SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO DE MINAS GERAIS
SUPERINTENDÊNCIA REGIONAL DE ENSINO – 17ª SRE- JANUÁRIA
ESCOLA ESTADUAL ELIAZAR JOSÉ RODRIGUES
DISTRITO DE RANCHARIA – SÃO JOÃO DAS MISSÕES/ MG – 39475-000
SOCIOLOGIA
Os conceitos de raça, racismo, etnia e etnicidade e
suas inter-relações.
Conceituando “raça”, “etnia” e “racismo”
Nesse primeiro momento, o (a) professor (a) deve introduzir a temática entre os
alunos, desafiando-os a conceituar os termos “raça”, “etnia” e “racismo”. Esse
exercício é importante para levantar os conhecimentos prévios e compreender
qual o ponto de partida para o início do trabalho.
Saber conceituar raça e racismo é o primeiro passo para que se entenda o
racismo como fenômeno social que estrutura nossa sociedade. O breve
resumo abaixo pode contribuir para que o (a) professor (a) se localize quanto a
discussão, e use como base para direcionar a construção de conceitos:
➔ Raça ou etnia?
É muito comum o emprego do termo “raça” para tratar da diversidade humana
de acordo com seus tons de pele (brancos, negros, indígenas, asiáticos…),
entretanto, no sentido biológico não existem raças humanas – somos todos da
mesma espécie que surgiu há cerca de 350 mil anos na região leste da África,
o homo sapiens. As variações de tom de pele e fisionomia correspondem às
diferenças de fenótipo que pouco ou nada tem a ver com uma suposta divisão
biológica e natural entre seres humanos. Assim sendo, porque ainda falamos
em “raça”? Devíamos abandonar o termo? A ideia de “raças humanas”, a
despeito de não ter veracidade biológica, foi criada e usada para dividir os
seres humanos de acordo com uma hierarquia que ainda hoje influencia o
modo em que vivemos. Nessa hierarquia, criada pelo racismo científico
corrente no final do século XIX até a primeira metade do século XX, a raça
branca teria uma superioridade moral, cultural, política e econômica em relação
às demais raças, sendo a raça negra a que estaria supostamente no mais
baixo nível evolutivo possível, fator que justificava a escravidão e o domínio do
continente africano por colonizadores europeus.
Sabemos hoje que a classificação das raças humanas é reflexo de um mundo
eurocêntrico que buscava legitimidade para seus empreendimentos
desumanos, e que nada tem a ver com a realidade biológica e científica,
porém, a ideia criada para justificar a submissão de um povo em relação a
outro estruturou a sociedade tal qual a conhecemos e influenciou políticas e
ações discriminatórias que ajudam a compreender diversos fenômenos dessas
sociedades na atualidade. Nesse sentido, as “raças” permanecem como
categorias de análise pelo seu valor político e social, não pelo seu valor
biológico. Portanto, é possível afirmar que, o racismo, é um sistema hierárquico
artificial que legitima o direito e a superioridade de uma raça em relação à
outra.
Um dos fatores que comprovam o caráter social e político presente nos termos
“raça” e “racismo” é o fato de que o racismo opera de modos diferentes em
cada parte do mundo, se relacionando com a história e as dinâmicas
particulares da localidade. O racismo contra os negros brasileiros é muito
diferente do racismo vivenciado pelos negros sul-africanos, assim como a
hierarquia racial norte-americana é diferente das citadas anteriormente. As
hierarquias raciais não são, portanto, um bloco essencialista, se alterando e se
adaptando às realidades históricas e sociais de cada sociedade, fator que faz
com que, o racismo, seja diferente em cada região.
Já “etnia” é uma palavra que se refere a um agrupamento de indivíduos que
compartilham do mesmo sistema sociocultural, mesma língua e/ou região
geográfica. Também não se trata de uma divisão puramente biológica entre os
seres humanos, mas de uma divisão socialmente situada e compartilhada.
Dizemos, por exemplo, que o continente africano é majoritariamente habitado
por pessoas da raça negra ou que os negros africanos foram escravizados e
trazidos para trabalhar nas Américas como se “africanos” fossem um grupo
homogêneo de pessoas similares quando, na verdade, a estimativa é que
existem hoje mais de 100 etnias na África, cada uma com sua cultura e línguas
próprias.
