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O VÉU DE MOISÉS E O SUDÁRIO DE JESUS
(Ex 34,33-35; Jo 20,7)
THE VEIL OF MOSES AND THE SHROUD OF JESUS
(Ex 34:33-35; Jo 20:6-7)
Matthias Grenzer1
Francisca Antonia de Farias Grenzer2
R ESUMO
Os autores neotestamentários, ao contemplarem o mistério presente na pessoa
de Jesus, usam as imagens pertencentes à literatura veterotestamentária; estas,
em geral, estão carregadas de conotações teológicas. Possivelmente, isso vale
também para o sudário que estava sobre a cabeça de Jesus. Mencionado
somente em Jo 20,7, o sudário talvez possa ser compreendido a partir do véu que
estava sobre a face de Moisés: peça têxtil três vezes mencionada em Ex 34,33-
35. O estudo aqui apresentado visa investigar tal paralelismo, o qual é pouco
valorizado nos Comentários sobre o Evangelho segundo João publicados em
língua portuguesa. Além disso, por mais que seja investigado um paralelismo já
visto por outros, comumente surgem novos detalhes e novas compreensões ao se
procurar de novo pelo sentido do texto.
Palavras-chave: Véu, sudário, Moisés, Jesus.
ABSTRACT
The New Testament authors, in contemplating the mystery present in the person
of Jesus, use the images belonging to the Old Testament literature, which are, in
general, loaded with theological connotations. Possibly, this also applies to the
shroud that was on Jesus’ head. Mentioned only in John 20:7, the shroud may
perhaps have understood from the veil that was on the face of Moses, textile piece
three times mentioned in Ex 34:33-35. The study presented here proposes to
investigate such parallelism, which is little valued in the Commentaries on the
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Doutor em Teologia pela Faculdade de Filosofia e Teologia St. Georgen em Frankfurt,
Alemanha, e mestre em História pela PUC-SP. Professor na Faculdade de Teologia da PUC-
SP e líder do Grupo de Pesquisa Tradução e Interpretação do Antigo Testamento (TIAT).
LATTES: [Link] E-mail: mgrenzer@[Link].
2 Mestranda em Teologia no Programa de Estudos Pós -Graduados em Teologia da PUC-SP.
Membra do Grupo de Pesquisa Literatura Joanina (LIJO). LATTES: [Link]
br/0425790336334881. E-mail: aessenciadobomperfume@gmail.
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Gospel according to John, published in Portuguese language. Moreover, however
a parallelism already has been investigated by others, new details and new
understandings often emerge when one looks again for the meaning of the text.
Keywords: Veil, shroud, Moses, Jesus.
1 INTRODUÇÃO
Os textos do Pentateuco, repetidamente, servem como referência importante
aos quatro Evangelhos neotestamentários, quando estes se propõem a narrar e a
iluminar o ensino, as ações e o destino de Jesus de Nazaré. Ora acolhem as
personagens, imagens e reflexões teológicas pertencentes às narrativas dos
cinco livros de Moisés, ora visam a Jesus, como quem dialoga com as leis
transmitidas pela Torá. No nível textual dos Evangelhos, tais intertextualidades
aparecem tanto por meio de citações diretas como através de alusões, sejam
estas mais evidentes ou mais sutis (cf. GRENZER; DANTAS, 2019, p. 75-91).
Nesse sentido, a pesquisa aqui apresentada se interessa por um detalhe
ligado à cena do sepulcro vazio, como ela é narrada em Jo 20,1-10 (cf. também
Mt 26,1-8; Mc 16,1-8; Lc 24,1-8). Segundo o quarto Evangelho, Jesus tinha sido
sepultado por José de Arimateia e Nicodemos; na ocasião, os dois “tomaram o
corpo de Jesus e o ataram com panos de linho (ovqo,nia), junto com especiarias
aromáticas” (Jo 19,40) (cf. GRENZER; GRENZER, p. 35-47). No entanto, três
dias depois, quando Pedro e o discípulo amado correram juntos ao sepulcro, este,
por ter chegado antes, “se abaixou” e, do lado de fora, primeiramente “viu os
panos de linho (ovqo,nia)” (Jo 20,5). Em seguida, “após ter chegado, Pedro entrou
no sepulcro e observou deitados os panos de linho” (Jo 20,6) e, também, “o
sudário (souda,rion), o qual tinha ficado sobre a cabeça de Jesus” (Jo 20,7).
