Prólogo
Aaron Walker
⚠️ FUTURO⚠️
Alguns meses mais tarde
LIVRES
Forcei-lhe a cabeça para baixo com a ponta do pé e mantive o pescoço do
infeliz ali, sobre o ferro quente da barra de uma das inúmeras celas destruídas, à
mercê do uivo e da quentura viva do algoz que destruía aquela merda de lugar.
— Porra! O fogo é uma dádiva… — as palavras saíram feito um sopro sob a
fumaça, tal qual um demônio ressurgido das cinzas, ouvindo a voz que esbanjava
autoridade, agonizar. Atormentando os que atormentaram em vida.
Ontem eu estava preso, sendo torturado pelo riso desses infelizes desde a
cela imunda no final do corredor, e hoje sou eu quem ri. Por último e bem melhor
que todos eles. Isso posso garantir.
As paredes, antes frias e mortas, flamejavam. Colunas ardentes subiam pelas
barras de metal lhes entregando um vermelho vivo. Trazendo um verdadeiro inferno
à terra, o odor de mofo dava lugar ao que me lembrava enxofre.
Apertei um pouco mais o pescoço do porco. Era o último e ainda assim parecia
tão gratificante quanto da primeira vez. Ver o quão rápido o cabelo humano
queimava envolto ao fogo vivo, sentir o cheiro, o processo de como as chamas
lambiam pele e ossos cranianos, levando junto o mau caráter e abuso de “poder”, a
falsa autoridade e soberania entranhada aos pilares da lei que agiam naquela
merda de prisão.
Sim, eu estava falando de uma prisão.
Uma maldita caixa com grades de ferro onde mantiveram a mim e a minha
gangue por meses, subjugados por mediadores mais imundos que a podridão dos
umbrais do Brooklyn, mais repugnantes que um maço de cigarro achado no lixo.
Empurrei o corpo morto para dentro do fogo e ergui o punho para limpar o suor
que escorria da testa.
Com o balanço descoordenado da mão, percebi que tinha o osso deslocado de
tanto surrar aqueles caras, o que me fez encarar meu próprio corpo com a
impessoalidade de quem examina uma máquina defeituosa. Uma anomalia que
clamava por correção. Era hora do ritual que eu conhecia tão bem quanto as
paredes de concreto que me cercaram por tanto tempo.
Mirei uma das poucas grades ainda intactas. O som ecoou como um tambor,
anunciando o início do procedimento : A conferência para ter certeza de que aquela
merda não cairia com o primeiro soco, para só então, sem hesitação, posicionar a
mão deslocada contra a superfície fria e impiedosa.
A primeira batida se fez uma contagem regressiva para o alívio iminente.
Ossos nus contra o concreto, um mergulho no limiar entre a dor e o êxtase.
Um lembrete de que estava acabando.
Dei um segundo soco e a mão deslocada começava a ceder à força bruta que
a manipulava.
Iríamos embora daquele inferno, faltavam poucos passos para isso.
O terceiro selou o acordo. E o osso, agora realinhado, clamava pela aceitação.
A liberdade estava entre nós.
Era uma sensação única, uma mistura de triunfo e sacrifício que eu sentia pela
última vez, porque já não pertencia àquele inferno, mesmo que parecesse fazer
parte de mim.
Passei os dedos pela cabeça, os fios curtos riscando a palma da minha mão.
O ar parecia me sufocar junto à fumaça, mas meus olhos insistiam contra a
penumbra cinzenta. Ainda queria olhar para trás e me deslumbrar da visão daquele
corredor em chamas, destruído, pelo menos uma última vez antes de cuspir naquele
chão imundo.
No entanto, passos ligeiros acompanharam o barulho das chamas crepitantes
e a voz do meu amigo cobriu os poucos gritos desesperados que se misturavam ao
rugido do incêndio.
