e+ ~c 1 Aµ dx + e ~ S2 e+ ~c 2 Aµ dx .
Como a componente A0 = ϕ = 0, tem-se:
∫ { i ∫ ∫ }
e ~ S1 + e ~ S2 − ~c ( 2 − 1 )A · d⃗r .

F (A) = e− ~c
ie ⃗ · d⃗r
A i ie
1

Mas, a diferença das integrais dá a integral ao longo do contorno fechado C que envolve o cristal:
(∫ ∫ ) I
− ⃗ · d⃗r =
A ⃗ · d⃗r = Φ
A (7.115)
2 1 C

e esta integral é igual a Φ, o fluxo do campo magnético ⃗B encerrado pelo contorno, nulo fora do cristal.
A amplitude F(A) dará lugar a uma interferência distinta da anterior e ela resulta da existência do potencial
⃗ fora do cristal. Este potencial vetor, e não o campo magnético, é que estabelece uma quantidade física,
A
invariante de Lorentz 23 , observada.
Se escrevermos o resultado de (7.115) em termos do campo magnético, encontraremos
I ∫
e e
∆S = − A · d⃗r = −
⃗ ⃗B · d⃗S
~c C ~c
e
= − Φ . (7.116)
~c
21
A. Tonomura et al., Physical Review Letters, 48, 1443 (1982).
22
Calibre vem do inglês gauge.
23
Hendrik Antoon Lorentz (1853–1928), físico holandês.
7.8. M ONOPOLOS M AGNÉTICOS 179

O efeito Aharonov-Bohm forma a base de operação dos “SQUID”,24 na qual usa a interferência (su-
percondutora) de pares de elétrons passando através de uma estrutura “tipo anel” para detectar campos
magnéticos extremamente pequenos.

SQUID O dispositivo “SQUID” é formado por duas junções Josephson 25 em paralelo. A corrente I que
entra no dispositivo é dividida em duas componentes, que atravessam as duas junções Josephson na forma
de correntes de pares de elétrons. Neste caso, pode-se mostrar que a dependência de cada corrente nas fases
das funções de onda nos dois lados resulta numa corrente que varia com o fluxo magnético Φ que atravessa
o contorno do circuito (efeito Aharonov-Bohm), na forma
( )
Φ
I = I0 cos π
Φ0

h
onde Φ0 é o fluxo quântico dado por Φ0 = 2e . Esse resultado mostra que quando o "SQUID" é submetido a
um campo magnético, a corrente varia periodicamente, passando por máximos consecutivos à medida que
o fluxo passa por múltiplos de Φ0 . Então, por meio de um circuito contador digital pode-se contar o número
de máximos que a corrente atravessa e assim determinar o fluxo final. Este aparelho é usado para medir
campos magnéticos com grande sensibilidade e precisão. Os magnetômetros de "SQUID" são utilizados
rotineiramente em equipamentos científicos, médicos e industriais.

Sumário Podemos fazer um sumário do efeito Aharonov-Bohm da seguinte forma:

1. O efeito Aharonov-Bohm é um fato experimental e um fenômeno puramente quântico;

2. A interpretação física para o potencial vetor, que é um campo de gauge, fundamenta a descrição de Dirac
para os monopolos magnéticos;

3. Sem dúvida o efeito Aharonov-Bohm é um fator determinante para o surgimento e progresso de novas
áreas científicas como por exemplo a magnetoencefalografia,26 a pesquisa em exploração mineral, a pre-
visão de terremotos, estudos com a energia geotérmica terrestre, desenvolvimento de tecnologia super-
condutora dentre outros. Além disso, existem estudos para detecção de ondas gravitacionais utilizando-se
SQUID’s.27

7.8 Monopolos Magnéticos


Ao longo do tempo, acreditava-se que a carga magnética, monopolos magnéticos isolados, não tinha exis-
tência real, sendo apenas um conceito auxiliar. Sua negação devia-se ao fato de não podermos separar os
pólos de uma barra imantada. Ampère 28 , em 1825, considerava a corrente elétrica como sendo a única fonte
do magnetismo. Finalmente Maxwell, em 1873, rejeitou completamente a ideia de carga magnética.
Em 1931, Dirac desafia a ideia dominante e reabilita o conceito de carga magnética. 29 Fazendo uso da
simetria, Dirac reescreve as equações de Maxwell, levando em conta uma densidade magnética de carga ρm
24
SQUID - Superconducting QUantum Interference Device, desenvolvido em 1964 por Arnold Silver, Robert Jaklevic, John
Lambe e James Mercereau da Ford Research Labs.
25
Brian David Josephson (1940– ), físico galês.
O efeito Josephson é um efeito físico que se manifesta pela aparição de uma corrente elétrica que flui através de dois supercon-
dutores fracamente interligados, separados apenas por uma barreira isolante muito fina. Esta disposição é conhecida como uma
junção Josephson e a corrente que atravessa a barreira é chamada de corrente Josephson.
26
Observado em 15 de setembro de 2010 na pagina: [Link]/med/imagens/[Link]
27
Observado em 15 de setembro de 2010 na pagina: Explorer Gravitational Wave Antenna, [Link]
28
André-Marie Ampère (1775–1836), físico francês.
29
P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society of London, A133, 60 (1931); Idem, Physical Review, 74, 817 (1948).
180 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN

e uma densidade de corrente magnética ⃗Jm , na forma:


⃗ · ⃗E = 4πρ (7.117a)

⃗ · ⃗B = 4πρm (7.117b)

⃗ × ⃗E = − 4π ⃗Jm − 1 ∂ B
∇ (7.117c)
c c ∂t
4π 1 ∂ ⃗E

⃗ × ⃗B = ⃗J + . (7.117d)
c c ∂t
Estas equações são conhecidas como equações de Maxwell-Dirac.
Um outro ponto importante, é o argumento de Dirac para a existência de um monopolo magnético, já
que este ofereceria uma explicação sobre a natureza discreta da carga elétrica.
As Eqs. (7.117a)-(7.117d) mostram uma simetria entre ⃗E e ⃗B, e são invariantes sob uma transformação
global de dualidade. Se E denota qualquer quantidade elétrica, tais como ⃗E, ρ ou ⃗J, e M denota qualquer
quantidade magnética, tais como ⃗B, ρm ou ⃗Jm , então as equações de Maxwell-Dirac são invariantes sob:

E → E cos θ + M sen θ
M → M cos θ − E sen θ . (7.118)

Essa substituição é chamada transformação de dualidade. Apesar dessa generalização das equações de Max-
well parecer perfeitamente plausível, ela contém certas dificuldades que aparecem ao expressarmos o campo
magnético como o rotacional do potencial vetor:
⃗B = ∇
⃗ ×A
⃗ . (7.119)

Para ver porque essa equação pode conduzir a dificuldades, vamos integrar a equação


⃗ · ⃗B = 4πρm

sobre o volume de uma esfera que contém um monopolo magnético g. Usando o teorema de Gauss, temos:

⃗B · d⃗S = 4πg

isto é ∫

⃗ ×A
⃗ · d⃗S = 4πg . (7.120)

Agora vamos considerar o lado esquerdo da Eq. (7.120). Podemos calcular a integral de ∇ ⃗ ×A⃗ sobre
uma superfície esférica fechada, considerando primeiramente um pequeno círculo de raio δ que forma uma
abertura sobre essa superfície esférica.
Agora faremos o limite δ → 0. Usando o teorema de Stokes 30 , a integral de ∇
⃗ ×A
⃗ sobre uma superfície
⃗ em torno desse pequeno círculo.
esférica “aberta” é igual a integral de A
∫ ∫

⃗ ×A⃗ · d⃗S = ⃗ · d⃗l .
A (7.121)
δ→0

⃗ for livre de singularidades, então esse potencial se aproxima de uma constante


Se o potencial vetor A
quando δ → 0. Logo, o lado direito da equação (7.121) se reduz então a
I
⃗ · d⃗l = 0
A

isto é ∫

⃗ ×A
⃗ · d⃗S = 0 (7.122)

30
George Gabriel Stokes (1819–1903), matemático e físico irlandês.
7.8. M ONOPOLOS M AGNÉTICOS 181

O que contradiz a Eq. (7.120). Para resolver esse problema Dirac considerou a existência de singularidades
⃗ (⃗r), qualquer superfície fechada em torno de um monopolo magnético deve ter pelo menos um ponto
em A
em que A⃗ é singular de tal forma que a integral de linha de A⃗ em torno da singularidade nos dá 4πg quando
δ → 0. Por exemplo, um potencial singular ao longo do eixo ẑ é
( )
g1 n̂ ×⃗r n̂ ×⃗r g
A(⃗r) = −
⃗ − = − cot θϕ̂ (7.123)
r 2 r − n̂ ·⃗r r + n̂ ·⃗r r
onde n̂ = ẑ, e produz, para 0 < θ ≤ π, o campo magnético do monopolo,

⃗B(⃗r) = g ⃗r .
r3
Esse potencial vetor tem uma linha de singularidades ao longo do semi-eixo positivo z, onde θ = 0. Essa
linha de singularidades é chamada de linha de Dirac do monopolo.
Talvez a consequência mais importante da teoria dos monopolos magnéticos seja a condição de quanti-
zação para a carga elétrica. Dirac sugere que se existe monopolos magnéticos, esses poderiam ser descritos
estando na extremidade de um solenóide infinitamente fino carregando o fluxo magnético igual aquele do
monopolo. O solenóide tem comprimento semi-infinito partindo do monopolo e indo ao infinito ao longo de
um caminho arbitrário. O campo magnético produzido ao longo de tal solenóide ∇ ⃗ ×A ⃗ é aquele produzido
⃗ ⃗r ⃗ ′
pelo monopolo Bmonopolo = g r3 mais o campo usual de um solenóide B , nesse caso infinitamente intenso
e contido dentro do solenóide, ver Fig. 7.4. Para observar somente o campo do monopolo, devemos escrever

Figura 7.4 Representação de um monopolo magnético.

⃗Bmonopolo = ∇ ⃗ − ⃗B′
⃗ ×A

onde ⃗B′ existe somente dentro do solenóide. Ainda em seu trabalho, Dirac descreve a interação de um
elétron com o monopolo magnético, é necessário que o elétron jamais “veja” o campo ⃗B′ produzido no
solenóide.
Na situação descrita acima, podemos usar a integral de caminho, similar ao efeito Aharonov-Bohm,
onde o solenóide será invisível ao elétron, e esse poderá tomar o caminho 1 ou 2 ao redor do solenóide,
como podemos ver na Fig. 7.5.
Em ordem que a interferência desses caminhos não seja afetada pela presença da linha de Dirac, a fase
relativa será um múltiplo de 2π. Essa fase é
I
e ⃗ · d⃗r = − eΦ = − 4πeg .
− A
~c C ~c ~c
Ajustando essa em 2πn, para que o movimento do elétron não seja afetado pela presença da linha de Dirac,
a carga elétrica será
2π~c ~c
e= n= n
4πg 2g
182 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN

Figura 7.5 Caminhos ao redor da linha de Dirac.

onde n = 0, ±1, ±2, · · · . Isto nos leva a seguinte relação:


ge 1
= n~ (7.124)
c 2
que é justamente a condição de quantização de Dirac. Este resultado leva à notável conclusão de que a carga
elétrica é quantizada,i.e., para um dado g, e é proporcional ao inteiro n.
Se temos e como carga do elétron e n = 1 na Eq. (7.124), encontramos a unidade fundamental da carga
magnética:
c~ 137
g= = e. (7.125)
2e 2
Apesar da falta de evidência experimental conclusiva, 31 existem fortes razões teóricas para a existência dos
monopolos magnéticos. Estas decorrem de ideias gerais sobre a unificação das interações fundamentais.
Durante as últimas décadas, houve grandes avanços na compreensão das forças fracas e fortes entre as
partículas elementares.
G. t’ Hooft 32 e A. M. Polyakov 33 mostraram que as teorias unificadas contêm necessariamente par-
tículas estáveis que possuem carga magnética, i.e., monopolos magnéticos. 34 Essas aparecem como so-
luções independentes do tempo com energia finita das equações não lineares dos campos. Portanto, a
existência dos monopolos magnéticos é uma consequência muito geral da unificação das interações fun-
damentais. Ainda nesses trabalhos, t’ Hooft e Polyakov fazem uma estimativa puramente teórica para a
massa de um monopolo magnético de 137 × mW , onde mW = 80 GeV/c2 é a massa dos W ± , assim
137 × 80 GeV/c2 = 104 GeV/c2 .

Problemas
7.1 Derive (7.9) e obtenha a generalização tridimensional de (7.9).

7.2 O propagador, em mecânica quântica, para uma partícula de massa µ, movendo-se em um potencial é
∫∞ E ∑
dado por K (x, y; E) = 0 dt ei ~ t K (x, y; t, 0) = A n sen (nrx)~2sen
r2 2
(nry)
onde A é uma constante.
E− 2µ
n
a) Qual é o potencial?
b) Determine a constante A em termos dos parâmetros do sistema, i.e., µ, r, etc..
31
P. B. Price, E. K. Shirk, W. Z. Osborne and L. S. Pinsky, Physical Review Letters, 35, 487 (1975); Blas Cabrera, Physical Review
Letters, 48, 1378 (1982).
32
Gerardus t’ Hooft (1946– ), físico holandês.
33
Alexander Markovič Polyakov (1945– ), físico russo.
34
G. t’ Hooft, Nuclear Physics, B79, 276 (1974); Idem, Physical Review Letters, 37, 8 (1976); A. M. Polyakov, JETP Letters, 20,
194 (1974).
7.8. M ONOPOLOS M AGNÉTICOS 183

7.3 Prove a relação dηdx(x) = δ (x), onde η (x) é a função degrau e δ (x) é a função delta de Dirac. Sugestão:
Estude o efeito nas funções teste.
µω [ 2 ]
ωT (x0 + 2xT ) cos ωT − ω0 xT , para a ação clássica de um
7.4 Derive a seguinte expressão Scl = 2 sen 2

oscilador harmônico movendo de um ponto x0 quando t = 0 para o ponto xT quando t = T .

7.5 A lagrangiana de um oscilador harmônico simples é dada por L = 12 µẋ2 − 12 µω 2 x2 .


i
a) Mostre que ⟨xb tb |xa ta ⟩ = e ~ Scl G(0, tb ; 0, ta ) , onde Scl é a ação ao longo do caminho clássico xcl de
(xa , ta ) até (xb , tb ) e G é
∫ ( ) (N +1) { ∑ [ ]}
G(0, tb ; 0, ta ) = limN →∞ dy1 · · · dyN 2πµi ~ε 2 exp ~i N µ
(y
j=0 2ε j+1 − y j )2 − 1 εµω 2 y 2
2 j
onde ε = tNb −t
+1 . Sugestão: Faça y (t) = x(t) − xcl (t) como sendo a nova variável de integração, sendo
a

xcl (t) a solução da equação de Euler-Lagrange.


( µ ) (N +1) ∫
dy1 · · · dyN e−n σn , onde temos
T
b) Mostre
  que G pode ser escrito como G = lim N →∞ 2π i ~ε
2

y1
 .. 
n =  .  e nT é a sua transposta. Escreva a matriz simétrica σ.
yn
∫ ∫ N
c) Mostre que dy1 · · · dyN e−n σn ≡ dN ne−n σn = √πdet
T T 2
σ
. Sugestão: Diagonalize σ por uma
matriz ortogonal.
( )N
d) Seja 2 iµ~ε det σ ≡ det σN ′ ≡ p . Definimos σ ′ a matriz j ×j de σ ′ cujo determinante é p . Por
N j N j
expansão de σj+1 ′ , mostre a relação de recorrência pj+1 = (2 − ε2 ω 2 )pj − pj−1 , com j = 1, · · · , N .
e) Seja ϕ(t) = εpj para t = ta + jε e mostre que a equação do item anterior no limite ε → 0,
2
implica que ϕ(t) satisfaz a equação diferencial ddt2ϕ = −ω 2 ϕ(t) , com a condição inicial ϕ(t = ta ) = 0
e dϕ(t=ta)
= 1.
dt √ { [ 2 ]}
f) Mostre que ⟨xb tb |xa ta ⟩ = 2π i ~µω sen ωT exp i µω
2~ sen ωT (x b + x 2 ) cos ωT − 2x x
a a b , onde temos
T = tb − ta .

7.6 Mostre que a propriedade de composição dx1 Kf (x2 t2 ; x1 t1 )Kf (x1 t1 ; x0 t0 ) = Kf (x2 t2 ; x0 t0 ), onde
Kf (x1 t1 ; x0 t0 ) é o propagador livre (7.9). Resolva explicitamente a integral, i.e., não use a relação de
completeza.

7.7 Considere o interferômetro de neutron, 35 conforme a Fig. 7.6. Prove que a diferença nos campos mag-

Figura 7.6 Interferômetro de neutron.

4π~c
néticos que produzem dois máximos sucessivos nas taxas de contagem é dada por ∆B = |e|gn–
λl , onde
gn = −1, 91 é o momento magnético do neutron em unidades de − 2µe~n c .
35
H. Rauch et al., Physics Letter, 54A, 425 (1975); S. A. Werner et al., Physical Review Letter, 34, 1472 (1975); Idem, 35, 1053
(1975); D. M. Greenberger and W. Overhauser, Review of Modern Physics, 51, 43 (1979).
Se você tivesse a solução desse problema em 1967, com certeza poderia ter publicado no Physical Review Letters.
184 C AP. 7 P ROPAGADORES E I NTEGRAIS DE C AMINHO DE F EYNMAN


7.8 Definindo a função de partição como Z = d3 r K (⃗r′ , t;⃗r′ , 0)|β= i t , bem como
∫ ∫ ∑
~
Ea′ ∑ Ea′
G(t) = d3 rK (⃗r′ , t;⃗r′ , 0) = d3 r |⟨⃗r′ |a′ ⟩|2 e− i ~ t = e− i ~ t
∑ a′ a′
e Z = a′ e−βEa′ . Mostre que a energia do estado fundamental é obtida considerando − Z1 ∂Z
∂β ,
(β → ∞). Ilustrar essa relação para uma partícula em uma caixa unidimensional.

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomendo uma leitura detalhada, em paralelo, do livro de Feynman e Hibbs

– R. P. Feynman and A. R. Hibbs [28].

Um estudo sobre integrais de caminho também poderá ser realizado com os livros:

– J. S. Townsend [81];
– J. J. Sakurai [74];
– E. Merzbacher [61].

Uma excelente discussão sobre o efeito Aharonov-Bohm e monopolos magnéticos poderá ser encontrado
no livro do Prof. J. J. Sakurai acima mencionado.
Capítulo 8
Potenciais Centrais e Momentum Angular

Este capítulo é dedicado ao tratamento sistemático do momentum angular. Trabalharemos com o movimento
de uma partícula no espaço ordinário tridimensional. Em seus trabalhos, Bohr encontrou a chave para a
teoria do movimento dos elétrons ao redor do núcleo e na presença de um campo de Coulomb, isto é
a quantização do momentum angular. Aqui detalharemos sua relevância para a classificação de níveis de
energia em sistemas de forças centrais através do estudo do momentum angular orbital usando a equação
de Schrödinger e as regras dos operadores.

8.1 Momentum Angular Orbital


O momentum angular orbital é uma quantidade importante para a análise de problemas clássicos e quânticos
que contém potenciais centrais, dado que ele é uma quantidade conservada, desde que forças centrais não
produzam torque em relação a origem. O momentum angular orbital é definido por
⃗L = ⃗r × ⃗p (8.1)

sendo que essa expressão não apresenta problema de ordenamento em mecânica quântica. As componentes
do momentum angular orbital ⃗L são representadas por

Lx = ypz − zpy , (8.2)


Ly = zpx − xpz , (8.3)
Lz = xpy − ypx . (8.4)

Usando a definição ⃗p = − i ~∇,


⃗ o momentum angular torna-se um operador diferencial

⃗L = − i ~⃗r × ∇
⃗ . (8.5)

Fazendo uso das conhecidas regras de comutação

[xi , pj ] = i ~δij
[xi , xj ] = 0
[pi , pj ] = 0 .

podemos deduzir as relações de comutação entre as varias componentes de ⃗L, começamos com o exemplo
das seguintes relações auxiliares:

[Lx , y] = [ypz − zpy , y] = −z[py , y] = i ~z ,


[Lx , py ] = [ypz − zpy , py ] = [y, py ]pz = i ~pz , (8.6)
[Lx , x] = 0 , [Lx , px ] = 0 .

185
186 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

Podemos obter similares relações para todos as outras componentes entre ⃗L e⃗r e entre ⃗L e ⃗p. Logo,

[Lx , Ly ] = [Lx , zpx − xpz ] = [Lx , z]px − x[Lx , pz ]


= − i ~ypx + i ~xpy = i ~Lz , (8.7)

e por permutação cíclica (x → y → z → x) desse resultado,

[Ly , Lz ] = i ~Lx , [Lz , Lx ] = i ~Ly (8.8)

as quais podem ser resumidas usando-se o tensor de Levi-Civita,

[Li , Lj ] = i εijk ~Lk (8.9)

onde εijk é o tensor antissimétrico de Levi-Civita, 1 as componentes 1, 2 e 3 representam x, y e z respectiva-


mente. Como as componentes de ⃗L não comutam entre si, não há autofunções comuns dessas componentes,
i.e., num sistema quântico, a medida de uma das componentes de ⃗L essencialmente destrói o que era ante-
riormente conhecido sobre a outra componente.
Outra propriedade importante é obtida quando definimos o quadrado do momentum angular orbital

⃗L2 ≡ ⃗L · ⃗L = L2 + L2 + L2 . (8.10)
x y z

Assim, observamos que

[⃗L2 , Lz ] = [L2x + L2y + L2z , Lz ]


= Lx [Lx , Lz ] + [Lx , Lz ]Lx + Ly [Ly , Lz ] + [Ly , Lz ]Ly
= Lx (− i ~Ly ) + (− i ~Ly )Lx + Ly (i ~Lx ) + (i ~Lx )Ly
= 0. (8.11)

A direção z não tendo nenhum privilégio, segue que:

[⃗L2 , Lx ] = [⃗L2 , Ly ] = 0 (8.12)

ou seja
[⃗L2 , ⃗L] = 0 . (8.13)
Então, como as componentes de ⃗L comutam com ⃗L2 , esses operadores podem ter autoestados simultâneos.
Ainda, através do uso da relação (8.9) podemos ver facilmente que

⃗L × ⃗L = i ~⃗L . (8.14)

Finalmente, para uma partícula de massa µ que está num estado de função de onda ψ (⃗r), podemos
executar uma rotação infinitesimal por um ângulo δφ sobre o sistema. 2 Em sua nova posição, a função de
onda será
ψ (⃗r + δ⃗r) = ψ (⃗r) + δ⃗r · ∇ψ
⃗ (⃗r)

onde
δ⃗r = δ⃗φ ×⃗r
desprezando-se os termos a partir dos quadráticos em |δ⃗φ|. Como
( )
(δ⃗φ ×⃗r) · ∇
⃗ = δ⃗φ · ⃗r × ∇

1
As propriedades do tensor de Levi-Civita podem ser encontradas em vários livros de física matemática, como por exemplo,
E. Butkov, Mathematical physics, (1968).
2
Equivalentemente, uma rotação −δφ sobre o sistema de eixos em relação ao qual o sistema é referido.
8.2. E NERGIA C INÉTICA E Momentum A NGULAR 187

podemos escrever
( ) [ ( )]
⃗ ψ (⃗r) = 1 + δ⃗φ · ⃗r × ∇
ψ (⃗r + δ⃗r) = ψ (⃗r) + δ⃗φ · ⃗r × ∇ ⃗ ψ (⃗r)
[ ( )]
i
= 1 + δ⃗φ · ⃗r × (− i ~)∇ ψ (⃗r)
⃗ (8.15)
~

mas como ⃗p = − i ~∇

[ ]
i
ψ (⃗r + δ⃗r) = 1 + δ⃗φ · (⃗r × ⃗p) ψ (⃗r) (8.16)
~
e sendo ⃗L = ⃗r × ⃗p, temos ( )
i ⃗
ψ (⃗r + δ⃗r) = 1 + δ⃗φ · L ψ (⃗r) . (8.17)
~
Como ⃗L é hermitiano, e δ⃗φ infinitesimal
i ⃗
R(δ⃗φ) = 1 + δ⃗φ · ⃗L = e ~ δ⃗φ · L
i

~
é o operador de rotação unitário, que atuando sobre a função de onda de um sistema, produz a função

de onda do mesmo, rodado em δ⃗φ. O operador momentum angular L~ é chamado de gerador da rotação
infinitesimal.
Se temos uma rotação infinitesimal podemos afirmar que para uma função arbitrária qualquer
i
δf = − δ⃗φ · ⃗Lf .
~
Se essa função arbitrária for substituída por V (r)g, onde V (r) é a energia potencial para forças centrais e g
uma outra função arbitrária, obtemos pela rotação

δ[V (r)g (⃗r)] = V (r)δg (⃗r)

ou
i i
− δ⃗φ · ⃗L(V g) = − V δ⃗φ · ⃗Lg .
~ ~
Desde que δ⃗φ é um vetor arbitrário e g (⃗r) uma função arbitrária, concluímos que
⃗LV (r) − V (r)⃗L = 0 (8.18)

ou seja, o momentum angular comuta com a energia potencial para forças centrais. Se mostrarmos que ⃗L
comuta com a energia cinética, então provaremos que ⃗L é uma constante de movimento.

8.2 Energia Cinética e Momentum Angular


O operador ⃗L2 é útil para mostrar que a energia cinética comuta com ⃗L, é ao mesmo tempo a ferramenta
necessária para reduzir o problema de força central para uma equivalente em uma dimensão. Em mecânica
quântica, devemos tomar
⃗L2 = (⃗r × ⃗p) · (⃗r × ⃗p)
= r2⃗p2 −⃗r(⃗r ·⃗p) ·⃗p + 2 i ~⃗r ·⃗p (8.19)

onde o termo do meio, na equação acima, é para ser entendido como


3 ∑
3
⃗r(⃗r ·⃗p) ·⃗p = ri rj pj pi
i=1 j=1
188 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

e os índices 1, 2 e 3 correspondem as componentes das coordenadas cartesianas x, y e z dos vetores.


A componente do gradiente ∇f ⃗ na direção de⃗r é ∂f ; então
∂r


⃗r ·⃗p = − i ~r
∂r
e consequentemente
2
⃗L2 = r2⃗p2 + ~2 r2 ∂ + 2~2 r ∂
∂r2 ∂r
ou ( )
⃗L2 = r2⃗p2 + ~2 ∂ r2 ∂ . (8.20)
∂r ∂r
Desde que ⃗L e naturalmente ⃗L2 comutam com qualquer função arbitrária de r, vamos usar (8.20) para
escrever a energia cinética
( )
⃗p2 ⃗L2 ~2 ∂ 2 ∂
T = = − r . (8.21)
2µ 2µr2 2µr2 ∂r ∂r
Aqui faremos uso dessa relação fundamental entre energia cinética T e o momentum angular ⃗L2 . Sabemos
que ⃗L comuta com a derivada radial, e é irrelevante se a derivação em r ocorreu antes ou depois da rotação.
Com isso temos que ⃗L e T comutam, e assim provamos que para forças centrais

[H, ⃗L] = 0 . (8.22)

Essa relação de comutação mostra que nesse caso o momentum angular é uma constante de movimento.

8.3 Problema de Autovalores do Momentum Angular


A solução explícita do problema de autovalores do momentum angular orbital é mais direta quando expres-
samos ⃗L2 e Lz em coordenadas esféricas (r, θ, φ), conforme Fig. 8.1. Neste sistema de coordenadas
z

qP

r

y
e
e
φe
e
e
e
e
x

Figura 8.1 Sistema de coordenadas esféricas.

x = r sen θ cos φ
y = r sen θ sen φ
z = r cos θ
8.3. P ROBLEMA DE AUTOVALORES DO Momentum A NGULAR 189

o operador momentum angular orbital é dado por


⃗L = − i ~⃗r × ∇
⃗ (8.23)

onde
⃗ = r̂ ∂ + φ̂ 1


+ θ̂
1 ∂
. (8.24)
∂r r sen θ ∂φ r ∂θ
Os versores do sistema de coordenadas esféricas estão relacionados com os versores cartesianos usuais
(ı̂, ȷ̂, k̂) através de

r̂ = sen θ cos φı̂ + sen θ sen φȷ̂ + cos θk̂ , (8.25a)


φ̂ = − sen φı̂ + cos φȷ̂ , (8.25b)
θ̂ = cos θ cos φı̂ + cos θ sin φȷ̂ − sen θk̂ . (8.25c)

Portanto, temos que ( )


⃗ = − i ~ φ̂ ∂ − θ̂ 1 ∂
⃗L = rr̂ × (− i ~)∇ . (8.26)
∂θ sen θ ∂φ
Essa forma mostra novamente que ⃗L comuta com qualquer função de r e com qualquer derivada com
respeito a r.
As Eqs. (8.26) e (8.25) nos permite obter as seguintes expressões
( )
∂ ∂
Lx = i ~ sen φ + cos φ cot θ (8.27a)
∂θ ∂φ
( )
∂ ∂
Ly = i ~ − cos φ + sen φ cot θ (8.27b)
∂θ ∂φ

Lz = − i ~ (8.27c)
∂φ

e como ⃗L2 = L2x + L2y + L2z ,


[ ( )]
⃗L2 = −~2 1 ∂2 1 ∂ ∂
2 2
+ sen θ . (8.28)
sen θ ∂φ sen θ ∂θ ∂θ

Substituindo as expressões acima no problema de autovalores do momentum angular ⃗L2 , obtemos a


seguinte equação diferencial
[ ( )]
1 ∂2 1 ∂ ∂
+ sen θ Y (θ, φ) = −λY (θ, φ) . (8.29)
sen2 θ ∂φ2 sen θ ∂θ ∂θ
Essa equação diferencial parcial pode ser resolvida através do método de separação de variáveis,

Y (θ, φ) = Θ(θ)Φ(φ) . (8.30)

Quando substituímos (8.30) em (8.29), obtemos através de uma pequena álgebra


[ ( ) ]
sen2 θ 1 d dΘ 1 d2 Φ
sen θ + λΘ = − = m2
Θ sen θ dθ dθ Φ dφ2

que são igualadas a uma constante m2 . Então deduzimos as equações diferenciais ordinárias,
( )
1 d dΘ m2
sen θ − Θ + λΘ = 0 (8.31)
sen θ dθ dθ sen2 θ
d2 Φ
+ m2 Φ = 0 . (8.32)
dφ2
190 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

A solução de (8.32) pode ser expressa na forma

Φ(φ) = ei mφ (8.33)

para m = 0, ±1, ±2, · · · , i.e., m deve ser um inteiro, positivo ou negativo. Na velha mecânica quântica,
m foi chamado de número quântico magnético. Tomando a forma explícita do operador Lz = − i ~ ∂φ ∂
e
voltando a usar Y (θ, φ), já que o operador Lz atua somente em φ temos


Lz Y (θ, φ) = − i ~ Y (θ, φ)
∂φ

= − i ~Θ Φ
∂φ

= − i ~Θ ei mφ
∂φ
= m~Y (θ, φ) . (8.34)

Usando (8.28)-(8.29) e (8.34) temos

⃗L2 Y (θ, φ) = λ~2 Y (θ, φ) (8.35)


Lz Y (θ, φ) = m~Y (θ, φ) (8.36)

mostrando que Y (θ, φ) é autofunção simultânea dos operadores ⃗L2 e Lz , com autovalores λ~2 e m~ res-
pectivamente. Isso era esperado já que [⃗L2 , Lz ] = 0.

Método Algébrico Para a obtenção dos autovalores e autofunções do momentum angular, usaremos a
técnica dos operadores de abaixamento e levantamento, definidos por

L− = Lx − i Ly (8.37)

e
L+ = Lx + i Ly (8.38)
respectivamente.
Com o uso desse operadores podemos verificar certas propriedades. Vamos considerar primeiramente

L+ L− = (Lx + i Ly )(Lx − i Ly )
= L2x + L2y − i Lx Ly + i Ly Lx
= L2x + L2y + i[Ly , Lx ]
= L2x + L2y + L2z + ~Lz − L2z
= ⃗L2 + ~Lz − L2 . z (8.39)

Similarmente
L− L+ = ⃗L2 − ~Lz − L2z . (8.40)
Assim,
[L+ , L− ] = 2~Lz . (8.41)

Ainda podemos obter outras importantes relações de comutação, que são:

[Lz , L+ ] = ~L+ (8.42)


[Lz , L− ] = −~L− (8.43)
8.3. P ROBLEMA DE AUTOVALORES DO Momentum A NGULAR 191

[⃗L2 , L+ ] = 0 (8.44)
[⃗L2 , L− ] = 0 . (8.45)

Das Eqs. (8.39) e (8.40), podemos escrever as seguintes relações para o operador ⃗L2
⃗L2 = L+ L− − ~Lz + L2 (8.46)
z

e
⃗L2 = L− L+ + ~Lz + L2 . (8.47)
z

Desde que [⃗L2 , L


z ] = 0, sabemos que Y (θ, φ) é autofunção simultânea dos operadores
⃗L2
e Lz , com
autovalores λ~ e m~ respectivamente. Definindo Y (θ, φ) = |λm⟩, i.e., a função Y (θ, φ) como um ket,
2

temos
⃗L2 |λm⟩ = λ~2 |λm⟩ (8.48)
Lz |λm⟩ = m~|λm⟩ . (8.49)

Aplicando o operador L+ nos dois lados da Eq. (8.49), temos

L+ Lz |λm⟩ = m~L+ |λm⟩ . (8.50)

Mas
[Lz , L+ ] = ~L+ ⇒ L+ Lz = Lz L+ − ~L+ .
Portanto, da equação acima temos

Lz L+ |λm⟩ = (m + 1)~L+ |λm⟩ . (8.51)

A equação acima nos diz que L+ |λm⟩ é uma nova autofunção do operador Lz , pertencendo ao autovalor
(m+1)~. Note que L+ é um operador de levantamento. Aplicando novamente L+ na equação acima, temos

(L+ Lz )L+ |λm⟩ = (m + 1)~L2+ |λm⟩


(Lz L+ − ~L+ )L+ |λm⟩ = (m + 1)~L2+ |λm⟩
Lz L2+ |λm⟩ = (m + 2)~L2+ |λm⟩ . (8.52)

É fácil notar que todas as vezes que aplicamos L+ em Lz |λm⟩, o autovalor de Lz aumenta em uma unidade
de ~. Generalizando esses resultados, para n aplicações dos operadores L+ e ⃗L2 , temos

Lz Ln+ |λm⟩ = (m + n)~Ln+ |λm⟩ (8.53)

e
⃗L2 Ln |λm⟩ = λ~2 Ln |λm⟩ . (8.54)
+ +

Analogamente, n sucessivas operações de L− sobre (8.49) diminuem o autovalor de Lz em uma unidade


de ~ para cada operação de L− . Note que L− é o operador de abaixamento. Assim temos

Lz Ln− |λm⟩ = (m − n)~Ln− |λm⟩ (8.55)

e
⃗L2 Ln |λm⟩ = λ~2 Ln |λm⟩ . (8.56)
− −

Podemos então concluir que autofunções simultâneas dos operadores Lz e ⃗L2 podem ser geradas,
aplicando-se os operadores L− ou L+ sobre |λm⟩. Porém existem limites inferior e superior para as aplica-
ções dos operadores de abaixamento ou de levantamento. Logo, para determinar o número de vezes que os
operadores L− e L+ podem ser aplicados nos autoestados |λm⟩, escrevemos

(⃗L2 − L2z )|λm⟩ = (λ − m2 )~2 |λm⟩ . (8.57)


192 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

Como os operadores do momentum angular são hermitianos seus autovalores são reais positivos. Então,

λ − m2 ≥ 0 ou λ ≥ m2 .

Como m pode ser positivo ou negativo, seus valores dever estar compreendidos entre um valor mínimo e
um valor máximo, i.e.,
−lmin ≤ m ≤ +lmax

Logo, temos duas condições


L+ |λ m = lmax ⟩ = 0 (8.58)

e
L− |λ m = −lmin ⟩ = 0 . (8.59)

Assim, |λ m = lmax ⟩ é o autoestado associado ao mais alto autovalor de Lz , i.e., m = lmax . Entretanto,
|λ m = −lmin ⟩ é o autoestado associado ao mais baixo autovalor de Lz , i.e., m = −lmin . Sendo m e l
números inteiros, para um dado l, temos 2l + 1 valores para m. Usando (8.46) e (8.47), temos

⃗L2 |λ m = lmax ⟩ = (L− L+ + ~Lz + L2 )|λ m = lmax ⟩


z
= (~2 lmax + ~2 lmax
2
)|λ m = lmax ⟩
= ~2 lmax (lmax + 1)|λ m = lmax ⟩
= ~2 λ|λ m = lmax ⟩ (8.60)

⃗L2 |λ m = −lmin ⟩ = (L+ L− − ~Lz + L2 )|λ m = −lmin ⟩


z
= (~2 lmin + ~2 lmin
2
)|λ m = −lmin ⟩
= ~2 lmin (lmin + 1)|λ m = −lmin ⟩
= ~2 λ|λ m = −lmin ⟩ (8.61)

o que nos leva a escrever a seguinte relação

λ = lmax (lmax + 1) = lmin (lmin + 1) , (8.62)

o que implica lmin = lmax ou lmin = −(lmax + 1). Sendo l uma quantidade positiva, descartamos a última
condição, i.e., lmin = −(lmax + 1). Então lmin = lmax = l e temos

λ = l(l + 1) . (8.63)

Assim, vemos que −l ≤ m ≤ l. Sendo l um número inteiro, os possíveis valores de m são

l, l − 1, l − 2, l − 3, · · · , −l + 2, −l + 1, −l

que são os 2l +1 valores inteiros permitidos para m. Então, finalmente temos os autovalores dos operadores
⃗L2 e Lz ,

⃗L2 |lm⟩ = l(l + 1)~2 |lm⟩ (8.64)


Lz |lm⟩ = m~|lm⟩ , (8.65)

com o ket |lm⟩ associado às funções harmônicas esféricas Ylm (θ, φ).
8.3. P ROBLEMA DE AUTOVALORES DO Momentum A NGULAR 193

Representação Matricial do Operador Momentum Angular Assumindo que os kets |lm⟩ são autoesta-
dos ortonormalizados dos operadores ⃗L2 e Lz , eles obedecem a relação
⟨l′ m′ |lm⟩ = δl′ l δm′ m . (8.66)
Assim, os operadores ⃗L2 e Lz são matrizes diagonais, com elementos
( )
⃗L2
′ ′
= ⟨l′ m′ |⃗L2 |lm⟩ = l(l + 1)~2 δl′ l δm′ m (8.67)
l m ,lm
e
(Lz )l′ m′ ,lm = ⟨l′ m′ |Lz |lm⟩ = m~ δl′ l δm′ m . (8.68)
Para os elementos de matriz para os operadores de levantamento e abaixamento, temos
L+ |lm⟩ = C+ ~|l m + 1⟩ (8.69)
L− |lm⟩ = C− ~|l m − 1⟩ (8.70)
então

⟨lm|L− = ⟨l m + 1|C+ ~
e
⟨lm|L− L+ |lm⟩ = |C+ |2 ~2 ⟨l m + 1|l m + 1⟩ .
Mas
⟨lm|L− L+ |lm⟩ = ⟨lm|⃗L2 − Jz2 − ~Jz |lm⟩ = [l(l + 1) − m2 − m]~2 ⟨lm|lm⟩
e concluímos que
|C+ |2 = l(l + 1) − m(m + 1) = (l − m)(l + m + 1)
similarmente
|C− |2 = (l + m)(l − m + 1) .
Com esses resultados, temos

(L+ )l′ m′ ,lm = ⟨l′ m′ |L+ |lm⟩ = (l − m)(l + m + 1)~ δl′ l δm′ m+1 (8.71)
e √
(L− )l′ m′ ,lm = ⟨l′ m′ |L− |lm⟩ = (l + m)(l − m + 1)~ δl′ l δm′ m−1 (8.72)
que não são diagonais.
Das relações (8.37) e (8.38), temos os operadores Lx e Ly dados por
1
Lx = (L+ + L− ) (8.73)
2
e
1
Ly = (L+ − L− ) . (8.74)
2i
Então
(Lx )l′ m′ ,lm = ⟨l′ m′ |Lx |lm⟩
~ [√ √ ]
= δl ′ l (l − m)(l + m + 1)~ δm′ m+1 + (l + m)(l − m + 1)~ δm′ m−1 (8.75)
2
e
(Ly )l′ m′ ,lm = ⟨l′ m′ |Ly |lm⟩
~ [√ √ ]
= δl ′ l (l − m)(l + m + 1)~ δm′ m+1 − (l + m)(l − m + 1)~ δm′ m−1 (8.76)
2i
onde, os elementos não nulos das matrizes de (Lx )l′ m′ ,lm e (Ly )l′ m′ ,lm estão diretamente acima e direta-
mente abaixo da diagonal: (Lx )l′ m′ ,lm é uma matriz simétrica e real, enquanto (Ly )l′ m′ ,lm é uma matriz
antissimétrica e puramente imaginária.
194 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

8.4 Autofunções do Momentum Angular


Usando os resultados já encontrados, desenvolvemos explicitamente as equações diferenciais para obter as
soluções das autofunções do momentum angular. A solução de (8.32) é conhecida

Φ(φ) = ei mφ (8.77)

onde m = 0, ±1, ±2, · · · , como visto anteriormente.


Se agora reescrevermos a Eq. (8.31) usando uma nova variável x= cos θ em lugar de θ e P (x) = Θ(θ),
e lembrando que λ = l(l + 1) obtemos a seguinte equação:
[ ] [ ]
d 2 dP m2
(1 − x ) + l(l + 1) − P =0 . (8.78)
dx dx 1 − x2

Consideremos agora situações com a simetria azimutal. Neste caso temos m2 =0 e a Eq. (8.78) fica
[ ]
d 2 dP
(1 − x ) + l(l + 1)P = 0 (8.79)
dx dx

conhecida como equação diferencial de Legendre 3 . O domínio da variável x é o intervalo −1≤x≤1. Para
que exista solução finita da (8.79) nesse intervalo, l deve ser zero ou um inteiro positivo. As soluções são
então os conhecidos polinômios de Legendre de ordem l, i.e., Pl (x). Esses polinômios são normalizados de
modo a terem um valor unitário em x = +1.
Para calcular os polinômios de Legendre, vamos resolver a Eq. (8.79) por uma série de potências, i.e.,
série de Frobenius na forma


α
P (x) = x aj xj (8.80)
j=0

onde α é um parâmetro a se determinar. Substituindo (8.80) em (8.79), temos




{(α + j)(α + j − 1)aj xα+j−2 − [(α + j)(α + j + 1) − l(l + 1)]aj xα+j } = 0
j=0

O coeficiente de cada potência de x deve anular-se separadamente. Logo, para j = 0, 1, encontramos o


seguinte: se a0 ̸= 0, então α(α − 1) = 0; se a1 ̸= 0, então α(α + 1) = 0. Para um valor geral de j
[ ]
(α + j)(α + j + 1) − l(l + 1)
aj+2 = aj . (8.81)
(α + j + 1)(α + j + 2)

Se usarmos o valor usual para ambos os casos, α = 0, da equação acima temos


[ ]
j(j + 1) − l(l + 1)
aj+2 = aj . (8.82)
(j + 1)(j + 2)

Então, se a série não termina para algum valor finito de j

aj+2 j

aj j+2

quando j → ∞, a série diverge para x = ±1, i.e., para θ = 0 e π. Com isso temos singularidades
logarítmicas em x = ±1, e funções singulares não são aceitas como autofunções de ⃗L2 . Concluímos então
que a série de potência deverá terminar em algum valor finito de j = l, corrigindo a divergência, e todas as
potências de ordem superior se anulam.
3
Adrien-Marie Legendre (1752–1833), matemático francês.
8.4. AUTOFUNÇÕES DO Momentum A NGULAR 195

Assim, usando estas relações, os primeiros polinômios de Legendre são:

P0 (x) = 1
P1 (x) = x
1
P2 (x) = (3x2 − 1) (8.83)
2
1
P3 (x) = (5x3 − 3x)
2
1
P4 (x) = (35x4 − 30x2 + 3) .
8
Uma relação importante, conhecida como fórmula de Rodrigues, fornece um algoritmo para o cálculo dos
polinômios de Legendre, dados acima:

1 dl 2
Pl (x) = (x − 1)l . (8.84)
2l l! dxl

Desde que Pl (cos θ) é uma autofunção do operador hermitiano ⃗L2 , fica claro que os polinômios de
Legendre formam uma base ortogonal de funções no intervalo [−1, 1]. A relação de ortogonalidade é:
∫ 1
2
Pl′ (x)Pl (x) dx = δl ′ l . (8.85)
−1 2l + 1

Prova. Para provar a relação acima, usamos a definição (8.84) e integramos sucessivas vezes por partes.
Mas a normalização desses polinômios é obtido facilmente por integração por partes fazendo l′ = l
∫ +1 ( )2 ∫ +1 [ ][ l ]
1 dl 2 d
2
[Pl (x)] dx = (x − 1) l
(x − 1) dx
2 l
−1 2l l!−1 dxl dxl
∫ +1 [ 2l ]
1 d
l
= (−1) l 2 (x − 1) (x2 − 1)l dx
2 l
(2 l!) −1 dx2l
∫ +1
(2l)!
= (−1)l l 2 (x2 − 1)l dx
(2 l!) −1
2
= .
2l + 1

Função Geratriz Como é comum no estudo de funções especiais, vamos introduzir uma função geratriz
para os polinômios de Legendre, onde introduzimos um parâmetro auxiliar s. Essa função geratriz é


2 −1/2
(1 − 2xs + s ) = Pn (x) sn (|s| < 1) . (8.86)
n=0

Para provar a identidade dos coeficientes Pn (x) em (8.86) com os polinômios de Legendre definidos por
(8.84), derivamos a expressão (8.86) em relação a s:


(x − s)(1 − 2xs + s2 )−3/2 = nPn (x) sn−1 (8.87)
n=0

ou, com o uso da (8.86)



∑ ∞

(x − s) Pn (x) s = (1 − 2xs + s )
n 2
nPn (x) sn−1 .
n=0 n=0
196 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

Igualando os coeficientes de cada potência de s, teremos

(n + 1)Pn+1 (x) = (2n + 1)xPn (x) − nPn−1 (x) . (8.88)

Por substituição s = 0 em (8.86) e (8.87), vemos que

P0 (x) = 1, P1 (x) = x

em concordância com (8.83). A equivalência das duas definições dos polinômios de Legendre é completa,
pela demonstração de que Pn (x) definido em (8.84) satisfaz a fórmula de recorrência (8.88).

Função Associada de Legendre Agora iremos resolver a Eq. (8.78) com m ̸= 0. Então, se a equação de
Legendre (8.79) é diferenciada m vezes, as funções associadas de Legendre

dm Pl (x)
Plm (x) = (1 − x2 )m/2
dxm
1 dl+m
= l (1 − x2 )m/2 l+m (x2 − 1)l (8.89)
2 l! dx
são definidas para m ≤ l inteiros positivos. A equação acima é uma generalização da fórmula de Rodrigues,
e deduzimos que
[ m ]
d 2 dPl (x) m2
(1 − x ) − P m (x) + l(l + 1)Plm (x) = 0 . (8.90)
dx dx 1 − x2 l

Essas funções são também conhecidas como funções associadas de Legendre de primeira espécie.
Uma vez que as funções associadas de Legendre dependem de m2 e m inteiro, as funções Pl−m (x) e
Plm (x) são proporcionais. Pode-se mostrar facilmente que

(l − m)! m
Pl−m (x) = (−1)m P (x) . (8.91)
(l + m)! l

Para m constante, as funções Plm (x) formam um conjunto ortogonal no índice l, no intervalo [−1, 1]. As re-
lações de ortogonalidade são
∫ +1
2 (l + m)!
Plm m
′ (x)Pl (x) dx = δl ′ l . (8.92)
−1 2l + 1 (l − m)!

8.5 Harmônicos Esféricos


A solução angular da equação do momentum angular foi decomposta num produto de fatores para as duas
variáveis θ e φ, i.e., Y (θ, φ) = Θ(θ)Φ(φ). É conveniente combinar os fatores angulares para construir fun-
ções ortogonais sobre a esfera. Essas funções angulares se chamam harmônicos esféricos e os coeficientes
de normalização Alm dessas funções harmônicas esféricas devem satisfazer
∫ ∫
|Alm |2 +1



Plm Plm
′ dx e− i(m−m )φ dφ = 1
2π −1 0

mas ∫ 2π

e− i(m−m )φ dφ = 2πδmm′
0
isso implica √
2l + 1 (l − m)!
Alm = .
4π (l + m)!
8.5. H ARMÔNICOS E SFÉRICOS 197

Finalmente, as funções harmônicas esféricas normalizadas podem ser escritas como



m 2l + 1 (l − m)!
Yl (θ, φ) = (−1)m Plm (cos θ) ei mφ . (8.93)
4π (l + m)!

De (8.91), pode ver-se que sujeito as restrições −l ≤ m ≤ l temos

Yl−m (θ, φ) = (−1)m [Ylm (θ, φ)]∗ . (8.94)

As condições de ortogonalidade para Ylm são


∫ 2π ∫ π
′ ∗
dφ sen θ dθ [Ylm m
′ (θ, φ)] Yl (θ, φ) = δl′ l δm′ m (8.95)
0 0

e as relações de completeza são



∑ ∑
l
[Ylm (θ′ , φ′ )]∗ Ylm (θ, φ) = δ(φ − φ′ ) δ(cos θ − cos θ′ ) . (8.96)
l=0 m=−l

Os harmônicos esféricos são autofunções normalizadas simultâneas de ⃗L2 e Lz tal que

⃗L2 Y m (θ, φ) = l(l + 1)~2 Y m (θ, φ)


l l
Lz Ylm (θ, φ) = m~ Ylm (θ, φ) .

Abaixo, listamos alguns harmônicos esféricos:


1
Y00 = √


3
Y10 = cos θ


±1 3 ±iφ
Y1 = ∓ e sen θ (8.97)


5
Y20 = (3 cos2 θ − 1)
16π

±1 15 ± i φ
Y2 = ∓ e cos θ sen θ


±2 15 ±2 i φ
Y2 = e sen2 θ .
32π
Não fizemos nenhuma demonstração detalhada, mas é importante notar que os harmônicos esféricos
formam um conjunto completo para a expansão das funções de onda. 4

Determinação dos Harmônicos Esféricos Podemos construir os harmônicos esféricos Ylm (θ, φ) utili-
zando os operadores de abaixamento e de levantamento, L− e L+ respectivamente. Pelas definições (8.37)
e (8.38) temos [ ]
∂ ∂
L± = ~e± i φ ± + i coth θ . (8.98)
∂θ ∂φ
Iniciaremos nossa dedução pela expressão Yll (θ, φ). Podemos calcular Yll (θ, φ) através de

L+ Yll (θ, φ) = 0 (8.99)


4
R. Courant and D. Hilbert, Methods of mathematical physics, (1962).
198 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

e sabendo que
Yll (θ, φ) = Pll (θ) ei lφ , (8.100)
obtemos
Yll (θ, φ) = cl (sen θ)l ei lφ (8.101)
onde cl é uma constante arbitrária.
Para determinar a constante cl , normalizaremos Yll (θ, φ)
∫ 2π ∫ π ∫ 2π ∫ π
2
dφ sen θ dθ Yll (θ, φ) = |cl |2 dφ sen θ dθ (sen θ)2l = 1 .
0 0 0 0

Logo
1
|cl |2 = Il (8.102)

sendo ∫ ∫
π +1
Il = sen θ dθ (sen θ) = 2l
du(1 − u2 )l
0 −1
onde usamos uma nova variável u = cos θ. A integral Il é facilmente calculada pela recorrência
∫ +1 ∫ +1
Il = du(1 − u2 )(1 − u2 )l−1 = Il−1 − du u2 (1 − u2 )l−1
−1 −1

e utilizando a integração por partes


1 2l
Il = Il−1 − Il ⇒ Il = Il−1
2l 2l + 1
com ∫ +1
I0 = du = 2 .
−1

Dessas relações, derivamos imediatamente 5

(2l)!! 22l+1 (l!)2


Il = I0 =
(2l + 1)!! (2l + 1)!

e Yll (θ, φ) é então normalizada se √


1 (2l + 1)!
|cl | = l . (8.103)
2 l! 4π
Finalmente, para definir cl completamente, devemos escolher sua fase. A escolha comum é

(−1)l (2l + 1)!
|cl | = l . (8.104)
2 l! 4π
Para obter Ylm (θ, φ) através de sucessivas aplicações do operador L− em Yll (θ, φ), faremos inicialmente
os seguintes passos:
1. A ação dos operadores L+ e L− na função Y = ei nφ P (θ), onde n é um número inteiro, é dada por
[ ] d [ ]
L± ei nφ P (θ) = ∓~ei(n±1)φ (sen θ)1±n (sen θ)∓n P (θ) ; (8.105)
d(cos θ)

2. Aplicando a operação L± em Y , p sucessivas vezes, temos


[ ] dp [ ]
(L± )p ei nφ P (θ) = (∓~)p ei(n±p)φ (sen θ)p±n p
(sen θ)∓n P (θ) . (8.106)
d(cos θ)
5
Usa-se a notação: (2l + 1)!! ≡ (2l + 1)(2l − 1)(2l − 3) . . . (5)(3)(1).
8.5. H ARMÔNICOS E SFÉRICOS 199

Como já indicado em (8.71) e (8.72), os harmônicos esféricos Ylm (θ, φ) satisfazem a relação

L± Ylm (θ, φ) = ~ l(l + 1) − m(m ± 1) Ylm±1 (θ, φ)

= ~ (l ∓ m)(l ± m + 1) Ylm±1 (θ, φ) . (8.107)
Essa relação nos diz que se Ylm é normalizada, então Ylm±1 também o é. Assim, para obter Ylm (θ, φ) de
Yll (θ, φ), usamos o operador L− dado em (8.98) e a expressão (8.107). Devemos então aplicar (l − m) vezes
o operador L− em Yll (θ, φ). Logo,

(L− )l−m Yll (θ, φ) = (~)l−m (2l)(1) × (2l − 1)(2) × · · · × (l + m + 1)(l − m) Ylm (θ, φ) (8.108)
o que implica √ ( )l−m
(l + m)! L−
Ylm (θ, φ) = Yll (θ, φ) . (8.109)
(2l)!(l − m)! ~
Finalmente, usando as relações (8.101) e (8.106), com n = l e p = l − m, obtemos

(−1) l 2l + 1 (l + m)! i mφ dl−m
Ylm (θ, φ) = l e (sen θ)−m (sen θ)2l (8.110)
2 l! 4π (l − m)! d(cos θ)l−m

Para obter Ylm (θ, φ) de Yl−l (θ, φ), usamos o operador L+ dado em (8.98). Naturalmente, é fácil calcular
primeiro Yl−l (θ, φ) e então aplicar o operador L+ . A expressão então obtida para Ylm (θ, φ) é ligeiramente
diferente da (8.110), porém as duas são completamente equivalentes. Obviamente sabemos que
L− Yl−l (θ, φ) = 0
e imediatamente temos √
1 (2l + 1)! − i lφ
Yl−l (θ, φ) = l e (sen θ)l . (8.111)
2 l! 4π
Devemos então aplicar (l + m) vezes o operador L+ em Yl−l (θ, φ). Usando as relações (8.111) e (8.106),
com n = l e p = l + m, obtemos

m (−1)l+m 2l + 1 (l − m)! i mφ m dl+m
Yl (θ, φ) = e (sen θ) (sen θ)2l (8.112)
2l l! 4π (l + m)! d(cos θ)l+m

Relações de Recorrência Algumas das mais importantes expansões de funções angulares em termos de
harmônicos esféricos estão listadas abaixo:

(l + m + 1)(l − m + 1) m
cos θ Ylm (θ, φ) = Yl+1
(2l + 1)(2l + 3)

(l + m)(l − m) m
+ Y , (8.113)
(2l + 1)(2l − 1) l−1

(l + m + 1)(l + m + 2) m+1
sen θ ei φ Ylm (θ, φ) = − Yl+1
(2l + 1)(2l + 3)

(l − m)(l − m − 1) m+1
+ Yl−1 , (8.114)
(2l + 1)(2l − 1)

−iφ m (l − m + 1)(l − m + 2) m−1
sen θ e Yl (θ, φ) = Yl+1
(2l + 1)(2l + 3)

(l + m)(l + m − 1) m−1
− Yl−1 . (8.115)
(2l + 1)(2l − 1)
Essas relações de recorrência são úteis em soluções de problemas, práticos e acadêmicos.
200 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

Teorema da Adição Como parte final desta seção, consideremos ainda uma importante propriedade dos
harmônicos esféricos Ylm fornecida pelo que é chamado teorema da adição para os harmônicos esféricos.
Sejam dois vetores de posição⃗r e⃗r′ , com direções expressas em termos das coordenadas esféricas (r, θ, φ)
e (r′ , θ′ , φ′ ) respectivamente, e que definem um ângulo γ entre eles, como mostra a Fig. 8.2. Este teorema
z


qP

⃗r′ *q

P


θ′ γ 

⃗r


θ

XXX
y
e XX
XXX
φ e XXX
′ e X
φ
e
e
e
e
x

Figura 8.2 Sistema de coordenadas - teorema da adição.

exprime um polinômio de Legendre de ordem l no ângulo γ em termos de produtos dos harmônicos esféricos
dos ângulos (θ, φ) e (θ′ , φ′ ), tal que

4π ∑ m ′ ′ ∗
l
Pl (cos γ) = [Yl (θ , φ )] Ylm (θ, φ) (8.116)
2l + 1
m=−l

onde cos γ= cos θ cos θ′ + sen θ sen θ′ cos(φ−φ′ ).


Muitas vezes este teorema se escreve em termos das funções associadas de Legendre na forma:

l
(l − m)! m
Pl (cos γ) = Pl (cos θ)Pl (cos θ′ ) + 2 P (cos θ)Plm (cos θ′ ) cos[m(φ − φ′ )] . (8.117)
(l + m)! l
m=−l

A relação de fechamento, ou relação de completeza (8.96), também poderá ser expressa como

∑ ∑
l
[Ylm (θ′ , φ′ )]∗ Ylm (θ, φ) = δ(r̂, r̂ ′ ) (8.118)
l=0 m=−l

e combinando com o teorema da adição (8.116), temos a identidade




(2l + 1) Pl (⃗r ·⃗r′ ) = 4πδ(r̂, r̂ ′ ) . (8.119)
l=0

A função delta em três dimensões tem uma representação em coordenadas esféricas como
δ(r − r′ )
δ(⃗r −⃗r′ ) = δ(r̂, r̂ ′ ) .
r2
Assim,

′ δ(r − r′ ) ∑ 2l + 1
δ(⃗r −⃗r ) = Pl (⃗r ·⃗r′ ) . (8.120)
r2 4π
l=0
Essa fórmula será muito útil na teoria de espalhamento por um potencial esférico.
8.6. R EDUÇÃO DO P ROBLEMA DE F ORÇA C ENTRAL 201

Discussão A solução formal do problema de autovetores de ⃗L2 e Lz , obtida pelo método dos operadores,
permite que l e m assumam valores semi-inteiros. Por outro lado, a solução explícita através da resolução
das equações diferenciais conduz apenas a valores inteiros de l e m. Há alguma contradição nesses dois
fatos? A resposta é simplesmente não. A solução explícita levou apenas a valores inteiros de m devido a
condição de contorno que aplicamos, i.e., é natural impor que o valor de Ylm seja o mesmo para (θ, φ = 0)
e (θ, φ = 2π), uma vez que essas duas escolhas representam o mesmo ponto do espaço

Ylm (θ, 0) = Ylm (θ, 2π) .

No caso da solução pelo método dos operadores, a qual é compatível com valores inteiros e semi-inteiros,
usamos apenas as propriedades do operador momentum angular orbital. Quando calculamos as autofunções
Φll que são soluções de
L+ Φll = 0 ,
notamos que essas satisfazem as condições de contorno apenas se l for inteiro. Logo, não existe conflito
entre os dois métodos.
Apesar dos valores semi-inteiros de l não ocorrerem para o momentum angular orbital, aprendemos da
solução formal que operadores que satisfazem as relações de comutação

[Lk , Lj ] = i ~εkjn Ln

podem, em princípio, exibir valores de l semi-inteiro. Obviamente, isto vai depender da forma explícita
do operador, assim como ocorreu no caso do momentum angular orbital. Já vimos que as partículas podem
apresentar um momentum angular intrínseco (spin) associado a valores semi-inteiros de l, como por exemplo
os elétrons s = 21 . Visto que essa nova contribuição para o momentum angular total não tem análogo
clássico, utilizaremos as relações de comutação, apresentada acima, como guia na definição dos operadores
hermitianos associado a esse novo grau de liberdade.

8.6 Redução do Problema de Força Central


Das seções anteriores sabemos que ⃗L e ⃗L2 comutam com qualquer função arbitrária de r, e usamos (8.20)
para obter a energia cinética (8.21)
( )
⃗p2 ~2 ∂ 2 ∂
⃗L2
T = =− r + .
2µ 2µr2 ∂r ∂r 2µr2

Da relação fundamental entre energia cinética T e o momentum angular ⃗L2 , sabemos que ⃗L e T comutam
para forças centrais, onde a hamiltoniana H de uma partícula de massa µ que é dada por

⃗p2
H= + V (r)

comuta com ⃗L. Logo,


[H, ⃗L] = 0 .
Essa relação de comutação mostra que é possível um conjunto de funções que são autofunções de H, assim
como são autofunções de ⃗L2 . Essas autofunções

ψ (⃗r) = RE (r) Ylm (θ, φ) , (8.121)

usando coordenadas esféricas, satisfaz a equação de Schrödinger

H ψ ≡ [T + V (r)] ψ = E ψ
202 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

que para forças centrais se reduz à


[ ( ) ]
~2 ∂ ∂ ⃗L2
− r2 + + V (r) ψ = E ψ . (8.122)
2µr2 ∂r ∂r 2µr2

Usando a técnica de separação de variáveis para solução da equação diferencial, e sabendo que
⃗L2 Y m = l(l + 1)~2 Y m
l l

temos a equação diferencial para as autofunções radiais RE (r):


[ ( ) ]
~2 d 2 d l(l + 1)~2
− r + + V (r) RE (r) = E RE (r) . (8.123)
2µr2 dr dr 2µr2
Para solução dessa equação é conveniente introduzir uma outra função de onda radial através da substi-
tuição
u(r) = r RE (r) .
Substituindo em (8.123), encontramos a equação radial
[ ]
~2 d2 u l(l + 1)~2
− + + V (r) u = E u . (8.124)
2µ dr2 2µr2

Essa equação possui uma interpretação simples: u(r) é o autoestado de um problema unidimensional sujeito
a ação de um potencial efetivo
l(l + 1)~2
Vef (r) = V (r) + .
2µr2
Note que esse potencial efetivo também aparece naturalmente em mecânica clássica! Devido ao signifi-
cado de r, esse problema unidimensional possui a peculiaridade de estar definido apenas para r > 0. O
2
termo l(l+1)~
2µr 2
que aparece no potencial efetivo é algumas vezes chamado de potencial centrífugo desde que
represente o potencial cujo gradiente negativo seja a força centrífuga.
Da autofunção geral ψ = RE Ylm vimos que

H RE = E RE
⃗L2 Y m = l(l + 1)~2 Y m
l l
Lz Ylm = m~ Ylm

onde E, l(l + 1) e m são os autovalores de H, ⃗L2 e Lz respectivamente, sendo E o autovalor de energia.


Assim, dado um autoestado do problema unidimensional u(r) = r R(r), o qual independe de m,
podemos ver de ψ = RE Ylm que os autovetores de H (ψ) são degenerados, com uma degenerescência
mínima 2l + 1, que corresponde ao número de estados com um dado momentum angular total l.
Finalmente, se ψ é normalizável, então as autofunções RE (u(r)) devem satisfazer
∫ ∞ ∫
⟨ψ|ψ⟩ = dr r 2
dΩ |RE (r)Ylm (θ, φ)|2
∫0 ∞
= dr r2 |RE (r)|2 < ∞
∫ ∞
0

= dr |u(r)|2 < ∞ (8.125)


0

onde dΩ é o elemento de ângulo sólido e utilizamos a normalização das funções harmônicas esféricas Ylm .
Para que o estado seja normalizável, satisfazendo (8.125), devemos impor que RE ou u(r) tenda a zero
quando r vai para infinito. Mais especificamente, RE (u(r)) deve ir a zero mais rápido do que r−3/2 (r−1/2 )
para grandes valores de r. Mais ainda, em geral, para que a equação de autovalores de H em coordenadas
8.7. PARTÍCULA L IVRE COMO P ROBLEMA DE F ORÇA C ENTRAL 203

esféricas seja igual à mesma escrita em coordenadas cartesianas (problema unidimensional) devemos impor
a condição adicional de que rRE → 0 no limite r → 0. Em termos das funções u(r), essa condição significa
que u(r) → 0 neste limite.
Vamos discutir melhor essa última condição u = rRE → 0 no limite r → 0, reescrevendo (8.124), com
k 2 = 2µE
~2
, o potencial reduzido U (r) = 2µV
~2
(r)
e definindo um potencial efetivo reduzido por
l(l + 1)
Uefr (r) = U (r) + .
r2
Assim, a equação radial será
d2 u [ 2 ]
2
+ k − Uefr (r) u = 0 (8.126)
dr
e quando u = rRE → 0 no limite r → 0 a função radial RE (r) será finita na origem.
Nosso próximo passo é um estudo nas vizinhanças da origem, o potencial reduzido U (r) assume a forma
U (r) ≈ λ0 rν , com λ0 ̸= 0 . (8.127)
Nessa expressão, λ0 deve ter uma dimensão correta para que U (r) possa representar corretamente o po-
tencial reduzido, e ν deve ser inteiro, satisfazendo a condição ν > −1, para que u(r) = 0 seja satisfeita.
Estabelecida as condições, a solução para equação radial (8.126) poderá ser expressa pela série de Frobenius


u(r) = r s
aj r j , com a0 ̸= 0 . (8.128)
j=0

Substituindo essa série na (8.126) e usando a equação para o potencial efetivo reduzido com (8.127) para o
potencial reduzido, temos
a0 s(s − 1)rs−2 + a1 s(s + 1)rs−1 + · · · + k 2 a0 rs + k 2 a1 rs+1 + · · ·
− λ0 a0 rs+ν − λ0 a1 rs+ν+1 − · · · − l(l + 1)a0 rs−2 − l(l + 1)a1 rs−1 · · ·
= 0. (8.129)
Nessa identidade, os termos de ordem mais baixa em r, rs−2 , devem satisfazer à igualdade
s(s − 1) = l(l + 1) (8.130)
e os possíveis valores para s são: s = l + 1 e s = −l. O último valor não satisfaz à condição estabelecida
em u(r) = 0. Por outro lado, s = l + 1 nos fornece uma solução fisicamente aceitável para u(r) nas
proximidades da origem
u(r)r→0 ∼ rl+1 . (8.131)
Com isso, soluções fisicamente aceitáveis para RE (r) nas proximidades da origem tornam-se proporcionais
a rl . Ainda podemos ver que à medida que o valor de l aumenta, o potencial centrífugo também aumenta e
as funções radiais RE (r) e u(r) decrescem quando r → 0.

8.7 Partícula Livre como Problema de Força Central


O problema da partícula livre pode ser resolvido como um problema de força central, desde que V (r) = 0
a equação radial será (8.123) que assume a forma
[ 2 ]
d 2 d l(l + 1)
+ +k −2
RE (r) = 0 . (8.132)
dr2 r dr r2
Esta equação é praticamente uma equação de Bessel, 6 a menos a relevante diferença
1 d 2 d
contra .
ρ dρ r dr
6
Alternativamente poderíamos reconhecer que a Eq. (8.132) é a chamada equação diferencial esférica de Bessel.
204 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

Podemos resolver este problema pela substituição


1
RE = uE (8.133)
r1/2
nas equações

d2 RE 3 −5/2 −3/2 duE


2
−1/2 d uE
= r u E − r + r
dr2 4 dr dr2
2 dRE duE
= −r−5/2 uE + 2r−3/2
[ r ]dr dr
l(l + 1)
k2 − RE = −l(l + 1)r−5/2 uE + k 2 r−1/2 uE
r2
e a Eq. (8.132) transforma-se em
[ ]
1 2
d2 1 d (l + )
r−1/2 + + k2 − 2
uE = 0 (8.134)
dr2 r dr r2

e, substituindo ρ = r e ν = l + 1/2, temos a equação usual de Bessel. Com x = kr as soluções indepen-


dentes são dadas pelas funções de Bessel, Jl+1/2 (kr), e pelas funções de Neumann 7 , Nl+1/2 (kr). Assim, as
soluções para RE são
Al Bl
RE = 1/2 Jl+1/2 (kr) + 1/2 Nl+1/2 (kr) . (8.135)
r r

Funções Esféricas de Bessel, Neumann e Hankel Soluções para a dita equação diferencial esférica de
Bessel podem ser expressas em termos das funções esféricas de Bessel, jl (x), funções esféricas de Neumann,
(1,2)
nl (x) e funções esféricas de Hankel 8 , hl (x),9 definidas por:
( π )1/2
jl (x) = Jl+1/2 (x)
( 2x
π ) 1/2
nl (x) = Nl+1/2 (x) (8.136)
2x
( π )1/2 [
(1,2) ]
hl (x) = Jl+1/2 (x) ± i Nl+1/2 (x)
2x
no qual associado com a expansão em série
( x )v ∑

(−1)j ( x )2j
Jν (x) =
2 j! Γ(j + ν + 1) 2
j=0

( x )−v ∑

(−1)j ( x )2j
J−ν (x) =
2 j! Γ(j − ν + 1) 2
j=0
e
Jν (x) cos (νπ) − J−ν (x)
Nν (x) =
sen (νπ)
são dadas por 10
(
)
1 d l ( sen x )
l
jl (x) = (−x)
x dx x
( )l ( (8.137)
1 d cos x )
nl (x) = (−x)l .
x dx x
7
Carl Neumann (1832–1925), matemático alemão.
8
Hermann Hankel (1839–1873), matemático alemão.
9
Função de Hankel de primeira espécie, h1l (x), e de segunda espécie, h2l (x), respectivamente.
10
Para esse trabalho matemático ver o excelente Morse and Feshbach, Methods of theoretical physics, (1953).
8.7. PARTÍCULA L IVRE COMO P ROBLEMA DE F ORÇA C ENTRAL 205

Em bons livros de métodos de física-matemática, podemos encontrar os primeiros valores de l.


Tendo assumido x = kr, devemos ter o controle quando r → 0 e r → ∞, na qual associamos às
propriedades assintóticas das funções de Bessel e de Neumann. Para valores do argumento x ≪ max[1, l] a
função esférica de Bessel se torna finita11
( )
xl x2
jl (x) = 1− + O(x ) ,
4
(8.138)
(2l + 1)!! 2(2l + 3)
entretanto a função esférica de Neumann diverge
( )
(2l − 1)!! x2
nl (x) = 1− + O(x ) .
4
(8.139)
xl+1 2(1 − 2l)
Para valores do argumento x ≫ l temos
( ) ( )
1 lπ 1
jl (x) = sen x − +O (8.140)
x 2 x2
e ( ) ( )
1 lπ 1
nl (x) = − cos x − +O . (8.141)
x 2 x2
A função esférica de Hankel será a combinação de (8.140) e de (8.141)
[ ( ) ( )] ( )
(1,2) 1 lπ lπ 1
hl (x) = sen x − ∓ i cos x − +O
x 2 2 x2
( )
e±ix 1
= ±(∓i)l+1 +O (8.142)
x x2
na qual é apropriada para descrever a forma assintótica, quando r → ∞. Então, usando as funções esféricas
de Hankel, a solução geral da equação diferencial será
∑ [ (1) (1)
∞ m=l
∑ (2) (2)
]
ψklm (r, θ, φ) = Alm hl (kr) + Alm hl (kr) Yl m (θ, φ) (8.143)
l=0 m=−l

(1) (2)
que é uma onda esférica, e onde os coeficientes Alm e Alm serão determinados pelas condições de contorno
do problema.

Resumo para Partícula Livre Como vimos acima a solução do problema de autovalores e autoestados
de uma partícula livre em coordenadas esféricas envolve a presença de uma função de Bessel esférica.
Requerendo que RE (r) seja finito para r = 0, os autoestados da hamiltoniana de uma partícula livre,
fisicamente aceitável, são
RE (r) = Ajl (kr) . (8.144)
Encontrada a solução da parte radial da equação de Schrödinger para uma partícula livre, podemos
usar o resultado expresso por (8.93) e obter uma expressão geral para as funções de onda esféricas de uma
partícula livre. Assim,
ψklm (r, θ, φ) = Ajl (kr)Ylm (θ, φ) (8.145)
que são chamadas de ondas esféricas, sendo os correspondentes autovalores de H dados por E = ~2µk , i.e.,
2 2

podem ter qualquer valor compreendido entre zero e infinito, formando um espectro contínuo de energia.
Note que neste caso o estado é completamente especificado dando três números quânticos, a saber, (E, l, m),
sendo que E não está fixo para um dado par (l, m). E ainda temos, é fácil verificar, usando a propriedade
(8.140) das funções de Bessel, que o estado (8.145) não é normalizável. Isto não é uma surpresa já que
estamos tratando de um sistema que não exibe estados ligados, como observamos, possuindo apenas o
espectro contínuo.
11
Novamente usamos a notação: (2l + 1)!! ≡ (2l + 1)(2l − 1)(2l − 3) · · · (5)(3)(1).
206 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

8.8 Ondas Planas em Termos dos Harmônicos Esféricos



Tendo em vista que tanto as funções de onda planas ei k ·⃗r , quanto as ondas esféricas ψklm (r, θ, φ) =
Ajl (kr)Ylm (θ, φ), formam um conjunto completo, qualquer função arbitrária pode ser formada por uma

combinação linear de qualquer uma delas. De um modo particular, temos que ei k ·⃗r pode ser expandida em
termos dessas ondas esféricas. Assim,
∞ ∑
∑ l
i ⃗k ·⃗r
e = Alm jl (kr)Ylm (θ, φ) (8.146)
l=0 m=−l

onde Alm é uma constante. Para determinar essa constante, consideremos o caso em que o vetor de onda ⃗k
esteja alinhado com o eixo z. Logo, temos

ei k ·⃗r = ei kr cos θ = ei krη

onde η = cos θ. A Eq. (8.146) passa a ser independente de φ. Portanto,




ei krη = Al jl (kr)Pl (η) . (8.147)
l=0

Faremos agora x = kr e diferenciemos os dois lados da expressão acima em termos de x para obter

∑ d
i ηei xη = Al [jl (x)]Pl (η) . (8.148)
dx
l=0

Por outro lado, multiplicando (8.147) por i η, temos




i ηei xη = Al jl (x) i ηPl (η) . (8.149)
l=0

Usando a relação de recorrência (8.88), podemos escrever

(2l + 1)ηPl (η) = (l + 1)Pl+1 (η) + lPl−1 (η)

assim, a Eq. (8.149) será


∞ [
∑ ]
i(l + 1)jl+1 (x)Al+1 i ljl−1 (x)Al−1
i ηei xη = + Pl (η) . (8.150)
2l + 3 2l − 1
l=0

Igualando (8.148) e (8.150), temos



∑ ∞ [
∑ ]
d i(l + 1)jl+1 (x)Al+1 i ljl−1 (x)Al−1
Al [jl (x)] = + . (8.151)
dx 2l + 3 2l − 1
l=0 l=0

Usando as fórmulas de recorrência entre as funções esféricas de Bessel12

(2l + 1)gl (x) = xgl+1 (x) + xgl−1 (x) (8.152)

e
d [ l+1 ] 1
gl−1 (x) = x g l (x) (8.153)
xl+1 dx
sendo gl (x) a combinação linear das funções jl (x) e nl (x),

gl (x) = Ajl (x) + Bnl (x) . (8.154)


12
Ver o texto de G. Arfken, Mathematical methods for physicists, (1970).
8.9. C AIXA E SFÉRICA 207

Visto que as funções esféricas de Bessel, jl (x), são regulares para todos os valores de x, e as funções
esféricas de Neumann, nl (x), não são regulares na origem, implica em B = 0. Com isso, podemos usar as
Eqs. (8.152)-(8.154) para obter a relação
( ) ( )
Al i Al−1 Al i Al+1
l − jl−1 (x) = (l + 1) + jl+1 (x) . (8.155)
2l + 1 2l − 1 2l + 1 2l + 3

Para que essas relações sejam satisfeitas para quaisquer valores de x, é necessário e suficiente que as ex-
pressões entre parênteses sejam nulas. Logo,

Al i Al−1
= . (8.156)
2l + 1 2l − 1
Assim,
Al = (2l + 1) il A0 . (8.157)
Quando l = 0 e x = 0 na expressão (8.147), temos A0 = 1. Portanto

Al = (2l + 1) il . (8.158)

Substituindo em (8.147), temos




i kr cos θ
e = (2l + 1) il jl (kr)Pl (cos θ) (8.159)
l=0

conhecida como equação de Rayleigh. Se as coordenadas polares dos vetores ⃗k e⃗r são (θ1 , φ1 ) e (θ2 , φ2 )
respectivamente, pelo teorema da adição,

4π ∑ ∗ ⃗
l
Pl (cos θ) = Ylm (k)Ylm (⃗r) .
2l + 1
m=−l

Finalmente, substituindo essa expressão em (8.159), encontramos


∞ ∑
∑ l
⃗ ∗ ⃗
ei k ·⃗r = 4π il jl (kr)Ylm (k)Ylm (⃗r) . (8.160)
l=0 m=−l

Assim, a constante Alm será


∗ ⃗
Alm = 4π il Ylm (k) .

8.9 Caixa Esférica


Vamos considerar uma partícula livre contida em uma caixa esférica de raio a. Neste caso a hamiltoniana
do sistema será dada por
⃗p2
H= + V (r)

onde o potencial é dado por {
0 para 0 < r < a ,
V (r) =
∞ para r > a .
Adotando-se que os autoestados, ψ (⃗r), de H são também autoestados do momentum angular, escreve-
mos ψ = REl Ylm , onde a equação radial REl , para r < a, é dada explicitamente por

d2 REl 2 dREl l(l + 1)


+ − REl + k 2 REl = 0 (8.161)
dr2 r dr r2
208 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

onde o autovalor da hamiltoniana é dado por E = ~2µk . Para r > a temos que REl = 0, já que o potencial
2 2

é infinito nesta região.


Tendo em vista que essa é a mesma equação de uma partícula livre, sabemos que a solução geral do
problema é
REl = Al jl (kr) + Bl nl (kr) (8.162)

onde Al e Bl são constantes. Utilizando a condição de contorno (u(0) = 0) discutida nas seções anteriores,
concluímos que Bl = 0. A outra condição de contorno desse problema é REl (a) = 0, devido a continuidade
de REl em r = a. Logo, jl (ka) = 0, implicando que ka = αnr l , onde αnr l é o nr -ésimo zero da função
esférica de Bessel jl (kr). Portanto,
~2 2
E= α . (8.163)
2µa2 nr l

A Tab. 8.1 fornece αnr l para alguns pares (nr , l), enquanto que os níveis mais baixos do espectro são
mostrados na Fig. 8.3, onde valor de l está indicado sobre as linhas.

Figura 8.3 Valores de αn2 r l como função de nr .

Tabela 8.1 Valores de αnr l para alguns pares (nr , l).

l \ nr 1 2 3 4
0 π 2π 2π 4π
1 4,493 7,725 10,904 14,066
2 5,764 9,095 12,323
3 6,988 10,417 13,698

Note que o estado fundamental desse sistema possui l = 0, e consequentemente ele não é degenerado.
Esse é um fato geral em mecânica quântica.
8.10. P OTENCIAL DE C OULOMB – ÁTOMO DE H IDROGÊNIO 209

8.10 Potencial de Coulomb – Átomo de Hidrogênio


Para o tratamento mais geral dessa questão, devemos considerar uma partícula de massa M (o próton)
localizada em uma posição ⃗r1 e uma outra partícula de massa m (o elétron) localizada na posição ⃗r2 .
Supondo que a única interação entre as duas partículas seja a coulombiana, o potencial de interação entre
elas será
Ze2
V (r) = −
r
onde −e é a carga eletrônica, Ze a carga nuclear (para o átomo de hidrogênio Z = 1) 13 e r = |⃗r2 −⃗r1 |. É
importante introduzir o conceito de massa reduzida, definido por
1 1 1
= + ,
µ M m
que representa a massa reduzida do sistema próton-elétron. A hamiltoniana que descreve o movimento
desse sistema é dada por
2 2
⃗ = ⃗p − Ze .
H (8.164)
2µ r
O problema de autovalores dessa hamiltoniana é
( )
~2 ∂ 2 ⃗L2 Ze2
− r+ − ψ = E ψ. (8.165)
2µr ∂r2 2µr r

Os estados ligados desse sistema são aqueles associados à autovalores negativos da hamiltoniana, i.e.,
E < 0. Utilizando o fato de ψ = REl (r)Ylm (θ, φ) e REl (r) = uElr(r) , obtemos para equação radial desse
problema ( )
d2 l(l + 1) 2µZe2
− 2+ − 2
+ κ uEl = 0 (8.166)
dr r2 ~2 r
onde E = ~2µκ . Nosso primeiro passo para resolver essa equação será escrevê-la em termos de variáveis
2 2

adimensionais. Para tanto definimos


ρ = 2κr
o raio de Bohr
~2
a0 = = 0, 529 × 10−10 m
µe2
e
Z
. ξ=
κa0
Assim, em termos dessas quantidades podemos escrever (8.166) na forma
( )
d2 u l(l + 1) ξ 1
− u + − u = 0. (8.167)
dρ2 ρ2 ρ 4
Visando simplificar essa equação, vamos verificar o comportamento assintótico da solução nos limites
ρ → 0 e ρ → ∞. No limite ρ → 0, podemos desprezar os dois últimos termos da Eq. (8.167), resultando
em
d2 u l(l + 1) ∼
− u=0 (8.168)
dρ2 ρ2
onde podemos ver que para pequenos valores de ρ′ s, o comportamento das soluções é o mesmo encontrado
quando estudamos o problema das partículas livres, i.e.,

ρ−l ou ρl+1 . (8.169)


13
Átomos de um elétron (átomos ionizados) com Z ̸= 1 são chamados de hidrogenóides, i.e. um núcleo de número atômico Z
que possui apenas um elétron ligado. Exemplos de átomos hidrogenóides são H, He+ , Li++ , Be+++ , etc.
210 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

Por outro lado, no limite ρ → ∞ a Eq. (8.167) reduz-se a


d2 u 1 ∼
− u=0 (8.170)
dρ2 4
cuja soluções são ρ ρ
e− 2 e e2 . (8.171)
Verificando as condições de contorno sobre u, i.e., em u(0) = 0 e u(∞) = 0, em conjunto com esses
comportamentos assintóticos, sugerem que façamos a seguinte transformação
ρ
u = ρl+1 e− 2 χ(ρ) . (8.172)
Substituindo em (8.167), temos
d2 χ dχ
ρ + (2l + 2 − ρ) − (l + 1 − ξ)χ = 0 . (8.173)
dρ2 dρ
Para encontrar a solução dessa equação diferencial iremos usar o método de Frobenius e expressando χ(ρ)
em termos da série 14
∑∞
χ(ρ) = ak ρk . (8.174)
k=0
Substituindo (8.174) em (8.173) temos a relação de recorrência
k+l+1−ξ
ak+1 = ak . (8.175)
(k + 1)(k + 2l + 2)
Devemos investigar o comportamento da série dada por (8.174) para grandes valores de ρ, o que signi-
fica tomar altos valores de k, para estarmos seguros de que as funções de onda encontradas possam ser
a
fisicamente aceitáveis. Suas propriedades assintóticas são determinadas pelo limite da razão k+1
ak quando
k → ∞. Assim para qualquer valor finito dos parâmetros ξ e l, temos que
ak+1 k 1
lim ≈ 2 = . (8.176)
k→∞ ak k k
Esse é o mesmo comportamento da série da função eρ . Logo,
χ∼
= eρ para ρ→∞ (8.177)
Todavia, esse comportamento não pode ser aceito senão u não irá satisfazer a condição de contorno para
ρ → ∞. Por conseguinte, a série deve terminar após um certo número de termos, o que significa que existe
um k máximo (= nr = 0, 1, · · · ) tal que ak = 0 se k > nr . Logo, a partir de (8.175) concluímos que
ξ = n ≡ nr + l + 1 (8.178)
onde o inteiro n é usualmente chamado de número quântico principal. A partir dessa última relação podemos
concluir que n = 1, 2, 3, · · · , e que l ≤ n − 1.

Polinômios de Laguerre É costume expressar as soluções da equação diferencial (8.173), no caso de ξ


ser um número inteiro n, em termos dos polinômios associados de Laguerre Lqp (ρ) que satisfazem à seguinte
equação diferencial 15
d2 Lqp (ρ) dLqp (ρ)
ρ + (q + 1 − ρ) + p Lqp (ρ) = 0 (8.179)
dρ2 dρ
onde p e q são inteiros não negativos. Os polinômios associados de Laguerre possuem as seguintes proprie-
dades: 16
14
O leitor mais atento, perceberá que a equação satisfeita por χ é a equação de Kummer cujas soluções podem ser expressas em
termos das funções hipergeométricas confluentes, que veremos mais adiante.
15
Edmond Nicolas Laguerre (1834–1886), matemático francês.
Usaremos aqui a normalização empregada no livro de E. Merzbacher, Quantum mechanics, (1988).
16
A convenção adotada neste texto difere da utilizada no livro de I. S. Gradshteyn and I. M. Ryzhik, Table of integrals, series, and
products, (1980). Lqp Neste texto = (p + q)! Lqp Grads .
8.10. P OTENCIAL DE C OULOMB – ÁTOMO DE H IDROGÊNIO 211

1. A função geratriz U (s, ρ) desses polinômios é dada por


ρs
∑ sp ∞
e− 1−s
U (s, ρ) = = Lq (ρ) , (8.180)
(1 − s)q+1 (p + q)! p
p=0

a qual nos permite calcular os valores de Lqp através de

(p + q)! ∂ p U
Lqp (ρ) = . (8.181)
p! ∂sp s=0

Segundo esta padronização Lpq−p (0) = q!


(q−p)!p! ;

2. Os polinômios de Laguerre podem ser obtidos utilizando a fórmula de Rodrigues:

dp ( −ρ p )
Lp (ρ) ≡ L0p (ρ) = eρ e ρ . (8.182)
dρp

Por exemplo, utilizando essa expressão temos que

L1 (ρ) = 1 − ρ
( )
ρ2
L2 (ρ) = 2! 1 − 2ρ + .
2

Por sua vez, os polinômios associados de Laguerre podem ser calculados a partir dos polinômios de
Laguerre através de
dq
Lqp (ρ) = (−1)q q [Lp+q (ρ)] . (8.183)

Alguns dos polinômios associados de Laguerre são

L00 = 1
L01 = 1 − ρ
L02 = 2 − 4ρ + ρ2
L10 = 1
L11 = 4 − 2ρ
L12 = 18 − 18ρ + 3ρ2
L20 = 2
L21 = 18 − 6ρ
L22 = 144 − 96ρ + 12ρ2
L30 = 6
L31 = 96 − 24ρ
L32 = 1200 − 600ρ + 60ρ2 ;

3. Temos também a seguinte relação de ortogonalidade


∫ ∞
[(p + q)!]3
dρ e−ρ ρq+1 Lqp (ρ)Lqp′ (ρ) = (2p + q + 1) δpp′ . (8.184)
0 p!
212 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

Autovalores e Autofunções Normalizadas Podemos agora explicitar a forma dos autoestados de H para
átomos hidrogenóides. Fazendo q = 2l + 1 e p = n + l, a função de onda completamente normalizada será
obtida através dos polinômios associados de Laguerre
∫ ∞ [ ]2 2n[(n + l)!]3
dρ e−ρ ρ2l+2 L2l+1 (ρ) = (8.185)
0
n−l−1 (n − l − 1)!
e ∫ ∞
dr |u(r)|2 = 1 (8.186)
0
resultando com isso, que os autoestados normalizados são dados por

3 (n − l − 1)! l − ρ 2l+1
ψnlm (r, θ, φ) = (2κ) 2 ρ e 2 Ln−l−1 (ρ)Ylm (θ, φ) (8.187)
2n[(n + l)!]3
Z 2Z
onde κ = na0 eρ= na0 . Os autovalores En associados a esses autoestados são dados por
µZ 2 e4 Z2
En = − = −13, 6 eV . (8.188)
2~2 n2 n2
A equação acima mostra que a energia do elétron nas proximidades do núcleo forma um espectro discreto,
confirmando a quantização da energia. Contudo, na solução da equação de Schrödinger para o átomo de hi-
drogênio, a quantização da energia aparece de maneira natural, sem a necessidade da introdução de nenhum
postulado, tal como fez Bohr na velha teoria quântica. O estado fundamental possui n = 1 e l = 0, com
uma energia de aproximadamente −13, 6 eV para o átomo de hidrogênio.
Mais explicitamente, as funções de onda radial para os estados de menor energia são
( )3
Z 2 − Zr
R10 (r) = 2 e a0
a0
( )3 ( )
Z 2 Zr − Zr
R20 (r) = 2 1− e 2a0
2a0 2a0
( )1 ( )3 ( )
1 2 Z 2 Zr − Zr
R21 (r) = e 2a0
3 2a0 a0
( )3 ( )
Z 2 2Zr 2Z 2 r2 − 3a
Zr
R30 (r) = 2 1− + e 0
3a0 3a0 27a20
√ ( )3 ( )( )
4 2 Z 2 Zr Zr − Zr
R31 (r) = 1− e 3a0
9 3a0 6a0 a0
( ) 3 ( )2
4 Z 2 Zr − Zr
R32 (r) = √ e 3a0 .
27 10 3a0 a0
A distribuição de probabilidade em r dos estados mais baixos estão apresentadas na Fig. 8.4, onde do
lado direito de cada figura encontra-se um esboço da distribuição espacial levando em conta a dependência
angular. O eixo z encontra-se na vertical. Como podemos ver a probabilidade de um elétron ser encontrado
mais afastado do núcleo aumenta com a energia do estado. Podemos ter uma melhor estimativa do tamanho
dos átomos hidrogenóides através dos seguintes valores esperados,
a0 ( 2 )
⟨r⟩ = 3n − l(l + 1) (8.189)
⟨ ⟩ 2Z
1 Z
= . (8.190)
r a 0 n2
Há um fato interessante que podemos constatar tanto na Fig. 8.4 bem como no valor esperado de r dado por
(8.189): para um valor fixo de n a tendência do elétron estar mais próximo do núcleo cresce com l! Este fato
é esperado devido (8.189) já que quanto maior o momentum angular do elétron mais afastado esse estará do
núcleo.
8.10. P OTENCIAL DE C OULOMB – ÁTOMO DE H IDROGÊNIO 213

Figura 8.4 Densidade de probabilidade da variável r.

Discussão dos Resultados Note que somente n aparece na expressão (8.188) para energia. Então para
todos os valores diferentes de l mas com mesmo valor de n, temos a mesma energia. Assim cada autovalor
é degenerado, não somente em relação ao número quântico magnético ou azimutal m (devido ao potencial
central) mas também em relação ao número quântico orbital l. Essa degenerescência extra exibida por esse
sistema, chamada de degenerescência acidental ou de Coulomb, é uma propriedade especifica do campo de
Coulomb. Para cada valor de l corresponde à 2l + 1 valores diferentes de m. Então, número de estados com
a mesma energia En é dado por


n−1
[1 + (2n − 1)]n
(2l + 1) = = n2 (8.191)
2
l=0

onde utilizamos que En independe de l e que l ≤ n − 1.


Mas ainda resta a pergunta: Qual a origem da degenerescência na mecânica quântica? Para responder-
mos a essa pergunta precisamos analisar um caso concreto e geral, que é a razão de Enl ser independente de
m para potenciais centrais. Neste caso, sabemos que H comuta com todas as componentes do momentum
angular, mas essas não comutam entre si. Logo, só podemos diagonalizar apenas uma das componentes, por
exemplo Lz , simultaneamente com H e ⃗L2 . Portanto, existem dois operadores (Lx e Ly ) que comutam com
H mas que não são diagonais na base escolhida. Esta é a origem da degenerescência! Para observarmos isso
consideremos um estado ψ tal que

Hψ = Eψ
Lz ψ = m~ψ .
214 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

Então, o estado ψ ′ = L+ ψ satisfaz

Hψ ′ = Eψ ′
Lz ψ ′ = (m + 1)~ψ ′

uma vez que L+ comuta com H e não comuta com Lz . A primeira dessas equações diz que ψ ′ é um
autoestado de H com o mesmo autovalor E que ψ. Por outro lado, a segunda equação implica que ψ ′ ̸= ψ
uma vez que esses são estados associados a diferentes autovalores de Lz ! Logo, os níveis de energia E são
degenerados! Ou seja, a degenerescência dos autovalores de H tem sua origem na existência de operadores
hermitianos que comutam com H mas não comutam entre si. Os autoestados degenerados com uma dada
função ψ podem ser obtidos atuando-se sobre essas funções ψ com uma combinação dos operadores não
diagonalizados simultaneamente com o operador H.
Na vida real o átomo de hidrogênio é bem mais complexo, devido ao núcleo atômico não ser pontual
e devido a existência de correções relativística para a hamiltoniana H. Contudo essas modificações são
pequenas e os resultados aqui obtidos oferecem uma boa descrição desse sistema.
Experimentalmente, em anos recentes, tivemos medidas realizadas com espetacular precisão no espectro
de hidrogênio. Por exemplo, a frequência de transição 1s − 2s foi obtida como sendo

f1s−2s = 2466061102474851(25) Hz

onde o número em parênteses indica a incerteza nos últimos dois dígitos. 17 Esse resultado significa uma
acurácia na ordem de uma parte em 1014 .

Equação de Kummer e Solução A equação hipergeométrica confluente, ou equação de Kummer 18 é


dada por
d2 u du
2
+ (c − x)
x − au = 0 (8.192)
dx dx
onde a e c são constantes. A solução geral dessa equação é

u = C1 1 F1 (a, c; x) + C2 x1−c 1 F1 (a − c + 1, 2 − c; x) (8.193)

onde C1 e C2 são constantes e 1 F1 (a, c; x) é a função hipergeométrica confluente, a qual é dada por

Γ(c) ∑ Γ(a + n) xn
1 F1 (a, c; x) = , (8.194)
Γ(a) Γ(c + n) n!
n=0

onde Γ(n) é a função Gamma. Essa série converge uniformemente em todo plano complexo x, porém ela
não está definida para c = −n com n = 0, 1, 2, · · ·
O comportamento assintótico de 1 F1 (a, c; x) para |x| → ∞ é conhecido e dado por
Γ(c) Γ(c) x c−a
1 F1 (a, c; x) → e− i πa x−a + e x . (8.195)
Γ(c − a) Γ(a)
Note que essa expressão não é válida para a = −n com n = 0, 1, 2, · · · , porém nesse caso a função hiper-
geométrica confluente 1 F1 tem um comportamento polinomial. De fato, nesse caso 1 F1 pode ser reduzida a
polinômios associados de Laguerre
m!n!
1 F1 (−n, m + 1; x) = Lm (x) (8.196)
[(m + n)!]2 n
bem com a polinômios de Hermite
(2n)!
H2n (x) = (−1)n 1 2
1 F1 (−n, 2 ; x ) (8.197)
n!
17
M. Fischer et al., Physical Review Letters, 92, 230802 (2004).
18
Ernest Eduard Kummer (1810–1893), matemático alemão.
8.10. P OTENCIAL DE C OULOMB – ÁTOMO DE H IDROGÊNIO 215

e
(2n + 1)!
H2n+1 (x) = (−1)n 2x 1 F1 (−n, 32 ; x2 ) . (8.198)
n!
Para usarmos no átomo de hidrogênio, estudemos a Eq. (8.173) para a função de onda radial utilizando
as funções hipergeométricas confluentes. Tendo em vista que esta é a equação de Kummer, sua solução
geral será dada por

χ = C1 1 F1 (l + 1 − ξ, 2l + 2; ρ) + C2 ρ−(2l+1) 1 F1 (−l − ξ, −2l; ρ) (8.199)

onde C1 e C2 são constantes. Tendo em vista a condição de contorno u(0) = 0 e (8.172), segue que C2 = 0.
Note que 1 F1 (a, c; 0) = 1.
Nesse ponto resta-nos impor a segunda condição de contorno, u → 0 quando ρ → ∞. Contudo,
podemos ver a partir de (8.195) que isto não ocorre para uma escolha arbitrária dos argumentos de 1 F1 já
ρ
que, a menos nos casos especiais, u apresenta um fator e+ 2 . Logo, devemos fixar o parâmetro ξ de modo
a evitar este crescimento de u. Como vimos acima, basta escolher l + 1 − ξ = −nr com nr = 0, 1, 2, · · · .
Com isso recuperamos o resultado anterior ξ = n ≡ nr + l + 1 para os autovalores da energia.
Finalmente, os autoestados podem ser escritos como

(n − l − 1)!
(2κr)l e−κr L2l+1
3
m
ψnlm (r, θ, φ) = (2κ) 2 n−l−1 (2κr)Yl (θ, φ)
2n[(n + l)!]3
ou

3 (n + l)! (2κr)l e−κr m
ψnlm (r, θ, φ) = (2κ) 2
1 F1 (−n + l + 1, 2l + 1; 2κr)Yl (θ, φ)
2n(n − l − 1)! (2l + 1)!

onde usamos a relação (8.196) entre os polinômios de Laguerre e as funções hipergeométricas confluentes.

Problemas
8.1 Obter uma expressão analítica aproximada para os níveis de energia em uma barreira de potencial
quadrada (l = 0) quando V0 a2 é ligeiramente maior que π8µ~ .
2 2

8.2 Mostrar que para uma barreira de potencial quadrada o valor limite de V0 a2 que só se ligam a níveis
novos de energia com um valor de l maior que zero são dadas por ~2µz , onde os números z são as
2 2

soluções não nulas da equação jl−1 (z) = 0.


Observação: Pode ser mostrado que estados ligados aparecem com zero de energia por um valor
dr r=a = − a ; para l > 0 isso é equivalente a condição jl−1 (ξ) = 0 onde
especial de l quando R1 dR l+1
( 2
) 1

ξ = 2µV~20 a
2
.

8.3 Encontrar expressões para as autofunções e os níveis de energia de uma partícula em uma caixa bidi-
mensional circular que tem paredes perfeitamente rígidas.
8.4 Um elétron está confinado dentro de uma esfera de raio R. Qual a pressão P exercida sobre a superfície
da esfera se o elétron está no estado S mais baixo?
8.5 A equação de Schrödinger para um rotor rígido (desconsidere a vibração) que está obrigado a girar
~2 ∂ 2 ψ
sobre um eixo fixo e que tem um momento de inércia I sobre o eixo é i ~ ∂ψ
∂t = − 2I ∂ϕ2 , onde ψ (ϕ, t)
é uma função do tempo t e do ângulo de rotação ϕ ao redor do eixo.
a) Quais as condições de contorno que serão aplicadas para a solução dessa equação?
b) Encontre as autofunções normalizadas e os autovalores de energia.
c) Há alguma degenerescência?
8.6 Encontre a energia de um rotor rígido tridimensional. Encontre as autofunções usando coordenadas
esféricas.
216 C AP. 8 P OTENCIAIS C ENTRAIS E Momentum A NGULAR

8.7 Encontre os níveis de energia de um oscilador harmônico isotrópico tridimensional, V (r) = 12 Kr2 ,
resolvendo a equação de onda em coordenadas esféricas e coordenadas cilíndricas. Qual é a degeneres-
cência de cada nível?
8.8 Discuta o oscilador harmônico isotrópico bidimensional. Assuma que as autofunções são da forma
µω 2
ψ = ρm e− 2~ ρ f (ρ) e± i mϕ ,
onde ρ e ϕ são as coordenadas polar. Mostre que f (ρ) pode ser expresso como um polinômio associado
µωρ2
de Laguerre da variável ~ e determine os autovalores.
8.9 A função de onda de uma partícula de massa √ µ movendo-se em uma barreira de potencial é, em um
determinado momento ψ = (x + y + z) e −α x2 +y 2 +z 2 . Calcule a probabilidade de obter uma medida

de ⃗L2 e Lz com resultados 2~2 e 0 respectivamente.


8.10 Encontre os níveis de energia de uma partícula livre confinada em uma caixa esférica com paredes
perfeitamente refletoras em termos das raízes das funções apropriadas.
8.11 Considere uma partícula de massa µ e carga q dentro de um cilindro impenetrável com raio R e altura
a. Ao longo do eixo do cilindro opera um fino solenóide impenetrável carregando o fluxo magnético Φ.
Calcule a energia do estado fundamental e função de onda.
8.12 Dado P+ ≡ Px + i Py , mostre que [P+ , (x + i y)] = 0 .
8.13 Considere uma partícula com spin 1 (matriz 3 × 3). Calcular os elementos da matriz Lx , Ly , Lz e
desenvolver a relação, mostrando que Lx (Lx + ~)(Lx − ~) = 0 e Lz (Lz + ~)(Lz − ~) = 0 .
8.14 Uma partícula em um potencial esfericamente simétrico, tem autoestados L2 e Lz com autovalores de
l(l + 1)~2 e m~, respectivamente. Mostre que ⟨Lx ⟩ = ⟨Ly ⟩ = 0 e ⟨L2x ⟩ = ⟨L2y ⟩ = l(l+1)~2−m ~ .
2 2 2

8.15 Considere que um sistema se encontra em um estado Ylm = |lm⟩, expresso por
|lm⟩ = a|11⟩ + b|10⟩ + c|1 − 1⟩ , em que |a|2 + |b|2 + |c|2 = 1 .
Determine:
a) O valor esperado de Lx .
b) O valor esperado de ⃗L2 .
8.16 Calcule a probabilidade de se encontrar um elétron 1s no intervalo entre a0 e 2a0 do núcleo do átomo
de hidrogênio.
[ ] [ 2
]
l(l+1)
8.17 Fazendo R(r) = F r(r) , mostre que a equação r12 dr
d
r2 dRdr(r) + 2µZe
~ r
2 + 2µE
~2 − 2 R(r) = 0
[ 2 ] r
d2 F (r) l(l+1)
pode ser colocada na forma dr2 + 2µe ~2 r
+ 2µE
~2
− r2 F (r) = 0 . Essa equação diferencial pode
2
ser reescrita da seguinte forma: d dr
F (r)
2 − Vef (r)F (r) = 2µE
~2
F (r) , em que o potencial efetivo Vef (r)
envolve a interação coulombiana próton-elétron (atrativa) e o potencial centrífugo (repulsivo) devido a
existência do momento angular orbital l.
a) Faça um gráfico da parte repulsiva desse potencial para l = 0, 1 e 2.
b) Faça um gráfico desse potencial para os mesmos valores de l, mostrando a sua parte atrativa e
repulsiva.
2 F (r)
( 2 )
8.18 No problema anterior, para l = 0, temos que d dr 2 + 2µe
~ r
2 + 2µE
~2 F (r) = 0 , nas proximidades
2 2
do núcleo, r → 0, podemos escrever d dr F (r)
2 + 2µe
~2 r
F (r) ≈ 0 , cuja solução é da forma (Verifique
isso) F (r) = Ar − 12 Ar2 . Diante do resultado encontrado, o que pode ser afirmado com respeito
à probabilidade de encontrar o elétron nas proximidades do núcleo? Por outro lado, quando l ̸= 0,
2 F (r)
para r → 0 temos a seguinte equação diferencial: d dr 2 − l(l+1)
r2
F (r) ≃ 0 , cuja solução é da forma
(Verifique isso) F (r) ≃ Ar l+1 −1
+ Br . Com esse resultado, mostre que a probabilidade de encontrar
o elétron na região do núcleo é zero.
8.10. P OTENCIAL DE C OULOMB – ÁTOMO DE H IDROGÊNIO 217

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomendo uma leitura dos livros:

– E. Merzbacher [61];
– W. Wolney Filho [89].

Um estudo aprofundado do momentum angular poderá ser realizado com os livros:

– C. Cohen-Tannoudji, B. Diu and F. Laloë [21];


– J. J. Sakurai [74];
– A. Messiah [62].

Recomenda-se fortemente um estudo das funções especiais usadas em física. Uma excelente discussão sobre
as funções especiais poderá ser encontrada no livro do Prof. Merzbacher acima mencionado e nos livros:

– G. Arfken [3];
– P. M. Morse and H. Feshbach [65].
218
Capítulo 9
Espalhamento

A maioria dos conhecimentos já adquiridos sobre os constituintes e a estrutura da matéria, tem sido obtida,
principalmente, por meio da espectroscopia física e da colisão de partículas, i.e., espalhamento. A teoria
de colisões analisa as interações entre partículas atômicas e subatômicas como ponta de prova.
O primeiro experimento sobre colisões de partículas foi idealizado e realizado por Rutherford e seus
colaboradores em 1911, 1 quando utilizaram dados sobre o espalhamento de partículas α por finas folhas
metálicas deduziu a existência de núcleos atômicos. Em 1937, estudos sobre colisões de partículas cósmicas
com a matéria possibilitaram o descobrimento dos muons, 2 µ, positivos e negativos, essas partículas são
aproximadamente 207 vezes mais massivas que o elétron, esses trabalhos foram realizados por dois grupos
separados, Anderson 3 e Neddermeyer 4 , e Street 5 e Stevenson 6 . Em 1947, foram descobertos os mésons π,
também conhecidos como píons, 7 com cargas positivas e negativas, podendo ainda existir na forma neutra,
essas partículas têm massa aproximadamente 273 vezes a massa do elétron e foram as primeiras partículas de
uma enorme família de partículas subatômicas descobertas nos anos subsequentes à descoberta dos muons,
esses trabalhos foram realizados por Lattes 8 , Occhialini 9 e Powell 10 .
Nos dias de hoje, os modernos aceleradores de partículas permitem a realização de estudos sistemáticos
sobre processos de colisões a altíssimas energias. Esses estudos constituem a principal fonte de informações
sobre as interações nucleares fortes, fracas e eletromagnéticas. As evidências experimentais envolvendo
processos de colisão levaram os físicos a formular, em última instância, que a matéria é constituída de
quarks e leptons. 11 Neste capítulo iremos abordar alguns aspectos da teoria de colisões não relativísticas,
sem levar em consideração a estrutura das partículas incidentes sobre os alvos.

9.1 Amplitude de Espalhamento


Vamos considerar uma hamiltoniana cujo potencial seja esfericamente simétrico e satisfaça 12
lim V (r) = 0 . (9.1)
r→∞
1
E. Rutherford, Philosophical Magazine, 21, 669–688 (1911); Idem, Nature, 92, n. 2302, 423 (1913); Idem, Philosophical Maga-
zine, 27, n. 158, 488–498 (1913); H. Geiger and E. Marsden, Philosophical Magazine, 25, n. 148, 604–623 (1913).
2
S. H. Neddermeyer and C. D. Anderson, Physical Review, 51, 884-886 (1937); J. C. Street and E. C. Stevenson, Physical Review,
52, 1003-1004 (1937).
3
Carl David Anderson (1905–1991), físico americano.
4
Seth Henry Neddermeyer (1907–1988), físico americano.
5
Jabez Curry Street (1906–1989), físico americano.
6
Edward Carl Stevenson (1907– ), físico americano.
7
C. M. G. Lattes, G. Occhialini and C. F. Powell, Nature, 159, 694 (1947); C. M. G. Lattes et al., Nature, 160, 453, 486 (1947).
8
Cesare Mansueto Giulio Lattes (Cesar Lattes) (1924–2005), físico brasileiro.
9
Giuseppe "Beppo" Pablo Stanislao Occhialini (1905–1993), físico italiano.
10
Cecil Frank Powell (1903–1969), físico inglês.
11
F. Halzen and A. D. Martin, Quarks and Leptons, (1984); H. Georgi, Weak interactions and modern particle theory, (2009).
12
Como discutido no capítulo anterior, podemos separar um problema de dois corpos no movimento do centro de massa e no
movimento relativo das partículas. Iremos estudar o último em detalhe, sendo a conexão entre o espalhamento no centro de
massa e o mais geral, a mesma que conhecemos da mecânica clássica.

219
220 C AP. 9 E SPALHAMENTO

O espectro desta hamiltoniana possui duas partes distintas:


1. Espectro discreto (E < 0), que é caracterizado pelos valores discretos dos autovalores E e também por
seus autoestados serem normalizáveis ∫
d3 x|ψ|2 < ∞ .

Esses estados representam partículas ligadas ao potencial V , e foram analisados no capítulo anterior;

2. Espectro contínuo (E ≥ 0), cujos autovalores E formam um conjunto não enumerável e as correspon-
dentes autofunções são não localizadas, i.e., não são normalizáveis. Esses estados descrevem o espalha-
mento de partículas pelo potencial V .
As condições de contorno empregadas nesses dois casos são muito distintas tendo em vista que:
1. Para o espectro discreto requeremos que a função de onda ψ seja de quadrado integrável

d3 x|ψ|2 < ∞ ,

e consequentemente esta deve ir a zero suficientemente rápido no limite r → ∞. Devemos lembrar que
na resolução de problemas unidimensionais empregamos o mesmo critério (quando normalizamos) para
inferir qual a condição de contorno que deveríamos usar;

2. Para o espectro contínuo, a exemplo do que foi feito nos problemas unidimensionais, a condição de
contorno depende do problema físico que desejamos analisar. A nossa escolha será que ψ deve repre-
sentar o espalhamento de uma partícula de momentum linear bem definido pelo potencial V e portanto,
deve conter uma onda livre incidente bem como uma onda emergente a grandes distâncias do potencial
espalhador.
No estudo do espectro contínuo iremos impor que os autoestados da hamiltoniana do sistema satisfazem
a relação
⃗ ei kr
ψ → ei k ·⃗r + f (θ, φ) (9.2)
r
no limite r → ∞. O primeiro termo dessa expressão representa uma partícula livre incidente de momentum
linear bem definido a qual é espalhada pelo potencial V , resultando a onda emergente descrita pelo segundo
termo da Eq. (9.2). A amplitude de espalhamento f (θ, φ) é obtida a partir da autofunção da hamiltoniana que
satisfaz o comportamento dado em (9.2). Note que para a expressão (9.2) poder ocorrer o potencial V deve

ser de curto alcance, uma vez que tanto ei k ·⃗r como e r representam partículas livres no limite r → ∞.
i kr

Na realidade, essa condição de contorno só poderá ser utilizada para potenciais que se anulem no infinito
mais rapidamente que 1r . Por exemplo, no espalhamento por um potencial coulombiano há o aparecimento
de uma fase adicional proporcional a ln(2kr). A dependência que a amplitude de espalhamento f (θ, φ) tem
com os ângulos θ e φ deve-se à dependência que o fluxo espalhado tem da direção do feixe espalhado.

9.2 Seção de Choque Diferencial


Neste parágrafo vamos definir a seção de choque diferencial, a qual descreve a distribuição angular das
partículas espalhadas por um centro de forças, bem como mostrar a sua relação com a forma assintótica da
Eq. (9.2) dos autoestados da hamiltoniana. Para tanto vamos considerar que o fluxo de partículas incidentes
é paralelo ao eixo z e que o centro espalhador encontra-se em r = 0, veja Fig. 9.1.
Em geral, o número de partículas espalhadas por unidade de tempo (Nesp ) que atravessam um pequeno
ângulo sólido ∆Ω, deve ser proporcional a ∆Ω e ao fluxo incidente F . Logo, podemos escrever 13

Nesp = ∆Ω F (9.3)
dΩ
13
Note que essa expressão é válida tanto na mecânica clássica como na mecânica quântica!
9.2. S EÇÃO DE C HOQUE D IFERENCIAL 221

Figura 9.1 Geometria considerada num espalhamento.


onde a constante de proporcionalidade dΩ é a seção de choque diferencial desse processo, a qual possui
dimensão de área. A seção de choque total será então definida por


σ= dΩ . (9.4)
dΩ


Para que dΩ independa das condições experimentais é necessário assumir que a densidade do feixe
incidente seja suficientemente baixa para podermos desprezar as interações entre as partículas incidentes e
também para que essas não interajam simultaneamente com o centro espalhador. Se isso não for satisfeito,
deveremos resolver um problema de muitos corpos interagindo entre si e com o potencial espalhador V .
Da definição acima temos que
dσ Nesp
= . (9.5)
dΩ F ∆Ω
Para obtermos F e Nesp é conveniente escrever a condição de contorno (9.2) na forma

ψ → ψinc + ψesp (9.6)

onde
ei kr
ψinc = ei kz e ψesp = f (θ, φ) (9.7)
r
e identificamos ψinc como a onda incidente e ψesp descreve a onda espalhada. Agora basta utilizar a densi-
dade de corrente de probabilidade
( )
⃗J = i ~ ψ ∇ψ
⃗ ∗ − ψ ∗ ∇ψ
⃗ , (9.8)

para calcular Nesp e F . Devido ao significado físico de ⃗J, essas quantidades podem ser escritas como 14

F = |⃗Jinc | (9.9)

e
Nesp = ⃗Jesp · r̂ r2 ∆Ω (9.10)
14
Aqui estamos desprezando a interferência entre a onda incidente e a onda espalhada.
222 C AP. 9 E SPALHAMENTO

onde ⃗Jinc e ⃗Jesp são as densidades de corrente de probabilidade incidente e espalhada obtida substituindo-se
ψ em (9.8) por ψinc e ψesp , respectivamente. Logo, temos que a corrente incidente é dada por
( )
⃗Jinc = i ~ ei kz ∇e
⃗ − i kz − e− i kz ∇e
⃗ i kz

~k
= ẑ (9.11)
µ
ao passo que a corrente de probabilidade espalhada é
( − i kz
)
⃗Jesp = i ~ f (θ, φ) e ∇f
i kz
⃗ ∗ (θ, φ) e ∗ e− i kz ⃗ ei kz
− f (θ, φ) ∇f (θ, φ)
2µ r r r r
~k |f (θ, φ)|2
= r̂ (9.12)
µ r2
onde conservamos apenas os termos mais importantes no limite r → ∞. Portanto, temos
~k
F = (9.13)
µ
e
~k
Nesp = |f (θ, φ)|2 ∆Ω . (9.14)
µ
Isto permite-nos obter a seção de choque diferencial desse processo, que será dada por

= |f (θ, φ)|2 . (9.15)
dΩ
Resumindo, o programa que devemos seguir para obter a seção de choque diferencial de um dado pro-
cesso será resolver a equação de Schrödinger independente do tempo sujeita à condição de contorno de

espalhamento (9.2). Após realizarmos isso extraímos f (θ, φ) da solução obtida, e assim obtemos dΩ .A
seguir faremos esses passos formalmente, visando encontrar uma expressão para f (θ, φ), a qual dependerá
do comportamento dos autoestados da hamiltoniana no limite r → ∞.

9.3 Método de Ondas Parciais


O chamado método de ondas parciais, se aplica para o caso de potenciais com simetria esférica. Esse método
é baseado numa expansão da função ψ (⃗r) em termos de autofunções do momentum angular. Essa expansão
deve ser feita de tal forma que na condição assintótica ela seja consistente com (9.2), i.e.,

ei kr
ψ (⃗r)r→∞ → ei kz + f (θ, φ) .
r
Com essa consideração, torna-se possível obter uma expressão para amplitude de espalhamento: uma série
com um número infinito de termos, em que cada termo contribui para f (θ, φ) através de uma onda parcial,
caracterizada por um momentum angular particular. Para partículas incidentes de baixa energia, os primeiros
termos da série aproximam-se da função de amplitude de espalhamento f (θ, φ). A vantagem deste método
é que ele é capaz de fornecer uma boa aproximação para as partículas incidentes com baixa energia.
Quando o potencial V (r) responsável pelo espalhamento é esfericamente simétrico, o momentum angu-
lar é uma quantidade conservada visto que comuta com a hamiltoniana. Portanto, autoestados correspon-
dendo a diferentes valores do momentum angular são espalhados independentemente, sendo conveniente
trabalhar-se na base em que o momentum angular é diagonal. No que segue, escrevemos os autoestados da
hamiltoniana na forma ulr(r) Ylm , o que permite reduzir o problema de autovalores de H à seguinte equação
radial [ ]
~2 d2 ul l(l + 1)~2
− + + V (r) ul = E u l (9.16)
2µ dr2 2µr2
9.3. M ÉTODO DE O NDAS PARCIAIS 223

onde E é o autovalor associado a este autoestado. No limite r → ∞ essa equação toma a forma

~2 d2 ul ∼
− = E ul (9.17)
2µ dr2

onde assumimos que V (r) tende a zero suficientemente rápido nesse limite. A solução geral dessa equação
é ( )
∼ lπ
ul (r) = Al sen kr − + δl (9.18)
2

onde E = ~2µk , e Al e δl são constantes. Uma vez que Al é uma constante multiplicativa, já que esse é
2 2

um problema de autovalores, podemos determinar o parâmetro real δl (denominado deslocamento de fase)


impondo apenas uma condição de contorno, a qual deve ser ul (0) = 0. Lembre-se que essa condição de
contorno foi motivada no capítulo anterior e que a sua justificativa não envolvia que a função de onda fosse
normalizável.
Um fato importante acerca de (9.18) é que esse comportamento acarreta que o autoestado da hamilto-
niana ψ = url Ylm não satisfaz a condição de contorno de espalhamento dada em (9.2)! Isso ocorre porque a
função seno em (9.18) contém uma onda espalhada, ei kr , bem como uma onda incidente, e− i kr . Logo, essa
solução descreve uma onda incidente de momentum angular bem definido que é espalhada pelo potencial
V . Nesse caso a onda espalhada possui o mesmo momentum angular da onda incidente, uma vez que o
momentum angular é conservado.
Tendo em vista que os autoestados com energia E são degenerados, é natural fazer uma superposição
linear desses autoestados, visando que essa obedeça a condição de contorno desse problema (9.2).15 Logo,
escrevemos
∑∞ ∑ l
ul (r)
ψ= Clm Ylm (θ, φ) (9.19)
kr
l=0 m=−l

onde desejamos obter os coeficientes Clm de modo que (9.2) seja satisfeita. Uma vez que o potencial é
central e que ψinc = ei kz , temos que ψ não depende de φ, por causa da simetria de rotação em torno do
eixo z que esse processo tem. Logo, Clm = 0 para m ̸= 0, o que nos conduz a

∑ ul (r)
ψ= Bl (2l + 1) il Pl (cos θ) (9.20)
kr
l=0

onde Pl (cos θ) são os polinômios de Legendre, e os coeficientes da expansão foram escritos de maneira
conveniente, também usamos que √
2l + 1
Yl0 = Pl (cos θ) .

Lembrando que, 16


ei kz = ei kr cos θ = (2l + 1) il jl (kr) Pl (cos θ) (9.21)
l=0

onde jl (kr) são as funções de Bessel esféricas e z = r cos θ. Assim, no limite r → ∞, temos que

1 ei kr ∑ ( )
ψ (r) − e i kz
→ (2l + 1) Bl ei δl − 1 Pl (cos θ)
2ik r
l=0
1

e i kr ∑
− ( )
+ (2l + 1) −Bl e− i δl + 1 Pl (cos θ) . (9.22)
2ik r
l=0

15
Lembre-se que a superposição de autovetores com o mesmo autovalor também é um autovetor.
16
Essa relação possui uma interpretação simples: uma partícula livre em um autoestado da energia e momentum linear (lado
esquerdo) está sendo expresso em termos de autoestados da energia e momentum angular (lado direito).
224 C AP. 9 E SPALHAMENTO

Para satisfazer a relação (9.2) devemos impor que o coeficiente de e− i kr seja nulo, acarretando que

Bl = ei δl . (9.23)

Examinando a Eq. (9.22) obtemos a amplitude de espalhamento f (θ):

1 ∑
∞ ( )
f (θ) = (2l + 1) e2 i δl − 1 Pl (cos θ) (9.24)
2ik
l=0

ou

1∑
f (θ) = (2l + 1) ei δl sen δl Pl (cos θ) . (9.25)
k
l=0
Portanto, a seção de choque total, que é dada por
∫ ∫

σ ≡ dΩ = dΩ|f (θ)|2 ,
dΩ
onde dΩ = sen θ dθ dφ, pode ser escrita formalmente como
∫ 2π ∫ π
σ= dφ |f (θ)|2 sen θ dθ
0 0
∞ ∫
1 ∑ 0
= 2π 2 (2l + 1)2 sen2 δl Pl2 (cos θ) d(cos θ) (9.26)
k π
l=0

o que resultará

4π ∑
σ= (2l + 1) sen2 δl (9.27)
k2
l=0
onde utilizamos ∫ 0
2
Pl2 (cos θ) d(cos θ) = . (9.28)
π 2l + 1
Antes de passar a resolução de alguns exemplos, é importante ressaltar os seguintes pontos:

1. Quando V (r) ≡ 0, a solução da equação radial que satisfaz a condição u(0) = 0 é dada por

ul (r) = r jl (kr) (9.29)

cujo comportamento assintótico para r → ∞ é


( )

ul (r) → Cl sen kr − . (9.30)
2

Portanto, temos que δl = 0. Logo, usando (9.27) obtemos a seção de choque total σ = 0, como era de se
esperar já que uma partícula livre não deve sofrer espalhamento;

2. Note que a seção de choque total do processo é dada pela soma incoerente das contribuições das ondas
parciais l;

3. A expressão formal para seção de choque diferencial dΩ é uma série sobre todas as ondas parciais l a
qual, em geral, não pode ser escrita como uma expressão compacta. Somos então levados naturalmente
a perguntar, quais as ondas parciais que mais contribuem para a seção de choque diferencial? Para res-
ponder esta questão, iremos considerar um potencial com alcance a, i.e., V (r) ∼
= 0 para r > a. Assim,
argumentamos que apenas as ondas parciais satisfazendo l ≤ ka contribuem significativamente para dΩdσ
.
Esperamos que as partículas incidindo com um parâmetro de impacto b maior que a não vão interagir
com o potencial, desde que V (r > a) = 0, veja Fig. 9.2. Logo, o momentum angular máximo que uma
9.3. M ÉTODO DE O NDAS PARCIAIS 225

Figura 9.2 Espalhamento por um potencial de curto alcance.

partícula pode ter para ser espalhada é ~k × a. Consequentemente, apenas as ondas satisfazendo l ≤ ka
deverão ser espalhadas.
No contexto da mecânica quântica, o argumento para obtermos essa conclusão é o seguinte: a função de
onda do sistema para r pequeno tem a forma Rl ≃ jl (kr), levando então que o primeiro máximo dessa
função será para kr ≃ l. Logo, se l > ka a função de onda será pequena na região onde o potencial
espalhador é maior, acarretando que essas ondas parciais não irão sentir o efeito do potencial V (r). Por
conseguinte, as ondas mais espalhadas são aquelas que satisfazem l ≤ ka.
Uma consequência interessante deste argumento é que no limite de baixas energias (ka ≪ 1) apenas a
onda S (l = 0) contribui para a seção de choque total σ. 17 Neste caso a seção de choque diferencial é
isotrópica já que P0 (cos θ) = 1. Além disso, a seção de choque total será dada por 4π
k2
sen2 δ0 ;

4. Para potenciais puramente atrativos, V (r) ≤ 0, temos que δl > 0. Isso ocorre pois a função de onda
oscila mais rapidamente na região em que o potencial é não nulo, levando a um avanço na fase com
respeito ao caso livre, V (r) = 0. Analogamente, potenciais puramente repulsivos, V (r) ≥ 0, conduzem
a um δl < 0. Isso também poderá ser visto a partir da seguinte relação entre o deslocamento de fase, o
potencial e o autoestado da energia ul :

2µ ∞
sen δl = − 2 dr r jl (kr) ul (r) V (r) (9.31)
~ 0

onde a normalização usada é tal que


( )

ul (r) → sen kr − + δl
2

quando r → ∞.
Essa relação em si não é muito útil pois para obtermos δl precisamos conhecer ul , sendo portanto um
método complicado de calcular o deslocamento de fase! Contudo, essa relação irá permitir fazermos
aproximações razoáveis. Supondo que o potencial seja fraco, podemos aproximar o autoestado pela
função de onda livre, i.e., ul (r) ≃ kr jl (kr) que nos leva a

2µk ∞
sen δl ≃ − 2 dr r2 jl2 (kr) V (r) . (9.32)
~ 0

Com isso podemos ver que o sinal de δl é oposto ao do potencial.

Espalhamento por um Poço de Potencial Retangular Consideremos um sistema cujo potencial de in-
teração é dado por {
−V0 para 0 < r < a
V (r) = V0 > 0 real . (9.33)
0 para r > a
17
Observação direta de colisão de ondas S foi realizada por K. Gibble et al., Physical Review Letters, 75, 2666 (1995).
226 C AP. 9 E SPALHAMENTO

A equação radial ( )
~2 d2 l(l + 1)~2
− (rRl ) + + V (r) Rl = E Rl (9.34)
2µr dr2 2µr2
para r < a, a equação será
1 d2 l(l + 1)
(rRl ) + k ′ Rl −
2
2
Rl = 0 (9.35)
r dr r2
e para r > a, será
1 d2 l(l + 1)
2
(rRl ) + k 2 Rl − Rl = 0 (9.36)
r dr r2
onde definimos k ′ 2 = 2µ
~2
(E + V0 ). Lembre-se que os estados que descrevem o espalhamento possuem
~2 k 2
E = 2µ > 0. Visto que as equações acima são as mesmas de uma partícula livre, temos que a solução
geral para Rl será {
Al jl (k′ r) + Bl nl (k′ r) para r < a
Rl (r) = (9.37)
Cl jl (kr) + Dl nl (kr) para r > a
onde temos as funções esféricas de Bessel, jl , e as funções esféricas de Neumann, nl .
Para obter os deslocamentos de fase δl , iniciaremos impondo a condição de contorno ul (0) = 0, essa
condição implica que Bl = 0. Utilizando a forma assintótica das funções de Bessel esféricas vistas no
Cl = − tan δl .
capítulo anterior, é fácil mostrar que os deslocamentos de fase são dados por D l

dRl
Uma vez que a expressão para Rl (r) possui duas formas, devemos requerer que Rl e dr sejam contínuas
em r = a, que as seguintes relações

Al jl (k′ a) = Cl jl (ka) + Dl nl (ka) (9.38)

e
Al k ′ jl′ (k′ a) = Cl k jl′ (ka) + Dl k n′l (ka) (9.39)
onde a linha (′ ) que aparece nas funções especiais, representa a derivada com respeito ao argumento dessa
função. Definindo a quantidade
Rl (a) jl (k′ a)
aγl (k) ≡ dR (a) = ′ ′ ′ (9.40)
l k jl (k a)
dr
podemos obter, a partir de (9.38) e (9.39), uma expressão simples para δl .
kaγl jl′ (ka) − jl (ka)
tan δl = . (9.41)
kaγl n′l (ka) − nl (ka)
A partir desta expressão podemos constatar que os deslocamentos de fase δl são funções de k, ou seja da
energia da partícula incidente. Note que a informação sobre o potencial encontra-se codificada nas constan-
tes γl .
Apesar de possuirmos uma expressão fechada para os deslocamentos de fase (9.41), não é fácil, em
geral, identificar quais as ondas parciais que mais contribuem ou qual o comportamento da seção de choque
com a energia, i.e., em função da energia. Para termos uma intuição, analisemos este problema no limite
ka → 0, ou seja no limite de baixas energias. Verificaremos explicitamente que a seção de choque é do-
minada pela onda parcial S (l = 0), como foi feito no argumento apresentado anteriormente. No capítulo
anterior vimos que
ρl (2l + 1)!!
jl (ρ) → e nl (ρ) → − (9.42)
(2l + 1)!! ρl+1
no limite ρ → 0. Substituindo (9.42) em (9.41), veremos que no limite de baixas energias
1 lγl − 1
tan δl ≃ 2
(ka)2l+1 . (9.43)
[(2l + 1)!!] (l + 1)γl + 1
Tendo em vista que a quantidade tan δl é pequena, seque que tan δl ≃ sen δl . Com isso, vemos a partir
de (9.25) e (9.43) que a amplitude de espalhamento é proporcional a (ka)2l . Portanto, a seção de choque é
9.3. M ÉTODO DE O NDAS PARCIAIS 227

dominada pela onda parcial S (l = 0), exceto em caso excepcionais em que δ0 se anule. No limite de baixas
energias
ka
sen δ0 ≃ − . (9.44)
1 + γ0
Utilizando a forma explícita das funções de Bessel esféricas de ordem zero podemos avaliar γ0 a partir da
Eq. (9.40).
1
1 + γ0 = tan k′ a
. (9.45)
1 − k′ a
Logo, no limite de baixas energias (ka → 0), a seção de choque diferencial é isotrópica por ser uma onda
S e a seção de choque total será dada por
( )
dσ tan k ′ a 2
σ = 4π ≃ 4πa 1 −
2
. (9.46)
dΩ k′ a
Para o caso V0 < 0 onde temos um potencial repulsivo, a seção de choque total no limites de baixas
energias será dada por
( )
tanh κ′ a 2
σ ≃ 4πa 1 −
2
(9.47)
κ′ a
onde, nesse limite κ2 = − 2µ
~2
(E + V0 ) > 0.

Espalhamento por uma Esfera Rígida Como no primeiro exemplo usando o tratamento apresentado
para as ondas parciais, vamos calcular a seção de choque total para o espalhamento causado por uma esfera
rígida, onde o potencial é definido pelas condições:
{
∞ se r ≤ a ,
V (r) = (9.48)
0 se r > a .

Este potencial pode caracterizar uma esfera muito dura, i.e., impenetrável de raio a. A condição de contorno
que aqui deverá ser imposta é Rl (a) = 0, uma vez que Rl se anula para r < a. A solução geral para Rl na
região r > a será dada por
Rl = Cl jl (kr) + Dl nl (kr) . (9.49)
Lembrando que Dl
Cl = − tan δl e impondo a condição de contorno, podemos concluir que

jl (ka)
tan δl = . (9.50)
nl (ka)
Analisando o limite de baixas energias desse problema, vemos que quando E → 0, i.e., ka → 0,
encontramos
(ka)2l+1
tan δl ≃ − ≃ sen δl ≃ δl (9.51)
(2l + 1)!!(2l − 1)!!
onde utilizamos (9.42). Portanto, temos que |δl | ≪ |δ0 | (l ̸= 0) no limite acima, o que significa que apenas
a onda parcial S (l = 0) contribui significativamente em nosso caso. Isso já era esperado tendo em vista a
análise feita no exemplo anterior. Consequentemente neste limite, δ0 = −ka
4π 2
σ≃ δ = 4πa2 . (9.52)
k2 0
Este resultado é quatro vezes a área clássica da esfera! Essa área efetiva maior é característica de um espa-
lhamento com um comprimento de onda muito grande, i.e., o comprimento de onda de de Broglie λ = 2π k
é muito grande nesse limite, e não necessariamente esperamos um resultado clássico. A diferença entre
esse resultado e o valor clássico não será nenhuma surpresa. Na mecânica quântica, no estudo da evolução
da onda associada com as partículas incidentes, e a abrupta variação de V (r) quando r = a produz um
fenômeno análogo ao fenômeno de difração de uma onda eletromagnética.
228 C AP. 9 E SPALHAMENTO

No estudo do limite de altas energias deste problema o resultado encontrado para a seção de choque
total é σ = 2πa2 . Note que apesar de estarmos no limite da óptica geométrica ainda temos uma resposta
diferente da clássica. A razão para a aparente anomalia desse resultado, é que a forma assintótica da função
de onda (9.2) nesse limite clássico é contado duas vezes: uma no verdadeiro espalhamento e a outra na
sombra da esfera para a onda espalhada que aparece para frente, na direção do feixe incidente, desde que
i kr
essa sombra seja produzida pela interferência entre a onda incidente ei kz e a onda espalhada f (θ) e r .