Contudo, este último “não estava deitado junto aos panos de linho, mas enrolado
em um lugar à parte” (Jo 20,7). No mais, ainda é narrado que o discípulo que
Jesus amava (Jo 20,2), ao entrar no sepulcro vazio, “viu e creu” (Jo 20,8).
Sendo assim, em vista de Jo 20,7, a pesquisa aqui apresentada se pergunta
sobre um possível paralelismo entre o “sudário” sobre a cabeça de Jesus e “o
véu” (hw<s.m;) que “Moisés colocava”, “afastava” e “fazia voltar sobre sua face” (Ex
33,33-35), a fim de proteger “os filhos de Israel, que viam a pele da face dele
resplandecer” (Ex 33,35). Então, a proposta é investigar uma possível
intertextualidade, provavelmente acompanhada de significativos simbolismos
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teológicos. Assim, o ouvinte-leitor do Evangelho segundo João talvez vislumbre
melhor o que o discípulo amado “viu”, quando, no sepulcro vazio de Jesus,
descobriu o “sudário”, o qual o motivou a “crer” (Jo 20,7).
2 O VÉU DE MOISÉS
Primeiramente se apresenta uma tradução literal do texto hebraico em Ex
34,29-35, como micronarrativa do motivo e/ou da imagem do véu sobre a face de
Moisés:
29 Enquanto Moisés descia do monte Sinai – as duas placas da norma estavam
na mão de Moisés ao ele descer do monte –, Moisés não sabia que a pele de
sua face resplandecia por ele lhe ter falado. 30 Aarão, com todos os filhos de
Israel, viu Moisés. Eis que a pele da face dele resplandecia. E temeram de
achegar-se a ele. 31 Moisés, porém, os chamou. Então Aarão e todos os chefes
da comunidade a ele voltaram, e Moisés lhes falou. 32 Depois disso, todos os
filhos de Israel se achegaram. E lhes ordenou tudo o que o SENHOR lhe falara
no monte Sinai. 33 Moisés, então, terminou de lhes falar e colocou um véu
sobre sua face. 34 Enfim, quando Moisés chegava diante do SENHOR para lhe
falar, afastava o véu, até ele sair. Saía e falava aos filhos de Israel o que lhe
havia sido ordenado. 35 E os filhos de Israel viam a face de Moisés. Realmente,
a pele da face de Moisés resplandecia. No entanto, Moisés fazia voltar o véu
sobre sua face, até ele entrar para lhe falar.
O vocábulo hebraico traduzido aqui como “véu” (cf. hw<s.m; em v. 33b.34b.35c)
somente tem essas três presenças em toda a Bíblia Hebraica. Imagina-se que o
substantivo provenha da raiz verbal hws, uma vez que esta nunca aparece como
verbo flexionado. Contudo, dela parece provir ainda um segundo substantivo, o
qual, quando descritas as características de Judá em Gn 49,11c-d, forma um
paralelismo com outra peça de roupa: “Lavará sua veste no vinho e sua capa (tWs)
no sangue de uvas”. Percebe-se, com isso, que a presença tão diminuta do
vocábulo hebraico a ser estudado aqui dificulta sua compreensão mais exata.
No entanto, narra-se em Ex 34 que Moisés “colocou um véu sobre sua face”
(v. 33b.35c). Mais ainda: ora o “afastava” (v. 34b), ora “fazia voltar o véu sobre
sua face” (v. 35b). Surge, então, uma relação, não necessariamente exclusiva,
entre a frente da cabeça, ou seja, a face, e o pano em questão, já que a utilidade
dessa peça têxtil, com a qual a pessoa cobre ou descobre o rosto, seria a de criar
algum tipo de proteção. Embora nem sempre esteja presente nos estudos
monográficos sobre as vestimentas no Antigo Testamento (cf. BENDER, 2008), o
véu pertence ao mundo das roupas e, com isso, ganha presença na linguagem
têxtil.
