Investigação
D. Maria II
A última Rainha
D. Maria II morreu há 150 anos, devido a complicações surgidas ao dar à luz o seu
11.º filho. Tinha então 34 anos. Depois dela, nenhuma outra mulher voltou a ocupar a
chefia do Estado português.
José Miguel Sardica
Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa
«…uma princesa que tem de reinar por si e por seu próprio direito,
é fêmea de facto e varão de direito e a educação tem, neste caso,
de contrastar a natureza, e de diminuir quanto é possível a mulher,
para que só fique a rainha»
Almeida Garrett, Da Educação, 1830
(obra dedicada à preceptora de D. Maria II)
Em Setembro de 1834, ao cabo de dois anos de Guerra Civil entre liberais e
absolutistas e de oito anos de enorme incerteza política – desde que a morte de D. João
VI, em 1826, dera início à querela sucessória entre D. Pedro IV e D. Miguel – a jovem
princesa D. Maria da Glória, então com 15 anos de idade, era entronizada rainha de
Portugal sob o nome de D. Maria II. O início do seu reinado coincidia com o início do
Portugal novo da Carta Constitucional – que triunfara sobre o Portugal velho do
absolutismo – materializado numa monarquia liberal, burguesa e progressista que duraria
até 1910. Todavia, apesar de vitorioso em 1834, o liberalismo português tinha diante de si
um país exangue, um quadro institucional pouco consolidado e uma classe política
estreita e muito faccionalizada. Quase meio século depois, Oliveira Martins haveria de
referir-se a esse momento histórico num tom pessimista e crítico: “D. Maria II era mulher
e quase criança; um ser a propósito para essa ficção singular de monarquia sem
autoridade, de rei que não governa (…) a fim de preencher esse lugar vago a que o
liberalismo chama trono (…) ninguém melhor servia do que uma criança apenas mulher,
1
pessoa sem querer, símbolo em vez de realidade, como os vultos de palha que se põem
nas searas para afugentar os pardais vorazes” (Portugal Contemporâneo, 1881).
Alçada ao trono em virtude da súbita morte do seu pai, D. Pedro IV, declarada maior
de idade para que não se prolongasse o vácuo político com uma regência de D. Isabel
Maria (a tia), a jovem rainha viu-se na singular posição de tutelar homens experimentados
na política e na guerra, com idades e visões muito diferentes das suas. Qualquer biografia
de D. Maria II não pode nunca esquecer este facto – que, de certa forma, lhe condicionou
todo o reinado. A sua bisavó, D. Maria I – a única rainha reinante da história de Portugal
além dela – assumira o trono com 43 anos de idade, em 1777. De todos os monarcas do
constitucionalismo liberal, nenhum começou a reinar tão novo quanto D. Maria II: D.
Pedro V tinha 18 anos, D. Luís 23, D. Carlos 26 e D. Manuel II 18.
A Princesa D. Maria da Glória
D. Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula
Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, de seu nome completo, Duquesa do Porto e
Princesa da Beira e do Grão-Pará, nasceu no Rio de Janeiro, no Palácio de S. Cristóvão, a
4 de Abril de 1819, filha de D. Pedro IV, e de sua mulher, a Arquiduquesa austríaca
Maria Leopoldina de Habsburgo-Lorena. Por parte do pai, era neta de D. João VI e da
rainha Carlota Joaquina de Bourbon; por parte da mãe, neta do Imperador Francisco I,
sobrinha de Maria Luísa da Áustria, a segunda mulher de Napoleão Bonaparte e, portanto,
prima direita do pequeno Napoleão II, o “Rei de Roma”. Lá longe, no exílio brasileiro
onde a família real portuguesa se refugiara desde 1807, a infância da jovem D. Maria
decorreu placidamente, sem as convulsões que a partir de 1820 – com a eclosão da
revolução liberal vintista – haveriam de marcar a agenda política da metrópole.