9.4 Teorema Óptico


Existe uma relação simples para a seção de choque total σ e a parte imaginária da amplitude de espalhamento
f (θ). Esta relação se da quando o espalhamento ocorre na direção do feixe incidente, θ = 0. Para tornar
evidente este fato, calculemos f (0) a partir da relação (9.25)

1∑
f (0) = (2l + 1)ei δl sen δl
k
l=0

1∑
= (2l + 1)(cos δl sen δl + i sen2 δl ) (9.53)
k
l=0

onde utilizamos os polinômios de Legendre que satisfazem Pl (1) = 1. Comparando essa expressão com
(9.27) podemos notar que

σ= ℑ[f (0)] (9.54)
k
onde ℑ[f (0)] é a parte imaginária da amplitude de espalhamento com θ = 0. Essa relação é conhecida
como teorema óptico, ou relação Bohr-Peierls-Placzek 18 . Este teorema reflete o fato de que o espalhamento
para frente, na direção do feixe incidente, interfere com o próprio feixe incidente, reduzindo o número de
partículas espalhadas na direção de incidência. Este fenômeno tem alguma analogia com a sombra produzida
atrás de um disco opaco quando o feixe de luz incide sobre ele.
Uma análise cuidadosa do processo de espalhamento irá permitir mostrarmos que a relação (9.54) é
geral, valendo até para situações em que o potencial não é central, ou seja, quando a amplitude de espalha-
mento f depende também do ângulo azimutal φ.

9.5 Espalhamento Elástico e Inelástico


Para mostrarmos a diferença do espalhamento elástico e espalhamento inelástico, partiremos do seguinte
i kr
argumento. Na expressão (9.22) temos uma onda esférica emergente, e r , e uma onda esférica incidente,
e− i kr
r . Portanto,
ψ ≃ ψem + ψinc . (9.55)
O fluxo de ondas esféricas incidentes é proporcional a:

|e− i kr |2 = 1 (9.56)

e o fluxo de ondas esféricas emergentes é proporcional a:

|Sl ei kr |2 = |Sl |2 (9.57)

onde Sl ≡ 1 + al .
Pelo princípio da conservação do fluxo, não há acúmulo da densidade de probabilidade no infinito ou
na origem, esses dois fluxos devem ser iguais. Portanto,

|Sl |2 = 1 → |Sl | = 1 . (9.58)


18
Rudolf Ernst Peierls (1907–1995), físico anglo-germânico.
George Placzek (1905–1955), físico tchecoslovaco.
9.5. E SPALHAMENTO E LÁSTICO E I NELÁSTICO 229

A expressão acima nos mostra que Sl pode ser expressa em termos de um parâmetro real δl , o desloca-
mento de fase. Assim, escolhemos Sl de tal forma que tenhamos

Sl = e2 i δ l . (9.59)

No caso do espalhamento elástico, vamos ter o seguinte: usando a expressão (9.24) para a amplitude de
espalhamento, encontraremos

1 ∑
f (θ) = (2l + 1)|Sl − 1|Pl (cos θ) . (9.60)
2ik
l=0

Essa formula foi desenvolvida por Faxén 19 e Holtsmark 20 em 1927. 21


Para escrever a seção de choque total elástica, (9.27) em função de Sl , iremos calcular a seguinte ex-
pressão

|Sl − 1|2 = (e2 i δl − 1)(e−2 i δl − 1) = (1 − e2 i δl − e−2 i δl + 1)


= 2(1 − cos 2δl ) = 4 sen2 δl .

Assim, a seção de choque total elástica será



π ∑
σe = 2 (2l + 1)|Sl − 1|2 . (9.61)
k
l=0

É oportuno observar que os δl podem ser obtidos integrando-se numericamente a equação de Schrödinger
para cada onda parcial.
Para o espalhamento inelástico ou reativo, há mudança no estado interno das partículas. Isto significa
dizer que na expressão (9.55) a amplitude de onda emergente é menor que a da onda incidente. Desse
modo, podemos tratar este tipo de espalhamento com as mesmas expressões do espalhamento elástico,
porém substituindo a relação (9.58) por
|Sl | ≤ 1 . (9.62)
Essa expressão indica ser necessário um parâmetro adicional para especificar Sl . Portanto,

Sl = ηl e2 i δl (9.63)

onde ηl é um número real denominado de parâmetro de inelasticidade, e 0 ≤ ηl ≤ 1. Por analogia com


a expressão (9.61) e considerando as condições acima, definimos a seção de choque total inelástica da
seguinte forma

π ∑ ( )
σi = 2 (2l + 1) 1 − |Sl |2 . (9.64)
k
l=0

Naturalmente, a seção de choque total será obtida pela soma das seções de choque elástica e inelástica

π ∑ ( )
σt = σe + σi = 2
(2l + 1) |Sl − 1|2 + 1 − |Sl |2 . (9.65)
k
l=0

Usando a expressão (9.63), temos,


ℜ[Sl ] = ηl cos 2δl (9.66)
19
Hilding Faxén (1892–1970), físico sueco.
20
Johan Holtsmark (1894–1975), físico norueguês.
21
H. Faxén and J. Holtsmark, Zeits. für Physik, 45, 307 (1927); o completo desenvolvimento desses trabalhos poderá ser encon-
trado no livro de V. de Alfaro and T. Regge, Potential scattering, (1965).
230 C AP. 9 E SPALHAMENTO

e também
( )
|Sl − 1|2 = (Sl − 1)(Sl∗ − 1) = |Sl |2 − ηl e2 i δl + e−2 i δl + 1
= |Sl |2 − 2ηl cos 2δl + 1 . (9.67)

Substituindo a relação (9.67) na expressão (9.65) e usando a Eq. (9.66), encontramos,



π ∑ ( )
σt = 2 (2l + 1) |Sl |2 − 2ηl cos 2δl + 1 + 1 − |Sl |2
k
l=0

π ∑
= 2 (2l + 1)(1 − ℜ[Sl ]) . (9.68)
k
l=0

É oportuno destacar que o formalismo de ondas parciais se torna consideravelmente mais complicado
no espalhamento de partículas com spin. Contudo, no espalhamento em que uma das partículas tem spin 21 ,
como no caso do espalhamento píon-núcleon, a amplitude de espalhamento pode depender da orientação
do spin antes e depois do espalhamento. Portanto, haverá duas amplitudes, cada uma delas é representada
por uma expressão semelhante a (9.60).

9.6 Espalhamento Ressonante


Podemos escrever a expressão para a seção de choque total como um somatório de todas as l seções de
choque. Então,


σ= σl (9.69)
l=0
com

(2l + 1) sen2 δl
σl = (9.70)
k2
onde está explicito a contribuição de cada uma das ondas parciais. Note que a contribuição máxima que a
onda parcial l pode dar ocorre para sen2 δl = 1, ou seja, quando δl (k) = ± π2 . Quando temos a ocorrência
de σl máximo chamamos de espalhamento ressonante para uma dada energia.
Existindo o espalhamento ressonante para a onda parcial l com uma energia ER , podemos obter uma
expressão aproximada para a seção de choque como uma função da energia. Nosso ponto de partida será
δl (ER ) = ± π2 , o que implica em cot δl (ER ) = 0. Portanto, expandindo cot δl (E) em série de Taylor, em
torno de ER , temos que
d
cot δl (E) = cot δl (ER ) + (E − ER ) cot δl (E) + ···
dE E=ER
2
≃ − (E − ER ) (9.71)
Γ
onde definimos a largura Γ como
2 d
− = cot δl (E) .
Γ dE E=ER

Substituindo essa expressão em (9.70) resulta que


Γ 2

σl (E) ≃ 2 (2l + 1) 4
Γ2
. (9.72)
k (E − ER )2 + 4

Essa é a fórmula de Breit-Wigner 22 , cujo comportamento com a energia é dado na Fig. 9.3.
22
Gregory Breit (1899–1981), físico russo-americano.
Eugene Paul Wigner (1902–1995), matemático húngaro americano.
9.7. E FEITO R AMSAUER -T OWNSEND 231

Figura 9.3 Dependência da seção de choque parcial com a energia próximo a uma ressonância.

Potencial Delta de Casca Analisemos o espalhamento da onda S (l = 0) por um potencial delta de casca,
este potencial será dado por
V (r) = λ δ(r − a) . (9.73)
Este potencial será repulsivo se λ > 0 ou atrativo se λ < 0. Assim, a equação radial que satisfaz u0 (r) será
dada por
d2 u0 [ 2 ]
2
+ k − α δ(r − a) u0 = 0 (9.74)
dr
onde definimos k 2 = 2µE~2
e α = 2µλ
~2
. Para r ̸= a a função delta será nula e u0 irá satisfazer a equação
radial de uma partícula livre. Portanto, a solução desejada possuirá a forma
{
A sen kr para r ≤ a
u0 (r) = (9.75)
B sen (kr + δ0 ) para r > a

onde já impusemos que u0 (0) = 0. Então, a continuidade de u0 para r = a será dada por

A sen ka = B sen (ka + δ0 ) (9.76)

du0
enquanto que o salto da derivada dr r=a conduzirá a

kB cos (ka + δ0 ) − kA cos ka = αA sen ka . (9.77)

A partir das duas últimas equações podemos concluir que

α sen2 ka
tan δ0 = − α . (9.78)
k 1 + 2k sen (2ka)

Finalmente, o espalhamento da onda S através desse potencial será ressonante para valores da energia que
conduzam a |δ0 | = π2 , ou seja | tan δ0 | = ∞. Logo, a condição para a existência de espalhamento ressonante
será
2k
sen (2ka) = − . (9.79)
α

9.7 Efeito Ramsauer-Townsend


Em trabalhos realizados por Ramsauer 23 e Townsend 24 , foram observados que o espalhamento de elétrons
por átomos de gases raros possuía uma seção de choque muito pequena quando a energia dos elétrons era
da ordem de 0, 7 eV. 25 Devida a baixa energia dos elétrons, a contribuição mais importante para a seção
de choque deste processo provém da onda S. A explicação da pequena seção de choque observada por
23
Carl Wilhelm Ramsauer (1879–1955), físico alemão.
24
John Sealy Edward Townsend (1868–1957), matemático e físico inglês.
25
Os resultados experimentais estão sumarizados em R. Kollath, Phys. Zeits., 31, 985 (1931).
232 C AP. 9 E SPALHAMENTO

Ramsauer e Townsend estava no fato de que o deslocamento de fase, δ0 , anula-se e consequentemente a


seção de choque também será nula.
O espalhamento por um poço quadrado atrativo apresenta o efeito Ramsauer-Townsend. Impondo que
δ0 = 0 em (9.44), temos que
k ′ a = tan k ′ a (9.80)
onde utilizamos a relação (9.45). Lembre-se que k ′ 2 = 2µ
~2
(E + V0 ). A partir dessa equação vemos que a
seção de choque irá anular-se apenas para valores bem determinados da energia.

9.8 Espalhamento – Função de Green


Para o estudo do espalhamento de partículas através de um potencial V (⃗r) precisamos analisar o problema de
autovalores da hamiltoniana sujeito à condição de contorno (9.2). Mais explicitamente, temos que resolver
a equação
( )
∇⃗ 2 + k 2 ψ = 2µ V (⃗r)ψ (9.81)
~2
onde k 2 = 2µE
~2
. Em algumas aplicações é interessante substituir (9.81) por uma equação integral, equação
essa em que já está incorporado naturalmente a condição de contorno (9.2). Para tanto utilizaremos a função
de Green G(⃗r,⃗r′ ) desse problema, cuja função é solução de
( )
⃗ 2 + k 2 G(⃗r,⃗r′ ) = δ(⃗r −⃗r′ )
∇ (9.82)
⃗r

cujo comportamento assintótico, quando temos |⃗r| ≫ |⃗r′ |, é

ei k|⃗r|
G(⃗r,⃗r′ ) → . (9.83)
|⃗r|

Note que G(⃗r,⃗r′ ) nada mais é do que a onda emergente gerada por uma fonte pontual localizada em ⃗r′ .
Assim, conhecendo a função de Green G(⃗r,⃗r′ ) é fácil verificar que


ψ (⃗r) = ψ0 (⃗r) + 2 d3⃗r′ G(⃗r,⃗r′ ) V (⃗r′ ) ψ (⃗r′ ) (9.84)
~
( )
é solução da Eq. (9.81), caso ψ0 seja uma solução da equação homogênea ∇ ⃗ 2 + k 2 ψ0 = 0. A expressão
(9.84) é uma solução formal do problema de espalhamento uma vez que ψ aparece nos dois lados dessa
equação, i.e., a expressão (9.84) é uma equação integral para ψ! A relação (9.84) é a equação integral asso-
ciada a (9.81), a qual pode acomodar a condição de contorno (9.2) caso façamos uma escolha conveniente
para ψ0 .
Vamos calcular agora a função de Green G(⃗r,⃗r′ ). Para tanto devemos notar que devido a simetria de
translação de (9.82), temos G(⃗r,⃗r′ ) = G(⃗r −⃗r′ ). Mais ainda, a simetria de rotação do problema permite
escrever que G(⃗r,⃗r′ ) = G(|⃗r −⃗r′ |). Assim, escrevemos G(⃗r,⃗r′ ) na forma de uma transformada de Fourier

d3⃗p ⃗
⃗ =
G(R) 3
G̃(⃗p)ei⃗p · R (9.85)
(2π)

⃗ = ⃗r − ⃗r′ para podermos simplificar a notação. Para obter G̃(⃗p) substituímos a última
onde definimos R
expressão em (9.82) e utilizamos

′ d3⃗p i⃗p · R

δ(⃗r −⃗r ) = e , (9.86)
(2π)3
o que conduz a
1
G̃(⃗p) = − . (9.87)
⃗p2 − k 2
9.8. E SPALHAMENTO – F UNÇÃO DE G REEN 233

Portanto, substituindo a relação (9.87) na relação (9.85), encontramos



d3⃗p 1 ⃗
G(R) = −
⃗ ei⃗p · R . (9.88)
(2π) ⃗p − k
3 2 2


Usando as coordenadas esféricas no espaço de momentum com o eixo z escolhido na direção de R
escrevemos ∫ ∞ ∫ ∫ 1
dp 2 2π 1
G(R) = −
⃗ p dφ d(cos θ) 2 ei pR cos θ . (9.89)
0 (2π) 3
0 −1 p − k 2

As integrações angulares são fáceis e conduzem a


∫ ∞
1 p ei pR − e− i pR
G(R) = − 2
⃗ dp 2 . (9.90)
2π R 0 p − k2 2i
Uma vez que o integrando em p é par podemos integrar de −∞ até +∞ desde que o resultado seja dividido
por 2. Assim, ∫ ∞
i p ( i pR )

G(R) = 2 dp 2 e − e− i pR . (9.91)
8π R −∞ p −k 2

A integral da equação acima apresenta pólos ao longo do eixo real de p em p = ±k. Para evitar estas
singularidades vamos deformar o contorno de integração para o percurso C1 , veja Fig. 9.4.

Figura 9.4 Contornos de integração no plano complexo.

Utilizando o teorema dos resíduos para avaliar esta integral, obtemos

⃗ =−
⃗ = G+ (R) 1 ei kR
G(R) . (9.92)
4π R
Poderíamos escolher também o caminho C2 da Fig. 9.4, o que nos conduz a seguinte solução

⃗ = G− (R)
⃗ =− 1 e− i kR
G(R) . (9.93)
4π R
A solução de G+ representa uma onda esférica afastando-se da origem, que deve ser reconhecida como a
onda espalhada pelo alvo, e G− representa uma onda esférica convergindo para origem, i.e., ondas esféricas
emergente e incidente devido a fonte pontual, tipo δ, que aparece no lado direito da equação de ondas (9.82).
Visando que a solução ψ de (9.84) satisfaça a condição de contorno de espalhamento (9.2) escolheremos
G e ψ0 = ei kz , o que nos leva a
+

∫ i k|⃗r−⃗r′ |
µ 3 ′ e
ψ (⃗r) = ei kz − d ⃗
r V (⃗r′ ) ψ (⃗r′ ) . (9.94)
2π~2 |⃗r −⃗r′ |
A escolha acima de ψ0 foi motivada pelo fato de que para V = 0, a solução da equação acima deve descrever
uma partícula livre.
234 C AP. 9 E SPALHAMENTO

Contudo, devemos observar que o problema não está resolvido, pois o integrando da Eq. (9.94) contém
a própria função que queremos determinar. Outro aspecto que merece a nossa atenção é o fato de que
o potencial oferece contribuição apreciável somente para os pontos muito proximo da origem, i.e., para
|⃗r′ | ≪ |⃗r|, onde V (⃗r′ ) torna-se significativo. Sendo assim, num comportamento assintótico, podemos fazer
uma expansão de |⃗r −⃗r′ | e considerar apenas os dois primeiros termos da expansão, tal que,
√ ⃗r ·⃗r′
|⃗r −⃗r′ | = ⃗r2 +⃗r′ 2 − 2⃗r ·⃗r′ ≃ |⃗r| − (9.95)
|⃗r|

o que permite concluir que no limite⃗r → ∞


[ ∫ ] i k|⃗r|
µ 3 ′ − i ⃗k ·⃗r′ ′ ′ e
ψ (⃗r) → e −
i kz
d ⃗r e V (⃗r ) ψ (⃗r ) (9.96)
2π~ 2 |⃗r|

onde definimos ⃗k = |⃗k⃗r|r . Portanto, as escolhas para a função G e ψ0 foram acertadas, já que ψ satisfaz (9.2).
Além disso, dessa última expressão também inferimos que

µ ⃗ ′
f (θ, φ) = − 2
d3⃗r′ e− i k ·⃗r V (⃗r′ ) ψ (⃗r′ ) . (9.97)
2π~
A última expressão, apesar de elegante, na prática é inútil, uma vez que para a utilizarmos devemos
conhecer ψ em todo o espaço. Todavia, esse expressão é utilizada para cálculos aproximados, como veremos
na próxima seção.

9.9 Aproximação de Born


Intuitivamente esperamos que a função de onda de uma partícula de alta energia praticamente não difira
muito da função de onda de uma partícula livre. Levando em consideração este fato, podemos desprezar o
último termo em (9.94), obtendo ψ ≃ ψ0 . Essa aproximação é conhecida como aproximação de Born, 26 a
qual é o primeiro termo da solução de (9.94) interativamente. Nesse caso, a Eq. (9.97) fornece que

µ
fB (θ, φ) ∼

= − d3⃗r′ e− i⃗q ·⃗r V (⃗r′ ) (9.98)
2π~2

onde ⃗q = ⃗k − k ẑ é proporcional ao momentum transferido à partícula incidente. Portanto, nesta aproxima-


ção, a amplitude de espalhamento é proporcional à transformada de Fourier do potencial espalhador.
Para essa aproximação ser válida o último termo da relação (9.94) deverá ser desprezível, i.e.
∫ ′
µ ei k|⃗r−⃗r |
ψ (⃗r) − ei kz = − d3⃗r′ V (⃗r′ ) ψ (⃗r′ ) ≪ |ψ0 | = 1 . (9.99)
2π~2 |⃗r −⃗r′ |

Porém levando em consideração que a maior distorção de ψ0 ocorre em⃗r = 0, devemos então ter que
∫ ′
µ ei k|⃗r |
d3⃗r′ V (⃗r′ ) ψ (⃗r′ ) ≪ 1 . (9.100)
2π~2 |⃗r′ |

No caso em que o potencial V dependa apenas de r, essa condição será então



2µ ′
dr′ ei kr sen (kr′ )V (r′ ) ≪ 1 . (9.101)
~ k
2

Poderemos mostrar, a partir dessa última condição, que essa aproximação será útil, i.e., boa aproximação
em duas situações:
26
M. Born, Zeits. für Physik, 38, 803 (1926).
9.9. A PROXIMAÇÃO DE B ORN 235

1. Para potenciais fracos, i.e., V0 a pequeno. Neste caso, a condição que deve ser satisfeita independe da
energia da partícula incidente e é dada por

~2
V0 a2 ≪ ; (9.102)
µ

2. Para partículas bastante energéticas, i.e., quando o valor de k for grande. Isso será verdade se

µaV0
≪ 1. (9.103)
~2 k

Fisicamente essas condições significam apenas que a partícula encontra-se aproximadamente livre. Isso
não deveria ser uma surpresa, já que esse foi o nosso ponto de partida para dedução da aproximação de
Born.

Potencial Coulombiano Blindado O potencial coulombiano blindado pode ser representado por

Z1 Z2 e2 −ξr
V (r) = − e (9.104)
r
em que 1ξ = a representa, aproximadamente, uma medida do raio do átomo. Com o uso deste potencial na
aproximação de Born, a amplitude de espalhamento fB (θ) passa ser

2µZ1 Z2 e2 ∞
fB (θ) = dr sen (qr)e−ξr
~2 q
(0 )
2µZ1 Z2 e2 1
= . (9.105)
~2 q q2 + ξ2

Como para o cálculo com esse potencial escolhemos o eixo z ′ na direção de ⃗q. Utilizamos
( )
2 θ
⃗q = 2k (1 − cos θ) = 4k sen
2 2 2
2

e temos a seção de choque diferencial

dσ 4µZ12 Z22 e4
= ( ( ) )2 . (9.106)
dΩ ~4 4k 2 sen2 2θ + ξ 2

Consequentemente, a seção de choque total




σ= dΩ
dΩ
existe para todos os valores do ângulo de espalhamento. No entanto, fazendo-se ξ → 0, o potencial de
Yukawa passa a ser um potencial coulombiano puro e fB (θ) diverge quando θ → 0. Esse comportamento
se deve ao fato do potencial coulombiano ser de longo alcance. Formalmente podemos obter a seção de
choque para o espalhamento coulombiano tomando o limite ξ → 0, o que permite obter

dσ µZ12 Z22 e4
= ( ), (9.107)
dΩ 4p4 sen4 2θ

essa resposta coincide com a resposta quântica e a clássica do espalhamento de Rutherford, apesar da
aproximação de Born não poder ser aplicada ao espalhamento coulombiano, visto que a condição de vali-
dade (9.101) não é satisfeita. Isso é evidente quando olhamos para a integral na Eq. (9.105) visto que essa
não está bem definida para ξ = 0!
236 C AP. 9 E SPALHAMENTO

Espalhamento de Elétrons por um Átomo Consideremos o espalhamento de um elétron por um átomo,


o qual será representado por sua densidade de carga elétrica −eρ(⃗r). 27 Podemos associar uma densidade de
carga −eρ a um sistema de N elétrons no estado ψ (⃗r1 , · · · ,⃗rN ) através de

N ∫

ρ(⃗r) = d3⃗r1 · · · d3⃗rN δ(⃗r −⃗ri )|ψ|2 . (9.108)
i=1

Portanto, o potencial de interação neste problema será dado por


[ ∫ ]
′ 2 Z 3 ′ ρ(⃗r′ )
V (⃗r) = Z e − d ⃗r (9.109)
r |⃗r −⃗r′ |

onde Z é a carga do núcleo e usaremos Z ′ = −1 para o espalhamento de elétrons.


Nesse ponto está claro que não podemos resolver exatamente esse problema, logo utilizamos a aproxi-
mação de Born. A partir da relação (9.103) podemos concluir que essa aproximação será válida se

v ZZ ′
≫ (9.110)
c 137
onde v é a velocidade do elétron e c é a velocidade da luz no vácuo. Note que v não pode ser arbitrária já
que estamos trabalhando com uma mecânica quântica não relativística, e portanto deve ser menor que c,
obviamente.
Na aproximação de Born temos que
∫ ∫ ( )
µ − i⃗q ·⃗r µ − i⃗q ·⃗r
fB = − d 3
⃗r e V (⃗
r) = d ⃗
r ∇
3 ⃗2
e V (⃗r)
2π~2 2π~2⃗q2

µ
= d3⃗r e− i⃗q ·⃗r ∇ ⃗ 2 V (⃗r) (9.111)
2π~2⃗q2

onde integramos por partes e usamos


( )
2 θ 2 2
⃗q = 4k sen .
2
Agora utilizando a equação de Poisson

⃗ 2 V (⃗r) = −4πZ ′ e2 (Zδ(⃗r) − ρ(⃗r))


∇ (9.112)

obtemos
2µZ ′ e2
fB = − (Z − F (⃗q)) (9.113)
~2⃗q2
onde o fator de forma atômico F (⃗q) nada mais é do que a transformada de Fourier de ρ,

F (⃗q) = d3⃗r e− i⃗q ·⃗r ρ(⃗r) . (9.114)

Portanto, a seção de choque diferencial desse processo será dada por

dσ 4Z ′
= 2 4 |Z − F (⃗q)|2 (9.115)
dΩ a0⃗q

onde a0 é o raio de Bohr.


27
Estamos aqui simplificando o problema, já que não consideramos o problema de muitos corpos envolvendo o elétron incidente
e os atômicos.
9.10. A PROXIMAÇÃO E IKONAL 237

9.10 Aproximação Eikonal


Para esta aproximação, o potencial V (⃗r) varia muito pouco para uma distância na ordem do comprimento de
onda de de Broglie, λ. Note que o potencial V não precisa ser necessariamente fraco, tal como E ≫ |V |. O
domínio de validade empregada neste caso é diferente daquela empregada na aproximação de Born. Nestas
condições, o conceito de caminho semiclássico torna-se aplicável, e no lugar de ψ + podemos usar
i
ψ + ≃ e ~ S (r) (9.116)

tal que S satisfaça a equação de Hamilton-Jacobi

(∇S)
⃗ 2 ~2 k 2
+V =E = (9.117)
2µ 2µ
como discutido anteriormente, ver parágrafo §1.16. Para calcular S direto de (9.117), vamos considerar
a aproximação em que a trajetória clássica é um caminho praticamente reto, na qual é satisfatório para
pequenas deflexões à altas energias. Considerando esta situação, mostrado na Fig. 9.5, a trajetória será ao
longo da direção z, tendo b = |⃗b| como parâmetro de impacto e |⃗r| = r. Assim, temos

Figura 9.5 Esquema para aproximação eikonal.

(∇S)
⃗ 2 ~2 k 2
= − V (r)
2µ 2µ
(∇S)
⃗ 2 2µ √ 2
= k 2
− V ( b + z′2)
~2 ~2
logo,
∫ [ ]1
S z
2µ √ 2
= k − 2 V ( b2 + z ′ 2 )
2
dz ′ + constante . (9.118)
~ −∞ ~
A constante será escolhida tal que
S
→ kz quando V →0 (9.119)
~
então, a forma de uma onda plana para (9.116) será reproduzida nesse limite de potencial nulo. A Eq. (9.118)
será escrita como
∫ z [√ √
]
S 2µ
= kz + k 2 − 2 V ( b2 + z ′ 2 ) − k dz ′
~ −∞ ~
∫ z √
µ
= kz − 2 V ( b2 + z ′ 2 ) dz ′ (9.120)
~ k −∞
238 C AP. 9 E SPALHAMENTO

onde para E ≫ V , usamos √


2µ √ 2 µV
k2 − V ( b + z′2) ≈ k − 2
~2 ~ k
~2 k2
em altos valores E = 2µ . Então,

ψ + (⃗r) = ψ + (⃗b + z ẑ)


[ ∫ z √ ]
1 iµ ′
= e i kz
exp − 2 2 ′ 2
V ( b + z ) dz . (9.121)
(2π) 2
3
~ k −∞

A Eq. (9.121) não nos fornece a forma assintótica correta para uma onda incidente mais a onda esférica
espalhada,
⃗ ei kr
ei k ·⃗r + f (θ) .
r
Portanto não podemos usar a relação (9.97)

µ ⃗ ′
f (θ, φ) = − d3⃗r′ e− i k ·⃗r V (⃗r′ ) ψ (⃗r′ )
2π~2

para calcular f (θ, φ), mas se usarmos ψ + (⃗r) da Eq. (9.121) no lugar ψ (⃗r′ ) da relação acima, temos o que
chamamos de aproximação eikonal para a amplitude de espalhamento
∫ √
µ 3 ′ − i ⃗k′ ·⃗r′ ⃗ ′
f (θ, φ) = − 2
d x e V ( b2 + z ′ 2 ) ei k ·⃗r
2π~
[ ∫ z′ ]
iµ √
× exp − 2 V ( b2 + z ′′ 2 ) dz ′′ . (9.122)
~ k −∞

Note que sem o fator exp [· · · ], a Eq. (9.122) é justamente a amplitude que temos na aproximação de Born,

∼ µ ′
fB (θ, φ) = − 2
d3⃗r′ e− i⃗q ·⃗r V (⃗r′ )
2π~

onde ⃗q = ⃗k − ⃗k′ . Para resolver (9.122), faremos o uso das coordenadas cilíndricas d3 x′ = b db dφ dz ′ . É
possível notar que
(⃗k − ⃗k′ ) ·⃗r′ = (⃗k − ⃗k′ ) · (⃗b + z ′ ẑ) ≃ −⃗k′ · ⃗b (9.123)
pois ⃗k ⊥ ⃗b e (⃗k − ⃗k′ ) · ẑ ∼ O(θ2 ) poderá ser ignorado devido a pequena deflexão de θ. Assim, sem perda
de generalização, podemos escolher o plano xz para o ser o plano do espalhamento e escrevemos

⃗k′ · ⃗b = (k sen θx̂ + k cos θẑ) · (b cos φx̂ + b sen φẑ) ≃ kbθ cos φ (9.124)

Usando (9.124) em (9.122) encontramos


∫ ∞ ∫ 2π ∫ ∞ [ ∫ z ]
µ − i kbθ cos φ iµ ′
f (θ, φ) = − b db dφ e dz V exp − V dz . (9.125)
2π~2 0 0 −∞ ~2 k −∞

Mas, verificando as identidades:


∫ 2π
dφ e− i kbθ cos φ = 2πJ0 (kbθ)
0

onde J0 é um função de Bessel, e


∫ ∞ [ ∫ ] [ ∫z ] z=+∞
iµ z
′ i ~2 k − iµ
V dz ′
dz V exp − 2 V dz = e ~2 k −∞

−∞ ~ k −∞ µ z=−∞
9.11. E SPALHAMENTO DE PARTÍCULAS I DÊNTICAS 239

que quando z → −∞ o lado direito da relação acima anula no expoente. Então, finalmente temos
∫ ∞ [ ]
f (θ, φ) = − i k db b J0 (kbθ) e2 i ∆(b) − 1 (9.126)
0

onde ∫ ∞ √
µ
∆(b) ≡ − V ( b2 + z 2 ) dz . (9.127)
2k~2 −∞
Na relação (9.127), fixamos o parâmetro de impacto
[ b e integramos
] ao longo de z, ver Fig. 9.5. Na relação
(9.126), não haverá nenhuma contribuição de e2 i ∆(b) − 1 se b for maior do que o campo de ação do
potencial V . Finalmente, mais uma vez devemos lembrar que a aproximação eikonal é válida somente para
pequenos valores do ângulo θ de espalhamento.

9.11 Espalhamento de Partículas Idênticas


Uma ilustração da fase da amplitude de espalhamento, ocorre quando consideramos o espalhamento de duas
partículas idênticas, carregadas e sem spin. A função de onda deverá ser simétrica, então o comportamento
assintótico da função de onda tem a forma
⃗ ⃗ ei kr
ei k ·⃗r + e− i k ·⃗r + [f (θ) + f (π − θ)] (9.128)
r
onde⃗r = ⃗r1 −⃗r2 é o vetor posição relativo das partículas 1 e 2. O resultado da seção de choque diferencial
será,

= |f (θ) + f (π − θ)|2
dΩ
= |f (θ)|2 + |f (π − θ)|2 + 2ℜ[f (θ)f ∗ (π − θ)] . (9.129)
A seção de choque terá um valor máximo quando existir uma interferência construtiva em θ = π2 ,
( ) (π ) 2

=4 f (9.130)
dΩ π 2
2

comparado com o resultado obtido sem interferência


( ) (π )
dσ 2
=2 f . (9.131)
dΩ π 2
2

Para o espalhamento de partículas idênticas de spin 12 com feixes não polarizados, temos a contribuição
quando as duas partículas formam um estado singleto do spin, i.e., a função de onda espacial é simétrica,
( )

= |f (θ) + f (π − θ)|2 (9.132)
dΩ s
e a contribuição quando as duas partículas formam um estado tripleto do spin, i.e., a função de onda espacial
é antissimétrica, ( )

= |f (θ) − f (π − θ)|2 . (9.133)
dΩ a−s
Para a definição de estado singleto e tripleto do spin, ver o próximo capítulo. Estatisticamente, temos 41 de
contribuição para o estado singleto e 34 de contribuição para o estado tripleto. Logo,
( ) ( )
dσ 1 dσ 3 dσ
= +
dΩ 4 dΩ s 4 dΩ a−s
1 3
= |f (θ) + f (π − θ)|2 + |f (θ) − f (π − θ)|2
4 4
= |f (θ)| + |f (π − θ)| − ℜ[f (θ)f ∗ (π − θ)] .
2 2
(9.134)
240 C AP. 9 E SPALHAMENTO

Em outras palavras, esperamos uma interferência destrutiva em θ = π2 . De fato, isso tem sido observado
experimentalmente em espalhamento próton-próton ou espalhamento α-α, onde f (θ) é a soma de um termo
nuclear e um termo coulombiano. Quando as partículas são bósons e férmions, há uma simetria sob a
mudança de θ → π − θ. Partículas bósons e férmions, serão estudadas mais tarde.

9.12 Espalhamento em um Campo Coulombiano


O estudo de uma partícula sob a ação de um campo coulombiano é de grande interesse do ponto de vista
das aplicações físicas e também utilizada para o estudo de espalhamento, já que neste caso o problema da
colisão em mecânica quântica pode ser resolvido exatamente.
É conveniente introduzir as coordenadas parabólicas
(y)
ξ = r+z, η = r−z, ϕ = tan−1
x
para solução da equação de Schrödinger no campo coulombiano. O problema de espalhamento de uma
partícula em um campo central é axialmente simétrico. Daí a função de onda ψ ser independente do ângulo
ϕ. Escrevemos a solução particular da equação de Schrödinger na forma

ψ = f1 (ξ)f2 (η) . (9.135)

Depois da separação das variáveis, temos 28


( ) ( )
d df1 1 2
ξ + k ξ − β1 f1 = 0
dξ dξ 4
(9.136)
( ) ( )
d df2 1 2
η + k η − β2 f2 = 0 , β1 + β2 = 1 .
dη dη 4

A energia da partícula espalhada é positiva e E = 12 k 2 . Os sinais nas equações acima são para o caso de um
campo repulsivo, mas o resultado final obtido para a seção de choque é exatamente o mesmo no caso de um
campo atrativo.
A solução da equação de Schrödinger para uma onda plana

ψ ∼ ei kz para − ∞ < z < 0, r → ∞,

corresponde a uma partícula incidente na direção positiva do eixo-z. Veremos no que se segue que a condi-
ção imposta pode ser satisfeita por uma única integral particular (9.135); uma soma de integrais com vários
valores de β1 , β2 não é necessária.
Em coordenadas parabólicas, essa condição terá a forma
ξ−η
ψ ∼ ei k 2 para η → ∞ e todos ξ ,
28
Aqui estamos usando as unidades de Coulomb. Se µe = 9, 11 × 10−28 g é a massa do elétron, e α = e2 , onde e é a carga do
elétron, as unidades de Coulomb são as mesmas que as unidades atômicas. A unidade atômica de comprimento é

~2
= 0, 529 × 10−8 cm
µe e2
conhecido como raio de Bohr. A unidade atômica de energia é

µe e4
= 4, 36 × 10−11 erg = 27, 21 elétron − volts .
~2
A unidade atômica de carga é
e = 4, 80 × 10−10 esu .
Formalmente obtemos as fórmulas em unidades atômicas, colocando e = µe = ~ = 1. Para α = Ze2 as unidades de Coulomb
e atômicas não são as mesmas.
9.12. E SPALHAMENTO EM UM C AMPO C OULOMBIANO 241

que será satisfeita somente se


ξ
f1 (ξ) = ei k 2 (9.137)
e
η
f2 (η) ∼ e− i k 2 para η → ∞ . (9.138)

Substituindo (9.137) na primeira das Eqs. (9.136), vemos que para satisfazer essa equação temos que
β1 = 21 i k. A segunda equação em (9.136), com β2 = 1 − β1 será
( ) ( )
d df2 1 2 1
η + k η − 1 + i k f2 = 0 .
dη dη 4 2
Vamos procurar a sua solução na forma
η
f2 (η) = e− i k 2 w(η) , (9.139)

onde a função w(η) tende a uma constante quando η → ∞. Para w(η), nossa equação será

d2 w dw
η + (1 − i kη) − w = 0, (9.140)
dη 2 dη
que, através da introdução de uma nova variável η1 = i kη, será reduzida como uma equação da função
hipergeométrica confluente, ver (8.194) onde definimos 1 F1 (a, c; x), com os parâmetros a = − ki , c = 1, o
que implica em 1 F1 (− ki , 1, i kη). A solução dessa equação será

w = constante × 1 F1 (− ki , 1, i kη) .

Assim, na montagem das expressões obtidas, encontramos a seguinte solução exata da equação de
Schrödinger que descreve o espalhamento,
ξ−η
ψ = e− 2k Γ(1 + ki ) ei k
π
i
2
1 F1 (− k , 1, i kη) . (9.141)

Escolhemos a constante de normalização em ψ tal que a onda plana incidente tenha a amplitude igual a
unidade.
Para separar as ondas incidente e espalhada dessa função, consideramos sua forma a grande distância
do centro de espalhamento. Usando os dois primeiros termos da expansão assintótica para a função hiper-
geométrica confluente, 29 temos para η grande
( )
(i kη)− k ei kη
i i
(− i kη) k 1
i
1 F1 (− k , 1, i kη) ≈ 1+ +
Γ(1 + ki ) i k3 η Γ(− ki ) i kη
π ( ) i 2kπ
e 2k 1 i e ei kη − i log(kη)
= 1 + e k
log(kη)
− k
e k .
Γ(1 + ki ) i k3 η Γ(1 − ki ) i kη
Substituindo a relação acima em (9.141) e mudando para coordenadas esféricas polares

ξ − η = 2z , η = r − z = r(1 − cos θ) ,

temos a seguinte expressão assintótico, e final, para a função de onda


[ ]
1 i f (θ) i kr− i log(2kr)
ψ = 1+ 3 ei kz+ k log(kr−kr cos θ) + e k , (9.142)
i k r(1 − cos θ) r
onde
i
f (θ) = −
1
e− k
2i
log(sen θ
2 ) Γ(1 + k ) . (9.143)
2k 2 sen2 θ
2
Γ(1 − ki )
29
Ver o texto de L. D. Landau and E. M. Lifshitz, Quantum mechanics, (1989), apêndice d.
242 C AP. 9 E SPALHAMENTO

O primeiro termo em (9.142) representa a onda incidente. Vemos que, em consequência do decaimento
suave do campo coulombiano, a onda plana é distorcida no mesmo nível que a longa distância do centro,
como está claro pela presença do termo logarítmico na fase e do termo 1r na amplitude. O termos de distorção
logarítmica na fase é também encontrado na onda esférica de espalhamento através do segundo termo em
(9.142). Essas diferenças da forma assintótica da função de onda

ei kr
ψ ≈ ei kz + f (θ)
r
não são importantes, desde que eles deem uma correção para a densidade de corrente na qual tende a zero
quando quando r → ∞.
Assim, temos para seção de choque de espalhamento dσ = |f (θ)|2 dΩ a fórmula

dΩ
dσ ∼ ,
4k 4 sen4 2θ

ou, em unidades usuais, ( )2


α
2µe v 2
dσ ∼ θ
dΩ , (9.144)
sen4 2

onde a velocidade v da partícula é = µk~e . Essa relação é a resposta clássica do espalhamento de Rutherford.
Assim, para o espalhamento de uma partícula não relativística na presença do campo coulombiano, a me-
cânica clássica e quântica dão o mesmo resultado, isso foi obtido por Gordon 30 e Mott 31 em 1928. 32 Os
valores correspondentes da energia são
1 2 1
k =− 2
2 2n
com n = 1, 2, 3, · · · , e coincide com os níveis discretos no campo coulombiano.

Problemas
9.1 Determine as condições de validade da aproximação de Born e estude a possibilidade de aplicá-la aos
seguintes potenciais: {
−V0 se r < r0
a) Poço esférico V (r) = .
0 se r > r0
A − r0
r
b) Coulombiano blindado (Potencial de Yukawa) V (r) = re .
− rr
c) Exponencial V (r) = V0 e 0 .

9.2 Ainda usando a aproximação de Born determine a seção de choque diferencial e total para os potenciais
a) e b) do problema anterior.

9.3 Determine a seção de choque total, usando o método de ondas parciais, para o espalhamento de partí-
culas lentas por um poço de potencial esférico. Compare o resultado com aquele obtido no item a) do
problema anterior.

9.4 a) Use os resultados do problema anterior para mostrar que para um potencial adequado V0 (a profun-
didade de um poço de potencial quadrado do raio a), é possível que a mudança de fase da onda parcial
l = 0 seja igual a 180, enquanto as mudanças de fase nas de ordem superior são insignificantes, muito
pequena, devido à baixa energia das partículas incidentes.
b) O que acontece com a seção de choque nesse caso? Observação: Esse efeito foi observado por
Ramsauer em espalhamento de elétrons de baixa energia (0, 7 eV) por átomos de gás raro.
30
Walter Gordon (1893–1939), físico alemão.
31
Sir Nevill Francis Mott (1905–1996), físico inglês.
32
W. Gordon, Zeitschrift für Physik, 48, 180 (1928); N. F. Mott and H. S. W. Massey, The theory of atomic collisions, (1933).
9.12. E SPALHAMENTO EM UM C AMPO C OULOMBIANO 243

9.5 Considere uma situação de espalhamento no qual somente as ondas parciais l = 0 e l = 1 têm desloca-
mento de fase apreciável.
a) Discuta como a contribuição da onda l = 1 afeta a seção de choque total.
b) Como será afetada a distribuição angular das partículas espalhadas?
c) Que tipo de medidas deve ser feito para obter um valor exato de δ0 ?
d) O mesmo para δ1 ?
e) Como poderia um pequeno deslocamento de fase para l = 2 ser detectado?
Sugestão: Consulte o livro do Prof. L. I. Schiff [77], pp 127 a 129.

9.6 Calcule uma expressão geral para o deslocamento de fase produzido pelo potencial de espalhamento
V (r) = rA2 , onde A > 0. A seção de choque é finita? Se não, o que acontece com a divergência para
ângulos de espalhamento pequenos e grandes? Que modificações são necessária nos cálculos se A < 0?
Quais as dificuldades encontradas?

9.7 Em primeira aproximação o potencial que uma partícula carregada sente de um átomo de hidrogênio
pode ser pensado como devido a uma carga positiva na origem mais uma distribuição esférica uniforme
de carga negativa em torno da origem.
a) Negligenciando o recuo do átomo de hidrogênio, calcule a seção de choque diferencial e total, na
aproximação de Born, para o espalhamento da partícula carregada.
b) Qual a forma da seção de choque diferencial para a mais baixa energia? Compare com o resultado
de espalhamento coulombiano puro, i.e., partícula-partícula.
c) Mostre que a seção de choque diferencial se aproxima de seu valor no espalhamento coulombiano
puro quando a energia da partícula incidente aumenta. Explique porque isso ocorre.

9.8 Uma partícula de massa µ é espalhada∫ por um potencial não local tal que a equação~2de Schrödinger
~2 2
possa ser escrita por − 2µ ∇ ψ (r) + d3 r′ V (r, r′ )ψ (r′ ) = Eψ (r), onde V (r, r′ ) = − 2µ λu(r)u(r′ ).
a) Mostre que somente as ondas s são afetadas pela interação.
b) Obtenha a expressão da amplitude de espalhamento.
−αr
c) Determine o deslocamento de fase das ondas s quando u(r) = e r .
2
9.9 Mostre que a solução da equação de onda de Schrödinger ∂ ∂x
φ(x)
+ 2µ Eφ(x) = 2µ V (x)φ(x) pode ser
ikx 2µ ∫ ′ ′ ′ ′
2 ~2

~2
expressa por φ(x) = Ae + ~2 G(x, x )V (x )φ(x ) dx , em que G(x, x ) é uma função de Green,
∂ 2 G(x,x′ )
satisfazendo a relação ∂x2
+ k 2 G(x, x′ ) = δ (x − x′ ) .

9.10 Determine a transformada de Fourier da função de Green G(x, x′ ) do problema anterior.

9.11 Uma partícula sem spin é espalhada por um potencial dependente do tempo V (r, t) = V (r) cos ωt .
Obtenha a seção de choque diferencial.

9.12 Através do método de ondas parciais, prove o teorema óptico ℑ[f (θ = 0)] = kσtot
4π .

9.13 Suponha que a amplitude de espalhamento para a colisão neutron-próton é dada pela forma
f (θ) = ξf† (A + B⃗σ p · ⃗σ n )ξi
onde ξi e ξf são os estados inicial e final de spin do sistema neutron-próton. Os estados possíveis são
 p n  p n
 χ
 ↑ ↑ χ 
 χ↑ χ↑

 


 


 χ χn 
 χp χn
 p
 ↑ ↓ 
 ↑ ↓
ξi = e ξf = .

 p n 
 p n

 χ↓ χ↑ 
 χ↓ χ↑

 


 


 χp χn 
 χp χn
↓ ↓ (↓ ↓ ) ( )
p n p n p n σx +i σy 0 1 σx −i σy 0 0
Utilize ⃗σ p · ⃗σ n = σz σz +2(σ+ σ− +σ− σ+ ), onde σ+ = 2 = e σ − = 2 =
0 0 1 0
244 C AP. 9 E SPALHAMENTO

( ) ( ) ( )
1 0 1 0
na representação onde σz = , χ↑ = e χ↓ = a fim de encontrar todas as 16 ampli-
0 −1 0 1
tudes de espalhamento. Faça uma tabela com os seus resultados e tabele também as seções de choque.

9.14 Se qualquer um dos estados de spin, por exemplo o próton inicial, ou neutron inicial, etc., não é
medido, a seção de choque consiste da soma sobre os estados de spin não medidos. Escreva que tanto o
spin inicial como o spin final do próton não são medidos. Escreva expressões para as seções de choque
do neutron final up e do neutron final down, sendo dado que o estado inicial do neutron é up. Qual a
σ −σ
polarização P, definida por P = σ↑↑ +σ↓↓ , onde σ↑ é a seção de choque com neutron final up e assim por
diante.

9.15 Use a tabela computada no problema 9.13 para calcular as seções de choque para o espalhamento tri-
pleto → tripleto e singleto → singleto, respectivamente. Mostre que o espalhamento tripleto → tripleto
se anula. verifique os seus resultados, observando que, como (em unidades de ~) 12 ⃗σ p + 12 ⃗σ n = ⃗S
tem-se ⃗σ p · ⃗σ n = 2⃗S2 − 3 = 1 quando atua no estado tripleto e −3 quando atua no estado singleto.
Note que a amplitude é independente de mS , de modo que mS tem que ser o mesmo nos estados inicial
e final de spin. Existem três estados no tripleto, todos eles contribuindo igualmente para a seção de
choque e apenas um na seção de choque singleto.
∫π ∫1
9.16 Considere a integral I (kr) = 0 dθ sen θ g (cos θ) e− i kr cos θ = −1 du g (u) e− i kru , onde g (cos θ) é
fortemente localizado ao redor de θ = θ0 , e é infinitamente diferenciável. Um exemplo de tal função
seria g = e−α (cos θ−cos θ0 ) , com α grande. Podemos assim supor que g (u) e todos as suas derivadas
2 2

em u = ±1 anulam-se. Nesse caso, mostre que I (kr) anulam-se mais rapidamente do que qualquer
outra potência de kr quando kr → ∞.

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomendo uma leitura dos textos:

– E. Merzbacher [61];
– W. Wolney Filho [89].

Um estudo aprofundado da teoria do espalhamento poderá ser realizado com os seguintes textos:

– C. Cohen-Tannoudji, B. Diu and F. Laloë [21];


– J. J. Sakurai [74];
– A. Messiah [62].

No livro do prof. Gottfried, encontramos um trabalho detalhado da aproximação eikonal e sua relação com
a aproximação de Born e o teorema óptico:

– K. Gottfried [36].
Capítulo 10
Rotações e Operadores Tensoriais

Neste capítulo faremos um estudo sistemático das rotações, sua relação com o momentum angular, rotações
infinitesimais na mecânica quântica e grupos de rotações, SO(3), SU (2), bem como os ângulos de Euler.
Ainda faremos um estudo da adição do momentum angular e operadores tensoriais.

10.1 Rotações e Momentum Angular


Em analogia com a translação espacial, onde o momentum linear ⃗p é o gerador da translação, no §8.1 vimos
que o operador momentum angular ⃗L é o gerador da rotação infinitesimal. Rotações são descritas por
operadores ortogonais, i.e., R ∈ O, onde O é um grupo de operadores reais, que podem ser representados
por matrizes.
Vamos considerar uma rotação ao redor do eixo-z em R3 por um ângulo φ. Note que o eixo-z está fixo
e o plano-xy gira no sentido anti-horário. Assim é fácil verificar que
 
cos φ − sen φ 0
Rz (φ) = sen φ cos φ 0 . (10.1)
0 0 1

Aqui temos uma rotação ativa, i.e., os eixos da coordenada estão fixos e o sistema físico girando. Se ti-
vermos uma situação trocada teríamos uma rotação passiva, i.e., o sistema físico estaria fixo e os eixos da
coordenada girando. 1
Estamos particularmente interessados em uma rotação infinitesimal de Rz . Logo, vamos considerar uma
rotação infinitesimal em δφ onde os termos de ordem superior δφ3 são desprezíveis:
 2

1 − δφ2 −δφ 0
 2 
Rz (δφ) =  δφ 1 − δφ2 0 . (10.2)
0 0 1

Por permutação cíclica de x, y, z, i.e., x → y, y → z, z → x, temos a rotação infinitesimal de Rx


 
1 0 0
 2 
Rx (δφ) = 0 1 − δφ2 −δφ  , (10.3)
δφ2
0 δφ 1− 2

e a rotação infinitesimal de Ry
 2

1 − δφ2 0 δφ
 
Ry (δφ) =  0 1 0 . (10.4)
2
−δφ 0 1 − δφ2
1
Típica matriz de rotação usada em um sistema clássico de corpo rígido, ver Goldstein, Classical mechanics, (1980).

245
246 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

É fácil verificar que sucessivas rotações infinitesimais comutam em termos de primeira ordem δφ, porém
não comutam em termos de segunda ordem δφ2 . Assim, temos:
 
0 −δφ2 0
Rx (δφ)Ry (δφ) − Ry (δφ)Rx (δφ) = δφ2 0 0
0 0 0
= Rz (δφ2 ) − 1 (10.5)

onde termos de ordem superior a δφ2 podem ser ignorados. Ainda temos que

1 = Rn̂ (0)

onde Rn̂ significa uma rotação para qualquer eixo x, y, z tomado. Assim, o resultado final poderá ser
expresso como
Rx (δφ)Ry (δφ) − Ry (δφ)Rx (δφ) = Rz (δφ2 ) − Rn̂ (0) . (10.6)
Esse é um exemplo da relação de comutação entre dois operadores de rotação ao redor de diferentes eixos, a
qual será importante para a dedução das relações de comutação do momentum angular na mecânica quântica.

Rotações na Mecânica Quântica Dada uma operação de rotação R, caracterizada por uma matriz orto-
gonal 3 × 3, podemos associar um operador D(R) em um ket apropriado tal que

|ψ⟩R = D(R)|ψ⟩

onde |ψ⟩ e |ψ⟩R são os kets original e o que sofreu a rotação, respectivamente. 2 Note que a matriz ortogonal
3 × 3, R, atua em uma matriz coluna de três componentes de um vetor clássico, enquanto o operador D(R)
atua no estado vetor ket. A matriz D(R) depende da dimensão N de um ket particular. Para N = 2,
apropriado para descrever um sistema de partículas com spin 21 sem nenhum outro grau de liberdade, D(R)
será representado por uma matriz 2 × 2; para um sistema de partículas de spin 1, a representação apropriada
será uma matriz 3 × 3.
Para construir o operador de rotação D(R), iremos examinar suas propriedades sob uma rotação infi-
nitesimal. Primeiramente, vamos recorrer à analogia com a translação espacial e a evolução temporal. Os
operadores infinitesimais apropriados podem ser escritos por

Uε = 1 − i Gε

com G sendo um operador hermitiano. Para translação espacial infinitesimal temos


px
G→ , ε → dx
~
onde o gerador da translação é o momentum px , e para evolução temporal infinitesimal temos

H
G→ , ε → dt
~
onde o gerador da evolução temporal é a hamiltoniana H cujo autovalor é a energia do sistema E.
Em mecânica clássica, o momentum angular é o gerador da rotação. Assim, em mecânica quântica
definimos o operador momentum angular Jk de tal forma que opera uma rotação infinitesimal ao redor do
k-ésimo eixo, através de um ângulo dφ. Logo, temos

Jk
G→ , ε → dφ .
~
2
O símbolo D vem do alemão Drehung, o que significa rotação
10.1. ROTAÇÕES E Momentum A NGULAR 247

Sendo Jk um operador hermitiano, garantimos que o operador da rotação infinitesimal é unitário e reduz-se
ao operador identidade quando temos o limite dφ → 0. Geralmente escrevemos esse operador na forma:
( )
⃗J · n̂
D(n̂, dφ) = 1 − i dφ (10.7)
~

para uma rotação ao redor da direção caracterizada pelo versor n̂ por um ângulo infinitesimal dφ.
Uma rotação finita poderá ser obtida através de sucessivas rotações infinitesimais ao redor de um mesmo
eixo. Vamos tomar como exemplo uma rotação finita ao redor do eixo-z feita por um ângulo φ, se conside-
rarmos componentes infinitesimais φn do ângulo φ, com n → ∞, temos
[ ( )]
Jz φ n
= e− ~ J z φ
i
Dz (φ) = lim 1 − i
n→∞ n~
i Jz φ Jz2 φ2
=1− − + ··· (10.8)
~ 2~2
Para obter as relações de comutação do momentum angular precisamos de mais um conceito, o grupo
de rotação, em tal grupo postulamos D(R) com as mesmas propriedades do grupo que define R:
1. Identidade:
R · 1 = R ⇒ D(R) · 1 = D(R) ;

2. Fechamento:
R1 R2 = R3 ⇒ D(R1 )D(R2 ) = D(R3 ) ;

3. Inversa:

RR−1 = 1 ⇒ D(R)D−1 (R) = 1


R−1 R = 1 ⇒ D−1 (R)D(R) = 1 ;

4. Associatividade:

R1 (R2 R3 ) = (R1 R2 )R3 = R1 R2 R3


⇒ D(R1 )[D(R2 )D(R3 )]
= [D(R1 )D(R2 )]D(R3 )
= D(R1 )D(R2 )D(R3 ) .

Agora, vamos retornar as relações fundamentais de comutação para a operação de rotação (10.6) escritas
em termos das matrizes R’s, mas aqui iremos usar os operadores de rotação análogos, como o da relação
(10.8). Logo,
( )( )
i Jx δφ Jx2 δφ2 i Jy δφ Jy2 δφ2
1− − 1− −
~ 2~2 ~ 2~2
( )( )
i Jy δφ Jy2 δφ2 i Jx δφ Jx2 δφ2 i Jz δφ2
− 1− − 1 − − = 1 − − 1.
~ 2~2 ~ 2~2 ~

Essa expressão nos dá as relações fundamentais de comutação para o operador momentum angular igualando
os termos de mesma ordem em δφ2
δφ2 Jz δφ2
[Jx , Jy ] = i + O(δφ3 )
~2 ~
(10.9)
[Jx , Jy ] = i ~Jz
248 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

onde os termos O(δφ3 ) são desprezíveis, e generalizando temos

[Ji , Jj ] = i εijk Jk . (10.10)

Note que o grupo de translação espacial em três dimensões é abeliano, pois seus geradores pi e pj comutam
com i ̸= j. Já os geradores do grupo de rotação não comutam, como podemos ver em (10.10), então esse
grupo se diz não abeliano.

Nota sobre o Momentum Angular ⃗J No caso de um sistema de partículas sem spin, o momentum angular
orbital total ⃗L é na realidade o momentum angular total do sistema, i.e., ⃗J = ⃗L. Como esse é o operador que
aparece como gerador de um grupo de rotações no espaço de Hilbert correspondente, é natural que se defina
o operador associado ao momentum angular total ⃗J, de um sistema em geral, como gerador da representação
do grupo de rotações espaciais no espaço de Hilbert dos estados desse sistema. Mais formalmente
i⃗
|ψ⟩R = e ~ J · n̂δφ |ψ⟩ .

Essa definição evidentemente não envolve qualquer condição de simetria sobre os sistema. Se por outro lado,
o nosso sistema contêm partículas com spin, temos nos kets que representam os vetores de estado variáveis
adicionais e o gerador ⃗J diferirá de ⃗L sempre que os graus de liberdade adicionais contribuírem para as
propriedades de transformação dos estados do sistema sob rotações espaciais. A relação acima deverá ter
um gerador na forma
⃗J = ⃗L ⊗ I + I ⊗ ⃗S

onde ⃗L = ⃗r ×⃗p e o segundo termo, ⃗S, age não trivialmente apenas sobre os graus de liberdades adicionais,
que corresponde ao spin total do sistema. As relações de comutação para o spin foram discutidas no Capítulo
5.

1
10.2 Sistema de Spin 2 e Rotações Finitas
O menor número, N , de dimensões na qual as relações de comutação do momentum angular são realizadas,
é quando temos N = 2, i.e., quando temos um sistema de partículas de spin 12 . Os operadores de spin são
definidos por

~
Sx = (|+⟩⟨−| + |−⟩⟨+|)
2
~
Sy = i (−|+⟩⟨−| + |−⟩⟨+|) (10.11)
2
~
Sz = (|+⟩⟨+| − |−⟩⟨−|)
2
onde os operadores Sx , Sy e Sz , satisfazem a relação de comutação

[Si , Sj ] = i εijk ~Sk (10.12)

em que foi substituído o operador Jk , da Eq. (10.10), por Sk . Este fato, a priori, não é óbvio na natureza,
porém em inúmeros experimentos - de espectroscopia atômica a ressonância magnética nuclear - é suficiente
para a explicação do fenômeno.
Vamos considerar uma rotação por um ângulo finito φ ao redor do eixo-z. Então, temos

|ψ⟩R = Dz (φ)|ψ⟩ (10.13)

com
Dz (φ) = e− ~ Sz φ .
i
(10.14)
10.2. S ISTEMA DE Spin 1
2
E ROTAÇÕES F INITAS 249

Realmente faz sentido esta operação, i.e., este operador realmente faz girar o sistema físico? Para termos
esta verificação, vamos consider seu efeito no valor esperado de Sx , ⟨Sx ⟩,

⟨Sx ⟩ → R ⟨ψ|Sx |ψ⟩R = ⟨ψ|Dz† (φ)Sx Dz (φ)|ψ⟩ (10.15)

onde
Dz† (φ)Sx Dz (φ) = e ~ Sz φ Sx e− ~ Sz φ .
i i

Usando a forma de Sx dada em (10.11) resolveremos a equação acima como segue


~ i Sz φ
(|+⟩⟨−| + |−⟩⟨+|) e− ~ Sz φ
i
e~
2
~ ( iφ )
e 2 |+⟩⟨−|e 2 φ + e− 2 φ |−⟩⟨+|e− 2 φ
i i i
=
2
~
= [(|+⟩⟨−| + |−⟩⟨+|) cos φ + i (|+⟩⟨−| − |−⟩⟨+|) sen φ]
2
= Sx cos φ − Sy sen φ . (10.16)

Usaremos agora uma forma alternativa para derivar este resultado, para tal usaremos a relação de comutação
fundamental [Si , Sj ] = i εijk ~Sk . Para essa alternativa partiremos do lema de Baker-Hausdorff : 3

λ2 λ3
eλA Be−λA = B + λ[A, B] + [A, [A, B]] + [A, [A, [A, B]]] + . . . (10.17)
2! 3!
onde A é um operador hermitiano e λ um número real. Usando esse lema, obteremos

e ~ Sz φ Sx e− ~ Sz φ = Sx +
i i
[Sz , Sx ]
~
( )2 ( )
1 iφ 1 iφ 3
+ [Sz , [Sz , Sx ]] + [Sz , [Sz , [Sz , Sx ]]] + · · ·
2! ~ 3! ~
( ) ( )
φ2 φ3
= Sx 1 − + · · · − Sy φ − + ···
2! 3!
= Sx cos φ − Sy sen φ . (10.18)

Assim, o valor esperado de Sx será

⟨Sx ⟩ → R ⟨ψ|Sx |ψ⟩R = ⟨Sx ⟩ cos φ − ⟨Sy ⟩ sen φ , (10.19)

analogamente, o valor esperado de Sy será

⟨Sy ⟩ → R ⟨ψ|Sy |ψ⟩R = ⟨Sy ⟩ cos φ + ⟨Sx ⟩ sen φ . (10.20)

Para o valor esperado de Sz , esse não altera porque Sz comuta com Dz (φ):

⟨Sz ⟩ → R ⟨ψ|Sz |ψ⟩R = ⟨Sz ⟩ . (10.21)

Finalmente podemos afirmar que as relações (10.19), (10.20) e (10.21) são razoáveis. Essas relações mos-
tram que de fato o operador de rotação (10.14) quando aplicado à um estado ket giram o valor esperado de
⃗S ao redor do eixo-z através de um ângulo φ. Em outras palavras, o valor esperado do operador de spin para
as rotações é generalizado por ∑
⟨Sk ⟩ → Rkl ⟨Sl ⟩
l
3
Note que há uma grande diferença entre o lema de Baker-Hausdorff e a fórmula de Baker-Campbell-Hausdorff , que é dada por
1 1 1
eA eB = eA+B+ 2 [A,B]+ 12 [A,[A,B]]+ 12 [B,[B,A]]+...

A série dentro da exponencial no lado direito da equação acima é um tanto complexa, mas envolve apenas comutadores múltiplos
de A e B.
250 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

onde Rkl são os elementos da matriz ortogonal R que irá especificar a rotação. Devemos lembrar que essa
propriedade não está restrita à um sistema de spin 12 . Em geral, temos

⟨Jk ⟩ → Rkl ⟨Jl ⟩
l

onde Jk são os geradores de rotação que satisfazem as relações de comutação do momentum angular.
Agora, vamos considerar a rotação para um ket geral, Dz (φ)|ψ⟩. Primeiramente vamos decompor |ψ⟩
na base de kets {|±⟩}, tal que
|ψ⟩ = |+⟩⟨+|ψ⟩ + |−⟩⟨−|ψ⟩ .
Aplicando Dz (φ), temos

Dz (φ)|ψ⟩ = e− ~ Sz φ |ψ⟩ = e− 2 φ |+⟩⟨+|ψ⟩ + e 2 φ |−⟩⟨−|ψ⟩ .


i i i
(10.22)
O aparecimento do ângulo φ2 nessa relação tem uma consequência extremamente interessante. Se conside-
rarmos uma rotação por 2π, temos
|ψ⟩Rz (2π) → −|ψ⟩ . (10.23)
Ou seja, quando giramos o estado em 2π rad, o estado final difere do estado original por um sinal trocado.
Iremos precisar de uma segunda rotação em 2π rad para voltarmos ao ket original. Esse fato foi verificado
em experimentos como o interferômetro de neutron. 4

Precessão do Spin - Revisado Iremos discutir a precessão do spin levando em conta este novo ponto de
vista. A hamiltoniana do problema é dada por
( )
e ⃗ ⃗
H=− S · B = ωSz (10.24)
µe c
onde
|e|B
. ω= (10.25)
µe c
O operador de evolução temporal com base nessa hamiltoniana será
U(t, 0) = e− ~ Ht = e− ~ Sz ωt .
i i
(10.26)
Note que é o mesmo operador de rotação quando temos φ = ωt. Assim,
⟨Sx ⟩t = ⟨Sx ⟩t=0 cos ωt − ⟨Sy ⟩t=0 sen ωt (10.27a)
⟨Sy ⟩t = ⟨Sy ⟩t=0 cos ωt + ⟨Sx ⟩t=0 sen ωt (10.27b)
⟨Sz ⟩t = ⟨Sz ⟩t=0 . (10.27c)
Após t = 2πω , i.e., φ = 2π, a partícula retorna à seu estado de spin original.
Esse conjunto de Eqs. (10.27a)-(10.27c) é muito importante para o estudo da precessão dos muons,
similar ao elétron, mas com massa 210µe . Conhecendo o momento magnético dos muons, 2µe~µ c , podemos
obter sua frequência angular de precessão. Esse conjunto de equações podem ser e são, de fato, verificadas
experimentalmente. 5
Agora veremos a evolução temporal do próprio estado ket. Assumindo que em t = 0 temos
|ψ⟩ = |+⟩⟨+|ψ⟩ + |−⟩⟨−|ψ⟩
após um determinado tempo t, temos
|ψ (t)⟩ = e− i
ωt ωt
2 |+⟩⟨+|ψ⟩ + e+ i 2 |−⟩⟨−|ψ⟩ .
Essa expressão adquire um sinal menos quando t = 2π 4π
ω , e temos que esperar até t = ω para que o ket
volte ao seu estado original, i.e., como mesmo sinal. Assim, temos que o período para o ket voltar a posição
original é duas vezes maior que o período da precessão do spin.
4
H. Rauch et al., Physics Letter, 54A, 425 (1975); S. A. Werner et al., Physical Review Letter, 35, 1053 (1975).
5
J. Sandweiss et al., Physical Review Letter, 30, 1002 (1973).
10.3. F ORMALISMO DE PAULI 251

10.3 Formalismo de Pauli


Aqui trabalharemos com o formalismo de spinor de duas componentes introduzido por W. Pauli, no qual
sistemas de partículas de spin 12 são convenientemente tratados. 6 Assim os estados de spin são representados
por spinores
( ) ( )
. 1 . 0
|+⟩ = ≡ χ+ |−⟩ = ≡ χ−
0 1
(10.28)
. ( ) . ( )
⟨+| = 1 0 ≡ χ†+ ⟨−| = 0 1 ≡ χ†−

para as bases ket e bra. Para um estado ket arbitrário e seu correspondente estado bra temos
( )
. ⟨+|ψ⟩
|ψ⟩ = |+⟩⟨+|ψ⟩ + |−⟩⟨−|ψ⟩ =
⟨−|ψ⟩
(10.29)
. ( )
⟨ψ| = ⟨ψ|+⟩⟨+| + ⟨ψ|−⟩⟨−| = ⟨ψ|+⟩ ⟨ψ|−⟩ .

A matriz coluna de (10.29) se refere à um spinor de duas componentes e podemos expressá-la como
( ) ( )
⟨+|ψ⟩ c
χ= ≡ +
⟨−|ψ⟩ c−
= c+ χ+ + c− χ− (10.30)

onde c+ e c− em geral são números complexos, e naturalmente


( ) ( )
χ† = ⟨ψ|+⟩ ⟨ψ|−⟩ ≡ c∗+ c∗− . (10.31)

Os elementos de matriz para os operadores Sj podem ser representados por matrizes 2 × 2, conhecidas
como matrizes de Pauli, σj
~ ~
⟨±|Sj |+⟩ ≡ (σj )±,+ , ⟨±|Sj |−⟩ ≡ (σj )±,− . (10.32)
2 2
Assim, o valor esperado dos operadores Sj em termos de χ e σj são
∑∑
⟨Sj ⟩ = ⟨ψ|Sj |ψ⟩ = ⟨ψ|a′ ⟩⟨a′ |Sj |a′′ ⟩⟨a′′ |ψ⟩
a′ a′′
~
= χ† σj χ (10.33)
2
onde a′ = +, − e a′′ = +, −. Logo, usando explicitamente (10.11) e (10.32), podemos escrever as matrizes
de Pauli como ( ) ( ) ( )
0 1 0 −i 1 0
σ1 = σ2 = σ3 = (10.34)
1 0 i 0 0 −1
onde os sub-índices 1, 2 e 3 referem-se à x, y e z, respectivamente.
Algumas propriedades das matrizes de Pauli são

σi2 = I (10.35)
σi σj + σj σi = 0 para i ̸= j , (10.36)

como temos matrizes 2 × 2, essas duas relações equivalem a relação de anticomutação

{σi , σj } = 2δij . (10.37)


6
W. Pauli, Zeitschrift für Physik 43, n. 8, 601–623 (1927).
252 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

Também temos a relação de comutação


[σi , σj ] = 2 i εijk σk (10.38)
que pode ser expressa pelo produto vetorial
⃗σ × ⃗σ = 2 i ⃗σ . (10.39)
Combinando (10.37) e (10.38), podemos obter
σ1 σ2 = −σ2 σ1 = i σ3 . (10.40)
Note que, ainda podemos ter as seguintes propriedades
σ1 σ2 σ3 = i I (10.41)
σi† = σi (10.42)
det(σi ) = −1 (10.43)
tr(σi ) = 0 (10.44)
tr(σi σj ) = 2δij . (10.45)
Considerando ⃗a um vetor no espaço tridimensional, podemos mostrar que o produto escalar ⃗σ ·⃗a pode
ser expresso pela matriz 2 × 2

⃗σ ·⃗a ≡ ai σi = a1 σ1 + a2 σ2 + a3 σ3
i
( )
a3 a1 − i a2
= . (10.46)
a1 + i a2 −a3
Ainda temos,
(⃗σ ·⃗a)(⃗σ · ⃗b) = ⃗a · ⃗b + i ⃗σ · (⃗a × ⃗b) (10.47)

Prova.
∑ ∑
(⃗σ ·⃗a)(⃗σ · ⃗b) = σj aj σk bk
j k
∑ ∑ (1 1
)
= {σj , σk } + [σj , σk ] aj bk
2 2
j k
∑∑
= (δik + i εjkl σl ) aj bk
j k

= ⃗a · ⃗b + i ⃗σ · (⃗a × ⃗b) .

Se as componentes do vetor ⃗a são reais, podemos usar a relação acima com ⃗a = ⃗b para mostrar que
(⃗σ ·⃗a)2 = |⃗a|2
onde |⃗a| é o módulo do vetor ⃗a. Num caso particular
{
n 1 se n ∈ 2Z,
(⃗σ · n̂) =
⃗σ · n̂ se n ∈ 2Z + 1.
Finalmente, podemos considerar X um operador matricial 2 × 2 expresso por
X = a0 I +⃗a · ⃗σ
em que a0 e ai são quantidades complexas e ⃗σ é o operador matricial de Pauli, então
tr(Xσi ) = 2a .
10.4. O S G RUPOS SO(3), SU (2) 253

Rotações no Formalismo de Pauli Agora, aplicaremos esse formalismo na representação matricial do


operador de rotação D(n̂, φ)

D(n̂, φ) = e− ~ S · n̂φ
i⃗

= e− 2 ⃗σ · n̂φ
i

φ φ
= I cos − i ⃗σ · n̂ sen
 2φ 2 
cos 2 − i nz sen φ2 (− i nx − ny ) sen φ2
= . (10.48)
φ φ φ
(− i nx + ny ) sen 2 cos 2 + i nz sen 2

Da mesma forma que e− ~ S · n̂φ atua em |ψ⟩, a matriz e− 2 ⃗σ · n̂φ atua nas duas componentes do spinor χ de
i⃗ i

acordo com
χ → e− 2 ⃗σ · n̂φ χ .
i
(10.49)
As matrizes σj ’s permanecem inalterada através da rotação. A representação vetorial ⃗σ não deve ser inter-
pretado como um vetor. Assim, é a relação

χ† σ j χ → Rjk χ† σk χ (10.50)
k

que transforma-se como um vetor.

Aplicação Como aplicação do formalismo de spinores, iremos determinar o autospinor de ⃗σ · n̂ com


autovalor +1. O versor n̂ é caracterizado por um ângulo polar β e um ângulo azimutal α. Começando com
o spinor up, χ+ , no eixo z, aplicaremos duas rotações: primeira rotação de um ângulo β em y seguida da
segunda rotação de um ângulo α em z,

χ⃗σ · n̂ = D3 (α)D2 (β)χ+


( )
− 2i σ3 α − 2i σ2 β 1
=e e
0
   
cos α2 − i sen α2 0 cos β2 − sen β2 1
=   
α α
0 cos 2 + i sen 2 sen β2 cos β2 0
 β −i α 
cos 2 e 2
= . (10.51)
β iα
sen 2 e 2

No último exemplo do parágrafo §5.8, o autoket |+⟩u foi determinado para o autovalor +1, e seu resultado
foi
β β
|+⟩u = cos |+⟩ + sen ei α |−⟩ .
2 2
Este estado corresponde ao mesmo estado χ⃗σ · n̂ calculado acima, pois as duas representações diferem
α
somente pelo fator de fase, aqui ei 2 , que não irá mudar o nosso ket.

10.4 Os Grupos SO(3), SU (2)


Em função de sua particular importância na física, em especial na física quântica, vamos discutir aqui com
algum detalhe os grupos SO(3) e SU (2), os quais, ademais, como veremos, são intimamente relacionados.
Por razões pedagógicas, começaremos nossa seção pela definição de algumas propriedades matemáticas e
a definição de grupo ortogonal.
254 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

Alguns Grupos Matriciais Importantes Vamos denotar por Mat(n, R) ou Mat(R, n) o conjunto de
todas as matrizes reais n × n e por Mat(n, C) ou Mat(C, n) o conjunto de todas as matrizes complexas
n × n. Mat(n, R) e Mat(n, C) são naturalmente dois grupos (abelianos) em relação à operação de adição
de matrizes. Não, porém, em relação à operação de produto, pois é bem sabido que nem toda matriz possui
uma inversa.
O conjunto de todas as matrizes de Mat(n, R) que são inversíveis forma naturalmente um grupo não
abeliano em relação ao produto usual de matrizes. 7 Esse grupo, denominado grupo linear real, é denotado
por GL(n, R). Analogamente, o conjunto de todas as matrizes de Mat(n, C) inversíveis forma um grupo
não abeliano8 que é denominado grupo linear complexo e denotado por GL(n, C). Em notação matemática

GL(n, R) := {A ∈ Mat(n, R), det(A) ̸= 0}


e
GL(n, C) := {A ∈ Mat(n, C), det(A) ̸= 0} .

Devido à propriedade bem conhecida det(AB) = det(A) det(B), o produto de duas matrizes com
determinante igual a 1 nos dá novamente uma matriz com determinante igual a 1. Assim,

SL(n, R) := {A ∈ Mat(n, R), det(A) = 1}


e
SL(n, C) := {A ∈ Mat(n, C), det(A) = 1}

são subgrupos de GL(n, R) e GL(n, C), respectivamente.

Grupo Ortogonal Seja E um espaço vetorial. Vamos denotar por GL(E) o conjunto de todos os opera-
dores lineares bijetores (e portanto inversíveis) de E em E. É bem claro que GL(E) forma um grupo, tendo
como produto o produto de operadores.
Seja ω uma forma bilinear ou sesquilinear (caso E seja complexo) em E. Denotaremos por Ω(E, ω) o
subconjunto de GL(E) formado por todos os operadores lineares O inversíveis tais que

ω (Ox, Oy) = ω (x, y)

para todos x, y ∈ E. Assim, temos que Ω(E, ω) é um subgrupo de GL(E).


Um caso de particular interesse é aquele onde E = Rn , ou seja, neste caso o grupo Ω(Rn , ω) é conhecido
como grupo O(n) e tem-se

O(n) := {M ∈ Mat(R, n), M −1 = M T }

O(n) é o grupo das matrizes M ditas ortogonais n × n. Essas matrizes obedecem ao grupo geral:
1. Ortogonalidade

MMT = I
(M1 M2 )(M1 M2 )T = M1 M2 M2T M1T = I ;

2. Associatividade
M1 (M2 M3 ) = (M1 M2 )M3 ;

3. Identidade
M I=IM =M;

4. Inversa
M M −1 = M −1 M = I .
7
Exceto no caso n = 1, onde o grupo é abeliano, trivialmente.
8
Idem.
10.4. O S G RUPOS SO(3), SU (2) 255

Sendo M uma matriz ortogonal, temos M M T = I. Daí,

1 = det(I) = det(M M T ) = det(M ) det(M T ) = (det(M ))2 .

Concluímos que se uma matriz M é ortogonal, vale det(M ) = ±1.


O grupo dito ortogonal O(n) possui um subgrupo, denominado SO(n), que é composto pelas matrizes
ortogonais com determinante igual a 1:

SO(n) := {M ∈ Mat(R, n), M −1 = M T e det(M ) = 1} .

Os grupos SO(n) representam generalizações do grupo de rotações do espaço tridimensional para o espaço
n-dimensional.
Se temos a matriz M = R como uma matriz de rotação e det(R) = 1, temos rotações próprias e temos
o grupo ortogonal em três dimensões O(3). Conforme definimos, o grupo SO(3) é um subgrupo de O(3)
formado por todas as matrizes 3 × 3 reais R tais que RT = R−1 e tais que det(R) = 1.

Grupo Unimodular Unitário Seja dada a definição das matrizes de Pauli, 2 × 2, para partículas de spin
1
2 , cujo operador para rotações finitas está definido por
φ
UR(φ) = e− 2 σ .

Temos que em UR(φ) o expoente tem traço nulo. Assim,

tr(⃗σ ) = 0

e ainda temos o determinante de UR(φ) unitário, i.e., det(UR(φ) ) = 1. O grupo que cobre essa condição
é conhecido como grupo especial unitário ou grupo unimodular unitário. Em duas dimensões, i.e., usando
matriz 2 × 2 é designado por SU (2). Claro que essas matrizes formam um grupo desde que a propriedade
unimodular (det = 1) seja preservada na multiplicação das matrizes. É importante verificar que o grupo
generalizado SU (n) é um subgrupo de U (n).

Forma Geral das Matrizes de SU (2) Conforme já definimos, o grupo SU (2) é o grupo das matrizes
unitárias complexas 2 × 2 com determinante igual a 1:

SU (2) = {U ∈ Mat(C, 2), U−1 = U∗ e det(U) = 1}

Vamos começar estudando a forma geral de tais matrizes, procurando uma parametrização conveniente para
as mesmas que permitirá estudar as propriedades de SU (2) como um grupo de Lie.
Como toda matriz 2 × 2 complexa, uma matriz genérica U ∈ SU (2) é da forma
( )
a b
U=
c d

onde a, b, c, d ∈ C. Vamos estudar a condição U−1 = U∗ . Podemos calcular U−1 usando a regra de
Laplace 9 ,
Cof(A)T Cof(A)ji
A−1 = ou (A−1 )ij = .
det(A) det(A)
Assim, U−1 é dada pela transposta da matriz dos cofatores de U dividida pelo determinante de U, que é 1,
nesse caso. Ou seja, ( )
−1 d −b
U = .
−c a
9
Pierre-Simon Laplace (1749–1827), matemático e astrônomo francês.
256 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

Assim, U−1 = U∗ significa nesse caso


( ) ( ∗ ∗)
d −b a c
= ∗
−c a b d∗

ou seja, c = −b∗ e d = a∗ . Logo, ( )


a b
U= .
−b∗ a∗
A condição det(U) = 1 implica, portanto, |a|2 + |b|2 = 1, que é a condição unimodular. Os dois núme-
ros complexos a e b são conhecidos como parâmetro de Cayley-Klein 10 . Em fato, os parâmetros de Cay-
ley-Klein foram usados para caracterizar os movimentos dos giroscópios na cinemática clássica de corpo
rígido.
Escrevendo os números complexos a e b como soma de suas partes real e imaginária: a = a1 + i a2 e
b = b1 + i b2 , com a1 , a2 , b1 , b2 ∈ R, poderemos escrever U como uma combinação linear de matrizes de
Pauli (e da matriz unidade):
( )
a1 + i a2 b1 + i b2
U= = a1 I + i(b2 σ1 + b1 σ2 + a2 σ3 ) . (10.52)
−b1 + i b2 a1 − i a2

Da condição |a|2 + |b|2 = 1 temos que a21 + a22 + b21 + b22 = 1. Então,
{( ) }
a1 + i a2 b1 + i b2
SU (2) := onde (a1 , a2 , b1 , b2 ) ∈ R com a1 + a2 + b1 + b2 = 1 .
4 2 2 2 2
−b1 + i b2 a1 − i a2
(10.53)
Lembremos que para todo inteiro n ≥ 1, o conjunto de pontos

S n := {(x1 , · · · , xn+1 ) ∈ Rn+1 com x21 + · · · + x2n+1 = 1} ⊂ Rn+1

designa a superfície da esfera unitária de Rn+1 . Assim, vemos que SU (2) é homeomorfo a S 3 , a super-
fície da esfera unitária do espaço quadridimensional R4 . Isso ilustra o fato que SU (2) é uma variedade
diferenciável. Como o produto e a inversa são contínuos em SU (2), o mesmo é um grupo de Lie.
Para o vetor (a1 , a2 , b1 , b2 ) ∈ S 3 que aparece do lado direito de (10.53) devemos tentar parametrizá-lo
de outra forma. Claramente, a condição a21 + a22 + b21 + b22 = 1 diz que a1 , a2 , b1 e b2 são números reais
contidos no intervalo [−1, 1]. Podemos assim definir um ângulo θ ∈ [−π, π] de forma que a1 = cos θ. Fora
isso, para cos θ ̸= ±1, podemos definir
b2 b1 a2
n1 ≡ n2 ≡ n3 ≡ .
sen θ sen θ sen θ
A condição a21 + a22 + b21 + b22 = 1 implica então n21 + n22 + n23 = 1. Assim, o vetor n̂ ≡ (n1 , n2 , n3 ) de
R3 é um vetor unitário. Com esses novos parâmetros θ e n̂ podemos reescrever (10.52) como

U = I cos θ + i n̂ · ⃗σ sen θ

onde ( )
n3 n1 − i n2
n̂ · ⃗σ ≡ n1 σ1 + n2 σ2 + n3 σ3 = .
n1 + i n2 −n3
Assim
SU (2) := {I cos θ + i n̂ · ⃗σ sen θ; θ ∈ [−π, π] e n̂ ∈ R3 ; |n̂| = 1} .
A importância de se expressar U ∈ SU (2) dessa forma, em termos de θ e n̂, provem da seguinte
identidade:
I cos θ + i n̂ · ⃗σ sen θ = ei n̂ · ⃗σθ
10
Arthur Cayley (1821–1895), matemático inglês.
Felix Christian Klein (1849–1925), matemático alemão.
10.5. O G RUPO SU (3) 257

compare com a Eq. (10.48) e teremos o equivalente na representação matricial do operador de rotação
D(n̂, φ).
Se tomarmos n1 = (1, 0, 0), n2 = (0, 1, 0) ou n3 = (0, 0, 1), obtemos três subgrupos uniparamétricos
distintos de SU (2):
( )
i θσ1 cos θ i sen θ
U1 (θ) := e =
i sen θ cos θ
( )
i θσ2 cos θ sen θ
U2 (θ) := e =
− sen θ cos θ
( iθ )
e 0
U3 (θ) := ei θσ3 =
0 e− i θ

respectivamente. Isso nos permite identificar as matrizes de Pauli σ1 , σ2 e σ3 como os geradores desses
subgrupos uniparamétricos. As relações de comutação são as relações satisfeitas por essas matrizes, como
elementos de uma álgebra de Lie, que é denominada álgebra de Lie SU (2).

Relação entre SO(3) e SU (2) O leitor que acompanhou as exposições precedentes sobre os grupos
SO(3) e SU (2) certamente percebeu a existência de uma série de semelhanças entre ambos. Por exemplo,
SO(3) são ortogonais e o grupo de rotação gerado por ⃗J é ortogonal. Vamos agora as comparações: Em
primeiro lugar, note-se que os geradores de SO(3) são matrizes 3 × 3 satisfazendo as relações algébricas de
comutação [Ja , Jb ] = εabc Jc , enquanto que geradores de SU (2) são matrizes 2 × 2 satisfazendo as relações
algébricas de comutação [σa , σb ] = 2 i εabc σc . Se porém definirmos Ja ≡ − i σ2a , obtemos [Ja , Jb ] = εabc Jc .
Assim, devido as característica das rotações nas álgebras de Lie SO(3) e SU (2), podemos afirmar que
esses grupos são isomorfos. Essa inferência não é completamente correta. Vamos considerar uma rotação
de 2π e uma outra de 4π. No grupo SO(3) as matrizes representando uma rotação 2π e uma rotação 4π são
ambas matrizes identidade 3 × 3; entretanto, no grupo SU (2) as matrizes correspondentes são −1 vezes a
matriz identidade 2 × 2 e a própria matriz identidade, respectivamente. Então, podemos dizer que os dois
grupos são localmente isomorfos.
As considerações acima sobre a relação entre os grupos SO(3) e SU (2) são de grande importância
na mecânica quântica, particularmente no que concerne à representação do grupo de rotações SO(3) para
partículas de spin 12 .

10.5 O Grupo SU (3)


O grupo SU (3) é de grande importância na física das partículas elementares, estando associado à uma sime-
tria aproximada, dita de sabor, e a uma simetria exata, dita de cor. Não iremos discutir aqui esses aspectos
que estão fora do escopo deste texto, mas aos interessados recomendo uma leitura em textos apropriados. 11
O grupo SU (3) é um grupo a 32 − 1 = 8 parâmetros. A álgebra de SU (3) coincide com o espaço das
matrizes complexas 3 × 3, antiautoadjuntas e de traço zero. Para o estudo do grupo SU (3) no contexto da
física das partículas elementares é conveniente introduzir-se uma base explícita nesse espaço. Como toda
matriz antiautoadjunta pode ser escrita como i λ, onde λ é a matriz autoadjunta, basta-nos procurar uma
base no espaço das matrizes autoadjuntas de traço zero.
Normalmente adota-se as chamadas matrizes de Gell-Mann 12 λi , i = 1, · · · , 8, que são as seguintes
matrizes: 13      
0 1 0 0 −i 0 1 0 0
λ1 = 1 0 0 λ2 =  i 0 0 λ3 = 0 −1 0
0 0 0 0 0 0 0 0 0
11
Ver os livros do Prof. S. Weinberg, The quantum theory of fields. Vol. I, (1995); Vol. II, (1996).
12
Murray Gell-Mann (1929– ), físico americano.
13
M. Gell-Mann, Physical Review, 125, n. 3, 1067–1084 (1962); Idem, Physics Letters, 8, 214–215 (1964); ver também o livro
dos Profs. M. Gell-Mann and Y. Ne’eman, The eightfold way, (1964).
258 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

     
0 0 1 0 0 −i 0 0 0
λ4 = 0 0 0 λ5 = 0 0 0  λ6 = 0 0 1 
1 0 0 i 0 0 0 1 0
   
0 0 0 1 0 0
  1 
λ7 = 0 0 − i λ8 = √ 0 1 0.
0 i 0 3 0 0 −2
Note que todas as matrizes λi são autoadjuntas e de traço zero, formando uma base no espaço das matrizes
complexas autoadjuntas e de traço nulo! As mesmas são normalizadas de modo que tr(λa λb ) = 2δab .
A álgebra de Lie para o grupo SU (3) pode ser expressa para as matrizes de Gell-Mann da seguinte
forma:

8
[λa , λb ] = 2 i fabc λc
c=1

onde fabc , as camadas constantes de estrutura do grupo SU (3), são totalmente antissimétricas, ou seja

fabc = fbca = fcab = −fbac = −facb = −fcba ,

sendo

f123 = 1
1
f147 = −f156 = f246 = f257 = f345 = −f367 =
√ 2
3
f458 = f678 =
2
e as demais constantes independentes são nulas.
Ainda temos que todo elemento U de SU (3) pode ser escrito na forma
( )

8
U = exp i αk λk
k=1

onde os αk ’s são números reais.

10.6 Rotações de Euler


Como na mecânica clássica, onde conhecemos a aplicação das rotações de Euler para mecânica de corpo
rígido, na mecânica quântica podemos obter uma matriz de rotação, caracterizada como uma rotação geral
em três dimensões, usando os ângulos de Euler, como mostrado na Fig. 10.1.
Os três passos para obter as rotações de Euler são os seguintes:

1. Primeiro, faremos uma rotação no sentido anti-horário, ao redor do eixo z por um ângulo α;

2. Segundo, faremos uma rotação também no sentido anti-horário, ao redor do eixo y ′ (y depois da primeira
rotação) por um ângulo β, o eixo z passará para z ′ ;

3. Finalmente, faremos uma rotação ainda no sentido anti-horário, ao redor do eixo z ′ (z depois das duas
primeiras rotações) por um ângulo γ, aqui o eixo y ′ passará para y ′′ .

Assim, em termos de espaço de Hilbert, nosso operador D de rotação será


′′ ′
D(R(α, β, γ)) = e− i γJz e− i βJy e− i αJz (10.54)
10.6. ROTAÇÕES DE E ULER 259

Figura 10.1 Rotações e ângulos de Euler.

onde

Jy′ = e− i αJz Jy ei αJz

( ′
) ( ′
)−1
Jz′′ = e− i βJy e− i αJz Jz e− i βJy e− i αJz
= e− i αJz e− i βJy Jz ei βJy ei αJz .

Mas ainda podemos observar que a que a rotação também poderá ser reescrita pelos geradores originais

D(R(α, β, γ)) = e− i αJz e− i βJy e− i γJz (10.55)

que é o resultado da manipulação algébrica da Eq. (10.54).

Prova. Seja a Eq. (10.54) escrita por

R(α, β, γ) = Rz ′ (γ)Ry′ (β)Rz (α)

e também observamos as relações

Ry′ (β) = Rz (α)Ry (β)R−1


z (α)

e
Rz ′ (γ) = Ry′ (β)Rz (γ)R−1
y ′ (β) .
260 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

Usando as relações acima, reescrevemos (10.54). Assim

Rz ′ (γ)Ry′ (β)Rz (α) = Ry′ (β)Rz (γ)R−1


y ′ (β)Ry (β)Rz (α)

= Ry′ (β)Rz (γ)Rz (α)


= Rz (α)Ry (β)R−1
z (α)Rz (γ)Rz (α)
= Rz (α)Ry (β)Rz (γ) .

Portanto
R(α, β, γ) = Rz (α)Ry (β)Rz (γ) ,
e naturalmente temos
D(α, β, γ) = Dz (α)Dy (β)Dz (γ) .

Podemos obter os elementos da matriz D na base |j, m⟩ como


− i αJz − i βJy − i γJz
j
Dm,m′ (α, β, γ) = ⟨j, m|e e e |j, m′ ⟩

= e− i αm djm,m′ (β) e− i γm (10.56)

onde
djm,m′ (β) = ⟨j, m|e− i βJy |j, m′ ⟩ . (10.57)

Explicitamente, a forma matricial de Dj (α, β, γ) será dada por


 i αj   i γj 
e 0 ··· 0 e 0 ··· 0
 0 e i α(j−1) · · · 0   0 ei γ(j−1) · · · 0 
  j  
 .. .. .. ..  d (β)  .. .. .. .. .
 . . . .   . . . . 
0 0 · · · e− i αj 0 0 ··· e− i γj

Finalmente, faremos uma aplicação desse conjunto de operações para partículas de spin 12 . Calculando
σ
dj (β) para j = 12 e jy = 2y , temos

∑ ( )n
1
−i β 1 β
d (β) = e
2
σ
2 y = − i σy
n! 2
n=1
β β
= I cos − i σy sen
2 2
( β β)
cos 2 sen 2
= .
− sen β2 cos β2
1
Logo, a forma matricial de D 2 (α, β, γ) será dada por
( iα )( )( i γ )
1 e 2 0 cos β2 sen β2 e 2 0
D (α, β, γ) =
2
0 e− i 2
α γ
β
− sen 2 cos 2 β
0 e− i 2
( 1 1
)
ei 2 (α+γ) cos β2 ei 2 (α−γ) sen β2
= . (10.58)
ei 2 (−α+γ) sen β2 e− i 2 (α+γ) cos β2
1 1

Essa é uma matriz unimodular unitária 2 × 2 escrita em função dos ângulos de Euler. A matriz 2 × 2 (10.58)
é chamada representação irredutível j = 12 do operador de rotação D(α, β, γ). 14
14
Ver os trabalhos: M. Jacob and G. C. Wick, Ann. of Phys., 7, 404 (1959); S. Berman and M. Jacob, Physical Review, 139, B1023
(1965).
10.7. ROTAÇÕES E Momentum A NGULAR – PARTE 2 261

10.7 Rotações e Momentum Angular – Parte 2


Os elementos de matriz para o operador momentum angular total ⃗J pode ser obtidos de forma análogo ao
§8.3. Assumindo que |j, m⟩ são normalizados, temos

⟨j ′ , m′ |⃗J2 |j, m⟩ = j(j + 1)~2 δj ′ j δm′ m (10.59)

⟨j ′ , m′ |Jz |j, m⟩ = m~ δj ′ j δm′ m . (10.60)

Para J± , temos √
⟨j ′ , m′ |J± |j, m⟩ = (j ∓ m)(j ± m + 1) ~ δj ′ j δm′ m±1 . (10.61)

Representação do Operador de Rotação para ⃗J Obtido os elementos das matrizes Jz e J± , podemos


estudar os elementos da matriz de rotação D(R). Seja a rotação R dada por n̂ e φ, podemos escrever
j ′ − J · n̂φ
i⃗
Dm ′ ,m (R) = ⟨j, m |e ~ |j, m⟩ . (10.62)

Esses elementos são chamados de função de Wigner. Note que no bra-ket de (10.62), temos o mesmo valor
de j. Não precisamos considerar os elementos da matriz D(R) entre estados com diferença de valor j. Isso
porque D(R)|j, m⟩ continua sendo um autoket de ⃗J2 com o mesmo autovalor j(j + 1)~2 :
⃗J2 D(R)|j, m⟩ = D(R)⃗J2 |j, m⟩
= j(j + 1)~ [D(R)|j, m⟩] (10.63)

devido ao fato de que ⃗J2 comuta com Ji .


j
A matriz (2j + 1) × (2j + 1) formada por Dm ′ ,m é a representação irredutível (2j + 1) do operador de

rotação D(R). Isso significa que a matriz que corresponde à um operador de rotação arbitrário no espaço ket,
não necessariamente caracterizado por um simples valor j, será escrito na forma de uma matriz diagonal,
naturalmente com a escolha apropriada das bases, os elementos da diagonal formam blocos de matrizes
quadradas. Entretanto cada matriz quadrada não será quebrada em outros blocos menores. Logo, podemos
escrever D como  
D1 (a) 0 0 ···
 0 D2 (a) 0 · · ·
 
D(a) =  0 0 D (a) · · · .
 3 
.. .. .. ..
. . . .
Note que cada bloco de matriz tem a mesma estrutura. Se n é a dimensão de D, cada bloco D1 , D2 , · · ·
são matrizes de dimensão n1 , n2 , · · · , com n1 + n2 + · · · = n. É óbvio então que as matrizes Di por elas
próprias constituem uma representação ni dimensional.
No parágrafo §10.6, mostramos que os ângulos de Euler foram usados para caracterizar uma matriz
geral de rotação. Para um j arbitrário, não necessariamente 12 , o operador de rotação D(α, β, γ) será expresso
como
j ′ − Jz α − ~ Jy β − ~ Jz γ
i i i
Dm ′ ,m (α, β, γ) = ⟨j, m |e ~ e e |j, m⟩

= e− i(m α+mγ) ⟨j, m′ |e− ~ Jy β |j, m⟩
i
(10.64)

e podemos definir a nova matriz dj (β) como

djm′ ,m (β) = ⟨j, m′ |e− ~ Jy β |j, m⟩ .


i
(10.65)

Finalmente veremos alguns exemplos. Para o caso em que j = 21 , esse caso já foi estudado anteriormente
no §10.6, temos ( β β)
1 cos 2 − sen 2
d 2 (β) = . (10.66)
sen β2 cos β2
262 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

Para o caso em que j = 1, temos uma matriz 3 × 3 para a representação de Jy . Devido

1
Jy = (J+ − J− )
2i
obtemos (m = 1, 0, −1 e m′ = 1, 0, −1)
 
√ 0 −i 0
2 
Jy(j=1) = ~ i 0 − i . (10.67)
2
0 i 0

Fazendo uma expansão em série de Taylor da expressão e− ~ Jy β , diferente do caso em que j = 12 , [Jy
i (j=1) 2
]
(j=1)
é independente de 1 e Jy . Entretanto,
( )3
(j=1) (j=1)
Jy Jy
= .
~ ~

Consequentemente, para j = 1, podemos fazer


( )2 ( )
Jy Jy
e− ~ J y β → 1 −
i
(1 − cos β) − i sen β (10.68)
~ ~

e explicitamente, teremos
1 
2 (1 + cos β) − √12 sen β 2 (1 − cos β)
1
 √1 sen β − √12 sen β 
d1 (β) =  2
cos β  . (10.69)
1
2 (1 − cos β) 1
√ sen β
2
1
2 (1 + cos β)

Harmônicos Esféricos como Matrizes de Rotação O momentum angular total ⃗J para uma simples par-
tícula, sem spin, é o momentum angular orbital ⃗L definido por

⃗L = ⃗r × ⃗p

já visto anteriormente.
Sabemos que a solução para os autoestados do momentum angular orbital está dada pelos harmônicos
esféricos. Porém podemos determinar as matrizes de rotação para os harmônicos esféricos. usando a ideia
dos ângulos de Euler:

1. Primeiro, iremos rodar em torno do eixo y por um ângulo θ;

2. Logo após, rodaremos em torno do eixo z por um ângulo φ.

De tal forma que β → θ, α → φ e γ = 0. Na notação dos ângulos de Euler, temos

D(R) = D(α = φ, β = θ, γ = 0) .

Escrevendo |n̂⟩ = D(R)|ẑ⟩ como


∑∑
|n̂⟩ = D(R)|l, m⟩⟨l, m|ẑ⟩
l m

e multiplicando os dois lados da equação acima pelo bra ⟨l, m|, temos

⟨l, m|n̂⟩ = Dm,m
l
′ (α = φ, β = θ, γ = 0)⟨l, m|ẑ⟩ (10.70)
m
10.8. A DIÇÃO DE Momentum A NGULAR 263


onde ⟨l, m|ẑ⟩ representa o harmônico esférico Ylm (θ, φ) resolvido em θ = 0 e com qualquer φ indetermi-
nado. Em θ = 0, temos Ylm → 0 para m ̸= 0. Então, em m = 0 e θ = 0, temos

⟨l, m|n̂⟩ = Ylm (θ = 0, φ indeterminado) δm0

(2l + 1)
= Pl (cos θ)|cos θ=1 δm0
√ 4π
(2l + 1)
= δm0 (10.71)

aqui |ẑ⟩ é um autoket de Lz com autovalor nulo.
Retornando a (10.70), temos

m∗ (2l + 1) l
Yl (θ, φ) = Dm′ ,0 (α = φ, β = θ, γ = 0)

ou √
4π ∗
Dm,0
l
(α = φ, β = θ, γ = 0) = Ylm (θ, φ) .
(2l + 1) θ=β,φ=α

Note que quando temos o caso m = 0, teremos um situação de importância muito particular

dl00 (β) = Pl (cos θ) .


β=0

Para um caso geral ∑ ′


Ylm (θ′ , φ′ ) = Ylm (θ, φ)Dm
l
′ ,m (α, β, γ)

m′

onde Dm
l
′ ,m (α, β, γ) é a nossa rotação descrita pelos ângulos de Euler.

10.8 Adição de Momentum Angular


A adição do momentum angular tem importante aplicações em todas as áreas da física moderna, desde
espectroscopia atômica até colisões de núcleos e partículas. Podemos adiantar que o estudo da adição do
momentum angular é uma excelente oportunidade para ilustrar o conceito de mudança de base, já discutido
anteriormente.

Momentum Angular Orbital e Spin 12 Para uma descrição realista de uma partícula com spin devemos
levar em consideração, os graus de liberdade do spin e do espaço. Para um sistema de spin 21 , o espaço de
Hilbert apropriado será visualizado como sendo o espaço do produto direto do espaço de spin bidimensional,
|+⟩ e |−⟩, com o espaço ket de dimensão infinita dos graus de liberdades espaciais, autokets de posição
{|⃗r⟩}. A base ket será dada explicitamente por

|⃗r, ±⟩ = |⃗r⟩ ⊗ |±⟩ (10.72)

onde ⊗ representa o produto tensorial. Qualquer operador no espaço de kets aberto por {|⃗r⟩} comuta
com qualquer operador no espaço de spin descrito por |±⟩. O operador de rotação ainda mantém a forma
e− ~ J · n̂φ , mas agora ⃗J, o gerador da rotação, consiste em duas partes, que são o momentum angular orbital
i⃗

⃗L = (⃗r × ⃗p) ⊗ IS e o spin ⃗S = Ir ⊗ ⃗S, mostrado na Fig. 10.2. Assim

⃗J = ⃗L + ⃗S ≡ ⃗L ⊗ IS + Ir ⊗ ⃗S (10.73)

onde ⃗L⊗IS é um operador independente de spin estendido ao espaço produto através do operador identidade
no espaço de spin; e Ir ⊗ ⃗S é um operador independente dos graus de liberdade associada a posição,
264 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

Figura 10.2 Representação da adição do momentum angular ⃗J = ⃗L + ⃗S.

estendido também ao espaço produto através do operador identidade no espaço ket sem spin. Desde que ⃗L
e ⃗S comutam,
[⃗L, ⃗S] = 0 ⇒ D(R) = Dorb (R) ⊗ Dspin (R)
= e− ~ L · n̂φ ⊗ e− ~ S · n̂φ .
i⃗ i⃗
(10.74)
1
A função de onda para partícula com spin 2 tem duas componentes
( )
ψ+ (⃗r)
⟨⃗r, ±|ψ⟩ = ψ± (⃗r) = (10.75)
ψ− (⃗r)
onde |ψ± (⃗r)|2 é a densidade de probabilidade de encontrarmos a partícula na posição ⃗r com o spin up e
down, respectivamente.
Há 2(2l+1) estados produto |l, m, ±⟩ que são autoestados de ⃗L2 , Lz , ⃗S2 e Sz . Como veremos, podemos
também usar a base feita dos autoestados de ⃗L2 , Lz , ⃗S2 e Sz . O ket |j, mj , l⟩ denota tal autoestado.
Assumiremos para uma partícula de spin 12 que j = l ± 12 . A pergunta que ocorre será: Isso faz sentido?
Em outras palavras, qual é a dimensão desse espaço? O número de estados será dado por
( ) ( )
1 1
2 l+ +1+2 l− + 1 = 2(2l + 1)
2 2
que é o número correto de estados. Logo, faz sentido uma partícula de spin 1
2 com j = l ± 12 .
Como ponto de partida, faremos o ansatz tal que
1 1
|l + , l + , l⟩ = |l, l, +⟩ . (10.76)
2 2
O estado do lado esquerdo da equação é um autoestado de ⃗J2 , Jz , ⃗L2 , e ⃗S2 , o estado do lado direito da
mesma equação é um autoestado de ⃗L2 , Lz , Sz , e ⃗S2 . É simples provar que esse ansatz faz sentido.
Prova. Lembrando que

L± |l, m⟩ = (l ± m + 1)(l ∓ m)~ |l, m ± 1⟩
⃗J2 = ⃗L2 + ⃗S2 + 2⃗L · ⃗S = ⃗L2 + ⃗S2 + 2Lz Sz + L+ S− + L− S+ .

Aplicando as relações acima no estado em questão, temos


1
Jz |l, l, +⟩ = (Lz + Sz )|l, l, +⟩ = ~(l + )|l, l, +⟩
2
⃗J2 |l, l, +⟩ = ~2 (l(l + 1) + + 2l · )|l, l, +⟩ = ~2 (l + 1 )(l + 3 )|l, l, +⟩ .
3 1
4 2 2 2
10.8. A DIÇÃO DE Momentum A NGULAR 265

Um estado geral qualquer |l + 12 , mj , l⟩ poderá ser criado através de sucessivas aplicações de J− =


L− + S− . Primeiro iremos aplicar o operador de abaixamento J− no estado |l + 21 , l + 21 , l⟩ = |l, l, +⟩

1 1 1 1 1
J− |l + , l + , l⟩ = 2(l + )~ |l + , l − , l⟩
2 2 2 2 2

= J− |l, l, +⟩ = 2l~ |l, l − 1, +⟩ + ~ |l, l, −⟩ (10.77)

normalizando, temos
√ √
1 1 2l 1
|l + , l − , l⟩ = |l, l − 1, +⟩ + |l, l, −⟩ . (10.78)
2 2 2l + 1 2l + 1
Após sucessivas aplicações de J− , temos o estado geral
√ √
1 l + mj + 2 1
1 l − mj + 1
1
|l + , mj , l⟩ = |l, mj − , +⟩ + 2
|l, mj + , −⟩ (10.79)
2 2l + 1 2 2l + 1 2

onde −(l + 12 ) ≤ mj ≤ l + 12 .
Analogamente,
√ √
1 l + mj + 1
1 l − mj + 1
1
|l − , mj , l⟩ = − 2
|l, mj − , +⟩ + 2
|l, mj + , −⟩ (10.80)
2 2l + 1 2 2l + 1 2

onde −(l − 12 ) ≤ mj ≤ l − 12 . É simples verificar que esses estados em (10.80) são ortogonais aos estados
em (10.79) e que eles são autoestados de ⃗J2 e Jz com autovalores j = l − 12 e mj .

Duas Partículas de Spin 1


2
Neste caso, o operador de spin total ⃗S é dado por

⃗S ≡ ⃗S1 ⊗ I + I ⊗ ⃗S2 ≡ ⃗S1 + ⃗S2 (10.81)

naturalmente, dentro do espaço do elétron 1 e 2 valem as seguintes relações de comutação:

[S1i , S2j ] = 0 (10.82)

mas
[S1i , S1j ] = i ~εijk S1k [S2i , S2j ] = i ~εijk S2k (10.83)
e
[Si , Sj ] = i ~εijk Sk (10.84)
para o operador spin total.
Os autovalores dos operadores de spin são:
( )2
⃗S2 = ⃗S1 + ⃗S2 : s(s + 1)~2

Sz = S1z + S2z : m~
S1z : m1 ~
S2z : m2 ~ . (10.85)

Novamente, existe duas diferentes representações dos estados do spin total:

1. A representação {m1 , m2 } baseada nos autokets de S1z e S2z

| + +⟩, | + −⟩, | − +⟩, | − −⟩ ; (10.86)


266 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

2. A representação {s, m} baseada nos autokets de ⃗S2 e Sz

|s = 1, m = 1⟩ = | + +⟩ (10.87a)
1
|s = 1, m = 0⟩ = √ (| + −⟩ + | − +⟩) (10.87b)
2
|s = 1, m = −1⟩ = | − −⟩ (10.87c)
1
|s = 0, m = 0⟩ = √ (| + −⟩ − | − +⟩) . (10.87d)
2

Os estados com s = 1 e m = ±1, 0 são conhecidos como estado tripleto do spin, enquanto o estado s = 0
e m = 0 é conhecido como estado singleto do spin.
Para obter (10.87b) de (10.87a) aplicamos o operador S− em (10.87a). Lembrando que

S− ≡ S1− + S2−
= (S1x − i S1y ) + (S2x − i S2y ) (10.88)

podemos escrever
S− |s = 1, m = 1⟩ = (S1− + S2− )| + +⟩ (10.89)
como
√(
)( )
√ 1 1 1 1
(1 + 1)(1 − 1 + 1)|s = 1, m = 0⟩ = + − + 1 | − +⟩
2 2 2 2
√( )( )
1 1 1 1
+ + − + 1 | + −⟩ (10.90)
2 2 2 2

temos a relação (10.87b). Finalmente podemos obter (10.87c) aplicando S− em (10.87b), e para obter
(10.87d) requer que seja ortogonal com os outros três kets, em particular com (10.87b).
Os coeficientes que aparecem nas Eqs. (10.87a)-(10.87d) são exemplos simples dos coeficientes de
Clebsch-Gordon. 15 Eles são simplesmente os elementos da matriz de transformação que conecta a base
{m1 , m2 } com a base {s, m}.

Teoria Formal - Caso Geral Como já vimos o operador ⃗J é a soma do operador momentum angular
orbital ⃗L com o momentum angular de spin ⃗S, i.e.,

⃗J = ⃗L + ⃗S . (10.91)

Tendo em vista que ⃗L depende das coordenadas espaciais e o operador de spin é independente dessas
coordenadas, temos que
[⃗L, ⃗S] = 0 . (10.92)
Consequentemente,
[⃗J, ⃗S] = 0 . (10.93)
A seguir, vamos considerar dois operadores de momentum angular para as partículas 1 e 2 independentes,
i.e., em subespaços diferentes, os operadores são: ⃗J1 e ⃗J2 , respectivamente. As componentes de ⃗J1 (⃗J2 )
satisfazem as relações de comutação para o momentum angular

[J1i , J1j ] = i ~εijk J1k (10.94a)


[J2i , J2j ] = i ~εijk J2k . (10.94b)
15
Rudolf Friedrich Alfred Clebsch (1833–1872), matemático alemão.
Paul Albert Gordon (1837–1912), matemático alemão.
10.8. A DIÇÃO DE Momentum A NGULAR 267

Entretanto
[⃗J1 , ⃗J2 ] = 0 (10.95)
entre qualquer par de operadores em diferentes subespaço.
O operador de rotação infinitesimal que afeta os dois subespaço, da partícula 1 e da partícula 2, será
( ) ( )
i⃗ i⃗ i (⃗ )
1 − J1 · n̂δφ ⊗ 1 − J2 · n̂δφ = 1 − J1 ⊗ I + I ⊗ ⃗J2 · n̂δφ (10.96)
~ ~ ~

o que nos leva ao operador momentum angular total


⃗J = ⃗J1 ⊗ I + I ⊗ ⃗J2 (10.97)

ou simplesmente
⃗J = ⃗J1 + ⃗J2 . (10.98)
Usando a ideia de rotação em um ângulo finito, (10.96) ficará

D1 (R) ⊗ D2 (R) = e− ~ J1 · n̂φ ⊗ e− ~ J2 · n̂φ .


i⃗ i⃗
(10.99)

É importante lembrar que o momentum angular total ⃗J satisfaz as relações de comutação

[Ji , Jj ] = i ~εijk Jk . (10.100)

Com isso, podemos escolher um conjunto de base, i.e., autokets simultâneos de ⃗J21 , J1z , ⃗J22 e J2z re-
presentado por |j1 j2 ; m1 m2 ⟩. 16 Consideremos que esses autoestados formam um conjunto de base com-
pleto. Por exemplo, para valores fixos de j1 e j2 temos m1 = −j1 , −j1 + 1, −j1 + 2, · · · , j1 e m2 =
−j2 , −j2 + 1, −j2 + 2, · · · , j2 . 17 Obviamente os quatro operadores ⃗J21 , J1z , ⃗J22 e J2z comutam entre eles.
Usando essas informações podemos escrever as seguintes relações:
⃗J2 |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ = j1 (j1 + 1)~2 |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ (10.101a)
1
J1z |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ = m1 ~ |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ (10.101b)
⃗J2 |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ = j2 (j2 + 1)~2 |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ (10.101c)
2
J2z |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ = m2 ~ |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ . (10.101d)

De maneira semelhante, os operadores de levantamento e abaixamento para os spin 1 e 2 agem sobre o


estado |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ de acordo com

J1± |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ = (j1 ∓ m1 )(j1 ± m1 + 1)~ |j1 j2 ; m1 ± 1, m2 ⟩ (10.102a)

J2± |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ = (j2 ∓ m2 )(j2 ± m2 + 1)~ |j1 j2 ; m1 , m2 ± 1⟩ . (10.102b)

Contudo a base escolhida acima somente tem validade se os dois sistemas caracterizados por j1 e j2 não
interagem, ou o fazem muito fracamente. Desse modo, os estados |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ podem ser usados como
autoestados não perturbados, em termos dos quais, autoestados perturbados podem ser descritos.
Por outro lado, se a interação entre ⃗J1 e ⃗J2 for suficientemente forte, de tal forma que temos um sis-
tema acoplado ⃗J1 · ⃗J2 , devemos fazer uso de operadores que comutam com a hamiltoniana do sistema.
Um exemplo disso é a correção que introduz o acoplamento spin-órbita na hamiltoniana, de acordo com a
expressão
HSO = υ (r)⃗L · ⃗S
16
O autoestado aqui representado
|j1 j2 ; m1 m2 ⟩ = |j1 m1 ⟩ ⊗ |j2 m2 ⟩ = |j1 m1 ⟩|j2 m2 ⟩
em alguns livros aparece como |j1 m1 ; j2 m2 ⟩.
17
Com os valores j1 e j2 fixos, alguns livros costumam simplificar a representação dos estados de base, escrevendo somente
|m1 m2 ⟩, ao invés de |j1 j2 ; m1 m2 ⟩.
268 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

onde, neste tipo de acoplamento, ⃗J1 = ⃗L e ⃗J2 = ⃗S não comutam com a hamiltoniana HSO . 18 Caso uma
interação como essa ocorra, J1z e J2z deixam de ser constantes de movimento. Neste caso, devemos usar
operadores que comutam com a hamiltoniana do sistema. Sabe-se que as interações internas de um sistema
acoplado não afetam o momentum angular total, que é conservado. Dessa forma é conveniente fazer uso dos
operadores ⃗J e Jz ao invés de J1z e J2z . Lembrando que ⃗J é o momentum angular total do sistema formado
por ⃗J1 e ⃗J2 , temos
⃗J = ⃗J1 + ⃗J2 (10.103)
e

⃗J2 = ⃗J2 + ⃗J2 + ⃗J1 · ⃗J2


1 2
⃗ 2 ⃗ 2
= J + J + 2J1z J2z + J1+ J2− + J1− J2+ . (10.104)
1 2

O operador de projeção será


Jz = J1z + J2z . (10.105)
É claro que os operadores ⃗J2 e Jz comutam com ⃗J21 e ⃗J22 , devido a relação

[J1i , J2j ] = 0 . (10.106)

Portanto, o produto interno dos operadores ⃗J1 · ⃗J2 também comuta com a hamiltoniana do sistema. Assim,
podemos designar uma nova base |j1 j2 ; jm⟩ como autoestados simultâneos desses quatro operadores ⃗J21 ,
⃗J2 , ⃗J2 e Jz , tal que:
2

⃗J2 |j1 j2 ; jm⟩ = j1 (j1 + 1)~2 |j1 j2 ; jm⟩ (10.107a)


1
⃗J |j1 j2 ; jm⟩ = j2 (j2 + 1)~2 |j1 j2 ; jm⟩
2
(10.107b)
2
⃗J2 |j1 j2 ; jm⟩ = j(j + 1)~2 |j1 j2 ; jm⟩ (10.107c)
Jz |j1 j2 ; jm⟩ = m~ |j1 j2 ; jm⟩ . (10.107d)

Note que os estados |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ e |j1 j2 ; jm⟩ são apenas diferentes bases num mesmo espaço, o espaço
de estados dentro do qual os momenta angulares ⃗J1 e ⃗J2 ficam definidos, o ket |j1 j2 ; jm⟩ pode ser escrito
como uma combinação linear dos estados |j1 j2 ; m1 m2 ⟩. Essa combinação linear que conecta as duas bases
é geralmente expressa, levando em conta uma transformação unitária, da seguinte forma
∑∑
|j1 j2 ; jm⟩ = |j1 j2 ; m1 m2 ⟩⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; jm⟩ (10.108)
m1 m2

onde temos ∑∑
|j1 j2 ; m1 m2 ⟩⟨j1 j2 ; m1 m2 | = 1 . (10.109)
m1 m2

Os elementos da matriz de transformação ⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; jm⟩ são os coeficientes de Clebsch-Gordon. 19


Simplificando a notação anterior, escrevemos

⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; jm⟩ = ⟨m1 m2 |jm⟩

e j1 e j2 são os máximos valores de m1 e m2 .


18
A quantidade υ (r) que aparece em HSO é expressa por

1 1 dV (r) 1 Ze2
υ (r) = 2 2
=
2µ c r dr 2µ2 c2 r3
e V (r) é o potencial de Coulomb.
19
As vezes chamado coeficientes de Wigner.
10.8. A DIÇÃO DE Momentum A NGULAR 269

Aqui, estamos preparados para discutir algumas propriedades dos coeficientes de Clebsch-Gordon. Pri-
meiro, aplicando Jz = J1z + J2z em (10.108) e tendo como autovalores

Jz |j1 j2 ; jm⟩ = m~ |j1 j2 ; jm⟩


J1z + J2z |j1 j2 ; m1 m2 ⟩ = (m1 + m2 )~ |j1 j2 ; m1 m2 ⟩

podemos concluir que os números quântico m estão sujeitos a seguinte regra de seleção,

⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; jm⟩ = 0

se não tivermos
m = m1 + m2 . (10.110)

Prova. Note que


(Jz − J1z − J2z )|j1 j2 ; jm⟩ = 0 (10.111)

multiplicando ⟨j1 j2 ; m1 m2 | do lado esquerdo da equação acima, encontramos

(m − m1 − m2 )⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; jm⟩ = 0 (10.112)

no que temos a prova de nossa argumentação. Perceba e admire a força da notação de Dirac!

Segundo, os coeficientes se anulam se não tivermos

|j1 − j2 | ≤ j ≤ j1 + j2

Esta propriedade parece obvia. Devemos lembrar que o operador ⃗J1 é definido no espaço de dimensão
2j1 + 1 e o operador ⃗J2 é definido no espaço de dimensão 2j2 + 1. Lembremos ainda que |j1 m1 ⟩ constituem
os autoestados de base dos operadores ⃗J21 e J1z , enquanto |j2 m2 ⟩ constituem os autoestados de base dos
operadores ⃗J22 e J2z . O operador ⃗J é então definido num espaço combinado de ⃗J1 e ⃗J2 . Esse novo espaço,
conhecido como espaço produto, tem dimensão

N = (2j1 + 1)(2j2 + 1)

porque para dado j1 existe 2j1 + 1 possíveis valores de m1 , e similarmente para dado j2 existe 2j2 + 1
possíveis valores de m2 . Como para cada dado j existe 2j + 1 estados, e de acordo com

|j1 − j2 | ≤ j ≤ j1 + j2 ,

os valores de j irão de j1 −j2 até j1 +j2 , onde assumimos, sem perda de generalidades, que j1 ≥ j2 . Assim,
a dimensão será

j∑
1 +j2

N= (2j + 1)
j=j1 −j2
1
= [{2(j1 − j2 ) + 1} + {2(j1 + j2 ) + 1}] (2j2 + 1)
2
= (2j1 + 1)(2j2 + 1) (10.113)

como havíamos anunciado.


270 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

Relação de Recorrência para os Coeficientes de Clebsch-Gordon Usando a notação simplificada e


aplicando os operadores J± = J1± + J2± em (10.108), temos as seguintes relações de recorrência para os
coeficientes de Clebsch-Gordon

(j ± m)(j ∓ m + 1) ⟨m1 m2 |j, m ∓ 1⟩

= (j1 ∓ m1 )(j1 ± m1 + 1) ⟨m1 ± 1, m2 |j, m⟩

+ (j2 ∓ m2 )(j2 ± m2 + 1) ⟨m1 , m2 ± 1|j, m⟩ . (10.114)

Faremos uma ilustração da utilidade da equação dada acima. Consideremos m1 = j1 e m = j em


(10.114), usando os sinais superiores. Nesta condição ⟨m1 m2 |j, m − 1⟩, o resultado não trivial para m2
poderá ter somente o valor m2 = j − j1 − 1. Note que em condições gerais ⟨m1 m2 |j, m ± 1⟩, temos
m1 + m2 = m ± 1. Para os valores ilustrados em nosso caso, substituindo em (10.114), temos

(j + j)(j − j + 1) ⟨j1 , j − j1 − 1|j, j − 1⟩

= (j1 − j1 )(j1 + j1 + 1) ⟨j1 + 1, j − j1 − 1|j, j⟩

+ (j2 − j + j1 + 1)(j2 + j − j1 − 1 + 1) ⟨j1 , j − j1 − 1 + 1|j, j⟩

ou

2j ⟨j1 , j − j1 − 1|j, j − 1⟩

= (j2 − j + j1 + 1)(j2 + j − j1 ) ⟨j1 , j − j1 |j, j⟩ . (10.115)

Usando agora os sinais inferiores de (10.114), e considerando m1 = j1 e m = j − 1. Neste caso, o resultado


não trivial para m2 será somente o valor m2 = j − j1 . Resolvendo de maneira análoga, temos

2j ⟨j1 , j − j1 |j, j⟩

= 2j1 ⟨j1 − 1, j − j1 |j, j − 1⟩

+ (j2 + j − j1 )(j2 − j + j1 + 1) ⟨j1 , j − j1 − 1|j, j − 1⟩ . (10.116)

De acordo com a relação (10.115), o termo ⟨j1 , j −j1 −1|j, j −1⟩ poderá ser determinado se ⟨j1 , j −j1 |j, j⟩
for conhecido. Consequentemente, da relação (10.116) podemos calcular o termo ⟨j1 − 1, j − j1 |j, j − 1⟩
conhecendo os dois coeficientes anteriores.
Aplicando sucessivamente os operadores de levantamento e abaixamento, iremos limitar o valor de j, tal
que para a regra de seleção dada em (10.110) e demonstrada em (10.112), o coeficiente de Clebsch-Gordon
é diferente de zero somente se
−j2 ≤ j − j1 ≤ j2 .
Logo,
j1 − j2 ≤ j ≤ j1 + j2
e
j2 − j1 ≤ j ≤ j1 + j2 .
Assim, temos a condição triangular
|j1 − j2 | ≤ j ≤ j1 + j2 (10.117)
onde os inteiros positivos ou semi-inteiros j1 , j2 , j são de tal forma que constituem os três lados de um
triângulo. Desde que m = m1 + m2 esteja entre −j e j

j = j1 + j2 , j1 + j2 − 1, · · · , |j1 − j2 | + 1, · · · , |j1 − j2 | (10.118)

Todos os números quânticos j1 , j2 , j são inteiros, ou dois deles são semi-inteiros e um inteiro.
Como já mencionamos, para valores fixos de j1 e j2 na relação (10.108), temos uma base com dimensão
(2j1 + 1)(2j2 + 1) e da relação (10.118) novamente vemos (2j1 + 1)(2j2 + 1) no número da dimensão.
10.8. A DIÇÃO DE Momentum A NGULAR 271

Da relação de recorrência (10.114) está claro que todos os coeficientes de Clebsch-Gordon são números
reais, se um deles, ⟨j1 j2 ; j1 , j − j1 |j1 j2 ; jj⟩, for escolhido real. A matriz unitária real é ortogonal. Sendo
assim, os coeficientes de Clebsch-Gordon satisfazem a condição de ortogonalidade

⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; jm⟩⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; j ′ m′ ⟩ = δmm′ δjj ′ (10.119)
m1 m2

ou inversamente

⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; jm⟩⟨j1 j2 ; m′1 m′2 |j1 j2 ; jm⟩ = δm1 m′1 δm2 m′2 . (10.120)
jm

Uma das mais importantes relações de simetria para os coeficientes de Clebsch-Gordon estão sumari-
zadas pela equação abaixo:

⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; jm⟩ = (−1)j−j1 −j2 ⟨j2 j1 ; m2 m1 |j2 j1 ; jm⟩


= ⟨j2 j1 ; −m2 , −m1 |j2 j1 ; j, −m⟩ . (10.121)

Alguns autores as vezes usam notações diferentes para os coeficientes de Clebsch-Gordon. Eles podem
escrever esses coeficientes em termos de 3j símbolo de Wigner, o qual encontramos ocasionalmente na
literatura. ( )
j1 −j2 +m
√ j1 j2 j
⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; jm⟩ = (−1) 2j + 1 . (10.122)
m1 m2 −m

Os coeficientes em (10.122) foram primeiramente calculados por Wigner em 1931, 20 e suas propriedades
de simetrias foram primeiramente derivadas por Racah 21 em 1942. 22
Um último exemplo, iremos calcular os coeficientes de Clebsch-Gordon para partículas de spin 12 , pois
são frequentemente necessários. Então, para j2 = 12 , da relação de recorrência (10.114), da condição de
normalização (10.119) e convencionando ⟨j1 , 12 ; j1 , j − j1 |j1 , 21 ; jj⟩ para ser real e positivo

⟨ ⟩
1 1 1 1 1 j1 ± m + 1
j1 , ; m − , j1 , ; j1 ± , m = ± 2
2 2 2 2 2 2j1 + 1
(10.123)

⟨ ⟩
1 1 1 1 1 j1 ∓ m + 1
j1 , ; m + , − j1 , ; j1 ± , m = 2
2 2 2 2 2 2j1 + 1

desde que os valores associados à j são j = j1 ± 21 .


Se a representação de coordenada é usada para os autoestados do momentum angular orbital ⃗L e se,
como feito usualmente, os autoestados {|±⟩} de Sz forem escolhidos como base para representação do
spin, o momentum angular total ⃗J = ⃗L + ⃗S e seus autoestados serão representados pelo produto direto
spin⊗base das coordenadas. Para autoestados comum aos operadores Jz e ⃗J2 representados por Yljm , com
j1 = l, temos
 √ 
m− 12
1 1 ± l ± m + 1
Y
l± ,m
Yljm = Yl 2 = √ √ 2 l  (10.124)
m+ 12
2l + 1 l∓m+ Y 1
2 l

para os autoestados com j = l ± 12 . Estes autoestados acoplados têm um importante papel na mecânica
quântica para sistemas com um simples elétron e um simples núcleon.
20
E. P. Wigner, Gruppentheorie, (1931).
21
Giulio (Yoel) Racah (1909–1965), matemático e físico italiano-israelense.
22
G. Racah, Physical Review, 62, 438–462 (1942).
272 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

Coeficientes de Racah Vamos considerar nosso sistema constituído de três sistemas distintos com mo-
menta angulares ⃗J1 , ⃗J2 e ⃗J3 respectivamente. O momentum angular total será
⃗J = ⃗J1 + ⃗J2 + ⃗J3 .

Temos três formas diferentes para construirmos o momentum angular total ⃗J, são elas:
(i) Fazendo primeiramente a soma de ⃗J1 + ⃗J2 = ⃗J12 , para então termos ⃗J12 + ⃗J3 = ⃗J. Com esse
esquema produzimos os autokets

|(j1 j2 )j12 j3 ; jm⟩ = |j1 j2 j3 m1 m2 m3 ⟩⟨j1 j2 m1 m2 |j12 m12 ⟩⟨j12 j3 m12 m3 |jm⟩ (10.125)
m1 ,m2 ,m3

comuns para ⃗J21 , ⃗J22 , ⃗J23 , ⃗J212 , ⃗J2 e Jz ;


(ii) Agora faremos primeiramente a soma de ⃗J2 + ⃗J3 = ⃗J23 , para então termos ⃗J1 + ⃗J23 = ⃗J. Com
esse esquema produzimos os autokets

|j1 (j2 j3 )j23 ; jm⟩ = |j1 j2 j3 m1 m2 m3 ⟩⟨j2 j3 m2 m3 |j23 m23 ⟩⟨j1 j23 m1 m23 |jm⟩ (10.126)
m1 ,m2 ,m3

comuns para ⃗J21 , ⃗J22 , ⃗J23 , ⃗J223 , ⃗J2 e Jz ;


(iii) Finalmente faremos a soma de ⃗J1 +⃗J3 = ⃗J13 , para então termos ⃗J13 +⃗J2 = ⃗J. Com esse esquema
produzimos os autokets similares ao do esquema (ii)

|j1 j2 j3 (j13 ); jm⟩ = |j1 j2 j3 m1 m2 m3 ⟩⟨j1 j3 m1 m3 |j13 m13 ⟩⟨j2 j13 m2 m13 |jm⟩ (10.127)
m1 ,m2 ,m3

comuns para ⃗J21 , ⃗J22 , ⃗J23 , ⃗J213 , ⃗J2 e Jz .


Assim, podemos fazer a escolha entre três diferentes conjuntos de vetores base para o momentum angular
total. Em muitos problemas necessitamos passar de um conjunto para outro. A transformação aqui envol-
vida é uma transformação unitária. Como exemplo, vamos tomar os dois primeiros conjuntos, (10.125) e
(10.126), ∑
|j1 (j2 j3 )j23 ; jm⟩ = |(j1 j2 )j12 j3 ; jm⟩⟨(j1 j2 )j12 j3 j|j1 (j2 j3 )j23 j⟩ . (10.128)
j12

É fácil verificar que os coeficientes dessa transformação unitária são independentes de m, porém são depen-
dentes de j1 , j2 , j3 , j12 , j23 e j. Em geral não fazemos uso direto desses coeficientes, é mais conveniente
escrever esses coeficientes em termos dos 6j símbolos de Wigner, definidos por
{ }
√ j1 j2 j12
⟨(j1 j2 )j12 j3 j|j1 (j2 j3 )j23 j⟩ = (−1) j1 +j2 +j3 +j
(2j12 + 1)(2j23 + 1) (10.129)
j3 j j23

ou em termos dos seguintes coeficientes definidos por



⟨(j1 j2 )j12 j3 j|j1 (j2 j3 )j23 j⟩ = (2j12 + 1)(2j23 + 1) W (j1 j2 jj3 ; j12 j23 ) (10.130)

onde W (j1 j2 jj3 ; j12 j23 ) são os chamados coeficientes de Racah. 23 A expressão geral para esses coeficientes
é

W (abcd; ef ) =∆R (abe)∆R (cde)∆R (acf )∆R (bdf )



× (−1)a+b+c+d+ν (ν + 1)! [(ν − a − b − e)!(ν − c − d − e)!
ν
× (ν − a − c − f )!(ν − b − d − f )!(a + b + c + d − ν)!
× (a + d + e + f − ν)!(b + c + e + f − ν)!]−1 (10.131)
23
G. Racah, Physical Review, 62, 438–462 (1942); Idem, 63, 367 (1943).
10.8. A DIÇÃO DE Momentum A NGULAR 273

onde o somatório é sobre todos os inteiros tal que nenhum dos argumentos fatoriais sejam negativos, e os
∆R são as funções triângulo de Racah, definidas por
[ ]1
(a + b − c)!(b + c − a)!(c + a − b)! 2
∆R (abc) = (10.132)
(a + b + c + 1)!
se todos argumentos dos fatoriais são inteiros não negativos, caso contrário ∆R (abc) = 0.
O tratamento dado acima para o caso da adição de três momenta angular poderá ser generalizado para a
adição de um grande número de momenta angular,
⃗J = ⃗J1 + ⃗J2 + · · · + ⃗Jn .

Neste caso os coeficientes da transformação unitária serão representados na forma 3(n − 1)j símbolos de
Wigner. Esses símbolos são formados pelo somatório sobre todos os índices m dos 2(n − 1) coeficientes
de Clebsch-Gordon. Então, se temos a soma de dois momenta, temos 3j símbolos; na soma de três mo-
menta, temos 6j símbolos; na soma de quatro momenta, temos 9j símbolos e finalmente na soma de cinco
momenta, temos 12j símbolos.

