1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Com o inicio da pandemia COVID-19 em 2020, em Portugal, veio também mais tempo livre no
sentido em que nos encontrávamos em confinamento geral obrigatório. Com mais tempo livre,
já que, por exemplo, as horas despendidas em transportes diariamente para a faculdade
podiam ser agora direcionadas para outras questões. Decidi então, literalmente de um dia
para o outro, criar a CAD, Comunidade de Aficionados de Direito. Com que objetivo? Queria
ligar os estudantes de Direito de todo o país, queria divulgar e criticar as mais recentes notícias
jurídico-políticas, queria levar a cabo iniciativas que aproveitassem a todo e qualquer jurista,
professor, estudante, advogado, etc… Criei o site, a página no Instagram e assim se começou a
erguer o projeto. Entretanto, com as aulas online, pensei também em elaborar apontamentos
semanais e divulgar com os meus colegas, utópico para um trabalho a sós, mas perfeitamente
possível com a entreajuda dos meus colegas porque cada grupo de estudantes faria os
apontamentos semanais de cada cadeira. Porque fazer os apontamentos semanais? A resposta
é extensa, mas simples. Com a “obrigação” de preparar esses mesmos apontamentos, tenho
também um duplo dever de assistir às aulas, de perceber e apontar as mesmas, porque não o
fazendo, falharia comigo e com os restantes colegas com quem me comprometi a partilhar os
apontamentos. Desta forma, dividimos até pelos vários estudantes a tarefa de recolher os
escritos relativos às diversas matérias. É trabalhoso, mas, inevitavelmente, ao preocuparmo-
nos com nos próprios estamos também a ajudar todos os outros alunos. Ou seja, no 1º ano,
começamos apenas a partir de março com os apontamentos semanais, mas no 2º ano, ano
letivo 2020/2021, os apontamentos semanais começaram no inicio e acabaram apenas no fim
do ano letivo! Dito isto, pode conter falhas de escrita ou de direito, foi feito ao longo do tempo
por juristas em formação, entregue semanalmente, portanto, é compreensível e pedimos
também que quando notada alguma falha grave nesse sentido, que nos seja comunicado. Este
projeto ajudou também a impulsionar um ambiente saudável no curso de Direito na nossa
universidade, não que já não o houvesse, mas esta iniciativa só o veio melhorar. Esperamos
ainda que esta iniciativa inspire ad aeternum o maior número de estudantes possíveis, já que
ficou demonstrado que a entreajuda tem efeitos positivos para todos nós. Se tiveres interesse
em colaborar connosco, envia-nos mensagem no Instagram. Somos vários estudantes da
licenciatura em Direito com vontade de mudar, ajudar e com disponibilidade em ser ajudados.
Obrigado a todos aqueles que todos os dias se esforçam por uma comunidade melhor,
saudavelmente competitiva, consciente e dedicada.
João Paulo Silva, Fundador da Comunidade de Aficionados do Direito.
Direito Constitucional (Resumos):
Capítulo I – Definição, objeto e fontes do Direito Constitucional
1.1. Noção e objeto do Direito Constitucional:
Enquanto ramo da ordem jurídica, o Direito Constitucional é o conjunto dos
princípios e normas jurídicas que constituem uma determinada coletividade
política, estabelecendo os seus princípios básicos, enunciando os seus fins e
atribuições, definindo os direitos fundamentais das pessoas face ao poder público,
regulando a organização política do Estado.
Neste sentido formal, o Direito Constitucional é um ramo do direito recente,
nascido com as primeiras constituições recentes, que visaram submeter o Estado
ao Direito e limitar o seu poder.
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Num sentido material, pode falar-se de direito constitucional desde que houve
normas escritas ou consuetudinárias especialmente dedicadas à organização do
poder político.
Numa definição elementar, o Direito Constitucional é antes de mais o direito
consubstanciado na constituição de cada país.
1.2. Fontes do Direito Constitucional:
A principal fonte do Direito Constitucional é a própria constituição, no sentido
corrente de lei básica do Estado, dotada de uma unidade formal, ordenada e
consistente.
Mas a constituição não é a única fonte do Direito Constitucional. Por um lado,
existem Estados sem constituição, neste sentido de instrumento jurídico unitário,
como é o caso da Grã-Bretanha. Podendo, por esse motivo, o Direito Constitucional
aparecer disperso num conjunto de leis constitucionais ou costumes
constitucionais avulsos, a denominada “constituição dispersa”.
Fonte autónoma de Direito Constitucional são ainda as normas
extraconstitucionais “recebidas” pela constituição, para as quais ela remete.
O costume (costume constitucional) também pode ser considerado fonte do
Direito Constitucional sempre que uma prática reiterada e duradoura dos órgãos
constitucionais passa a ser, geralmente, considerada como regra que deve ser
seguida.
Por outro lado, de entre as chamadas fontes auxiliares, a jurisprudência
constitucional pode assumir uma grande relevância. Se bem que a vocação dos
tribunais não seja criar normas, mas sim de as aplicar.
Também a doutrina constitucional, por meio das correntes doutrinais apoiadas
pelos constitucionalistas mais reconhecidos, nos seus comentários, manuais e
monografias, pode exercer uma influência relevante sobre a prática do Direito
Constitucional e sobre a jurisprudência dos tribunais constitucionais.
1.3. Divisões e ramos do Direito Constitucional:
Podemos distinguir 4 ramos fundamentais:
a) O Direito político ou Direito do Estado : que tem por objeto a constituição política
em sentido restrito, que respeita à organização e funcionamento dos órgãos do
Estado;
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b) Constituição dos Direitos fundamentais, que consagra os direitos e liberdades dos
particulares perante o Estado;
c) Constituição Económica e Social, que tem por objeto as normas constitucionais
relativas à esfera económica e social;
d) A justiça e o Processo Constitucional, que se referem ao regime da fiscalização da
constitucionalidade da atividade do Estado e ao processo nos tribunais
constitucionais ou com funções constitucionais.
1.4. O Direito Constitucional como Direito Público:
O Direito Constitucional pertence ao Direito Público, qualquer que seja o critério
utilizado para operar a distinção: seja o critério da natureza dos sujeitos, visto que
estão em causa justamente entidades e órgãos públicos; seja o critério dos
interesses, visto que o Direito Constitucional visa justamente regular a esfera
pública e estão em causa os mais eminentes interesses públicos; seja o critério da
natureza das relações, uma vez que se trata de relações marcadas pelo poder e
autoridade pública em relação aos particulares.
1.5. O Direito Constitucional e outros ramos do Direito:
Com a ampliação do espaço constitucional, nenhum ramo da ordem jurídica é
alheio à constituição e, portanto, ao Direito constitucional.
Além de ser o estatuto da organização política, a constituição insere também os
princípios fundamentais das outras esferas do Direito. Existe, assim, também um
Direito constitucional administrativo, um Direito constitucional penal, um Direito
constitucional laboral, um Direito constitucional civil, etc.