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Ao verificar as antigas traduções de Ex 34,29-35, observa-se que a
Septuaginta, constantemente, traduz o substantivo hebraico véu (hw<s.m;) com o
substantivo grego ka,lumma (v. 33b.34b.35c). Assim, emprega um dos diversos
vocábulos que o grego antigo tem à disposição para se referir a véu (conferir
ainda as palavras ka,lupra, pe,ploj, ste,mma, qe,ristron e ka,qema). Aliás, o apóstolo
Paulo usa o mesmo substantivo quando se refere ao “véu (kalu,mma) com que
Moisés cobria o rosto” (2Cor 3,13). A Vulgata traduz o vocábulo hebraico véu
(hw<s.m;) com o substantivo latino velamen (Ex 34,33b), que, em princípio, indica
uma “capa”, “cobertura” ou “coberta”, um “envoltório” ou “véu”, bem como a “pele”
tirada de um animal.
No entanto, em vista do paralelismo abordado neste artigo, causa certa
surpresa quando se observa como dois Targumim palestinenses, escritos em
aramaico, traduzem o vocábulo hebraico empregado em Ex 34,33-35 para indicar
o véu de Moisés. Vale lembrar aqui que “a origem do Targum é anterior ao
cristianismo, sendo muito usado na época do Novo Testamento” (FRANCISCO,
2008, p. 477). A primeira dessas duas traduções aramaicas é o Pseudo-Jonatã,
“targum mais volumoso do Pentateuco” (FISCHER, 2013, p. 132), elaborado,
provavelmente, nos séculos IV ou V d.C., embora seus editores, no próprio
manuscrito, indiquem os séculos I ou II d.C. (cf. TOV, 1997, p. 125). A outra
tradução aramaica é o Neofiti, que causa divergência entre alguns pesquisadores
quanto a sua origem: se é dos séculos I a II d.C. ou dos séculos IV a V d.C. (cf.
FRANCISCO, 2008, p. 484). Todavia, ambos os targumim aqui mencionados
trazem, no lugar do vocábulo hebraico para véu (hw<s.m;), a palavra sudário, sendo
que esse substantivo estrangeiro (latino) é escrito com caracteres aramaicos: rdws
(Ex 34,33 – Neofiti), rdws (Ex 34,4 – Neofiti), ardws (Ex 34,33 – Pseudo-Jonatã),
ardws (Ex 34,34 – Pseudo-Jonatã), yrdws (Ex 34,35 – Pseudo-Jonatã).
No que tange ao sudário em Jo 20,7, esse detalhe, pertencente às antigas
traduções da Bíblia Hebraica, aumenta ainda mais a curiosidade sobre as
conotações teológicas do véu de Moisés. Contudo, antes de ir ao encontro do que
é narrado em Ex 34,33-35, é preciso lembrar primeiramente as máscaras
pertencentes ao mundo do culto no antigo Oriente. Elas “eram usadas para
esconder o transmissor humano de mensagens divinas” (DOHMEN, 2018, p.
5
148). É possível que o vocábulo hebraico ~ypir”T., comumente traduzido como
“ídolo”, se refira em alguns casos a tais máscaras (cf. 1Sm 19,13.16; Ez 21,26),
assim como são conhecidas na iconografia do Antigo Oriente – por exemplo, a
máscara do deus egípcio Anúbis, ou as máscaras de cerâmica escavadas no Tel
Hazor e em Hebron (cf. KEEL, 1996, p. 58-59.174). Contudo, “onde outros deuses
são representados por uma máscara com a face do sacerdote escondida”, o
Senhor, Deus de Israel, “não usa tal máscara, mas brilha diretamente por meio da
face de seu servo”; disso se entende, aparentemente, que “não seja necessária
uma máscara para comunicar a presença do Senhor, mas é um homem, e não
um objeto, que tem a função de mediá-lo” (MOBERLEY, 1983, p. 108).