Séries de Clebsch-Gordon A adição do momentum angular pode ser discutida do ponto de vista das
matrizes de rotação. Dentro da ideia do grupo de rotação a representação do produto direto Dj1 (R) ⊗
Dj2 (R) é inicialmente relatada como a soma de ⃗J = ⃗J1 +⃗J2 , e sob essas rotações temos transformações de
espaços do produto direto com dimensão (2j1 + 1)(2j2 + 1), e a redução consiste em determinar os subes-
paços invariantes contidos nesse espaço. Desde que as representações irredutíveis são caracterizadas pelos
autovalores de ⃗J2 , o número quântico j inteiro ou semi-inteiro, podemos assumir valores entre |j1 − j2 | e
j1 + j2 , de tal forma que o produto Dj1 (R) ⊗ Dj2 (R) tem sua representação matricial dada por
 (j +j ) 
D 1 2 0
 D(j1 +j2 −1) 
 
Dj1 ⊗ Dj2 →  .. . (10.133)
 . 
0 D|j1 −j2 |
Em física de partículas, é costume identificar a representação irredutível por sua dimensionalidade. Note
que podemos escrever a Eq. (10.133) usando a notação de teoria de grupo
Dj1 ⊗ Dj2 = D(j1 +j2 ) ⊕ D(j1 +j2 −1) ⊕ · · · ⊕ D|j1 −j2 | . (10.134)
Em termos dos elementos das matrizes de rotação, temos uma importante expansão conhecida como as
séries de Clebsch-Gordon
j1 j2
∑∑∑
Dm 1m
′ (R)Dm m′ (R) =
2
⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; jm⟩
1 2
j m m′

× ⟨j1 j2 ; m′1 m′2 |j1 j2 ; jm′ ⟩ Dmm


j
′ (R) (10.135)
onde o somatório em j é realizado desde |j1 − j2 | até j1 + j2 .
Uma aplicação interessante de (10.135), é quando derivamos uma importante fórmula para uma integral

envolvendo três harmônicos esféricos. Primeiro devemos fazer a conexão entre Dm0 l e Ylm dado por

4π ∗
Dm,0
l
(α, β, γ = 0) = Ylm (θ, φ) .
(2l + 1) θ=β,φ=α

Usando j1 = l1 , j2 = l2 , j = l, m′1 = 0, m′2 = 0 (m′ → 0) em (10.135), obtemos depois de uma


conjugação complexa,

(2l1 + 1)(2l2 + 1) ∑
m1 m2
Yl1 (θ, φ) Yl2 (θ, φ) = ⟨l1 l2 ; m1 m2 |l1 l2 ; l′ m′ ⟩

l′ m′

4π ′
× ⟨l1 l2 ; 00|l1 l2 ; l′ 0⟩ Ym′ (θ, φ) . (10.136)
2l′ + 1 l
274 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS


Multiplicando os dois lados da equação acima por Ylm (θ, φ) e integrando pelo ângulo sólido, os somatórios
desaparecem devido a ortogonalidade dos harmônicos esféricos. Assim,


dΩ Ylm (θ, φ) Ylm 1
1
(θ, φ)Ylm
2
2
(θ, φ)

(2l1 + 1)(2l2 + 1)
= ⟨l1 l2 ; 00|l1 l2 ; l0⟩⟨l1 l2 ; m1 m2 |l1 l2 ; lm⟩ . (10.137)
4π(2l + 1)

O fator raiz quadrada multiplicado pelo primeiro coeficiente de Clebsch-Gordon é independente de orien-
tações, i.e., de m1 e m2 . O segundo coeficiente de Clebsch-Gordon é o apropriado para a adição de l1 e l2
afim de obter o valor total l. A relação (10.137) expressa, para um caso particular de harmônicos esféricos,
um teorema mais geral conhecido como teorema de Wigner-Eckart 24 .

10.9 Teorema de Wigner-Eckart


⃗ ↔ {Ax , Ay , Ax } como um conjunto de três operadores
Vamos intuitivamente definir o operador vetorial A
no espaço de Hilbert, cujo o valor esperado ⟨A⟩
⃗ é um vetor transformado sob rotações do vetor espaço de
coordenadas. Como o produto interno entre dois vetores são preservados sob uma rotação espacial, temos

⟨Ax ⟩
⃗ ↔ ⟨Ay ⟩
⟨A⟩
⟨Az ⟩
⟨ψ|A|ψ⟩
⃗ · ê = ⟨ψ ′ |A|ψ
⃗ ′ ⟩ · ê′ (10.138)

onde ψ é um estado arbitrário e ê é um vetor unitário no espaço de coordenadas, sendo que objetos dire-
cionados em ê′ são as imagens dos objetos direcionados em ê após uma rotação, onde n̂ e φ são o eixo e o
ângulo de rotação, a relação entre ê e ê′ é dada por

ê′ = [1 + (1 − cos φ)n̂ × (n̂×) + sen φn̂×] ê (10.139)

ou na forma matricial, usando as bases cartesianas {(x̂, ŷ, ẑ)}


3
e′i = Rij ej . (10.140)
j=1

Se usarmos UR para denotar a rotação no espaço de Hilbert

|ψ ′ ⟩ = UR |ψ⟩, ê′ = Rê .

Desde que

⟨ψ ′ |A|ψ
⃗ ′ ⟩ · ê′ = ⟨Ax ⟩e′ + ⟨Ay ⟩e′ + ⟨Az ⟩e′
x y z
′ ⃗ ′ ′
= ⟨ψ |A · ê |ψ ⟩

e
⟨ψ|A|ψ⟩
⃗ ⃗ · êU† |ψ ′ ⟩
· ê = ⟨ψ ′ |UR A R

temos
⃗ † · ê = A
UR AU ⃗ · ê′ . (10.141)
R
24
Carl Henry Eckart (1902–1973), físico americano.
C. Eckart, Review Modern Physics, 2, 305 (1930); E. P. Wigner, Gruppentheorie, (1931).
10.9. T EOREMA DE W IGNER -E CKART 275

Substituindo (10.140) em (10.141), obteremos



UR Aj U†R = Ai Rij (10.142)
i

que ainda podemos escrever de outra forma


   
Ax Ax
Ay  7→ R(n̂, φ) Ay 
Az Az
na qual mostra que a transformação de um operador vetorial sob uma rotação (n̂, φ) induz uma representa-
ção linear do grupo de rotação.
Por outro lado, é importante discutir o caso de rotações infinitesimais, representadas por exponenciais,
se φ = ε, nos encontraremos que
( ) ( )
i ⃗ i
1 − n̂ · Jε A ⃗ 1 + n̂ · ⃗Jε = A ⃗ − n̂ × A ⃗ ε
~ ~
ou [ ]
⃗ n̂ · ⃗J = i ~ n̂ × A
A, ⃗ (10.143)

que é necessariamente satisfeito por um n̂ arbitrário e para qualquer operador vetorial A.
Essa noção de operador vetorial poderá ser generalizada para definirmos os operadores tensoriais ou
operadores tensoriais esféricos, sendo um operador vetorial um operador tensorial esférico de ordem 1.
Como vimos anteriormente, o grupo de rotação tem uma representação linear no espaço vetorial de varias
dimensões, e o operador vetorial é representado com dimensão 3 = 2j + 1, i.e., quando a ordem j = 1. Para
uma ordem inteira não negativa e arbitrária k, definimos o tensor esférico ou operador tensorial esférico
irredutível. Esse é um conjunto de 2k + 1 operadores Tqk , com q = −k, −k + 1, · · · , k − 1, k, que satisfaz
a lei de transformação
∑ k

UR Tqk U†R = Tqk Dqq
k
′ (R) (10.144)
q ′ =−k
k (R) formam os elementos da matriz (q ′ , q) da representação linear de dimensão k da rotação R.
onde Dqq ′

Para ordem 1, com cálculo direto podemos mostrar que as componentes do tensor esférico de um ope-
rador vetorial arbitrário com componentes cartesianas (Ax , Ay , Az ) são
1
1 = − √ (Ax + i Ay )
T+1
2
0
T1 = Az
1
T−1
1 = √ (Ax − i Ay )
2
e se tomarmos como exemplo o operador posição⃗r para uma partícula em três dimensões, temos então para
as componentes do tensor esférico: ( )
x + iy x − iy
− √ , z, √ .
2 2
Uma definição mais conveniente para o tensor esférico é obtido levando em consideração a transformação
infinitesimal
( ) ( ) ∑ k ( )
i ⃗ q i ⃗ q′ ′ i ⃗
1 − n̂ · Jε Tk 1 + n̂ · Jε = Tk ⟨kq | 1 − n̂ · Jε |kq⟩
~ ~ ′
~
q =−k

ou
[ ] ∑
k

n̂ · ⃗J, Tqk = Tqk ⟨kq ′ |n̂ · ⃗J|kq⟩ (10.145)
q ′ =−k
276 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

onde n̂ é arbitrário nas direções ẑ e (x̂ ± i ŷ), e usando os elementos não nulos das matrizes Jz e J± , temos
[Jz , Tqk ] = q~ Tqk

[J+ , Tqk ] = (k − q)(k + q + 1)~ Tq+1
k (10.146)

[J− , Tk ] = (k + q)(k − q + 1)~ Tkq−1 .
q

Uma das mais importantes propriedades do tensor Tqk é fornecida pelo teorema de Wigner-Eckart. Esse
teorema afirma que o elemento de matriz espresso por ⟨α′ j ′ m′ |Tqk |αjm⟩, de qualquer componente desse
operador tensorial, decompõe-se em dois fatores: um é o coeficiente de Clebsch-Gordon ⟨jkmq|jkj ′ m′ ⟩,
que é independente de propriedades físicas do tensor, e o outro, um elemento de matriz reduzido do operador
tensorial esférico irredutível Tk , representado por ⟨α′ j ′ ||Tk ||αj⟩, que depende da natureza do tensor, dos
números quânticos do momento angular total j e j ′ e, possivelmente, de alguns outros números quânticos α
e α′ que em adição à j e m possam ser necessários para especificar completamente um estado de bases. Con-
tudo, eles não têm nenhuma dependência dos números quânticos magnéticos m, m′ e q. Matematicamente,
esse teorema pode ser expresso de uma maneira simplificada por
⟨α′ j ′ m′ |Tqk |αjm⟩ = ⟨jk; mq|jk; j ′ m′ ⟩⟨α′ j ′ ||Tk ||αj⟩ . (10.147)
Das propriedades fundamentais dos coeficientes de Clebsch-Gordon, temos que os elementos de matriz
⟨α′ j ′ m′ |Tqk |αjm⟩ são nulos, salvo se q = m′ − m. A prova desse teorema segue-se das definições básicas
dos operadores tensoriais.

Prova. Tomaremos o elemento de matriz (10.144) entre os estados ⟨α′ j ′ m′ | e |αjm⟩,



k

⟨α′ j ′ m′ |UR Tqk U†R |αjm⟩ = ⟨α′ j ′ m′ |Tqk |αjm⟩ Dqq
k
′ (R) (10.148)
q ′ =−k

usando as relações ∑
U†R |αjm⟩ = j∗
|αjm⟩Dmµ (R)
µ
e ∑ ′
⟨α′ j ′ m′ |UR = j
Dm ′ ′ ′
′ µ′ (R)⟨α j m |

µ′
temos
∑ ′ ∑
k

′ ′ ′ j∗
j
Dm q
′ µ′ (R)⟨α j m |Tk |αjm⟩Dmµ (R) = ⟨α′ j ′ m′ |Tqk |αjm⟩ Dqq
k
′ (R) . (10.149)
µµ′ q ′ =−k

Da propriedade do produto de duas matrizes de rotação


∑∑∑
Dmj1
1m
j2
′ (R)Dm m′ (R) =
2
⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; jm⟩⟨j1 j2 ; m′1 m′2 |j1 j2 ; jm′ ⟩ Dmm
j
′ (R)
1 2
j m m′

usando a condição unitária para as matrizes D e a ortogonalidade dos coeficientes de Clebsch-Gordon,


podemos derivar a relação homogênea linear para esses coeficientes como
∑ ∑ j ∗
⟨j1 j2 ; m′1 m′2 |j1 j2 ; j3 m3 ⟩ Dm
j2
′ m (R) =
2
Dm
j3
3m
(R)⟨j1 j2 ; m1 m2 |j1 j2 ; j3 m⟩Dm1′ m (R) .
1
2 1
m′2 m1 m
(10.150)
Observando (10.149) e (10.150) podemos notar que as duas equações têm a mesma estrutura. Se identifi-
camos j = j1 , k = j2 e j ′ = j3 , podemos concluir que as duas soluções dessas relações de recorrência
homogênea linear serão proporcionais à
⟨α′ j ′ m′ |Tqk |αjm⟩ = ⟨jk; mq|jk; j ′ m′ ⟩⟨α′ j ′ ||Tk ||αj⟩
provando o teorema.
10.9. T EOREMA DE W IGNER -E CKART 277

O teorema de Wigner-Eckart pode ser aplicado para o cálculo do operador vetorial de momento magné-
tico no caso de acoplamento spin-órbita, como também no caso do tensor do momento quadrupolar, entre
outros.

Problemas
⃗σ · ⃗a
10.1 Considere a matriz 2 × 2 definida por U = aa00 +i
−i ⃗σ · ⃗a , onde a0 é um número real e⃗
a um vetor tridimen-
sional com componentes reais. Sendo ⃗σ as matrizes de Pauli, prove que U é unitário e unimodular.
Em geral uma matriz unitária unimodular 2 × 2 representa uma rotação em três dimensões, encontre
o eixo e o ângulo de rotação apropriado para U em termos de a0 e ⃗a.
(1) (2)
10.2 Ache e classifique os autovalores da hamiltoniana H = A(σz + σz ) + B⃗σ (1) · ⃗σ (2) , onde ⃗σ (1) e
⃗σ (2) são as matrizes de Pauli para o spin das partículas 1 e 2 respectivamente. Sugestão: Não leve em
conta o princípio de Pauli.
10.3 A hamiltoniana dependente do spin de um sistema elétron-pósitron ( na) presença de um campo magné-
−) +) (e −) (e+ )
tico na direção-ẑ pode ser escrita como H = A⃗S (e · ⃗S (e eB
+ µc (Sz − Sz ) . Supondo que
(e− ) (e+ )
a função do spin do sistema é dada por χ+ χ− .
a) Essa é a autofunção de H no limite A → 0, e eBµc ̸= 0? Se sim, qual o autovalor de energia? Se não,
qual o valor esperado de H?
b) O mesmo problema quando eB µc → 0, A ̸= 0.
[ ]
10.4 Ache os autovalores da matriz λik = xi , [⃗L2 , xk ] , em que i, k = 1, 2, 3, onde ⃗L2 = (⃗r × ⃗p)2 .

10.5 Calcule as matrizes correspondentes as componentes de spin de uma partícula de spin 1 na represen-
tação em que ⃗S2 e Sz são diagonais.
10.6 Um elétron está em um estado no qual a componente de spin ao longo do eixo-ẑ é + 21 . Determine a
probabilidade de que a componente de spin ao longo do eixo-ẑ ′ , que forma um ângulo θ com ẑ, seja
+ 21 ou − 12 . Qual o seu valor médio ao longo de ẑ ′ ?
10.7 Mostre que:
a) Em uma representação em que Jx e Jz são matrizes reais, Jy é dado por Jy = i A onde A é uma
matriz real e antissimétrica.
b) Se um operador comuta com duas das componentes do operador angular, comuta também com a
terceira componente.
c) Se um sistema está em um autoestado Jz , o valor médio de Jx e Jy são nulos.
d) Para um sistema no estado |τ jm⟩ do operador Jz , o valor médio da componente do momentum
angular ao longo da direção ẑ ′ , que forma um ângulo θ com o eixo ẑ, é igual a m cos θ.
10.8 Dado que as componentes de momentum angular não comutam, não é possível ter suas medidas si-
multaneamente. Supondo que o sistema está em um estado |τ jm⟩, calcule a relação entre j e m tal
que se obtenha a melhor precisão na medida de Jx e Jy .

10.9 Mostre que, no acoplamento spin-órbita, o produto interno ⃗L · ⃗S pode ser representado pela relação de
operadores ⃗L · ⃗S = Lz Sz + 12 (L+ S− + L− S+ ) .

10.10 Mostre que, entre autovetores simultâneos de ⃗J2 e Jz , existe as seguintes relações:

(j + m)!
|τ, j, ±m⟩ = (J∓ )j−m |τ, j, ±j⟩
(2j)!(j − m)!

(j + m)!
|τ, j, ±j⟩ = (J± )j−m |τ, j, ±m⟩
(2j)!(j − m)!
278 C AP. 10 ROTAÇÕES E O PERADORES T ENSORIAIS

10.11 Considere um sistema composto de duas partículas de spin 12 ignorando as variáveis orbitais. A ha-
miltoniana do sistema é: H = ω1 S1z +ω2 S2z , onde S1z e S2z são as projeções de ⃗S1 e ⃗S2 na direção ẑ,
e ω1 e ω2 são constantes reais. O estado inicial do sistema em t = 0 é, |ψ (0)⟩ = √12 [| + −⟩ + | − +⟩] .
( )2
No tempo t, ⃗S2 = ⃗S1 + ⃗S2 é medido. Que resultado podemos obter e com que probabilidade?

10.12 Considere a sequência de rotações de Euler representada por


( )
− i α+γ β − i α−γ β
1

σ3 α

σ2 β

σ3 γ e 2 cos −e 2 sen
D 2 (α, β, γ) = e i 2 e
i 2 e
i 2 = α−γ
2
α+γ
2
ei 2 sen β2 ei 2 cos β2
Devido as propriedades do grupo de rotações, esperamos que essa sequência de rotações seja equiva-
lente à uma simples rotação ao redor de algum eixo por um ângulo ϕ. Encontre ϕ.

10.13 Um autoestado do momentum angular |j, m = mmax = j⟩ é girado por um ângulo infinitesimal ε
sobre o eixo ŷ. Sem usar a forma explicita da função djm′ m , obter uma expressão para a probabilidade
de um novo estado girado ser encontrado no estado original até termos da ordem de ε2 .

10.14 A função de onda de uma partícula sujeita à um potencial esfericamente simétrico V (r) é dada por
ψ (⃗r) = (x + y + 3z)f (r)
a) ψ é uma autofunção de ⃗L2 ? Se sim, qual é o valor de l? Se não, quais são os possíveis de l que
podemos obter quando ⃗L2 for medido?
b) Quais as probabilidades da partículas ser encontrada em vários estados ml ?
c) Suponha que é conhecido alguma forma em que ψ (⃗r) é a autofunção de energia com autovalor E.
Indique como podemos encontrar V (r).

10.15 Considere uma partícula com o momentum angular intrínseco, ou spin, de uma unidade de ~. Um
exemplo de tal partícula é o méson ρ. Em mecânica quântica, tal partícula é descrito por um vetor ket
|ρ⟩ ou por uma função de onda na representação ⃗r, ρi (⃗r) = ⟨⃗r, i|ρ⟩ , onde |⃗r, i⟩ corresponde a uma
partícula em⃗r com spin na i-ésima direção.
i
a) Mostre explicitamente
( ) que as rotações infinitesimais de ρ (⃗r) são obtidas com a atuação do operador
U⃗ε = 1 − i ~⃗ε · ⃗L + ⃗S , onde ⃗L = ~i⃗r × ∇.⃗ Determine ⃗S!
b) Mostre que ⃗L e ⃗S comutam.
c) Mostre que ⃗S é um operador vetor.
d) Mostre que ∇ ⃗ ×ρ⃗(⃗r) = ~12 (⃗S ·⃗p)⃗
ρ, onde ⃗p é o operador momentum.

10.16 Vamos fazer a soma de momentum angular j1 = 1 e j2 = 1 para formar estados com j = 2, 1 e 0.
Usando o método de operadores ou a relação de recorrência, expresse todos os (nove) autokets {j, m}
em termos de |j1 j2 ; m1 m2 ⟩. Escreva sua resposta como |j = 1, m = 1⟩ = √12 |+, 0⟩ − √12 |0, +⟩ , · · · ,
onde + e 0 significa que m1,2 = 1, 0, respectivamente.

10.17 a) Construa um tensor esférico de ordem 1 vindo de dois diferentes vetores U ⃗ = (Ux , Uy , Uz ) e
⃗ = (Vx , Vy , Vz ). Escreva explicitamente T (1)
V ±1,0 em termos de Ux,y,z e Vx,y,z .
b) Construa um tensor esférico de ordem 2 vindo do dois diferentes vetores U ⃗ e V.
⃗ Escreva explicita-
(2)
mente T±2,±1,0 em termos de Ux,y,z e Vx,y,z .
∑j (j)
10.18 a) Resolva m=−j |dmm′ (β)|2 m para qualquer j inteiro ou semi-inteiro; então verifique sua resposta
para j = 12 .

b) Prove, para qualquer j, jm=−j m2 |dm′ m (β)|2 = 12 j(j + 1) sen2 β + m′ 2 21 (3 cos2 β − 1) .
(j)

Sugestão: Verifique as propriedades rotacionais de Jz2 usando o tensor irredutível esférico.

10.19 Considere uma partícula sem spin ligada a um centro fixo por um potencial de forças centrais.
a) Relate os elementos de matriz ⟨n′ , l′ , m′ | ∓ √12 (x ± i y)|n, l, m⟩ e ⟨n′ , l′ , m′ |z|n, l, m⟩, tanto quanto
10.9. T EOREMA DE W IGNER -E CKART 279

possível, usando somente o teorema de Wigner-Eckart.


b) Faça o mesmo problema usando as funções de onda ψ (⃗r) = Rnl (r)Ylm (θ, ϕ) .

10.20 a) Escreva xy, xz, e (x2 − y 2 ) como componentes de um tensor irredutível esférico de ordem 2.
b) O valor esperado Q ≡ e⟨α, j, m = j|(3z 2 − r2 )|α, j, m = j⟩ é conhecido como momento de
quadrupolo. Resolva e⟨α, j, m′ |(x2 − y 2 )|α, j, m = j⟩, onde m′ = j, j − 1, j − 2, · · · em termos de
Q e dos coeficientes de Clebsch-Gordon.

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomenda-se ao leitor, uma leitura detalhada dos excelentes trabalhos encontrados nos
livros:

– J. J. Sakurai [74];
– A. Messiah [62];
– L. D. Landau and E. M. Lifshitz [52].

O livro do Prof. Sakurai é muito profundo e detalhado, enquanto o livro do Prof. Messiah tem um trabalho
rigoroso do ponto de vista do formalismo matemático da mecânica quântica, já o livro do Prof. Landau é
uma clássico da literatura, magnifico e elegante.
Um trabalho clássico em teoria de grupo aplicado em mecânica quântica poderá ser encontrado nos
livros:

– E. P. Wigner [88];
– H. Weyl [86]
– M. E. Rose [73].

O livro de E. P. Wigner, tem seus trabalhos originais e é referência em todos os bons livros de mecânica
quântica que desenvolve rotações e operações tensoriais.
280
Capítulo 11
Não Localidade na Mecânica Quântica

Após a criação da mecânica quântica surgiram inconsistências que foram sintetizadas em 1935 no paradoxo
de Einstein, Podolsky 1 e Rosen 2 , mais conhecido como paradoxo EPR. Em 1964 Bell 3 colocou esse para-
doxo em termos quantitativos o que permitiu a execução de experimentos que concluíram pela validade da
mecânica quântica, dando plausibilidade ao conceito de não localidade.
Em 1935 Einstein, Podolski e Rosen utilizando de forma engenhosa os conceitos da mecânica quântica
juntamente com proposições sobre localidade, realidade e de completeza teórica (totalmente plausíveis)
demonstraram que em certas ocasiões os estados quânticos, ou apresentam a propriedade de não localidade,
ou não são descrições completas da realidade física. 4 Uma vez que a não localidade implica na possibili-
dade da transmissão de sinais com velocidade maior do que a da luz, preferiram se manter à conclusão da
incompleteza. Esse paradoxo será analisado com detalhe mais adiante.
Em 1964, Bell 5 analisou o paradoxo EPR sob a perspectiva dos trabalhos de Bohm 6 e derivou uma
desigualdade que abria a possibilidade de verificar experimentalmente as conclusões de EPR sobre in-
completeza. Esse trabalho é considerado como uma das descobertas seminais da física do século XX pois
equaciona de maneira clara e precisa aspectos fundamentais da mecânica quântica que antes eram apenas
objeto de divagações. Essa desigualdade será derivada mais adiante ainda nessa seção.

11.1 Paradoxo de Einstein, Podolsky e Rosen


Apesar de proporcionar contribuições que foram fundamentais para o desenvolvimento da mecânica quân-
tica convencional, Einstein sempre teve reservas a seu respeito. Em seus comentários um dos temas que lhe
despertavam maiores preocupações era a incompleteza da descrição teórica da mecânica quântica, provida
pela função de onda ψ. Em consequência, afirmava que a teoria quântica, na forma em que se apresentava,
estava limitada à mera discussão de resultados experimentais, e a percepção de que a essência da ciência é
a predição e controle de fenômenos físicos e de que qualquer progresso em física irá se realizar através da
manipulação de formalismos, ao invés do desenvolvimento da nossa concepção da realidade, foi se genera-
lizando. As críticas de Einstein eram elaboradas cuidadosamente. Até os nossos dias muitas de suas críticas
nunca foram respondidas satisfatoriamente.
A mais famosa dessas críticas está contida no paradoxo EPR. Eles analisaram um Gedankenexperiment
em que uma partícula decai em duas, e, mediante argumentos de conservação de momentum e de energia,
invocando o conceito de colapso de onda, concluem pela incompleteza da função de onda que representa o
estado quântico.
Bohm adaptou o argumento do paradoxo EPR a um par de partícula de spin 12 que se encontram no
1
Boris Podolsky (1896–1966), físico russo.
2
Nathan Rosen (1909–1995), físico israelense.
3
John Stewart Bell (1928–1990), físico irlandês.
4
A. Einstein, B. Podolsky and N. Rosen, Physical Review, 47, 777 (1935).
5
J. S. Bell, Physics, 1, 195 (1964).
6
D. Bohm, Quantum theory, (1951); D. Bohm, Physical Review, 85, 166 (1952); Ibidem, 180 (1952).

281
282 C AP. 11 NÃO L OCALIDADE NA M ECÂNICA Q UÂNTICA

estado |ψ⟩j . Nessa forma de apresentar o argumento, as variáveis de spin evidenciam de maneira clara as
conclusões, além de facilitarem a dedução da desigualdade de Bell que veremos adiante.
Duas partículas de spin 12 são produzidas por uma fonte S, por exemplo, o decaimento de uma molécula
com spin total 1 e que decai em dois átomos de spin 21 e se movem livremente em direções opostas conforme
está esquematizado na Fig. 11.1. A função de onda do sistema é dada por

Figura 11.1 Medida Stern-Gerlach no paradoxo EPR versão de Bohm.

1
ψ (⃗r1 ,⃗r2 ) = φ1 (⃗r1 )φ2 (⃗r2 ) √ [|+⟩1 |−⟩2 − |−⟩1 |+⟩2 ] (11.1)
2

onde φ1 (⃗r1 ) e φ2 (⃗r2 ) são funções de pacote de onda que não se sobrepõem e |±⟩1 e |±⟩2 são autofunções
do operador spin Sn̂1 e Sn̂2 na direção n̂ das partícula 1 e 2 respectivamente.
O estado descrito na relação (11.1) se refere ao sistema formado pelas partículas 1 e 2. Suponhamos que
ao efetuar uma medida de spin na partícula 1, mediante um aparato Stern-Gerlach com o campo magnético
na direção n̂, obtemos o resultado de spin up (ao longo de n̂). Neste caso, de acordo com a teoria quântica,
a função de onda dada pela expressão (11.1) se reduz (colapso da função de onda) a:

ψ (⃗r1 ,⃗r2 ) → φ1 (⃗r1 )φ2 (⃗r2 )|+⟩1 |−⟩2 . (11.2)

O resultado da medida é uma função de onda fatorizável o que nos permite concluir, sem que tenha havido
perturbação da partícula 2, que o seu estado é |−⟩2 . Esse resultado para o sistema 2 depende do tipo de
medida efetuada no sistema 1. Se tivéssemos efetuado a medida do spin do sistema 1 ao longo da direção
n̂′ , ver Fig. 11.1, o estado (11.1) devido à simetria rotacional seria escrito como

1 [ ]
ψ (⃗r1 ,⃗r2 ) = φ1 (⃗r1 )φ2 (⃗r2 ) √ |+⟩′1 |−⟩′2 − |−⟩′1 |+⟩′2 (11.3)
2

onde |±⟩′1 e |±⟩′2 são autofunções do operador de spin na direção n̂. Neste caso, se o resultado da medida
da partícula 1 nessa nova direção n̂′ for up, então a função de onda total se reduz para

ψ (⃗r1 ,⃗r2 ) → φ1 (⃗r1 )φ2 (⃗r2 )|+⟩′1 |−⟩′2 . (11.4)

Neste caso devemos atribuir o estado |−⟩′2 para o átomo 2 que não foi medido. Efetuando diferentes medidas
no átomo 1 estaremos obtendo estados diferentes para o átomo 2.
Feitas essas colocações e a fim de compreendermos o argumento EPR vamos definir as seguintes pro-
posições:

1. Correlação perfeita: se os spins das partículas 1 e 2 são medidos ao longo de uma direção o resultado
das medidas serão opostos;
11.2. VARIÁVEIS O CULTAS 283

2. Localidade: se no instante da medida os sistemas não mais interagem, não podem ocorrer mudanças em
um dos sistemas em virtude da medida realizada no outro;
3. Realidade: se for possível predizer com certeza o valor de uma grandeza física, sem perturbar o sistema,
então existe um elemento de realidade física que corresponde a esta quantidade física;
4. Completeza: todo elemento de realidade física deve ter uma contrapartida na teoria que descreve o fenô-
meno.
Utilizando as quatro proposições, totalmente plausíveis, e em concordância com a lógica clássica, o
argumento apresentado por EPR procede da seguinte maneira:
• Devido a proposição 1, podemos predizer com certeza o resultado de medir qualquer componente do spin
da partícula 2, escolhendo previamente a mesma componente de spin da partícula 1;
• Devido a proposição 2, a medida efetuada em 1 não pode provocar mudanças em 2;
• Devido a proposição 3, a componente do spin escolhida para 2 é um elemento de realidade física, o que é
válido para qualquer direção escolhida, veja Eqs. (11.1) a (11.4), onde todos as componentes de spin
são elementos de realidade física.
O paradoxo, segundo a mecânica quântica não existe um estado quântico de uma partícula de spin 12 no
qual todas as componentes de spin têm valores definidos. Devido a proposição 4, completeza, a mecânica
quântica não é uma teoria completa, pelo menos, para o caso do sistema com spin total igual a zero formado
por um par de partículas spin 12 . Para esse sistema existem elementos de realidade física para a qual a
mecânica quântica não tem contrapartida. Assim sendo, a mecânica quântica é uma teoria incompleta e no
artigo original, Einstein, Podolsky e Rosen mencionam que acreditam que uma teoria quântica completa
pode ser possível com o que lançam o germe para o surgimento das diversas teorias de variáveis ocultas.
Vale a pena mencionar que uma conclusão alternativa pode ser obtida renegando o conceito de localidade,
proposição 2. Neste caso, mesmo que os dois subsistemas não estejam mais interagindo, a medição efetuada
em um deles perturbaria instantaneamente o outro. A teoria quântica seria completa mas estaria violando o
princípio da relatividade segundo o qual não é possível enviar sinais com velocidade maior do que a da luz.
E claro, Einstein preferiu se manter à localidade.

11.2 Variáveis Ocultas


Uma das ideias que mais se difundiu na tentativa de contornar os problemas conceituais da mecânica quân-
tica e trazê-la de volta ao quadro de ideias das teorias realistas foi a de que as aleatoridades observadas em
termos quânticos eram devidas a um conhecimento incompleto dos parâmetros que caracterizavam o estado
de um sistema físico. Tentou-se postular que o estado de um sistema quântico seria na verdade determinado
por um conjunto de variáveis ainda não observadas, conhecidas como variáveis ocultas ou variáveis es-
condidas. 7 Seriam coordenadas ou momenta adicionais, ou mesmo parâmetros com interpretação física não
definida, em número fixo ou não, submetidas a uma dinâmica própria determinista e que, uma vez fixadas,
determinariam completamente o estado de um sistema.
Em 1932, John von Neumann 8 apresenta um teorema que estabelece diretamente a impossibilidade de
construir uma teoria livre do indeterminismo que nos conduz à contradições com a mecânica quântica, 9
ou seja, a mecânica quântica não pode completar-se apropriadamente sem que se alterem seus resultados.
John von Neumann provou que teorias de variáveis ocultas não poderiam reproduzir todos os resultados da
mecânica quântica. Tal prova de impossibilidade sofreu uma ou outra crítica, mas só a partir do trabalho de
Bell, em 1966, 10 é que se esclareceu que tal demonstração, apesar de correta, não exclui todas as teorias de
variáveis ocultas possíveis.
7
Em inglês hidden-variables.
8
John von Neumann (Neumann János Lajos) (1903–1957), matemático húngaro-americano.
9
J. von Neumann, Mathematische Grundlagen der Quantenmechanik, (1932).
10
J. S. Bell, Review of Modern Physics, 38, 447-452 (1966).
284 C AP. 11 NÃO L OCALIDADE NA M ECÂNICA Q UÂNTICA

John von Neumann “provou” que teorias de variáveis ocultas não poderia existir. No entanto, em 1952, 11
David Bohm apresentou uma nova versão da antiga interpretação de de Broglie, uma interpretação realista e
com variáveis ocultas (as posições e velocidades das partículas) que era consistente com a mecânica quân-
tica, gerando as mesmas previsões que esta! E a prova de von Neumann? Bem, Bohm explicou que em sua
teoria, as variáveis ocultas relevantes não pertenciam apenas ao objeto quântico, mas também ao aparelho de
medição. Assim, continuava sendo verdade que, dado o estado quântico ψ e o valor das variáveis ocultas λ,
o resultado de uma medição seria determinado (apesar de ser impossível conhecer todas as variáveis ocultas
relevantes). Acontece que quando medimos a posição x ou a velocidade vx , o arranjo experimental muda
(em acordo com as ideias de Niels Bohr), e assim muda também o conjunto de variáveis ocultas relevantes.
Essa propriedade da teoria de David Bohm é chamada de contextualismo, e ela é suficiente para escapar da
prova de impossibilidade de von Neumann.
Não é difícil mostrar que sempre é possível construir uma descrição em termos de variáveis ocultas
contextuais. Consideremos as variáveis A e B que comutam, suponhamos que seus valores são determinados
por um conjunto de varáveis ocultas λ, e consideremos um vetor estado próprio simultâneo λ de A e B;
segue que
A|λ⟩ = A(λ)|λ⟩ , B|λ⟩ = B(λ)|λ⟩ . (11.5)

Podemos agora escrever a média, i.e., o valor esperado do produto dos resultados A e B, por
∫ ∫
E (An Bm ) = ⟨ψ|An B m |ψ⟩ = ⟨ψ|An |λ⟩⟨λ|B m |ψ⟩ dλ = ⟨ψ|λ⟩⟨λ|ψ⟩An (λ)B m (λ) dλ

= An (λ)Bm (λ) ρ(λ) dλ (11.6)
Λ

onde Λ é o espaço dos estados completos λ e onde também introduzimos a densidade ρ(λ) = |⟨λ|ψ⟩|2 .
Como isto é valido para qualquer m e n, está demonstrado que o valor esperado de qualquer função de A
e B que pode desenvolver-se em série de Taylor pode expressar-se como a média sobre uma densidade de
variáveis ocultas específicas. As variáveis ocultas dessa teoria são contextuais porque o conjunto {λ} está
definido especificamente para A e B; para outro conjunto de variáveis compatíveis, como A e C, requer-se
uma troca de representação e será um outro conjunto {λ′ } de variáveis apropriadas.

11.3 Teorema de Bell


Em 1964 Bell, utilizando as proposições 1 a 4 de EPR juntamente com as predições da mecânica quântica,
demonstra uma contradição, provando que o emprego das proposições de localidade, realidade e completeza
teórica são incompatíveis com as predições da mecânica quântica. Bell equacionou essa contradição numa
desigualdade, derivada do paradoxo apresentado por EPR, com argumentos válidos para a física clássica,
que deve ser violada no caso da mecânica quântica ser válida. Esta desigualdade permite a verificação
experimental e até o presente, todas elas confirmaram a validade da mecânica quântica. 12
Para demonstrar o teorema de Bell retornamos ao Gedankenexperiment de Bohm esquematizado na
Fig. 11.2. Na figura, a fonte S emite um par de partículas spin 12 , 1 e 2, no estado dado pela Eq. (11.1), a
partícula i (i = 1, 2) entra no aparato Stern-Gerlach orientado ao longo de n̂i , atrás de cada um dos aparatos
estão dois detectores, omissos na figura, que registram o resultado que será ou para cima, ou para baixo. A
partícula 1 é sujeita a uma medida pelo aparato Stern-Gerlach com campo magnético orientado ao longo de
n̂1 . O resultado da medida é indexado por +1 se a componente n̂1 do spin é para cima, e −1 se é para baixo.
A partícula 2 é submetida a uma medida similar, com o campo magnético ao longo de n̂2 . Assumindo que
11
D. Bohm, Physical Review, 85, 166 (1952); Ibidem, 180 (1952).
12
S. J. Freedman and J. F. Clauser, Physical Review Letters, 28, 938-941 (1972); J. F. Clauser and M. A. Horne, Physical Review,
D10, 526-535 (1974); A. Aspect, Physical Review, D14, 1944-1951 (1976); J. F. Clauser and A. Shimony, Reports of Progress
in Physics, 41, 1881-1927 (1978); A. Aspect, P. Grangier, and G. Roger, Physical Review Letters, 49, 91 (1982); A. Aspect, J.
Dalibard, and G. Roger, 49, 1804 (1982); A. Aspect and P. Grangier, Experiments on Einstein-Podolsky-Rosen-type Correlations
with Pairs of Visible Photons, in R. Penrose and C. J. Isham (orgs.), Quantum concepts in space and time, (1986).
11.3. T EOREMA DE B ELL 285

Figura 11.2 Experimento de Bohm.

o sistema formado pelas duas partículas têm spin total zero, escrevemos a função de onda como sendo
1
ψ = √ [|+⟩1 |−⟩2 − |−⟩1 |+⟩2 ] (11.7)
2
onde |+⟩1 e |−⟩1 representam estados up e down respectivamente, ao longo da direção n̂ para a partícula 1 e
|+⟩2 e |−⟩2 com significado análogo para a partícula 2 com a mesma direção n̂. Da relação (11.7) podemos
obter as probabilidades conjuntas: 13
ψ 1 θ ψ 1 θ
P++ = sen2 P+− = cos2
2 2 2 2
(11.8)
ψ 1 θ ψ 1 θ
P−+ = cos2 P−− = sen2
2 2 2 2
onde o primeiro subscrito indica se o resultado da medida na partícula 1 é +1 ou −1, e o segundo subscrito
é análogo para a partícula 2 e n̂1 e n̂2 são as direções ao longo das quais o spin é medido. Com essas
probabilidades construímos o valor esperado do resultado das medidas, definido por
ψ ψ ψ ψ
E ψ (n̂1 , n̂2 ) = P++ − P+− − P−+ + P−− (11.9)

cujo valor depende do ângulo entre as direções n̂1 e n̂2 , resultando em

E ψ (n̂1 , n̂2 ) = − cos θ = −n̂1 · n̂2 . (11.10)

No caso especial em que n̂1 = n̂2 temos correlação perfeita e o valor é −1. A relação (11.9) é o resultado
quântico. Vejamos o que podemos inferir sobre o caso clássico.
Bell utiliza o argumento de EPR e introduz λ que representa um conjunto de variáveis que definem
de maneira completa o estado das duas partículas, e que determinam o resultado das medidas de spin. O
resultado da medida A ao medir o spin da partícula 1 é determinado exclusivamente pela direção de n̂1 e
λ, e o resultado B de medir ao longo de n̂2 ; exclusivamente por n̂2 e λ, onde os versores n̂1 e n̂2 formam
o ângulo θ entre si. Então

A = A(λ, n̂1 ) = ±1, B = B (λ, n̂2 ) = ±1 . (11.11)

Probabilidades do tipo A = A(λ, n̂1 , n̂2 ) e B = B (λ, n̂1 , n̂2 ) são excluídas. Essa é a condição de localidade.
A distribuição normalizada das densidades de probabilidades de variáveis ocultas depende exclusivamente
de λ,
ρ = ρ(λ) (11.12)
e possibilidades do ρ = ρ(λ, n̂1 , n̂2 ) são excluídas. A partir destes pressupostos o valor esperado do produto
dos resultados A e B será dado por

E (n̂1 , n̂2 ) =
ρ
A(λ, n̂1 )B (λ, n̂2 ) ρ(λ) dλ (11.13)
Λ
13
D. M. Greenberger, M. A. Horne, A. Shimony and A. Zeilinger, American Journal of Physics, 58, 1131 (1990).
286 C AP. 11 NÃO L OCALIDADE NA M ECÂNICA Q UÂNTICA

onde Λ é o espaço dos estados completos λ.


Visto que o argumento de EPR partiu da premissa de correlações perfeitas que se observam na mecânica
quântica (proposição 1), é essencial que o valor esperado da Eq. (11.13) concorde com o valor da Eq. (11.10)
quando n̂1 = n̂2 = n̂:
E ρ (n̂, n̂) = E ψ (n̂, n̂) (11.14)
o que constitui um vínculo muito forte. Uma vez que o menor valor do produto de A(λ, n̂)B (λ, n̂) é −1 (o
único outro valor possível é +1), a Eq. (11.14) apenas é satisfeita para um conjunto de valores de λ para os
quais A(λ, n̂) = −B (λ, n̂) tem probabilidade de medida +1, ou, segundo a notação introduzida acima, a
menos que ρ(λ) seja igual a 1 para cada n̂. Sendo A(λ, n̂1 )B(λ, n̂2 ) = −1 apenas quando n̂1 = n̂2 = n̂, e
teremos que A(λ, n̂) = −B (λ, n̂) onde

E ρ (n̂1 , n̂2 ) = − A(λ, n̂1 )A(λ, n̂2 ) ρ(λ) dλ . (11.15)
Λ

Escolhendo três direções arbitrárias â; b̂ e ĉ, podemos construir a seguinte igualdade

[ ]
E (â, b̂) − E (â, ĉ) = −
ρ ρ
A(λ, â)A(λ, b̂) − A(λ, â)A(λ, ĉ) ρ(λ) dλ
∫ Λ
[ ][ ]
= −A(λ, â)A(λ, b̂) 1 − A(λ, b̂)A(λ, ĉ) ρ(λ) dλ . (11.16)
Λ

Como para todos os λ, o produto −A(λ, â)B (λ, b̂) = ±1, onde

|A(λ, â)B (λ, b̂)| = 1 e 1 − A(λ, b̂)A(λ, ĉ) ≥ 0 ,

temos com isso a possibilidade de escrever



[ ]
|E (â, b̂) − E (â, ĉ)| ≤
ρ ρ
1 − A(λ, b̂)A(λ, ĉ) ρ(λ) dλ = 1 + E ρ (b̂, ĉ) (11.17)
Λ

da qual obtemos a desigualdade de Bell:

|E ρ (â, b̂) − E ρ (â, ĉ)| − E ρ (b̂, ĉ) − 1 ≤ 0 . (11.18)

Para mostrar a discordância entre essa desigualdade com os resultados da mecânica quântica, expressos pela
relação (11.10), obtemos, escolhendo para as direções de â; b̂ e de ĉ os ângulos azimutais de 0, π3 e 2π
3 ,
respectivamente, os seguintes resultados para o valor esperado (11.10):
1 1 1
E ψ (â, b̂) = − , E ψ (b̂, ĉ) = − , E ρ (â, ĉ) =
2 2 2
substituindo em (11.18), temos
1
|E ψ (â, b̂) − E ψ (â, ĉ)| − E ψ (b̂, ĉ) − 1 = ≤0 (11.19)
2
ou seja, em conflito com a desigualdade de Bell. Não existe escolha, de acordo com as proposições, de 1
até 4, do argumento EPR, para os λ, funções A e B, e para ρ que possam fornecer concordância com as
predições da mecânica quântica dada pela Eq. (11.10).

11.4 Desigualdade CHSH


A limitação mais severa da desigualdade de Bell é pelo fato de que foi feito uso essencial da existência de
correlação, ou anticorrelação, perfeita entre resultados obtidos nos dois subsistemas, tornando sua aplicação
bem restrita, pois esse tipo de correlação não é geral quando temos estados emaranhados. Essa limitação foi
11.4. D ESIGUALDADE CHSH 287

removida por Clauser 14 , Horne 15 , Shimony 16 e Holt 17 (CHSH) em 1969, obtendo uma nova desigualdade
com hipóteses menos restritivas. 18 A hoje chamada desigualdade CHSH foi rededuzida por Bell em 1971, 19
com um novo método mais cuidadoso para as hipóteses envolvidas. Esta dedução segue passos semelhantes
aos usados na dedução anterior, embora evitando a hipótese de correlação completa e considerando cor-
relações envolvendo não apenas três direções, mas quatro (dois pares) de direções distintas, â e â′ para o

primeiro subsistema e b̂ e b̂ para o segundo. O ponto de partida envolve valores esperados semelhantes aos
usados anteriormente, ver Eq. (11.13):

E (â, b̂) = A(λ, â)B(λ, b̂) ρ(λ) dλ

onde A(λ, â) = ±1, B (λ, b̂) = ±1, ρ(λ) ≥ 0 e ρ(λ) dλ = 1. Segundo Bell, as novas quantidades A(λ, â)
e B (λ, b̂) diferem das antigas por médias sobre “variáveis ocultas” que permitem “indeterminismo com um
certo caráter local” nos sistemas de medida. Ou, segundo a versão de Clauser e Shimony, 20 permite que em
algumas das oportunidades um, ou o outro, ou ainda os dois sistemas de detecção não registrem nenhum
dos dois valores possíveis ±1, situação a que é atribuído o valor zero. Dessa forma, temos

A(λ, â) ≤ 1 B(λ, b̂) ≤ 1 . (11.20)



Assim, escolhendo as quatro direções distintas â, â′ , b̂ e b̂ , podemos construir a seguinte igualdade
∫ [ ]
′ ′
E (â, b̂) − E (â, b̂ ) = A(λ, â)B(λ, b̂) − A(λ, â)B (λ, b̂ ) ρ(λ) dλ
∫ [ { }]

= A(λ, â)B(λ, b̂) 1 ± A(λ, â′ )B (λ, b̂ ) ρ(λ) dλ
∫ [
′ { }]
− A(λ, â)B (λ, b̂ ) 1 ± A(λ, â′ )B (λ, b̂) ρ(λ) dλ . (11.21)

Usando (11.20) obtemos


∫ [ ]
′ ′
E (â, b̂) − E (â, b̂ ) ≤ 1 ± A(λ, â′ )B(λ, b̂ ) ρ(λ) dλ

[ ]
+ 1 ± A(λ, â′ )B(λ, b̂) ρ(λ) dλ

= 2 ± E (â′ , b̂ ) + E (â′ , b̂) . (11.22)

Essa relação pode ser escrita da forma “mais simétrica”, segundo Bell, como
′ ′
E (â, b̂) − E (â, b̂ ) + E (â′ , b̂ ) + E (â′ , b̂) ≤ 2 (11.23)

ou ainda sob a forma de CHSH


′ ′
− 2 ≤ E (â, b̂) − E (â, b̂ ) + E (â′ , b̂ ) + E (â′ , b̂) ≤ 2 (11.24)

Escolhas diferentes dentre as direções â, â′ , b̂ e b̂ ao escrever a relação (11.21) produzem ainda outras
formas dessa desigualdade, em que o sinal negativo (único) aparece em qualquer das quatro funções de
correlação envolvidas.
14
John Francis Clauser (1942– ), físico americano.
15
Michel A. Horne, físico americano.
16
Abner Shimony (1928– ), físico americano.
17
Richard A. Holt, físico americano.
18
J. F. Clauser, M. A. Horne, A. Shimony and R. A. Holt, Physical Review Letters, 23, 880 (1969).
19
J. S. Bell, Proceedings of the International School of Physics “Enrico Fermi", course IL: Foundations of Quantum Mechanics.
Academic Press, New York, 171-181 (1971).
20
J. F. Clauser and A. Shimony, Rep. Progr. Phys., 41, 1881 (1978).
288 C AP. 11 NÃO L OCALIDADE NA M ECÂNICA Q UÂNTICA


Violação dessa Desigualdade pela Mecânica Quântica Escolhendo â, b̂, â′ e b̂ no plano zx, fazendo
com o eixo z ângulos respectivamente de nπ 4 , n = 0, 1, 2, 3, resulta, para o estado singleto de dois spins,

′ ′ ′ ′ 2
E (â, b̂) = −E (â, b̂ ) = E (â , b̂ ) = E (â , b̂) = − ,
2
o que nos dá
′ ′ √
E (â, b̂) − E (â, b̂ ) + E (â′ , b̂ ) + E (â′ , b̂) = 2 2 .(11.25)

Utilizando a desigualdade de Cauchy-Schwarz é possível obter diretamente o valor 2 2 como limite nessa
desigualdade no caso da mecânica quântica, de modo que esse estado e a configuração na realidade saturam
esse limite quântico. 21

11.5 Experimento de Aspect


As experiências desenvolvidas por Aspect 22 e colaboradores não foram realizadas com partículas de spin
1
2 , como sugerido acima, mas sim usando um par de fótons e as grandezas medidas não foram spins mas
sim polarizações dos dois fótons que emergiram de um decaimento entre estados atômicos com variação
zero de momentum angular total. 23 Nesses experimentos foram necessários produzir fótons entrelaçados
através de uma cascata de cálcio, conforme Fig. 11.3. O átomo de cálcio emite dois fótons do nível 4s2 1 S0

Figura 11.3 Cascata de cálcio.

para o nível 4p2 1 S0 . Para decair em seu estado fundamental, eles precisam passar pelo nível 4s1 4p1 1 P1 .
Como a transição m = 0 para m = 0 é proibida, então existe somente dois caminhos possíveis. Em um dos
caminhos ambos fótons são circularmente polarizados à direita R, no outro ambos fótons são circularmente
polarizados à esquerda L. Assim,
1
ψ (ν1 , ν2 ) = √ (|RR⟩ + |LL⟩) ,
2
que poderá ser reformulada em base linear como
1
ψ (ν1 , ν2 ) = √ (|xx⟩ + |yy⟩) .
2
O primeiro arranjo experimental, 24 como podemos ver na Fig. 11.4, é muito parecido ao Gedankenex-
21
João C. A. Barata, Desigualdades de Bell, em 100 anos de Física Quântica, M. S. Hussein e S. R. A. Salinas, eds., Editora
Livraria da Física (2002).
22
Alain Aspect (1947– ), físico francês.
23
A. Aspect, Physical Review, D14, 1944–1951 (1976); A. Aspect, P. Grangier, and G. Roger, Physical Review Letters, 47, 460–
463 (1981); Idem, 49, 91 (1982); A. Aspect, J. Dalibart, and G. Roger, Physical Review Letters, 49, 1804 (1982).
24
A. Aspect, P. Grangier, and G. Roger, Physical Review Letters, 49, 91 (1982).
11.5. E XPERIMENTO DE A SPECT 289

Figura 11.4 Primeiro arranjo experimental de Aspect.

periment, já discutido anteriormente. Depois de serem produzidos, os dois fótons são separados por filtros
sensíveis aos diferentes comprimentos de onda. Foram usados lentes para direcionar o feixe aos polariza-
dores, I(â) e II(b̂), o qual podiam girar em torno do eixo z. Posteriormente, fotomultiplicadoras, P M 1
e P M 2, mediam os fótons e enviavam seus sinais para um contador de coincidências, no qual calculava o
coeficiente de correlação entre os dois fótons. A fim de verificar a relação (11.23), foram usados as seguintes
′ ′
orientações (â, b̂) = (â′ , b̂) = (â′ , b̂ ) = 22, 5o e (â, b̂ ) = 67, 5o e como resultado obtiveram

SExp = 2, 697 ± 0, 015 ,

verificando uma violação da desigualdade de Bell, relação (11.23), e uma boa concordância com a previsão
da mecânica quântica, relação (11.25),

SMQ = 2, 70 ± 0, 05 .

O erro neste valor teórico se deve a ligeira imperfeição dos polarizadores. A diferença entre o valor experi-
mental e teórico é causado pelas lentes colocadas após os filtros.
O segundo arranjo experimental, 25 como podemos ver na Fig. 11.5, os dois fótons também são sepa-

Figura 11.5 Segundo arranjo experimental de Aspect.

rados por filtros sensíveis aos diferentes comprimentos de onda. Os polarizadores tinham um arranjo que

variavam do canal contendo I(â) e II(b̂) para o canal contendo I ′ (â′ ) e II ′ (b̂ ). Posteriormente, fotomul-
tiplicadoras, P M 1 e P M 2 ou P M 1′ e P M 2′ , mediam os fótons e enviavam seus sinais para um contador
de coincidências, no qual calculava o coeficiente de correlação entre os dois fótons.
Nesse experimento, a mudança entre os dois canais ocorria aproximadamente a cada 10 ns. Desde que
esse tempo, bem como a vida média do nível intermediário da cascata de cálcio (5 ns), é pequeno comparado
25
A. Aspect, J. Dalibart, and G. Roger, Physical Review Letters, 49, 1804 (1982).
290 C AP. 11 NÃO L OCALIDADE NA M ECÂNICA Q UÂNTICA

ao Lc = 40 ns (os detectores estão separados por uma distância L de 12 m), uma detecção do evento em um
lado do experimento e a correspondente troca de orientação do outro lado estão separados por um intervalo
tipo espaço em um cone de luz relativístico.26 Todavia, não era possível fazer a mudança dos canais de
forma verdadeiramente randômica. Sendo assim, foram usadas duas diferentes frequências para troca de
canais, fazendo com que fosse quase periódica. Assim, podemos escrever uma desigualdade de Bell ainda
sob uma forma similar de CHSH: 27
−1 ≤ S ≤ 0 ,
onde
′ ′
S = E (â, b̂) − E (â, b̂ ) + E (â′ , b̂) + E (â′ , b̂ ) − E (â′ , ∞) − E (∞, b̂) .
Note que S envolve as quatro taxas usuais de medida além de duas outras, E (â′ , ∞) e E (∞, b̂), com um
polarizador removido em cada lado. Novamente foram usados as seguintes orientações (â, b̂) = (â′ , b̂) =
′ ′
(â′ , b̂ ) = 22, 5o e (â, b̂ ) = 67, 5o e obtido o seguinte resultado

SExp = 0, 101 ± 0, 020 ,

verificando uma violação da desigualdade S ≤ 0 e uma boa concordância com previsão da mecânica
quântica SMQ = 0, 112.
As experiências confirmam inteiramente a validade da teoria quântica: “Temos de concluir que um
par de fótons entrelaçados é um objeto não separável; ou seja, é impossível atribuir propriedades locais
(realidade física local) a cada fóton. Em certo sentido, ambos os fótons permanecem em contato através do
espaço e do tempo. Convém que se diga, no entanto, que a não separabilidade, que é a base da teleportação
quântica, não implica a possibilidade prática de comunicação, a velocidade superior à da luz”. 28
Recentemente foram desenvolvidos, em laboratórios, vários experimentos de grande precisão que mos-
tram a violação da desigualdade de Bell, além dos desenvolvidos por Aspect. 29

11.6 Teoria das Variáveis Ocultas Não Locais


Em 2003, Leggett 30 obtém desigualdades tipo Bell para “formas aceitáveis” de “realismo não local” e
formula um teorema de incompatibilidade. 31
É suficiente, para nossa explanação, discutir sistemas quânticos bidimensionais. Iremos focalizar nossa
descrição no grau de liberdade da polarização de fótons. As teorias estão baseadas nas seguintes proposi-
ções:

1. Todas as medidas das partículas produzidas são determinadas por propriedades pré-existente dessas par-
tículas independente da medida (realismo);

2. Estados físicos são misturas estatística de subensembles com polarizações definidas;

3. Polarização é definida tal que os valores esperados para cada subensembles obedecem a lei de Malus 32 ,
que é a conhecida dependência em cosseno da intensidade de um feixe polarizado após passar por um
polarizador ideal.

Essas proposições são atraentes porque trazem uma explanação natural de estados separáveis quantum
mecanicamente (estados polarizados realmente obedecem a lei de Malus). Em adição, essas proposições
26
Para uma excelente revisão de relatividade ver livro do Prof. W. Pauli, Theory of relativity, (1958).
27
J. F. Clauser and M. A. Horne, Physical Review, D10, 526 (1974).
28
A. Aspect, Nature, 398, 189-190 (1999).
29
G. Weihs et al., Physical Review Letters, 81, 5039-5043 (1998); W. Tittel et al., Physical Review Letters, 81, 3563-3566
(1998); C.-Z. Peng et al., Physical Review Letters, 94, 150501 (2005); S. Cröblacher, T. Paterek, R. Kaltenbaek, Č. Brukner, M.
Żukowski, M. Aspelmeyer and A. Zeilinger, Nature, 446, 871 (2007).
30
Sir Anthony (Tony) James Legget (1938– ), físico anglo-americano.
31
A. J. Leggett, Foundations of Physics, 33, 1469-1493 (2003).
32
Etienne-Louis Malus (1775–1812), engenheiro e físico francês.
11.6. T EORIA DAS VARIÁVEIS O CULTAS NÃO L OCAIS 291

não requerem explicitamente a localidade, i.e., as medidas realizadas dependem de parâmetros nas regiões
separadas do tipo espaço. Como consequência, tais teorias podem explanar importantes características de
estados emaranhados33 (não separáveis) da mecânica quântica:
• Não podemos transmitir informações mais rápida do que a velocidade da luz;
• Reproduz correlações perfeitas para todas as medidas na mesma base, a qual é uma característica funda-
mental do estado singleto de Bell;
• Nos leva à um modelo na qual a desigualdade Clauser, Horne, Shimony and Holt (CHSH) é violada.
Todavia, todos os modelos baseados nas proposições de 1-3 apresentam variações com outras previsões
quânticas.
A estrutura geral de tais modelos é a seguinte: da proposição 1 requer que uma medida binária individual
A para uma medida de polarização ao longo da direção â é predeterminada algum conjunto de variáveis
ocultas λ, um vetor tridimensional ⃗u, bem como por um outro conjunto de possíveis parâmetros não locais
η (medindo em regiões separadas do tipo espaço), i.e., A = A(λ,⃗u, â, η). De acordo com a proposição 3,
partículas com o mesmo ⃗u mas com diferente λ constroem subensembles de polarização definida descrita
por uma distribuição de probabilidade ρ⃗u (λ). O valor esperado de A, aqui representado por A(⃗u), obtido
pela média sobre todos λ, obedecendo a lei de Malus, é

A(⃗u) = A(λ,⃗u, â, η) ρ⃗u (λ) dλ = ⃗u · â .

Finalmente, com a proposição 2, o valor esperado medido para um estado físico geral é dado pela média
sobre a distribuição F (⃗u) dos subensembles, tal que

⟨A⟩ = F (⃗u) A(⃗u) d⃗u .

Vamos considerar um caso específico, o qual emite um par de fótons com polarizações bem definidas ⃗u
e ⃗v para os laboratórios A (Alice) e B (Bob), respectivamente. As medidas de polarização local de A e de
B são completamente determinadas pelo vetor polarização, por um conjunto adicional de variáveis ocultas
λ específica da fonte que produziu os fótons e por um conjunto de parâmetros não locais η fora da fonte.
Para esclarecimento, podemos escolher uma dependência não local explicita dos fótons na montagem â e b̂
dos aparelhos de medição. Note, entretanto, que este é justamente um exemplo de dependência não local,
e que podemos escolher qualquer outro conjunto fora do parâmetro η. Cada par de fótons emitidos está
completamente definido pela distribuição ρ⃗u,⃗v (λ) do subensemble. De acordo com a proposição 3 temos
as seguinte relações onde todas as polarizações e medidas de direções estão representadas como vetores na
esfera de Poincaré 34

A(⃗u) = A(â, b̂, λ) ρ⃗u,⃗v (λ) dλ = ⃗u · â , (11.26)

B (⃗v) = B (b̂, â, λ) ρ⃗u,⃗v (λ) dλ = ⃗v · b̂ . (11.27)

Assim, a função de correlação dos resultados medidos será:



AB (⃗u,⃗v) = A(â, b̂, λ) B(b̂, â, λ) ρ⃗u,⃗v (λ) dλ . (11.28)

Para uma fonte geral produzindo misturas de fótons polarizados, as correlações observáveis são médias
sobre uma distribuição de polarizações F (⃗u,⃗v), e a função geral da correlação E será dada por

E = ⟨A B⟩ = F (⃗u,⃗v) AB (⃗u,⃗v) d⃗u d⃗v . (11.29)

33
Em inglês chamamos entangled states.
34
Jules Henri Poincaré (1854–1912), matemático e físico francês.
Para uma revisão da esfera de Poincaré ver o excelente livro dos Profs. M. Born and E. Wolf, Principles of optics: Electromag-
netic theory of propagation, interference and diffraction of Light, (1964).
292 C AP. 11 NÃO L OCALIDADE NA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Uma característica importante desse modelo é que existem subensembles de polarizações definidas (inde-
pendentes das medidas) e que as previsões para os subensembles concordam com a lei de Malus. Está claro
que outras classes de teorias não locais, possivelmente ou completamente em concordância com as previ-
sões da mecânica quântica, não tenham essa propriedade quando reproduzem estados emaranhados. 35 Um
caso específico está na teoria de Bohm. 36 Nesse trabalho, as correlações não locais são consequências do
potencial quântico não local, o qual exercem torques consideráveis nas partículas principais do experimento
afetando seus resultados e deixando-os em concordância com a mecânica quântica. Nessa teoria, nenhuma
das duas partículas no estado emaranhado carregam qualquer momentum angular, em um todo, quando
emergem da fonte. 37 Diferentemente, no modelo de Leggett, é o ensemble total emitido por uma fonte que
carrega nenhuma informação do momentum angular, o qual é uma consequência da média sobre todas as
partículas individuais com momenta angular bem definido (polarização).
As teorias descritas aqui são incompatíveis com a teoria quântica. A ideia básica do teorema de incom-
patibilidade usa a seguinte identidade, com A = ±1 e B = ±1: 38

− 1 + |A + B| = AB = 1 − |A − B| . (11.30)

Aplicamos essa identidade para resultados de medidas dicotômicas

A = A(â, b̂, λ) = ±1 e B = B (b̂, â, λ) = ±1 .

É claro que os valores de A e B são mutuamente dependentes um do outro, diferentemente da desigualdade


CHSH que assume que A e B não dependem um do outro. Da Eq. (11.30) podemos tirar a média sobre
todos os subensembles com polarização definida,
∫ ∫ ∫
−1+ |A + B| ρ⃗u,⃗v (λ) dλ = AB ρ⃗u,⃗v (λ) dλ = 1 − |A − B| ρ⃗u,⃗v (λ) dλ . (11.31)

Assim,
− 1 + |A + B| = AB = 1 − |A − B| . (11.32)

Como a média dos módulos é maior que ou igual aos módulos das médias, temos

− 1 + |A + B| ≤ AB ≤ 1 − |A − B| . (11.33)

Em particular, desde que A (Alice) escolha suas observáveis de um conjunto de duas montagens â1 e â2 ,
e B (Bob) faça o mesmo de um conjunto de três montagens b̂1 , b̂2 e b̂3 = â2 , podemos introduzir a lei de
Malus, Eqs. (11.26) e (11.27), na Eq. (11.33), e usar da expressão (11.29), para encontrar uma desigualdade
generalizada do tipo Leggett

4 φ
SNLHV = |E11 (φ) + E23 (0)| + |E22 (φ) + E23 (0)| ≤ 4 − sen , (11.34)
π 2

onde Ekl (φ) é a média uniforme de todas as funções de correlação, definida no plano âk e b̂l , com o mesmo
ângulo relativo φ; o índice subscrito NLHV significa “variáveis ocultas não locais”. 39 Para aplicarmos essa
desigualdade, os vetores â1 e b̂1 necessariamente estão em um plano ortogonal em relação a outro definido
por â2 e b̂2 . Essa é diferença com a configuração experimental padrão usada na verificação da desigualdade
CHSH.
35
D. Bacon and B. F. Toner, Physical Review Letters, 90, 157904 (2003); Y. Ne’eman, Foundations of Physics, 16, 361 (1986).
36
D. Bohm, Physical Review, 85, 166 (1952).
37
C. Dewdney, P. R. Holland, and A. Kyprianidis, J. Phys. A: Math. Gen., 20, 4717 (1987).
38
A. J. Leggett, Foundations of Physics, 33, 1469-1493 (2003).
39
NLHV vem do inglês non-local hidden-variables.
11.6. T EORIA DAS VARIÁVEIS O CULTAS NÃO L OCAIS 293

Experimento de Zeilinger Teste experimental realizado por Zeilinger 40 e colaboradores, em 2007, 41


inclui teste simultâneo de “realismo local” (desigualdade CHSH) e mostra violação simultânea (ou seja,
nos mesmos dados) das desigualdades referentes aos dois tipos de realismo, ou seja, CHSH e Leggett.
Nesse experimento um cristal de Borato de Bário Beta (BBO)42 recebe o feixe de laser e produz, via
“conversão descendente paramétrica espontânea”,43 o par de fótons emaranhados, ver Fig. 11.6. Assim,

Figura 11.6 Produção do par de fótons emaranhados, via cristal de BBO.

temos o estado emaranhado |ψ − ⟩ = √12 [|H⟩A |V ⟩B − |V ⟩A |H⟩B ], onde H denota a polarização horizontal
do fóton e V denota a polarização vertical do fóton.
O primeiro arranjo estudado, apresentado na Fig. 11.7, mostra: Na parte a, o feixe de laser indo de

Figura 11.7 Arranjo experimental para o teste de não localidade.

encontro ao cristal não linear N L, feito de BBO, e um par de fótons emaranhados sendo criado, como
descrito acima, e suas polarizações detectadas pelos contadores de fótons F M , medidas locais em A e B são
realizadas ao longo das direções â e b̂ na esfera de Poincaré, respectivamente. Dependendo da direção das
medidas, as correlações obtidas podem ser usadas para testar a desigualdade de Bell (b) ou a desigualdade
de Leggett (c). Na parte b, correlações em um plano da esfera de Poincaré (H (V ) denota a polarização
horizontal (vertical)), medidas ao longo da linha tracejada permite fazer um teste da desigualdade de Bell e
foi proposta por Freedman 44 e Clauser. 45 Finalmente na parte c, correlações em planos ortogonais, note que
quando as medidas são realizadas no plano que contêm linhas contínuas estamos testando a desigualdade de
Bell através de CHSH, porém se as medidas são realizadas no outro plano (ortogonal ao primeiro) estamos
testando a teoria das vaiáveis ocultas não locais, i.e., a desigualdade de Leggett.
40
Anton Zeilinger (1945– ), físico austríaco.
41
S. Cröblacher, T. Paterek, R. Kaltenbaek, Č. Brukner, M. Żukowski, M. Aspelmeyer and A. Zeilinger, Nature, 446, 871 (2007).
42
Em inglês Beta Barium Borate.
43
Em inglês Spontaneous Parametric Down Conversion.
44
Stuart Freedman (1944– ), físico americano.
45
S. J. Freedman and J. F. Clauser, Physical Review Letters, 28, 938 (1972).
294 C AP. 11 NÃO L OCALIDADE NA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Considere as previsões quântica para um estado singleto de dois fótons polarizados,


1
|ψ − ⟩AB = √ [|H⟩A |V ⟩B − |V ⟩A |H⟩B ] ,
2
onde, por exemplo, |H⟩A denota um fóton horizontalmente polarizado propagando-se para Alice. A função
de correlação quântica para as medidas de âk e b̂l executadas pelos fótons depende somente do ângulo
relativo entre esses vetores, e Ekl = −âk · b̂l = − cos φ. Então, o lado esquerdo da desigualdade (11.34),
para previsão quântica, registra |2(cos φ+1)|. A violação máxima de (11.34) é para o ângulo φmax = 18, 8o .
Para esse ângulo otimizado, o limite dado por (11.34) é 3,792 e o valor quântico é 3,893. A razão entre esses
dois valores nos dá a visibilidade crítica de 97,4%. Estes valores excluem os modelos de não localidade.
Com os mesmo valores para testar a validade dos modelos não locais, i.e., desigualdade de Leggett,
pode ser feito um teste de validade de CHSH. Assim, tomando o lado esquerdo da desigualdade

SCHSH = |E11 + E12 − E21 + E22 | ≤ 2 (11.35)

e usado os valores otimizados, iguais ao usados em (11.34), encontramos 2,2156. Note que para observar
a violação de um experimento tipo Bell (CHSH), a visibilidade mínima é aproximadamente 71%, e o valor
obtido foi 90,3%.
O segundo arranjo estudado, apresentado na Fig. 11.8, mostra: Inicialmente o cristal de BBO está ali-

Figura 11.8 Arranjo experimental - experimento de Zeilinger.

nhado para produzir o estado singleto emaranhado e polarizado,


1
|ψ − ⟩AB = √ [|H⟩A |V ⟩B − |V ⟩A |H⟩B ] .
2
Os fótons produzidos, espacial e temporal, são compensados por uma combinação de lâminas de meia
onda (λ/2) adicionadas a cristais BBO (BBO/2). As setas na esfera de Poincaré indicam as medidas dos
polarizadores de Alice e de Bob para uma máxima violação da desigualdade (11.34). Note que b̂2 está no
plano yz e foi introduzido mais uma lâmina de λ/4 do comprimento de onda no lado de Bob. Os planos
indicam as direções medidas para várias diferenças de ângulos para ambas desigualdades.
Em termos da taxa de contagem experimental, a função de correlação E (â, b̂), para um dado par de
conjuntos de medidas gerais, é definida por
N++ + N−− − N+− − N−+
E (â, b̂) = , (11.36)
N++ + N−− + N+− + N−+
onde NAB é o número de eventos em coincidência entre Alice e Bob medidas dentro do tempo integral.
Designamos o número +1, se Alice (Bob) detecta um fóton polarizado ao longo de â (b̂), e −1 para a
11.7. E MARANHAMENTO E D ECOERÊNCIA 295


direção ortogonal â⊥ (b̂ ). Por exemplo, N+− denota o número de coincidências na qual Alice obteve â

e Bob obteve b̂ . Note que E (âk , b̂l ) = Ekl (φ), onde φ é a diferença de ângulo entre os vetores â e b̂ na
esfera de Poincaré.
Nesse arranjo, para investigação da classe de teorias de variáveis ocultas não locais, os dados experi-
mentais mostram que a desigualdade de Leggett é visivelmente violada para 4o < φ < 36o com um máximo
observado em φmax ≈ 20o . Usando esse ângulo máximo, temos SNLHV = 3, 8521 ± 0, 0227, i.e., viola
a desigualdade (11.34) em 3,2 desvios padrão. Ao mesmo tempo, esses dados experimentais mostram que
a desigualdade CHSH terá uma valor SCHSH = 2, 1780 ± 0, 0199, i.e., viola a desigualdade (11.35) em
aproximadamente 9 desvios padrão.
Este maravilhoso experimento, realizado por Zeilinger e colaboradores, mostra de modo convincente a
violação simultânea (ou seja, nos mesmos dados) das desigualdades referentes as desigualdades de CHSH
e de Leggett. Outros experimentos também mostraram violações da desigualdade de Leggett. 46

11.7 Emaranhamento e Decoerência

Os estados emaranhados ou estados entrelaçados entre partículas são caracteristicamente responsáveis da


aparição da descrição não local, e de outras das surpreendentes peculiaridades da descrição quântica. É
importante assinalar que são essas características surpreendentes dos estados emaranhados que vem sendo
utilizada em problemas como a criptografia quântica, a computação quântica, a teleportação, a interferome-
tria de neutrons, etc., temas esses que constituem um amplo e promissor campo de pesquisa na atualidade.
Por todos esses motivos é conveniente iniciar uma análise introdutória sobre os estados emaranhados. Neste
capítulo encontramos exemplos de estados emaranhados ao construir os estados de projeção do spin nula
sobre o eixo ẑ, a partir de dois spins 12 , dados por (10.87b) e (10.87d),

1
|10⟩ = √ (| + −⟩ + | − +⟩) , (11.37a)
2
1
|00⟩ = √ (| + −⟩ − | − +⟩) . (11.37b)
2

Estados como estes, particularmente o estado |00⟩ dado por (11.37b), têm sido muito utilizado para
exibir as peculiaridades quânticas a partir de seu uso por Einstein, Podolsky e Rosen no famoso trabalho
EPR, ver acima, e por Schrödinger, no famoso paradoxo do gato de Schrödinger. 47
Estados emaranhados descritos pelas equações acima são muito particulares. Uma forma mais geral e
frequente na teoria da medição, a teoria da decoerência, etc., ocorre entre dois subsistemas que formam
um sistema, quando a cada estado uA (x) de um dos subsistemas corresponde um estado φB (y) do outro, e
qualquer dos diferentes estados podem realizar-se, de tal modo que a função de onda do sistema completo
será da forma

ψ (x, y) = CAB uA (x)φB (y) . (11.38)
A,B

Assim, podemos definir em geral os estados emaranhados como os estados de um sistema composto no qual
não é possível a assinatura de um único vetor de estado aos subsistemas que o constituem. Alternativamente,
podemos dizer que se trata de estados não fatorizáveis.

46
T. Paterek, A. Fedrizzi, S. Cröblacher, Th. Jennewein, M. Żukowski, M. Aspelmeyer and A. Zeilinger, Physical Review Let-
ters, 99, 210406 (2007); C. Branciard, A. Ling, N. Gisin, Ch. Kurtsiefer, A. Lamas-Linares and V. Scarani, Physical Review
Letters, 99, 210407 (2007); C. Branciard, N. Brunner, N. Gisin, Ch. Kurtsiefer, A. Lamas-Linares, A. Ling and V. Scarani,
arXiv:0801.2241v1 [quant-ph], to appear in Nature Physics (2008).
47
E. Schrödinger, Naturwissenschaften, 23, 777-780 (1935); Idem, Proc. Camb. Phil. Soc, 31, 555 (1935); Idem, 32, 446 (1936).
296 C AP. 11 NÃO L OCALIDADE NA M ECÂNICA Q UÂNTICA

11.8 Teleportação e Criptografia Quântica


O emaranhado surge naturalmente ao aplicarmos o princípio da superposição a sistemas físicos compostos.
Por exemplo, o singleto, |Ψ− ⟩ = √12 (|01⟩ − |10⟩), é um caso típico de estado emaranhado bipartite.48 Para
emaranhamento de mais de dois subsistemas usamos a notação emaranhamento multipartite. Em especial,
se temos três subsistemas emaranhados usamos a terminologia tripartite, cujo exemplo mais famoso é o
estado de Greenberger-Horne-Zeilinger 49 , |GHZ⟩ = √12 (|000⟩ + |111⟩). 50 Os estados da classe GHZ
caracterizam-se pelo fato de poderem ser decompostos em dois estados produtos, esses estados foram ob-
servados em 1998 por Zeilinger e colaboradores. 51
A partir da década de 1990, ficou claro que o emaranhado quântico, além de propiciar discussões quan-
titativas sobre fundamentos da física, pode ser encarado como um recurso disponível na natureza. 52 Os
estados emaranhados são também ferramentas que podem ser usados para realizar, com mais eficiência,
tarefas que até então eram realizadas utilizando somente recursos clássicos. Entre essas tarefas podemos
destacar a codificação superdensa 53 e a teleportação quântica. 54

Informação Quântica O computador clássico pode ser descrito de forma bastante genérica como uma
máquina que lê um certo conjunto de dados, codificado em zeros e uns, executa cálculos e gera uma saída
também codificada em zeros e uns. Zeros e uns são estados que podem ser representados fisicamente. No
caso dos computadores clássicos, através do potencial elétrico: 0 é um estado de baixo potencial elétrico e 1
é um estado de alto potencial elétrico. Zeros e uns formam um número binário que pode ser convertido para
a base decimal. Podemos pensar em um computador clássico como um dispositivo que calcula uma função

f : {0, · · · , N − 1} → {0, · · · , N − 1} ,

onde N = 2n (n é o número de bits usados na memória do computador). Sem perda de generalidade,


consideremos que o domínio e a imagem de f são do mesmo tamanho. A cada conjunto de n bits de
entrada, corresponde um único conjunto de n bits de saída, o que caracteriza f como uma função. Em
geral, f é descrita por blocos elementares que podem ser implementados fisicamente por transistores e
outros componentes eletrônicos. Os blocos são as portas lógicas AND, OR e NOT, conhecidas como portas
universais.55
Na computação quântica, por analogia à computação clássica, podemos dizer que os recursos computa-
cionais fundamentais são as operações usando as portas lógicas quânticas e as memória quântica. O custo
computacional quântico pode ser medido através do número de portas lógicas de um dado sistema universal
e em termos de números qubits.
Como na computação quântica, utilizam-se estados quânticos em vez de estados clássicos, então o bit
clássico é substituído pelo qubits, i.e., o bit quântico, e os valores 0 e 1 de um bit são substituídos pelos
estados |0⟩ e |1⟩. A diferença entre um bit e um qubit é que um qubit genérico |ψ⟩ pode também ser uma
combinação linear dos estados |0⟩ e |1⟩, ou seja,

|ψ⟩ = α|0⟩ + β|1⟩ , (11.39)


48
Em inglês é bipartite entanglement. Significa estado emaranhado formado por dois subsistemas.
49
Daniel Mordecai Greenberger (1933– ), físico americano.
50
D. M. Greenberger, M. A. Horne and A. Zeilinger, In: Bell’s theorem, quantum theory, and conceptions of the universe, ed. by
M. Kafatos, Kluwer Academic, Dordrecht, The Netherlands, pp. 73-76 (1989); D. M. Greenberger, M. A. Horne, A. Shimony
and A. Zeilinger, American Journal Physics, 58, 1131 (1990); D. M. Greenberger, M. A. Horne and A. Zeilinger, Physics Today,
46 No. 8, 22 (1993).
51
Dik Bouwmeester, Jian-Wei Pan, Matthew Daniell, Harald Weinfurter and Anton Zeilinger, Physical Review Letters, 82, 1345-
1349 (1999).
52
M. A. Nielsen and I. L. Chuang, Quantum computation and quantum information, (2000); D. Bouwmeester, A. Ekert and
A. Zeilinger (Eds.), The physics of quantum information, (2000).
53
C. H. Bennett and S. J. Wiesner, Physical Review Letters, 69, 2881 (1992).
54
C. H. Bennett, G. Brassard, C. Crépeau, R. Jozsa, A. Peres and W. K. Wootters, Physical Review Letters, 70, 1895 (1993).
55
Na verdade, basta apenas a porta NOT e uma das duas outras portas, OR ou AND
11.8. T ELEPORTAÇÃO E C RIPTOGRAFIA Q UÂNTICA 297

onde α e β são números complexos. Note que os estados |0⟩ e |1⟩ formam uma base ortonormal do espaço
vetorial C2 . Essa base é chamada de base computacional e o estado |ψ⟩ é a superposição dos estados |0⟩ e
|1⟩, com amplitudes α e β.
A interpretação física do qubit, Eq. (11.39), é que ele está simultaneamente nos estados |0⟩ e |1⟩. Isso faz
com que a quantidade de informação que pode ser armazenada no estado |ψ⟩ seja infinita. Entretanto, essa
informação está no nível quântico. Para torná-la acessível, no nível clássico, precisamos fazer uma medida.
Com apenas duas possibilidades, |0⟩ e |1⟩, temos, então, |α|2 + |β|2 = 1. Isso significa que a norma do
vetor |ψ⟩ vale 1 (vetor unitário), i.e., matematicamente um qubit é um vetor de norma 1 de C2 .

Codificação Superdensa A codificação superdensa consiste no uso de um estado emaranhado para au-
mentar a capacidade de comunicação entre A (Alice) e B (Bob). Devemos observar que a simples introdução
de um canal quântico de comunicação não aumenta a capacidade de comunicação clássica, pois em cada
qubit, podemos codificar no máximo um bit de informações em estados ortogonais previamente definidos.
Tal situação mudará se Alice e Bob compartilharem de estados emaranhados. De fato, vamos mostrar que
esse código permite dobrarmos a capacidade de comunicação entre eles.
Suponhamos que Alice e Bob compartilhem o estado emaranhado de Bell
1
|Φ+ ⟩ = √ (|00⟩ + |11⟩) , (11.40)
2
o qual pode representar a polarização de dois fótons. O primeiro fóton está com Alice e o segundo está com
Bob. Operando localmente seu fóton, Alice pode gerar quatro estados ortogonais, ou seja, os quatro estados
de Bell. As transformações unitárias locais e os estados gerados por estas transformações são:
1
I|Φ+ ⟩ = |Φ+ ⟩ = √ (|00⟩ + |11⟩) (11.41)
2
1
σ1z |Φ+ ⟩ = |Φ− ⟩ = √ (|00⟩ − |11⟩) (11.42)
2
1
σ1 |Φ ⟩ = |Ψ ⟩ = √ (|01⟩ + |10⟩)
x + +
(11.43)
2
1
i σ1 |Φ ⟩ = |Ψ− ⟩ = √ (|01⟩ − |10⟩) ,
y +
(11.44)
2
onde I é a matriz identidade, σ’s são as matrizes de Pauli e o subíndice 1 indica que esse qubit está com
Alice. Como esses quatro estados são todos ortogonais, eles podem armazenar dois bits de informação
clássica. Isso significa que Alice é capaz de codificar quatro bits de informação clássica no estado do sistema
composto atuando apenas em seu qubit. Após realizar uma das quatro operações, Alice envia seu qubit para
Bob. Então, Bob realiza uma medida na base de Bell do sistema composto para descobrir qual foi a operação
que Alice realizou em seu qubit, i.e., Bob irá ler a mensagem de dois bits realizando uma medida na base
de Bell.
Note que dessa forma, são exatamente as correlações puramente quânticas que nos permitem aumentar
a capacidade do canal de comunicação entre Alice e Bob, ie, a denominada codificação superdensa.

Teleportação Quântica Aqui, descreveremos um simples exemplo de como um qubit de estado puro pode
ser teleportado de uma localização para outra. O problema pode ser descrito da seguinte forma: Suponhamos
que Alice inicialmente dispunha de um estado puro dado por
|ψ⟩ = α|0⟩ + β|1⟩ ,
onde |α|2 + |β|2 = 1, e ela pretende enviá-lo para Bob. Vamos supor que Alice não conhece os valores
dos números complexos α e β,56 e seria impossível para ela descrever o qubit para Bob tal que Bob pu-
desse reconstruí-lo em seu laboratório, i.e., é impossível para Alice enviar o estado puro para Bob usando
comunicação clássica. Entretanto, o problema poderá ser resolvido se Alice e Bob usarem a teleportação.
56
Mesmo que Alice tivesse conhecimento dos valores de α e β, ele iria requerer um infinito número de bits para uma completa
descrição do estado para enviar a Bob, justamente porque α e β são complexos.
298 C AP. 11 NÃO L OCALIDADE NA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Alice e Bob inicialmente compartilham um estado bipartite de máximo emaranhamento, i.e., um estado
de Bell produzido por, por exemplo, conversão descendente paramétrica espontânea:
1
|Ψ− ⟩ = √ (|01⟩ − |10⟩) .
2
Este é o canal quântico necessário para a teleportação. Então, o sistema composto pelo qubit cujo estado
será teleportado e pelo estado EPR antes de qualquer medida feita por Alice é escrito como

|ϕ⟩ = |ψ⟩ ⊗ |Ψ− ⟩


α β
= √ (|001⟩ − |010⟩) + √ (|101⟩ − |110⟩) . (11.45)
2 2
Note que na notação |a1 a2 a3 ⟩, as duas primeiras partículas descritas por a1 e a2 referissem as duas partículas
de Alice, o qubit que ela tem originalmente bem como a partícula vinda da fonte, e a terceira partícula
descrita por a3 referisse a partícula que Bob recebeu da fonte. Reescrevendo a Eq. (11.45) em termos dos
quatro estados ortogonais de Bell
1
|Φ± ⟩ = √ (|00⟩ ± |11⟩)
2
1
|Ψ± ⟩ = √ (|01⟩ ± |10⟩)
2
obtemos
1[ +
|ϕ⟩ = |Φ ⟩ (α|1⟩ − β|0⟩) + |Φ− ⟩ (α|1⟩ + β|0⟩)
2 ]
+ |Ψ+ ⟩ (−α|0⟩ + β|1⟩) + |Ψ− ⟩ (−α|0⟩ − β|1⟩) . (11.46)

Assim, Alice realiza uma medida de Bell no qubit a ser teleportado e no seu qubit do estado de Bell
compartilhado com Bob. Ela obviamente não tem controlo sobre o resultado de sua medida. Naturalmente,
Alice tem 25% de probabilidade de obter quaisquer dos quatro estados de Bell, e este medida não traz
nenhuma informação sobre qual é o estado |ψ⟩.
Após realizada sua medida, Alice comunica classicamente seu resultado a Bob. Com dois bits de in-
formação, Bob finaliza o protocolo aplicando apropriadamente operações unitárias para obter o estado |ψ⟩.
Ver Tab. 11.1.
Tabela 11.1 Resultados de Alice, operações unitárias de Bob e qubit de Bob.

Resultado de Alice Operação de Bob qubit de Bob


|Ψ− ⟩ I I (−α|0⟩ − β|1⟩) = −|ψ⟩
|Ψ+ ⟩ σz σ z (−α|0⟩ + β|1⟩) = −|ψ⟩
|Φ− ⟩ σx σ x (α|1⟩ + β|0⟩) = |ψ⟩
|Φ+ ⟩ i σy i σ y (α|1⟩ − β|0⟩) = |ψ⟩

Dessa forma, podemos ver que o qubit de Bob resulta no estado σµ |ψ⟩,57 o qual é o estado que Alice
queria transmitir para Bob multiplicado pelo operador de Pauli σµ ≡ (I, σ x , σ y , σ z ) que depende do re-
sultado µ da medida realizada por Alice. Assim, Bob aplica a operação σµ correspondente no seu qubit
obtendo |ψ⟩. Além disso, Alice fica com dois qubits em um estado de Bell e qualquer informação sobre o
antigo estado |ψ⟩ está perdida para Alice, o que está de acordo com o teorema da “não clonagem”. 58
Aqui será mostrada apenas a impossibilidade de clonagem de estados quânticos genéricos.59 Inicia-se a
demostração supondo que seja possível criar uma máquina que receba dois qubits, nomeados A e B. O qubit
57
Os quatro resultados podem ser resumidos em |ϕ⟩ = 12 σµ |Φ+ ⟩σµ |ψ⟩.
58
Em inglês no-cloning theorem.
W. K. Wooters and W. Zurek, Nature, 299, 802 (1982); D. Dieks, Physics Letters, A92, 271 (1982).
59
Numa análise completa do caso, recomenda-se a leitura do artigo de W. K. Wooters and W. Zurek publicado na Nature.
11.8. T ELEPORTAÇÃO E C RIPTOGRAFIA Q UÂNTICA 299

A, recebe um estado quântico desconhecido, |ψ⟩, e o qubit B inicialmente está em um estado puro padrão,
|u⟩.60 Deseja-se copiar esse estado |ψ⟩ para o qubit B. O estado inicial da máquina é então |ψ⟩ ⊗ |u⟩.
O cálculo do produto tensorial não será abordado em detalhes. Basta saber que um registrador quântico
é o produto tensorial entre dois ou mais qubits.61 Para a cópia ser possível, segundo o postulado da evolução
temporal da mecânica quântica, deve haver um operador unitário U que satisfaça:

U (|ψ⟩ ⊗ |u⟩) = |ψ⟩ ⊗ |ψ⟩ .

Mas para a máquina ser genérica, ela deve servir para outro estado |ϕ⟩, i.e.,

U (|ϕ⟩ ⊗ |u⟩) = |ϕ⟩ ⊗ |ϕ⟩ .

Fazendo o produto interno entre essas duas relações surge o importante resultado:

⟨ψ|ϕ⟩ = (⟨ψ|ϕ⟩)2 .

É fácil perceber que as únicas soluções para a equação, encontrada acima, são ⟨ψ|ϕ⟩ = 1 e ⟨ψ|ϕ⟩ =
0, i.e., quando |ψ⟩ = |ϕ⟩, ou quando |ψ⟩ e |ϕ⟩ são ortogonais. A primeira solução é trivial. Logo, foi
demonstrado que uma máquina de clonagem quântica só é capaz de clonar estados ortogonais. Existe um
protocolo, conhecido como BB84, 62 que utiliza fótons polarizados em bases não ortogonais, portanto eles
não podem ser clonados.
Para terminar é oportuno lembrar que foram desenvolvidos trabalhos experimentais em teleportação
quântica baseados no teorema de Bell usando fótons, 63 e átomos. 64

Criptografia Quântica A criptografia é uma ciência que estuda formas de comunicação de modo con-
fidencial. Seu surgimento data das primeiras civilizações. Com a era da informação a segurança na trans-
missão de informações se transformou em uma necessidade. Algoritmos clássicos de criptografia tornam-se
alvo de intrusos, e é cada vez mais fácil decriptar uma mensagem. Algoritmos criptográficos baseados na
mecânica quântica estão sendo estudados como forma alternativa e totalmente segura.
Se Alice e Bob desejam se comunicar secretamente eles precisam ter uma chave, uma espécie de al-
goritmo para encriptar e decriptar a mensagem. Para que a operação ocorra em segurança basta que Alice
e Bob sejam capazes de compartilhar essa chave criptográfica de forma que ninguém tenha acesso a ela.
Se for usado um canal clássico para compartilhar a chave, um intruso, I, pode clona-la já que qualquer
informação clássica pode ser clonada. O intruso I pode interceptar a chave enviada, copiar e enviá-la para
seu destino. Se Alice e Bob usam um canal quântico, poderão ter certeza de que a chave foi transmitida com
segurança total, ou saberão se ela foi interceptada. O protocolo de distribuição de chaves quânticas criado
por Ekert 65 faz uso do estado de Bell para transmitir chaves quânticas. Esse protocolo é baseado na violação
da desigualdade de CHSH, onde a mecânica quântica requer a relação (11.25). 66 Este protocolo é parecido
com o BB84, mas utiliza um banco de estados emaranhados, e um qubit de cada par é enviado para Alice e
Bob, que escolhem em que direção medir. Como os estados dos qubits são correlacionados, há uma maior
segurança, comparando com BB84.
60
Como se fosse uma folha em branco em uma máquina de fotocópia.
61
Há registradores quânticos que não podem ser escritos como produto tensorial de seus qubits. Diz-se que estes qubits estão
emaranhados, pois estão de tal forma correlacionados, que não podem ser descritos individualmente.
62
C. H. Bennett and G. Brassard, in Proceedings of the IEEE International Conference on Computers, Systems and Signal Pro-
cessing, Bangalore, India, pp.175-179, (1984).
63
D. Bouwmeester, J.-W. Pan, K. Mattle, M. Eibl, H. Weinfurter and A. Zeilinger, Nature, 390, 575-579 (1997); D. Boschi, S.
Branca, F. De Martini, L. Hardy and S. Popescu, Physical Review Letters, 80, 1121-1125 (1998); A. Furusawa et al., Science,
282, 706 (1998); R. Ursin, F. Tiefenbacher, T. Schmitt-Manderbach, H. Weier, T. Scheidl, M. Lindenthal, B. Blauensteiner, T.
Jennewein, J. Perdigues, P. Trojek, B. Ömer, M. Fürst, M. Meyenburg, J. Rarity, Z. Sodnik, C. Barbieri, H. Weinfurter and A.
Zeilinger, Nature, 430, 849 (2004).
64
M. Riebe, H. Hffner, C. F. Roos, W. Hnsel, M. Ruth, J. Benhelm, G. P. T. Lancaster, T. W. Krber, C. Becher, F. Schmidt-Kaler,
D. F. V. James and R. Blatt, Nature, 429, 734-737 (2004); M. D. Barrett, J. Chiaverini, T. Schaetz, J. Britton, W. M. Itano, J. D.
Jost, E. Knill, C. Langer, D. Leibfried, R. Ozeri and D. J. Wineland, Nature, 429, 737-739 (2004).
65
Artur Ekert (1961– ), físico polonês-britânico.
66
A. Ekert, Physical Review Letters, 67, 661 (1991); A. Ekert and R. Jozsa, Reviews of Modern Physics, 68, 733–753 (1996).
300 C AP. 11 NÃO L OCALIDADE NA M ECÂNICA Q UÂNTICA

Supondo que Alice e Bob recebem singletos de um canal quântico em comum, conforme já vimos, Alice
e Bob medem seus spins ao longo da direção âi e b̂j , respectivamente. Assim, podemos ter um coeficiente
de correlação de medidas dado por:

E (âi , b̂j ) = P00 (âi , b̂j ) + P11 (âi , b̂j ) + P10 (âi , b̂j ) + P01 (âi , b̂j ) (11.47)

onde os P ’s representam as probabilidades de obtermos os resultados abaixo ao longo da direção âi e b̂j :

P00 (âi , b̂j ) → (+1, +1)


P11 (âi , b̂j ) → (−1, −1)
P10 (âi , b̂j ) → (−1, +1)
P01 (âi , b̂j ) → (+1, −1) .

Se Alice e Bob medem seus qubits na mesma direção, o coeficiente de correlação de medidas de spin
será E (âi , âi ) = −1, não importando qual a direção de âi nesse caso. Após finalizar suas medidas, Alice e
Bob separam-nas em dois grupos:

• G1: grupo das medidas em que os detectores de Alice e Bob foram orientados de forma diferente;

• G2: grupo das medidas em que os detectores de Alice e Bob foram orientados na mesma direção.

O próximo passo será usar os dados do grupo G1 para calcular o valor de

S = |E (â1 , b̂1 ) − E (â1 , b̂2 )| + |E (â2 , b̂1 ) + E (â2 , b̂2 )| .



Se eles obtiverem o valor requerido pela mecânica quântica S = 2 2, eles poderão utilizar os dados √
do grupo G2 como chave criptográfica. Nesse caso, sendo a desigualdade CHSH violada, i.e., S = 2 2
satisfeita, Alice deseja enviar uma mensagem para Bob, como vimos é necessário que ambos possuam
a chave. Então, Alice realizará uma operação com a chave e a mensagem, o que gerará um código a será
enviado para Bob por um canal público. Assim, Bob utilizando a chave e o código poderá obter a mensagem,
ver Fig. 11.9.

Figura 11.9 Comunicação entre Alice e Bob.

No entanto se eles obtiverem um valor para S diferente do esperado, pode significar que um intruso
I interferiu na transmissão dos qubits, e portanto devem descartar o restante dos dados e recomeçar√as
medidas, ou protocolo. Com alguns cálculos podemos mostrar que se I interferir na transmissão, S = 2 2
não será satisfeita. Isso garante o segredo da chave criptográfica transmitida já que nesse caso Alice e Bob
descartarão as medidas e só prosseguirão quando tiverem certeza da segurança na transmissão.
Para fechar esse capítulo, talvez seja oportuno citar Feynman em 1982:“... ainda não é óbvio, para
mim, que não há um problema real (com a mecânica quântica). Não posso definir o problema, portanto
suspeito que não há problema, mas não estou seguro de que não há problema. Por isso, gosto de investigar
as coisas”. 67
67
R. Feynman, International Journal of Theoretical Physics, 21, 467 (1982).
11.8. T ELEPORTAÇÃO E C RIPTOGRAFIA Q UÂNTICA 301

Problemas

11.1 Mostre que, tomando â′ = b̂ = ĉ e supondo A(λ, â)B(λ, b̂) = −1 na desigualdade (11.23) resulta a
desigualdade (11.18).

11.2 Considere quatro números â, b̂, â′ e b̂ , tal que 0 ≤ ûi < 1, onde ûi são os quatro números acima.
′ ′
Mostre que −1 ≤ S ≤ 0 , onde S = E (â, b̂) − E (â, b̂ ) + E (â′ , b̂) + E (â′ , b̂ ) − E (â′ , ∞) − E (∞, b̂) .
Sugestão: Ver J. F. Clauser and M. A. Horne, Physical Review, D10, 526 (1974).

11.3 Demonstre explicitamente a desigualdade generalizada de Leggett (11.34).


(1) (2) (3)
11.4 Mostre que |Ψ⟩3 = √1 (|
2
↑1 ↑2 ↑3 ⟩ − | ↓1 ↓2 ↓3 ⟩) é um autoestado dos operadores σy σx σy e
(1) (2) (3)
σy σy σx , onde σ’s são as matrizes de Pauli.

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomenda-se ao leitor, uma leitura detalhada dos excelentes trabalhos encontrados nos
livros:

– L. E. Ballentine [4];
– J. J. Sakurai [74].

O livro do Prof. Ballentine é muito detalhado e uma grande referência sobre o assunto, enquanto o livro do
Prof. Sakurai faz uma boa introdução, porém muito rápido.
302
Capítulo 12
Matriz Densidade

Até o momento consideramos apenas sistemas quânticos descritos por apenas uma única função de onda
ψ ou, de modo equivalente, por |ψ⟩. Os sistemas assim descritos estão em estados quânticos chamados
de estados puros. Por exemplo, um conjunto de spins em um estado puro significa que todos os spins do
conjunto estão no mesmo estado quântico |ψ⟩, com ⟨ψ|ψ⟩ = 1. Os estados puros são aqueles para os quais
temos o máximo de informação. Por outro lado, quando as informações que temos sobre o sistema não
são completos, eles são chamados estados de mistura ou estados misturados. Os estados de mistura, de
que estamos tratando agora, não são perfeitamente determinados, i.e., eles não são descritos por uma única
função de onda ψ, mas por um conjunto de funções de onda independentes ψ1 , ψ2 , ψ3 , · · · , cada uma dessas
funções caracterizando um subconjunto do conjunto considerado.
Quando o nosso conhecimento sobre um sistema quântico não é completo, usamos o conceito esta-
tístico de probabilidade para obtermos informações sobre o seu comportamento dinâmico. Por exemplo,
consideremos um conjunto de osciladores harmônicos em equilíbrio térmico com um reservatório, ( a)uma
dada temperatura T . O espectro de energia desse conjunto de osciladores é dado por En = n + 2 ~ω, 1

onde n é um número inteiro, incluindo o zero. Neste caso, temos que o número médio ⟨n⟩ de osciladores
com energia En no estado |n⟩ depende da temperatura do reservatório em que eles se encontram. De fato,
o caráter estatístico dos estados de mistura aparece em dois níveis, a saber:
1. Devido à interpretação estatística atribuída à própria função de onda ψ;

2. Devido a nossa falta de conhecimento sobre o estado dinâmico do sistema, que nos leva a calcular apenas
valores médios para os operadores das variáveis dinâmicos consideradas.
Podemos comentar o seguinte exemplo: Devido o comportamento estatístico da mecânica quântica,
temos um sistema físico randômico. Se tomarmos nosso exemplo usual, ou seja, o experimento de Stern-
Gerlach, temos a orientação da partícula de spin 21 up ou down. Logo, o estado geral será

|α⟩ = c+ |+⟩ + c− |−⟩ .

Essa relação caracteriza um estado ket cujo spin está apontado para alguma direção definida. No caso de
uma direção n̂, que tem ângulos polar e azimutal, β e α, respectivamente, temos
( )
β
c+ cos 2
= ( ),
c− ei α sen β 2

ver (10.51), e sua equação final dada por


β β
|+⟩u = cos |+⟩ + sen ei α |−⟩ .
2 2
Vamos agora introduzir o conceito de população fracionária, ou peso de probabilidade. Em nosso
exemplo realizado no experimento de Stern-Gerlach, temos 50% de spin up |+⟩ e 50% de spin down |−⟩.

303
304 C AP. 12 M ATRIZ D ENSIDADE

Então dizemos que temos um conjunto, um ensemble completamente randômico,

w+ = 0, 5 w− = 0, 5

onde w+ e w− são os pesos para para spin up e spin down, respectivamente.


Para um ensemble completamente randômico, o feixe de partículas se diz não polarizado, pois não há
uma direção de spin que seja privilegiada. Quando temos um ensemble puro, o feixe se diz polarizado, um
exemplo é quando bloqueamos o feixe |−⟩ do experimento de Stern-Gerlach e temos somente o feixe |+⟩.
Ainda podemos ter um ensemble misto, quando por exemplo existe uma mistura de 70% de spin up |+⟩ e
30% de spin down |−⟩, neste caso também se diz que o feixe é parcialmente polarizado.

12.1 Operador Matriz Densidade


Formalismo inicialmente realizado por von Neumann em 1927, 1 para descrever sistema misto. Esse tra-
balho também foi realizado independentemente por Landau 2 e Bloch. 3 Aqui nossa discussão não estará
restrita somente ao sistema de partículas de spin 12 , mas sempre que usarmos uma ilustração, por conve-
niência retornaremos ao sistema de spin 21 .
Vamos supor que o nosso conhecimento sobre um sistema dinâmico não seja completo. Inicialmente,
iremos considerar que nosso sistema consiste de um conjunto, ensemble, de N subsistemas designados
por {αi }, i = 1, 2, 3, · · · , N . Vamos supor ainda que cada um desses subsistemas esteja em um estado
puro, caracterizado por um estado quântico, representado por |ψα ⟩ = |αi ⟩, supostamente normalizados,
mas não necessariamente ortogonais. Uma observável representada pelo operador A pode ser bem definida
para cada um dos subsistemas considerados, tal que A|αi ⟩ = Aα |αi ⟩. Sendo assim, o valor médio dessa
variável, calculada sobre todo o conjunto de subsistemas, irá depender do peso estatístico de cada um
desses subsistemas, que naturalmente depende da natureza física do sistema. Com isso, o valor esperado de
A, calculando por meio do valor médio do ensemble, ensemble average, será definido por

[A] = wi ⟨αi |A|αi ⟩ . (12.1)
i

Consideremos um conjunto completo de vetores de base {φn } ortogonalizados, i.e., ⟨φm |φn ⟩ = δmn , e
pertencente a um conjunto completo de operadores que se comutam.
Iremos supor que o estado ket de um dado subsistema |αi ⟩ seja expresso em termos dos kets de base
|φn ⟩, de tal forma que ∑
|αi ⟩ = an (t)|φn ⟩ . (12.2)
n

Para estados |αi ⟩, normalizados à unidade, temos



|an (t)|2 = 1 . (12.3)
n

Além disso, visto que {φn } obedecem a relação de completeza, podemos escrever

|φn ⟩⟨φn | = I . (12.4)
n

Multiplicando a relação (12.2) por ⟨φm |, obteremos o coeficiente am (t),



⟨φm |αi ⟩ = an (t)⟨φm |φn ⟩ = am (t) . (12.5)
n

No proximo desenvolvimento, estaremos apresentando, duas situações que podem ser consideradas:
1
J. von Neumann, Gött. Nachr., (1927).
2
Lev Davidovich Landau (1908–1968), físico russo-soviético.
3
Mencionado na literatura pelo próprio Landau em L. D. Landau, Zeits. für Physik, 45, (1927).
12.1. O PERADOR M ATRIZ D ENSIDADE 305

1. Todos os sistemas do conjunto estão no mesmo estado |αi ⟩;

2. Os subsistemas do conjunto são descritos por autoestados diferentes.

No primeiro caso considerado, num instante t, o valor esperado de uma observável A, será expresso por

⟨A⟩ = ⟨αi |A|αi ⟩ = an (t)a∗m (t)⟨φm |A|φn ⟩ . (12.6)
m,n

Usando a expressão (12.5), a relação acima será escrita como



⟨A⟩ = ⟨φn |αi ⟩⟨αi |φm ⟩⟨φm |A|φn ⟩ . (12.7)
m,n

Comparando as duas últimas relações, temos

an (t)a∗m (t) = ⟨φn |αi ⟩⟨αi |φm ⟩ . (12.8)

Neste ponto, iremos introduzir o operador densidade ρ, definido por



ρ = |αi ⟩⟨αi | = an (t)a∗m (t)|φn ⟩⟨φm | . (12.9)
m,n

Assim definido, ρ é o operador densidade para um conjunto de estados puros. De acordo com a Eq. (12.8),
o operador densidade pode ser descrito na base |φn ⟩ por uma matriz, chamada matriz densidade, com seus
elementos de matriz representado por
ρnm = ⟨φn |ρ|φm ⟩ . (12.10)
No segundo caso considerado, nosso conhecimento sobre os estados quânticos não é completo, logo po-
demos apenas indicar uma probabilidade wi de que o sistema possa ser encontrado em um dos subsistemas
do conjunto, descrito pelo ket |αi ⟩. Então, o valor da observável A passará a ser expresso por uma média
estatística realizada sobre todo o conjunto, e será escrita na forma
∑∑
[A] = wi an (t)a∗m (t) ⟨φm |A|φn ⟩
i m,n

= an (t)a∗m (t) ⟨φm |A|φn ⟩ (12.11)
m,n

e o operador densidade ρ passará a ser definido por


∑ ∑∑
ρ= wi |αi ⟩⟨αi | = n (t)am (t) |φn ⟩⟨φm |
wi a(i) (i)∗

i i m,n

= an (t)a∗m (t) |φn ⟩⟨φm | . (12.12)
m,n

No tratamento que se segue, não usaremos a barra sobre o produto an (t)a∗m (t) para indicar a média
estatística, claro que quando isso não acarretar nenhuma possibilidade de confusão, caso contrário usaremos
novamente a barra. O uso do símbolo ρ vai indicar automaticamente que uma média estatística é realizada
sobre o conjunto de sistemas. Usando (12.12) na Eq. (12.11) temos
∑ ∑
[A] = ⟨φn |ρ|φm ⟩⟨φm |A|φn ⟩ = ⟨φn |ρA|φn ⟩
m,n n

[A] = tr(ρA) = tr(Aρ) (12.13)

onde o traço da matriz já foi definido anteriormente.


306 C AP. 12 M ATRIZ D ENSIDADE

Propriedades da Matriz Densidade As propriedades básicas da matriz densidade podem ser obtidas das
relações (12.12) e (12.13).
Uma primeira propriedade, pode ser obtida tomando-se A, na última relação, como operador unidade
I. Assim temos ∑
tr(ρ) = ⟨φn |ρ|φn ⟩ = 1 . (12.14)
n

Prova. Vamos fazer essa demonstração com o seguinte argumento



tr(ρ) = ⟨φk |ρ|φk ⟩
k
∑∑∑
N
= wi an (t)a∗m (t) ⟨φk |φn ⟩⟨φm |φk ⟩
k m,n i=1

∑∑
N ∑
N
= wi |ak (t)|2 = wi = 1 . (12.15)
k i=1 i=1

∑ ∑
Visto que k |ak (t)|2 = 1, o resultado N i=1 wi = 1 é uma consequência direta de tr(ρ) = 1 e
vice-versa. Por definição, temos que os pesos estatísticos wi são quantidades reais e positivas, i.e.,
wi∗ = wi e wi ≥ 0 .
Uma segunda propriedade nos dá que
tr(ρ)2 ≤ 1 . (12.16)

Prova. Para os elementos diagonais da matriz densidade, temos


ρkk = ⟨αk |ρ|αk ⟩
∑ ∑
= wi an (t)a∗m (t) ⟨αk |αn ⟩⟨αm |αk ⟩
i m,n
∑ ∑
= wi an (t)a∗m (t) δkn δmk
i m,n

= wi |ak (t)|2 . (12.17)
i

Visto que i wi = 1 e |ak (t)|2 ≥ 0, concluímos que
ρkk ≥ 0 . (12.18)
Tendo em vista que tr(ρ) = 1 e ρkk ≥ 0, podemos concluir que os elementos diagonais da matriz densidade
ρ satisfazem a condição
0 ≤ ρkk ≤ 1 . (12.19)
Considerando uma dada representação {k}, completa e ortogonal, na qual a matriz densidade ρ é diagonal,
faremos
ρkl = ρkk δkl
e, com isso, podemos escrever
∑∑ ∑∑
tr(ρ)2 = ρkl ρlk δkl = ρ2kk δkl δlk
k l k l
( )2
∑ ∑
= ρ2kk ≤ ρkk
k k
= (tr(ρ))2 = 1
12.1. O PERADOR M ATRIZ D ENSIDADE 307

do qual obtemos
tr(ρ)2 ≤ 1 .

Como foi definido, a terceira propriedade é que o operador densidade é hermitiano, i.e.,
( )†

N ∑
N

ρ = wi |αi ⟩⟨αi | = wi |αi ⟩⟨αi | = ρ . (12.20)
i=1 i=1

Estados Puros Vamos voltar nossa atenção a Eq. (12.12) que define o operador densidade para um estado
misto, ou estado de mistura. Vamos considerar um estado puro designado por |k⟩, temos que

wi = δki (12.21)

e o operador densidade ρ será dado por


∑ ∑
ρ= wi |αi ⟩⟨αi | = δki |αi ⟩⟨αi | = |k⟩⟨k| (12.22)
i i

que é o operador de projeção para o estado |k⟩. Para este estado puro, temos

⟨A⟩ = tr(ρA) = tr(|k⟩⟨k|A)



= ⟨k ′ |k⟩⟨k|A|k ′ ⟩ = ⟨k|A|k⟩ (12.23)
k′

que é a definição do valor esperado de uma observável associado à um operador genérico, como era de se
imaginar.
Consideremos |ψ⟩, um estado puro que podemos escrever como sendo a combinação linear de estados
de base |φn ⟩,

|ψ⟩ = an |φn ⟩ . (12.24)
n

Neste caso, a matriz densidade será


∑∑
ρ = |ψ⟩⟨ψ| = an a∗m |φn ⟩⟨φm |
m n
∑ ∑
= |an | |φn ⟩⟨φn | +
2
an a∗m |φn ⟩⟨φm | . (12.25)
n m̸=n

Note que na relação acima, o primeiro termo é quando temos m = n e o segundo termo é quando temos
m ̸= n. No primeiro termo, temos
∑ ∑
|an |2 |φn ⟩⟨φn | = |an |2 ρn (12.26)
n n

que em uma soma de estados incoerentes puros |φn ⟩ é multiplicada pela matriz densidade ρn . Esse termo
não apresenta o fenômeno de interferência entre os estados considerados. O segundo termo da expressão
(12.25) é responsável pela interferência entre os estados |φm ⟩ e |φn ⟩. Na superposição de estados incoe-
rentes, as fases dos coeficientes an (t) são completamente aleatórias e o produto an a∗m = 0 para m ̸= n,
fazendo com que não haja interferência construtiva entre os dois estados considerados. Neste caso, o valor
médio estatístico [A] do operador A torna-se igual ao valor esperado para um sistema quântico ⟨A⟩.
308 C AP. 12 M ATRIZ D ENSIDADE

1
12.2 Matriz Densidade – Sistemas de Spin 2

Inicialmente faremos um estudo generalizado para um feixe de partículas de spin 12 , e então iremos parti-
cularizar em alguns exemplos. Aqui, levaremos em consideração os autovalores de spin, que são discretos,
visto que ms = ± 21 , com isso poderemos desprezar os autovalores do momentum linear ⃗p e da energia E,
o que simplifica nosso estudo. Usando como base {|±⟩}, temos
( )
1 1
|+⟩ = para ms = (12.27a)
0 2
( )
0 1
|−⟩ = para ms = − . (12.27b)
1 2

O estado puro mais geral que podemos construir nesse espaço é uma combinação linear desses dois kets.
Assim, escrevemos ( )
a1
|χ⟩ = a1 |+⟩ + a2 |−⟩ = (12.28)
a2
sendo a1 e a2 quantidades complexas. A condição de normalização do ket |χ⟩ requer que

|a1 |2 + |a2 |2 = 1 . (12.29)

Com o estado ket assim representado, o operador densidade ρ será dado por
( ) ( ∗ )
a1 ( ∗ ∗ ) a1 a1 a1 a∗2
ρ = |χ⟩⟨χ| = a1 a2 = . (12.30)
a2 a2 a∗1 a2 a∗2

Dada a relação acima, poderemos fazer uma análise da matriz densidade ρ para diferentes situações:

Exemplo 1 Estudo de um feixe completamente polarizado com Sz +.


( ) ( )
1 ( ) 1 0
ρ = |+⟩⟨+| = 1 0 = . (12.31)
0 0 0

Note que nesse caso, usamos a1 = 1 e a2 = 0. Ao contrário, o estudo de um feixe completamente polarizado
com Sz −. ( ) ( )
0 ( ) 0 0
ρ = |−⟩⟨−| = 0 1 = . (12.32)
1 0 1
Note que nesse caso, usamos a1 = 0 e a2 = 1.

Exemplo 2 Estudo de um feixe formado por 50% up, Sz +, e 50% down, Sz −.


1 
( ) ( ) 0
1 1 2
ρ= |+⟩⟨+| + |−⟩⟨−| =   (12.33)
2 2 1
0 2

o qual é justamente a matriz identidade dividida pelo fator 2.

Exemplo 3 √ com Sx ±. Neste caso, o feixe de partículas


Estudo de um feixe completamente polarizado
foi preparado de tal forma que podemos fazer a1 = a2 = 12 e o estado ket |±⟩x será dado por

1
|±⟩x = √ (|+⟩ ± |−⟩) .
2
12.2. M ATRIZ D ENSIDADE – S ISTEMAS DE Spin 1
2
309

Logo, a matriz densidade deste caso será


 1 
2 ± 12
1 1 .
ρ = |±⟩x x ⟨±| = √ (|+⟩ ± |−⟩) √ (⟨+| ± ⟨−|) =  . (12.34)
2 2 ±1 1
2 2

Ainda nesse exemplo, se tivermos um conjunto de mistura incoerente como um feixe formado por 50%
up, Sx +, e 50% down, Sx −. Então, a matriz densidade será dada por
1 1  1  1 
2 2 2 − 12 2 0
1 + 1
ρ=  = . (12.35)
2 1 1 2
2 2 − 1
2
1
2 0 1
2

Assim, temos
tr(ρSx ) = tr(ρSy ) = tr(ρSz ) = 0 (12.36)
o que nos leva [ ]
⃗S = 0 . (12.37)

Isso é perfeitamente razoável já que temos um feixe completamente aleatório de partículas de spin 21 , ou
seja, não existe uma direção privilegiada para o spin.

Última Observação Podemos ainda considerar que o feixe de partículas de spin 12 tenha sido preparado
de tal forma que temos N+ partículas em um estado puro |χ+ ⟩ e N− partículas em um estado puro |χ− ⟩.
Com essas condições, os pesos estatísticos wi serão dados por
N+ N−
w+ = e w− = . (12.38)
N+ + N− N+ + N−
Assim, o operador densidade será dado por
ρ = w+ |χ+ ⟩⟨χ+ | + w− |χ− ⟩⟨χ− | (12.39)
com os kets, |χ+ ⟩ e |χ− ⟩, podendo ser expressos como uma combinação linear dos kets de base {|±⟩},
(±) (±)
|χ± ⟩ = a1 |+⟩ + a2 |−⟩ . (12.40)
Então, a matriz densidade ρ poderá ser escrita na forma
 − 2 − −∗ 
w+ |a+
1 | + w− |a1 |
2 w+ a + +∗
1 a2 + w− a1 a2
ρ= . (12.41)
− −∗ − 2
+ +∗
w+ a2 a1 + w− a2 a1 w+ |a2 | + w− |a2 |
+ 2

− −
Fazendo a+ +
1 = a2 = 1 e a1 = a2 = 0, a matriz densidade tomará a forma
 N 
( ) +
N+ +N− 0
w+ 0  
ρ= = . (12.42)
0 w− N−
0 N+ +N−

Podemos observar que as relações (12.31) e (12.32) são casos particulares da equação acima, i.e., quando
temos N+ = 1, N− = 0 para spin up e N− = 1, N+ = 0 para spin down, respectivamente. Visto que
w+ + w− = 1, a matriz densidade da relação (12.42) poderá ser escrita na forma
( )
w+ 0
ρ= . (12.43)
0 1 − w+
O estado puro dado em (12.28) contém as mesmas informações que a matriz densidade ρ dada na relação
(12.30). Por outro lado, a matriz densidade em (12.30) não é a mesma que aquelas representadas por (12.42)
ou (12.43), para o caso de w± ̸= 0, 1. O significado disso é que a matriz densidade, dada em (12.41), não
pode ser descrita em termos de um único estado puro |χ⟩, mas por uma superposição de estados puros.
310 C AP. 12 M ATRIZ D ENSIDADE

12.3 Evolução Temporal de um Sistema


A evolução temporal de um estado ket, |ψ (t)⟩, é dada pela equação de Schrödinger

d
i~ |ψ (t)⟩ = H|ψ (t)⟩ . (12.44)
dt

Usando |ψ (t)⟩ = n an (t)|φn ⟩, temos
∑ d ∑
i~ an (t)|φn ⟩ = an (t)H|φn ⟩ . (12.45)
n
dt n

Multiplicando por ⟨φk | e levando em consideração a ortogonalidade, encontramos

d 1 ∑
ak (t) = an (t)⟨φk |H|φn ⟩ . (12.46)
dt i~ n

Em seguida, usamos a equação acima para encontrar uma equação diferencial para a matriz densidade.
Calculando a taxa de variação para ⟨φk |ρ(t)|φn ⟩, temos

d d
⟨φk |ρ(t)|φn ⟩ = [ak (t)a∗n (t)]
dt dt
da∗ (t) dak (t) ∗
= ak (t) n + a (t) . (12.47)
dt dt n
Da relação (12.46), temos
d ∗ 1 ∑ ∗
an (t) = − a (t)⟨φm |H|φn ⟩
dt i~ m m
e
d 1 ∑
ak (t) = am (t)⟨φk |H|φm ⟩ .
dt i~ m
Substituindo as duas relações acima na Eq. (12.47), encontramos

d 1 ∑
⟨φk |ρ(t)|φn ⟩ = [⟨φk |H|φm ⟩am (t)a∗n (t) − ak (t)a∗m (t)⟨φm |H|φn ⟩] . (12.48)
dt i~ m

Usando a definição da matriz densidade dada por (12.10), encontramos

d 1 ∑
⟨φk |ρ(t)|φn ⟩ = [⟨φk |H|φm ⟩⟨φm |ρ(t)|φn ⟩ − ⟨φk |ρ(t)|φm ⟩⟨φm |H|φn ⟩]
dt i~ m
1
= ⟨φk |Hρ(t) − ρ(t)H|φn ⟩
i~
i
= ⟨φk |[ρ(t), H]|φn ⟩ (12.49)
~
na qual obtemos o seguinte resultado:

d i
ρ(t) = [ρ(t), H] . (12.50)
dt ~
Essa é a equação diferencial de Liouville-von Neumann, que é de fundamental importância em cálculos de
sistemas quânticos dinâmicos.
Sabemos que, quando a hamiltoniana do sistema é independente do tempo,

H|φn ⟩ = En |φn ⟩
12.4. S ISTEMAS DE D OIS N ÍVEIS 311

fazendo uso da relação acima, a solução da equação diferencial (12.50) poderá ser facilmente encontrada,
d i
⟨φk |ρ(t)|φn ⟩ = [⟨φk |ρ(t)H|φn ⟩ − ⟨φk |Hρ(t)|φn ⟩]
dt ~
i
= [En ⟨φk |ρ(t)|φn ⟩ − Ek ⟨φk |ρ(t)|φn ⟩]
~
i
= (En − Ek )⟨φk |ρ(t)|φn ⟩ . (12.51)
~
Essa é uma equação diferencial de solução simples, expressa por
⟨φk |ρ(t)|φn ⟩ = e ~ (En −Ek )t ⟨φk |ρ(0)|φn ⟩ .
i
(12.52)
Desse modo, o elemento de matriz dependente do tempo ⟨φk |ρ(t)|φn ⟩ fica expresso em termos de um
elemento de matriz densidade no tempo t = 0. Em situações em que a hamiltoniana é independente do
tempo, temos
ρ(t) = e− ~ Ht ρ(0) e ~ Ht
i i
(12.53)
i
É fácil verificar que (12.53) é solução de (12.50), para isso devemos expandir em série o operador e ~ Ht da
expressão (12.53) e substituir o resultado na expressão (12.50).

12.4 Sistemas de Dois Níveis


Embora os sistemas da natureza tenham, em geral, um grande número de níveis, existe situações em que
apenas dois deles são relevantes. Um exemplo importante é este: uma onda eletromagnética, monocromá-
tica, de frequência ω + ϵ, com ωϵ ≪ 1, incide sobre um átomo, de infinitos níveis de energia, que tem, entre
eles, dois níveis de energias tais que E1 − E2 = ~ω. A frequência da onda é muito próxima da diferença
de níveis dividida por ~. Nesse caso, apenas os níveis E1 e E2 participam do processo, sendo, os outros,
espectadores, que podem, para esse fim específico, ser ignorados.
Nesta seção vamos estudar sistemas idealizados que têm somente dois níveis de energia. Supondo que
esses níveis não sejam degenerados, conclui-se que todo conjunto completo e linearmente independente
de vetores de estado desse sistema possui apenas dois elementos: o conjunto de todos os estados forma,
com as operações usuais de adição e multiplicação por um número complexo, um espaço vetorial complexo
de dimensão 2, e a hamiltoniana, bem como todos os operadores lineares, podem ser representados por
matrizes complexas 2 × 2.
A equação de Schrödinger é dada por
∂χ(t)
i~
= Hχ(t) (12.54)
∂t
e, supondo que a hamiltoniana não dependa explicitamente do tempo, pode-se integrar formalmente, ob-
tendo
χ(t) = e− ~ Ht χ(0) .
i
(12.55)
Por causa da simplicidade do sistema, é possível escrever explicitamente o operador e− ~ Ht . Os autoestados
i

da energia, |E1 ⟩ e |E2 ⟩ satisfazem as equações


H|E1 ⟩ = E1 |E1 ⟩ (12.56)
e
H|E2 ⟩ = E2 |E2 ⟩ (12.57)
e todo estado χ pode ser expandido em termos deles:4
χ(t) = |χ(t)⟩ = (|E1 ⟩⟨E1 | + |E2 ⟩⟨E2 |) |χ(t)⟩
= ⟨E1 |χ(t)⟩|E1 ⟩ + ⟨E2 |χ(t)⟩|E2 ⟩
= c1 (t)|E1 ⟩ + c2 (t)|E2 ⟩ . (12.58)
4
Como é usual entre os físicos, estaremos, indiferentemente, denotando o estado por χ ou |χ⟩. Em geral usaremos essa última
forma quando quisermos fazer uso de alguma das característica da genial notação de Dirac.
312 C AP. 12 M ATRIZ D ENSIDADE

Podemos definir uma função de uma variável complexa como uma função f (H) da hamiltoniana da seguinte
forma:

f (H)|χ(t)⟩ = c1 (t)f (H)|E1 ⟩ + c2 (t)f (H)|E2 ⟩


= c1 (t)f (E1 )|E1 ⟩ + c2 (t)f (E2 )|E2 ⟩ . (12.59)

Usando-se essa operação mostra-se facilmente que


E2 I − H E1 I − H
f (H) = f (E1 ) + f (E2 ) (12.60)
E2 − E1 E1 − E2
que, usada para o operador de evolução temporal, dará:
1 ( ) H ( i )
e− ~ Ht = E2 e− ~ E1 t − E1 e− ~ E2 t + e− ~ E2 t − e− ~ E1 t .
i i i i
(12.61)
E2 − E1 E2 − E1
Tendo esse resultado, podemos formular a seguinte pergunta: suponhamos que o sistema se encontre, em
t = 0, em um estado |χ(0)⟩. Qual será a probabilidade para, decorridos t segundos, ele permanecer no
mesmo estado?
Se, em t = 0, temos o estado dado por χ(0), no instante t posterior, temos

χ(t) = e− ~ Ht χ(0)
i
(12.62)

e usando a expressão acima na relação (12.61)


χ(0) ( ) Hχ(0) ( − i E2 t )
E2 e− ~ E1 t − E1 e− ~ E2 t + − e− ~ E1 t
i i i
χ(t) = e ~ (12.63)
E2 − E1 E2 − E1
mas se,
χ(0) = c1 |E1 ⟩ + c2 |E2 ⟩ (12.64)
então
c1 |E1 ⟩ + c2 |E2 ⟩ ( ) c E |E ⟩ + c E |E ⟩ ( i )
E2 e− ~ E1 t − E1 e− ~ E2 t + e− ~ E 2 t − e− ~ E 1 t .
i i 1 1 1 2 2 2 i
χ(t) =
E2 − E1 E2 − E1
(12.65)
A probabilidade do sistema, em t, estar no mesmo estado, será obtida da seguinte forma: existe uma base
do espaço dos estados formada por |χ(0)⟩ e outros estados, ortogonais a ele. Expandimos |χ(t)⟩ nessa base:

|χ(t)⟩ = a(t)|χ(0)⟩ + · · · (12.66)

Sabemos que a probabilidade é dada por |a(t)|2 . Temos que

⟨χ(0)|χ(t)⟩ = a(t)⟨χ(0)|χ(0)⟩ = a(t) . (12.67)

Então, a probabilidade será |a(t)|2 = |⟨χ(0)|χ(t)⟩|2 . Nosso próximo passo será calcular a amplitude de
probabilidade ⟨χ(0)|χ(t)⟩. Assim, temos

1 ( ) ⟨χ(0)|H|χ(0)⟩ ( i )
E2 e− ~ E1 t − E1 e− ~ E2 t + e− ~ E2 t − e− ~ E1 t
i i i
⟨χ(0)|χ(t)⟩ = (12.68)
E2 − E1 E2 − E1
ou
1 ( ) |c |2 E + |c |2 E ( i )
E2 e− ~ E1 t − E1 e− ~ E2 t + e− ~ E2 t − e− ~ E1 t . (12.69)
i i 1 1 2 2 i
⟨χ(0)|χ(t)⟩ =
E2 − E1 E2 − E1

Suponhamos que |c1 |2 = 1 e |c2 |2 = 0. Então, após uma álgebra simples,

⟨χ(0)|χ(t)⟩ = e− ~ E1 t
i
(12.70)
12.4. S ISTEMAS DE D OIS N ÍVEIS 313

logo,
|⟨χ(0)|χ(t)⟩|2 = 1 (12.71)
ou seja, um sistema que está num estado estacionário permanece nele, daí se chamar estacionário!
É fácil mostrar que os estados estacionários são os únicos que possuem essa propriedade. De fato, se

|χ(t)⟩ = e− ~ Ht |χ(0)⟩
i
(12.72)

|χ(0)⟩ = c1 |E1 ⟩ + c2 |E2 ⟩ (12.73)

|χ(t)⟩ = c1 e− ~ E1 t |E1 ⟩ + c2 e− ~ E2 t |E2 ⟩


i i
(12.74)

⟨χ(0)|χ(t)⟩ = |c1 |2 e− ~ E1 t + |c2 |2 e− ~ E2 t


i i
(12.75)

1
|⟨χ(0)|χ(t)⟩|2 = |c1 |4 + |c2 |2 + 2|c1 |2 |c2 |2 cos (E1 − E2 )t . (12.76)
~
Para que |⟨χ(0)|χ(t)⟩|2 = 1 para todo t, temos que ter ou c1 = 0 ou c2 = 0. Em qualquer dos casos o outro
coeficiente será de módulo igual à 1, pois |c1 |2 + |c2 |2 = 1. Logo, |χ(0)⟩ = |E1 ⟩ ou |χ(0)⟩ = |E2 ⟩.
Tomamos agora uma base arbitrária do espaço dos estados, formada por |ϕ1 ⟩ e |ϕ2 ⟩. Então o estado
|χ(t)⟩ será expandido, nesta base, como

|χ(t)⟩ = (|ϕ1 ⟩⟨ϕ1 | + |ϕ2 ⟩⟨ϕ2 |)|χ(t)⟩ = ⟨ϕ1 |χ(t)⟩|ϕ1 ⟩ + ⟨ϕ2 |χ(t)⟩|ϕ2 ⟩ . (12.77)

Introduzindo a notação
χi (t) ≡ ⟨ϕi |χ(t)⟩
temos
|χ(t)⟩ = χ1 (t)|ϕ1 ⟩ + χ2 (t)|ϕ2 ⟩ . (12.78)
A equação de Schrödinger será

i~ |χ(t)⟩ = H|χ(t)⟩ = χ1 (t)H|ϕ1 ⟩ + χ2 (t)H|ϕ2 ⟩ (12.79)
∂t
e, tomando os produtos escalares com |ϕi ⟩,

i~ ⟨ϕ1 |χ(t)⟩ = χ1 (t)⟨ϕ1 |H|ϕ1 ⟩ + χ2 (t)⟨ϕ1 |H|ϕ2 ⟩ (12.80)
∂t

i ~ ⟨ϕ2 |χ(t)⟩ = χ1 (t)⟨ϕ2 |H|ϕ1 ⟩ + χ2 (t)⟨ϕ2 |H|ϕ2 ⟩ . (12.81)
∂t
Usando Hij = ⟨ϕi |H|ϕj ⟩, temos
∂χ1
i~ = H11 χ1 + H12 χ2 (12.82)
∂t
∂χ2
i~ = H21 χ1 + H22 χ2 . (12.83)
∂t
Para estados estacionários, H12 = H21 = 0. Logo, os elementos de matriz H21 e H12 são os que promovem
as transições entre os estados.
De fato, seja |ϕ1 ⟩ um dos estados da base,

|ϕ1 (t)⟩ = e− ~ Ht |ϕ1 ⟩


i

|ϕ1 ⟩ ( ) H|ϕ1 ⟩ ( − i E2 t )
E2 e− ~ E1 t − E1 e− ~ E2 t + − e− ~ E 1 t .
i i i
= e ~ (12.84)
E2 − E1 E2 − E1
314 C AP. 12 M ATRIZ D ENSIDADE

Então calculando a probabilidade de que, em algum t, o sistema se encontre em |ϕ2 ⟩, temos essa amplitude
dada por
H21 ( − i E2 t )
− e− ~ E1 t .
i
⟨ϕ2 |ϕ1 (t)⟩ = e ~ (12.85)
E2 − E1
Claro que se H21 = 0 não haverá transição de estado. A probabilidade obtida na expressão (12.85) cla-
ramente exibe um termo de interferência em adição a soma das duas exponenciais. Tal decaimento não
exponencial tem sido observado em espectroscopia atômica e no estudo dos mésons K neutro, K 0 . 5

12.5 Polarização
Na discussão do sistema de dois níveis, caracterizamos os estados em termos das componentes de dois spi-
nores. Nessa seção iremos considerar alguns outros métodos para especificar um estado. Vamos considerar
o spinor, com γ1 , γ2 reais: ( ) ( )
a1 |a1 |ei γ1
|χ⟩ = = (12.86)
a2 |a2 |ei γ2
sendo a1 e a2 quantidades complexas, que caracterizam um particular estado. Entretanto o mesmo estado
físico pode ser descrito por diferentes spinores. Se a condição de normalização do spinor |χ⟩ for obedecida

|a1 |2 + |a2 |2 = 1 (12.87)

podemos afirmar com certeza que |χ⟩ e ei α |χ⟩, com α real e arbitrário, representam o mesmo estado.
Assim usando a forma elegante de representar um estado ket, temos operador densidade ρ dado por
( )
|a1 |2 a1 a∗2
ρ= . (12.88)
a2 a∗1 |a2 |2

Como uma matriz hermitiana 2×2, o operador densidade ρ poderá ser expandido em termos das matrizes
de Pauli σx , σy e σz e da matriz identidade I, ao sistema de spin 21 . Então podemos escrever ρ como

1
ρ = (I + P
⃗ · ⃗σ ) (12.89)
2
onde Px , Py e Pz são três números reais dados por

Px = 2 ℜ[a∗1 a2 ]
Py = 2 ℑ[a∗1 a2 ] (12.90)
Pz = |a1 |2 − |a2 |2

e tendo comprimento unitário, i.e., P


⃗ ·P
⃗ =P
⃗ 2 = 1. Ainda podemos escrever que

P
⃗ = [⃗σ ] = tr(ρ⃗σ ) = tr(⃗σ ρ) (12.91)

provando que P
⃗ atua como um vetor sob rotações.
Sabemos que
ρ|χ⟩ = |χ⟩
e pela Eq. (12.89), podemos afirmar que o spinor é um autospinor da matriz P
⃗ · ⃗σ :

P
⃗ · ⃗σ |χ⟩ = |χ⟩ . (12.92)

Com isso, o vetor unitário P


⃗ é dito legitimamente como o vetor apontado na direção do spin da partícula.
O vetor P
⃗ é conhecido como vetor polarização do estado.
5
W. M. Itano et al., Physical Review, A41, 2295 (1990); A. Angelopoulos et al., The European Physical Journal, C22, 55 (2001).
12.6. P RECESSÃO DO V ETOR P OLARIZAÇÃO 315

12.6 Precessão do Vetor Polarização


Das relações
⟨A⟩ = tr(ρA) = tr(Aρ)

e

i~ = Hρ − ρH
dt
a equação de movimento para qualquer valor esperado ⟨A⟩ pode ser derivado de
( ) ( )
d⟨A⟩ dρ ∂A
i~ = i ~ tr A + i ~ tr ρ
dt dt ∂t
⟨ ⟩
∂A
= tr [(Hρ − ρH)A] + i ~
∂t
⟨ ⟩
∂A
= tr [ρ(AH − HA)] + i ~
∂t
⟨ ⟩
∂A
= ⟨AH − HA⟩ + i ~ . (12.93)
∂t

Agora vamos derivar a equação de movimento do vetor polarização P ⃗ = ⟨⃗σ ⟩. Para obtermos uma
fórmula simples é conveniente representar o operador hamiltoniano H como

1( ⃗ · ⃗σ
)
H= A0 I + A (12.94)
2

em que A0 e as componente de A ⃗ são quantidades reais e ⃗σ formam as matrizes de Pauli. Usando as Eqs.
(12.93) e (12.94) com a relação
⃗σ × ⃗σ = 2 i ⃗σ

temos

dP
⃗ d⟨⃗σ ⟩ 1 1
= = ⟨⃗σ H − H⃗σ ⟩ = ⟨⃗σ A
⃗ · ⃗σ − A
⃗ · ⃗σ⃗σ ⟩
dt dt i~ 2i~
1 ⃗ 1⃗
= ⟨A × (⃗σ × ⃗σ )⟩ = A × ⟨⃗σ ⟩ (12.95)
2i~ ~
ou
dP

~ ⃗ ×P
=A ⃗. (12.96)
dt
Essa equação é de tal forma como a simples equação de movimento da mecânica clássica para o pião
girando. Desde que
dP
⃗2 d(P
⃗ · P)
⃗ dP
⃗ 2 ⃗ (⃗ )
= = 2P ·
⃗ = P· A×P =0 ⃗ (12.97)
dt dt dt ~

o vetor P
⃗ permanece com seu comprimento constante. Isso é meramente um modo alternativo de dizer que
a normalização de |χ⟩ é conservada durante o movimento. Se A
⃗ é um vetor constante, da expressão (12.96)
implica que P precessa ao redor de A com uma velocidade angular constante
⃗ ⃗


A
ω
⃗A = . (12.98)
~
316 C AP. 12 M ATRIZ D ENSIDADE

Exemplo Se uma partícula de spin 12 , em que podemos desprezar os outros graus de liberdade exceto o
spin, está na presença de um campo magnético constante ⃗B, a hamiltoniana poderá ser escrita na forma
~
H = −⃗
µs · ⃗B = −γ ⃗σ · ⃗B .
2
⃗ é dado por
A quantidade γ é a razão giromagnética, e o vetor A
⃗ = −~γ ⃗B .
A

Assim, neste caso, a relação (12.96) será

dP

= γP
⃗ × ⃗B (12.99)
dt
ou
d⟨⃗σ ⟩
= γ⟨⃗σ ⟩ × ⃗B . (12.100)
dt
A equação acima é justamente a equação clássica de precessão, quando temos um campo magnético cons-
tante ⃗B = B0 û que causa uma precessão de P⃗ com velocidade angular ω0 = −γB0 . Essa concordância
entre a equação de movimento quântico e clássico pode ser justificada baseado no teorema de Ehrenfest. 6

12.7 Polarização e Espalhamento


Quando desenvolvemos a teoria de espalhamento, não levamos em consideração o spin da partícula. Entre-
tanto, partículas incidentes com spin- 12 são representadas pela função de onda na seguinte forma,
( )
i kz c1
i kz
e χinc = e , χ†inc χinc = 1 . (12.101)
c2

No espalhamento, queremos olhar para as soluções assintóticas da equação de Schrödinger

ei kr
ei kz χinc + f (θ, φ) (12.102)
r
onde a amplitude de espalhamento f (θ, φ) é agora um spinor de duas componentes.
Usando o princípio de superposição, podemos construir a solução geral da Eq. (12.102) de duas soluções
particulares, que são: χinc = α que descreve o feixe incidente com polarização ao longo da direção do mo-
mentum inicial, e χinc = β que descreve o feixe incidente com polarização oposta a direção do momentum
inicial. A polarização é dita longitudinal. Para as duas soluções da forma assintótica, temos,

ei kr
ψ1 ∼ ei kz α + (S11 α + S21 β) (12.103a)
r
e i kr
ψ2 ∼ ei kz β + (S12 α + S22 β) (12.103b)
r
onde as quantidades entre parênteses nos fornece a forma apropriada da amplitude de espalhamento.
Multiplicando (12.103a) por c1 , (12.103b) por c2 , e adicionando as duas equações, temos a solução
geral na forma ( ) ( )( ) ( )
i kz c1 ei kr S11 S12 c1 ei kr
e + = e +i kz
S χinc . (12.104)
c2 r S21 S22 c2 r
Onde, aqui S representa a matriz de espalhamento 2 × 2,
( )
S11 S12
S= . (12.105)
S21 S22
6
F. Bloch, Physical Review, 70, 460 (1946).
12.7. P OLARIZAÇÃO E E SPALHAMENTO 317

A matriz S depende de θ, φ e do momentum ⃗k. O problema de espalhamento será resolvido se a matriz S


for determinada como função dessas variáveis.
Vamos assumir uma simetria esférica para o potencial espalhador, o operador hamiltoniano H é inva-
riante sob rotações e comuta com as componentes do momentum angular ⃗J. As ondas incidentes (12.103a)
e (12.103b) são autoestados de Jz com autovalores + ~2 e − ~2 , respectivamente. Logo, temos
( )
1 ∂ 1 ~
Jz ψ1 = ~ + σ z ψ1 = + ψ1
i ∂φ 2 2
e ( )
1 ∂ 1 ~
Jz ψ2 = ~ + σ z ψ2 = − ψ2
i ∂φ 2 2
e fica fácil verificar que S11 e S22 são funções somente de θ, e os elementos da diagonal da matriz têm a
forma
S12 = e− i φ F (θ) e S21 = ei φ F (θ) (12.106)
onde F (θ) é uma função de θ. Além disso, o operador H é invariante em relação a reflexão com respeito a
qualquer plano de coordenada. 7 Sem demonstração, o operador para reflexão no plano-yz é Px σx , onde Px
simplesmente altera x para −x, e σx tem o efeito

σx α = β, σx β = α .
i kr
Através dessa operação a onda incidente ei kz α muda para ei kz β e e r é invariante. Em termos de coorde-
nadas esféricas, Px tem o efeito de transformar φ em π − φ. Assim,

S11 = S22 = g (θ) S21 (−φ, θ) = −S12 (φ, θ) = −e− i φ h(θ) .

