Ação Judicial por Vícios de Construção
Ação Judicial por Vícios de Construção
TÓPICOS DE CORREÇÃO
António adquiriu um imóvel a Bento, construído por este último, há cerca de 5 anos, pelo
preço de €275.000,00.
Acontece que o imóvel apresenta diversas fissuras nas paredes dos compartimentos do
primeiro andar, que começaram a aparecer logo após o primeiro inverno. António entende que
as fissuras resultam de um vício de construção, tendo, por isso, interpelado, por diversas vezes,
Bento para a respetiva reparação.
Bento recusa fazer qualquer reparação, alegando que as fissuras se devem a condensação
por falta de ventilação nas divisões.
Perante a posição assumida por Bento, António decide propor, no tribunal português
competente, uma ação judicial contra Bento.
a) António peticiona que Bento repare os defeitos; ou, caso assim não se entenda, que
seja condenado a pagar €3.500,00 correspondentes ao montante necessário para a
respetiva reparação; e, em qualquer caso, que seja condenado a pagar-lhe uma
indemnização no valor de €5.500,00. Determine o valor desta ação tomando em
consideração a formulação dos pedidos tal e qual eles estão formulados.
Deve ser identificado o pedido como requisito da petição inicial nos termos do art.
552.º, n.º 1, al. e), do CPC. Sendo admissível a formulação de pedidos múltiplos (arts.
553.º a 555.º do CPC).
No caso concreto deverá ser identificado que o Autor formula um pedido subsidiário
(art. 554.º) e um pedido cumulativo (a cumular com o pedido principal ou, caso este
não seja atendido, com o pedido subsidiário), nos termos do art. 555.º, ambos do
CPC.
Considerando que existe um pedido cumulativo, é necessário demonstrar que eles
não são incompatíveis entre si, sob pena de ineptidão da petição inicial – art. 186.º,
n.º 2, al. c).
Com a classificação dos pedidos, deve ser considerada a sua relevância para a
determinação do valor da ação, nos termos dos arts. 296.º e ss. do CPC.
Havendo pedidos subsidiário e cumulativo, deve ser considerada a regra de
determinação do valor prevista nos n.ºs 2 e 3 do art. 297.º, ou seja, o valor da ação
será o valor do pedido principal e do pedido cumulativo.
Quanto aos critérios para a determinação de cada um. O valor do pedido principal
será determinado de acordo com os n.ºs 1 e 2 do art. 301.º (ex vi do art. 297.º, n.º
1). O pedido cumulativo será determinado pelo regime geral do n.º 1 do art. 297.º.
b) Imagine que o imóvel foi vendido por escritura pública de compra e venda, outorgada
a 14 de maio de 2015, com tradição imediata. António propõe a ação no dia 11 de
maio de 2020. Considerando o prazo previsto no artigo 1225.º, n.º 1, do CC, deveria
António ter requerido a citação urgente? Fundamente a sua posição.
c) Suponha agora que Bento é citado, por via postal, no dia 13 de maio de 2020. O aviso
postal foi assinado pela sua mãe, que vive consigo em Madrid. Até que dia poderia
ser apresentada em juízo a respetiva contestação? [Nota: desconsiderar a legislação
decorrente do estado de emergência em matéria de prazos]
Neste caso tem de ser classificada a ação, quanto à natureza, fim e forma de processo
para determinar o prazo de contestação em curso. O prazo de contestação, in casu,
é de 30 dias nos termos do art. 569.º, n.º 1, do CPC, começando a correr desde o
termo da dilação.
Neste caso verifica-se uma dilação de 5 dias, nos termos do art. 245.º, n.º 1, al. b), do
CPC, e outra de 30 dias, nos termos do art. 245.º, n.º 3, 1.ª parte, do CPC (ex vi do
art. 239.º), que se devem cumular nos termos do n.º 4 do mesmo preceito legal.
Estes prazos contam-se como um só, nos termos do art. 142.º do CPC. Ex vi do art.
139.º, n.ºs 1 e 2, do CPC.
Sendo citação postal, a mesma considera-se feita no dia em que o aviso de receção
foi assinado (art. 230.º), não se contando este dia nos termos do art. 279.º, b), do CC.
Para além disso, independentemente do justo impedimento, o ato pode ainda ser
praticado nos três primeiros dias úteis subsequentes ao termo do prazo mediante o
pagamento imediato da multa, nos termos do art. 139.º, n.º 5, do CPC.
BOM TRABALHO!
DIREITO PROCESSUAL CIVIL DECLARATIVO
2.º PONTO ESCRITO – tópicos de correção
CASO PRÁTICO I
Filipe, residente na Rua das Rosas, instaurou a presente ação declarativa, sob a forma de
processo comum, contra José, residente na Rua dos Malmequeres, alegando, em síntese,
que:
1. aquele é dono e legítimo possuidor do imóvel descrito na petição inicial e com o
valor patrimonial de €5.250,00;
2. a parcela de terreno de que o Réu se apoderou é parte integrante do prédio do
Autor;
3. a detenção e posse que o Réu vem fazendo dessa parcela é insubsistente, ilegal e
de má-fé.
Questões:
1. Imagine que o Réu é citado e, na sua contestação, alega que adquiriu, por contrato
verbal de compra e venda, há cerca de 25 anos, a parcela de terreno ao pai e à mãe
de Filipe (anteriores proprietários do terreno), tendo procedido ao respetivo
pagamento do preço na mesma data, no valor de €5.000,00.
Termina o seu articulado requerendo que a ação não seja considerada procedente,
mas, por outro lado, peticiona ao tribunal que declare o Réu o único proprietário
e legítimo possuidor da parcela de terreno em apreço nos autos, em virtude da
aquisição originária derivada da usucapião, nos termos do artigo 1296.º do CC.
