MAXXI: Impacto da Arte em Roma
MAXXI: Impacto da Arte em Roma
Gaspar Crespi
Arquitetura
Júri:
Presidente: Prof. Doutor Manuel de Arriaga Brito Correia Guedes
Orientador: Prof. Doutora Helena Silva Barranha Gomes
Vogal: Prof. Doutor José Maria da Cunha Rego Lobo de Carvalho
Novembro 2016
ii
Agradecimentos
Aos amigos e colegas que fiz para a vida, em especial aos campeões e ao piso C2,
À minha amada família: à Cíntia, aos meus pais, ao Nehuen e à Joana, à Laura e à
Fatima,
Obrigado.
iii
iv
Resumo
Como o próprio nome sugere, o Museo nazionale delle arti del XXI secolo afigura-se
como uma referência para a museografia da arte contemporânea, estabelecendo um
caso de estudo de amplo potencial e que representa um grande desafio, não só para a
arte mas também para a própria cidade.
v
vi
Abstract
This dissertation focuses on the study of the case of the MAXXI, located in the
quartiere Flaminio in Rome. Founded in 2010 and designed by Zaha Hadid, despite
being a recent project, it is seen as an important landmark. The diversity of equipments
and services, the quality of the public space and the way it integrates into the urban
fabric, in addition to its differentiated and innovative offer, clearly highlight the project
and converge in the creation of an identity responsible for generating a strong pole of
attraction.
As its name suggests, the Museo nazionale delle arti del XXI secolo stands out as a
reference to the museography of contemporary art, establishing a case study with a
great potential, and that represents a great challenge not only for the art, but also for
the city itself.
This work is based on a historical framework that encompasses the evolution of the
architecture of art museums, the analysis of some relevant cases, and the
characterization of the urban context and contemporary art in Rome. The main part
intended to understand the museological proposal, incorporating the design options
and resources, the programmatic guidelines of the museum and its functioning.
Thus, the thesis aims at the discussion and interpretation of the impact of the museum
and intends to explore its importance to Rome, determining in which way the MAXXI
can be an integrated model for this type of cultural facilities.
vii
viii
Índice Geral
1. Introdução
1.1. Delimitação do tema ................................................................................................ 1
1.2. Objectivos e metodologia ........................................................................................ 1
2. Enquadramento
3. Caso de estudo: MAXXI, Museo nazionale delle arti del XXI secolo
ix
4. Considerações finais e conclusões ................................................................ 77
6. Anexos
Anexo VII: MAXXI, MAXXI, corte transversal (átrio e galerias) ................................ VII
x
Índice de imagens
Figura PáPágina Legenda Autor/ Fonte
1 3 Antigo Museu do Louvre, Paris Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Met Museum - [Link]
2 4 Protótipo de museu, J.N.L. Durand Autor: Yunchao Xu (2014)
Fonte: Pinterest - [Link]
3 4 Protótipo de museu, E.L. Boullé Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Gallica - [Link]
4 4 Altes Museum de Berlim, vista exterior Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Staatliche Museen zu Berlin -
[Link]
5 4 Altes Museum de Berlim, planta do piso Autor: Eduardo Yescas (2016)
térreo Fonte: Archimaps -
[Link]
6 6 Museu Solomon R. Guggenheim, Nova Autor: David Heald (s.d.)
Iorque Fonte: The Guggenheim Museums and
Foundation - [Link]
7 6 Neue Nationalgalerie, Berlim Autor: Não identificado (2014)
Fonte: The daily scan -
[Link]
8 7 Centro Pompidou, Paris Autor: Não identificado (2015)
Fonte: Archdailly - [Link]
9 8 Museo Nacional Centro de Arte Reina Autor: Não identificado (s.d.)
Sofía, Madrid Fonte: Circulo Fortuny -
[Link]
10 8 Tate Modern, Londres Autor: Não identificado (2008)
Fonte: AO Art Observed -
[Link]
11 8 Centro Gallego de Arte Contemporáneo, Autor: Não identificado (2013)
Santiago de Compostela Fonte: L’architetto - [Link]
12 8 Museu Kiasma, Helsínquia Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Steven Holl Architects -
[Link]
13 9 Museu Guggenheim, Bilbau Autor: Não identificado (s.d.)
Guggenheim Bilbao –
[Link]
14 10 MoMA, Nova Iorque Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: MoMA - [Link]
15 10 Stedelijk Museum, Amesterdão Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Benthem Crouwel Architects -
[Link]
16 11 Implantação do MACBA, em Barcelona Fonte: Imagem retirada de Bing Maps
(2016) - [Link]/maps
17 12 MACBA, relação urbana Autor: Não identificado (2016)
Fonte: El Mostrador - [Link]
18 13 MACBA, planta do piso térreo e alçado Sul Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Arcspace - [Link]
19 14 MACBA, vista do interior durante Autor: Não identificado (s.d.)
espectáculo de dança Fonte: From - [Link]
20 15 MACBA relação urbana com o CCCB, a Autor: Não identificado (s.d.)
tardoz Fonte: Primavera Sound –
[Link]
xi
Figura Página Legenda Autor/ Fonte
21 15 CCCB (Centro de Cultura Contemporánea), Autor: Não identificado (s.d.)
Barcelona Fonte: CCCB – [Link]
22 16 MACBA, vista do exterior Autor: Não identificado (2016)
Fonte: Meetmaps -
[Link]
23 17 Implantação do Baltic, em Gateshead Fonte: Imagem retirada de Bing Maps
(2016) - [Link]/maps
24 18 Baltic, vista exterior Autor: Helena Barranha (2014)
Cortesia da autora
25 18 Baltic, vista exterior Autor: Helena Barranha (2014)
Cortesia da autora
26 18 Baltic, esquiço do arquitecto Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Ewa Architects - [Link]
27 19 Baltic, planta do piso 2 Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Arcspace - [Link]
28 20 Baltic, corte longitudinal Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Ewa Architects - [Link]
29 20 Baltic, espaço interior Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: The Red List - [Link]
30 23 MART (Museo di arte moderna e Autor: Não identificado (s.d.)
contemporanea di Trento e Rovereto), Fonte: Inexhibit - [Link]
Rovereto
31 23 MADRE (Museo d'Arte contemporanea Autor: Amedeo Benestante (s.d.)
Donna Regina), Nápoles Fonte: MADRE - [Link]
32 24 MAMBO (Museo d'Arte Moderna di Autor: Raffaello Scatasta (s.d.)
Bologna), Bolonha Fonte: MAMBO –
[Link]
33 24 Museo d'arte contemporanea del Castello di Autor: Não identificado (s.d.)
Rivoli, Turim Fonte: Castello di Rivoli -
[Link]
34 24 PAC (Padiglione d'Arte Contemporanea ), Autor: Não identificado (2013)
Milão Fonte: MIDD -
[Link]
35 24 Visualização do MAC (Museo d’Arte Autor: Hayes Davidson (s.d.)
Contemporanea), Milão Fonte: It's Liquid Group -
[Link]
36 26 Palazzo delle Exposizioni, Roma Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: La Quadriennale di Roma -
[Link]
37 26 MACRO de Via Nizza, Roma Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: MACRO - [Link]
38 28 Implantação do quartiere Flaminio. Vista Autor: Gaspar Crespi (2016)
aérea (2016) Fonte: Imagem retirada de Bing Maps
(2016) - [Link]/maps
39 29 Ponte Milvio (1716) Autor: T. Wilkens (s.d.)
Fonte: Marrucci, G. (2008) Elementi di
paesaggio nelle trasformazioni urbane.
L’ansa del Flaminio a Roma, pp. 236
40 30 Vista sobre a Chiesa di Sant’Andrea e a Via Autor: Jérôme Charles Bellicard (1750)
Flaminia (1750) Fonte: The Metropolitan Museum of Art -
[Link]
xii
Figura Página Legenda Autor/ Fonte
42 31 Vista sobre os quartéis militares (década de Autor: Não identificado (s.d.)
1920) Fonte: Vittorini, A. (2004) Dalle armi alle
arti - Trasformazioni e nuove funzioni
urbane nel quartiere flaminio, p. 40
43 31 Vista sobre o Foro Mussolini e o bairro de Autor: Não identificado (s.d.)
Flaminio, sobre o eixo da ponte Duca Fonte: Vittorini, A. (2004) Dalle armi alle
d’Aosta (década de 1940) arti - Trasformazioni e nuove funzioni
urbane nel quartiere flaminio, p. 45
44 32 Quartiere Flaminio (1949) Autor: Paola Guarini (s.d.)
Cortesia da autora
45 32 Auditorium Parco della Musica (1995-2002) Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: OpenBuildings -
[Link]
46 33 Quartiere Flaminio actualmente (2016) Fonte: Imagem retirada de Bing Maps,
(2016) - [Link]/maps
47 33 Quartiere Flaminio actualmente (2016) Fonte: Imagem retirada de Bing Maps,
(2016) - [Link]/maps
48 34 MAXXI, esquiço do atelier Zaha Hadid Autor: Zaha Hadid Architects (s.d.)
Architects Cortesia dos autores
49 35 Projecto de Souto de Moura Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Fondazione MAXXI -
[Link]
50 35 Projecto de Steven Holl Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Fan Page - [Link]
51 35 Projecto de Rem Koolhaas Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: OMA Architects - [Link]
52 35 Projecto de Zaha Hadid Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Fondazione MAXXI -
[Link]
53 36 Maqueta de estudo do projecto de Zaha Autor: Zaha Hadid Architects (s.d.)
Hadid Cortesia dos autores
54 36 Maqueta de estudo do projecto de Zaha Autor: Zaha Hadid Architects (s.d.)
Hadid Cortesia dos autores
55 36 Maqueta de estudo do projecto de Zaha Autor: Zaha Hadid Architects (s.d.)
Hadid Cortesia dos autores
56 36 Maqueta de estudo do projecto de Zaha Autor: Zaha Hadid Architects (s.d.)
Hadid Cortesia dos autores
57 36 Maqueta de estudo do projecto de Zaha Autor: Zaha Hadid Architects (s.d.)
Hadid Cortesia dos autores
58 37 Maquete do projecto original de Zaha Hadid Autor: Zaha Hadid Architects (s.d.)