Consequentemente,
( )
g (θ) h(θ)e− i φ
S= = g (θ)I + i h(θ) (σy cos φ − σx sen φ) (12.107)
−h(θ)e i φ g (θ)

o versor n̂ = (− sen φ, cos φ, 0) é normal ao plano de espalhamento. Logo, a matriz de espalhamento terá
a forma
S = g (θ)I + i h(θ)n̂ · ⃗σ . (12.108)
As funções g (θ) e h(θ) podem ser determinadas somente pela solução da equação de Schrödinger.
Conhecida a matriz S, é fácil calcular a intensidade do feixe para uma dada direção. Se a Eq. (12.104)
é a forma assintótica da função de onda, então por uma generalização, a seção de choque diferencial será
dada por

= (Sχinc )† Sχinc = χ†inc S † Sχinc (12.109)
dΩ
que é análoga à |f (θ)|2 para as partículas sem spin. Se a matriz densidade ρinc descreve o estado de polari-
zação do feixe incidente, a relação acima poderá ser escrita na forma

= tr(ρinc S † S) . (12.110)
dΩ
Usando (12.108) para a matriz de espalhamento e
1( )
ρinc = I+P
⃗ 0 · ⃗σ
2
para a matriz densidade do feixe incidente, a seção de choque diferencial será dada por
( )
dσ ( 2 ) g ∗ h − gh∗ ⃗
= |g| + |h| 2
1+i 2 P0 · n̂ . (12.111)
dΩ |g| + |h|2
7
No próximo capítulo, estudaremos o operador de reflexão, operador paridade, em detalhes.
318 C AP. 12 M ATRIZ D ENSIDADE

A relação acima mostra que a intensidade de espalhamento depende do ângulo azimutal como

I = a(θ) + b(θ) cos φ

que está de acordo com a distribuição angular para o espalhamento de partículas de spin 12 . Desse modo, te-
mos uma assimetria de mão-direita/mão-esquerda no espalhamento de feixes polarizados como consequên-
cia direta do spin da partícula.

12.8 Mecânica Estatística Quântica


Aqui faremos uma breve discussão da conexão entre o formalismo do operador densidade e a mecânica
estatística. Para tal, consideremos um sistema com N constituintes independentes, cujas observáveis são
A1 , A2 , A3 , · · · , AN , sendo [Ai , Aj ] = 0. Podemos escrever a matriz densidade como

ρ= |a′1 · · · a′N ⟩w(a′1 · · · a′N )⟨a′1 · · · a′N | (12.112)
a′1 ···a′N

onde assumimos a independência estatística, i.e., assumimos que os sistemas separados são distinguíveis.
Para sistemas de partículas idênticas, necessitamos de considerações especiais, nesse momento ainda não
estudadas. Voltando ao nosso caso, temos

w(a′1 · · · a′N ) = w1 (a′1 )w2 (a′2 ) · · · wN (a′N ) .

Por termos
|a′1 · · · a′N ⟩ = |a′1 ⟩|a′2 ⟩ · · · |a′N ⟩
o operador densidade será


N ∑
ρ= ρi com ρi = |a′i ⟩wi (a′i )⟨a′i | . (12.113)
i=1 a′i

Agora podemos definir um novo operador que seja multiplicativo e aditivo, i.e., definimos ln ρ. Se
tivermos um sistema termodinâmico uniforme, isso implica uma proporcionalidade com o volume. Então,
considerando o valor médio de ln ρ → tr(ρ ln ρ), podemos definir uma quantidade chamada σ pela relação

σ = −tr(ρ ln ρ) . (12.114)

Devemos estudar essa quantidade para uma melhor compreensão, se usamos a base de que ρ é uma matriz
diagonal ∑ diag
σ=− ρkk ln ρdiag
kk . (12.115)
k

Devido ao fato de que cada elemento ρdiag


kk ser um número real entre 0 e 1, σ será necessariamente um
positivo semi-definido. Para um sistema completamente randômico, temos


N ( )
1 1
σ=− ln = ln N . (12.116)
N N
k=1

Em contraste, se o sistema for completamente puro

σ=0 (12.117)

pois será usado o fato de que ρdiag diag


kk = 0 ou ln ρkk = 0 na expressão (12.115). Com isso, podemos argu-
mentar que fisicamente, σ pode representar a medida de desordem. De um lado temos um sistema comple-
tamente puro, ou seja, todos os membros são caracterizados por um mesmo estado quântico, aonde temos
12.8. M ECÂNICA E STATÍSTICA Q UÂNTICA 319

uma ordem. Por outro lado, para um sistema completamente aleatório, os estados quânticos de cada membro
são igualmente aleatórios, o que nos leva à uma desordem do sistema.
Em termodinâmica, aprendemos que uma quantidade conhecida como entropia mede essa desordem.
Assim, podemos associar a quantidade σ com a entropia, denotada por S, tal que

S = kσ (12.118)

onde k é uma constante universal identificada com a constante de Boltzmann. Em fato, estamos usando S
como a definição de entropia na mecânica estatística quântica,

S = −k tr(ρ ln ρ) (12.119)

que naturalmente, para um estado puro, onde somente um valor de wi (a′i ) = 1 e os demais são nulos, temos
S = 0. Se 0 ≤ wi ≤ 1, temos S ≥ 0. Assim, em nosso estudo, devemos maximizar o valor de σ (ou de S)
sujeito ao vínculo que o conjunto médio da hamiltoniana tenha um certo valor prescrito.
Em qualquer caso, quando um equilíbrio térmico é estabelecido, esperamos que

∂ρ
=0 (12.120)
∂t
e como
∂ρ i
= [ρ, H]
∂t ~
implica que ρ e H podem ser diagonalizáveis simultaneamente. Maximizar a entropia, requer que

δS = 0 . (12.121)

Temos que ter em conta que maximizando S, esse estará sujeito à um vínculo de que a média da hamil-
toniana H do ensemble terá um certo valor prescrito, pois estamos em equilíbrio térmico. Na mecânica
estatística, [H] é identificado com a energia interna por constituinte do sistema, U :

[H] = tr(ρH) = U (12.122)



lembrando que k ρkk = 1, devido ao vínculo de normalização

δ [H] = δρkk Ek = 0 (12.123)
k

e ∑
δ(trρ) = δρkk = 0 . (12.124)
k

Podemos prontamente introduzir os multiplicadores de Lagrange, β e γ. 8 Temos



δρkk [(ln ρkk + 1) + βEk + γ] = 0 (12.125)
k

na qual uma variação arbitrária é possível somente se

ρkk = e(−βEk −γ−1) . (12.126)



A constante γ poderá ser eliminada usando a condição de normalização k ρkk = 1, e nosso resultado final
será
e−βEk
ρkk = ∑N , (12.127)
−βEl
l=1 e
8
Para maiores detalhes dos multiplicadores de Lagrange, ver o livro do Goldstein, Classical mechanics, (1980).
320 C AP. 12 M ATRIZ D ENSIDADE

a equação acima é conhecida na mecânica estatística como um ensemble canônico. Para um sistema com-
pletamente aleatório e no limite de alta temperatura, i.e., no limite β → 0,
1
ρkk = (12.128)
N
independente de k.
Podemos ainda reconhecer o denominador da expressão (12.127) como sendo a função partição


N
Z= e−βEk (12.129)
k=1

da mecânica estatística, que também poderá ser escrita na forma


( )
Z = tr e−βH . (12.130)

Conhecido ρkk na base de energia, finalmente temos o operador densidade na forma

e−βH
ρ= . (12.131)
Z
Essa é a mais básica equação associada à mecânica estatística da qual tiramos as informações que se segue.
Para uma observável A qualquer, a média do ensemble será
( )
tr e−βH A
[A] =
Z
∑N −βEk
k ⟨A⟩k e
= ∑ N −βEk
. (12.132)
k e

Em particular, para a energia interna por constituinte do sistema, temos


∑N −βEk
k Ek e
U= ∑ N −βEk
k e

=− (ln Z) (12.133)
∂β
uma fórmula muito conhecida de todos os estudantes de mecânica estatística. O parâmetro β está relacio-
nado com a temperatura T do sistema,
1
β= (12.134)
kT
o que indica que para o caso de limites de baixas temperaturas, β → ∞, o ensemble canônico se torna um
ensemble puro onde a população encontra-se somente no estado fundamental. Enquanto que no caso oposto,
limites de alta temperatura, β → 0, o ensemble canônico se torna um ensemble completamente aleatório
onde a população encontra-se aleatoriamente em todos os autoestados de energia.

Exemplo Vamos considerar como exemplo ilustrativo um ensemble canônico com partículas de spin 21 ,
momento magnético 2µe~e c sujeito à um campo magnético uniforme ⃗B, na direção ẑ,
( )
e ⃗ ⃗
H=− S · B = ωSz
µe c
com
|e|B
ω= .
µe c
Logo, H e Sz comutam.
12.8. M ECÂNICA E STATÍSTICA Q UÂNTICA 321

A matriz densidade para esse ensemble canônico será diagonal na base Sz . Então,
( −β~ω/2 )
e 0
. 0 eβ~ω/2
ρ= (12.135)
Z
onde a função partição é
β~ω β~ω
Z = e− 2 + e 2 . (12.136)
Dessas relações, temos
[Sx ] = 0
[Sy ] = 0 (12.137)
( ) ( )
~ β~ω
[Sz ] = − tanh .
2 2
A média do momento magnético para esse ensemble é
e
[Sz ] .
µe c
Então a susceptibilidade paramagnética χ do material aqui constituído será
e
[Sz ] = χB (12.138)
µe c
que nos dará a fórmula de Brillouin para χ
( ) ( )
|e|~ β~ω
χ= tanh . (12.139)
2µe cB 2

Problemas
12.1 Mostre que para o operador densidade ρ, hermitiano definido de traço 1, representar um estado puro,
é necessário e suficiente que tr(ρ2 ) = 1.
12.2 Considere uma amostra mista de partículas de spin 21 . Supondo as médias [Sx ], [Sy ] e [Sz ] conhecidas.
Mostre como podemos construir a matriz densidade desta amostra.
12.3 Prove que o operador densidade, ρ, evoluindo no tempo é dado por ρ(t) = U(t, t0 )ρ(t0 )U† (t, t0 ) .
Observação: Representação de Schrödinger.
12.4 Se A é uma matriz hermitiana com autospinores u e v, correspondendo aos distintos autovalores A′1 e
A′2 , mostre que a probabilidade de encontrar A′1 na medida de A no estado χ é dada por
( )
† A′2 − A
|(u χ)| = tr ρ ′
2
= tr(ρuu† ) .
A2 − A′1
( iα )
e cos δ
12.5 Dado um spinor χ = , calcule o vetor polarização e construa a matriz UR na qual roda
ei β cos δ
( )
1
esse estado para .
0
12.6 Derive as propriedades da matriz densidade na qual representam um estado estacionário.
12.7 Se um feixe não polarizado de partículas de spin 12 está incidindo em um alvo simetricamente esférico,
prove que a polarização do feixe espalhado é dada por P ⃗ = i g∗ h−gh ∗
n̂ .
|g|2 +|h|2

12.8 Considere uma amostra de um sistema de spin 1. A matriz densidade é agora uma matriz 3 × 3. Como
os muitos parâmetros reais independentes são necessários para caracterizar a matriz densidade? O que
mais conhecemos em adição a [Sx ], [Sy ] e [Sz ] para caracterizar a amostra completamente?
322 C AP. 12 M ATRIZ D ENSIDADE

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomenda-se uma leitura dos clássicos livros:

– E. Merzbacher [61];
– J. J. Sakurai [74].

Nesses livros podemos encontrar um excelente trabalho sobre a matriz densidade e suas aplicações.
Outro excelente trabalho envolvendo a matriz do operador densidade será encontrado na leitura de um
dos autores (Landau) do assunto em seu magnífico livro:

– L. D. Landau and E. M. Lifshitz [52].


Capítulo 13
Simetrias e Leis de Conservação

As leis de conservação de energia, momentum linear e momentum angular são válidas tanto na mecânica
clássica 1 como na mecânica quântica e resultam da invariância da teoria em relação às operações de trans-
lações no tempo e no espaço e em relação às rotações. Essas leis estão portanto ligadas à princípios de
invariância ou de simetria.

13.1 Simetrias na Física Clássica e Quântica


Em 1918, Emmy Noether 2 demonstrou que as leis de conservação da física estão relacionadas com sime-
trias do operador hamiltoniano.

Simetrias na Mecânica Clássica Faremos uma pequena revisão dos conceitos de simetria e leis de con-
servação na física clássica. Vamos partir da lagrangiana L, que é função da coordenada generalizada qi e
de sua correspondente velocidade generalizada q̇i . Se L é invariante para um deslocamento

qi → qi + δqi (13.1)

então temos
∂L
= 0. (13.2)
∂qi
Em virtude da equação de Euler-Lagrange

∂L d ∂L
− =0
∂qi dt ∂ q̇i
temos
dpi
=0 (13.3)
dt
onde pi é o momentum canônico definido por

∂L
pi = . (13.4)
∂ q̇i

Então, se a lagrangiana L é invariante sob o deslocamento (13.1), a quantidade conservada será o momentum
canônico pi conjugado a qi . Similarmente podemos achar as quantidades conservadas para translação no
tempo, que será a energia (homogeneidade do espaço); e a quantidade conservada sob ação da rotação, que
será o momentum angular (isotropia do espaço).
1
Ver H. Goldstein, Classical mechanics, (1980).
2
Amalie Emmy Noether (1882–1935), matemática alemã.

323
324 C AP. 13 S IMETRIAS E L EIS DE C ONSERVAÇÃO

Simetrias na Mecânica Quântica Uma transformação do estado ket de um sistema físico é uma simetria
se os estados transformados derem lugar às mesmas leis físicas que encontradas nos estados considerados
inicialmente.
Consideremos um operador unitário U que transforma um dado estado físico |ψ⟩ no estado |ψ ′ ⟩. Assim,
temos

|ψ ′ ⟩ = U|ψ⟩ (13.5a)
′ †
⟨ψ | = ⟨ψ|U . (13.5b)

O estado físico considerado é dito invariante com relação à transformação U se o valor esperado da
hamiltoniana para quaisquer dois estados |ψ⟩ e |ϕ⟩ permanece inalterados por tal transformação, i.e.,

⟨ψ ′ |H|ϕ′ ⟩ = ⟨ψ|H|ϕ⟩ . (13.6)

Usando as relações dadas em (13.5a) e (13.5b) na relação acima, encontramos

⟨ψ|U† HU|ϕ⟩ = ⟨ψ|H|ϕ⟩ → ⟨ψ|U† HU − H|ϕ⟩ = 0


→ U† HU − H = 0
→ U† HU = H (13.7)

o que equivale a dizer que

UU† HU − UH = 0 → HU − UH = 0 → [U, H] = 0 . (13.8)

Usando a equação de movimento de Heisenberg

d
i~ ⟨O⟩ = ⟨[O, H]⟩
dt
com O 7→ U, temos
d
⟨U⟩ = 0 . (13.9)
dt
Essa expressão nos mostra que os valores esperados do operador U são constantes de movimento. Portanto
a invariância de H sob a transformação do operador U gera uma lei de conservação.
Se U for uma transformação contínua podemos expressar as leis de conservação por intermédio do
gerador dessa transformação, normalmente dada pela relação

U = ei εG . (13.10)

Desse modo, usando (13.8)


[U, H] = 0 → [G, H] = 0 (13.11)
temos
d
⟨G⟩ = 0 . (13.12)
dt
Então G é uma constante de movimento.

13.2 Invariância Temporal e Energia


Se a hamiltoniana de um sistema físico H não depende explicitamente do tempo, a equação de movimento
de Heisenberg (6.43) nos mostra que:

d i ∂
H = [H, H] + H → H = constante . (13.13)
dt ~ ∂t
13.3. I NVARIÂNCIA E SPACIAL E Momentum L INEAR 325

Como H|ψ⟩ = E|ψ⟩, onde E é o autovalor que representa a energia da partícula, temos
d
E = [H, H] = 0 (13.14)
dt
o que significa que a energia é conservada.
Nosso próximo passo será ver qual o gerador da transformação que mantém a energia conservada.
Consideremos um operador unitário Ut definido por
Ut |ψ (t)⟩ = |ψ (t + τ )⟩ (13.15)
o que significa uma translação temporal τ . Usando o desenvolvimento da série de Taylor na expressão
acima, encontramos

|ψ (t + τ )⟩ = eτ ∂t |ψ (t)⟩ = Ut |ψ (t)⟩ (13.16)
o que implica em

Ut = eτ ∂t . (13.17)
Comparando essa expressão com a relação (13.10) e considerando ε = − τ~ , temos

G = i~ . (13.18)
∂t
Mas da equação de Schrödinger, a expressão i ~ ∂t

é denominada operador energia E, i.e.:

E → i~ . (13.19)
∂t
Assim, usando a Eq. (13.12), encontramos
d
⟨E⟩ = 0 . (13.20)
dt
Ou seja, temos a lei de conservação da energia, como o esperado.

13.3 Invariância Espacial e Momentum Linear


Nesse caso vamos considerar um operador unitário U⃗a definido por
U⃗a |ψ (⃗r)⟩ = |ψ (⃗r +⃗a)⟩ (13.21)
que representa uma translação espacial de ⃗a na direção de ⃗r. Novamente faremos uso do desenvolvimento
da série de Taylor, da relação acima encontramos

|ψ (⃗r +⃗a)⟩ = e⃗a · ∇ |ψ (⃗r)⟩ = U⃗a |ψ (⃗r)⟩



(13.22)
o que nos leva a fórmula
U⃗a = e⃗a · ∇ .

(13.23)
⃗a
Comparando a relação acima com (13.10) e considerando ε = ~, teremos

G = − i ~∇
⃗ . (13.24)
Mas da equação de Schrödinger, a expressão − i ~ ∇
⃗ é denominada operador momentum linear ⃗p, i.e.:

⃗p → − i ~ ∇
⃗ . (13.25)
Assim, usando a Eq. (13.12), temos
d
⟨⃗p⟩ = 0 . (13.26)
dt
Logo, a relação acima nos mostra que se a hamiltoniana do sistema é invariante por uma translação espacial,
o momentum linear é conservado, i.e., temos a lei de conservação do momentum linear.
326 C AP. 13 S IMETRIAS E L EIS DE C ONSERVAÇÃO

13.4 Invariância Rotacional e Momentum Angular


No caso de uma rotação vamos considerar um operador unitário U⃗ϕ definido por

U⃗ϕ |ψ (⃗r)⟩ = |ψ (⃗r + ⃗ϕ ×⃗r)⟩ (13.27)

que representa a rotação de um ângulo ⃗ϕ em torno da direção do vetor ⃗r. Mais uma vez faremos uso do
desenvolvimento da série de Taylor, assim da relação acima encontramos

|ψ (⃗r + ⃗ϕ ×⃗r)⟩ = eϕ · (⃗r×∇) |ψ (⃗r)⟩ = U⃗ϕ |ψ (⃗r)⟩

(13.28)

o que nos leva a seguinte forma



U⃗ϕ = eϕ · (⃗r×∇) .

(13.29)
⃗ϕ
Comparando a relação acima com (13.10) e considerando ε = ~, temos

G = − i ~ ⃗r × ∇
⃗ . (13.30)

Mas o operador momentum angular ⃗L pode ser escrito como um operador diferencial − i ~ ⃗r × ∇,
⃗ i.e.:

⃗L → − i ~ ⃗r × ∇
⃗ . (13.31)

Assim, usando a Eq. (13.12), encontramos


d ⃗
⟨L⟩ = 0 . (13.32)
dt
Logo, a relação acima nos mostra que se a hamiltoniana do sistema é invariante por rotação no espaço, o
momentum angular é conservado, i.e., temos a lei de conservação do momentum angular.

13.5 Simetria Discreta, Paridade ou Inversão Espacial


Seja um operador de inversão espacial P definido pela propriedade

⟨⃗r|P|ψ⟩ = ⟨−⃗r|ψ⟩ = ψ (−⃗r) (13.33)

para qualquer base |⃗r⟩ e qualquer estado ket |ψ⟩ do espaço de Hilbert. Uma outra propriedade desse ope-
rador é o fato de que P2 = I, i.e., um operador identidade, isso significa que P−1 = P e implica que seus
possíveis autovalores são apenas +1 e −1. Note que

⟨⃗r|P2 |ψ⟩ = ⟨−⃗r|P|ψ⟩ = ⟨⃗r|ψ⟩ (13.34)

para quaisquer |⃗r⟩ e |ψ⟩. A natureza dos autokets |ψp ⟩, com p = ±1 pode ser facilmente reconhecida por

⟨⃗r|P|ψp ⟩ = p⟨⃗r|ψp ⟩ = ⟨−⃗r|ψp ⟩ (13.35)

e as autofunções ⟨⃗r|ψp ⟩ são funções pares, quando p = +1, e ímpares, quando p = −1, com relação à
substituição de⃗r por −⃗r. Temos também que o operador P é hermitiano. De fato,

⟨ψ ′ |P† |ψ⟩ = ⟨ψ|P|ψ ′ ⟩∗


∫ ∫
( )
′ ∗
( )∗
= d r ⟨ψ|⃗r⟩⟨⃗r|P|ψ ⟩ = d3 r ⟨ψ|⃗r⟩⟨−⃗r|ψ ′ ⟩
3

∫ ∫
( )
′ ∗
= d r ⟨ψ| −⃗r⟩⟨⃗r|ψ ⟩ = d3 r⟨ψ ′ |⃗r⟩⟨−⃗r|ψ⟩
3

= ⟨ψ ′ |P|ψ⟩ (13.36)
13.5. S IMETRIA D ISCRETA , PARIDADE OU I NVERSÃO E SPACIAL 327

para quaisquer |⃗r⟩ e |ψ⟩. A observável associada ao operador de inversão espacial P é chamada paridade,
e os autokets de P são portanto estados de paridade definida. Autokets associados aos autovalores p = +1
ou p = −1 são kets de paridade par e ímpar respectivamente.
O efeito do operador de inversão espacial P sobre variáveis dinâmicas será

P⃗rP† = −⃗r e P⃗pP† = −⃗p . (13.37)

É fácil verificar o último termo da relação acima, P⃗pP† = −⃗p, como segue:

⟨⃗r|P⃗pP† |ψ⟩ = ⟨−⃗r|⃗pP|ψ⟩


~⃗ ~⃗
= − ∇⟨−⃗ r|P|ψ⟩ = − ∇⟨⃗
r|ψ⟩
i i
= ⟨⃗r| − ⃗p|ψ⟩ (13.38)

para quaisquer |⃗r⟩ e |ψ⟩. Em particular, vamos considerar o efeito do operador P sobre a hamiltoniana
p2 2
H = 2µ − er , i.e.,
( 2 )
p e2 p2 e2
P − P−1 = − (13.39)
2µ r 2µ r
generalizando
P−1 H P = H , (13.40)
portanto invariante. Então,
[P, H] = 0 , (13.41)
o que significa que P pode ser diagonalizado simultaneamente com a hamiltoniana H, ou seja, autofunções
da hamiltoniana podem ser escolhidas de tal forma a serem também autofunções de P. No entanto, para um
sistema formado por uma partícula em um campo central, a forma dessas autofunções
unl (r)
ψnlm (⃗r) = cnl Ylm (θ, φ)
r
juntamente com as propriedades dos harmônicos esféricos, i.e.,⃗r → −⃗r, ou (r, θ, φ) → (r, π − θ, φ + π),
passará a ser
unl (r)
ψnlm (−⃗r) = cnl Ylm (π − θ, φ + π) . (13.42)
r
Mas,
ei m(φ+π) = (−1)m ei mφ
e
Pl (cos (π − θ)) = Pl (− cos θ) = Pl (−ξ) = (−1)l Pl (ξ)
logo
Plm (π − θ) = (−1)l−m Plm (θ) .
Portanto
Ylm (π − θ, φ + π) = (−1)l Ylm (θ, φ) (13.43)
que mostra, de fato,
⟨⃗r|P|ψnlm ⟩ = ⟨−⃗r|ψnlm ⟩ = (−1)l ψnlm (⃗r) (13.44)
ou seja, os autokets |ψnlm ⟩ são também autokets de P com autovalor (−1)l . Devemos notar que os ângulos
que servem de argumento para Ylm (θ, φ) são ângulos polares esféricos, o que justifica a afirmação de que
para ⃗r → −⃗r, temos (r, θ, φ) → (r, π − θ, φ + π). Assim para termos paridade +1 teremos l par, e para
termos paridade −1 teremos l ímpar.
Conhecendo o efeito do operador de inversão espacial P sobre variáveis dinâmicas, ver (13.37)

P⃗rP† = −⃗r e P⃗pP† = −⃗p


328 C AP. 13 S IMETRIAS E L EIS DE C ONSERVAÇÃO

podemos discutir seu efeito no momentum angular total ⃗J. Primeiro iremos discutir esse efeito no momentum
angular orbital ⃗L. É fácil verificar, pela relação acima, que

[P, ⃗L] = 0 (13.45)

devido
⃗L = ⃗r × ⃗p (13.46)
e tanto ⃗r quanto ⃗p têm paridade ímpar. Entretanto, para mostrar que essa propriedade também é aplicada
para o spin, será melhor usar o fato de que ⃗J é o gerador da rotação. Para matrizes ortogonais 3 × 3, temos

Rparidade Rrot. = Rrot. Rparidade (13.47)

onde Rrot. é a rotação normal, e explicitamente


 
−1 0 0
Rparidade =  0 −1 0  , (13.48)
0 0 −1
ou seja, paridade e rotação comutam. Na mecânica quântica, é natural postular a correspondente relação
através de operadores unitários, tal que
PD(R) = D(R)P (13.49)
onde
i
D(R) = 1 − ⃗J · n̂ε .
~
Da Eq. (13.49) temos
[P, ⃗J] = 0 P†⃗JP = ⃗J .
ou (13.50)
Como ⃗J = ⃗L + ⃗S, podemos concluir que o operador spin ⃗S transforma-se da mesma forma que o operador
⃗L sob o efeito do operador P.
Sob efeito de rotações, ⃗r e ⃗J transformam-se do mesmo modo, tal que ambos são vetores, ou tensores
esféricos de espécie 1 (em inglês - rank 1). Entretanto,⃗r ou ⃗p têm paridade ímpar, enquanto ⃗J tem paridade
par. Vetores que têm paridade ímpar são chamados vetores polares, e vetores que têm paridade par são
chamados vetores axiais ou pseudovetores.
Finalmente, faremos nossa última consideração aplicando o operador de inversão espacial P

P−1⃗L · ⃗SP = ⃗L · ⃗S (13.51)

onde o operador de acoplamento spin-órbita ⃗L · ⃗S é um escalar ordinário, e

P−1⃗S ·⃗rP = −⃗S ·⃗r (13.52)

onde o operador ⃗S ·⃗r é um exemplo de um pseudoescalar.

Não Conservação da Paridade A hamiltoniana básica responsável pela conhecida interações fraca da
física de partículas elementares não é invariante sob o efeito do operador de inversão espacial, i.e., a paridade
é violada. Em processos de decaimentos podemos ter o estado final como uma superposição de estados de
paridades opostas. Quantidades observadas como a distribuição angular dos produtos do decaimento podem
depender de quantidades que conservam a paridade e de quantidades que violam a paridade. Em 1956,
T. D. Lee 3 e C. N. Yang 4 especularam teoricamente que a paridade não era conservada em interações fracas
e propuseram experimentos para testar essa hipótese. 5 Em 1957, Madame Wu 6 e colaboradores encontraram
a violação da paridade, através da famosa experiência do decaimento β no Co60 , i.e., Cobalto 60. 7
3
Tsung-Dao Lee (1926– ), físico chinês-americano.
4
Chen-Ning Franklin Yang (1922– ), físico chinês-americano.
5
T. D. Lee and C. N. Yang, Physical Review, 104, 254 (1956).
6
Chien-Shiung Wu (1912–1997), física chinesa-americana.
7
C. S. Wu et al., Physical Review, 105, 1413 (1957).
13.6. P OÇO D UPLO S IMÉTRICO 329

Decaimento Não Leptônico Λ → p + π − Considere o decaimento não leptônico dos híperons Λ →


p + π − como teste para conservação da paridade. O decaimento considerado representa uma interação
fraca. Sabemos que Λ e p têm spin 12 e paridade positiva (par), e π − tem spin 0 e paridade negativa (ímpar).
Como o momentum angular total é conservado, o estado final terá momentum angular orbital relativo 0 ou
1. Se
l = 0, a paridade é P(p)P(π − )(−1)0 = −1
e se
l = 1, a paridade é P(p)P(π − )(−1)1 = +1 .
Então se a paridade é conservada no decaimento de Λ, l = 0 é proibido. Se a paridade não é conservada
para esse decaimento, ambos os valores de l serão permitidos, e o estado final da função de onda do próton
poderá ser escrita na forma
ψ = ψs + ψp
⟩ (√ ⟩ √ ⟩)
1 1 2 1 1 1 1 1
= as Y00 , + ap Y11 , − − Y10 ,
2 2 3 2 2 3 2 2
⟩ ⟩
2, −2
são respectivamente as funções de onda de spin do próton para m = ± 21 , as e ap são
1 1 1 1
onde 2, 2 e

respectivamente as amplitudes das ondas S e P . Fazendo as corretas substituições de 23 Y11 = − sen θ,

1
3 Y10 = cos θ e Y00 = 1, temos

ψ ∗ ψ = |as |2 + |ap |2 − 2ℜ[as a∗p ] cos θ


∝ 1 + α cos θ
onde
2ℜ[as a∗p ]
α= .
|as |2 + |ap |2
Note que a distribuição angular é similar a discutida no §11.7. Aqui essa distribuição angular é quando temos
Λ polarizado, no sistema de repouso de Λ, p e π − movem-se em direções opostas. A distribuição angular de
p ou π − é ∝ 1+αP cos θ, sendo θ o ângulo entre a direção do p ou π − e a direção do vetor polarização de Λ.
Experimentalmente foi possível medir a polarização de Λ na ordem de αP = 0, 7 usando essas relações, ou
seja, comprovamos que ambos os valores de l são permitidos, i.e., a paridade tem contribuição conservada
e não conservada para o decaimento fraco Λ → p + π − . 8

13.6 Poço Duplo Simétrico


Como exemplo ilustrativo, vamos considerar o poço duplo simétrico, cf. Fig. 13.1. Na figura, os poços são as
regiões I e II, e a barreira tem altura U0 . Se a barreira fosse impenetrável, haveria níveis de energia relativos
ao movimento da partícula em um ou outro dos dois poços, ou seja, duas famílias de níveis iguais, uma em
cada poço. O fato de que o tunelamento através da barreira existe na mecânica quântica faz com que cada
um dos níveis relativos ao movimento em um dos poços se separe em dois níveis próximos, correspondendo
agora a estados da partícula em que ela está nos dois poços.
A determinação desse desdobramento de níveis é simples no caso em que se pode usar a aproximação
quase clássica. Uma solução aproximada da equação de Schrödinger para a energia potencial U (x), despre-
zando a probabilidade de passagem pela barreira, poderá ser construída com a função quase clássica ψ0 (x),
que descreve o movimento com uma certa energia E0 em um dos poços, por exemplo o poço I, e que é
exponencialmente decrescente em ambos os lados do poço I. A normalização aproximada dessa função
será dada por ∫ ∞
ψ02 dx = 1 . (13.53)
0
8
Review of Particle Physics, Journal of Physics G: Nuclear and Particle Physics, 33, 1 (2006).
330 C AP. 13 S IMETRIAS E L EIS DE C ONSERVAÇÃO

Figura 13.1 Poço duplo simétrico.

Portanto, para ψ0 , temos satisfeita a equação de Schrödinger

d2 ψ0 (x) 2µ
+ 2 [E − U (x)]ψ0 (x) = 0 , (13.54)
dx2 ~
no seguinte sentido: para x < 0 a equação será aproximadamente satisfeita porque, tanto ψ0 (x) quanto sua
derivada segunda, nesta região, são aproximadamente nulas.9 O produto ψ0 (x)ψ0 (−x), para x > 0, será
desprezível. O potencial como um todo será simétrico. A equação de Schrödinger

d2 ψ (x) 2µ
+ 2 [E − U (x)]ψ (x) = 0 (13.55)
dx2 ~
permanecerá válida quando se troca x por −x. Logo, se ψ (x) é uma função de onda, ψ (−x) também o é,
para o mesmo valor de E. Como não há degenerescência, temos para α real

ψ (−x) = ei α ψ (x) . (13.56)

Logo,
ψ (x) = ei α ψ (−x) = e2 i α ψ (x) (13.57)
e portanto e2 i α = 1, que implica em α = nπ. Assim, como consequência,
{
ψ (−x) = ψ (x) par
(13.58)
ψ (−x) = −ψ (x) ímpar .

Os autoestados de energia desse sistema possuem, portanto, paridade par ou ímpar. Isso é uma consequência
do fato de que U (−x) = U (x). As funções de onda corretas, na aproximação quase clássica, serão obtidas
construindo, a partir de ψ0 , formando a função ψ1 , simétrica, e a ψ2 , antissimétrica:

 1
 ψ1 (x) = √2 [ψ0 (x) + ψ0 (−x)] simétrica
(13.59)

 ψ2 (x) = √1 [ψ0 (x) − ψ0 (−x)]
2
antissimétrica .

Note que a função ψ0 (x) não é autofunção da hamiltoniana com a energia potencial U (x), simétrica: é sim a
função de onda que teríamos se a barreira de potencial fosse impenetrável. Tanto que ψ0 (−x) é desprezível,
enquanto que ψ0 (x) não o é. Novamente, como os níveis não são degenerados, deveremos ter energias
diferentes para ψ1 e ψ2 . Tal que teremos duas equações de Schrödinger,

d2 ψ1 (x) 2µ
+ 2 [E1 − U (x)]ψ1 (x) = 0 (13.60)
dx2 ~
9
Estaremos usando, sem mencionar mais, os seguintes fatos: no caso de um sistema unidimensional confinado, i.e., impedido de
alcançar o infinito, a função de onda poderá ser tomada como real, e os níveis de energia não são degenerados.
13.6. P OÇO D UPLO S IMÉTRICO 331

para ψ1 , e
d2 ψ2 (x) 2µ
+ 2 [E2 − U (x)]ψ2 (x) = 0 (13.61)
dx2 ~
para ψ2 . Multiplicando (13.54) por ψ1 e (13.60) por ψ0 e então subtraindo, temos

ψ1 ψ0′′ − ψ0 ψ1′′ − (E0 − E1 )ψ0 ψ1 = 0
~2
ou
d 2µ
(ψ1 ψ0′ − ψ0 ψ1′ ) = 2 (E1 − E0 )ψ0 ψ1
dx ~
fazendo uma integral da relação acima de 0 a ∞, encontramos
∫ ∞ ∫ ∞
d ′ ′ 2µ
dx (ψ1 ψ0 − ψ0 ψ1 ) = 2 (E1 − E0 ) dx ψ0 ψ1 ,
0 dx ~ 0

ou seja,
∫ ∞
( )∞ 2µ 1
ψ1 ψ0′ − ψ0 ψ1′ 0 = 2 (E1 − E0 ) √ dx ψ0 [ψ0 (x) + ψ0 (−x)]
~ 2 0
∫ ∞
2µ 1
≈ 2 (E1 − E0 ) √ dx ψ02
~ 2 0
onde usamos o fato de ψ0 (x)ψ0 (−x) ser muito pequeno. Lembrando que as funções que aparecem no pri-
meiro membro da relação acima se anulam no infinito, temos 10
µ
ψ0 (0)ψ1′ (0) − ψ1 (0)ψ0′ (0) = √ (E1 − E0 ) (13.62)
2 ~2
da equação acima podemos ver que

2 √
ψ1 (0) = [ψ0 (0) + ψ0 (0)] = 2 ψ0 (0) (13.63)
2
enquanto
ψ1′ = 0 (13.64)
levando a
~2
E1 − E0 = − ψ0 (0)ψ0′ (0) . (13.65)
µ
Repetindo os cálculos com ψ2 e ψ0 , obtemos,

~2
E2 − E0 = ψ0 (0)ψ0′ (0) . (13.66)
µ
Subtraindo as duas equações acima, temos

2~2
E2 − E1 = ψ0 (0)ψ0′ (0) . (13.67)
µ
10
Seja f (x) uma função par. Então,
f (−x) = f (x) .
Consideremos agora a função df (x)
dx
. Trocando x por −x,

df (x) df (−x)
→− .
dx dx
Logo
df (−x) df (x)
=−
dx dx
ou seja, se f é par, f ′ é ímpar.
332 C AP. 13 S IMETRIAS E L EIS DE C ONSERVAÇÃO

Num cálculo mais refinado, temos


√ ∫
ω 1 a µv0
ψ0 (0) = e− ~ 0 dx |p| , ψ0′ (0) = ψ0 (0) ,
2πv0 ~

onde v0 = 2(U0µ−E0 ) e finalmente

ω~ − 1 ∫−a
a
dx |p|
E2 − E1 = e ~ (13.68)
π
onde os parâmetros −a e a são indicados na Fig. 13.1. A Eq. (13.68) torna explícito o papel do tunelamento
na separação dos níveis de energia.

A Molécula de Amônia A molécula de amônia, NH3 , é formada por três átomos de hidrogênio e um
átomo de nitrogênio, dispostos nos vértices de uma pirâmide, cf. Fig. 13.2. Essa molécula poderá ser exci-

Figura 13.2 Molécula de amônia.

tada de muitos modos: poderá ser posta a girar, por exemplo, em torno de um eixo passando pelo nitrogênio
e perpendicular à base oposta, que é um eixo de simetria, ou poderá também excitar-se seus muitos modos
normais de vibração. Aqui vamos considerar uma transição que é particularmente interessante porque não
pode existir classicamente. Na física clássica, as duas configurações exibidas acima só podem se transfor-
mar uma na outra por rotação da molécula. Na mecânica quântica, porém, o nitrogênio pode sofrer um
tunelamento para o outro lado, uma transição que não pode existir classicamente. Como problema análogo,
considere o poço duplo simétrico mostrado na Fig. 13.3. Para energias com E0 > Vm , classicamente, o

Figura 13.3 Poço duplo: simétrico e antissimétrico.

problema se reduz a um único poço. Ou seja, para energia inferiores a Vm , classicamente, temos dois poços
independentes. Se o potencial for simétrico, teremos os mesmos níveis de energia de um lado e do outro
lado da barreira.
Na mecânica quântica, porém, existe o tunelamento entre os dois poços. Em consequência disso, os
níveis de energia individuais dos poços deixarão de existir, e aparecerão níveis do poço duplo. As posições
13.7. S IMETRIA D ISCRETA , I NVERSÃO T EMPORAL 333

up e down para o átomo de nitrogênio N na molécula de amônia são análogos à ψ1 e ψ2 da relação (13.59)
do poço duplo estudado anteriormente. De fato, a molécula de amônia NH3 é de fundamental importância
na física de MASER. 11 Os primeiros dispositivos de geração de radiação monocromáticas foram construídos
em 1953 por Townes 12 e colaboradores a partir da inversão de população entre dois níveis de energia de
moléculas de amônia tendo uma oscilação de frequência na faixa de microondas, ν ∼ 24GHz. 13
Em 1958, Townes e Schawlow 14 estabeleceram o princípio de funcionamento para um dispositivo de
produção de radiação na faixa visível. 15 Em 1960, Maiman 16 construiu o primeiro LASER sólido de rubi
(Al2 O3 ), 17 com radiação de comprimento de onda da ordem de 6940 Å. 18

13.7 Simetria Discreta, Inversão Temporal


Nessa seção iremos discutir a inversão temporal, ou seja, o efeito do operador de inversão temporal aplicado
na mecânica quântica. Esse trabalho foi originalmente desenvolvido por E. Wigner em 1932 19 e por Racah
em 1937. 20 Sob quais condições as leis da mecânica quântica são invariantes em relação à inversão temporal:
t → −t?
Em mecânica clássica o efeito da reversão temporal será dado pela definição da órbita revertida no
tempo por
′ ′
rA (t ) = rA (t) com t′ = −t (13.69)
ou

rA (t) = rA (−t) . (13.70)
A velocidade muda de sinal quando temos uma inversão temporal
′ (t′ )
drA
′ ′ drA (t) dt
ṙA (t ) = ′
= = −ṙA (−t) . (13.71)
dt dt dt′
Com isso, a lagrangiana será invariante em relação a inversão temporal se ela também for função par em
ṙA (t), i.e., se:
L(r(t), −ṙ(t)) = L(r(t), ṙ(t)) . (13.72)
Com essa hipótese, o momentum conjugado pA (t), mudará de sinal

∂L′ ∑ ∂L ∂ ṙB (t)


p′A (t′ ) = ′
= ′ (t′ ) = −pA (t) (13.73)
∂ ṙA (t ) ∂ ṙB (t) ∂ ṙA
B

e portanto a hamiltoniana obedecerá a mesma condição de invariância que a lagrangiana:

H ′ (r′ (t′ ), p′ (t′ )) = H (r(t), p(t)) (13.74)

se a igualdade (13.72) for válida.


Para a mecânica quântica temos: Seja uma transformação de Heisenberg. Os operadores de posição⃗r e
de momentum linear ⃗p, devem se transformar, por analogia com a mecânica clássica, da seguinte forma:

⃗r′ = T−1⃗rT = ⃗r (13.75)


11
A palavra MASER vem do inglês Microwave Amplification by Stimulated Emission of Radiation.
12
Charles Hard Townes (1915– ), físico americano.
13
C. H. Townes, Nobel Lectures, December 11 (1964).
14
Arthur Leonard Schawlow (1921–1999), físico americano.
15
A. L. Schawlow and C. H. Townes, Physical Review, 112, 1940 (1958).
16
Theodore Harold Maiman (1927–2007), físico americano.
17
O LASER (Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation) é justamente um MASER trabalhando na frequência
óptica.
18
T. H. Maiman, Nature, 187 no 4736, 493–494 (1960).
19
E. Wigner, Göttinger Nachrichten, p. 546, (1932).
20
G. Racah, Nuovo Cimento, 14, (1937).
334 C AP. 13 S IMETRIAS E L EIS DE C ONSERVAÇÃO

e
⃗p′ = T−1⃗pT = −⃗p (13.76)
onde o operador de inversão temporal T deve mudar i em − i, caso contrário teríamos

⃗p′ = ⃗p

pois na representação de espaço de coordenadas o operador momentum linear ⃗p é o operador diferencial


− i ~∇
⃗ e, de (13.75)
T−1 ∇T
⃗ =∇ ⃗

o que contradiz a definição (13.76).


Vamos definir um operador K pelo qual passamos de um operador a seu complexo conjugado

Ω′ ≡ K−1 ΩK = Ω∗ . (13.77)

É claro que aqui não temos uma operação linear, pois supondo Ω = c1 Ω1 + c2 Ω2 , onde c1 e c2 são números
complexos, então
K−1 (c1 Ω1 + c2 Ω2 )K = c∗1 K−1 Ω1 K + c∗2 K−1 Ω2 K . (13.78)
Se faço,
T=K (13.79)
temos então,
⃗p′ = K−1⃗pK = K−1 (− i ~∇)K
⃗ = i ~∇
⃗ = −⃗p . (13.80)
A transformação T não é unitária. De fato, a regra de comutação entre as componentes de ⃗r e de ⃗p não é
conservada
[xi , pj ] = i ~δij
das relações (13.75) e (13.76) temos
[xi , pj ] = − i ~δij .
Em termos de representação de Schrödinger, como se transformam as funções de onda considerando uma
operação de inversão temporal?
Partindo da condição
⟨ϕ′ |Ω′ (x)|ψ ′ ⟩ H = ⟨ϕ′ |Ω′ (x)|ψ ′ ⟩ S
2 2
(13.81)
que exprime a independência da probabilidade da transição no sistema de referência transformado, em
relação à forma em que se efetua a transformação. No caso de uma transformação unitária, essa condição é
satisfeita por
Ω′ (x) = U−1 Ω(x)U . (13.82)
Mas a relação (13.81) é também obedecida por

⟨ϕ′ |Ω′ (x)|ψ ′ ⟩H = ⟨ϕ|U−1 Ω(x)U|ψ⟩∗S = ⟨ψ|U−1 Ω(x)† U|ϕ⟩ (13.83)

onde nos dá que a inversão temporal no espaço de Hilbert é uma transformação antiunitária, i.e.,

T = UK (13.84)

porém U é uma transformação unitária. Em lugar de (13.77), temos


( )∗
Ω′ = K−1 U−1 ΩUK ≡ U−1 ΩU . (13.85)

Note que
K2 = I , K−1 = K .
Se tomarmos o estado |ψ (t)⟩, a ação do operador de inversão temporal será

T|ψ (t)⟩ ≡ U|ψ (t)⟩∗ (13.86)


13.7. S IMETRIA D ISCRETA , I NVERSÃO T EMPORAL 335

e na representação de espaço de coordenadas



T|ψ (t)⟩ = d3⃗rU|⃗r⟩ψ ∗ (⃗r, t) (13.87)

pois temos |⃗r⟩∗ = |⃗r⟩


Dada a equação de Schrödinger H|ψ (t)⟩ = − i ~ ∂t

|ψ (t)⟩, obtemos

TH|ψ (t)⟩ = − i ~ T|ψ (t)⟩ (13.88)
∂t
ou seja
)( ∂
UH∗ U−1 U|ψ (t)⟩∗ = − i ~ U|ψ (t)⟩∗ . (13.89)
∂t
Assim, se houver um outro operador M tal que
[M,⃗r] = 0 ,
o espectro de autokets comuns a M e a⃗r = (x1 , x2 , x3 ) será
xk |⃗r, ms ⟩ = xk |⃗r, ms ⟩
M|⃗r, ms ⟩ = ms |⃗r, ms ⟩
onde ms assume valores reais.
Neste caso, podemos escrever
∑∫
|ψ (t)⟩ = d3⃗r |⃗r, ms ⟩ ψms (⃗r, t) .
ms

A equação de Schrödinger será


∑∫ ∑∫ ∂
d ⃗r H|⃗r, ms ⟩ ψms (⃗r, t) = i ~
3
d3⃗r |⃗r, ms ⟩ ψms (⃗r, t) . (13.90)
m m
∂t
s s

Aplicando o operador de evolução temporal T = UK


∑∫ ∑∫ ∂ ∗ ′
d3⃗r′ UH∗ |⃗r′ , m′s ⟩ ψm

′ (⃗
r ′
, t) = − i ~ d3 ′

r U|⃗
r ′
, m ′
s ⟩ ψ ′ (⃗r , t) .

s

∂t ms
ms ms

Assim
∑∫ ∑∫ ∂ ∗ ′
3 ′ ∗ ′
d ⃗r ⟨⃗r, ms |UH |⃗r , m′s ⟩ ∗
ψm r′ , t)
′ (⃗ = −i~ d3⃗r′ ⟨⃗r, ms |U|⃗r′ , m′s ⟩ ψ ′ (⃗r , t)
s ∂t ms
m′s m′s
ou
∑ ∫
d3⃗r′ d3⃗r′′ ⟨⃗r, ms |UH∗ U−1 |⃗r′′ , m′′s ⟩⟨⃗r′′ , m′′s |U|⃗r′ , m′s ⟩ ψm

r′ , t)
′ (⃗
s
m′s m′′
∑∫
s

∂ ∗ ′
= −i~ d3⃗r′ ⟨⃗r, ms |U|⃗r′ , m′s ⟩ ψ ′ (⃗r , t) (13.91)
∂t ms
m′s

sabendo que
( 2 )
~
⟨⃗r, ms |H|⃗r′ , m′s ⟩ = − ∇2 + V (⃗r) δ 3 (⃗r −⃗r′ )δms m′s

~2 2
H=− ∇ + V (⃗r) = H∗

UH∗ U−1 = H
336 C AP. 13 S IMETRIAS E L EIS DE C ONSERVAÇÃO

a Eq. (13.91) será


∑∫ ∑∫ ∂ ∗ ′
d3⃗r′ H|⃗r′ , m′s ⟩ ψm

r′ , t) = − i ~
′ (⃗ d3⃗r′ |⃗r′ , m′s ⟩ ψ ′ (⃗r , t)
s ∂t ms
m′s m′s

∑∫ ∑∫
isto é
3 ′ ′ ∂
d ⃗r H|⃗r , m′s ⟩ ∗
ψm r′ , t)
′ (⃗ = i~ d3⃗r′ |⃗r′ , m′s ⟩ ψ ∗ ′ (⃗r′ , t) (13.92)
s ∂(−t) ms
m′s m′s

que é a equação de Schrödinger para a reversão temporal. Note que as Eqs. (13.90) e (13.92) são invariantes,
i.e., estão ligadas ao princípio de invariância, e as leis que se servem para (13.90) servem também para
(13.92).

Sistemas com Spin A transformação antiunitária do operador associado ao momentum angular orbital,
análogo ao clássico, é dada por

T†⃗LT = T† (⃗r × ⃗p)T = ⃗r × (−⃗p) = −⃗L

consistente com a transformação do momentum angular clássico sob inversão temporal. No caso de um
sistema envolvendo partículas com spin, precisamos, por consistência, que o operador associado ao spin
tenha o mesmo comportamento sob inversão temporal ao do operador associado ao momentum angular
orbital, i.e.,
T†⃗ST = −⃗S .
Essa relação deve de fato ser observada como uma condição adicional a ser satisfeita pelo operador antiu-
nitário T. Assim ela garante o formalismo geral para o momentum angular total ⃗J = ⃗L + ⃗S. No caso de
ser usada a representação de Schrödinger, e para partículas de spin 12 com operadores escritos na forma das
matrizes de Pauli ⃗σ ≡ {σx , σy , σz } temos
⃗S = ~ ⃗σ
2
mas como T = UK já definido anteriormente, U é um operador unitário agindo sobre as componentes do
spin, desse modo, tendo as matrizes de Pauli σx e σz reais e σy puramente imaginária, temos

K−1 σx K = σx K−1 σy K = −σy K−1 σz K = σz

de tal forma que


U† σx U = −σx K† σy U = σy U† σz U = −σz
o que corresponde a uma rotação de um ângulo π em torno do eixo y, i.e.,

T = e− ~ πS · ŷ K = e− i 2 σy K = − i σy K .
i ⃗ π
(13.93)

Esse é portanto o operador de inversão temporal para casos de partículas com spin 12 .

Problemas
13.1 Calcular os três níveis de energia de mais baixa ordem, juntamente com suas degenerescências para
os seguintes sistemas (assumir igual massa para partículas distintas):
a) Três partículas de spin 21 não interagindo entre si, em uma caixa de comprimento L.
b) Quatro partículas de spin 21 não interagindo entre si, em uma caixa de comprimento L.

13.2 Verifique a expressão (13.29) para o caso da rotação em torno do eixo dos ẑ.
13.7. S IMETRIA D ISCRETA , I NVERSÃO T EMPORAL 337

13.3 a) Qual é a conexão entre o momentum angular em dois sistemas de referência na qual estão em
repouso um em relação ao outro e tendo as origens separadas pela distancia ⃗a.
b) Qual é a relação entre o momentum angular em dois sistemas inerciais S e S ′ no qual S ′ move com
velocidade V⃗ em relação ao primeiro.
Sugestão: Consulte o livro dos Profs. W. Greiner and B. Müller [41].

13.4 Um estado quântico ψ é conhecido por ser simultaneamente autoestado de dois operadores hermitianos
A e B no qual anticomutam, AB + BA = 0 . O que você poderá dizer a respeito dos autovalores de
A e B para o estado ψ? Ilustre sua resposta usando o operador paridade (no qual poderá escolher para
satisfazer P = P−1 = P† ) e o operador momentum.

13.5 Demonstre que:


a) Se A e B são dois operadores que não dependem explicitamente do tempo e são, ainda, constante
de movimento, então o comutador [A, B] é também constante de movimento.
b) Se a hamiltoniana H é invariante por inversão espacial, ou seja, H(⃗r) = H(−⃗r), então há conser-
vação da paridade.

13.6 a) Assumindo que a hamiltoniana é invariante por inversão temporal, prove que a função de onda para
um sistema não degenerado e sem spin em qualquer instante dado de tempo poderá constantemente
ser escolhido para ser real.
b) A função de onda para um estado de onda plana em t = 0 é dada por uma função complexa e ~ ⃗p · ⃗x .
i

Por que isso não viola a invariância de reversão temporal.

13.7 Seja ϕ(⃗p′ ) a função de onda em espaço de momentum para o estado |α⟩, i.e., ϕ(⃗p′ ) = ⟨⃗p′ |α⟩. A função
de onda para o espaço de momentum para o estado de reversão temporal T|α⟩ é dada por ϕ(⃗p′ ),
ϕ(−⃗p′ ), ϕ∗ (⃗p′ ) ou ϕ∗ (−⃗p′ )? Justifique sua resposta.

13.8 Suponha que uma partícula sem spin está ligada em um centro fixo por um potencial V (⃗r) tão as-
simétrico que nenhuma energia é degenerada. Usando a invariância por inversão temporal, prove
que ⟨⃗L⟩ = 0, para qualquer autoestado de energia (Isso é conhecido como a extinção do momen-
tum
∑ ∑ angular orbital). Se a função de onda de um tal autoestado não degenerado é expandido como
m
l m Flm (r)Yl (θ, ϕ) , que tipo de restrição de fase obteremos em Flm (r)?

13.9 Estude potenciais periódicos. Sugestão: Ver livro do Prof. Sakurai [74], §4.3. Conhecemos que as
bandas de energia para sólidos são descritas pelas conhecidas funções de Bloch ψn,k completamente
preenchidas por ψn,k (x + a) = ei ka ψn,k (x) , onde a é a constante
[ da ]rede, n é o número de bandas, e
o momentum da rede k está limitado para a zona de Brillouin − πa , πa . ∑
a) Prove que qualquer função de Bloch poderá ser escrita como ψn,k (x) = Ri φn (x − Ri ) ei kRi ,
onde o somatório é sobre todos os vetores da rede Ri (Em um problema simples unidimensional
Ri = i a, mas pode ser facilmente generalizado para três dimensões).
b) As funções φn são chamadas de funções de Wannier, 21 e são importantes para descrever as ligações
dos sólidos. Mostre que as funções de ∫ Wannier correspondentes a diferentes sítios e/ou diferentes
bandas são ortogonais, i.e., prove que dx φ∗m (x − Ri ) φn (x − Rj ) ∼ δij δmn .

13.10 Mostre explicitamente que U = e− ~ πSy satisfaz Sx U = −USx e Sz U = −USz . Faça uso das
i

propriedades de comutação de Sy e dos operadores S± = Sz ± i Sx .

13.11 Mostre por expansão direta que, para spin 12 , e− ~ πSy = − i σy .


i

13.12 A hamiltoniana de um sistema de spin 1 é dada por H = ASz2 + B(Sx2 − Sy2 ) . Resolva esse problema
exatamente para encontrar os autoestados normalizados de energia e os autovalores. Essa hamiltoniana
é invariante por inversão temporal? Como você obteve por transformação sob a reversão temporal os
21
Gregory Hugh Wannier (1911–1983), físico suíço.
G. H. Wannier, Physical Review, 52, 191 (1937); Idem, Review Modern Physics, 34, 645 (1962).
338 C AP. 13 S IMETRIAS E L EIS DE C ONSERVAÇÃO

autoestados normalizados? Observação: Hamiltonianas dependentes de spin são comuns em física


de sistemas microscópicos tais como cristais, átomos, núcleos, etc..

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomenda-se ao leitor, uma leitura paralela dos livros:

– A. F. R. de Toledo Piza [79];


– J. J. Sakurai [74].

Nesses livros podemos encontrar um excelente trabalho sobre simetria, leis de conservação, além de exce-
lente discussão a respeito de paridade e inversão temporal.
Um outro excelente trabalho sobre simetria, paridade e inversão temporal será encontrado na leitura do
livro:

– A. Messiah [62].
Capítulo 14
Teoria das Perturbações Estacionárias

São poucos os potenciais para os quais a equação de onda de Schrödinger possui uma solução exata. Por essa
razão tornou-se necessário o desenvolvimento de métodos alternativos ou de técnicas de aproximação, como
a aproximação WKB, que permitam obter autovalores e autofunções para os potenciais que não conduzem a
equações diferenciais que possam ser resolvidas de forma exata. Neste capítulo iremos estudar o método de
aproximação que contém a teoria de perturbação independente do tempo, a qual procura obter informações
sobre os estados ligados de um sistema físico a partir da solução exata de um problema similar. Trata-se de
uma técnica de uso generalizado em todas as áreas da física e constitui ferramenta essencial de análise tanto
para o desenvolvimento da intuição física como para a obtenção de resultados numéricos significativos.
Faremos ainda um estudo do método de aproximação variacional, além de algumas aplicações importantes.

14.1 A Série Perturbativa


Consideremos um sistema cuja hamiltoniana H pode ser escrita por

H = H0 + λV (14.1)

onde λ é o parâmetro real continuo que representa o tamanho da perturbação. O termo λV é o termo de
perturbação na hamiltoniana. O intervalo de variação permitido para o parâmetro λ fica compreendido entre
0 e 1, pois a intensidade da perturbação pode ser controlada: 1
• Se λ = 0 ⇒ problema sem perturbação;

• Se λ = 1 ⇒ problema com máxima intensidade de perturbação.


Os autovalores e autovetores de H0 são conhecidos

H0 |ψn ⟩ = εn |ψn ⟩, n = 1, 2, 3, · · · (14.2)

Por conveniência, assumiremos que ε1 ≤ ε2 ≤ ε3 ≤ · · · e que os autovetores formam uma base ortonormal,
i.e.,
⟨ψn |ψm ⟩ = δnm . (14.3)
Desejamos obter os autovalores,En , e autoestados, |φn ⟩ de H

H|φn ⟩ = En |φn ⟩ (14.4)

e para tanto, vamos escrever os autovalores e os autoestados como




En = En0 + λEn1 +λ 2
En2 + ··· = λk Enk (14.5)
k=0
1
Para uma discussão desse ponto, ver: N. Arley and V. Borchsenius, Acta Math., 803 (1945), em especial a Parte IV.

339
340 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

e


|φn ⟩ = |φ0n ⟩ + λ|φ1n ⟩ +λ 2
|φ2n ⟩ + ··· = λk |φkn ⟩ (14.6)
k=0

isto é, En (λ) e |φn (λ)⟩ são funções de λ a serem determinadas por séries de Taylor em torno do ponto λ = 0.
Note que, quando temos λ → 0, que envolve casos de pequenas perturbações, as aproximações convergem.
O objetivo dessa seção é a determinação dos coeficientes de Taylor Enk e |φkn ⟩ onde k = 0, 1, 2, · · · . Esse
método é chamado de expansão perturbativa de Rayleigh-Schrödinger. 2
Na prática as séries (14.5) e (14.6) são truncadas num certo ponto N e suas soluções aproximadas em
“ordem N ” são
En ∼ = En0 + λEn1 + · · · + λN EnN (14.7)
e
|φn ⟩ ∼
= |φ0n ⟩ + λ|φ1n ⟩ + · · · + λN |φN
n ⟩. (14.8)
Essas aproximações diferem do resultado exato do problema por


N
En − λk Enk = O(λN +1 ) (14.9)
k=0

e

N
|φn ⟩ − λk |φkn ⟩ = O(λN +1 ) . (14.10)
k=0
De maneira otimista, assumiremos que a série seja convergente, ou seja, convirja para o resultado exato,
esperamos que o erro que aparecerá nessa aproximação diminua a medida que consideramos ordens supe-
riores, i.e., quando temos maiores valores de N .

14.2 Equações da Série Perturbativa


Vamos reescrever a equação de autovalores (14.4) na forma

(H0 − En ) |φn ⟩ = −λV|φn ⟩ (14.11)

e usando as expansões de Taylor (14.5) e (14.6) em (14.11) para os autovalores En e para os autoestados
|φn ⟩ temos
( ∞
) ∞  (∞ )
∑ ∑ ∑
k k  j j 
H0 − λ En λ |φn ⟩ = −λV λ |φn ⟩ .
l l
(14.12)
k=0 j=0 l=0

Note que os lados, tanto o esquerdo quanto o direito, da Eq. (14.12) são séries de potência em λ.
Portanto, o nosso procedimento será igualar os coeficientes das potências de mesma ordem em λ nos dois
lados dessa expressão. Perceba ainda que o lado direito da relação (14.12) não contém termos de λ0 .
Os termos de ordem zero, i.e., aqueles termos que aparecem multiplicado por λ0 , logo independentes
de λ, devem satisfazer ( )
H0 − En0 |φ0n ⟩ = 0 . (14.13)
Analogamente podemos obter as equações para as correções de primeira ordem em λ, ou seja, ordem λ1
( )
H0 − En0 |φ1n ⟩ − En1 |φ0n ⟩ = −V|φ0n ⟩ (14.14)

assim como para correções para ordem λ2


( )
H0 − En0 |φ2n ⟩ − En1 |φ1n ⟩ − En2 |φ0n ⟩ = −V|φ1n ⟩ . (14.15)
2
J. W. S. Rayleigh, Theory of Sound, 2nd edition Vol. I, pp 115-118, Macmillan, London (1894); E. Schrödinger, Annalen der
Physik, Vierte Folge, 80, 437 (1926).
14.3. P ERTURBAÇÃO – C ASO NÃO DEGENERADO 341

Em geral, seguindo esse procedimento temos que as correções na ordem de λk são dadas por

( ) ∑
k
H0 − En0 |φkn ⟩ − Enl |φk−l
n ⟩ = −V|φn ⟩ .
k−1
(14.16)
l=1

Note que a relação (14.13) é a equação de autovalores e autovetores de H0 , i.e., uma equação vetorial. As
relações para termos de ordem superior também são equações vetoriais, sendo que em ordem λk devemos
obter Enk e |φkn ⟩ utilizando as
{ soluções
} obtidas para as ordens anteriores.
Tendo em vista que os |φ0m ⟩ são autovetores de um operador hermitiano, eles formam uma base a
qual assumiremos ser ortonormal. É conveniente expandir a correção de ordem k para os estados |φkn ⟩ nessa
base. Assim, ∑
|φkn ⟩ = cknm |φ0m ⟩ (14.17)
m

onde devemos determinar os coeficientes cknm .


A equação de ordem zero, i.e. ordem λ0 , é idêntica à Eq. (14.2) de autovalores para o problema não
perturbado. Mas para resolvermos nosso problema, devido a fatores técnicos que veremos a seguir, devemos
agora distinguir dois casos:
• O autovalor de H0 é não degenerado;

• O autovalor de H0 é degenerado.

14.3 Perturbação – Caso não degenerado


Se εn é um autovalor não degenerado de H0 , então, a Eq. (14.13) tem solução única

 En0 = εn
e (14.18)
 0
|φn ⟩ = |ψn ⟩
ou seja, o autovalor em ordem zero é a própria energia do problema não perturbado, o mesmo acontecendo
com a respectiva autofunção que, por não haver degenerescência, está univocamente determinada, a menos
de uma constante multiplicativa.

Correção de Primeira Ordem Inicialmente tomaremos o produto escalar da relação (14.14) com |φ0n ⟩,
isso nos conduz a ( )
⟨φ0n | H0 − En0 |φ1n ⟩ − En1 = −⟨φ0n |V|φ0n ⟩ . (14.19)
Todavia, devido ao operador H0 ser hermitiano e

|φ1n ⟩ = c1nm |φ0m ⟩
m

temos que ( )
⟨φ0n | H0 − En0 |φ1n ⟩ = 0 . (14.20)
Logo,
En1 = ⟨φ0n |V|φ0n ⟩ . (14.21)
Assim, a correção de primeira ordem à energia do sistema não perturbado é dada pelo valor médio da
perturbação V no estado não perturbado.
Agora, devemos voltar à expressão (14.14) para determinar a correção da função de onda em primeira
ordem |φ1n ⟩. A relação (14.19) foi obtida projetando-se (14.14) na direção de |φ0n ⟩, logo projetaremos agora
no complemento ortogonal de |φ0n ⟩. Para tanto tomamos o produto escalar de (14.14) com |φ0m ⟩ para m ̸= n
( )
⟨φ0m | H0 − En0 |φ1n ⟩ = −⟨φ0m |V|φ0n ⟩ (14.22)
342 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

ou seja ( )
0
Em − En0 ⟨φ0m |φ1n ⟩ = −⟨φ0m |V|φ0n ⟩ (14.23)
onde novamente utilizamos que H0 é hermitiano.
0 ̸= E 0 para
Uma vez que assumimos que nesse caso não existe degenerescência do nível n, i.e., Em n
m ̸= n, podemos resolver (14.23), obtendo que

⟨φ0m |V|φ0n ⟩
c1nm = ⟨φ0m |φ1n ⟩ = , m ̸= n . (14.24)
(En0 − Em0)

Nesse ponto falta determinar apenas c1nn , porém não há mais nenhuma equação derivada da relação
(14.14) que poderá ser utilizada. Agora só resta a condição de normalização que pode fixar c1nn . Em teoria
de perturbação é muito conveniente utilizar a condição

⟨φ0n |φn ⟩ = 1 . (14.25)

Essa condição implica que |φn ⟩ não está normalizado, contudo as expressões obtidas são muito mais simples
com essa convenção. Desta normalização segue que c1nn = 0. Note que a primeira contribuição para o
módulo de |φn ⟩ é da ordem de λ2 já que
( )
⟨φ0n + λφ1n |φ0n + λφ1n ⟩ = 1 + c1nn + c1nn∗ λ + O(λ2 ) . (14.26)

Em resumo, as correções de primeira ordem para um estado não degenerado são dadas por

En1 = ⟨φ0n |V|φ0n ⟩ (14.27)

e
∑ ⟨φ0 |V|φ0 ⟩
|φ1n ⟩ = m n
|φ0m ⟩ , (14.28)
(En0 − Em
0)
m̸=n

e a solução aproximada terá a forma


En ∼
= En0 + λEn1 (14.29)
e
|φn ⟩ ∼
= |φ0n ⟩ + λ|φ1n ⟩ . (14.30)

Exemplo para Correção de Primeira Ordem Consideremos um oscilador harmônico unidimensional


cuja hamiltoniana é dada por
p2 1 1
H= + µω02 x2 + µω 2 x2 (14.31)
2µ 2 2
ou seja, existem duas contribuições distintas para a força elástica. Este sistema é exatamente solúvel, sendo
os autovalores de H dados por ( )
1
En = ~ω n + (14.32)
2

onde ω = ω02 + ω 2 e n = 0, 1, · · · .
No caso em que ω < ω0 , podemos analisar este problema usando teoria de perturbação, para tal esco-
lhemos
p2 1 1
H0 = + µω02 x2 e V = µω 2 x2 . (14.33)
2µ 2 2
Os autovalores e autovetores de H0 são conhecidos
( )
1
En = ~ω0 n +
0
onde temos |n0 ⟩ . (14.34)
2
Note que os estados não perturbados não são degenerados, sendo possível empregar o formalismo desen-
volvido nesta seção.
14.3. P ERTURBAÇÃO – C ASO NÃO DEGENERADO 343

A correção de primeira ordem para os autovalores é dada por (14.21), ou seja,


⟨ ⟩
1 0 1 2 2 0
En = n µω x n . (14.35)
2
Essa correção pode ser facilmente avaliada escrevendo x em termos dos operadores de criação e aniquilação
associados à hamiltoniana H0 √
~
x= (a + a† ) .
2µω0
Temos então que ( )
1 ω2
En1 = ~ω0 n + × 2. (14.36)
2 2ω0
Logo, os autovalores de H na aproximação de primeira ordem são dados por
( ) ( 2
)
1 ω
En ∼
= ~ω0 n + × 1+ 2 . (14.37)
2 2ω0

Para verificarmos se o resultado acima está de acordo com a solução exata devemos expandir ω na
2
relação (14.32) em potências de ωω2 ,
0

√ ( )
ω2 ω2
ω = ω0 1 + 2 = ω0 1 + 2 + · · · .
ω0 2ω0

Substituindo essa expansão na relação (14.32) é fácil ver que recuperamos o resultado aproximado da rela-
2
ção (14.37) quando consideramos apenas o primeiro termo da expansão em potências de ωω2 .
0

Correção de Segunda Ordem Repetindo o procedimento utilizado na correção de primeira ordem, pro-
jetamos a equação vetorial de ordem λ2 , (14.15) na direção de |φ0n ⟩, i.e., tomamos o produto escalar com
|φ0n ⟩, obtendo ( )
⟨φ0n | H0 − En0 |φ2n ⟩ − En1 ⟨φ0n |φ1n ⟩ − En2 = −⟨φ0n |V|φ1n ⟩ . (14.38)
Os dois primeiros termos dessa última expressão são nulos e portanto temos que

En2 = ⟨φ0n |V|φ1n ⟩ . (14.39)

Usando a expressão (14.28) para |φ1n ⟩ segue que

∑ ⟨φ0n |V|φ0n ⟩ 2
En2 = . (14.40)
En0 − Em 0
m̸=n

Note que para o estado fundamental (n = 1) temos que

E10 < Em
0
, para m ̸= 1 (14.41)

o que implica que a correção de segunda ordem para a sua energia é sempre negativa,

∑ ⟨φ01 |V|φ01 ⟩ 2
E12 = < 0. (14.42)
E10 − Em 0
m̸=1

Analogamente ao que foi feito para a determinação de |φ1n ⟩, determinamos |φ2m ⟩, projetando a Eq.
(14.15) nas direções ortogonais a |φ0n ⟩. Para tanto tomamos o produto escalar de (14.15) com |φ0m ⟩ para
m ̸= n, ( )
⟨φ0m | H0 − En0 |φ2n ⟩ − En1 ⟨φ0m |φ1n ⟩ = −⟨φ0m |V|φ1n ⟩ (14.43)
344 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

o que nos permite escrever


( )
0
Em − En0 ⟨φ0m |φ2n ⟩ = En1 ⟨φ0m |φ1n ⟩ − ⟨φ0m |V|φ1n ⟩ . (14.44)

Portanto,
⟨φ0m |V|φ1n ⟩ − En1 ⟨φ0m |φ1n ⟩
c2nm = ⟨φ0m |φ2n ⟩ = . (14.45)
(En0 − Em 0)

Impondo que normalização dada pela relação (14.25), permite-nos concluir que c2nn = 0. Logo, a
correção de segunda ordem para o estado é dada por
∑ ⟨φ0m |V|φ1n ⟩ − En1 ⟨φ0m |φ1n ⟩
|φ2n ⟩ = |φ0m ⟩ . (14.46)
(En0 − Em 0)
m̸=n

Caso Geral Projetando a Eq. (14.16) na direção |φ0n ⟩ determinamos que

Enk = ⟨φ0n |V|φk−1


n ⟩ (14.47)

uma vez que a condição (14.25) implica que ⟨φ0m |φkm ⟩ = 0 para k ≥ 1.
Por outro lado, tomando-se o produto escalar de (14.16) com |φ0m ⟩, onde m ̸= n, podemos obter
cknm = ⟨φ0m |φkn ⟩ desde que conheçamos clnm para l < k:

( ) ∑
k−1
0
Em − En0 ⟨φ0m |φkn ⟩ = Enl ⟨φ0m |φk−l
n ⟩ − ⟨φm |V|φn ⟩ .
0 k−1
(14.48)
l=1

14.4 Perturbação – Caso degenerado


Consideremos agora o caso em que o autovalor εn é degenerado. Sem maiores informações, não sabemos
para qual dos autovetores associados a εn o autoestado exato |En ⟩ tende no limite λ → 0. Em geral, como
veremos no exemplo a seguir, |En ⟩ tenderá para uma combinação linear dos autovetores associados a εn .
Isso introduz uma indeterminação já em ordem zero que deve ser resolvida.

Sistema de Dois Níveis Consideremos um sistema de dois níveis cuja hamiltoniana é dada por
( )
E0 ∆
H= . (14.49)
∆ E0

É fácil verificar que os autovetores e autovalores de H são dados por


( )
1 1
E± = E0 ± ∆ com |E± ⟩ = √ . (14.50)
2 ±1

Esse problema poderá ser estudado usando a teoria de perturbação, onde faremos a escolha da hamilto-
niana H = H0 + λV com
( ) ( )
E0 0 0 ∆
H0 = e λV = . (14.51)
0 E0 ∆ 0

Usando a ordem zero da teoria de perturbação, H0 possui um único autovalor E0 duplamente degene-
rado. Uma escolha possível para os autovetores de ordem zero será
( ) ( )
1 0
|1 ⟩ =
0
e |2 ⟩ =
0
. (14.52)
0 1
14.4. P ERTURBAÇÃO – C ASO DEGENERADO 345

É óbvio neste exemplo, que as soluções exatas para os autovetores |E± ⟩ não tende para nenhum dos
autovetores de ordem zero escolhidos no limite ∆ → 0. De fato, nesse limite temos que
1 ( )
|E± ⟩ → √ |10 ⟩ ± |20 ⟩ . (14.53)
2
Note que mesmo no limite de ∆ → 0, i.e. na ausência da perturbação, existe uma combinação linear
dos estados não perturbados (e degenerados) que é favorecida. Portanto, a perturbação leva naturalmente
a uma escolha da base de ordem zero. Mais ainda, essa escolha é obrigatória para que o limite ∆ → 0
esteja correto e a série (14.6) faça sentido. Esse fato indica que precisamos ser mais cuidadosos no nosso
procedimento para obter a série perturbativa, em particular na escolha dos |φ0n ⟩.

Ordem Zero Por simplicidade consideremos o caso de degenerescência dupla εn = εn+1 , o que significa
que as soluções de
( )
H0 − En0 |φ0n ⟩ = 0 (14.54)
( ) 0
H0 − En+1 |φn+1 ⟩ = 0
0
(14.55)
não são univocamente determinadas, pois combinações lineares dessas soluções também o são.
Escolheremos, inicialmente, duas soluções linearmente independentes e ortogonais entre si
(H0 − εn ) |ψn ⟩ = 0 (14.56)
(H0 − εn ) |ψn+1 ⟩ = 0 (14.57)
com ⟨ψn |ψn+1 ⟩ = 0. Tudo o que podemos dizer sobre |φ0n ⟩ e |φ0n+1 ⟩ é que esses estados são uma combi-
nação linear de |ψn ⟩ e |ψn+1 ⟩.

 |φ0n ⟩ = α1 |ψn ⟩ + α2 |ψn+1 ⟩
e (14.58)
 0
|φn+1 ⟩ = β1 |ψn ⟩ + β2 |ψn+1 ⟩

onde temos que |α1 |2 + |α2 |2 = |β1 |2 + |β2 |2 = 1 e a relação de ortogonalidade ⟨φ0n |φ0n+1 ⟩ = 0. Como
veremos a seguir, os coeficientes α’s e β’s serão determinados ao se considerar a equação envolvendo os
coeficientes de λ1 , vindos da correção de primeira ordem.

Correção de Primeira Ordem As correções de primeira ordem são determinadas a partir de (14.14), i.e.,
ordem λ1 ( )
H0 − En0 |φ1n ⟩ − En1 |φ0n ⟩ = −V|φ0n ⟩ . (14.59)
Projetando nas direções |ψn ⟩ e |ψn+1 ⟩ respectivamente, segue que
En1 ⟨ψn |φ0n ⟩ = ⟨ψn |V|φ0n ⟩
(14.60)
En1 ⟨ψn+1 |φ0n ⟩ = ⟨ψn+1 |V|φ0n ⟩ .

Visando determinar os coeficientes α da expansão dos |φ0n ⟩ em termos dos |ψ⟩, substituímos a relação
(14.58) em (14.60), temos como resultado
En1 α1 = V11 α1 + V12 α2
(14.61)
En1 α2 = V21 α1 + V22 α2
onde os elementos da matriz são definidos como
V11 = ⟨ψn |V|ψn ⟩ , (14.62)

V12 = ⟨ψn |V|ψn+1 ⟩ = V21 , (14.63)
V22 = ⟨ψn+1 |V|ψn+1 ⟩ . (14.64)
346 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

As equações que aparecem em (14.61) podem ser escritas na forma matricial


( )( )
V11 − En1 V12 α1
=0 (14.65)
V21 V22 − En1 α2

sendo portanto um problema de autovalores. Logo, para que existam soluções não triviais devemos ter
( )
V11 − λ V12
det =0 (14.66)
V21 V22 − λ

que admite em geral duas soluções

λ1 = En1 e 1
λ2 = En+1 (14.67)

com ( )( )
V11 − En+1
1 V12 β1
= 0. (14.68)
V21 V22 − En+1
1 β2
Se a degenerescência for quebrada λ1 ̸= λ2 podemos determinar de maneira unívoca os α’s, β’s, En1
1 . Tendo feito isso, a determinação de |φ1 ⟩ é análoga ao que foi feito no caso não degenerado:
e En+1 n
|φ1n(n+1) ⟩ é obtido projetando a relação (14.59) nas direções ortogonais a |φ0n ⟩ e |φ0n+1 ⟩, i.e., tomando o
produto escalar com |φ0m ⟩ para m ̸= n, n + 1. A correção de primeira ordem neste caso será dada também
por (14.28) para m ̸= n, n + 1. Se a degenerescência persistir em primeira ordem os coeficientes α’s ainda
não ficam definidos; assim, há que se considerar as correções de segunda ordem!
Naturalmente é fácil observar que o procedimento acima se generaliza para uma degenerescência arbi-
trária de forma óbvia:

εn = εn+1 = · · · = εn+N −1 = ε (14.69)


(H0 − ε) |ψi ⟩ = 0, i = 1, · · · , N (14.70)
⟨ψi |ψj ⟩ = 0 . (14.71)

Isso será alcançado escrevendo

|φ0n ⟩ = α1 |ψ1 ⟩ + α2 |ψ2 ⟩ + · · · + αN |ψN ⟩ (14.72)

com     
V11 ··· V1N α1 α1
 .. .. ..   ..  = E 1  .. 
 . . .  .  n .  (14.73)
VN 1 ··· VN N αN αN
e repetindo os passos realizados acima. Ou seja, podemos escrever a relação acima de forma muito elegante,
como

N
( )
Vij − En1 δij αj = 0 j = 1, · · · , N .
j=1

Esse é um sistema de N equações homogêneas a N incógnitas, que são os coeficientes αj , cuja solução
trivial é αj = 0 para todo j. É claro que essa solução não tem nenhum interesse físico, e para que existam
outras soluções, como já vimos anteriormente, é necessário que
( )
det Vij − En1 δij = 0

que é denominada, por razões históricas, equação secular.


A grande novidade no caso degenerado é que a determinação da contribuição dominante, i.e., de or-
dem zero em λ, para a função de onda é não trivial: a análise dos termos de primeira ordem é que fixa a
combinação linear adequada das autofunções degeneradas do problema não perturbado.
14.4. P ERTURBAÇÃO – C ASO DEGENERADO 347

Oscilador Harmônico Bidimensional Consideremos a hamiltoniana do oscilador harmônico bidimen-


sional
p2 p2y 1
H= x + + µω 2 (x2 + y 2 ) + µω 2 xy . (14.74)
2µ 2µ 2
Os autovalores de H são dados por
√ ( ) √ ( )
1 1
En,m = ~ ω 2 + ω 2 n + + ~ ω2 − ω2 m + (14.75)
2 2

onde n, m = 0, 1, 2, · · · , e as respectivas autofunções são


(√ ) (√ )
φn,m (x, y) = ψnOH ω 2 + ω 2 , x+y

2
ψm
OH
ω 2 − ω 2 , x−y

2
(14.76)
( )
sendo ψnOH (ω, x) a solução de um oscilador harmônico unidimensional associada à energia ~ω 1 + 12 . 3
Podemos tratar este problema usando a teoria de perturbação, separando a hamiltoniana do oscilador
bidimensional (14.74) em duas partes,

p2x p2y 1
H0 = + + µω 2 (x2 + y 2 ) (14.77)
2µ 2µ 2
λV = µω 2 xy (14.78)

com H = H0 + λV e identificando o parâmetro λ com ω 2 . Aplicando a teoria de perturbação iremos ver


que H0 apresenta degenerescência visto que
0
El,k = ~ω(l + k + 1) (14.79)

com l, k = 0, 1, · · · . Uma base natural das autofunções não perturbadas será

φ0l,k (x, y) = ψlOH (ω, x) ψkOH (ω, y) (14.80)

uma vez que H0 descreve dois osciladores harmônicos desacoplados.


No limite de ω → 0 temos que os dois primeiros estados excitados de H, dado em (14.74), tornam-se
degenerados, i.e.,
0
lim Em,n = Em,n (14.81)
ω→0

com n + m = 1. Para ω suficientemente menor que ω, os dois primeiros estados da solução exata estão
associados a n = 0 e m = 1 e a n = 1 e m = 0, sendo que as respectivas autofunções são dadas por
( ) 14 √ ( µω )
1 µ2 ω1 ω2 µω2 1 µω2
φ01 (x, y) = (x − y) exp − (x + y)2 − (x − y)2 (14.82)
2 π 2 ~2 ~ 4~ 4~
( ) 14 √ ( µω )
1 µ2 ω1 ω2 µω1 1 µω2
φ10 (x, y) = (x + y) exp − (x + y)2 − (x − y)2 (14.83)
2 π 2 ~2 ~ 4~ 4~
√ √
onde ω1 = ω 2 + ω 2 e ω2 = ω 2 − ω 2 .
No limite ω → 0, temos que ω1(2) → ω, o que nos permite identificar que

1 ( )
φ01 (x, y) → √ φ010 + φ001 , (14.84)
2
1 ( 0 )
φ10 (x, y) → √ φ10 − φ001 . (14.85)
2
3 (x+y) (x−y)
Para mostrar que essa solução está correta, faça uma mudança de variáveis para √ e √ .
2 2
348 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

Aplicamos agora a teoria de perturbação para tratar deste problema. Por simplicidade calcularemos a
correção de primeira ordem para a energia do primeiro estado excitado. Em ordem zero a energia desses
estados é 2~ω e existem dois estados associados a esse autovalor, a saber, φ010 e φ001 .
Para determinarmos a correção de primeira ordem devemos utilizar (14.66), a equação secular, o que
nos conduz a  2 0 
µω ⟨φ10 |xy|φ010 ⟩ − λ µω 2 ⟨φ010 |xy|φ001 ⟩
det  =0 (14.86)
µω ⟨φ01 |xy|φ10 ⟩
2 0 0 µω ⟨φ01 |xy|φ01 ⟩ − λ
2 0 0

onde os elementos de matriz são dados por 4

µω 2 ⟨φ010 |xy|φ010 ⟩ = 0 (14.87)

µω 2 ⟨φ001 |xy|φ001 ⟩ = 0 (14.88)

~
µω 2 ⟨φ010 |xy|φ001 ⟩ = (14.89)
2µω

~
µω 2 ⟨φ001 |xy|φ010 ⟩ = . (14.90)
2µω
Substituindo estes resultados na Eq. (14.86) temos

~ω 2
E1 = ± . (14.91)

Portanto, as energias desses estados, incluindo as correções de primeira ordem, são

~ω 2
E ≃ 2~ω ± . (14.92)

As autofunções de ordem zero associadas a estes estados podem ser obtidas utilizando a relação (14.65), o
que resulta em
1 ( )
√ φ010 + φ001 (14.93)
2
1 ( 0 )
√ φ10 − φ001 (14.94)
2
onde a primeira relação está associada a correção de primeira ordem positiva. Note que esse resultado
concorda com o limite da solução exata obtido anteriormente; ver relações (14.84) e (14.85).

14.5 Perturbação – Observações


Uma tentativa de se achar soluções da equação de autovalores e autovetores (14.4) da forma (14.5) e (14.6)
expressa uma atitude pragmática e otimista cujo sucesso não tem garantia antecipada. Em muitos casos,
usando essa tentativa, tudo pode dar errado! Consideremos os seguintes pontos:
1. O fato de λ ser pequeno não garante sequer a existência das funções En (λ) conforme o seguinte exemplo.
Considere um oscilador anarmônico λx3 cuja hamiltoniana H0 é dada por

p2 1
H0 = + µω 2 x2 , (14.95)
2µ 2
4
Para mostrar que esses resultados são corretos, basta definir os operadores de criação e aniquilação para o oscilador na direção
x e o mesmo para a direção y, e usar então as técnicas de cálculo vistas para esses operadores.
14.5. P ERTURBAÇÃO – O BSERVAÇÕES 349

cujos níveis de energia são dados por


( )
1
En0 = ~ω n + . (14.96)
2

Introduzindo agora a perturbação V = x3 , a hamiltoniana total H = H0 + λV será

p2 1
H= + µω 2 x2 + λx3 , (14.97)
2µ 2

tem espectro puramente contínuo para todo valor de λ ̸= 0, como pode se ver a partir do gráfico do
potencial
1 2 2
µω x + λx3 ,
2
ver Fig. 14.1, onde mostra o esboço de um potencial do tipo x2 (linha tracejada) e do tipo x2 + x3
(linha sólida). Portanto, mesmo para λ pequeno, não há soluções da equação de autovalores que sejam

Figura 14.1 Potencial 12 µω 2 x2 + λx3 .

de quadrado integrável;

2. Mesmo que as funções |φn (λ)⟩ e En (λ), onde n = 1, 2, · · · , existam como soluções de (14.4), elas não
são necessariamente diferenciáveis, e muito menos infinitamente diferenciáveis; 5

3. Mesmo que as funções |φn (λ)⟩ e En (λ) sejam infinitamente diferenciáveis nada garante que suas séries
de Taylor sejam convergentes. Isso ocorre na série perturbativa do oscilador anarmônico

H0 + λx4 ;

4. Finalmente mesmo que as funções En (λ) e |φn (λ)⟩ estejam bem definidas, sejam infinitamente diferen-
ciáveis e suas séries de Taylor sejam convergentes não há nenhuma garantia de que elas convirjam para
5
Veja exemplo após o cálculo de En1 abaixo: H0 = 12 µω 2 x2 e V = cosh x4 .
350 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

En (λ) e |φn (λ)⟩!


Exemplo A função
f (λ) = e− λ2
1

satisfaz f (0) = f ′ (0) = · · · = f (n) (0) = 0 para todo n. Portanto a série de Taylor

f (n) (0) n
f (0) + f ′ (0)λ + · · · + λ + ··· = 0
n!
é trivialmente convergente para 0, ̸= f (λ), se λ ̸= 0.
As possibilidades comentadas em (1–4) são reais em muitas circunstâncias de relevância física. Apesar
disso, a teoria de perturbação é uma técnica poderosa para obtenção de resultados aproximados e, por último,
mas não menos importante, inestimável guia no entendimento qualitativo de fenômenos quânticos: é comum
obter-se excelente concordância com os dados experimentais, baseando-se em cálculos de aproximação em
primeira ordem na teoria de perturbação em situações onde se sabe que a série perturbativa é divergente!

1
14.6 Partícula de Spin 2
em um Campo Magnético
1
Considere uma partícula de spin 2 na presença de um campo magnético, tal que a hamiltoniana não pertur-
bada será
H0 = ωL Sz (14.98)
onde ωL é a frequência de Larmor, ver (6.65), e com autovalores e autoestados dados por
H0 |+⟩ = + 12 ~ωL |+⟩
(14.99)
H0 |−⟩ = − 12 ~ωL |−⟩ .
Se nosso sistema tem uma perturbação

V = λωL Sx
1
= λ~ωL (|−⟩⟨+| + |+⟩⟨−|) (14.100)
2
onde λ = Bx
Bz ≪ 1. Então podemos calcular a correção principal da perturbação como
∑ ∑ |⟨φi |V|φn ⟩|2
En (λ) = En0 + ⟨φn |V|φn ⟩ + m
+ O(λ3 ) . (14.101)
En0 − Em
0
m̸=n i

0 , temos
Para a correção de E−

1 |⟨+|λωL Sx |−⟩|2
E− (λ) = − ~ωL + λωL ⟨−|Sx |−⟩ + + O(λ3 ) . (14.102)
2 −~ωL
Note que a correção de primeira ordem se anula, e desprezando os termos de ordem superior O(λ3 ), encon-
tramos
|⟨+|V|−⟩|2 1 1
E− (λ) ≃ E−
0
+ = − ~ωL − λ2 ~ωL
E− − E+
0 0 2 4
( )
1 1
= − ~γBz 1 − Bx2 Bz−2
2 2
1 √ 2
≃ − ~γ Bz + Bx2 (14.103)
2
eg
onde γ = − 2µc é a razão giromagnética do elétron. Observe que temos a solução exata como se usássemos
a expansão de Taylor.
14.7. E FEITO S TARK 351

14.7 Efeito Stark


Uma ilustração da teoria de perturbação não degenerada é o efeito Stark quadrático. 6 Um átomo unieletrô-
nico – átomo de hidrogênio ou hidrogenóide com um único elétron na camada de valência – é sujeito a um
campo elétrico uniforme na direção z. A hamiltoniana H pode ser dividida em duas partes: a não perturbada
e a parte da contribuição da perturbação,
⃗p2
H0 = + V0 (r) e V = −e|⃗E|z (14.104)

onde e < 0 para o elétron, e z = r cos θ.
Assumimos que os autokets de energia e o espectro de energia para o problema não perturbado (H0
somente) são completamente conhecidos. O spin do elétron é irrelevante neste problema, e assumimos que
com os graus de liberdade de spin ignorados, nenhum nível de energia é degenerado. Essa suposição serve
para n ̸= 1 níveis dos átomos de hidrogênio, onde V0 é um potencial puramente coulombiano. A defasagem
da energia é dada por
∑ |zkj |2
∆k ≡ Ek − Ek0 = −e|⃗E|zkk + e2 |⃗E|2 + ··· (14.105)
Ek0 − Ej0
j̸=k

onde usamos k no lugar de n para evitar confusão com o número quântico principal n. Usando o estado
fundamental |φ100 ⟩ que é o único estado não degenerado, correspondendo aos números quânticos n = 1,
l = m = 0, a correção de primeira ordem, proveniente de V = −e|⃗E|z, é portanto

e|⃗E|zkk = |⃗E|⟨φ100 |ez|φ100 ⟩ = 0 (14.106)

onde o valor médio ⟨φ100 |ez|φ100 ⟩ é chamado de momento de dipolo elétrico do estado |φ100 ⟩, e esse estado
é esperado ser um autoestado paridade. Assim, vemos que a correção de primeira ordem se anula. Então, a
defasagem da energia é quadrática em |⃗E| e os termos de ordem superior são ignorados.
Olhemos para zkj , que aparece na relação (14.105), onde k ou j é o índice coletivo que denominamos
por (n, l, m) e (n′ , l′ , m′ ). Primeiro, faremos
 ′
 l = l±1
′ ′ ′
⟨n , l , m |z|n, l, m⟩ = 0, a menos que (14.107)
 ′
m = m
que estão associados ao momentum angular e as considerações de paridade.
Existe outra forma de observar a regra de seleção de m. Na presença de V, a total simetria esférica da
hamiltoniana é destruída pelo campo elétrico externo que seleciona a direção positiva z, mas V é invariante
sob uma rotação em torno do eixo z; em outras palavras, temos uma simetria cilíndrica. Formalmente isso
é refletido pelo fato de que
[V, Lz ] ∝ [z, Lz ] = 0 . (14.108)
Esse fato significa que Lz é um bom número quântico na presença de V. Como resultado, a perturbação
pode ser escrita como uma superposição de autokets de Lz com o mesmo m − m = 0 em nosso caso.
Esse tratamento é verdade para todas as ordens, em particular, para o ket de primeira ordem.

Polarizabilidade A polarizabilidade α de um átomo é definida em termos da defasagem da energia do


estado atômico como segue
1
∆ = − α|⃗E|2 . (14.109)
2
Consideremos o caso especial do estado fundamental do átomo de hidrogênio. O espectro do átomo de
hidrogênio é degenerado para estados excitados, já o estado fundamental é um estado não degenerado, onde
6
Johannes Stark (1874–1957), físico alemão.
J. Stark, Annalen der Physik, 43, 965–983 (1914).
352 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

o formalismo da teoria de perturbação não degenerada pode ser aplicada. O estado fundamental |φ100 ⟩ na
notação (n, l, m) é denotado por (1, 0, 0) onde

∑ |⟨k 0 |z|100⟩|2
α = −2e2 (14.110)
|E00 − Ek0 |
k̸=0

sendo que a soma sobre k inclui não somente todos os estados |nlm⟩ (para n > 1) mas os estados contínuos
positivos de energia do hidrogênio.
Esses são muitos dos caminhos para estimar, aproximadamente, ou calcular, exatamente, a soma em
(14.110) com vários níveis de sofisticação. Supondo o denominador da expressão acima como constante.
Poderíamos obter a soma considerando
∑ ∑
|⟨k 0 |z|100⟩|2 = |⟨k 0 |z|100⟩|2
k̸=0 todos os k

= ⟨100|z |100⟩
2
(14.111)
onde usamos a relação de completeza no último passo. Mas podemos calcular ⟨z 2 ⟩ para o estado fundamen-
tal como segue
1
⟨z 2 ⟩ = ⟨x2 ⟩ = ⟨y 2 ⟩ = ⟨r2 ⟩ (14.112)
3
e usando a forma explícita da função de onda obtemos
⟨z 2 ⟩ = a20 (14.113)
onde a0 seria o raio de Bohr. Infelizmente a expressão para a polarizabilidade α envolve a energia que
aparece no denominador, que depende de Ek0 , mas sabemos que a desigualdade
[ ]
e2 1
− E0 + Ek ≥ −E0 + E1 =
0 0 0 0
1− (14.114)
2a0 4
vale para toda energia que aparece no denominador em (14.110). Como resultado, podemos obter um limite
superior para a polarizabilidade do estado fundamental do átomo de hidrogênio
16a30
α< ≃ 5, 3a30 . (14.115)
3
Está claro que podemos calcular exatamente a soma em (14.110) para qual concorda com os valores medidos
experimentalmente. 7 Isso dará
9a3
α = 0 = 4, 5a30 . (14.116)
2
Podemos obter o mesmo resultado através da solução exata da equação de Schrödinger usando coordenadas
parabólicas.
Agora, vamos verificar o que acontece quando temos o nível de energia n = 2. Nesse nível, temos um
estado l = 0, o estado 2s, e três estados l = 1, os estados 2p. Portanto, o nível n = 2 é degenerado, de ordem
4. Podemos observar que todos os elementos da matriz de perturbação se anulam, exceto os elementos V12
e V21 que são dados por
 
0 ⟨2s|V|2p, m = 0⟩ 0 0
⟨2p, m = 0|V|2s⟩ 0 0 0
V= 
. (14.117)
0 0 0 0
0 0 0 0
Explicitamente,
V12 = ⟨2s|V|2p, m = 0⟩ = V21 = ⟨2p, m = 0|V|2s⟩ = 3ea0 |⃗E| . (14.118)
7
Método desenvolvido por A. Dalgarno and J. T. Lewis, Proceedings of Royal Society, A233, 70 (1955). Para os primeiros
cálculos da polarizabilidade, baseado na solução direta das equações inomogêneas, ver H. M. Foley, R. M. Sternheimer and
D. Tycko, Physical Review, 93, 734 (1954); R. M. Sternheimer, Physical Review, 96, 951 (1954); Idem, Physical Review, 127,
1220 (1962).
14.7. E FEITO S TARK 353

Prova. Para n = 2, as funções de onda correspondentes são: φ211 , φ210 , φ21−1 e φ200 . Vamos denotar os
elementos de matriz de V por

⟨211|V|210⟩ = d3⃗r φ∗211 (r, θ, ϕ)e|⃗E|zφ210 (r, θ, ϕ)

e assim por diante.


Muitas dessas integrais são nulas por causa do seguinte fato: se f (x, y, z) = −f (−x, −y, −z), então
∫ a ∫ b ∫ c
dx dy dzf (x, y, z) = 0 .
−a −b −c
A troca de⃗r por −⃗r, ou seja, de (x, y, z) por (−x, −y, −z) se deve ao operador de inversão espacial. Em
coordenadas esféricas essa transformação é:
r→r
θ →π−θ
ϕ → ϕ+π.
Em relação à inversão espacial, os harmônicos esféricos têm a seguinte transformação
Ylm (θ, ϕ) = (−1)l Ylm (π − θ, ϕ + π) .
Em consequência, as seguintes integrais são nulas:
∫ ∫

dq φnlm zφnlm = dq z|φnlm |2 = 0

pois |φnlm |2 é par e z é ímpar, ou seja, o integrando é ímpar, sendo o intervalo de integração simétrico, pois
é o espaço todo. Logo, na matriz de V, os elementos diagonais são todos nulos.
Na realidade, o mesmo fenômeno acontece com os elementos de matriz de z entre estados de mesmo l,
por exemplo:
⟨210|V|211⟩ = 0 .
Finalmente, notando que [V, lz ] = 0, é fácil provar que os elementos de matriz de V entre estados de
valores distintos de m são nulos, como
⟨211|V|200⟩ = ⟨200|V|21 − 1⟩ = 0 .
Em consequência, os valores distintos de zero são
⟨200|V|210⟩ = ⟨210|V|200⟩ ̸= 0 .
Usando as funções de onda
( )
1 r − r
φ200 =√ 3
2− e 2a0
32πa0 a0
1 r − 2ar
φ210 =√ e 0 cos θ
32πa30 a0
podemos mostrar que
⟨200|V|210⟩ = ⟨210|V|200⟩ = 3ea0 |⃗E| .

A defasagem de energia e os kets em ordem zero que diagonalizam V são


∆1 = ±3ea0 |⃗E|
±
1
|±⟩ = √ (|2s, m = 0⟩ ± |2p, m = 0⟩) . (14.119)
2
A conclusão é que o nível n = 2 divide-se em três níveis: um, com a mesma energia anterior, que é
ainda degenerado (de ordem 2), outro com energia igual à energia de Bohr adicionada de 3ea0 |⃗E|, e um
terceiro, com a energia de Bohr subtraída de 3ea0 |⃗E|, ver Fig. 14.2. Note que o deslocamento é linear
quando aplicado o campo elétrico, razão para o nome efeito Stark linear.
354 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

Figura 14.2 Efeito Stark.

14.8 Interação Spin-Órbita e Estrutura Fina


A energia clássica entre o momento magnético ⃗µ e um campo magnético ⃗B é

V = −⃗µ · ⃗B .

No sistema de repouso de um elétron que se move com velocidade ⃗v em um campo elétrico ⃗E existe um
campo magnético que é dado por
⃗B = −⃗v × ⃗E .
c
Desse modo, a energia de interação do momento magnético ⃗µe do elétron com o campo magnético gerado
pela sua dinâmica orbital relativa ao próton aparece sob a forma

⃗v ⃗ e ⃗e
V = ⃗µe · × E = −ge S ·⃗v × ⃗E .
c 2me c2
O campo elétrico a ser considerado nesse caso é o campo coulombiano do próton

⃗E(⃗r) = e ⃗r
r3

de modo que, usando ⃗v = ⃗pµ , sendo µ a massa reduzida do sistema elétron-próton, resulta

e2 1 ⃗e e2 1 ⃗e ⃗
V = −ge 2 3
S p
·⃗ ×⃗
r = ge S ·L
2me µc r 2me µc r3
2

em que ⃗L = ⃗r × ⃗p é o momentum angular do elétron. A esse resultado deve ser somado uma correção
relativística descoberta em 1926 por Thomas 8 que tem como resultado o cancelamento de metade do valor
de V. Como ge = 2, isso corresponde essencialmente à substituição ge → gLS = 1, e a energia de
interação entre o momento magnético do elétron e a sua dinâmica espacial se exprime através de um termo
de acoplamento entre o spin do elétron e o seu momentum angular orbital, dado por

e2 1 ⃗e ⃗ 1 1 dV ⃗ e ⃗
V → VLS = 2 3
S ·L = 2
S ·L
2me µc r 2me µc r dr
2
com V (r) ≡ − er . Esse termo é chamado termo de acoplamento spin-órbita, e dá origem à estrutura fina do
átomo de hidrogênio. Com a sua inclusão, a hamiltoniana não relativística do sistema que descreve o átomo
de hidrogênio passa a ser dada por
( 2 )
⃗p e2 1 1 dV ⃗ e ⃗
H= − ⊗ IS + 2
S · L ≡ H0 + VLS . (14.120)
2µ r 2me µc r dr
8
Llewellyn Hilleth Thomas (1903–1992), físico e matemático inglês.
L. H. Thomas, Nature, 117, 514 (1926).
14.8. I NTERAÇÃO Spin-Ó RBITA E E STRUTURA F INA 355

Para simplificar, chamamos ⃗L · ⃗S = ⃗Se · ⃗L. O acoplamento ⃗L · ⃗S comuta com ⃗J2 e Jz , mas não comutam
com Lz e Sz . Então usando as autofunções de ⃗L2 , ⃗S2 , ⃗J2 e Jz .9
l± 12 ,m
ψnlm = Rnl (r)Yl (14.121)
l± 12 ,m
onde Yl é a função spin-angular, já estudada anteriormente, dada por
 √ 
m− 1
± l ± m + 12 Yl 2
l± 1 ,m 1  
Yl 2 = √  . (14.122)
2l + 1  √ 1

m+
l ∓ m + 12 Yl 2
( )
Usando ⃗L · ⃗S = 1
2
⃗J2 − ⃗L2 − ⃗S2 , estaremos prontos para obter os autovalores

∫ ( )
†⃗ ~2 3
Y L · ⃗SY dΩ = j(j + 1) − l(l + 1) −
2 4
sendo dΩ o ângulo sólido desse espaço e

( )  ~2
se j = l + 12 ,
~2 3 2 l
j(j + 1) − l(l + 1) − = (14.123)
2 4 
 − ~2 (l
2
+ 1) se j = l − . 1
2

Para a correção de primeira ordem da defasagem de energia, obtemos



⟨ ⟩  l se j = l + 1
~ 2 1 dV 2
∆nlj = (14.124)
4me µc2 r dr nl 
−(l + 1) se j = l − 1
2
com ⟨ ⟩ ∫ ∞
1 dV 1 dV
≡ Rnl (r) Rnl (r)r2 dr . (14.125)
r dr nl 0 r dr
A relação (14.124) e (14.125) é conhecida como regra de intervalo de Landé 10 .
A dependência de l e j é introduzida através do fator que aparece na relação (14.123). Para estados com
l = 0, e j = 12 , a correção é nula, e os estados com j = l ± 12 , para cada valor não nulo de l, sofrem
deslocamentos de sinais opostos. Como a integral radial é positiva, pois dVdr > 0, os cálculos com j = l − 2
1
1
se tornam mais ligados, e os estados com j = l+ 2 se tornam menos ligados, que os estados não perturbados
de partida. Desse modo, o estado fundamental, n = 1, não é afetado pelo termo de interação spin-órbita; o
estado com n = 2 e l = 0 também não é afetado, como era de se esperar já que VLS = ⃗L · ⃗S, porém os
estados com n = 2 e l = 1 se quebram em dois níveis, com valores de j = 12 e j = 32 do momentum angular
total. A integral radial pode ser calculada, para este caso, explicitamente como
∫ ∞
e2 µ3 e2
|u21 (r)|2 3 dr = 3
0 r me 24a30
onde usamos o fato de que unl (r) = rRnl (r), e a0 é o raio de Bohr. Assim,
( ) ( )
µ µ2 α 2 µ µ2 α 2
E21 1 = − 1+ 2 R e E21 3 = − 1− 2 R (14.126)
2 4me me 6 2 4me me 12
onde
e2 1
α= ≃
~c 137
9⃗
J = ⃗S ⊗ I + I ⊗ ⃗L.
10
Alfred Landé (1888–1976), físico germânico-americano.
356 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

é a constante da estrutura fina. A energia do estado com n = 2 e l = 0 permanece com o valor não
perturbado, i.e.,
µR
E20 1 = E20 = − .
2 4me
A escala de energias associada aos efeitos da interação spin-órbita é de fato mais fina por um fator na
ordem de 10−4 que a escala dos espaçamentos dos níveis mais baixos do espectro não perturbado, dada
pela constante de Rydberg, R. Na Fig. 14.3 temos a representação esquemática do efeito perturbativo da
interação spin-órbita sobre os níveis n = 2 do átomo de hidrogênio.

Figura 14.3 Efeito perturbativo - estrutura fina.

14.9 Efeito Zeeman


Agora, vamos calcular a ação de uma campo magnético fraco sobre o estado fundamental do átomo de
hidrogênio. Sabe-se que quando se liga um campo magnético externo, o nível n = 1, que corresponde ao
estado fundamental, desdobra-se em um par de níveis. A interpretação física é a seguinte: devido ao spin,
o elétron comporta-se como um pequeno ímã. A energia de interação de um dipolo magnético de momento
de dipolo ⃗µ com um campo magnético ⃗B é
E = −⃗µ · ⃗B
e depende, portanto, da orientação relativa dos dois. Como o spin quântico só pode ter duas orientações,
há portanto dois valores possíveis para a energia E, que, a grosso modo, é adicionada à energia do estado
fundamental. Surgem assim os dois níveis. Este fenômeno chama-se efeito Zeeman, 11 ou efeito Zeeman
anômalo.
Esta interpretação superficial é confirmada por uma análise mais cuidadosa, baseada na teoria de per-
turbação. 12 Sabemos que o campo magnético é produto de um potencial vetor
( )
⃗ = 1 ⃗B ×⃗r .
A (14.127)
2
Estando ⃗B na direção z positiva, ou seja, ⃗B = B ẑ, temos

⃗ = − 1 (By x̂ − Bxŷ) .
A (14.128)
2
Não levando em conta o termo de spin, a hamiltoniana de interação é gerada fazendo-se
e⃗
⃗p → ⃗p − A . (14.129)
c
Assim,
⃗p2 e ( ⃗ ) e2 A
⃗2
H= + V (r) − ⃗ ⃗
p · A + A ·⃗p + , (14.130)
2µe 2µe c 2µe c2
11
Pieter Zeeman (1865–1943), físico holandês.
P. Zeeman, Phil. Mag., 43, 226 (1897); Idem, Phil. Mag., 44, 55 (1897); Idem, Nature, 55, 347 (1897).
12
W. Heisenberg and P. Jordan, Zeits. für Physik, 37, 263 (1926).
14.9. E FEITO Z EEMAN 357

⃗2
e2 A
onde 2µe c2
é a contribuição diamagnética. Como
[ ]
⟨⃗x′ |⃗p · A ⃗′· A
⃗ (⃗x)| ⟩ = i ~∇ ⃗ (⃗x′ )⟨⃗x′ | ⟩
[ ]
⃗ (⃗x) ·⃗p| ⟩ + ⟨⃗x′ | ⟩ − i ~∇
= ⟨⃗x′ |A ⃗ ′·A
⃗ (⃗x′ ) (14.131)

sendo ∇ ⃗ (⃗x) = 0, podemos sem problema substituir ⃗p · A


⃗ ·A ⃗ por A
⃗ ·⃗p, que é o caso do potencial vetor
acima. Calculando os termos para a hamiltoniana
( )
1 1
A ·⃗p = |B| − ypx + xpy
⃗ ⃗
2 2
1⃗
= |B|Lz (14.132)
2
onde B ≡ |⃗B| e Lz = xpy − ypx . Logo,

⃗ 2 = 1 |⃗B|2 (x2 + y 2 ) .
A (14.133)
4
Portanto, a hamiltoniana será dada por
⃗p2 e ⃗ e2 ⃗ 2 2
H= + V (r) − |B|Lz + |B| (x + y 2 ) . (14.134)
2µe 2µe c 8µe c2
Acrescentando o termo de interação do momento magnético de spin
e ⃗ ⃗ e ⃗
− ⃗µ · ⃗B = − S·B = − |B|Sz . (14.135)
µe c µe c

O termo quadrático |⃗B|2 (x2 + y 2 ) não é importante para o átomo de hidrogênio, campo magnético fraco;
já o termo análogo é importante para o estado fundamental do átomo de hélio onde Ltot tot
z e Sz anulam-se.
Omitindo o termo quadrático, a hamiltoniana total será composta dos seguintes termos
⃗p2
H0 = + V (r) (14.136a)
2µe
1 1 dV (r) ⃗ ⃗
HLS = 2 2 L·S (14.136b)
2µ c r dr
e ⃗
HB = − |B|(Lz − 2Sz ) . (14.136c)
2µe c
onde o termo da hamiltoniana HB é a contribuição paramagnética. O fator 2 que aparece na frente de Sz
reflete o fato de que o fator g do elétron ser 2.
Suponhamos que HB é tratado como uma pequena perturbação. podemos estudar seu efeito usando os
autokets de H0 + HLS , que são os autokets de ⃗J2 e Jz , como suas bases de ket. Como

Lz + 2Sz = Jz + Sz

o termo de HB em correção de primeira ordem pode ser escrito na forma


e ⃗
− |B| ⟨Jz − Sz ⟩j=l± 1 ,m . (14.137)
2µe c 2

O valor esperado de Jz será, imediatamente, m~. Para encontrar o valor esperado de Sz façamos primeiro:


1 l ± m + 12 1 1
|j = l ± , m⟩ = ± ml = m − , m s =
2 2l + 1 2 2


l ∓ m + 12 1 1
+ ml = m + , m s = − (14.138)
2l + 1 2 2
358 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

assim, o valor esperado de Sz poderá ser facilmente obtido:

~( )
⟨Sz ⟩j=l± 1 ,m = |c+ |2 − |c− |2
2 2 [( ) ( )]
~ 1 1 1
= l±m+ − l∓m+
2 (2l + 1) 2 2
m~
=± . (14.139)
(2l + 1)

Dessa forma, obtemos a fórmula de Landé para a defasagem de energia, dada pelo campo magnético ⃗B,
[ ]
e|⃗B| 1
∆EB = − m~ 1 ± . (14.140)
2µe c (2l + 1)

Vimos que essa defasagem de energia é proporcional a m. Para melhor compreensão da origem física
desse termo, faremos um outro método para encontrar tal valor. O valor esperado de Sz pode ser obtido pelo
teorema de Wigner-Eckart da seguinte forma:

• Pelo teorema de Wigner-Eckart,

⟨α′ jj|Jz |αjj⟩ = ⟨j1j0|j1jj⟩⟨α′ j∥⃗J∥αj⟩ (14.141)

o lado esquerdo dessa equação será ~jδαα′ , e usando o coeficiente de Clebsch-Gordon temos

⟨α′ j ′ ∥⃗J∥αj⟩ = j(j + 1) ~δjj ′ δαα′ . (14.142)

A última equação pode ser usada para derivar uma relação baseada no fato de que todos os operadores
vetoriais têm a mesma estrutura.
Usando um outro operador ⃗S, temos que

⟨α′ j ′ ∥⃗S∥αj⟩ ′ ′ ′ q
⟨α′ j ′ m′ |S q |αjm⟩ = ⟨α j m |J |αjm⟩ . (14.143)
⟨α′ j ′ ∥⃗J∥αj⟩

Para j ′ = j, o operador escalar ⃗J · ⃗S será

⟨α′ jm′ |⃗J · ⃗S|αjm⟩ = c ⟨α′ j∥⃗S∥αj⟩ ,

⃗ α e α′ . Da relação (14.142), temos


c será independente da natureza de A,

c= j(j + 1) ~δmm′

e
1
⟨α′ j∥⃗S∥αj⟩ = √ ⟨α′ jm|⃗J · ⃗S|αjm⟩ .
~ j(j + 1)
Substituindo em (14.143), obtemos o teorema de projeção

⟨α′ jm|⃗J · ⃗S|αjm⟩ ′ ′ q


⟨α′ jm′ |S q |αjm⟩ = ⟨α jm |J |αjm⟩ (14.144)
~2 j(j + 1)

na qual os elementos de matriz j-diagonal de um operador vetorial ⃗S são expressos em termos do


elemento de matriz do operador escalar ⃗J · ⃗S e de outras quantidades conhecidas.
14.9. E FEITO Z EEMAN 359

Voltando para nosso caso e usando esse teorema, temos para S q = J q = Sz


[⟨ ⟩ ]
m~
⟨Sz ⟩j=l± 1 ,m = ⃗S · ⃗J
2 1
j=l± 2 ~ j(j + 1)
2
⟨ ⟩
m ⃗J2 + ⃗S2 − ⃗L2
j=l± 12
=
2~j(j + 1)
[( )( ) ]
l ± 12 l ± 12 + 1 + 34 − l (l + 1)
= m~ ( )( )
2 l ± 21 l ± 12 + 1
m~
=± (14.145)
(2l + 1)

o que está em concordância com a relação (14.139).


Até o momento, discutimos o caso em que o campo magnético é tratado como uma perturbação fraca.
Porém, podemos considerar a situação oposta, em que o campo magnético é tão intenso que o efeito cau-
sado por HB se torna mais importante do que o efeito spin-órbita HLS , para qual adicionamos como uma
pequena perturbação. Esse efeito é conhecido como limite de Paschen-Back 13 . Somente com H0 + HB ,
os números quânticos bons são Lz e Sz . Até mesmo ⃗J2 não será bom devido a simetria esférica ser com-
pletamente destruída pelo campo magnético forte, ⃗B, que seleciona uma direção privilegiada no espaço, a
direção z. Então os estados autokets |l, s = 12 , ml , ms ⟩ de Lz e Sz serão usados como nossa base de ket. O
efeito causado pelo termo HB será facilmente calculado por

e|⃗B|
⟨HB ⟩ml ms = − ~(ml + 2ms ) . (14.146)
2µe c

Em geral haverá valores diferentes de ml e ms que conduzem ao mesmo valor de ml + 2ms , o que implica
que esse espectro ainda contém estados degenerados, como por exemplo, no caso de um nível correspon-
dente a l = 1, ml = 1 e ms = − 12 levam à mesma energia que ml = −1 e ms = 12 .
Para o termo de interação spin-órbita, fica claro que o valor esperado de ⃗L · ⃗S com respeito a |ml ms ⟩
será
⟨ ⟩ ⟨ ⟩
⃗L · ⃗S = Lz Sz + 1 (L+ S− + L− S+ )
2 ml ms
= ~2 ml ms (14.147)

onde usamos
⟨L± ⟩ml = 0 e ⟨S± ⟩ms = 0 .

Então
⟨ ⟩
~ 2 ml ms 1 dV
⟨HLS ⟩ml ms = . (14.148)
2µ2e c2 r dr

Em muitos livros elementares há interpretações extensas dos resultados obtidos com campo magnético
fraco (14.139) e obtidos com campo magnético forte (14.146), porém é importante ressaltar que a interação
dominante para ⃗B fraco é HLS , enquanto a interação dominante para ⃗B forte é HB . Podemos ainda observar
que no limite de ⃗B forte, a defasagem de energia é novamente proporcional a |⃗B|, com a inclinação da curva
determinada por ml + 2ms . O estudo do átomo de hidrogênio na presença da campos magnéticos ainda
continua sendo um tema das atividades de pesquisa. 14
13
Ernst Emil Alexander Back (1881–1959), físico alemão.
14
H. Friedrich and D. Wintger, Physics Report, 183, 37–79 (1989).
360 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

14.10 Método Variacional


Este é um método alternativo à teoria de perturbação e muito empregado em cálculos mais realistas. O
método variacional permite obter respostas mais precisas que a teoria de perturbação para um mesmo
esforço de cálculo. Além disso, ele pode ser usado para estudar efeitos não perturbativos, i.e., efeitos em
que a expansão em série de Taylor perde contribuições importantes.

Aspectos Teóricos Uma das bases do método variacional é o fato do valor esperado da hamiltoniana num
estado qualquer |ψ⟩ obedecer
⟨ψ|H|ψ⟩ ≥ E0 (14.149)
onde E0 é a energia do estado fundamental e assumimos que o estado |ψ⟩ está normalizado, i.e., ⟨ψ|ψ⟩ = 1.
Para provar esse resultado é conveniente expandir o estado |ψ⟩ na base dos autovetores de H,

|ψ⟩ = cn |un ⟩ (14.150)
n

onde o autovetor |un ⟩ está associado ao autovalor En e denotamos por n = 0 o estado fundamental. Tendo
em vista que E0 é menor que qualquer outra energia segue que
∑∑
⟨ψ|H|ψ⟩ = c∗n ⟨un |H|um ⟩cm
n m
∑∑ ∑
= c∗n cm Em ⟨un |um ⟩ = |cn |2 En
n m n

≥ E0 |cn | .
2
(14.151)
n

Agora, utilizando o fato de que |ψ⟩ está normalizado, a última série é igual a 1 e obtemos o resultado
(14.149). Note que a igualdade só é alcançada quando c0 = 1 e todos os coeficientes cn são nulos, ou seja
|ψ⟩ é o estado fundamental do sistema.
Um outro aspecto importante é a possibilidade de obtermos os autoestados e autovalores da hamiltoniana
do sistema através de um princípio de variacional. Consideremos o valor esperado da hamiltoniana do
sistema no estado |ψ⟩,
E[|ψ⟩] = ⟨ψ|H|ψ⟩ . (14.152)
Note que E[|ψ⟩] é um funcional do estado |ψ⟩, ou seja associa um número real a cada |ψ⟩. Requerendo que
E seja estacionário com respeito a variações arbitrárias de |ψ⟩ e que |ψ⟩ esteja normalizada, segue que os
estados |ψ⟩ devem ser solução do problema de autovalores da hamiltoniana nos pontos estacionários. Para
provarmos este resultado, inicialmente devemos introduzir um multiplicador de Lagrange λ para impor o
vínculo de que a função deve estar normalizada.

F[|ψ⟩] = ⟨ψ|H|ψ⟩ − λ⟨ψ|ψ⟩ . (14.153)

Variações arbitrárias |δψ⟩ em torno de um vetor |ψ⟩ que deixa F estacionário devem anular-se, ou seja,

δF = ⟨ψ|H|δψ⟩ − λ⟨ψ|δψ⟩ + ⟨δψ|H|ψ⟩ − λ⟨δψ|ψ⟩


= ⟨ψ|H − λ|δψ⟩ + ⟨δψ|H − λ|ψ⟩ = 0 . (14.154)

As variações |δψ⟩ e ⟨δψ| não são independentes, contudo, essas podem ser facilmente separadas. Tendo
em vista que |δψ⟩ é arbitrário, a última equação acima também é válida para variações imaginárias i |δψ⟩,
acarretando que
i⟨ψ|H − λ|δψ⟩ − i⟨δψ|H − λ|ψ⟩ = 0 . (14.155)
A partir de (14.154) e (14.155) concluímos que

⟨ψ|H − λ|δψ⟩ = 0 e ⟨δψ|H − λ|ψ⟩ = 0 . (14.156)


14.10. M ÉTODO VARIACIONAL 361

Uma vez que as variações |δψ⟩ são arbitrárias e que H é hermitiano, obtemos que o funcional E[|ψ⟩] é
estacionário se |ψ⟩ for autoestado de H, i.e.,

H|ψ⟩ = λ|ψ⟩ . (14.157)

Método de Rayleigh-Ritz Em situações práticas é improvável que consigamos fazer variações arbitrárias
do estado |ψ⟩ para obter o valor exato da energia do estado fundamental de um sistema. Contudo, podemos
utilizar o método variacional para obter e calcular aproximadamente essa energia. A Eq. (14.149) garante
que sempre obteremos um limite superior para a energia do estado fundamental, mesmo quando não fazemos
variações arbitrárias. O método de Rayleigh-Ritz 15 consiste em escolher uma classe limitada de funções as
quais dependem de N parâmetros livres ai 16

|ψ⟩ = ψ (a1 , · · · , aN ) (14.158)

e a posterior utilização para calcular


⟨ψ|H|ψ⟩
E (a1 , · · · , aN ) = . (14.159)
⟨ψ|ψ⟩
Obteremos uma estimativa da energia do estado fundamental minimizando E (a1 , · · · , aN ) com respeito aos
parâmetros ai .
∂E
= 0. (14.160)
∂ai āj
Então estimamos que Efund = E (ā1 , · · · , āN ). Obviamente a qualidade do resultado depende da classe de
funções escolhida.
Em geral, a escolha das funções de teste deve ser conduzida pelo nosso conhecimento do sistema e suas
propriedades gerais. Por exemplo, para minimizar a energia cinética do estado devemos escolher funções
tentativa que possuam momento angular l = 0, ou seja, estas funções não dependem de θ ou ϕ. Mais ainda,
sabemos que o estado fundamental não se anula exceto nos limites espaciais do sistema.

Exemplo 1 - Átomo de Hidrogênio Vamos estimar a energia do estado fundamental do átomo de hidro-
gênio cuja hamiltoniana é dada por
⃗p2 e2
H= − . (14.161)
2µ r
Inicialmente, vamos escolher a função tentativa

ψ (⃗x) = e−αr (14.162)

onde α é o parâmetro que iremos variar. Note que ele satisfaz os requisitos listados acima. Um cálculo direto
fornece que
⟨ψ|H|ψ⟩ ~2 α2
E (α) = = − e2 α . (14.163)
⟨ψ|ψ⟩ 2µ
A condição de mínimo para esse caso será

dE ~2 α e2 µ 1
= − e2 = 0 ⇒ ᾱ = =
dα µ ~2 a0
onde a0 é o raio de Bohr. Neste caso
1 µe4
E (ᾱ) = −
2 ~2
que é o resultado exato, já que a nossa parametrização incluia o estado fundamental.
15
Walther Ritz (1878–1909), físico suíço.
16
W. Ritz, Journal für die Reine und Angewandte Mathematik, 135, 1-61 (1908).
362 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

A título de ilustração estimamos a energia do estado fundamental do átomo de hidrogênio utilizando as


funções tentativas, inspiradas na solução do oscilador harmônico tridimensional,

ψ (⃗x) = e− 2 r
α 2
(14.164)

onde o parâmetro variacional é α. Neste caso temos que



3~2 α
E (α) = α − 2e2 ,
4µ π

E (α) é mínimo quando


16e4 µ2 16 1
ᾱ = =
9π~ 2 9π a20
sendo o seu valor nesse ponto dado por

1 µe4 8 1 µe4
Efund ≃ E (ᾱ) = − × > − .
2 ~2 3π 2 ~2
Note que a estimativa de Efund possui um erro de aproximadamente 15% em relação ao primeiro cálculo.

Exemplo 2 - Oscilador Duplo Aqui discutiremos o oscilador harmônico duplo. Inicialmente vamos con-
siderar, como modelo, duas massas µ1 e µ2 , vinculadas para mover em linha reta e conectadas uma a outra
por uma mola elástica cujo comprimento ao redor do equilíbrio é a. Se x1 e x2 são as coordenadas das
duas partículas, e p1 e p2 são seus momenta, podemos mostrar em mecânica clássica que esse problema de
dois corpos pode ser resolvido pelo movimento de centro de massa, com a massa reduzida µ = µµ11+µ µ2
2
e
coordenada x = x1 − x2 ao longo de um centro fixo sob a ação da força elástica. Aqui iremos considerar
somente o movimento relativo da massa reduzida µ. O potencial que representa esse movimento relativo é
dado por
1
V (x) = µω 2 (|x| − a)2 (14.165)
2
e a representação gráfica está na Fig. 14.4, que mostra os pontos de retorno clássico xL e xR .

Figura 14.4 Oscilador duplo.

