dadeiro
filólogo, pois enquanto a filologia é uma ciência
histórica
e critica, o autor de O nascimento da tragédia é um
místico, o
pregador de uma religião dionisíaca, e, portanto, não
deveria estar
na universidade.
Rohde fica indignado com "a perfidia do panfleto" de
Wilamowitz.
Vendo nele a manifestação do ciúme pelo fato de
Nictzsche ter uma cátedra, aconselha ao amigo que não
se rebaixe
respondendo, pois ele próprio liquidará o indivíduo
com dureza,
frieza e desprezo numa carta a Wagner que dará uma
justificação
histórico-filológica das idéias contidas em O
nascimento
da tragédia.l<l Nietzsche, para quem Wilamuwitz nãu o
compreendeu
nem no todo nem nas partes, concorda que é preciso
abatê-lo, que é indispensável que ele seja castigado
publicamente,
e alegra-se com a idéia de Rohde escrever uma carta
aberta a
Wagner.21
Era preciso, portanto, responder a Wilamowitz. Mas
responder
filologicamente, pois é aí que res ide a dificuldade de
aceitação do livro. Nietzsche vê isso claramente. O
ideal seria
que um filólogo de renome se colocasse a seu lado.
Mas, desde
que Ritschl, seu antigo protetor, preferiu calar-se, ele
perdeu
a esperança de que isso acontecesse. dai por que
procura,
mais uma vez, convencer Rohde a se manter no âmbito
da filologia,
mostrando para os filólogos o quanto é rigorosa a visão
que os dois têm da Antigüidade. E é interessante notar que
esse
desejo de que a resposta tenha um endereço certo o leva
até
mesmo a dizer o que poderia ser o texto de Rohde: "No
inicio
você poderia dizer que se dirige a Wagner, e não aos
filólogos,
porque falta um fórum supremo ao qual expor o
resultado de
nossos estudos sobre a Antigüidade. Em seguida você
poderia
evocar nossas experiências e esperanças bayreuthianas,
justificando
por que as ligamos à Antigüidade. Depois, chegando a
meu livro ... "22 Sentindo o quanto é ridículo dizer a
Rohde o que
este deve escrever, Nietzsche pára.
Como Rohde demora cerca de três meses para escrever
o seu
artigo, o passo seguinte-ou talvez fosse melhor dizer o
golpe seguinte-
é dado por Wagner, cuja carta aberta a Nietzsche, de 14
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de junho de 1872, vai em direção diametralmente
oposta à que
este desejava imprimir à polêmica, embora seja
profundamente
reveladora do projeto político-cultural de O nascimento
da tragédia.
Por quê? Porque, para defender Nietzsche como um
filólogo
com o nobre destino de restaurar a cultura e o espírito
alemão,
Wagner escolheu justamente o caminho da crítica à
filologia.
Partindo de sua experiência pessoal, o "venerado
mestre" de
Nietzsche e Rohde salienta que tirou da Antigüidade
um ideal
para sua concepção da música sem nenhuma influência
do que
havia aprendido na escola, pois o espírito da
Antigüidade estava
longe de seus professores de grego. Generaliza, em
seguida, essa
experiência ao afirmar que os artistas não têm a mlnima
necessidade
da filologia, que está a serviço não das musas artísticas,
mas da ciência, e que, se é verdade que a filologia deve
contribuir
para a criação de uma cultura superior, a filologia atual,
com sua
pobreza afljtiva, não exerce nenhuma influência sobre a
cultura
alemã: só serve para produzir filólogos pura e
simplesmente úteis
a si próprios. A partir dessa constatação, faz então o
elogio de
Nietzsche, um filólogo "que se dirige a nós e não a
filólogos c, por
isso, faz nosso coração vibrar': um filólogo que tem as
maiores
preocupações com a cultura alemã e de quem se
esperam esclarecimentos
e indicações sobre o que deve ser a cultura alemã para
poder ajudar a nação regenerada, ressuscitada, a atingir
seus
objetivos mais nobres.
A carta de Wagner em solidariedade a Nietzsche não
surpreende,
quando se pensa na relação profunda que unia, na
época,
os dois homens. Nietzsche o conhece pessoalmente em
1868
e logo se entusiasma com seu projeto de renovação
político-cultural
da Alemanha. Quando vai ensinar na Basiléia, em
1869, logo
o procura em Tribschen, fazendo 23 visitas a sua casa,
a "ilha
dos bem-aventurados': durante os três anos em que
Wagner ai
viveu. Para se ter urna idéia do que ele significava para
Nietzsche,
basta pensar no que este lhe escreve, por ocasião de
dois dos aniversários
do Bュ・ウエイGセ@ Em 22 de maio de 1869, quando diz
que ao
nome de Wagner se ligam os melhores e mais sublimes
instantes
de sua vida e que apenas por um outro homem,
Schopenhauer,
seu irmão espiritual, ele tem semelhante veneração.
Mas também
em 20 de maio de 1873, por ocasião do sexagésimo
aniversário
de Wagner, quando Lhe confessa que estremece à idéia
de ter podido