Fonte: Inexhibit - [Link]
59 38 Vista aérea da década de 1960 sobre o lote Autor: Paola Guarini (s.d.)
do MAXXI Cortesia da autora
60 38 Vista aérea actual sobre o lote do MAXXI Fonte: Imagem retirada de Bing Maps,
(2016) - [Link]/maps
61 40 Ópera de Guangzhou Autor: Iwan Baan (s.d.)
Fonte: Zaha Hadid Architects –
[Link]
62 40 Centro Heydar Aliyev, Baku Autor: Iwan Baan (s.d.)
Fonte: Archdailly - [Link]
63 42 Imagem do modelo tridimensional digital Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Pressletter - [Link]
xiii
Figura Página Legenda Autor/ Fonte
64 43 MAXXI piso 0 Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Fondazione MAXXI -
[Link]
65 43 MAXXI piso 1 Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Fondazione MAXXI -
[Link]
73 47 Obra de Giulio Paolini, Tre per tre (ognuno Autor: Gaspar Crespi (2016)
è l’altro o nessuno (1998-1999)
74 48 Desenho de Carlo Scarpa do Túmulo Brion, Autor: Não identificado (s.d.)
em Treviso Fonte: Fondazione MAXXI -
[Link]
75 48 Desenho de Aldo Rossi do Cemitério de Autor: Não identificado (s.d.)
San Cataldo, em Modena Fonte: Fondazione MAXXI -
[Link]
76 49 Workshop de pintura infantil e palestra Autor: Não identificado (s.d.)
exterior Fonte: Extraído da página do Twitter do
MAXXI: @Museo_MAXXI -
[Link]/museo_maxxi
77 49 Conferência no exterior do MAXXI Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Extraído da página do Twitter do
MAXXI: @Museo_MAXXI -
[Link]/museo_maxxi
78 49 Concerto no MAXXI Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Extraído da página do Twitter do
MAXXI: @Museo_MAXXI -
[Link]/museo_maxxi
79 49 Palestra no interior do MAXXI Autor: Não identificado (s.d.)
Fonte: Extraído da página do Twitter do
MAXXI: @Museo_MAXXI -
[Link]/museo_maxxi
80 50 Balanço orçamental do museu, ano 2013. Autor: Gaspar Crespi (2016)
Dados retirados do relatório anual de 2013,
Fondazione MAXXI.
81 51 Relação da participação público-privada, Autor: Não identificado (2012)
entre os anos 2009 e 2012. Dados do Il Fonte: II Giornale delle Fondazioni -
Giornale delle Fondazioni. [Link]
xiv
Figura Página Legenda Autor/ Fonte
82 51 Número de Visitantes do MAXXI. Dados Autor: Gaspar Crespi (2016)
retirados do 11º relatório anual de 2015 da
Federculture (2015), do 10º relatório anual
da Federculture (2014) e do relatório anual
de 2013 da Fondazione MAXXI (2011).
83 53 Número de visitantes dos museus italianos Autor: Gaspar Crespi (2016)
em 2014. Dados do Il Giornale dell’arte.
xv
Figura Página Legenda Autor/ Fonte
102 60 Cartoon sobre o MAXXI, da autoria de Autor não identificado (s.d.)
Carlo Narducci, publicado no Il Giornale Fonte: Giornale dell’ Architettura -
dell’architettura, Junho de 2010 [Link]
103 61 MAXXI, frame de vídeo publicitário da Fonte: Extraído do vídeo Vivi la nuova
Alitalia esperienza Alitalia!, da página do Youtube
da Alitalia: Alitalia Official (2016)
104 61 MAXXI, frame de vídeo publicitário da Fonte: Extraído do vídeo Vivi la nuova
Alitalia esperienza Alitalia!, da página do Youtube
da Alitalia: Alitalia Official (2016)
xvi
Figura Página Legenda Autor/ Fonte
121 72 População residente em Roma, entre 2001 Autor: Gaspar Crespi (2016)
e 2015
122 72 População residente em Flaminio, entre Autor: Gaspar Crespi (2016)
2001 e 2015
123 73 Praça do MAXXI Autor: Gaspar Crespi (2016)
Anexos
xvii
1. Introdução
A presente dissertação tem como objecto central o Museo nazionale delle arti del XXI
secolo e integra-se na área de investigação de Arquitectura de Museus, no âmbito do
Mestrado Integrado em Arquitectura do Instituto Superior Técnico. O seu
desenvolvimento efectua-se no seguimento da estadia do autor em Roma, no contexto
do programa de mobilidade Erasmus, na Università degli Studi di Roma La Sapienza,
entre Setembro de 2015 e Junho de 2016.
1
igualmente analisar o funcionamento do MAXXI como símbolo mediático e
comunicativo, percebendo como é que a consolidação da sua imagem institucional
pode ter uma influência favorável, tanto para o museu como para a cidade.
São de referir outras fontes igualmente relevantes para a recolha de informação, como
os documentos relativos ao conjunto de projectos de arquitectura analisados, a
documentação de arquivo e fotográfica de apoio, os elementos de análise em suporte
digital e as referências online. Os desenhos técnicos referentes ao presente caso de
estudo foram cedidos pelo atelier responsável pelo projecto (Zaha Hadid Architects).
Deste modo, a partir da pesquisa efectuada, a tese foi estruturada em quatro capítulos
principais: “Introdução”, onde se descrevem o tema, os objectivos e a metodologia
seguida; “Enquadramento”, focado nos museus de arte contemporânea e destinado a
integrar o caso de estudo no respectivo contexto artístico e museográfico; “Caso de
estudo: MAXXI, Museo nazionale delle arti del XXI secolo”, centrado na análise do
projecto, nas suas principais directrizes e efeitos produzidos com a intervenção, e
“Considerações finais”, que se visa a discussão e a interpretação dos resultados
obtidos. Por fim, em anexo, encontram-se ainda os desenhos técnicos referentes ao
projecto de arquitectura do MAXXI.
2
2. Enquadramento
The birth of the museum is coincident with, and supplied a primary institutional
condition for, the emergence of a new set of knowledges – geology, biology,
archaeology, anthropology, history and art history – each of which, in its
museological deployment, arranged objects as parts of evolutionary sequences
(the history of the earth, of life, of man, and of civilization) which, in their
interrelations, formed a totalizing order of things and peoples that was
historicized through and through. (Tony Bennett, 1996: 96)
Como afirma Tony Bennett no seu livro The Birth of the Museum, a história dos
museus é contada paralelamente à crescente difusão do conhecimento e à profunda
vontade do homem em conhecer a realidade que o rodeia.
3
2. Protótipo de museu, J.N.L. Durand 3. Protótipo de museu, E.L. Boullé
4. Altes Museum de Berlim, vista exterior 5. Altes Museum de Berlim, planta do piso térreo
4
De facto, pode-se afirmar que o museu “nasce no seio da cidade, nos grandes
edifícios monumentais do passado: o palácio e o templo”, sendo nestas mesmas
tipologias que encontra a sua configuração, ordenação e imagem formal (Lorente &
Almazán, 2003: 110). O seu significado determina também “uma localização
proeminente no espaço da cidade burguesa, vinculando-se a áreas de alta
representatividade politica e social” (Lorente & Almazán, 2003: 110). Ainda assim,
como explica Jesús Pedro Lorente (1999: 45), em certos casos a localização dos
museus dedicados às artes mais recentes foi motivo de polémicas e experimentações.
Neste sentido, o autor destaca a Galerie des Artistes Vivants (previamente criada em
1818), cujo novo estabelecimento - se na proximidade do Louvre ou num edifício novo
capaz de encabeçar uma expansão urbana relevante - foi vastamente discutido, tal
como a Tate Gallery (1893-1897), construída num “bairro central mas degradado”.
Assim, apesar de a maioria dos museus adoptar uma posição central, Lorente (1999:
46) aclara que a opção por localizar estes museus dedicados às artes recentes à
margem do núcleo histórico foi progressivamente requerida, ao longo do século XIX e
boa parte do século XX, funcionando como “catedrais da modernidade” e expoentes
da “dispersão do tecido urbano”.
Ainda antes do novo século, foi inaugurado o primeiro museu de arte contemporânea,
o Stedelijk Museum (1891-1895) em Amsterdão, da autoria do arquitecto Adriaan
Weissman. Apesar do seu carácter inovador, o edifício apresentava uma linguagem
neo-renascentista, em que se destacavam da fachada os quatro torreões laterais e um
corpo central, que integrava um núcleo de acesso e serviços e sobre o qual se
dispunham contiguamente os espaços destinados às exposições. O museu assumiu-
se como um relevante símbolo para a difusão da cultura contemporânea, inserindo-se
no plano urbano da Museumplein1, que compreendia a presença do Rijksmuseum
(1876-1885) e da Royal Concertgebouw (1883-1888).
1
É de referir que posteriormente foram construídos outros museus na mesma zona, como o Van Gogh
Museum (1973), de amplo destaque internacional, o Diamond Museum (2007) e o Moco Museum
(2016), dedicado à arte moderna e contemporânea.
5
Mas, é ao longo do século XX, com a participação determinante dos grandes nomes
da arquitectura do Movimento Moderno, que se irá desencadear um significativo
desenvolvimento tipológico, uma repensada imagem do museu e uma mudança no
seu relacionamento com a cidade, procurando responder aos avanços sociais,
técnicos e culturais. Começa-se assim a assistir a uma multiplicação de funções
complementares à conservação e à exposição, estabelecendo uma oferta
direccionada para um público vasto e diversificado, onde o carácter monumental é
gradualmente substituído por uma preocupação em conceber uma arquitectura que
incorpore as noções de flexibilidade, amplitude e eficiência (Peressut, 2005: 24). A
arquitectura do museu moderno foi gradualmente assimilando um “modelo
funcionalista, entendendo o museu como máquina de expor” (Lorente & Almazán,
2003: 114-115), como pode ser verificado nas suas propostas de Le Corbusier (1887-
1965) para o Musée mondial (1928) e para o Musée à croissance illimitée (1939).
Desta forma, foi-se progressivamente estabelecendo uma profunda interiorização da
arquitectura, o que conduziu ao questionamento do museu como monumento público e
da sua “relação perceptiva e física com a cidade” (Layuno Rosas cit. in Lorente &
Almazán, 2003: 114-115).
