Doenças Reprodutivas em Cães e Gatos
Doenças Reprodutivas em Cães e Gatos
Propósito
Os cuidados reprodutivos com animais ainda são muito negligenciados por tutores e médicos veterinários. As
afecções reprodutivas em machos e fêmeas são motivos de óbito e perda financeira, devido à incapacidade
reprodutiva gerada por doenças. Por ser uma especialidade pouco explorada na clínica de pequenos animais é
uma grande oportunidade de atuação.
Objetivos
• Reconhecer as principais afecções genitais femininas que acometem cadelas e gatas, e seu
tratamento.
• Reconhecer as principais afecções genitais masculinas que acometem cães e gatos, e seu tratamento.
• Identificar as doenças reprodutivas que acometem pequenos animais, cães e gatos, e como preveni-
las.
Introdução
A reprodução animal é uma área promissora na Medicina Veterinária, devido ao retorno econômico que pode
gerar e a escassez de profissionais especializados. O médico veterinário é crucial nesse cenário, pois somente
esse profissional pode realizar o manejo sanitário dos animais. Além disso, a medicina preventiva também
pode e deve ser aplicada nessa especialidade.
Neste conteúdo, apresentaremos as principais doenças que podem acometer os órgãos genitais de fêmeas e
machos das espécies canina e felina e como tratá-las. Estudaremos as afecções que podem comprometer a
reprodução ou a teriogenologia (a capacidade de produção de filhotes saudáveis) dessas espécies.
Compreenderemos o importante papel do médico veterinário no acompanhamento da gravidez ao parto, no
cuidado com os neonatos e na realização de uma rotina pediátrica.
1. Afecções genitais femininas
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abaixo.
A seguir, veremos algumas doenças dos ovários, do útero, da vagina e da vulva, e neoplasias do sistema
genital feminino das espécies canina e felina.
É importante ressaltar que as doenças ovarianas podem se manifestar com alterações no ciclo estral, como:
ausência de cio, cio silencioso, entre outras.
Ocorre quando o animal nasce sem um ou sem os dois ovários. Assim, a fêmea é considerada infértil,
pois não produz hormônios reprodutivos, nem células como os óvulos, que são essenciais para
concepção de um filhote. Não há tratamento para essa alteração.
Hipoplasia ovariana
Ocorre por uma alteração no número ou no tamanho das células que formam os ovários. Nesse caso,
os ovários existem, mas geralmente são pequenos e firmes. Essa alteração na constituição do ovário
ocasiona, também, deficiência em suas funções e, na maioria das vezes, as cadelas e gatas que a
apresentam são inférteis. Não há cura para essa alteração.
Esse remanescente de tecido, após algum tempo pode voltar a ter função, ou seja, uma porção do tecido
ovariano funcional permanece dentro da fêmea. Podem também originar essa síndrome:
Na imagem a seguir, vemos o tecido ovariano remanescente sendo mostrado na ponta da pinça, durante
laparotomia exploratória. Esse tecido permanecia no abdome da cadela após 5 anos da castração.
Sobre os sinais e sintomas da SRO, o principal sinal clínico é a manifestação de cio e sinais reprodutivos nas
fêmeas, como atração de machos, vocalização (gatas) e interesse em acasalar. Também ocorre o crescimento
vulvar, mas nem sempre o sangramento está presente, pois o sangramento é proveniente do útero que foi
retirado na cirurgia.
Para chegar ao diagnóstico da síndrome, é necessário descartar o uso de estrógeno externo do medicamento
dietilestilbestrol. Após isso, realiza-se o exame de citologia vaginal se a fêmea estiver demonstrando sinais
clínicos, como a atração de machos. Se o resultado da citologia for a presença de mais de 80% de células
superficiais, o diagnóstico da SRO é confirmado. Outro exame complementar é a dosagem de estradiol, que
confirma a SRO se o resultado for maior que 15 pg/mL.
Como diagnósticos diferenciais, deve-se considerar: vaginite, neoplasia, piometra de coto de cérvix
uterina, coagulopatia, terapias exógenas de estrógeno e traumatismo.
O tratamento da SRO é cirúrgico, por meio de laparotomia. O momento recomendado para a cirurgia é durante
o estro (fase em que o animal está apresentando os sintomas de cio) para facilitar a visualização e retirada
das estruturas remanescentes. Existe também o tratamento clínico para supressão do estro, caso a cirurgia
não seja possível, para:
Cadelas Gatas
Cistos ovarianos
Agora, conheceremos os dois tipos de cistos ovarianos:
Cistos foliculares
São cistos produtores de estrogênio que, se persistirem no ovário da fêmea, podem causar sinais de
hiperestrogenismo, como: ciclos irregulares e prolongamentos de sinais de cio (sangramento, edema
de vulva e atração de machos). O tratamento, nesse caso, é a castração. Contudo, um tratamento
mais conservador também pode ser implementado com hormônios LH ou gonadotróficos.
Cistos lúteos
São cistos produtores de progesterona, por isso, seus principais sinais e sintomas são
pseudogestação acentuada e desenvolvimento de hiperplasia endometrial cística. São mais comuns
em cadelas do que em gatas. O tratamento recomendado é com a prostaglandina F2 alfa.
Doenças do útero
Piometra
É caracterizada pelo acúmulo de secreção purulenta no interior do útero. Geralmente, ocorre entre 4 semanas
e 4 meses depois do cio e possui duas formas: com cérvix aberta ou fechada. Raramente ocorre de forma
natural em gatas. Quando fêmeas felinas apresentam piometra é muito provável que tenham sido expostas a
progestágenos exógenos.
Atenção
A piometra fechada é um caso de emergência veterinária, gerando risco de morte.
Na fase inicial do cio, o hormônio estrogênio é predominante e tem função de promover o relaxamento da
cérvix. Com isso, o útero fica exposto à contaminação ascendente por bactérias, que podem ser provenientes
da região genital da fêmea. O estrogênio também aumenta o número de receptores de progesterona dentro do
útero.
Assim, na fase final do cio, quando a progesterona é o hormônio dominante, ela vai agir de forma exacerbada,
causando uma ativação intensa das glândulas endometriais que secretam mais fluidos dentro do útero. Esses
fluidos são um meio de cultura rico em nutrientes e o que ocorre é a multiplicação daquelas bactérias que
contaminaram o útero na fase inicial do cio.