De realçar que os ramos do direito infraconstitucional que mais proximidade têm
com o Direito Constitucional são o Direito Penal, por causa das liberdades
individuais, art. 27.º a 32.º e o Direito Administrativo, por causa da atividade do
Estado, art. 266.º a 272.º, a que se pode acrescentar, entre nós, o Direito do
Trabalho, art. 53-57.º e 58-59.º, o Direito Fiscal, art. 103.º e 104.º e o Direito
Público da Economia, dada a densidade da constituição laboral, da constituição
fiscal e da constituição económica, respetivamente.
1.6. A ciência do Direito constitucional:
A expressão “Direito Constitucional” não designa exclusivamente o sistema
normativo constitucional, também designa o saber que o tem por objeto, a
disciplina que o estuda e, portanto, a Ciência do Direito constitucional.
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Por um lado, no sentido normativo o Direito Constitucional é aquilo que está nas
constituições e demais fontes de direito constitucional. Por outro lado, no sentido
de disciplina ou ramo de saber jurídico, o Direito Constitucional é “aquilo que os
constitucionalistas fazem”, designadamente o estudo dos princípios e normas
constitucionais, a sua interpretação, integração, sistematização, explicação.
Capítulo II - Definição, sentido e vida da constituição
2.1. Constituição e constitucionalismo
2.1.1. Nas origens do constitucionalismo:
Inaugurado na América do Norte com a revolução anticolonial e a independência
das 13 colónias Britânicas (1776) e depois a Constituição dos Estados Unidos, e na
Europa com a Revolução Francesa (1789), o constitucionalismo surge ligado à luta
contra a opressão do domínio colonial, no caso dos Estados Unidos, ou do Estado
absolutista, no caso da Europa.
Os valores essenciais no constitucionalismo histórico originário são:
1. A liberdade e a autonomia individual face ao poder;
2. Limitação da esfera de ação e do poder do Estado;
3. Declaração dos direitos individuais inserida na constituição ou à margem dela
como defesa da esfera da liberdade dos particulares contra o poder;
4. Separação de poderes, ou seja, repartição das três funções do Estado (legislar,
governar e administrar, julgar) por três poderes separados e autónomos
(parlamento, governo e tribunais), como reação à concentração dos poderes do
soberano, como sucede no Estado absolutista;
5. Princípio da legalidade, pelo qual o governo só poderia atuar com base e no
respeito das leis do parlamento;
Portanto, daqui se conclui que, sobretudo a Revolução Liberal, inspirou estes
objetivos, uma vez que esta mesma revolução visou restringir o âmbito do poder
político, limitar o poder do Estado. Assim sendo, conseguiria garantir os direitos
individuais, tais como a liberdade de imprensa, de reunião, de propriedade;
conseguiria, igualmente, separar o poder do rei e distribui-lo por diferentes órgãos;
conseguiria alcançar a ideia de governo representativo.
Por isso, o constitucionalismo histórico é considerado um constitucionalismo
liberal, como expressão da luta contra o Estado absoluto.
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2.1.2. “Estatuto” da coletividade política:
A Constituição pretende recriar juridicamente a coletividade política enquanto tal,
conferir-lhe consistência orgânica, estabelecer os seus fins, enunciar as
competências dos órgãos políticos e regular o seu funcionamento, definir os
direitos e deveres dos seus membros, estabelecer os mecanismos de resolução de
conflitos e de sanção das infrações à ordem constitucional. Desta forma, pode
afirmar-se que a Constituição cria o Estado, mas também regula e limita o poder
político.
A Constituição é uma expressão de autodeterminação jurídica, de auto-
organização e de autorregulação coletiva de uma coletividade.
2.1.3. Os vários sentidos da Constituição:
Historicamente, podem identificar-se três sentidos distintos da noção de Constituição:
1. O designado pré-constitucionalismo, que se identifica com as chamadas Leis
Fundamentais, ou seja, as regras, em geral não escritas, de natureza
essencialmente consuetudinária, que não regulavam o poder político.
Neste primeiro sentido, a noção de Constituição já se identifica com a noção de
ordenamento do poder político, mas faltam-lhe os traços essenciais do moderno
conceito de Constituição.
2. O segundo sentido corresponde ao Constitucionalismo liberal que se encontra
indissoluvelmente ligado ao nascimento das constituições escritas. Neste contexto,
a constituição passou a designar uma nova expressão das Leis Fundamentais,
identificada com o constitucionalismo liberal e com os seus valores essenciais.
Neste segundo sentido, a noção de Constituição surge, portanto, associada à luta
contra o absolutismo e o abuso do poder, pelos valores do Estado liberal
representativo e do Estado de direito.
3. Atualmente, com o desenvolvimento do constitucionalismo, a noção de
Constituição adquiriu um significado materialmente neutro, passando a designar a
Lei Fundamental da ordem política do Estado.
É com este terceiro sentido, politicamente neutro, de Lei Fundamental do Estado,
que se baseia, atualmente, a noção de Constituição.
2.1.4. A Constituição formal e a Constituição material:
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A distinção entre Constituição material e Constituição formal relaciona-se com o
designado critério da “constitucionalidade”, ou seja, daquilo que deve ser
considerado como dotado de valor constitucional.
Em sentido formal, fazem parte da Constituição todas as normas que integram a
Constituição escrita, ou seja, a lei ou leis formalmente constitucionais.
Em sentido material, fazem parte da Constituição exclusivamente as normas que,
pela sua importância, merecem ser consideradas fundamentais,
independentemente de estarem ou não inseridas na Constituição formal ou nas
leis formalmente constitucionais.
Face ao exposto conclui-se que pode não haver coincidência entre Constituição
formal e Constituição material. A Constituição formal só existe nos Estados
possuidores de uma Constituição escrita. Já a Constituição material existe em
qualquer Estado mesmo que não possua Constituição formal.
Por outro lado, pode suceder que nem todas as normas escritas na Constituição
tenham dignidade constitucional. Inversamente, pode haver normas fora da
Constituição que devam ser consideradas materialmente constitucionais, dada a
sua importância e relevância para a ordem fundamental da coletividade.
Uma expressão desta distinção recorda-se na Carta Constitucional de 1826, que
estipulava que só tinham valor constitucional as normas respeitantes à organização
dos poderes e aos direitos individuais, podendo as restantes ser livremente
modificadas por lei ordinária – “autodesconstitucionalização”. O que este preceito
pretende significar é que as demais normas não eram materialmente
constitucionais, apesar de fazerem parte da Constituição formal. Por isso, deviam
ser tratadas como normas infraconstitucionais.
A distinção entre Constituição material e Constituição formal não se confunde com
a distinção entre “constituição real” e “constituição jurídica”. A Constituição real é
a que resulta da correlação dos poderes estabelecidos (forças armadas, poder
económico, igrejas, etc.); enquanto que a Constituição jurídica não passa de um
pedaço de papel, que ou corresponde à Constituição real e sobrevive ou não
corresponde e está condenada. Todavia, a constituição visa dominar e conformar a
realidade constitucional, e não o contrário.
2.1.5. As características da Constituição:
Entre as características tradicionalmente ligadas à noção da Constituição como Lei
Fundamental contam-se especialmente três: a autolegitimidade, a supremacia jurídica
e autogarantia.