Enfim, no caso de Moisés, “o brilho da face dele permite ver o quanto ele foi
iluminado pelo encontro com Deus”, no sentido de que sua experiência de
“quarenta dias na proximidade da glória de Deus” (Ex 34,28) o transformou em
um “homem que brilha”, justamente por resplandecer a intensa claridade divina
(FISCHER; MARKL, 2009, p. 367). Embora exista aqui um acontecimento que,
em princípio, é indizível, pode-se imaginar um “resplendor causado pelo diálogo
com Deus” (ANDIÑACH, 2010, p. 380). Moisés, pois, é narrado como quem, de
forma ímpar, fez a experiência de “o SENHOR lhe falar face a face, como um
homem fala com o seu companheiro” (Ex 33,11), ainda que, assim como todos os
seres humanos, ele também “não pudesse ver a face” de Deus (Ex 33,20).
Todavia, conforme a narrativa bíblica, a experiência mosaica é percebida
pelos israelitas quando contemplam “a proximidade de Deus na face brilhante de
Moisés” (DOHMEN, 2004, p. 374). Nesse sentido, o texto em Ex 34,33-35 parece
não ser bem compreendido ao se imaginar que Moisés sempre usasse o véu
diante das pessoas e que somente o retirasse ao falar com Deus (cf. ANDIÑACH,
2010, p. 380). Pelo contrário, ganha destaque que “Aarão e todos os filhos de
Israel viram Moisés e a pele resplandecente da face dele” (v. 30.35). Assim, junto
com as demais formulações da micronarrativa, percebe-se que, “quando Moisés
chegava diante do SENHOR para lhe falar, afastava o véu” (v. 34a-b), e também
quando “falava aos filhos de Israel o que lhe havia sido ordenado” por Deus (v.
34c-d); ou seja, “Moisés não cobre sua face quando fala, mas apenas quando não
fala” (DOHMEN, 2018, p. 148).
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Portanto, na linha desse raciocínio, o véu de Moisés parece indicar duas
realidades diferentes. Por um lado, o véu retirado, de forma metafórica, marca o
momento em que a Palavra de Deus está sendo revelada, ora por Moisés dialogar
com Deus, ora por ele transmitir ao povo aquilo que Deus lhe ordenara. Por outro
lado, o véu sobre a face de Moisés aponta para o momento em que a Palavra de
Deus não está sendo dialogada. Assim, tal peça têxtil, a qual, de acordo com seu
uso prático, esconde ou revela o rosto de alguém, ilustra e/ou comunica, em meio
à invisibilidade de Deus, o mistério da beleza e da força iluminadora da Palavra
de Deus.
3 O SUDÁRIO DE JESUS
O vocábulo grego sudário (to, souda,rion), em princípio, é “um estrangeirismo
procedente do latim (sudarium)”, que “identifica uma peça de pano usada
normalmente para enxugar o suor” (BRUCE, 1987, p. 326). A palavra aparece
apenas quatro vezes no Novo Testamento (Lc 19,20; Jo 11,44; 20,7; At 19,12):
ora como um pano pequeno ou um lenço, no qual alguém guarda algo precioso,
como, por exemplo, uma “mina”, correspondente a cem dracmas (Lc 19,20); ora
como o lenço ou pano que Paulo usa junto a um avental, talvez para se limpar de
seu suor (At 19,12); ora, ainda, como um lenço usado para cobrir “a face” (Jo
11,44) ou a “cabeça” (Jo 20,7) de um morto, como, por exemplo, no caso de
Lázaro e de Jesus, embora somente o Evangelho segundo João traga esse
pequeno pano mortuário ao imaginário de seu ouvinte-leitor. Na Septuaginta,
tradução grega da Bíblia Hebraica, o vocábulo sudário (to, souda,rion) não é
encontrado (cf. MURAOKA, 2010).
Entretanto, de acordo com o exposto, uma vez que a pesquisa aqui
apresentada se propõe a investigar o sudário de Jesus, há a seguir uma tradução
literal do que originalmente é narrado em grego, quando o Evangelho segundo
João, no capítulo 20, apresenta a inspeção do túmulo vazio por parte de Simão
Pedro e do outro discípulo:
6 Ao segui-lo [= o outro discípulo], veio, pois, também Simão Pedro, entrou no
sepulcro e viu os panos de linho depostos 7 e o sudário, o qual tinha estado
sobre a cabeça dele, não deposto junto aos panos de linho, mas enrolado em
um lugar à parte. 8 Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado
primeiro ao sepulcro. Viu e creu.