Após caracterização da contestação do Réu, pronuncie-se quanto à sua
admissibilidade. (7 valores)
3. Perante a contestação do Réu, o Autor convence-se que talvez aquele tenha razão.
Assim, para evitar perder a parcela de terreno em apreço nos autos, resolve desistir
da instância para extinguir o processo.
Pronuncie-se quanto à estratégia processual do Autor para o objetivo que visa
lograr. (6,5 valores)
CASO PRÁTICO II
Albertina propôs contra Belmiro ação de divórcio sem o consentimento do outro cônjuge,
pedindo que se decrete o divórcio e a consequente dissolução do casamento, declarando-
se o Réu como único culpado e alegando, em resumo, que:
a. O Réu, em dezembro de 2019, deixou voluntariamente o lar conjugal, fazendo-se
acompanhar dos filhos do casal, o que lhe provocou profunda angústia e desgosto;
b. Esse abandono teve como fundamento as relações adulterinas que o Réu vinha
mantendo com Carla, com quem vive em comunhão de mesa, leito e habitação,
comprometendo a possibilidade de vida em comum.
Questões:
1. Imagine que foi realizada a tentativa de conciliação, mas que a mesma veio a
mostrar-se infrutífera tendo o Réu sido notificado para contestar.
O Réu contestou e, em relação à matéria de facto aduzida na petição inicial extrai-
se o seguinte:
“Art. X.º
Impugna-se, para todos os devidos e legais efeitos, toda a matéria de facto
articulada pela Autora na petição inicial”.
Quid juris? (7 valores)
3. Imagine que o Réu, no caso concreto, não constituiu mandatário judicial. Sendo
o juiz da causa o que faria? (6,5 valores)
XPTO – Comércio de Automóveis, Lda., propõe uma ação contra ABCD – Importação e
Exportação, Lda., alegando que, no âmbito da execução de um contrato celebrado entre
ambas, prestou à Ré diversos serviços de mecânica nos automóveis que esta importava, e
que, apesar de interpelada diversas vezes para o cumprimento, até à presente data a Ré
não pagou o valor acordado.
Face ao exposto, termina peticionando que:
a. Seja a Ré condenada ao pagamento da quantia de €22.954,56 euros, sendo
€11.787,18 euros, a título de capital, e €11.167,38 euros, a título de juros de mora
vencidos desde 09.05.2011 até 03.09.2020, acrescida de juros de mora, vencidos
e vincendos, calculados às taxas legais, até integral pagamento.
Questões:
2. Perante a referida defesa, a Autora vem invocar que o crédito que a Ré invoca é
decorrente de outro contrato celebrado entre ambas de compra e venda de veículos
automóveis que a Ré importava e que a Autora adquiria.
Mas, ao contrário do que a Ré alega, não corresponde à verdade que tenha havido
qualquer compensação de créditos, já que o montante invocado pela Ré na
contestação corresponde ao preço de um automóvel que a Autora havia adquirido
mas que não foi entregue e, ainda em 2019, a Autora procedeu à resolução do
contrato de compra e venda por incumprimento imputável à Ré.
Face ao exposto, a Autora requer ao tribunal que condene a Ré no pagamento do
valor correspondente à indemnização devida pelo incumprimento no valor de
€5.550,00.
Pronuncie-se quanto à pretensão da Autora. (7 valores)
Identificar que se trata de uma ampliação objetiva da causa de pedir e pedido, sem
acordo do Réu.
Verificação dos respetivos pressupostos.
Exame 2020 - enunciado
! Correção
2020
>
-
GRELHA DE CORREÇÃO
1. Partindo do pressuposto que B foi citado, na sua própria pessoa, no dia 1 de junho de 2020, e que C foi
citado, por via postal, na pessoa do seu filho e na sua residência em Braga, no dia 3 de junho de 2020, até que data
é que se poderia apresentar contestação nos autos em apreço? Não se esqueça de fazer uso de todas as regras inerentes
à contagem dos prazos processuais. (3 valores)
2. Qualifique os pontos (i) a (iv) constantes da defesa do réu B e indique quais seriam, em caso de procedência,
as suas consequências ao nível do desfecho deste processo judicial. (3 valores)
4. Se fosse advogado de B, como é que reagiria ao despacho saneador proferido pelo juiz? E será que o juiz,
na sentença, poderia vir ainda a considerar a procedência da(s) exceção(ões) dilatória(s) invocada(s) por B? (3
valores)
5. Concorda com a enunciação do tema da prova n.º 1? Será que o juiz não deveria ter agido de outro modo
relativamente a esta questão em concreto? Em caso afirmativo, de que modo? (3 valores)
Falta de impugnação, quer por parte de B, quer por parte de C, da celebração do contrato de
compra e venda do imóvel com A;
Regime processual aplicável: a B, o artigo 574.º/2 do CPC, relativo à admissão por acordo; e
a C, os artigos 567.º e 568.º do CPC, relativos à revelia (operante e inoperante atenção ao
artigo 568.º, al. d), do CPC);
Identificação do tema da prova enunciado (n.º 1) como um facto que só pode ser provado
através da apresentação da escritura pública (artigos 364.º/1 e 875.º do CC);
O facto sub judice não pode ficar admitido por acordo e a revelia, quanto a ele, não pode ser
operante; é um facto necessitado de prova, e, à partida, deveria constar neste despacho como
tema de prova, pese embora haja quem entenda que não devem ser incluídos neste despacho
factos que só possam ser provados através de prova pré-constituída;
O juiz, ao abrigo da gestão inicial do processo, deveria ter proferido um despacho pré-saneador
convidando o A a apresentar o aludido documento essencial (ex vi do artigo 590.º/2, al. b), e
n.º 3, in fine, do CPC).