Em Março de 1826, a morte do rei D. João VI catapultou a pequena D. Maria para o
centro das atenções políticas. D. Pedro, o filho mais velho (depois da morte do Príncipe
da Beira, D. António, em criança), seria o herdeiro legítimo e natural do trono – não for a
o facto de ter declarado, unilateralmente, em 1822, a independência do Brasil, tornando-
se assim, além de rebelde e traidor aos interesses ultramarinos de Portugal, soberano de
um país estrangeiro. Foi por isso que D. Pedro se viu coagido pelas circunstâncias a
engendrar uma solução sucessória que, em boa verdade, complicou, mais do que resolveu,
2
o problema aberto pela morte do pai. A 30 de Abril, outorgou a Portugal a Carta
Constitucional, como lei fundamental do reino; a 2 de Maio, abdicou da Coroa portuguesa
na filha, sob condição de esta vir a casar com o tio, o Infante D. Miguel, cujas opiniões
absolutistas seriam assim neutralizadas pelo juramento da Carta. A 29 de Outubro de
1826, em Viena de Áustria, realizou-se o casamento, por procuração, entre a sobrinha e o
tio – ela com 7 anos, ele com 24. Segundo Oliveira Martins, o plano matrimonial for a
gizado ainda por D. João VI, inspirado na experiência da sua mãe, D. Maria I, que casara
também com o tio, o Príncipe D. Pedro, depois D. Pedro III.
Uma rainha sem trono
Em Julho de 1828, D. Maria deixou o Brasil a caminho da corte do avô, em Viena,
onde iria completar a sua educação. No entanto, à chegada a Gibraltar, em Setembro, o
Marquês de Barbacena, que a acompanhava, recebeu informações que deitavam por terra
o arranjo de D. Pedro: o irmão, D. Miguel, recém-chegado a Portugal, proclamara-se rei
absoluto, repudiando a Carta e invalidando assim o matrimónio com a sobrinha. A
educação austríaca de D. Maria foi imediatamente posta de parte, e a jovem rainha –
agora uma rainha sem trono, usurpado pelo tio – partiu para Londres, onde foi recebida
com honras reais por Jorge IV, mas sem grande apoio político por parte do gabinete tory
de Lord Wellington. Ao cabo de longos meses de incerteza em Inglaterra, e após
sucessivos reveses sofridos pela resistência liberal em Portugal, Barbacena e D. Leonor
da Câmara, futura Marquesa do Faial e preceptora de D. Maria, deliberaram regressar ao
Brasil, levando com eles D. Maria e também a noiva que o Marquês negociara na Europa
para casar em segundas núpcias com D. Pedro (viúvo desde a morte de Maria Leopoldina,
em Dezembro de 1826) – a princesa D. Amélia Augusta de Beauharnais.
Em Outubro de 1829, D. Maria estava de volta ao Rio de Janeiro, levando com ela
uma única boa notícia – a prometedora vitória dos liberais sobre a esquadra miguelista, na
Batalha da Vila da Praia, ao largo de S. Miguel, prenunciando a importância que os
Açores haveriam de assumir na futura reconquista de Portugal. Só lentamente os ventos
políticos começaram a mudar – tanto para a causa liberal portuguesa como para o destino
individual de D. Pedro e da filha. No Verão de 1830, a “Revolução de Julho”, em Paris,
assinalou o princípio da viragem da diplomacia europeia a favor dos liberais portugueses;
3
na Primavera de 1831, depois de ter sido forçado a abdicar da Coroa brasileira no filho (o
futuro D. Pedro II), D. Pedro, o pai de D. Maria, partiu finalmente para a Europa,
decidido a reconquistar para a filha a Coroa de Portugal.
Em Agosto de 1831, D. Pedro (agora apenas com o modesto título de Duque de
Bragança), a ex-Imperatriz Amélia, sua segunda mulher, e a filha, D. Maria, hospedaram-
se no Hotel Clarendon em Londres, onde recebiam e animavam a comunidade portuguesa
liberal ali exilada. Poucas semanas depois, mudaram-se para Paris, onde a corte de Luís
Filipe de Orléans lhes proporcionou residência no Palácio de Meudon. Foi em Paris que
D. Maria viveu, entre 1831 e 1833, entregue à sua ama e a outros mestres providenciados
para a sua educação (como o famoso Abade Dupanloup, figura cimeira do catolicismo
francês do tempo). Levava uma vida pacata, por entre os estudos, os passeios e as
recepções, tendo ali iniciado um amizade juvenil, que perduraria toda a vida, com a
Princesa Clementina, filha do rei Luís Filipe. Entretanto, na Primavera de 1832, D. Pedro
e a sua entourage partiram, de Belle-Isle-sur-Mer para os Açores, e de lá, de S. Miguel,
para o Mindelo, nesse Verão, para o mítico cerco do Porto. Após a reconquista de Lisboa
aos absolutistas, em Julho de 1833, quando a sorte das armas já pendia decisivamente
para o lado liberal, D. Pedro mandou enfim chamar a filha.