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“Possivelmente”, a cena toda e, em especial, os panos de linho e o sudário
estejam acompanhados de “um grande simbolismo” (CASTRO, 2008, p. 353).
Mas qual? Uma verificação das explicações oferecidas pelos Comentários sobre o
Evangelho segundo João e por outros estudos monográficos publicados em
língua portuguesa mostra como as opiniões divergem e, em parte, até se
contradizem.
Um tipo de leitura afirma existir um contraste ou uma oposição entre os
panos de linho e o sudário quanto à posição e à arrumação deles. Nesse sentido,
o narrador joanino, por um lado, descreve os panos de linho como “depostos” ou
“estendidos” (v. 6d), com a possibilidade de neles se ver um “sinal de bodas
preparadas” (MATEOS; BARRETO, 1999, p. 840). Por outro lado, a narrativa
bíblica apresenta o sudário como “não deposto”, ou “não estendido junto aos
panos de linho, mas enrolado num lugar à parte” (v. 7b-c). Com isso se percebe
um duplo contraste, tanto das expressões “deposto” e “não deposto” (v. 6d.7b)
como dos dois lugares aqui imaginados. O sudário, pois, não se encontra no
mesmo lugar dos panos de linho, “mas em um lugar à parte” (v. 7c).
No entanto, parece ser errôneo explorar tal contraste da seguinte forma: os
panos de linho depostos aparecem como “tálamo nupcial, significando vida e
fecundidade”, enquanto o sudário “leva em si a morte”, no sentido de que “alude
ao templo” de Jerusalém, ou seja, “à instituição homicida” (MATEOS; BARRETO,
1999, p. 840). A primeira dificuldade com tal compreensão ocorre ao se ver, nos
panos de linho, um lençol estendido para celebrar núpcias. Conforme a cena
anterior, pois, José de Arimateia e Nicodemos “colocaram” o corpo de Jesus “em
panos de linho junto a aromas”, usando “uma mistura de cem litros de mirra e
aloés” (Jo 19,39-40). Eram, portanto, trinta e dois quilos e seiscentos gramas de
especiarias aromáticas, misturadas entre o granulado da mirra e o pó ou a resina
do aloés, que é a babosa (cf. GRENZER; GRENZER, 2018, p. 41-43). Portanto,
ainda que não tenha sido “um líquido despejado sobre os panos” (BROWN, 2011,
p. 463), mas sim uma grande quantidade de granulados fragrantes ou especiarias
em forma de pós, os panos de linho, após o seu uso como envoltórios e também
misturados com as essências aromáticas, em princípio, ficariam depostos ou
estendidos por si só. Assim, é difícil imaginar que alguém novamente conseguisse
manipulá-los, seja para usá-los como lençóis nupciais, seja para dobrá-los ou
8
“enrolá-los” (v. 7c), a fim de guardá-los para qualquer outro uso. Mais ainda, de
acordo com o provável simbolismo do sudário descrito a seguir, o contraste
mencionado entre os panos de linho como representantes da vida e o sudário
como representante da morte, aparentemente, não existe.
Outra leitura explora os detalhes oferecidos pelo texto bíblico de forma
diferente: o sudário foi “enrolado com cuidado e colocado de lado por alguém que
não mais precisava dele” (CARSON, 2007, p. 639). Quer dizer, ao contrário de
Lázaro, que “saiu do túmulo usando sua mortalha, com as roupas fúnebres
adicionais ainda enrolados na sua cabeça” (CARSON, 2007, p. 639), ou seja, com
“o rosto no sudário que tinha sido atado em redor dele” (Jo 11,44), Jesus
ressuscitado deixa suas roupas mortuárias para trás. E, por consequência, o outro
discípulo, companheiro de Simão Pedro, “chegou à fé [...] não só porque o túmulo
estava vazio, mas porque as roupas fúnebres ainda estavam lá” (CARSON, 2007,
p. 639).