Se a = 0, a Eq. (14.165) se reduz à um oscilador harmônico simples linear. Se a ̸= 0, temos o oscilador


duplo com duas posições de equilíbrio, x = ±a, e temos dois potenciais parabólicos. Quando a partícula
14.10. M ÉTODO VARIACIONAL 363

1 está a direita da partícula 2, x > 0, caso contrario, x < 0. Em x = 0, temos V (0) = V0 = 12 µω 2 a2 ,


i.e., há um valor comum. Classicamente, se E < V0 , podemos assumir que somente um desses potenciais
está presente, e não existe a possibilidade de penetração na barreira. Quanticamente a barreira de potencial
poderá ser penetrada.
A equação de Schrödinger dependente do tempo para o problema será

∂ψ (x, t) ~2 ∂ 2 ψ (x, t) 1 2
i~ =− + µω (|x| − a)2 ψ (x, t) , (14.166)
∂t 2µ ∂x2 2

fazendo a separação das variáveis temos

~2 ∂ 2 φ(x) 1 2
− + µω (|x| − a)2 φ(x) = Eφ(x) . (14.167)
2µ ∂x2 2

Para |x| ≫ a, a Eq. (14.167) será reduzida à equação de Schrödinger do oscilador harmônico simples.
Antes de resolvermos a Eq. (14.167), perceba que o parâmetro a varia de 0 até +∞. Assim, o potencial
muda do limite I de um oscilador harmônico simples, com frequência ω, para outro limite II com dois
osciladores separados, também com frequência ω cada, dividido por uma barreira de potencial infinitamente
alta. no caso I, temos os autovalores de energia não degenerados
( )
1
E = n+ ~ω com n = 0, 1, 2, · · · (14.168)
2

No caso II, os valores de energia são os mesmos, porém duplamente degenerados.


O potencial V (x) é uma função par e invariante sob a reflexão em x. Os autoestados têm paridade par
e ímpar. Sempre fazemos a superposição de estados estacionários par (simétrico) e ímpar (antissimétrico)
que em geral não é necessariamente estacionária.
Quando nos aproximamos do limite do caso II, a → ∞, as duas funções de onda degeneradas dos
estados fundamentais estão concentradas nas paredes de separação do potencial e não possui uma paridade
definida. Então, a simetria de reflexão do potencial duplo se diz oculta, ou quebra-se espontaneamente pelas
autofunções de energia dos estados fundamentais, sem qualquer influência externa. Esse caso serve para
ilustrar o conceito de quebra espontânea de simetria17 que aparece em muitos sistemas físicos, particular-
mente em teoria quântica de campos e física de muitos corpos.
Como a varia continuamente, energias e autofunções mudam do caso I para o caso II. Costumamos
chamar essa variação do parâmetro a de troca adiabática do sistema, já que essas trocas descreve a resposta
do sistema no tempo de forma infinitamente lenta. Como o potencial varia lentamente e continuamente,
certas características das autofunções permanece inalteradas, essas características são conhecidas como
invariantes adiabáticos.
Um exemplo do invariante adiabático é dado pelo número de zeros, ou nós,18 das autofunções. Se a
autofunção tem n nós, como autofunção do potencial I terá autovalor En , esse número não poderá mudar
no curso da transição para II. Essa afirmação é demonstrada como segue:

1. Em dois nós adjacentes, nenhum dos nós desaparece por juntar-se quando a varia, e nem um novo nó
será criado por processo inverso. Se dois nós juntaram-se em x = x0 , o extremo da φ entre eles também
deverá coincidir com os nós. Por esta razão, tanto φ e sua derivada φ′ deverão anular-se nesse ponto.
A presença de singularidades isoladas em V , como em x = 0 para o oscilador duplo, não afetará essa
conclusão, desde que φ e φ′ sejam contínuas.

2. Nenhum nó se perde enquanto a varia. Para mostrar isso, precisamos provar apenas que todos os nós
estão confinados na região entre os dois pontos de retorno clássico, i.e., a região entre xL e xR na
Fig. 14.4. Classicamente, a coordenada de uma partícula com energia E está restrita pela condição xL ≤
17
Em inglês spontaneous symmetry breaking.
18
Também nodo, do latim nodus.
364 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

x ≤ xR , onde xL e xR são as raízes menor e maior, respectivamente, quando V (x) = E. Da equação de


Schrödinger, temos
φ′′ 2µ
= 2 [V (x) − E] . (14.169)
φ ~
Então, o lado direito da expressão acima é positivo na região inacessível classicamente. Se houvesse um
nó na região x ≤ xL , este teria que ser um ponto de inflexão para a função φ(x). Inversamente, um
ponto de inflexão também teria que ser um nó. A existência de tal ponto é incompatível com a condição
assintótica da função: φ(x) → 0 quando x → ∞. O mesmo é válido para x ≥ xR . Assim, fora da região
clássica não podemos ter nenhum nó e nenhum extremo.

Iniciando um invariante adiabático, o número n de nós caracteriza as autofunções do oscilador duplo


para qualquer valor finito de a. Vamos tomar os dois autovalores de energia mais baixo, n = 0, 1.
As duas autofunções φ0 e φ1 correspondem a E = ~ω 2 e 2 , se a = 0, caso I. Para a → ∞, caso
3~ω

II, eles se tornam degenerados com a energia comum 2 . Quando a é muito grande, as condições lineares
φ0 + φ1 e φ0 − φ1 são autofunções correspondentes à função de onda que inicia-se concentrada em x = +a
e em x = −a, respectivamente; a simetria de reflexão está quebrada.
Se a é finito mas ainda grande comparado com a amplitude característica dos dois osciladores separados,
tal que √
~
a≫ , (14.170)
µω
as autofunções do oscilador harmônico φn (x − a) e φn (x + a), obtidas de (3.110) por um deslocamento de
origem, serão usados como bases para o cálculo variacional dos autovalores de energia da hamiltoniana

p2x 1
H= + µω 2 (|x| − a)2 (14.171)
2µ 2

pelo menos para valores de n não tão grandes. Desde que as autofunções exatas de H, para um a finito, têm
paridade definida, a simetria de reflexão sugere que funções tentativas paras e ímpares

φ± = N± [φn (x − a) ± φn (x + a)] (14.172)

sejam usados. Aqui N± é uma constante de normalização. Exceto no limite do caso II, a → ∞, as duas
componentes em (14.172) não são ortogonais, elas se sobrepõem. As funções pares são simétricas e as
funções ímpares são antissimétricas. Essas designações são invertidos para n ímpar. Desde que o mesmo
operador H não conecta estados de paridade oposta, tal que ⟨par|H|ímpar⟩ = 0, a opção eficiente será es-
colher φ± como funções tentativas. Usando essas funções tentativas φ± , as combinações lineares, como em
Rayleigh-Ritz, não nos dará nada de novo. Para funções tentativas normalizadas, a estimativa das energias
do oscilador duplo, usando cálculo variacional, será

⟨H⟩ = φ∗± H φ± d3 r .

Se substituirmos (14.172) na relação acima, obtemos

An ± Bn
⟨H⟩ = , (14.173)
1 ± Cn

onde
∫ ∫
An = φn (x − a)Hφn (x − a) dx = φn (x + a)Hφn (x + a) dx (14.174)
∫ ∫
Bn = φn (x − a)Hφn (x + a) dx = φn (x + a)Hφn (x − a) dx (14.175)
14.10. M ÉTODO VARIACIONAL 365

e Cn é a integral sobreposta ∫
Cn = φn (x + a)φn (x − a) dx , (14.176)

com
1
N± = √ . (14.177)
2(1 ± Cn )
Usando a quantidade adimensional de escala

µω
α= a, (14.178)
~

temos para n = 0,
[ ∫ 0 ]
1 2α −(ξ−α)2
A0 = ~ω +√ ξe dξ
2 π −∞

µω
com ξ = ~ x, para valores grandes de α:
[ ( )]
e−α
2
1 1
A0 ∼ e−α + O
2
= ~ω − √ .
2 2 πα α2

Similarmente [ ]
α 1 −α2
C0 = e−α .
2
B0 = ~ω − √ + e e
π 2

B0 = − √απ e−α , C0 = 0 e então
2
Para α ≫ 1, os termos principais darão A0 = 2 ,
( )
1 α
± √ e−α
2
⟨H⟩ ≈ ~ω (14.179)
2 π

mostra que o estado fundamental degenerado para a → ∞ divide-se simetricamente de acordo com que a
decresce. O estado par é o estado fundamental e o estado ímpar é o primeiro estado excitado. Se a altura da
barreira de potencial entre as duas paredes,

1 1
V0 = µω 2 a2 = ~ωα2 (14.180)
2 2
for introduzida, a divisão (a quebra) dos dois níveis de energia mais baixos, para o oscilador duplo com
V0 ≫ ~ω, é √
2V0 − 2V0
E− − E+ = ∆E = 2~ω e ~ω . (14.181)
π~ω
A frequência correspondente para Eq. (14.181) é

∆E 2V0 − 2V0
ωs = = 2ω e ~ω . (14.182)
~ π~ω
O significado físico da frequência ωs será melhor apreciada se considerarmos um sistema que está inicial-
mente representado por uma função de onda, assumindo n = 0,

1
ψ (x, 0) = √ [φ+ (x) + φ− (x)] . (14.183)
2
Se as duas paredes são amplamente separadas, α ≫ 1, tal que a integral sobreposta C0 seja muito pequena,
φ+ e φ− tendem a cancelar-se para x < 0 e o pacote de onda inicial será um simples pico ao redor de
x = +a. Se x = x1 − x2 é a diferença de coordenadas para duas partículas ligadas elasticamente, a
366 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

condição inicial (14.183) implica que em t = 0 a partícula 1 está definitivamente à direita da partícula 2,
quebrando a simetria de reflexão. A evolução temporal do sistema será dada por

1 [ ]
ψ (x, t) = √ φ+ (x) e− ~ E+ t + φ− (x) e− ~ E− t
i i

2
[ ]
− 2~
i
(E+ +E− t) φ+ + φ− ωs φ+ − φ− ωs
=e √ cos t + i √ sen t . (14.184)
2 2 2 2

Essa última forma mostra que o sistema move-se para atrás e para frete entre

φ+ + φ− φ+ − φ−
√ e √
2 2
ωs π φ+√
+φ−
com frequência 2 . Tomando um tempo τs = ωs para que o sistema mude de seu estado inicial 2
−φ−
φ+√
para o estado 2
, na qual significa queas partículas mudaram seus lugares quanticamente falando, o
pacote de onda terá agora um pico ao redor de x = −a. A razão do tempo τs , durante o qual ocorre a troca
de lugares, e o período 2π
ω do oscilador harmônico é dada por

ωτs ω 1 π~ω 2V0
= = e ~ω . (14.185)
2π 2ωs 4 2V0

Se a barreira V0 for alta quando comparada com ~ω, o tunelamento será fortemente inibido pela presença
do fator exponencial.
A situação é similar
( ) níveis de energia altos. Assintoticamente, a → ∞, o espectro duplamente
para
degenerado é E = n + 2 ~ω. Como a separação a das duas paredes decresce de ∞ a 0, o menor nível
1

de energia
( (par)
) em cada par de níveis (degenerados) primeiro decresce e eventualmente (cresce próximo
) de
E = 2n + 21 ~ω. O maior nível de energia (ímpar) cresce lentamente próximo de E = 2n + 23 ~ω. Para
obter os autovalores de energia para um valor arbitrário de a, e equação de Schrödinger (14.167) será viável
pelo uso de uma nova variável para x > 0,

2µω
z= (x − a)
~

e escrevendo a energia como ( )


1
E= ν+ ~ω (14.186)
2
em termos do novo número quântico, em geral não um inteiro. A equação diferencial para x positivo será
( )
d2 φ 1 z2
+ ν+ − φ = 0. (14.187)
dz 2 2 4

Para x negativo e usando



′ 2µω
z = (x + a) ,
~
a equação diferencial válida será
( )
d2 φ 1 z′2
+ ν+ − φ = 0. (14.188)
dz ′ 2 2 4

que possui a mesma forma da Eq. (14.187). A condição de contorno φ → 0 quando x → ±∞ implica que
as soluções procuradas de (14.187) e (14.188) se anulam para z → ∞ e para z ′ → −∞. Para a = 0, em
que temos o caso do oscilador harmônico linear, encontramos z = z ′ e as duas equações serão idênticas.
14.10. M ÉTODO VARIACIONAL 367

A particular solução encontrada para (14.187) que satisfaz a condição de contorno dada acima é a
conhecida função cilíndrica parabólica. 19 Essa é denotada por Dν (z) e definida como
[ ( ) ( ) ( 1) ( )]
z2 Γ 1
ν 1 z 2 z Γ − 1 − ν 3 z 2
Dν (z) = 2 2 e− 4
ν
( 2 ) 1 F1 − , ; +√ ( ν2 ) 1 F1 , ; . (14.189)
Γ 1−ν2
2 2 2 2 Γ −2 2 2 2

A função 1 F1 é a conhecida função hipergeométrica confluente, que em série de potência é dada por

a z a(a + 1) z 2
1 F1 (a, c; z) =1+ + + ··· (14.190)
c 1! c(c + 1) 2!

Se z ≫ 1 e z ≫ |ν|, temos
[ ]

2
− z4 ν(ν − 1) ν(ν − 1)(ν − 2)(ν − 3)
Dν (z) = e z 1−
ν
+ − ··· (14.191)
2 · z2 2 · 4 · z4

e se z ≪ −1 e z ≪ −|ν|, temos
[ ]

2
− z4 ν(ν − 1) ν(ν − 1)(ν − 2)(ν − 3)
Dν (z) =e z 1−
ν
+ − ···
2 · z2 2 · 4 · z4
√ [ ]
2π νπ i z2 −(ν+1) (ν + 1)(ν + 2) (ν + 1)(ν + 2)(ν + 3)(ν + 4)
− e e4 z 1+ + + ··· .
Γ(−ν) 2 · z2 2 · 4 · z4
(14.192)

Embora as séries encontradas nos colchetes divirjam para qualquer valor finito de z, as Eqs. (14.191) e
(14.192) são expansões assintóticas satisfatórias de Dν (z).
Se Dν (z) é uma solução de (14.187), Dν (−z) também o é, e essas duas soluções são linearmente inde-
pendentes a menos que ν seja um inteiro não negativo. Verificando a forma assintótica que uma particular
solução de (14.188), na qual se anula para grandes valores negativos de z ′ , essa será Dν (−z ′ ). Assim, segue
que as autofunções de um oscilador duplo será proporcional à Dν (z) para valores positivos de x e propor-
cional à Dν (−z ′ ) para valores negativos de x. Finalmente, essas duas soluções unem-se suavemente em
x = 0, o ponto onde os dois potenciais parabólicos encontram-se com inclinações descontínuas.
Como discutido anteriormente, as autofunções podem assumir paridades definidas, par ou ímpar. A
condição de unirem-se suavemente requer que em x = 0 as funções pares tenham inclinação zero e as
funções ímpares anulam-se. Igualando φ e φ′ em x = 0, temos
( √ )
2µω
Dν′ − a =0 (14.193)
~

para φ par, e ( √ )
2µω
Dν − a =0 (14.194)
~
para φ ímpar. Essas são equações transcendentais para ν. Se a = 0, as raízes de (14.193) e (14.194) dão os
autovalores do oscilador harmônico simples.
Em geral, as raízes de de (14.193) e (14.194) são obtidas por computação numérica. As autofunções
não normalizadas são:
 (√ )

 2µω
 Dν ~ (x − a) se x≥0
φ(x) = ( √ ) (14.195)

 2µω
 ±D ν − ~ (x + a) se x ≤ 0

19
Ver o excelente Morse and Feshbach, Methods of theoretical physics, (1953).
368 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS


onde o√sinal superior é usado se ν é raiz uma de Dν′ (− 2 α) = 0 e o sinal inferior se ν é uma raiz de
Dν (− 2 α) = 0.
Uma representação conveniente de um oscilador duplo anarmônico é o potencial:
µω 2 µω 2 ( 2 )2
V (x) = 2
(x − a)2
(x + a)2
= 2
x − a2 . (14.196)
8a 8a
Esse potencial nos leva ao poço duplo simétrico, já discutido em §13.6, muito importante na mecânica
quântica e suas aplicações como: a molécula de amônia NH3 de fundamental importância na física de
MASER, cujos primeiros dispositivos foram construídos por Townes e colaboradores a partir de dois níveis
de energia de moléculas de amônia com frequência na faixa de microondas. 20

Problemas
p2
14.1 Considere um oscilador anarmônico, cuja hamiltoniana é H = 2µ + 21 kx2 + ax4 . Para o estado
fundamental, ψ0 , calcule a primeira correção de energia.
14.2 Uma partícula de massa µ move-se num poço de potencial bidimensional
{
0 para |x| , |y| < a ,
V (x, y) =
∞ nos outros casos .
Determine os valores esperados dos operadores de posição x e y no estado fundamental, quando uma
pequena perturbação é aplicada V = F1 x + F2 y , onde F1 e F2 são constantes. Considere apenas
termos de primeira ordem de F1 e F2 . Não é necessário calcular os elementos de matriz até o fim.
Basta expressá-los em forma integral e dizer explicitamente quais são diferentes de zero.
14.3 Determine a correção em primeira ordem do nível de energia mais baixo, ψ0 , para um oscilador
p2
harmônico na presença de um campo elétrico E, dado pela hamiltoniana H = 2µ + 21 ω 2 x2 − eEx .

14.4 Um oscilador harmônico unidimensional é perturbado por uma energia potencial extra bx3 . Calcule a
variação em cada nível de energia até a segunda ordem de perturbação.
14.5 Considere um oscilador harmônico isotrópico bidimensional. A hamiltoniana é dada por
p2 p2y 1
H0 = x + + ω 2 (x2 + y 2 ) .
2µ 2µ 2
a) Quais são as energias dos três estados mais baixos? Existe alguma degenerescência?
b) Aplicamos uma perturbação V = δµω 2 xy , onde δ é um número real adimensional muito pequeno,
i.e., δ ≪ 1. Encontre o autoket de energia de ordem zero e a correspondente energia em primeira or-
dem para cada um dos três estados mais baixos.
c) Resolva exatamente o problema H = H0 + V .√Compare seu resultado com o obtido no item
~
(√ √ )
anterior. Sugestão: O leitor poderá usar ⟨n′ |x|n⟩ = 2µω n + 1 δn′ ,n+1 + n δn′ ,n−1 .

14.6 Um sistema que tem três estados não perturbados pode ser representado por uma hamiltoniana pertur-
bada em forma de matriz  
E1 0 a
 0 E1 b 
a∗ b∗ E2
onde E2 > E1 . As quantidades a e b devem ser consideradas como perturbações que são da mesma
ordem e são pequenas comparadas com E2 − E1 . Use a teoria de perturbação não degenerada de se-
gunda ordem para calcular os autovalores perturbados. Esse procedimento está correto? Diagonalize
a matriz para calcular os autovalores exatos. Finalmente, use a teoria de perturbação degenerada de
segunda ordem para fazer os mesmos cálculos. Compare os três resultados. Sugestão: Ver os livros
do Prof. Gottfried [36], 397, problema 1, e do Prof. Schiff [77], 295, problema 4.
20
C. H. Townes, Nobel Lectures, December 11 (1964).
14.10. M ÉTODO VARIACIONAL 369

14.7 Um rotor rígido com momento de inércia I e momento dipolo elétrico ⃗d é colocado em um campo
elétrico uniforme ⃗E. Considere o campo elétrico como uma perturbação e determine a primeira corre-
ção nos níveis de energia do rotor, supondo:
a) Que o movimento do rotor é planar;
b) Que o movimento do rotor se dá no espaço tridimensional.

14.8 Calcule a correção em primeira ordem dos dois primeiros níveis de energia de um átomo de hidrogênio
colocado em um campo elétrico. Esse é o efeito Stark linear, pois o splitting dos níveis é proporcional
ao campo. Qual a condição para que esse efeito ocorra? Sugestão: Ver o livro do prof. Schiff [77].

14.9 Do problema anterior, calcule a correção em segunda ordem para o nível de energia mais baixo.
Observação: Para resolver esse problema utilize as equações de onda em coordenadas parabólicas.
Sugestão: Ver o livre do prof. Schiff [77].

14.10 Calcule em primeira ordem o efeito Stark para o átomo de hidrogênio no estado n = 3. Esboce a
disposição dos níveis e estados dos números quânticos associados a cada um.

14.11 Estime a energia do estado fundamental de um oscilador harmônico simples unidimensional usando
⟨x|0̃⟩ = e−β|x| como uma função tentativa com β sendo variável. Você pode usar
∫ ∞
n!
e−αx xn dx = n+1 .
0 α
14.12 Use o método variacional para estimar a energia do estado fundamental de uma partícula no potencial
{
∞ para x < 0 ,
V (x) =
cx para x > 0 .
Use xe−ax como função tentativa.
( ) ( )
E0 0 α U
14.13 Considere uma hamiltoniana da forma H = +λ
0 −E0 U∗ β
a) Calcule a mudança de energia para aproximação em primeira e segunda ordem em λ. Compare seu
resultado com os autovalores exatos.
b) Suponha que U é substituído por V ̸= U. Mostrar que os autoestados da nova hamiltoniana H não
hermitiana correspondentes a autovalores diferentes não são ortogonais. Sugestão: Para essa parte do
problema, use α = β = 0 para simplificar o trabalho.

14.14 Considere uma partícula de carga q e sua antipartícula (carga −q e mesma massa) interagindo via po-
tencial coulombiano. Por quanto os níveis de energia de mais baixos se desloca se a energia potencial
é alterada pela adição do termo V1 = Kr?

14.15 A hamiltoniana para um elétron em um átomo de hidrogênio


( )sujeito a um campo magnético constante
⃗B, é, negligenciando o termo de spin, H = ⃗p2 − e2 + e ⃗L · ⃗B , onde ⃗L é o operador momentum
2µ r 2µc
angular. Na ausência do campo magnético, haverá uma única linha na transição de um estado (n =
4, l = 3) para um estado (n = 3, l = 2). Qual será o efeito do campo magnético nessa linha? Esboce
o novo espectro e as transições possíveis, vinculados pelas regras de seleção ∆lz = ±1, 0. Quantas
linhas teremos? Qual o efeito produzido por um campo elétrico constante ⃗E paralelo à ⃗B?

14.16 Se a forma geral do acoplamento spin-órbita para uma partícula de massa µ e spin ⃗S movendo-se em
um potencial V (r) é HSO = 2µ12 c2 ⃗S · ⃗L 1r dVdr(r) , qual é o efeito desse acoplamento no espectro de um
oscilador harmônico tridimensional?

14.17 Use o princípio variacional para estimar a energia do estado fundamental de um oscilador anarmônico
( 2 )2
p2 1
~ 3
H = 2µ + λx4 . Compare seu resultado com o resultado exato E0 = 1, 060λ 3 2µ . Sugestão:
Use uma gaussiana como função tentativa.
370 C AP. 14 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES E STACIONÁRIAS

14.18 Considere uma função de onda ψ (α1 , α2 , · · · , αn ) na qual somente a dependência em alguns parâ-
metros é exibida. A função de onda é normalizada ⟨ψ (α1 , α2 , · · · , αn )|ψ (α1 , α2 , · · · , αn )⟩ = 1 e a
dependência nos parâmetros é escolhida tal que E = ⟨ψ (α1 , · · · )|H|ψ (α1 , · · · )⟩ é mínimo. Mostre
que os parâmetros são determinados por um conjunto de equações
⟨ ⟩ ⟨ ⟩
∂ψ ∂ψ
ψ (α1 , · · · )|H| − µ ψ (α1 , · · · )| =0
∂αi ∂αi
onde µ é um multiplicador de Lagrange e i = 1, 2, · · · , n. Se H depende de um parâmetro λ. Então
os αi dependem de tal parâmetro. Prove que
⟨ ⟩
dE ∂H
= ψ (α1 , · · · ) ψ (α1 , · · · ) .
dλ ∂λ
Essa relação é conhecida como teorema de Feynman–Hellmann 21 e é de muita importância na física
molecular. 22

14.19 Dado o fato de que na parte radial da hamiltoniana do átomo de hidrogênio o potencial é dado por
2 2 2
Vef = − Zer + l(l+1)~
2µr2
e que os autovalores são dados por E (nr , l) = − 12 µc2 (nr(Zα)
+l+1)2
, use o
teorema de Feynman-Hellmann para calcular ⟨1/r⟩nl e ⟨1/r ⟩nl .
2

14.20 Use o resultado exato do problema 13.17 junto com o teorema de Feynman-Hellmann para calcular
⟨p2 ⟩ e ⟨x4 ⟩ do estado fundamental do oscilador anarmônico.

Leitura Recomendada
Para este capítulo e para o estudo da expansão de Rayleigh-Schrödinger, temos o livro:

– A. F. R. de Toledo Piza [79].

Esse trabalho está numa forma moderna, lucida e elegantemente escrita.


Ainda recomendo ao leitor uma leitura detalhada dos livros:

– E. Merzbacher [61];
– C. Cohen-Tannoudji, B. Diu and F. Laloë [21];
– J. J. Sakurai [74];
– A. Messiah [62].

21
Hans Gustav Adolf Hellmann (1903–1938), físico alemão.
22
H. Hellmann, Acta Physicochemica (URSS), 16, 913 (1935); Idem, 17, 225 (1936); Idem, Einfühung in die Quantenchemie,
Leipzig: Franz Deuticke, 285 (1937); R. P. Feynman, Physical Review, 56(4), 340 (1939).
Capítulo 15
Teoria das Perturbações Dependente do Tempo

Neste capítulo iremos estudar o método de aproximação considerando sistemas para os quais as hamilto-
nianas contém dependência temporal, esse método é conhecido como teoria de perturbação dependente
do tempo. De modo geral, também nestes casos, torna-se impossível obter soluções exatas para a equação
de Schrödinger. Faremos ainda um estudo mais detalhado da regra de ouro de Fermi, além de algumas
aplicações importantes em sistemas físicos.

15.1 Equação de Movimento


Até o momento trabalhamos com hamiltoniana que não contém explicitamente o tempo. Porém, na natureza
existe vários sistemas quânticos importantes com dependência temporal, tal como sistemas com situações
em que o potencial dependa do tempo explicitamente.
Assim, vamos considerar uma hamiltoniana que podemos dividir em duas partes:
H = H0 + V(t) (15.1)
onde H0 , que não contém a dependência explicita no tempo, é a parte não perturbada do sistema. Então, se
assumimos V(t) = 0, temos
H0 |φn ⟩ = En |φn ⟩ (15.2)
que são completamente conhecidas. 1
Quando consideramos a parte do potencial V(t) ̸= 0, a hamiltoniana envolve explicitamente o tempo e
obedece a equação de Schrödinger dependente do tempo.

H|ψ⟩ = i ~
|ψ⟩ .
∂t
Supondo t = 0, o estado ket do sistema físico é dado por

|ψ⟩ = cn (0)|φn ⟩ (15.3)
n
e para um instante t > 0, temos
∑ En
|ψ, t0 = 0; t⟩ = cn (t)e− i ~
t
|φn ⟩ (15.4)
n
onde o ket no lado esquerdo da relação acima (15.4) representa o estado ket na representação de Schrödinger
em um tempo t, tal que quando t = 0 retornamos ao estado ket original (15.3).
En
É importante notar que o fator e− i ~ t está presente mesmo na ausência de V. Da forma de escrever a
dependência temporal fica claro que a evolução no tempo de cn (t) é feita somente na presença de V(t); o
fator cn (t) é identicamente igual à cn (0) e esse independente de t se V = 0. Essa separação é conveniente
porque cn (t) satisfaz uma equação diferencial relativamente simples. A probabilidade de encontrarmos |φn ⟩
será obtida resolvendo |cn (t)|2 , onde podemos fazer importantes aplicações em sistemas físicos.
1
Usaremos a notação |φn ⟩ no lugar de |φ0n ⟩ para a parte não perturbada do sistema.

371
372 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

15.2 Representação de Interação


Antes de discutirmos a equação diferencial para solução de cn (t), vamos discutir a representação de inte-
ração para um caso de perturbação com dependência temporal. Se temos um sistema físico dado por |ψ⟩
em t = t0 , onde normalmente t0 = 0, um tempo depois, através da evolução temporal, na representação de
Schrödinger |ψ, t0 ; t⟩ temos
H0
|ψ, t0 ; t⟩I = ei ~
t
|ψ, t0 ; t⟩S (15.5)
onde | ⟩I representa o sistema físico na representação de interação. Em t = 0, | ⟩I = | ⟩S . Assim, uma
observável na representação de interação será
H0 H0
AI = ei ~
t
AS e− i ~
t
. (15.6)

Em particular, o potencial V(t) será


H0 H0
V I = ei ~
t
V e− i ~
t
(15.7)
onde V sem o índice abaixo é entendido como o potencial dependente do tempo na representação de Schrö-
dinger. Note que podemos relacionar a representação de Schrödinger com a representação de Heisenberg
por
H
|ψ⟩H = ei ~
t
|ψ, t0 = 0; t⟩S (15.8)

A S e− i
H H
AH = ei ~
t ~
t
. (15.9)

A diferença básica entre (15.5) e (15.6) para (15.8) e (15.9) está em H0 e H, i.e., no primeiro par de equações
usamos a hamiltoniana sem perturbação enquanto no segunda par de equações usamos a hamiltoniana com
o fator de perturbação.
Agora, vamos derivar a equação diferencial na representação de interação. Derivando a Eq. (15.4) em
relação ao tempo, e usando H = H0 + V

i~ |ψ, t0 ; t⟩ = (H0 + V) |ψ, t0 ; t⟩
( ∂t )
∂ ∑ − i E~n t
∑ En
i~ cn (t)e |φn ⟩ = (H0 + V) cn (t)e− i ~ t |φn ⟩
∂t n n
∑ ∑
− i E~n t En
(i ~ ċn (t) + cn (t)En ) e |φn ⟩ = (H0 + V) cn (t)e− i ~ t |φn ⟩ (15.10)
n n

como
H0 |φn ⟩ = En |φn ⟩ ,
da expressão (15.10) temos
∑ En ∑ En
i~ ċn (t) e− i ~
t
|φn ⟩ = cn (t) V e− i ~
t
|φn ⟩ , (15.11)
n n

sabemos que em t = 0 → | ⟩I = | ⟩S , e da relação (15.11) temos



i~ | ⟩I = V| ⟩I ,
∂t
evoluindo no tempo, encontramos
∂ H0
i~ | ⟩I = V ei ~ t | ⟩S
∂t
e finalmente
∂ H0 H0 H0
i~ | ⟩I = ei ~ t Ve− i ~ t ei ~ t | ⟩S .
∂t
15.3. S ISTEMA DE DOIS N ÍVEIS D EPENDENTE DO T EMPO 373

Assim,

i~
|ψ, t0 ; t⟩I = VI |ψ, t0 ; t⟩I (15.12)
∂t
essa equação é como a de Schrödinger, porém substituindo H por VI . Em outras palavras |ψ, t0 ; t⟩I será
fixo no tempo se VI estiver ausente. Por outro lado se tivermos uma observável A, não explicita no tempo
na representação de Schrödinger, temos
dAI 1
= [AI , H0 ] (15.13)
dt i~
que é como a equação de Heisenberg, porém temos H0 no lugar de H.
A representação de interação se deve a Dirac, por essa razão, é também conhecida como representação
de Dirac. Essa representação em muitos aspectos é a conexão entre as representações de Schrödinger e de
Heisenberg.
Finalmente vamos concluir a equação diferencial para cn (t). Multiplicando a relação (15.12) por ⟨φn |
nos dois lados, temos
∂ ∑
i ~ ⟨φn |ψ, t0 ; t⟩I = ⟨φn |VI |φm ⟩⟨φm |ψ, t0 ; t⟩I (15.14)
∂t m
usando H0 H0 (En −Em )
⟨φn |ei ~
t
Ve− i ~
t
|φm ⟩ = Vnm (t)ei ~
t

e como
cn (t) = ⟨φn |ψ, t0 ; t⟩I
de (15.14) temos
d ∑
i~ cn (t) = Vnm (t) ei ωnm t cm (t) (15.15)
dt m
onde
En − Em
ωnm ≡ = −ωmn . (15.16)
~
Explicitamente     
ċ1 V11 (t) V12 (t)ei ω12 t ··· c1
ċ2  V21 (t)ei ω21 t V · · ·   
   22 (t)  c2 
i ~ ċ  =   
V33 (t) · · · c3  . (15.17)
 3  
.. .. .. .. ..
. . . . .
Essa é a equação diferencial básica que será usada para obter a probabilidade de encontrarmos |φn ⟩ como
função do tempo t.

15.3 Sistema de dois Níveis Dependente do Tempo


Problemas com solução exata e potenciais dependente do tempo são raros. Na maioria dos casos, recorremos
a expansão perturbativa para solucionar a equação diferencial acoplada (15.17), como iremos discutir nesta
seção. Vamos tomar como exemplo, devido sua importância prática, o problema de dois níveis com um
potencial oscilante.
O problema é definido por

H0 = E1 |1⟩⟨1| + E2 |2⟩⟨2| (E2 > E1 )


− i ωt
V(t) = γe i ωt
|1⟩⟨2| + γe |2⟩⟨1| (15.18)

onde γ e ω são reais e positivos. Na linguagem das Eqs. (15.14) e (15.15), temos

V12 = V21 = γei ωt
V11 = V22 = 0 . (15.19)
374 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

Então temos um potencial dependente do tempo que conecta os dois autoestados de energia de H0 . Em
outras palavras, podemos ter uma transição entre os dois estados |1⟩  |2⟩.
Podemos resolver este problema introduzindo a condição inicial, t = 0, onde somente o nível inferior
está ocupado, então
c1 (0) = 1 e c2 (0) = 0 . (15.20)
Assim, da Eq. (15.17) temos
( ) ( )( )
ċ1 0 γei ωt ei ω12 t c1
i~ = − i ωt i ω t (15.21)
ċ2 γe e 12 0 c2
E2 −E1
onde ω21 = −ω12 = ~ . Tentando uma solução na forma
( ) ( i(ω−ω21 ) t )
c1 e 2 a1
= (15.22)
e− i(ω−ω21 ) 2 a2
t
c2

em (15.21), encontramos 


i(ω−ω21 )
a1 + ȧ1 = γ
a2
2 i~
(15.23)

 − i(ω−ω21 ) γ
2 a2 + ȧ2 = i~ a1
diretamente da relação acima, temos que
 [ 2 ]

 ä = − γ
+ (ω−ω21 )2
a1
 1 ~2 4

[ ] (15.24)


 ä2 = − γ22 + (ω−ω21 )2
a2 .
~ 4

Assim,
{ } [( ) 21 ]
sen γ 2 (ω − ω21 )2
a2 ∼ + t . (15.25)
cos ~2 4
Desde que c2 (0) = 0, da relação (15.22) temos
[( ) 21 ]
− i(ω−ω21 ) 2t γ 2 (ω − ω21 )2
c2 (t) = e sen + t . (15.26)
~2 4

Voltando para Eq. (15.21), desde que c1 (0) = 1, temos que

i ~ċ2 |t=0 = γ .

Então, [( ) 12 ]
γ − i(ω−ω21 ) 2t γ 2 (ω − ω21 )2
c2 (t) = ( )1 e sen + t (15.27)
γ2 (ω−ω21 )2 2 ~2 4
i~ ~2
+ 4
e
γ2 ( 2 [ )1 ]
~2 γ (ω − ω21 )2 2
|c2 (t)| = γ 2 (ω−ω )2 sen
2 2
+ t . (15.28)
+ 21 ~2 4
~2 4
Novamente de (15.21), temos i ~ċ2 = γe− i ωt ei ω21 t c1 , então usando a expressão (15.27) é fácil verificar
que
|c1 (t)|2 = 1 − |c2 (t)|2 . (15.29)
A relação (15.28) é a conhecida fórmula de Rabi, que desenvolveu a técnica de feixe molecular, essa fórmula
já discutimos anteriormente. 2
2
Para um teste direto da quantização do campo em uma cavidade: Oscilação quântica de Rabi, ver M. Brune et al., Physical
Review Letters, 76, 1800 (1996).
15.3. S ISTEMA DE DOIS N ÍVEIS D EPENDENTE DO T EMPO 375

Vamos observar |c2 (t)|2 com mais detalhes. Note que a probabilidade de obtermos o estado superior E2
exibe uma dependência temporal oscilatória com frequência angular
( ) 21
γ 2 (ω − ω21 )2
Ω= + . (15.30)
~2 4

A amplitude de oscilação é bem grande quando

E2 − E1
ω ≃ ω21 = (15.31)
~
ou seja, quando a frequência angular do potencial é praticamente igual a frequência angular característica
do sistema de dois níveis. Essa equação é conhecida como condição de ressonância.
É interessante observar o comportamento de (15.28) e (15.29) na condição de ressonância. Na Fig. 15.1
mostramos os gráficos de |c1 (t)|2 e |c2 (t)|2 como função do tempo. De t = 0 a t = π~
2γ , o sistema absorve

Figura 15.1 Gráficos de |c1 (t)|2 e |c2 (t)|2 como função do tempo.

energia do potencial V(t); a curva de |c1 (t)|2 decresce enquanto a curva de |c2 (t)|2 aumenta. De t = π~ 2γ a
t = γ , o sistema fornece seu excesso de energia (do estado excitado, superior) para V(t); |c2 (t)| decresce
π~ 2

e |c1 (t)|2 aumenta. Esse ciclo de absorção-emissão irá se repetir indefinidamente, cf. Fig. 15.1, tal que V(t)
pode ser tanto a fonte de energia como o receptor do excesso de energia; i.e., V(t) pode causar a transição
de |1⟩ para |2⟩, no caso de absorção, ou de |2⟩ para |1⟩, no caso de emissão.
O ciclo absorção-emissão terá lugar independente da ressonância. Entretanto, se a amplitude do oscila-
dor para o estado |2⟩ for reduzida, |c2 (t)|2máx não será maior que 1 e |c1 (t)|2 não cairá de todo para 0. Na
Fig. 15.2 temos |c2 (t)|2máx como função de ω. Essa curva tem um pico de ressonância centrado em ω = ω21

Figura 15.2 Gráfico de |c2 (t)|2máx como função de ω.


e sua largura a meia altura é dada por ~ , quando γ é pequeno temos um pico de ressonância estreito.
376 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

Ressonância Magnética O problema de dois níveis definido em (15.18) tem muitas aplicações físicas.
Um bom exemplo é quando consideramos um sistema atômico de spin 12 cujo o momentum angular orbital
⃗L é nulo, sujeito a um campo magnético uniforme independente do tempo na direção z e, em adição, um
campo magnético rotativo no plano-xy:
⃗B = B0 ẑ + B1 (x̂ cos ωt + ŷ sen ωt) , (15.32)

com B0 e B1 constantes. Podemos tratar o efeito do campo uniforme independente do tempo como H0 e o
efeito do campo rotativo dependente do tempo como V(t). Para
e ⃗
⃗µ = S (15.33)
µe c
temos
e~B0
H0 = − (|+⟩⟨+| − |−⟩⟨−|)
2µe c
e~B1
V(t) = − [cos ωt (|+⟩⟨−| + |−⟩⟨+|)
2µe c
+ sen ωt (− i |+⟩⟨−| + i |−⟩⟨+|)] (15.34)
2Si
onde usamos a forma bra-ket ~ , ver (10.11). Com e < 0, E+ tem energia superior a E− , e identificamos

|+⟩ → |2⟩ nível superior


(15.35)
|−⟩ → |1⟩ nível inferior

para fazermos a correspondência com a notação da Eq. (15.18). A frequência angular característica deste
sistema é
|e|B0
ω21 = (15.36)
µe c
que é justamente a frequência de precessão de spin quanto B0 ̸= 0 e B1 = 0. Os quadrados dos coeficientes
|c+ |2 e |c− |2 permanece inalterado na ausência do campo rotativo. Porém, se considerarmos esse efeito,
|c+ |2 e |c− |2 serão alterados como uma função do tempo. Podemos ver isso pela identificação
e~B1
− → γ, ω → ω21 (15.37)
2µe c
para fazermos correspondência da notação de (15.18); nossa interação dependente do tempo (15.34) tem
precisamente a forma de (15.18). O fato de que |c+ (t)|2 e |c− (t)|2 variar da maneira mostrada na Fig. 15.1
para ω = ω21 , e ter a correspondência (15.35), implica que o sistema de spin 21 está sob efeito de sucessivos
|+⟩  |−⟩, em adição a precessão do spin. Semiclassicamente, |+⟩  |−⟩ pode ser interpretado como
sofrendo o efeito do torque exercido pela rotação de ⃗B.
A condição de ressonância será satisfeita quando a frequência do campo magnético rotativo coincide
com a frequência de precessão do spin determinado pelo campo magnético uniforme. Note que a proba-
bilidade de |+⟩  |−⟩ é particularmente alta. Na prática, um campo magnético rotativo é difícil de ser
produzido experimentalmente. Entretanto, podemos usar um campo magnético oscilando horizontalmente,
na direção x. Podemos decompor esse campo em uma componente girando no sentido anti-horário e outra
componente girando no sentido horário como:

2B1 x̂ cos ωt = B1 (x̂ cos ωt + ŷ sen ωt) + B1 (x̂ cos ωt − ŷ sen ωt) . (15.38)

Podemos obter o efeito da segunda componente, apenas revertendo o sinal de ω. Supomos que a condição
de ressonância encontra a componente anti-horária ω ≃ ω21 , temos sob uma típica condição experimental
B1
≪1 (15.39)
B0
15.4. S ÉRIES DE DYSON 377

para qual, de (15.36) e (15.37), implica como resultado que

γ
≪ ω21 . (15.40)
~

O problema de ressonância aqui estudado tem importância fundamental na interpretação de experimento


de feixe molecular atômico e ressonância magnética nuclear, 3 onde o momentum angular total eletrônico
é nulo, considerando-se apenas o spin nuclear. Pela variação da frequência do campo oscilante, é possí-
vel fazer uma medida muito precisa do momento magnético. Nossa discussão está baseada na solução das
equações diferenciais (15.17); esse problema pode ser resolvido, elegantemente, pela introdução da repre-
sentação dos eixos rotativos de Rabi, Schwinger 4 e Van Vleck 5 .

15.4 Séries de Dyson


Podemos estar satisfeitos com a solução aproximada, dada pela Eq. (15.15) ou Eq. (15.17), obtida pela
expansão perturbativa. Visto V ser considerado apenas uma perturbação sobre a parte principal da hamilto-
niana, torna-se possível fazer uma expansão dos coeficientes cn (t) em série, do seguinte modo:

cn (t) = c0n + λc1n + λ2 c2n + · · · (15.41)

onde c1n , c2n , · · · representam as amplitudes da expansão em primeira ordem, segunda ordem e assim sucessi-
vamente, assumimos λ entre 0 e 1. Entretanto podemos substituir (15.41) em (15.15), equipar os coeficientes
de igual potência λ, e ajustar λ = 1 no resultado final. Assim, o método de interação usado para resolver
esse problema é similar aquele que usamos na teoria de perturbação independente do tempo. Se tomarmos
inicialmente apenas o estado |φi ⟩ como estado ocupado, e aproximando cn dado pelo lado direito da Eq.
(15.17) por c0n = δni , independente do tempo, para obter c1n como dependente do tempo, integramos a Eq.
(15.17). Após esse processo, fixamos c1n e novamente integramos para obter c2n , e assim sucessivamente.
Essa é a forma como Dirac desenvolveu a teoria de perturbação dependente do tempo. 6
Então, no lugar de usarmos cn (t), vamos propor observar o operador de evolução temporal UI (t, t0 ) na
representação de interação. Qual a representação perturbativa de UI (t, t0 )?
O operador de evolução temporal UI (t, t0 ) na representação de interação é definido por

|ψ, t0 ; t⟩I = UI (t, t0 )|ψ, t0 ; t0 ⟩I (15.42)

usando a relação acima na equação diferencial (15.12), temos a equação equivalente para o operador evolu-
ção temporal
d
i ~ UI (t, t0 ) = VI (t) UI (t, t0 ) , (15.43)
dt
introduzindo a condição inicial
UI (t, t0 )|t=t0 = 1 . (15.44)

Assim, integrando a relação (15.43) em t′


∫ t
i
UI (t, t0 ) = 1 − VI (t′ )UI (t′ , t0 ) dt′ . (15.45)
~ t0

3
Ressonância Magnética Nuclear - RMN. Do inglês Nuclear Magnetic Resonance - NMR.
4
Julian Seymour Schwinger (1918–1994), físico americano.
5
John Hasbrouck Van Vleck (1899–1980), físico e matemático americano.
6
P. A. M. Dirac, Proceedings of Royal Society, A112, 661 (1926); Idem, A114, 243 (1927).
378 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

Novamente usando condições similares em (15.45), temos


∫ [ ∫ t′ ]
i t i
UI (t, t0 ) = 1 − VI (t′ ) 1 − VI (t′′ )UI (t′′ , t0 ) dt′′ dt′
~ t0 ~ t0
∫ ( )2 ∫ t ∫ t′
i t ′ −i ′
=1− ′
dt VI (t ) + dt dt′′ VI (t′ )VI (t′′ )
~ t0 ~ t0 t0
( )n ∫ t ∫ t′ ∫ tn−1
−i
+ ··· + dt′ dt′′ · · · dtn VI (t′ )VI (t′′ ) · · · VI (tn )
~ t0 t0 t0
+ ··· (15.46)

Essa expansão é a conhecida série de Dyson, já comentada anteriormente, e aplicada na eletrodinâmica


quântica - QED, usando o produto tempo-ordenado, 7 i.e., t′ > t′′ > · · · , tal que 8

U(t, t0 ) = U(t, t1 )U(t1 , t0 ) etc.

15.5 Probabilidade de Transição


Desde que UI (t, t0 ) prevê o desenvolvimento temporal de qualquer estado ket, faremos que esse seja o
estado inicial |φi ⟩ em t0 tal que H0 |φi ⟩ = Ei |φi ⟩, então para obter o estado inicial em um tempo posterior,
usamos o operador de evolução temporal,

|φi , t0 = 0; t⟩I = UI (t, 0)|φi ⟩



= |φn ⟩⟨φn |UI (t, 0)|φi ⟩ . (15.47)
n

Note que aqui, ⟨φn |UI (t, 0)|φi ⟩ é nada mais do que cn (t), como em |ψ, t0 ; t⟩I = n cn (t)|φn ⟩.
Explorando a relação entre as representações de Schrödinger e de interação, temos que,
H0
|ψ, t0 ; t⟩I = ei ~
t
|ψ, t0 ; t⟩S
H0
= ei ~
t
U(t, t0 )|ψ, t0 ; t0 ⟩S
H0 H0
= ei ~
t
U(t, t0 ) e− i ~
t
|ψ, t0 ; t0 ⟩I . (15.48)

Logo,
H0 H0
UI (t, t0 ) = ei ~
t
U(t, t0 ) e− i ~
t
. (15.49)
Então, o elemento de matriz de UI (t, t0 )
En t−Ei t0
⟨φn |UI (t, t0 )|φi ⟩ = ei ~ ⟨φn |U(t, t0 )|φi ⟩ . (15.50)

Assim, a probabilidade será

|⟨φn |UI (t, t0 )|φi ⟩|2 = |⟨φn |U(t, t0 )|φi ⟩|2 . (15.51)

• Caso Geral, se |a′ ⟩ e |b′ ⟩ são autokets de A e B, onde [H0 , A] ̸= 0 e/ou [H0 , B] ̸= 0, temos

⟨b′ |UI (t, t0 )|a′ ⟩ ̸= ⟨b′ |U(t, t0 )|a′ ⟩ .

Felizmente, em geral os problemas que temos que solucionar, os kets |φn ⟩ e |φi ⟩ são kets de H0 , i.e.,
sempre podemos expandir |a′ ⟩ e |b′ ⟩ em termos de |φn ⟩ e |φi ⟩.
7
Em inglês, falamos time-ordered product.
8
Bjorken and Drell, Relativistic quantum fields, 175–178 (1965).
15.6. P ERTURBAÇÃO C ONSTANTE 379

Voltemos então a Eq. (15.51), ⟨φn |UI (t, t0 )|φi ⟩, e vamos considerar a situação física onde em t = t0 o
sistema está em |φi ⟩. Assim,
Ei
|φi , t0 ; t0 ⟩S = e− i ~ 0
t
|φi ⟩ (15.52)
mas,
Ei H0
|φi , t0 ; t0 ⟩I = e− i ~ 0
t
e− i t
~ 0 |φi ⟩
temos
|φi , t0 ; t0 ⟩I = |φi ⟩ . (15.53)
Porém sabemos que
|φi , t0 ; t⟩I = UI (t, t0 )|φi ⟩ (15.54)
comparando com ∑
|φi , t0 ; t⟩I = cn (t)|φn ⟩ (15.55)
n
encontramos
cn (t) = ⟨φn |UI (t, t0 )|φi ⟩ . (15.56)
Agora, usando a expansão (15.46) de Dyson, podemos calcular os termos de cn (t). Assim, temos
c0n (t) = δni independente do tempo
∫ t
i
c1n (t) = − ⟨φn |VI (t)|φi ⟩ dt′
~ t0
∫ t
i ′
=− ei ωni t Vni (t′ ) dt′ (15.57)
~ t0
( )2 ∑ ∫ ∫ t′
−i t
′ ′ ′′
c2n (t) = dt dt′′ ei ωnm t Vnm (t′ ) ei ωmi t Vmi (t′′ )
~ m t0 t0

onde (En −Ei )


ei ~
t
= ei ωni t
e a transição de |φi ⟩ → |φn ⟩ com n ̸= i tem a probabilidade
2
P(i → n) = c1n (t) + c2n (t) + · · · . (15.58)

15.6 Perturbação Constante


Faremos a aplicação da relação (15.57) considerando uma perturbação constante a partir de t = 0:
{
V independente do tempo para t ≥ 0
V (t) =
0 para t < 0
em t = 0 temos somente o ket |φi ⟩
c0n = c0n (0) = δin
∫ t
i ′
c1n = − Vni dt′ ei ωni t
~ 0
Vni ( )
= 1 − ei ωni t (15.59)
En − Ei
ou
2 |Vni |2
c1n = (2 − 2 cos ωni t)
|En − Ei |2
[ ]
4 |Vni |2 2 (En − Ei )t
= sen . (15.60)
|En − Ei |2 2~
380 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

Assim, a probabilidade de encontrarmos |φn ⟩ depende não somente de |Vni |2 , mas também da diferença
de energia |En − Ei |. Sabemos que
En − Ei
ω≡ (15.61)
~
2
e o gráfico 4 sen ω(ωt/2)
2 como função de ω para t fixo, o intervalo de tempo em que ocorreu a perturbação, está
na Fig. 15.3, onde vemos que o pico no centro da figura, ao redor de ω = 0, é t2 e a largura é proporcional

Figura 15.3 Probabilidade de transição como função da diferença de energia.

a 1t . Quando t se torna grande, |c1n (t)|2 é apreciável somente para aqueles estados finais que satisfazem
ω ≤ 2π t , i.e.,
2π 2π~
t≈ = .
|ω| |En − Ei |
Se ∆t é o intervalo em que ocorreu uma perturbação, a transição com apreciável probabilidade só será
possível se
∆t∆E ∼ 2π~

que é o princípio da incerteza de Heisenberg, e então, se ∆t for pequeno, podemos tolerar uma pequena
quantidade de energia não conservada.
Mas se tenho a energia conservada En = Ei , observamos a transição |φi ⟩ → |φn ⟩ quando

4 sen2 (ωt/2) 4 t2 t2
lim = 2 = 2
ω→0 ~ ω
2 2 ~ 4 ~
e temos
1
|c1n (t)|2 = |Vni |2 t2 . (15.62)
~2
A probabilidade de encontrarmos |φn ⟩ depois de um intervalo de tempo t é quadrática, não linear, no
intervalo de tempo na qual ocorre a perturbação causada por V.

Regra de Ouro de Fermi Um conjunto quase-contínuo de estados é descrito pela densidade de estados
finais ρ(E), e o número de estados no intervalo de energia (E, E + dE) é dado por ρ(E)dE. Então, a
probabilidade de transição somada sobre todos os estados finais com En ≃ Ei é

P (t) = |c1n (t)|2 (15.63)
n
15.6. P ERTURBAÇÃO C ONSTANTE 381

o que implica em

2
P (t) = dEn ρ(En ) c1n (t)
∫ [ ]
|Vni |2 2 (En − Ei )t
=4 sen ρ(En ) dEn . (15.64)
|En − Ei |2 2~
Porém
1 sen2 αx
lim = δ(x)
α→∞ π αx2
então [ ]
1 2 (En − Ei )t πt
lim sen = δ(En − Ei ) ,
t→∞ |En − Ei |2 2~ 2~
substituindo em (15.64), integrando com a função delta e limitando em t → ∞, temos a probabilidade de
transição assintótica,

πt
lim P (t) = 4 δ(En − Ei ) |Vni |2 ρ(En ) dEn
t→∞ 2~

= |Vni |2 ρ(Ei ) t . (15.65)
~
Logo, a taxa de transição por unidade de tempo, Γ ≡ dP
dt , será dada por
dP 2π
Γi→[n] == |Vni |2 ρ(Ei ) (15.66)
dt ~
independente do tempo t, provando que a correção de primeira ordem da teoria de perturbação dependente
do tempo é válida. Essa relação, que é a conhecida regra de ouro de Fermi, está fundamentada no formalismo
da teoria de perturbação dependente do tempo realizada por Dirac. 9 Aqui usamos i → [n], onde [n] é o
grupo de estados finais com energia similar à do estado inicial i, En ≈ Ei .
Em diversas aplicações da regra de ouro de Fermi o espectro de estados finais não perturbados é não só
denso, mas também fortemente degenerado. Então, podemos utilizar uma expressão alternativa

Γi→n = |Vni |2 δ(En − Ei ) (15.67)
~

onde essa relação teve que ser integrada com dEn ρ(En ).

Correção de Segunda Ordem Para calcular o termo de segunda ordem, c2n (t), usamos o potencial já
definido e a Eq. (15.57) será
( )2 ∑ ∫ t ∫ t′
−i ′ i ωnm t′ ′′
2
cn (t) = Vnm Vmi dt e dt′′ ei ωmi t
~ m 0 0
∫ ( )
i ∑ Vnm Vmi t
′ ′
= ei ωni t − ei ωnm t dt′ . (15.68)
~ m Em − Ei 0

Essa é uma função que oscila rapidamente quando ωmi ̸= ωnm . Assim, somente termos com En ≈ Ei
contribuem significativamente para a probabilidade de transição, e como resultado final temos
2
2π ∑ Vnm Vmi
Γi→[n] = Vni + ρ(Ei ) . (15.69)
~ m
Ei − Em

Os termos de primeira ordem correspondem as transições reais e temos a conservação de energia. Entre-
tanto, os termos de segunda ordem envolvem os chamadas transições virtuais |φi ⟩ → |φm ⟩ e |φm ⟩ → |φn ⟩
no qual temos a não conservação de energia.
9
P. A. M. Dirac, Proceedings of Royal Society - London, A114(767), 243-265 (1927); E. Fermi, Nuclear Physics, (1950). Essa
relação também é conhecida como regra de ouro de Fermi No 2 e encontramos na p. 142 de seu livro Nuclear Physics, (1950).
382 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

15.7 Perturbação Harmônica


Considerando o termo de perturbação como uma perturbação harmônica

V(t) = Vei ωt + V† e− i ωt .

A correção de primeira ordem é dada por



i t( ′ † − i ωt′
) ′
c1n (t) =− Vni ei ωt + Vni e ei ωni t dt′
~ 0
( )
1 1 − ei(ω+ωni )t 1 − ei(ωni +ω)t †
= Vni + Vni . (15.70)
~ ω + ωni ωni − ω

Isso é similar ao caso de uma perturbação constante com a substituição ωni → ωni ± ω. Em analogia com
a regra de ouro de Fermi, encontramos
( )
2π †
2
Γ= |Vni |2 ρ(En )|En =Ei −~ω + Vni ρ(En )|En =Ei +~ω (15.71)
~

ou ( )
2π 2 †
2
Γ= |Vni | δ(En − Ei + ~ω) + Vni δ(En − Ei − ~ω) . (15.72)
~
Note que qualquer perturbação periódica, ou perturbação harmônica, independentemente de sua natureza
física, tende a produzir transições entre os diversos estados atômicos, o caso de maior interesse para nós
ocorre quando a perturbação se deve a um campo eletromagnético externo. Neste caso ~ω é a energia de
um fóton de frequência ω, que será somada ou subtraída da energia atômica inicial para obter a energia
do estado final do átomo considerado. No primeiro caso, En = Ei + ~ω, o átomo ganha a energia ~ω,
i.e., absorve o fóton, fenômeno conhecido por absorção ressonante ou absorção induzida. No segundo
caso, temos En = Ei − ~ω, o átomo emite um fóton com energia ~ω, fenômeno conhecido por emissão
induzida. 10 A Fig. 15.4 mostra o esquema da absorção (a), e da emissão induzida (b), onde o estado final
está representado por |φf ⟩ e tendo energia Ef .

Figura 15.4 Transição |φi ⟩ → |φf ⟩: (a) absorção; (b) emissão induzida.

† 2 † ∗ ou o equivalente ⟨φ |V† |φ ⟩ = ⟨φ |V|φ ⟩∗ .


Note também que |Vni |2 = |Vin | devido Vni = Vin i n n i
Então, a taxa de emissão de um estado |φi ⟩ para outro estado |φn ⟩ é dada por

taxa emitida i → [n] taxa absorvida n → [i]


= (15.73)
densidade do estado final [n] densidade do estado final [i]

onde no caso da absorção, entendemos que i formam os estados finais. Essa última relação expressa a
simetria entre a emissão e a absorção de um fóton com energia ~ω.
10
Em inglês stimulated emission.
15.8. C AMPO C LÁSSICO DE R ADIAÇÃO 383

15.8 Campo Clássico de Radiação


Nesta seção aplicaremos a teoria de perturbação dependente do tempo para a interação de elétrons atô-
micos com campo clássico de radiação. Por campo clássico de radiação entendemos os campos elétrico e
magnético derivado de uma radiação clássica.

Absorção e Emissão Induzida ⃗ e o potencial escalar ϕ, a hamiltoniana básica,


Dado o potencial vetor A
com |A|
⃗ 2 omitido, é dada por
⃗p2 e ⃗
H= + eΦ(⃗r) − A ·⃗p (15.74)
2µ µc
na qual justificamos se
∇ ⃗ =0
⃗ ·A

trabalhando com campo de ondas planas monocromáticas


( )
⃗ = 2A0 ε̂ cos ω n̂ ·⃗r − ωt
A (15.75)
c
onde ε̂ e n̂ são a polarização e a direção de propagação da onda, respectivamente. Essa equação obviamente
satisfaz a condição ∇ ⃗ ·A⃗ = 0 pelo fato da polarização ε̂ ser perpendicular a direção de propagação n̂.
Ainda podemos escrever a relação (15.75) como
[ ]
A⃗ = A0 ε̂ ei ωc n̂ ·⃗r − i ωt + e− i ωc n̂ ·⃗r + i ωt . (15.76)

Comparando com a relação


V(t) = Vei ωt + V† e− i ωt
e ⃗
e escrevendo a componente µc A ·⃗
p da hamiltoniana (15.74) como um potencial dependente do tempo
e ⃗ e [ ω ]
A0 ε̂ ·⃗p ei c n̂ ·⃗r − i ωt + e− i c n̂ ·⃗r + i ωt
ω
A ·⃗p = (15.77)
µc µc

vemos que o termo e− i ωt que aparece na relação acima é responsável pela absorção, enquanto o termo
e+ i ωt é responsável pela emissão induzida.
Usando a relação (15.75) podemos obter os campos elétrico e magnético, como
⃗ ( )
⃗E = − 1 ∂ A = −2A0 ω ε̂ sen ω n̂ ·⃗r − ωt (15.78a)
c ∂t c c

( )
⃗B = ∇ ⃗ = −2A0 ω (ε̂ × n̂) sen ω n̂ ·⃗r − ωt
⃗ ×A (15.78b)
c c
A densidade média de energia, média sobre o período, usando esses campos é dada por

1 (⃗ 2 ⃗ 2 ) t A20 ω 2 ( 2 ) (ω )t
U= E +B = ε̂ + (ε̂ × n̂)2
sen2 n̂ r
·⃗ − ωt .
8π 2π c2 c
( )t
Como ε̂2 = 1, (ε̂ × n̂)2 = 1 e sen2 ωc n̂ ·⃗r − ωt = 12 temos

A20 ω 2
U= . (15.79)
2π c2
Para estar em condições de tratar simplesmente os estados de partículas livres, vamos supor que o
sistema quântico está preso em uma caixa cúbica de lado L. Sendo assim, seu volume V = L3 , e a energia
total do campo eletromagnético contido nessa caixa será

A20 V ω 2
Eem = V U = (15.80)
2π c2
384 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

já que U é homogêneo. Por outro lado, como toda essa energia eletromagnética contêm uma única frequência
ω, podemos caracterizá-la mediante uma densidade espectral. Recorrendo a fórmula de Planck,

π 2 c3
Eem = ρ(ω) ,
ω2
que nos fornece a relação entre a energia média dos osciladores do campo eletromagnético e a densidade
espectral ρ(ω)
ω2
ρ(ω) = 2 3 Eem . (15.81)
2π c
Note que nessa relação, a fórmula de Planck está dividida por 2, pois levamos em consideração os dois
possíveis estados de polarização. Assim, substituindo a Eq. (15.80) em (15.81) temos

V ω4 2
ρ(ω) = A . (15.82)
4π 3 c5 0
Na literatura, é frequente associarmos a energia Eem com um número médio N de fótons com frequência
ω. Para tal, usaremos a relação Eem = N ~ω. Assim, obtemos

2π~c2 N
A20 = (15.83)

e
~ω 3
ρ(ω) = N. (15.84)
2π 2 c3
Logo, podemos escrever o campo, segundo nos convêm, em termos da amplitude A0 ou da densidade
espectral ρ(ω). É importante distinguir claramente a densidade espectral ρ(ω) e a densidade de estados
finais ρ(En ). Por último, voltamos a expressar o campo na forma
[ ]
⃗ = A0 ε̂ ei ωc n̂ ·⃗r − i ωt + e− i ωc n̂ ·⃗r + i ωt .
A

Agora faremos, detalhadamente, o caso de emissão induzida. Para tal, a contribuição da componente da
perturbação da hamiltoniana, (15.77), que nos interessa será
e ⃗ e
A ·⃗p = − A0 ε̂ ·⃗p e− i c n̂ ·⃗r + i ωt
ω
V(t) = − (15.85)
µc µc
onde
e
A0 e− i c n̂ ·⃗r ε̂ ·⃗p .
ω
V=− (15.86)
µc
A probabilidade de transição por unidade de tempo será então

Γi→[n] = |⟨φn |V|φi ⟩|2 ρ(En )
~
2π e2 2
|A0 |2 ⟨φn |e− i c n̂ ·⃗r ε̂ ·⃗p|φi ⟩ ρ(En ) .
ω
= (15.87)
~ µ c
2 2

Agora iremos determinar a densidade de estados finais ρ(En ). Nosso sistema emite um fóton, então
haverá fótons livres no estado final, o que podemos aplicar diretamente

V V p2
d3 n = 3
d3 p = dp dΩp (15.88)
(2π~) (2π~)3
que representa o número de fótons livres no estado final, normalizado dentro de uma caixa de volume V .
Reescrevendo a expressão acima na forma

V p2 dp
d3 n = dΩp dE . (15.89)
(2π~)3 dE
15.8. C AMPO C LÁSSICO DE R ADIAÇÃO 385

A densidade de estados finais dentro do ângulo sólido dΩp será

d3 n V p2 dp
dρ(E) = = dΩp . (15.90)
dE (2π~)3 dE

Em nosso problema, como já mencionamos, a partícula livre final é um fóton, para qual
( )
dp d Ec 1
= = .
dE dE c

Logo, se p = c , temos
V ω2
dΩp .
dρ(E) = (15.91)
8π 3 ~c3
Finalmente, substituindo esse resultado na Eq. (15.87) e usando (15.82), obtemos

πe2 ρ(ω) − i ωc n̂ ·⃗r


2
dΓi→[n] = ⟨φn |e ε̂ p
·⃗ |φ i ⟩ dΩp . (15.92)
µ2 ~2 ω 2
Para o caso de absorção, a taxa de transição será dada por
2π 2
Γi→[n] = ⟨φn |V† |φi ⟩ ρ(En )
~
2π e2 2
|A0 |2 ⟨φn |ei c n̂ ·⃗r ε̂ ·⃗p|φi ⟩ ρ(En ) ,
ω
= (15.93)
~ µ c
2 2

e o fluxo de energia do campo de radiação será

A20 ω 2
cU = . (15.94)
2π c
Assim, poderemos definir a seção de choque de absorção como
(Energia/unidade de tempo)Γi→[n]
(15.95)
Fluxo de energia do campo radiante
Portanto, colocando todas as componentes, e lembrando que a energia absorvida pelo átomo para cada
processo de absorção é ~ω, temos

~ω 2π
2 ω
·⃗r ε̂ ·⃗p|φ ⟩ 2 ρ(E )
~ µ2 c2 |A0 |
e 2 ⟨φ |ei c

n i n
σabs = A20 ω 2
2π c
( )
4π 2 ~ e2 ω
·⃗r ε̂ ·⃗p|φ ⟩ 2 ρ(E ) .
= 2 ⟨φn |ei c

i n (15.96)
µ ω ~c
e2 1
Note que α = ~c = 137 é a constante de estrutura fina.

Aproximação Dipolo Elétrico A aproximação dipolo elétrico, ou aproximação E1 está baseada no fato
de que o comprimento de onda do campo de radiação ser bem maior que a dimensão atômica. 11 Lembrando
que ωc = λ1 e o valor característico da dimensão atômica, de átomos leves, é da ordem de a ∼ 10−8 cm;
com radiação na região do visível (que é perfeitamente válida), λ ∼ 10−5 cm, isso quer dizer que ωc a ∼
10−3 ≪ 1. Então, na aproximação dipolar, podemos usar e− i c n̂ ·⃗r ≈ 1. Assim, a Eq. (15.92) irá ter a
ω

forma
πe2 ρ(ω)
dΓi→[n] = 2 2 2 |⟨φn |ε̂ ·⃗p|φi ⟩|2 dΩp . (15.97)
µ ~ ω
11
W. E. Lamb, R. R. Schlicher and M. O. Scully, Physical Review, A36, 2763 (1987).
386 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

Note que essa relação vale tanto para absorção como para emissão. Usando, somente a componente x
i ~px
[x, H0 ] =
µ
temos
µ
⟨φn |px |φi ⟩ = ⟨φn |[x, H0 ]|φi ⟩
i~
= i µωni ⟨φn |x|φi ⟩

generalizando
⟨φn |ε̂ ·⃗p|φi ⟩ = i µωni ⟨φn |ε̂ ·⃗r|φi ⟩ (15.98)
com o que podemos escrever

πe2
dΓi→[n] = ρ(ω) |⟨φn |ε̂ ·⃗r|φi ⟩|2 dΩp . (15.99)
~2
Nos limitaremos ao estudo de fótons emitidos com qualquer polarização, no qual devemos usar a média
sobre todas as possibilidades de ε̂, tendo pesos iguais. A média sobre todos os estados polarizados de
|⟨φn |ε̂ ·⃗r|φi ⟩|2 poderá ser escrita como

εi εj ⟨φn |xi |φi ⟩⟨φi |xj |φn ⟩
ij

considerando que para o caso não polarizado as duas direções de polarização ε̂1 e ε̂2 são igualmente prová-
veis. Como para um sistema com simetria central, todas as direções n̂ de emissão são igualmente prováveis,
resulta

εx = εy = εz = 0 (15.100a)

1 1
ε2x = ε2y = ε2z = ε2 = . (15.100b)
3 3
Por outro lado, cada evento de emissão ou absorção é independente de outros processos similares, pelo fato
de que εi e εj não têm correlações se se referem à direções diferentes. Assim,
1
εi εj = δij . (15.101)
3
Dessa forma obtemos
∑ 1∑
εi εj ⟨φn |xi |φi ⟩⟨φi |xj |φn ⟩ = ⟨φn |xi |φi ⟩⟨φi |xi |φn ⟩
3
ij i
1
= |⟨φn |⃗r|φi ⟩|2 .
3
Ao substituir esse resultado na Eq. (15.99) encontramos

πe2
dΓi→[n] = ρ(ω) |⟨φn |⃗r|φi ⟩|2 dΩp . (15.102)
3~2
Supondo a radiação isotrópica, podemos realizar de maneira imediata a integração angular, o que encon-
tramos para probabilidade de transição dipolar por unidade de tempo, de um átomo do estado |φn ⟩ para
o estado |φi ⟩, com emissão de um fóton com frequência ω = ωni em qualquer direção e com qualquer
polarização,
4π 2 e2
Γi→[n] = ρ(ω) |⟨φn |⃗r|φi ⟩|2 . (15.103)
3~2
15.8. C AMPO C LÁSSICO DE R ADIAÇÃO 387

Com a ajuda da Eq. (15.84) podemos escrever a Eq. (15.103) para a probabilidade de absorção ressonante
de fótons na seguinte forma
4e2 ω
Γabs
i→[n] = N |⟨φn |⃗r|φi ⟩|2 (15.104)
3~c3
onde N representa o número médio de fótons presentes.
Ainda podemos calcular a seção de choque de absorção para a aproximação de dipolo elétrico. Usando
a relação da seção de choque, (15.96) com

⟨φn |ei
ω
c
n̂ ·⃗r ε̂ ·⃗p|φ ⟩ → ⟨φ |ε̂ ·⃗p|φ ⟩
i n i

e
⟨φn |⃗p|φi ⟩ = i µωni ⟨φn |⃗r|φi ⟩
temos
σabs = 4π 2 α ωni |⟨φn |ε̂ ·⃗r|φi ⟩|2 δ(ω − ωni ) . (15.105)
Em outras palavras, σabs aparece como uma função de ω e exibe na função δ um pico correspondente
ao espaçamento do nível de energia em ω ≃ En −E ~
i
. Supondo |φi ⟩ como estado fundamental, então a
frequência ωni é necessariamente positiva. Integrando (15.105), temos
∫ ∑
σabs (ω) dω = 4π 2 α ωni |⟨φn |ε̂ ·⃗r|φi ⟩|2 . (15.106)
n

Em física atômica, definimos o peso estatístico do oscilador, 12 fni , como


2µωni
fni = |⟨φn |ε̂ ·⃗r|φi ⟩|2 (15.107)
~
e considerando a regra de soma de Thomas–Reiche–Kuhn, 13
∑ ∑ 2µωni
fni = |⟨φn |ε̂ ·⃗r|φi ⟩|2 = 1 (15.108)
n n
~

a relação (15.106) será ∫ ( )


4π 2 α~ e2
σabs (ω) dω = = 2π 2 c (15.109)
2µ µc2
e 2
onde r0 = µc 2 é o raio clássico do elétron. Essa relação é independente da direção de polarização.
Para átomos com Z elétrons, a regra de soma de Thomas–Reiche–Kuhn será
∑ ∑ 2µωni
fni = |⟨φn |ε̂ ·⃗r|φi ⟩|2 = Z (15.110)
n n
~

e para seção de choque temos


∫ ( )
4π 2 α~ e2
σabs (ω) dω = = 2π 2 cZ (15.111)
2µ µc2
mostrando que todos as possíveis transições de dipolo elétrico do átomo estão incluídas. Essa última relação
é idêntica com o resultado clássico. 14
12
Em inglês, oscillator strength.
13
Willy Thomas, era um estudante de Fritz Reiche in Breslau quando faleceu ainda jovem de tuberculose. Ver p. 14 da tradução
para o inglês da terceira seção da entrevista AHPQ com Reiche.
Fritz Reiche (1883–1969), físico alemão.
Werner Kuhn (1899–1963), físico-químico suíço.
W. Thomas, Naturwissenschaften, 13, 627 (1925); W. Kuhn, Zeits. für Physik, 33, 408–412 (1925); F. Reiche and W. Tho-
mas, Zeits. für Physik, 34, 510–525 (1925).
14
J. D. Jackson, Classical electrodynamics, (1998).
388 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

Efeito Fotoelétrico No efeito fotoelétrico a absorção da luz por um átomo acarreta na emissão de um
elétron, tendo como processo básico considerado, a transição de um estado atômico para um estado contínuo
E > 0. Então, |φi ⟩ é o ket do estado atômico, enquanto |φn ⟩ é o ket do contínuo, na qual podemos usar
como um estado de onda plana |φ⃗k ⟩, uma aproximação que é válida se o elétron final não for tão lento.
f
Nosso objetivo é calcular o número de estados finais por unidade de intervalo de energia. Para contar o
número de estados finais, é conveniente usar uma caixa cúbica normalizada para estados de ondas planas.
Com isso, a função de onda plana será então
1 ⃗
⟨⃗r|φ⃗k ⟩ = 3 ei kf ·⃗r (15.112)
f
L 2

onde os valores permitidos de kx serão


2πnx
,···kx = (15.113)
L
com nx sendo um inteiro positivo ou negativo. Similarmente temos os valores permitidos de ky e kz . Note
que quando L → ∞, kx , ky e kz se tornam variáveis contínuas.
A contagem do número de estados é portanto uma contagem do números de pontos em um espaço de
rede em três dimensões. Definindo n como

n2 = n2x + n2y + n2z . (15.114)

Como L → ∞, podemos tratar n como uma variável contínua. Vamos considerar um elemento de volume
pequeno, tal que o vetor radial desaparece entre n e n + dn, e o elemento de ângulo sólido dΩ; está claro
que seu volume é n2 dndΩ. A energia da onda plana do estado final será

~2 kf2 ~2 n2 (2π)2
E= = . (15.115)
2µ 2µ L2

Temos ainda, a direção do vetor radial no espaço de rede é justamente a direção do estado final, então o
número de estados no intervalo entre E e E + dE com a direção dentro de um ângulo sólido dΩ é dado
por 15
(
)3 ( )
n dΩ2dn
dE = ⃗k2 dkf dΩdE
L
f
dE 2π dE
( )3
L µ
= kf dΩdE . (15.116)
2π ~2

Usando todas essas informações, podemos obter uma expressão da seção de choque diferencial para o efeito
fotoelétrico:
dσ 4π 2 α~ 2 µkf L3
i ωc n̂ ·⃗r
= ⟨φ⃗kf |e ε̂ p
·⃗ |φ i ⟩ . (15.117)
dΩ µ2 ω ~2 (2π)3
Se o elétron está inicialmente na camada-K, i.e., a camada mais interna, e emissão desse elétron é
possível de cálculo, a função de onda inicial será então
( )3
1 Z 2
− Zr
⟨⃗r|φi ⟩ = √ e a
0 (15.118)
π a0

onde a0 é o raio de Bohr. Então



⟨φ⃗k |ei
ω
c
n̂ ·⃗r ε̂ ·⃗p|φ ⟩ = C ⃗
d3 r e− i kf ·⃗r ei
ω
c
n̂ ·⃗r ε̂ · ~ ∇e
⃗ − a0
Zr
(15.119)
i
f i
15 ~2 kf d3 xd3 p
Lembre-se que dE = µ
dkf , e esse número de estados é equivalente a pegarmos um estado por cubo (2π~)3
no espaço de
fase.
15.9. V IDA M ÉDIA DOS E STADOS E XCITADOS 389

( )3
2
onde a constante C = 13 √1π aZ0 que aparece antes da integral, foi definida apenas para simplificação.
L2
Lembrando da propriedade hermitiana do operador momentum, e a característica transversal das ondas de
luz, ε̂ · n̂ = 0, podemos escrever a integral como
∫ ∫ { }
⃗ ~ ⃗ − Zr ~ ⃗ [ i(⃗kf − ω n̂) ·⃗r ] ∗ − Zr
d3 r e− i kf ·⃗r ei c n̂ ·⃗r ε̂ · ∇e
ω
a0 = ε̂ · ∇ e c e a0 d3 r
i i

⃗ i(⃗k − ω n̂) ·⃗r− Zr
= ~ε̂ · kf e f c a0 d3 r

( )−2
8πZ~ Z2
= ε̂ · ⃗kf 2 + q2 (15.120)
a0 a0

onde ⃗q é o momentum transferido em unidades de ~, i.e.,


ω
⃗q = ⃗kf − n̂ . (15.121)
c
Assim, finalmente a seção de choque diferencial para o efeito fotoelétrico é dada por
( )−4
dσ 32e2 kf (ε̂ · ⃗kf )2 Z 5 Z 2 2
= +q . (15.122)
dΩ µcω a50 a20

Se introduzimos o sistema de coordenadas como mostra a Fig. 15.5, podemos escrever a seção de choque

Figura 15.5 Sistema de coordenada polar.

diferencial em função de θ e ϕ usando

(ε̂ · ⃗kf )2 = kf2 sen2 θ cos2 ϕ


ω ( ω )2
q 2 = kf2 − 2kf cos θ + . (15.123)
c c
Esse resultado tem uma concordância muito boa com as observações experimentais. 16

15.9 Vida Média dos Estados Excitados


Como tivemos oportunidade de comprovar, um sistema atômico pode interagir com um campo eletromag-
nético e com isso temos estados excitados, i.e., não estáveis. Esses estados excitados decaem em estados
16
W. E. Lamb and M. O. Scully, artigo no livro Polarisation, matière et rayounement, PUF, Paris (1969); W. E. Lamb, Applied
Physics, B60, 77 (1995).
390 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

fundamentais emitindo a energia excedente em forma de radiação eletromagnética. Esse fenômeno se chama
decaimento espontâneo.
Iniciaremos a discussão desta seção através da elegante dedução da distribuição de Planck proposta por
Einstein como argumento adicional a favor de sua teoria fotônica do campo de radiação e que representa
uma excelente introdução intuitiva ao tema, pois se trata de um estudo estatístico do equilíbrio entre matéria
e radiação.
Na mesma época, 1917, em que Bohr estava trabalhando em seu longo e elaborado trabalho sobre os es-
pectros atômicos, Einstein apresenta um trabalho em que a fórmula de Planck para a densidade espectral da
radiação de corpo negro é obtida a partir dos princípios de Bohr e de resultados gerais de mecânica estatís-
tica. Um dos aspectos mais importantes desse trabalho é que nele intervêm explicitamente as probabilidades
de transição referidas por Bohr. Combinando hipóteses muito gerais sobre elas com condições naturais so-
bre o limite de altas temperaturas, Einstein obtêm, em particular, relações gerais entre essas probabilidades
e as frequências de Bohr associadas à transição.
As hipóteses utilizadas por Einstein foram as seguintes:

1. A cavidade que constitui o corpo negro é formada de objetos quânticos (“moléculas”), que podem existir,
no sentido proposto por Bohr, em estados estacionários caracterizados por certos valores discretos En
de energia;

2. A uma dada temperatura T , a probabilidade de que uma das moléculas esteja num estado estacionário
de energia En é proporcional ao fator de Boltzmann
En
Wn = pn e− kT

em que a constante pn é um peso estatístico característico do estado estacionário;

3. Ocorrem transições espontâneas entre estados estacionários de energia Em e En (< Em ) com a emissão
de radiação eletromagnética. A probabilidade de ocorrência dessas transições depende apenas dos dois
estados estacionários envolvidos nela, sendo escrita como

dWex = Am
n dt

onde a notação foi escolhida de forma que o índice superior corresponde ao estado inicial e o índice
inferior ao estado final da transição;

4. As moléculas podem absorver radiação presente no meio efetuando também transições entre estados
estacionários. Sendo ρ(ν) a densidade espectral da radiação, a probabilidade de absorção associada a
uma transição entre os estados En e Em tem a forma
n
dWabs = Bm ρ(νmn )dt
n dependem apenas dos estados envolvidos na transição;
onde os coeficientes Bm

5. A presença, no meio, de radiação com densidade espectral ρ da lugar também a emissão induzida de
radiação entre níveis Em e En com probabilidade

dWemi = Bnm ρ(νmn )dt

onde os coeficientes Bnm também dependem apenas dos estados envolvidos na transição.

Enquanto as hipóteses (4.) e (5.) têm analogia com cálculos diretos puramente clássico, a emissão es-
pontânea de radiação introduzida na hipótese (3.) é um fenômeno da natureza essencialmente quântico.
Embora os vários ingredientes envolvidos nessas hipóteses dependam da natureza detalhada da dinâmica
das moléculas e de sua interação com a radiação, a densidade espectral de equilíbrio deve ser independente
15.9. V IDA M ÉDIA DOS E STADOS E XCITADOS 391

disso. De fato, a condição de equilíbrio das moléculas com a radiação, i.e., a igualdade das taxas totais de
emissão e de absorção de radiação de frequência νmn , é expressa por

Wn dWabs = Wm [dWex + dWemi ]

ou
n
Wn Bm ρ(νmn ) = Wm [Bnm ρ(νmn ) + Am
n ]. (15.124)
Por outro lado, no limite de altas temperaturas, T → ∞, Wn → pn e também, pela lei de Wien, ρ → ∞, de
onde se obtêm a relação
n
pn Bm = pm Bnm .
Usando essa relação e resolvendo a condição de equilíbrio para ρ(νmn ) resulta
Am
n
m
Bn
ρ(νmn ) = Em −En .
e kT −1
Desde que Em − En = hνmn , o que constitui uma dedução da relação de Bohr entre energias e frequência,
Am 3 , onde este último resultado é um bonus extremamente importante da dedução, pois ele
e B m = ανmn
n
n
relaciona a probabilidade, essencialmente quântica, de emissão espontânea com a probabilidade de emissão
induzida, que possui um análogo clássico direto. Incorporando a forma explícita da constante α, ela aparece
como
Amn 8πh 3 Am
n ~ω 3
= ν ou =
Bnm c3 mn Bnm π 2 c3
onde o caráter essencialmente quântico da emissão espontânea é indicado explicitamente pela presença da
constante de Planck h ou ~ que reproduz a expressão de Planck na forma

8πhνmn3 1
ρ(νmn ) = 3 hνmn . (15.125)
c e kT − 1
Uma crítica tão interessante quanto importante a esse trabalho de Einstein, bem como a correspondente
reformulação do ponto criticado, foi feita por Bose 17 e a ele encaminhada em 1924. Nesse trabalho Bose
critica a utilização da lei de Wien, um resultado clássico, na re-dedução feita por Einstein da fórmula de
Planck, e substitui o seu uso por um tratamento dentro dos cânones da mecânica estatística dos quanta de
luz introduzidos também por Einstein no seu tratamento do efeito fotoelétrico. 18 Em Nota do Tradutor,
acrescentada ao trabalho de Bose, Einstein enfatiza a importância desse desenvolvimento, que pode ser
estendido de forma a dar uma teoria quântica dos gases ideais, como promete fazer, e faz, efetivamente
num trabalho futuro. 19 É na extensão escrita por Einstein do trabalho de Bose que aparece pela primeira
vez o resultado conhecido como condensação de Bose-Einstein de um gás ideal a temperatura muito baixa.
Esse fenômeno, frequentemente citado hoje como um exemplo notável de comportamento quântico à escala
macroscópica, foi portanto identificado antes das primeiras formulações consistentes da mecânica quântica
por Heisenberg e Schrödinger.
A expressão
~ω 3 m
Amn = 2 3 Bn (15.126)
π c
nos diz que a probabilidade por unidade de tempo Am n de que o sistema emita espontaneamente é diferente
de zero se a probabilidade da correspondente transição induzida Bnm também o for. Esse resultado comprova
que os estados excitados de um sistema atômico são instáveis, i.e., decaem espontaneamente. Os termos Am n
e Bnm são os chamados coeficientes de Einstein.
Se substituirmos (15.126) em (15.124), vemos que o coeficiente numérico π~ω
3
m m
2 ce entre An e Bn desem-
penha o papel de uma densidade espectral atérmica, i.e., para T = 0. Se interpretarmos essa quantidade
17
Satyendra Nash Bose (1894–1974), físico hindu.
18
S. N. Bose, Zeitschrift für Physik, 26, 178 (1924).
19
A. Einstein, Sitzungsberichte der Preussischen Akademie der Wissenschaften, 1, 3 (1925).
392 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

como a densidade espectral de um campo flutuante residual que corresponde ao vazio eletromagnético, i.e.,
quando não há campos externos, a formula (15.124) diria simplesmente que há transições com emissão de
energia induzidas tanto pelo campo externo, de densidade espectral ρ(ω, T ), como pelo campo residual, de
densidade espectral π~ω
3
2 c3 .
Assim, considerando o átomo
∑ pela perspectiva clássica, a energia média radiada por unidade de tempo
por seu dipolo elétrico e⃗r = i e⃗ri está dada pela fórmula de Larmor 20

⟨( )2 ⟩
dErad 2e2 d2⃗r
= 3 (15.127)
dt 3c dt2

onde temos a média temporal. Procuremos dar forma quântica a esse expressão. Em primeiro lugar, desde
que os átomos do ensemble estão fazendo transições entre os estados |φm ⟩ e |φn ⟩, devemos entender a
componente ẍ do vetor como o elemento de matriz, ⟨φm |ẍ|φn ⟩. Seguindo o procedimento, a função de
onda é uma superposição de ambos estados ψ = cn φn + cm φn , com |cn |2 + |cm |2 = 1 e ẍ deve ser tal que

⟨ψ|ẍ|ψ⟩ = dx (c∗n φ∗n + c∗m φ∗n ) ẍ (cn φn + cm φn )

= |cn |2 ⟨φn |ẍ|φn ⟩ + |cm |2 ⟨φm |ẍ|φm ⟩ + c∗n cm ⟨φn |ẍ|φm ⟩ + cn c∗m ⟨φm |ẍ|φn ⟩ .

Como veremos adiante ( )2


En − Em
⟨φn |ẍ|φm ⟩ = − ⟨φn |x|φm ⟩ .
~
Por outro lado, os estados atômicos têm paridade bem definida, par ou ímpar, no que o integrando em
∫ ∞
⟨φn |x|φn ⟩ = φ∗n xφn dx
−∞

é ímpar e a integral se anula; o mesmo acontece para ⟨φm |x|φm ⟩. Assim, o valor esperado de ẍ se reduz a

⟨ψ|ẍ|ψ⟩ = 2ℜ[c∗n cm ] ⟨φn |ẍ|φm ⟩ .

Isso nos permite escrever


|⟨ψ|ẍ|ψ⟩|2 = c20 |⟨φn |ẍ|φm ⟩|2
onde c20 é uma constante real da ordem da unidade. Ao substituir na relação (15.127), obtemos
⟨ ⟩2
2e2 d2⃗r
dErad = 3 c20 φn φm dt .
3c dt2

A média temporal é suprimida, pois o elemento de matriz é independente do tempo. Por outro lado, a
energia média radiada no tempo dt pode ser escrita como a energia radiada em cada transição, que é ~ω,
multiplicada pelo número médio das transições que ocorrem no tempo dt, que é Am
n dt. Logo,

dE = ~ω Am
n dt .

O cálculo completo realizado com os métodos da eletrodinâmica quântica mostra que essa expressão está
basicamente correta, e que devemos fazer c20 = 2. Em outras palavras, a expressão correta para Amn será
então ⟨ ⟩2
m 4e2 d2⃗r
An = φn φm (15.128)
3~ωc3 dt2
onde
En − Em
ω ≡ ωnm = (15.129)
~
20
J. Larmor, Philosophical Magazine, 512 (1897).
15.9. V IDA M ÉDIA DOS E STADOS E XCITADOS 393

é a frequência de transição. Observa-se que somente as componentes do campo cuja frequência coincide
com alguma das frequências ωnm de Bohr produzem transições.21
2
Finalmente para calcular o elemento de matriz de ddt⃗2r , recorremos as equações de movimento na forma

d
i~ ⟨φm |F|φn ⟩ = ⟨φm |[F, H]|φn ⟩
dt
Se |φn ⟩ e |φm ⟩ são autoestados da hamiltoniana, temos que
d
i ~µ ⟨φm |ẋ|φn ⟩ = µ⟨φm |[ẋ, H]|φn ⟩ = ⟨φm |[p, H]|φn ⟩
dt
= ⟨φm |pH − Hp|φn ⟩ = (En − Em )⟨φm |p|φn ⟩

e mediante (15.129)
µ⟨φm |ẍ|φn ⟩ = i ωmn ⟨φm |p|φn ⟩ . (15.130)
Assim mesmo
d
i ~⟨φm |p|φn ⟩ = i ~µ ⟨φm |x|φn ⟩ = µ⟨φm |[x, H]|φn ⟩
dt
= µ⟨φm |xH − Hx|φn ⟩ = µ(En − Em )⟨φm |x|φn ⟩

ou seja
⟨φm |p|φn ⟩ = i µωmn ⟨φm |x|φn ⟩ . (15.131)
Ao substituir esse resultado no anterior, obtemos

⟨φm |ẍ|φn ⟩ = −ω 2 ⟨φm |x|φn ⟩ . (15.132)

Usando essa última relação em (15.128), temos a seguinte fórmula para o coeficiente A de Einstein de um
átomo com momento de dipolo elétrico ⃗d = e⃗r: 22

4ω 3 2
Am
n = ⟨φm |⃗d|φn ⟩ . (15.133)
3~c3
Vimos que as probabilidades de transição Am m n
n , e em consequência Bn = Bm , são expressos em temos dos
elementos de matriz xnm = ⟨φm |⃗r|φn ⟩.
Como Am n é a probabilidade de transição por unidade de tempo, sua inversa representa o tempo médio
necessário para ocorrer tal transição, i.e., a vida média do estado excitado n:
−1
Tn→m = (Am
n) . (15.134)

Vimos que existem transições dipolo elétrica espontânea entre estados para os quais o elemento de matriz
do momento dipolo elétrico ⃗d é diferente de zero; se esse elemento de matriz se anula, a correspondente
transição não se realiza, ainda que possam ocorrer transições a frequência dada associada à outros momentos
elétricos ou magnéticos do átomo. Estamos falando de transições dipolo, quadrupolo elétrica ou magnética,
permitidas ou proibidas, de acordo com o caso. Em geral, as transições permitidas tendem ser mais prováveis
conforme menor é sua ordem, o que significa que as linhas de emissão dipolar são mais intensas que as
linhas de emissão quadrupolar. O estudo detalhado de todos os coeficientes A de Einstein permite prever
a estrutura e características do espectro de emissão do correspondente sistema quântico. As regras que
determinam quando o coeficiente Am n é diferente de zero em uma aproximação dada, recebem o nome de
regra de seleção; a fórmula (15.133) nos permite determinar as regras de seleção na aproximação dipolo
elétrica.
21
Se c20 = 1, que era o esperado, explicaríamos só a medade do coeficiente A de Einstein, i.e., a metade dos decaimentos
espontâneos observados se explicam pelo efeito Larmor. A outra metade tem como origem as flutuações adquiridas pelo elétron
ao estar imerso no campo flutuante de vacuum gerado pela quantização do campo de radiação. Assim, ambas contribuições
existem e devem ser tomadas como iguais na eletrodinâmica quântica, ver Milonni, The quantum vacuum, (1994).

22
Se o átomo possui várias cargas que radiam incoerentemente, devemos supor ⃗d = i ei⃗ri .
394 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

Aproximação Dipolo Elétrica Quando discutimos a aproximação dipolo elétrica chegamos ao seguinte
resultado para absorção, ver Eq. (15.103), que reescrevemos aqui

4π 2 e2
Γi→n = ρ(ω) |⟨φn |⃗r|φi ⟩|2 . (15.135)
3~2
Podemos escrever essa quantidade em termos dos coeficientes Bin de Einstein. A Eq. (15.124), traduzindo
na linguagem usada quando estudamos a aproximação dipolo elétrica, é

Γi→n = Bin ρ(ω) . (15.136)

Ao igualar as duas expressões, obtemos os coeficientes B de Einstein como

4π 2 e2
Bin = Bni = |⟨φn |⃗r|φi ⟩|2 (15.137)
3~2
e coeficiente A de Einstein será agora

~ω 3 n 4e2 ω 3
Ani = B = |⟨φn |⃗r|φi ⟩|2 . (15.138)
π 2 c3 i 3~2 c3
Esse resultado coincide com o discutido previamente. A igualdade dos coeficientes Bin = Bni de Einstein
não afeta o resultado, pois temos Γi→n = Γn→i como resultado buscado.

15.10 Aproximação Adiabática


A teoria de perturbação dependente do tempo está baseada numa pequena grandeza na parte da hamiltoniana
dependente do tempo. Na aproximação adiabática assumimos que a dependência temporal de H é muito
lenta, i.e., a troca temporal é bem mais lenta quando comparada com o tempo próprio do movimento do
sistema. 23
Supondo que a hamiltoniana H(R ⃗ (t). Assim, temos
⃗ (t)) dependa do tempo através de um parâmetro R
o estado envolvido escrevendo a equação de Schrödinger
d|ψ (t)⟩
i~ ⃗ (t))|ψ (t)⟩ .
= H(R (15.139)
dt
Mas a hamiltoniana dependente do tempo tem instantaneamente autokets |φn (⃗r)⟩, que satisfaz
⃗ |φn (R)
H(R) ⃗ ⟩.
⃗ |φn (R)
⃗ ⟩ = En (R) (15.140)

É intuitivamente plausível que se R ⃗ (t) varia suficientemente lento e o sistema inicial é preparado no estado
⃗ (0))⟩, então o estado vetor dependente do tempo será |φn (R
inicial |φn (R ⃗ (t))⟩, distante de um fator de fase.
Assim, para essa intuição, usamos os autokets instantâneos de (15.140) como base para representação
geral de (15.139), ∑
|ψ (t)⟩ = ⃗ (t))⟩ .
cn (t) ei α(t) |φn (R (15.141)
n
Aqui, a conhecida fase dinâmica é dada por
∫ t
1 ⃗ (t′ )) dt′ .
αn (t) = − En (R (15.142)
~ 0

Substituindo (15.141) em (15.139) obtemos


∑ ∑
ċn ei αn |φn ⟩ + cn ei αn |φ̇n ⟩ = 0 . (15.143)
n n
23
Para invariantes adiabáticos em sistema periódico clássico e para a hipótese adiabática de Ehrenfest, ver Tomonaga, Quantum
mechanics, (1962).
15.10. A PROXIMAÇÃO A DIABÁTICA 395

Note que por simplicidade não estamos usando a dependência temporal implícita nas quantidades da equa-
ção acima, o ponto em cima da variável significa a derivada temporal. Fazendo o produto interno de (15.143)
⃗ (t))|, temos
por outro autoket instantâneo ⟨φm | = ⟨φm (R

ċm = − cn ei(αn −αm ) ⟨φm |φ̇n ⟩ . (15.144)
n

Agora derivamos no tempo a equação de autovalores (15.140)

Ḣ|φn ⟩ + H|φ̇n ⟩ = Ėn |φn ⟩ + En |φ̇n ⟩ , (15.145)

O produto interno com ⟨φm | será

⟨φm |φ̇n ⟩(En − Em ) = ⟨φm |Ḣ|φn ⟩ (m ̸= n) (15.146)

na qual substituímos em (15.144) para obtermos

∑ ⟨φm |Ḣ|φn ⟩
ċm = cn ei(αn −αm ) (m ̸= n) . (15.147)
n
Em − En

⃗ (0))⟩, tal que cn (0) = 1 e cm (0) = 0 para m ̸= n. Então,


Escolhendo o estado inicial, |ψ (0)⟩ = |φn (R
para m ̸= n temos, aproximadamente,

⟨φm |Ḣ|φn ⟩
ċm ≈ ei(αn −αm ) , (15.148)
Em − En

que poderá ser integrado para obter cm (t). Para estimar a grandeza da probabilidade de excitação |cm (t)|2 ,
assumimos que a dependência temporal de ⟨φm |Ḣ|φn ⟩ e Em − En são muito lentas. Então, a mais im-
portante contribuição na dependência temporal estará na exponencial, que poderá ser aproximada por
ei(αn −αm ) ≈ e ~ (Em −En ) . Desprezando outras contribuições temporais lentas temos
i

⟨φm |Ḣ|φn ⟩ ( i (Em −En ) )


cm ≈ − i ~ e ~ − 1 (15.149)
(Em − En )2

na qual a variação temporal provocada pela hamiltoniana H(R⃗ (t)) é muito lenta quando comparada a
frequência de transição do sistema
Em − En
ωmn = .
~

A Fase de Berry No limite adiabático, onde excitações para outro autoket instantâneo é negligenciado, a
⃗ (0))⟩ implica que |cn (t)| = 1, cm (t) = 0 para m ̸= n. Então, a
escolha do estado inicial |ψ(0)⟩ = |φn (R
Eq. (15.144) se reduz à
ċn = −cn ⟨φn |φ̇n ⟩ .
Se escrevermos cn = ei γn (t) , obtemos

γ̇n (t) = i⟨φn (R ⃗ (t))⟩


⃗ (t))|φ̇n (R (15.150)

e a evolução adiabática do estado |φn (t)⟩ será

|ψ (t)⟩ = ei(αn (t)−αm (t)) |φn (R


⃗ (t))⟩ . (15.151)

⃗ ⟩ é definido somente pela equação de autovalor (15.140), então sua fase é arbitrária e
Aqui, o ket |φn (R)
pode ser modificada para termos uma dependência contínua no parâmetro R ⃗ (t). Na literatura antiga, era
396 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

comum a fase γ (t) → 0. Entretanto, em 1984, Berry 24 mostrou que havia de fato uma contribuição dessa
fase. 25
Partindo do fato que

⃗ ⃗ φ̇n ⟩ dR
|φ̇n ⟩ = |∇ R dt
então reescrevemos (15.150) por

dγn (t) ⃗
⃗ (t))|∇
= i⟨φn (R ⃗ (t))⟩ dR(t)
⃗ ⃗ φ̇n (R (15.152)
dt R dt

onde o gradiente é considerado no espaço do parâmetro R.⃗ Supondo que R ⃗ (t) é considerado em uma curva
fechada C no parâmetro de espaço, tal que R(0) = R(T ). Então, a fase γn (t) será
⃗ ⃗
I
dγn (t)
γn (T ) − γn (0) = dt
C dt
I
⃗ |∇
= i ⟨φn (R) ⃗ ⟩ dR
⃗ ⃗ φ̇n (R)
R
⃗ (15.153)
C

que é conhecida como fase geométrica ou como é comumente mencionada fase de Berry.
O vetor no integrando de (15.153) depende da fase arbitrária do vetor |φn (R) ⃗ ⟩, mas a integral ao longo
de C é independente de tais fases. Para mostrar isto, usaremos o teorema de Stokes para transformar a
integral de linha em uma integral por toda a superfície envolvendo C,
I ∫ [ ]
⟨φn (R)|∇R
⃗ ⃗ ⃗ φ̇ n ( ⃗
R) ⟩ dR⃗ = ∇⃗ × ⟨φ n ( ⃗
R) |∇⃗ ⃗
R
φ̇ n ( ⃗
R) ⟩ · d⃗S . (15.154)
C S (C)


Agora, se introduzirmos uma troca arbitrária das fases nos kets de base, |φn ⟩ → ei χ(R) |φn ⟩, então

⟨φn |∇
⃗ φ̇n ⟩ → ⟨φn |∇
⃗ φ̇n ⟩ + i ∇χ
⃗ .

Mas ∇⃗ × ∇χ
⃗ = 0, então a fase em (15.153) é uma quantidade invariante que depende somente da geometria
do caminho em C. A validade para a fase de Berry foi confirmada experimentalmente em 1987. 26

Efeito Aharonov-Bohm Revisado Estudamos que o efeito Aharonov-Bohm produz um fluxo magnético
como consequência de um fator de fase geométrico.
Consideremos uma pequena caixa com um elétron confinado que faz uma volta completa em uma curva
fechada C, rodeando uma linha de fluxo magnético ΦB , como podemos ver na Fig. 15.6. Tomamos R ⃗ como
o vetor contendo a origem fixada no espaço e um ponto de referência na caixa. Neste caso o vetor R⃗ é um
⃗ para descrever o campo
parâmetro externo no espaço real propriamente dito. Pelo uso do potencial vetor A

magnético B, a n-ésima função de onda do elétron, confinado na caixa, na posição⃗r é escrito como
∫ ⃗r
ie ⃗ (⃗r′ ) · d⃗r′
⃗ ⟩ = e ~c
⟨⃗r|φn (R) ⃗
R
A
φn (⃗r − R)
⃗ (15.155)

onde φn (⃗r′ ) é a função de onda do elétron na coordenada ⃗r na caixa na ausência do campo magnético.
Então, na presença do campo magnético, podemos facilmente calcular a derivada da função de onda em
relação ao parâmetro externo para obter
∫ [ ]
∗ ie⃗ ⃗
⟨φn (R)|∇R
⃗ ⃗ ⃗ φn (R)⟩ =
⃗ d ⃗rφn (⃗r − R) − A(R)φn (⃗r − R) + ∇R
3 ⃗ ⃗ ⃗ ⃗ φn (⃗r − R)

~c
ie⃗ ⃗
=− A (R) (15.156)
~c
24
Michael Victor Berry (1941– ), matemático e físico inglês.
25
M. V. Berry, Proceedings of the Royal Society of London, A329, 45 (1984).
26
T. Bitter and D. Dubbers, Physical Review Letters, 59, 251 (1987).
15.10. A PROXIMAÇÃO A DIABÁTICA 397

Figura 15.6 Efeito Aharonov-Bohm Revisado.

onde o segundo termo sob a integral anula-se para o elétron na caixa. De (15.153) e (15.156), vemos que a
fase geométrica é dada por
I ∫ [ ]
e ⃗ (R) ⃗ = e e
γn (C) = A ⃗ · dR ∇
⃗ ×A ⃗ (R)
⃗ · d⃗S = ΦB . (15.157)
~c ~c ~c

Este resultado é exatamente a expressão dada em (7.116) do efeito Aharonov-Bohm obtido previamente.

Problemas
15.1 Derive a equação de probabilidade de transição para a primeira ordem da teoria de perturbação depen-
dente do tempo.

15.2 Calcule uma expressão para cn (t) para segunda ordem em λ. Escreva
cn (t) = δnk + λ c1n (t) + λ2 c2n (t) + · · · .
Mostre que a equação de primeira ordem para c1n (t) é inalterada, e c2n (t) obedece a equação
∫ t ∑
1 0 ′
dt′ c1n (t′ ) e ~ (Em −En )t ⟨ϕm |V (t′ )|ϕn ⟩ .
i 0
2
cm (t) =
i ~λ 0 n
1 ′
Substitua a solução cn (t ) e simplifique sua expressão o tanto que for possível.
∫∞
15.3 Prove que a função f (t, ω) = 1
ω2
|ei ωt −1|2 desempenha as seguintes relações: −∞ f (t, ω) dω = 2πt
e limt→∞ f (t,ω)
t = 2πδ (ω) . Sugestão: Ver livro do Prof. Greiner [38].

15.4 Um átomo de hidrogênio é colocado na presença de um campo elétrico ⃗E(t) que é uniforme e tem
uma dependência temporal dada por
{
⃗E(t) = 0 se t < 0 ,
⃗E0 e−γt se t > 0 .
Qual é a probabilidade que em t → ∞, o átomo de hidrogênio, se inicialmente no estado fundamental,
fazer uma transição para o estado 2p?

15.5 a) Considere o átomo de hidrogênio. Faça um estudo da transição 2p → 1s. Sugestão: Ver o livro do
Prof. Gasiorowicz [32].
b) Trabalhe na transição 2p → 1s para o oscilador tridimensional, seguindo os caminhos do item
anterior.
398 C AP. 15 T EORIA DAS P ERTURBAÇÕES D EPENDENTE DO T EMPO

p 2
15.6 Considere o oscilador harmônico descrito por H = 2µ + 12 µω 2 (t)x2 , onde ω (t) = ω0 + δω cos f t
e δω ≪ ω0 . Calcule a probabilidade que uma transição ocorra do estado fundamental, como função
do tempo, dado que o sistema está no estado fundamental em t = 0. Use teoria de perturbação. Use o
fato de que para n ̸= 0,
{
√~ para n = 2 ,
⟨n|x |0⟩ =
2 2µω
0 qualquer outro .

15.7 Considere um oscilador harmônico em uma dimensão com frequência angular ω0 e carga elétrica q.
Em t = 0, o oscilador está no estado fundamental Um campo elétrico é aplicado pelo tempo τ , tal que
{
−qEx para 0 < t < τ
V(t) = ,
0 outros
onde E é o campo e x o operador posição.
a) Usando a correção de perturbação de primeira ordem, calcular a probabilidade de transição para o
estado n = 1.
b) Usando a correção de perturbação de primeira ordem, mostre que a probabilidade de transição para
o estado n = 2 é impossível.

15.8 Um oscilador harmônico unidimensional está no estado fundamental quando t < 0. Para t ≥ 0 está
sujeito à uma força (não um potencial!) espacialmente uniforme na direção x̂ e dependente do tempo,
F (t) = F0 e− τ .
t

a) Usando a teoria de perturbação dependente do tempo em primeira ordem, obtenha a probabilidade


de encontrar o oscilador em seu primeiro estado excitado para t > 0. Mostre que no limite t → ∞ sua
expressão é independente do tempo.
b) Podemos encontrar estados mais excitados?√
~
(√ √ )
Sugestão: O leitor poderá usar ⟨n′ |x|n⟩ = 2µω n + 1 δn′ ,n+1 + n δn′ ,n−1 .

15.9 Uma partícula carregada descrita por uma hamiltoniana de um oscilador harmônico linear é colocada
t 2
na presença de um campo elétrico homogêneo e dependente do tempo dado por E (t) = √A e−( τ ) , πτ
onde A e τ são constantes. Se o oscilador está no estado fundamental até o campo ser ligado em
t = 0, calcule em primeira aproximação, a probabilidade de sua excitação como resultado da ação da
perturbação.

15.10 Uma partícula carregada descrita por uma hamiltoniana de um oscilador harmônico linear é colocada
na presença de um campo elétrico homogêneo e dependente do tempo dado pelo problema anterior.
Se o oscilador está em seu estado fundamental no instante t = −∞, qual a probabilidade de que esteja
no primeiro estado excitado quando t → +∞. Calcule em primeira ordem de perturbação.

15.11 Determine com a perturbação do problema anterior, a probabilidade de transição para os estados
excitados do oscilador, superior ao primeiro.

15.12 Considere um sistema composto por duas partículas de spin 12 . Para t < 0, a hamiltoniana não
depende do spin e pode ser tomada como ( )zero por um ajuste adequado da escala de energia. Para
t > 0, a hamiltoniana é dada por H = 4∆ ⃗S1 · ⃗S2 . Supomos que o sistema está em | + −⟩ quando
~2
t ≤ 0. Encontre, como função do tempo, a probabilidade de ser encontrado em cada estado que se
segue | + +⟩, | + −⟩, | − +⟩ e | − −⟩:
a) Por solução exata.
b) Por solução usando teoria de perturbação dependente do tempo em primeira ordem, com H sendo
a perturbação quando acionado em t = 0.
c) Em quais condições de b) temos o resultados corretos?

15.13 O estado fundamental do átomo de hidrogênio (n = 1, l = 0) está sujeito a ação de um potencial


dependente do tempo V(x, t) = V0 cos (kz − ωt) . Usando a teoria de perturbação dependente do
tempo, obtenha uma expressão para a razão de transição na qual o elétron é emitido com momentum
15.10. A PROXIMAÇÃO A DIABÁTICA 399

⃗p. Mostre, em particular, como você calcula a distribuição angular do elétron ejetado (em termos de θ
e ϕ definidos com respeito ao eixo ẑ). Discuta brevemente as similaridades e as diferenças entre esse
problema e o efeito fotoelétrico (mais realista).
( )3
2 −
Zr
Sugestão: Para a função de onda inicial use ψn=1,l=0 (⃗r) = π aZ0
√1
e a0 . Se você tem um pro-
( ) i
blema de normalização, o função de onda final poderá ser tomada como ψ (⃗r) = 1 e ~ ⃗p ·⃗r , com
f 3
L2
L muito grande, mas você será capaz de mostrar que os efeitos observáveis são independentes de L.
15.14 Considere uma oscilador linear em seu estado fundamental. Suponha que o ponto de equilíbrio inicie
em um tempo t = 0 para mover-se lentamente e suavemente até parar em um tempo t = T . Usando a
aproximação adiabática, encontre a probabilidade que o oscilador terá para ir ao estado excitado. Qual
é a validade dessa aproximação?
Observação: Numa aproximação adiabática, consideramos que a perturbação varia lentamente no
tempo. Sugestão: Considere a hamiltoniana do oscilador para t ≥ 0 como
p2 1
H(t) = + µω 2 [x − a(t)]2 ,
2µ 2
onde a(t) é a posição do ponto de equilíbrio.

15.15 Considere um átomo de hidrogênio em seu estado fundamental em t = 0. No mesmo instante um


campo elétrico uniforme periódico é aplicado no átomo.
a) Encontre a frequência mínima que o campo necessita para ionizar o átomo.
b) Usando a teoria de perturbação, encontre a probabilidade de ionização por unidade de tempo.
Assuma que quando o átomo se ioniza, os elétrons se tornam livres.
15.16 Considere um sistema com dois autoestados estacionários |1⟩ e |2⟩. A diferença entre seus autovalo-
res é dada por E2 − E1 = ~ω21 . No tempo t = 0, quando o sistema está no estado |1⟩, uma pequena
perturbação que não muda no tempo e igual a H′ é aplicada. Os elementos de matriz são dados por:
⟨1|H′ |1⟩ = 0 ⟨2|H′ |1⟩ = ~ω0 ⟨2|H′ |2⟩ = −~ω .
a) Usando teoria de perturbação dependente do tempo em primeira ordem, calcule a probabilidade de
encontrar o sistema no tempo t no estado |1⟩, e a probabilidade de encontrá-lo no estado |2⟩.
b) Resolva exatamente a equação de Schrödinger e encontre |ψ (t)⟩.
c) Qual é a probabilidade que no tempo t o sistema está no estado |2⟩? Quando a aproximação usada
em a) está correta? A que tempo (em primeira ordem) o sistema terá probabilidade 1 no estado |2⟩?
15.17 Uma partícula de spin 12 com momento magnético que está exposto à um campo magnético. Se
o estado foi continuamente observado em uma medida ideal, mostre que o vetor polarização não
precessa.
15.18 Deduza detalhadamente a regra de ouro de Fermi.

Leitura Recomendada
Com relação a teoria de perturbação dependente do tempo recomendo ao leitor os livros:
– E. Merzbacher [61];
– C. Cohen-Tannoudji, B. Diu and F. Laloë [21];
– J. J. Sakurai [74];
– A. Messiah [62].
Todos esses livros têm um trabalho profundo e com muitos exemplos de aplicação desta teoria.
Recomendo para a aproximação adiabática uma leitura do livros:
– L. E. Ballentine [4];
– D. J. Griffiths [42].
400
Capítulo 16
Teoria de Resposta Linear

A principal finalidade do trabalho de R. Kubo de 1957 foi a formulação da mecânica estatística para o cál-
culo das propriedades de não equilíbrio do sistema em termos das médias sobre todos estados em equilíbrio,
via o teorema geral de flutuação-dissipação. 1 Essa abordagem de processos irreversíveis é conhecida como
teoria de resposta linear.
Este capítulo foi proposto, discutido e desenvolvido por V. Oguri 2 , que trabalhou nesse problema em
1987 desenvolvendo a teoria de perturbação em mecânica quântica. 3

16.1 Perturbação por um Agente Externo


A evolução temporal de um sistema quântico pode ser caracterizado pela equação de Liouville-von Neu-
mann,

i~ = [H, ρ] , (16.1)
dt
onde ρ é o operador densidade e H é a hamiltoniana do sistema, tal que a média de uma observável B do
sistema é dada por
⟨B⟩ = tr(ρB) . (16.2)
Se o sistema é perturbado por um agente externo tal que a hamiltoniana seja escrita como,

H = H0 + V

onde H0 é a hamiltoniana não perturbada e V é o termo de perturbação, com o operador unitário

U0 (t) = e− ~ H0 t
i

podemos realizar as transformações,

ρ′ = U†0 ρ U0
(16.3)
V′ = U†0 V U0

e obter a evolução temporal do operador densidade na representação de interação


dρ′
i~ = [V′ , ρ′ ] . (16.4)
dt
O valor médio de qualquer observável do sistema é independente da representação utilizada. Entretanto,
esse é um ponto de partida adequado para teoria de perturbação.
1
R. Kubo, J. Phys. Soc. Japan, 12, 570 (1957).
2
Vitor Oguri (1951– ), físico brasileiro.
3
V. Oguri, Seminar for Special Lectures on Solid State Physics III, University of Tokyo (1987).

401
402 C AP. 16 T EORIA DE R ESPOSTA L INEAR

16.2 Perturbação por um Campo Clássico


Se um sistema é perturbado por um campo clássico F (t), o termo de perturbação será escrito como,

V(t) = −F (t)A , (16.5)

onde A é alguma observável do sistema.


A ideia da teoria de resposta linear consiste em que, se ⟨B⟩0 é a média da observável B quando o
sistema é não perturbado, a variação na média causada pela perturbação poderá ser escrita como,
∫ ∞
∆⟨B⟩ = dt′ G(t − t′ )F (t′ ) (16.6)
−∞

onde, como na teoria de circuito linear, G(t − t′ ) é a função de Green do sistema, i.e., a resposta dada pela
excitação da função delta de Dirac. Entretanto, desde que a integral é uma convolução, a transformada de
Fourier da função de Green é a resposta da excitação harmônica, i.e., a suscetibilidade do sistema.

16.3 Primeira Ordem de Perturbação


A solução da equação de Liouville-von Neumann na forma integral é
∫ t
i
ρ(t) = ρ0 − [V(t′ ), ρ(t′ )] dt′
~ −∞

onde ρ0 é o operador densidade no estado de equilíbrio (ou não perturbado) e as observáveis são todas
escritas na representação de interação (V(t) = −F (t)A(t)).
A resposta linear é obtida, assumindo que F (t) é suficientemente pequeno tal que em primeira ordem
de perturbação o operador densidade é dado por
∫ t
i
ρ(t) = ρ0 + [A(t′ ), ρ0 ]F (t′ ) dt′ (16.7)
~ −∞

e a média de qualquer observável B será dada por


∫ t
i
⟨B⟩ = ⟨B⟩0 + dt′ F (t′ ) tr {[A(t′ ), ρ0 ]B (t)} . (16.8)
~ −∞

Usando a propriedade cíclica dos traços, tr(ABC) = tr(BCA) = tr(CAB), escrevemos

tr {[A(t′ ), ρ0 ]B (t)} = tr {ρ0 [B (t), A(t′ )]} = ⟨[B (t), A(t′ )]⟩0

e para a variação na média


∫ t
∆⟨B⟩ = dt′ ΦBA (t, t′ )F (t′ )
−∞

onde
i
ΦBA (t, t′ ) = ⟨[B (t), A(t′ )]⟩0
~
é a conhecida função resposta. Imediatamente temos um conjunto de algumas propriedades da função res-
posta:

1. Desde que B e A sejam operadores hermitianos, i[B, A] também o será, e consequentemente ΦBA é
real;
16.4. F UNÇÕES DE C ORRELAÇÃO 403

2. Desde que para um sistema em equilíbrio térmico, ou seja, quando não perturbado, a densidade canônica
ρ0 = Ce−βH0 comuta com H0 , U†0 ou U0 = e ~ H0 t , usando a propriedade cíclica dos traços,
i

{ i ′ ′
⟨[B (t), A(t′ )]⟩0 = trρ0 e ~ H0 t B (0)e− ~ H0 t e ~ H0 t A(0)e− ~ H0 t
i i i

}
i
H0 t′ − ~i H0 t′ ~i H0 t − ~i H0 t
−e ~ A(0)e e B (0)e
{ i ′ ′
= trρ0 e ~ H0 (t−t ) B (0)e− ~ H0 (t−t ) A(0)
i

′ ′
}
− A(0)e ~ H0 (t−t ) B (0)e− ~ H0 (t−t )
i i

= ⟨[B (t − t′ ), A(0)]⟩0 (16.9)

onde usamos
′ ′
B (t − t′ ) = e ~ H0 (t−t ) B (0)e− ~ H0 (t−t )
i i

e mostramos que
ΦBA (t, t′ ) = ΦBA (t − t′ ) . (16.10)

A última propriedade da função resposta significa que o sistema é invariante por um deslocamento de
tempo e que podemos introduzir a função de Green causal

G(t − t′ ) = ΦBA (t − t′ )η(t − t′ ) (16.11)

onde η(t − t′ ) é a função de Heaviside.


Como a função de Green o limite superior de integração pode ser estendido para o infinito, então
∫ ∞
∆⟨B⟩ = dt′ G(t − t′ )F (t′ ) (16.12)
−∞

e pelo teorema de convolução, a transformada de Fourier (F T ) da variação da média é dada por

F T [∆⟨B⟩] = χ(ω)F (ω) (16.13)

onde ∫ ∞
1
F (ω) = dt e− i ωt F (t)
2π −∞

é a transformada de Fourier de F (t) e χ(ω) é a suscetibilidade generalizada, dada pela fórmula de Kubo, 4
∫ ∞ ∫ ∞
− i ωt
χ(ω) = dt e G(t) = dt e− i ωt ΦBA (t) . (16.14)
−∞ 0

Desde que ΦBA é real, χ(−ω) = χ∗ (ω) na qual significa que ℜ[χ(ω)] é par e ℑ[χ(ω)] é impar.

16.4 Funções de Correlação


Desde que observáveis em diferentes tempos não necessariamente comutam (mesmo se elas comutem em
um dado tempo), as funções de correlação ⟨B (t)A(t′ )⟩ e ⟨A(t′ )B (t)⟩ usualmente não são iguais. As funções
de correlação apresentadas foram derivadas por Green 5 e por Kubo. 6
A relação entre suas transformadas de Fourier pode ser derivada notando que a densidade canônica é
diagonal na representação de energia, i.e., Ce−βH0 |E⟩ = Ce−βE |E⟩, com β = kT 1
.
4
R. Kubo, J. Phys. Soc. Japan, 12, 570 (1957).
5
Melville S. Green (falecido em 1979), físico-químico americano.
6
M. S. Green, J. Chem. Phys., 19, 1036 (1951); R. Kubo, J. Phys. Soc. Japan, 12, 570 (1957).
404 C AP. 16 T EORIA DE R ESPOSTA L INEAR

Então, partindo da propriedade cíclica dos traços,

⟨B (t)A(0)⟩ = tr{ρ0 B (t)A(0)} = tr{A(0)ρ0 B (t)} ,

explicitando o traço, usando como base os kets de energia



⟨B (t)A(0)⟩ = ⟨E|A(0)ρ0 B (t)|E⟩
E

= Ce−βE ⟨E|A(0)e−βH0 B (t)eβH0 |E⟩
E

e desde que
B (t) = e ~ H0 t B (0)e− ~ H0 t
i i

podemos escrever

⟨E|ρ0 A(0)e ~ H0 (t+i β~) B (0)e− ~ H0 (t+i β~) |E⟩ ,
i i
⟨B (t)A(0)⟩ = (16.15)
E

mas escrevendo
B (t + i β~) = e ~ H0 (t+i β~) B (0)e− ~ H0 (t+i β~) ,
i i

temos

⟨B (t)A(0)⟩ = tr{ρ0 A(0)B (t + i β~)}


= ⟨A(0)B (t + i β~)⟩ . (16.16)

Agora, usando a propriedade de deslocamento da transformada de Fourier

F T {h(t ± t0 )} = e± i ωt0 h(ω)

podemos escrever a relação entre as transformadas de Fourier das funções de correlação como

⟨B (t)A(0)⟩ω = e−β~ω ⟨A(0)B (t)⟩ω . (16.17)

Nota 1 A primeira derivação das funções de autocorrelação e de correlação foi feita por Einstein em 1914
que supôs uma quantidade y = F (t) (como por exemplo, o número de manchas solares) sendo determinada
empiricamente como uma função do tempo para um grande intervalo T . 7 Supondo que y se expanda em
séries de Fourier
∑ ( )
t
y = F (t) = An cos πn .
T
A intensidade I (θ) é definida para ter um período θ = Tn , um simples cálculo nos dá
∫ T∫ T ( )
2 t−n
I (θ) = 2 F (t)F (n) cos πn dndt .
T 0 0 T
Podemos determinar a função acima selecionando um intervalo de tempo ∆ e formar o valor médio

M(∆) = ⟨F (t)F (t + ∆)⟩ (16.18)

na qual, para uma dada função y, é uma função característica de ∆. Essa função é conhecida como função
de autocorrelação. Para grandes valores de ∆, M(∆) tende à um limite que poderá ser zero quando feita
uma apropriada translação do eixo das abcissas (eixos t e ∆). Assim temos
∫ T ( )

I (θ) = M(∆) cos π d∆ . (16.19)
0 θ
A execução prática do método frequentemente não apresenta nenhuma dificuldade.
7
A. Einstein, Archives de Sciences Physique et Naturalles, 37, ser. 4, 254-256 (1914).
16.5. T EOREMA DE F LUTUAÇÃO -D ISSIPAÇÃO 405

Nota 2 O ponto mais importante do trabalho de Einstein não é o que foi introduzido por ele, ou seja os
conceitos de funções de autocorrelação e de correlação, mas sim o conceito de um espectro de potência,
I, e sua interpretação física. Se considerarmos uma análise harmônica utilizando uma função caracterizada
por oscilações senoidal (cossenoidal), a frequência angular ω = πθ é frequentemente empregada. Assim, a
Eq. (16.19) é agora escrita na forma
∫ ∞
I (ω) = M(∆) cos (ω∆) d∆ . (16.20)
0
Com o uso da transformada de Fourier, temos
∫ ∞
2
M(∆) = I (ω) cos (ω∆) dω (16.21)
∆ 0
que é precisamente o que hoje conhecemos como espectro de potência, para engenheiros e físicos, ou den-
sidade espectral, para matemáticos, da série estacionaria F (t). Essas relações, (16.20) e (16.21), expressam
um teorema que tem grandes aplicações conhecido como teorema de Wiener-Khinchin 8 , que relaciona o
espectro e a função de correlação. Esse teorema vem do trabalho de Wiener, 9 que independentemente deri-
vou a relação (16.21) em 1930, e do trabalho de Khinchin que também obteve a mesma fórmula. 10 Ambos,
matemáticos, deram a Eq. (16.21) uma interpretação de que a série F (t) contém componentes puramente
periódicas. Eles mostraram que em qualquer caso a função de correlação M(∆) é descrita pela fórmula
∫ ∞
M(∆) = cos (ω∆) dΦ(ω) , (16.22)
0
onde Φ(ω) é uma condição de fronteira, função monotonicamente crescente da frequência ω. Wiener baseou
seu resultado em trabalhos físicos e ficou claro para ele como o espectro Φ(ω) era conectado com o espec-
tro físico, na qual governa a expansão da flutuação de F (t) em componentes harmônicas e a distribuição
da potência partindo da flutuação sobre muitas frequências ω. Entretanto, pelo fato de Wiener não levar
em consideração nenhum argumento teórico de probabilidade, a função de correlação para sua expansão
harmônica da flutuação de F (t) será
∫ T
1
M(∆) = lim F (t)F (t + ∆) dt , (16.23)
T →∞ 2T −T

no qual requer que o limite no lado direito da equação acima exista. Já Khinchin partiu de uma simples teoria
de processos randômicos estacionários, mas não levou em consideração as questões do significado físico
da função Φ(ω). A forma em que esse teorema é atualmente usado justifica receber o nome de teorema
de Einstein-Wiener-Khinchin, pois foi Einstein quem apresentou inteligentemente o significado físico da
função I (ω). 11

16.5 Teorema de Flutuação-Dissipação


Usando a relação (16.17) podemos obter outras relações entre a suscetibilidade χ(ω), a transformada de
Fourier da função resposta ∫ ∞
1
ΦBA (ω) = dt e− i ωt ΦBA (t)
2π −∞
e a transformada de Fourier da função de correlação simetrizada
ΨBA (t − t′ ) = ⟨{B (t)A(t′ )}⟩

ΨBA (ω) = ⟨{B (t)A(t′ )}⟩ω


8
Norbert Wiener (1894–1964), matemático americano.
Aleksandr Yakovlevich Khinchin (Chintchin ou Khintchine) (1894–1959), matemático russo-soviético.
9
N. Wiener, Acta Mathematica, 55, 117-258 (1930).
10
A. Khinchin, Mathematische Annalen, 109, 604-615 (1934).
11
A. M. Yaglom, Problemy Peredachi Informatsii, 21, 101-107 (1985).
406 C AP. 16 T EORIA DE R ESPOSTA L INEAR

onde {BA} = (BA+AB) 2 .


Essas relações são usualmente chamadas de teorema de flutuação-dissipação pelo fato delas permitirem
conectar característica de processos dissipativos com as flutuações ao redor do equilíbrio no sistema físico.
O teorema de flutuação-dissipação foi derivado primeiramente por Nyquist 12 em 1928. 13

Relação entre ΦBA (ω) e ΨBA (ω) As relações são


i i
ΦBA (ω) = ⟨[B (t), A(0)]⟩ω = (⟨B (t)A(0)⟩ω − ⟨A(0)B (t)⟩ω )
~ ~
i ( −β~ω )
= e − 1 ⟨A(0)B (t)⟩ω
~
e
1
ΨBA (ω) = ⟨{B (t)A(0)}⟩ω = (⟨B (t)A(0)⟩ω + ⟨A(0)B (t)⟩ω )
2
1 ( −β~ω )
= e + 1 ⟨A(0)B (t)⟩ω .
2
Então, ( )
~ 1 + e−β~ω
ΨBA (ω) = i ΦBA (ω) (16.24)
2 (1 − e−β~ω )
ou ( )
~ β~ω
ΨBA (ω) = i coth ΦBA (ω) . (16.25)
2 2

Relação entre χ(ω) e ΦBA (ω) Desde que G(t) = ΦBA (t)η(t), pelo teorema de convolução
∫ ∞
χ(ω) = ΦBA (ω ′ ) η(ω − ω ′ ) dω ′
−∞

a transformada de Fourier da função degrau de Heaviside é,


∫ ∞

η(ω − ω ′ ) = lim e− i(ω−ω −i ε)t dt
ε→0 0

onde ( )
1 1 1
F T [η(t)] = lim = πδ(ω − ω ′ ) + i P
i ε→0 ω − ω ′ − i ε ′
ω −ω
onde P é o valor principal de Cauchy. Então
∫ ∞
ΦBA (ω ′ )
χ(ω) = π ΦBA (ω) + i P dω ′ . (16.26)
−∞ ω′ − ω

Por outro lado, desde que


∫ ∞
1
ΦBA (ω) = ΦBA (t) e− i ωt dt
2π −∞
∫ 0 ∫ ∞
1 1
= ΦBA (t) e− i ωt dt + ΦBA (t) e− i ωt dt
2π −∞ 2π 0

onde ∫ ∞
χ(ω) 1
= ΦBA (t) e− i ωt dt ,
2π 2π 0
12
Harry Nyquist (Harry Theodor Nyqvist) (1889–1976), engenheiro e físico sueco-americano.
13
H. Nyquist, Physical Review, 32, 110–113 (1928).
16.6. E XEMPLOS S IMPLES 407

(i) Se ΦBA (t) for par


∫ ∞
1 χ(ω)
ΦBA (ω) = ΦBA (t) ei ωt dt +
2π 0 2π
1
= ℜ[χ(ω)] ; (16.27)
π
(ii) Se ΦBA (t) for ímpar
χ∗ (ω) χ(ω)
ΦBA (ω) = − +
2π 2π
i
= ℑ[χ(ω)] . (16.28)
π
Essas são algumas das muitas possibilidades de relações entre as transformadas de Fourier de várias quan-
tidades.

16.6 Exemplos Simples


Provavelmente a mais simples aplicação do teorema de flutuação-dissipação é a derivação da média qua-
drática espontânea de flutuação de corrente em circuitos lineares, i.e., a relação de Nyquist. 14
Primeiro, vamos supor que um campo elétrico uniforme ⃗E(t) é aplicado em um condutor homogêneo e
isotrópico. O termo de perturbação será
V = −pE (16.29)
onde p é o dipolo elétrico total.
A resposta do sistema será a densidade de corrente J = Vṗ , sendo V o volume, tal que a transformada
de Fourier
F T {∆⟨J⟩} = σ (ω)E (ω)
onde a condutividade σ (ω) é a suscetibilidade generalizada. Desde que a densidade de corrente J = B é
proporcional a derivada do dipolo elétrico p = A, é interessante usar o teorema de flutuação-dissipação com
a função de correlação
⟨Ȧ(0)B (t)⟩ = V ⟨J (0)J (t)⟩ . (16.30)
O teorema de flutuação-dissipação conveniente para esse caso poderá ser derivado notando que

⟨A(0)Ḃ (t)⟩ = −⟨Ȧ(0)B (t)⟩ (16.31)

que poderá ser demonstrado com a equação que nos dá a variação temporal de qualquer observável na
representação de interação
i ~Ḃ = [B, H0 ] ,
assim { }
[B, H0 ]
⟨A(0)Ḃ (t)⟩ = tr ρ0 A(0) , (16.32)
i~
usando a propriedade cíclica dos traços, podemos escrever
{ } { }
[H0 , A(0)] [A(0), H0 ]
⟨A(0)Ḃ (t)⟩ = tr ρ0 B (t) = −tr ρ0 B (t)
i~ i~
= −⟨Ȧ(0)B (t)⟩ (16.33)

onde i ~Ȧ(0) = [A(0), H0 ]. O próximo passo será multiplicar a transformada de Fourier de ΦBA (t)
i ( −β~ω )
ΦBA (ω) = e − 1 ⟨A(0)B (t)⟩ω
~
14
H. Nyquist, Physical Review, 32, 110–113 (1928).
408 C AP. 16 T EORIA DE R ESPOSTA L INEAR

por − i ω, e teremos a transformada de Fourier de sua derivada,

i ( −β~ω )
− i ω ΦBA (ω) = e − 1 ⟨A(0)Ḃ (t)⟩ω (16.34)
~
ou
( )
~ω ΦBA (ω) = e−β~ω − 1 ⟨Ȧ(0)B (t)⟩ω . (16.35)

De forma similar, notamos que para a função de correlação simetrizada

Ψ̇BA (t) = ⟨{Ḃ (t)A(0)}⟩ = −⟨{Ȧ(0)B (t)}⟩

tal que ( )
1 + e−β~ω
GBA (ω) = F T {Ψ̇BA (t)} = − ⟨Ȧ(0)B (t)⟩ .
2
Então, o teorema de flutuação-dissipação adequado para esse caso é
( )
~ω β~ω
GBA (ω) = − coth ΦBA (ω) (16.36)
2 2
ou
( )
~ω β~ω
⟨{J (0)J (t)}⟩ω = coth ΦJP (ω) , (16.37)
2V 2

onde J = B é a densidade de corrente e P = A é o dipolo elétrico.


