Essa conferência parte da falta de unidade conceitua!
e da multiplicidade de atividades científicas da filologia
para
defender que, se ela é uma disciplina estética - além de
histórica
e científica - é por ver na Antigüidade clássica um
mundo ideal,
um modelo eterno onde o presente deve se espelhar.
Posição que
o faz observar, ainda bastante influenciado por
Winckelmann,
que, se os filólogos devem contar com o apoio dos
artistas, é porque
apenas eles "podem compreender o quanto a espada da
barbárie
ameaça todos aqueles que perdem de vista a inefável
simplicidade,
a dignidade e a nobreza dos gregos':2 Mas também o
leva,
depois de haver citado a frase de Schiller segundo a
qual os filólogos
destroçaram a coroa de Homero, a esclarecer aos
"artistas
amigos da Antigüidade, adoradores das belezas
helênicas e de sua
nobre simplicidade': que toda atividade filológica-
indispensável
para fazer ressurgir o mundo das obras primas imortais
do espírito
grego que estava oculto sob uma montanha de
preconceitos
- deve ser in1pregnada de uma concepção filosófica
que dê conta
de uma unidade global.3
Essas mesmas posições podem ser notadas no curso de
1871
intitulado Introdução aos estudos de filologia clássica,
em que
Nietzsche chega a estabelecer que só quem é filósofo e
artista está
predestinado a ser filólogo. t que, segundo ele, a
compreensão
histórica dada pela filologia consiste em interpretar os
fatos a
partir do classicismo da Antigüidade, com suas leis
eternamente
vá.lidas e sua superioridade em relação ao mundo
moderno. Ora,
o dassicismo da Antigüidade é, para ele, uma
pressuposição filosófica,
e implica que, guiado pela filosofia, o filólogo se
liberte
dos detalhes, considerando as coisas com amplitude,
como um
todo.• O que só se realizará se o filólogo assinúlar o
ensinamento
dos grandes modernos, como Winckelmann, Lessing,
Goethe,
Schiller, sobre o que é a Antigüidade.
Assim, o principio que possibilita a critica nietzschiana
da
filologia é que esta não é uma ciência autônoma,
devendo estar
em constante interação com a arte e a filosofia. Uma
filologia puramente
científica nos faz perder o "verdadeiro perfume" da
Antigüidade. Ao julgar que a filologia tem sido
indiferente aos
verdadeiros e mais urgentes problemas da vida, e
utilizar-se da
ciência da Antigüidade para pensar filosoficamente,
[Link], já
nesse primeiro momento de sua reflexão, é muito mais
que um
filólogo.
Essa presença da filosofia é tão grande na época em que
escreve
O nascimento da tragédia que, em janeiro de 1871,
Nietzsche
propõe sua candidatura a uma das duas cátedras de
filosofia
da Universidade, que tinha ficado vaga. A proposta é
feita por
carta a seu protetor, o conselheiro Vischer-Bilfinger,
filólogo,
professor e presidente do Conselho da Universidade da
Basiléia,
que havia sido o principal responsável por sua nomeação
como
professor, depois da consulta a seis renomados
acadêmicos alemães,
entre os quais Ritschl, professor de Nietzsche em Bonn e
Leipzig. Ora, nessa carta, Nietzsche confidencia a
Vischer que os
estudos de filologia o interessavam principalmente pelo
que tinham
de significativo para a história da filosofia,
informandolhe
não só que durante seus estudos acadêmicos esteve em
permanente
contato com a filosofia, organizando seus interesses
principais em torno dela, como também que, ao se tornar
professor,
chegou até mesmo a dar cursos sobre temas filosóficos.
E
não deixa de ser curioso o argumento que utiliza para
convencêlo
da importância de sua transferência da cátedra de
filologia para
a de filosofia: a causa da estafa que o afeta regularmente
no
meio de cada semestre é o conflito pessoal entre sua
inclinação à
meditação filosófica e suas múltiplas atividades
cotidianas de
professor de filologia. Nietzsche não ganhará o cargo,
provavelmente
devido à oposição que seu nome suscitaria no outro
professor
de filosofia da Universidade, que havia reagido
negativamente
a suas conferências sobre "O drama musical grego" e
sobretudo "Sócrates e a エイ。ァ←、ゥGセ@ que faz a crítica da
racionalidade