Faz sentido que um pano ou lenço seja “enrolado” (v. 7c) e colocado “em um
lugar à parte” (v. 7c), porque, em determinado momento, não há mais uso para
ele. Nesse sentido, para o quarto Evangelho, Jesus já está com a vida definitiva
e/ou eterna, diferentemente de Lázaro. Contudo, somente a observação referente
à arrumação distinta do pequeno pano mortuário ainda não explica, de forma
convincente, por que justamente o sudário enrolado levou o outro discípulo à fé.
Afinal, conforme a narrativa em Jo 20,7-8, parece ter sido o próprio sudário que
provocou tal fé, uma vez que essa fé ainda não tinha surgido quando o outro
discípulo “se reclinou” e, do lado de fora, “olhou para os panos de linho” (Jo 20,5).
O que, portanto, o discípulo amado viu a mais e de diferente no sudário? Por
acaso teria sido o rosto de Jesus? Ou, de acordo com Ex 34,33-35, lhe ocorreu a
lembrança daquele pano que Moisés, com grande simbolismo, colocava sobre
seu rosto? Porventura, foi a partir desse paralelismo que o outro discípulo chegou
a determinada conclusão sobre o sudário e, assim, sobre o destino de Jesus?
Os Comentários sobre o Evangelho segundo João apresentam ainda outras
explorações dos detalhes narrados em Jo 20,6-8. Afirma-se, por exemplo, que
aquilo que Simão Pedro e o outro discípulo veem “não pode ser obra de ladrões,
que teriam deixado tudo em desordem”, “nem de alguém que tirou o corpo, pois
não teria dispensado os panos e o lenço”, mas que, “no caso de Jesus, a situação
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encontrada no túmulo deixa transparecer a plena soberania daquele que ‘tem
poder de retomar a vida’ (Jo 10,17-18)” (KONINGS, 2000, p. 399). Em outras
palavras, aqui não agiram “ladrões de sepulturas”, nem “amigos” nem “animais
selvagens” (BÖSEN, 2015, p. 196). É possível imaginar que o quarto Evangelho,
de fato, se interesse em deixar claro que o corpo de Jesus não foi roubado ou
simplesmente deslocado para um lugar desconhecido. Contudo, novamente resta
a pergunta sobre o que provocou exatamente a fé do discípulo que Jesus amava,
quando olhou para os panos de linho e, sobretudo, para o sudário. A reação dele,
em todo caso, é diferente da reação de Pedro. Aliás, o quarto Evangelho nada
narra a respeito da reação de Simão Pedro, diferentemente de Lc 24,12, onde se
diz que Pedro “foi embora admirado com o que acontecera”.
Outra leitura de Jo 20,6-8 afirma que o outro discípulo “chega à fé pelo
sepulcro vazio e pelo testemunho da Escritura”: embora ele veja, assim como
Simão Pedro, “os panos de linho e o sudário que tinham envolvido o corpo de
Jesus colocados ali, em ordem”, destaca-se que seria, sobretudo, “uma ausência
o que vê” (MALZONI, 2018, p. 301). Nessa linha de pensamento, no entanto,
surge a questão de como os panos de linho e o sudário indicam, exatamente, a
ausência de Jesus como sinal da ressurreição dele, com base na “compreensão
da Escritura” (Jo 20,9).
Interrompe-se aqui o diálogo com os estudos que não atribuem ao sudário
um significado mais positivo para a fé do outro discípulo, imaginando que
somente a ausência de algo caracterizaria o sepulcro vazio. Ao contrário, pela
narrativa bíblica, o outro discípulo justamente “vê” algo (v. 8c), assim como Simão
Pedro também o “viu” (v. 6d): “panos de linho depostos e o sudário, o qual tinha
estado sobre a cabeça dele [= Jesus]”, sendo que o sudário “não [estava] deposto
junto aos panos de linho, mas enrolado em um lugar à parte” (v. 6d-7). No
entanto, diferentemente de Pedro, o outro discípulo “viu” (v. 8c) nos panos de
linho e, sobretudo, no sudário algo que favoreceu sua fé (cf. v. 8d). O que ele
poderia ter visto?
