EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ___ VARA
CÍVEL DA COMARCA DE BELO HORIZONTE/MG
Processo nº: [número do processo]
Apelante: Elvira Freitas
Apelado: Banco XYZ S.A.
Elvira Freitas, brasileira, aposentada, idosa, com 82 (oitenta e dois) anos de idade, inscrita
no CPF sob o nº [XXX], residente e domiciliada nesta Capital, por intermédio de seu
advogado infra-assinado, conforme instrumento de mandato anexo, nos autos da ação que
move em face de Banco XYZ S.A., inconformada com a r. sentença de fls. [xxx], que
julgou improcedente o pedido inicial e, ainda, a condenou por litigância de má-fé, vem,
com fundamento nos artigos 1.009 e seguintes do Código de Processo Civil, interpor:
APELAÇÃO CÍVEL
Requer-se o recebimento do presente recurso nos efeitos devolutivo e suspensivo, na
forma do artigo 1.012, caput, do CPC, a remessa dos autos ao Egrégio Tribunal de Justiça
do Estado de Minas Gerais e a posterior intimação do Apelado para apresentar
contrarrazões, no prazo legal.
Nestes termos,
Pede deferimento.
Belo Horizonte, 4 de novembro de 2024.
[Nome do Advogado]
OAB/[UF] nº [XXX]
RAZÕES DE APELAÇÃO
Apelante: Elvira Freitas
Apelado: Banco XYZ S.A.
Origem: ___ Vara Cível da Comarca de Belo Horizonte/MG
Processo nº: [número do processo]
EGRÉGIO TRIBUNAL,
COLENDA CÂMARA,
ILUSTRES DESEMBARGADORES,
A r. sentença proferida merece reforma, pelos fundamentos de fato e de direito
que se passa a expor:
I – SÍNTESE FÁTICA
A Apelante, senhora idosa, com 82 (oitenta e dois) anos de idade, firmou contrato
com o Apelado, acreditando tratar-se de empréstimo consignado tradicional, com
desconto mensal direto em seu benefício previdenciário, conforme lhe fora inicialmente
informado.
Entretanto, em momento posterior, deparou-se com restrições em seu nome junto
a outra instituição financeira, em decorrência de débito oriundo de cartão de crédito
consignado, cuja contratação se deu de forma obscura, sem qualquer explicação
adequada quanto à natureza do produto, tampouco sobre os encargos financeiros
aplicáveis — muito superiores aos de um empréstimo convencional.
Diante da evidente má condução da contratação e do vício de consentimento,
ingressou com a presente demanda, pleiteando a conversão do contrato para modalidade
de empréstimo consignado tradicional, bem como a responsabilização do Apelado por sua
conduta abusiva.
O juízo a quo, no entanto, julgou improcedentes os pedidos e, de forma
desproporcional e injusta, condenou a Apelante por litigância de má-fé, com imposição
de multa de 5% sobre o valor da causa, além de honorários sucumbenciais, sob o
argumento de que não se vislumbraria qualquer ilegalidade na contratação.
II – DO MÉRITO
1. Da condição de hipervulnerabilidade da Apelante
A Apelante é consumidora hipervulnerável, nos termos do art. 4º, inciso I, do
Código de Defesa do Consumidor, não apenas por sua idade avançada, mas por sua
condição de aposentada, de limitada instrução e, portanto, mais suscetível a contratações
prejudiciais.
É dever do fornecedor de serviços agir com transparência, lealdade e boa-fé
objetiva, especialmente quando o contratante é pessoa idosa, conforme dispõe o
Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003), o CDC e a própria Constituição Federal, em seu
art. 230.
2. Da ausência de clareza e da existência de vício de consentimento
A contratação do cartão de crédito consignado deu-se sem a devida distinção entre
essa modalidade e a do empréstimo pessoal, induzindo a Apelante a erro substancial, não
reconhecendo que o valor disponibilizado estaria sujeito a encargos elevados e à natureza
rotativa do crédito.
Restando evidente o vício de consentimento, nos termos dos arts. 138 a 147 do
Código Civil, impõe-se o reconhecimento da nulidade parcial do negócio jurídico ou sua
conversão para empréstimo tradicional, a fim de preservar a boa-fé objetiva e o equilíbrio
contratual.
3. Da possibilidade de conversão do contrato
A jurisprudência pátria é firme no sentido de que, não havendo ciência
inequívoca da parte contratante acerca da natureza do contrato de cartão
consignado, é cabível a conversão deste em empréstimo consignado comum. Vejamos:
TJMG – Apelação Cível nº 1.0000.20.531852-2/001:
"A contratação de cartão de crédito consignado sem a devida
clareza e informação autoriza a conversão em empréstimo
consignado comum, por vício de consentimento."
4. Da injusta condenação por litigância de má-fé
A condenação da Apelante por litigância de má-fé não encontra respaldo nos
autos, tampouco na realidade processual.
A Apelante limitou-se a buscar a tutela jurisdicional de forma legítima e
fundamentada, diante de uma contratação que, visivelmente, não lhe foi devidamente
esclarecida. Não há, pois, dolo processual, alteração da verdade dos fatos, ou
qualquer das hipóteses do art. 80 do CPC, de modo que a penalidade imposta se
mostra não apenas indevida, como também desproporcional.
A manutenção de tal condenação configura violação ao acesso à justiça e à
dignidade da pessoa idosa, expressamente protegida pela Constituição Federal (art.
230).
III – DOS PEDIDOS
Diante de todo o exposto, requer a Vossas Excelências:
a) o conhecimento e provimento da presente apelação;
b) a reforma integral da sentença, para julgar procedente o pedido inicial,
com a conversão do contrato de cartão de crédito consignado em
empréstimo pessoal consignado tradicional;
c) alternativamente, o reconhecimento do vício de consentimento, declarando-
se a nulidade parcial do contrato, com devolução dos valores pagos
indevidamente;
d) a revogação da condenação por litigância de má-fé, por absoluta ausência
de dolo processual;
e) a inversão dos ônus sucumbenciais, com a condenação do Apelado ao
pagamento das custas processuais e honorários advocatícios.
Nestes termos,
Pede deferimento.
Belo Horizonte, 4 de novembro de 2024.
[Nome do Advogado]
OAB/[UF] nº [XXX]