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1. Autolegitimidade: a Constituição valida-se a si mesma, não dependendo a sua
legitimidade de nenhum parâmetro jurídico exterior ou superior a ela, ao contrário
das normas do direito ordinário (infraconstitucional) que derivam a sua
legitimidade da constituição.
2. Supremacia jurídica: instância superior da ordem jurídica; fonte de direito
colocada no vértice da pirâmide normativa.
3. Autogarantia: significa que é a constituição que contém os mecanismos que
garantem o seu cumprimento, incluindo mecanismos de fiscalização judicial da
constitucionalidade das leis e demais atos do poder (judicial review).
2.1.6. Constituição e democracia constitucional:
As constituições democráticas são, por definição, instrumentos de regulação e
disciplina da democracia. A democracia constitucional rege-se pelo Estado de
direito constitucional. Desta forma, é a Constituição que define os direitos políticos
fundamentais, as formas de expressão política democrática, as regras essenciais do
regime eleitoral e do referendo, as normas de seleção e designação dos titulares de
cargos políticos.
A democracia constitucional implica, por natureza, limitações à democracia
maioritária. Assim, por exemplo, nenhuma maioria pode prevalecer sobre os
direitos fundamentais; a Constituição pode estabelecer limites à sucessão de
mandatos eletivos e exigir maiorias qualificadas para certas leis ou decisões, etc.
A democracia constitucional supõe poderes de veto e checks and balances
destinados a controlar o poder das maiorias. A democracia constitucional é tudo
menos uma “ditadura da maioria”. A democracia constitucional é uma democracia
constitucionalmente regulada e limitada.
2.2. Objeto e âmbito da constituição
2.2.1. Expansão da cobertura constitucional:
Na sua origem, a constituição visava organizar e limitar juridicamente o poder
político e garantir a propriedade e a liberdade dos particulares contra esse mesmo
poder. Por isso, as constituições eram, em geral, curtas e o seu âmbito limitava se à
organização do poder político e ao bill of rights.
Com o tempo, as constituições foram-se alargando a outras áreas, nomeadamente
aos direitos sociais, económicos e culturais, à constituição económica e à inclusão
de mecanismos de fiscalização da constitucionalidade das leis e outros atos do
Estado.
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Atualmente, uma constituição moderna inclui as seguintes áreas:
Constituição política: organização territorial do Estado, eleições, referendos, etc.;
Constituição dos direitos fundamentais;
Constituição económica;
Sistema normativo;
Constituição garantia: fiscalização da constitucionalidade e revisão da constituição.
2.3. Classificação das constituições:
Com mais de dois séculos de constitucionalismo o panorama das constituições
diversificou-se bastante. Importa, por isso, destacar as mais relevantes
classificações das constituições.
Quanto à orientação política, podemos distinguir:
a) As constituições liberais: as nossas primeiras constituições até ao Estado Novo.
b) As constituições autoritárias: a constituição de 1933, do Estado Novo.
Quanto à forma de legitimação e de expressão de poder político, podemos distinguir:
a) As constituições democráticas: onde o poder é baseado na vontade popular
expressa em eleições (e eventualmente em referendos).
b) As constituições autocráticas: em que o poder político não tem essa origem (ex:
oligarquias tradicionais, ditaduras militares, regimes de partido único, etc.).
Quanto ao critério da correspondência com a realidade constitucional, podemos
distinguir:
a) As constituições normativas: são aquelas que conseguem estar em sintonia com a
realidade constitucional, e cujas normas cumprem, efetivamente, o seu papel de
regular o poder e o seu funcionamento.
b) As constituições nominais: são aquelas que, embora destinadas a ter força
normativa, não conseguiram regular o seu processo político. Revela um desacerto
com a realidade constitucional.
c) As constituições semânticas: nem sequer pretendem controlar a realidade
constitucional, visando apenas formalizar o poder político vigente (Constituição de
1933).
Quanto ao critério da finalidade, podemos distinguir:
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a) As constituições “normativas” ou garantísticas: têm por objetivo fundamental a
limitação do poder, com predomínio de normas de garantia de direitos e situações
estabelecidas;
b) As constituições programáticas ou diretivas: estabelecem um plano de metas a
atingir pelo Estado, através de preceitos vocacionados para alcançar certos
objetivos mais ou menos longínquos, ou promover transformações políticas,
económicas ou sociais. Abundante em normas programáticas, que carecem da
intervenção do legislador.
Quanto ao critério da revisão ou estabilidade, podemos distinguir:
a) As constituições flexíveis: não exigem nenhum procedimento especial para a sua
alteração, podendo ser alteradas pelo processo legislativo ordinário (constituição
inglesa);
b) As constituições rígidas: estabelecem determinados imites à sua alteração;
c) As constituições hiper-rígidas: maior rigidez na alteração do texto constitucional,
com cláusulas, igualmente, rígidas (limites orgânicos, temporais, formais, materiais
e circunstanciais).
Quanto à natureza do sistema económico, podem ser divididas em:
a) Constituições capitalistas ou de economia de mercado;
b) Constituições comunistas ou de economias de direção central (caso da antiga
União Soviéticas e demais países comunistas);
Quanto ao critério da origem, podemos distinguir:
a) Constituição popular: elaborada e aprovada por uma Assembleia Constituinte,
composta por representantes eleitos pelo povo.
b) Constituição outorgada (carta constitucional): imposta pelo poder político, sem
intervenção de assembleia representativa;
c) Constituição pactuada: deriva de um compromisso entre duas forças políticas
diferentes (Constituição de 1838).
2.4. Formação, modificação e fim das constituições
2.4.1. O poder constituinte:
Uma nova Constituição surge a partir da atividade do poder constituinte, que
representa uma permanente possibilidade de auto-organização do Estado. Este
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poder nunca desaparece, ficando oculto, por assim dizer, em momentos não
constituintes.
É essencial a distinção entre poder constituinte que corresponde a um poder
originário, pré-constitucional e, em princípio, ilimitado, e os poderes constituídos
que são poderes derivados, criados pela constituição e subordinados à
constituição.
O próprio poder de revisão constitucional é um poder derivado, e não uma
renovação do poder constituinte, sendo previsto e regulado no próprio texto
constitucional.
No início do constitucionalismo moderno, as teses acerca do titular do poder
constituinte originário eram essencialmente duas:
1. A tese monárquica: sendo o poder constituinte uma manifestação ou expressão do
poder soberano, cabendo, portanto, ao monarca (Carta Constitucional de 1826).
2. Por outro lado, as teses democráticas apresentam duas variantes:
a) A teoria da soberania popular (Rousseau): o poder constituinte, enquanto
manifestação ou expressão direta do poder soberano, pertence ao povo, o qual,
mediante o referendo popular, deve aprovar a sua Constituição;
b) A teoria da soberania nacional (Sieyès): o poder constituinte, enquanto
manifestação ou expressão do poder soberano, pertence à Nação; sendo esta uma
entidade abstrata, a Constituição deve ser elaborada por uma Assembleia de
representantes da Nação, especialmente eleita para aprovar uma Constituição.