Agora, se imaginarmos que o campo elétrico resulta da flutuação espontânea do condutor, o espectro de
Fourier da média quadrática da densidade de corrente será dada por
( )
~ω β~ω
⟨J 2 ⟩ω = coth ΦJP (ω) . (16.38)
2V 2

Desde que nesse caso ΦJP (ω) é real e igual a 1


π ℜ[σ (ω)], temos
( )
~ω β~ω
⟨J ⟩ω =
2
coth ℜ[σ (ω)] . (16.39)
2πV 2

Esta fórmula é a generalização da relação de Nyquist e pode ser nos levar à uma forma mais familiar se
considerarmos um condutor cilíndrico de comprimento L e seção transversal S. Assim o o volume será
V = LS e a corrente será I = JS.
Da teoria dos circuitos, a condutividade é dada por

L L 1
σ (ω) = Y (ω) =
S S R(ω) + i X (ω)

onde Y (ω) é a admitância, R(ω) é a resistência e X (ω) é a reatância. Portanto,

L
σ (ω) = [R(ω) − i X (ω)] |Y (ω)|2
S
e
L
ℜ[σ (ω)] = R(ω) |Y (ω)|2 .
S
Logo, a média quadrática da flutuação de corrente será dada por
∫ ( )
1 ∞ ~ω β~ω
⟨I 2 ⟩ω = coth R(ω) |Y (ω)|2 dω (16.40)
π −∞ 2 2
16.6. E XEMPLOS S IMPLES 409

e para altas temperaturas, i.e., kT ≫ ~ω, encontramos


∫ ∞
2
⟨I ⟩ω = kT
2
R(ω) |Y (ω)|2 dω . (16.41)
π 0

Esta é a relação dada por Nyquist. 15


Um outro exemplo simples é a polarização de um dielétrico. Se um campo elétrico é aplicado em um
semicondutor ao longo de algum eixo principal, por exemplo, o eixo x, a resposta será o dipolo elétrico, de
modo que
F T {∆⟨p⟩} = αxx (ω) E (ω)
onde αxx é o tensor de polarizabilidade, e a componente x desse tensor é a suscetibilidade generalizada.
Então, a função resposta é
i
Φpp (t) = ⟨[p(t), p(0)]⟩ . (16.42)
~
Se supormos que o estado não perturbado do sistema é o estado fundamental, T = 0, o operador
densidade ρ0 será a projeção,
ρ0 = |0⟩⟨0|
e a média ⟨[p(t), p(0)]⟩ será dada por
⟨0|[p(t), p(0)]|0⟩
ou explicitamente usando bases de energia,
∑{ }
⟨0|e ~ H0 t p(0)|k⟩⟨k|e− ~ H0 t p(0)|0⟩ − hermitiano conjugado
i i

k
∑{ }
e− ~ (Ek −E0 )t ⟨0|p(0)|k⟩⟨k|p(0)|0⟩ − hermitiano conjugado
i

Ek −E0
fazendo ~ = ωk0 , podemos escrever a Eq. (16.42) como
i ∑ ( )
Φpp (t) = |⟨k|p(0)|0⟩|2 e− i ωk0 t − ei ωk0 t . (16.43)
~
k

Pela fórmula de Kubo, a polarizabilidade αxx (ω) será


∫ ∞ { }
i ∑
αxx = lim dt |⟨k|p(0)|0⟩|2 e− i(ω+ωk0 −i ε)t − e− i(ω−ωk0 −i ε)t
ε→0 0 ~
k
{ }
i ∑ 1 1
= |⟨k|p(0)|0⟩|2

~ i(ω + ωk0 − i ε) i(ω − ωk0 − i ε)
k
∑ 2ωk0 |⟨k|p(0)|0⟩|2
~
αxx = . (16.44)
2
ωk0 − ω2 + 2 i ε
k

Introduzindo a quantidade adimensional,

p 2µ
fk0 = ωk0 |⟨k|p(0)|0⟩|2 ,
~e2
que é o conhecido peso estatístico do oscilador 16 da transição 0 → k, a polarizabilidade do sistema no
estado fundamental |0⟩ será dada por

e2 ∑
p
fk0
αxx (ω) = 2 − ω2 + 2 i ε . (16.45)
µ ωk0
k
15
H. Nyquist, Physical Review, 29, 614 (1927); Idem, 32, 110–113 (1928); J. B. Johnson, Physical Review, 32, 97–109 (1928).
16
Em inglês, oscillator strength
410 C AP. 16 T EORIA DE R ESPOSTA L INEAR

16.7 Regra de Soma


Considerando a fórmula de Kubo,
∫ ∞
χ(ω) = dt e− i ωt ΦBA (t) (16.46)
0

e integrando por partes, temos


∫ ∞
ΦBA (0) e− i ωt
χ(ω) = + dt Φ̇BA (t) , (16.47)
iω 0 iω

desde que para sistema dissipativo, limt→∞ ΦBA (t) = 0, i.e., nenhuma memória. Então, se integramos por
partes sucessivamente, obtemos

ΦBA (0) Φ̇BA (0) Φ̈BA (0)


χ(ω) = + + + ··· . (16.48)
iω (i ω)2 (i ω)3

No caso da polarização de um dielétrico,

Φpp (0) = ⟨[p(0), p(0)]⟩ = 0

e podemos usar
( ) i
lim −ω 2 α(ω) = Φ̇pp (0) = ⟨[ṗ(0), p(0)]⟩
ω→0 ~

e2 ∑ p
fk0 = Φ̇pp (0) .
µ
k

Para derivar a regra de comutação para o dipolo elétrico, notemos que para um sistema de Z elétrons,

p=e xi
i

onde xi é a posição da i-ésima partícula, e


e∑
ṗ = pxi
µ
i

aqui pxi é o momentum linear da i-ésima partícula e µ é a massa do elétron.


Portanto,
e2 ∑ e2 ∑
Z
[ṗ, p] = [pxj , xi ] = − i ~ 2 δii
µ µ
j,i i=1

e
e2
Φ̇pp (0) = Z .
µ
Então, a regra de soma para o peso estatístico do oscilador, i.e., a regra de soma de Thomas–Reiche–Kuhn
será ∑ p
fk0 = Z . (16.49)
k

Outras regras de soma adequadamente ajustadas poderão ser usadas em outras aplicações. Essas relações
obtidas são somente alguns aspectos da teoria da resposta linear.
16.7. R EGRA DE S OMA 411

Problemas
16.1 Determine a forma assintótica de χ(ω) para ω → ∞, se χ(∞) = 0. Sugestão: Consulte o livro dos
Profs. L. Landau and E. Lifshitz [55].

16.2 Deduza detalhadamente a relação de Nyquist, (16.41).

Leitura Recomendada
Para este capítulo, as principais referências foram os livros:

– R. Kubo [50];
– R. Kubo, M. Toda and N. Hashitsume [51].

Esses livros trazem um excelente e completo trabalho sobre teoria da resposta linear do ponto de vista da
mecânica estatística e suas aplicações.
412
Capítulo 17
Teoria Formal do Espalhamento

No capítulo de espalhamento vimos a teoria usando a representação de Schrödinger, a aproximação de


Born, o método de ondas parciais e fizemos os cálculos de seção de choque para alguns exemplos. Porém
é possível proceder com mais generalidade, sem vincular a descrição do processo dispersivo a nenhuma
representação específica. Neste capítulo faremos uma apresentação breve das ideias centrais da teoria formal
do espalhamento com o propósito de facilitar leitor sua eventual transição a esse tipo de tratamento.

17.1 Equação de Lippmann-Schwinger


Vamos assumir a hamiltoniana, na qual contêm todas as interações e pode dar lugar a qualquer tipo de
processo, elástico e inelástico. Essa hamiltoniana pode ser escrita em duas partes:

H = H0 + V . (17.1)

Os autovetores e autovalores de H0 são conhecidos

H0 |φa ⟩ = Ea |φa ⟩ . (17.2)

Normalmente, mas não necessariamente, H0 é a hamiltoniana da partícula livre; nesse caso, V é o potencial
de interação que causará o espalhamento, também conhecido como potencial de espalhamento. No que se
segue, suponhamos que a cada solução |φa ⟩ no espectro contínuo, corresponde uma solução de |ψa ⟩ do
problema completo, também no espectro contínuo e com a mesma energia Ea , i.e., ao conectar a interação
V, a energia não se altera. Assim,

H|ψa ⟩ = (H0 + V)|ψa ⟩ = Ea |ψa ⟩ . (17.3)

Para estabelecer uma conexão entre |φa ⟩ e |ψa ⟩, reescrevemos a equação anterior com a ajuda das duas
primeiras equações na forma

(Ea − H0 )|ψa ⟩ = (Ea − H0 )|φa ⟩ + V|ψa ⟩ (17.4)

onde obtemos, ao multiplicar pelo operador (Ea − H0 )−1 :

1
|ψa ⟩ = |φa ⟩ + V|ψa ⟩ . (17.5)
Ea − H0

Entretanto, sem nenhuma prescrição para procedermos com um operador singular, visto que (Ea − H0 )−1
possui uma singularidade em Ea , a Eq. (17.5) não faz nenhum sentido. Para termos um significado físico,
devemos introduzir uma interação, num breve momento, como na teoria de perturbação. Mas ainda devemos
lembrar que |φa ⟩ e |ψa ⟩ exibem autovalores contínuos. Com isso, faremos Ea ligeiramente complexo. Então
definimos um operador (Ea − H0 ± i ε)−1 que no limite ε → 0+ se reduz ao operador anterior. Logo

413
414 C AP. 17 T EORIA F ORMAL DO E SPALHAMENTO

podemos definir dois conjuntos de estados, |ψa+ ⟩ e |ψa− ⟩, que chamamos de estado emergente e imergente, 1
respectivamente, que são as soluções das equações
1
|ψa± ⟩ = |φa ⟩ + V|ψa± ⟩ . (17.6)
Ea − H0 ± i ε
Essas são as equações de Lippmann-Schwinger 2 . Essas equações têm um caráter inomogêneo.
Ao passar a uma representação específica, esses equações se transformam em equações integrais de
Fredholm 3 . Assim, para uma base de posição
ψa± (⃗r) = ⟨⃗r|ψa± ⟩ e φa (⃗r) = ⟨⃗r|φa ⟩
temos que ∫ ⟨ ⟩
1
⟨⃗r|ψa± ⟩
= ⟨⃗r|φa ⟩ + 3 ′
d x ⃗r ⃗r ⟨⃗r′ |V|ψa± ⟩

(17.7)
Ea − H0 ± i ε
que é a equação integral do espalhamento. O kernel é dado por
⟨ ⟩
± ′ 1 ′
Ka (⃗r,⃗r ) = ⃗r V ⃗r .
Ea − H0 ± i ε
É conveniente introduzir os operadores, G±
a , retardado e avançado, dados por

1 ∑ |φb ⟩⟨φb |

a = lim = lim (17.8)
ε→0 Ea − H0 ± i ε ε→0 Ea − Eb ± i ε
b

onde o limite ε → 0 deve ser usado no final dos cálculos, no limite das quais as equações de Lippmann-
-Schwinger tomam a forma
|ψa± ⟩ = |φa ⟩ + G±
a V|ψa ⟩
±
(17.9)
ou o equivalente 4
1
|ψa± ⟩ = |φa ⟩ ≡ Ω± |φa ⟩ (17.10)
1 − G±a V
onde ∑( )n
Ω± = 1 + G ± ± ±
a V + Ga V Ga V + · · · = 1 + G±
a V . (17.11)
n
Esse resultado é conhecido como desenvolvimento de Born. O operador Ω±
a transforma cada vetor da base
não perturbada em um correspondente vetor perturbado.
Se |φa ⟩ for uma onda plana com momentum ⃗p, podemos escrever
p ·⃗r
i⃗
e ~
⟨⃗r|φa ⟩ = 3 . (17.12)
(2π~) 2
Note que ao contrário dos estados ligados, a onda plana (17.12) não é normalizável e não é realmente um
vetor no espaço de Hilbert. A especial normalização em (17.12) é tal que

d3 r⟨⃗p′ |⃗r⟩⟨⃗r|⃗p⟩ = δ 3 (⃗p − ⃗p′ ) (17.13)

em outras palavras, escrevemos (17.7) na base de momentum,


1
⟨⃗p|ψa± ⟩ = ⟨⃗p|φa ⟩ + ⟨⃗p|V|ψa± ⟩ (17.14)
Ea − H0 ± i ε
que formam as equações de Lippmann-Schwinger na base de momentum.
1
Equivale ao estado de partículas que se aproximam da origem e ao estado de partículas que se afastam da origem.
2
Bernard Abram Lippmann (1915–1988), físico americano.
B. A. Lippmann and J. Schwinger, Physical Review, 79, 469-480 (1950).
3
Erik Ivar Fredholm (1866–1927), matemático sueco.
4 1
Se utilizarmos as identidades A+B = A1
−A 1 1
B A+B = A1
− A+B
1
BA 1
aplicado em (17.9).
17.2. E SPALHAMENTO – F UNÇÃO DE G REEN – PARTE 2 415

17.2 Espalhamento – Função de Green – Parte 2


Voltando a trabalhar na Eq. (17.7), podemos escrever o termo G±
a na integral como
⟨ ⟩
± ′ ~2 1 ′
Ga (⃗r,⃗r ) ≡ ⃗
r ⃗
r (17.15)
2µ Ea − H0 ± i ε

mas podemos demonstrar que G± ′


a (⃗r,⃗r ) é dado por

1 e± i k|⃗r−⃗r |
G± ′
a (⃗r,⃗r ) =− (17.16)
4π |⃗r −⃗r′ |
~2 k 2
onde E ≡ 2µ .

Prova. Seguindo,
⟨ ⟩ ∫ ∫
~2 1 ′ ~2 3 ′
⃗r ⃗r = d p d3 p′′ ⟨⃗r|⃗p′ ⟩
2µ Ea − H0 ± i ε 2µ
⟨ ⟩
1
× ⃗p′ ( ′2 ) ⃗p′′ ⟨⃗p′′ |⃗r′ ⟩ (17.17)
⃗p
Ea − 2µ ± i ε

onde H0 atua em ⟨⃗p′ |. Agora usamos


⟨ ⟩
′ 1 ′′ δ 3 (⃗p′ − ⃗p′′ )
⃗p ( ) ⃗p = ( ′2 )
⃗p′2
Ea − 2µ ± iε Ea − ⃗p2µ ± i ε

e
p′ ⃗r
i⃗ · p′ ⃗r′
− i⃗ ·
′ e ~
′′ ′ e ~
⟨⃗r|⃗p ⟩ = 3 , ⟨⃗p |⃗r ⟩ = 3
(2π~) 2 (2π~) 2
com ⃗p′ = ⃗p′′ em (17.17), temos do lado direito
∫ p′ · (⃗r−⃗r′ )
i⃗
~2 d3 p′ e ~

3
( ′2 ) . (17.18)
2µ (2π~) E − ⃗p ± i ε
a 2µ

~2 k 2
Agora, escrevendo E = 2µ e ⃗p′ = ~⃗q, a expressão (17.18) será
∫ ∞ ∫ ∫ ′
1 2

ei |⃗q||⃗r−⃗r | cos θ
1
q dq dϕ d(cos θ) 2
(2π)3 0 0 −1 k − q2 ± i ε
∫ ∞ ′ ′
1 ei q|⃗r−⃗r | − e− i q|⃗r−⃗r |
=− dq q
i 8π 2 |⃗r −⃗r′ | −∞ k2 − q2 ± i ε

1 e± i k|⃗r−⃗r |
=− . (17.19)
4π |⃗r −⃗r′ |

Na última parte usamos o método dos resíduos, 5 observando o fato de termos polos no plano complexo
√ ( )

q = ±k 1 ± ≃ ±k ± i ε′ . (17.20)
k2

5
Uma excelente discussão sobre o método dos resíduos poderá ser encontrada no livro de G. Arfken, Mathematical methods for
physicist, (1970), além do magnifico livro de P. M. Morse and H. Feshbach, Methods of theoretical physics, (1953).
416 C AP. 17 T EORIA F ORMAL DO E SPALHAMENTO

Assim é fácil reconhecer que G±


a são as funções de Green para a equação de Helmholtz
( 2 )
∇ + k 2 G± ′ ′
a (⃗r,⃗r ) = δ (⃗r −⃗r ) .
3
(17.21)
Com a forma explicita de G± a dado pela relação (17.16), podemos usar (17.15) para escrever (17.7) como
∫ ± i k|⃗r−⃗r′ |
± 2µ 3 ′ e
⟨⃗r|ψa ⟩ = ⟨⃗r|φa ⟩ − 2 d r ⟨⃗r′ |V|ψa± ⟩ . (17.22)
~ 4π|⃗r −⃗r′ |
Para uma investigação mais explicita de ⟨⃗r|ψa± ⟩, vamos considerar um caso específico onde V é um
potencial local, onde
⟨⃗r′ |V|⃗r′′ ⟩ = V (⃗r′ ) δ 3 (⃗r′ −⃗r′′ ) (17.23)
como resultado


⟨⃗r |V|ψa± ⟩ = d3 r′′ ⟨⃗r′ |V|⃗r′′ ⟩⟨⃗r′′ |ψa± ⟩

= V (⃗r′ )⟨⃗r′ |ψa± ⟩ (17.24)


substituindo em (17.22) temos
∫ ′
2µ e± i k|⃗r−⃗r |
⟨⃗r|ψa± ⟩ = ⟨⃗r|φa ⟩ − 2 3 ′
d r V (⃗r′ )⟨⃗r′ |ψa± ⟩ . (17.25)
~ 4π|⃗r −⃗r′ |
Essa é uma equação integral inomogênea, note a presença da função a determinar ⟨⃗r′ |ψa± ⟩ como um dos
fatores do integrando, que desempenha um papel central na teoria formal do espalhamento. A atenção para
o entendimento físico contido nessa equação já foi explicitado no capítulo sobre espalhamento. Visando que
a solução ψa± de (17.25) satisfaça a condição de contorno de espalhamento (9.2), já visto anteriormente
⃗ ei kr
ψ → ei k ·⃗r + f (θ, ϕ) ,
r
no limite r → ∞, escolhemos G+ a e φa = e
i kz , o que nos leva a

∫ i k|⃗r−⃗r′ |
µ 3 ′ e
⟨⃗r|ψa+ ⟩ = ei kz − d ⃗
r V (⃗r′ ) ⟨⃗r′ |ψa+ ⟩ . (17.26)
2π~2 |⃗r −⃗r′ |
Como já discutido no capítulo de espalhamento, devemos observar que o problema não está resolvido, já
que o integrando da equação acima contém a própria função que queremos determinar. Um outro aspecto é
o fato de que o potencial oferece contribuição apreciável somente para os pontos muito proximo da origem,
i.e., para |⃗r′ | ≪ |⃗r|, onde V (⃗r′ ) torna-se significativo. Sendo assim, para um comportamento assintótico,
teremos √ ⃗r ·⃗r′
|⃗r −⃗r′ | = ⃗r2 +⃗r′ 2 − 2⃗r ·⃗r′ ≃ |⃗r| −
|⃗r|
o que permite concluir que no limite⃗r → ∞
[ ∫ ] i k|⃗r|
µ 3 ′ − i ⃗k ·⃗r′ ′ ′ + e
⟨⃗r|ψa ⟩ → e + −
+ i kz
d ⃗r e V (⃗r ) ⟨⃗r |ψa ⟩ . (17.27)
2π~ 2 |⃗r|
Isso mostra que ⟨⃗r|ψa+ ⟩ satisfaz à condição de contorno de espalhamento e ainda podemos identificar a
amplitude de espalhamento f (⃗k′ , ⃗k) como sendo dada por

µ ⃗ ′
′ ⃗
f (k , k) = −

2
d3⃗r′ e− i k ·⃗r V (⃗r′ ) ⟨⃗r′ |ψa+ ⟩
2π~
µ ⃗′
=− ⟨k |V|ψa+ ⟩ . (17.28)
2π~2

Para obter a seção de choque diferencial dΩ , seguiremos o mesmo passo já realizado anteriormente, ver
§9.2, como resultado temos

= |f (⃗k′ , ⃗k)|2 (17.29)
dΩ
que é o mesmo já obtido na Eq. (9.15) daquele paragrafo.
17.3. A PROXIMAÇÃO DE B ORN – T ERMOS DE O RDEM S UPERIORES 417

17.3 Aproximação de Born – Termos de Ordem Superiores


No paragrafo §9.9 vimos o desenvolvimento da aproximação de Born em primeira ordem. Agora, vamos
considerar a aproximação de Born em ordem superior. Para tal usaremos a teoria formal de espalhamento,
e escreveremos uma variante das equações de Lippmann-Schwinger na forma

|ψa± ⟩ = |φa ⟩ + G± ± ± ±
a V Ω |φa ⟩ ≡ |φa ⟩ + Ga T |φa ⟩ (17.30)

onde introduzimos e definimos o operador de transição T por

T± = V Ω± . (17.31)

Agora podemos escrever os estados emergentes, usando T = T+ , como


1
|ψa+ ⟩ = |φa ⟩ + T|φa ⟩ (17.32)
Ea − H0 + i ε
ou
∑ ⟨φb |T|φa ⟩
|ψa+ ⟩ = |φa ⟩ + |φb ⟩ . (17.33)
Ea − H0 + i ε
b
Os elementos da matriz de transição poderão ser escritos alternativamente como

Tba = ⟨φb |T|φa ⟩ = ⟨φb |V|ψa+ ⟩ . (17.34)

Esses resultados nos proporcionam um desenvolvimento perturbativo para as interações dependentes do


tempo. De (17.31) e (17.11) segue que

a V + V Ga V Ga V + · · ·
T = V Ω+ = V + V G + + +
[ ]
= V + V G+a V + V Ga V + · · ·
+

= V + V G+ +
a V Ω .

Assim, segue que o operador de transição satisfaz


1
T = V + V G+
a T=V+V T. (17.35)
Ea − H0 + i ε
A amplitude de espalhamento (17.28) poderá ser reescrita, usando a relação (17.35) com |φa ⟩ como autoket
de momentum, na forma
µ ⃗′ ⃗
f (⃗k′ , ⃗k) = − ⟨k |T|k⟩ . (17.36)
2π~2
Assim, para determinar f (⃗k′ , ⃗k) é suficiente conhecer o operador de transição T
1 1 1
T=V+V V+V V V + ···
Ea − H0 + i ε Ea − H0 + i ε Ea − H0 + i ε
e


f (⃗k′ , ⃗k) = f n (⃗k′ , ⃗k) (17.37)
n=1

onde n é o número de vezes que o operador V entra na operação. Logo, temos


µ ⃗′ ⃗
f 1 (⃗k′ , ⃗k) = − ⟨k |V|k⟩
2π~2
µ ⃗′ 1
f 2 (⃗k′ , ⃗k) = − ⟨k |V V|⃗k⟩ (17.38)
2π~2 Ea − H0 + i ε
..
.
418 C AP. 17 T EORIA F ORMAL DO E SPALHAMENTO

Figura 17.1 Interpretação física de f 2 .

onde f 1 é a amplitude de espalhamento em primeira ordem, f 2 é a amplitude de segunda ordem e assim


sucessivamente. Podemos escrever f 2 explicitamente como
∫ ∫ [ ]
1 2µ 3 ′ 3 ′′ − i ⃗k′ ·⃗r′ 2µ + ′ ′′ ⃗ ′′
f =−
2
d x d x e V(⃗r ) 2 G (⃗r ,⃗r ) V(⃗r′′ ) ei k ·⃗r .

(17.39)
4π ~ 2 ~
A interpretação física de f 2 está dado na Fig. 17.1, onde a onda incidente interage em ⃗r′′ , na qual explica
o termo V(⃗r′′ ), e então propaga de ⃗r′′ para ⃗r′ via função de Green G+ (⃗r′ ,⃗r′′ ) que satisfaz a equação de
Helmholtz ( 2 )
∇ + k 2 G± (⃗r′ ,⃗r′′ ) = δ 3 (⃗r′ −⃗r′′ ) ;
subsequentemente, a segunda interação ocorre em ⃗r′ , na qual explica o termo V(⃗r′ ), finalmente a onda é
espalhada na direção ⃗k′ . Em outras palavras, f 2 corresponde ao espalhamento via um processo de duas
etapas; consequentemente, f 3 corresponde ao espalhamento em três etapas, e assim sucessivamente.
A utilidade da expansão de Born para o cálculo de amplitudes de espalhamento e seções de choque
depende evidentemente das propriedades de convergência dessa expansão. A questão geral da convergência
da série de Born foi tratada por Jost e Pais 6 e posteriormente revisada por Weinberg 7 . Condições gerais
de convergência podem ser espressas em termos do núcleo G± a V da equação de Lippmann-Schwinger
(17.13), visto como um operador, não hermitiano, no espaço de Hilbert, mas seu uso é pouco frequente. As
aplicações mais usuais se restringem quase sempre apenas à primeira aproximação de Born.
É conveniente considerar com mais detalhe o papel que desempenha os deslocamentos ± i ε nos deno-
minadores do propagador. Para vermos isso, consideremos a força F (t) = F (0)eεt para t ≤ 0, F (t) = 0
para t > 0. Essa força se desconecta adiabaticamente, de forma muito lenta, quando t → ∞ e se interrompe
abruptamente em t = 0. Sua transformada de Fourier é
F0
F̃ (ω) =
i(ω − i ε)
e tem um polo em ω = i ε. Com ε = 0 não há desconexão adiabática, F (t) permanece constante, e o polo se
localiza na origem. Vemos assim que a determinação do propagador retardado com a troca de ω → ω − i ε
no denominador equivale a introduzir o fator e−ε|t| , i.e., a hipótese de desconexão adiabática no passado
remoto na teoria de perturbação. A troca do sinal de ε se aplica no caso do propagador avançado.
Ademais das soluções |ψa± ⟩ no contínuo, a hamiltoniana H pode possuir estados ligados |ψklig ⟩; os
estados emergentes, ou imergente, mais os estados ligados formam um conjunto completo:
∫ ∑ lig
da |ψa± ⟩⟨ψa± | + |ψk ⟩⟨ψklig | = 1 (17.40)
a k
6
Res Jost (1918–1990), físico suíço.
Abraham (Bram) Pais (1918–2000), físico holandês-americano.
R. Jost and A. Pais, Physical Review, 82, 840 (1951); Ver também W. Kohn, Review Modern Physics, 26, 292 (1954).
7
Steven Weinberg (1933– ), físico americano.
S. Weinberg, Physical Review, 130, 776 (1963); Idem, 131, 440 (1963).
17.4. F ÓRMULA DE G ELL -M ANN E G OLDBERGER PARA D OIS P OTENCIAIS 419

de onde podemos tomar qualquer dos dois sinais de ε.

17.4 Fórmula de Gell-Mann e Goldberger para Dois Potenciais


Outro resultado que pode ser obtido em termos da teoria formal e que é extremamente útil para tratar
problemas de espalhamento, foi obtida originalmente por Gell-Mann e Goldberger 8 , é a chamada fórmula
de dois potenciais. 9 Ela dá uma expressão para o operador de transição na superfície de energia, no caso
em que o potencial V é dado pela soma de dois potenciais V = V1 + V2 , em termos do operador de
transição correspondente ao potencial V1 apenas, mais um termo adicional que descreve os efeitos de V2
no processo de espalhamento.
O estado |ψ⃗+ ⟩ que descreve o espalhamento apenas pelos dois potenciais V1 + V2 é dado em termos
k0
da solução formal da equação de Lippmann-Schwinger (17.6) como

1
|ψ⃗+ ⟩ = |⃗k0 ⟩ + (V1 + V2 ) |⃗k0 ⟩ . (17.41)
k0 E + i ε − H0 − V1 − V2
Essa equação poderá ser transformada com o uso da identidade

1

E + i ε − H0 − V1 − V2
1 1 1
≡ + V2
E + i ε − H0 − V1 E + i ε − H0 − V1 E + i ε − H0 − V 1 − V 2

que permite que o ket |ψ⃗+ ⟩ seja escrito na forma


k0

1
|ψ⃗+ ⟩ =|⃗k0 ⟩ + (V1 + V2 ) |⃗k0 ⟩
k0 E + i ε − H0 − V1
1 1
+ V2 (V1 + V2 ) |⃗k0 ⟩
E + i ε − H0 − V1 E + i ε − H0 − V 1 − V 2
que, tendo em vista a relação (17.41), e também a sua correspondente para o espalhamento devido apenas
ao potencial V1 , dada por

1
|χ⃗+ ⟩ = |⃗k0 ⟩ + V1 |⃗k0 ⟩
k0 E + i ε − H0 − V1

leva a equação integral para |ψ⃗+ ⟩


k0

1
|ψ⃗+ ⟩ = |χ⃗+ ⟩ + V2 |ψ⃗+ ⟩ . (17.42)
k0 k0 E + i ε − H0 − V1 k0

Essa última relação é a equação de Lippmann-Schwinger cujo termo inomogêneo é o estado com condições
de contorno de espalhamento pelo potencial V1 apenas. Os efeitos do potencial V2 estão contidos no último
termo, no sentido de que esse termo se anula quando o operador V2 → 0. Essa relação pode originar a uma
série análoga à série de Born, eventualmente chamada de série de Born com ondas distorcidas pelo potencial
V1 , que é uma série em potências de V2 na qual os efeitos de V1 são tratados exatamente.
A chamada fórmula de dois potenciais de Gell-Mann e Goldberger é o resultado correspondente a essa
equação de Lippmann-Schwinger com ondas distorcidas formulado em termos do operador de transição.
Partindo da expressão para o elemento de matriz do operador de transição para os dois potenciais

⟨k0 r̂|T+ (k0 )|⃗k0 ⟩ = ⟨k0 r̂| (V1 + V2 ) |ψ⃗+ ⟩


k0

8
Marvin Leonard Goldberger (1922– ), físico americano.
9
M. Gell-Mann and M. L. Goldberger, Physical Review, 91, 398 (1953).
420 C AP. 17 T EORIA F ORMAL DO E SPALHAMENTO

e usando a relação (17.42) para reescrevê-la como

⟨k0 r̂|T+ (k0 )|⃗k0 ⟩ =⟨k0 r̂| (V1 + V2 ) |χ⃗+ ⟩


k0
1
+ ⟨k0 r̂| (V1 + V2 ) V2 |ψ⃗+ ⟩
E + i ε − H0 − V1 k0
1
=⟨k0 r̂|V1 |χ⃗+ ⟩ + ⟨k0 r̂|V1 V2 |ψ⃗+ ⟩
k0 E + i ε − H0 − V 1 k0
( )
1
+ ⟨k0 r̂|V2 |χ⃗+ ⟩ + V2 |ψ⃗+ ⟩ .
k0 E + i ε − H0 − V1 k0

Da Eq. (17.42), o último termo se reduz a ⟨k0 r̂|V2 |ψ⃗+ ⟩. O segundo termo, porém pode ser reduzido
k0
introduzindo o estado com a condição de contorno assintótica de ondas imergentes
1
|χ−
k0 r̂ ⟩ = |k0 r̂⟩ + V1 |k0 r̂⟩
E + i ε − H0 − V1
assim, segue que
1
⟨k0 r̂|V1 = ⟨χ−
k0 r̂ | − ⟨k0 r̂|
E + i ε − H0 − V1
o que finalmente leva à expressão para o operador de transição total

⟨k0 r̂|T+ (k0 )|⃗k0 ⟩ = ⟨k0 r̂|V1 |χ⃗+ ⟩ + ⟨χ−


k0 r̂ |V2 |ψ⃗ ⟩
+
k0 k0

= ⟨k0 r̂|T1 (k0 )|⃗k0 ⟩
+
+ ⟨χk0 r̂ |V2 |ψ⃗+ ⟩ , (17.43)
k0

onde T+ 1 (k0 ) é o operador de transição somente para o potencial V1 . É importante notar que essa expressão
exata envolve, no último termo, um estado de espalhamento pelo potencial V1 com condições de contorno
assintóticas de ondas imergentes. Em particular, a chamada aproximação de Born com ondas distorcidas é
obtida simplesmente substituindo nesse último termo o estado de espalhamento exato |ψ⃗+ ⟩ por sua aproxi-
k0
mação de ordem zero em V2 , i.e., |χ⃗+ ⟩. A expressão resultante
k0


⟨k0 r̂|T+ (k0 )|⃗k0 ⟩ = ⟨k0 r̂|T+ ⃗
1 (k0 )|k0 ⟩ + ⟨χk0 r̂ |V2 |ψ⃗ ⟩
+
k0

também envolve de modo essencial um estado de espalhamento com ondas imergentes no termo linear
em V2 .

17.5 Matriz S de Espalhamento


Introduziremos agora a matriz S de espalhamento. O processo de espalhamento pode ser descrito como a
transformação de um estado emergente em um estado imergente realizado pelo operador S de espalhamento,
escrevendo
|ψout ⟩ = S|ψin ⟩ (17.44)
onde |ψout ⟩ é o estado após a colisão, e |ψin ⟩ é o estado antes da colisão.
É fácil conectar o operador S com o operador de evolução temporal do sistema dado por (6.1). Usando
essa equação, identificamos S(t) = e− ~ Ht , podemos escrever o estado no tempo t em termos do estado no
i

tempo t0 na forma
|ψ (t)⟩ = S(t0 , t)|ψ (t0 )⟩ . (17.45)
O estado emergente descreve agora o sistema antes da interação, ou seja, descreve o estado incidente antes
da colisão, e o estado imergente é o estado final, após a colisão. Logo, podemos escrever

|ψin ⟩ = |ψ (−∞)⟩, |ψout ⟩ = |ψ (∞)⟩ (17.46)


17.5. M ATRIZ S DE E SPALHAMENTO 421

e de (17.44) e (17.46) segue que


S= lim S(t0 , t) . (17.47)
t0 →−∞, t→∞

Da unitaridade do operador de evolução temporal, ver (6.5), temos que o operador S é unitário. Seja agora
o estado emergente um estado dado pelo conjunto completo |n⟩; em concreto, seja |ψin ⟩ = |i⟩ o estado
inicial. O estado imergente será expresso em termos desse conjunto |n⟩ como

|ψout ⟩ = an |n⟩
n

A amplitude de um estado |f ⟩ qualquer em |ψout ⟩ é

⟨f |ψout ⟩ ≡ af = ⟨f |S|ψin ⟩ = ⟨f |S|i⟩ (17.48)

que mostra que o elemento de matriz Sf i é a amplitude do estado |f ⟩ no estado espalhado produzido a partir
de um estado inicial |i⟩.
É possível expressar a matriz S em termos dos estados emergente e imergente. Por exemplo, conside-
rando que a soma se extenda sobre todos os possíveis estados, escrevemos
∑ ∑
|ψa+ ⟩ = |ψb− ⟩⟨ψb− |ψa+ ⟩ = Sba |ψb− ⟩
b

de onde, utilizando (17.10), segue que

Sf i = ⟨f |S|i⟩ = ⟨ψf− |ψi+ ⟩ = ⟨ψf |Ω−† Ω+ |ψi ⟩ (17.49)

e obtemos
S = Ω−† Ω+ . (17.50)
Assim, vemos que os elementos da matriz S entre os estados definidos como final e inicial da hamiltoniana
H0 vêm do produto interno dos kets da equação de Lippmann-Schwinger. Agora, podemos utilizar algumas
das bases introduzidas para efetuar os desenvolvimentos apropriados. Por exemplo, podemos escrever

1 ∑
|ψa+ ⟩ = |ψb− ⟩ Sab d3 kb (17.51)
(2π)3
b

com a soma estendida sobre todos os estados discretos internos, etc..


A Eq. (17.4) será reescrita na forma

(Ea − H0 − V)|ψa ⟩ = (Ea − H0 − V)|φa ⟩ + V|φa ⟩

donde se segue que


1
|ψa± ⟩ = |φa ⟩ + V|φa ⟩ .
Ea − H ± i ε
Com isso podemos escrever
1
Sf i = ⟨ψf− |ψi+ ⟩ = ⟨φf |ψi+ ⟩ + ⟨φf |V |ψ + ⟩
Ef − H + i ε i
⟨φf |V|ψi+ ⟩
= ⟨φf |ψi+ ⟩ +
Ef − Ei + i ε
[ ]
1 1
= ⟨φf |φi ⟩ + − ⟨φf |V|ψi+ ⟩
Ef − Ei + i ε Ef − Ei − i ε

usando (17.34), temos


2iε
Sf i = δ f i − ⟨φf |T|φi ⟩ .
(Ef − Ei )2 + ε2
422 C AP. 17 T EORIA F ORMAL DO E SPALHAMENTO

Com o auxílio da identidade


ε
lim = πδ(x)
ε→0 x2 + ε2
finalmente temos
Sf i = δf i − 2π i δ(Ef − Ei )Tf i . (17.52)
A presença do fator δ(Ef − Ei ) mostra explicitamente que os elementos da matriz S são definidos pelos
elementos da matriz T na superfície de energia apenas.
Se as ondas planas forem escolhidas em termos de espaço de momentum, i.e., os vetores de onda inicial
e final são respectivamente ⃗k e ⃗k′ , e levando em conta a ortogonalidade dos autokets, então a última relação
poderá ser escrita na forma

⟨⃗k′ |S|⃗k⟩ = δ(⃗k′ − ⃗k) − 2π i δ(Ek′ − Ek )⟨⃗k′ |T(k)|⃗k⟩ .

Usando essa relação podemos calcular a probabilidade de transição P (⃗k → ⃗k′ ), para ⃗k ̸= ⃗k′ temos

P (⃗k → ⃗k′ ) = 4π 2 δ 2 (Ek′ − Ek )|Tk′ ,k |2 .

Formalmente
δ 2 (Ek′ − Ek ) = δ(Ek′ − Ek )δ(0) .
Definindo a função delta como limite,
∫ T /2
1 E
δ(E) = lim dt ei ~
t
2π~ T →∞ −T /2

podemos dizer que


T
δ(0) = lim .
T →∞ 2π~
dP
Assim, a probabilidade de transição por unidade de tempo, Γ = dt será dada por


Γ⃗k→⃗k′ = |Tk′ ,k |2 δ(Ek′ − Ek ) . (17.53)
~

Integrando essa relação para todo conjunto de estados finais ∆⃗k′ suficientemente estreito e com um campo
de energia arbitrário, temos (⃗k = ⃗k′ )

Γ⃗k→∆⃗k′ = |Tk′ ,k |2 ρ(Ek′ ) . (17.54)
~
Essa é uma expressão exata, a diferença entre essa relação (17.54) e a regra de ouro de Fermi dada pela Eq.
(15.66), é que a última é válida somente para correções de primeira ordem da teoria de perturbação.
Como
1 1 1
T=V+V V+V V V + ···
Ea − H0 + i ε Ea − H0 + i ε Ea − H0 + i ε
então em correções de primeira ordem
2π 2
Γ⃗k→⃗k′ = Vk′ ,k ρ(Ek′ ) (17.55)
~
que é a regra de ouro de Fermi No 2 dada pela Eq. (15.66), e a contribuição de segunda ordem nos dará
2
2π Vk′ ,k′′ Vk′′ ,k
Γ⃗k→⃗k′ = ρ(Ek′ ) (17.56)
~ Ek − Ek′′ + i ε

que é a regra de ouro de Fermi No 1. 10


17.6. I NVARIÂNCIA ROTACIONAL E M ATRIZ S 423

Figura 17.2 Rotação dos estados inicial e final.

17.6 Invariância Rotacional e Matriz S


Se uma rotação espacial é aplicada em todos os estados de um sistema físico no qual ocorre um espalha-
mento, os estados em espaço de momentum inicial e final são rodados rigidamente, veja Fig. 17.2. De acordo
com §10.1, temos a aplicação do operador unitário de rotação D(R). Se temos força central, V = V(r), a
matriz de espalhamento será a mesma antes e depois da rotação, i.e., a matriz de espalhamento é invariante
sob a ação da rotação.
Para demostração desse argumento seguiremos os seguintes passos. Suponhamos que H0 e V são inva-
riantes sob a mesma operação de simetria. Se o operador da simetria escolhida é unitário, como a rotação e
paridade, nossas hipóteses são imediatas. Usando a forma explicita de T dada por
1 1 1
T=V+V V+V V V + ···
Ea − H0 + i ε Ea − H0 + i ε Ea − H0 + i ε
e sabendo que
UH0 U† = H0 UVU† = V
temos T invariante sob a ação de U, i.e.,
UTU† = T .
Assim, definimos
|⃗k⟩U = U|⃗k⟩ |⃗k′ ⟩U = U|⃗k′ ⟩ .
Logo
⃗′ ⃗
U ⟨k |T|k⟩U = ⟨⃗k′ |U† UTU† U|⃗k⟩
= ⟨⃗k′ |T|⃗k⟩ . (17.57)

Consequentemente, de

⟨⃗k′ |S|⃗k⟩ = δ(⃗k′ − ⃗k) − 2π i δ(Ek′ − Ek )⟨⃗k′ |T(k)|⃗k⟩

a matriz S também será invariante sob a ação de U.


Sendo D(R) um operador unitário de rotação, temos
⃗′ ⃗
D(R) ⟨k |S|k⟩D (R) = ⟨⃗k′ |S|⃗k⟩ . (17.58)
10
Essa relação encontramos na p. 148 do livro de E. Fermi, Nuclear Physics, (1950).
424 C AP. 17 T EORIA F ORMAL DO E SPALHAMENTO

Assim, a matriz de espalhamento não poderá depender da orientação absoluta dos vetores ⃗k′ e ⃗k no espaço.
Ela poderá ser somente uma função da energia e do ângulo entre os momenta inicial e final. Se as partículas
não têm spin, a matriz de espalhamento poderá ser escrita na forma

∑ ′
⟨⃗k′ |S|⃗k⟩ = δ(k − k ′ ) Fl (k) Pl (k̂ · k̂ ) . (17.59)
l=0

Os coeficientes Fl (k) são determinados para um fator de fase que envolve a relação de unitaridade da matriz
de espalhamento, ∫
⟨⃗k′ |S|⃗k′′ ⟩⟨⃗k|S|⃗k′′ ⟩∗ d3 k ′′ = δ(⃗k − ⃗k′ ) . (17.60)

Substituindo (17.59) em (17.60) e observado que a integração ocorre no espaço-⃗k′′ , obtemos



∑ 4π ′
k 2 δ(k − k ′ ) |Fl (k)|2 Pl (k̂ · k̂ ) = δ(⃗k − ⃗k′ ) (17.61)
2l + 1
l=0

onde usamos
4π ∑ m ∗
l

Pl (k̂ · k̂ ) = Pl (cos θ′ ) = Yl (β, α) Ylm (θ, ϕ) .
2l + 1
m=−l

Sabemos pelo potencial central que podemos usar a seguinte identidade:



δ(k − k ′ ) ∑ 4π ′
δ(⃗k − ⃗k′ ) = 2
Pl (k̂ · k̂ ) . (17.62)
k 2l + 1
l=0

Das Eqs. (17.61) e (17.62), encontramos imediatamente os coeficientes Fl (k) na forma

2l + 1 2 i δl (k)
fl (k) = e (17.63)
4πk 2
onde δl (k) são funções reais do momentum ou da energia. Inserindo esse resultado em (17.59), concluímos
que a matriz de espalhamento será

∑ 2l + 1 ′
⟨⃗k′ |S|⃗k⟩ = δ(k − k ′ ) e2 i δl (k) Pl (k̂ · k̂ ) . (17.64)
4πk 2
l=0

Então, usando a representação do momentum angular orbital, temos


∫ ∫
⟨klm|S|k l m ⟩ = d k1 d3 k2 ⟨klm|⃗k1 ⟩⟨⃗k1 |S|⃗k2 ⟩⟨⃗k2 |k ′ l′ m′ ⟩
′ ′ ′ 3
(17.65)

A relação geral entre os elementos de matriz de S e de T no espaço de momentum,

⟨⃗k1 |S|⃗k2 ⟩ = δ(⃗k1 − ⃗k2 ) − 2π i δ(E1 − E2 )⟨⃗k1 |T(k2 )|⃗k2 ⟩

pode ser escrita como


⟨⃗k1 |S − I|⃗k2 ⟩ = −2π i δ(E1 − E2 )⟨⃗k1 |T(k2 )|⃗k2 ⟩ (17.66)
que em vista do fator δ(E1 − E2 ), mostra explicitamente que

⟨⃗k1 |S − I|⃗k2 ⟩ = 0 ⇒ ⟨⃗k1 |S|⃗k2 ⟩ = 0

para |⃗k1 | ̸= |⃗k2 |. Em outras palavras, o operador S é diagonal no módulo dos momenta, e como é tam-
bém diagonal nos números quânticos associados ao momentum angular, como consequência da invariância
17.7. T EOREMA Ó PTICO – D EMOSTRAÇÃO F ORMAL 425

rotacional do potencial V, é diagonal na base esférica. Os vetores dessa base são portanto os canais ca-
racterísticos, neste caso. Em vista da unitaridade de S é possível escrever então, usando a normalização
⟨klm|k ′ l′ m′ ⟩ = δll′ δmm′ δ(E − E ′ ) para os vetores da base esférica,

⟨klm|S|k ′ l′ m′ ⟩ = e2 i δlm (k) δll′ δmm′ δ(E − E ′ ) .

Na realidade, a invariância rotacional de S, expressa pela relação de comutação [S, ⃗L] = 0, identifica esse
operador como um tensor de Racah de ordem zero. Como [S, ⃗L] = 0, implica que [S, L± ] = 0, i.e.,
δlm (k) = δl,m±1 (k) e δlm (k) é na realidade independente de m, e pode portanto ser escrito simplesmente
como δl (k). Assim, desse modo a relação (17.66), transformada para a base esférica, fica reduzida a
( )
⟨klm|S − I|k ′ l′ m′ ⟩ = e2 i δl (k) − 1 δll′ δmm′ δ(E − E ′ )
= −2π i δ(E1 − E2 )⟨klm|T(k′ )|k ′ l′ m′ ⟩

daí resulta que


⟨klm|T(k′ )|k ′ l′ m′ ⟩ = Tl (k)δll′ δmm′
com
e2 i δl (k) − 1 1
Tl (k) = = − ei δl (k) sen δl (k) .
2π i π
Fica claro que e2 i δl (k) é o autovalor da matriz de espalhamento S.
Por outro lado, podemos escrever os elementos da matriz de espalhamento em termos da amplitude de
espalhamento, [∞ ]
∑ 2l + 1 ′ i ′
′ ′
⟨⃗k |S|⃗k⟩ = δ(k − k ) Pl (k̂ · k̂ ) + f⃗ (k̂ ) . (17.67)
4πk 2 2πk k
l=0

Comparando (17.64) e (17.67), temos



′ 1∑ ′
f⃗k (k̂ ) = (2l + 1) ei δl (k) sen δl (k) Pl (k̂ · k̂ ) . (17.68)
k
l=0

Assim, derivamos novamente o resultado principal da análise de ondas parciais, visto no parágrafo §9.3,
diretamente da invariância rotacional do operador de espalhamento.

17.7 Teorema Óptico – Demostração Formal


Já vimos o teorema óptico, ou relação Bohr-Peierls-Placzek no paragrafo §9.4. Porém, nesta seção iremos
fazer uma demostração formal desse importante teorema usado no espalhamento quântico.
Se tivermos
kσtot
ℑ[f (θ = 0)] ≡ (17.69)

onde
f (θ = 0) = f (⃗k′ , ⃗k) (17.70)
e ajustando ⃗k′ = ⃗k, isso impõe o espalhamento na direção da partícula incidente, e


σtot = dΩ . (17.71)
dΩ

Prova. Usando a Eq. (17.28) podemos escrever

1 2µ
f (θ = 0) = f (⃗k, ⃗k) = − (2π)3 ⟨⃗k|T|⃗k⟩ (17.72)
4π ~2
426 C AP. 17 T EORIA F ORMAL DO E SPALHAMENTO

pois ⃗k′ = ⃗k. Resolvendo ℑ[⟨⃗k|T|⃗k⟩] usando as condições


V|ψ + ⟩ = T|φ⟩
e
1
|ψ + ⟩ = |φ⟩ + V|ψ + ⟩
E − H0 ± i ε
e a hermeticidade de V
ℑ[⟨⃗k|T|⃗k⟩] = ℑ[⟨⃗k|V|ψ + ⟩]
[( ) ]
1
= ℑ ⟨ψ + | − ⟨ψ + |V V|ψ ⟩
+
(17.73)
E − H0 − i ε
Com o uso da conhecida relação 11
( )
1 1
=P + i πδ(E − H0 )
E − H0 − i ε E − H0
o lado direito de (17.73) será
[ ( ) ]
1
ℑ[⟨ψ |V|ψ ⟩] − ℑ ⟨ψ |VP
+ +
+
V|ψ ⟩+
E − H0
[ ]
− ℑ ⟨ψ + |V i πδ(E − H0 )V|ψ + ⟩ (17.74)
( )
1
pela hermeticidade de V e VP E−H 0
V, os dois primeiros termos de (17.74) se anulam. Logo, aquela
equação será
− π⟨ψ + |Vδ(E − H0 )V|ψ + ⟩ . (17.75)
Como V|ψ ⟩ = T|φ⟩ e |φ⟩ = |⃗k⟩, da relação (17.73) temos
+

ℑ[⟨⃗k|T|⃗k⟩] = −π⟨⃗k|T† δ(E − H0 )T|⃗k⟩


∫ ( )
3 ′ ⃗ †⃗′ ⃗′ ⃗ ~2 k ′2
= −π d k ⟨k|T |k ⟩⟨k |T|k⟩δ E −


µk
= −π dΩ′ 2 |⟨⃗k′ |T|⃗k⟩|2 (17.76)
~
( ′)
~2 k′2 ~2 k ′
onde usamos d3 k ′ = k ′2 dE dk ′
dE dΩ , a função δ vinculada à E = 2µ , com dE = µ dk ′ , e finalmente
k = k ′ . Usando as Eqs. (17.72) e (17.76), temos
( ∫ )
1 2µ πµk ′ ⃗′ ⃗
ℑ[f (θ = 0)] = − (2π) − 2
3
dΩ |⟨k |T|k⟩|2
(17.77)
4π ~2 ~
finalmente, considerando que

= |f (⃗k′ , ⃗k)|2
dΩ
1 2µ
f (⃗k′ , ⃗k) = − (2π)3 ⟨⃗k′ |T|⃗k⟩
4π ~2
e ∫

σtot = dΩ
dΩ
encontramos
kσtot
ℑf (θ = 0) = . (17.78)

Com essa demostração, temos o teorema óptico formalmente provado.


11
P. M. Morse and H. Feshbach, Methods of theoretical physics, (1953).
17.8. S IMETRIA DE R EVERSÃO T EMPORAL 427

17.8 Simetria de Reversão Temporal


Quando a operação de simetria é antiunitária, como no caso da inversão temporal, devemos ter certos cuida-
dos. Primeiro devemos requerer que V bem como H0 sejam invariantes sob a ação do operador de inversão
temporal, com isso requer que
KTK−1 = T† . (17.79)

Isso porque o operador antiunitário altera

1 1
⇒ (17.80)
E − H0 + i ε E − H0 − i ε
em
1 1 1
T=V+V V+V V V + ···
Ea − H0 + i ε Ea − H0 + i ε Ea − H0 + i ε
Para um operador antiunitário
⟨β|α⟩ = ⟨α̃|β̃⟩

onde
|α̃⟩ ≡ K|α⟩ |β̃⟩ ≡ K|β⟩ .

Vamos considerar
|α⟩ = T|⃗k⟩ ⟨β| = ⟨⃗k′ | (17.81)

então

|α̃⟩ = KT|⃗k⟩ = KTK−1 K|⃗k⟩ = T† | − ⃗k⟩


|β̃⟩ = K|⃗k⟩ = | − ⃗k′ ⟩ . (17.82)

Assim, de ⟨β|α⟩ = ⟨α̃|β̃⟩ temos


⟨⃗k′ |T|⃗k⟩ = ⟨−⃗k|T| − ⃗k′ ⟩ (17.83)

devido a propriedade antiunitário do operador K. Combinando esse resultado com uma inversão do caminho
da partícula, rotação de π rad, temos

⟨⃗k′ |T|⃗k⟩ ⟨−⃗k|T| − ⃗k′ ⟩ ⟨⃗k|T|⃗k′ ⟩


sob K sob π
−−−→ −−−→ (17.84)

e a amplitude será
f (⃗k′ , ⃗k) = f (⃗k, ⃗k′ ) . (17.85)

Essa equação expressa a igualdade de dois processos de espalhamento obtido pela inversão de caminho da
partícula e é conhecida como relação de reciprocidade. 12

Problemas
17.1 Mostre que, no espaço de Hilbert das autofunções da hamiltoniana referência H0 , temos os operadores
(Ea − H0 ± i ε)−1 bem definidos, i.e., seus autovalores e suas autofunções podem ser encontradas.

17.2 Seja {ξ} o conjunto de uma dada representação. Usando a relação de completeza |ξ⟩dξ⟨ξ| = 1 para
os estados |ξ⟩ na qual formam a base da representação, mostre que a equação de Lippmann-Schwinger
se reduz a equação integral de Fredholm para as representações de estados na representação {ξ}.
12
J. M. Blatt and V. F. Weisskopf, Theoretical Nuclear Physics, (1952).
428 C AP. 17 T EORIA F ORMAL DO E SPALHAMENTO

~ ⃗2
∇ , H′ = V (⃗r),
2
17.3 Mostre que, para o potencial de espalhamento de uma partícula, na qual H0 = − 2µ
~2 k 2
Ek = 2µ , na representação de coordenada, a equação de Lippmann-Schwinger
1
|ψk+ ⟩ = |φk ⟩ + lim H′ |ψk+ ⟩
ε→0 Ek − H0 ± i ε
se reduz a equação integral
∫ i k|⃗r−⃗r′ |
1 e
= φk (⃗r) −
ψk+ (⃗r) U (⃗r′ ) ψk+ (⃗r′ ) d⃗r′
4π |⃗r −⃗r′ |
para as autofunções correspondentes. Nota: U (⃗r) = 2µ
~2
V (⃗r).

17.4 Partindo da equação |ψa± ⟩ = |φa ⟩ + limε→+0 ′ ±


Ea −H0 ±i ε H |ψa ⟩ ,
1
mostre que
1
|ψa± ⟩ = |φa ⟩ + lim H′ |φa ⟩ .
ε→+0 Ea − H ± i ε

17.5 Sejam |ψa+ ⟩ e |ψb+ ⟩ dois diferentes estados incidentes do sistema. Mostre que a relação de ortogo-
nalidade permanece válida ⟨ψa+ |ψb+ ⟩ = δab , onde δab é a função delta de Dirac, e os estados são
convenientemente normalizados.

17.6 Usando os resultados dos problemas anteriores, deduza as relações


1 1
⟨φb |ψa± ⟩ = δab + lim ⟨φb |H′ |ψa± ⟩ e ⟨ψαL |φb ⟩ = ⟨ψ L |H′ |φb ⟩ ,
ε→+0 Ea − Eb ± i ε Ea − Eb α
onde o índice L refere-se aos estados ligados de H.

17.7 O formalismo de Lippmann-Schwinger pode ser aplicado à problemas de transição-reflexão unidi-


mensional com um potencial de alcance finito, V (x) ̸= 0 somente para 0 < |x| < a.
ei kx
a) Supondo uma onda incidente vindo da esquerda: ⟨x|φ⟩ = √ 2π
. O quanto devo trabalhar no ope-
rador singular (E − H0 )−1 se quero uma onda transmitida somente para x > a e uma onda refletida
somente para x < −a? A prescrição E → E + i ε ainda é correta? Obtenha uma expressão para a
função de Green apropriada e escreva a equação integral para ⟨x|ψ + ⟩. ( )
2
b) Considere o caso especial de uma potencial atrativo dado por V = − γ~ 2µ δ (x) com γ > 0 . So-
lucione a equação integral para obter as amplitudes de transmissão e reflexão. Observação: Verifique
seu resultado com o do Prof. Gottfried [36], 52.
c) O potencial em forma de função delta unidimensional com γ > 0 admite um, e somente um, estado
ligado para qualquer valor de γ. Mostre que as amplitudes de transmissão e reflexão computadas têm
polos de estados ligados na posição esperada quando k é considerado como uma variável complexa.

17.8 a) Prove que


~2 1 ∑∑
|⃗r′ ⟩ = − i k Ylm (r̂)Ylm ∗ (r̂′ )jl (kr< )hl (kr> )
(1)
⟨⃗r|
2µ E − H0 + i ε m
l
onde r< (r> ) entende-se para o menor (maior) de r e r′ .
b) Para potenciais esfericamente simétricos, a equação de Lippmann-Schwinger pode ser escrita por
ondas esféricas: |Elm(+)⟩ = |Elm⟩ + E−H10 +i ε V |Elm(+)⟩ . Usando a), mostre que essa equação,
escrita na representação de coordenadas, conduz à uma equação para função radial, Al (k; r), como
segue:

2µ i k ∞
jl (kr< )hl (kr> )V (r′ )Al (k; r′ )r′ dr′ .
(1) 2
Al (k; r) = jl kr −
~ 2
0
Tomando r muito grande, também obtemos
( )∫ ∞
i δl sen δl 2µ
fl (k) = e =− jl (kr)Al (k; r)V (r)r2 dr .
k ~2 0
17.8. S IMETRIA DE R EVERSÃO T EMPORAL 429

Leitura Recomendada
Com relação a teoria formal de espalhamento e sua conexão com a expansão perturbativa, recomendo os
livros:

– A. F. R. de Toledo Piza [79];


– E. Merzbacher [61];
– C. Cohen-Tannoudji, B. Diu and F. Laloë [21];
– J. J. Sakurai [74];
– A. Messiah [62].

Ainda recomendo ao leitor uma leitura do livro:

– L. I. Schiff [77].

Esse livro é um dos poucos que traz em detalhes as regras de ouro de Fermi, No 1 e No 2, além de ser um
clássico da mecânica quântica.
430
Capítulo 18
Partículas Idênticas

Até esse ponto estudamos sistemas que contém apenas uma partícula. Todavia, um grande número de sis-
temas reais apresenta mais de uma partícula e muitas dessas são iguais. Por exemplo, um átomo de hélio
apresenta dois elétrons e um núcleo, enquanto que uma molécula de hidrogênio possui dois elétrons e dois
prótons. Neste capítulo vamos analisar as consequências de um sistema quântico possuir partículas idên-
ticas. Uma diferença grande entre sistemas clássicos e quânticos apresentando partículas idênticas é que
classicamente estas são distinguíveis ao passo que o mesmo não ocorre no contexto quântico. Essas obser-
vações se devem as descobertas de Dirac e Heisenberg em 1926. 1 Ainda neste capítulo faremos um breve
estudo da segunda quantização para sistemas de partículas constituídos de bósons e férmions.

18.1 Princípio da Indistinguibilidade


Em mecânica clássica, partículas iguais, apesar de idênticas em suas propriedades físicas, não perdem sua
individualidade: podemos imaginar que as partículas que entram na composição de um sistema físico se
enumeram em certo instante e logo se segue o movimento de cada uma das partículas em suas respectivas
trajetórias; nesse caso, as partículas são identificadas em qualquer instante.
Mas na mecânica quântica a situação varia completamente. Em virtude do princípio da incerteza, o con-
ceito de trajetória de um elétron perde seu sentido completamente. Se conhecemos exatamente a posição de
um elétron num instante inicial, no instante seguinte suas coordenadas não terão nenhum valor determinado.
Por essa razão, localizando os elétrons e enumerando-os num certo instante, não podemos identificá-los nos
instantes seguintes; ao localizar em certo ponto do espaço um dos elétrons, em outro instante posterior não
temos como dizer qual dos elétrons era aquele originalmente enumerado.
Na mecânica quântica não existe, por princípio, nenhuma possibilidade de seguir individualmente cada
uma das partículas iguais, i.e., de distinguí-las. Podemos dizer que em mecânica quântica as partículas iguais
perdem por completo sua individualidade. A identidade das partículas em relação a suas propriedades físicas
têm aqui um caracter muito profundo: conduz a indistinguibilidade completa das partículas.
Essa característica, conhecida pelo nome de princípio da indistinguibilidade das partículas idênticas,
desempenham um papel fundamental na teoria quântica dos sistemas formados por tais partículas. Vamos
considerar um sistema constituído por duas partículas idênticas. Devido a sua identidade, os estados do
sistema que se obtém um do outro por simples permutação de ambas partículas devem ser completamente
equivalentes do ponto de vista da física. Isso quer dizer que como resultado dessa permutação, a função de
onda do sistema pode variar por um fator de fase de pouca importância. Seja ψ (ξ1 , ξ2 ) a função de onda do
sistema físico considerado, e ξ1 e ξ2 o conjunto das três coordenadas e a projeção do spin de cada uma das
partículas, ou seja ξi ≡ (⃗ri , ⃗σ i ). Então, temos

ψ (ξ1 , ξ2 ) = ei α ψ (ξ2 , ξ1 )
1
P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society, A111, 281 (1926); Idem, A112, 661 (1926); Idem, A113, 621 (1926).

431
432 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

onde α é uma constante real a ser determinada. Como resultado de uma segunda permutação voltaremos ao
estado inicial,
( )
ψ (ξ1 , ξ2 ) = ei α ψ (ξ2 , ξ1 ) = ei α ei α ψ (ξ1 , ξ2 ) = e2 i α ψ (ξ1 , ξ2 )
onde se deduz que e2 i α = 1, ou seja ei α = ±1. Logo,

ψ (ξ1 , ξ2 ) = ±ψ (ξ2 , ξ1 ) .

Assim, chegamos ao resultado de que existem duas possibilidades: a função de onda é simétrica, quando
α = 0; ou é antissimétrica, quando α = π. É evidente que as funções de onda de todos os estados de um
mesmo sistema devem ter a mesma simetria; caso contrário, a função de onda de um estado que represente
uma superposição de estados de simetrias distintas, não seria nem simétrica e nem antissimétrica.
Esse resultado se generaliza diretamente à sistemas constituídos por um número arbitrário de partícu-
las idênticas. De fato, em virtude da identidade das partículas, fica claro, que se um par qualquer, dessas
partículas, têm a propriedade de poder-se descrever, por exemplo, por funções de onda simétrica, qualquer
outro par dessas mesmas partículas possuirá tal propriedade. Por essa característica, a função de onda das
partículas idênticas deve (ou não) variar em absoluto ao permutar qualquer par de partículas (e, por conse-
guinte, ao produzir-se uma permutação qualquer de partículas) ou trocar de sinal ao permutar cada par. No
primeiro caso, temos a função de onda simétrica, e no segundo caso, a função de onda antissimétrica.
As partículas que são descritas por funções antissimétricas obedecem a estatística de Fermi-Dirac e são
conhecidas como férmions, e as partículas que são descritas por funções simétricas obedecem a estatística
de Bose-Einstein e são conhecidas como bósons. Essa terminologia está relacionada com a denominação das
estatísticas mediante as quais descreve um gás constituído por partículas cujas funções são antissimétricas e
simétricas, respectivamente. Aqui nos encontramos não somente com estatísticas diferentes, como também
com mecânicas distintas. A estatística de Fermi-Dirac foi proposta por Fermi em 1926 2 e sua relação com
a mecânica quântica ficou explicita por Dirac, ainda em 1926. 3 A estatística de Bose-Einstein foi proposta
por Bose em 1924, para quantas de luz, 4 e generalizada por Einstein em 1925. 5 A permutação de bósons
não varia em absoluto a função de onda, já a permutação de férmions muda seu sinal. Como consequência,
as partículas compostas que constituem um número impar de férmions elementares obedecem a estatística
de Fermi-Dirac, mesmo que as que constituem um número par dos ditos férmions obedeçam a estatística de
Bose-Einstein. Esse resultado está de acordo com a regra geral: uma partícula composta têm spin inteiro ou
semi-inteiro na dependência de ser par ou impar o número de partículas com spin semi-inteiro que entram
em sua composição.
Consideremos um sistema formado por N partículas idênticas na qual podemos descrever sua ação
mútua. Seja ψ1 , ψ2 , · · · , ψN as funções de onda dos distintos estados estacionários. O estado do sistema
em conjunto poderá ser determinado enumerando os estados nos quais se encontram as distintas partículas.
A pergunta é: como se deve formar a função de onda ψ, do sistema, a partir das funções ψ1 , ψ2 , · · · , ψN ?
Seja p1 , p2 , · · · , pN os números dos estados em que se encontram as distintas partículas, entre esses
números podem haver números iguais.
Para um sistema de bósons, a função de onda ψ (ξ1 , ξ2 , · · · , ξN ) será expressa por uma soma de produtos
da forma
ψp1 (ξ1 )ψp2 (ξ2 ) · · · ψpN (ξN ) (18.1)
com todas as permutações possíveis dos diferentes ψ1 , ψ2 , · · · , ψN ; essa soma possuí a propriedade
de simetria exigida. Assim, para um sistema de duas partículas que se encontram em estados diferentes,
p1 ̸= p2 , temos para o sistema de bósons a função de onda ψ (ξ1 , ξ2 ) expressa pela soma de produtos dado
por
1
ψ (ξ1 , ξ2 ) = √ [ψp1 (ξ1 )ψp2 (ξ2 ) + ψp1 (ξ2 )ψp2 (ξ1 )] . (18.2)
2
2
E. Fermi, Rend. Lincei, 3, 145-149 (1926).
3
P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society, Series A 112, 661-677 (1926).
4
S. N. Bose, Zeitschrift für Physik, 26, 178 (1924).
5
A. Einstein, Sitzungsberichte der Preussischen Akademie der Wissenschaften, 1, 3 (1925).
18.2. O PERADORES DE P ERMUTAÇÃO 433

O fator √12 foi introduzido devido a normalização. Todas as funções ψ1 , ψ2 , · · · , ψN são mutuamente
ortogonais e normalizadas. No caso geral, em que temos o número N de partículas arbitrário, a função de
onda normalizada será
( )1
N1 !N2 ! · · · 2 ∑
ψ= ψp1 (ξ1 )ψp2 (ξ2 ) · · · ψpN (ξN ) (18.3)
N!
onde a soma se extende a todas as permutações dos diferentes índices∑p1 , p2 , · · · , pN , e os números Ni
indicam quantos desses índices têm os mesmos valores de i, sendo Ni = N . Ao integrar o quadrado
da função |ψ| em relação a dξ1 dξ2 · · · dξN anulam-se todos os termos, exceto somente os quadrados dos
2

módulos de cada um dos termos da soma; como o número total de termos da soma em (18.3) é igual a
N!
N1 !N2 ! · · ·
daqui se obtém o coeficiente de normalização em (18.3).
Para um sistema de férmions, a função de onda ψ será a combinação antissimétrica dos produtos (18.1).
Assim, para o sistema de duas partículas, temos
1
ψ (ξ1 , ξ2 ) = √ [ψp1 (ξ1 )ψp2 (ξ2 ) − ψp1 (ξ2 )ψp2 (ξ1 )] . (18.4)
2
No caso geral de N partículas, a função de onda do sistema será expressa na forma de um determinante
 
ψp1 (ξ1 ) ψp1 (ξ2 ) · · · ψp1 (ξN )
 ψp (ξ1 ) ψp (ξ2 ) · · · ψp (ξN ) 
1  2 2 2 
ψ (ξ1 , ξ2 , · · · , ξN ) = √ det  . .. .. .. . (18.5)
N!  .
. . . . 
ψpN (ξ1 ) ψpN (ξ2 ) · · · ψpN (ξN )

A permutação de duas partículas corresponde aqui a permutação de duas colunas do determinante, como
resultado do qual esse último troca de sinal. Esse determinante para funções antissimétricas e conhecido
como determinante de Slater 6 .
Da Eq. (18.5) tiramos um importante resultado. Se entre os números p1 , p2 , · · · , pN existe dois iguais,
duas linhas do determinante serão iguais e seu resultado será nulo. O determinante será diferente de zero
nos casos em que todos os números p1 , p2 , · · · , pN forem distintos. Portanto, em um sistema de férmions
idênticos, não podemos encontrar no mesmo estado duas, ou mais, partículas. Esse é o conhecido princípio
de Pauli, estabelecido em 1925. 7

18.2 Operadores de Permutação


Considere um sistema de N partículas idênticas, tal que sua hamiltoniana será dada como função dessas N
partículas, H = H(1, 2, 3, · · · , N ), e consideramos P12 como sendo o operador que permuta as variáveis
das partículas 1 e 2, i.e., operador de permutação, então
−1
P12 H(1, 2, 3, · · · , N )P12 = H(2, 1, 3, · · · , N ) = H(1, 2, 3, · · · , N )

ou de forma mais generalizada


Pij HPij−1 = H . (18.6)
Note que, efetivamente em virtude da identidade das partículas, a hamiltoniana H do sistema é invariante
em relação a permutação das partículas. Como Pij comuta com a hamiltoniana H, podemos dizer que Pij é
uma constante de movimento. Desde que Pij também comute com o momentum total e momentum angular,
6
John Clarke Slater (1900–1976), físico e químico americano.
J. C. Slater, Physical Review, 34, 1293-1322 (1929).
7
W. Pauli, Zeitschrift für Physik 31, 765 (1925).
434 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

Pij será unitário se também comutar com deslocamento espacial ou com as rotações. Então temos que
Pij2 = 1, e os autovalores de cada permutação do operador de permutação Pij são Pij′ = ±1.
Ainda podemos definir mais dois operadores, de simetrização S e de antissimetrização A, respectiva-
mente:
1 1
S = (1 + P12 ) e A = (1 − P12 ) (18.7)
2 2
tal que
A+S =I
sendo fácil verificar que A e S são operadores complementares, i.e.,

A = A† = A2 , S = S † = S 2, e AS = SA = 0 .

Para entender o significado desses operadores basta notar que um estado qualquer |ψ⟩ admite a decomposi-
ção
|ψ⟩ = A|ψ⟩ + S|ψ⟩
e que as componentes satisfazem

P12 A|ψ⟩ = −A|ψ⟩ e P12 S|ψ⟩ = S|ψ⟩ ,

ou seja, são autovetores de P12 com autovalores ±1, i.e., são estados respectivamente antissimétricos e
simétricos com relação à troca das duas partículas idênticas. Assim, se aplicamos A ou S em um estado ψ
arbitrário, seu estado resultante é necessariamente antissimétrico ou simétrico.

18.3 Alguns Efeitos Observados Devidos à Indistinguibilidade


Analisemos algumas consequências do fato de termos que simetrizar, ou antissimetrizar, a função de onda
de partículas idênticas. Consideremos inicialmente o impacto da simetrização sobre os níveis de energia e
sua degenerescência.

Efeito nos Níveis de Energia Seja um sistema unidimensional com duas partículas confinadas em uma
caixa de lado a as quais não interagem entre si. A hamiltoniana que governa esse sistema é dada por

p21 p2
H= + 2 (18.8)
2µ 2µ
com 0 ≤ x1(2) ≤ a. No caso de uma única partícula na caixa temos que os níveis de energia e seus
respectivos autoestados são dados por
√ ( nπ )
~2 π 2 2 2
En = n e un (x) = sen x (18.9)
2µa2 a a
onde n = 1, 2, 3, · · · .
Analisemos inicialmente o caso das duas partículas serem distinguíveis. Podemos mostrar facilmente
que os autoestados da hamiltoniana e seus respectivos autovalores serão dados por

~2 π 2 2
ψn1 n2 (x1 , x2 ) = un1 (x1 ) un2 (x2 ) com En1 n2 = (n + n22 ) (18.10)
2µa2 1
onde os estados un são definidos na relação (18.9). Os primeiros quatro níveis de energia e suas degeneres-
cências são dados na Tab. 18.1.
No caso de termos bósons de spin zero, i.e., de termos a função de onda simétrica temos que os quatro
primeiros níveis de energia e respectivas autofunções estão dados na Tab. 18.2. Portanto, para bósons os
níveis de energia são os mesmos que no caso de partículas serem distinguíveis e de mesma massa, porém
18.3. A LGUNS E FEITOS O BSERVADOS D EVIDOS À I NDISTINGUIBILIDADE 435

Tabela 18.1 Níveis de energia e suas degenerescências.

Estados Energias Autoestados Degenerescências


2 × ~2µaπ2
2 2
Fundamental ψ11 1
5 × ~2µaπ2
2 2
Primeiro excitado ψ12 e ψ21 2
8 × ~2µaπ2
2 2
Segundo excitado ψ22 1
10 × ~2µaπ2
2 2
Terceiro excitado ψ13 e ψ31 2

Tabela 18.2 Níveis de energia e suas degenerescências - bósons.

Estados Energias Autoestados Degenerescências


2 × ~2µaπ2
2 2
Fundamental ψ11 1
5 × ~2µaπ2
2 2
Primeiro excitado ψ12 + ψ21 1
8 × ~2µaπ2
2 2
Segundo excitado ψ22 1
10 × ~2µaπ2
2 2
Terceiro excitado ψ13 + ψ31 1

todos os estados dos bósons não são degenerados. Vemos aqui claramente que o vínculo da função de onda
ser simétrica diminuiu as degenerescências que existem no caso de partículas distinguíveis.
A situação torna-se mais complicada no caso de férmions, já que devemos levar em conta a parte do
estado associada ao spin das partículas. Para sermos mais explicito, consideremos que as partículas têm spin
1
2 . Visto que a hamiltoniana do sistema não depende do spin, temos que os autoestados dessa são da forma

ψn1 n2 (ξ1 , ξ2 ) = un1 (x1 ) un2 (x2 ) × χ(⃗σ 1 , ⃗σ 2 ) (18.11)

onde ui descreve a parte espacial e χ está associada ao spin. Nesse ponto será mais conveniente escrever a
parte de spin do estado na base acoplada. Assim sendo, temos que o momentum angular total poderá assumir
dois valores j = 0 e 1. No caso j = 0 existe apenas um estado dado por

1
χA (0) = √ (α1 β2 − α2 β1 ) , (18.12)
2

onde αi e βi são os estados de spin up e de spin down da partícula i, respectivamente. Note que esse estado
é antissimétrico na troca das partículas, estado singleto. Para j = 1 temos três estados χ(m) dados por

χS (1) = α1 α2
1
χS (0) = √ (α1 β2 + α2 β1 ) (18.13)
2
χS (−1) = β1 β2

os quais são simétricos pela troca das partículas, estado tripleto.


Há duas maneiras de obter que o estado (18.11) seja antissimétrico quando trocamos as duas partículas:
podemos ter a parte espacial simétrica e a parte de spin antissimétrica, ou a parte de spin simétrica e a parte
espacial antissimétrica. Assim, os quatro primeiros níveis de energia são dados na Tab. 18.3.
Se não tivéssemos que antissimetrizar o estado, os níveis de energia das duas partículas deveriam ser
os mesmos do caso de partículas indistinguíveis, porém a sua degenerescência deveria ser 2 × 2 vezes
maior já que há quatro estados de spin possíveis. Quando impomos que o estado deve ser antissimétrico
vemos que os níveis de energia ainda são os mesmos, porém as degenerescências são bastante alteradas. O
estado fundamental continua sendo não degenerado, exibindo momentum angular total nulo. Por outro lado,
os outros estados são degenerados, mas a degenerescência não é quatro vezes maior que a esperada para
partículas indistinguíveis.
436 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

Tabela 18.3 Níveis de energia e suas degenerescências - férmions.

Estados Energias Autoestados Degenerescências


~2 π 2
Fundamental 2× 2µa2 ψ11 × χA 1
~2 π 2
Primeiro excitado 5× 2µa2 (ψ12 + ψ21 ) × χA 4
(ψ12 − ψ21 ) × χS
~2 π 2
Segundo excitado 8× 2µa2 ψ22 × χA 1
× ~2µaπ2
2 2
Terceiro excitado 10 (ψ13 + ψ31 ) × χA 4
(ψ13 − ψ31 ) × χS

18.4 Correlação Espacial entre as Partículas


Uma outra consequência interessante da simetrização dos estados é que a correlação entre a posição das
partículas depende fortemente delas serem distinguíveis, bósons ou férmions. Para vermos esse fato, avalia-
remos a distância quadrática média entre duas partículas que podem ocupar os estados ua e ub os quais são
ortogonais e normalizados.
⟨(x1 − x2 )2 ⟩ = ⟨x21 + x22 − 2x1 x2 ⟩ . (18.14)
Analisemos todas as possibilidades.

Partículas Distinguíveis Neste caso o estado é dado por

ψ (x1 , x2 ) = ua (x1 ) ub (x2 ) . (18.15)

O valor médio de x21 pode ser facilmente escrito como


∫ ∫
⟨x21 ⟩dist = dx1 dx2 (ua (x1 ) ub (x2 ))∗ x21 ua (x1 ) ub (x2 )
∫ ∫
= dx1 ua (x1 )∗ x21 ua (x1 ) dx2 ub (x2 )∗ ub (x2 )

= dx1 ua (x1 )∗ x21 ua (x1 ) ≡ ⟨x2 ⟩a (18.16)

onde denotamos pelo subscrito a o estado usado para calcular a média. Analogamente, obtemos que

⟨x22 ⟩dist = ⟨x2 ⟩b (18.17)

⟨x1 x2 ⟩dist = ⟨x⟩a ⟨x⟩b (18.18)

onde ∫
⟨x⟩a(b) = dx u∗a(b) (x) x ua(b) (x) .

Logo, juntando os resultados parciais acima temos

⟨(x1 − x2 )2 ⟩dist = ⟨x2 ⟩a + ⟨x2 ⟩b − 2⟨x⟩a ⟨x⟩b . (18.19)

Bósons ou Férmions Aqui vamos considerar o efeito da função de onda espacial ser simétrica ou antissi-
métrica, a qual é dada por
1
ψ (x1 , x2 ) = √ [ua (x1 )ub (x2 ) ± ua (x2 )ub (x1 )] (18.20)
2

onde √12 garante que o estado esteja propriamente normalizado se ua e ub o estiverem. Visando que essa
função de onda não seja nula quando utilizamos o sinal negativo, restringiremo-nos ao caso em que a ̸= b.
18.4. C ORRELAÇÃO E SPACIAL ENTRE AS PARTÍCULAS 437

Note que no caso de bósons (férmions) devemos usar a função de onda espacial simétrica (antissimétrica)
caso o estado de spin seja simétrico (antissimétrico). Para estados de spin antissimétricos, a parte espacial
para bósons (férmions) deve ser antissimétrica (simétrica). Utilizando essa função de onda temos que
{∫ ∫ ∫ ∫
1
⟨x1 ⟩ =
2
dx1 dx2 x1 |ua (x1 )| |ub (x2 )| + dx1 dx2 x21 |ua (x2 )|2 |ub (x1 )|2
2 2 2
2
∫ ∫ ∫ ∫ }
2 ∗ ∗ 2 ∗ ∗
± dx1 dx2 x1 ua (x1 )ub (x2 )ua (x2 )ub (x1 ) ± dx1 dx2 x1 ua (x2 )ub (x1 )ua (x1 )ub (x2 )
(18.21)
o que conduz a
1
⟨x21 ⟩ = [⟨x2 ⟩a + ⟨x2 ⟩b ] . (18.22)
2
Analogamente podemos obter que
1
⟨x22 ⟩ = [⟨x2 ⟩a + ⟨x2 ⟩b ] (18.23)
2

⟨x1 x2 ⟩ = ⟨x⟩a ⟨x⟩b ± ⟨x⟩ab ⟨x⟩ba (18.24)


onde definimos ∫
⟨x⟩ab = dx u∗a (x) x ub (x) .

Note que o último termo em (18.24) é real já que ⟨x⟩ab = ⟨x⟩∗ba .


Substituindo os resultados parciais acima na Eq. (18.14) temos que
⟨(x1 − x2 )2 ⟩ = ⟨x2 ⟩a + ⟨x2 ⟩b − 2⟨x⟩a ⟨x⟩b ∓ 2|⟨x⟩ab |2 (18.25)
ou seja
⟨(x1 − x2 )2 ⟩ = ⟨(x1 − x2 )2 ⟩dist ∓ 2|⟨x⟩ab |2 . (18.26)
Esse resultado é muito interessante pois mostra que um efeito cinemático, que é a simetrização da função
de onda, pode modificar a distribuição espacial das partículas. Funções de onda simétricas fazem com que
as partículas tendam a ficar mais próximas em média do que no caso de funções de onda antissimétricas já
que a última equação nos permite concluir que
⟨(x1 − x2 )2 ⟩S ≤ ⟨(x1 − x2 )2 ⟩A .
Esse fato na literatura é chamado de força de troca, ou interação de troca, apesar de ser apenas um efeito
cinemático e não haver nenhuma força real extra atuando sobre o sistema.

Molécula de Hidrogênio Como exemplo analisemos qualitativamente a molécula de hidrogênio que é


composta de dois elétrons e dois prótons. Tendo em vista que a massa do próton é muito maior que a massa
dos elétrons, consideramos que os prótons estão parados numa posição fixa e concentramos a nossa atenção
nos elétrons. Como o elétron tem spin 21 há dois possíveis estados de spin para o sistema: o spin total pode
ser igual a 1, o que corresponde a um estado de spin simétrico χS , ou o spin total é igual a zero e o estado
correspondente é antissimétrico χA .
No caso dos elétrons estarem no estado tripleto χS , a função de onda espacial deve ser antissimétrica o
que implica que os elétrons têm a tendência de ficarem mais afastados entre si. Nessa distribuição espacial
dos elétrons a força repulsiva entre os prótons não será blindada com eficiência pelos elétrons, tornando a
existência de um estado ligado mais difícil.
Por outro lado a função de onda espacial dos elétrons num estado singleto de spin deverá ser simétrica,
com isso os elétrons tendem a ficar mais próximos. Nessa configuração, os elétrons não só blindam de
forma eficaz a força repulsiva entre os núcleos mas também podem levar à uma força total nos prótons na
direção de aproximá-los. Logo, essa configuração facilitará a existência do estado ligado dos dois átomos
de hidrogênio. De fato uma análise quantitativa do problema mostra que não existe estado ligado entre
os átomos de hidrogênio se os elétrons se encontrarem no estado tripleto de spin, enquanto que haverá a
formação de H2 se os elétrons estiverem no estado singleto de spin.
438 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

18.5 Átomo de Hélio


Explorando a antissimetria que o estado do átomo de hélio deve exibir, vamos agora obter algumas proprie-
dades desse átomo de maneira heurística, deixando o tratamento mais sistemático para quando discutirmos
os métodos de aproximação. A hamiltoniana descrevendo um átomo de hélio é dada por

⃗p21 2e2 ⃗p22 2e2 e2


H= − + − + (18.27)
2µ r1 2µ r2 |⃗r1 −⃗r2 |

onde não incluímos os efeitos devidos à massa finita do núcleo. Desprezando a interação entre os elétrons
este problema é de fácil solução. Nesta aproximação, os autoestados de H são,

ψ = unlm (⃗r1 ) · un′ l′ m′ (⃗r2 ) · χ (18.28)

onde χ descreve os spins dos elétrons e unlm é a função de onda solução de um problema coulombiano
com número quântico principal n, momentum angular orbital total l e componente z do momentum angular
orbital caracterizada por m. A energia associada a esse estado é

13, 6
Enn′ = 4(En + En′ ) com En = − eV (18.29)
n2
onde n(n′ ) = 1, 2, · · · . Note que o autoestado aproximado acima não está, em geral, antissimetrizado.

Estado Fundamental O estado de mínima energia é dado por n = n′ = 1 e l = m = l′ = m′ = 0. Neste


caso a parte espacial da expressão (18.28) será automaticamente simétrica, o que implica que os spins dos
elétrons devem estar na configuração antissimétrica χA com spin total j = 0; vide Eq. (18.12).

ψfund = u100 (⃗r1 ) · u100 (⃗r2 ) · χA


8 −2 r1 +r2 1
= e a √ (α1 β2 − α2 β1 ) (18.30)
πa3 2
onde a é o raio de Bohr. A energia do estado fundamental usando essa aproximação será então dada por

Efund = −108, 8 eV .

Todavia o valor experimental para a energia do estado fundamental é −78, 795 eV! Claramente o fato de
desprezarmos a interação entre os elétrons é a fonte dessa diferença: 8 a energia potencial dos elétrons é po-
sitiva o que é compatível com o fato do valor experimental ser maior que o valor estimado. Intuitivamente, 9
poderíamos corrigir esse resultado acrescentando o valor médio da energia de interação entre os elétrons,
⟨ ⟩
e2 5e2 ∼
ψfund ψfund = = 34 eV . (18.31)
|⃗r1 −⃗r2 | 4a

Somando essa correção ao cálculo estimado inicialmente obtemos

Efund ≃ −74, 8 eV .

Note que com essa correção, utilizando teoria de perturbação, já apresentamos um valor razoável com-
parado com o resultado experimental. Fisicamente, podemos atribuir essa discordância ao fato de, no cálculo
realizado, não ter sido levado em consideração o chamado efeito de blindagem, i.e., o efeito que a presença
de um dos elétrons tende a fazer para que a carga nuclear efetiva, vista pelo outro elétron, seja menor que
Ze. Para tal, vamos calcular novamente a energia do estado fundamental do átomo de hélio, escolhendo a
8
Numericamente, nosso cálculo é na ordem de 30% maior que o valor experimental.
9
Essa correção é a primeira ordem de uma expansão sistemática da energia, ver capítulo de teoria de perturbação.
18.5. ÁTOMO DE H ÉLIO 439

função tentativa u100 como aquela utilizada anteriormente, no cálculo da perturbação de primeira ordem,
porém, com uma carga nuclear Z ′ e, a ser determinada pelo método variacional, da seguinte forma:
ψfund = u100 (⃗r1 ) · u100 (⃗r2 )
( )
1 Z ′ 3 − aZ ′ (r1 +r2 )
= e 0 (18.32)
π a0
sendo Z ′ o número atômico efetivo, considerado um parâmetro variável. A função de onda acima deve
satisfazer à equação de autovalor
H′ |ψ⟩ = E (Z ′ )|ψ⟩ . (18.33)
Agora escrevemos
~2 ⃗ 2 Z ′ e2 ~ 2 ⃗ 2 Z ′ e2
H′ = − ∇1 − − ∇ − (18.34)
2µ r1 2µ 2 r2
e as equações ( 2 )
~ ⃗2 Z ′ e2
− ∇ − |u100 (⃗r1 )⟩ = E1 (Z ′ )|u100 (⃗r1 )⟩ (18.35)
2µ 1 r1
e ( 2 )
~ ⃗2 Z ′ e2
− ∇ − |u100 (⃗r2 )⟩ = E2 (Z ′ )|u100 (⃗r2 )⟩ (18.36)
2µ 2 r2
cujas soluções para as energias E1 (Z ′ ) e E2 (Z ′ ) do estado fundamental são:
Z ′2 e2
E1 (Z ′ ) = E2 (Z ′ ) = −
2a0
e
Z ′2 e2
E (Z ′ ) = 2E1 (Z ′ ) = − . (18.37)
a0
Para o átomo de hélio, a hamiltoniana é dada por
~2 ⃗ 2 Ze2 ~2 ⃗ 2 Ze2 e2
H=− ∇1 − − ∇2 − + . (18.38)
2µ r1 2µ r2 |⃗r1 −⃗r2 |
Assim, podemos escrever ( )
H|ψfund ⟩ = H′ |ψfund ⟩ + H − H′ |ψfund ⟩ (18.39)
e a energia E será
( )
E = ⟨ψf und |H|ψf und ⟩ = E ′ ⟨ψf und |ψf und ⟩ + ⟨ψf und | H − H′ |ψf und ⟩
⟨ [ ] ⟩

( ′ ) e2 e2 e2
= E (Z ) + ψf und Z − Z + + ψf und . (18.40)
r1 r2 r12
Usando a Eq. (18.32) e após alguma manipulação algébrica, temos
( )( 2)
′2 ′ 5 ′ e
E = Z − 2ZZ + Z . (18.41)
8 a0
dE
Quando dZ ′ = 0, encontramos o valor mínimo de E, logo
5
Z′ = Z − .
16
Assim, a energia será expressa por
( ) ( )
5 2 e2
E=− Z− = −77, 5 eV . (18.42)
16 a0
Esse valor calculado está bem mais próximo do valor experimental E = −78, 795 eV. Mostrando que a
técnica utilizada pelo método variacional nos dá um cálculo melhor para o valor da energia.
440 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

Estados Excitados Os estados excitados do átomo de hélio podem exibir um elétron no estado funda-
mental, n′ = 1, enquanto que o outro se encontra num estado excitado do problema de Coulomb, n ≥ 2.
Neste caso devemos antissimetrizar o estado, sendo que existem duas possibilidades. Na primeira, a parte
espacial é simétrica e a parte do spin é antissimétrica

[u100 (⃗r1 )unlm (⃗r2 ) + u100 (⃗r2 )unlm (⃗r1 )] · χA . (18.43)

Esses estados são chamados de parahélio e possuem spin total nulo. Na segunda possibilidade, a parte
espacial é antissimétrica e a parte do spin é simétrica

[u100 (⃗r1 )unlm (⃗r2 ) − u100 (⃗r2 )unlm (⃗r1 )] · χS (18.44)

sendo esses estados chamados de ortohélio. Esses estados possuem spin total igual a 1, consequentemente
exibindo três estados para cada energia, i.e., eles formam um tripleto.
Usando essa aproximação, os estados parahélio e ortohélio possuem a mesma energia

Enorto = Enpara = 4(E1 + En ) . (18.45)

Todavia, a correlação entre a posição dos elétrons é diferente para funções de onda simétricas e antissimétri-
cas, o que implica que as correções para as energias desses estados são diferentes. Como vimos, os elétrons
no estado com parte espacial simétrica ficam mais próximos em média do que os elétrons no caso da parte
espacial ser antissimétrica; vide §13.4. Portanto, a correção devida à energia potencial de interação entre
os elétrons será maior para o caso de funções espaciais simétricas, acarretando que os estados de parahélio
possuem uma energia maior que os estados de ortohélio com mesmos números quânticos.
Na Fig. 18.1 mostramos os níveis de energia do átomo de hélio e suas respectivas energias. Podemos ver
nesse figura a diferença de energia entre os estados de parahélio e ortohélio. Mais ainda, o leitor atento deve
ter notado que os estados associados ao mesmo n porém com diferentes valores de l não são degenerados
como a nossa aproximação prevê. Podemos argumentar que os estados com maior l possuem uma energia
mais alta, já que valor médio de r cresce com o momentum angular l. Com isso, os elétrons com maior
valor de l encontram-se em média mais distante do núcleo, permitindo que o elétron no estado fundamental
blinde de maneira mais eficiente a carga do núcleo. Uma vez que a carga efetiva do núcleo vista pelo elétron
no estado excitado decresce quando l aumenta, temos que a energia desse elétron aumenta, fazendo com
que ele esteja menos ligado ao átomo.

18.6 Tabela Periódica


No paragrafo anterior vimos que podemos entender qualitativamente o átomo de hélio quando fazemos
aproximações muito simples e consideramos que o estado dos seus elétrons é antissimétrico. Essa é uma
das razões que nos motivou aplicar o mesmo raciocínio para outros átomos. Analogamente ao que fizemos
no caso do átomo de hélio, vamos inicialmente desprezar a interação entre os elétrons na relação


N
H= H0 (j) + HI
j=1

onde H0 (j) contém a energia cinética da j-ésima partícula e sua interação com o núcleo
⃗p2j Ze2
H0 (j) = − ,
2µ rj
e utilizar as autofunções
H0 un = En un
de H0 como uma base. Esses autoestados são denominados orbitais, os quais, como vimos anteriormente,
encontram-se determinados pelo número quântico principal n, seu momentum angular total l e sua compo-
nente z, m. Vamos construir a configuração eletrônica dos átomos preenchendo os orbitais de mais baixa
18.6. TABELA P ERIÓDICA 441

Figura 18.1 Níveis de energia do átomo de hélio.

energia até que todos os elétrons tenham sido colocados para um determinado átomo. Tendo em vista o prin-
cípio da exclusão de Pauli só podemos colocar dois elétrons em cada orbital os quais terão spins opostos.
Logo, cada nível de energia de H0 pode conter no máximo 2n2 elétrons.
Nesse ponto é conveniente introduzir um pouco da notação de Dirac. Designamos os estados orbitais

|nlm⟩ ≡ nL

onde L = S, P, D, F para l = 0, 1, 2, 3 respectivamente. Note que nessa notação a componente z do


momentum angular orbital não é especificada. Se o átomo possui k elétrons no orbital nL indicamos isso
através de (nL)k . É também de praxe caracterizar o estado fundamental dos átomos através de
2S+1
LJ

onde S é o spin total do átomo, L seu momentum angular orbital total e J o seu momentum angular total.
Por exemplo, o átomo de hidrogênio possui apenas um elétron e sua configuração eletrônica é 1s. O estado
fundamental do átomo de hidrogênio possui l = 0, s = 12 e J = 21 o que representamos por 2 S 1 . No caso
2
do átomo de hélio que possui dois elétrons temos que a configuração eletrônica de seu estado fundamental
é (1s)2 e o seu estado fundamental é 1 S0 .
As soluções básicas da relação H0 un = En un que estamos empregando apresentam a degenerescência
acidental de que os estados com mesmo n > 1 e diferentes l são degenerados; lembre-se que os valores
permitidos de l satisfazem 0 < l < n − 1. Logo, átomos com mais de dois elétrons exibem várias configu-
rações de mesma energia quando desprezamos a interação entre os elétrons. Por exemplo, o átomo de lítio
possui três elétrons, dos quais dois estão na configuração (1s)2 . Todavia o terceiro elétron pode ter l = 0 ou
l = 1. Para determinarmos qual desses estados será o ocupado pelo terceiro elétron devemos levar em conta
a interação entre os elétrons. O argumento heurístico para decidir qual o estado de momentum angular que
possui menor energia é o seguinte: quanto maior o momentum angular orbital de um elétron mais afastado
ele se encontra do núcleo atômico, ou seja, ⟨r⟩l > ⟨r⟩l′ se l > l′ . Logo, quanto maior o momentum angular
442 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

orbital de um elétron, mais os elétrons internos blindam o núcleo e com isso o elétron está menos ligado
ao núcleo quanto maior for o seu momentum angular orbital, i.e., a sua energia é maior. Quando avaliamos
quantitativamente a energia dos orbitais, levando em conta todas as interações, temos que o ordenamento
em energia desses será: 1s, 2s, 2p, 3s, 3p, 4s, 3d, 4p. Note que o efeito da blindagem da carga em função
do momentum angular orbital faz com que a energia do estado 4s seja menor que a energia do estado 3d.
Aplicando o argumento acima para o átomo de lítio temos que o terceiro elétron deve encontrar-se no or-
bital 2s, sendo que a configuração eletrônica desse átomo deve ser (1s)2 2s e o seu estado fundamental 2 S 1 .
2
Analogamente, a configuração eletrônica do átomo de berílio, que possui quatro elétrons, será (1s)2 (2s)2
e seu estado fundamental 1 S0 . Note que nesse caso o spin total deve ser zero, ou seja, o estado de spin
antissimétrico, já que a parte espacial é simétrica.
A regra descrita acima, todavia, não é suficiente para determinar qual a configuração do estado funda-
mental de átomos com muitos elétrons. Consideremos o átomo de carbono que apresenta seis elétrons, a sua
configuração eletrônica será (1s)2 (2s)2 (2p)2 , mas qual é o seu momentum angular orbital total, 0, 1 ou 2?
E seu spin total, 0 ou 1? O estado desse átomo, e outros na mesma situação, pode ser determinado usando
as regras de Hund 10 , que são empíricas:

1. Se todos os números quânticos são iguais, o estado com maior spin total tem energia menor;

2. Se após a aplicação da primeira regra mais de um momentum angular orbital total for permitido, o estado
de menor energia é aquele apresentando o maior momentum angular orbital total;

3. Dada uma sub-camada (n, l) o momentum angular total do sistema corresponde ao estado com J =
|L − S| se a camada está com menos da metade dos elétrons possíveis e J = L + S no caso de ter mais
da metade dos elétrons possíveis.

É importante salientar que devemos ter em mente que os estados atômicos são antissimétricos pela troca de
elétrons quando aplicamos essas regras.
No caso do átomo de carbono, a primeira regra determina que o spin total dos dois últimos elétrons será
1, ou seja, o seu estado de spin é simétrico. Logo, a parte orbital do estado deve ser antissimétrica, o que só
será possível para o estado de momentum angular orbital total L = 1. Como a sub-camada (2, 1) é capaz de
acomodar 6 elétrons e o átomo de carbono possui apenas dois nessa sub-camada, pela terceira regra temos
que J = |L − S| = 0. Portanto o estado fundamental do átomo de carbono será 3 P0 .
A Tab. 18.4 apresenta as configurações dos estados fundamentais dos átomos mais leves.

18.7 Aproximação de Thomas-Fermi


A distribuição de elétrons no átomo é um ingrediente essencial para qualquer determinação do potencial
médio V (⃗r). Entretanto, na medida em que uma descrição em termos de um potencial médio seja adequada,
ele se torna um ingrediente essencial para a determinação da distribuição dos elétrons. Essa interdepen-
dência mútua do potencial médio e da densidade eletrônica nos leva ao critério de autoconsistência para
a determinação do potencial médio, que consiste na exigência de que a densidade eletrônica resultante do
potencial seja igual à densidade eletrônica que o determina.
Para implementar esse critério é necessário, por um lado, um procedimento que permita determinar
um potencial médio a partir de uma distribuição eletrônica dada, por outro lado também é necessário, um
segundo procedimento que determine a densidade eletrônica a partir de um potencial médio dado. Para
resolver esse problema, vamos usar um método devido a Thomas 11 e a Fermi 12 que permite simplificar esse
processo.
10
Friedrich Hermann Hund (1896–1997), físico alemão.
11
L. H. Thomas, Proc. Cambridge Phil. Soc., 23, 542 (1927).
12
E. Fermi, Zeits. für Physik, 48, 73 (1928).
18.7. A PROXIMAÇÃO DE T HOMAS -F ERMI 443

Tabela 18.4 Configuração dos átomos, Z = 1 até Z = 20.

Z Elemento Configuração Termo


2
1 H (1s) S1/2
2 He (1s)2 1
S0
2
3 Li (He)(2s) S1/2
4 Be (He)(2s)2 1
S0
5 B (He)(2s)2 (2p) 2
P1/2
6 C (He)(2s)2 (2p)2 3
P0
7 N (He)(2s)2 (2p)3 4
S3/2
8 O (He)(2s)2 (2p)4 3
P2
9 F (He)(2s)2 (2p)5 2
P3/2
10 Ne (He)(2s)2 (2p)6 1
S0
2
11 Na (Ne)(3s) S1/2
12 Mg (Ne)(3s)2 1
S0
13 Al (Ne)(3s)2 (3p) 2
P1/2
14 Si (Ne)(3s)2 (3p)2 3
P0
15 P (Ne)(3s)2 (3p)3 4
S3/2
16 S (Ne)(3s)2 (3p)4 3
P2
17 Cl (Ne)(3s)2 (3p)5 2
P3/2
18 Ar (Ne)(3s)2 (3p)6 1
S0
2
19 K (Ar)(4s) S1/2
20 Ca (Ar)(4s)2 1
S0

Considere um gás de elétrons livres confinados numa caixa cúbica de lado L, e volume V = L3 . No
caso do elétron livre temos que a solução da equação de Schrödinger é dada por ondas planas

1 ⃗
ϕ⃗k (⃗r) = 1 ei k ·⃗r (18.46)
V 2

com energia
~2 k 2
Ek = . (18.47)

Impondo as condições de contorno

ei kx L = ei ky L = ei kz L = 1

temos
nx 2π ny 2π nz 2π
kx = , ky = , kz = ,
L L L
com nx , ny e nz inteiros. Então, os vetores de onda permitidos são aqueles que no espaço de momentum ⃗k
são dados por múltiplos de 2π ⃗
L . Assim, cada ponto k ocupa um volume
( )3

Ωk = .
L

O volume total será dado por uma esfera de raio kF , que contém inclusive os elétrons mais energéticos,

4
Ωt = πkF3 .
3
Portanto, o número total de elétrons N , considerando que cada estado tenha elétrons com spin up e spin
down, será
Ωt k3 V
N =2 = F2
Ωk 3π
444 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

e a densidade eletrônica sera dada por


N k3
ρ= = F2 . (18.48)
V 3π
Dessa forma, a energia de Fermi, usando (18.47), será

~2 ( 2 )2
EF (⃗r) = 3π ρ(⃗r) 3 , (18.49)
2µe
o que corresponde a admitir que a densidade eletrônica num determinado ponto pode ser associada a uma
“energia de Fermi local” através da relação dada acima. Uma forma de justificar esse procedimento será
associa-lo à suposição de que os elétrons contidos num volume infinitesimal dV em torno do ponto ⃗r, na
qual a densidade será tratada como praticamente uniforme, se comportam essencialmente como os elétrons
de um gás de Fermi degenerado com a mesma densidade. Um ponto que limita essa validade é o fato de
que devem ser levadas em consideração as restrições impostas pelas relações de incerteza, segundo as quais
1
as dimensões dL associadas a dV levam a uma indefinição dos vetores de onda na ordem de ∆k = dL .A
importância dessa limitação pode ser medida pela relação entre essa indefinição dos momenta e o momentum
[ ]1
de Fermi, ver a relação (18.48), kF (⃗r) = 3π 2 ρ(⃗r) 3 , e será menos importante quando ∆k ≪ kF (⃗r), i.e.,
3π 2 ρ(⃗r)dV ≫ 1. Logo, o método de Thomas-Fermi será mais preciso nas regiões de maior densidade
eletrônica, e pouco aceitável na região superficial do átomo, quando a densidade eletrônica tende à zero.
Assumimos também que os elétrons interagem mutuamente até estabelecer um equilíbrio térmico entre
as diferentes regiões do átomo, tal que a energia máxima é a mesma em todos os pontos

~2 ( 2 )2
EF (⃗r) + V (⃗r) = 3π ρ(⃗r) 3 + V (⃗r) = C , (18.50)
2µe
se ρ(⃗r) > 0 e onde C é constante. Por outro lado, o potencial V (⃗r) pode ser obtido de uma densidade
eletrônica dada utilizando a equação de Poisson
⃗ 2 V (⃗r) = 4πe2 (Zδ(⃗r) − ρ(⃗r)) ,
∇ (18.51)

onde Z|e| é a carga do núcleo assumindo pontual. De (18.50) e (18.51), e para r ̸= 0 com ρ(r) > 0, temos
( )3
1 d2 4e2 2µe 2 3
[r (C − V (r) )] = [C − V (r)] 2 . (18.52)
r dr2 3π ~2
Uma propriedade interessante da equação acima é a de que ela possui propriedades de escalonamento que
permitem escrever a solução, para qualquer Z, em termos de uma mesma “função universal”. Essa proprie-
dade se torna manifesta introduzindo a variável adimensional
( )2
1 r 1 3π 3 ~2 ~2
x = Z3 , com b= = 0, 885341
b 2 4 µ e e2 µe e2
e escrevendo o potencial como
Ze2
V (r) = C − Φ(x) .
r
Substituindo as relações acima na Eq. (18.52), obtemos a equação universal, conhecida como relação de
Thomas-Fermi
2
1 d Φ(x) 3
x2 2
= Φ 2 (x) (18.53)
dx
se x > 0 e Φ(x) > 0, que será resolvida com as condições de contorno apropriadas, x → 0 e x → ∞.
A primeira condição para Φ(x) é Φ(0) = 1, devido ao fato de que quando r → 0 o potencial V (r) está de
2
acordo com o potencial nuclear − Zer , nesse limite r [C − V (r)] → Ze2 , assim temos a primeira condição.
A segunda condição, quando usamos x → ∞, é Φ(∞) = 0, essa última pode ser entendida como indicando
que não existe carga nuclear que não tenha sido blindada por carga eletrônica a distâncias suficientemente
grandes do núcleo.
18.7. A PROXIMAÇÃO DE T HOMAS -F ERMI 445

A constante C pode ser determinada através da Eq. (18.52). Se R é o raio atômico, ρ(R) = 0 e
C = V (r) = −(Z−N R
)e2
. Para átomos neutros, C = 0; e para íons positivos, C < 0; no caso C > 0
correspondente a íons negativo, não podemos analisar por esse método. Infelizmente a Eq. (18.53) só pode
ser resolvida numericamente, e a solução encontrada para as condições de contorno é 13
{
1 − 1, 588x + · · · para x → 0
Φ(x) = . (18.54)
144
x3
+ ··· para x → ∞

Cabe aqui uma observação, a função 144


x3
é uma solução exata de (18.53) mesmo que seja singular na origem.
Na Fig. 18.2, temos a representação gráfica de Φ(x), para as condições de contorno estudadas, Φ(0) = 1

Figura 18.2 Gráfico de Φ(x) para átomos neutros.

e Φ(∞) = 0. A tabulação da solução acima permite escrever o potencial autoconsistente, no sentido de


Thomas-Fermi, para qualquer número atômico Z através da escolha da escala de distâncias b, já definido
anteriormente.
Essa enorme regularidade na variação do potencial autoconsistente de Thomas-Fermi na realidade re-
flete uma de suas grandes limitações, que é a de eliminar completamente os efeitos de camada responsáveis
pela estrutura de tabela periódica dos elementos. A origem dessa limitação é a substituição da contribuição
para a densidade eletrônica dos níveis eletrônicos individuais por quantidades obtidas a partir das proprieda-
des de um gás de Fermi degenerado, que ignoram completamente as peculiaridades do espectro do potencial
médio. Para evitá-la, é preciso ter essas peculiaridades na devida conta, por exemplo, obtendo autofunções
eletrônicas a partir de uma equação de autovalores com o potencial de Thomas-Fermi. Esse procedimento
não é no entanto completamente autoconsistente, no sentido de que a densidade eletrônica obtida a partir
dessas autofunções não reproduz o potencial de Thomas-Fermi utilizado para determiná-las.
O potencial de Thomas-Fermi, não inclui termos da interação de troca. Em 1930, Dirac propôs a intro-
dução do termos de troca, 14 originando as equações conhecidas como Thomas-Fermi-Dirac. Assim, a Eq.
(18.53) será reescrita por
d2 Φ(x) [ 1 1 ]3
−2 2
= x x Φ (x) + β , (18.55)
dx2
onde
( )1
bµe e2
Z− 3
2 2
2~2
β= .
π
13
S. Kobayashi, T. Matsukuma, S. Nagai and K. Umeda, Journal Phys. Soc. Japan, 10, 759 (1955).
14
P. A. M. Dirac, Proc. Cambridge Phil. Soc., 26, 376 (1930).
446 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

Para átomos neutros essa equação será integrada com as condições de contorno

Φ(x0 ) β2
Φ(0) = 1 e = Φ′ (x0 ) = ,
x0 16

onde x0 é o ponto onde as pressões do gás se anulam. A solução da equação radial de Schrödinger usando
o potencial obtido no modelo Thomas-Fermi-Dirac tem resultados muito favoráveis quando comparados
aos dados experimentais, 15 e as funções de onda resultantes serão um bom ponto de partida para o método
Hartree-Fock 16 .

18.8 Método Hartree-Fock

O método Hartree-Fock supre um modo de determinar a ação do potencial médio sobre os elétrons e a
associação das funções de onda de uma partícula simples. Esse método foi introduzido por Hartree, 17 e
posteriormente desenvolvido por Fock que incorporou o fato de que a função de onda para um sistema de
N elétrons seria totalmente antissimétrica. 18
Omitindo complicações ligadas às interações dependentes de spin e outros efeitos de natureza magné-
tica, a hamiltoniana mais simples que se pode considerar para um sistema atômico com N elétrons

N [
∑ ] ∑
N
~2 ⃗ 2 Ze2 e2
H= − ∇i − + (18.56)
2µ ri rij
i=1 1≤i<j

onde rij = |⃗ri − ⃗rj |. Assumindo que cada elétron do átomo está sujeito a ação de um potencial médio
devido aos outros elétrons e ao núcleo, podemos descrever o estado dos elétrons em termos das funções de
onda de uma partícula simples dos estados ligados do potencial médio considerado. Para essas funções de
onda, usaremos a notação ψj (ξ), onde ξ representa as coordenadas do espaço e spin, i.e., ξ ≡ (⃗r, ⃗σ ). Essas
funções também são ortonormalizadas,

dξ ψj∗ (ξ)ψi (ξ)δij (18.57)

onde a integral é sobre todas as coordenadas e a soma de todas as variáveis de spin. Assim, construímos
para um sistema de N elétrons a função de onda normalizada e totalmente antissimétrica na forma de um
determinante
 
ψp1 (ξ1 ) ψp1 (ξ2 ) · · · ψp1 (ξN )
 ψp2 (ξN ) 
1  p2 (ξ1 ) ψp2 (ξ2 ) · · ·
ψ 
ψ (ξ1 , ξ2 , · · · , ξN ) = √ det  . .. .. .. . (18.58)
N!  .. . . . 
ψpN (ξ1 ) ψpN (ξ2 ) · · · ψpN (ξN )

que é o determinante de Slater, já discutido anteriormente.


No método Hartree-Fock determinamos as funções de onda de uma partícula simples usando (18.58)
como uma função de teste no problema variacional com a condição (18.57). Entretanto, primeiro temos que

15
R. Latter, Physical Review, 99, 510 (1955).
16
Douglas Rayner Hartree (1897–1958), físico e matemático inglês.
17
D. R. Hartree, Proc. Cambridge Phil. Soc., 24, 89, 111 (1928).
18
V. Fock, Zeitschrift für Physik, 61, 126 (1930); Idem, 62, 795 (1930).
18.8. M ÉTODO H ARTREE -F OCK 447

calcular o valor esperado de H no estado descrito por (18.58). Assim,


N ∫
∑ [ 2 ]
~ ⃗ 2 Ze2
⟨ψ|H|ψ⟩ = dξ ψi∗ (ξ) − ∇ − ψi (ξ)
2µ r
i=1
N ∫
∑ e2
+ dξ1 dξ2 ψi∗ (ξ1 )ψj∗ (ξ2 ) ψi (ξ1 )ψj (ξ2 )
r12
1≤i<j
N ∫
∑ e2
− dξ1 dξ2 ψi∗ (ξ1 )ψj∗ (ξ2 ) ψi (ξ2 )ψj (ξ1 ) . (18.59)
r12
1≤i<j

Esse procedimento variacional sugere imediatamente uma forma de incluir na aproximação autoconsistente
os efeitos de troca associados à interação elétron-elétron. A relação (18.59) inclui os efeitos de troca, e a
condição variacional  
1 ∑
δ ⟨ψ|H|ψ⟩ − λij (⟨ψi |ψj ⟩ + ⟨ψj |ψi ⟩) = 0 (18.60)
2
i,j

onde λij = λji = λ∗ij são os multiplicadores de Lagrange. Aqui consideramos as variações da forma
ψi (ξ) → ψi (ξ) + δψi (ξ) para cada i partícula e portanto ψi∗ (ξ) → ψi∗ (ξ) + δψi∗ (ξ), preservando as outras
funções de onda fixa. Nessas variações, as partes real e imaginária de ψi (ξ) podem trocar arbitrariamente.
Então, podemos considerar δψi (ξ) e δψi∗ (ξ) como sendo independentes. Variando somente ψi∗ (ξ), obtemos
 
[ 2 ] ∑N ∫
~ ⃗ 2 Ze 2 2
e 
− ∇ 1− ψi (ξ1 ) +  dξ2 |ψj (ξ2 )|2 ψi (ξ1 )
2µ r1 r12
j=1
N [∫
∑ ] ∑
N
e2
− dξ2 ψj∗ (ξ2 ) ψi (ξ2 ) ψj (ξ1 ) = λij ψj (ξ1 ) , (18.61)
r12
j=1 j=1

que são as equações de Hartree-Fock. Entretanto é conveniente encontrar uma representação equivalente
usando o fato de que a matriz com elementos λij é uma matriz hermitiana e real. Por essa razão é diago-
nalizável por uma transformação unitária Uij . Se εi são os autovalores, portanto reais, da matriz (λij ), e
definindo
∑N
ψi (ξ) = Uij ψj′ (ξ) ,
i=1

é fácil verificar que a Eq. (18.61), quando ψi → ψi′ , será escrita na forma
 
[ 2 ] ∑N ∫
~ ⃗ 2 Ze 2 2
e 
− ∇ 1− ψi (ξ1 ) +  dξ2 |ψj (ξ2 )|2 ψi (ξ1 )
2µ r1 r12
j=1
N [∫
∑ ]
e2
− dξ2 ψj∗ (ξ2 ) ψi (ξ2 ) ψj (ξ1 ) = εi ψi (ξ1 ) , (18.62)
r12
j=1

onde as linhas (′ ) nas funções de onda foram omitidos. Consequentemente o potencial médio atuando sobre
o i-ésimo elétron consiste de duas partes:

1. O potencial direto definido por


N ∫

Ze2 e2
Vi,d (⃗r1 ) = − + dξ2 |ψj (ξ2 )|2 (18.63)
r1 r12
i̸=j=1

e interpretado como o potencial gerado pelo núcleo e outros elétrons;


448 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

2. O potencial de troca no qual é não local e dependente do spin é definido por


N
e2
Vi,t (ξ1 , ξ2 ) = − ψj∗ (ξ2 ) ψi (ξ2 ) (18.64)
r12
i̸=j=1

que vem da antissimetria da função teste original.

As Eqs. (18.62) coincidem com as equações originais de Hartree, exceto pelo termo proveniente das con-
tribuições de troca.
Se fizermos o produto escalar da equação de Hartree-Fock, (18.62), com ψi , temos
∫ [ 2 ]
~ ⃗ 2 Ze2
εi = dξ1 ψi∗ (ξ1 ) − ∇ − ψi (ξ1 )
2µ 1 r1
∑N ∫
e2
+ dξ1 dξ2 ψi∗ (ξ1 )ψj∗ (ξ2 ) ψi (ξ1 )ψj (ξ2 )
r12
j=1
N ∫
∑ e2
− dξ1 dξ2 ψi∗ (ξ1 )ψj∗ (ξ2 ) ψi (ξ2 )ψj (ξ1 ) . (18.65)
r12
j=1

Para entendermos o significado físico de εi devemos recorrer que a energia total E do átomo é dada por
(18.59). Também devemos considerar a ionização simples obtida removendo-se o i-ésimo elétron do átomo
ocupando um orbital ψi (ξ), se o valor esperado ⟨H⟩ ainda é o mesmo, então a energia total do ion Eion será
dada por (18.59) depois de eliminarmos todos os termos contendo ψi (ξ). Então

Eion − E = −εi (18.66)

A relação acima, conhecida como teorema de Koopmans 19 , dá um significado físico para εi que é a energia
necessária para remover um elétron no estado ψi (ξ). 20 Esse resultado é útil apenas nos casos em que a
ionização pode ser vista como um processo puro de uma partícula, ou quando os efeitos secundários en-
volvidos no processo de ionização forem desprezíveis. Na realidade, assumir que os orbitais para o sistema
otimizado variacionalmente para N partículas significa desprezar o rearranjo eletrônico após a ionização,
i.e., a relaxação dos orbitais. Pelo teorema variacional se os (N − 1) orbitais forem reotimizados a energia
EN −1 sofrerá um decréscimo. Assim, dois cálculos Hartree-Fock separados, para o sistema neutro e para
o sistema iônico, dará uma energia de ionização que é necessariamente menor do que o valor obtido pelo
teorema de Koopmans. Esta diferença, conhecida como energia de relaxação, é crucial para a descrição de
elétrons em camadas profundas.

18.9 Segunda Quantização – Bósons


Na teoria dos sistemas constituídos por um grande número de partículas idênticas costuma-se empregar um
método especial de análise conhecido pelo nome de segunda quantização. Esse método é particularmente
importante na teoria relativista, onde nos encontramos com sistemas nos quais o próprio número de par-
tículas é uma variável. O método da segunda quantização foi desenvolvido por Dirac para os fótons, com
aplicação a teoria da radiação em 1927, 21 e estendido aos férmions por Jordan e Wigner em 1928. 22
Seja ψ1 (ξ), ψ2 (ξ), · · · certo sistema completo de funções de onda ortogonais e normalizadas dos es-
tados estacionários de uma partícula. Como tais, em geral são ondas planas, i.e., funções de onda de uma
partícula livre com valores determinados do momentum linear e da projeção do spin; porém, com objetivo de
19
Tjalling Charles Koopmans (1910–1985), matemático, físico e economista holandês.
20
T. Koopmans, Physica, 1, 104-113 (1934).
21
P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society, A114, 243-265 (1927).
22
P. Jordan and E. Wigner, Zeitschrift für Physik, 47, 631-651 (1928).
18.9. S EGUNDA Q UANTIZAÇÃO – B ÓSONS 449

reduzir o espectro dos estados à espectro discreto, considera-se o movimento das partículas em uma região
grande, porém limitada, do espaço Ω.23
No sistema de partículas livres os momenta24 dessas se conservam separadamente. Também se conser-
vam os números de ocupação dos estados, ou seja, os números N1 , N2 , · · · , que indicam quantas partículas
se encontram em cada um dos estados ψ1 , ψ2 , · · · . Num sistema de partículas que interagem, os momenta
de cada uma das partículas não se conservam, tão pouco os números de ocupação se conservam. Quando
se trata de um sistema desse tipo podemos falar unicamente da distribuição das probabilidades dos dis-
tintos valores dos números de ocupação. Nós pretendemos construir um formalismo matemático em que
temos precisamente os números de ocupação, e não as coordenadas e projeções dos spins das partículas,
que desempenham o papel de variáveis independentes.
Neste formalismo o estado do sistema se descreve por uma função de onda no espaço de números de
ocupação, dado por ϕ(N1 , N2 , · · · , t), com objetivo de subtrair sua diferença em relação à função de onda
ordinária de coordenadas e spin ψ (ξ1 , ξ2 , · · · , ξN , t). Assim |ϕ|2 determina a probabilidade dos distintos
valores dos números N1 , N2 , · · · .
Consideremos agora um sistema de partículas idênticas que obedecem a estatística de Bose-Einstein, ou
seja, estamos considerando os bósons.
Seja fa1 o operador de uma grandeza25 física qualquer correspondente a uma a-ésima partícula, i.e., que
atua unicamente sobre as funções das variáveis ξa . Introduzimos o operador simétrico em relação à todas as
partículas ∑
F1 = fa1 (18.67)
a
onde a soma se estende a todas as partículas, e determinamos seus elementos de matriz com respeito as
funções de onda (18.3). Note que os elementos de matriz são diferentes de zero somente para as transições
em que não variam os números N1 , N2 , · · · , elementos diagonais, e para as transições nas quais um desses
números aumenta em uma unidade, mesmo que o outro diminua em uma unidade. Com efeito, como cada
um dos operadores fa1 atua somente sobre uma função no produto

ψp1 (ξ1 )ψp2 (ξ2 ) · · · ψpN (ξN )

seus elementos de matriz podem ser distintos de zero unicamente para as transições em que varia o estado
de uma só partícula; mas isso significa que o número de partículas que se encontram no estado diminua em
uma unidade, mesmo que em outro estado aumente em uma unidade. Assim, os elementos não diagonais
desse resultado são iguais a

⟨Ni , Nk − 1|f 1 |Ni − 1, Nk ⟩ = fik
1
Ni Nk , (18.68)
1 é o elemento de matriz
aqui fik ∫
1
fik = ψi∗ (ξ) f 1 ψk (ξ) dξ . (18.69)

Os elementos de matriz diagonais de F1 são os valores médios da grandeza F1 nos estados ψN1 N2 ··· . O
cálculo dará ∑
⟨F1 ⟩ = fii1 Ni . (18.70)
i
Introduzimos agora os operadores ai , fundamentais para a segunda quantização, que atuam não sobre
as funções de coordenadas, mas sim sobre as funções dos números de ocupação. Por definição, o operador
ai , atuando sobre a função ϕ(N1 , N√ 2 , · · · ), irá diminuir em uma unidade o valor da variável Ni , ao mesmo
tempo que multiplica a função por Ni

ai ϕ(N1 , N2 , · · · , Ni , · · · ) = Ni ϕ(N1 , N2 , · · · , Ni − 1, · · · ) . (18.71)
23
O conceito da partícula que se move em uma região grande, limitada, do espaço Ω é utilizada para, no lugar de considerar o
espectro contínuo dos estados, considerar um espectro discreto, na qual conseguimos simplificar a forma de escrever as fórmulas.
24
Plural de momentum.
25
Observável.
450 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

Podemos dizer que o operador ai é um operador de aniquilação de partículas. Esse operador será represen-
tado na forma matricial cujo único elemento distinto de zero é

⟨Ni − 1|ai |Ni ⟩ = Ni . (18.72)

O operador a†i é o conjugado do operador ai , por definição, podemos escrever o operador a†i na forma
matricial por √
⟨Ni |a†i |Ni − 1⟩ = ⟨Ni − 1|ai |Ni ⟩∗ = Ni . (18.73)
Isso significa que, ao atuar sobre a função ϕ(N1 , N2 , · · · ) esse operador aumenta o número Ni em uma
unidade √
a†i ϕ(N1 , N2 , · · · , Ni , · · · ) = Ni + 1 ϕ(N1 , N2 , · · · , Ni + 1, · · · ) . (18.74)
Podemos dizer que o operador a†i é um operador de criação de partículas.
O produto dos operadores a†i ai ao atuar sobre a função de onda pode unicamente multiplicá-la por uma
constante, deixando sem alteração todos as variáveis N1 , N2 , · · · . A multiplicação direta das matrizes
(18.72) e (18.73) demonstra na realidade que a†i ai é representada por uma matriz cujos elementos diagonais
são iguais a Ni . Logo, podemos escrever
a†i ai = Ni . (18.75)
Analogamente
ai a†i = Ni + 1 (18.76)
o que nos leva a regra de comutação dos operadores ai e a†i
[ ]
ai a†i − a†i ai = 1 ou ai , a†i = 1 . (18.77)

Mas os operadores com diferentes sub-índices i e k que atuam sobre variáveis distintas, Ni e Nk , comutam

ai ak − ak ai = 0, ai a†k − a†k ai = 0 com i ̸= k . (18.78)

Partindo das propriedades descritas pelos operadores ai e a†i , é fácil verificar que o operador

1 †
F1 = fik ai ak (18.79)
i,k

coincide com o operador (18.67). Efetivamente, todos seus elementos matriciais calculados por (18.72)
e (18.73) coincide com os elementos de matriz da Eq. (18.68). Na fórmula (18.79) as grandezas fik 1 são

apenas números. Desse modo conseguimos expressar um operador ordinário, que atua sobre as funções de
coordenadas, na forma de um operador que atua sobre as funções das novas variáveis, i.e., dos números de
ocupação Ni .
O resultado obtido poderá ser generalizado à operadores de outro tipo. Seja

F2 = 2
fab (18.80)
a>b

2 é o operador de uma grandeza física que se refere ao mesmo tempo à um par de partículas e que,
onde fab
para tanto, atua sobre as funções ξa e ξb . Cálculos análogos demostram que esse operador pode ser expresso
em funções dos operadores ai e a†i mediante a igualdade

1 ∑ ( 2 )ik † †
F2 = f lm ai ak am al (18.81)
2
i,k,l,m

onde ∫ ∫
( )ik
f 2 lm = ψi∗ (ξ1 )ψk∗ (ξ2 ) f 2 ψl (ξ1 )ψm (ξ2 ) dξ1 dξ2 .
18.9. S EGUNDA Q UANTIZAÇÃO – B ÓSONS 451

Desse modo as fórmulas se generalizam aos operadores de qualquer outro tipo, que são simétricos em
relação à todas as partículas.
Vamos usar os operadores ai e a†i para estudar um sistema físico constituído de N partículas idênticas
que se interagem. Queremos obter o operador hamiltoniano para esse sistema simétrico em relação à todas
as partículas. Assim, se a interação no sistema se reduz a interação de cada par de partículas, a hamiltoniana
terá a forma ∑ ∑
H= H1a + U2 (⃗ra ,⃗rb ) (18.82)
a a>b

onde H1a
é a parte da hamiltoniana que depende das coordenadas de uma só partícula, i.e., é a hamiltoniana
da partícula livre
~2 ⃗ 2
H1a = − ∇ (18.83)
2µ a
e a função U2 (⃗ra ,⃗rb ) é a energia de interação das partículas. Aplicando na relação (18.82) as formulas
(18.79) e (18.81) encontramos
∑ 1 ∑ ( 2 )ik † †
1 †
H= Hik ai ak + U lm ai ak am al . (18.84)
2
i,k i,k,l,m

Assim temos a hamiltoniana na forma de operador que atua sobre as funções dos números de ocupação.
Para um sistema de partículas que não interagem entre si, a Eq. (18.84) se reduz a

1 †
H= Hik ai ak . (18.85)
i,k

Se H1 ψi = εi ψi , já que ψi são funções próprias da hamiltoniana H1 da partícula livre, a matriz Hik


1 será

diagonal e seus elementos diagonais são os valores próprios da energia εi da partícula. Desse modo

H= εi a†i ai (18.86)
i

mas o operador a†i ai = Ni , ou seja, a†i ai são os números de ocupação. Logo, obtemos para os níveis de
energia do sistema a expressão ∑
E= εi Ni ,
i

esse resultado é precisamente o que deveríamos esperar.


O formalismo matemático do método da segunda quantização poderá ser representado na forma mais
compacta, introduzindo os operadores ψ̂
∑ † ∑
ψ̂ (ξ) = ψi (ξ) ai ψ̂ (ξ) = ψi∗ (ξ) a†i (18.87)
i i

onde as variáveis ξ são consideradas como parâmetros.


Em virtude do dito anteriormente sobre os operadores ai e a†i , fica claro que o operador ψ̂ diminuirá em

uma unidade o número total de partículas do sistema, enquanto o operador ψ̂ aumentará o número total de
partículas em uma unidade. 26

Com ajuda dos operadores ψ̂ e ψ̂ a hamiltoniana (18.84) terá a forma
∫ ∫ ∫
† 1 † †
H = ψ̂ (ξ) H1 ψ̂ (ξ) dξ + ψ̂ (ξ)ψ̂ (ξ ′ ) U2 ψ̂ (ξ ′ )ψ̂ (ξ) dξdξ ′ (18.88)
2
26 ∑
Chamamos a atenção sobre a analogia entre as expressões (18.87) e o desenvolvimento ψ = an ψn de uma função de onda
arbitrária em certo sistema completo de funções. Aqui ocorre como se fizéssemos a quantização novamente. A isso se deve o
nome do método da segunda quantização.
452 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

onde usamos os operadores (18.87).



O operador ψ̂ ψ̂ se chama operador densidade das partículas, e a integral


N = ψ̂ ψ̂ dξ (18.89)

desempenha no formalismo da segunda quantização o papel de operador número total de partículas do


sistema. Fazendo as devidas substituições e levando em conta a normalização e a ortogonalidade das funções
de onda ψi , temos ∑ †
N= ai ai (18.90)
i
ou seja, cada termo dessa soma é o operador número das partículas que se encontram no i-ésimo estado,
que de acordo com (18.75), seus valores próprios são iguais aos números de ocupação Ni , cuja soma nos
dará o número total de partículas do sistema.

18.10 Segunda Quantização – Férmions


Toda a técnica desenvolvida na seção anterior para o método da segunda quantização permanece inalterado
para um sistema constituído de férmions idênticos. Mas, como é natural, trocam as fórmulas concretas dos
elementos matriciais das grandezas físicas e dos operadores ai .
Assim, neste caso, a função de onda ψN1 N2 ··· tem a forma (18.5), i.e.,
 
ψp1 (ξ1 ) ψp1 (ξ2 ) · · · ψp1 (ξN )
 ψp (ξ1 ) ψp (ξ2 ) · · · ψp (ξN ) 
1  2 2 2 
ψ (ξ1 , ξ2 , · · · , ξN ) = √ det  . .. . .. .
N!  . . . . . . 
ψpN (ξ1 ) ψpN (ξ2 ) · · · ψpN (ξN )
Como já indicamos, entre os números p1 , p2 , · · · , pN , que designam os estados ocupados, não podemos
ter iguais, já que o determinante se anularia. Em outras palavras, os números de ocupação Ni podem ter
somente valores 0 ou 1.
Devido o caracter antissimétrico da função (18.5), se colocará em primeiro lugar o problema da seleção
de seu sinal. No caso da estatística de Bose-Einstein, essa questão não existia, já que em virtude da simetria
da função de onda, uma vez escolhido seu sinal, esse irá se conservar em todas as permutações das partículas.
Para fazer que o sinal da função (18.5) seja determinado podemos estabelecer o seguinte. Enumeremos uma
vez para sempre os estados ψi por meio de números consecutivos. Feito isso, faremos com que as linhas
do determinante acima, Eq. (18.5), sempre sejam de maneira tal que p1 < p2 < · · · < pN , mesmo que
nas colunas figurem as funções das distintas variáveis na ordem ξ1 , ξ2 , · · · , ξN . O sinal da função de
onda dependerá, portanto, de todo o conjunto dos números p1 , p2 , · · · , pN , i.e., de todos os números de
ocupação.
Como consequência resultam também, dependentes deles, os sinais dos elementos matriciais dos ope-
radores de aniquilação e de criação de partículas. Resultam precisamente que esses operadores devem ser
definidos como matrizes com um só elemento distinto de zero, igual a
∑i−1
⟨0i |ai |1i ⟩ = ⟨1i |a†i |0i ⟩ = (−1) k=1 Nk
. (18.91)

Multiplicando entre si essas matrizes, podemos comprovar que os produtos a†i ai e ai a†i são diagonais,
sendo
a†i ai = Ni ai a†i = 1 − Ni (18.92)
e sua soma
ai a†i + a†i ai = 1 . (18.93)
Chamamos a atenção sobre o fato de que a redução à zero do produto a†i ai quando Ni = 0 e do produto
ai a†i quando Ni = 1 é completamente natural. Nesses produtos atuam primeiro o operador da direita; mas
18.11. E SPALHAMENTO DE PARTÍCULAS I DÊNTICAS – PARTE 2 453

é impossível destruir uma partícula no estado i-ésimo se Ni = 0, e de acordo com o princípio de Pauli, é
impossível criar um elétron no estado i-ésimo se o dito estado está ocupado, Ni = 1. Por essa mesma razão
é evidente que
ai ai = 0 a†i a†i = 0 . (18.94)
Em troca, para todos os pares de operadores com distintos i e k, temos

ai ak + ak ai = 0 a†i a†k + a†k a†i = 0


ai a†k + a†k ai = 0 i ̸= k (18.95)

ou seja, todos são anticomutativos, i.e., o produto varia de sinal se trocarmos a ordem dos fatores. Essa
diferença em relação ao caso usando estatística de Bose-Einstein é completamente natural. Nesse último
caso os operadores ai e ak eram totalmente independentes; cada um dos operadores ai atuava somente sobre
uma variável Ni e o resultado de sua atuação não dependia dos valores dos demais números de ocupação.
Porém, no caso da estatística de Fermi-Dirac, o resultado da atuação do operador ai depende não só do
próprio número Ni , mas também dos números de ocupação de todos os outros estados anteriores. Devido
essa atuação dos distintos operadores ai e ak , não se pode considerá-los como independentes.
Uma vez estabelecidas, desse modo, as propriedades dos operadores ai e a†i , todas as fórmulas que estão
na seção anterior, de (18.79) a (18.90), conservam sua validade.