7
Segundo Barranha (2003: 314), podem ser identificadas duas condições diversas
sobre as quais os museus europeus de arte moderna e contemporânea prosseguiram
o seu desenvolvimento: a reabilitação de estruturas pré-existentes, com destaque para
o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, projecto que contou com a participação
de Antonio Alba, José Íñiguez de Onzoño, Antonio Vázquez de Castro e Ian Ritchie
(1980-1992), e a Tate Gallery of Modern Art, dos arquitectos Herzog e de Meuron
(1995-2000); e a construção de novos edifícios, onde se evidencia o Centro Gallego
de Arte Contemporáneo, da autoria de Siza Vieira (1988-1993), e o Museu Kiasma,
obra de Steven Holl (1996-1998).
8
Com efeito, esta espectacularização dos museus acabou por ser explorada e difundida
a nível internacional, sobretudo nos casos em que as entidades promotoras dos
projectos procuravam arquitectos de renome e responsáveis por designs arrojados,
como: Frank Gehry, Daniel Libeskind, Rem Koolhaas, Steven Holl e Richard Meier. O
presente cenário possibilitou aos autores a oportunidade de materializar as suas
diferentes visões em relação à arquitectura, criando museus com uma forte presença e
capazes de atrair um público educado não só em arte, mas também em arquitectura
(Milojković & Nikolić, 2012). Assim, o protagonismo do museu foi recorrentemente
centrado no edifício, negligenciando por vezes as requeridas condições espaciais, de
luminosidade e climáticas fundamentais para a exposição de obras de arte (Milojković
& Nikolić, 2012).
Como afirma Kali Tzortzi (2015: 110), ao longo da história do museu, casos como o
Altes Museum, a Neue Nationalgalerie e o Centro Pompidou demonstram que a
ligação espacial e visual entre o museu e a cidade é um tema altamente desenvolvido
e que foi alvo de uma grande evolução, traduzindo-se em formas cada vez mais ricas
e complexas (Tzortzi, 2015: 110). Contudo, no caso específico dos espaços
destinados à arte contemporânea esta relação não é assim tão evidente, registando-se
até, conforme a autora, casos em que estes equipamentos culturais se distinguem
pela sua impermeabilidade, negando qualquer relação espacial com a cidade e
assumindo-se como objectos independentes. Neste contexto, pode ser destacada a
Fondation Cartier de Jean Nouvel (1991-1994), onde o jardim distancia o espaço
interior do seu contexto urbano2 e o Kunsthaus Bregenz (Peter Zumthor, 1994-1997),
que não estabelece nenhuma ligação visual entre o interior e o exterior (Tzortzi, 2015:
110).
Além disso, tal como verificado em Bilbau, existem outros equipamentos de amplo
destaque em centros urbanos de menor dimensão que se distinguem principalmente
pela sua espectacularização ou pela sua excepcionalidade, onde podem ser
evidenciados o caso do Museo d'arte contemporanea del Castello di Rivoli (Andrea
Bruno, 1979-1984) em Turim, pelo seu singular confronto histórico, e da Galerie der
Gegenwart, ala dedicada à arte contemporânea da Kunsthalle Hamburg (Oswald
Mathias Ungers, 1993-1997).
O presente capítulo tem como objectivo analisar e discutir o impacto dos casos do
Museu d’Art Contemporani de Barcelona (Richard Meier, 1991-1995) e do Baltic
Centre for Contemporary Art de Gateshead (Ellis Williams Architects, 1998-2002),
importantes marcos na arquitectura de museus de arte contemporânea.
Projecto
1. Galleria degli Uffizi, Florença
O MACBA é descrito pelo próprio arquitecto Richard Meier (cit. in Frampton & Rykwert,
1999: 134), como “contextualmente responsivo na sua escala e orientação” e
“fundamental na reestruturação do bairro gótico de Barcelona”. O arquitecto afirma até
que a forma, a configuração e a luz do museu encontraram inspiração no local, “no
seu contexto, na sua riqueza urbana e no seu carácter, quase esmagadores” e que a
promoção da qualidade de vida dos residentes foi um dos pontos de partida do
projecto (Meier & Logan, 2010: 23).
13
19. MACBA, vista do interior durante espectáculo de dança
O seu interior é constituído, além do átrio com triplo pé direito e do sistema de rampas
1. Galleria degli Uffizi, Florença
adjacente, por um corpo longitudinal dividido em três pisos onde surgem as principais
galerias expositivas. A esta estrutura, junta-se um volume circular que interrompe a
axialidade do museu e é responsável pela separação do âmbito privado relativamente
ao público, funcionando também como uma espécie de vestíbulo. Na Plaça dels
Àngels situa-se a entrada principal do edifício, bem como uma passagem de ligação
para a Plaça de Joan Coromines, a tardoz, sendo situados no bloco privado os
espaços dedicados à parte administrativa e às reservas do museu, assim como um
auditório e uma livraria. Apesar da ideia generalizada de que no MACBA “o museu
subordina as exposições à forma” e “a arte à arte da arquitectura”, o diverso leque de
possibilidades e de recursos espaciais desenvolvidos pelo arquitecto, e as diferentes
formas de obtenção de luz natural, permitem que as galerias expositivas configurem
experiências diversas (Pampinella, 2000: 95).
Segundo Medrano (cit. in Pasquotto, 2011: 60) pode ser observado um certo
paralelismo com o Centro Pompidou (1977), visto que ambos os museus contrastam
com a sua envolvente, tendo uma praça adjacente e um limite entre a cidade e o
interior demarcado pelos sistemas de circulação. Medrano evidencia ainda que os dois
equipamentos culturais foram alvos de uma série de críticas aquando da sua
construção, especialmente pela descaracterização do tecido urbano, por um eventual
processo de gentifricação e pela espectacularidade dos gestos arquitectónicos que
lhes estão subjacentes.
14
20. MACBA relação urbana com o CCCB, a tardoz
Além disso, o museu é igualmente criticado pelo seu “formalismo vazio”, que sacrifica
a coerência arquitectónica em prol de “efeitos plásticos atractivos” e a “relação
concreta entre espaço e obra de arte” (Montaner, 2003b: 89). Esta ideia é também
defendida por Fernando Martín (cit. in Lorente & Almazán, 2003: 302) que destaca e
interroga as próprias palavras do arquitecto: “Não concebo o museu como um simples
contentor das obras de arte, mas como uma obra de arte em si mesma”. Ainda assim,
a sua integração urbana foi sem dúvida o que gerou maior contestação, já que
segundo Rego (cit. in Pasquotto, 2011: 58) não existe um diálogo com a envolvente,
nem uma permeabilidade física ou cultural, persistindo uma clara falta de consideração
pelas “circunstâncias e contingências locais”.
15
22. MACBA, vista do exterior
Impacto
Por outro lado, Gant (2009: 113) declara que o museu foi um “elemento chave na
mudança de imagem do bairro”, contribuindo para a afirmação da estratégia
competitiva e de marketing urbano de Barcelona, sendo para este ponto de vista
favorável substituir a população marginal do centro histórico por um público que
garanta, além de um maior consumo, o estabelecimento de uma ideia de “qualidade
de vida”. De facto, a influência do MACBA acaba por ser contraditória, sendo notória a
falta de comunicação com o contexto urbano e com a comunidade local. Além da
inexistência de uma relação formal, não se verifica também uma efectiva participação
e interacção com a Plaça dels Àngels já que, apesar de grande parte do museu “viver”
desta relação visual, acabam por se assumir como dois mundos completamente
distintos e autónomos.
16
2.2.2. Baltic Centre for Contemporary Art
Enquadramento
1. Galleria degli Uffizi, Florença
O Baltic Centre of Contemporary Art localiza-se em Gateshead, uma cidade contígua a
Newcastle, situada no Nordeste de Inglaterra e a Sul do rio Tyne.
17
24. Baltic, vista exterior 25. Baltic, vista exterior
Projecto
1. Galleria degli Uffizi, Florença
O museu, inaugurado em 2002, localiza-se na antiga fábrica Baltic Flour Mills, um
elemento de claro ênfase na construção da paisagem ao longo do rio Tyne.
Inaugurado em 1950, era o último edifício industrial em tijolo de Tyneside e empregava
cerca de 300 pessoas, encontrando-se desactivado desde 1982, após um grave
incêndio no armazém de rações (Gateshead Council, 2016).
18
1. Galleria degli Uffizi, Florença
Ainda assim, a fábrica, que mantém de resto as fachadas Norte e Sul completamente
inalteradas, foi alvo de uma profunda remodelação interior, compreendendo
actualmente: 3000 m2 de espaços destinados à arte contemporânea (com galerias e
um auditório flexível), estúdios para residências de artistas, espaços para cinema e
leitura, uma loja, uma livraria, um arquivo de arte contemporânea e um restaurante no
último piso (Gateshead Council, 2016).
Funcionalmente, o museu desenvolve-se ao longo dos seis pisos originais, com cinco
galerias de expositição e uma lógica de aproveitamento focada no espaço central,
surgindo nas quatro “torres” exteriores os serviços e os blocos de escadas. A robustez
do conjunto é quebrada pelos planos envidraçados a Este e Oeste e pelo volume
saliente da fachada principal, que proporcionam privilegiadas vistas sobre Gateshead
e Newcastle. A linearidade espacial é interrompida por pisos com duplo pé direito com
um sistema de mezaninos. O piso térreo funciona como elemento de ligação entre a
Baltic Square, o rio e o museu, com a construção de um volume adjacente ao edifício
original onde se incorporou um café e os espaços comerciais, funcionando como
espaço de transição, já que a privacidade do equipamento vai aumentando
gradualmente, até chegar à primeira galeria expositiva (ver corte longitudinal- imagem
28).
O interior rege-se por uma grande neutralidade, com paredes e coberturas em tons
brancos e pavimentos em madeira de tonalidade neutra. A utilização de aço corten e
alumínio está em consonância com a composição exterior, que reflecte a procura de
continuidade com o carácter industrial do edifício pré-existente (Gregory, 2002: 11).