A 23 de Setembro de 1833, D. Maria II pisou finalmente, e pela primeira vez na vida,
o solo do país de que era rainha. A recepção na Barra de Lisboa foi solene e festiva, por
entre uma profusão de embarcações, salvas e vivas; em terra, desde o Cais das Colunas à
Câmara Municipal, e desde o município até à Sé, onde se rezou um Te-Deum, todo o
caminho estava ricamente engalanado e cheio de notáveis e populares. Foram dias de
júbilo – mesmo que os meses seguintes, até Maio de 1834, ainda fossem de combate entre
as tropas liberais e os restos das desbaratadas tropas miguelistas.
Os primórdios de um reinado
Terminada a Guerra Civil, com a Convenção de Évora-Monte e a partida de D.
Miguel para o exílio, D. Pedro preparou-se enfim para reger o país até à maioridade da
filha – um plano desde sempre contestado pela esquerda mais radical. O primeiro
parlamento da nova era liberal abriu a 15 de Agosto de 1834. Contudo, um mês volvido,
D. Pedro, gravemente doente, comunicava às Cortes a sua retirada da política. A 20 de
4
Setembro, D. Maria prestou o juramento que a entronizava rainha de Portugal. O seu
primeiro acto como soberana foi condecorar o pai com a Grã-Cruz da Ordem da Torre e
Espada; quatro dias volvidos, a 24 de Setembro, o Dador da Carta morria, no Palácio de
Queluz, no mesmo quarto onde nascera, em Outubro de 1798.
Durante os primeiros anos do seu reinado, D. Maria viveu rodeada, e politicamente
orientada, pela elite cartista dos “amigos de D. Pedro” e, em geral, pelos políticos que se
achavam no direito a um lugar de relevo na nova ordem de coisas: Palmela, Silva
Carvalho, Terceira, Saldanha, Agostinho José Freire, Rodrigo da Fonseca, etc. A 1 de
Dezembro de 1834, em cumprimento do plano matrimonial já pensado pelo pai, a rainha
casou, por procuração, com o Príncipe D. Augusto de Leuchtenberg e Santa Cruz, nada
mais nada menos que o irmão da sua madrasta, ou seja, o cunhado de D. Pedro, que fora
para o Brasil, com a irmã, em 1829, e que ali estabelecera uma sólida amizade com o pai
de D. Maria. O casamento, por palavras de presente, realizou-se na Sé de Lisboa, a 26 de
Janeiro de 1835. Tragicamente, D. Augusto viria a morrer dois meses depois, dando azo a
especulações acerca de um envenenamento hipoteticamente ordenado pelo próprio
Presidente do Conselho, Palmela, acusado de querer casar o seu filho com a rainha viúva.
Por entre as muitas questões que agitavam a política portuguesa de então – os
empregos, as indemnizações, a venda dos bens nacionais, a pobreza do tesouro, a
desordem e o banditismo – o problema da sucessão do trono tornou-se um “dossier”
urgente. E foi com sentido de urgência, enorme pragmatismo político e poucas
considerações de paixão ou amor que a própria D. Maria encarou a missão de casar
novamente, para depressa dar um herdeiro à Coroa. O Conde do Lavradio, encarregado de
lhe encontrar um segundo marido (na realidade um terceiro, se se considerar válido o
casamento com o tio, D. Miguel), foi descartando sucessivas possibilidades, sempre sob o
olhar atento da Inglaterra: o Duque de Nemours e o Príncipe de Joinville (filhos do rei de
França), o Príncipe Alberto, austríaco, e o Príncipe de Carignan, um napolitano.
Assentou-se finalmente em D. Fernando de Saxe Coburgo-Gotha, um alemão aparentado
com as casas reais britânica e belga. O casamento por procuração foi celebrado em
Lisboa, a 1 de Janeiro de 1836, tendo o Duque da Terceira representado D. Fernando, e
por palavras de presente entre os dois nubentes a 9 de Abril desse ano. Ele tinha 19 anos;
ela acabara de fazer 17. D. Fernando seria o pai dos onze filhos de D. Maria, o Rei-
5
Consorte (título que lhe foi atribuído após o nascimento do príncipe real D. Pedro, em
1837) que a acompanharia toda a vida, e que lhe sobreviveria por longos anos ainda, já
naturalizado português nos gostos e nos hábitos.