Saiba mais
A Escherichia coli é uma bactéria comumente isolada nos casos de piometra. Essa bactéria, quando
destruída, libera endotoxinas, o que justifica o quadro clínico sistêmico da piometra.
• Distensão abdominal
• Dor e secreção vaginal (principal sintoma da piometra aberta)
• Prostração
• Letargia
• Anorexia
• Vômitos
• Poliúria
• Polidipsia (frequentemente decorrente de glomerulonefrite imunomediada)
• Febre
• Leucocitose
• Hipotensão, podendo evoluir para choque séptico e morte devido à ação bacteriana sistêmica
Piometra aberta
Diagnóstico simples. A fêmea apresenta secreção vaginal (de sanguinolenta a purulenta), associa-se
a isso o fato de a fêmea ter entrado no cio aproximadamente 2 meses antes e a outros sinais clínicos,
como apatia, por exemplo. O diagnóstico é confirmado por exames de imagem e laboratoriais.
Piometra fechada
Diagnóstico complicado. Os sinais e sintomas são muito inespecíficos (veja os citados acima). Por
isso, quando a cadela ou a gata não forem castradas é sempre importante descartar a piometra
fechada por meio de exames complementares.
Em relação ao exame clínico, a temperatura pode revelar febre (> 39,3°C) ou hipotermia em uma fase mais
avançada da doença, em que a fêmea está em choque séptico. A vaginoscopia é importante em casos de
piometra aberta para avaliar a presença de secreção e a congestão vulvar. Já a palpação abdominal deve ser
realizada de forma cuidadosa (principalmente em casos de piometra fechada), evitando assim uma ruptura
uterina.
Saiba mais
Antes do tratamento cirúrgico, a fêmea deve ser estabilizada do desequilíbrio hidroeletrolítico e receber
antibióticos de amplo espectro, como amoxicilina + ácido clavulânico, quinolonas e metronidazol.
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É comum que ocorra uma vaginite juvenil em cadelas de 2 a 3 meses de idade, que está relacionada à
deficiência do sistema imunológico. Mas quando a cadela atinge a puberdade, essa inflamação se resolve
espontaneamente, já que ocorre aumento do hormônio estrogênio e consequente produção de secreções
vaginais, que são barreiras protetoras naturais da vagina. A vaginite em fêmeas adultas é considerada um
quadro crônico. Pode ter origem em afecções congênitas ou ser adquirida.
As cadelas que apresentam vaginite não manifestam muitos sinais e podem até ser consideradas saudáveis.
Os principais sinais de vaginite incluem secreção vaginal mucopurulenta e lambedura da região genital, que
devem alertar o médico veterinário para um diagnóstico diferencial de piometra.
Atenção
Se a vaginite não for tratada, pode ser um fator de risco para o desenvolvimento de piometra, por
ascensão bacteriana.
Grau I Grau II
Grau III
Vale resssaltar que o perigo do grau III é que ocorra uma torção de uretra e consequentemente dificuldade em
urinar.
Hiperplasia vaginal
É definida como o aumento do tecido vaginal por estímulo do hormônio estrogênio, que tem seus níveis mais
altos no início do cio. O tecido vaginal se apresenta edemaciado e com aspecto transparente, podendo
sobressair pela vulva. Pela semelhança com o prolapso vaginal, deve-se fazer o diagnóstico diferencial da
hiperplasia vaginal, principalmente pelo histórico reprodutivo, fase do ciclo estral e aspecto do tecido.
Na imagem a seguir, vemos vulva edemaciada de cadela da raça Buldogue francês com malformação
congênita em ânus e vulva, com o tecido de hiperplasia vaginal ao centro da vulva.
Vulva edemaciada.
Saiba mais
A chance de recidiva da hiperplasia é acima de 60% nos próximos cios, por isso, recomenda-se a
ovariossalpingo-histerectomia para resolução completa da doença.
Defeitos congênitos
Como exemplo de defeito congênito da vagina, vamos estudar a estenose vaginal.
Ela ocorre no momento da embriogênese do feto. Quando a fêmea nasce, o problema não é perceptível. O
tutor só desconfia quando e se a fêmea for acasalar, pois, no momento do acasalamento, o animal sente dor e
reluta ao ato da monta.
Algumas afecções que podem ser decorrentes desse defeito congênito são:
Vaginites Incontinência urinária
Cistites crônicas
O diagnóstico é realizado por exames de imagem como radiografia e ultrassonografia abdominal ou achados
durante cirurgias abdominais. Já o diagnóstico definitivo é realizado por meio de exames histopatológicos,
ocorrendo, na maioria das vezes, após tratamento cirúrgico.
Leiomioma
Neoplasia benigna, de crescimento lento e não invasiva. É um tumor de origem na musculatura lisa e
pode manifestar-se sozinho ou em conjunto com outras afecções, como cistos ovarianos, síndrome
do resto ovariano e complexo hiperplasia endometrial cística.
Leiomiossarcoma
Neoplasia maligna, também de origem da multiplicação descontrolada das células da musculatura lisa
do útero. É um tumor considerado invasivo, sendo um risco não só para o sistema reprodutor, mas
também para o sistema urinário e gastrointestinal da fêmea, devido à proximidade da bexiga e dos
intestinos com o útero. Como é um tumor maligno, pode ocasionar metástase, que aparece de forma
lenta.
O Tumor Venéreo Transmissível (TVT) ocorre principalmente em fêmeas jovens e sexualmente ativas.
Manifesta-se por uma lesão em formato de couve-flor, na mucosa vaginal, mucosa vulvar, mucosa oral,
conjuntival ou na pele. É um tumor friável, então, um dos sinais pode ser sangramento vulvar.
TVT localizado na mucosa vulvar de cadela e com aspecto serossanguinolento.
Como o nome revela, esse tumor é transmissível de forma venérea, ou seja, pelo coito. A frequência é
semelhante em machos e fêmeas. A transmissão pode ocorrer também pelo contato de mucosas com as
áreas lesadas (áreas com tumor). Pode gerar metástase em linfonodos regionais.