Impacto
21
2.2. Espaços para a arte contemporânea em Itália
A história dos espaços para a arte contemporânea, em Itália, remonta ao fim do século
XIX, quando em 1895, surgiu a primeira Bienal de Veneza, dedicada à exposição de
arte italiana e europeia. Este evento teve um papel relevante, não só pelo seu
progressivo protagonismo e internacionalização, como pelo seu contributo para a
afirmação da arte moderna e contemporânea. Recorde-se que, que no mesmo ano, foi
aberto ao público o primeiro museu de arte contemporânea da Europa, o Stedelijk
Museum, em Amesterdão.
Assim, como Maria Rosaria Guarini (cit. in Fonti & Caruso, 2012: 127) explica, é nos
anos 90 que se atinge um pico de desenvolvimento, registando-se uma crescente
vontade em criar espaços destinados à arte contemporânea, projectados por
arquitectos reconhecidos internacionalmente. A autora declara que os lugares eleitos
para a instalação de novos museus, demonstram o significativo interesse que a arte e
a arquitectura contemporânea acabam por assumir em relação a um público não
necessariamente especializado, mas fortemente atraído pelos aspectos simbólicos de
reconhecimento e inovação da arte contemporânea, pela espectacularidade e
exclusividade dos eventos, ou pela experiência das diversas manifestações culturais
(Maria Rosaria Guarini cit. in Fonti & Caruso, 2012: 128). Neste sentido, Guarini (cit. in
Fonti & Caruso, 2012: 117) declara que, progressivamente, foi-se igualmente
assistindo a um aumento da procura, por parte de um público muito variado em termos
de idade, cultura, exigências e motivações mas interessado nas distintas expressões
da arte contemporânea.
Desta forma, entre o final do século XX e o princípio do século XXI, em Itália, o museu
de arte contemporânea foi alvo de uma vasta transformação, capaz de reflectir o
“processo, ainda a decorrer, de reflexão, confronto, proposição e experimentação”
22
focado no impacto que estes equipamentos podem assumir na difusão da cultura, na
manutenção das identidades nacionais e locais, no desenvolvimento cultural, social e
económico e nos processos de integração social e cultural (Guarini cit. in Fonti &
Caruso, 2012: 117).
Paralelamente, Renato Barilli (cit. in Zuliani, 2006: 23), afirma que a Itália sofre de uma
“carência congénita” quanto a museus, galerias e centros institucionalmente focados
na arte contemporânea. O autor acrescenta ainda que os recentes desenvolvimentos
nesta área, com a construção de uma rede de instituições e com uma propícia
influência de figuras curatoriais com autonomia de gestão, são demasiado recentes
para terem motivado uma política de aquisições, para a qual faltam fundos adequados
(Barilli cit. in Zuliani, 2006: 23). No entanto, deve ser destacada a presença de
relevantes equipamentos dedicados à arte contemporânea, como o MART (Museo di
arte moderna e contemporanea di Trento e Rovereto) em Trento e Rovereto, por Mario
Botta (1988-2002), o MADRE (Museo d'Arte contemporanea Donna Regina) em
Nápoles, por Siza Vieira e o Studio DAZ-Dumontet Antonini Zaske (2005-2006), o
MAMBO (Museo d'Arte Moderna di Bologna) em Bolonha, por Aldo Rossi (1996-2007)
e o Centro de Cultura Contemporânea do Palazzo Strozzi (2006-2007) em Florença.
30. MART (Museo di arte moderna e 31. MADRE (Museo d'Arte contemporanea
contemporanea di Trento e Rovereto), Rovereto Donna Regina), Nápoles
23
O MART assume-se como um dos maiores ícones da arte contemporânea no país,
apresentando uma estrutura com uma ampla variedade de serviços, com mais de
12.000 m2 de superfície e com uma colecção permanente focada no contexto italiano,
estendendo-se desde o Futurismo até a actualidade e contando com mais de 7.000
obras de arte (Mosca, 2003: 194).
O MAMBO surge para dar continuidade à Galleria d'Arte Moderna di Bologna, num
antigo panifício inserido na área industrial e comercial da cidade, após um projecto de
restauro que procurou preservar e divulgar o legado da instituição original e valorizar
as características arquitectónicas pré-existentes, criando um centro de “produção,
experimentação e inovação cultural” (MAMBO, 2015).
Por outro lado, o CCC Strozzina é parte integrante da Fondazione Palazzo Strozzi,
caracterizando-se pela promoção de jovens artistas italianos emergentes, em
conjugação com exposições de artistas internacionalmente reconhecidos como Ai
Weiwei (2016-2017), e pela inclusão de problemáticas sociais e actuais na sua
programação (Strozzina, 2016).
Este importante legado levou à construção de uma das maiores redes de museus,
com diversos equipamentos culturais de grande protagonismo e dimensão, onde se
destacam os Museus Vaticanos, um complexo museal cuja história remonta ao ano
25
1506, os Museus Capitolinos, que engloba um grupo de palácios romanos dos séculos
XII, XVI e XVII abertos ao público em 1734 e o Museu Nacional Romano, que foi
inaugurado em 1889 e envolve além de dois palácios dos séculos XVI e XIX, as
Termas de Diocleciano e a Cripta de Balbo. Além disso, deve-se salientar a presença
da GNAM (Galleria Nazionale d'arte moderna e contemporanea), localizada
temporariamente no Palazzo delle Esposizioni (Pio Piacentini,1877-1882) em 1883 e
posteriormente sediada no Padiglione delle Belle Arti, obra do arquitecto Cesare
Bazzani (1908-1911). A GNAM destacou-se como um equipamento de grande
relevância para a consciencialização da importância das artes mais recentes, bem
como para a divulgação de novos artistas.
27
3. Caso de estudo: MAXXI, Museo nazionale delle arti del XXI secolo
12
11
10 8
MAXXI 6 5
2
4
7
9
3
2
1
1. Piazza del Popolo | 2. Villa Borghese | 3. Piazale Flaminio | 4. Stadio Flaminio | 5. Auditorium
Parco della Musica | 6. Palazzetto dello Sport | 7. Futuro Museo della Scienza | 8. Piazza Mancini
| 9. Ponte della Musica | 10. Foro Italico | 11. Stadio Olimpico | 12. Ponte Milvio
Via Flaminia Quartiere Flaminio
28
Del Debbio, Luigi Moretti e Annibale Vitellozzi, 1927-1953), o Estádio Flaminio (Pier
Nervi, 1957-1959), o Pallazzetto dello Sport (Pier Nervi, 1958- 1960) e o Auditorium
Parco della Musica (Renzo Piano, 1995-2002). Paralelamente, Flaminio é marcado
pela presença do rio Tevere, e pela existência de diversas estruturas industriais e
militares.
A história deste bairro inicia-se no século III a.C., quando Caio Flaminius implanta o
traçado da Via Flaminia, que mantém a sua importância na época medieval
conduzindo os peregrinos desde a Via Francigena até o centro da cidade, assumindo
a zona como a verdadeira porta Norte da cidade (Muratore cit. in Vittorini, 2004: 25).
Posteriormente, destaca-se a construção em pedra da Ponte Milvio, em 109 a.C., e da
Porta Flaminia através da Muralha Aureliana, em 272 e 279 d.C. (Marrucci, 2008: 237).
29
40. Vista sobre a Chiesa di Sant’Andrea e a
Via Flaminia (1750)
Conforme nota Giorgio Muratore (cit. in Vittorini, 2004: 26), embora se tenha sempre
reconhecido um grande potencial ao local, só depois de 1870, com a transferência da
capital de Florença para Roma, depois da unificação nacional, é que o mesmo é palco
de grandes transformações. A cidade devia então dotar-se o mais rapidamente
possível de infra-estruturas próprias para o novo papel de capital, com a construção de
novos ministérios e edifícios governamentais. Data dessa época o 1º Plano Regulador
(1883), através do qual se individualizaram as principais zonas de expansão da
cidade, sendo que a proximidade da cidade e do rio, conjuntamente com a presença
da estrada que comunica com o centro (Via Flaminia) tornavam Flaminio o lugar ideal
para a localização de edifícios industriais destinados à produção de bens e serviços
para a nova capital.
Esta zona passa assim por notáveis mudanças num breve espaço de tempo, com a
aprovação do Plano Regulador de Sainjust (1909), que integra Flaminio na cidade e
marca o destino de toda a área, estabelecendo uma implantação viária clara que
engloba o tridente das Vias Guido Reni, Vignola e Pinturicchio, e a posterior ponte
(inaugurada em 2011), e com os projectos para a Exposição Universal de 1911, como
a Galleria Nazionale d’Arte Moderna, a Ponte del Resurgimento e o Estádio Nacional
(Avagnina et al., 2010: 132).
30
42. Vista sobre os quartéis militares (década de 1920)
31
44. Quartiere Flaminio (1949)
32
46. Quartiere Flaminio actualmente (2016) MAXXI
33
3.2. Do concurso ao projecto
É no ano 1998 que nasce a ideia de edificar o Museo nazionale delle arti del XXI
secolo, um centro dedicado à arte e à arquitectura contemporânea, com o intuito de se
afirmar no respectivo panorama internacional e de ser a “imagem” representativa de
uma nova ideia para Roma. A sua irreverência e inovação assentam num longo
processo iniciado com um concurso internacional, lançado pelo Ministero per i Beni e
le Attività Culturali, e que teve uma grande repercussão, como atestam os 273
projectos (100 dos quais italianos) que se candidataram à primeira fase, sendo destes
seleccionados 15 participantes (6 italianos) para a fase seguinte.
34
49. Projecto de Souto de Moura 50. Projecto de Steven Holl
35
53. Maqueta de estudo do projecto de 54. Maqueta de estudo do projecto de
Zaha Hadid Zaha Hadid
36
Como observa Silvia La Pergola (2008: 29), a decisão do júri recaiu sobre um projecto
que constitui um “verdadeiro manifesto para a superação de uma tipologia
museológica e construtiva de referência”, em que a integração de fluxos urbanos e a
articulação de volumes num sistema poroso sugere uma nova interpretação do tema
urbano.