6. A, tendo dúvidas de que a única testemunha por si arrolada possa ser suficiente para a procedência da ação
por si instaurada, pretende prestar o seu próprio depoimento na audiência final. Logrará consegui-lo? O que é que
lhe aconselharia para tal? (2 valores)
O depoimento de parte deve, em regra, ser prestado na audiência final (artigo 604.º/3, al. a),
do CPC), salvo se for urgente ou o depoente estiver impossibilitado de comparecer no tribunal
(artigo 456.º/1 do CPC);
O depoimento de parte só pode ter lugar oficiosamente (artigo 452.º/1 do CPC) ou a
requerimento da parte contrária ou do comparte (artigo 453.º/3 do CPC);
Logo, A não poderia requerer o seu próprio depoimento de parte;
Porém, o CPC2013, no seu artigo 466.º, introduziu entre nós a prova por declarações de parte,
permitindo, assim, que as partes tomem a iniciativa na prestação de próprias declarações sobre
factos que, ao invés de lhes serem desfavoráveis, lhes são favoráveis, estando a sua valoração
sujeita à regra da livre apreciação da prova (artigo 466.º/3 do CPC);
Com efeito, nos termos do n.º 1 do referido preceito legal, “[a]s partes podem requerer, até ao
início das alegações orais em 1.ª instância, a prestação de declarações sobre factos em que
tenham intervindo pessoalmente ou de que tenham conhecimento direto”;
Devendo, neste caso, nos termos do artigo 452.º/2 do CPC, indicar-se, de forma discriminada,
os factos sobre que há de recair (por remissão do artigo 466.º/2 do CPC).
7. O juiz, no âmbito da sentença prolatada, não condenou os réus B e C à entrega do imóvel a A, isto porque,
pura e simplesmente, não considerou como provada a verificação, desde já, da existência da confirmação da
viabilidade da obra por parte da Câmara Municipal do Porto. Simultaneamente, não se pronunciou quanto à
indemnização pedida por A por alegados prejuízos que lhe foram causados, dolosamente, por B e C. Aprecie
juridicamente a situação e diga como é que o advogado de A podia ou devia reagir perante a referida decisão judicial.
(3 valores)
A é vizinho de B, tendo existido entre eles, e desde sempre, acesas discussões a propósito do uso
de um caminho que separa os prédios rústicos de ambos. A considera que pode usar o referido caminho,
uma vez que o mesmo ainda se integra no seu prédio; B, pelo contrário, considera que tal caminho se
integra no seu, razão pela qual impede A de fazer uso daquele através da colocação constante, ao longo
do mesmo, de vidros, de tábuas com pregos, de ramos e de pedras com grande dimensão.
Como a situação se tem vindo a intensificar ao longo dos anos e como, recentemente, C, irmão de
B e comproprietário com este de um dos terrenos em causa, tem colocado um trator e caixotes vários a
ajudar a impedir a passagem/travessia pelo caminho, A instaura uma ação judicial contra B e C, pedindo
que o tribunal declare que estes últimos não são os proprietários da parcela de terreno correspondente ao
caminho que separa os prédios rústicos sub judice, na medida em que ele não se integra no prédio rústico
dos réus.
A petição inicial não foi, contudo, recebida pela secretaria, com fundamento na falta de constituição
de advogado por parte de A.
A reclamou, tendo o juiz confirmado a recusa, embora com outro fundamento: o de que A não
indicara o valor da causa.
A apresenta uma nova petição, desta feita recebida, nela atribuindo à causa o valor de €5.000,00.
B contesta, alegando que pelo objeto da discussão sempre haviam passado os seus antepassados,
assim como ele próprio e os seus irmãos, pelo que o caminho pertence ao seu prédio rústico, devendo,
como tal, a ação judicial instaurada por A ser julgada improcedente. Formulou ainda, na sua contestação,
o seguinte pedido: o de que o tribunal declare que A não é o proprietário da parcela de terreno
correspondente ao caminho, na medida em que nunca os antepassados de A o haviam utilizado, nem,
tampouco, o próprio A, até há poucos anos, o fizera ou sequer o tentara fazer.
C constituiu mandatário, mas não contestou.
A replicou, dizendo, por um lado, que não era possível os antepassados de B terem atravessado o
caminho, uma vez que B não tinha ascendentes que se lhe conhecessem, e, por outro lado, que o tribunal
não devia admitir o pedido formulado por B de declaração de que o autor não era o proprietário da parcela
de terreno correspondente ao caminho, na medida em que esse pedido não se enquadrava em qualquer das
hipóteses previstas na lei para o efeito.
No despacho saneador, o juiz não deu razão ao autor quanto a esta última parte da réplica, tendo
mandado prosseguir a ação.
Na sentença prolatada, o juiz julgou procedente a ação, condenando B e C no pedido formulado
por A. Quanto ao pedido de B, resolveu alterar o que havia decidido no despacho saneador e,
consequentemente, julgou-o inadmissível, absolvendo A da instância.
Analise, fundamentadamente e com recurso a todos os preceitos legais no qual escorou o seu
raciocínio, as seguintes questões:
1. (Im)possibilidade de recusa de recebimento da petição inicial nos termos em que o foi e modos
de reação utilizados. (5 valores)
Um bom trabalho!
Exame acga e correçã
TÓPICOS DE CORREÇÃO
[...]