O poder constituinte exerce-se, normalmente, em consequência de uma
interrupção da ordem constitucional precedente, por efeito de uma revolução ou
golpe de Estado. Portanto, a descontinuidade constitucional é um pressuposto do
poder constituinte.
Embora sendo um poder originário e, em princípio, ilimitado, atualmente entende-
se que existem limites ao poder constituinte democrático. Nenhuma Constituição
pode aspirar ao reconhecimento da sua legitimidade se não respeitar os princípios
essenciais do constitucionalismo democrático e republicano.
Vários são os limites que se impõem ao legislador constituinte:
a) O poder constituinte está limitado pelo seu próprio objeto, pela sua própria
motivação. Se o seu objeto é a limitação do poder político, não se vê como ele
próprio pode ser ilimitado, o que seria uma incongruência.
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b) Limites democráticos e culturais: se o legislador constituinte pretende que o povo
respeite, voluntariamente, a Constituição é preciso que ele a aceite e, para isso, ele
tem de se rever nela. Para isso, é necessário que o legislador tenha em
consideração uma série de dados éticos, culturais, espirituais, entre outros,
específicos da comunidade a que se dirige a Constituição.
c) Limites transpositivos: necessidade de observância de certos princípios de justiça,
como é exemplo o princípio da igualdade, da proibição do excesso, entre outros.
d) Na era globalização é impossível o legislador constituinte abstrair-se da ordem
jurídica internacional; há uma série de princípios de direito internacional que
devem ser respeitados, de que são exemplo a proibição do genocídio, da
discriminação racial, da tortura e, em geral, dos direitos humanos.
2.4.2. O procedimento constituinte:
a) Fase pré-constituinte:
Antes da elaboração da Constituição podem ocorrer as chamadas decisões pré-
constituintes.
As decisões pré-constituintes formais são as decisões relacionadas com o
acionamento do procedimento constituinte: decisão de criar e aprovar uma nova
constituição; decisão relativa à escolha do procedimento constituinte a utilizar;
adoção de leis constitucionais transitórias; aprovação da lei eleitoral para a
Assembleia Constituinte.
b) Fase constituinte:
A fase constituinte propriamente dita consiste na elaboração e aprovação da
Constituição, segundo um determinado procedimento constituinte.
c) Compromisso constituinte:
A Constituição, por via de regra, resulta de compromissos entre forças e ideias
divergentes. Isto é assim geral, nas constituições elaboradas por assembleias
constituintes pluripartidárias, em o que a Constituição resulta do debate
deliberativo entre as diversas forças políticas.
2.4.3. Modificação das constituições:
As constituições podem mudar de conteúdo de maneira mais ou menos profunda
embora mantendo a identidade, sem serem substituídas por outras. E podem
mesmo ser substituídas por outras sem nova manifestação formal do poder
constituinte.
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a) Revisão constitucional:
Cabe ao poder constituinte definir os termos em que a Constituição pode ser
modificada. O poder de revisão constitucional, ou poder constituinte derivado,
também é um poder constituído.
Em geral, a Constituição não pode ser livremente modificada a todo o tempo,
como as leis ordinárias, exigindo, por via de regra, um procedimento de revisão
especial.
O poder constituinte também pode estabelecer limites à revisão constitucional,
interditando a eliminação ou modificação de certos traços da Constituição:
1. Limites orgânicos: atribuição do poder de revisão a certo órgão, em regime de
exclusividade dentro da partilha geral do poder legislativo pelos órgãos de
soberania.
2. Limites temporais: impedem o exercício do poder de revisão a qualquer momento,
obedecendo a certos limites de tempo.
3. Limites formais: regras que introduzem particularidades em determinadas fases do
processo de revisão constitucional (maiorias agravadas).
4. Limites circunstanciais: regras que vedam a expressão do poder de revisão
constitucional na vigência de situações de exceção constitucional, assim
defendendo a verdade e o livre consentimento da vontade de mudar a
Constituição, por exemplo, o estado sítio ou emergência.
5. Limites materiais: afastam do poder de revisão um conjunto de matérias, valores,
princípios ou institutos que integram o núcleo essencial do texto constitucional,
pondo em causa a identidade constitucional.
São de referir, ainda, as principais finalidades da revisão constitucional:
Atualizar a ordem constitucional adequando-a à realidade constitucional.
Interpretar a ordem constitucional estabelecendo novos critérios de interpretação
em aspetos que tenham ficado por esclarecer e que, em muitos casos, só a prática
constitucional permite detetar.
Completar a ordem constitucional suprindo falhas e lacunas nas respetivas
disposições, para além de introduzir novos instrumentos.
Capítulo III – A Constituição como Norma:
3.1. A constituição como Lei Fundamental:
3.1.1. A “força normativa da constituição”:
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Nem todas as normas constitucionais têm a mesma natureza, estrutura e função.
Todas elas, porém, possuem uma eficácia normativa, seja como direito atual
diretamente regulador de relações jurídicas, seja como elementos essenciais de
interpretação e de integração de outras normas.
O texto constitucional não pode, nem deve ser considerado como simples estatuto
jurídico de repartição do poder do Estado e de garantia dos direitos e liberdades. A
força normativa da constituição expande-se até aos assuntos da ordem económica
e social. Por conseguinte, a Constituição tanto é Lei Fundamental dos direitos,
liberdades e garantias, como dos direitos económicos, sociais e culturais.
3.1.2. Preeminência normativa:
A Constituição é a Lei Fundamental do Estado, a lei superior do Estado, que vincula
todos os seus órgãos. Por isso, ela deve ser respeitada, desde logo, pelos poderes
públicos. A primeira regra de um Estado de direito constitucional é o principio da
constitucionalidade, segundo o qual toda a ação do Estado e demais poderes
públicos se rege pela Constituição, e a validade dos seus atos depende da sua
conformidade com a Constituição.
A Constituição é, portanto, a norma fundamental da ordem jurídica num duplo
sentido: por um lado, na medida em que as demais normas, nomeadamente as
constantes das leis ordinárias, são as normas infraconstitucionais, estando por isso
mesmo subordinadas à Constituição; por outro lado, porque a Constituição não se
encontra, em princípio, subordinada a qualquer outra norma. Deste modo, todas
as outras normas lhe devem respeito, não podendo contrariá-la. Daí resulta o
princípio da constitucionalidade, ou de supremacia (ou prevalência) da
Constituição.
A principal manifestação da preeminência normativa da Constituição consiste em
que toda a ordem jurídica se deve guiar pela Constituição e deve estar em
conformidade com ela, caso contrário devem ser eliminadas essas mesmas normas
que não a respeitem. São três as componentes principais desta preeminência
normativa da Constituição:
1. Todas as normas infraconstitucionais devem ser interpretadas no sentido mais
concordante com a Constituição;
2. As normas de direito ordinário desconformes com a constituição são inválidas, não
podendo ser aplicadas pelos tribunais e devendo, aliás, ser anuladas pelo Tribunal
Constitucional;
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3. Salvo quando não exequíveis por si mesmas, as normas constitucionais aplicam-se
diretamente, mesmo sem lei intermediária, ou contra ela e no lugar dela (art. 18.º,
n.º 1.