— Vamos, cara, acabou. — Brandon olhou nos meus olhos, a mão direita
sobre meu ombro esquerdo e o grito da pressa me alcançando como a porra de um
projétil. Me vi nele. A cara suja de cinzas que ia além da pele, atravessava a faísca
que restava de nossas almas. O suor que aquela sauna proporcionava, lavando
nossas ofensas, nos limpando para sacrificar um a um dos porcos. Sangue nos nós
dos dedos, respingado na roupa, desenhando as linhas de expressões. Cicatrizes
que marcavam a pele de dentro para fora, e a maldita esperança que comemorava
sua jogada certeira anunciando o fim da nossa pena e o início de algo novo. Dentre
tudo ali, essa era a única que eu não tinha. — Acabou! — riu — vamos dar o fora,
irmão.
Eu o segui, mas segui sem rumo, sentindo os nervos enrijecendo. As
palpitações não deram trégua, mesmo que dilatasse as narinas, não existia ar ao
redor, minha agonia ainda estava lá, porque não, não tinha acabado.
Não para mim.
E era uma puta loucura porque, ao mesmo tempo que existia a certeza de que
aquele lugar não era para mim, era como se eu devesse ter morrido ali. Ter sofrido
mais, perdido até a última gota de sangue.
Todas as malditas vezes que fechava os olhos, revivia as memórias do porquê
que eu estava preso. Assistia às nuances do momento em que arruinei minha vida
quebrando o juramento no qual entreguei cada célula do meu corpo como garantia.
Por isso já não era eu. Aaron Walker não se estabelecia sobre aquela porra de
terra.
Ele era um cara morto. Foi enterrado com seu bem mais precioso e por todo
esse tempo pagou por aquele pecado fodido com a alma.
Tentei protegê-la, mas fracassei. Lutei para afastá-la de mim, mas ela era
inevitável, e se não estava mais comigo, a culpa era minha. Por isso eu merecia
estar preso, mutilado e destruído. Por isso morri. Quando acabei com o amor da
minha vida.
Morri quando matei Brianna, minha namorada, a garota que tinha meu coração
e o levou com ela para longe sem me dar oportunidade de alcançar.
O brilho da lua, que deveria ser o fio de esperança para que eu me agarrasse,
pareceu um castigo. Era noite, mas o céu não mostrava uma estrela sequer.
Isso fazia jus ao que eu merecia. Um mundo sem estrelas.
Matei a minha. Não tinha pra que apreciar outras. Somente a lua estaria lá,
para me lembrar da merda que fiz, para me julgar todas as noites e condenar à
escuridão solitária. Era o suficiente.
Ryus, que já nos esperava do lado de fora, me encarou sério quando me
aproximei junto a Brandon.
Encostado em uma das carroças velhas e destruído como nós dois, ele
inclinou a cabeça para o lado em silêncio e eu já sabia que era uma pergunta
interna, algo que girava em torno de saber se eu estava bem. Um aceno e ele
entenderia que sim.
Não acenei. Minha cara dizia tudo.
A única coisa que eu queria fazer era sair daquele lugar sem olhar para trás.
Dar fim àquela merda. Mas antes de ser envolvido completamente pelo vento frio
noturno, senti braços delicados me circulando numa tentativa falha de apertar meu
tronco rígido por trás.
Um rosto macio pousou em minhas costas amassando as bochechas contra
minha pele suja, ignorando o tecido fumaçado colado ao meu corpo e cheiro de
cedro doce a denunciou.
Era ela, a minha sina, meu castigo.
Fechei os olhos com força. Aquela garota não deveria estar ali. Não deveria
me procurar. Não deveria se importar, se não quisesse sofrer.
A fiz me deixar e empurrei para longe antes de puxar a arma que roubei de um
dos porcos e apontar em sua direção.
— O que faz aqui, Tsuki? — Fui grosso, como um animal esbravejando.
— Eu vim por você, Alien. — Ela ciciou, encolhida. — Meu Alien.