Analise, fundamentadamente e com recurso a todos os preceitos legais no qual escorou o seu raciocínio, as
seguintes questões:
1. (Im)possibilidade de recusa de recebimento da petição inicial nos termos em que o foi e modos de reação
utilizados. (5 valores)
Requisitos da petição inicial (p.i.) – artigo 552.º do CPC;
Situações de recusa de recebimento da p.i. pela secretaria (enumeração taxativa constante
do artigo 558.º, n.º 1, alíneas a) a i), do CPC);
A contrario sensu, a secretaria não pode recusar o recebimento da p.i. com fundamento na
falta de pressupostos processuais, designadamente o do patrocínio judiciário (alusão ao
artigo 41.º do CPC);
Admissibilidade de reclamação para o juiz e de interposição de recurso até à Relação do
despacho que confirme o não recebimento (ex vi do artigo 559.º, nºs 1 e 2, do CPC);
Discutir se o juiz pode recusar o recebimento com um fundamento diferente do invocado
pela secretaria, mas elencado no artigo 558.º (alínea e) do n.º 1); sim, uma vez que o juiz
não há-de ter menos poderes do que a secretaria; questão diferente, mas que aqui não se
colocava, era a de saber se o juiz podia recusar o recebimento – ou, antes, indeferir
liminarmente a p.i. (artigo 590.º, n.º 1, do CPC) – com fundamento na falta de pressupostos
processuais);
Apresentação de nova petição: quando se trate de causa que não importe a constituição de
mandatário (in casu, valor de €5.000,00 → logo, nos termos da alínea a) do n.º 1 do artigo
40.º do CPC, não era obrigatória a constituição de advogado), a parte não esteja patrocinada
e a petição inicial seja apresentada por uma das formas previstas nas alíneas a) a c) do n.º
7 do artigo 144.º do CPC, o autor pode apresentar outra petição dentro dos 10 (dez) dias
subsequentes à recusa de recebimento ou de distribuição da petição, ou à notificação da
decisão judicial que a haja confirmado, considerando-se a ação proposta na data em que a
primeira petição foi apresentada em juízo (artigo 560.º do CPC).
Faculdade de Direito
Licenciatura em Direito
Ano Letivo: 2021/2022
2.º Semestre | 17/6/2022
Frequência/Exame Regime B
Duração da Prova: 2 (duas) horas
[...]
Responda, fundamentadamente e com recurso a todos os preceitos legais no qual assentou o seu raciocínio,
às seguintes questões:
1. Partindo do pressuposto de que B foi citado por via postal, na pessoa da sua empregada doméstica, no dia
28 de fevereiro de 2022, até que data é que o réu pôde apresentar contestação nos autos em apreço? Não se esqueça
de fazer uso de todas as regras inerentes à contagem dos prazos processuais. (3,5 valores)
Artigo 569.º/1 do CPC: prazo perentório de 30 (trinta) dias;
Artigo 230.º/1 do CPC: citação efetuada em 28.02.2022;
Artigo 245.º/1, als. a) e b), do CPC: 2 dilações de 5 (cinco) dias cada;
Artigo 245.º/4 do CPC: cumulação de dilações = 10 (dez) dias;
Artigo 142.º do CPC;
Artigos 279.º/b) e 296.º do CC;
Prazo(s) dilatório(s): de 01.03.2022 a 10.03.2022;
Prazo perentório: de 11.03.2022 a 19.04.2022;
Artigo 138.º/2 do CPC: termo do prazo em dia em que os tribunais estão encerrados (sábado);
Férias judiciais (artigo 28.º da LOSJ): de 10.04 a 18.04.2022;
Artigo 139.º/5 do CPC: 20.04 + 21.04 + 22.04.2022;
Artigo 140.º do CPC: justo impedimento.
2. Quais foram as modalidades de contestação utilizadas pelo réu B e quais, em caso de procedência, as suas
consequências ao nível do desfecho do processo judicial sub judice? (3,5 valores)
Modalidades da contestação: contestação defesa e reconvenção;
Defesa por impugnação e por exceção (artigo 571.º/1 e 2 do CPC);
Artigo 576.º do CPC (exceções dilatórias e perentórias);
(i) exceção dilatória de caso julgado (artigo 577.º, alínea i), do CPC) absolvição da instância
(artigo 576.º/2 do CPC);
(ii) exceção perentória extintiva de pagamento absolvição do pedido (artigo 576.º/3 do
CPC); e
(iii) impugnação por oposição de facto direta (artigo 574.º do CPC) absolvição (total ou
parcial) do pedido.
3. Concorda com a decisão do juiz em ter dispensado a audiência prévia? Justifique. (3,5 valores)
Fase da gestão inicial do processo e da audiência prévia (artigos 590.º e segs. do CPC);
Finalidades principais (art. 591.º, n.º 1, als. a) a g), do CPC) e secundárias da audiência prévia;
A realização da audiência prévia passou a ser a regra, salvo nas situações previstas nos artigos
592.º (não realização da audiência prévia), 593.º (dispensa da audiência prévia) e 597.º, alínea
b) (nas ações de valor não superior a metade da alçada da Relação), do CPC;
Se, em ação contestada, de valor superior a €15.000,00, o juiz entende, finda a fase dos
articulados (e do pré-saneador), que o processo deverá findar imediatamente com prolação de
decisão de mérito, deverá, obrigatoriamente, convocar audiência prévia, a fim de proporcionar
às partes prévia discussão de facto e de direito (ex vi do artigo 3.º, n.º 3, do CPC);
Ademais, a situação em causa não encontra, em rigor, fundamento no artigo 593.º do CPC; e
O autor, nos termos do artigo 3.º, n.º 4, do CPC, não tinha tido sequer a possibilidade de
responder às exceções (dilatória e perentória) deduzidas pelo réu na contestação.