O diagnóstico é feito pelo histórico clínico e reprodutivo do paciente, exame clínico da região genital e
citologia da lesão, enquanto que o tratamento é quimioterápico, por meio de administração de sulfato de
vincristina (0,025mg/kg), por 4 a 6 semanas.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Uma cadela da raça Pit Bull com 2 anos de idade é levada a clínica veterinária com queixa de apatia, hiporexia,
tosse, claudicação do membro anterior esquerdo e aumento do volume abdominal, há 5 dias. A tutora relatou
que a cadela era muito agitada e vivia pulando. Na anamnese, o médico veterinário coletou os dados
reprodutivos: a cadela era inteira e o último cio foi há aproximadamente 2 meses. No exame físico, a cadela
não apresentava secreção vaginal, porém, tinha uma hipersensibilidade ao toque em todo o corpo, o que
dificultava o exame.
Se você fosse o médico veterinário e só pudesse solicitar um exame complementar para tentar fechar o
diagnóstico da cadela, qual exame solicitaria e qual seria sua principal suspeita clínica?
Exame complementar: radiografia de membro anterior esquerdo; suspeita clínica: fratura de membro anterior
esquerdo.
Questão 2
Uma cadela da raça Buldogue Francês, de 8 meses de idade, que nasceu com uma malformação na vulva é
levada a uma clínica veterinária com queixa de vulva edemaciada e um tecido diferente que cresceu dentro da
vulva, há 3 dias. Após a avaliação clínica, o médico veterinário identificou que esse crescimento tecidual havia
ocorrido logo depois do sangramento do cio, a vulva do animal estava realmente edemaciada e na
vaginoscopia, o tecido se apresentava como várias membranas transparentes (semelhantes a balões de
festa), que impediam a visualização do canal vaginal.
Qual o provável diagnóstico desse animal e qual seria a recomendação de tratamento?
Diagnóstico: hiperplasia vaginal; tratamento: cirúrgico conservador (retirada apenas de excesso de tecido).
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abaixo.
Para o diagnóstico inicial é feita inspeção e palpação cuidadosa da bolsa escrotal e dos testículos, mas a
patologia só é confirmada com ultrassonografia local.
O tratamento é baseado em antibioticoterapia com duração mínima de duas a oito semanas e deve-se
prolongar caso haja prostatite bacteriana crônica associada. Após o tratamento, os animais podem voltar a ser
férteis, mas o prognóstico para fertilidade é reservado.
Criptorquidia
É definida como um defeito genital congênito, muito comum na espécie canina. Ocorre quando um ou ambos
os testículos não se encontram presentes na bolsa escrotal, no momento da puberdade. A criptorquidia pode
ser uni ou bilateral.
A descida dos testículos para bolsa escrotal ocorre entre 6 e 16 semanas de idade. Alguns animais
apresentam descida de testículos tardia (até 10 meses de idade), mas essa situação também é considerada
um defeito hereditário. Na espécie felina, a descida testicular ocorre antes do nascimento.
Atenção
A criptorquidia unilateral não torna o animal infértil.
O diagnóstico é feito quando se verifica que um ou ambos os testículos não estão na bolsa escrotal, por meio
de palpação. Deve-se, então, localizar os testículos. Quando se encontram no canal inguinal, a palpação
auxilia na investigação, mas no caso de testículos intra-abdominais, apenas a ultrassonografia abdominal
pode revelar a localização exata.
O tratamento é cirúrgico, por meio de orquiectomia bilateral, mesmo que a criptorquidia não seja bilateral, pois
essa é uma afecção hereditária, então, animais com essa doença não devem acasalar. Outra questão é o fato
de os testículos intra-abdominais estarem abrigados dentro do corpo e apresentarem uma temperatura mais
alta que os torna não funcionais, não permitindo a espermatogênese, apesar de haver produção de
testosterona e libido normais. Ainda, há alta incidência de neoplasia se esses órgãos permanecem abrigados
no abdome.
Neoplasia testicular
Esses tumores começam pequenos em um ou em ambos os testículos e com a cronicidade da doença, que na
maioria das vezes é assintomática, há um aumento testicular e, em alguns casos, a manifestação de
síndromes paraneoplásicas. É uma doença rara em felinos.
Os fatores de risco de neoplasia testicular para cães são: idade maior que 10 anos e ser criptorquida (o que
aumenta o risco em até 10 vezes).
Seminomas
O diagnóstico é geralmente acidental, seja por palpação minuciosa dos testículos ou por ultrassonografia
testicular. Por isso, a indicação é que cães reprodutores façam anualmente um check-up que inclua ultrassom
dos testículos.
Para o tratamento, se o animal for um valioso reprodutor e ainda estiver fértil, pode-se tentar um tratamento
conservador. Caso contrário, a recomendação é a castração. Em casos nos quais o tumor é unilateral e
limitado, a castração também pode ser unilateral.
Os sinais clínicos são sutis. Em alguns casos, observa-se uma secreção purulenta com origem no prepúcio,
que varia desde uma pequena quantidade de esmegma branco até uma grande quantidade de secreção
esverdeada. A lambedura excessiva da área genital também é relatada pelos tutores.
Saiba mais
Se a secreção for sanguinolenta, pode estar associada à neoplasia ou a um corpo estranho que se
acumulou no prepúcio.
O diagnóstico é realizado por meio do exame físico com avaliação do prepúcio e exposição do pênis. Se o
único sinal for uma secreção, mas o prepúcio e o pênis não apresentarem aspecto de inflamação, deve-se
realizar o diagnóstico diferencial de hiperplasia prostática benigna, prostatite, uretrite e cistite.
O tratamento é clínico. Deve-se realizar a limpeza do local, incluindo tricotomia e lavagem da cavidade
prepucial com soluções antissépticas diluídas, por exemplo, solução de clorexidina. Em casos mais graves,
pode-se realizar a aplicação tópica, na cavidade prepucial, de substâncias antibacterianas e corticosteroides.
Quando não há melhora do quadro, deve-se investigar mais por meio de citologia e cultura para descartar a
possibilidade de neoplasia ou infecção fúngica.
Pênis de cão diagnosticado com priapismo não isquêmico, secundário a TVT (lesões
neoplásicas na base do pênis).
O priapismo isquêmico é uma emergência na medicina interna de pequenos animais, já que pode resultar em
necrose peniana rapidamente e por ser uma condição muito dolorosa. Nos dois tipos de priapismo, o tecido
peniano pode ser lesionado e também podem evoluir para protusão do pênis e do prepúcio.
