UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ
CAMPUS RUSSAS
ADNA LUCIA XAVIER DE OLIVEIRA – 552720
RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS E AFRICANIDADES:
Rimas de resistência: A inserção do “rap” na crescente dos movimentos negros do
Brasil.
RUSSAS – CE
2023
Segundo a socióloga brasileira Maria da Glória Gohn, o que caracteriza um
movimento social são ‘’as ações coletivas, de caráter sócio-político e cultural, que
viabilizam formas distintas da população se organizar e expressar suas demandas’’.
A partir disso, o seguinte artigo visa explorar a relação do movimento social negro
com a forma de expressão artística, e por conseguinte cultural, ‘’Rap’’.
O artigo irá, inicialmente, contextualizar as vertentes ‘’movimento negro no
brasil’’ e ‘’rap como estilo musical no país’’, estabelecendo a ligação de ambos ao
decorrer do texto.
O MOVIMENTO NEGRO NO BRASIL
O movimento negro é reconhecido como uma entidade política com uma
história distinta, inserida no cenário contemporâneo da estruturação de movimentos
sociais e engajada em colaborações com demais movimentos e organizações
visando a construção de uma sociedade mais democrática no contexto brasileiro.
Atualmente, o movimento ganhou impulso renovado em resposta às
persistentes disparidades estruturais que impactam a parcela negra da sociedade
em escala global. Dentre outras coisas, o movimento busca a promoção da
igualdade racial, o fim da brutalidade policial - no Brasil, com ênfase ao caso João
Pedro, menino de 14 anos morto na operação Complexo do Salgueiro no Rio de
Janeiro, vítima de racismo, conforme noticia o jornal EXTRA – a garantia de
oportunidades econômicas e o reconhecimento e celebração da herança cultural
afrodescendente.
A partir de então, conecta-se a busca do movimento negro por
conscientização global acerca das questões raciais, com um gênero oriundo também
da sociedade negra e símbolo de sua luta: o Rap.
RAP COMO ESTILO MUSICAL NO PAÍS
O rap se destaca por reinterpretar o dia a dia por meio da expressão oral de
indivíduos comuns, os quais, em suas músicas, revelam questões sérias
enfrentadas em contextos sociais extremamente desafiadores e frequentemente
ignorados pelas elites no controle.
Na década de 1990, um importante impulso na mobilização negra contra o
racismo no Brasil foi a utilização do rap como uma ferramenta de denúncia e
condenação da opressão racial no país. Enquanto os esforços prévios de entidades
como o Movimento Negro Unificado (MNU) não haviam sensibilizado efetivamente a
esfera pública para a inclusão da questão racial na agenda nacional, a reutilização
da música, especialmente o rap, desempenhou um papel crucial nesse contexto.
Jovens afro-brasileiros das periferias urbanas passaram a expressar, por meio de
letras reflexivas e críticas, as violências racial e social enfrentadas por suas
comunidades.
Esta abordagem inovadora, através do rap, emergiu como uma nova forma de
luta contra o racismo, particularmente quando os canais tradicionais de contestação
e os participantes da esfera pública resistiam a abordar e oferecer soluções
concretas para a questão racial. A música, e o rap em particular, tornou-se uma
poderosa voz dos setores mais oprimidos pela discriminação racial, desafiando o
consenso do silêncio que permeava a discussão sobre a questão racial no Brasil.
A popularização de bandas e artistas como Racionais Mc’s, com músicas que
enfatizam a vida na comunidade negra: Negro Drama, Capítulo 4 Versículo 3, Diário
de um Detento; trazem, até os dias de hoje, inspiração para artistas contemporâneos
como Abebe Bikila (BK’):
[Letra de "Exóticos" com BK'] [Verso 1] Ela saiu de algum filme, de uma foto
ou uma música, ela não existe Eu de mão dada com ela, olha quão bela, atraio os
olhares, pessoas vão pra janela É que ela é tão melhor que aquelas outras Pele e
cabelos, minha mão desliza Faculdades e jantares, olha ela é tão fina De mão dada
com ela todo mundo espia Todo mundo grita e diz que a sorte é minha [Verso 2] Por
que que é sorte minha? Me compre, eu sou um objeto, diversão, ela sente tesão Ela
sente tesão Me quer por inteiro me da ordem e fica de joelho Ela diz que quer se
sujar, conhecer o mundão Diz que eu pareço um gangster, me olha como um
hamster Descendente de Ramsés, meu poder, me abster Ela sabe o tamanho do
mundo e quer saber se é real o tamanho do mundo que eu tenho nas calças E já
falou pra todo mundo que eu tô desempregado e sem estudo mas na cama, aulas
Eram noites de motéis e nada, nada mal Nada mal, ei [Verso 3 ] Hã, ei O terror do
homem negro A solidão da mulher negra Manequins na vitrine A cor não pega, que
crime Black faces, bad faces Bad vibes, bad trips Posso tocar no seu cabelo Bunda
africana, olha esses peitos “Eu acabei com o preconceito Fui pra cama com um
preto Ele tem cara de mau” “Ela tem sorriso branco Ela é da cor do pecado Que me
perdoe os santos Mas olhe o tamanho da roupa Ela tava me tentando” O terror do
homem negro A solidão da mulher negra Manequins na vitrine A cor não pega, que
crime Black faces, bad faces Bad vibes, bad trips Posso cortar seu cabelo Bunda
africana, olha esses peitos “Eu acabei com o preconceito Fui pra cama com um
preto Ele tem cara de mau” “Ela tem sorriso branco Ela é da cor do pecado Que me
perdoe os santos Mas olha o tamanho da roupa Ela tava me tentando” [Saída] A
carne mais barata do mercado é a carne negra e é servida crua Ou, a carne mais
barata do mercado é a carne negra e é servida crua Ou, a carne mais barata do
mercado é a carne negra e é servida crua
Por outra vertente, pode-se perceber uma crítica a hiperssexualização e ao
fetichismo do corpo negro, perpetuando, portanto, o rap como instrumento de apoio
do movimento negro, por carregarem, ambos movimentos, pautas que se
assemelham ao criticar a vida nas comunidades de favela, em que a maior parte da
população é negra, o fetichismo exposto ao homem e a mulher negra e a dificuldade
de acesso a educação por essa parcela da sociedade.
Assim, conclui-se que essa simbiose entre o movimento social negro e o Rap
não é apenas uma fusão de ativismo e música, mas sim uma sinfonia de resistência.
Ambos compartilham o propósito de quebrar o ciclo de opressão, promover a
conscientização global sobre questões raciais e reivindicar a dignidade e igualdade
para todos. Nessa intersecção entre ação coletiva e expressão artística,
encontramos um eco poderoso de esperança, representando um chamado para uma
sociedade mais justa e inclusiva.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DE JESUS FELIX, João Batista. Entre o Movimento Negro e o hip-
hop. RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS, p. 129.
SANTOS, S. A. dos. Os rappers e o ‘rap consciência’: novos agentes e
instrumentos na luta anti-racismo no Brasil na década de 1990. Sociedade e
Cultura, Goiânia, v. 11, n. 2, 2008. DOI: 10.5216/sec.v11i2.5254. Disponível em:
[Link] Acesso em: 5 dez. 2023.
CONTIER, Arnaldo Daraya. O rap brasileiro e os Racionais
MC's. Proceedings of the 1th Simpósio Internacional do Adolescente, 2005.
GOMES, Nilma Lino. O movimento negro no Brasil: ausências, emergências e
a produção dos saberes. Política & Sociedade, v. 10, n. 18, p. 133, 2011.