18.11 Espalhamento de Partículas Idênticas – Parte 2


Aqui iremos detalhar o que já foi discutido no §9.11. A existência de amplitude de troca tem consequências
importantes também para as seções de choque de espalhamento de um par de partículas idênticas. No caso
de partículas distinguíveis, o espalhamento devido a um potencial depende da distância relativa entre as
partículas e independente dos spins, cujos momenta iniciais, no sistema de centro de massa, e estados de spin
são ⃗k1i , χ1 (s) e ⃗k2i = −⃗k1i , χ2 (s), e cujos momenta e estados de spin finais são ⃗k1f , χ1 (s) e ⃗k2f = −⃗k1f , χ2 (s).
O espalhamento é descrito por uma amplitude de espalhamento f (θ) em termos da qual a seção de choque
diferencial é dada por

= |f (θ)|2
dΩ
sendo θ o ângulo de espalhamento, dado por

⃗k1 · ⃗k1
i f
cos θ = .
ki1 kf1

Como foi suposto que a interação é independente de spin, os estados de spin finais são iguais aos estados
iniciais. É importante notar que esses estados de spin não são necessariamente autovetores de Sz . Em geral
eles são estados de spin que dependem do particular processo de preparação ao qual tenham sido submetidos
o projétil e o alvo.
Para passar ao caso do espalhamento de duas partículas idênticas, é útil escrever a amplitude de espa-
lhamento em termos de um operador de transição T definido por

⟨⃗k1f χ1 , ⃗k2f χ2 |T|⃗k1i χ1 , ⃗k2i χ2 ⟩ ≡ f (θ)

que, como a interação responsável pelo espalhamento, é também independente dos spins. Como no caso
de partículas idênticas os estados inicial e final devem ser devidamente simetrizados, para bósons, ou an-
tissimetrizados, para férmions, a amplitude de espalhamento adquire contribuições de troca, sendo dada
por

f± (θ) = ⟨⃗k1f χ1 , ⃗k2f χ2 |T|⃗k1i χ1 , ⃗k2i χ2 ⟩ ± ⟨⃗k1f χ1 , ⃗k2f χ2 |T|⃗k2i χ2 , ⃗k1i χ1 ⟩


2
= f (θ) ± f (π − θ) ⟨χ1 |χ2 ⟩ .
454 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

Os sinais + e − se referem ao caso de bósons e férmions respectivamente, e foi usado o fato de que a tran-
sição de ⃗k2i para ⃗k1f corresponde a um ângulo de espalhamento π − θ. A seção de choque de espalhamento,
tendo em conta os efeitos de troca associados à identidade das partículas, é portanto dada por
dσ 2 2
= f (θ) ± f (π − θ) ⟨χ1 |χ2 ⟩
dΩ
que mostra efeitos de interferência entre as duas amplitudes que, em particular, expõe à observação a sua
fase relativa. Por exemplo, no caso do espalhamento coulombiano de dois elétrons com spins paralelos, i.e.,
χ1 = χ2 , a seção de choque diferencial é dada por

= |fc (θ) ± fc (π − θ)|2 (18.96)
dΩ
onde fc (θ) é a amplitude do espalhamento coulombiano
[ ( ) ]
η 2 θ
fc (θ) = − exp − i η log sen + 2 i σ0 . (18.97)
2k sen2 2θ 2

O parâmetro de Sommerfeld, η, e a defasagem coulombiana da onda s, σ0 , são dados respectivamente por

µe2
η= e σ0 = arg Γ(1 + i η) .
~2 k
Nessas expressões k é o vetor de onda associado ao movimento relativo dos dois elétrons e µ é a sua massa
reduzida. A seção de choque (18.96) é marcadamente distinta da seção de choque de Rutherford. Devido
aos efeitos de troca ela se torna simétrica em torno de θ = π2 e adquire um termo de interferência
( )int [ ( )]
dσ 2η 2 2 θ
=− 2 cos η log tan
dΩ k sen2 θ 2
que tem um comportamento fortemente oscilatório nas vizinhanças de θ = 0 e θ = π. No caso de spins
antiparalelos, i.e., ⟨χ1 |χ2 ⟩ = 0, não há contribuições de troca para a amplitude de espalhamento e a seção de
choque se reduz à seção de choque de Rutherford. Isso pode ser entendido notando que, sendo a interação
coulombiana independente dos spins, o estado de spin dos elétrons é preservado durante o processo de
colisão, o que permite, nesse caso, a identificação das partículas através de seus estados de spin.

18.12 Elementos de Estatística Quântica


Se ρ̄ denota a densidade média ou operador estatístico para um ensemble grande canônico com valores
fixos de H e N , a termodinâmica estatística requer que a entropia, definida por

S = −k tr(ρ̄ ln ρ̄) (18.98)

seja maximizada para os vínculos

⟨N̄ ⟩ = tr(ρ̄N ) = n, ⟨H̄⟩ = tr(ρ̄H) = E, tr(ρ̄) = 1 .

Usando os multiplicadores de Lagrange α e β, e o princípio variacional


( )
δ S − kα⟨N̄ ⟩ − kβ⟨H̄⟩ = 0

é fácil mostrar que a fórmula central


e−αN −βH
ρ̄ = (18.99)
Z
onde ( )
Z = tr e−αN −βH (18.100)
18.12. E LEMENTOS DE E STATÍSTICA Q UÂNTICA 455

é a função partição grande canônica.


Para um sistema de partículas idênticas não interagindo mutuamente e com energia da i-ésima partí-
cula εi , conhecido como um gás perfeito na termodinâmica, quanticamente escrevemos a hamiltoniana do
sistema como ∑ † ∑
H= εi ai ai = εi Ni . (18.101)
i
Em estatística quântica, para uma observável A qualquer, a média do ensemble será
⟨Ā⟩ = tr(ρ̄A) . (18.102)
Aplicamos essa relação para calcular a ocupação média dos números Ni ,
( )
tr e−αN −βH a†i ai
⟨N̄i ⟩ = ⟨a†i ai ⟩ = .
Z
Usando as propriedades dos operadores de criação e de aniquilação,
Ni ak − ak Ni = Ni a†k − a†k Ni = 0 i ̸= k
Ni ai − ai Ni = −ai
e
Ni a†i − a†i Ni = a†i
e a identidade
eA B e−A = eγ B
pois [A, B] = γB, onde γ é um número, temos que
( ) ( )
tr e−αN −βH a†i ai = e−(α+βεi ) tr e−αN −βH ai a†i . (18.103)

Se usarmos as relações de comutação para bósons ou para férmions, obtemos, com sinal superior para
bósons e com sinal inferior para férmions:
( ) [ ]
tr e−αN −βH a†i ai = e−(α+βεi ) tr e−αN −βH (1 ∓ a†i ai )

e tendo,
1
⟨N̄i ⟩ = ⟨a†i ai ⟩ = (18.104)
∓1 eα+βεi
na qual é a conhecida fórmula para distribuição de partículas nas estatística de Bose-Einstein e de Fermi-
-Dirac, respectivamente. 27

Problemas
18.1 Considere um sistema que consiste de duas partículas idênticas, cada uma representada pela função
de onda ψα (⃗r) e ψβ (⃗r). Vamo definir
1
ψ A (⃗r1 ,⃗r2 ) = √ [ψα (⃗r1 )ψβ (⃗r2 ) − ψα (⃗r2 )ψβ (⃗r1 )]
2
1
ψ S (⃗r1 ,⃗r2 ) = √ [ψα (⃗r1 )ψβ (⃗r2 ) + ψα (⃗r2 )ψβ (⃗r1 )]
2
ou seja, correspondente as funções de onda antissimétrica e simétrica, respectivamente, do sistema.
Agora, se a regra de simetrização para partículas idênticas foi ignorada, o sistema em geral terá a se-
guinte função de onda Ψ = λψ A +µψ S , com |λ|2 +|µ|2 = 1 . Mostre que nesse caso, a probabilidade
por unidade de volume de encontrar uma partícula em⃗r1 e a outra em⃗r2 depende de λ e de µ, discuta
essa resultado.
27
Comparado aos textos clássicos de mecânica estatística, o parâmetro α está relacionado com o potencial químico, e naturalmente
1
β = kT , ver L. D. Landau and E. M. Lifshitz, Statistical physics, Part 1, (1980).
456 C AP. 18 PARTÍCULAS I DÊNTICAS

18.2 Mostre que os operadores de simetrização e antissimetrização são operadores de projeção ortogonais,
i.e., S 2 = S, A2 = A e SA = AS = 0.

18.3 Seja ⃗S1 e ⃗S2 os operadores de spin de duas partículas de spin 12 . Determine as autofunções simultâneas
dos operadores (⃗S = ⃗S1 + ⃗S2 ), ⃗S2 e Sz . Mostre que essas autofunções também são autofunções do
operador ⃗S1 · ⃗S2 .

18.4 Resolva o problema precedente para o caso de cada uma das duas partículas ter spin 1. Sugestão:
Consulte o livro do Prof. L. I. Schiff [77].

18.5 Mostre que para um sistema de partículas idênticas, cada uma com spin S, a razão do número de
estados de spin simétricos e antissimétricos é S+1
S .

18.6 Considere um sistema de osciladores harmônicos interagindo de mesma frequência natural. Se a ener-
gia de interação é proporcional ao produto dos deslocamentos dos osciladores em relação as suas
posições de equilíbrio, estude esse sistema em segunda quantização.

18.7 Considere um sistema de N bósons idênticos, e se Li é o operador que atua


∑ somente nas variáveis da
i-ésima partícula. Encontrar a expressão para um operador da forma L = i Li na segunda quantiza-
ção.

18.8 Mostre que o determinante de Slater é uma aproximação de ordem 0 para a equação de Schrödinger
de um sistema de N férmions idênticos.

18.9 Três férmions imaginários spinless são confinados em uma caixa unidimensional de comprimento L.
O potencial de confinamento é dado por
{
0 para 0 ≤ x ≤ L ,
V=
∞ outros .
Assumimos que não há interação entre os férmions.
a) Qual é o estado fundamental do sistema?
b) Encontre o estado do sistema.

18.10 Repita o problema anterior para três elétrons. Ignore a interação coulombiana entre os elétrons.

Leitura Recomendada
Para este capítulo, recomenda-se ao leitor uma leitura dos livros:

– L. D. Landau and E. M. Lifshitz [52];


– A. F. R. de Toledo Piza [79];
– J. J. Sakurai [74].

No livro do Landau, que é nossa principal referência, iremos encontrar um excelente trabalho sobre partí-
culas idênticas, modelo atômico e tabela periódica. Um outro excelente trabalho será encontrado na leitura
do livro:

– A. Messiah [62].
Capítulo 19
Campo Eletromagnético

Neste capítulo iremos discutir o tratamento de uma partícula carregada na presença do campo eletromag-
nético, invariância de calibre e a interação da radiação eletromagnética com a matéria. Ainda usaremos as
técnicas da segunda quantização para a quantização do campo eletromagnético, escrevendo a energia, o
momentum e o momentum angular do campo de radiação. Finalmente abordaremos os princípios da óptica
quântica.

19.1 Partícula Carregada em um Campo Eletromagnético


Se uma partícula carregada q, de massa µ, move-se na presença de um campo eletromagnético externo, no
qual será dependente do tempo, a equação clássica de movimento será derivada das equações de Hamilton
onde a hamiltoniana é dada por
1 ( q ⃗ )2
H= ⃗p − A + qΦ (19.1)
2µ c
aqui Φ e A⃗ são os potenciais escalar e vetorial do campo eletromagnético, respectivamente. Ambos são
funções de⃗r e t. A validade desse operador hamiltoniano na mecânica quântica está sustentada pelo cálculo
da taxa de variação temporal do valor esperado ⟨⃗r⟩ para partícula

d 1 1 q⃗
⟨⃗r⟩ = ⟨[⃗r, H]⟩ = ⟨⃗p − A⟩ . (19.2)
dt i~ µ c
Evidentemente, essa equação define o operador velocidade
1( q⃗ )
⃗v = ⃗p − A (19.3)
µ c

⃗ tem a
e esta relação entre o momentum canônico ⃗p e a velocidade ⃗v, na presença do potencial vetor A,
mesma forma tanto na mecânica quântica bem como na mecânica clássica.
Desde que o campo magnético, definido por ⃗B = ∇
⃗ × A,
⃗ e que as componentes do operador velocidade
não comutam,
q ( )
⃗ × ⃗p = i ~ q ∇
( )
⃗ = i ~ q ⃗B .
⃗v × ⃗v = − 2 ⃗p × A⃗ +A ⃗ ×A (19.4)
µ c µ2 c µ2 c

Em mecânica quântica, a segunda lei de Newton tem a forma


⟨ ⟩
d 1 ∂⃗v
⟨⃗v⟩ = ⟨[⃗v, H]⟩ +
dt i~ ∂t
⟨ ⟩
1 µ 1 q ⃗
∂A
= ⟨[⃗v, ⃗v ·⃗v]⟩ + ⟨[⃗v, qΦ]⟩ − .
i~ 2 i~ µc ∂t

457
458 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

Usando a identidade
[⃗v,⃗v ·⃗v] = ⃗v × (⃗v × ⃗v) − (⃗v × ⃗v) × ⃗v . (19.5)
e combinando (19.4) e (19.5), encontramos
⟨ ⟩
d q q ⃗
∂A
µ ⟨⃗v⟩ = ⟨⃗v × ⃗B − ⃗B × ⃗v⟩ − q⟨∇Φ⟩
⃗ − .
dt 2c c ∂t

Pelo fato de que o campo elétrico ⃗E é definido por



⃗ − 1 ∂A
⃗E = −∇Φ
c ∂t
encontramos a versão em mecânica quântica da força de Lorentz;
d q
µ ⟨⃗v⟩ = ⟨⃗v × ⃗B − ⃗B × ⃗v⟩ + q⟨⃗E⟩ . (19.6)
dt 2c
Note que o produto vetorial requer um tratamento cuidadoso devido a fatores não comutativos que estão
envolvidos.
Nesse momento, é importante discutir a escolha dos potenciais eletromagnéticos. Desde que
( )

⃗ × ∇f⃗ =0 e ⃗ ∂f = ∂ ∇f
∇ ⃗
∂t ∂t
os campos ⃗E e ⃗B são invariantes pela transformação de calibre nos potenciais1
⃗ 7→ A
A ⃗′=A ⃗ + ∇f
⃗ (19.7a)
1 ∂f
Φ 7→ Φ′ = Φ − (19.7b)
c ∂t
onde f (⃗r, t) é uma função arbitrária diferenciável de ⃗r e de t. Os potenciais representam dois diferentes
calibres, mas igualmente válidos. Cabe mencionar aqui os dois tipos de calibre mais comumente usados no
eletromagnetismo, o de Lorenz-Lorentz2 e o de Coulomb.3

Calibre de Lorenz-Lorentz: ∇ ⃗ + 1 ∂Φ = 0 .
⃗ ·A
c ∂t

Calibre de Coulomb: ∇ ⃗ = 0.
⃗ ·A

Voltando ao nosso tema, para um novo calibre, a hamiltoniana é


1 ( q ⃗ ′ )2
H′ = ⃗p − A + qΦ′ . (19.8)
2µ c
A equação de Schrödinger dependente do tempo no calibre antigo é
( )
∂ψ (⃗r, t) ~2 ⃗ iq⃗ 2
i~ =− ∇ − A ψ (⃗r, t) + qΦψ (⃗r, t) (19.9)
∂t 2µ ~c
e no novo calibre terá a forma
( )
∂ψ ′ (⃗r, t) ~2 iq⃗ ′ 2 ′
i~ =− ∇− A
⃗ ψ (⃗r, t) + qΦ′ ψ ′ (⃗r, t) (19.10)
∂t 2µ ~c
1
Em inglês, gauge. O conceito de calibre foi introduzido por Weyl em Ann. Physik 59, 101 (1919); cf. Moriyasu (1983).
Hermann Weyl (1885–1955), matemático alemão.
2
Ludvig Valentin Lorenz (1829–1891), matemático e físico dinamarquês.
Nota Esse calibre foi primeiramente proposto por Lorenz em: Phil. Mag. Ser. 3, 34, 287 (1867), e é um invariante de Lorentz.
Ver J. D. Jackson and L. B. Okun, Rev. Mod. Phys. 73, 663 - 680 (2001).
3
O calibre de Coulomb foi proposto por Maxwell, que o denominou de Coulomb.
19.1. PARTÍCULA C ARREGADA EM UM C AMPO E LETROMAGNÉTICO 459

onde os novos potenciais A⃗ ′ e Φ′ estão relacionados com os antigos potenciais pela Eq. (19.7). A nova

função de onda ψ está relacionada com a antiga função de onda ψ por uma transformação unitária de fase,

ψ ′ (⃗r, t) = Uψ (⃗r, t) (19.11)

com iq
U = e ~c f (⃗r,t) . (19.12)
Se a fase é constante, chamamos de transformação global de calibre. Desde que a multiplicação por um
fator de fase constante ei α não tem importância na mecânica quântica ordinária onde ψ é a amplitude de
probabilidade, a transformação global de calibre não tem interesse aqui. Na teoria quântica de campos,
entretanto, onde partículas são criadas e destruídas, essas transformações se tornam importantes.
Para provar que (19.12) é uma transformação local de calibre, simplesmente precisamos substituir ψ ′
dada em (19.11) na relação (19.10) e mostrar que essa equação é idêntica à (19.9) se as hamiltonianas (19.1)
e (19.8) nos dois calibres estão relacionadas por
∂U †
H′ = UHU† + i ~ U . (19.13)
∂t
Para entendermos a validade dessa condição, usaremos a definição (19.7) e as relações de comutação para
verificar que a transformação de calibre (19.12) deixará os operadores⃗r e ⃗v (mas não ⃗p) invariantes

U⃗rU† = ⃗r
(19.14)
( q⃗ ) † q⃗ q⃗ q⃗ ′
U ⃗p − A U = ⃗p − ∇f − A = ⃗p − A
c c c c
e que
∂U † q ∂f
i~ U =− . (19.15)
∂t c ∂t
A representação do operador momentum canônico ⃗p, distinto do momentum cinético µ⃗v = ⃗p − qc A, ⃗
será o mesmo, ⃗p = − i ~∇, ⃗ para qualquer escolha do calibre. As relações de comutação fundamentais são
invariante de calibre, e a invariância de calibre na teoria encontra sua expressão na relação
( ) ( ) ( )
∗ ~⃗ q⃗ ∗ † ~⃗ q⃗ ′ ′∗ ~⃗ q⃗ ′
ψ ∇− A ψ =ψ U ∇ − A Uψ = ψ ∇ − A ψ′ . (19.16)
i c i c i c
Essa conexão assegura a invariância de calibre do valor esperado do momentum cinético.
Se substituirmos ∇
⃗ →∇ ⃗ − iqA ⃗ na relação (2.10), teremos uma densidade de corrente invariante de
~c
calibre [ ( ) ]
⃗J = ~ ψ ∗ ∇ψ ⃗ − ∇ψ ⃗ ∗ ψ − 2 i q A|ψ|
⃗ 2
2iµ ~c
e essa nova densidade de corrente ⃗J satisfaz a equação de continuidade, com ρ = |ψ|2 , dado por
∂ρ ⃗ ⃗
+ ∇·J = 0
∂t
para a equação de Schrödinger (19.9) na presença de um campo eletromagnético.
Embora assumimos em nossa discussão que o campo eletromagnético está presente, a invariância de
calibre também se aplica para uma partícula livre, i.e., ⃗E = ⃗B = 0 com os potenciais satisfazendo as
condições

∇⃗ ×A ⃗ =0 e ⃗ + 1 ∂A = 0 .
∇Φ
c ∂t
Sob essas condições, com o calibre trivial Φ = 0, podemos escolher A⃗ = 0. Outros calibres são perfeita-
mente aceitos, e os momenta canônico e cinético não são necessariamente iguais. Mas geralmente assumi-
mos que na ausência dos campos elétrico e magnético, ou se a partícula for neutra, usamos Φ = 0, e então
escolhemos A⃗ = 0, tendo assim um calibre natural.
460 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

19.2 Transformação de Galileu e Invariância de Calibre


Sejam dois referenciais S e S ′ , onde se adotam respectivamente os sistemas de coordenadas (t, x, y, z) e
(t′ , x′ , y ′ , z ′ ). Observadores em S vêm S ′ em movimento de translação uniforme com velocidade relativa
⃗v, sem perda de generalidade consideraremos os eixos correspondentes paralelos com o eixo x paralelo
à velocidade relativa ⃗v. Os vetores posição e as coordenadas espaciais e temporais nos dois sistemas, no
domínio não relativístico, estão relacionados segundo a transformação de Galileu, nome dado por P. Frank 4
em 1909, por:
⃗r′ = ⃗r − ⃗vt e t′ = t (19.17)
ou seja, em termos dos sistemas de coordenadas, se ⃗v = vı̂:

x′ = x − vt; y ′ = y; z ′ = z; t′ = t

o que implica
∂ ∂ ⃗′ ⃗′.
= ′ − ⃗v · ∇ e ∇
⃗ =∇ (19.18)
∂t ∂t
Como o potencial V é uma função escalar, e seu valor independe do referencial

V ′ (⃗r′ , t′ ) = V (⃗r, t) . (19.19)

A equação de Schrödinger, em relação ao referencial S, é dada por


( 2 )
~ ⃗2 ∂
− ∇ + V (⃗r, t) ψ (⃗r, t) = i ~ ψ (⃗r, t) . (19.20)
2µ ∂t
Mas a densidade de probabilidade é um invariante escalar, i.e., não deve depender do referencial. Logo, as
funções de onda segundo os dois referenciais S e S ′ satisfazem

|ψ (⃗r, t)|2 = |ψ ′ (⃗r′ , t′ )|2 .

Então, teremos que as funções ψ e ψ ′ estão relacionadas por um fator de fase

ψ (⃗r, t) = ei α ψ ′ (⃗r′ , t′ ) ⇒ ψ ′ (⃗r′ , t′ ) = e− i α ψ (⃗r, t) (19.21)

onde α é uma função real de coordenadas.


A equação de Schrödinger, em relação ao referencial S ′ e considerando (19.18), é dada por
( 2 ) ( )
~ ⃗′2 ∂
− ∇ + V ′ ei α ψ ′ = i ~ − ⃗
v · ⃗ ′ ei α ψ ′
∇ (19.22)
2µ ∂t′
ou
( )
∂ψ ′ ~2 ⃗ ′ 2 ′ ~⃗′ ⃗ ′ψ′
i~ ′ = − ∇ ψ + i~ ∇ α − ⃗v · ∇
∂t 2µ µ
( ( ) )
i ~2 ⃗ ′ 2 ~2 ⃗ ′ 2 ⃗ ′ α − ~ ∂α ψ ′ .
+ V′− ∇ α+ |∇ α| − ~ ⃗v · ∇ (19.23)
2µ 2µ ∂t′
Para reestabelecer a forma original da equação de Schrödinger, precisamos determinar a função real α
tal que os termos extras que aparecem em (19.23) sejam nulos. Assim, três condições devem ser satisfeitas:

~⃗′

 µ∇ α −⃗ v = 0,




⃗ ′ 2α = 0 ,






 ~ ⃗′ 2 ⃗ ′ α − ∂α′ = 0 .
2µ |∇ α| − ⃗ v·∇ ∂t
4
Philipp Frank (1884–1966), físico austríaco.
19.2. T RANSFORMAÇÃO DE G ALILEU E I NVARIÂNCIA DE C ALIBRE 461

As duas primeiras condições são ambas satisfeitas por α = µ


~⃗v ·⃗r′ + g (t′ ), onde g (t′ ) é uma função
arbitrária. Da terceira condição encontraremos

µ µv 2 ′
α= ⃗v ·⃗r′ − t
~ 2~
onde |⃗v| = v.
Logo, a equação de Schrödinger está de acordo com o princípio da relatividade de Galileu desde que a
relação entre ψ e ψ ′ , em dois referenciais S e S ′ , seja satisfeita por

µv 2
ψ (⃗r, t) = e ~ (µ⃗v ·⃗r− ψ ′ (⃗r′ , t′ ) .
i
t)
2 (19.24)

Note que a invariância da equação de Schrödinger com relação à transformação de Galileu implica
que as previsões da teoria não dependem do referencial inercial utilizado, pois não altera a distribuição de
probabilidade |ψ (⃗r, t)|2 = |ψ ′ (⃗r′ , t′ )|2 .
A diferença desse resultado em relação à invariância das leis de Newton sob uma transformação de
Galileu é: na mecânica clássica, a equação de movimento é invariante; na mecânica quântica, o conceito
de probabilidade desempenha o papel principal na fixação do fator de fase α, assegurando a invariância da
equação de Schrödinger.
Usando a transformação de Galileu e voltando ao nosso tema, faremos o tratamento de uma partícula
carregada na presença do campo eletromagnético e a invariância de calibre, podemos relacionar o estado
ψ (⃗r, t) de um sistema no tempo t para o estado ψ⃗v (⃗r, t) do mesmo sistema, também no tempo t, depois que
este sofreu um impulso5 tal que passa a movimentar-se com velocidade ⃗v. De acordo com o princípio da
relatividade de Galileu, o estado boosted ψ⃗v (⃗r, t) multiplicará o estado ψ (⃗r − ⃗vt, t) por um apropriado fator
de fase como o que está dado pela Eq. (19.24). Assim,

µv 2
ψ⃗v (⃗r, t) = e ~ (µ⃗v ·⃗r−
i
t)
2 ψ (⃗r − ⃗vt, t) . (19.25)

Se ψ (⃗r, t) satisfaz a equação de onda (19.9)


( )2
∂ψ (⃗r, t) ~2 iq⃗
i~ =− ∇ − A(⃗r, t) ψ (⃗r, t) + qΦ(⃗r, t)ψ (⃗r, t) ,
⃗ (19.26)
∂t 2µ ~c

a função de onda ψ (⃗r − ⃗vt, t) satisfaz


( )2
∂ψ (⃗r − ⃗vt, t) ~2 ⃗ − iqA
i~ =− ∇ ⃗ (⃗r − ⃗vt, t) ψ (⃗r − ⃗vt, t)
∂t 2µ ~c
+ qΦ(⃗r − ⃗vt, t)ψ (⃗r − ⃗vt, t) − i ~⃗v · ∇ψ
⃗ (⃗r − ⃗vt, t)

na qual reescrevemos como


( )2
∂ψ (⃗r − ⃗vt, t) ~2 ⃗ iq⃗ i
i~ =− ∇ − A(⃗r − ⃗vt, t) + µ⃗v ψ (⃗r − ⃗vt, t)
∂t 2µ ~c ~
( )
q⃗ µ⃗v2
+ qΦ(⃗r − ⃗vt, t) + A(⃗r − ⃗vt, t) ·⃗v − ψ (⃗r − ⃗vt, t) .
c 2

Os termos extra no lado direito da equação acima mostra que, como no caso da partícula livre, ψ (⃗r − ⃗vt, t)
não é a função de onda correta para o estado boosted. Fazendo o o inverso de (19.25)

µv 2
ψ (⃗r − ⃗vt, t) = e− ~ (µ⃗v ·⃗r−
i
t)
2 ψ⃗v (⃗r, t)
5
Alguns livros americanos usam o termo boosted. O termo boosted é comumente usado em aceleradores de partícula.
462 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

encontramos a equação de onda para o estado boosted ψ⃗v (⃗r, t)


( )2
∂ψ⃗v (⃗r, t) ~2 ⃗ iq⃗
i~ =− ∇ − A(⃗r − ⃗vt, t) ψ⃗v (⃗r, t)
∂t 2µ ~c
( q⃗ )
+ qΦ(⃗r − ⃗vt, t) + A (⃗r − ⃗vt, t) ·⃗v ψ⃗v (⃗r, t) .
c

Definindo agora os potenciais eletromagnéticos boosted:

⃗ ⃗v (⃗r, t) = A
A ⃗ (⃗r − ⃗vt, t)
(19.27)
⃗ (⃗r − ⃗vt, t) · ⃗v
Φ⃗v (⃗r, t) = Φ(⃗r − ⃗vt, t) + A
c

obtemos
( )2
∂ψ (⃗r, t) ~2 iq⃗
i ~ ⃗v =− ∇ − A⃗v (⃗r, t) ψ⃗v (⃗r, t) + qΦ⃗v (⃗r, t)ψ⃗v (⃗r, t)
⃗ (19.28)
∂t 2µ ~c
na qual tem a mesma forma que a equação de onda original (19.26).
As transformações boosted (19.25) e (19.27) descrevem a relação entre dois diferentes mas equivalentes
estados de um sistema que inclui o campo eletromagnético. Essa transformação boosted é conhecida como
transformação de Galileu ativa, i.e., uma transformação entre duas descrições do estado de um mesmo
sistema. Se temos a descrição de dois diferentes sistema de referência, que estão em movimento relativo um
em relação ao outro, temos a conhecida transformação de Galileu passiva.
Para mostrar como a transformação passiva trabalha, começamos com a função de onda ψ (⃗r, t) no
referencial S. Assumimos que outro referencial S ′ está em movimento relativo com velocidade⃗v em relação
a S, como vimos anteriormente. Se definirmos os potenciais eletromagnéticos em S ′ como

⃗ ′ (⃗r′ , t′ ) = A
A ⃗ (⃗r′ − ⃗vt′ , t′ )
⃗ (⃗r, t) = A
(19.29)
⃗ (⃗r, t) · ⃗v = Φ(⃗r′ − ⃗vt′ , t′ ) − A
Φ′ (⃗r′ , t′ ) = Φ(⃗r, t) − A ⃗ (⃗r′ − ⃗vt′ , t′ ) · ⃗v
c c

a equação de onda (19.9) em S será transformada em


( )2
∂ψ (⃗r′ − ⃗vt′ , t′ ) ~2 ⃗ ′ i q ⃗ ′ ′ ′ i
i~ =− ∇ − A (⃗r , t ) − µ⃗v ψ (⃗r′ − ⃗vt′ , t′ )
∂t′ 2µ ~c ~
( 2
)
µv
+ qΦ′ (⃗r′ , t′ ) − ψ (⃗r′ − ⃗vt′ , t′ ) .
2

Aplicando uma simples transformação de calibre na qual define a função de onda ψ ′ (⃗r′ , t′ ) em S ′ ,

µv 2
ψ ′ (⃗r′ , t′ ) = e− ~ (µ⃗v ·⃗r−
i
t)
2 ψ (⃗r, t) (19.30)

restaura a forma esperada, que é um invariante de Galileu:


( )
∂ψ ′ (⃗r′ , t′ ) ~2 iq⃗ ′ ′ ′ 2 ′ ′ ′
i~ = − ∇ − A (⃗r , t ) ψ (⃗r , t ) + qΦ′ (⃗r′ , t′ )ψ ′ (⃗r′ , t′ ) .
⃗ ′
(19.31)
∂t′ 2µ ~c

Portanto, levando em consideração a transformação de Galileu e a invariância de calibre, a mecânica quân-


tica não relativística está consistente com o princípio da relatividade de Galileu.
19.3. PARTÍCULAS DE Spin 1
2
EM UM C AMPO E LETROMAGNÉTICO 463

1
19.3 Partículas de Spin 2
em um Campo Eletromagnético
Para obter a equação de movimento do elétron de spin 12 num campo eletromagnético caracterizado pelos
⃗ (⃗r, t) e escalar Φ(⃗r, t), Pauli postulou, em 1927, 6 que o mesmo deveria obedecer à equação
potenciais vetor A
de Schrödinger da seguinte forma

Hψ (⃗r, t) = i ~ ψ (⃗r, t) (19.32)
∂t
onde a hamiltoniana é uma simples extensão da hamiltoniana da partícula no campo eletromagnético. As-
sim,
1 [ ( q ⃗ )]2
H= ⃗σ · ⃗p − A + qΦ (19.33)
2µ c
sendo σi as matrizes de Pauli, já definidas em (10.34). Como essas matrizes devem atuar na função de onda
ψ, a mesma deve ser representada por uma matriz coluna, conhecida como spinor de Pauli,
( )
ψ1 (⃗r, t)
ψ (⃗r, t) = . (19.34)
ψ2 (⃗r, t)

Essas duas componentes são: ψ1 (⃗r, t) representa a amplitude de probabilidade de termos o valor 12 para
spin up; enquanto ψ2 (⃗r, t) representa a amplitude de probabilidade de termos o valor − 12 para spin down.
Tendo em vista esse fato, temos ∫ ∞
(ψ1∗ ψ1 + ψ2∗ ψ2 ) d3 r = 1 . (19.35)
−∞
Reescrevendo (19.33), com o operador de momentum, temos
1 [ ( ⃗ − qA
)]2
H= ⃗σ · − i ~∇ ⃗ + qΦ . (19.36)
2µ c
Desenvolvendo
[ ( )]2 ( q ⃗ )2 ( q )( q )
⃗ − qA
⃗σ · − i ~∇ ⃗ = − i ~∇
⃗ − A + i εijk σk − i ~∇i − Ai − i ~∇j − Aj
c c c c
( q ⃗ )2 ~q
= − i ~∇
⃗ − A − εijk σk (∇i Aj + Ai ∇j ) .
c c
∂Aj
Sendo εijk antissimétrico, e usando a notação ∇i Aj ≡ ∂xi , obtemos
[ ( )]2 ( q ⃗ )2 ~q
⃗ − qA
⃗σ · − i ~∇ ⃗ = − i ~∇
⃗ − A − εijk σk (∇i Aj ) . (19.37)
c c c
Desde que εijk σk (∇i Aj ) = ⃗σ · ⃗B, onde ⃗B é o campo magnético, temos
[ ]
1 ( q )2 ~q
H= − i ~∇
⃗ − A ⃗ − ⃗σ · ⃗B + qΦ . (19.38)
2µ c c
Definindo a expressão
q~
⃗σ ⃗µ ≡ (19.39)
2µc
como o momento magnético spinorial, temos o termo
q~
− ⃗σ · ⃗B = −⃗µ · ⃗B
2µc
que representa a interação do spin do elétron com o campo magnético. Desse modo a equação de movimento
(19.32) será [ ( ]
1 q ⃗ )2 ∂
− i ~∇ − A − ⃗µ · B + qΦ ψ (⃗r, t) = i ~ ψ (⃗r, t)
⃗ ⃗ (19.40)
2µ c ∂t
6
W. Pauli, Zeitschrift für Physik, 43, n. 8, 601-623 (1927).
464 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

que conhecida como equação de Pauli. Em 1928, Darwin 7 chegou a uma expressão análoga a essa, 8 razão
pela qual a equação acima também é conhecida como equação de Pauli-Darwin.

19.4 Simetria de Calibre Local


Estas simetrias têm dominado as teorias contemporâneas de partículas e campos, mas também podem ser
introduzidas no quadro da mecânica quântica ordinária.
Invariância de calibre local fez sua primeira aparição na primeira seção deste capítulo, onde vimos
que as equações dinâmica da mecânica quântica para partículas carregadas em um campo eletromagnético
externo pode ser um invariante de calibre se a função de onda e o potencial são transformados de acordo
com o seguinte esquema:
ψ ′ = Uψ , (19.41)
( ) ( )
~⃗ q⃗ ′ ~⃗ q⃗ ∂ ∂
∇− A =U ∇− A U† , i ~ − qΦ′ = U i ~ − qΦ U† . (19.42)
i c i c ∂t ∂t
Essas relações também podem ser escritas como
( )

⃗ = UAU
⃗ i ~c ( ⃗ † )
† ′ i~ † ∂ †
A + U ∇U , Φ = UΦU − U U . (19.43)
q q ∂t
Encontramos essa transformação local de calibre, a ser implementado pelo operador unitário,
i qf
U = e ~c (19.44)

onde f (⃗r, t) é uma função arbitrária das coordenadas espaço temporal. O resultado dessa transformação de
calibre está dado à seguir
A ⃗′=A
⃗ 7→ A ⃗ + ∇f
⃗ ,

Φ 7→ Φ′ = Φ − 1 ∂f
c ∂t , (19.45)
i qf
ψ 7→ ψ ′ = e ~c ψ .
Tornou-se costume dizer que o princípio da simetria de calibre local na mecânica quântica, ou invariância da
teoria sob a transformação (19.41), exige a introdução de um campo de calibre (A, ⃗ Φ), que obedece à regra
(19.43) para transformações de calibre. Se a invariância de calibre é aceita como uma lei fundamental da
física, o campo eletromagnético pode ser considerado como uma consequência dessa simetria. O operadores
locais U representam um grupo de dimensão unitária, conhecido como grupo U (1). Esse grupo de simetria
é comutativo ou abeliano.
No domínio da física onde argumentos clássicos de correspondências não estão disponíveis para a cons-
trução das adequadas leis da mecânica quântica, a imposição da simetria de calibre local serve como um
poderoso princípio do qual podemos derivar as teorias para partículas que estão em interação com campos
externos. A ideia básica é similar ao regime aceito nas Eqs. (19.41)-(19.45), generalizada para as partículas
que não estão relacionadas às suas propriedades de transformações espaço temporais. Exemplos típicos de
tais coordenadas são os isospin intrínsecos ou os números quânticos de cor dos estados.
Para ilustrar as consequências da adoção do princípio da simetria de calibre, nós escolhemos os gerado-
res do grupo SU (2) não abeliano como as observáveis associadas com os graus de liberdade intrínsecos.
Assumimos que esses fatores observáveis comutam com todos os operadores relacionados com as trans-
formações do espaço-tempo, como posição, momentum e momentum angular. Para fins de identificação,
que chamamos de graus de isospin intrínsecos de liberdade, e para simplificar, assumimos que a partícula
não tem spin ordinário. A função de onda agora é uma matriz coluna de duas componentes no espaço de
isospin, análogo ao espaço de spin visto anteriormente no §10.3. Denotamos τ1 , τ2 , τ3 , as três matrizes
7
Charles Galton Darwin (1887–1962), físico inglês.
8
C. G. Darwin, Proceedings of the Royal Society of London, A118, 654-679 (1928).
19.4. S IMETRIA DE C ALIBRE L OCAL 465

hermitianas 2 × 2 de isospin, que são os geradores de SU (2). Essas matrizes são análogas as matrizes de
Pauli, σ1 , σ2 , σ3 , definidas em §10.3, e suas relações de comutação são

[τi , τj ] = 2 i εijk τk . (19.46)

Os traços das matrizes τ1 , τ2 , τ3 são nulos. Generalizando o que dissemos previamente, postulamos a
invariância da equação de onda para o isospinor ψ (⃗r, t) sob a operação da simetria de calibre local induzido
pelo grupo SU (2). Essas operações são representadas por
i
U = e~α (19.47)

onde U é uma matriz unimodular unitária, e

1∑
3
α(⃗r, t) = αi (⃗r, t) τi (19.48)
2
i=1

é uma matriz 2 × 2 de traço nulo no qual tem uma dependência suave no espaço-tempo. Os três valores reais
de αi (⃗r, t) local especificam o elemento do grupo.
Agora, generalizando as relações (19.41) e (19.42), temos

ψ ′ (⃗r, t) = e ~ α(⃗r,t) ψ (⃗r, t) ,


i
(19.49)
( ) ( )
~⃗ ′ ~⃗ † ∂ ∂
∇−G =U
⃗ ∇−G U ,
⃗ i ~ − g = U i ~ − g U† ,

(19.50)
i i ∂t ∂t
ou, equivalentemente,
( ) ( )
⃗ ′ = UGU
⃗ † + i ~U ∇U
⃗ † , ∂ †
G g ′ = UgU† − i ~U U . (19.51)
∂t

Aqui G⃗ e g são um vetor e um escalar no espaço ordinário, respectivamente. Mas eles também são matrizes
2 × 2 no espaço de isospin. As estruturas covariantes de calibre em (19.50) formam os blocos na qual as
leis dinâmicas da invariância de calibre são construídas.
Para grupos de Lie como o grupo SU (n), será suficiente introduzir as condições de simetria conside-
rando transformações infinitesimais em (19.47), escolhendo |α~i | ≪ 1. Nessas condições, (19.51) se reduz
à [ ]
⃗ ′=G
G ⃗ + ∇α⃗ + i α, G ⃗ , g′ = g −
∂α i
− [α, g] . (19.52)
~ ∂t ~
Essas transformações para os campos de calibre podem ser reescritas, se decompomos as matrizes G ⃗ eg
em
1 ∑⃗ 1∑
3 3

G= G i τi e g= gi τi . (19.53)
2 2
i=1 i=1

Ao contrário de um simples campo de calibre representado pelos potenciais (A,⃗ Φ), agora temos três desses

campos de calibre, (Gi , gi ), com i = 1, 2, 3. Suas propriedades infinitesimais para as transformações de
calibre são obtidas substituindo (19.48) e (19.53) em (19.52), e usando as relações de comutação (19.46)
temos
⃗ ′=G
G ⃗ l − 1 εljk αj G
⃗ l + ∇α ⃗ k, gl′ = gl −
∂αl 1
− εljk αj gk . (19.54)
l
~ ∂t ~
Essas transformações mostram explicitamente como os campos de calibre se transformam quando elas são
usadas para assegurar a invariância de calibre local da equação de onda na mecânica quântica.
Em 1954, Yang e Mills 9 introduziram um novo campo, conhecido como campo de Yang-Mills, que é
invariante de calibre, para campos tensoriais derivados dos campos de calibre (potencial vetor) análogas
9
Robert Laurence Mills (1927–1999), físico americano.
466 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

às equações de Maxwell do campo eletromagnético. 10 Entretanto, devido o caráter não abeliano da teoria,
as equações do campo de Yang-Mills são não lineares, exibem autoacoplamentos, e possuem dificuldades
matemáticas muito grande. 11 Simetria de calibre local associada com variáveis dinâmicas intrínsecas que
transformam como geradores do grupo de simetria SU (n) formam a base de nosso atual entendimento das
interações eletromagnética, fraca e forte na física de partículas. 12 Ideias similares têm sido usadas em teoria
de muitos corpos e aplicações na física da matéria condensada. 13 Na perspectiva da geometria diferencial
abstrata (topologia), os campos de calibre são exemplos de conexões, os campos tensoriais derivados destes
são interpretados como curvaturas, e a integral de linha do campo de calibre em um circuito fechado (como
na fase de Berry) é holônomo. 14
Definido por uma teoria de campo de calibre não abeliano, é fácil mostrar que o análogo do campo
magnético ⃗B escrito como a matriz 2 × 2 de isospin

∑ 3 ( )
⃗B = 1 ⃗Bi τi = ∇⃗ − iG⃗ ×G
⃗ =∇ ⃗ − iG
⃗ ×G ⃗ ×G

2 ~ ~
i=1

sujeito a uma transformação de calibre finita

⃗B′ = U⃗BU†

assegura que a energia “magnética”

1 ∑⃗ ⃗
3
Bi · Bi = tr(⃗B · ⃗B)
2
i=1

é um invariante de calibre. É também possível construir um análogo para o campo elétrico ⃗E.

19.5 Quantização do Campo Eletromagnético Livre


O campo eletromagnético livre, i.e., as propriedades eletromagnéticas do vácuo na ausência de fontes, ρ = 0
e ⃗J = 0, pode ser representado em termos apenas de um potencial vetor A ⃗ (⃗r, t). Assim, os campos elétrico
⃗E(⃗r, t) e magnético ⃗B(⃗r, t) através das relações


⃗E(⃗r, t) = − 1 ∂ A(⃗r, t) e ⃗B(⃗r, t) = ∇
⃗ ×A
⃗ (⃗r, t) .
c ∂t
Nessa representação Φ(⃗r, t) = 0, e considerando o calibre de Coulomb

∇ ⃗ (⃗r, t) = 0 ,
⃗ ·A

temos a equação de onda [ ]


1 ∂2 ⃗
∇ − 2 2 A(⃗r, t) = 0
⃗ 2
c ∂t
para o potencial vetor. Como os campos eletromagnéticos ⃗E e ⃗B não são necessariamente reais e são obtidos
⃗ apenas por diferenciação, resulta que A
do potencial vetor A ⃗ (⃗r, t) deve ser real, i.e.,

⃗ ∗ (⃗r, t) = A
A ⃗ (⃗r, t) .
10
C. N. Yang and R. Mills, Physical Review, 96, 191 (1954).
11
S. Weinberg, The quantum theory of fields, (1995); F. Gross, Relativistic quantum mechanics and field theory, (1993).
12
F. Halzen and A. D. Martin, Quarks and Leptons, (1984); H. Georgi, Weak interactions and modern particle theory, (2009).
13
G. Mahan, Many-particle physics, (1993); J. W. Negele and H. Orland, Many-particle systems, (1988).
14
Holônomo é o mesmo que holonômico, que diz respeito à holonomia, i.e., propriedade de um sistema cujos vínculos podem ser
descritos por um número finito de equações entre suas coordenadas generalizadas.
19.5. Q UANTIZAÇÃO DO C AMPO E LETROMAGNÉTICO L IVRE 467

A solução geral da equação de onda para esse campo, usando as condições de contorno periódicas num
volume V = L3 , pode ser escrita como superposição de soluções “elementares” A ⃗ ⃗ (⃗r, t) que têm a forma
k
de ondas planas escritas como √
4πc2 ⃗

A⃗k (⃗r, t) = 3
ϵ̂⃗k q⃗k (t) ei k ·⃗r (19.55)
L
⃗ é determinado pelo vetor unitário de polarização ϵ̂⃗ , e o campo elétrico ⃗E⃗ associado
O caráter vetorial de A k k
à solução elementar é antiparalelo a ϵ̂⃗k .
Através da condição imposta pelo calibre de Coulomb ∇ ⃗ ·A ⃗ ⃗ (⃗r, t) = 0, temos
k

ϵ̂⃗k · ⃗k = 0 ,

o vetor de polarização deve ser perpendicular ao vetor de onda ⃗k, que determina a direção de propagação da
onda. O calibre de Coulomb aparece dessa forma como uma condição de transversalidade para o campo,
por essa razão também chamado de calibre transversal, que permite associar dois estados linearmente in-
dependentes de polarização, ϵ̂⃗kα , α = 1, 2 a cada vetor de onda ⃗k, tal que

ϵ̂⃗kα · ϵ̂⃗kα′ = δαα′ ,

ou seja, são ortogonais entre si. Uma forma conveniente de escolher esses estados consiste em: Para cada
vetor de onda ⃗k, temos dois vetores unitários de polarização perpendiculares entre si e perpendiculares a ⃗k
e associar esses dois vetores unitários de polarização a vetores de onda de sentidos opostos, porém mesmo
módulo, ⃗k e −⃗k. Assim,
ϵ̂⃗kα = ϵ̂−⃗kα , α = 1, 2 .
Agora, podemos escrevera solução geral para o potencial vetor, tendo em conta as possíveis polarizações
diferentes como √
2
⃗ ⃗ (⃗r, t) = 4πc ϵ̂⃗ q⃗ (t) ei ⃗k ·⃗r .
A (19.56)
kα L3 kα kα
Usando a equação de onda para as diferentes polarizações
[ ]
1 ∂2 ⃗
∇ − 2 2 A⃗kα (⃗r, t) = 0
⃗ 2
c ∂t
temos
1 d2 q⃗kα (t) 2 d2 q⃗kα (t)
+ k q⃗kα (t) = 0 ou + ωk2 q⃗kα (t) = 0 , (19.57)
c2 dt2 dt2
onde definimos a frequência como ωk = kc. Essa equação mostra que as amplitudes q⃗kα (t) das soluções
elementares oscilam harmonicamente com frequência ωk . Note que as amplitudes q⃗kα (t) podem em geral
ser complexas. De fato, uma solução geral da equação de ondas pode ser escrita como
∑ ∑
⃗ (⃗r, t) =
A ⃗ ⃗ (⃗r, t) =
A ⃗ ∗ (⃗r, t) = A
A ⃗ ∗ (⃗r, t)
kα ⃗kα
⃗k,α ⃗k,α

ou seja ∑ ∑ ∑
⃗ ∗ ⃗ ⃗
ϵ̂⃗kα q⃗kα (t) ei k ·⃗r = ϵ̂⃗kα q⃗kα (t) e− i k ·⃗r = ∗
ϵ̂−⃗kα q− ⃗kα (t) e
i k ·⃗r
.
⃗k,α ⃗k,α ⃗k,α

Assim, o fato do potencial vetor ser real exige que


∑ ∑

ϵ̂⃗kα q⃗kα (t) = ϵ̂−⃗kα q− ⃗kα (t)
α α

Logo, pela condição ϵ̂⃗kα = ϵ̂−⃗kα , temos



q⃗kα (t) = q− ⃗kα (t) . (19.58)
468 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

Como vimos até o momento, o campo de radiação pode ser reduzido a equivalência de um conjunto de
osciladores harmônicos, associados às soluções elementares A⃗ ⃗ (⃗r, t). A quantização desse campo pode

ser feita simplesmente quantizando esse conjunto osciladores harmônicos. Note que A ⃗ ⃗ (⃗r, t) é uma de-

pendência temporal, então faremos o mesmo procedimento usado em §6.9 para a evolução temporal do
oscilador harmônico.
De acordo com as equações de movimento de Heisenberg, temos
dp 1 ∂H
= [p, H] = − = −µω 2 x (19.59)
dt i~ ∂x
e
dx 1 ∂H p
= [x, H] = = . (19.60)
dt i~ ∂p µ
Sabemos que esse par de equações diferenciais acopladas é equivalente à duas equações diferenciais não
acopladas para os operadores de criação e de aniquilação a† e a,
√ √
µω~ d † ~
i [a − a] = −µω 2
(a + a† )
2 dt 2µω
d †
[a − a] = i ω(a + a† ) (19.61)
dt
e
√ √
~ d † i µω~ †
[a + a] = (a − a)
2µω dt µ 2
d †
[a + a] = i ω(a† − a) . (19.62)
dt
Assim,
da da†
= − i ωa e = i ωa† (19.63)
dt dt
cuja soluções são
a(t) = a(0) e− i ωt e a† (t) = a† (0) ei ωt . (19.64)
A dependência temporal para os operadores x e p pode ser obtida usando as definições dos operadores a e
a† , Eqs. (6.99) e (6.100), respectivamente. Logo, para um campo de radiação livre

~ [ − i ωt ]
x(t) = ae + a† ei ωt

e (19.65)

dx(t) ω~ [ † i ωt ]
p(t) = =i a e − a e− i ωt .
dt 2
Os operadores independentes do tempo x e p da representação de Schrödinger, por outro lado, podem ser
identificados com os operadores da representação de Heisenberg em t = 0.
Usando o esquema acima podemos ver facilmente que a quantização do conjunto de osciladores com-
plexos correspondem às soluções elementares para o campo eletromagnético livre. Podemos ver ainda que
a amplitude complexa que obedece à equação de movimento (19.57) pode ser decomposta em duas partes,
a parte real e a parte imaginária
1 ( ℜ ℑ
)
q⃗kα ≡ √ q⃗kα + i q⃗kα . (19.66)
2
Os momenta canonicamente conjugados a q⃗ℜ e q⃗ℑ são definidos como
kα kα

dq⃗ℜ dq⃗ℑ
p⃗ℜ

≡ kα
e p⃗ℑ

≡ kα
. (19.67)
dt dt
19.5. Q UANTIZAÇÃO DO C AMPO E LETROMAGNÉTICO L IVRE 469

Assim, reinterpretados esses operadores como operadores hermitianos que satisfazem as seguintes relações
de comutação
[ ] [ ]

q⃗kα , p⃗ℜkα′ ′ = q⃗

, p
kα k α⃗

′ ′ = i ~δ⃗k⃗k′ δαα′ ,
[ ] [ ]

q⃗kα , p⃗ℑk ′ α′

= q⃗kα , p⃗ℜ
k′ α′
= 0, (19.68)
[ ] [ ]

q⃗kα , q⃗kℑ′ α′ = p⃗ℜ , pℑ
kα ⃗k′ α′
= 0.
E fácil verificar explicitamente que podemos obter o momentum complexo canonicamente conjugado p⃗kα à
amplitude complexa q⃗kα como
[ ℜ ]
1 dq⃗kα dq⃗ℑ dq⃗∗ dq ⃗
p⃗kα ≡ √ −i kα
= kα = −kα , (19.69)
2 dt dt dt dt
na última passagem usamos a condição (19.58) e as relações de comutação
[ ] [ ] [ ]
q⃗kα , p⃗k′ α′ = i ~δ⃗k⃗k′ δαα′ e q⃗kα , q⃗k′ α′ = p⃗kα , p⃗k′ α′ = 0 . (19.70)
Finalmente, podemos definir os operadores de criação e de aniquilação associados às soluções elementares
através das relações

~ [ ]
q⃗kα (t) = a⃗kα e− i ωk t + a† ⃗ ei ωk t
2ωk −kα

e (19.71)

~ωk [ † i ωk t ]
p⃗kα (t) = i a⃗ e − a−⃗kα e− i ωk t ,
2 kα

que satisfazem as condições (19.58) e (19.69), das quais seguem as relações de comutação
[ ] [ ]
a⃗kα , a⃗† ′ ′ = δ⃗k⃗k′ δαα′ e a⃗kα , a⃗k′ α′ = 0 . (19.72)

Para simplificar a notação usada, introduziremos as seguintes abreviações
{ } { }
λ ≡ ⃗k, α , −λ ≡ −⃗k, α e ωk ≡ ωλ = ω−λ .
Assim, reescrevemos as amplitudes q⃗kα como

~ [ ]
qλ (t) = aλ e− i ωλ t + a†−λ ei ωλ t
2ωλ
⃗ (⃗r, t) como
e o potencial vetor A
√ √ √
∑ 4πc2 1 ∑ 2π~c [ ]
i ⃗k ·⃗r − i ωλ t † ⃗

A(⃗r, t) = ϵ̂ q
λ λ e = ϵ̂λ a λ e + a −λ e i ωλ t
ei k ·⃗r
L3 L3 k
λ λ
√ √ [ ]
1 ∑ 2π~c i(⃗k ·⃗r−ωλ t) † − i(⃗k ·⃗r−ωλ t)
= ϵ̂ λ a λ e + a λ e . (19.73)
L3 k
λ

Como consequência da condição (19.58) essa expressão para A⃗ (⃗r, t) é hermitiana.


A quantização do campo eletromagnético livre, com algumas simplificações técnicas mas seguindo
um esquema semelhante ao utilizado acima, foi considerada em 1925 por Heisenberg, Born e Jordan e
representa uma escalada importante na expansão dos domínios da teoria quântica. 15 Como vimos em §16.9,
a teoria dos sistemas constituídos por um grande número de partículas idênticas costuma-se empregar um
método especial de análise conhecido pelo nome de segunda quantização. Um exemplo desse método, onde
nos encontramos com sistemas nos quais o próprio número de partículas é uma variável, é o caso aqui
estudado do campo eletromagnético.
15
W. Heisenberg, M. Born and P. Jordan, Zeitschrift für Physik, 35, 557 (1925).
470 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

19.6 Energia do Campo Livre


O fato de ser possível reduzir o campo eletromagnético livre a um conjunto de osciladores harmônicos
sugere que a hamiltoniana do campo livre, campo de radiação livre, poderá ser escrito como a soma das
hamiltonianas desses osciladores. Isso nos leva a uma hamiltoniano da forma
∑ ( )
† 1
H= ~ωλ aλ aλ + (19.74)
2
λ

com autovetores e autovalores


∑ ( )
1
|{nλ }⟩ ≡ |n1 ⟩ ⊗ |n2 ⟩ ⊗ · · · ⊗ |nλ ⟩ ⊗ · · · ⇔ E{nλ } = ~ωλ nλ + . (19.75)
2
λ

Os nλ são números inteiros que indicam o número de excitações presentes no oscilador, i.e.,

a†λ aλ |nλ ⟩ = nλ |nλ ⟩ (19.76)

ou ainda
a†λ aλ |n1 , n2 , · · · , nλ , · · · ⟩ = nλ |n1 , n2 , · · · , nλ , · · · ⟩ . (19.77)
A contribuição de cada excitação para o autovalor de energia do campo eletromagnético é ~ωλ , o que
sugere que temos fótons com vetor de onda ⃗k e polarização ϵ̂. Note que os autovalores contêm uma soma
divergente comum
∑ ~ωλ
E0 = ,
2
λ
reconhecida como o autovalor do estado no qual todos os nλ = 0, i.e., do estado que contém nenhum
fóton. Para evitar a inconveniência dessa constante infinita correspondente à energia do estado com nenhum
fótons, o “vácuo”, será conveniente redefinir o zero da energia do campo como a energia do vácuo, o que
equivale a eliminar as contribuições de ponto zero de todos os modos do campo, redefinindo a hamiltoniana
e os seus autovalores como
∑ ∑
H= ~ωλ a†λ aλ e E{nλ } = ~ωλ nλ . (19.78)
λ λ

Para demostrar essas relações vamos usar a expressão da energia eletromagnética


∫ ( )
1
U= d3 r ⃗E2 + ⃗B2

 ( )2 
∫ ⃗ ( )
1 1 ∂A 2
= d3 r  2 + ∇ ⃗ ×A ⃗ , (19.79)
8π c ∂t

⃗ (⃗r, t), temos


usando (19.73) para o potencial vetor A
√ √
∂A⃗ 4πc2 ∑ dqλ i ⃗k ·⃗r 4πc2 ∑ ⃗
= 3
ϵ̂λ e = ϵ̂λ p−λ ei k ·⃗r ,
∂t L dt L3
λ λ

⃗ ∗ (⃗r, t) = A
na qual a condição A ⃗ (⃗r, t) e a definição do momentum canônico pλ foram usadas para escrever

dqλ
= p†λ = p−λ .
dt
Ainda temos, usando as identidades
( ) ( ) [ ( )]

⃗ ×A ⃗ · ∇ ⃗ ×A
⃗ =∇
⃗ · A⃗ × ∇⃗ ×A
⃗ ⃗ ·∇
+A ⃗ ×∇
⃗ ×A

19.7. Momentum DO C AMPO L IVRE 471

e ( )

⃗ ×∇
⃗ ×A
⃗ =∇
⃗ ∇ ⃗ −∇
⃗ ·A ⃗ .
⃗ 2A
[ ( )]
O termo ∇ ⃗ · A ⃗ × ∇ ⃗ ×A⃗ contêm um divergente e sua integral de volume pode ser reduzida a uma
⃗ A condição
integral de superfície que se anula devido às condições de contorno periódicas do campo A.
de transversalidade implica que ∇ · A = 0, tal que a contribuição do campo magnético para a energia do
⃗ ⃗
campo será −A ⃗ ·∇ ⃗ O laplaciano do potencial vetor é
⃗ 2 A.

2 ∑
∇ ⃗ = − 4πc
⃗ 2A ⃗
ϵ̂λ k 2 qλ ei k ·⃗r ,
L 3
λ

tal que a relação para energia do campo (19.79) será


( )∫
1 4πc2 ∑ 1 ⃗ ⃗′
U= ϵ̂λ · ϵ̂λ ′ p p
2 −λ −λ

2
+ k qλ qλ ′ d3 r ei(k+k ) ·⃗r . (19.80)
8π L3 ′
c
λλ

Explorando as condições de ortogonalidade



⃗ ⃗′
d3 r ei(k+k ) ·⃗r = L3 δ⃗k,⃗k′

e
ϵ̂⃗kα · ϵ̂−⃗kα′ = δαα′ .
Portanto,
1 ∑( ) 1 ∑( † )
U= p−λ pλ + ωλ2 q−λ qλ = pλ pλ + ωλ2 qλ† qλ . (19.81)
2 2
λ λ

Reescrevendo os pλ e os qλ em termos dos operadores aλ etemos finalmente a†λ


∑ ~ωλ ( † ) ∑ ( )
1
U= aλ aλ + aλ a†λ = ~ωλ a†λ aλ + = H, (19.82)
2 2
λ λ

pois aλ a†λ − a†λ aλ = 1.


A equação de movimento de Heisenberg para o operador qλ (t), com dependência temporal, é dada por
dqλ (t)
i~ = [qλ (t), H] = [qλ (t), U ] . (19.83)
dt
A razão para tal é que a dependência temporal dos operadores de Heisenberg associados ao campo eletro-
magnético é justamente a que é gerada por H = U . O fato de termos U independente do tempo é apenas um
caso particular do resultado geral de uma hamiltoniana (visto como gerador da evolução temporal do sis-
tema em questão) que não depende explicitamente do tempo, para U independente do tempo temos portanto
uma constante do movimento.

19.7 Momentum do Campo Livre


O operador momentum para o campo eletromagnético é dado pela integral em todo o espaço do vetor de
Poynting 16 ∫
⃗P = 1 d3 r ⃗E × ⃗B (19.84)
4πc
Esse será calculado usando os operadores dos campos ⃗E e A⃗ em termos do operador potencial vetor A
⃗ via


⃗E = − 1 ∂ A e ⃗B = ∇
⃗ ×A
⃗ .
c ∂t
16
John Henry Poynting (1852–1914), físico inglês.
472 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

O operador potencial vetor escrito em termos dos operadores de criação e aniquilação será
√ √
1 ∑ 2π~c2 [ ]
† ⃗
A⃗ (⃗r, t) = ϵ̂λ aλ (t) + a−λ (t) e− i k ·⃗r (19.85)
L3 ωλ
λ

então os campos ⃗E e ⃗B encontrados são


√ [ ]
1 ∑√ † ⃗
⃗E(⃗r, t) = − i
3
2π~ωλ ϵ̂ λ a λ (t) − a −λ (t) e− i k ·⃗r (19.86)
L
λ

e √ √
1 ∑ 2π~c2 (⃗ )[ ]
k × ϵ̂λ a†λ (t) + a−λ (t) e− i k ·⃗r .
⃗B(⃗r, t) = − i ⃗
(19.87)
L3 ωλ
λ
Então, usando (19.84), o operador momentum total será
∑ ( )( )
⃗P = ~ ϵ̂λ × (⃗k × ϵ̂λ ) a†λ − a−λ a†−λ + aλ
2
λ
~ ∑⃗ ( † )( )
= k aλ − a−λ a†−λ + aλ (19.88)
2
λ

onde usamos ∫
⃗ ⃗′
d3 r ei(k+k ) ·⃗r = L3 δ⃗k,⃗k′
e

ϵ̂⃗kα × (⃗k × ϵ̂⃗kα′ ) = ⃗k(ϵ̂⃗kα · ϵ̂⃗kα′ ) − ϵ̂⃗kα′ (⃗k · ϵ̂⃗kα )


= ⃗kδαα′

pois ϵ̂⃗kα · ϵ̂⃗kα′ = δαα′ e o último termo se anula devido ao caráter transverso do campo.
Fazendo uma manipulação algébrica na relação (19.88) e considerando as relações de comutação dos
operadores de criação e de aniquilação, temos
∑ ( † 1
) ∑
⃗P = ⃗
~k aλ aλ + = ~⃗k a†λ aλ . (19.89)
2
λ λ

∑ ⃗
Como os operadores nλ = a†λ aλ correspondem ao número de fótons em cada modo λ, a soma λ ~2k
corresponde ao momentum total do vácuo, estado em que temos zero fótons, e foi tomada como sendo igual
a zero. Para cada termo λ ≡ {⃗k, α} essa soma contêm de fato um termo igual e oposto, i.e., −λ ≡ {−⃗k, α}.
A expressão final (19.89) mostra que para cada fóton no modo λ ≡ {⃗k, α} está associada uma contri-
buição ~⃗k para o momentum total. Assim, podemos observar que a energia correspondente a esse fóton está
relacionada com o módulo do momentum através de

Eλ = ~ωλ = |~⃗k|c (19.90)

que caracteriza a relação entre energia e momentum para objetos relativísticos de massa zero.

19.8 Momentum Angular do Campo Livre


O operador momentum angular total do campo eletromagnético ⃗J é dado por
∫ ( )
⃗J = 1 d3 r ⃗r × ⃗E × ⃗B . (19.91)
4πc
19.8. Momentum A NGULAR DO C AMPO L IVRE 473

Usando a convenção do somatório sobre os índices repetidos e a identidade:


[ ]
⃗E × ⃗B = ⃗E × (∇⃗ × A)
⃗ = E i ∇A ⃗ i − (⃗E · ∇) ⃗
⃗ A

vemos que a densidade de momentum angular será:


1 ( ) 1 [ ]
⃗r × ⃗E × ⃗B = ⃗r × E i ∇A
⃗ i − (⃗E · ∇)
⃗ A⃗ .
4πc 4πc
Integrando esta densidade de momento angular sobre todo o volume, achamos o momentum angular total
(19.91) dado por: ∫ ∫
( ) ( )
⃗J = 1 d r⃗r × E ∇A −
3 i⃗ i 1
d3⃗r × ⃗E · ∇
⃗ A⃗ . (19.92)
4πc 4πc
Na segunda integral, podemos usar a identidade:
( ) ( ) ( ) ( )
⃗r × ⃗E · ∇
⃗ A⃗ = ∇i E i⃗r × A ⃗ −⃗r × A
⃗ ∇. ⃗ × ⃗E · ∇
⃗ ⃗E + A ⃗ ⃗r .

( )
Sendo ∇
⃗ · ⃗E = 0 e ⃗E · ∇
⃗ ⃗r = ⃗E, a identidade acima se reduz a:

( ) ( )
⃗r × ⃗E · ∇
⃗ A⃗ = ∇i E i⃗r × A
⃗ − ⃗E × A
⃗ .

Aplicando o teorema da divergência, temos


∫ ( ) ∫ ( )
∇i E i⃗r × A⃗ d3 r = E i ⃗r × A
⃗ dS i .
S

A integral de superfície é nula tendo em vista que o campo elétrico é nulo em todos os pontos externos ao
pacote de onda. Assim, fazendo as devidas substituições na Eq. (19.92) temos:
∫ ( ) ∫
⃗J = 1 ⃗ i + 1
d3 r ⃗r × E i ∇A d3 r ⃗E × A
⃗ . (19.93)
4πc 4πc
A primeira integral no lado direito representa o momentum angular orbital,

⃗L = 1 d3 r E i⃗r × ∇A
⃗ i. (19.94)
4πc
e a segunda integral de representa a componente intrínseca do momentum angular, i.e., o spin

⃗S = 1 d3 r ⃗E × A
⃗ . (19.95)
4πc

Note que ⃗r aparece explicitamente em ⃗L, mas não em ⃗S. O valor esperado de ⃗L para qualquer estado
dependerá da escolha da origem, por outro lado, o valor esperado de ⃗S não depende dessa escolha. Vamos
agora construir ⃗S em termos de operadores de criação de aniquilação. Usando a expansão do campo em
ondas planas (19.73), e seguindo de forma similar das seções anteriores, temos após uma pequena álgebra
∫ ∑( )( )
d3 r ⃗E × A
⃗ = 4π i c~ ϵ̂⃗k1 × ϵ̂⃗k2 a⃗† a⃗k1 − a⃗† a⃗k2 .
k2 k1
⃗k

Devido ao caráter antissimétrico do produto vetorial ⃗E × A ⃗ esse operador é hermitiano, portanto não é
necessário o uso da adição do hermitiano conjugado. Escolhendo os vetores de polarização de tal forma que
se tenha
⃗k
ϵ̂⃗k1 × ϵ̂⃗k2 = ϵ̂−⃗k1 × ϵ̂−⃗k2 = k̂ = ,
|⃗k|
474 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

resulta finalmente que a componente spin do campo eletromagnético é uma quantidade independente do
tempo, portanto uma constante do movimento, dada por
∑ ( † )
⃗S = i ~ k̂ a⃗ a⃗k1 − a⃗† a⃗k2 . (19.96)
k2 k1
⃗k

Esse resultado mostra que ⃗S não é diagonal nos estados de polarização descritos pelos vetores unitários
ϵ̂⃗kα . Os termos de ⃗S aniquilam fótons de uma polarização linear dada e criam fótons linearmente polari-
zados numa direção perpendicular à da polarização do fóton aniquilado. Essa caraterística não diagonal na
polarização pode ser eliminada através da transformação
1 ( ) i ( )
a⃗k1 = √ b⃗k1 + b⃗k2 , a⃗k2 = √ b⃗k1 − b⃗k2
2 2
que nos dará o inverso
1 ( ) 1 ( )
b⃗k1 = √ a⃗k1 − i a⃗k2 , b⃗k2 = √ a⃗k1 + i a⃗k2 .
2 2
Esses novos operadores satisfazem as relações de comutação,
[ ]
bλ , b†λ′ = δλλ′ , [bλ , bλ′ ] = 0 .

Em termos desses novos operadores a expressão (19.96) assume a forma


∑ ( † )
⃗S = ~ k̂ b⃗ b⃗k1 − b⃗† b⃗k2 . (19.97)
k1 k2
⃗k

Assim, a expansão em ondas planas do potencial vetor A(⃗⃗ r, t) pode ser expressa em termos desses
novos operadores como
√ √
⃗ 1 ∑ 2π~c [( )
i(⃗k ·⃗r−ωk t)
]
A(⃗r, t) = ϵ̂ b
⃗k+ ⃗k1 + ϵ̂ b
⃗k− ⃗k2 e + c.c. , (19.98)
L3 k
λ

onde c.c. são os hermitianos conjugados e foram introduzidos novos vetores unitários de polarização
1 ( )
ϵ̂⃗k± = √ ϵ̂⃗k1 ± i ϵ̂⃗k2 .
2
Esses vetores unitários de polarização correspondem aos estados circularmente polarizado à esquerda (sinal
+) e à direita (sinal −), da óptica ondulatória, respectivamente. A expressão de A(⃗
⃗ r, t) mostra então que
o operador b⃗ cria um fóton de momentum ~⃗k circularmente polarizado à direita, enquanto b⃗† cria um

k1 k2
fóton circularmente polarizado à esquerda. De acordo com (19.97), cada fóton de momentum ~⃗k circular-
mente polarizado à esquerda contribui com ~⃗k para ⃗S, enquanto cada fóton de momentum ~⃗k circularmente
⃗ ⃗
polarizado à direita contribui −~⃗k para ⃗S. A quantidade S · k para um estado de um fóton é chamada heli-
~
cidade do fóton, e portanto os estados de polarização circular à esquerda (direita) correspondem a estados
de helicidade positiva, +1 (negativa, −1).
Como alternativa aos estados de Fock |{nλ }⟩ com fótons linearmente polarizados, Eq. (19.75), é possí-
vel usar estados de Fock construídos por fótons com polarização circular, onde substituímos os operadores
aλ , a†λ pelos novos operadores bλ , b†λ em (19.76)-(19.77). As propriedades da energia total e do momen-
tum total do campo eletromagnético com relação à polarização circular permitem escrever os operadores
correspondentes simplesmente como
∑ ∑
H= ~ωk b†λ bλ e ⃗P = ~⃗k b†λ bλ . (19.99)
λ λ
19.9. I NTERAÇÃO COM UM S ISTEMA DE PARTÍCULAS C ARREGADAS 475

19.9 Interação com um Sistema de Partículas Carregadas


Como um sistema de partículas carregadas interage com o campo eletromagnético? A interação entre o
campo eletromagnético e a matéria acontece pelo acoplamento da versão descrita acima do campo de ra-
diação com um sistema de partículas carregadas que funcionam como fontes para o campo. O acoplamento
mínimo, obedecendo a invariância de calibre será
qi ⃗
⃗pi → ⃗pi − A(⃗ri ) (19.100)
c
onde o operador ⃗pi é o momentum canonicamente conjugado à posição ⃗ri da i-ésima partícula do sistema
com carga qi e A ⃗ (⃗r) é o potencial vetor que descreve o campo de radiação quantizado na representação de
Schrödinger, quando t = 0 foi usado na Eq. (19.73), que corresponde à representação de Heisenberg.
Uma exemplo bastante geral é de um sistema de partículas sujeitas a um potencial externo de um corpo
V (⃗ri ), onde⃗ri é o operador de posição da i-ésima partícula, e que interagem entre si através de um potencial
coulombiano
qi qj
v (⃗ri ,⃗rj ) = .
|⃗ri −⃗rj |
A hamiltoniana correspondente a esse sistema de partículas será
∑ ( p2 )
1∑
i
Hp = + V (⃗ri ) + v (⃗ri ,⃗rj )
2µi 2
i i,j

na presença do campo de radiação eletromagnética, a hamiltoniana total será

H = Hel + Hp + Hint (19.101)

o termo Hp + Hint resultam da substituição (19.100) feita em Hp :


∑[ 1 ( qi ⃗ )2 ]
1∑
Hp → Hp + Hint = ⃗pi − A(⃗ri ) + V (⃗ri ) + v (⃗ri ,⃗rj )
2µi c 2
i i,j
∑ qi ( ) ∑ q2
= Hp − ⃗pi · A ⃗ (⃗ri ) ·⃗pi +
⃗ (⃗ri ) + A i ⃗ 2
A (⃗ri ) .
2µi c 2µi c
i i

Pela fato de usarmos o calibre de Coulomb ∇ ⃗ ·A⃗ = 0, podemos escrever ⃗pi · A ⃗ (⃗ri ) ·⃗pi como
⃗ (⃗ri ) + A
⃗ (⃗ri ), de tal forma que a hamiltoniana de interação poderá ser escrita como
2⃗pi · A
∑ qi ∑ q2
Hint = − ⃗ (⃗ri ) +
⃗pi · A i ⃗ 2
A (⃗ri ) (19.102)
µi c 2µi c
i i

onde √ √
4πc2 ∑ ~ ( )
aλ + a†−λ .

⃗ (⃗r) =
A ϵ̂λ qλ ei k ·⃗r e qλ = (19.103)
L3 2ωλ
λ

Uma propriedade importante da hamiltoniana (19.101) é o fato de que ela não é compatível com o
operador número total de fótons ∑ †
N= aλ aλ
λ

ou seja, [H, N ] ̸= 0. Em geral, isso significa que os estados estacionários de H não serão autovetores de N ,
i.e., não conterão um número definido de fótons. Reciprocamente, estados com número definido de fótons
em geral, não serão estacionários. Em particular, é fácil ver que estados da forma

|E 0 ; 0⟩ = |φ0E ⟩ ⊗ |0⟩
476 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

onde |φ0E ⟩ é um estado estacionário de Hp e |0⟩ é o “vácuo”, i.e., estado com zero fótons de Hel , então
Hp |φ0E ⟩ = E|φ0E ⟩ e N |0⟩ = Hel |E 0 ; 0⟩ = 0
não são estacionários, pois
H|E 0 ; 0⟩ = (Hel + Hp + Hint ) |E 0 ; 0⟩ = E|E 0 ; 0⟩ + Hint |E 0 ; 0⟩
o último termo da relação acima contêm componentes com zero, um e dois fótons. Desde que Hint tem
termos que são linear e quadrático em A ⃗ ⃗r , podemos interpretá-los da seguinte forma: o termos linear induz
i
a criação ou aniquilação de um fóton; enquanto o termo que contêm zero e dois fótons provêm da parte
quadrática em A⃗ ⃗r , que pode ser escrito explicitamente como
i

∑ q2
i ⃗ 2 = 4πc
2 ∑ 2
qi ∑
i(⃗k+⃗k′ ) ·⃗ri ~2 ( †
)(

)
A ϵ̂λ · ϵ̂λ ′ e a λ + a −λ a λ ′ + a −λ′ .
2µi c2 ⃗ri L3 2µi c2 ′ 4ωλ ωλ′
i i λλ

A equação apresentada envolve os operadores aλ aλ′ , a†−λ aλ′ , aλ a†−λ′ e a†−λ a†−λ′ . Os dois primeiros ani-
quilam o vácuo |0⟩, por conterem operadores de aniquilação agindo diretamente nesse estado. O terceiro
agindo sobre |0⟩ resulta
([ ] )
aλ a†−λ′ |0⟩ = aλ , a†−λ′ + a†−λ′ aλ |0⟩ = δλ,−λ′ |0⟩ ,
onde foram usadas as relações de comutação dos operadores de criação e de aniquilação. A permanência do
vácuo é interpretada como resultado da criação de um fóton −λ′ seguido de sua aniquilação, i.e., contêm
zero fóton. Finalmente, o quarto termo atuando sobre o vácuo resulta num estado de dois fótons.
Esse resultado mostra que os estados estacionários de Hp combinados com o vácuo de Hel deixam de
ser estacionários quando são levados em conta os efeitos dos termos de acoplamento Hint , termos que pos-
sibilitam a emissão de fótons. Analogamente é possível ver que os estados estacionários de Hp combinados
com estados de um ou mais fótons de Hel também não são estacionários, pois a ação de Hint sobre esses
estados dará lugar a componentes não apenas com n fótons, mas também com n − 2, para n ≥ 2, n ± 1 e
n + 2 fótons. Nesses casos, além da emissão de fótons, poderá ocorrer também a absorção de fótons usando
Hint .
A dinâmica de sistemas descritos por hamiltonianas do tipo (19.101) em geral não pode ser tratada exa-
tamente. Um procedimento nesse contexto envolve a inclusão de efeitos devidos a Hint através de técnicas
de teoria de perturbações, tomando como ponto de partida os estados estacionários de H0 = Hp + Hel . Ao
contrário do que acontece com H = H0 + Hint , H0 é compatível não apenas com o operador número total
de fótons N , mas também com todo o conjunto de operadores Nλ = a†λ aλ , de modo que os seus autovetores
são os simultâneos de Hp e dos Nλ . Uma base conveniente de autoestados de H0 pode ser escrita usando o
fato de que Hp e Hel são compatíveis. Ela é a base produto formada por vetores de estado
|En0 ; {nλ }⟩ ≡ |φ0En ⟩ ⊗ |{nλ }⟩
( )

H0 |En ; {nλ }⟩ = En +
0
~ωλ nλ |En0 ; {nλ }⟩ ,
λ

onde |φ0En ⟩
são os estados estacionários de Hp e |{nλ }⟩ são os autoestados (19.75) de Hel . O uso da teoria
de perturbação dependente do tempo permite calcular vários processos de interesse, entre os quais as taxas
de emissão, absorção e espalhamento de fótons.

19.10 Estados Coerentes e Óptica Quântica


Podemos gerar estados coerentes a partir do vácuo por uma transformação unitária ou pelo operador des-
locamento. 17 Esse método mostra-se particularmente importante para o entendimento da relação entre as
teorias semiclássica e completamente quantizada da interação da luz com átomos. 18
17
R. J. Glauber, in Quantum Optics and Electronics, New York, Gordon and Breach (1965).
18
B. R. Mollow, Physical Review, A12, 1999 (1975); D. T. Pegg, in Laser Physics, Sidney, Academic Press (1980).
19.10. E STADOS C OERENTES E Ó PTICA Q UÂNTICA 477

Problemas dinâmicos são simplificados pelo uso de uma transformação unitária através da mudança
do sistema de referência. No antigo sistema de referência, o estado |n⟩ obedece a equação de evolução de
Schrödinger

i ~ |n⟩ = H|n⟩ . (19.104)
∂t
No novo sistema de referência, o novo estado é

|n′ ⟩ = T|n⟩ . (19.105)

onde T é a transformação unitária. No novo sistema, a equação de Schrödinger será

∂ ′
i~ |n ⟩ = H′ |n′ ⟩ (19.106)
∂t
ou usando (19.105)

i ~ Ṫ|n⟩ + i ~ T |n⟩ = H′ T|n⟩ . (19.107)
∂t
Então, da Eq. (19.104) temos
i ~ Ṫ + TH = H′ T (19.108)
ou
H′ = THT−1 + i ~ ṪT−1 . (19.109)
O segundo termo que aparece em (19.109) para a hamiltoniana transformada é importante se a transforma-
ção T for dependente do tempo, similar ao apresentado na relação (6.189), quando estudamos o oscilador
harmônico forçado.
Uma forma unitária para T será escrita como

T = eA (19.110)

onde A é um operador. Qualquer operador B representando uma observável do sistema poderá ser trans-
formado pela ação de T. Por exemplo, A = i px α, onde α é um número complexo qualquer e px é a
componente x do operador momentum linear, então o operador posição x será deslocado por

x′ = TxT−1 = x + α . (19.111)

Essa relação pode ser verificada quando expandimos (19.110) em série e usamos a relação de comutação
[i px , x] = ~. Similarmente, se A = i xα, então o momentum sofre uma translação

p′x = Tpx T−1 = px + α . (19.112)

Desse modo, o momentum canônico e a posição de um oscilador poderá ser deslocada. Logo, a combinação
dessas transformações são usadas para transladar os operadores de criação e de aniquilação, a† e a, do
oscilador. Sendo
√ ( )
ω i
a= x + px (19.113)
2~ ω
√ ( )
ω i
a† = x − px (19.114)
2~ ω

usando a relação de comutação para a e a† de tal forma que a transformação T satisfaça as relações (19.111)
e (19.112), temos
† ∗
TaT−1 = a + α ⇒ T = e[αa −α a] (19.115)
como na seção do oscilador harmônico forçado.
478 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

O operador unitário usado por Glauber é 19


† −α∗ a]
Dα = e[αa (19.116)

na qual transforma os operadores aniquilação e de criação como

D−1
α aDα = a + α (19.117)
D−1 †
α a Dα = a + α. †
(19.118)

Os estados coerentes formam uma classe de estados de particular importância que consistem de autoes-
tados do operador a, com autovalores α
a|α⟩ = α|α⟩ (19.119)
onde a solução trivial dessa equação é o “vácuo” |0⟩ para α = 0, como a|0⟩ = 0. Podemos reescrever
(19.119) como
D−1 −1 −1
α aDα Dα |α⟩ = αDα |α⟩ ,

usando (19.117), temos


(a + α) D−1 −1
α |α⟩ = αDα |α⟩

e então
aD−1
α |α⟩ = 0 .

Segue que,
D−1
α |α⟩ = |0⟩ (19.120)
e o estado coerente transformado é o “vácuo”. A inversa da equação acima nos leva à

Dα |0⟩ = |α⟩ (19.121)

demonstrando que o estado coerente é gerado do “vácuo” por uma transformação Dα . Sendo uma transfor-
mação unitária, o autoket |α⟩ em (19.121) é normalizado

⟨α|α⟩ = ⟨0|0⟩ = 1 . (19.122)

Usando a relação (2.87)


1
eA eB = eA+B+ 2 [A,B]
e a|0⟩ = 0, temos
† −α∗ a] † ∗ †
|0⟩ = e− 2 |α| eαa eα a |0⟩ = e− 2 |α| eαa |0⟩ .
1 2 1 2
|α⟩ = e[αa (19.123)

Esses estados são os conhecidos estados coerentes.


Expandindo o estado coerente |α⟩ em termos dos autoestados do operador número |n⟩, temos
∑ ∑ †
|n⟩⟨n|e− 2 |α| eαa |0⟩
1 2
|α⟩ = |n⟩⟨n|α⟩ =
n n
∑ ∞
∑ ∞

|α|2 (αa† )k |α|2 αn
= |n⟩e− 2 ⟨n| |0⟩ = |n⟩e− 2 √ . (19.124)
n
k! n!
k=0 n=0

No último passo, usamos


(a† )n
|n⟩ = √ |0⟩
n!
19
R. J. Glauber, Physical Review Letters, 10, 84 (1963); Idem, in Quantum Optics and Electronics, New York, Gordon and Breach
(1965).
19.10. E STADOS C OERENTES E Ó PTICA Q UÂNTICA 479

e a ortonormalidade dos autoestados de energia. Assim, a probabilidade Pn (α) de encontrarmos o estado


coerente |α⟩ tendo um valor n quando o operador aa† é medido é dado por

|α|2n
Pn (α) = |⟨n|α⟩|2 = e−|α|
2
, (19.125)
n!
que é a distribuição de Poisson, sendo o valor esperado de n para essa distribuição |α|2 .
O uso da transformação Dα demonstra como o estado coerente do campo eletromagnético poderá ser
produzido. Imagine uma corrente externa clássica ⃗J(⃗r, t) no qual está acoplado ao campo eletromagnético
quantizado A⃗ (⃗r, t) através da interação dependente do tempo. Neste caso,

1 ⃗
Hint (t) = − ⃗ (⃗r, t) d3 r .
J(⃗r, t) · A (19.126)
c
Prova. Para mostrar a relação acima, vamos considerar o sistema de muitas partículas cuja hamiltoniana de
interação será
∑ qi ( ) ∑ q2 ∑
Hint = − ⃗pi · A ⃗ (⃗ri , t) ·⃗pi +
⃗ (⃗ri , t) + A i ⃗ 2
A (⃗ri , t) + qi Φ(⃗ri , t) .
2µi c 2µi c
i i i

Para simplicidade, assumimos que todas as partículas têm carga q e massa µ. Então,
∑ ∑∫ ∑∫
qΦ(⃗ri , t) = d3 r qδ(⃗r −⃗ri )Φ(⃗ri , t) = d3 r qρ(⃗r)Φ(⃗ri , t)
i i i

onde ρ(⃗r) = i δ(⃗r −⃗ri ). Note que ∫
d3 r ρ(⃗r) = N .

Interpretamos ρ como o operador densidade de número de partículas.


Do mesmo modo que fizemos acima, definimos o próximo operador como

⃗j(⃗r) = 1 (⃗pi δ(⃗r −⃗ri ) + δ(⃗r −⃗ri )⃗pi )

i

que interpretamos como o operador densidade de corrente de partículas no sistema. A combinação simé-
trica da última relação faz ⃗j(⃗r) um operador hermitiano. Como visto em (19.3), é a verdadeira velocidade
da i-ésima partícula na presença do campo electromagnético. Assim,

⃗J(⃗r) = ⃗j(⃗r) − q A⃗ (⃗r, t)ρ(⃗r)


µc
é portanto o verdadeiro operador corrente das partículas. O primeiro termo da equação acima é a corrente
paramagnética enquanto o segundo termo é a corrente diamagnética.
Assim, em termos de ρ(⃗r) e⃗j(⃗r), a interação eletromagnética será
∫ [ 2
]
q ⃗ (⃗r, t) + q ρ(⃗r)A
Hint = d3 r − ⃗j(⃗r) · A ⃗ 2 (⃗r, t) + q ρ(⃗r)Φ(⃗r, t) .
c 2µc

⃗ (⃗r, t) é pequeno
Para a radiação no calibre de transversal Φ(⃗r, t) = 0. Normalmente o campo descrito por A
⃗ 2
com o campo “atômico”, onde os efeitos do termo ρ(⃗r)A (⃗r, t) são desprezíveis comparados com os efeitos
do termo⃗j(⃗r) · A
⃗ (⃗r, t). Nesse caso a interação será

q
Hint = − d3 r ⃗j(⃗r) · A
⃗ (⃗r, t) .
c

generalizando ⃗J(⃗r, t) = q⃗j(⃗r, t), pois estamos na representação de Heisenberg, temos a Eq. (19.126).
480 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

Portanto, na representação de interação, a equação de movimento que envolve o vetor estado |t⟩ será

i ~ |t⟩ = Hint (t)|t⟩ (19.127)

com o estado no tempo t, |t⟩ evolui desde o estado inicial |i⟩ em t = 0 até o tempo t. Imaginemos que o
estado inicial seja o estado “vácuo” |0⟩. Assim, a Eq. (19.127) pode ser integrada diretamente dando
∫t
i
dt′ Hint (t)+i θ(t)]
|t⟩ = e[ ~ 0 |0⟩ (19.128)

onde θ(t) é um fator de fase irrelevante. O campo A⃗ (⃗r, t) pode ser expandido em
√ [ ]
√ 1 ∑ 1 i(⃗k ·⃗r−ωλ t) † − i(⃗k ·⃗r−ωλ t)
⃗ (⃗r, t) = 4π~c2
A √ ϵ̂λ a λ e + a λ e (19.129)
L3 2ωλ
λ

e se definimos, como no oscilador harmônico forçado §6.11,


∫ t ∫
i ⃗
αλ (t) = dt′ d3 r ⃗J(⃗r, t) · ϵ̂λ e− i(k ·⃗r−ωλ t) (19.130)
~c 0
temos ( )
∏ αλ a†λ −α∗λ aλ
|t⟩ ≡ |{αλ }⟩ = e |0⟩ . (19.131)
λ

Logo, vimos que o campo radiado por uma corrente ⃗J(⃗r, t) é um estado coerente multímodo |{αλ }⟩. Este
é o caso de um laser operando como uma antena macroscópica oscilante com uma frequência bem definida
análoga à frequência simples da corrente clássica ⃗J(⃗r, t), esse laser excitará um campo de simples modo
no qual se aproximará ao estado coerente |α⟩. Essa é uma das aplicações do importante papel dos estados
coerentes na eletrônica e óptica quântica.
Vários trabalhos modernos foram realizados para estados coerentes e óptica quântica, na preparação
de estados coerentes e de squeezed states de luz. 20 Além desses, temos recentes trabalhos do modo do
campo eletromagnético como oscilador harmônico, envolvendo a subtração do número de fótons via beam-
-splitter. 21

19.11 Estados de um Simples Fóton


O estado coerente do campo eletromagnético é obtido pela especificação do estado coerente para cada um
dos modos normais dos osciladores do campo. O operador campo elétrico na representação de Heisenberg
será escrita na forma
√ [ ]

⃗E(⃗r, t) = i 2π~ 1 ∑√ † − i(⃗k ·⃗r−ωλ t) i(⃗k ·⃗r−ωλ t)
ω ϵ̂
λ λ a λ e − a λ e (19.132)
L3
λ

no qual consiste de duas partes, que chamamos de componentes com frequência negativa e positiva,
⃗E(⃗r, t) = ⃗E− (⃗r, t) + ⃗E+ (⃗r, t) (19.133)

onde

√ 1 ∑√
ωλ ϵ̂λ a†λ ei ωλ t e− i k ·⃗r ,
⃗E− (⃗r, t) = i ⃗
2π~ (19.134)
L3
λ

√ 1 ∑√ ⃗
⃗E+ (⃗r, t) = − i 2π~
3
ωλ ϵ̂λ aλ e− i ωλ t ei k ·⃗r . (19.135)
L
λ
20
C. Monroe et al., Physical Review Letters, 75, 4011 (1995); D. Leibfried et al., Physical Review Letters, 77, 4281 (1996);
I. Bouchoule et al., Physical Review, A59, R8 (1999).
21
A. Ourjoumtsev et al., Science, 312, 83 (2006); J. S. Neergaard-Nielsen et al., Physical Review Letters, 97, 083604 (2006).
19.11. E STADOS DE UM S IMPLES F ÓTON 481

A componente da frequência negativa contém o operador de criação a†λ e a A componente da frequência


positiva contém o operador de aniquilação aλ .
A taxa de detecção de fótons, de uma certa polarização que não é explicitamente indicada na notação,
ao redor do espaço-tempo xµ = (⃗r, t) é proporcional a
∑∑ √
⟨⃗E− (⃗r, t) ⃗E+ (⃗r, t)⟩ = 2π~ ωn ωm φn (⃗r) φm (⃗r) ei(ωn −ωm )t ⟨a†n am ⟩ .
n m

A forma espacial padrão de interferência é dada pelo produto das função modo, φn (⃗r) φm (⃗r), e é a mesma
encontrada na teoria eletromagnética clássica. Entretanto, a amplitude da interferência reflete o estado quân-
tico através da quantidade ⟨a†n am ⟩.
Se temos dois modos, onde |⃗k1 | = |⃗k2 | = ωc , com somente modos excitados acima do estado funda-
⃗ ⃗
mental sendo ei k1 ·⃗r e ei k2 ·⃗r , então
( )
⃗E+ (⃗r, t) = C a1 ei ⃗k1 ·⃗r + a2 ei ⃗k2 ·⃗r e− i ωt ,
( )
⃗E− (⃗r, t) = C a† e− i ⃗k1 ·⃗r + a† e− i ⃗k2 ·⃗r ei ωt ,
1 2

onde C é o fator que absorve várias constantes de normalização. A probabilidade de detecção de fótons será
então:
{ }
⟨⃗E− (⃗r, t) ⃗E+ (⃗r, t)⟩ = C 2 ⟨a†1 a1 ⟩ + ⟨a†2 a2 ⟩ + 2|⟨a†1 a2 ⟩| cos [(⃗k1 − ⃗k2 ) ·⃗r − ϕ] , (19.136)

onde a fase ϕ vem de ⟨a†1 a2 ⟩ = |⟨a†1 a2 ⟩| ei ϕ .

Estado de Um Fóton Consideremos um vetor estado para o campo eletromagnético na forma

|ψ1 ⟩ = α|1, 0⟩ + β|0, 1⟩ , com |α|2 + |β|2 = 1 , (19.137)

onde o vetor |1, 0⟩ = a†1 |0⟩ descreve um fóton no modo 1 e |0, 1⟩ = a†2 |0⟩ descreve um fóton no modo
2. O estado vacuum é denotado por |0⟩. O vetor |ψ1 ⟩ é um autovetor do operador número total de fótons

N = λ a†λ aλ . Então, podemos escrever |ψ1 ⟩ = b† |0⟩, onde o novo operador de criação é b† = αa†1 +βa†2 .
Resolvendo (19.136) para o estado |ψ1 ⟩, obtemos a probabilidade de detecção de um fóton proporcional a
{ [ ]}
⃗ ⃗
⟨⃗E− (⃗r, t) ⃗E+ (⃗r, t)⟩ = C 2 |α|2 + |β|2 + 2ℜ β ∗ α ei(k1 −k2 ) ·⃗r . (19.138)

O padrão de interferência, idêntico ao da óptica clássica, existe para o estado de um fóton.

Verificação Experimental do Estado de Um Fóton Em 1986, Aspect e colaboradores realizaram um


experimento para a verificação do estado de um fóton. 22 O experimento usou uma fonte de cascata radiativa
de cálcio emitindo dois fótons com diferentes frequências ν1 e ν2 . 23 O intervalo de tempo entre as detecções
dos fótons foram distribuídas de acordo com uma exponencial, correspondendo ao decaimento do estado
intermediário da cascata, com uma vida-média de τs = 4, 7 ns. Para essa verificação, o experimento usou
dois arranjos.
No primeiro arranjo, como vemos na Fig. 19.1, a detecção do primeiro fóton (ν1 ) da cascata produz uma
porta w ≃ 2τs , durante a qual as fotomultiplicadoras P Mt e P Mr estão ativas para enxergar o segundo
fóton (ν2 ). Essas fotomultiplicadoras estão colocadas após um divisor de feixe BS. Aqui usamos N1 a taxa
de fótons ν1 , Nt e Nr as taxas medidas por P Mt e P Mr , respectivamente e Nc a taxa de coincidências. As
probabilidades de detecção durante o período em que a porta w está ativada são:
Nt Nr Nc
pt = pr = e pc = .
N1 N1 N1
22
P. Grangier, G. Roger and A. Aspect, Europhysics Letters, 1 N. 4, 173-179 (1986).
23
A. Aspect, P. Grangier and G. Roger, Physical Review Letters, 47 N. 7, 460-463 (1981).
482 C AP. 19 C AMPO E LETROMAGNÉTICO

Figura 19.1 Sistema de trigger.

Esse primeiro arranjo mostrou uma forte anticorrelação entre as detecções em ambos lados após o divisor
de feixe, produzindo uma distribuição de Poisson. Esse resultado está em contradição com qualquer modelo
clássico de onda luminosa, mas está de acordo com a descrição quântica envolvendo estado de um fóton,
i.e., a parte partícula da dualidade onda-partícula.
No segundo arranjo, ver Fig. 19.2, foi usado o mesmo esquema de detecção. Construiram um interferô-

Figura 19.2 Interferômetro Mach-Zehnder.

metro de Mach-Zehnder 24 para a medida do fóton que passa pelo primeiro divisor de feixe BS 1 e caminha
para o segundo divisor de feixe BS 2, após isto sendo então detectado pelas lentes M Z 1 e M Z 2 com
diferença de caminho ao redor de zero. De acordo com a mecânica quântica, foi observado franja de inter-
ferência com uma visibilidade V = (98, 7 ± 0, 5)%, mostrando a parte onda da dualidade onda-partícula
em estado de um fóton.
Com esse experimento, Aspect e colaboradores mostraram que o padrão de interferência, ver Eq.
(19.138), idêntico ao da óptica clássica, existe para o estado de um fóton.

Problemas
( i ~e )
19.1 a) Verifique a relação [Πi , Πj ] = ⃗ ≡ µ d⃗r = ⃗p − e A
εijk Bk , onde Π ⃗ e a relação
c dt c
⃗ [ ( )]
d2⃗r dΠ 1 d⃗r ⃗ d⃗r
µ 2 = = e ⃗E + × B − ⃗B × .
dt dt 2c dt dt
b) Verifique a equação de continuidade ∂ρ ⃗′ ⃗
∂t + ∇ · J com J dado por

24
Ludwig Mach (1868–1951), físico tchecoslovaco-alemão.
Ludwig Louis Albert Zehnder (1854–1949), físico suíço.
L. Zehnder, Z. Instrumentenkunde, 11, 275 (1891); L. Mach, Z. Instrumentenkunde, 12, 89 (1892).
19.11. E STADOS DE UM S IMPLES F ÓTON 483
( ) ( )
⃗J = ~ ∗⃗ ′ e ⃗
ℑ[ψ ∇ ψ] − A|ψ|2 .
µ µc

19.2 Um elétron move-se na presença de um campo magnético uniforme na direção do eixo-z (⃗B = B k̂).
a) Encontre [Πx , Πy ], onde Πx = px − ec Ax e Πy = py − ec Ay .
b) Ao comparar a hamiltoniana e a relação de comutação obtido em a) com as do problema do oscila-
dor unidimensional, mostre que podemos escrever imediatamente os autovalores de energia como
( )( )
~2 k 2 |eB|~ 1
Ek,n = + n+ ,
2µ µc 2
onde ~k é o autovalor contínuo do operador pz e n é um inteiro não negativo incluindo o zero.

⃗ (⃗r, t) e Φ(⃗r, t) que satisfazem ⃗E = −∇Φ ⃗ − ∂A ⃗


∂t e B = ∇ × A . Para dados
19.3 Dados os potenciais A ⃗ ⃗ ⃗
campos elétrico ⃗E e magnético ⃗B, os potenciais A ⃗ (⃗r, t) e Φ(⃗r, t) são únicos? Se não, explique essa
liberdade.

19.4 Mostre que o termo em A⃗ 2 na hamiltoniana de interação de um elétron num campo de radiação
e ( ⃗) e2 ⃗ 2
H′ = − ⃗p · A + A
µc 2µc2
dá uma contribuição para a probabilidade de transição de um processo somente se dois fótons fazem
parte desse processo.

19.5 Mostre que elétrons livres não podem absorver ou emitir fótons.
∫( 2 )
19.6 Mostre que ∇ ⃗ · ⃗B comuta com a hamiltoniana do campo eletromagnético H = 1

⃗E + ⃗B2 d2 r
e portanto é uma constante de movimento.

19.7 Determine o desvio quadrático médio dentro de um estado coerente e mostre que ele se anula no limite
clássico. Sugestão: Consulte o livro do Prof. W. Greiner [39].
e~
19.8 O momento magnético ⃗µ = 2µc ⃗σ do elétron significa um termo adicional dependente do spin que
será levado em conta na interação de um elétron com o campo eletromagnético, em adição aos termos
usuais H′ ∼ ⃗p · A
⃗ e H′′ ∼ A⃗ 2 . Derive uma expressão para esse termo adicional. Sugestão: Consulte
o livro do Prof. W. Greiner [39].

Leitura Recomendada
Para este capítulo, as principais referências foram os livros:

– E. Merzbacher [61];
– G. Baym [6].

Também recomenda-se ao leitor, uma leitura dos livros:

– A. F. R. de Toledo Piza [79];


– K. Gottfried [36].

Para aplicações em óptica quântica, iremos encontrar um excelente trabalho nos livros:

– P. L. Knight and L. Allen [49];


– H. M. Nussenzweig [70];
– M. O. Scully and M. Suhail Zubairy [78]
484
Capítulo 20
Equações Relativísticas

Neste último capítulo, iremos introduzir os conceitos da relatividade restrita, a transformação e o grupo
de Lorentz, além do formalismo covariante do eletromagnetismo. Ainda iremos desenvolver as equações
relativísticas da mecânica quântica e algumas de suas consequências e aplicações.
Nossa intenção não é desenvolver a teoria quântica de campos, mas sim buscar modificações na mecâ-
nica quântica não relativística no sentido de aproximá-la dos requisitos da relatividade restrita.

20.1 Transformações de Lorentz


Antes de iniciarmos a transformação de Lorentz, vamos fazer um breve comentário histórico da relatividade
restrita. Com as leis de Newton para a mecânica clássica, as equações de Maxwell para o eletromagnetismo
e a mecânica quântica,1 a teoria da relatividade restrita tornou-se fundamental em física, desde a sua pu-
blicação em 1905 por Einstein.
A teoria da relatividade restrita tem por base o eletromagnetismo e o caráter tensorial das leis e das
grandezas físicas. Pode-se dizer que as equações de Maxwell, unificando a eletricidade o magnetismo e a
óptica, ou seja, o eletromagnetismo motivou essa teoria.
A partir de 1890, Lorentz e Larmor estudaram o comportamento do campo eletromagnético observado
por diferentes referenciais.2 Poincaré desenvolveu (1897–1905) e praticamente completou a teoria para uma
relatividade em consonância com as leis do eletromagnetismo,3 faltava-lhe apenas uma crucial hipótese: a
constância da velocidade da luz, independentemente de velocidade da fonte, substanciada e interpretada de
forma revolucionária por Einstein em 1905.4
Podemos afirmar que a teoria da relatividade especial de Einstein se baseia em dois postulados:

Postulado 1 (Postulado de Relatividade - Primeiro). As leis da natureza e os resultados de todos os expe-


rimentos feitos num dado sistema de referência são independentes do movimento de translação do sistema
como um todo.

Estes sistemas de referência equivalentes são chamados sistemas de referência inerciais. O postulado de
relatividade, ou também chamado postulado de Poincaré ou primeiro postulado de Einstein, é consistente
com toda a nossa experiência na mecânica, onde somente é relevante o movimento relativo entre os corpos,
e tem sido uma hipótese explícita na mecânica desde os tempos de Copérnico. Também é consistente com
o experimento de Michelson-Morley 5 e deixa sem sentido a questão de detetar qualquer movimento relativo
1
Considerada finalizada em 1927 com a publicação do trabalho de Dirac.
2
H. A. Lorentz, Arch. néerl. Sci. 25, 363 (1892); H. A. Lorentz, Versl. gewone Vergad. Akad. Amst. 1, 74 (1892); J. Larmor,
Aether and Matter, pp. 167–177, (Cambridge 1900); H. A. Lorentz, Proc. Acad. Sci. 6, 809 (1904)
3
H. Poincaré, C. R. Acad. Sci., 140, 1504 (Paris, 1905).
4
A. Einstein, Annalen der Physik, Lpz., Ser. 4, 17, 891-921 (1905).
5
Albert Abraham Michelson (1852–1931), físico americano nascido na Prússia.
Edward Williams Morley (1838–1923), químico americano.
A. A. Michelson and E. W. Morley, Am. J. Sci., 31, 377 (1886); Idem, Philos. Mag. S.5, 24(151), 449-463 (1887).

485
486 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

ao éter.6

Postulado 2 (Postulado da Constância da Velocidade da Luz). A velocidade da luz é independente do


movimento da sua fonte emissora.

Esse postulado, também conhecido como segundo postulado de Einstein ou da constância da velocidade
da luz, sem comprovação experimental quando Einstein fez a proposta, leva a uma radical reformulação das
nossas ideias em relação ao espaço e ao tempo.
Assim voltamos as transformações de Lorentz. Seja S um referencial inercial e S ′ um outro referencial
inercial que se move em relação a S com velocidade constante v, conforme a Fig. 20.1 (os eixos de S ′ são
paralelos aos eixos de S). A fim de evitar complicações desnecessárias, suponhamos que as origens O e O′

Figura 20.1 Sistemas inerciais S e S ′

coincidam nos instantes t = t′ = 0 e que a velocidade relativa v seja paralela ao eixo x de S.


Se uma fonte luminosa em repouso na origem de S (e em movimento na direção x′ negativo quando
observada por S ′ ) emite um sinal luminoso em t = t′ = 0, de acordo com o segundo postulado de Einstein
da constância da velocidade da luz no vácuo, implica que observadores em S e S ′ verão, ambos os obser-
vadores, uma camada esférica de radiação expandindo-se a partir das respectivas origens com velocidade c.
A frente de onda atinge um ponto (x, y, z) no sistema S no tempo t dado pela equação

c2 t2 − (x2 + y 2 + z 2 ) = 0 . (20.1)

De forma similar, no sistema S ′ a frente de onda está especificada por

c2 t′ − (x′ + y ′ + z ′ ) = 0 .
2 2 2 2
(20.2)

Do primeiro postulado de Einstein podemos supor que o espaço-tempo é homogêneo e isotrópico, então a
relação entre os dois sistemas deve ser linear. As Eqs. (20.1) e (20.2) estão relacionadas por
[ ]
c2 t′ − (x′ + y ′ + z ′ ) = λ2 c2 t2 − (x2 + y 2 + z 2 )
2 2 2 2
(20.3)

onde λ = λ(⃗v ) é uma possível mudança de escala entre os sistemas.


Com a escolha feita sobre os eixos, e considerando também a transformação inversa, é possível provar
que λ(v) = 1, e o tempo e as coordenadas espaciais em S ′ estão relacionadas com aquelas em S pela
transformação de Lorentz

x′ = γ(x0 − βx1 )
0

x′ = γ(x1 − βx0 )
1
(20.4)
x′ = x2
2

x′ = x3 ;
3

6
Fluido imaterial hipotético que permearia todo o espaço e que se supunha necessário à propagação das ondas eletromagnéticas,
cf. Houaiss.
Fluido extremamente sutil e elástico, espalhado em todo o universo, cuja existência era admitida por muitos físicos do séc. XIX
para explicar os fenômenos da luz e do calor (pela hipótese das ondulações), cf. Caudas Aulete.
20.1. T RANSFORMAÇÕES DE L ORENTZ 487

onde usamos a seguinte notação x0 = ct; x1 = x; x2 = y e x3 = z; e também os símbolos

⃗β = ⃗v
c
β = |⃗β| (20.5)
1
γ=√ .
1 − β2

A transformação inversa de Lorentz é

x0 = γ(x′0 + βx′1 )
x1 = γ(x′1 + βx′0 )
(20.6)
x2 = x′2
x3 = x′3 .

É importante observar que o limite não relativístico da transformação de Lorentz obtém-se fazendo c → ∞.
De fato, passando ao limite c → ∞, em (20.4) temos a transformação de Galileu, característica da mecânica
newtoniana.
As Eqs. (20.4) e (20.5) descrevem uma situação especial de uma transformação de Lorentz já que
escolhemos um sistema movendo-se em relação a outro com uma velocidade ⃗v paralela ao eixo x. Se os
sistemas S e S ′ permanecem paralelos, mas a velocidade ⃗v do sistema S ′ em relação ao sistema S está
numa direção arbitrária, a generalização de (20.4) será

x′0 = γ(x0 − ⃗β ·⃗r)


γ − 1 (⃗ )⃗ (20.7)
⃗r ′ = ⃗r + β ·⃗r β − γ⃗βx0 .
β2

De acordo com a nossa notação, a transformação de Lorentz (20.4) é uma transformação linear que pode
ser escrita na forma

x′µ = Λµ0 x0 + Λµ1 x1 + Λ2µ x2 + Λµ3 x3


(20.8)
x′µ = Λµν xν .

Os coeficientes da transformação de Lorentz Λµν formam uma matriz Λ = (Λµν ) conhecida como matriz da
transformação de Lorentz. No caso de termos a transformação de Lorentz ao longo da direção x, a matriz
associada será  
γ −βγ 0 0
−βγ γ 0 0
Λ = (Λµν ) =  0
. (20.9)
0 1 0
0 0 0 1

No caso da transformação de Lorentz (20.7), em que a direção de ⃗v = c⃗β é arbitrária e, naturalmente,


⃗β = (β , β , β ) ≡ (β , β , β ), os elementos da matriz Λ = (Λµν ) generalizada são
1 2 3 x y z

Λ00 = γ
Λ0i = Λi0 = −γβi
βi βj
Λij = δij + (γ + 1) .
β2

Quadrivetores As equações de Lorentz (20.4) ou (20.7), descrevem a transformação das coordenadas de


um ponto de um sistema inercial para um outro. Como as rotações em três dimensões, a lei de transformação
básica está definida em termos das coordenadas de um ponto. Introduziremos o conceito de quadrivetor,
488 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

cujas coordenadas são xµ = (x0 , x1 , x2 , x3 ); designaremos agora as componentes de um quadrivetor ar-



bitrário na forma (A0 , A1 , A2 , A3 ), onde A1 , A2 , e A3 são as componentes do vetor tridimensional A.
A transformação de Lorentz (20.7) e válida para qualquer quadrivetor. Assim
( )
A′0 = γ A0 − ⃗β · A

( )
A′ ∥ = γ A∥ − β A0 (20.10)
⃗′ =A
A ⃗ ,
⊥ ⊥

onde os subíndices paralelo e perpendicular indicam componentes relativas à velocidade ⃗v = c⃗β. A inva-
riância ao passar de um sistema inercial a outro, presente na Eq. (20.3) através do segundo postulado, mostra
que em contrapartida qualquer quadrivetor têm invariância de

(A′0 )2 − |A
⃗ ′ |2 = (A0 )2 − |A|
⃗ 2, (20.11)

onde as componentes (A′ 0 , A


⃗ ′ ) e (A0 , A)
⃗ referem-se a dois sistemas inerciais quaisquer. Para dois quadri-
µ µ
vetores A e B o “produto escalar” é um invariante de Lorentz:

A′0 B ′0 − A
⃗′·B
⃗ ′ = A0 B 0 − A
⃗ · ⃗B . (20.12)

Este resultado pode ser verificado explicitamente usando (20.10) para construir o lado esquerdo da Eq.
(20.12), ou usando (20.11) para a soma dos dois quadrivetores. Note que usando as transformações de
⃗ · ⃗B sob rotações em três dimensões.
Lorentz, o “produto escalar” é análogo a invariância de A

Intervalo Invariante e Tempo Próprio O intervalo ds entre dois eventos infinitesimalmente próximos,
com coordenadas (x, y, z, t) e (x+dx, y+dy, z+dz, t+dt), respectivamente, é definido por

ds2 = c2 dt2 − dx2 − dy 2 − dz 2 . (20.13)

Usando as transformações de Lorentz (20.4) deduzimos

dt′ = γ(dt − v dx/c2 )


dx′ = γ(dx − v dt)
dy ′ = dy
dz ′ = dz ,

e cálculo algébrico simples mostra que


(ds′ )2 = (ds)2 . (20.14)
Este resultado indica que o intervalo entre dois eventos é invariante sob transformações de Lorentz, i.e., te-
mos o intervalo invariante. Podemos dizer que ds é um escalar de Lorentz. Naturalmente o mesmo resultado
vale para um intervalo ∆s. Note que ds é análogo à distância entre dois pontos infinitesimalmente próximos
num espaço euclidiano tridimensional. O espaço-tempo quadridimensional com ds invariante definido por
(20.13) é conhecido como espaço de Minkowski 7 .
Outro conceito importante é o de tempo próprio. Consideremos um sistema, como sendo uma partícula,
que está movendo-se com uma velocidade instantânea ⃗u(t) relativa a um outro sistema inercial S. Num
intervalo de tempo dt sua posição sofre um deslocamento d⃗r =⃗u dt. Pela Eq. (20.13) temos o quadrado do
infinitesimal ds
ds2 = c2 dt2 − |d⃗r|2 = c2 dt2 (1 − β 2 ) > 0 , (20.15)
onde β = uc . No sistema de coordenadas S ′ onde a partícula está em repouso instantâneo, os incrementos
espaço-temporais são dt′ ≡ dτ , e d⃗r ′ = 0. Assim temos o intervalo ds = c dτ . O incremento de tempo dτ no
7
Hermann Minkowski (1864–1909), matemático russo-alemão.
20.2. G RUPO DE L ORENTZ E DE P OINCARÉ 489

sistema de referência onde o partícula está em repouso instantâneo é, desta forma, um invariante de Lorentz,
e tem a forma
√ 1
dτ = dt 1 − β 2 (t) = dt . (20.16)
γ (t)
O tempo τ recebe o nome de tempo próprio da partícula ou do sistema. É o tempo medido no sistema de
repouso da partícula. Da Eq. (20.16) se segue que um dado intervalo de tempo próprio τ2−τ1 será observado
no sistema S como o intervalo temporal
∫ τ2 ∫ τ2

t2 − t1 = √ = γ (t) dτ . (20.17)
τ1 1 − β 2 (t) τ1

As Eqs. (20.16) ou (20.17) expressam o fenômeno conhecido como dilatação temporal. Um relógio que se
movimenta funciona mais lentamente que outro em repouso. Para intervalos de tempo iguais no sistema do
relógio em repouso, os intervalos observados no sistema S são maiores por um fator γ > 1.

20.2 Grupo de Lorentz e de Poincaré


O grupo de Lorentz consiste das transformações no espaço-tempo que deixam invariante a forma quadrática

xµ yµ = xµ y ν gµν , (20.18)

em que xµ = (x0 ,⃗x) e yµ = gµν y ν = (y 0 , −⃗y), onde gµν são os elementos da matriz G definida por
 
1 0 0 0
0 −1 0 0
G = (gµν ) =  
0 0 −1 0  . (20.19)
0 0 0 −1

A matriz G define uma métrica no espaço de Minkowski e seus elementos gµν são chamados de compo-
nentes do tensor métrico. A Eq. (20.18) algumas vezes é chamada de produto escalar de Minkowski de x
por y.
Indicaremos por g µν a inversa da matriz gµν . Assim y µ = g µν yν . Índices superiores e inferiores são
chamados de contravariantes e covariantes, respectivamente. As coordenadas contravariantes e covariantes
diferem somente na parte espacial, quando os índices variam de um a três.
Seja Λ uma das transformações do grupo de Lorentz. Sabemos que

x′µ = Λµν xν ,

assim, de x′µ y ′ µ = xµ yµ , resulta que a matriz Λ deva satisfazer

Λµα Λνβ gµν = gαβ , (20.20)

ou em notação matricial ΛT G Λ = G, usando o fato de que G2 = I, sendo I a matriz identidade

ΛT G Λ G = I , (20.21)

o que mostra que ΛT G é a matriz inversa de Λ G.


Como det G = −1, da Eq. (20.21) deduzimos

−1 = det G = det(ΛT G Λ) = det ΛT det G det Λ


= (det Λ)(−1)(det Λ) , (20.22)

isto é, (det Λ)2 = 1 e portanto det Λ = ±1. Uma Transformação de Lorentz com determinante igual a +1 é
dita própria, e dita imprópria se o determinante é −1. A transformação de Lorentz (20.4) é do tipo própria.
490 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

Tomando α = β = 0 em (20.20) se obtém

1 = g00 = Λµ0 gµν Λν0 = (Λ00 )2 − (Λ10 )2 − (Λ20 )2 − (Λ30 )2 ,

ou seja
(Λ00 )2 = 1 + (Λ10 )2 + (Λ20 )2 + (Λ30 )2 ≥ 1 ,
onde, finalmente,

Λ00 ≥ ±1 . (20.23)

Se Λ00 ≥ +1 a transformação de Lorentz é dita ortócrona (preserva o sentido do tempo); se Λ00 ≤ −1 a trans-
formação de Lorentz é dita não ortócrona ou heterócrona (inverte o sentido do tempo). Qualquer trans-
formação de Lorentz pura, tal como (20.4), que conecta referenciais com eixos paralelos e em movimento
relativo com velocidade constante, é ortócrona. As transformações de Lorentz puras também são chamadas
de boosts. As transformações próprias e ortócronas são chamadas de transformações de Lorentz restritas,
esse conjunto forma um subgrupo do grupo de Lorentz, chamado de grupo de Lorentz próprio ou grupo
de Lorentz restrito. O princípio da relatividade de Einstein afirma que as leis da física são invariantes em
relação ao grupo de Lorentz próprio, i.e., restrito.
Uma outra forma explícita de escrevermos uma transformação de Lorentz própria e ortócrona, na forma
matricial, para um referencial que se move com velocidade ⃗v = vı̂ com relação ao referencial de partida é
 0    0
x′ cosh θ − senh θ 0 0 x
 ′1 
x  − senh θ cosh θ 0 0 x1 
 
 ′2 =  (20.24)
x  0 0 1 0 x2 
x′ 3 0 0 0 1 x3

com as definições
v
1
cosh θ ≡ γ = √ , senh θ ≡ βγ = √ c
,
v2 v2
1− c2
1− c2

de modo que tanh θ = β = vc .


Os resultados da combinação das transformações de Lorentz com as translações espaço-tempo formam
o grupo de Poincaré. Assim, a transformação de Poincaré, nome dado por Wigner, ou transformação de
Lorentz inomogênea é da forma
x′µ = aµ + Λµν xν , (20.25)
ou seja, nessa forma de escrever a transformação de Poincaré, também se aplica a classificação das trans-
formações de Lorentz.
Por certo tempo, muitos físicos pensavam que o princípio da relatividade envolvesse o grupo de Poincaré
geral. Com a descoberta da violação da paridade nas interações fracas, ficou evidente que o princípio da
relatividade só é válido para o grupo de Poincaré cuja transformação é ortócrona e própria.

20.3 Campos Escalares e Tensores


Um campo escalar é uma função ϕ(X) cujo valor em cada ponto X do espaço-tempo é invariante sob as
transformações de Lorentz, i.e., ϕ′ (X) = ϕ(X). Se o ponto X tem coordenadas (x0 , x1 , x2 , x3 ) no sistema
de referência inercial S e (x′0 , x′1 , x′2 , x′3 ) no sistema de referência inercial S ′ , temos

ϕ′ (x′ ) = ϕ(x) .

Introduziremos agora o operador nabla quadridimensional


( ) ( )
∂ ∂ ∂ ∂ ∂ 1 ∂ ⃗
∂µ = = , , , = , ∇ (20.26)
∂xµ ∂x0 ∂x1 ∂x2 ∂x3 c ∂t
20.4. D INÂMICA R ELATIVÍSTICA 491

que é um vetor covariante. Esta afirmação vem do fato de que ∂µ ϕ ser um vetor covariante, e da definição
de campo escalar. De fato, combinando

(∂µ ϕ)′ = Λνµ (∂ν ϕ)

ou
∂µ′ ϕ′ = Λνµ ∂ν ϕ
com ϕ′ = ϕ, concluímos que, como operador,

∂µ′ = Λνµ ∂ν .

Analogamente ( ) ( )
∂ ∂ ∂ ∂ ∂ 1 ∂
µ µν
∂ = g ∂ν = = , , , = , −∇
⃗ (20.27)
∂xµ ∂x0 ∂x1 ∂x2 ∂x3 c ∂t
gera um vetor contravariante.
Tomando o produto escalar destes vetores (20.26) e (20.27), obtemos a versão quadridimensional do
operador laplaciano, conhecido como operador d’Alembertiano (de d’Alembert 8 )

1 ∂2
 = ∂µ ∂ µ = − ∇2 (20.28)
c2 ∂t2
Este operador é um escalar e é uma quantidade invariante por transformações de Lorentz. Portanto, uma
equação de onda escrita como
ψ = 0 , (20.29)
como a equação de onda eletromagnética, é consistente com os princípios da relatividade de Einstein.
Objetos com n índices que se transformam com relação a cada um deles como vetores, como para n = 2

A′
µν
= Λµλ Λνσ Aλσ

são tensores de ordem n, no exemplo acima, temos tensores de segunda ordem.


O conjuntos de segundas derivadas parciais ∂µ ∂ν e ∂ µ ∂ ν têm um comportamento de tensores de se-
gunda ordem. O primeiro é um tensor covariante, enquanto o segundo e um tensor contravariante. Ainda é
possível considerar o tensor de segunda ordem misto ∂µ ∂ ν , que é covariante em relação a µ e contravariante
em relação a ν. As componentes desses diferentes tipos de tensores se relacionam através do tensor métrico
gµν como
∂ µ ∂ ν = g µλ ∂λ ∂ ν = g µλ g νσ ∂λ ∂σ .

20.4 Dinâmica Relativística


Se uma partícula, com massa de repouso µ, se move em um dado referencial com velocidade⃗v, a sua posição
⃗r varia, num intervalo de tempo infinitesimal dt, como d⃗r = ⃗vdt. Como dx0 = cdt e as componentes dxi
de d⃗r se comportam sob transformações de Lorentz como um quadrivetor, a quantidade dxµ dxµ será um
invariante, e portanto ( )
(d⃗r)2 v2
dτ = dt − 2 = dt 1 − 2
2 2 2
c c
também o é. Esse tempo τ já foi definido anteriormente, é o tempo próprio e invariante de Lorentz.
O fato de τ ser invariante, segue que
 
dx µ c ⃗v
uµ = = √ , √ 
dτ 1− v 2
1− v2
c2 c2
8
Jean le Rond d’Alembert (1910–1985), matemático francês.
492 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

conhecido como quadrivelocidade da partícula. É imediato verificar que as quatro componentes da quadri-
velocidade não são independentes, pois uµ uµ = c2 . O produto µ uµ da massa pela quadrivelocidade é, dada
a invariância da massa µ, um quadrivetor, o quadrivetor momentum, cujas componentes são
 
( )
 µc µ⃗v  E
p =µu = √
µ µ
, √ = ,⃗p ,
1− v
2
1− v
2 c
c2 c2

onde E e ⃗p são as expressões relativísticas para a energia e para o momentum da partícula. Ainda podemos
tirar uma relação energia-momentum como invariante relativístico

E2
pµ pµ = − ⃗p ·⃗p = µ2 c2
c2
que resulta em
E 2 = p2 c2 + µ2 c4 ,
essa expressão será muito importante nas futuras seções.
Uma transformação de Lorentz atua no elemento de volume quadridimensional d4 x = dx0 dx1 dx2 dx3
de acordo com ( )
4 ′ ′0 ′1 ′2 ′3 ∂ x′0 , x′1 , x′2 , x′3 4
d x = dx dx dx dx = d x,
∂ (x0 , x1 , x2 , x3 )
onde o jacobiano é o determinante da transformação de Lorentz

x′µ = Λµν xν

o que identifica o elemento de volume como um invariante sob transformações de Lorentz próprias.

20.5 Eletrodinâmica na Forma Covariante


Considerando uma distribuição contínua de cargas, cuja densidade de carga seja ρ. Logo, ρd3 r será a carga
total que se encontra no volume d3 r. Mas devemos lembrar que as cargas são pontuais. Então, ρ deve ser
representado na forma de uma função delta

ρ= qi δ(⃗r −⃗ri ) . (20.30)
i

A carga da partícula, por sua própria definição, é invariante, i.e., uma quantidade escalar, não depende do
sistema de referência. A densidade ρ, por outro lado, não é invariante, somente o produto ρd3 r é invariante.
Multiplicando a igualdade dQ = ρ d3 r em ambos os lados por dxµ , temos

dxµ
dQ dxµ = ρd3 r dxµ = ρ d3 r dt .
dt
O primeiro membro desta igualdade é um quadrivetor, no segundo membro d3 r dt é um escalar e portanto
µ
ρ dx
dt é um quadrivetor. Este quadrivetor chamamos de quadricorrente j
µ

dxµ
jµ = ρ . (20.31)
dt

As componentes espaciais de (20.31) formam a densidade de corrente ⃗J = ρ⃗v e a componente temporal


forma a densidade de carga multiplicado por c, cρ. Portanto,

dxµ
jµ = ρ = (cρ, ⃗J) (20.32)
dt
20.5. E LETRODINÂMICA NA F ORMA C OVARIANTE 493

A conservação da carga total, é expressa por

⃗ · ⃗J + ∂ρ = 0

∂t
que é a equação de continuidade em forma diferencial. Portanto, a forma quadridimensional da equação de
continuidade poderá ser expressa como a quadridivergência do quadrivetor corrente,

∂j µ
∂µ j µ ≡ = 0. (20.33)
∂xµ

As equações de Maxwell, que relacionam o campo eletromagnético com as cargas e correntes podem
ser resumidas convenientemente em termos das equações inomogêneas para o potencial escalar Φ e para o

potencial vetor A

1 ∂2Φ
− ∇2 Φ = −4πρ
c2 ∂t2
1 ∂2A⃗
⃗ = − 4π ⃗J
− ∇2 A
2
c ∂t 2 c
quando esses potenciais satisfazem a condição de calibre de Lorenz-Lorentz

∇ ⃗ + 1 ∂Φ = 0 .
⃗ ·A
c ∂t
⃗ dever ser iguais às de
Como o operador diferencial é invariante, as propriedades de transformação de Φ e A
⃗J
ρ e de c . Desse modo é possível escrever o quadripotencial Aµ como
( )
⃗ ,
Aµ = Φ, A (20.34)

em termos do qual essas equações inomogêneas podem ser escritas, usando também a definição da quadri-
corrente, como
4π ν
Aν ≡ ∂ µ ∂µ Aν = − j (20.35)
c
enquanto o calibre de Lorenz-Lorentz será
∂µ Aµ = 0 . (20.36)
Introduzindo o tensor antissimétrico e de segunda ordem, conhecido como tensor do campo eletromag-
nético Fµν .
Fµν = ∂µ Aν − ∂ν Aµ , (20.37)
onde Aµ é dado em (20.34). Podemos calcular explicitamente o tensor eletromagnético F ij ,

F ij = ∂ i Aj − ∂ j Ai = (δ il δ jm − δ im δ jl )∂ l Am = ϵijk ϵklm ∂ l Am

mas temos que ϵklm ∂ l Am = −(∇


⃗ × A)
⃗ k = −B k , de forma que F ij = −ϵijk B k . Analogamente, temos
( )i

F i0
=∂ A −∂ A =
i 0 0 i ⃗ − 1 ∂A
−∇Φ = Ei
c ∂t

Assim, a forma matricial do tensor do campo eletromagnético será


 
0 −Ex −Ey −Ez
 E 0 −Bz By 
F µν =  x
 Ey Bz

 (20.38)
0 −Bx
Ez −By Bx 0
494 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

e os campos ⃗E e ⃗B serão

⃗ − 1 ∂A
⃗E = −∇Φ e ⃗B = ∇ ⃗ ×A⃗
c ∂t
Assim, em termos do tensor F µν dado em (20.38) podemos escrever as equações inomogêneas de
Maxwell

⃗ × ⃗B = 1 ∂ E + 4π ⃗J
∇ e ∇
⃗ · ⃗E = 4πρ
c ∂t c
na forma
4π µ
∂ν F µν = − j .
c
Para escrever as outras duas equações homogêneas de Maxwell


⃗ × ⃗E = 1 ∂ B
∇ e ∇
⃗ · ⃗B = 0 ,
c ∂t
é conveniente definir o tensor dual eletromagnético na forma
 
0 −Bx −By −Bz
1  Bx 0 Ez −Ey 
F µν = ϵµνγδ Fγδ =  By −Ez
. (20.39)
2 0 Ex 
Bz Ey −Ex 0

Os elementos do tensor dual F µν se obtém a partir de F µν fazendo ⃗E → ⃗B e ⃗B → −⃗E. Esse tensor nos
leva diretamente a
∂µ F µν = 0
Finalmente, podemos observar que o eletromagnetismo de Maxwell é uma teoria corretamente adaptada
ao princípio da relatividade restrita.