Geralmente, o priapismo é confundido com a parafimose, mas deve-se realizar o diagnóstico diferencial
também para hematoma, trauma ou outra lesão peniana. O diagnóstico é realizado pela inspeção e palpação
do pênis e prepúcio e por ultrassonografia local.
Para o tratamento do priapismo é necessário identificar e tratar a causa subjacente. No priapismo isquêmico,
deve-se realizar cirurgicamente a aspiração imediata dos corpos cavernosos. E, se necessário, injetar
fenilefrina neles, iniciando com dose baixa de 1 a 3 microgramas/kg e monitorar o sistema cardiovascular. Se
não houver sucesso, pode ser necessário realizar a amputação do pênis com uretrostomia perineal.
O priapismo não isquêmico pode ter resolução espontânea. Em todos os casos, deve-se lubrificar o
pênis para evitar lesão tecidual e recomenda-se o uso de colar elizabetano para evitar
autoescoriação e mutilação. Algumas medicações sistêmicas são sugeridas como gabapentina,
terbutalina e pseudoefedrina.
Parafimose
É uma afecção que ocorre quando o pênis não ereto não consegue ficar coberto pelo prepúcio. Não está
relacionada à estimulação sexual. Essa doença, diferente do priapismo, não é dolorosa. As principais causas
são edema do pênis, orifício prepucial muito pequeno, comprimento inadequado do prepúcio e trauma ou
fraqueza dos músculos prepuciais. É comum que ocorra de forma iatrogênica, após a coleta manual de sêmen.
Nos gatos de pelo longo, a parafimose pode ocorrer quando o pênis fica enrolado nos pelos do prepúcio.
A parafimose de longa duração (não corrigida) pode evoluir para gangrena e necrose do pênis, pois vai
ocorrendo um garroteamento da parte exposta do pênis pelo próprio orifício do prepúcio, o que diminui a
vascularização no local.
Atenção
Para diferenciar a parafimose do priapismo, pode-se realizar uma ultrassonografia com Doppler de fluxo
colorido. O ultrassom também é importante para descartar afecções como: neoplasia, hematoma, fratura
de pênis ou tromboembolismo.
Fimose
Afecção que ocorre quando o pênis fica preso dentro da cavidade prepucial, sem possibilidade de exposição.
Geralmente, é um defeito congênito do tamanho do orifício do prepúcio, mas é raro em cães e gatos. Quando
ocorre, é identificada em filhotes devido a dificuldades urinárias, com o gotejamento de urina que ficou
acumulada no prepúcio, ou é identificada quando o animal não consegue acasalar.
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Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Fisiopatogenia do criptorquidismo
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Questão 1
Um filhote de cão sem raça definida, com 6 meses de idade, chega ao hospital veterinário para rotina
pediátrica. Durante o exame físico, o médico veterinário nota que os testículos não estão dentro da bolsa
escrotal.
Qual exame complementar deve ser solicitado para confirmar o diagnóstico e qual é a recomendação de
tratamento?
Ultrassonografia pélvica para confirmar um defeito congênito (agenesia de testículo). Essa afecção não
precisa de tratamento.
Questão 2
Um cão da raça Pastor Belga de Malinois, inteiro, de 3 anos de idade, chegou ao hospital veterinário com
queixa de lambedura excessiva do pênis e exposição permanente da glande peniana. Durante a anamnese, a
médica veterinária descobriu que o animal era um reprodutor de canil e tinha acabado de passar por um
procedimento de coleta manual de sêmen. No exame físico, percebeu-se que o pênis estava com a glande
exposta, porém, não estava ereto.
Parafimose e as principais causas são edema do pênis, trauma, orifício prepucial pequeno ou comprimento
inadequado do prepúcio.
Cio silencioso
É quando não há manifestações clínicas que indiquem que a fêmea está ovulando. Então, não ocorre edema e
sangramento vulvar. Não há nem sinais sutis como na imagem a seguir.
Atenção
É importante lembrar que o intervalo entre cios nas cadelas varia de acordo com a raça, sendo normal
entre 4 e 12 meses. Já as gatas possuem ovulação induzida, ou seja, podem entrar em estro várias
vezes.
Quando o intervalo entre os cios é maior do que o normal, deve-se desconfiar de doenças endócrinas, cistos
lúteos ou neoplasias ovarianas secretoras de progesterona.
Quando o intervalo é mais curto que o normal, pode estar relacionado a uma predisposição racial. Isso pode
acontecer em raças como Cocker Spaniel, Labrador Retriever e Pastor Alemão. Também pode estar
relacionado ao ambiente, por exemplo: várias fêmeas não castradas vivendo juntas em um canil. Quando uma
fêmea entra no cio, induz as outras a entrarem também, às vezes, antecipando o cio. Outra justificativa para o
intervalo mais curto entre os cios é o tratamento com agonistas de dopamina, prostaglandina F2 alfa ou
antagonista de serotonina.
Hidrometra Piometra
Mucometra
Como consequência, pode gerar infertilidade nas fêmeas e número de crias diminuído.
Metrite
Essa doença se caracteriza por uma infecção inflamatória do útero que ocorre geralmente no período pós-
parto imediato. A causa está relacionada a partos distócicos, retenção placentária ou de fetos mortos,
manipulações obstétricas e ascensão bacteriana.
Os principais sinais e sintomas são secreção vaginal de sanguinolenta a purulenta, desidratação, depressão,
anorexia, febre e baixa habilidade materna.
Saiba mais
O que diferencia a metrite da piometra é que essa infecção ocorre no pós-parto, enquanto na piometra
não há gestação antes da infecção.
O tratamento pode ser cirúrgico (castração) ou medicamentoso. Deve-se corrigir a desidratação do animal,
administrar analgésicos, anti-inflamatórios e antibióticos de amplo espectro. Para o esvaziamento do útero
indica-se ocitocina ou prostaglandinas F2 alfa.
Endometrite
É uma inflamação do endométrio que pode gerar infertilidade em cadelas e gatas. É caracterizada como uma
doença crônica e subclínica.
O tratamento é baseado em antibioticoterapia de amplo espectro, por 15 dias, junto com aglepristone.
Prolapso uterino
É definido como a protrusão de um ou ambos os cornos uterinos pela vulva (veja na imagem a seguir). O
prolapso pode ser parcial ou total. Geralmente, ocorre ao final de partos de ninhadas numerosas ou devido a
partos distócicos (com a administração de ocitocina). Podendo ser imediatamente após ou até 2 dias pós-
parto.