O setembrismo, o cabralismo e a Guerra Civil da Patuleia
O ano de 1836 trouxe a D. Maria os seus primeiros, e maiores, dissabores políticos.
Ao cabo de dois anos a vociferar na oposição, a esquerda radical, disseminada pelos
clubes e pelas guardas nacionais, saiu à rua na chamada Revolução de Setembro,
proclamando abolida a Carta e restaurada a Constituição de 1822. Segundo testemunhos
coevos, foi com “repugnância vincada” e “em lágrimas” que a jovem soberana aceitou a
nova ordem política setembrista, renunciando ao texto constitucional pelo qual o pai dera
a vida. Seguiram-se anos politicamente confusos e militarmente agitados. A contra-
revolução cartista, com a qual a rainha se achava, ao menos sentimentalmente,
identificada, saiu à rua por duas vezes – na Belemzada, em Novembro de 1836, e na
Revolta dos Marechais (Saldanha e Terceira), no Verão de 1837. Os governos
setembristas, execrados por Fronteira e Lavradio (cujas memórias são dois dos melhores
relatos sobre o Portugal do tempo), iam fazendo o seu caminho a custo, cada vez mais
entalados entre a contra-ofensiva do cartismo e as exigências, sempre insaciáveis, da sua
cauda popular de extrema-esquerda, que não cessava de patrocinar motins e conspirações,
em Lisboa e nas províncias. Do setembrismo inicial – de Passos Manuel, Sá da Bandeira,
Dias de Oliveira e Ribeira de Sabrosa – passou-se, à sombra da Constituição centrista de
1838 e dos governos ordeiros de 1839-41, para uma tonalidade política cada vez menos
radical. Em Janeiro de 1842, António Bernardo da Costa Cabral, um ex-radical
convertido ao conservadorismo, restaurou, manu militari, a Carta Constitucional,
inaugurando um consulado pessoal, bem escudado no exército, que ficaria conhecido
como a “Restauração” (1842-46).
Não sendo crível apresentar D. Maria como a cúmplice oculta do plano cabralista da
restauração da Carta, ou seja, da viragem à direita da política portuguesa operada por
meios militares, o facto é que o Paço se veio a identificar crescentemente com o novo
homem forte do governo, como que seduzido pela promessa de uma administração forte e
estável. Ao longo de grande parte da década de 1840, Costa Cabral figurou sempre como
6
o antídoto contra a esquerda, particularmente contra a ameaça da revolução e da
instabilidade a que o cartismo – o credo político da rainha – desde 1834 queria pôr cobro.
Aquilo a que apressadamente o senso comum se habituou a chamar de “ditadura
cabralista” – qualificativo que servia aos adversários do Paço para teorizarem sobre as
inclinações “tirânicas” da rainha – não passou afinal de um legalismo extremo, que
fortaleceu o executivo, fidelizou o exército e reprimiu, na fronteira da legalidade,
qualquer manifestação oposicionista, nas ruas ou na imprensa. Tal prática levantou contra
os “Cabrais” – Costa Cabral e o irmão, José Bernardo – um ódio popular crescente que, a
pretexto de alguma legislação julgada mais provocatória, explodiu finalmente na
Primavera de 1846, na revolta da “Maria da Fonte”.
A contragosto, porventura para se resguardar politicamente, D. Maria viu-se forçada
a demitir o seu valido, entregando o governo, durante o Verão de 1846, a Palmela. Mas
como Palmela se inclinasse em demasia para a esquerda, procurando cooptá-la com a
satisfação de algumas das suas reivindicações, a rainha, de conluio com o marido, D.
Fernando, e com os seus conselheiros mais chegados, realizou o que ficou conhecido
como o golpe da “emboscada”. Chamado ao Paço, a 6 de Outubro, Palmela foi
sumariamente demitido, e substituído no lugar de Presidente do Conselho por Saldanha,
um dos favoritos de sempre do Paço e um dos rostos mais eminentes do cartismo. Três
dias volvidos, organizava-se no Porto uma “Junta” revolucionária setembrista, dando
início à Guerra Civil da Patuleia. Durante os cerca de nove meses que durou o conflito, a
esquerda não combateu apenas o governo e as tropas de Saldanha; na imprensa, ficou
célebre o jornal clandestino O Espectro, publicado por António Rodrigues Sampaio,
onde, sem rebuços e em linguagem insultuosa, se denegria a figura de D. Maria e se
sugeria a sua abdicação, em prol da república ou, ao menos, em prol de uma qualquer
regência em nome de D. Pedro V (na altura com nove anos).
