reflexo mítico dos traços secretos do mundo em sua
totalidade.
Deste modo, tanto em sua introdução metodológica
quanto
na exposição do conteúdo do livro, a segunda resenha de
Rohde,
repetindo o esquema da primeira, não só reafirma a
influência de
Schopenhauer na concepção nietzschiana da música e do
uno
originário, como alude à importância de Wagner para o
renascimento
do trágico ao assinalar a esperança trazida pela música
alemã da época. Aliás a importância do movimento
wagneriano
para Nietzsche e Rohde transparece claramente quando,
em carta
a Nietzsche de 26 de maio de 72 - no mesmo dia em que
seu
texto é publicado no jornal político Norddetttsche
Allgemeine Zeiltmg
- , referindo-se a Bayreuth como "nossa pátria" e
mencionando
a "luta pelo bem supremo'; Rohde confessa que o
objetivo
da resenha era ser um sinal de amizade para com o
festival de
Bayreuth.
I ••
Em 30 de maio de 1872, quatro dias depois da publicação
do artigo
de Rohde, aparece o prin1eiro opúsculo de Ulrich von
Wilamowitz-
Mõllendorff, filólogo que havia sido colega de Nietzsche
em Bonn e um dia será autor de obras importantes, como
In trodução à tragédia ática, de 1889, e alcançará grande
prestígio,
mas na época é um jovem recém-doutor de vinte e quatro
anos
publicando seu primeiro escrito.19 O título, "Filologia do
futuro,
réplica a O nascimento da tragédia de F r. Nietzsche'; é
un1a paródia
de "música do futuro", que por sua vez já era un1a
paródia do
livro de Wagner, de 1850, A obra de arte do futuro. Esse
texto, que
pela data em que foi publicado não podia ser un1a
resposta a
Rohde, é o que dá início à polêmica.
A estratégia de Wilamowitz fica bem evidente na
citação, como
epígrafe, do trecho entusiasmado do final do §20 de O
nascimento
da tragédia, onde, estabelecendo que o tempo do
homem
socrático passou, Niet7-Sche convida o leitor a se
coroar de hera,
tomar o tirso na mão c, ousando ser um homem trágico,
acompanhar
o cortejo de Dioniso. Com que objetivo Wilamowitz
cita
essa passagem? Para acusar o tom e a orientação do
livro c mostrar
que, em vez de um filólogo, um pesquisador, Nietzsche
é na
verdade um pregador que anuncia os milagres,
passados e futuros,
de seu deus. O que o faz denunciar o pressuposto que
está na
base do elogio da tragédia: a posição excepcional da
música em
relação às outras artes, "dogma metafísico" proveniente
de Wagner
e Schopenhauer que leva Nictzschc a denegrir o
método
histórico-crítico da ciência da Antigüidade. Dizendo-se
não se
sentir um místico, ou um trágico, reivindicando mesmo
a condição
de homem socrático, cujo objetivo é encontrar um
fundamento
histórico e filológico, compreendendo cada fenômeno
somente
a partir das condições da época em que se
desenvolveram,
Wilamowitz esclarece que entra em campanha contra
Nietzsche
porque, além de metafísico schopenhaueriano e
apóstolo wagneriano,
ele também é professor de filologia clássica e. por isso,
é
preciso mostrar que, nele, "a genialidade quimérica e a
insolência
das afirmações são exatamente proporcionais à
ignorância e
à falta de amor à verdade':
Essa diferença que estabelece entre eles faz
Wilamowitz criticar
a subordinação da filologia à filosofia e à música. Em
relação
à filosofia são visadas sobretudo as interpretações,
dadas a
partir de Schopenhauer, de Apolo, o brilhante, como
deus da
aparência, e a existência de um pessimismo dos gregos.
Em relação
à música, os alvos principais são a influência de
Wagner na
interpretação nietzschiana de Dioniso, concebido como
"gênio
da música do futuro" e sua posição de "nobre
precursor" que fez
renascer o mito trágico e a tragédia.
Além disso, para demonstrar como os pressupostos
schopenhauerianos
e wagnerianos atrapalharam as análises filológicas
de Nietzsche, Wilamowitz vai apontar os erros que
teriam sido
por ele cometidos. Não analisarei essas objeções às
teses propriamente
filológicas de O nascimento da tragédia, pois isso 23
24
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