Redução manual
É realizada no ambulatório, o animal pode ser sedado (cuidado na escolha do medicamento para a
sedação, pois a fêmea estará em fase de amamentação), e o veterinário reposiciona o útero, após
lavar o órgão abundantemente com água gelada.
Tratamento cirúrgico
Distúrbios mamários
As glândulas mamárias também fazem parte do sistema reprodutor de cadelas e gatas. A seguir, serão
apresentadas as principais afecções relacionadas às glândulas mamárias.
Pseudociese
A pseudociese ou pseudogestação é um fenômeno fisiológico normal nas fêmeas não gestantes. É mais
comum em cadelas e ocorre no final do cio (fase luteal), quando as concentrações do hormônio progesterona
diminuem e, consequentemente, as concentrações do hormônio prolactina aumentam.
O que leva ao diagnóstico de pseudociese é o grau de manifestação clínica que a fêmea apresenta e isso
depende de dois fatores:
Algumas fêmeas apresentam uma concentração Alguns pacientes possuem receptores com uma
maior de prolactina em órgãos alvo, como as sensibilidade aumentada à prolactina.
glândulas mamárias.
Se a fêmea em questão apresentar alguns desses dois fatores, ela manifestará os sinais e sintomas da
pseudociese.
O principal sinal clínico é o desenvolvimento das glândulas mamárias e a produção de leite. Contudo, as
fêmeas também podem apresentar um comportamento alterado, com hábito de fazer ninho ou cuidar de
objetos inanimados, ganho de peso, descarga vulvar mucosa, inapetência e inquietação.
Sobre o tratamento, a pseudociese é considerada uma condição autolimitante, então, não precisaria de
tratamento. Se a regressão dos sintomas não ocorrer de uma a três semanas, é necessário entrar com o
tratamento clínico para evitar progressão para mastite. O objetivo do tratamento é a extinção da lactação,
porém, os medicamentos antigalactogênicos causam mais efeitos colaterais do que benefícios. Os
medicamentos utilizados têm como princípio ativo a metergolina e os principais efeitos colaterais são:
• Vômitos
• Diarreia
• Modificação de comportamento
• Agitação
• Depressão
• Anorexia
Um tratamento clínico alternativo e eficaz para pseudociese pode ser feito com medicamentos homeopáticos.
Porém, se o objetivo for a cura completa, sem recidivas nos próximos ciclos estrais, é recomendado o
tratamento cirúrgico com ovariossalpingo-histerectomia.
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Mastite
É uma inflamação séptica das glândulas mamárias. Geralmente, manifesta-se como uma inflamação cutânea,
com hipertermia e edema das mamas. Pode apresentar estase láctea com consequente endurecimento
intramamário.
O leite produzido pode se apresentar vermelho pálido ou marrom, pois está contaminado por
bactérias.
Essa afecção, geralmente, ocorre após o estímulo da prolactina, que estimula a produção de leite e o
relaxamento do orifício do teto favorecendo a entrada de bactérias da flora cutânea.
Como sintomas, a fêmea apresenta desconforto e dor nas mamas, relutância em deitar-se, anorexia, letargia e
febre. Em casos mais graves, pode ocorrer abscessos e necrose da mama com choque séptico.
O diagnóstico é baseado no exame físico e cultura e antibiograma do leite colhido de forma asséptica.
O tratamento é baseado em antibioticoterapia de amplo espectro, com a escolha do antibiótico ideal por meio
do resultado do antibiograma, em analgésicos e em medicamentos antiprolactina, para secar o leite, que é um
meio de cultivo para as bactérias. Em casos de necrose, deve-se realizar o tratamento cirúrgico com
desbridamento e mastectomia.
A principal manifestação é o aumento do volume mamário devido à rápida proliferação do epitélio de ductos e
estroma mamários. Pode ocorrer regressão espontânea ou evolução para mastite com abscesso e gangrena.
É necessário realizar o diagnóstico diferencial para neoplasia mamária, por meio de citologia ou biópsia.
O tratamento é realizado com antibiótico e anti-inflamatório não esteroidal, terapia antiprolactina e, em casos
graves, a mastectomia é recomendada. Contudo, a principal recomendação é o tratamento cirúrgico, com a
castração, para evitar a influência da progesterona nas glândulas mamárias e recidivas.
Hematúria
Prostatite bacteriana
Pode ser classificada em aguda, sendo uma afecção fulminante, ou crônica e progressiva. Há alteração do
sêmen e pode ocorrer cistite associada, devido ao refluxo do fluido prostático para a bexiga. A fonte da
infecção geralmente é a ascensão bacteriana da flora uretral, mas pode ocorrer por via hematogênica. As
bactérias mais isoladas são:
Streptococcus
A prostatite séptica aguda é grave e pode evoluir rapidamente para sepse e morte do paciente. Nesse quadro
a próstata é dolorosa a palpação, o que a diferencia da HPB. A ejaculação também pode ser dolorosa. Outro
sinal clínico é a linfoadenomegalia. Além de febre, letargia e anorexia. Já a prostatite crônica pode ser
assintomática.
O diagnóstico é realizado por meio de exame físico (toque retal), ultrassonografia abdominal, citologia e
cultura da próstata.
O tratamento da prostatite aguda deve ser imediato e é baseado primeiramente na correção da desidratação
para evitar choque hipovolêmico. Se houver abscesso prostático, a drenagem cirúrgica é o procedimento mais
indicado. A antibioticoterapia ideal baseia-se no antibiograma, mas se não for possível realizá-lo, pode-se
iniciar o tratamento com fluoroquinolona e amoxicilina potencializada, durante quatro semanas, no mínimo.
O tratamento com antibiótico só deve ser interrompido após uma cultura negativa da urina ou
próstata. O tratamento cirúrgico com castração ou a castração medicamentosa com finasterida deve
ser considerada já que a recidiva da infecção é comum.
O tratamento da prostatite crônica é mais difícil, devendo-se utilizar antibióticos como eritromicina,
clindamicina, cloranfenicol, enrofloxacina e ciprofloxacina, pois são agentes lipofílicos para permitir a
penetração na próstata. A escolha do antibiótico vai depender do resultado da cultura (urina ou tecido
prostático) e antibiograma, e deve ser administrado por, no mínimo, quatro semanas. A castração melhora a
resposta ao tratamento.