O triunfo da Regeneração e dos “melhoramentos materiais”
A 29 de Junho de 1847, a Convenção do Gramido, assinada entre os beligerantes ao
abrigo da intervenção da Quádrupla Aliança, veio pôr um ponto final na Guerra Civil da
Patuleia. Saldanha, vitorioso, permaneceu à frente do governo. Dois anos depois, em
Junho de 1849, Costa Cabral, já elevado pela rainha à dignidade de Conde de Tomar,
7
regressava ao governo, substituindo Saldanha na Presidência do Conselho. Não se tratou
apenas da troca de um cartista por outro; e tanto que, a partir de 1850, o governo
regressou ao velho estilo da direita dura do cabralismo, reduzindo progressivamente a sua
plataforma de apoio, e alienando mesmo o suporte de muitos cartistas, que optaram por
seguir Saldanha quando este rompeu politicamente com o Conde de Tomar.
A segunda administração cabralista (1849-1951) ficou marcada pela crescente
crispação política e por sucessivos escândalos, que mancharam irreversivelmente a
imagem de Cabral e que nem sequer pouparam a própria rainha. Em Fevereiro de 1850,
chegou ao parlamento, por pressão da imprensa, o escândalo do affidavit: desta vez,
Cabral (rapidamente denegrido como o novo “Conde Andeiro”) era acusado de ter
manchado a honra da rainha, ao mandar publicar nos periódicos ingleses um desmentido
formal, em forma de juramento, de que houvesse qualquer espécie de envolvimento
pessoal seu com a soberana, justificativo da sua preeminência política ou fortuna pessoal.
O jornal inglês que levantara a questão – o Morning Post – não mencionava a rainha:
falava apenas no “procedimento leviano” de uma “alta personagem” em relação ao chefe
do governo. Desastradamente, era o próprio Cabral quem, de forma explícita, trazia para a
praça pública o nome da soberana.
Na Primavera de 1851, o governo cabralista estava agonizante – a situação financeira
era crítica, a situação social explosiva, o cerco político geral, a fidelidade do exército
duvidosa. Em Abril, o Marechal Duque de Saldanha, à testa do golpe da Regeneração,
depôs o executivo, resistindo porém às muitas vozes patuleias que o aplaudiam e que o
incitavam a declarar-se regente em nome de D. Pedro V. Fosse por cálculo político, fosse
por genuína fidelidade à sua soberana, Saldanha salvou a Coroa das fúrias mais radicais e
predispôs-se a governar, sob a realeza de D. Maria II, e por sobre uma ampla plataforma
de reconciliação e de consenso.
O triunfo da Regeneração, em 1851, foi uma das mais importantes balizas
cronológicas do século XIX português – o golpe que acabou com todos os golpes, pondo
termo às lutas revolucionárias da primeira metade do século, e abrindo caminho a um
novo período histórico. As expectativas com que D. Maria começara a reinar, em 1834 –
de um Portugal pacificado, institucionalmente estabilizado, apostado no fomento material
supra-partidário – só agora se afiguravam possíveis. Arredado o cabralismo, reconciliada
8
a família liberal em torno do governo de Saldanha e, sobretudo, em torno do novo
programa dos “melhoramentos materiais”, pacificado o exército, relativamente saneada a
situação financeira (com as primeiras medidas fontistas de conversão da dívida), e
resolvidos os antagonismos constitucionais com o Acto Adicional à Carta de 1852, o país
deixou a “era das revoluções” e entrou, resolutamente, na “era do capital”, ou seja, na era
dos comboios, das estradas, das comunicações, das realizações materiais, que o crédito
estrangeiro trazia para Portugal. Os últimos anos do reinado de D. Maria II foram os
primeiros do fontismo – de forma que a rainha portuguesa foi, simultaneamente, a última
figura reinante de um Portugal em convulsão liberal-revolucionária, e a primeira de um
Portugal em consolidação à europeia.
Um soldado no seu posto
A D. Maria atribui-se, historicamente, a frase, pronunciada durante as horas amargas
da Guerra Civil da Patuleia, “um trono!… Triste herança deixo ao meu Pedro!…”. No
rigor dos factos, a verdade é que o trono que a rainha deixou ao filho e herdeiro estava
bem mais consolidado do que aquele que ela ocupara, num período único da história de
Portugal – o do “reinado da frase e do tiro”, na célebre expressão de Oliveira Martins.