Mesmo os africanos escravizados e trazidos para o Brasil para o trabalho
forçado, no comércio atlântico, não eram totalmente semelhantes em cultura,
costumes, língua e região, tendo sido trazidas pessoas de etnias diversas
como os bantu, iorubás, fon, mandingas, fantis, ashantis, hauçás, igbos, fulas e
outras. A Europa também funciona do mesmo modo: o que convencionamos
chamar de “europeus” trata-se de um conjunto diverso de etnias culturais,
geográfica e linguisticamente localizadas, como os bálticos, albaneses,
escandinavos, galeses, sérvios, russos, armênios, romenos, bascos e assim
por diante.
Se não existem raças humanas, deveríamos então trocar o termo “raça negra”
por “etnia negra”? Algumas pessoas têm proposto essa suposta solução para o
tema, entretanto, não existe uma unidade entre os povos negros, além da cor
da pele, que justifique o uso do termo “etnia negra” – o negro norte-americano
possui uma cultura, língua e costumes diferentes do negro brasileiro ou do
negro nigeriano que, por sua vez, se divide entre diversas etnias, por exemplo
– além de que uma troca de termos não resolveria a questão da hierarquia que
organiza a sociedade independente de abandonarmos ou não o termo “raça”.
Raças humanas não existem, mas a divisão artificial da população em raças
continua trazendo consequências que precisam ser entendidas e explicadas
para assim serem combatidas. Consequentemente, manter o uso do termo
“raça” torna-se válido quando analisamos a questão do racismo para além da
biologia, o compreendendo como fator político e sociológico.
➢ Etnia
Etnia significa grupo que é culturalmente homogêneo. Do grego ethnos, povo
que tem o mesmo ethos, costume, e tem também a mesma origem, cultura,
língua, religião, etc.
O termo etnia não é sinônimo de raça. A palavra raça caiu em desuso pela
comunidade científica quando se corresponde aos grupos humanos.
A ideia de etnia é um conceito diferente da noção social de raça que se usava
até a metade do século XX, e abrange mais aspectos culturais.
A etnia, ou grupo étnico, distingue uma uniformidade cultural, com as mesmas
tradições, conhecimentos, técnicas, habilidades, língua e comportamento.
Pesquisadores da etnicidade também consideram as características genéticas
como sendo étnicas. A ideia não é consenso, mas é principalmente entendida
enquanto parte da construção social do indivíduo.
Por exemplo, os afro-descendentes que se identificam com os grupos étnicos
africanos por aspectos físicos que vão além da cor da pele, e passam também
pelo formato do nariz, dentes, estrutura corporal, tradições, costumes, etc.
Podemos classificar enquanto etnias do mundo: os árabes, os judeus, os hans
(originários da China) e os guaranis, assim como grupos menores com
características culturais bem próximas de seus vizinhos, como as centenas de
etnias africanas.
ATIVIDADES
1) Leia o fragmento que se segue da entrevista concedida pelo intelectual
palestino Edward Said, comentando os problemas atuais no Oriente
Médio.
Entrevistador: O senhor não gosta da expressão “choque de
civilizações”. Por quê?
Said: (...) são inúmeros os problemas. Para começar, ela trata as
civilizações como se fossem entidades fechadas, lacradas, alheias a
qualquer tipo de troca (...). Por fim, a ideia de choque de civilizações tem
um aspecto caricatural muito nocivo, como se enormes entidades
chamadas “Ocidente” e o “Islã” estivessem num ringue, lutando para ver
qual é a melhor.
Revista Veja, 25/06/2003
Assinale a opção que reforça a opinião emitida por Said.
a) As diferenças culturais não podem ser tratadas como expressão de conflitos,
mas sim como particularidade de cada civilização no tempo e no espaço.
b) Não existem diferenças jurídico-políticas entre o Ocidente e o Oriente Médio,
logo não faz sentido diferenciar essas duas civilizações.
c) O mundo muçulmano não é homogêneo assim como o Ocidental; portanto,
apenas os conflitos internos devem ser considerados.
d) As trocas entre distintos conjuntos civilizacionais incluem mercadorias
culturais: desse modo, padronizam as civilizações.