4. Se fosse advogado de A, como é que reagiria ao despacho saneador proferido? (3,5 valores)
O juiz proferiu, nos termos dos artigos 591.º/1, al. d), e 595.º/1, al. b), do CPC, um despacho
saneador-sentença;
Porém, fê-lo ao arrepio da lei, cometendo uma nulidade, que se traduziu na prolação de decisão
final de mérito com dispensa de uma prévia diligência imposta por lei (audiência prévia para
exercício do contraditório), suscetível de influenciar o exame e a decisão da causa (artigo
195.º, n.º 1, do CPC);
Considerando a omissão de convocação da audiência prévia, quando obrigatória, uma nulidade
processual inominada sujeita ao regime dos artigos 195.º e seguintes do CPC, cf. Rui Pinto
(em sentido contrário, vide Miguel Teixeira de Sousa para quem o saneador-sentença proferido
é uma decisão ilegal, não uma decisão nula, porque não é subsumível a nenhuma das situações
do artigo 615.º, n.º 1, do CPC, nem, muito menos, uma decisão que é "atingida" pela nulidade
do artigo 195.º do CPC);
Reação adequada: como advogado de A reagiria através do recurso (ordinário) de apelação;
Artigo 595.º/3, segunda parte, do CPC: o despacho proferido teria o valor de sentença e, caso
não houvesse recurso, adquiriria força de caso julgado material (artigo 619.º, n.º 1, do CPC).
5. Parta agora do princípio de que o processo em causa prosseguiria os seus termos. Na data aprazada para a
realização da única sessão integrante da audiência final, uma das testemunhas arroladas pelo autor, essencial à
descoberta da verdade, pura e simplesmente não aparece. Quid juris? (3 valores)
Fase da instrução;
Prova testemunhal (artigos 392.º e segs. do CC e 495.º e segs. do CPC);
Artigo 508.º do CPC (consequências do não comparecimento da testemunha):
A falta da testemunha não constitui motivo de adiamento dos outros atos de produção de prova,
sendo as testemunhas presentes ouvidas;
No caso de o autor não prescindir da testemunha faltosa, observar-se-ia o seguinte:
a) Se ocorresse impossibilidade definitiva para depor, posterior à sua indicação, teria a
faculdade de a substituir;
b) Se a impossibilidade fosse meramente temporária ou a testemunha tivesse mudado de
residência depois de oferecida, bem como se não tivesse sido notificada, devendo tê-lo
sido, ou se deixasse de comparecer por outro impedimento legítimo, o autor podia
substituí-la ou requerer o adiamento da inquirição pelo prazo que se afigurasse
indispensável, nunca excedente a 30 dias;
c) Se faltasse sem motivo justificado, e não fosse encontrada para vir depor sob custódia,
podia ser substituída.
6. O mandatário judicial de A, perante a referida ausência da testemunha, pede uns breves instantes ao juiz e
ao colega e, após contacto telefónico com o seu cliente, que optou por permanecer em casa para não ter de se
confrontar presencialmente com a pessoa de B, decide requerer as declarações de parte de A. Logrará consegui-lo?
Justifique. (3 valores)
O CPC2013, no seu artigo 466.º, introduziu entre nós a prova por declarações de parte,
permitindo, assim, que as partes tomem a iniciativa na prestação de próprias declarações sobre
factos que, ao invés de lhes serem desfavoráveis, lhes são favoráveis, estando a sua valoração
sujeita à regra da livre apreciação da prova (artigo 466.º/3 do CPC);
Com efeito, nos termos do n.º 1 do referido preceito legal, “[a]s partes podem requerer, até ao
início das alegações orais em 1.ª instância, a prestação de declarações sobre factos em que
tenham intervindo pessoalmente ou de que tenham conhecimento direto”;
Porém, de acordo com a jurisprudência (cf., p. ex., o Ac. TRG de 14.10.2021, Proc. n.º
7072/18.0T8VNF-B.G1):
“1. A parte que deixa para a audiência de julgamento a apresentação de requerimento a
pedir as suas próprias declarações de parte, ao abrigo do direito potestativo conferido pelo
art. 466º,1 CPC, tem o ónus de estar presente, para as mesmas poderem ser tomadas sem
perturbação nem adiamento da audiência.
2. Admite-se, como excepção a esta regra, que a parte possa estar impossibilitada de todo
de comparecer na audiência, caso em que deverá alegar e comprovar isso mesmo, e o Juiz
designará nova data para essa diligência de prova.
3. Mas quando o mandatário formula o requerimento para a parte ser ouvida em
declarações, esta não está presente, e nem sequer apresenta uma justificação aceitável
para essa ausência, deve o Juiz indeferir liminarmente ao requerido.”
Recurs8 2022
-
enunciado
Recurso 2002 ->
correção
GRELHA DE CORREÇÃO
2. [...] (4 valores)
▪ Artigo 563.º do CPC: citação do réu e consequência da falta de contestação;
▪ Revelia do réu;
▪ Revelia absoluta (artigo 566.º do CPC) vs. revelia relativa;
▪ Efeitos da revelia — imediato: consideram-se confessados os factos articulados pelo autor
(artigo 567.º/1 do CPC); e mediato: alteração da tramitação processual que se vê reduzida
(artigo 567.º/2 do CPC);
▪ Mas, in casu, a revelia é inoperante — ex vi da alínea a) do artigo 568.º do CPC.
3. [...] (4 valores)
▪ Modalidades de contestação: contestação defesa e reconvenção;
▪ Defesa por impugnação e por exceção (artigo 571.º/1 e 2 do CPC);
▪ Artigo 576.º do CPC (exceções dilatórias e perentórias);
▪ Ponto (i): defesa por impugnação (artigo 571.º, n.º 2, 1.ª parte, do CPC);
▪ Ponto (ii): exceção perentória extintiva de caducidade (artigo 576.º/3 do CPC);
▪ Ponto (iii): reconvenção (artigos 583.º e 266.º/2, alínea d), do CPC).