3.1.3. Normas, princípios e diretrizes políticas:
a) Normas e princípios:
Como todas as leis, também a Constituição inclui normas em sentido estrito
(regras) e princípios. As normas são regras de conduta, autorizando, impondo ou
proibindo certas ações. Os princípios, por sua vez, não são regras de conduta, mas
antes linhas informadoras da ordem constitucional, dando-lhe sentido e
consistência.
Por um lado, as normas conferem direitos ou faculdades e impõem obrigações aos
seus destinatários, nomeadamente o poder público ou os particulares; por outro
lado, os princípios têm por destinatário, normalmente, o próprio legislador ou
outros titulares de poder público.
Os princípios possuem menor densidade normativa, não criando diretamente
direitos e obrigações. Por isso, deixam uma maior margem de liberdade de decisão
ao legislador do que as normas, conferindo também maior margem de apreciação
dos tribunais constitucionais na verificação da conformidade da ação do Estado
com os princípios constitucionais.
b) Normas proibitivas e normas impositivas:
Destinando-se a Constituição a limitar o poder político, muitas das normas
constitucionais são normas proibitivas; mas também há normas impositivas de
ação do Estado, que tipicamente podem revestir três modalidades:
1. Normas que visam a realização dos direitos económicos, sociais e culturais, que
implicam obrigações de prestação;
2. Normas que visam a criação de novos institutos ou novas instituições do poder
público, como por exemplo, a criação de imposto único sobre o rendimento;
3. Normas que definem simples diretrizes políticas, que definem orientações e
objetivos das políticas públicas;
A figura da inconstitucionalidade por omissão (art. 283.º) constitui o meio
apropriado para fiscalizar o cumprimento das normas impositivas e das diretrizes
políticas, ainda quase as segundas sejam mais “fracas” do que as primeiras.
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c) Normas autoexequíveis e normas não exequíveis por si mesmas:
Mesmo no campo das normas constitucionais que conferem direitos ou impõem
obrigações há que distinguir as normas exequíveis por si mesmas, sem necessidade
de implementação legislativa e as normas que carecem de execução ou
implementação legislativa, ficando por isso “inativas” no caso de omissão
legislativa.
3.1.4. Consequências da supremacia da Constituição:
A principal consequência da supremacia da Constituição é a ilegitimidade das
normas ou ações infraconstitucionais contrárias à Constituição, o que resulta na
invalidade dessas mesmas normas ou ações.
Sistemas de fiscalização da Constitucionalidade:
Sistema norte-americano: o Supremo Tribunal Federal decidiu que as normas
legais contrárias à Constituição são inválidas, pelo que não podem ser aplicadas
pelos tribunais nos casos sujeitos ao seu julgamento. Embora sem serem
expurgadas da ordem jurídica, as normas inconstitucionais não se impõem aos
tribunais quando estes são chamados a julgar questões em que elas sejam
aplicáveis (fiscalização judicial concreta, incidental e difusa da constitucionalidade).
Sistema austríaco: embora os tribunais ordinários não possam recusar a aplicação
de uma norma por motivo da inconstitucionalidade, podem, porém, suspender a
causa principal e suscitar a questão de constitucionalidade junto do Tribunal
Constitucional, a quem incumbe decidir a questão, com força obrigatória geral.
Com isso, a norma é expurgada do ordenamento jurídico, deixando de poder ser
aplicada pelos tribunais (sistema de fiscalização judicial abstrata e concentrada da
constitucionalidade).
3.1.5. Supremacia da constituição, integração europeia e obrigações
internacionais:
A integração europeia e a emergência de uma ordem constitucional europeia de
tipo federal põem em questão a supremacia das constituições na ordem interna
dos Estados-membros da União Europeia.
Na interpretação do Tribunal de Justiça da União Europeia, a ordem constitucional
europeia autodefine-se, em termos de supremacia, sobre a ordem constitucional
dos Estados-membros, que, assim, deixam de poder invocar as constituições
nacionais para se furtarem ao cumprimento das obrigações resultantes do direito
da União.
16
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Por outro lado, na ordem constitucional interna, a Constituição é a lei suprema,
pelo que na falta de uma exceção expressa, o direito da União não goza de
nenhuma imunidade perante a Constituição. Até à revisão constitucional de 2004,
os tribunais portugueses podiam recusar-se a aplicar normas de direito da União,
em caso de incompatibilidade com a Constituição. Desta forma, o único meio de
evitar o incumprimento por parte da União contra Portugal era, obviamente,
alterar a Constituição para eliminar essa incompatibilidade.
3.1.6. Constituição nacional e Direito Constitucional Internacional”
A ideia constitucional, o constitucionalismo e as constituições nasceram no quadro
nacional, tendo por referência o Estado. Mas essa referência nacional do
constitucionalismo está em vias de tornar-se insuficiente.
Desde a II Guerra Mundial e a criação das Nações Unidas, assiste-se ao
desenvolvimento de um direito constitucional internacional, que se manifesta,
sobretudo, na consolidação de uma ordem internacional dos direitos humanos,
expressa nomeadamente na Declaração Universal dos Direitos Humanos; de um
direito penal internacional; da aplicação de sanções internacionais; da submissão
de litígios internacionais a instâncias parajudiciais.
Há aqui duas vertentes distintas:
1. Por um lado, a ordem internacional vê-se “invadida” por institutos do direito
constitucional interno, como os direitos humanos;
2. Por outro lado, há um crescente recurso a meios judiciais ou parajudiciais para
resolver litígios internacionais, reduzindo assim o espaço de “autotutela”, que é o
instrumento tradicional de fazer valer direitos no direito internacional.
Com a emergência do Direito Constitucional Internacional, que é também uma
expressão da internacionalização do Direito Constitucional, o fenómeno
constitucional deixa de estar confinado ao espaço nacional.
Esta globalização constitucional acaba por retroagir sobre o espaço constitucional
interno, tanto mais quanto os Estados assumirem crescentes obrigações
internacionais e forem chamados a respeitá-las, com indiferença em relação às
suas obrigações constitucionais internas.
3.1.7. “Normas constitucionais inconstitucionais”:
Deve rejeitar-se, por definição, a ideia de normas constitucionais inconstitucionais,
por motivo de contradição de uma norma constitucional com princípios básicos da
17
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
própria Constituição. Os preceitos constitucionais não podem ser afastados pela
doutrina ou pelos tribunais por alegada incongruência interna da Constituição.
Diferente pode ser o caso de incompatibilidade de normas constitucionais com
normas e com os princípios gerais de direito internacional geral ou comum, que
formam, por assim dizer, a Constituição Internacional, os quais, nos termos do art.
8.º, n.º 1, “fazem parte integrante do Direito português”.
Dentro da Constituição é apontado o caso da incriminação retroativa dos membros
da antiga política da Ditadura do “Estado Novo” (art.º 292). Na verdade, esse
preceito entra em crise se entre as normas de ius cogens internacional se contar a
proibição de incriminação retroativa, em violação do princípio “nenhum crime sem
lei anterior”.
Quanto às demais normas e princípios de direito internacional geral, o mínimo que
se pode exigir é a interpretação da Constituição em conformidade com os mesmos,
de modo a reduzir a possibilidade de incongruências entre a ordem constitucional
interna e a ordem constitucional global.