20.6 Equação de Klein-Fock-Gordon


A equação de movimento de Schrödinger que descreve o estado de uma partícula livre
( 2 )
~ 2 ∂
− ∇ − i~ ψ (⃗r, t) = 0
2µ ∂t

não define um invariante, pois o operador diferencial que aparece nessa equação não é tensorialmente con-
sistente sob transformações de Lorentz. Para obtermos uma equação relativística para mecânica quântica,
partiremos da relação energia-momentum

E 2 = p2 c2 + µ2 c4 (20.40)

e usando os operadores associados a essas observáveis através de



E → i~ e ⃗p → − i ~∇
⃗ .
∂t
(E )
Porém sabemos que pµ = c ,⃗p , então

E2
pµ pµ = − ⃗p ·⃗p = µ2 c2
c2
que é um invariante de Lorentz. Usando os operadores em (20.40), temos a equação
( ) ∂ 2 ψ (⃗r, t)
−~2 c2 ∇2 + µ2 c4 ψ (⃗r, t) = −~2
∂t2
20.6. E QUAÇÃO DE K LEIN -F OCK -G ORDON 495

que com o operador d’Alembertiano


1 ∂2
 = ∂µ ∂ µ = − ∇2
c2 ∂t2
podemos escreve-la como ( )
µ µ2 c2
∂ ∂µ + 2 ψ (⃗r, t) = 0 . (20.41)
~
Essa Eq. (20.41) é claramente um invariante, é chamada equação de Klein-Fock-Gordon, porém muito
conhecida como equação de Klein-Gordon 9 , ou ainda de equação de Klein-Fock para os russos. 10 Ela
foi porém considerada pela primeira vez por Schrödinger, sob uma forma mais interessante, que inclui os
⃗ para estudar o espectro do
efeitos de um campo eletromagnético externo descrito pelos potenciais Φ e A,
11
hidrogênio. Essa forma parte da equação, que é uma extensão da Eq. (20.40),
( q ⃗ )2 2
⃗p + A c + µ2 c4 = (E + qΦ)2
c
onde a carga do elétron foi escrita como −q. Essa relação é invariante pelo fato de que Aµ = (Φ, A)
⃗ também
se transformam como invariantes de Lorentz. Substituindo a relação acima pelos operadores associados de
energia e de momentum, temos
[( )2 ] ( )2
q ∂
− i ~∇
⃗ + A ⃗ c + µ c ψ (⃗r, t) = i ~ + qΦ ψ (⃗r, t) .
2 2 4
(20.42)
c ∂t
⃗ = 0 e Φ = q , obtemos os estados estacionários do átomo de hidrogênio. Supondo que a
fazendo A r
dependência temporal das funções de onda estacionárias seja e− ~ Et e levando em conta as condições de
i

contorno apropriadas, a equação que devemos resolver é


( )2
( 2 2 2 ) q2
−~ c ∇ + µ c φE (⃗r) = E +
2 4
φE (⃗r) .
r
As soluções obtidas por Schrödinger usando essa equação fornece resultados coerentes para o espectro
do átomo de hidrogênio na ordem α2 , onde α é a constante de estrutura, que corresponde ao espectro de
2 2
Bohr, pois a constante de Rydberg pode ser escrita como α µ2e c , mas os efeitos da ordem α4 , associados
à estrutura fina do espectro, são grandes demais. Schrödinger atribuiu essa incoerência ao fato de que a
equação usada não inclui o spin do elétron, tendo sido eventualmente levado a abandonar essa equação. O
fato de que as Eqs. (20.41) e (20.42) descrevem partículas sem spin está diretamente ligado à natureza da
função de onda ψ (⃗r, t), tomada como uma função complexa de⃗r e t, e portanto sem qualquer dependência
possível de graus de liberdade internos. Um dos pontos centrais do trabalho de Dirac foi, de fato, generalizar
essa equação para funções de onda com mais de uma componente, i.e., a inclusão do spin.
Retornando à equação de Klein-Fock-Gordon
( )
µ2 c2
∂ µ ∂µ + 2 ψ (⃗r, t) = 0 (20.43)
~
cuja solução é
t+i ⃗p
ψ (⃗r, t) = e− i ·⃗r ,
E
~ ~ (20.44)
podemos escrever sua complexo conjugada
( )
µ2 c2
∂ µ ∂µ + 2 ψ ∗ (⃗r, t) = 0 . (20.45)
~
9
Oscar Benjamin Klein (1894–1977), físico sueco.
10
O. Klein, Zeitschrift für Physik, 37, 895 (1926); V. A. Fock, Zeitschrift für Physik, 38, 242 (1926); Idem, 39, 226 (1926);
W. Gordon, Zeitschrift für Physik, 40, 117 (1926).
11
E. Schrödinger, Annalen der Physik, 81, Sec. 6, 109 (1926).
496 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

Multiplicando a Eq. (20.43) por ψ ∗ (⃗r, t) e subtraindo da multiplicação da equação complexo conjugada
(20.45) por ψ (⃗r, t), temos
∂ µ [ψ ∗ (∂µ ψ) − ψ (∂µ ψ ∗ )] = 0
que é a equação de continuidade para densidade da quadricorrente cujas componentes covariantes são
i~
jµ = [(∂µ ψ) ψ ∗ − ψ (∂µ ψ ∗ )] ,

i~
onde o fator de normalização 2µ para que a componente j0 tenha a dimensão da densidade de probabilidade.
Logo
( )
i~ ∗ ∂ψ ∂ψ ∗
ρ= ψ −ψ
2µc2 ∂t ∂t

( )
⃗J = − i ~ ψ ∗ ∇ψ ⃗ ∗ .
⃗ − ψ ∇ψ

Assim, obtém-se
∂ρ ⃗ ⃗
+ ∇·J = 0.
∂t
Fazendo uma integração em todo o volume da relação acima, temos
∫ ∫ ∫ ∫
∂ρ 3 ∂
d r= ρ d r = − ∇ · J d r = − ⃗J · d⃗S = 0 .
3 ⃗ ⃗ 3
∂t ∂t
Logo, ∫
ρ d3 r = constante ,

ou seja, ρ d3 r é uma constante no tempo. Aqui, no entanto a densidade ρ(⃗r, t) não será estritamente posi-
tiva, poderá ter uma quantidade negativa, o que exclui a possibilidade
∫ de interpretá-la como uma densidade
de probabilidade e portanto a possibilidade de interpretar ρ d3 r como a probabilidade total.
A origem dessa peculiaridade pode ser identificada calculando a densidade ρ(⃗r, t) para as soluções
estacionárias com a forma de ondas planas, ψ (⃗r, t) = φ(⃗r)e− i ~ t . De fato, nesse caso temos
E

E
ρ(⃗r, t) = |φ|2 .
µc2

Mas pela normalização relativística |φ|2 = 1, que corresponde a E


µc2
partículas por unidade de volume,
temos
E
ρ(⃗r, t) = 2 ,
µc
onde a energia E e a massa de repouso µ estão relacionadas através de da relação energia-momentum
(20.40), ou seja √
E = ± p2 c2 + µ2 c4 . (20.46)
Essas relações mostram a existência de valores negativos de ρ, liga-da ao caráter quadrático da relação
energia-momentum, que introduz soluções de energia negativa. Esse fato levou a equação de Klein-Fock-
-Gordon ser inicialmente rejeitada. Essa dificuldade foi contornada por Dirac, em 1928, através de sua
equação e, também, por Pauli e Weisskopf 12 , em 1934, ao interpretarem ρ como um operador, 13 além da
interpretação para E < 0 realizado por Stückelberg 14 , em 1941, 15 e por Feynman, em 1949. 16
12
Viktor Frederick Weisskopf (1908–2002), físico austríaco americano.
13
W. Pauli and V. Weisskopf, Helv. Phys. Acta, 7, 709 (1934).
14
Ernest Carl Gerlach Stückelberg (1905–1984), físico suíço.
15
E. C. G. Stuckelberg, Helv. Phys. Acta, 14.32L, 588 (1941).
16
R. Feynman, Physical Review, 76, 749 (1949); Ibidem, 769 (1949).
20.6. E QUAÇÃO DE K LEIN -F OCK -G ORDON 497

Ainda devido ao caráter quadrático da relação energia-momentum, temos uma equação de segunda or-
dem em t, onde necessitamos que conhecer ambas ψ e ∂ψ ∂t em t = 0 para que possamos solucionar ψ para
qualquer t > 0. Então, existirá um grau de liberdade extra para essa solução, que não está presente na
equação de Schrödinger.
Assim, esses problemas são todos relacionados, desde que uma solução para a função de onda

ψ (⃗r, t) = φ(⃗r) e∓ i
E
~
t

tem densidade ρ = ± µc
E
2 |φ| , então para solução geral
2

ψ (⃗r, t) = φ+ (⃗r) e− i
E E
t
~ + φ− (⃗r) e+ i ~
t
, (20.47)

ambas condições
i ~ ∂ψ
ψ(t = 0) = φ+ + φ− e = φ+ − φ−
E ∂t t=0

são necessárias para especificar φ+ e φ− . Por outro lado fica claro também que, no caso geral, a considera-
ção de uma partícula relativística de spin 0 leva a uma situação envolvendo dois tipos de graus de liberdade,
que são associados, por exemplo, a φ+ e φ− . Como visto, isso se relaciona com o fato de que a equação de
movimento é de segunda ordem no tempo, e a consequente introdução de soluções com energia negativa.
∫ Esse fato precisa ser levado em conta para obter uma interpretação para a constante do movimento
ρ d3 r. A presença de dois tipos de graus de liberdade sugere que a equação de Klein-Fock-Gordon não
possa em geral ser vista como uma equação de movimento para o estado quântico de uma única partícula,
diferente do que ocorre com a equação de Schrödinger não relativística. A solução geral da equação pode
ser escrita como uma soma com coeficientes arbitrários das ondas planas (20.44). Usando condições de
contorno periódicas, como em uma caixa de volume L3 e separando explicitamente as componentes com
energia positiva e negativa, uma solução desse tipo será escrita por

∑ 1 [ ]
⃗ ⃗
ψ (⃗r, t) = √ a⃗k ei(k ·⃗r−ωk t) + b⃗k ei(k ·⃗r+ωk t) , (20.48)
⃗k
ωk L3


onde ~ωk = + ~2 k 2 c2 + µ2 c4 . Os termos que envolve os coeficientes a⃗k e b⃗k correspondem aos esta-
−1
dos de energia positiva e negativa, e o fator ωk 2 foi introduzido explicitamente nesses coeficientes por
conveniência. Usando as propriedades de ortogonalidade ∫das ondas planas com as condições de contorno
periódicas fica fácil mostrar que a quantidade conservada ρ d3 r é dada por
∫ ∫ ( )
~ ∂ψ ∗ ∗ ∂ψ ~ ∑( )
3
ρd r= 3
d r ψ −ψ = 2 |a⃗k |2 − |b⃗k |2 . (20.49)
2µc2 i ∂t ∂t µc
⃗k

A importância dessa equação é que ela se apresenta como a diferença de dois termos positivos, associa-
dos respectivamente à energia positiva e à energia negativa de ψ (⃗r, t). O termo correspondente à energia
negativa será interpretado em termos da presença de anti-partículas no sistema, com o que a quantidade
conservada passa a ter o sentido de número de partículas menos o número de antipartículas presentes no
sistema. Com essa interpretação, a função ψ (⃗r, t) deixa de ser associada a um sistema constituído apenas
por uma partícula. Um tratamento mais adequado para essa equação é quando consideramos como uma
teoria envolvendo um campo escalar, complexo, ψ (⃗r, t) que deve ser trabalhado com técnicas de segunda
quantização no espaço de Fock, de forma análoga à realizada quando estudamos o potencial vetor do campo
eletromagnético livre, cf. §17.5. Atualmente, sabe-se que a equação de Klein-Fock-Gordon descreve o com-
portamento de partículas de spin 0.
498 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

20.7 Equação de Dirac


Vimos que a equação de Pauli-Darwin apresentou uma razoável interpretação do spin, porém falha ao
tentar combinar a rotação intrínseca (spin) do elétron com a relatividade restrita de Einstein. Já a equação
de Klein-Fock-Gordon descreve uma partícula livre relativística de spin 0.
No caso da equação de Klein-Fock-Gordon, encontramos alguns problemas:
E2
1. c2
= p2 + µ2 c2 ⇒ E ≷ 0, assim tínhamos energia positiva e negativa;
∂2
2. A equação de Klein-Fock-Gordon apresenta termos em ∂t2
, que nos leva a ρ < 0, i.e., densidade de
probabilidade negativa.
Dirac para corrigir esse problema, i.e., em ordem de obter ρ ≥ 0, postulou, em 1928, 17 uma equação linear

em ∂t assim como também linear em ∇, ⃗
[ ( ) ]
∂ψ (⃗r, t) ∂ ∂ ∂
i~ = c − i ~ α1 1 + α2 2 + α3 3 + βµc ψ (⃗r, t)
∂t ∂x ∂x ∂x
( )
= c − i ~⃗α · ∇
⃗ + βµc ψ (⃗r, t) . (20.50)

Qual o significa dos α’s e β? Da relação energia-momentum


E2
= ⃗p2 + µ2 c2 , (20.51)
c2
sem levar em consideração os sinais ±, temos
E ( )1
= ⃗p2 + µ2 c2 2 . (20.52)
c
Ora, essa relação é equivalente à,
E
= ⃗α0 ·⃗p + µcβ0 (20.53)
c
onde
( )1
⃗v ⃗v2 2
⃗α0 = e β0 = 1 − 2 .
c c
Prova. De
( )− 12
E v2 v
2
E = µγc ; ⃗p = µγ⃗v = 2 ⃗v ; γ = 1− 2 e β= .
c c c
Usando as relações acima, temos
( )
E µc2 v2 µc2
E = µγc → 2 =
2
→E 1− 2 =
γ γ c γ
Ev 2 µc 2 Ev 2 µc2
→E− 2 = →E= 2 +
c γ c γ
( ) 1
v2 2
→ E = ⃗v ·⃗p + µc2 1 − 2
c
( )1
E ⃗v v2 2
→ = ·⃗p + µc 1 − 2
c c c
( 2
) 1
2
chamando ⃗α0 = ⃗v
c e β0 = 1 − vc2 encontramos

E
= ⃗α0 ·⃗p + µcβ0 .
c

17
P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society of London, A117, 610-624 (1928), Idem, A118, 351-361 (1928).
20.7. E QUAÇÃO DE D IRAC 499

Assim, tomando (20.53) como uma equação heurística, da seguinte forma:


Eψ = c (⃗α ·⃗p + µcβ) ψ , (20.54)
onde agora α’s e β são os operadores, mais precisamente na forma de matrizes, que atuam sobre a função
de onda ψ. Considerando os operadores diferenciais associados a energia E e ao momentum ⃗p, temos
( )
⃗ + µcβ ψ = i ~ ∂ψ ,
c − i ~⃗α · ∇ (20.55)
∂t
conhecida como equação de Dirac, e é exatamente a Eq. (20.50) já considerada.
Em analogia com a equação de Schrödinger, usando (20.54) e (20.51), respectivamente, temos
Hψ = c (⃗α ·⃗p + µcβ) ψ
( )
H2 ψ = c2 ⃗p2 + µ2 c2 ψ
para garantir uma equação invariante. Então,
H2 ψ = c2 (⃗α ·⃗p + µcβ) (⃗α ·⃗p + µcβ) ψ = c2 (αi pi + µcβ) (αj pj + µcβ) ψ
[ ]
= c2 αi2 p2i + (αi αj + αj αi ) pi pj + (αi β + βαi ) pi µ + β 2 µ2 ψ .
( )
Comparando com H2 ψ = c2 ⃗p2 + µ2 c2 ψ, somos levados a impor:
}
αi2 = 1
⇒ αi αj + αj αi = 2δij
αi αj + αj αi = 0
αi β + βαi e β2 = 1 ,
onde i, j = 1, 2, 3.
Até o momento, deduzimos as relações que envolvem os operadores ⃗α e β. Vejamos agora a forma
desses operadores. Existem três matrizes 2 × 2 que satisfazem relações similares às relações acima, são as
matrizes de Pauli que obedecem às Eqs. (10.35)-(10.40). Mas aqui temos quatro matrizes α1 , α2 , α3 , β e
não podemos usá-las como σ1 , σ2 , σ3 , I, pois a identidade I comuta com os demais, portanto não poderá
ser a matriz β. Assim, análoga a expressão Eψ = c (⃗α ·⃗p + µcβ) ψ, postulamos a seguinte equação
( )
E
(⃗σ ·⃗p) ψ = A + i µcB ψ (20.56)
c
onde usamos a matriz de Pauli ⃗σ e definimos ψ como um spinor de quatro componentes (que ficará mais
claro adiante),  
ψ1
ψ2 
ψ= ψ3 
 (20.57)
ψ4
e A e B são operadores que comutam com ⃗σ , ⃗p e⃗r, i.e.,
[σi , A] = [σi , B] = 0
[pi , A] = [pi , B] = 0
[xi , A] = [xi , B] = 0
onde i = 1, 2, 3.
Aplicando o operador (⃗σ ·⃗p) em (20.56) e usando o fato de que (⃗σ ·⃗p)2 = ⃗p2 , encontramos
( )( )
2 E E
(⃗σ ·⃗p) ψ = A + i µcB A + i µcB ψ
c c
( 2 )
E 2
⃗p2 ψ = A + i EµAB + i EµBA − µ 2 2 2
c B ψ
c2
( 2 )
E 2
2
⃗p ψ = A + i Eµ(AB + BA) − µ c B ψ .2 2 2
c2
500 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

E2
Sabemos que ⃗p2 = c2
− µ2 c2 , da relação acima temos
( 2 ) ( 2 )
E E 2
− µ 2 2
c ψ = A + i Eµ(AB + BA) − µ2 2 2
c B ψ.
c2 c2
Logo,
A2 = B 2 = I
{A, B} = AB + BA = 0 .
Comparando essas expressões com
( )
1 0
σi2 = I = e σi σj + σj σi = 0 ,
0 1
podemos definir os operadores A e B como
( )
0 1
A ≡ ρ1 = (20.58)
1 0
( )
0 −i
B ≡ ρ2 = (20.59)
i 0
tendo ( )( ) ( )
0 1 0 −i 1 0
ρ1 ρ2 = =i = i ρ3 . (20.60)
1 0 i 0 0 −1
Usando (20.58) e (20.59) em (20.56), resulta:
( )
E E
(⃗σ ·⃗p) ψ = ρ1 + i µcρ2 ψ → ρ1 ψ = (⃗σ ·⃗p) ψ − i µcρ2 ψ ,
c c
multiplicando os dois lados da equação acima por ρ1 , temos
E
ψ = [ρ1 (⃗σ ·⃗p) + µcρ3 ] ψ . (20.61)
c
Comparando a relação (20.61) com
E
ψ = [(⃗α ·⃗p) + µcβ] ψ ,
c
considerando que ψ é uma matriz coluna de quatro componentes e que ρ1 e ⃗σ são matrizes 2 × 2, então ⃗α
e β serão matrizes 4 × 4, definidas através dos produtos tensoriais
⃗α = ρ1 ⊗ ⃗σ e β = ρ3 ⊗ I .
Em termos de componentes, temos:
 
( ) ( ) 0 0 0 1
0 1 0 1  0 0 1 0
α1 = ⊗ = 0 1 0 0

1 0 1 0
1 0 0 0
 
( ) ( ) 0 0 0 − i
0 1 0 −i 0 0 i 0 
α2 = ⊗ =
0 − i 0 0 

1 0 i 0
i 0 0 0
 
( ) ( ) 0 0 1 0
0 1 1 0 0 0 0 −1
α3 = ⊗ =
1 0 0 0 

1 0 0 −1
0 −1 0 0
 
( ) ( ) 1 0 0 0
1 0 1 0 0 1 0 0
β= ⊗ =
0 0 −1 0 

0 −1 0 1
0 0 0 −1
20.7. E QUAÇÃO DE D IRAC 501

ou seja, podemos escreve-las de forma compacta como


( ) ( )
0 ⃗σ I 0
⃗α = e β= . (20.62)
⃗σ 0 0 −I

Esses são conhecidos como operadores de Dirac.


É fácil observar que
⃗α = ⃗α† e β = β† .

Logo,

βαi β = −αi
tr(αi ) = tr(β) = 0
tr(βαi β) = −tr(αi ) = tr(αi ββ) = tr(αi ) ,

e os autovalores de αi e β serão ±1. Portanto a hamiltoniana da equação de Dirac

Hψ = c [(⃗α ·⃗p) + µcβ] ψ

é hermitiana.

Spinores de Weyl É importante lembrar da representação de Weyl, onde usamos a notação 18

⃗α = ρ3 ⊗ ⃗σ e β = ρ1 ⊗ I .

Então,
( ) ( )
⃗σ 0 0 I
⃗α = e β= . (20.63)
0 −⃗σ I 0

Se escrevermos ψ, como um spinor de Dirac, sob a forma


( )
φ
ψ=
χ

onde φ e χ têm duas componentes cada, a Eq. (20.55) se desdobrará em duas equações, i.e., de
( )

i ~ + i ~c⃗α · ∇ ψ = µc2 βψ

∂t

deduzimos
( )

i ~ + i ~c⃗α · ∇ φ = µc2 χ

∂t
(20.64)
( )

i ~ − i ~c⃗α · ∇ χ = µc2 φ .

∂t

Essas são as equações de Dirac-Weyl. O termo de massa µ acopla os dois spinores φ e χ, conhecidos como
spinores de Weyl.
18
H. Weyl, Zeitschrift für Physik, 56, 330 (1929).
502 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

Forma Covariante da Equação de Dirac e Matrizes γ Multiplicando a Eq. (20.55) por β e lembrando
que β 2 = I, temos
1 ∂ψ ( )
i ~β = − i ~β⃗α · ∇
⃗ + µc ψ . (20.65)
c ∂t
Se pusermos
γ0 = β , e γ k = βαk ⇒ γ µ ≡ (β, β⃗α)

ou seja
(γ µ ) = (γ 0 , γ 1 , γ 2 , γ 3 ) ⇒ (matrizes 4 × 4) .

Usando as relações acima e as propriedades dos α’s e β, encontramos as leis de anticomutação para as
matrizes γ
γ µ γ ν + γ ν γ µ = 2g µν , (20.66)

onde g µν tem a mesma forma de (gµν ), cf. (20.19). Além disso, desde que γ 0 = β, temos


γ0 = γ0 (γ 0 )2 = I ,

}

γ k = (βαk )† = αk β = −γ k
com k = 1, 2, 3
(γ k )2 = βαk βαk = −I

e
γ µ† = γ 0 γ µ γ 0 .

Ainda temos duas definições importantes com essas matrizes:

i
γ5 = εαβγδ γ α γ β γ γ γ δ
4!
γ5 = i γ0γ1γ2γ3

onde εαβγδ é o tensor de Levi-Civita, totalmente antissimétrico, quadridimensional que vale +1 (−1), se
(α, β, γ, δ) formar uma permutação par (ímpar) de (0 1 2 3), e vale 0 nos outros casos; e

i i
σ µν = [γ µ , γ ν ] = (γ µ γ ν − γ ν γ µ ) .
2 2

Essas matrizes são conhecidas como matrizes γ de Dirac.


Voltando para relação (20.65), temos

∂ψ ∂ψ
i ~γ 0 0
+ i ~γ k k = µcψ ,
∂x ∂x
ou
(i ~γ µ ∂µ − µc) ψ = 0 , (20.67)

onde ∂µ = ∂xµ , ou ainda
(i γ µ ∂µ − κ0 ) ψ = 0 , (20.68)
~
onde κ10 = µc , é o comprimento de onda Compton do elétron. A expressão (20.68) é a equação de Dirac
covariante.
20.8. E QUAÇÃO DE D IRAC E O Spin DO E LÉTRON 503

Equação Adjunta O conjugado hermitiano da equação de Dirac

∂ψ ∂ψ
i γ0 + i γ k k − κ0 ψ = 0
∂x0 ∂x
onde k = 1, 2, 3, é
∂ψ † 0 ∂ψ †
−i γ − i (−γ k ) − κ0 ψ = 0 . (20.69)
∂x0 ∂xk
Para restaurar a forma covariante da equação, precisamos remover o sinal negativo de −γ k enquanto dei-
xamos o primeiro termo sem mudança. Desde que γ 0 γ k = −γ k γ 0 , isso poderá ser realizado através da
multiplicação de (20.69) pelo lado direito por γ 0 . Introduzindo o spinor adjunto

ψ ≡ ψ†γ 0 ,

obtemos
i ∂µ ψγ µ + κ0 ψ = 0 , (20.70)
que é a equação de Dirac adjunta.
Multiplicando (20.68) por ψ e (20.70) por ψ e somando as duas, temos

ψγ µ ∂µ ψ + (∂µ ψ)γ µ ψ = ∂µ (ψγ µ ψ) = 0 .

Pela equação da continuidade ∂µ j µ = 0, vemos que

j µ = ψγ µ ψ .

Note que j µ = (cρ, j k ) identifica a densidade de probabilidade e de fluxo, respectivamente. Então, a densi-
dade de probabilidade será
∑4

0 0
ρ = j = ψγ ψ = ψ ψ = |ψi |2 ≥ 0 (20.71)
i=1

que é definitivamente positiva. A densidade de fluxo será

j k = ψγ k ψ = ψ † αk ψ . (20.72)

Como vimos no início dessa seção, a densidade de probabilidade negativa na equação de Klein-Fock-Gordon
foi uma das motivações históricas do trabalho de Dirac.

20.8 Equação de Dirac e o Spin do Elétron


Um dos êxitos da equação de Dirac (20.55),
( )
⃗ + µcβ ψ = i ~ ∂ψ ,
c − i ~⃗α · ∇
∂t

implica no fato de que o elétron tem spin ⃗S igual a


( )
⃗S = ~ Σ
⃗ , ⃗ = ⃗σ 0 .
Σ (20.73)
2 0 ⃗σ

É fácil mostrar essa relação. Calculemos a variação no tempo do momentum angular orbital

d⃗L i
= [H, ⃗L] .
dt ~
504 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

Temos,
dLj i
= ϵjlk [c⃗α ·⃗p + µc2 β , xl pk ]
dt ~
ic
= ϵjlk αn [pn , xl ]pk
~
= cϵjlk αl pk

ou
d⃗L
= c(⃗α × ⃗p) . (20.74)
dt
Vemos que o momentum angular orbital não se conserva. Vamos agora calcular a variação temporal de

Σ, dado por (20.73), e definindo o operador de spin Σµν por
i µ ν
Σµν = (γ γ − γ ν γ µ ) . (20.75)
2
Então,
Σ3 ≡ Σ12 = i γ1 γ2 = i βα1 βα2 .
Assim, a derivada temporal de Σ3 será

dΣ3 i 1
= [H, Σ3 ] = [c(α1 p1 + α2 p2 ) , α1 α2 ]
dt ~ ~
c
= (α1 p1 (α1 α2 − α2 α1 ) + (α2 α1 − α1 α2 )α2 p2 )
~
2c
= (α2 p1 − α1 p2 )
~
lembrando que α1 α2 = −α2 α − 1 e que αk2 = I. Logo,

~ dΣ

= −c(⃗α × ⃗p) . (20.76)
2 dt
Temos então de (20.74) e (20.76) que
( )
d ⃗ ~⃗
L + Σ = 0, (20.77)
dt 2

ou seja, o momentum angular total


⃗J = ⃗L + ~ Σ
⃗ (20.78)
2
~⃗
se conserva no tempo. O termo ⃗S = 2Σ é o spin do elétron, e aparece como consequência natural da
equação de Dirac.

20.9 Solução para Partícula Livre


Na ausência de campos, a equação de Dirac será exatamente uma solução na forma de ondas planas. Isso é
devido ao fato de que o operador ⃗p comuta com a hamiltoniana H desde que na ausência de campos não
haverá nenhuma dependência explicita na posição. A solução geral será
( )
(±) i(⃗p ·⃗r∓ E t) χ
ψ (r, t)p = Np e ~ (20.79)
η

onde as funções χ e η são spinores de duas componentes cada, e os sinais (±) que aparecem em (20.79)
designam soluções de energia positiva (+) e de energia negativa (−).
20.9. S OLUÇÃO PARA PARTÍCULA L IVRE 505

Consideremos primeiramente as soluções para energia positiva. Substituindo (20.79) na equação de


Dirac
∂ψ
i~ = c (⃗α ·⃗p + µcβ) ψ ⇒ Eψ = c (⃗α ·⃗p + µcβ) ψ
∂t
temos, ( ) ( ) ( ) ( )( )
χ 0 ⃗σ χ 2 I 0 χ
E =c ·⃗p + µc
η ⃗σ 0 η 0 −I η
ou ( ) ( 2 )( )
χ µc c⃗σ ·⃗p χ
E = .
η c⃗σ ·⃗p −µc2 η
Então

Eχ = c⃗σ ·⃗pη + µc2 χ


(20.80)
Eη = c⃗σ ·⃗pχ − µc η .
2

Para obter soluções não nulas, o determinante das equações acima deverá ser zero. Usando (⃗σ ·⃗p)2 = p2 e
o requisito de que o determinante se anula, nos dará a correta relação energia-momentum

E 2 = p2 c2 + µ2 c4 .

Usando a segunda equação de (20.80) para expressar η em temos de χ temos


( )
c⃗σ ·⃗p
η= χ. (20.81)
E + µc2
Essa relação nos dá a solução para energia positiva em termos de um spinor arbitrário de duas componentes
χ. Escolhendo χ† χ = 1 e normalizando os estados, determinamos a constante de normalização Np
∫ √
† E + µc2
3
d rψ ψ=1 ⇒ Np = , (20.82)
2EL3

onde L3 aparece devido a normalização em todo o volume. É costume escrever a solução de energia positiva
em termos do spinor de Dirac de energia positiva, u(⃗p, s), no qual é definido como
( )
√ 1
u(⃗p, s) ≡ E + µc2 c⃗σ · ⃗p χ(s) , (20.83)
E+µc2

onde χ(s) é o spinor de duas componentes que descreve o estado da partícula de spin 21 . Se escolhemos a
quantização na direção-ẑ, o spinor χ(s) será
( ) ( )
( 1
) 1 ( − 1
) 0
χ 2 = χ 2 = . (20.84)
0 1

Finalmente escrevemos as soluções para energia positiva


1
u(⃗p, s) e− i pµ x .
µ
(+)
ψp,s (x) = √ (20.85)
2EL 3

Faremos agora as as soluções para energia negativa. Neste caso, temos

−Eχ = c⃗σ ·⃗pη + µc2 χ


(20.86)
−Eη = c⃗σ ·⃗pχ − µc2 η .
506 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

Usando como no caso da energia positiva, encontramos χ em termos de η na forma


( )
c⃗σ ·⃗p
χ=− η. (20.87)
E + µc2

Escolhendo η † η = 1 e normalizando os estados, encontramos a mesma constante de normalização Np .


Assim,

η (−s) = − i σ2 χ(s)
( )
0
η (− 2 ) = − i σ2 χ(+ 2 ) =
1 1
(20.88)
+1
( )
−1
η (+ 2 ) = − i σ2 χ(− 2 ) =
1 1
,
0

onde σ2 é a matriz de Pauli. Se introduzimos a definição do spinor de Dirac de energia negativa, v (⃗p, s),
( )
√ c⃗σ · ⃗p [ ]
v (⃗p, s) ≡ E + µc2 E+µc 2
− i σ2 χ(s) , (20.89)
1

finalmente podemos escrever as soluções para energia negativa como

(−) 1 µ
ψ−p,−s (x) = √ v (⃗p, s) ei pµ x . (20.90)
2EL 3

Note que a solução para energia negativa é expressa com momentum −p e spin −s. Isto está de acordo com
a teoria do buraco.

Interpretação da Energia Negativa Conforme vimos acima, a equação de Dirac para a partícula (elétron)
livre admite quatro soluções de ondas planas. Duas delas delas descrevem um elétron de momentum ⃗p,
energia positiva E > 0 e spins opostos; e duas outras que descrevem um elétron de momentum −⃗p, energia
negativa E < 0 e spins opostos.
A possibilidade da existência de estados contínuos de energia negativa do elétron livre levou Klein a
formular, em 1929, o famoso paradoxo de Klein: 19
“Um elétron no estado fundamental, pode emitir um fóton com energia hν > 2µc2 e cair no estado
de energia negativa prevista pela teoria de Dirac. Uma vez nesse estado de energia negativa, continuaria
emitindo fótons, já que não há limite mínimo de energia negativa, pois este se estende até −∞”.
Em 1930, Dirac apresentou a solução para esse paradoxo ao afirmar que, em condições normais, os
estados de energia negativa estão todos ocupados por elétrons, o famoso mar de Dirac, 20 veja Fig. 20.2.
Assim, as transições previstas por Klein eram proibidas pelo princípio de exclusão de Pauli. Dirac afirma
que os elétrons desse mar não contribuem à carga elétrica, ao spin e ao momentum. Desse modo, um desses
elétrons, de carga −e e momentum ⃗p, pode absorver um fóton com energia hν > 2µc2 e tornar-se um estado
de energia positiva e, como resultado, um buraco será criado nesse mar. Portanto, o buraco se comporta
como uma partícula de carga +e e momentum −⃗p. Até 1934, a equação de Dirac era considerada a única
equação relativística aceita. Esse elétron de carga positiva, o pósitron previsto pela teoria de Dirac, foi
confirmado experimentalmente por Anderson 21 e a criação do par elétron-pósitron foi medida por Blackett 22
e Occhialini. 23
19
O. Klein, Zeitschrift für Physik, 53, 157 (1929).
20
P. A. M. Dirac, Proceedings of the Royal Society of London, A126, 360–365 (1930).
21
C. D. Anderson, Physical Review, 43, 491 (1933). Anderson observou trajetórias curvas de partículas carregadas em uma câmara
de nuvens na presença de campo magnético, a partícula com carga positiva com mesma massa do elétron.
22
Patrick Maynard Stuart Blackett (1897–1974), físico inglês.
23
P. M. S. Blackett and G. P. S. Occhialini, Proceedings of the Royal Society of London, A139, 688 (1933). Esses autores foram
os primeiros que corretamente identificaram as partículas carregadas positivamente como as antipartículas do elétron, em total
acordo com as previsões da teoria do buraco de Dirac.
20.9. S OLUÇÃO PARA PARTÍCULA L IVRE 507

Figura 20.2 Representação para teoria do buraco de Dirac

Em 1934, Pauli e Weisskopf, revivem a equação de Klein-Fock-Gordon. Essa equação nos dava
i~
jµ = [(∂µ ψ) ψ ∗ − ψ (∂µ ψ ∗ )] ,

tendo portanto, como sabemos de §18.6,
E
ρ(⃗r, t) =
,
µc2
onde a energia pode ser positiva e negativa E ≷ 0 e portanto temos ρ < 0. Pauli e Weisskopf introduz uma
carga −e em jµ , tal que
i~
jµ = −e [(∂µ ψ) ψ ∗ − ψ (∂µ ψ ∗ )] .

Agora, ρ = j 0 é a densidade de carga e não mais a densidade de probabilidade, e tal fato permitindo a
possibilidade de ρ < 0 não é objetável. 24
Conforme Dirac, os estados de energia negativa estão ocupados, formando o mar de Dirac, pois as
quatro soluções, duas de energia positiva
1
u(⃗p, s) e− i pµ x
µ
(+)
ψp,s (x) = √
2EL 3

e duas de energia negativa


(−) 1 µ
ψ−p,−s (x) = √ v (⃗p, s) ei pµ x
2EL 3

são a base de qualquer solução da equação de Dirac. Sendo assim, Feynman, em 1949, 25 propôs uma
interpretação para E < 0 seguindo o argumento apresentado pela força Lorentz, em que o elétron ficará
sujeito ao deslocar-se em campo eletromagnético
d2 xµ dxν
µ 2
= eF µν
dτ dτ
onde dτ é o tempo próprio. Logo, trocando τ por −τ , no primeiro membro da equação acima ele ficará
inalterado; contudo, como F µν não se altera com essa inversão temporal, o segundo membro da relação
acima só ficará inalterado se a carga e for trocada por −e. Ora, trocar o sinal da carga do elétron e− significa
substituí-lo pelo pósitron e+ . Desse modo, Feynman apresenta o seguinte argumento: um elétron que viaja
ao passado, inversão temporal, com energia negativa E < 0 é equivalente a um pósitron que viaja ao futuro
com energia positiva E > 0. É importante destacar que esse tipo de argumento também foi utilizado por
Stückelberg, em trabalho realizado em 1941. 26
24
W. Pauli and V. Weisskopf, Helv. Phys. Acta, 7, 709 (1934).
25
R. Feynman, Physical Review, 76, 749 (1949); Ibidem, 769 (1949).
26
E. C. G. Stuckelberg, Helv. Phys. Acta, 14.32L, 588 (1941).
508 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

Helicidade Sabemos que os elétrons livres podem ter energias positiva e negativa

E = ± p2 c2 + µ2 c4 ,

ou seja, as soluções são degeneradas e são simultâneamente autovalores da hamiltoniana


( )
µc2 − i ~c⃗σ · ∇

H= (20.91)
− i ~c⃗σ · ∇
⃗ −µc2

e outro operador que comute com H. É conveniente escolher o segundo operador como um operador heli-
cidade. Este operador Λ⃗k corresponde a projeção do spin do elétron ao longo da direção do momentum. O
operador helicidade é dado por ( )
⃗σ · ∇
⃗ 0
Λ⃗k = − i ~ ⃗ . (20.92)
0 ⃗σ · ∇

Essa é a generalização relativística apropriada do spin valida somente para partículas livres.27 Como a
helicidade é uma quantidade conservada, então
[ ]
H, Λ⃗k = 0 . (20.93)

Na ausência dos campos eletromagnéticos, a hamiltoniana desenvolvida será


( )
µc2 ~c⃗σ · ⃗k
H= . (20.94)
~c⃗σ · ⃗k −µc2

Do mesmo modo, o operador helicidade apropriado é


( )
⃗σ · k̂ 0
Λ⃗k = (20.95)
0 ⃗σ · k̂

com autovalores ±1.

Conjugação de Carga A equação de Dirac para um elétron, carga −e, na presença de um campo eletro-
magnético é [ ( e ) ]
γ µ i ∂µ + Aµ − κ0 ψ = 0 , (20.96)
c
e a equação equivalente para o pósitron, carga +e, é
[ ( e ) ]
γ µ i ∂µ − Aµ − κ0 ψC = 0 . (20.97)
c
Para obter a relação entre ψC e ψ, faremos primeiramente o complexo conjugado de (20.96),
[ ( e ) ]
−γ µ∗ i ∂µ − Aµ − κ0 ψ ∗ = 0 . (20.98)
c
Então, se encontrarmos uma matriz, Cγ 0 , que satisfaz

−(Cγ 0 )γ µ∗ = γ µ (Cγ 0 )
27
A helicidade não é conservada para potenciais esfericamente simétricos. Entretanto, se somente um potencial vetor independente
do tempo está presente, a quantidade generalizada
( q⃗ )
Λ⃗k = ⃗σ · ⃗p − A
c
é conservada. Essa lei de conservação implica que o spin guardará sempre seu alinhamento com a velocidade.
20.10. E LÉTRON NUM C AMPO E LETROMAGNÉTICO 509

a Eq. (20.98) poderá ser reescrita na forma de (20.97), como


[ ( e ) ]( )
γ µ i ∂µ − Aµ − κ0 Cγ 0 ψ ∗ = 0 ,
c
o que nos leva a
T
ψC = Cγ 0 ψ ∗ = Cψ ,
onde T denota a transposta de uma matriz.
Usando as propriedades das matrizes γ’s, é possível escolher o operador conjugação de carga C , tal
que  
0 0 0 1
0 0 −1 0
Cγ 0 = i γ 2 = 
0 −1 0 0 .

1 0 0 0
Ainda nessa representação

C−1 γ µ C = −γ µT ,
C = −C−1 = −C† = −CT , (20.99)
−1
ψ C = −ψ C
T
.

Temos que a corrente do elétron é


j µ = −eψγ µ ψ .
A corrente associada com a conjugação de carga é
T
jCµ = −eψ C γ µ ψC = +eψ T C−1 γ µ Cψ
T
= −eψ T γ µT ψ
= −(−)eψγ µ ψ , (20.100)

onde jCµ representa a corrente do pósitron.

20.10 Elétron num Campo Eletromagnético



Para obter a equação de Dirac para um elétron interagindo com um campo eletromagnético Aµ = (Φ, A),
devemos considerar o conhecido acoplamento mínimo, i.e., substituir p = − i ~∂ por
µ µ

e
pµ → pµ − Aµ
c
que assegura a invariância de calibre da teoria, onde pµ − ec Aµ é o quadrimomentum cinético e pµ é o
quadrimomentum canônico. Então, a equação de Dirac com potenciais eletromagnéticos é
( ) [ (
1 ∂ e e⃗ ) ]
c i~ − Φ ψ = c⃗α · p − A + µ0 c β ψ
⃗ 2
c ∂t c c
ou
∂ψ [ ( e⃗ ) ]
i~
= c⃗α · ⃗p − A + eΦ + µ0 c2 β ψ . (20.101)
∂t c
Essa contem a interação com o campo eletromagnético
e ⃗ + eΦ = − e⃗v · A
H′ = − c⃗α · A ⃗ + eΦ , (20.102)
c c
onde ⃗v = c⃗α é o operador da velocidade relativística, já mostrado anteriormente em §18.7.
510 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

Fazendo
ψ (⃗r, t) = φ(⃗r) e− ~ Et ,
i

obtemos [ ( e⃗ ) ]
c⃗α · ⃗p − A + µ0 c2 β φ = (E − eΦ) φ . (20.103)
c
Sendo ( )
χ
φ=
η
e usando as matrizes dos operadores ⃗α e β, além de explicitarmos a energia de repouso µ0 c2 em E

E = µ0 c2 + V

temos
( e⃗ )
c⃗σ · ⃗p − A η + µ0 c2 χ + eΦχ = (µ0 c2 + V )χ
c
(20.104)
( e⃗ )
c⃗σ · ⃗p − A χ + µ0 c2 η + eΦη = (µ0 c2 + V )η .
c
Então, ( )
c⃗σ · ⃗p − ec A

η= χ, (20.105)
2µ0 c2 + V − eΦ
na aproximação não relativística
2µ0 c2 ≫ V − eΦ ,
Logo, ( )
⃗σ · ⃗p − ec A

η= χ. (20.106)
2µ0 c
Levando essa expressão na primeira equação de (20.104) numa aproximação não relativística, temos
{ }
1 [ ( e ⃗ )]2 ∂χ
⃗σ · ⃗p − A + eΦ χ = i ~ . (20.107)
2µ0 c ∂t

Observe que
[ ( e ⃗ )]2 ( e ⃗ )2 e~ ⃗
⃗σ · ⃗p − A = ⃗p − A − ⃗σ · B .
c c c
Portanto, [ ]
1 ( e ⃗ )2 e~ ∂χ
⃗p − A − ⃗σ · B + eΦ χ = i ~
⃗ (20.108)
2µ0 c 2µ0 c ∂t
que é a equação não relativística de Pauli.

20.11 Covariância Relativística da Equação de Dirac


O estudo realizado no momento, para a obtenção da equação de Dirac covariante,

(i γ µ ∂µ − κ0 ) ψ = 0 , (20.109)

não deixa claro as propriedades da covariância relativística dessa equação. Para este estudo, iremos precisar
da transformação de Lorentz Λ = (Λµν ) para passarmos do referencial S para o referencial S ′ e vice-versa.
O spinor de Dirac transforma-se como

ψ → ψ ′ (x′ ) = S (Λ)ψ (x) , (20.110)


20.11. C OVARIÂNCIA R ELATIVÍSTICA DA E QUAÇÃO DE D IRAC 511

onde cada S (Λ) é um operador representado por uma matriz 4 × 4. O conjunto das matrizes S (Λ) deve
constituir uma representação do grupo de Lorentz, i.e., existe uma correspondência associando a cada trans-
formação do grupo de Lorentz próprio uma matriz que atua no espaço dos spinores. Essa correspondência
é de tal forma que a matriz identidade está associada a transformação identidade e se Λ1 Λ2 = Λ3 então
S (Λ1 )S (Λ2 ) = S (Λ3 ).
No referencial S ′ a equação de Dirac será
( µ ′ )
i γ ∂µ − κ0 ψ ′ (x′ ) = 0 , (20.111)

em que ∂µ′ = Λνµ ∂ν .


Substituindo (20.110) em (20.111) temos

i γ µ SΛνµ ∂ν ψ − κ0 Sψ = 0 (20.112)

que deve ser equivalente a (20.109) se tivermos as seguintes propriedades

S −1 γ µ SΛνµ = γ ν (20.113a)
−1 µ
S γ S = Λµν γ ν (20.113b)
−1 −1
SS =S S=I (20.113c)
S −1 = γ 0 S † γ 0 . (20.113d)

Para calcularmos a matriz S (Λ) que satisfaz a expressão acima, consideremos inicialmente o caso das
transformações infinitesimais. As transformações de Lorentz próprias e ortócronas finitas poder ser obtidas
de transformações infinitesimais. Então,

λµν = δνµ + ωνµ


(20.114)
(λµν )−1 = δνµ − ωνµ

com a matriz ω infinitesimal e antissimétrica, i.e., ωµν = −ωνµ . Portanto, consideremos que S seja definida
por

i
S (Λ) = I − ηµν ω µν
4
(20.115)
i
S −1 (Λ) = I + ηµν ω µν ,
4
com as matriz ηµν antissimétricas em µ e ν, podemos ver de (20.113b) que
( ) ( )
i i
I + ηµν ω µν
γ I − ηαβ ω
ρ αβ
= Λρσ γ σ = γ ρ + ωσρ γ σ , (20.116)
4 4

após uma manipulação algébrica, temos

i µν
ω [ηµν , γ ρ ] = ω µν gµρ γν (20.117)
4
e como ω µν é antissimétrica ( )
[ηµν , γ ρ ] = 2 i gνρ γµ − gµρ γν . (20.118)
Usando a propriedade da relação de comutação

[AB, C] = A{B, C} − {A, C}B


512 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

para as matrizes γ’s, temos


[γ µ γ ν , γ ρ ] = γ µ {γ ν , γ ρ } − {γ µ , γ ρ }γ ν
= 2γ µ g νρ − 2g µρ γ ν (20.119)
= 2 (g γ − g γ ) .
ρν µ ρµ ν

Mas,
{γ µ , γ ν } = 2g µν
= γµγν + γν γµ + γν γµ − γν γµ (20.120)
µ ν ν µ µν
= [γ , γ ] + 2γ γ = 2g .
No caso em que µ ̸= ν, temos
g µν = 0 → γ ν γ µ = −γ µ γ ν
→ [γ µ , γ ν ] = 2γ µ γ ν . (20.121)
Com as relações acima e a Eq. (20.118), e fácil verificar que
i
ηµν = [γµ , γν ] = σµν . (20.122)
2
Assim, obtemos para S (Λ) a expressão
i
S (Λ) = I − σµν ω µν (20.123)
4
que representa o operador de transformação da função de Dirac sob uma transformação infinitesimal das
coordenadas espaço-temporais.
Considerando sucessivas aplicações do operador infinitesimal, temos um operador finito
S (Λ) = e− 4 σµν ω
i µν
(20.124)
e
ψ ′ (x′ ) = e− 4 σµν ω
i µν
ψ (x) . (20.125)

Rotações de um Ângulo θ em Torno do Eixo z Neste caso, vamos dividir esse ângulo em N partes e
considerar o limite quando N → ∞. Assim, temos (ω12 = −ω21 = Nθ )
( )N
iθ θ
S (Λ) = lim I + σ12 = ei 2 σ12 ,
N →∞ 2N
com ( )
σ3 0
σ12 = i γ1 γ2 = .
0 σ3
Neste caso, o spinor de Dirac é considerado como constituído de dois spinores de Pauli que se transformam
independentemente sob rotações.

Transformação de Lorentz Pura Neste caso, vamos considerar ⃗v = tanh θk̂ a velocidade relativa dos
observadores. Temos
θ
S (Λ) = ei 2 σ03 ,
com ( )
0 σ3
σ03 = i γ0 γ3 = − i .
σ3 0

Dos dois exemplos dados acima, fica claro o fato geral de que
1. S −1 = S † para rotações;
2. S = S † para transformações de Lorentz puras.
20.12. T RANSFORMAÇÕES B ILINEARES 513

20.12 Transformações Bilineares


As considerações feitas anteriormente podem ser estendidas para incluir a paridade. Neste caso, designamos
por P a matriz que representa a paridade no espaço dos spinores, temos

P−1 γ 0 P = γ 0 e P−1 γ i P = −γ i . (20.126)

A matriz P que satisfaz esses equações pode ser escrita como

P = i γ0 (20.127)

sendo o fator de fase i escolhido por convenção. As observáveis são bilineares em ψ e ψ, assim o fator de
fase não é importante.
Já vimos anteriormente que ψψ é um escalar de Lorentz e que ψγ µ ψ é um quadrivetor. Cabe agora
uma pergunta mais geral, considerando-se a expressão ψΓψ, sendo Γ uma matriz 4 × 4, pode-se decompor
essa expressão em termos que tenham propriedades de transformações definidas sob o grupo de Lorentz?
A resposta é sim, caso Γ possa ser escrita em termos da bases de dezesseis matrizes 4 × 4 definidas como
combinações antissimétricas das matrizes γ’s. Assim, para as propriedades de transformação dos bilineares
ψΓψ temos
1. A matriz identidade I define uma das dezesseis matrizes. Assim,

ψψ → ψ ψ ′ = ψS −1 Sψ = ψψ ,

em que usamos

ψ† = ψ†S †
e, portanto,
ψ → ψ † S † γ 0 = ψS −1 .
Logo, ψψ é um escalar;

2. A matriz γ 5 define um das dezesseis matrizes. Assim,



ψγ 5 ψ → ψ γ 5 ψ ′ = ψγ 5 ψ

pois
γ 5 S = Sγ 5 . (20.128)
Como sabemos
i
γ5 = εαβγδ γ α γ β γ γ γ δ
4!
γ5 = i γ0γ1γ2γ3

(γ 5 )† = γ 5 é hermitiana
(γ 5 )2 = 1
{γ 5 , γ µ } = 0
[γ 5 , σ µν ] = 0 .

Logo, ψγ 5 ψ é um pseudoescalar ou axial-escalar;

3. A matriz γ µ define quatro das dezesseis matrizes. Assim,


′ ( )
ψγ µ ψ → ψ γ µ ψ ′ = ψS −1 γ µ Sψ = Λµα ψγ α ψ .

Isso significa que ψγ µ ψ é um vetor;


514 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

4. A matriz γ µ γ 5 define quatro das dezesseis matrizes. Assim,


′ ( )
ψγ µ γ 5 ψ → ψ γ µ γ 5 ψ ′ = Λµα ψγ α γ 5 ψ ,

usando (20.128). Isso significa que ψγ µ γ 5 ψ é um pseudovetor ou axial-vetor;

5. O tensor σ µν = 2i [γ µ , γ ν ] define as seis matrizes que faltam para completar as dezesseis (sendo an-
tissimétrica, a diagonal é nula e os elementos simétricos em relação à diagonal são iguais em módulo,
diferindo por sinal). Assim,
( )

ψσ µν ψ → ψ σ µν ψ ′ = Λµα Λνβ ψσ αβ ψ ,

ou seja, ψσ µν ψ é um tensor de segunda ordem. Fica claro que ψγ 5 σ µν ψ é também um tensor de segunda
ordem.
Note que, no que se refere a paridade, ψψ, ψγ µ ψ e ψσ µν ψ são tensores próprios, enquanto ψγ 5 ψ,
ψγ µ γ 5 ψ e ψσ µν γ 5 ψ são pseudotensores. Finalmente, podemos sumarizar essas propriedades em

Componentes Paridade P
escalar ψψ 1 +
vetor ψγ µ ψ 4 −
tensor ψσ µν ψ 6
axial-vetor ψγ 5 γ µ ψ 4 +
pseudoescalar ψγ 5 ψ 1 −

que nos dá as matrizes 4 × 4, formando as dezesseis combinações de Γ em bilineares ψΓψ.


µ
Ainda podemos verificar, com ( o µuso) da equação de Dirac, que o quadrivetor ψγ ψ é conservado, i.e., a
quadricorrente é conservada ∂µ ψγ ψ = 0. De fato
( ) [ ( ) ]
∂µ ψγ µ ψ = − i ψ (i γ µ ∂µ − κ0 ) ψ + i ∂µ ψ γ µ ψ + κ0 ψψ = 0 (20.129)

Então, esse resultado implica que a corrente vetorial j µ = ψγ µ ψ é sempre conservada se ψ satisfaz a
equação de Dirac. Quando o campo de Dirac for acoplado ao campo eletromagnético, j µ se tornará a
densidade de corrente elétrica.
Porém, ainda podemos verificar, com o uso da( equação)de Dirac, que o axial-vetor ψγ µ γ 5 ψ é conser-
vado, i.e., a corrente axial-vetor é conservada ∂µ ψγ µ γ 5 ψ = 0 se e somente se κ0 = 0 → µ = 0. De
fato ( )
∂µ ψγ µ γ 5 ψ = 2 i κ0 ψγ 5 ψ , (20.130)
na Eq. (20.130), se κ0 = 0 a corrente axial-vetor j µ 5 = ψγ µ γ 5 ψ também será conservada.
É útil formar combinações lineares de corrente vetorial e de axial-vetor, levando as combinações do tipo
(V − A) e (V + A)
( ) ( )
µ 1−γ
5 5
µ µ µ 1+γ
jL = ψγ ψ, jR = ψγ ψ.
2 2
Quando κ0 = 0 → µ = 0 as correntes acima serão as densidades de corrente elétrica de partículas de mão
esquerda e de mão direita, respectivamente. Cada uma dessas correntes é conservada separadamente.
As duas correntes são correntes de Noether correspondentes as seguintes transformações,
5
ψ (x) → ei α ψ (x) , ψ (x) → ei αγ ψ (x) .

A primeira transformação corresponde a uma simetria da lagrangiana do sistema; a segunda transformação


corresponde a uma transformação quiral, i.e., é uma simetria do termo de derivada na lagrangiana mas não
do termos de massa. Então o teorema de Noether confirma que a corrente axial-vetor é conservada somente
quando κ0 = 0 → µ = 0.
20.13. F ORÇAS C ENTRAIS E O ÁTOMO DE H IDROGÊNIO 515

Inversão Temporal Para o campo de Dirac, como para o caso estudado anteriormente, essa operação é
representada por um operador antiunitário T = UK em que U é unitário e K é uma operação de complexo
conjugado. Se escrevermos
Tψ (⃗r, t)T−1 = Bψ (⃗r, −t) (20.131)
resulta que
(− i γ µ∗ ∂µ − κ0 ) Bψ (⃗r, −t) = 0 , (20.132)
ou seja ( )
− i B −1 γ µ∗ B∂µ − κ0 ψ (⃗r, −t) = 0 . (20.133)
Como ψ (⃗r, −t) satisfaz ( )
− i γ 0 ∂0 + i γk ∂ k − κ0 ψ (⃗r, −t) = 0 , (20.134)

concluímos que
∗ ∗
B −1 γ 0 B = γ 0 , B −1 γ k B = −γ k , (20.135)
ou seja

B −1 γ 0 B = γ 0 , B −1 γ 1 B = −γ 1 , B −1 γ 2 B = γ 2 , B −1 γ 3 B = −γ 3 . (20.136)

Satisfazendo as relações acima, podemos escolher B = i γ 1 γ 3 . Observe que B † = B = B −1 .


Usando as equações acima podemos deduzir as propriedades das transformações bilineares. Para o caso
da corrente j µ = ψγ µ ψ temos

Tψγ µ ψT−1 = Tψ † (⃗r, t)T−1 Tγ 0 γ µ T−1 Tψ (⃗r, t)T−1



= ψ † (⃗r, −t)B −1 γ 0 γ µ∗ Bψ (⃗r, −t)
= ψ (⃗r, −t)B −1 γ µ∗ Bψ (⃗r, −t) (20.137)

ou, em componentes

Tψγ 0 ψT−1 = ψ (⃗r, −t)γ 0 ψ (⃗r, −t)


(20.138)
Tψγ k ψT−1 = −ψ (⃗r, −t)γ k ψ (⃗r, −t) .

De modo análogo, temos

T⃗pT−1 = −⃗p ,
THT−1 = H , (20.139)
( ) ( )
T Lij + S ij T−1 = − Lij + S ij .

20.13 Forças Centrais e o Átomo de Hidrogênio


Em muitos problemas de interesse, o potencial na equação de Dirac é esfericamente simétrico, i.e., uma
função de r = |⃗r| somente. O potencial de forças centrais é um exemplo esfericamente simétrico. O modelo
mais simples que pode ser feito neste contexto é o átomo de hidrogênio, ou o átomo hidrogenóide (átomo
de um elétron cujo núcleo tem carga positiva Ze), e consiste em tratar a hamiltoniana de Dirac num campo
externo, representado pelo potencial escalar coulombiano Φ(⃗r) = Zer . Desse modo a equação de autovalores
será [ ]
− i ⃗α · ∇
⃗ + βµe c2 + V (r) φ(⃗r) = Eφ(⃗r) , (20.140)
2
com V (r) ≡ −eΦ(r) = − Zer e E < me c2 . Essa equação representa um conjunto de quatro equações de
derivadas parciais acopladas para as quatro componentes das funções de onda ψ (⃗r). O operador diferencial
516 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

que ela contêm vem da hamiltoniana de Dirac com a introdução do potencial escalar externo Φ(r) que
interage com o elétron, i.e.,
[ ]
⃗ + βµe c2 + V (r) ψ (⃗r, t) = i ~ ∂ψ (⃗r, t) ,
− i ⃗α · ∇
∂t
onde
ψ (⃗r, t) = φ(⃗r) e− ~ t .
E

Simetrias Iniciaremos com a introdução do operador momentum angular orbital


⃗L = ⃗r × ⃗p = − i ~ ⃗r × ∇

e do operador spin
⃗S = ~ ⃗σ .
2
Entretanto, nem ⃗L nem ⃗S são constantes de movimento, pois

[Lj , H] = cϵjlk αj pk

[Sj , H] = −cϵjlk αj pk .

Porém, o momentum angular total


⃗ + ~ ⃗σ
⃗J = − i ~ ⃗r × ∇
2
é uma constante de movimento. Além disso, temos
2 ∑
3
⃗S2 = ~ 3
σi2 = ~2 ,
4 4
i=1

que também é uma constante de movimento.


Outra constante de movimento é a paridade. Definindo o operador paridade como

P = γ0P

onde γ 0 opera no espaço de Dirac e P opera no espaço de coordenada. Note que P 2 = 1 e que

[P, H] = [γ 0 P, − i ~αi ∂i ]
( )
= − i ~ γ 0 Pαi ∂i − αi ∂i γ 0 P
( )
= − i ~ −γ 0 αi ∂i − αi γ 0 ∂i P = 0 .

Estrutura das Soluções da Equação de Dirac Usando a representação


( ) ( )
0 I 0 0 ⃗σ
γ = , ⃗γ =
0 −I −⃗σ 0
para as matrizes de Dirac, a equação de autovalores adquire a forma
( )( ) ( )
µe c2 + V (r) − i ~c⃗σ · ∇
⃗ u(p, s) u(p, s)
=E (20.141)
− i ~c⃗σ · ∇
⃗ −µe c2 + V (r) v (p, s) v (p, s)

onde u(p, s) e v (p, s) contêm respectivamente as duas componentes superiores e inferiores de φ(⃗r). As
autofunções com momentum angular e paridade bem definidos
( )
ujm (⃗r)
φEjm (⃗r) =
vjm (⃗r)
20.13. F ORÇAS C ENTRAIS E O ÁTOMO DE H IDROGÊNIO 517

devem satisfazer
⃗J2 φEjm (⃗r) = j(j + 1)~2 φEjm (⃗r)
J3 φEjm (⃗r) = m~φEjm (⃗r)
e
PφEjm (⃗r) = βφEjm (⃗r) = ±φEjm (⃗r) ,

ou seja, em termos de ujm (⃗r) e vjm (⃗r),


( )( ) ( ) ( )
1 0 ujm (−⃗r) ujm (−⃗r) ujm (⃗r)
= =± .
0 −1 vjm (−⃗r) −vjm (−⃗r) vjm (⃗r)
Naturalmente, essa última expressão nos diz que ujm (⃗r) e vjm (⃗r) devem ter momentum angular bem defi-
nido e paridades opostas.
Note que o número quântico do momentum angular total é semi-inteiro e podemos usar os operadores
de levantamento e de abaixamento J± = J1 ± i J2 . Assim, a parte angular dessas funções de onda pode ser
implementada em termos das funções angulares de duas componentes usando os coeficientes de Clebsch-
-Gordon
⟨ ⟩
± 1 1 1 1
Yjm (r̂, s) = j ± , m − ; , |j, m χ 1 (s) Yj± 1 ,m− 1 (r̂)
2 2 2 2 2 2 2
⟨ ⟩
1 1 1 1
+ j ± , m + ; , − |j, m χ− 1 (s) Yj± 1 ,m+ 1 (r̂) (20.142)
2 2 2 2 2 2 2

onde as funções de spin são


( ) ( )
1 0
χ 1 (s) = e χ− 1 (s) = .
2 0 2 1
Resolvendo explicitamente os coeficientes de Clebsch-Gordon, temos
 √ 
− j+1−m Y 1 1 (r̂)
j+ 1  2j+2 j+ 2
,m− 2 
Yjm 2 (r̂) = 
 √


+ j+1+m
2j+2 Y 1
j+ ,m+ 1 (r̂)
2 2

(20.143)
 √ 
+ j+m Y 1 1 (r̂)
j− 12  2j j− 2 ,m− 2 

Yjm (r̂) =  √ .

+ j−m
2j Y 1
j− ,m+ 1 (r̂)
2 2

±
As funções Yjm (r̂, s) são obviamente autofunções simultâneas de ⃗J2 , J3 , ⃗L2 e ⃗S2 , com autovalores
( )( )
dados respectivamente por j(j + 1)~, m~, j ± 21 j ± 12 + 1 ~2 e 34 ~2 . As componentes do spin ⃗S são
± 1
representadas da forma usual. A paridade de Yjm (r̂, s) é dada por (−1)j± 2 , de modo que para um dado
valor de j os dois tipos (±) da função angular têm paridades opostas. Existem portanto dois possíveis
tratamento para as funções de onda com quatro componentes e com momentum angular total bem definido.
O primeiro tratamento, tipo 1, é  

f1 (r)Yjm (r̂, s)
1
ψjm = ; (20.144)
i g1 (r)Yjm (r̂, s)
+

e o segundo tratamento, tipo 2, é  


f2 (r)Yjm
+
(r̂, s)
2
ψjm = , (20.145)

i g2 (r)Yjm (r̂, s)
518 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

onde foram introduzidas as amplitudes radiais fk (r) e gk (r), com k = 1, 2. Os fatores i que aparecem
junto das amplitudes gk foram introduzidos por conveniência. Note que as funções radiais não dependem da
variável do spin, pois essa dependência destruiria a propriedade de que ujm e vjm sejam autofunções de J2 .
É claro que os dois tipos de função de onda não têm um valor bem definido do momentum angular orbital,
pois ambos contêm componentes com l = j ± 12 . Se as componentes vjm tornam-se pequenas em relação
as componentes ujm , as soluções de tipo 1 e 2 terão l = j − 12 e l = j + 12 respectivamente.

Equações Radiais O desempenho desses tratamentos pode ser avaliado fazendo, como exemplo, a subs-
tituição da solução de tipo 1 na Eq. (20.141). Assim, temos as equações acopladas
 2  − 
µe c + V (r) − E c⃗σ ·⃗p f1 (r)Yjm (r̂, s)
  =0 (20.146)
c⃗σ ·⃗p −µe c + V (r) − E
2 i g1 (r)Yjm (r̂, s)
+

ou, explicitamente,
[ ] −
µe c2 + V (r) − E f1 (r)Yjm (r̂, s) + c⃗σ ·⃗p i g1 (r)Yjm
+
(r̂, s) = 0
(20.147)

[ ]
c⃗σ ·⃗pf1 (r)Yjm (r̂, s) − µe c − V (r) + E
2
i g1 (r)Yjm
+
(r̂, s) = 0.

Essas equações envolvem, por um lado, operadores de multiplicação proporcionais à matriz identidade de
dimensão 2, que aparecem entre colchetes, e, por outro lado, o operador diferencial ⃗σ ·⃗p = − i ~⃗σ · ∇.
⃗ Este
último pode ser reescrito fazendo uso da identidade
( )
⃗σ ·⃗r 2
I≡ ,
r
desde que
{σ i , σ j } = 2δ ij I ,
como
( ) ( )
⃗σ ·⃗r 2 ⃗σ ·⃗r
⃗σ ·⃗p = ⃗σ ·⃗p = (⃗σ ·⃗r)(⃗σ ·⃗p)
r r2
( ) ( )[ ]
⃗σ ·⃗r ⃗σ ·⃗r ∂
= [⃗r ·⃗p + i ⃗σ · (⃗r × ⃗p)] = − i ~r ⃗
+ i ⃗σ · L
r2 r2 ∂r
( )[ ]
⃗σ ·⃗r ∂ 2i
= − i ~r + ⃗S · ⃗L . (20.148)
r 2 ∂r ~
A derivada com relação à coordenada radial age apenas sobre as funções radiais f1 (r) e g1 (r), enquanto
±
⃗σ · ⃗L age apenas sobre as funções angulares Yjm (r̂, s). Esta última ação pode ser explicitada lembrando
que
3
2⃗S · ⃗L = ⃗J2 − ⃗L2 − ~2 ,
4
com ⃗J = ⃗L + ⃗S, o que dá imediatamente
[ ( ) ]
⃗S · ⃗LY ± (r̂, s) = ~ ∓ j + 1 − 1 Y ± (r̂, s) .
2
jm jm
2 2

Se introduzimos uma variável κ = j + 21 , podemos reescrever a relação acima como

⃗S · ⃗LY + (r̂, s) = − ~ (1 + κ) Y + (r̂, s)


2
jm jm
2
⃗S · ⃗LY − (r̂, s) = − ~ (1 − κ) Y − (r̂, s) .
2
jm jm
2
20.13. F ORÇAS C ENTRAIS E O ÁTOMO DE H IDROGÊNIO 519

Resta portanto estudar a ação sobre as funções angulares do operador ⃗σr·⃗r . Esse operador é invariante sob
rotações, i.e., é um tensor de Racah de ordem zero, e portanto conserva o número quântico j, associado
ao momentum angular total. Por outro lado, como ⃗σ é uma das componentes do momentum angular, a
combinação ⃗σr·⃗r é ímpar sob uma inversão espacial, de modo que sua ação sobre as funções angulares deve
necessariamente ser da forma
⃗σ ·⃗r ± ∓
Y (r̂, s) = −Yjm (r̂, s) .
r jm
Substituindo todas essas relações, aqui comentadas, nas equações acopladas (20.147) temos
[ ]
[ ] ∂ 1−κ
E − µe c − V (r) f1 (r) = −c~
2
+ g1 (r)
∂r r
(20.149)
[ ]
[ ] ∂ 1+κ
E + µe c2 − V (r) g1 (r) = c~ + f1 (r) .
∂r r
Uma simplificação útil adicional desse sistema de equações pode ser obtida introduzindo as funções
F1 (r) ≡ rf1 (r) ; G1 (r) ≡ rg1 (r)
em termos das quais, com uma reordenação dos termos e das equações, as equações do tipo 1 (20.149) serão
escritas como
[ ]
[ ] ∂ κ
E − µe c2 − V (r) F1 (r) + c~ − G1 (r) = 0
∂r r
(20.150)
[ ]
[ ] ∂ κ
E + µe c2 − V (r) G1 (r) − c~ + F1 (r) = 0 .
∂r r
Analogamente, as equações do tipo 2 serão escritas como
[ ]
[ ] ∂ κ
E − µe c − V (r) F2 (r) + c~
2
+ G2 (r) = 0
∂r r
(20.151)
[ ]
[ ] ∂ κ
E + µe c2 − V (r) G2 (r) − c~ − F2 (r) = 0 ,
∂r r
onde usamos
F2 (r) ≡ rf2 (r) ; G2 (r) ≡ rg2 (r) .
As funções Fi (r) e Gi (r), com i = 1, 2, podem ser vistas como dependentes do parâmetro já definido
κ = j + 12 . Escrevendo-as como Fiκ (r) e Gκi (r), a forma dos dois sistemas de equações mostra que
F1κ (r) = F2−κ (r) e Gκ1 (r) = G−κ
2 (r) .

Assim, os dois sistemas de equações, do tipo 1 (20.150) e do tipo 2 (20.151), ficam reduzidos à
[ ]
[ ] κ ∂ κ
E − µe c − V (r) Fi (r) + c~
2
− Gκi (r) = 0
∂r r
(20.152)
[ ]
[ ] ∂ κ
E + µe c2 − V (r) Gκi (r) − c~ + Fiκ (r) = 0 .
∂r r
com os valores do parâmetro κ dado por
1
Tipo 1 ⇒ κ=j+
2

( )
1
Tipo 2 ⇒ κ=− j+ .
2
520 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

O Átomo de Hidrogênio Neste ponto, assumimos que o elétron move-se num campo coulombiano de um
núcleo de carga Ze, então
Ze2 Zα
V (r) = − ou V (r) = − ,
r r
2
onde α = e~c .
Quando temos r pequeno, i.e., r → 0, os termos E ± µe c2 podem ser desprezados na Eq. (20.152),
assim
dFi (r) κ Zα
+ Fi (r) − Gi (r) = 0
dr r r

dGi (r) κ Zα
− Gi (r) + Fi (r) = 0 .
dr r r
As duas funções Fi (r) e Gi (r) aparecem de forma equivalente nessas equações. assim, revolvemos como
tendo iguais potências de r:
Fi = arγ , Gi = brγ .

Substituindo temos
a(γ + κ) − bZα = 0 , aZα + b(γ − κ) = 0 ,

onde
γ 2 = κ2 − Z 2 α2 .

Se Z 2 α2 < κ2 . Então γ é real e positivo: a solução correspondente para cada uma não diverge em r = 0
e temos

Fi = Gi = constante × r−1+γ
γ+κ
(20.153)
√( )
√ 1
γ= κ2 − Z 2 α2 = j+ − Z 2 α2 .
2

Embora a função de onda torne-se infinita quando r = 0, se γ for negativo, a integral |ψ|2 permanece finita.
Se Z 2 α2 > κ2 , ambos valores de γ dado em (20.153) serão imaginários. As soluções correspondentes
oscilam rapidamente quando r → 0 e corresponde a situações não admissíveis fisicamente na teoria rela-
tivística. Desde que κ2 ≥ 1, significa que temos um campo puramente coulombiano discutido na teoria de
Dirac somente se Zα < 1, i.e., Z < 137. 28
Quando temos r grande, i.e., r → ∞, da Eq. (20.152) temos

dFi E + µe c2
− Gi = 0
dr ~c

dGi E − µe c2
+ Fi = 0 .
dr ~c
Onde encontramos ( )
d2 Fi E 2 − µ2e c4
+ Fi = 0
dr2 ~2 c2
28
Uma descrição detalhada da teoria qualitativa e quantitativa estão nos artigos de Ya. B. Zel’dovich and V. S. Popov, Soviet
Physics Uspekhi, 14, 673 (1972) e H. Backe, L. Handschug, F. Hessberger, E. Kankeleit, L. Richter, F. Weik, R. Willwater,
H. Bokemeyer, P. Vincent, Y. Nakayama, and J. S. Greenberg, Physical Review Letters, 40, 1443 (1978).
20.13. F ORÇAS C ENTRAIS E O ÁTOMO DE H IDROGÊNIO 521

cuja solução geral, para Fi e Gi , será


ρ
Fi → e± 2
(20.154)
± ρ2
Gi → e ,

onde introduzimos as seguintes definições



E 2 − µ2e c4
ρ = 2λr e λ= .
~c
Vamos retornar a solução exata desse problema, que foi primeiramente tratado por Darwin e Gordon
em 1928. 29

Espectro Discreto ou Estados Ligados (E < µe c2 ) Podemos escrever Fi e Gi da Eq. (20.149) na


forma
√ ρ
Fi = µe c2 + E e− 2 ργ−1 (Q1 + Q2 )
(20.155)

− ρ2
Gi = − µe c2 − E e ργ−1 (Q1 − Q2 ) ,

na qual satisfaz as condições de contorno, quando ρ → 0 temos (20.153), e quando ρ → ∞ temos a forma
ρ
assintótica de Fi e Gi que é ∼ e− 2 .
Substituindo (20.155) em (20.149) temos

d µe c2 − E
ρ (Q1 + Q2 )+(γ + κ)(Q1 + Q2 ) − ρQ2 + Zα (Q1 − Q2 ) = 0
dρ µe c2 + E


d µe c2 + E
ρ (Q1 − Q2 )+(γ − κ)(Q1 − Q2 ) + ρQ2 − Zα (Q1 + Q2 ) = 0 .
dρ µe c2 − E

Fazendo a soma e a diferença dessas duas relações, temos


( ) ( )
d ZαE Zαµe c2
ρ Q1 + γ − Q1 + κ − Q2 = 0
dρ λ λ
(20.156)
( ) ( )
d ZαE Zαµe c2
ρ Q2 + γ + − ρ Q2 + κ + Q1 = 0 ,
dρ λ λ
eliminando Q1 ou Q2 , encontramos
( )
d2 d ZαE
ρ Q1 + (2γ + 1 − ρ) Q 1 − γ − Q1 = 0
dρ2 dρ λ

( )
d2 d ZαE
ρ 2 Q2 + (2γ + 1 − ρ) Q2 − γ + 1 − Q2 = 0 ,
dρ dρ λ
onde usamos o fato de que
( )2 ( )2
ZαE Zαµe c2
γ −
2
=κ − 2
.
λ λ
29
C. G. Darwin, Proceedings of the Royal Society of London, A118, 654 (1928); Idem, A120, 621 (1928); W. Gordon, Zeitschrift
für Physik, 48, 11 (1928).
522 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

A solução dessas equações para qual é finita quando ρ = 0 é


Q1 = A 1 F1 (γ − ZαE
λ , 2γ + 1, ρ)
(20.157)
Q2 = B 1 F1 (γ + 1 − ZαE
λ , 2γ + 1, ρ) ,

onde 1 F1 (α, β, z) é a função hipergeométrica confluente. Colocando a condição ρ = 0 em uma das Eqs.
(20.156), obtemos a relação entre as constantes A e B,
γ− ZαE
B=− λ
Zαµe c2
A. (20.158)
κ− λ

As duas funções hipergeométricas em (20.157) será reduzida a polinômios, desde que eles aumentem
ρ
como eρ quando ρ → ∞, e a própria função de onda cresça como e 2 . A função 1 F1 (α, β, z) reduz-se à um
polinômio se α for um inteiro negativo ou zero. Escrevemos
ZαE
γ− = −nr . (20.159)
λ
Se nr = 1, 2, · · · , as duas funções hipergeométricas reduzem-se à polinômios. Se nr = 0 somente uma
Zαµe c2
delas o fará. Neste caso, γ = ZαE λ , e λ = |κ|, como é fácil verificar. Se κ < 0, o coeficiente B se
anula, tal que Q2 = 0 e a condição necessária está satisfeita. Se κ > 0, temos B = −A, e Q2 divergirá
quando nr = 0. Então, o número quântico nr deverá ser
nr = 0, 1, 2, · · · para κ<0
ou (20.160)
nr = 1, 2, 3, · · · para κ > 0.
Da definição (20.159), associamos para os níveis de energia discreto
 − 1

 

2

E (Zα)2
= 1 + [√ ]2
µe c2   
κ2 − (Zα)2 + nr 
ou  − 1

 

2

 

E (Zα)2
= 1 + [ √ ]2 . (20.161)
µe c2  ( ) 


 j + 2 − (Zα) + nr 
1 2 2 

Esta é a famosa fórmula de estrutura fina para o átomo de hidrogênio. Os números quânticos j e nr assumem
os valores
1 3 5
j = , , , ··· ; nr = 0, 1, 2, · · · .
2 2 2
O número quântico principal da teoria não relativística do átomo de hidrogênio está relacionado com nr e
|κ| = j + 21 por
n = |κ| + nr ≥ 1 − n ≤ κ < n.
Para determinar o fator de normalização comum A na função de onda, podemos usar
∫ ∞
dr (Fi2 + G2i ) r2 = 1 .
0

O valor de A é determinado de forma mais simples a partir da fórmula assintótica das funções de r → ∞.
Usando a fórmula assintótica
Γ(2γ + 1)
1 F1 (−nr , 2γ + 1, ρ) ≈ (−ρ)nr
Γ(nr + 2γ + 1)
20.13. F ORÇAS C ENTRAIS E O ÁTOMO DE H IDROGÊNIO 523

encontramos
√ Γ(2γ + 1)
Fi ≈ (−1)nr A µe c2 + E e−λr (2λr)γ+nr −1 .
Γ(nr + 2γ + 1)
Isto nos dá a função de onda normalizada, 30
 1
} 3 2
Fi ±(2λ) 2 (µe ± E)Γ(2γ + nr + 1)
c2 
= ( )( )
Gi Γ(2γ + 1) 4µ c2 Zαµe c2 Zαµe c2
− κ · nr !
e λ λ
{( ) }
γ−1 −λr Zαµe c2
× (2λr) e − κ 1 F1 (−nr , 2γ + 1, 2λr) ∓ nr 1 F1 (1 − nr , 2λ + 1, 2λr) .
λ
(20.162)

Espectro Contínuo (E > µe c2 ) Não há necessidade de resolver novamente a equação de onda para os
estados de espectro contínuo. As funções de onda para este caso são aquelas obtidas a partir do espectro
discreto pelas substituições 31
√ √
µe c2 − E → − i E − µe c2
λ → −ip (20.163)
ZαE
−nr → γ − i ,
p

onde p = |⃗p| = E 2 − µ2e c4 . Porém a normalização deverá ser realizada novamente.
Fazendo essas substituições em (20.162), temos
√ }
Fi = √E + µe c2
× A′ ei pr (2pr)γ−1
Gi = i E − µe c2
[ ]
× ei ξ 1 F1 (γ − i ν, 2γ + 1, −2 i pr) ∓ e− i ξ 1 F1 (γ + 1 − i ν, 2λ + 1, −2 i pr) ,
(20.164)

onde A′ é a outra constante de normalização,

ZαE γ − iν
ν= e e−2 i ξ = i νµe c2
.
p κ− E

O valor de ξ é real, desde que


( )2 ( )2
2 ZαE 2 Zαµe c2
γ + =κ + .
p p

De acordo com a fórmula


1 F1 (α, β, z) = ez 1 F1 (β − α, β, −z)

temos

1 F1 (γ + 1 − i ν, 2γ + 1, −2 i pr) = e−2 i pr 1 F1 (γ + i ν, 2γ + 1, 2 i pr)


= e−2 i pr 1 F1 ∗ (γ − i ν, 2γ + 1, −2 i pr)
30
Ver o cálculo completo da normalização no livro de W. Greiner, Quantum mechanics - An introduction, (2001), capítulo 7,
exercício 7.1; ou L. D. Landau and E. M. Lifshitz, Quantum mechanics, (1989), apêndice d.
31
Ver o texto de L. D. Landau and E. M. Lifshitz, Quantum mechanics, (1989), §128.
524 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

tal que
} √
Fi
=2 i A′ E ± µE c2 (2pr)γ−1
Gi
{ }
ℑ [ i(pr+ξ) ]
× e 1 F1 (γ − i ν, 2γ + 1, −2 i pr) . (20.165)

O coeficiente de normalização A′ será encontrado através da comparação da expressão assintótica para


esta função com a fórmula geral da função de onda esférica normalizada. A expressão resultante é
} √
Fi 3 µe c2 ± E 1 πν |Γ(γ + 1 + i ν)| (2pr)γ
=2 2 e2
Gi E Γ(2γ + 1) r
{ }[ ]

× ei(pr+ξ) 1 F1 (γ − i ν, 2γ + 1, −2 i pr) . (20.166)

As funções de onda para um campo repulsivo são obtidas alterando o sinal de Zα, i.e., de ν.

20.14 Propagador de Feynman para Férmions


Uma expressão do propagador não relativístico em termos das soluções próprias da equação de Schrödinger
se obtém fazendo
ψ (⃗r, t) ≡ ψn (⃗r, t) = un (⃗r) e− ~ En t
i

nessa equação
∂ψ
Hψ = i ~
∂t
que define o problema de autovalores
Hun (⃗r) = En un (⃗r) .
Essas funções formam uma base no espaço das funções, i.e., formam um sistema ortogonal e completo:

u∗n (⃗r)um (⃗r) d3 r = δnm , ⇒ ortogonalidade

un (⃗r)u∗n (⃗r′ ) = δ 3 (⃗r −⃗r′ ) . ⇒ completeza
n

Uma amplitude qualquer poderá expressar-se nessa base como



cn un (⃗r) e− ~ En t .
i
ψ (⃗r, t) = (20.167)
n

Segue que ∫
u∗m (⃗r)ψ (⃗r, t) d3 r .
i
c m = e ~ Em t (20.168)

Levando cn em (20.167), temos



ψ (⃗r2 , t2 ) = KF (⃗r2 , t2 ;⃗r1 , t1 )ψ (⃗r1 , t1 ) d3 r1

onde ∑
un (⃗r2 ) e− ~ En t2 u∗n (⃗r1 ) e ~ En t1 ,
i i
KF (⃗r2 , t2 ;⃗r1 , t1 ) = (20.169)
n
que é a expressão do propagador de Feynman em termos das autofunções pertencentes à energia.
No caso da equação de Dirac, considerando ~ = 1 e c = 1

(i γ µ ∂µ − µe ) ψ = 0
20.14. P ROPAGADOR DE F EYNMAN PARA F ÉRMIONS 525

um método similar nos conduz ao spinor



ψa (⃗r, t) = cn una (⃗r) e− i En t ,
n

onde índice do spinor a = 1, 2, 3, 4. Da relação análoga a (20.168) temos



cm = ei Em t u∗ma (⃗r)ψa (⃗r, t) d3 r . (20.170)

Somando sobre a encontramos


∑∫ ′
ψa (⃗r, t) = una (⃗r)u∗nb (⃗r′ )ψb (⃗r′ , t′ )e− i En (t−t ) d3 r′ . (20.171)
nb

Contudo, a covariância da equação de Dirac ocorre quando se usa o operador adjunto u, ou seja
∑ †
u = u† β → unb = und βdb .
d

Assim, usando β 2 = I, a expressão (20.171) será escrita na forma


4 ∫

ψa (⃗r, t) = KF (⃗r, t;⃗r′ , t′ )ab βbc ψc (⃗r′ , t′ ) d3 r′ , (20.172)
b,c=1

onde

KF (⃗r, t;⃗r′ , t′ )ab = una (⃗r)e− i En t u∗nd (⃗r′ )βdb ei En t
n
∑ ′
= una (⃗r)unb (⃗r′ )e− i En (t−t ) . (20.173)
n

Se definirmos um quadrivetor, no espaço de Minkowski, de elementos de área que representam hipersuper-


fícies nesse espaço
dσ µ = (dσ 0 , dσ 1 , dσ 2 , dσ 3 ) = (dσ 0 , d⃗σ )
que são obtidos a partir da permutação fundamental (0, 1, 2, 3) e respectivas permutações cíclicas. Assim,
temos

dσ 0 = dx1 dx2 dx3 ≡ d3 r


dσ 1 = dx2 dx3 dx0
dσ 2 = dx3 dx0 dx1
dσ 3 = dx0 dx1 dx2 ,

e uma hipersuperfície do gênero espaço é tal que para dois quaisquer de seus pontos, x e x′ (quadrivetores)
se tem (x − x′ )2 < 0 uma integral do tipo

f µ (x) dσµ

que reduz-se a ∫
f 0 (x) d3 r

quando a hipersuperfície é um plano perpendicular ao eixo dos tempos, sobre o qual dx0 = 0. Assim,
sugerimos que a relação covariante de (20.172) seja
∑∫
ψa (x) = KF (x; x′ )ab γ µ ψb (x′ ) dσµ , (20.174)
b,µ
526 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

onde ∑ ′
KF (x; x′ ) = u(⃗r)u(⃗r′ ) e− i En (t−t ) , (20.175)
n
omitindo os índices spinoriais.
Como levar em consideração o princípio da causalidade? Na teoria não relativística definimos o propa-
gador causal, ou retardado, pela condição (7.19) ou (7.21). Em nosso caso essa condição implica em
( )
∑ ∑ ′

KF (x; x ) = + un (⃗r)un (⃗r′ ) e− i En (t−t ) , (20.176)
En >0 En <0

para t > t′ , e
KF (x; x′ ) = 0 (20.177)
para t < t′ .
Mas essa última não nos satisfaz, pois um elétron com energia positiva poderia, graças a essa
propagador, ter energia negativa em um instante posterior.
Baseado na interpretação de Stückelberg e Feynman para partículas com energia negativa, Feynman
quis evitar a propagação de soluções com energia negativa para o futuro. Para tal, ele subtraiu do segundo
membro da Eq. (20.176) a expressão
∑ ′
un (⃗r)un (⃗r′ ) e− i En (t−t )
En <0
dando lugar ao seguinte propagador causal
∑ ′
KF (x; x′ ) = un (⃗r)un (⃗r′ ) e− i En (t−t ) para t > t′
En >0
(20.178)

(t−t′ )
KF (x; x′ ) = − un (⃗r)un (⃗r′ ) e− i En para t < t′
En <0
O processo é válido pois a expressão (20.176) satisfaz à equação
(i γ µ ∂µ − µe ) KF (x; x′ ) = i δ 4 (x − x′ ) ,
e também do fato de que de KF (x; x′ ) podemos subtrair soluções da equação homogênea como é o caso de

un (⃗r)un (⃗r′ ) e− i En (t−t ) .
Portanto, devido as considerações de Stückelberg e Feynman para partículas com energia negativa e
usando KF (x; x′ ) ≡ KF (x − x′ ), a expressão para o propagador de Stückelberg-Feynman relativístico será
dado por
[ II
∑ ∑ ′
KF (x − x′ )ab = urna (⃗r)urnb (⃗r′ )e− i En (t−t ) η(t − t′ )
n r=I
]

IV

− urna (⃗r)urnb (⃗r′ )e− i En (t−t ) η(t′ − t) , (20.179)
r=III
uma vez que os spinores r = I, II são relativos a estados de energia positiva, En > 0, e os spinores
r = III, IV são relativos a estados de energia negativa, En < 0, e η é a função de Heaviside, definida em
(3.11). A relação (20.179) satisfaz a equação
(i γ α ∂α2 − µe ) KF (x2 − x1 ) = i δ 4 (x2 − x1 ) .
Dados dois pontos quaisquer da hipersuperfície, x1 e x2 (quadrivetores), as expressões (20.172) e
(20.179) nos mostram que em mecânica quântica relativística, para determinar ψ (x2 ) é necessário conhecer
ψ (x1 ) não somente no passado, mas também no futuro, i.e., sem os índices spinoriais,
∫ ∫
ψ (x2 ) = KF (x2 ; x1 )βψ (x1 ) d r1 −
3
KF (x2 ; x′1 )βψ (x′1 ) d3 r1′ , (20.180)
t2 >t1 t′1 >t2

onde ψ (x1 ) representa a função de onda no passado e ψ (x′1 ) a função de onda no futuro.
20.15. E LÉTRON EM UM C AMPO E LETROMAGNÉTICO 527

20.15 Elétron em um Campo Eletromagnético


Quando temos o elétron relativístico na presença de um campo eletromagnético Aµ , a equação de Dirac
será
[γ µ (i ∂µ − eAµ ) − µe ] ψ (x) = 0 ,

e a equação do propagador causal, que denotamos SFA (x2 − x1 ) ≡ SFA (2, 1), é

[i γ µ ∂µ2 − eγ µ Aµ − µe ] SFA (x2 − x1 ) = i δ 4 (x2 − x1 ) .

Essa equação é equivalente a equação integral



SFA (2, 1) = KF (2, 1) − i e KF (2, 3)γ µ Aµ (3)KF (3, 1) d4 x3 , (20.181)

onde x3 é um ponto intermediário entre x1 e x2 . Para vê-lo, basta aplicar a ambos os membros o operador
(i γ α ∂α2 − µe ).
Podemos ainda resolver a Eq. (20.181) através de uma série perturbativa. Assim,

SFA (2, 1) =KF (2, 1) + (− i e) KF (2, 3)γ µ Aµ (3)KF (3, 1) d4 x3
∫ ∫
+ (− i e) 2
KF (2, 3)γ µ Aµ (3)KF (3, 4)γ ν Aν (4)KF (4, 1) d4 x3 d4 x4 + · · · (20.182)

É oportuno observar que, por analogia com o método de resolver equações diferenciais inomogêneas
por intermédio da função de Green, a solução da equação diferencial

(i γ µ ∂µ − µe ) ψ (x) = eγ µ Aµ ψ (x) ,

será ∫
ψ (x) = φ(x) − i e KF (x − x′ )γ µ Aµ (x′ )ψ (x′ ) d4 x′ , (20.183)

onde φ(x) é a solução da equação de Dirac sem a interação.


Considerando a expressão (20.179) para o propagador livre KF e tomando os limites t → ∞ para as
soluções com energia positiva e t → −∞ para as soluções com energia negativa, obtemos
∑∫
lim [ψ (x) − φ(x)] = − i e urn (x)urn (x′ )γ α Aα (x′ )ψ (x′ ) d4 x′
t→∞
n,r

(20.184)
∑∫
lim [ψ (x) − φ(x)] = i e urn (x)urn (x′ )γ α Aα (x′ )ψ (x′ ) d4 x′ ,
t→−∞
n,r

onde r = I, II para energia positiva e r = III, IV para energia negativa.


Assim, a matriz Sf i de espalhamento terá a seguinte forma

(x′ ) d4 x′ ,
(±)
Sf i = δf i − i eϵf φf (x′ )γ µ Aµ (x′ )ψi (20.185)

(+)
onde: ϵf = 1 é usado para elétrons que foram preparados no passado com energia positiva, ψi (x′ ), e
evoluem para o futuro, φf (x′ ); por outro lado ϵf = −1 é usado para elétrons que foram preparados no
(−)
futuro com energia negativa, ψi (x′ ), e evoluem para o passado, φf (x′ ).
528 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

20.16 Propagador do Fóton e de Bósons


Para obter o propagador do fóton, iremos considerar a interação de um elétron e um múon, i.e., eµ → γ →
eµ. Para um estado final diferente do estado inicial a matriz de espalhamento, segundo (20.185)

Sf i = − i e ψ ef (x)γ α Aαµ (x)ψei (x) d4 x , (20.186)

onde ψe (x) é o spinor do elétron e Aαµ (x) é o campo eletromagnético criado pelo múon no ponto x. Como
jeα (x) = ψ ef (x)γ α ψei (x)
é a corrente do elétron, então ∫
Sf i = − i e jeα (x)Aαµ (x) d4 x .

A equação do campo eletromagnético Aαµ (x), no calibre de Lorenz-Lorentz, é


Aαµ (x) = ejµα (x) , (20.187)
onde jµα (x) é a corrente do múon.
A função de Green dessa equação será
DF (x − x′ ) = δ 4 (x − x′ ) , (20.188)
que nos leva à ∫
Aαµ (x) =e DF (x − x′ )jµα (x′ ) d4 x′ . (20.189)

Considerando as transformadas de Fourier



1 ′

DF (x − x ) = 4
d4 k DF (k) e− i k(x−x )
(2π)

1 ′
δ 4 (x − x′ ) = 4
d4 k e− i k(x−x ) ,
(2π)
encontramos
1
DF (k) = − , (20.190)
k2
que é singular.
Quando temos o caso particular da função de Green para a equação de Klein-Fock-Gordon
( )
 + µ2 ∆F (x − x′ ) = δ 4 (x − x′ ) , (20.191)
encontramos
1
∆F (k) = −
k2 − µ2
tal que
∫ ′
′ 1 e− i k(x−x )
∆F (x − x ) = − 4
d k . (20.192)
(2π)4 k 2 − µ2
Note que DF (x − x′ ) = ∆F (x − x′ ) quando µ = 0.
Sabemos que para equação de Dirac o propagador satisfaz a seguinte relação
(i γ µ ∂µ − µ) KF (x − x′ ) = i δ 4 (x − x′ ) . (20.193)
Considerando as transformadas de Fourier

1 ′

KF (x − x ) = 4
d4 k KF (k) e− i k(x−x )
(2π)

′ 1 ′
δ (x − x ) =
4
4
d4 k e− i k(x−x ) ,
(2π)
20.16. P ROPAGADOR DO F ÓTON E DE B ÓSONS 529

temos

1 ′

(i γ ∂µ − µ) KF (x − x ) = (i γ ∂µ − µ)
µ µ
d4 k KF (k) e− i k(x−x )
(2π)4

1 ′
= 4
d4 k KF (k) (i γ µ ∂µ − µ) e− i k(x−x ) .
(2π)
Mas, como
′ ′
(i γ µ ∂µ − µ) e− i k(x−x ) = (γ µ kµ − µ) e− i k(x−x ) ,
então ∫ ∫
1 − i k(x−x′ ) 1 ′
d k KF (k) (γ kµ − µ) e
4 µ
=i d4 k e− i k(x−x ) .
(2π)4 (2π)4
Da igualdade descrita na relação acima temos (γ µ kµ − µ) KF (k) = i, tal que
i γ µ kµ − µ
KF (k) = =i ,
γ µ kµ − µ k 2 − µ2
ou
KF (k) = − i (γ µ kµ − µ) ∆F (k)
ou seja
KF (x − x′ ) = − i (i γ µ ∂µ − µ) ∆F (x − x′ ) . (20.194)
expressão que nos mostra que as soluções com energia positiva se propagam para o futuro e que as soluções
com energia negativa se propagam para o passado.
Para calcularmos o propagador relativístico KF , é necessário conhecermos a delta de Feynman ∆F .
Assim, de (20.192) temos
∫ ∫
d3 k − i ⃗k(⃗x−⃗x′ ) dk 0 1 ′
∆F (x − x′ ) = − e e− i k0 (x0 −x0 )
(2π)3 2π (k 0 )2 − Ek2

d3 k − i ⃗k(⃗x−⃗x′ )
=− e I, (20.195)
(2π)3
onde Ek2 = ⃗k2 + µ e
∫ ∫ ′
dk 0 1 ′ dk 0 e− i k0 (x0 −x0 )
I= e− i k0 (x0 −x0 ) = .
2π (k ) − Ek
0 2 2 2π (k0 + Ek )(k0 − Ek )
A integral I apresenta dois polos, k0 = ±Ek , pontos de singularidade para os quais o integrando se torna
infinito. Portanto, para resolvê-la devemos considerar o plano complexo, fazendo k0 = α + i β, e utilizar o
método dos resíduos.
Para resolver a integral I, vamos usar o argumento de Feynman que consiste em fazer: µ → µ − i δ,
para δ > 0, e desprezar os termos em δ 2 , e finalmente fazer δ → 0. Assim, teremos
√ √
±Ek = ± k + (µ − i δ) = ± ⃗k2 + µ2 − 2µ i δ
⃗ 2 2

ou
√ ( )1
2µ i δ 2
±Ek = ± ⃗k + µ 1 −
2 2 .
⃗k2 + µ2
Logo, vemos que o argumento de Feynman corresponde a deslocar o polo positivo, +Ek , para baixo do eixo
real e o polo negativo, −Ek para cima do eixo real.
√ √
i µδ
+ ⃗k2 + µ2 → + ⃗k2 + µ2 − √
⃗k2 + µ2
√ √
i µδ
− ⃗k2 + µ2 → − ⃗k2 + µ2 + √ .
⃗k2 + µ2
530 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

Usando o plano complexo, k0 = α + i β, a integral I se escreve


∫ ′ ′
dk0 e− i α(x0 −x0 ) eβ(x0 −x0 )
I= ,
2π (k0 + Ek − ε)(k0 − Ek + ε)
e o contorno sobre a qual se toma a integral deve ser construído eixo real e uma semicircunferência que se
anule quando α, β → ∞, deixando só a integral sobre o eixo real.
Usando o teorema dos resíduos, quando x0 > x′0 , vemos que devemos ter β < 0 para que

lim eβ(x0 −x0 ) = 0 .
β→∞

Logo, a semicircunferência deve estar no semiplano inferior. Assim, para x0 > x′0 , propagação para o
futuro, temos a solução com energia positiva que contribui para a integral I

e− i Ek (x0 −x0 )
I = −i . (20.196)
2Ek
Quando x0 < x′0 , vemos que devemos ter β > 0, e a semicircunferência deve estar no semiplano
superior que inclui a solução com energia negativa. Assim,

ei Ek (x0 −x0 )
I = −i . (20.197)
2Ek
Tendo em vista esses resultados, a expressão analítica (20.195) da equação de Klein-Fock-Gordon, na
prescrição de Feynman será
∫ { }
′ d3 k − i k(x−x′ ) ′ i k(x−x′ ) ′
∆F (x − x ) = i e η(t − t ) + e η(t − t) .
2EK (2π)3
Esse é o propagador de Feynman para bósons com massa µ.
Vemos, finalmente, que a matriz de espalhamento (20.186), Sf i , será
∫ ∫
[ ] [ ]
Sf i = − i d4 xd4 x′ eψ ef (x)γ µ ψei (x) DF (x − x′ ) eψ µf (x)γµ ψµi (x)

onde ψe (x) é o spinor do elétron e ψµ (x) é o spinor do múon. Considerando a interação eµ → γ → eµ,
veja Fig. 20.3, usamos o diagrama de Feynman para o cálculo da integral Sf i .

e- k’
k

γ q = k - k’

p p’

µ-

Figura 20.3 Processo eµ → γ → eµ.

Assim, o propagador traduz a imagem de troca de um fóton virtual,


∫ ′
d4 k e− i k(x−x )
DF (x − x′ ) = ,
(2π)4 −k 2
valores para os quais também k 2 ̸= 0, embora a contribuição predominante seja o polo, i.e., um fóton real
livre onde temos k 2 ≡ k µ kµ = 0 para o qual e somente para o qual a velocidade é igual a c, velocidade da
luz no vácuo.
20.16. P ROPAGADOR DO F ÓTON E DE B ÓSONS 531

Problemas
20.1 Mostre que a equação de onda eletromagnética de Maxwell não é um invariante das transformações
de Galileu, porém é um invariante das transformações de Lorentz.

20.2 Mostre que a equação de Klein-Fock-Gordon é um invariante de Lorentz. Sugestão: Consulte o livro
do Prof. W. Greiner [40].
( 2 2
)
20.3 Partindo da equação de Klein-Fock-Gordon ∂ µ ∂µ + µ~2c ψ (⃗r, t) = 0 , deduza a equação de con-
[ ] [ ]
servação ∂ρ + ⃗ · ⃗J , onde ρ = ℑ ~2 ∂ψ∗ ψ e ⃗J = ℜ ~ ψ ∗ ∇ψ
∇ ⃗ . Considerando a solução de
∂t µc ∂t iµ
onda plana ψ (⃗r, t) = Ae ~ (⃗r ·⃗r−Et) , mostre que a energia pode ser positiva e negativa. Que forma as
i

expressões para ρ e ⃗J, acima, terão no limite não relativístico |⃗p| ≪ µc?

20.4 Separe a parte angular da parte radial da função de onda para equação de Klein-Fock-Gordon estacio-
nária sob a ação de potenciais coulombianos esfericamente simétricos. Sugestão: Consulte o livro do
Prof. W. Greiner [40].

20.5 Usando o resultado do problema anterior, encontre a solução da equação de Klein-Fock-Gordon para
o méson π − na presença de um campo coulombiano e discuta seus autovalores de energia. O pion
tem massa µπ c2 = 139, 577 MeV e spin 0 e obedece a equação de Klein-Fock-Gordon. Sugestão:
Consulte o livro do Prof. W. Greiner [40].

20.6 Partindo da equação de Dirac (i γ µ ∂µ − κ0 ) ψ = 0 , deduza a equação de conservação ∂µ j µ = 0 ,


onde j µ = ψγ µ ψ e ψ ≡ ψ † γ 0 .

20.7 Encontre as soluções da equação de Dirac i ~ ∂ψ


∂t = c (⃗α ·⃗p + µcβ) ψ as quais representam estados
estacionários de partículas livres com momenta linear bem definido.

20.8 Resolva a equação de Dirac para um poço de potencial atrativo de largura a e profundidade V0 .

20.9 Encontre a forma de Schrödinger da equação de Dirac para um partícula carregada na presença de um

campo eletromagnético Aµ = (Φ, A).
[ ( ) ]
20.10 Usando a equação de Dirac γ µ i ∂µ + ec Aµ − κ0 ψ = 0 , encontre os níveis de energia de um
elétron em um campo magnético constante e homogêneo ⃗B.
⃗ 1 ∂⃗
20.11 Escreva as equações de Maxwell ∇ ⃗ × ⃗E + 1 ∂ B
c∑∂t = 0 e ∇ × B − c ∂t = c J na forma análoga
⃗ ⃗ E 4π ⃗
3
a equação de Dirac (equação de spinor): − i j=0 α ∂xj ψ = − c Φ . Determine as matrizes αj e
1 j ∂ 4π

suas relações de comutação e deduza a equação de onda para ψ vindo da equação acima. Sugestão:
Consulte o livro do Prof. W. Greiner [40].

20.12 Determine a densidade lagrangiana do campo livre de Dirac. Calcule o tensor energia-momentum e
interprete os resultados individuais. Sugestão: Consulte o livro do Prof. W. Greiner [40].

20.13 Mostre que todas as representações da algebra de Dirac γ µ γ ν + γ ν γ µ = 2g µν I para matrizes 4 × 4


† †
nas quais γ 0 = γ 0 , γ i = −γ i são equivalentes unitários! Sugestão: Consulte o livro do Prof. W.
Greiner [40].

20.14 Demonstre a covariância das expressões: a) ψψ; b) ψσ µν ψ; c) ψγ µ γ 5 ψ e d) i ψγ 5 ψ.


µν
20.15 Mostre que para S (Λ) = e− 4 ωσµν In o operador inverso é dado por S −1 = γ0 S † γ0 . Sugestão:
i

Consulte o livro do Prof. W. Greiner [40].

20.16 Demonstre a expressão KF (x − x′ ) = − i (i γ µ ∂µ − µ) ∆F (x − x′ ).


532 C AP. 20 E QUAÇÕES R ELATIVÍSTICAS

Leitura Recomendada
Para este capítulo, as principais referências foram os livros:

– E. Merzbacher [61];
– W. Greiner [40];
– A. F. R. de Toledo Piza [79].

Também recomenda-se ao leitor, uma leitura dos livros:

– J. D. Bjorken and S. D. Drell [9];


– F. Gross [43].

Para uma discussão rápida porém clara sobre propagadores de Feynman relativístico, iremos encontrar um
excelente trabalho no livro:

– J. D. Bjorken and S. D. Drell [10];


– J. M. F. Bassalo [5].
Bibliografia

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536
Índice Remissivo

3(n − 1)j símbolo de Wigner, 273 – adição, 263


3j símbolo de Wigner, 271 – intrínseco, 97
6j símbolo de Wigner, 272 – orbital, 185
índice no-cloning theorem, 298
– de Morse, 177 nodus, 363
– de refração, 50 oscillator strength, 387, 409
– – quântico, 50 qubits, 296
álgebra rank, 328
– de Lie, 257 spinor, 251, 314
– – SU (2), 257 – adjunto, 503
óptica geométrica, 228 – de Dirac, 501
ângulo – – de energia negativa, 506
– azimutal, 253 – – de energia positiva, 505
– de Euler, 258 – de Pauli, 463
– polar, 253 – de Weyl, 501
Drehung, 246 spin, 25, 97
Gedankenexperiment, 14, 281 – down, 264
Nuclear Magnetic Resonance, 377 – up, 264
SQUID, 179 – do elétron, 504
éter, 486 spontaneous symmetry breaking, 363
ansatz, 81, 264 squeezed states, 152, 480
autospinor, 253 stimulated emission, 382
beam-splitter, 480 subensemble, 290
bipartite entanglement, 296 time-ordered product, 378
bits, 296 vacuum, 393
boosted, 461 whiskers, 178
boosts, 490
ensemble average, 304 Abel, N. H., 119
ensemble, 115, 304, 392 absorção
ensemble canônico, 320 – induzida, 382
ensemble grande canônico, 454 – ressonante, 382
entangled states, 291 acoplamento spin-órbita, 267, 354
gauge, 178, 458 admitância, 408
graphene, 92 Aharonov, Y., 177, 396
hidden-variables, 283 Airy, G., 86
– non-local, 292 Ampère, A. M., 179
isospinor, 465 amplitude
isospin, 464 – de espalhamento, 220
momenta, 11, 449 – de probabilidade, 312
momentum, 9 – de transição, 161
– canônico, 457, 459 Anderson, C. D., 219, 506
– cinético, 459 anticomutador, 42, 121
– de Fermi, 444 anticomutativo, 453
momentum angular, 185 antilinear, 102

537
538 Í NDICE R EMISSIVO

aproximação – de Yang-Mills, 465


– adiabática, 394 – escalar, 497
– – de Ehrenfest, 394 – tensorial, 465
– de Born, 234 catástrofe do ultravioleta, 4
– – ondas distorcidas, 420 Cauchy, A., 49, 102, 288, 406
– – ordem superior, 417 cavidade isotérmica, 1
– dipolo elétrico, 385 Cayley, A., 256
– E1, 385 ciclo de absorção-emissão, 375
– eikonal, 238 Clauser, J. F., 287, 293
– semiclássica, 79, 167 Clebsch, R. F. A., 266, 273, 358, 517
– variacional, 339 codificação superdensa, 296, 297
– WKB, 79 coeficiente
– WKBJ, 79 – de Clebsch-Gordon, 266, 268, 273, 517
argumento heurístico, 441 – de Einstein, 391
Aspect, A., 288, 481 – de Racah, 272
autoestado, 101, 113, 191, 262, 264 – de reflexão, 52
– de energia, 29, 69, 132 – de transmissão, 52
autofunção, 29, 34, 69, 146, 171, 194 – de Wigner, 268
autoket, 101, 109 colapso de onda, 281
autovalor, 29, 34, 69, 101, 105, 109, 171, 192 colisão de partículas, 219
– de energia, 62, 202 completeza, 102, 283
– degenerado, 113 Compton, A., 6, 502
autovetor, 101 comutador, 42, 112, 121
axial-escalar, 513 comutadores, 12
axial-vetor, 514 condensação de Bose-Einstein, 391
condição
bósons, 240, 432 – de normalização, 28
Back, E. E. A., 359 – de ressonância, 141, 375
Baker, H., 43, 249 – de transversalidade, 467
Balmer, J. J., 6 – triangular, 270
Bell, J. S., 281, 283, 291 constante
Berry, M. V., 396 – de Boltzmann, 3, 319
Bessel, F. W., 86, 203, 223, 226 – de estrutura, 258
bilineares, 513 – de estrutura fina, 9, 139, 356
Binnig, G., 91 – de movimento, 324
Blackett, P. M. S., 506 – de Planck, 4, 130, 391
Bloch, F., 66, 304 – de Rydberg, 6, 356, 495
Bohm, D., 177, 281, 284, 292, 396 – de Stefan, 1
Bohr, N., 7, 9, 18, 94, 133, 137, 185, 209, 228, 236, 240, contador Geiger, 14
284, 352, 361, 388, 390, 425, 438, 495 contextualismo, 284
Boltzmann, L., 1, 3, 319 contravariante, 489
Born, M., 8, 11, 26, 115, 234, 414, 417, 469 correlação perfeita, 282
Bose, S. N., 391, 432, 449, 452, 455 corrente
Bragg, W. H., 13 – de mão direita, 514
Bragg, W. L., 13 – de mão esquerda, 514
Breit, G., 230 – de Noether, 514
Brillouin, L., 79, 321 – diamagnética, 479
– paramagnética, 479
calibre Coulomb, C. A., 90, 185, 213, 240, 268, 440, 458, 466
– de Coulomb, 458, 466 covariante, 489
– de Lorenz-Lorentz, 458, 493, 528 – de calibre, 465
– natural, 459 curvatura, 466
– transversal, 467, 479
calor específico, 4 d’Alembert, J., 491
camada-K, 388 Darwin, C. G., 464, 498, 521
Campbell, J., 43, 249 Davisson, C., 13
campo de Broglie, L., 12, 20, 80, 227, 237, 284
– complexo, 497 decaimento espontâneo, 390
– de calibre, 464 degenerado, 29, 202
Í NDICE R EMISSIVO 539

degenerescência, 434 Einstein, A., 4, 130, 281, 295, 390, 391, 404, 432, 449,
– acidental, 213 452, 455, 485, 490, 498
– de Coulomb, 213 Ekert, A., 299
delta eletrodinâmica
– de Dirac, 33, 47, 65 – clássica, 4
– de Feynman, 529 – quântica, 139, 177, 378
– de Kronecker, 31, 47 eletromagnetismo, 2
densidade emissão
– canônica, 403 – espontânea, 390
– de corrente de probabilidade, 27, 52, 221 – induzida, 382, 390
– de estados, 380 emitância, 1
– de probabilidade, 26 energia
– espectral, 384, 405 – de Fermi, 444
desenvolvimento de Born, 414 – de relaxação, 448
desigualdade – ponto zero, 470
– CHSH, 287 entropia, 319, 454
– de Bell, 282 equação
– de Schwarz, 117 – característica, 109
deslocamento – de Airy, 86
– de fase, 223 – de Bessel, 203
– espacial, 118 – – diferencial esférica, 203
determinante – de continuidade, 27
– da matriz, 108 – de Dirac, 499, 501, 504, 509, 524, 528
– de Jacobi, 176 – – adjunta, 503
diagrama de Feynman, 530 – – covariante, 502, 510
diamagnética, 357 – de Dirac-Weyl, 501
dilatação temporal, 489 – de Euler-Lagrange, 169, 323
diodo de efeito túnel, 58 – de Hamilton, 457
Dirac, P. A. M., 12, 33, 47, 97, 100, 117, 134, 142, 161, – de Hamilton-Jacobi, 20, 25, 27, 237
179, 269, 311, 373, 377, 381, 402, 431, 432, 441, 445,
– de Hartree, 448
448, 453, 455, 485, 495, 496, 498, 501, 502, 504, 506,
– de Hartree-Fock, 447
509, 510, 515, 520, 524, 528
– de Heisenberg, 12, 39, 134, 324, 468, 471
distinguível, 453
– de Helmholtz, 2, 50, 416, 418
distribuição
– de Hermite, 70
– de Planck, 390
– de Klein-Fock, 495
– de Poisson, 155, 479, 482
– de Klein-Fock-Gordon, 495, 498, 503, 507, 528, 530
– espectral, 2
– de Klein-Gordon, 495
– gaussiana, 116
– de Kummer, 214
Doppler, J. C. A., 2
– de Legendre, 194
dualidade
– de Liouville-von Neumann, 310, 401
– onda-partícula, 5
– partícula-onda, 13 – de Lippmann-Schwinger, 414
Dulong, P. L., 5 – de Maxwell, 49
Dyson, F. J., 131, 378 – de onda homogênea, 2
– de Pauli, 464, 510
Eckart, C., 274, 277, 358 – de Pauli-Darwin, 464, 498
efeito – de Poisson, 236, 444
– Aharonov-Bohm, 177, 396 – de Rayleigh, 207
– Compton, 6, 13 – de Schrödinger, 16, 130, 201, 240, 477, 524
– de blindagem, 438 – – dependente do tempo, 20, 25, 27, 28, 73, 140, 156,
– Doppler, 2 363, 458
– fotoelétrico, 5, 13, 388 – – independente do tempo, 29, 50, 69, 157, 222
– Ramsauer-Townsend, 232 – de Sturm-Liouville, 70
– Stark linear, 353 – de Thomas-Fermi-Dirac, 445
– Stark quadrático, 351 – diferencial acoplada, 140
– túnel, 54, 57, 89 – hipergeométrica confluente, 214
– Zeeman, 356 – homogênea, 346
– – anômalo, 356 – inomogênea, 153, 352, 414
Ehrenfest, P., 4, 40, 316, 394 – integral, 232
540 Í NDICE R EMISSIVO

– – de Fredholm, 414 – de Boltzmann, 3


– integral inomogênea, 416 – de Bose-Einstein, 432
– secular, 112, 346 – de Fermi-Dirac, 432
– transcendental, 367 Euler, L., 169, 245, 258, 263, 323
escalar expansão perturbativa de Rayleigh-Schrödinger, 340
– de Lorentz, 488 experimento
– hermitiano, 44 – de Michelson-Morley, 485
espaço experimento de Stern-Gerlach, 97, 120, 303
– de momentum, 32
– de coordenada, 32 férmions, 240, 432
– de Fock, 497 fórmula
– de Hilbert, 100, 102, 248, 258, 263, 326, 418 – de Baker-Campbell-Hausdorff, 43, 249
– de Minkowski, 488, 525 – de Breit-Wigner, 230
– dual, 102 – de Brillouin, 321
– euclidiano, 102 – de dois potenciais, 419
– produto, 269 – de estrutura fina, 522
– vetorial complexo, 100 – de Feynman-Kac, 167
espalhamento, 200, 219 – de Kubo, 403, 409, 410
– de Landé, 358
– Compton, 6
– de Larmor, 392
– de Rutherford, 235, 242
– de Planck, 384
– elástico, 228
– de Rabi, 141, 374
– inelástico, 228
– de recorrência, 196
– reativo, 229
– de Rodrigues, 73, 195, 211
– ressonante, 230
fórmulas de conexão, 85
– teoria formal, 413
fóton, 4
espectro
fase
– atômico, 6, 8
– de Berry, 396, 466
– contínuo, 34, 64, 106, 205, 220, 449
– dinâmica, 394
– de Bohr, 495
– geométrica, 396
– de energia, 29, 144, 303 fator
– de Fourier, 408 – de forma atômico, 236
– de potência, 405 – de Gamow, 90
– discreto, 34, 106, 220, 449 – giromagnético, 139
estado fator g, 98, 137, 357
– vacuum, 481 Faxén, H., 229
– comprimido, 152 feixe molecular, 374
– de Bloch, 66 – atômico, 377
– de Fock, 143 Fermi, E., 90, 136, 371, 381, 422, 432, 442, 444, 453,
– de mistura, 303 455
– emaranhado, 291, 295 Feshbach, H., 162
– – bipartite, 296 Feynman, R., 92, 100, 161, 164, 167, 300, 370, 496, 507,
– – multipartite, 296 524, 526, 529, 530
– – tripartite, 296 flutuação
– emergente, 414 – de corrente, 407
– entrelaçado, 295 – quântica, 169
– estacionário, 29, 30, 62, 133, 156, 313 fluxo de probabilidade, 27
– fundamental, 64 Fock, V. A., 143, 446, 474, 495, 497, 507, 528, 530
– imergente, 414 força
– ligado, 60, 92 – centrífuga, 202
– misturado, 303 – central, 185
– não estacionário, 30, 133 – de Lorentz, 458, 507
– prensado, 152 – de troca, 437
– puro, 303 – elástica, 362
– singleto do spin, 239, 266, 435 Fourier, J. B., 10, 32, 154, 171, 176, 232, 402, 404, 408,
– tripleto do spin, 239, 266, 435 418, 528
estados coerentes, 116, 149, 155, 476 Franck, J., 8
– multímodo, 480 Frank, P., 460
estatística Fredholm, E., 414
Í NDICE R EMISSIVO 541

Freedman, S. J., 293 grafeno, 92


frequência grafita, 92
– de cíclotron, 139 Green, G., 41, 153, 164, 232, 402, 416, 418, 527
– de Larmor, 137, 350 Green, M. S., 403
– negativa, 480 Greenberger, D. M., 296
– positiva, 480 grupo
Fresnel, A. J., 168 – O(3), 255
Frobenius, F., 70, 194, 203 – O(n), 254
função – SO(3), 255
– ímpar, 61 – SO(4), 253
– antissimétrica, 330, 432 – SO(n), 255
– associada de Legendre, 196 – SU (2), 253, 255, 464
– – de primeira espécie, 196 – SU (n), 255, 465
– cilíndrica parabólica, 367 – U (1), 464
– de Airy, 86 – U (n), 255
– de autocorrelação, 404 – abeliano, 119, 248, 464
– de Bessel, 204 – comutativo, 119, 464
– – cilíndrica, 86 – de Lie, 255, 256, 465
– – esférica, 204, 223, 226 – de Lorentz, 489, 511
– de correlação, 403 – – próprio, 490, 511
– de Green, 153, 164, 232, 402, 416, 418, 527 – – restrito, 490
– – avançada, 154 – de operadores reais, 245
– – retardada, 154 – de Poincaré, 490
– de Hankel esférica, 204 – de rotação, 247, 255, 273
– de Heaviside, 49, 154, 164, 173, 403, 406, 526 – especial unitário, 255
– de Neumann, 204 – linear complexo, 254
– – esférica, 204, 226 – linear real, 254
– de Wannier, 337 – não abeliano, 121, 248, 464
– de Wigner, 261 – ortogonal, 253
– delta, 47, 65, 402 – unimodular unitário, 255
– Gamma, 214 – uniparamétrico, 257
– geratriz, 195
– harmônica esférica, 192 híperon, 329
– hipergeométrica confluente, 214, 241, 367, 522 Hamilton, W., 20, 25, 129, 135, 167, 237, 457
– linear, 101 Hankel, H., 204
– par, 48, 61, 69 harmônicos esféricos, 196
– partição, 320 Hartree, D. R., 446
– – grande canônica, 455 Hausdorff, F., 43, 249
– própria, 451 Heaviside, O., 49, 154, 164, 173, 403, 406, 526
– principal de Hamilton, 20 Heisenberg, W., 8, 9, 17, 39, 115, 134, 153, 161, 324,
– resposta, 402 372, 380, 391, 431, 468, 469, 471, 475, 479, 480
– simétrica, 330, 432 helicidade, 474, 508
– trabalho, 5, 90 Hellmann, H., 370
– triângulo de Racah, 273 Helmholtz, H., 2, 50, 416, 418
Hermite, C., 70, 147
Galileu, G., 164, 460, 461 Hertz, G., 8
Gamow, G., 88 Hertz, H., 5
Garwin, R. L., 139 Hilbert, D., 100, 102, 248, 258, 263, 326, 418
Gauss, J. C. F., 146, 180 hipersuperfícies, 525
Geiger, H., 7, 14 holônomo, 466
Geim, A. K., 92 Holt, R. A., 287
Gell-Mann, M., 257, 419 Holtsmark, J., 229
Gerlach, W., 97, 120, 282, 303 homeomorfo, 256
Germer, L. H., 13 Horne, M. A., 287
Glauber, R. J., 149, 478 Hund, F., 442
Goldberger, M. L., 419
Gordon, P. A., 266, 273, 358, 517 identidade
Gordon, W., 242, 495, 507, 521, 528, 530 – de Kubo, 125
Goudsmit, S., 98 identidade de Jacobi, 42
542 Í NDICE R EMISSIVO

integral Lederman, L. M., 139


– de caminho, 161 Lee, T. D., 328
– de Feynman, 167 Legendre, A. M., 194, 223
– de Fourier, 17, 18, 32, 48, 171 Leggett, A. J., 290, 292
– de Fresnel, 168 lei
– de Riemann, 166 – de conservação, 6, 323, 324
– funcional, 167 – – da energia, 325
– gaussiana, 162, 176 – – do momentum, 325
– sobreposta, 365 – – do momentum angular, 326
interação – de Dulong e Petit, 5
– coulombiana, 209 – de Malus, 290
– de troca, 437, 445 – de Rayleigh-Jeans, 3
interações – de Stefan-Boltzmann, 1
– eletromagnéticas, 219, 466 – de Wien, 2, 391
– fundamentais, 182 leis de Newton, 457, 461
– nucleares fortes, 219, 466 lema
– nucleares fracas, 219, 328, 466, 490 – de Baker-Hausdorff, 249
interferência destrutiva, 167 Lennard-Jones, J. E., 22
interferômetro de neutron, 183, 250 leptons, 219
intervalo invariante, 488 Levi-Civita, T., 121, 186, 502
invariância Lie, M., 43, 155, 256, 465
– de calibre, 458, 475, 509 limite de Paschen-Back, 359
– – local, 464 Liouville, J., 70, 310, 401
invariante, 66, 324 Lippmann, B. A., 414, 419
– adiabático, 363 localidade, 283
– de calibre, 459 Lord Rayleigh, 2, 79, 207, 340, 361, 364
– de Lorentz, 178, 488 Lorentz, H., 178, 458, 485, 489, 493, 507, 510, 528
isomorfismo, 257 Lorenz, L., 458, 493, 528
– local, 257 Lyman, T., 7

Jacobi, C., 20, 25, 42, 176, 237 média quadrática, 407, 408
Jeans, J. H., 3 mésons π, 219
Jeffreys, H., 79 método
Jordan, P., 8, 11, 448, 469 – de Frobenius, 70, 210
Josephson, B. D., 179 – de ondas parciais, 222
Jost, R., 418 – de Rayleigh-Ritz, 361
– dos resíduos, 415, 529
Kac, M., 167 – Hartree-Fock, 446
Khinchin, A. Y., 405 – variacional, 360
Klein, F., 256 Mach, L., 482
Klein, O. B., 495, 506, 507, 528, 530 magneton
Koopmans, T., 448 – de Bohr, 137
Kramers, H. A., 79 – nuclear, 140
Kronecker, L., 31, 47 Maiman, T. H., 333
Kronig, R., 67 Malus, E. L., 290
Kubo, R., 125, 401, 403, 409, 410 mar de Dirac, 506
Kuhn, W., 387, 410 Marsden, E., 7
Kummer, E., 214 MASER, 333, 368
massa reduzida, 209, 362
Lagrange, J. L., 129, 169, 319, 323, 360, 447, 454 matriz
lagrangiana, 166, 323 – γ de Dirac, 502
Laguerre, E. N., 210 – adjunta, 108
Landé, A., 355, 358 – antiautoadjunta, 257
Landau, L. D., 304 – antissimétrica, 193
Laplace, P. S., 255 – autoadjunta, 257
largura, 230 – cofator, 108
Larmor, J., 137, 350, 392, 485 – de espalhamento S, 420, 527
LASER, 333 – de Lorentz, 487
Lattes, C. M. G., 219 – de Pauli, 251, 297, 465, 499, 506
Í NDICE R EMISSIVO 543

– de transformação, 268 nanociência, 91


– de transição, 417 nanométrica, 92
– densidade, 305 nanomaterial, 92
– hermitiana, 11, 447, 464 nanotecnologia, 91
– identidade, 297 Neddermeyer, S. H., 219
– inversa, 109 Neumann, C., 204, 226
– ortogonal, 255 Newton, I., 5, 40, 129, 457, 461, 485
– simétrica, 193 Noether, E., 323, 514
– transposta, 108 norma, 102
– – conjugada, 109 Novoselov, K. S., 92
– unidade, 109 Nyquist, H., 406–409
– unimodular unitária, 260, 465
– unitária, 111 observável
Maxwell, J. C., 49, 179, 458, 485 – compatível, 113
mecânica – física, 32, 100, 104, 113
– clássica, 1 – incompatível, 113
– estatística, 3 Occhialini, G., 219, 506
– newtoniana, 17 Oguri, V., 401
– quântica, 1, 12 onda Compton, 502
– – matricial, 8, 11, 12 onda esférica
– – ondulatória, 12, 20, 47, 156, 157 – emergente, 228, 233
– – relativística, 526 – imergente, 420
Mehler, G. F., 173 – incidente, 228, 233
Michelson, A. A., 485 operador
microscópio – momentum angular, 326
– de tunelamento, 59, 91 – momentum linear, 325
microscopia – adjunto, 36, 44, 103, 525
– de tunelamento, 91 – – hermitiano, 103
Mills, R., 465 – anti-hermitiano, 111
Minkowski, H., 488, 525 – antilinear, 34, 103
modelo atômico – antiunitário, 427, 515
– de Bohr, 7, 8 – autoadjunto, 36, 105, 176
– de Rutherford, 7 – avançado, 414
modelo corpuscular, 5 – conjugação de carga, 509
modo, 480 – d’Alembertiano, 491
momento – de abaixamento, 121, 144, 190, 197, 517
– de dipolo elétrico, 351, 393 – de aniquilação, 142, 153, 450, 455, 468, 477
– magnético, 98 – de antissimetrização, 434
– – spinorial, 463 – de criação, 142, 153, 450, 455, 468, 477
– – anômalo, 139 – de Dirac, 501
monopolo magnético, 179 – de evolução temporal, 129, 136, 161, 250, 312, 377,
Morley, E. D., 485 420
Morse, P. M., 162, 177 – de inversão espacial, 326, 353
Mott, N. F., 242 – de inversão temporal, 333, 427
multiplicador de Lagrange, 319, 360, 447, 454 – de levantamento, 121, 143, 190, 197, 517
muons, 219 – de Pauli, 298
– de permutação, 433
nível de Fermi, 90 – de projeção, 106, 307
núcleo - kernel, 161 – de rotação, 137, 187, 423
número – de simetrização, 434
– atômico efetivo, 439 – de transição, 417, 453
– de ocupação, 449 – de translação, 44
– quântico, 269 – densidade, 305, 401, 409, 454
– – azimutal, 213 – – das partículas, 452
– – de cor, 464 – – de corrente, 479
– – magnético, 190, 213 – – de número, 479
– – orbital, 213 – deslocamento, 44, 66, 119, 130, 476
– – principal, 210, 522 – energia, 325
não localidade, 281 – estatístico, 454
544 Í NDICE R EMISSIVO

– hamiltoniano, 26, 29, 132 – – do oscilador, 387, 409


– helicidade, 508 Petit, A. T., 5
– hermitiano, 36, 103, 111, 130, 192, 246, 402, 469 piezelétrico, 91
– identidade, 37, 44, 106, 130 Placzek, G., 228, 425
– linear, 34, 42, 103 Planck, M., 4, 9, 130, 142, 384, 390
– número, 143, 475 poço quântico, 68
– – total de partículas, 452 Podolsky, B., 281, 295
– nulo, 103 Poincaré, H., 291, 485, 490
– ortogonal, 245 Poisson, S., 12, 134, 155, 236, 444, 479, 482
– reservo, 103 polarizabilidade, 351, 409
– retardado, 414 polinômio
– tensorial, 275 – de Hermite, 71, 147
– – esférico, 275 – de Laguerre, 210
– – esférico irredutível, 275 – de Legendre, 194, 223
– transposto, 35 Polyakov, A. M., 182
– unitário, 44, 110, 118, 423 ponto
– velocidade, 457 – de fase estacionária, 168
– vetorial, 274 – de inversão linear, 85
ortogonalidade, 30, 37, 105 população fracionária, 303
ortohélio, 440 porta lógica, 296
ortonormal, 106 – quântica, 296
ortonormalização, 106 postulado
ortonormalizado, 193, 446 – da constância da velocidade da luz, 486
– de Poincaré, 485
Pöschl, G., 76
– de relatividade, 485
píons, 219
– primeiro de Einstein, 485
pósitron, 506
– segundo de Einstein, 486
Pais, A., 418
postulados de Bohr, 7
parâmetro
potencial
– de Cayley-Klein, 256
– de impacto, 224 – centrífugo, 202
– de inelasticidade, 229 – coulombiano, 90, 475
– de Sommerfeld, 454 – coulombiano blindado, 235
paradoxo – de calibre, 178
– de Klein, 506 – de espalhamento, 413
– do gato de Schrödinger, 295 – de Lennard-Jones, 22
– EPR, 281 – de Pöschl-Teller, 76
parahélio, 440 – de Yukawa, 235
paramagnética, 357 – efetivo, 202
paridade, 327, 490, 513 – – reduzido, 203
– ímpar, 69, 327 – escalar, 457
– definida, 327 – vetorial, 457
– par, 69, 327 Powell, C. F., 219
Paschen, L., 7, 359 Poynting, J. H., 471
Pauli, W., 98, 251, 297, 314, 433, 441, 453, 463, 465, precessão do spin, 139
496, 506, 507, 510, 512 princípio
Pauli, W. G., 498, 499 – da causalidade, 526
Peierls, R. E., 228, 425 – – de Galileu, 164
Penney, W. G., 67 – da complementaridade, 18
permeabilidade magnética, 50 – da equipartição, 3
permissividade elétrica, 50 – da incerteza, 17, 18, 54, 115, 380, 431
perturbação – da indistinguibilidade, 431
– caso degenerado, 341 – da relatividade, 283
– caso não degenerado, 341 – – de Galileu, 461
– dependente do tempo, 136, 371 – da superposição, 16, 19, 296
– independente do tempo, 339 – de correspondência, 9, 11, 41, 94, 135
peso – de exclusão de Pauli, 98, 433, 453, 506
– de probabilidade, 303 – de Hamilton, 167
– estatístico, 304, 390 – de Heisenberg, 115
Í NDICE R EMISSIVO 545

probabilidade de transição, 141, 390 – de Bohr, 9


problema de autovalor, 29 – de completeza, 31, 106, 197, 304
produto – de comutação, 114, 121, 252
– escalar, 44, 102 – de fechamento, 106, 200
– – de Minkowski, 489 – de incerteza, 17, 19, 444
– – hermitiano, 100 – de Nyquist, 408
– externo, 103 – de Planck, 9
– interno, 44, 67, 102, 268, 395, 421 – de Planck-Einstein, 130
– tempo-ordenado, 378 – de reciprocidade, 427
– tensorial, 263 – de recorrência, 270
propagador, 161 – de Thomas-Fermi, 444
– causal, 526 representação
– de Feynman, 164, 524 – de Dirac, 373
– – para bósons, 530 – de Heisenberg, 134, 153, 372, 468, 475, 479
– de Stückelberg-Feynman relativístico, 526 – de interação, 135, 372, 401, 480
pseudoescalar, 328 – de Schrödinger, 133, 156, 371, 468, 475
pseudovetor, 328 – de Weyl, 501
– dos eixos rotativos, 377
quadricorrente, 492 – irredutível, 260
quadripotencial, 493 – matricial, 107
quadrivelocidade, 492 resistência, 408
quadrivetor, 487 ressonância
quanta de luz, 391 – magnética nuclear, 139, 377
quantum de energia, 4 Riemann, G., 166
quarks, 219 Ritz, W., 361, 364
quebra espontânea de simetria, 363 Rodrigues, B. O., 73, 195, 211
Rohrer, H., 91
Rabi, I. I., 141, 374, 377 Rosen, N., 281, 295
Racah, G., 271, 272, 333, 425, 519 rotação
radiação – ativa, 245
– de corpo negro, 1, 4 – de Euler, 258
– eletromagnética, 4, 6, 12 – infinitesimal, 186
raio – – gerador, 187, 245
– clássico do elétron, 387 – passiva, 245
– de Bohr, 209, 236, 240, 352, 438 Rutherford, E., 7, 219, 235, 242, 454
Ramsauer, C. W., 231, 242 Rydberg, J. R., 6, 356, 495
randômico, 303
razão giromagnética, 316, 350 série
realidade, 283 – de Born, 418, 419
realismo, 290 – – ondas distorcidas, 419
reatância, 408 – de Clebsch-Gordon, 273
regra – de Dyson, 131, 378
– de composição das frequências, 10 – de Fourier, 10, 176, 404
– de comutação, 12, 103 – de Frobenius, 194, 203
– de Hund, 442 – de Lie, 43, 155
– de intervalo de Landé, 355 – de Taylor, 43, 70, 164, 230, 262, 284, 325
– de Laplace, 255 – – funcional, 169
– de multiplicação quântica, 10 Schawlow, A. L., 333
– de ouro de Fermi, 136, 371, 381, 422 Schrödinger, E., 16, 20, 25, 50, 130, 133, 156, 161, 185,
– de ouro de Fermi No 1, 422 201, 240, 295, 310, 325, 334, 340, 352, 363, 371, 391,
– de ouro de Fermi No 2, 381, 422 446, 458, 468, 475, 477, 494, 524
– de seleção, 393 Schwarz, K., 117, 288
– de soma Thomas–Reiche–Kuhn, 387, 410 Schwinger, J. S., 377, 414, 419
– de Wilson-Sommerfeld, 8, 11 seção de choque
Reiche, F., 387, 410 – de absorção, 385
relógio atômico, 139 – diferencial, 220, 416
relação – total, 221
– Bohr-Peierls-Placzek, 228, 425 segunda quantização, 448, 469
– de anticomutação, 121, 251 separabilidade, 102
546 Í NDICE R EMISSIVO

sequência de Cauchy, 102 – dos resíduos, 233, 530


Shimony, A., 287 – virial, 41, 148
simetria, 323 teoria
– de calibre local, 464 – da decoerência, 295
– de cor, 257 – da radiação, 448
– de sabor, 257 – da relatividade restrita, 485
Slater, J. C., 433, 446 – de circuito linear, 402
Sommerfeld, A., 8, 454 – de colisões, 219
Stückelberg, E., 496, 507, 526 – de resposta linear, 401
Stark, J., 351, 353 – de Yukawa, 22
Stefan, J., 1 – do buraco, 506
Stern, O., 97, 120, 282, 303 – dos quanta, 12
Stevenson, E. C., 219 termodinâmica, 1
Stokes, G. G., 180, 396 Thomas, L. H., 354, 442, 444
Street, J. C., 219 Thomas, W., 387, 410
Sturm, J., 70 Thomson, G., 13
suscetibilidade Thomson, J. J., 7
– do sistema, 402 topologia, 466
– generalizada, 403, 409 Townes, C. H., 333, 368
– paramagnética, 321 Townsend, J. S. E., 231
traço, 112, 305
t’ Hooft, G., 182 transformação
taxa de transição, 381 – boosted, 462
Taylor, B., 43, 70, 118, 132, 164, 230, 262, 284, 325, – de calibre, 458, 462
340, 360 – de dualidade, 180
teleportação quântica, 296, 299 – de Galileu, 460, 487
Teller, E., 76 – – ativa, 462
tempo próprio, 489 – – passiva, 462
tensor, 491 – de Lorentz, 485, 486, 510
– contravariante, 491 – – heterócrona, 490
– covariante, 491 – – inomogênea, 490
– de Levi-Civita, 121, 186, 502 – – não ortócrona, 490
– de Racah, 425, 519 – – ortócrona, 490
– do campo eletromagnético, 493 – de Poincaré, 490
– dual eletromagnético, 494 – dos bilineares, 513
– esférico, 275 – global de calibre, 459
– métrico, 489 – local de calibre, 459
– misto, 491 – quiral, 514
teorema – unitária, 110, 272, 447, 476
– óptico, 228, 425 – – de fase, 459
– da “não clonagem”, 298 transformada de Fourier, 154, 232, 402, 418, 528
– da adição, 200, 207 transição
– da divergência, 28, 473 – espontânea, 390
– de Bell, 299 – induzida, 391
– de Bloch, 67 – real, 381
– de convolução, 403 – virtual, 381
– de Ehrenfest, 41, 316 translação, 118
– de Einstein-Wiener-Khinchin, 405 – infinitesimal, 118
– de Feynman-Hellmann, 370 troca adiabática, 363
– de flutuação-dissipação, 401, 406 tunelamento quântico, 54, 57, 89
– de Gauss, 180
– de Green, 41 Uhlenbeck, G. E., 98
– de incompatibilidade, 290 unidades
– de Koopmans, 448 – atômicas, 240
– de Noether, 514 – de Coulomb, 240
– de projeção, 358 unificação das interações, 182
– de Stokes, 180
– de Wiener-Khinchin, 405 valor
– de Wigner-Eckart, 274, 276, 358 – esperado, 32, 104, 113, 132
Í NDICE R EMISSIVO 547

– próprio, 451
– principal de Cauchy, 49, 406
Van Vleck, J., 377
variável
– escondida, 283
– independente, 449
– oculta, 283, 285
– – contextual, 284
vetor
– bra, 101, 156
– ket, 100, 156, 246
– axial, 328
– de Poynting, 471
– polar, 328
– polarização, 314
vida média, 393
von Neumann, J., 283, 304, 310, 401

Wannier, G., 337


Weinberg, S., 418
Weinrich, M., 139
Weisskopf, V. F., 496, 507
Wentzel, G., 79
Weyl, H., 458, 501
Wien, W., 2, 391
Wiener, N., 405
Wigner, E., 230, 261, 268, 271–274, 277, 333, 358, 448,
490
Wilson, W., 8
Wu, C. S., 328

Yang, C. N., 328, 465


Young, T., 17
Yukawa, H., 22, 235

Zeeman, P., 356


Zehnder, L., 482
Zeilinger, A., 293
zero da energia, 470

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