5. [...] (3 valores)
▪ Sentença e prazo de prolação (artigos 607.º e segs. do CPC);
▪ Estrutura da sentença (relatório, fundamentação e decisão – artigo 607.º/2 e 3 do CPC);
▪ A sentença é nula, uma vez que o juiz não especificou os fundamentos de facto e de direito
que justificaram a decisão (ex vi do artigo 615.º/1, al. b), do CPC);
▪ Nos termos do n.º 4 do artigo 615.º do CPC, esta nulidade só pode ser arguida perante o tribunal
que proferiu a sentença se esta não admitir recurso ordinário, podendo o recurso, no caso
contrário, ter como fundamento essa nulidade.
Faculdade de Direito
Licenciatura em Direito
Turmas: A, B, C, D, E e F
Frequência | Exame Regime B
15 de junho de 2023
1. […]
• Art. 569.º, n.º 1, do CPC: prazo perentório de 30 dias;
• Art. 230.º, n.º 1, do CPC: citação efetuada em 3 de março de 2023 (mesmo que o
aviso de receção haja sido assinado pela mulher do citando);
• Art. 245.º, n.º 1, als. a) e b), do CPC: 2 dilações de 5 dias cada uma;
• Art. 245.º, n.º 4, do CPC: cumulação de dilações – 10 dias;
• Art. 142.º do CPC;
• Arts. 279.º, al. b), e 296.º do CC;
• Prazos dilatórios: de 4 de março a 13 de março de 2023;
• Prazo perentório: de 14 de março a 21 de abril de 2023;
• Art. 28.º da LOSJ: Férias judiciais de 2 a 10 de abril de 2023;
• Art. 139.º, n.º 5, do CPC: 24 + 26 + 27 de abril de 2023;
• Art. 140.º do CPC: justo impedimento.
2. […]
• Analisando a factualidade descrita no enunciado, sendo o processo concluso ao juiz
finda a fase dos articulados, importava analisar a contestação (defesa);
• No caso, o réu defende-se por impugnação e por exceção (art. 571.º, [Link] 1 e 2, do
CPC);
• Tendo em conta a defesa por exceção dilatória (ainda que, não obstante, a mesma, a
existir, seja de conhecimento oficioso) de ilegitimidade (art. 577.º, al. e), do CPC),
impunha-se a necessidade de aferir da sua verificação, ou não;
• Tendo em conta a ação em causa – ação de preferência nos termos do art. 1410.º
do CC – verifica-se que, de facto, foi preterido este pressuposto processual; a ação
devia ter sido proposta, também, contra o adquirente da quota, ou seja, D;
• Verifica-se uma situação de litisconsórcio necessário natural (arts. 30.º, [Link] 1 e 2, e
33.º, [Link] 2 e 3, do CPC);
• Neste caso, sendo a exceção dilatória suprível – através do incidente de intervenção
principal provocada (arts. 316.º e ss. do CPC) – justificaria a prolação de despacho
pré-saneador (art. 590.º, n.º 2, al. a) do CPC);
3. […]
• Fase da gestão inicial do processo e da audiência prévia (artigos 590.º e segs. do
CPC);
• Finalidades principais (art. 591.º, n.º 1, als. a) a g), do CPC) e secundárias da
audiência prévia;
• A realização da audiência prévia passou a ser a regra, salvo nas situações previstas
nos artigos 592.º (não realização da audiência prévia), 593.º (dispensa da audiência
prévia) e 597.º, alínea b) (nas ações de valor não superior a metade da alçada da
Relação), do CPC;
• Se, em ação contestada, de valor superior a €15.000,00, o juiz entende, finda a fase
dos articulados (e do pré-saneador), que o processo deverá findar imediatamente
com prolação de decisão de mérito, deverá, obrigatoriamente, convocar audiência
prévia, a fim de proporcionar às partes prévia discussão de facto e de direito (ex vi
do artigo 3.º, n.º 3, do CPC);
• Ademais, a situação em causa não encontra, em rigor, fundamento no artigo 593.º
do CPC; e
• O autor, nos termos do artigo 3.º, n.º 4, do CPC, não tinha tido sequer a
possibilidade de responder à exceção perentória deduzida pelo réu na contestação.
• O juiz proferiu, nos termos dos artigos 591.º/1, al. d), e 595.º/1, al. b), do CPC, um
despacho saneador-sentença;
• Porém, fê-lo ao arrepio da lei, cometendo uma nulidade, que se traduziu na
prolação de decisão final de mérito com dispensa de uma prévia diligência imposta
por lei (audiência prévia para exercício do contraditório), suscetível de influenciar o
exame e a decisão da causa (artigo 195.º, n.º 1, do CPC);
• Considerando a omissão de convocação da audiência prévia, quando obrigatória,
uma nulidade processual inominada sujeita ao regime dos artigos 195.º e seguintes
do CPC, cf. Rui Pinto (em sentido contrário, vide Miguel Teixeira de Sousa para
quem o saneador-sentença proferido é uma decisão ilegal, não uma decisão nula,
porque não é subsumível a nenhuma das situações do artigo 615.º, n.º 1, do CPC,
nem, muito menos, uma decisão que é "atingida" pela nulidade do artigo 195.º do
CPC);
• A reação adequada, como advogado de A, seria o recurso (ordinário) de apelação;
• Artigo 595.º/3, segunda parte, do CPC: o despacho proferido teria o valor de
sentença e, caso não houvesse recurso, adquiriria força de caso julgado material
(artigo 619.º, n.º 1, do CPC).