Staphylococcus spp.
Streptococcus spp.
Escherichia coli
Pasteurella spp.
Klebsiella spp.
Proteus spp.
Pseudomonas spp.
Há bactérias que não fazem parte da microbiota do animal, mas que podem infectar cães e gatos e também
causar sintomatologia no trato reprodutivo.
Chlamydia felis
É uma bactéria intracelular obrigatória, conhecida por causar conjuntivite em gatos. Entretanto, também tem
tropismo pelos órgãos genitais e sua infecção causa consequências como falhas reprodutivas.
O tratamento para essa infecção é com o antibiótico doxiciclina na dose de 5mg/kg a cada 12 horas, durante
28 dias. O ideal é manter o tratamento por mais 7 dias após o desaparecimento dos sintomas.
Brucella canis
É uma bactéria aeróbica gram-negativa pequena. Gera infecção e consequências reprodutivas em cães, que
também podem ser infectados por B. abortus, B. melitensis e B. suis. A infecção ocorre por inalação ou
ingestão da bactéria, mas também pode ocorrer pelo coito e ser transmitida da mãe para o filhote.
Os sinais clínicos são inespecíficos e discretos, podendo apenas ocorrer o aparecimento de uma secreção
vaginal 3 meses após o primeiro contato com a bactéria. No caso de cadelas gestantes, a brucelose pode
causar aborto espontâneo tardio, ou seja, entre o 30º ao 57º dia. Também causa morte embrionária e
reabsorção fetal entre o 10º e 20º dia após o acasalamento.
Virais
Agora, vamos conhecer as doenças do sistema reprodutor causadas por vírus.
As consequências da infecção por parvovírus do tipo I depende da fase da gestação em que a cadela é
infectada. Se ocorrer na primeira metade da gestação, há absorção embrionária. Já se ocorrer nos momentos
finais da gestação, há morte neonatal.
Não existe tratamento específico com antivirais para essa doença, porém, pode-se prevenir com a vacinação
das cadelas, antes do acasalamento.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Uma cadela da raça Maltês, de 1 ano de idade, foi levada à clínica veterinária com queixa de mudança de
comportamento, há três semanas. A tutora relata que o animal fica escondido embaixo da pia do banheiro e,
quando alguém se aproxima, a cadela reage com agressividade. Na anamnese, a médica veterinária descobriu
que a cadela havia entrado no cio há aproximadamente 3 meses. No exame físico, notou edema das mamas e,
ao pressionar o teto, havia presença de leite.
Gestação. Realizar ultrassonografia para confirmar o diagnóstico e aguardar o nascimento dos filhotes.
C
Pseudociese. Realizar o tratamento clínico com antigalactogênicos.
Questão 2
Um cão macho, inteiro, da raça Poodle de 6 anos de idade é levado ao hospital veterinário para vacinação
anual. A tutora relata que a única alteração que o animal apresenta é uma dificuldade de defecar e, às vezes,
as fezes se apresentam achatadas (em forma de fita). No exame físico de toque retal, a médica veterinária
notou um aumento prostático, mas o animal não manifestou dor.
Qual a principal suspeita diagnóstica, o exame para confirmar o diagnóstico e a recomendação terapêutica?
Neoplasia prostática. Ultrassonografia abdominal com citologia e/ou biópsia. Tratamento cirúrgico.
Obstetrícia
Gestação
A obstetrícia é a especialidade médica veterinária que cuida da gestação, do parto e pós-parto. Os objetivos
da assistência obstétrica veterinária são:
Uma das informações mais importantes para o acompanhamento gestacional de pequenos animais é a idade
gestacional. Principalmente, se os tutores não sabem ao certo a data da monta. A partir de 25 dias após o
acasalamento, a idade gestacional pode ser estimada por ultrassonografia abdominal (ela é essencial para
avaliar a viabilidade dos fetos).
Sobre as atividades para a fêmea gestante, a recomendação é de exercícios moderados, porém, progressivos,
para manter o peso. Tais atividades devem ser realizadas em local familiar, minimizando a exposição a
patógenos, principalmente, durante as últimas 3 a 4 semanas de gestação.
Vacinação e medicações
A vacinação é contraindicada durante a gestação, principalmente se a fêmea já tiver sido vacinada três anos
antes. O reforço vacinal só é recomendado antes do acasalamento. A maioria dos medicamentos são
contraindicados no primeiro mês de gestação, pois é quando ocorre a organogênese dos fetos. Nesse estágio,
os medicamentos são capazes de atravessar a placenta e atingir a circulação fetal, podendo ter efeito
teratogênico nos fetos e sobrecarregar o rim fetal imaturo.
A vermifugação é recomendada antes da cobertura e 10 dias antes do parto. Depois, junto com o protocolo
dos filhotes.
Parto
O parto fisiológico (normal) é divido em três fases:
Perda gestacional
É quando há morte dos fetos nas últimas quatro semanas, antes do fim da gestação. As principais causas são
parto prematuro idiopático, doenças infecciosas ou traumas maternos significativos. Tais alterações estimulam
a deficiência luteal ou atividade uterina imprópria. Deficiência luteal gera uma produção de progesterona
inadequada para manutenção da gestação. Já a atividade uterina imprópria corresponde a contrações
miometriais e amolecimento da cérvix.
Saiba mais
O parto prematuro idiopático corresponde a perda da gestação via reabsorção ou abortamento antes do
tempo, quando nenhuma causa metabólica, infecciosa, congênita, traumática ou tóxica é identificada.
O diagnóstico é realizado por meio de avaliação minuciosa da fêmea e dos natimortos, pesquisa para doenças
metabólicas e infecciosas, avaliação histopatológica e microbiológica dos fetos abortados e da placenta. Além
de revisão do manejo do canil/gatil quanto à nutrição, medicação e aos fatores ambientais.
Quando há o diagnóstico precoce de risco de perda gestacional, o tratamento pode ser feito com
medicamentos tocolíticos, que inibem a contratilidade miometrial, como os agonistas beta adrenérgicos
(terbutalina 0,03 mg/kg/VO/TID), sulfato de magnésio, bloqueadores de canais de cálcio e inibidores de
prostaglandina-sintetase. A terapia deve ser descontinuada 24 horas antes do parto e é contraindicada
quando há presença de patologia uterina, fetal ou placentária.