37
59. Vista aérea da década de 1960 sobre o lote do MAXXI
38
3.3. A arquitectura do museu
We were very aware that we were designing in Rome, of course, but it was very
important to create newness in an ancient city, and to prove in terms of context
that you can mix old and new, and interpret that urbanity in a different way. (Zaha
Hadid cit. in Giovannini & Zaha Hadid Architects, 2010: 12, trad. livre)
A arquitectura será sempre alvo de distintas visões subjectivas e se, para uns, o
contraste é exagerado, para outros, a obra em análise integra-se perfeitamente na
envolvente. De acordo com Joseph Giovannini e os próprios arquitectos do projecto, o
desenho do museu reclama o movimento do estilo Barroco, tão difundido em Roma,
assim como o ilusionismo e o controlo da perspectiva, ideias muito desenvolvidas
pelos arquitectos italianos do Renascimento (Giovannini & Zaha Hadid architects,
2010: 12-14). Neste sentido, é destacado o efeito dinamizador proporcionado pela
curva, pelas paredes e pelo estabelecimento de múltiplas perspectivas cruzadas
(Giovannini & Zaha Hadid architects, 2010: 12-14). Paralelamente, através da
inspiração e do desafio que a cidade eterna proporciona aos arquitectos, Zaha
consegue aludir sabiamente às formas e aos movimentos do rio Tevere, criando um
dos seus edifícios mais convincentes e uma “construção sensual que funciona tanto
urbanisticamente” como “para ver arte” (Pearson, 2010b).
O MAXXI surge numa fase avançada da carreira profissional de Zaha Hadid, depois de
distintos prémios, de onde se destaca o Pritzker Architecture Prize, em 2004, e o
Stirling Prize, em 2010 (pelo seu trabalho no MAXXI) e em 2011, e de diversas obras
com reconhecimento internacional, como a Estação do Corpo de Bombeiros de Vitra
(1991-1993), na Alemanha, o Edifício Central BWM (Leipzig, 2002-2005), também na
Alemanha, e a Ópera de Guangzhou (Guangzhou, 2003-2010), na China. No entanto,
após a construção do museu de Roma, podem ser igualmente destacados projectos
como o Museu Riverside (Glasgow, 2011), o Centro Heydar Aliyev (Baku, 2012) e a
Praça Dongdaemun (Seul, 2014).
No percurso de Zaha Hadid pode ser identificada uma linha comum, caracterizada por
um design arrojado e por uma grande fluidez interior e exterior (sendo recorrente o uso
da curva). A arquitecta notabiliza-se também pela sua capacidade de desenho,
transpondo frequentemente o movimento presente nos seus esquiços para a sua obra
construída. A inovação do seu trabalho é por vezes alvo de críticas e controvérsia,
contudo, deve-se enfatizar a forma como os seus projectos se traduzem numa grande
especificidade e procuram responder ao contexto em que se integram, como se
constata no presente caso de estudo.
39
61. Ópera de Guangzhou 62. Centro Heydar Aliyev, Baku
As you approach the museum along Via Guido Reni, you notice only a pair of
modest bookends on either side of a restored barracks. So when you walk into
the entry plaza, the size and twisting form of MAXXI take you by surprise.
(Pearson, 2010b, trad. livre)
40
A praça que configura é, de facto, uma das principais valências do projecto, afirmando-
se como um espaço público de amplo protagonismo para o bairro, que espelha o
dinamismo do museu e gera um potente elemento de atracção materializado numa
considerável afluência, constituída não necessariamente por visitantes do museu,
como se pode ver no elevado número de crianças que frequentam o espaço. O
exterior caracteriza-se assim por uma grande riqueza de serviços e funções,
notabilizando-se a presença de espaços destinados a exposições exteriores, do café-
restaurante, da biblioteca e da Fondazione MAXXI. Paralelamente, a rampa a
Nordeste, que acompanha o próprio gesto do edifício, projecta a direcção da Via
Poletti para o interior da praça, permitindo estabelecer uma ligação com a Piazza
Mancini e anular o desnível existente relativamente à entrada principal, materializando-
se posteriormente em bancos concordantes com a identidade do museu, como
acontece, aliás, com o restante equipamento urbano desenhado.
A luz é, sem dúvida, outro elemento crucial, que “torna vibrantes e dinâmicas as
galerias do MAXXI”, sendo que, projectualmente, a luz tem uma “dupla natureza”: luz
natural como elemento modelador do espaço e “luz artificial como marca integrada nas
linhas e fluxos do edifício” (Avagnina et al., 2010: 67). Construtivamente, corporiza-se
num complexo sistema de clarabóias e rasgos, complementados com a presença de
uma estrutura de controlo e filtragem de luz, sempre arquitectonicamente inserido no
design (Avagnina et al., 2010: 67).
41
63. Imagem do modelo tridimensional digital
Além disso, o átrio funciona como espaço de distribuição para a galeria 1 (que integra
o Museu de Arquitectura), o auditório, a ala de exposições temporárias constituída
pelas salas Claudia Gian Ferrari e Carlo Scarpa. Do outro lado da praça, no bloco pré-
existente, salienta-se a presença de um bar-restaurante, da biblioteca e de espaços
administrativos, onde se evidencia a Fondazione MAXXI.
42
64. MAXXI, piso 0
43
67. MAXXI, piso 3
Estas situações são também exploradas no espaço com duplo pé-direito da entrada da
galeria 1, que constitui um “ponto focal e distributivo dentro do espaço de exposição”
(Giovannini & Zaha Hadid architects 2010: 44). Além disso, é de salientar que o museu
permite responder a diversas solicitações expositivas, já que cada galeria tem uma
geometria interna e características espaciais diferentes, como se pode ver no
comprimento de cerca de 160 metros da galeria 2, na “forma mais compacta” da
galeria 4 e na organização “em três patamares descendentes ligados por uma rampa
contínua” e maior exposição à luz natural da galeria 3 (Giovannini & Zaha Hadid
architects 2010: 44).
O último piso integra a galeria 5, assente num plano inclinado e onde se culmina o
percurso museal, com a grandiosidade de uma vista panorâmica sobre a praça e a
cidade. O diagrama do museu que lembra a espiral de Frank Lloyd Wright, no Museu
Guggenheim de Nova Iorque (Giovannini & Zaha Hadid Architects, 2010: 10), tal como
o átrio e a complexidade escultórica dos gestos assumidos na obra parecem participar
activamente na composição de uma componente teatral que se estende ao museu, no
seu todo.
44
68. MAXXI, galeria 2 69. MAXXI, galeria 4
45
Esta ideia é complementada com o facto de, hoje, os museus de arte contemporânea
já não seguirem um “ordenamento lógico das obras de arte”, como sucedia no
passado, assumindo que a arte apresenta múltiplas direcções, numa “estratégia de
expansão caótica, multiforme e contraditória” (Branza & Chalmers, 2007: 7). Neste
sentido, os autores afirmam que a museografia tradicional deu lugar a um processo
explorativo onde o “verdadeiro material em exposição não é a arte, mas sim o artista e
a sua energia criativa e inovadora” (Branza & Chalmers, 2007: 7). O museu
representa, assim, um “amplo sistema de relações e conexões espaciais e temporais”
e permite oferecer ao público, através da grande flexibilidade dos diversos espaços,
“experiências sempre diversificadas, em vez de espaços rígidos e facilmente
codificáveis” (Avagnina et al., 2010: 131). Segundo Pio Baldi (cit. in Pearson, 2010b),
ex-presidente da Fondazione MAXXI, toda esta riqueza potenciada pela arquitectura
do museu, vai permitir ainda “ver arte a partir de diferentes perspectivas”.
Conforme refere Anna Mattirolo (cit. in Fonti & Caruso, 2012: 77), o MAXXI é um
verdadeiro exemplo de um “lugar no qual o encontro e o confronto entre as diversas
linhas de pensamento encontram expressão, onde o diálogo entre a pesquisa artística
e a cultura contemporânea goza de uma grande autonomia”. Nele, segundo as
palavras da autora, as “obras da colecção não desaparecem no interior destas linhas
sinuosas, mas saem vencedoras por força expressiva e carácter” (Anna Mattirolo cit. in
Fonti & Caruso, 2012: 77). A mesma ideia encontra expressão nas palavras de
Pearson (2010b), que declara que o MAXXI transformou a serenidade da arte e da
arquitectura da cidade, “dando aos visitantes um espaço emocionante para pensar
sobre o futuro”.
46
3.4. Programação e gestão
O MAXXI Arquitectura assenta sobre duas linhas de acção complementares: uma que
se desenrola em torno da historização da arquitectura do século XX e outra
contemporânea, que visa “responder às interrogações e expectativas da sociedade
actual” (Avagnina et al., 2010: 168). Assumindo-se como o “primeiro museu italiano de
arquitectura” deve, pois, colmatar a escassa oferta nesta área, sendo que o
“enraizamento com o contexto cultural e territorial italiano define a identidade e a
missão do museu” (Guccione, 2009: 16-17). O espaço do museu tem uma área de
cerca de 2000 m2, onde se integram o Centro de Documentação dos Arquivos de
Arquitectura, com 400 m2, e duas galerias de 800 m2, com um programa que conjuga a
47
colecção permanente e diversas exposições temporárias, monográficas ou temáticas
(Guccione, 2009: 16-17). A actividade do MAXXI Arquitectura visa um público muito
vasto e diversificado, desenvolvendo o seu programa “em torno da capacidade para
responder às expectativas dos diversos visitantes”, “desde especialistas e estudantes,
até o público generalista” (Fonti & Caruso, 2012: 112).
49
Além disso, o MAXXI elege como um dos seus objectivos primordiais o “apoio à
pesquisa, não só através de uma programação expositiva, mas também através da
troca e da interacção com (…) as academias e as universidades” (Anna Mattirolo cit in.
Fonti & Caruso, 2012: 73). Segundo Anna Mattirolo (cit in. Fonti & Caruso, 2012: 74),
esta missão é também visível na consolidação da sua colecção, no apoio a artistas
italianos mais jovens, na formação e na mediação cultural, que atrai um público mais
amplo e sublinha a sua vocação pública. Deste modo, pode-se afirmar que o museu
assume uma posição de relevo no panorama educativo, que se traduz numa grande
proximidade com o público estudantil, que constitui uma presença assídua.
Receitas
Receitas próprias 3.087.500
Contributos ministeriais 6.087.176
Contributos diversos 912.100
Total 10.086.776
Custos
Exposições e actividades institucionais 4.285.356
Custos gerais 5.700.880
Custos financeiros 93.800
Total 10.080.036
50
81. Relação da participação público-privada, entre os anos 2009 a 2012 (Fondazione MAXXI, 2012a).
A relação entre custos e lucros é equiparável, partindo dos dados referentes a 2013.