4. […]
• O depoimento de parte deve, em regra, ser prestado na audiência final (artigo 604.º,
n.º 3, al. a), do CPC), salvo se for urgente ou o depoente estiver impossibilitado de
comparecer no tribunal (artigo 456.º, n.º 1 do CPC);
• O depoimento de parte só pode ter lugar oficiosamente (artigo 452.º, n.º 1, do
CPC) ou a requerimento da parte contrária ou do comparte (artigo 453.º, n.º 3, do
CPC);
• Logo, C poderia requerer o depoimento de parte de D;
• Importaria, não obstante, analisar e discutir se os factos eram desfavoráveis (arts.
352.º e 353.º, n.º 2, do CC) ao confitente e litisconsorte;
• Quanto à comunicação, para além da questão anterior, importaria ainda analisar se
existiria limitação quanto à prova por confissão uma vez que, nos termos do art.
1409.º, ex vi dos arts. 416.º, todos do CC, seria necessário aferir se a comunicação
teria, ou não, que ser feita por escrito, o que, sendo o caso, a prova só poderia ser
feita pelo documento legalmente exigido (art. 364.º do CC). Tal exigência quanto à
forma não resulta prevista naquele normativo;
• Quanto ao valor, tendo em conta que o Réu C suscita uma simulação quanto ao
preço no contrato de compra e venda (art. 240.º do CC), impor-se-ia verificar a
admissibilidade da prova por confissão, uma vez que o preço consta de documento
autêntico que faz prova plena dos factos e de os seus autores terem proferido as
declarações dele constante pelo que, esses factos consideram-se provados, nos
mesmos termos gerais da confissão (art. 371º do CC), na medida em que sejam
contrários aos interesses do declarante, mas não quanto à conformidade da
declaração com a vontade real;
• Assim, esta prova poderia ser afastada pela arguição da nulidade do ato [ou por
falsidade (art. 372º do CC)] in casu, provando a simulação e, consequentemente, a
nulidade do negócio simulado e a validade do negócio dissimulado, com exceção,
para este efeito, da prova testemunhal ou por presunções (art. 394.º, n.º 2);
• Não obstante, tendo em conta a matéria descrita, ambos os factos são favoráveis ao
confitente, bem como ao litisconsorte que requereu o depoimento de parte (art.
352.º do CC).
5. […]
• Encerrada a audiência, o processo é concluso ao juiz para ser proferida sentença;
• Não obstante, se o juiz não se considerar devidamente esclarecido pode ordenar a
reabertura da audiência, ouvindo as pessoas que entender e ordenar as demais
diligências que entender necessárias (art. 607.º, n.º 1, do CPC);
• No caso em concreto, não obstante, não existia outra prova a ordenar ainda que o
juiz subsistisse na dúvida sobre se o preço realmente pago foi de €250.000,00 ou de
€300.000.00;
• Não podendo o juiz abster-se de decidir sobre esta questão, sob pena de omissão
de pronúncia (art. 615.º, n.º 1, al. b), 1.ª parte), importaria, neste caso, aferir sobre
quem recaía o ónus da prova do facto;
• De acordo com o art. 342.º, n.º 1, do CC, aquele que invoca o facto constitutivo é o
Réu, ou seja, neste caso, o Réu, na sua defesa, invoca que o direito de crédito
decorrente do preço efetivamente pago no âmbito da compra e venda corresponde,
na realidade, a €300.000,00 valor que, nos termos do art. 1410.º do CC, o Autor é
devedor tendo em conta os efeitos da ação de preferência;
• Desta forma, não havendo qualquer inversão do ónus da prova (art. 344.º do CC),
incumbiria ao Réu que invoca que o preço devido é, de facto, de €300.000,00, o
ónus de o provar (art. 341.º do CC);
• Assim, neste caso, em sede de contraprova do Autor, tendo em conta a existência
da escritura pública de compra e venda, com força probatória plena que não foi
afastada, a questão é decidida contra a parte onerada pela prova (art. 346.º do CC);
• Face ao exposto, a questão resolve-se contra a parte a quem o facto aproveitaria
(art. 414.º do CPC), ou seja, neste caso, o juiz decidiria contra a pretensão
formulada pelo Réu C, considerando que o preço efetivamente pago foi de
€250.000,00.
Recurso 2023 (Acrescent
Enunciada
Direito Processual Civil Declarativo
Faculdade de Direito
Licenciatura em Direito
Ano Letivo: 2022/2023
2º Semestre | 12/7/2023
Exame Escrito de 2ª Época
Duração: 2 (duas) horas
GRELHA DE CORREÇÃO
1. Concorda com o(s) pedido(s) formulado(s) por A? Justifique o seu raciocínio. (4 valores)
▪ Requisitos da petição inicial: formulação do pedido (artigo 552.º/1, al. e), do CPC);
▪ Caraterísticas e tipos de pedido;
▪ Artigo 555.º/1 do CPC: dedução cumulativa contra o mesmo réu, num só processo, de vários pedidos
que sejam compatíveis;
▪ Porém, in casu, há uma incompatibilidade substancial manifesta entre o pedido de decretamento do
divórcio (dissolução do vínculo conjugal) e o de anulação do casamento com fundamento em erro;
▪ Ineptidão da petição inicial (artigo 186.º, n.º 2, alínea c), do CPC); e
▪ Nulidade de todo o processo (artigo 186.º/1 e 4 do CPC);
▪ Ademais, há um erro na forma do processo (artigo 193.º do CPC);
▪ Nulidade de que o tribunal conheceria oficiosamente (artigo 196.º do CPC);
▪ E que só podia ser arguida até à contestação ou neste articulado (artigo 198.º/1 do CPC);
▪ Processo especial de divórcio sem consentimento do outro cônjuge (artigos 931.º e 932.º CPC).
