não vem de Nietzsche, mas de Schelling, Hegel e
Hõlderlin, coube
a Nietzsche, apropriando-se de estudos filológicos para
pensar
filosoficamente, ligar o dionislaco ao trágico,
explicando o
nascimento do trágico a partir do dionisíaco. Posição
que o leva
a estabelecer que a imitação dos gregos significa
fundamentalo
ᄋ セ@
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- c
33
34 mente o renascimento da arte apolíneo-dionisíaca da
tragédia,
que teria sido invalidada pelo racionalismo socrático.
Ora, essa introdução do dionisíaco na interpretação
metafísica
da tragédia só acontece porque Nietzsche incorpora
dois saberes
extra-filológicos em sua interpretação da Grécia: a
música
de Wagner e a ftlosofia de Schopenhauer. A
originalidade de
Nietzsche em O nascimento da tragédia foi, inspirado
na idéia
wagneriana de drama musical, valorizar a música para
pensar a
tragédia grega como sendo uma arte fundamentalmente
musical,
ou como tendo origem no espírito da música, concebida
como
única força capaz de expressar o dionisíaco. Mas
também articular
a filosofia de Schopenhauer com o movin1ento cultural
de
utilização da Grécia como modelo para pensar a cultura
alemã,
através de um renascimento do espírito trágico, idéia
que não
existe em Schopenhauer. E o elo que possibilitou isso
foi certamente
Wagner.
Assim, dois fatores explicam, em última análise, a
polêmica
que a leitura de O nascimento da tragédia suscitou
nos colegas de
especialidade de Niet7..sche: primeiro, a crítica da ciência em
nome
da arte; segundo, a subordinação da filologia à filosofia.
O
que me leva a pensar que a melhor forma de ler esses
documentos
é levar em conta que, ao unir a filologia à música e à
filosofia
c assim conceber o seu centauro/' Nictzsche não quer
mais se limitar
a ser um especialista. Pois se, para além do ataque de
Wilamowitz
e da defesa de Rohde, O nascimento da tragédia é um
livro
desconcertante para a filologia, é principalmente
porque seu
autor é, nesse momento, um filólogo que ousa pensar
filosoficamente,
como um modo de dar vida a sua especialidade ou de
torná-la um instrumento a se rviço da vida. Um filólogo
que, como
enunciará o final do prefácio de seu escrito "Da
utilidade c
desvantagem da história para a vida': atua em seu
tempo de uma
maneira intempestiva, isto é, contra o tempo, em favor
de um
tempo por vir.
Ewin Rohde
RESENHA (RECUSADA) PARA A
LiERARISCHE lENTRALBLAT
•Friedrich Nietzsche (professor regular de filologia
clássica na Universidade da Basiléia). O nascimento
da tragédia no espírito da música. leipzig, 1872.
O objetivo do livro em questão corresponde com clareza e
precisão ao seu título. Ele pretende abrir um novo caminho
para a compreensão do mais proundo segredo estético: o
das criações prodigiosas da arte trágica, até agora rigidamente
impenetráveis para inúmeras tentativas de interpretação,
sejam elas triviais ou proundas, que as consideravam
a partir de um ponto de vista exterior, como realizações já
prontas. Aqui, elas serão elucidadas como que do interior,
para que se obtenha uma compreensão mais penetrante;
devemos tomar conhecimento do que elas são em sua verdadeira
essência, ao considerar a maneira como se tornaram
o que são. Portanto, o caminho da investigação é histórico,
mas é o de uma autêntica história da arte, que sabe levar em
questão as próprias obras de arte com proundidade em
busca da solução deinitiva de seu enigma, em vez de jogar
infantilmente com as parcas indicações das crônicas e da
poética, como fazem as crianças com nozes ocas. Apenas
esse modo superior de consideração histórica garante sua
ainidade com a arte, uma vez que as descobertas assim
alcançadas oferecem ensinamentos de validade geral acerca 35
da essência eterna da vontade e das faculdades humanas. Com
isso, poderemos ter esperança de apontar o sentido do que diz o
autor se, com? pretendemos fazer a seguir, caracterizar1mos de
forma geral ��ci�- d<tª:!<ipi�ana ��ue ele
identiicou e apresentou no desenvolvimento histórico do gênio
artístico grego.
O homem, posto em um mundo de tormentos e movido
pelo fluxo de uma ânsia ininita, está desamparadamente abandonado
ao sorimento eterno. Quanto mais proundos forem o
sorimento e a compaixão experimentados por sua rágil alma
.
humaií quanto mais resoluto seu desprezo pela situação instável
desse mundo, mais desamparado ele se encontrará. No
entanto, existe uma força salvadora que se encontra em seu róprio
íntimo, aquela força prodigiosa que o impele a criar, como
por magia, a partir do material conuso das sensações, uma série ,
de imagens que se desenvolvem continuamente fora dele, no �
espaço e no tempo, segundo a lei da causalidade. Na contemplação
dessas imagens, ele se sente imediatamente feliz, ou melhor,
totalmente arrebatado pelo domínio em que a felicidade e a ,, infelicidade são as estrelas-guias.
Essas imagens consoladoras o
acompanham por toda parte, ele as repete em sonho e, completamente
tomado por seu esplendor, sente-se capaz de captar,
na clareza poética da epopéia, �sse mundo maravilh9so da apa:
rência, a im de obter com ele um prazer duradouro. A obra de
�pica exerce, no grau mais elevado, o poder dé libertar da
violência daquela vontade que move todas as coisas: vemos desilar
à nossa rente, em longas séries de imagens, tudo o que há
para amar e temer neste mundo, mas com isso não sentimos
nem alegria nem terror, nem desejo nem medo; vemos com
olhos bem atentoss as que se movem esplendidamente e
nada mais cobiçamos.
Mas, quando o homem está inteiramente perdido nessa
contemplação prounda das ricas imagens da vida individual,
apodera-se dele repentinamente, em meio à contemplação
mais absorta, uma iluminação ulgurante de um tipo totalmente
diferente. Se, até então, sentia-se protegido, na posse do que
-�· · há de mais real, isto é, desse mundo seguro daif._� �e�tudo
se desfaz como um véu de névoa, a ilusão da individuação o
abandona, o homem é engolido pelas trevas púrpuras das proundezas,
onde o Uno abarca a correnteza da vida eternamee
movimentada. A superície cintilante de tal movimento, com
suas ondas que crescem e decrescem rapidamente, tinha sido
tomada pelo homem como o que existia de real. Agora ele se dá
conta, horrorizado, de que esses milhões de ondas não são
nada, o não-ser eterno, e um pavor terrível se apodera dele
quando faz essa descoberta sobre-humana. No entanto, ele é
tocado de 4iversas maneiras por um ardente encantamento:
pois, como Prometeu libertado de suas correntes, tem a sensação
de estar livre de todas as amarras que coninam sua estreita
individualidade, de ser movido por uma poderosa e ilimitada
liberdade, de ser carregado pela agitação tempestuosa de uma
alegria e de uma dor nunca antes experimentadas. Então, essa
excitação ab�urdamente intensiicada abre_ caminh�ara o
exterior, todo júbilo e todo tormento do universo ganham voz
em seu íntimo e se propagam em melodias terrivelmente sublimes.
Agora, a música se agita como uma força elementar desenfreada,
um mar de fogo nos envolve, e que fogo! "Será amor?
Será ódio? que nos envolvem com ardor, alternando dores e alegrias
prodigiosas?"