Distúrbios metabólicos
A toxemia da prenhez é definida como uma alteração no metabolismo de carboidratos no fim da gestação,
resultando em cetonúria sem glicosúria ou hiperglicemia. É causada por nutrição deficiente ou anorexia
durante a 2ª metade da gestação. Entre as alterações metabólicas pode-se manifestar a lipidose hepática.
O tratamento é baseado em um plano melhorado de nutrição e a interrupção da gestação pode ser indicada
em casos graves.
Distúrbios do parto
Também conhecidos pelo termo distocia, são caracterizados pelas dificuldades na expulsão vaginal normal de
um neonato do útero. Esses distúrbios podem ocorrer devido a fatores maternos ou fetais. Os principais
fatores maternos e fetais que causam distocia são:
Fatores maternos
• Sepse;
• Inércia uterina;
• Reação inflamatória sistêmica;
• Hipotensão (por hemorragia ou choque);
• Anomalias no canal pélvico (distocia obstrutiva);
• Comprometimentos intraparto como anormalidades metabólicas (hipocalcemia e hipoglicemia).
Fatores fetais
• Tamanho exagerado;
• Anormalidades anatômicas (hidrocefalia e anasarca);
• Mau posicionamento;
• Apresentação errônea (flexão de pescoço ou de articulação escápulo-umeral).
Para que seja possível intervir nessa situação, o diagnóstico precoce de fatores que levam à distocia deve ser
feito. Para isso, é necessário um exame clínico minucioso do estado geral da fêmea, exame de palpação
digital, vaginoscopia para avaliar a patência do canal de parto, radiografia para avaliar o tamanho dos fetos e
da ninhada e ultrassonografia com Doppler para avaliar a viabilidade fetal. A desaceleração persistente dos
batimentos cardíacos fetais (< 180 bpm) refletem o estresse e sofrimento fetal.
O tratamento clínico para distocia inclui a administração de gluconato de cálcio, que aumenta a intensidade
das contrações uterinas e a administração de ocitocina, que aumenta a frequência das contrações uterinas.
Se a taxa de batimentos cardíacos fetais diminuir em resposta a administração de cálcio ou ocitocina, não se
indica novas aplicações, mas se uma cadela ou gata não responder ao tratamento clínico, ou se o sofrimento
fetal for evidenciado, o tratamento cirúrgico com cesariana é indicado.
Neonatologia
As primeiras 24 horas
Nas primeiras horas de vida do neonato, é importante que ele passe por um exame físico completo da
cavidade oral, avaliando a cobertura pilosa (que deve ser completa e limpa), membros, umbigo (que deve
estar seco, sem eritema ao redor), estruturas urogenitais (para avaliar patência) e o reflexo de sucção deve
estar presente.
Nesse período, os neonatos são extremamente sensíveis a
estresse ambiental, infecção e desnutrição. Por isso, deve
ser realizado um exame diário para avaliação de vigor e
anotação de peso. O ambiente deve ser mantido em 36°C
até a 4ª semana (luz acima da cabeça). E devido ao
desenvolvimento incompleto do sistema imunológico até o
10º dia de vida, deve-se administrar o colostro materno ou
100mL/kg de soro de um adulto imunocompetente (0,10mL/
g) por via oral até 48 horas de vida. É recomendado tratar o
umbigo com tintura de iodo após o nascimento.
Ressuscitação neonatal
Neonato da espécie felina. Os procedimentos de ressuscitação devem ser iniciados
caso a fêmea falhe (1 minuto após o nascimento) ou em
caso de cesariana. Normalmente, quando o parto é normal,
após o nascimento, a fêmea estimula o neonato a respirar, vocalizar e se movimentar. Como na cesariana a
mãe está anestesiada, é o médico veterinário quem deve realizar esses estímulos. Como na ressuscitação
convencional, são utilizados os critérios ABC:
A (airways) B (breathing)
C (circulation)
Circulação.
Logo após o nascimento, deve-se realizar a limpeza imediata das vias aéreas do fluido amniótico por leve
sucção com seringa ou aspirador. Colocar a cabeça em nível inferior ao tórax, melhora a drenagem. Após,
secar e estimular o neonato para promover a respiração e evitar hipotermia. Se os batimentos cardíacos
estiverem lentos, deve-se melhorar a ventilação/oxigenação.
Atenção
Não se deve sacudir os neonatos na tentativa de desobstrução das vias aéreas, pois há risco de
hemorragia cerebral por concussão. Neonatos hipotérmicos podem não responder à ressuscitação.
O suporte ventilatório deve ser realizado com o fluxo constante de oxigênio, por máscara. Se não for eficiente
após 1 minuto, utiliza-se pressão positiva com máscara ou entubação endotraqueal. Somente após o suporte
ventilatório, deve-se iniciar a estimulação cardíaca, pois a hipoxemia do miocárdio causa bradicardia ou
assistolia. A estimulação cardíaca é feita com compressões cardíacas trans torácicas diretas (utilizando dois
dedos apenas) e se necessário, deve-se administrar epinefrina diluída 1:9 (0,0002 mg/g, intravenosa ou
intraóssea). Ou 0,2mg/kg intracardíaca, se o coração estiver parado.
Rotina pediátrica
Nutrição
Até completar um ano de idade, cães e gatos são considerados filhotes, ou seja, precisam de cuidados
pediátricos específicos. Eles devem receber alimentos específicos para essa fase de vida, pois possuem os
nutrientes necessários para a fase de crescimento.
No caso dos felinos, a ração deve ficar sempre à disposição, pois o gato tem hábito de comer pouca
quantidade várias vezes ao dia.
Qualquer mudança na alimentação deve ser feita de forma gradativa, misturando a cada dia porções maiores
do novo alimento e diminuindo as porções do antigo alimento. Evitando, assim, irritação do sistema
gastrointestinal e sinais como vômito e diarreia.
A quantidade de água que o animal deve ingerir é de até 80mL por quilo por dia. As recomendações para a
fonte de água ideal são cuidar da caixa-d’água e filtrar a água que recebe em casa.