2. O aviso postal tendente à citação de B foi assinado pela sua atual companheira, C, que reside consigo em Badajoz,
no passado dia 7 de junho de 2023. Até que dia poderá ser apresentada em juízo a respetiva contestação? (4 valores)
▪ Artigo 569.º/1 do CPC: prazo perentório de 30 (trinta) dias;
▪ Artigo 230.º/1 do CPC: citação efetuada em 07.06.2023;
▪ Artigo 245.º/1, al. a), e 3, do CPC: 2 dilações: 5 (cinco) dias e 30 (trinta) dias;
▪ Artigo 245.º/4 do CPC: cumulação de dilações = 35 (trinta e cinco) dias;
▪ Artigo 142.º do CPC;
▪ Artigo 279.º/b) do CC;
▪ Prazo(s) dilatório(s): de 08.06.2023 a 12.07.2023;
▪ Prazo perentório: de 13.07.2023 a 27.09.2023;
▪ Artigo 139.º/5 do CPC: 28.09 + 29.09 + 02.10.2023;
▪ Férias judiciais (artigo 28.º da LOSJ): de 16.07 a 31.08.2023;
▪ Artigo 140.º do CPC: justo impedimento;
▪ [+ Art. 931.º/5 do CPC (prazo de 30 dias para contestar após frustração da conciliação);
▪ Art. 932.º do CPC (após o prazo da contestação, seguem-se os termos do processo comum)].
3. Suponha que B não contesta a ação. O que sucederá ao nível da tramitação processual? (4 valores)
▪ Artigo 563.º do CPC: citação do réu e consequência da falta de contestação;
▪ Revelia do réu;
▪ Revelia absoluta (artigo 566.º do CPC) vs. revelia relativa;
▪ Efeitos da revelia — imediato: consideram-se confessados os factos articulados pelo autor (artigo
567.º/1 do CPC); e mediato (artigo 567.º/2 do CPC);
▪ Revelia operante (requisitos); mas,
▪ No caso sub judice, a revelia é inoperante (ex vi do artigo 568.º/c) do CPC); logo,
▪ Não realização da audiência prévia (ex vi do artigo 592.º/1, al. a), do CPC);
▪ Aplicação do disposto no n.º 2 do artigo 593.º do CPC ( ex vi do artigo 592.º/2 do CPC): o juiz tem
de proferir o despacho saneador, o despacho a identificar o objeto do litígio e a enunciar os temas
da prova e ainda o despacho a programar os atos a realizar na audiência final, a estabelecer o número
de sessões e a sua duração e a designar as respetivas datas.
4. Suponha agora que, afinal, B contesta, alegando, em suma, a incompetência do tribunal, que A sempre se rendeu e
rende aos caprichos de sua filha Dionísia (D), e não aos seus, não tendo abandonado o lar conjugal, tendo, isso sim, sido
expulsa por D, e que os levantamentos dos valores depositados foram apenas para fazer face às despesas normais do casal.
Requereu, além do mais, o depoimento de parte de A, que deverá versar sobre os artigos 8º, 11º, 13º a 17º, 21º, 24º, 26º,
41º, 47º e 68º da contestação. Quid iuris? (4 valores)
▪ Modalidades de contestação: contestação defesa e reconvenção;
▪ Defesa por impugnação e por exceção (artigo 571.º/1 e 2 do CPC);
▪ Artigo 576.º do CPC (exceções dilatórias e perentórias);
▪ Exceção dilatória de incompetência (artigos 576.º/1 e 2, e 577.º/a do CPC);
▪ Defesa por impugnação por oposição de facto direta e indireta (artigo 571.º, n.º 1 e n.º 2, do CPC);
▪ O depoimento de parte, a ser admitido, deveria ser requerido na contestação (artigo 572.º/d) CPC);
▪ Com indicação, de forma discriminada, dos factos sobre que há de recair (artigo 452.º, n.º 2, do CPC);
▪ Só pode ter lugar oficiosamente ou a requerimento da parte contrária ou do comparte (artigos 452.º,
n.º 1, e 453.º, n.º 3, do CPC);
▪ Porém, a admissibilidade deste meio de prova, que visa o reconhecimento de um facto que é
desfavorável à parte contrária (artigo 352.º do CC), pressupõe a possibilidade de confissão decorrente
da natureza dos factos sobre que incide, pelo que está arredada quando estão em causa factos
relativos a direitos indisponíveis (ex vi do artigo 354.º/b) do CC);
▪ Logo, B não poderia requerer, in casu, o depoimento de parte de A.
5. O juiz, perante a factualidade dada como provada, decide decretar a separação judicial de pessoas e bens. Quid
iuris? (4 valores)
▪ Sentença e prazo de prolação (artigos 607.º e segs. do CPC);
▪ Estrutura da sentença (relatório, fundamentação e decisão – artigo 607.º/2 e 3 do CPC);
▪ Discriminação e declaração dos factos considerados provados (artigo 607.º/3 e 4 do CPC);
▪ A sentença é nula uma vez que o juiz condenou em objeto diverso do pedido (ex vi dos artigos
609.º/1 e 615.º/1, al. e), do CPC);
▪ Nos termos do n.º 4 do artigo 615.º do CPC, esta nulidade só pode ser arguida perante o tribunal que
proferiu a sentença se esta não admitir recurso ordinário, podendo o recurso, no caso contrário, ter
como fundamento essa nulidade.