3.2. “Constitucionalismo em vários níveis”:
3.2.1. O Constitucionalismo federal:
A mais antiga Constituição em vigor resultou da sobreposição de uma Constituição
federal às Constituições federadas existentes.
Ao sobrepor a Constituição federal às Constituições estaduais, a Constituição dos
EUA criou um fenómeno de pluralismo constitucional vertical, ou seja, de dois
níveis de constitucionalidade: o nível federal e o nível estadual, cada um deles com
a sua própria constituição. Impõe-se que as Constituições federadas respeitem a
Constituição federal.
As duas principais questões do constitucionalismo federal são, por um lado, a
repartição de tarefas entre os dois níveis de governo; por outro lado, o modo de
intervenção dos estados federados na federação, que tem lugar através de uma
câmara federal representativa das unidades federadas.
3.2.2. “O Constitucionalismo supranacional”:
Um fenómeno novo de Constitucionalismo em vários níveis com semelhanças com
o constitucionalismo federal relaciona-se com a leitura da integração europeia em
termos federais e constitucionais.
18
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Com efeito, embora a União Europeia não seja um Estado nem uma federação de
Estados, apresenta traços estatais e federais. Entre os primeiros contam-se as
atribuições próprias, os poderes legislativo, executivo e judicial, a moeda própria, a
pertença a organizações internacionais. Entre os segundos contam-se a divisão
vertical de atribuições entre a União e os Estados-membros, o efeito direto e a
supremacia do direito da União na ordem interna dos Estados-membros, a
codecisão legislativa de tipo federal, com a intervenção de dois órgãos legislativos,
ou seja, o Parlamento Europeu, que representa os povos da União, e o Conselho,
que representa os Estados-membros.
Apesar de não ter uma constituição propriamente dita, a União Europeia não pode
deixar de ser interpretada em termos constitucionais, sobretudo depois do Tratado
de Maastricht que ocorreu no ano de 1992, que ampliou substancialmente as
atribuições da União e criou a cidadania europeia; da aprovação da Carta dos
Direitos Fundamentais da União Europeia, em Nice no ano de 2000, que antecipa
a dotação da União de um bill of rights, de recorte genuinamente constitucional;
por último do Tratado de Lisboa, que ampliou as tarefas da União e tornou regra
geral o procedimento legislativo de tipo federal.
Pode afirmar-se que não é possível estudar Direito constitucional em Portugal, ou
noutro Estado-membro da União Europeia, sem ter em conta o Direito
Constitucional da União, ou seja, os seus Tratados.
3.2.3. Constitucionalismo “multinível” e Soberania Nacional:
No início da era constitucional, na segunda metade do século XVIII, a Constituição
surge intimamente ligada à ideia do Estado soberano, como expressão da
autodeterminação nacional.
A Constituição era concebida como a primeira e mais importante expressão da
soberania nacional. Ora, o constitucionalismo europeu vem afastar este
entendimento do Estado constitucional, na medida em que a própria ideia de
Constituição Europeia só pode ser concebível à custa da transferência de poderes
soberanos dos Estados-membros para a União. Por isso, o Constitucionalismo
Multinível supõe uma limitação da soberania do Estado constitucional nacional.
3.3. Constituição e vinculação internacional dos Estados:
No século XX tudo mudou, com a densificação do Direito Internacional, mercê da
multiplicação de tratados internacionais e da criação de numerosas organizações
internacionais.
19
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Um princípio geral do Direito Internacional é o de que os Estados não podem
invocar o seu direito interno para justificarem o incumprimento das suas
obrigações internacionais, incorrendo na mesma em responsabilidade
internacional.
Por isso, em caso de conflito, ou os Estados se exoneram dessas obrigações
internacionais ou alteram as suas constituições, quando são estas que justificam o
incumprimento das obrigações internacionais.
3.4. Interpretação e integração da constituição:
3.4.1. Princípios gerais de interpretação:
A interpretação jurídica é o processo que incide sobre um enunciado linguístico
(disposição ou preceito), tendo como objetivo identificar as normas ou princípios
nele contidos e definir o sentido e alcance de umas e outros.
Os pressupostos básicos de interpretação constitucional são os de que a
constituição é uma lei (constituição como lei), sendo formada por um conjunto de
normas (constituição como norma).
São as seguintes as regras gerais de interpretação constitucional:
a) Interpretação objetiva:
A interpretação “investiga” o sentido da constituição e das normas constitucionais
nela contidas. Trata-se de interpretar uma constituição existente e vigente,
devendo procurar-se o sentido objetivo das normas.
Significa isto que o intérprete da constituição deve adotar, fundamentalmente,
uma perspetiva objetivista, sendo de relevo secundário, nas questões de
interpretação constitucional, a utilização de materiais históricos eventualmente
reveladores do espirito do legislador e da vontade real ou hipotética do legislador
constituinte histórico.
b) Interpretação intrínseca:
Se se procura o sentido objetivo da constituição, é natural que as conexões de
sentido se procurem dentro dela e não fora dela, através do recurso a um sistema
ou ordem extranormativa.
A interpretação deve mover-se dentro dos parâmetros positivos das normas
constitucionais. Só assim se conseguirá que a interpretação da constituição
continue a ser uma interpretação jurídica e não uma interpretação “espiritual”,
que conduz inevitavelmente ao triunfo do arbítrio subjetivo do intérprete.
20
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
c) Interpretação sistemática:
Ao considerar-se essencial na interpretação da Constituição as conexões de
sentido, pretende-se, sobretudo, pôr em relevo que um preceito constitucional não
deve ser considerado isoladamente e interpretado apenas a partir dele próprio.
Formando a Constituição uma unidade de sentido, deve tomar-se em conta o seu
conteúdo global, o que permite, designadamente, conferir o devido relevo, em
sede interpretativa, aos princípios jurídicos e políticos fundamentais da
Constituição.
d) Inadmissibilidade de interpretação autêntica:
Na interpretação constitucional está vedada, por assim dizer, a “interpretação
autêntica” pelo legislador ordinário, salvo quando a Constituição o determine.
Em relação à constituição, o legislador não está numa situação privilegiada face aos
restantes destinatários das normas constitucionais. De «interpretação autêntica»
da constituição só poderá falar-se quando, em sede de revisão constitucional, se
procura precisar o sentido duvidoso de certa norma (o que frequentemente
ocorre).
e) Exclusão da interpretação conforme às leis:
A inadmissibilidade da interpretação autêntica tem subjacente o mesmo
fundamento que conduz à exclusão da interpretação conforme às leis.
As leis devem ser interpretadas de acordo com as normas superiores da
constituição, e não o inverso.
A interpretação constitucional deve ser uma interpretação conforme à constituição
e não conforme ao legislador.
f) Princípio da relevância e do sentido útil das normas constitucionais:
As disposições constitucionais não podem ser interpretadas de modo a anular todo
e qualquer efeito normativo. Este pode ser denso ou vago, forte ou fraco; o que
não pode ser é inexistente.
g) Padrões de interpretação exteriores à Constituição:
A própria constituição do Estado passou a ter de respeitar parâmetros externos,
nomeadamente o Direito internacional.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
No caso da nossa Constituição, ela manda explicitamente interpretar a Declaração
dos Direitos constitucional de acordo com a Declaração Universal dos Direitos
Humanos de 1948 (art. 16.º, n.º 2). Também, desde a origem, a Constituição
considera os princípios gerais de Direito internacional como parte integrante da
ordem interna (art. 8.º, n.º 1).