No entanto a participação do Estado tem vindo a diminuir, ficando estabelecido com a
aprovação do Decreto Valore Cultura em Outubro de 2013 que o financiamento
público do MAXXI seria de 5 milhões de euros anuais (De Simone, 2014). O objectivo
passa mesmo por repartir a proveniência dos fundos equitativamente (50 por cento de
origem pública e 50 por cento privada), como se pode ver nas declarações de
Giovanna Melandri (cit in. Fallai, 2013). Em 2015, foi firmado um importante acordo
com a Enel (operadora energética italiana), tornando-se a primeira entidade privada
sócia (Enel, 2015), sendo de esperar posteriormente mais parcerias similares e
respectiva participação privada no museu.
500000
500.000
476.400
400000
400.000 352.606 355.268
≈300.000
300000
300.000
209.314
200000
200.000
100000
100.000
0
2011 2012 2013 2014 2015
82. Número de visitantes do MAXXI entre 2011 e 2015. Dados retirados do estudo “Le
classifiche mondiali - mostre & musei” (Martini & Halperin, 2016), do 11º relatório anual
de 2015 da Federculture (2015), do 10º relatório anual da Federculture (2014) e do
relatório anual de 2011 da Fondazione MAXXI (2011). 51
A nível de visitantes as perspectivas do museu são positivas, especialmente pelo
constante crescimento registrado depois do primeiro ano após a fundação. Como
apresentado no gráfico anterior, cerca de 355.000 pessoas visitaram o museu em
2015, número que não representa um crescimento significativo, mas que consolida a
boa afluência de 2014, em que aliás se registou um aumento de 16% relativamente ao
ano anterior. Isto quando já se havia assinalado um aumento de aproximadamente
42% entre 2013 e 2012, o que contribuiu para reforçar o papel do MAXXI como
“referência cultural para Roma, para Itália e a nível internacional” (De Simone, 2014).
Além disso, de Junho de 2013 a Janeiro de 2014, 250.000 pessoas (aproximadamente
1.500 diariamente) visitaram a sua praça, “confirmado ainda mais a sua vocação de
espaço público aberto à cidade e lugar de agregação” (Fondazione MAXXI, 2014).
Contudo, é de referir que grande parte dos visitantes contabilizados não tenha
adquirido o bilhete (equivalente a 12,00 euros inteiro e a 8,00 euros reduzido), devido
a diversas promoções efectuadas e à gratuitidade para estudantes de arte e
arquitectura. A análise da afluência do museu englobou a observação dos relatórios
anuais do MAXXI e de outras fontes indirectas, já que se constatou uma certa
dificuldade na obtenção directa dos dados, através da Fondazione MAXXI.
Para elucidar o impacto que o museu teve em Roma, devem-se salientar os 476.400
visitantes depois de 306 dias de abertura (1556 por dia) (Fondazione MAXXI, 2011),
demonstrando que a instituição foi recebida muito entusiasmo pelo público, como
atestam as declarações de algumas figuras associadas ao projecto:
Almost half a million people have visited MAXXI in its first year. What is also
very encouraging is that the local community has taken to using MAXXI as a
new Roman piazza. MAXXI is no longer just a museum – it has become part of
Rome’s urban fabric. (Zaha Hadid cit in. Fondazione MAXXI, 2011, trad. livre)
This first year at MAXXI has had the intensity of ten in terms of the increase in
attention paid to the contemporary in Rome and Italy, rapidly bridging the gap
that separated us from other cultural realities. (Anna Mattirolo, ex-directora do
MAXXI Arte, cit in. Fondazione MAXXI, 2011, trad. livre)
Os dados referentes a 2014 e 2015, confirmam que o MAXXI está a consolidar o seu
estatuto no panorama nacional e na cidade de Roma. O estudo Le classifiche mondiali
52
- mostre & musei elaborado pelo Il giornale dell’arte em cooperação com The Art
Newspaper revela que, embora o sector dedicado à arte contemporânea se encontre
em crise em Itália, houve em alguns equipamentos culturais um considerável aumento
no número de visitantes, em grande parte devido às exposições temporárias, sendo
que no MAXXI se registou um aumento de 50 mil pessoas, tornando-o o 18º museu
mais visitado e o 2º de arte contemporânea, em Itália, apenas atrás da Collezione
Peggy Guggenheim (Martini & Pes, 2015). O mesmo estudo demonstrou que, em
Roma, os valores apurados para o ano em questão permitiram ao museu consolidar-
se como o 5º museu mais concorrido, isto num contexto extremamente competitivo
onde apenas é suplantado por algumas das grandes referências da cidade. Como
referido previamente, em 2015, ainda que não se tenha registado um crescimento
notável como em 2014, o museu logrou manter a alta afluência e continuar em
destaque.
83. Número de visitantes dos museus italianos em 2014. Dados retirados do estudo “Le
classifiche mondiali - mostre & musei” (Martini & Pes, 2015).
84. Número de visitantes dos museus de Roma em 2014. Dados retirados do 11º 53
relatório anual de 2015 da Federculture (2015).
Museus italianos de arte contemporânea mais visitados em 2014
1 Collezione Peggy Guggenheim Venezia 396.077
2 MAXXI Roma 352.606
3 Gam-Galleria Civica d’Arte Moderna e Contemp. Torino 260.364
4 Museo del Novecento Milano 228.924
5 Macro e Macro Testaccio Roma 218.017
6 Fondazione Pinault (Pal. Grassi, Punta della Dogana) Venezia 217.000
7 Hangar Bicocca Milano 200.00
8 Gnam-Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemp. Roma 146.995
9 Galleria d’Italia – Piazza Scala Milano 146.995
10 Mart-Trento e Rovereto e Casa Depero Rovereto (tm) 146.439
85. Número de visitantes dos museus de arte contemporânea italianos em 2014. Dados retirados do
estudo “Le classifiche mondiali - mostre & musei” (Martini & Pes, 2015).
0 0 2.000.000
20000004.000.000
40000006.000.000
6000000
86. Número de visitantes dos museus de arte contemporânea em 2014. Dados retirados
do estudo Le classifiche mondiali - mostre & musei (Martini & Pes, 2015) e do relatório
anual de 2014 do Museu Berardo.
54
3.5.2. Impacto social e cultural
O MAXXI distingue-se claramente pela sua vocação social, na medida em que a ideia
de espaço público se concilia com as diversas actividades desenvolvidas no museu.
Para além de oferecer um espaço atractivo, o projecto de Zaha Hadid contribui
indubitavelmente para uma destacada regeneração urbana e para a dinamização de
todo o bairro Flaminio.
55
88. Espaço exterior do MAXXI 89. Espaço exterior do MAXXI
90. Espaço exterior do MAXXI: visita guiada 91. Espaço exterior do MAXXI: café-restaurante
As linhas programáticas do Museo nazionale delle arti del XXI secolo pretendem assim
consolidar-se como um “meio de comunicação”, como se pode ver no respectivo site
da Fondazione MAXXI (2016). Primeiramente, ainda na mesma fonte, ressalva-se a
função da arte como “linguagem icónica e simbólica”, possuidora de uma
“compreensibilidade superior” comparativamente às linguagens mais correntes como a
falada e escrita, sendo depois salientada a sua verdade e universalidade, que
permitem compreender e interpretar culturas e visões distintas e “potencialmente
contraditórias, favorecendo a coexistência das diferenças” (Fondazione MAXXI, 2016).
Neste sentido, é apresentada a seguinte imagem, referente à exposição Amos Gitai,
Chronicle of an assassination foretold, um projecto de Amos Gitai que remete para o
conflito entre Israel e Palestina. Neste discurso de aproximação a temas bastante
sensíveis e problemáticos, o MAXXI assume igualmente um papel particularmente
interessante.
92. Exposição Amos Gitai, Chronicle 93. Exposição Amos Gitai, Chronicle 56
of an assassination foretold (2016) of an assassination foretold (2016)
Progressivamente, a vertente social tem contribuído para uma maior aproximação do
público, o que tem ajudado a ultrapassar algumas dificuldades financeiras e a tornar a
própria imagem do museu consideravelmente mais acessível. Actualmente, parte da
colecção permanente de arte e arquitectura, na galeria 4, é gratuita e aberta ao público
de terça-feira a sexta-feira, além de existir a intenção de passar esta área para o piso
térreo, de modo a facilitar o contacto com o público. Outras iniciativas passam por
promoções e reduções nos preços dos bilhetes como as campanhas: “A Natale regala
il MAXXI!”, “San Valentino al MAXXI: 1 biglietto vale per 2!” e “Mamma, ti porto al
MAXXI!”, com a oferta de um bilhete a todas as mães acompanhadas pelos filhos.
Desta forma, a opção por uma bilhética inclusiva, que se traduz num crescente
número de visitantes, e o elevado número de eventos promovidos pelo museu,
demonstram o benefício social decorrente do investimento público.
95. Publicidade San Valentino al MAXXI 96. Convite para leilão a favor da imigração
57
97. Sessões de yoga no MAXXI 98. Sessões de yoga no MAXXI
Actualmente, o museu é cada vez mais visto como uma “marca”. O seu grande poder
de revitalização, aliado ao facto de representar, ou até de se assumir muitas vezes,
como a imagem da própria cidade que o acolhe, faz com que este equipamento seja
parte integrante de estratégias comerciais e de marketing.
Apesar do património histórico da cidade, o MAXXI sempre foi alvo de grande atenção,
mesmo antes da sua construção. Se, por um lado, diversos artigos vangloriavam a sua
arquitectura ou a oportunidade que o museu constituía para a cidade, auspiciando um
grande futuro para a instituição e para a arte contemporânea em Roma, por outro lado,
surgiram fortes contestações ao edifício, ao esforço financeiro que representava para
o Estado e à forma como se articulava com as obras de arte, questionando se fazia
realmente sentido a sua instalação na capital italiana. Na inauguração, a 28 de Maio
de 2010, a diversidade de opiniões era evidente. A título de exemplo, o jornal La
Repubblica publicava, entre outros, os artigos “Finalmente uno spazio per l' arte
contemporanea”, por Maurizio Mochetti (2010) e “Viaggio nell' astronave museo
troppo bello per servire agli artisti”, por Valerio Magrelli (2010). Quanto ao outro jornal
de maior destaque italiano, o Corriere della Sera, através de Manuela Pelati (2010),
optou por enfatizar Roma como “capital da arte contemporânea” aludindo também ao
MACRO.
