Tal desmesura de chamas ameaça destruir o indivíduo,
como faria um mundo incandescente; no entanto, revela-se ao
mesmo tempo a mais elevada força salvadora de criação da
arte. Assim como a música dos artistas e:pressa analogicamente
a essência mais prounda do mundo,_ e_m prod_igQs� [Link],
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irradia-se a partir do mar revolto da arte musical uma
segunda analogia[que repete em um processo da vida individual
do homem a grandeza avassaladora da música, como que
rejuvenescida milhões de vezes, tornando-a suportável para a
co�preensão humana. Em uma luta aterradora, a música dá à
luz� mito, uma imagem analógica das forças universais onipotentes J
O conhecimento conceitual jamais possibilitará que se
acompanhe a ação das forças por meio das quais a potência
universal, que se encontra fora do tempo e do espaço, vem a se
manifestar na obra do artista, tornando-se reconhecível primeiro
na forma do tempo, e depois erigindo a partir da música
a imagem analógica que se move simultaneamente no tempo
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e no espaço. Quem fosse capaz de entender esse processo teria
resolvido o enigma do mundo. Mas a obra de arte superior, tal
como se apresenta a nós na tragédia mitica nascida da música,
nos dá a certeza incandescente da existência dessas capacidades
demoníacas.
Em suma, o processo artístico esclarecido no livro não foi
apresentado pelo autor como uma experiência imediata; foi conquistado
historicamente a partir do desenvolvimento da capacidade
artística helênica. Os próprios gregos tinham distinguido
muito bem os dois impulsos artísticos, inteiramente diversos, da
contemplação épica e da interioridade dramática, sentindo-se
entusiasmados com a primeira por intermédio de Febo Apolo, o
amigo da beleza, e com a segunda por intermédio do deus das
mais violentas forças naturais, Dioniso. Se o impulso apolíneo se
manifestou do modo mais esplêndido na epopéia de Homero,
em seguida um entusiasmo dionisíaco irrompeu poderosamente
e agitou toda a Hélade. Na música dionisíaca, esse entusiasmo
epressava artisticamente sua vida ardente; na poesia lírica, ele
reletia a essência da música, que era elevada muito acima de
toda paixão individual, como que em imagens particulares da
situação; inalmente, na tragédia, era capaz de expor vivamente
para a compreensão intuitiva, em imagens analógicas, o signiicado
mais proundo da música e da vida por meio do mito, nas- , cido por sua vez da música.
Esta resenha tem a intenção de convidar o leitor a deixar que
o autor explique como tudo isso se dá, em sua exposição que se
mostra imediatamente convincente, graças à proundidade e clareza.
Deve interessar tanto aos ilólogos quanto aos estetas ver
resolvidos aqui, em virtude de uma feliz associação das considerações
estéticas e históricas, problemas tão surpreendentes
com ? desenvolv�mento da tragédia a partir do canto de dança
do coro dionisíac; a ligação, muitas vezes assinalada, entre os
elementos épicos e líricos na tragédia; a capacidade que todo leitor
tem de perceber a proundidade insondável de signiicação
da tragédia, mesmo que ela seja a representação de uma ação
muito clara. Se, em regra geral, até agora se rebaixou a tragédia
ao nível de uma colossal fábula de Esopo, procurando as pistas
de um assim chamado "pensamento undamental': aqui se justiica
o que tinha dado a tais tentativas ao menos o impulso correto,
mas com uma proundidade e uma força de compreensão
totalmente diferentes.
Tdavia, o autor avança da consideração histórica da Antigüidade
distante, através da vastidão dos tempos, até o nosso
momento presente. Ele descreve a mor � da tragédia grega, ocorrida
depois de seu breve lorescimento§ua força artística, capaz
de expressar os derradeiros segredos do ordenamento cósmico
em imagens míticas, desagregou-se diante do esforço de um
conhecimento cientíico desse ordenamento cósmico em toda a
sua proundidade e amplitude, um conhecimento que fosse imediatamente
compreensível. Trata-se de algo que se impôs pela
primeira vez, com a violência demoníaca do instinto, a Sócrates,
e a parti� de então manteve em atividade todas as forças do longo
outono e do longo inverno da cultura helênica. Quando, na
época do renascimento de uma formação cultural mais livre, a
Europa se voltou para os únicos mestres dignos, os gregos, ela se
baseou imediatamente nesse impulso socrático-alexandrino de
undam entação do mundo, e desde então os nossos melhores
esforços se enraízam em um alexandrinismo intensamente acentuado.
Mas o autor demonstra como essa direção dominante e
exclusiva, embora nobre se considerada em si mesma, sufocou
inteiramente as mais proundas capacidades da criatividade hlmana;
demonstra também como o caminho tomado nos conduz
sempre em círculos, a partir da noção prounda e delirante de
que todos os abismos poderiam ser medidos com o metro da
lógica; demonstra, inalmente, como o otimismo teórico herdado
de Sócrates se transforma, dominando toda a nossa cultura,
em um eudemonismo prático, que por sua vez tornou-se uma
exigência exaltada e ameaça desencadear gradativamente sobre
essa cultura deteriorada m inferno de poderes destrutivos.
Nesse ponto, contudo, o autor é animado por uma esperança
consoladora: a de que, superando o alexandrinismo, possamos
enim aprender com os gregos o que há de mais elevado e des-
? pertemos novamente a arte apolíneo-dionisíaca da tragédia, a
im de inaugurar na cultura nova e promissora. Mas é ao nosso
povo alemão, recentemente despertado de um longo sono, que
parece reservado esse desenvolvimento esplêndido em direção a 39