D. Maria II morreu a 15 de Novembro de 1853, devido a complicações surgidas ao
dar à luz o seu 11.º filho. Tinha então 34 anos. A iconografia e os testemunhos mais
chegados permitem vislumbrar, nesses últimos momentos, uma mulher com a saúde
gasta, excessivamente gorda e com múltiplas dificuldades respiratórias, sem a beleza
juvenil dos primeiros tempos – mas sempre altiva, determinada e consciente do seu lugar
e das suas obrigações. A maioria dos retratos psicológicos e políticos da rainha que
chegaram até nós lembram-na como uma mulher de génio imperioso e autoritário, de
vontade forte e avessa a imposições, impulsiva, orgulhosa, decidida, por vezes até
arrogante no trato, tão afincada às prerrogativas reais quanto – por contraste entre o
público e o privado – afável, carinhosa e educadora em relação à sua numerosa prole. A
pequena rapariga que, aos 15 anos, órfã de pai e mãe, for a atirada pelas circunstâncias
para a excepcional situação de rainha de Portugal era, afinal, uma princesa em cujas veias
corria o sangue combinado dos Braganças, dos Bourbons e dos Habsburgos. Talvez por
9
isso se conte que D. Fernando, com um misto de carinho e crítica, cunhou para a mulher a
alcunha, significativa, de “trabuco”!
Avisada, aquando do nascimento do Infante D. Leopoldo, em Maio de 1849, da sua
saúde frágil, e do risco que significavam os seus sucessivos e pouco espaçados partos,
parece que respondeu “se morrer, morro no meu posto”. Assim foi. No mesmo dia do
falecimento de D. Maria, o rei D. Fernando prestou juramento como regente perante o
Conselho de Estado – repetindo o gesto, algumas semanas volvidas, perante as Cortes. A
19 de Novembro de 1853, por entre um impressionante cortejo fúnebre, repleto de
veteranos da Guerra Civil e de antigos emigrados, o cadáver da rainha foi conduzido do
Palácio das Necessidades para S. Vicente de For a, em cujo Panteão ficou sepultado. Em
Setembro de 1855, ao cabo de um biénio de regência pacífico, o Príncipe D. Pedro foi
finalmente jurado e aclamado rei de Portugal, ao completar 18 anos de idade. Até à
actualidade, 150 anos volvidos sobre a morte de D. Maria II, nenhuma outra mulher
voltou a ocupar a chefia do Estado português.
Para Saber Mais
BARRETO, D. José Trazimundo Mascarenhas (Marquês de Fronteira e Alorna) –
Memórias, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1986.
BENEVIDES, Francisco da Fonseca – Rainhas de Portugal, Lisboa, Tomo II, 1879.
BONIFÁCIO, Maria de Fátima – O século XIX português, Lisboa, ICS, Imprensa de
Ciências Sociais, 2002.
COELHO, F.J. Pinto – Contemporâneos Ilustres. D. Fernando II de Portugal,
Lisboa, Imprensa Nacional, 1878.
COLEN, José Augusto Barbosa – História de Portugal popular e ilustrada de
Manuel Pinheiro Chagas continuada desde a chegada de D. Pedro IV à
Europa até aos nossos dias, Lisboa, 1906, Vols. X e XI.
COSTA, Júlio de Sousa e – D. Maria II, 1819-1853. Episódios do Seu Tempo,
Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade SARL, 1947.
CUNHA, Xavier da – A Excelsa Rainha D. Maria II na Intimidade, Coimbra,
Imprensa da Universidade, 1904.
10
LEMOS, Ester de – D. Maria II. A Rainha e a Mulher. No centenário da sua
morte, Lisboa, Fundação Casa de Bragança, 1954.
MARTINS, J.P. Oliveira – Portugal Contemporâneo, 9.ª ed., Lisboa, Guimarães
Editores, 1986.
MARTINS, Maria Manuela Pera Lourenço – D. Augusto de Leuchtenberg e Santa
Cruz. Contributo para uma Biografia, Lisboa, Edições Colibri, FCSH/UNL,
2001.
NOBRE, Eduardo – Paixões Reais, Lisboa, Quimera Editores, 2002.