Este envolvimento com a comunidade local são, aliás, fundamentais para aferir o
sucesso de um museu incluído numa estratégia de regeneração urbana, podendo
mesmo ser vital em eventuais crises económicas e ajudar o museu a distinguir-se da
concorrência (Haarich e Plaza 2009: 11). A aposta na comunicação, o crescente
estabelecimento de parcerias comerciais com entidades privadas locais e a grande
proximidade do público universitário e artístico, em que se salienta o YAP (Young
Architects Program), demonstram esta vontade do MAXXI.
60
Hermitage-Guggenheim Museum3 (2000-2001) do arquitecto Rem Koolhaas
(Montaner, 2003a: 148). Por outro lado, Montaner (2003a: 150) observa que os
interiores das lojas de grandes cidades de renomeadas cadeias como a Nike ou a
Prada, “são desenhados com o desejo de imitar a lógica de apresentação encontrada
em museus”, onde itens produzidos a uma grande escala são expostos como se
fossem objectos únicos, num processo que inicialmente seduz os consumidores a
entrar e depois, a descobrir o restante leque de produtos. Deste modo, se é possível
considerar-se que se as lojas assimilaram vários aspectos originários dos museus,
também é certo que estes equipamentos incorporaram nas suas fileiras estratégias de
marketing que visam promover melhor a sua marca e a sua imagem, abrindo-se a um
público cada vez mais diverso.
3
Note-se que este museu [Link]
Galleria
curtadegli Uffizi,funcionando
existência, Florença apenas entre 2001 e 2008.
61
105. MAXXI, Frame de vídeo publicitário do perfume Chanel nº 5
Além disso, a visibilidade global é cada vez mais uma condição determinante para um
museu se afirmar como um efectivo reactivador económico (Haarich & Plaza, 2009:
13), em que as redes sociais têm vindo a assumir um papel preponderante. No que diz
respeito ao presente caso de estudo, o balanço efectuado é claramente favorável. O
sucesso do MAXXI é comprovado com o primeiro lugar no Index Travel Appeal
(listagem dos museus mais comunicativos da Itália) e com a atribuição do reputado
Lovie Award (prémio para o seu site web), reconhecimentos obtidos após a
contratação de uma curadora de comunicação digital, Prisca Cupellini (Ingrosso et al.,
2016). Segundo Ingrosso, Masini e Restaneo (2016), as diferentes plataformas online
associadas ao museu assumem uma linguagem simples e imediata, com notícias em
tom informal, alguns vídeos sobre as exposições em preparação e imagens bastante
diversificadas. Verifica-se uma forte interacção com o público, com uma rápida
resposta a pedidos de informação e a comentários diversos, o que demonstra uma
“óptima política de social care”, que se reflectiu também no enorme sucesso do
projecto #yourMAXXI (2015).
62
A informação disponibilizada, a constante actualização (como se pode ver pela
adopção de novas tecnologias, que é exemplo a MAXXI App) e o design apelativo
revelam-se apostas bem conseguidas. No entanto, é na sua interacção nas redes
sociais que reside o sucesso da estratégia de comunicação, que permite ao museu
distinguir-se da concorrência.
Na publicação “The use of Web 2.0 tools by Italian contemporary art museums”, em
que Roberta Garibaldi (2015: 238) analisa a actuação dos 25 principais museus de
arte contemporânea italianos integrados na Associazione Musei d'Arte
Contemporanea Italiani, é possível verificar que esta postura participativa não se
estende à maioria dos outros museus. Isto porque Roberta Garibaldi afirma que estes
equipamentos, na altura da investigação (2012), tinham ainda um longo caminho a
percorrer neste âmbito, já que o potencial das ferramentas digitais deriva da
comunicação e promoção da oferta e do estabelecimento da relação entre os
utilizadores e as instituições (Garibaldi, 2015: 239-240). Assim, a autora declara que
os meios mais usados eram o website, contudo apenas considerado para informações
básicas como a história, a localização, o horário e o custo do bilhete, o Facebook e o
TripAdvisor, numa postura que negligenciava o estímulo a uma participação activa e
uma eventual visita ao museu, excluindo ainda a aposta no YouTube, no Twitter e no
Flickr (Garibaldi, 2015: 240).
63
107. Página do MAXXI no Facebook (Julho de 2016)
4
Dados recolhidos na página do Facebook do MAXXI, em Julho de 2016 .
1. Galleria degli Uffizi, Florença
64
109. Página do MAXXI no Twitter
5
Dados recolhidos na página do Twitter do MAXXI, em Julho de 2016 .
6
Dados recolhidos na página do Instagram do MAXXI, em Julho de 2016 .
7
Dados recolhidos na página do Tripadvisor do MAXXI, em Julho de 2016 .
65
Apesar destes resultados serem positivos, o confronto com instituições congéneres
permite revelar um potencial de crescimento. Na tabela seguinte são agrupados os
dados recolhidos numa pesquisa efectuada nas redes sociais relativamente a dois dos
principais museus de Roma, os Museus do Vaticano e os Museus Capitolinos e de
duas das instituições de arte contemporânea de grande destaque internacional: a Tate
Modern de Londres e o Centro Pompidou de Paris. É de referir, porém, que a análise à
Tate Modern diz respeito aos vários espaços tutelados pela Tate Gallery, por
inexistência de contas independentes.
Museus de Roma
Redes sociais MAXXI Museus do Vaticano Museus Capitolinos
Facebook 148.000 202.000 126.000
Twitter 100.000 - 180.000
Instagram 30.000 - 22.000
111. Número de “gostos” no Facebook e seguidores no Twitter e Instagram das páginas dos museus,
em Julho de 2016. Dados extraídos das respectivas páginas nas redes sociais, em Julho de 2016.
Se, por um lado, se pode afirmar que o MAXXI tem conquistado relevância em Roma,
1. Galleria
com uma projecção equiparável à de degli
duasUffizi, Florença de referência na cidade, por
instituições
outro, é notória a falta de impacto que o mesmo possui no campo da arte
contemporânea internacional, sendo perceptível tanto a forte concorrência que
enfrenta como a distância que ainda o separa das instituições mais populares nas
redes sociais.
8
Resultados obtidos no motor de busca Google, em Julho de 2016.
66
mercados periféricos como o da Europa de Leste, pela sua grande proximidade
territorial e o asiático, pela grande representatividade a nível populacional e como
fonte de receitas.
113. Análise de popularidade do MAXXI, dados de Julho de 2016. Dados obtidos na página da
plataforma Google Trends ([Link]/trends)
114. Análise de popularidade geográfica do MAXXI, dados de Julho de 2016. Dados obtidos na página
da plataforma Google Trends ([Link]/trends)
115. Análise de popularidade do MAXXI, dos Musei Capitolini e Musei Vaticani, dados de Julho de
2016. Dados obtidos na página da plataforma Google Trends ([Link]/trends)
1. Galleria
3.5.4. O impacto do MAXXI em Roma degli Uffizi, Florença
1
MAXXI
GNAM
MACRO
A
B
C
D
E
F G 2
H I O
K M P
J L
N
MACRO
Pelo contrário, nota-se que as galerias de arte contemporânea (que estão a adquirir
uma importância crescente) localizam-se, na sua grande maioria, dentro do centro
histórico e na proximidade dos principais locais turísticos. Esta fixação em áreas
próximas à Piazza Navona ou à Piazza Spagna indica igualmente que a arte
contemporânea, apesar de não ser um dos principais focos de interesse para visitar
Roma, suscita interesse junto dos turistas. Além disso, permite conferir que as galerias
procuram não só em lugares emblemáticos, mas também locais caracterizados por um
público predominantemente jovem, artístico e boémio, onde se verifica cada vez mais
um turismo alternativo, como Monti e o Ghetto Ebraico. Paralelamente, destaca-se a
presença das Fundações Nomas e Pastificio Cerere, dedicadas à exposição de arte
contemporânea.
69
No entanto, deve-se considerar que a cidade de Roma é também ela uma marca, com
uma forte imagem e impacto internacional. De acordo com a ex-directora do MAXXI
Arte, Anna Mattirolo (cit. in Mozzetti, 2012) “Roma não é Londres, não é Paris, nem
sequer Nova Iorque: Roma é Roma com a sua própria história completamente original
em comparação com as outras cidades”. Anna Mattirolo (cit. in Mozzetti, 2012) afirma
ainda que a capital italiana “evoca algo único”, não podendo interromper a sua
presença cultural e histórica, para continuar a ser admirada no futuro e encontrar
novas formas de atracção, classificando inclusive o MAXXI como “uma vitrina
importantíssima”.
De acordo com Layuno Rosas (2007: 144), ao longo da história, diversas cidades
“constituíram a imagem do seu espaço urbano como um autêntico museu de obras de
arte, arquitectura e valores paisagísticos”, criando o mito de locais belos e estáveis,
como Veneza. A autora critica estes “estereótipos culturais e urbanos”, alertando para
a clara necessidade de uma “dialéctica entre mudança e conservação”, de modo a
evitar a conversão dos centros históricos em produtos turísticos, com restauros de
fachada de sentido cenográfico, com a expulsão da população residente e do
comércio tradicional, dando lugar a verdadeiras cidades-museu fortemente
dependentes da actividade terciária (Layuno Rosas, 2007: 144). Paralelamente
constata-se que Roma tem verificado alguma dificuldade no branding da sua imagem.
Esta ideia é comprovada pelos 3.6 milhões de visitantes dos 5 maiores museus de
Roma e pelos 9.5 milhões, quando se englobam os locais arqueológicos, enquanto
que em Londres e Paris, os números atingem os 25.3 e 23.4 milhões respectivamente,
segundo dados de 2012 da Federculture (Grigoletto, 2014: 4).
