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A Profundidade da Estética na Arte

O autor discute a importância de um livro notável que foi ignorado pela crítica literária, destacando sua profundidade e capacidade de penetrar na filosofia da arte. Ele explora a relação entre a música, a vontade universal e a experiência estética, mencionando influências de pensadores como Schopenhauer e a tradição grega. A obra é apresentada como uma chave para compreender os segredos da tragédia mítica e a essência da experiência estética que transcende a razão.

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Rodrigo Moraes
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A Profundidade da Estética na Arte

O autor discute a importância de um livro notável que foi ignorado pela crítica literária, destacando sua profundidade e capacidade de penetrar na filosofia da arte. Ele explora a relação entre a música, a vontade universal e a experiência estética, mencionando influências de pensadores como Schopenhauer e a tradição grega. A obra é apresentada como uma chave para compreender os segredos da tragédia mítica e a essência da experiência estética que transcende a razão.

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Quem não for suicientemente bem informado a respeito

do destino peculiar reservado aos livros poderá icar bastante


surpreso ao ver que esse livro tão notável foi, durante
vários meses, totalmente ignorado pela crítica literária competente,
que costuma ser bem informada e ativa. Em todo
caso, eximindo-se de investigar mais a undo os motivos
desse silêncio surpreendente, que têm boa probabilidade de
ser instrutivos em alguns aspectos, o autor da presente resenha
acredita ter de admitir, em favor dos senhores que ocupam
cátedras de grande prestígio, que não foi a presunção
de um ponto de vista superior o que os impediu de rebaixar
seu olhar ao objeto aqui considerado. Pelo menos aquele
que possui, em lugar de um nome de peso, o peso de uma
convicção íntima sente, justamente por isso, obrigação moral
de dirigir a atenção pública para esse livro, tanto quanto
possível, porque é muito raro encontrar, em toda a vasta
literatura, algo semelhante em termos de proundidade e
capacidade de penetração no campo da consideração ilosóica
da arte; e, quanto à produção literária mais recente, não
se encontra nela nada comparável. Mesmo que apenas a
seríssima ciência da estética fosse enriquecida por essa obra, 43
como uma projeção luminosa enganadora. O que antes parecia
tão esplêndido, a plenitude das iguras que se inseriam no fluxo
eterno, mostra-se então como a total nulidade de um perpétuo ir
e vir das ondas. Com grande horror, o homem tem a impressão
de estar mergulhando no nada, em um abismo sem undo; no
entanto, é animado pela elevada sensação de um deleite inteiramente
novo, mágico e poderoso. O sol se põe, mas agora se mostra
no alto o extenso exército das estrelas. Assim, a plenitude da
vida diurna se dissipa como umaça diante dos olhos do homem,
mas ele sente arder dentro de si o fogo mais fértil, sente-se como
se fosse ele mesmo o uno, o eterno, que a cada dia constrói novos
reinos de beleza em toda a vida da Terra e nas distâncias solares
do ininito.
Caso a vida o desperte então desse estado de completa submersão,
ele retoma das proundezas como faziam os iniciados ao
saírem da gruta de Trofônio. Deixou para trás seu riso alegre, e o
mundo miserável dos fenômenos mutáveis parece mirá-lo com
uma epressão pálida e fantasmagórica. Apavorado e perturbado,
ele deseja intensamente escapar do reino do conflito e da
inquietação transitória, para se encaminhar de volta ao encantamento
que o inha acolhido no seio do velho pai das coisas, o caos
primordial, que lhe parece estar se consumindo em convulsões
doenias, na perpétua autodestruição da muliplicidade. Tornando- ,
se uma nostalgia ardente, esse ímpeto pode dominar toda a sua
vida e tomar a forma de uma mística religiosa. Quem ousaria
recriminar a prounda gravidade dos ascetas orientais e ocidentais
que, a partir desse fervor de superação do mundo, aprenderam
a dominar a diícil arte de morrer? Mas é certo que o entusiasmo
élllargo de tais místicos, ao irromper em toda a sua
potência demoníaca, destrói o mundo e a vida, a arte e a história.
Se esse entusiasmo atrai para seu círculo a massa, constituída
pelos que dependem da terra provedora de alimerto e pelos
que são incapazes da gravidade que supera toda preocupação
particular, faz deles todos fariseus estúpidos, ou uma turba fanática
que acaba sendo impelida para um abismo de horror.
Para os gregos, as fortes agitações de um entusiasmo panteísta
não eram de modo algum inabituais. Após a época de
Homero, esse tipo de entusiasmo, vindo do Oriente, espalhou-se
em ondas poderosas por toda a terra helênica, sob os gril e
júbilo dos seguidores de Dioniso. No entanto, os gregos form
preservados dos excessos da negação absoluta por aquela mesma
natureza divina, inerente a eles, que também os protegia do perigo
igualmente grande de verem a sua acuidade na compreensão
de coisas exteriores reduzida a um mero mecanismo, a serviço de
uma vitalidade e uma avidez demoníacas. Eles conseguiram, por
meio da palavra mágica da arte, dominar o tur8ilhão efervescente