Higiene
Evite dar banho nos primeiros meses de vida. Os banhos devem ser quinzenalmente, com água morna e
sabonete neutro próprio para cães. Durante o banho, as orelhas devem ser protegidas com algodão para
evitar a entrada de água. Já os banhos em pet shops, somente são indicados após completar o protocolo de
vacinação. Os gatos não precisam de banho. A escovação dos dentes deve ser diária para cães e gatos, a
partir dos 6 meses de idade (quando os animais já têm os dentes permanentes).
Escovação dos dentes de felino.
Vacinação
Na maioria dos casos, o protocolo vacinal se inicia aos 2 meses de idade com as vacinas múltiplas, da
seguinte maneira:
São três doses da vacina com intervalo de 30 dias entres as doses, sendo importante que o protocolo vacinal
seja finalizado quando o filhote já tiver 4 meses de idade. Só após os 4 meses é que o sistema imune do
filhote já tem autonomia para produzir os seus próprios anticorpos. Antes disso, há muita interferência dos
anticorpos maternos, podendo prejudicar a memória imune contra os agentes da vacina. Após, o reforço
vacinal deve ser anual ou conforme o estilo de vida do animal, como as recomendações da World Small Animal
Veterinary Association (WSAVA).
Saiba mais
A vacina quíntupla só pode ser administrada para gatos com teste de FIV e FeLV negativo. A
recomendação é que esse teste seja feito a partir dos 4 meses de idade, evitando resultados falso-
negativos.
Vermifugação e medicamentos
Os filhotes de cães e gatos devem ser vermifugados a partir de 15 dias de vida. Uma segunda dose de
vermífugo deve ser administrada com 1 mês de vida e a terceira dose com 2 meses de vida, finalizando o
protocolo de desverminação antes do início do protocolo vacinal. O vermífugo é calculado de acordo com o
peso dos pets, por isso, é importante pesar o animal sempre antes de medicar.
Após essas três doses, o animal deve ser vermifugado com uma frequência de 4 em 4 meses ou
semestral, dependendo do tipo de exposição.
O vermífugo é administrado em dose única, geralmente por via oral, mas também existem opções em spot on
(apresentação em pipeta) para gatos. Após essa dose única, recomenda-se uma dose de reforço do
vermífugo após 15 dias, pois o medicamento mata os vermes adultos, mas não seus ovos. Após duas semanas
da primeira dose, os ovos já se tornam vermes adultos e toda a população é eliminada com a dose de reforço.
Qualquer medicamento só deve ser administrado sob prescrição do médico veterinário. Anticoncepcionais são
proibidos.
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As fases do parto
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Uma fêmea da raça Cocker Spaniel, reprodutora de canil, de 5 anos de idade, acasalou e foi confirmada a
gestação no 30º dia, por ultrassonografia abdominal. No momento do parto, todos os filhotes nasceram
mortos, caracterizando uma perda gestacional.
C
Deficiência do hormônio estrogênio, o que dificultou a manutenção da gestação.
Questão 2
Um filhote de gato da raça Siamês, de 2 meses de idade, chega à clínica veterinária para tomar a segunda
dose da vacina quádrupla. Quando a médica veterinária analisa a carteira de vacinação, observa que a
primeira dose da vacina foi aplicada quando o animal tinha um mês de idade.
Qual a conduta ideal para que o felino complete o protocolo vacinal com segurança?
A médica veterinária deve aplicar a segunda dose da vacina nessa consulta e a terceira e última dose após 30
dias.
A médica veterinária não deve aplicar a segunda dose da vacina nessa consulta. Só aplicar a segunda dose
quando o animal completar 3 meses e a última dose após 30 dias.
A médica veterinária deve aplicar a segunda dose da vacina nessa consulta e a terceira e última dose só
quando o animal tiver quatro meses de idade.
A médica veterinária deve recomendar que o felino tome quatro doses da vacina no total, com intervalo de 30
dias entre as doses, para que a última dose seja quando o animal complete 4 meses de idade.
A médica veterinária deve recomendar a vacinação mensal do felino até ele completar 6 meses de idade.
A alternativa D está correta.
O protocolo vacinal de filhotes felinos é composto de três doses com o intervalo de 30 dias entre elas,
iniciando com dois meses de idade e terminando aos 4 meses de idade. Quando há qualquer alteração
neste protocolo, o importante é respeitar o intervalo de 30 dias entre as doses para manter o estímulo
imunológico e que a última dose ocorra quando o animal tiver 4 meses de idade ou mais, devido à
interferência dos anticorpos maternos no filhote, antes desse período.
5. Conclusão
Considerações finais
Aprendemos como são feitos a identificação, o diagnóstico e tratamento de afecções genitais femininas e
masculinas, assim como aquelas que afetam o sistema reprodutor e a fertilidade de cães e gatos. Aprendemos
boas práticas de conduta voltadas para a saúde do animal, considerando que alguns animais têm um valor
reprodutivo elevado e, por isso, os tratamentos conservadores são mais adequados. Vimos que tratamentos
definitivos como a ovariossalpingo-histerectomia e a orquiectomia são essenciais para manutenção da vida de
cães e gatos em muitos casos.
O objetivo de um manejo reprodutivo adequado é a obtenção de filhotes saudáveis, sem prejudicar a saúde de
seus progenitores. Vimos importantes aspectos relacionados à obstetrícia, neonatologia e pediatria na rotina
clínica, que são baseados na medicina preventiva e devem ser mais valorizadas tanto pelos tutores, quanto
pelo médico veterinário.
Podcast
Ouça agora sobre os tratamentos conservadores para as doenças do trato reprodutivo com base na
Medicina Veterinária integrativa, citando alguns exemplos.
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Doenças Hereditárias, sobre as principais doenças hereditárias que acometem cães e gatos e como isso
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prescrição para o tratamento de doenças reprodutivas, lendo o artigo ACVIM Consensus Statement on
Therapeutic Antimicrobial Use in Animals and Antimicrobial Resistance, de J. S. Weese, S. Giguère, L.
Guardabassi, P. S. Morley, M. Papich, D.R. Ricciuto e J. E. Sykes.
Referências
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BASTOS, M. M. S.; PANTOJA, A. R.; EVERTON, E. B.; CARNEIRO, M. J. C.; AIRES, E. O. M. Postioplastia por
circuncisão para redução de fimose em gato: relato de caso. Medicina Veterinária (UFRPE), v. 14, n. 2, p.
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prolapso uterino em gata e retroflexão uterina em cadela. Ciência Animal Brasileira, v. 9, n. 3, p. 801-805,
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