PORTUGAL, D. Francisco de Almeida (Conde do Lavradio) – Memórias do Conde
do Lavradio, D. Francisco de Almeida Portugal, Coimbra, Imprensa da
Universidade, 1933-1943.
ZUQUETE, Afonso Eduardo Martins – Nobreza de Portugal e do Brasil, Tomo II,
Lisboa, Editorial Enciclopédia, Lda., 1961.
Destaques:
Alçada ao trono aos 15 anos, em virtude da súbita morte do seu pai, D. Pedro IV,
declarada maior de idade para que não se prolongasse o vácuo político, a jovem rainha
viu-se na singular posição de tutelar homens experimentados na política e na guerra, com
idades e visões muito diferentes das suas. De todos os monarcas do constitucionalismo
liberal, nenhum começou a reinar tão novo quanto D. Maria II: D. Pedro V tinha 18 anos,
D. Luís 23, D. Carlos 26 e D. Manuel II 18.
A pequena rapariga que, aos 15 anos, órfã de pai e mãe, for a atirada pelas
circunstâncias para a excepcional situação de rainha de Portugal era, afinal, uma princesa
em cujas veias corria o sangue combinado dos Braganças, dos Bourbons e dos
Habsburgos. Talvez por isso se conte que D. Fernando, com um misto de carinho e
crítica, cunhou para a mulher a alcunha, significativa, de “trabuco”!
Caixa 1
Um marido no papel…e dois na vida real
11
D. Miguel, infante de Portugal, sétimo filho de D. João VI, irmão de D. Pedro IV e
tio de D. Maria II, nasceu no Palácio de Queluz, a [Link].1802. Depois da infância
passada no Brasil, com a família real, regressou a Lisboa, com o pai, em 1821, onde
rapidamente se destacou, conjuntamente com a mãe, a rainha D. Carlota Joaquina, como
chefe-de-fila do absolutismo. Na sequência da “Abrilada”, em 1824, foi exilado para
Viena de Áustria. À morte do pai, em 1826, aceitou casar com a sobrinha, D. Maria da
Glória, tendo jurado a Carta Constitucional e assinado o matrimónio por procuração, em
Outubro desse ano. Todavia, rompendo o acordo, regressou a Portugal para reinar como
Rei Absoluto, entre 1828 e 1834. Derrotado na Guerra Civil, partiu exilado, primeiro para
Itália, onde viveu alguns anos sob a protecção do Papa Gregório XVI, depois para a
Alemanha, onde casou, em 1851, com a Princesa Adelaide de Loewenstein, e de quem
teve sete filhos. Morreu em Brombach, a [Link].1866, jazendo hoje em S. Vicente de
Fora, para onde foi trasladado. O seu casamento, no papel, com a sobrinha D. Maria, foi
declarado nulo pelo Patriarca de Lisboa, aquando da celebração do matrimónio desta com
D. Augusto de Leuchtenberg, em 1834.
Augusto Carlos Eugénio Napoleão e Beauharnais, Duque e Príncipe de
Leuchtenberg e Santa Cruz, nasceu em Munique, a [Link].1810, filho do general Eugénio
de Beauharnais (o enteado de Napoleão Bonaparte e seu Vice-Rei de Itália), neto, pela
parte paterna, da Imperatriz Josefina, a primeira mulher de Napoleão, e pela parte materna
de Maximiliano I da Baviera. Era irmão de D. Amélia, a segunda mulher de D. Pedro IV,
e primo direito do futuro Napoleão III. Cumprindo o desejo do cunhado, D. Augusto
casou com a rainha D. Maria II (enteada da sua irmã), por procuração, a [Link].1834, e
por palavras de presente, na Sé de Lisboa, a [Link].1835. Por uma daquelas coincidências
que as consanguinidades reais do tempo favoreciam, quer a avó de D. Augusto, quer a tia
de D. Maria, tinham sido casadas com o Imperador Napoleão – o que significa dizer que o
filho do enteado de Napoleão casou com a filha da cunhada de Napoleão! D. Augusto foi
marechal do exército português e Par do Reino, tomando assento na Câmara Alta alguns
dias após o matrimónio. Fulminado por uma angina, morreu a [Link].1835, no Palácio
das Necessidades, ao cabo de escassos dois meses de casamento. Está sepultado no
12
Panteão de S. Vicente de Fora. A irmã, a Imperatriz viúva de D. Pedro IV, viria a morrer
em Lisboa, no Palácio das Janelas Verdes, em Janeiro de 1873.