3.4.2. Interpretação e espaço semântico dos conceitos constitucionais na CRP:
Alguns dos problemas fundamentais que a interpretação e concretização da lei
constitucional têm suscitado dizem respeito à determinação do âmbito conceitual
das indiscriminadamente chamadas normas vagas ou dos conceitos relativamente
indeterminados.
Os esforços metódicos de aplicação do texto constitucional devem ter em
consideração os seguintes tópicos:
a) Conceitos constitucionais autónomos;
b) Conceitos pré-constitucionais;
c) Conceitos polissémicos;
d) Conceitos relativamente indeterminados;
e) Conceitos de origem extrajurídica;
f) Conjuntos normativos extrajurídicos.
3.4.3. Interpretação, unidade da Constituição e “concordância prática”:
Um princípio importante para a interpretação constitucional é o princípio da
unidade da constituição.
Este princípio significa que a Constituição deve ser interpretada de forma a evitar
contradições entre normas. Pode haver normas especiais ou exceções face a regras
gerais, o que não pode haver é incompatibilidades entre duas normas
constitucionais.
Quando o “programa normativo” de duas normas choca mutuamente há que
proceder à respetiva harmonização.
3.4.4. Integração constitucional:
Também a constituição pode apresentar lacunas. Há a necessidade de distinguir
entre lacuna constitucional propriamente dita e matéria não regulada pela
constituição, hipótese em que não se suscita o problema de integração, antes se
situa no domínio da liberdade de conformação do legislador;
22
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Em princípio, é de afastar a ideia de “lacunas de previsão” em direito
constitucional, as quais devem ser entendidas como renúncia do poder
constituinte a regular constitucionalmente a matéria.
Em segundo lugar, importa sublinhar que as lacunas se distinguem da reserva de lei
de execução, pois neste último caso é a constituição que pretende deixar ao
legislador a concretização da disciplina jurídica de certas relações.
Lacuna constitucional existe apenas quando certo problema, que deveria ter
solução constitucional, a não tem explícita na constituição. Indícios da existência de
uma lacuna constitucional são, designadamente, o facto de casos semelhantes
estarem previstos na constituição ou o facto de a matéria a que a questão omissa
pertence ter uma disciplina constitucional abrangente e pormenorizada.
Deve também distinguir-se rigorosamente a lacuna autêntica da lacuna aparente,
pois neste último caso o problema, à primeira vista sem solução constitucional,
está afinal diretamente resolvido algures na Constituição.
Quando, porém, se estiver em face de uma verdadeira lacuna, a força normativa da
constituição impõe que seja a partir dos critérios e das soluções acolhidas nela
própria que se integram os problemas lacunosos, seja mediante recurso à analogia,
seja por apelo aos princípios gerais que possam ser relevantes para o caso.
Exemplos de aplicação analógica são a aplicação do regime constitucional do
orçamento do Estado aos orçamentos das regiões autónomas e das autarquias
locais, com as necessárias adaptações.
Capítulo IV - História constitucional comparada:
4.1. Reino Unido:
4.1.1. Traços característicos do constitucionalismo britânico:
O constitucionalismo britânico apresenta quatro caraterísticas essenciais:
1. Primeiro, é produto de uma história de muitos séculos de evolução, desde a Magna
Carta, na construção da rule of law, na separação de poderes, no governo
representativo, na supremacia do parlamento.
2. Segundo, não existe uma constituição escrita, constante de um texto único, visto
que a maior parte das regras sobre a organização do poder político é de origem
consuetudinária e outras têm a forma de legislação comum avulsa.
23
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
3. Terceiro, não existe uma lei fundamental da organização política dotada de
supremacia normativa, uma vez que, as leis constitucionais são leis iguais às outras
e podem ser modificadas por outras, sem nenhuma exigência especial.
4. Por último, a natureza consuetudinária e legislativa avulsa justifica uma outra
característica da constituição britânica: trata-se de uma constituição flexível, já que
as alterações constitucionais podem ser feitas a todo o tempo através de leis do
Parlamento, que não têm de seguir um procedimento legislativo específico.
4.1.2. Principais momentos da história constitucional britânica:
Data de 1215 o primeiro texto escrito que compõe a constituição britânica: a
Magna Carta. Ela, genericamente, limitava o poder do rei de criar e aumentar
impostos, proclamava a liberdade da Igreja, garantia os direitos das classes sociais
perante o rei, continha disposições relativas a prerrogativas municipais e ao
comércio.
Relativamente ao denominado Bill of Rights (1689), este é um documento
fundamental da história constitucional que determinava, essencialmente, que ao
rei era proibido anular leis ou suspender a sua execução, criar impostos ou manter
um exército sem autorização do Parlamento. Além disso, continha uma série de
garantias jurídicas dos indivíduos de que são exemplo a liberdade de expressão e a
proibição de aplicação de penas cruéis.
No século VXIII surgem outras leis constitucionais destinadas a regular a
organização política: Act of Settlement, em 1701, com diversas disposições
destinadas a preservar a supremacia parlamentar e que reservou o trono de
Inglaterra aos príncipes da religião anglicana; Act of Union, em 1707, que criou o
Reino Unido da Grã-Bretanha, pela união real entre os tronos da Escócia e de
Inglaterra, criando um só Parlamento e leis políticas comuns.
No século XIX foi muito importante o Reform Act, pelo qual se alargou o direito de
voto, marcando o início da perda de importância da Câmara dos Lordes em
proveito da Câmara dos Comuns.
Mais recente, o denominado Scotland Act de 1998 procedeu a uma “regionalização
política” do Reino Unido, reconhecendo ao Parlamento escocês competência
legislativa em determinadas áreas como a educação, saúde, agricultura e justiça,
mantendo na reserva do Parlamento britânico matérias como defesa e segurança
nacional ou relações externas.
4.1.3. Instituições constitucionais e princípios fundamentais:
24
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
O Reino Unido é uma monarquia constitucional e uma democracia parlamentar, é
o resultado da combinação entre um sistema de governo parlamentar e um
sistema eleitoral maioritário que favorece governos de legislatura e a alternância
entre dois grandes partidos políticos (conservadores e trabalhistas).
As principais instituições atualmente existentes são as mesmas que constituem a
estrutura política da Grã-Bretanha desde a Idade Média:
Coroa (instituição que representa a unidade do Estado);
Câmara dos Lordes;
Câmara dos Comuns, que em conjunto formam o Parlamento.
As grandes novidades foram a criação do Governo (cabinet) a partir do séc. XVIII,
retirando o poder executivo ao monarca, e o aumento de poderes da Câmara dos
Comuns à custa da Câmara dos Lordes, democratizando o poder legislativo.