Como explica Pio Baldi (2006: 32), a concepção de um novo museu “na cidade onde
os Museus Capitolinos e Vaticanos nasceram e se tornaram exemplos universais” foi
uma “oportunidade única” para reflectir sobre o papel do museu nas futuras gerações
e para “activar um novo circuito entre o passado e o futuro”. O autor considera que os
museus em Roma parecem ter “paredes de vidro”, afirmando que o MAXXI é
responsável por procurar estabelecer um diálogo com a cidade onde nasceu, com os
monumentos históricos e antigos e com as prestigiadas colecções, o que se traduz
num notável benefício para os museus históricos da cidade (Baldi, 2006: 32).
The strongest thing about monuments is that you do not notice them. Nothing on
earth is more invisible. There is no doubt that they are made to be seen, or better
to attract our attention; but at the same time they possess something that makes
them somewhat impermeable, our attention runs off them like drops of water on a
raincoat, without stopping for a moment. The monuments escape our senses
[because] (…) all that lasts loses its impact… The paintings we hang on our walls
are absorbed by the same wall after a few days. (Robert Musil cit. in Baldi, 2006:
32, trad. livre)
Deste modo, Pio Baldi (2006: 32) conclui declarando que, para serem reconhecidos,
os monumentos devem estar ocupados e num ambiente dinâmico, de modo a
aumentar a sua visibilidade, sendo este um aspecto que o MAXXI pode potenciar.
70
120. Vista do MAXXI sobre a cidade
2.800.000
2800000
2.700.000
2700000
2600000
2.600.000
2500000
2.500.000
2400000
2.400.000
2300000
2.300.000
2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
121. População residente em Roma, entre 2001 e 2015. Dados obtidos a partir da página
Tuttitalia ([Link]) referentes ao ISTAT, consultada em Outubro de 2016.
Populaçã[Link] em Flaminio,
Galleria degli de 2001 a 2015
Uffizi, Florença
14500
14.500
14000
14.000
13500
13.500
13000
13.000
12500
12.500
12000
12.000
11500
11.500
11000
11.000
2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
122. População residente em Flaminio, entre 2001 e 2015. Dados obtidos a partir da página
Laboratorio Roma ([Link]) e dos relatórios: Annuario Statistico 2015 e
Popolazione iscritta in anagrafe al 31 dicembre 2015 per suddivisione toponomástica, de
Roma Statistica, consultados em Outubro de 2016.
Rede de Metro Rede de eléctricos Rede de autocarros Rede de comboio urbano MAXXI
9
O Comité Olímpico Italiano suspendeu a candidatura, em Outubro de 2016.
10
Dados obtidos em: Il trasporto pubblico locale a Roma nel 2015, no sítio institucional da Comune di
Roma (em [Link]).
11
Roma divide-se em vinte Municípios. Flaminio inclui-se no Município II, que engloba também os
quartiere Parioli, Pinciano, Salario e Trieste. Pela limitação de dados referentes a Flaminio recorreu-se
em determinados casos, ao estudo de análises baseadas no Município. Ainda que os dados recolhidos
74
constatou-se a inexistência de construção de novos edifícios residenciais entre 2005 e
201112. Além disso, também no Município II e durante o período compreendido entre
2004 e 2011, foram solicitados 98 pedidos de autorização para a construção, tendo
sido aceites 90 (12 destinados à habitação, 10 comerciais, 60 mistos, 1 para
estacionamento e 15 não indicados), o que representa um valor reduzido quando se
considera que, durante o mesmo período de tempo, se assinalaram em Roma um total
de 11.068 pedidos13.
7000
7.000
6.418
6.252 6.196 6.215 6.157
6000 5.823
6.000 5.609
5.076
5000
5.000
4000
4.000
3000
3.000
2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
128. Valor médio da construção por metro quadrado, na área de Flaminio, Parioli, entre 2008 e
2015. Dados obtidos a partir dos relatórios anuais Andamento del mercato immobiliare, da
Agenzia del Territorio ([Link])
possam ser inconclusivos em certos pontos de vista pela sua abrangência, permitem constituir
relevantes noções para a identificação das dinâmicas do lugar e do funcionamento do local no seu todo.
12
Dados obtidos no portal DatiOpen ([Link]/[Link])
13
Dados obtidos no portal DatiOpen ([Link]/[Link])
14
Dados obtidos a partir dos relatórios anuais Andamento del mercato immobiliare, de 2008 e 2015, da
Agenzia del Territorio, ([Link]).
15
Note-se que em 2014 a percentagem de solo consumido era equivalente a 57,3%, apenas atrás do
Centro Histórico (67,7%), segundo dados obtidos no portal DatiOpen
([Link]/[Link]).
75
A influência do MAXXI no preço médio por metro quadrado da construção parece
assim não ter sido um dos objectivos primordiais do projecto, como se pode ver aliás,
na ausência de uma avaliação prévia (estudo custo-benefício) ou posterior. Contudo,
deve-se referir que a criação da nova Città della Scienza determina, além de 10.000
m2 de equipamentos comerciais e 14.000 m2 de espaço público, prevê a criação de
35.000 m2 de construção de uso residencial.
16
É de referir que o Município II foi o que apresentou na cidade de Roma em 2013, rendimentos
declarados mais altos (40.655,89€), segundo os dados obtidos em Il Reddito dei Romani - Redditi 2013,
disponível em ([Link])
17
Dados obtidos no portal DatiOpen ([Link]/[Link])
76
129. MAXXI, vista exterior
Roma assumiu-se como um centro cultural de relevo desde muito cedo, estando a sua
tradição museográfica na origem do coleccionismo, pelo permanente contacto com a
cultura antiga e pela presença de reconhecidos artistas. O fenómeno da arte
contemporânea desponta particularmente no início da década de 1930, com as
Quadriennale e a vontade do regime de Benito Mussolini em afirmar Roma como um
símbolo da arte dedicada ao presente. Contudo, apesar da cultura contemporânea
77
estar integrada há algum tempo na cidade, e da relevante contribuição de
equipamentos como a GNAM e o MACRO, esta apresenta ainda um significativo
potencial de crescimento.
Com efeito, o Museo nazionale delle arti del XXI secolo, apesar de ser uma obra
relativamente recente, permite constatar certos pontos de vista fundamentais.
Primeiramente, é pertinente valorizar a integração da construção do MAXXI no plano
cultural estabelecido para o novo pólo cultural de Flaminio. Sendo parte integrante de
uma estratégia de larga escala, de relevante centralidade e de grande apoio estatal,
verifica-se também uma proximidade para com outros equipamentos de referência
como a Ponte della Musica, o Palazzeto dello Sport, o Auditorium Parco della Musica e
os estádios Olimpico e Flaminio. Actualmente, o bairro residencial de Flaminio
apresenta uma dinâmica sócio-económica positiva, especialmente pela fixação de
estabelecimentos comerciais, empresariais, universidades e claro, pela contiguidade à
Piazza del Popolo e à Villa Borghese. Contudo, mais a Norte (onde se situa este
conjunto urbano de equipamentos de referência) e mais longe da Porta del Popolo,
tende a enfraquecer-se esse dinamismo e conexão com o centro histórico da cidade.
78
Por outro lado, o balanço do projecto de arquitectura de Zaha Hadid é bastante
positivo. A sua relação com a cidade é assinalável, já que cumpre em termos de
criação de imagem (apesar de pareceres menos positivos, de facto a obra teve um
amplo destaque na imprensa) e a nível de escala e integração no contexto e tecido
urbano. Paralelamente, salienta-se também o respeito da pré-existência, tanto a nível
da interligação com os edifícios adjacentes como pela preservação do carácter
industrial. No interior, a obra corresponde também às exigências funcionais de um
museu, criando um interior de ampla riqueza espacial, onde a estrutura, a luz e o
percurso estão em permanente contacto e permitem uma visita envolvente e
eximiamente terminada com uma vista panorâmica sobre a cidade. Além disso, a
praça que configura é actualmente muito concorrida e tornou-se um elemento-chave
no bairro.
Pode-se, assim, afirmar que se instituiu um diálogo entre o museu e a envolvente onde
o MAXXI procura estabelecer novas relações de equilíbrio entre os distintos elementos
do quartiere, de modo a consolidar e recuperar o existente (Pergola, 2008: 19).
Segundo a arquitecta Silvia La Pergola, é também de relevar a forma como o MAXXI
evoca esse “carácter industrial, de corpo de fábrica iluminado do alto e de lógica e
organização prevalentemente horizontal”.
A estrutura do museu e modelo de gestão suscitam outra questão. Se, por um lado, é
certo que o número de visitantes tem aumentado, por outro, constata-se ainda um
potencial em gerar mais receitas. Assim, a consolidação de convenções com
entidades privadas e a aposta em cativar um número superior de membros
contribuintes e associados podem ser considerações a explorar. Como foi visto, o
MAXXI poderia beneficiar também de uma incursão e atracção de mercados
periféricos como o da Europa de Leste e o Asiático, podendo constituir além de um
público de interesse, eventuais parcerias financeiras de relevo.
79
estratégicas, um plano de marketing forte e apelativo, concordante com o próprio
carácter do conjunto e sustentado por uma comunicação acessível e por um incentivo
à participação. A popularidade de um museu é um dos meios para gerar receitas,
atrair novos públicos e do qual depende o sucesso da iniciativa. Como provado no
presente caso, esta prática contribuiu para o confronto ao cepticismo conservador
inicial, num processo que viria a transformar por completo a imagem do museu e que
permitiu afirmar a sua posição na cidade e no panorama museográfico internacional. O
MAXXI representa um forte contributo para a renovação cultural e identitária de Roma,
demonstrando que o conceito de museu de arte contemporânea é capaz de assumir
um impacto de ampla dimensão. Do ponto de vista económico é pertinente destacar
ainda como o esforço financeiro é compensado pelo benefício económico, directo e
indirecto, que o museu representa para a cidade e os demais equipamentos de
destaque.
80
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Entrevistas
90
6. Anexos
91
Anex
oI:MAXXI
,pl
ant
adei
mpl
ant
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Esc
ala1.
2000)
I
I
AnexoI
I:MAXXI
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I
AnexoI
II
:MAXXI
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I
II
I
Anex
oIV:MAXXI
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V
Anex
oV:MAXXI
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V
AnexoVI
:MAXXI
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VI
I
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Anex ,c
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VI
I
VI
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AnexoVI
II
:MAXXI
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I
I
AnexoI ,c
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