Fernando Augusto Francisco António, Duque e Príncipe de Saxe-Coburgo-Gotha,
nasceu em Coburgo, a [Link].1816, e casou com D. Maria, por procuração, a [Link].1836,
e em presença, a [Link] desse ano. Sobrinho do Rei Leopoldo da Bélgica e primo do
Príncipe Alberto (o futuro marido da rainha Vitória de Inglaterra), Rei-Consorte de D.
Maria até ao fim da vida desta, D. Fernando foi muitas vezes acusado, sobretudo pelos
radicais mais patriotas, de abusiva ingerência nos negócios políticos do Reino, e de
excessiva permeabilidade aos diplomatas, ingleses, belgas e alemães com quem mantinha
ligações estreitas. A história não o regista contudo como um político, mas sim como um
“Rei-Artista” – e o próprio matrimónio, que terá começado por ser um puro negócio de
Estado, tornou-se uma ligação de amor e o centro de um lar onde D. Maria trocava o seu
lado político por um lado muito feminino e maternal. Homem de elevada educação e fino
trato, D. Fernando declarou-se protector da Academia das Belas-Artes e foi, até ao fim da
vida, o Presidente Honorário da Academia das Ciências de Lisboa; subsidiou artistas,
reuniu colecções de arte, velou pelo património monumental português (Batalha, Mafra,
Tomar, Jerónimos), e apaixonou-se por Sintra, onde edificou o castelo da Pena, o
correspondente português dos magníficos castelos da Baviera. Foi regente de Portugal na
menoridade de D. Pedro V, entre 1853 e 1855, e putativo candidato aos tronos da Grécia,
em 1862, e da Espanha, entre 1868 e 1870. Viúvo desde 1853, voltou a casar, em
segundas núpcias, em Fevereiro de 1869, com Elisa Hensler, uma cantora de ópera a
quem o Rei da Prússia conferiu o título de Condessa de Edla. D. Fernando morreu em
Lisboa, a [Link].1885, com 69 anos de idade. Tal como D. Miguel e D. Augusto, está
sepultado no Panteão Real de S. Vicente de Fora.
Caixa 2
Uma ínclita…e martirizada geração
13
Do casamento de D. Maria II com o rei D. Fernando nasceram onze filhos. Desse
total, quatro morreram recém-nascidos, e outros três (entre eles o rei D. Pedro V)
morreram jovens, vitimados por uma tifóide contraída em Vila Viçosa, em 1861:
1. O príncipe D. Pedro, nascido a [Link].1837, jurado herdeiro da Coroa em Janeiro
de 1838, subiu ao trono como D. Pedro V, vindo a falecer a [Link].1861.
2. O infante D. Luís, nascido a [Link].1838, subiu ao trono, por morte do irmão, em
Novembro de 1861, reinando, como D. Luís I, até à morte, a [Link].1889. D.
Luís foi pai de D. Carlos I e avô de D. Manuel II, respectivamente os penúltimo e
último reis de Portugal.
3. A infanta D. Maria, nascida a [Link].1840 e falecida instantes após o parto.
4. O infante D. João, nascido a [Link].1842 e falecido em Lisboa, a [Link].1861.
5. A infanta D. Maria Ana, nascida a [Link].1843, princesa real da Saxónia pelo
casamento, falecida em Dresden, a [Link].1884. O seu marido veio a ser Jorge III,
Rei da Saxónia.
6. A infanta D. Antónia, nascida a [Link].1845, princesa de Hohenzollern pelo
casamento, falecida em Sigmaringen, a [Link].1913. O seu marido foi Leopoldo
de Hohenzollern-Sigmaringen. Uma sua neta, D. Augusta Vitória, viria a casar,
em 1913, com o deposto D. Manuel II de Portugal, seu sobrinho-neto.
7. O infante D. Fernando, nascido a [Link].1846 e falecido em Lisboa, a
[Link].1861.
8. O infante D. Augusto, nascido a [Link].1847 e falecido em Lisboa, a [Link].1889.
9. O infante D. Leopoldo, nascido a [Link].1849 e falecido instantes após o parto.
10. A infanta D. Maria, nascida a [Link].1851 e falecida instantes após o parto.
11. O infante D. Eugénio, nascido a [Link].1853 e falecido instantes após o parto.
14