A resposta talvez se encontre no paralelismo entre o sudário de Jesus (Jo
20,7) e o véu de Moisés (Ex 34,33-35), favorecido pelos já comentados Targumim
palestinenses e valorizado por alguns estudos. Parece ter sido Sandra M.
SCHNEIDERS (1983) quem, em seu artigo intitulado “The Face Veil: a Johannine
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Sign (John 20:1-10)”, destacou pela primeira vez a importância desse paralelismo.
Depois, outros seguiram tal raciocínio (cf. BEUTLER, 2016, p. 454; LÉON-
DUFOUR, 1998, p. 151). Eis as reflexões que, a partir de Ex 34,33-35, atribuem
um sentido mais amplo ao sudário de Jesus.
A argumentação pode partir do detalhe de que “o sudário não foi
simplesmente jogado ou deixado como os panos, mas definitivamente enrolado e
colocado de lado” por “Jesus, o novo Moisés” (SCHNEIDERS, 1983, p. 96),
semelhantemente ao “véu” que Moisés “afastava” ao falar com Deus ou ao
transmitir a Palavra de Deus a “Aarão”, a “todos os chefes da comunidade” e a
“todos os filhos de Israel” (Ex 34,31.34). Nesse sentido, pode-se compreender
que Jesus, por causa de o “sudário” não se encontrar mais “sobre sua cabeça” (v.
7a), é contemplado como quem está em comunhão com Deus. No entanto,
contrariamente a Moisés, o qual, quando não falava com Deus ou não transmitia a
Palavra de Deus a seu povo, “fazia voltar o véu sobre sua face” (Ex 34,33.35), o
sudário nunca mais voltaria sobre a cabeça de Jesus.
Na linha desse pensamento, o sudário de Jesus, “enrolado em um lugar à
parte” (v. 7c), torna-se um sinal de vida por definitivamente se encontrar afastado
de sobre a cabeça de Jesus, porém, junto aos panos de linho. Enfim, ao
apresentar o sudário de Jesus, o Evangelho segundo João, justamente por meio
da alusão ao véu de Moisés, parece “sugerir a glória de Cristo”, sendo que “o
discípulo amado teria chegado a esta fé quando viu o sudário de Jesus enrolado
diante de si” (BEUTLER, 2016, p. 454). Afinal, “quando se volta ao SENHOR, o véu
é removido” (2Cor 3,16; Ex 34,34).
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O único véu de rosto mencionado em todo o Antigo Testamento é o pano
que Moisés colocava sobre sua face, quando ele não estava na presença de
Deus ou quando ele não comunicava a Palavra de Deus a seu povo (Ex 34,33-
35). Também o sudário de Jesus é um véu de rosto, ocupando exatamente o
mesmo espaço ao ficar sobre a cabeça dele (Jo 20,7). Devido às poucas
presenças entre as duas peças têxteis nas Sagradas Escrituras e nos
Evangelhos, o paralelismo aqui visado se torna marcante.
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Como afirmado na maioria dos Comentários sobre o Evangelho segundo
João publicados em língua portuguesa, o sudário de Jesus, junto aos panos de
linho, indica a ausência de Jesus. “Enrolado em um lugar à parte” (Jo 20,7d),
revela que Jesus foi embora. Ele não está mais aqui.
O discípulo amado, no entanto, “vê” o sudário “e crê” (Jo 20,8c-d).
Possivelmente, percebe que o sudário não é somente sinal da ausência de Jesus,
mas também da presença de Jesus junto a Deus. Ou seja, Jesus não apenas não
está mais no sepulcro, mas, conforme a esperança provocada pelo véu de rosto
ou pelo sudário afastado e deixado para trás, o novo Moisés “chegou diante do
SENHOR para lhe falar” (Ex 34,34-35). Portanto, o sudário não é um sinal da morte,
mas um sinal da vida nova. O Crucificado está Ressuscitado na comunhão do
Pai. Posteriormente, as aparições dele irão revelar que, de outra forma, também
está em comunhão com os seus discípulos.
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