que ameaçava arrastá-los para as proundezas. O misterioso
encanto das artes plásticas e da arte épica se baseia no fato de
que, acalmando as forças cobiçosas da vontade na quietude sonhadora
do mar, elas incitam as capacidades intuitivas de nossa
natureza a absorver o mais elevado esplendor do fenômeno.
Assim também, a capacidade artística humana �iza o prodígio
de, a partir do deleite espantoso do êxtase místico, �mposto pela
mais prounda agitação de todas as potências da vontade que nos
ligam ao uno da vontade universal, alcançar uma elevação salvadora
e entusiasmada, dando forma à imagem desse fogo universal,
dominador e violento que se torna objetivo na música. A
poderosa vontade universal, a vontade que formou os mundos
da vida orgânica e inorgânica, abre caminho na música, a partir
do coração do homem, como que irrompendo em labaredas
insistentes; ela encontra nos sons ritmados da mais misteriosa
das artes sua transiguração mais elevada, que a reproduz artisticamente.
Nesse conhecimento, que de fato indica um caminho
inteiramente novo para a estética, nosso autor se liga ao grande
pensador, cujas concepções em geral compartilha: Arthur Schopenhauer.
Decerto alguns pensadores gregos não estavam longe
dessa mesma compreensão, como se percebe a partir de determinadas
passagens de Aristóteles no livro oitavo da Política, e especialmente
a partir da opinião proundamente enraizada em
alguns pitagóricos, para quem a alma humana nada mais era que
uma harmonia musical (o que tornaria possível, por exemplo,
curar doenças com ajuda de uma música harmoniosa).
Mas será que o coração do ouvinte, quanto mais impetuosamente
se espalha essa torrente universal da música, não é incitado
de modo mais intenso a se deixar levar, no êxtase do autoesquecimento,
para as proundezas da noite ancestral em que 47
desemboca a torrente em turbilhão? Pelo menos era essa a sensação
dos gregos em relação às delirantes músicas de lauta dos
asiáticos. É a mesma sensação de horror, diante da desmesura de
um arrebatamento sobre-humano, que obriga o Fausto de Goethe
(no prólogo da segunda parte) a se desviar do majestoso sol
universal para o "relexo colorido" da cachoeira que cintila aos
raios solares.1 Não é o caso dos gregos: para eles, justamente a
partir desse arrebatamento proundo propiciado pela música,
desenvolvia-se a força para superar o conlito de monstruosas
opressões e assim alcançar a luz salvadora da aparência. Se, para
eles, ressoava na música a essência mais íntima do mundo em
assombrosa universalidade, então a vontade universal os atravessava
com sua força criadora. A partir da música, eles trouxeram
à tona a analogia da imagem rejuvenescida do mito trágico. Sendo
assim, à medida que a força dionisíaca da música gera o mito,
com uma potência que em certo sentido pode ser chamada de
cosmogônica, ela acaba retornando à luz amistosa do mundo
humano após violentos embates. Nesse ponto, Dioniso estende a
mão ao seu irmão divino, Apolo, o deus olímpico do fenômeno;
os horrores do abismo são banidos, embora não ressoe mais, no
canto em conjunto de Dioniso e Apolo, a brilhante canção festiva
da beleza do fenômeno. Aquele canto fala de forças universais
mais proundas, que dão ao reino dos fenômenos mutáveis a
forma não da animada jovialidade, mas de uma gravidade solene,
e assim, na alternância ugaz de sorimento e prazer, na própria
morte e no declínio do que há de mais nobre e mais sublime,
conquista-se uma satisfação dolorosa, misteriosa em sua
essência, da qual a analfgia enigmática da tragédia mítica pretende
dar uma noção signiicativa. Nunca mais os conceitos e as
palavras bastaram para demonstrar completamente ao entendimento
o prazer, realmente sobre-humano, que se experimenta
na dor e no declínio quando se contemplam as [Link] trágicas;
no entanto esse prazer é experimentado diante de toda tragédia
autêntica, por qualquer entendimento humano. Por caminhos
morais - que de fato foram trilhados . até mesmo por
Schopenhauer - nunca nos aproximaremos da meta dessa concepção
diicílima. Até onde esses abismos podem ser iluminados
pela tocha da compreensão estética, nosso autor certamente conseguiu
iluminá-los, e fez isso pela primeira vez. O que iou
indicado aqui obscuramente, apenas em resumo, foi mostrado
pelo autor de modo enérgico e evidente, seguindo o desenvolimento
claro da arte grega (oculto para os que têm uma vista
curta) como a lei undamental do desenvolvimento da capacidade
artística humana.
Porém, se é tão diícil indicar com palavras, ou seja, com
conceitos, e totalmente impossível sondar por completo a sabedoria
dionisíaca da tragédia mítica, experimentadf cqm plenitude
por cada ouvinte estético, o motivo está justamente no fato de
que se trata aqui dos mais proundos segredos, epressos e. uma
linguagem muito superior a toda razão e à sua epressão n � linguagem
das palavras. Enquanto a razão se esforça para abarcar
todo o mundo das coisas em conceitos abstratos, o mito se baseia
em uma compreensão mais rica, mais plena de conteúdo, das
forças que constituem o mundo, pois é capaz de captar, em suas
formas poéticas, a onipresença da natureza. Essa compreensão
que se enraíza na pré-história dos povos, abençoada pelos deuses,

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