O titular da coroa é o rei, cujas funções correspondem à representação, sanção das
leis votadas no Parlamento, nomeação do Governo que, por sua vez, resulta da
maioria na Câmara dos Comuns.
A Câmara dos Lordes é composta pelo Lord Chanceler, pelos “pares temporais” e
pelos lordes espirituais. As suas funções são essencialmente legislativas auxiliares,
possuem o direito ao veto ou emenda dos projetos legislativos da Câmara dos
Comuns; têm, ainda, a possibilidade de discutir propostas e projetos de lei relativos
a matéria judicial.
A Câmara dos Comuns é composta por 630 deputados eleitos, funcionando em
comissões e em sessão plenária. As suas principais funções têm um cariz legislativo
principal. Desta forma, têm o direito de “passar” leis mesmo contra o voto dos
Lordes e podem, inclusive, controlar politicamente o Governo.
O Governo é composto pelo Primeiro-ministro, pelo Gabinete e pelos Ministers not
in cabinet. Tem funções de direção política e poder executivo, tem, também, uma
função legislativa por delegação da Câmara dos Comuns e, tem, ainda, a função de
direção de departamentos administrativos.
4.1.4. Influência do constitucionalismo britânico:
O modelo constitucional britânico exerceu a sua influência em diversas partes do
mundo. A atração pela estabilidade política britânica foi um fator que potenciou a
expansão deste modelo constitucional. Podem distinguir-se cinco momentos de
difusão do sistema constitucional britânico no mundo:
1. No século XVII, para as colónias da América do Norte e das Caraíbas;
25
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
2. No século XVIII, para a Europa (governo representativo e responsabilidade
ministerial) e para os Estados Unidos (influência da teoria da separação de poderes
de Montesquieu; conceção da figura do Presidente à imagem da do rei de
Inglaterra);
3. No primeiro quartel do século XIX, novamente na Europa, a monarquia
constitucional inglesa é fonte de inspiração da Constituição francesa, da
Constituição belga e, de certa forma, também, da Carta Constitucional portuguesa
de 1826 e das constituições de diversos Estados da Confederação Germânica;
4. No segundo quartel do século XIX, igualmente na Europa, a monarquia britânica
inspira a criação de monarquias constitucionais fundadas na Constituição e não
propriamente na soberania do rei;
5. Em finais do século XIX e no século XX, para os territórios do Império britânico e os
que lhe haviam pertencido (Canadá, Austrália, Índia).
4.2. Estados Unidos da América
4.2.1. Formação dos Estados Unidos:
À época da independência, que ocorreu no ano de 1776, as treze colónias
britânicas do ocidente do continente norte-americano apresentavam uma grande
homogeneidade cultural, social, religiosa, mas não política.
Apesar da autonomia de cada Estado, havia entre eles fortes fatores de união que
motivaram a constituição de uma Confederação em 1781, pela aprovação dos
Articles of Confederation.
No entanto, o Congresso dispunha assim de fracos poderes. Apenas podia dirigir
recomendações aos Estados, que tinham de ser aprovadas com o consentimento
de, pelo menos, nove Estados. Por outro lado, não tinha meios para fazer cumprir
as suas decisões, o que fragilizou a Confederação.
Desta forma, em 1787, reuniu-se a Convenção de Filadélfia com o intuito de rever
os Artigos da referida Confederação. Surgiu, então, a necessidade de criar uma
Federação, tornando-se os Estados fundadores em unidades federadas no novo
Estado federal, os Estados Unidos da América.
Foi, assim, a forma de Estado consagrada na Constituição de 1787, aprovada pela
Convenção de Filadélfia, que, por sua vez, deu origem a um novo país.
4.2.2. A Constituição de 1787 e as suas revisões:
26
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
A Constituição federal de 1787 foi aprovada na Convenção de Filadélfia sendo
depois ratificada em “convenções” realizadas em cada um dos estados federados.
É a primeira constituição de uma república federal.
De referir que, a Constituição dos Estados Unidos é um dos mais curtos textos
constitucionais existentes, tendo apenas sete longos artigos, e é reputada como
um dos mais bem escritos. Sendo a mais antiga Constituição em vigor, a
Constituição dos Estados Unidos revelou uma grande plasticidade e capacidade de
adaptação às diferentes épocas históricas.
Os aditamentos têm alterado ou completado o texto constitucional, sobretudo, em
matéria de direitos fundamentais, mas não só. Os primeiros dez foram aprovados
logo em 1791 e constituem uma Declaração de Direitos (Bill of Rights)
complementar da Constituição.
São, ainda, fontes do direito constitucional americano: o costume; a prática dos
Presidentes, que tem tido influência na forma de interpretar alguns preceitos da
Constituição; algumas leis ordinárias que contêm princípios considerados tão
importantes como a Constituição; as constituições dos estados federados.
4.2.3. Princípios e instituições constitucionais:
O constitucionalismo norte-americano tem como características principais o
federalismo, o republicanismo, o presidencialismo e a judicial review.
a) Federalismo:
À Federação são reconhecidos todos os poderes de que necessite para realizar as
atribuições previstas na Constituição, nomeadamente no âmbito da defesa e
relações externas, das finanças públicas, da justiça, do comércio externo.
Por outro lado, os Estados federados participam no exercício do poder político
central (através do Senado) e na aprovação de emendas à Constituição que, por
sua vez, têm de ser aprovadas por maioria de 2/3 dos membros das duas câmaras
federais e ratificados por ¾ dos estados federados.
A forma de Estado federal teve necessárias repercussões na estrutura do Congresso, o
órgão legislativo da Federação. Este é composto por duas câmaras:
1. A Câmara dos Representantes, formada pelos representantes eleitos pelos
cidadãos eleitores ao nível de cada Estado federado, com um mandato de 2 anos,
sendo o número de representantes proporcional à população de cada Estado;
27
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
2. E o Senado, que representa os estados federados, para o qual cada Estado elege
dois senadores (independentemente da sua maior ou menor dimensão geográfica)
por um mandato de seis anos.
b) Republicanismo:
Os Estados Unidos são a primeira república da época moderna alicerçada no
princípio democrático, por contraposição às monarquias que deram forma às
democracias liberais europeias e às experiências republicanas de cariz autoritário
da época moderna.
Nos termos da Constituição, o chefe de Estado é o Presidente, que ocupa o cargo
em virtude de um ato eleitoral.
O republicanismo nega os privilégios decorrentes do nascimento, em particular a
hereditariedade dos cargos políticos, exigindo-se a renovação periódica dos seus
titulares. A República federativa funda-se na igualdade dos seus cidadãos, incluindo
a igualdade de nascimento e a proscrição de privilégios de nascimento, estando
todos subordinados da mesma forma ao direito que os rege.
c) Presidencialismo:
O Presidente é simultaneamente chefe de Estado e chefe de Governo, dirigindo a
execução do programa político por ele definido.
O poder legislativo, por sua vez, foi atribuído ao Congresso.
Estes dois órgãos são independentes entre si, assim, o Presidente não responde
politicamente perante o Congresso, que o não pode demitir, nem este pode ser
dissolvido pelo Presidente.
No entanto, criaram-se mecanismos de interdependência funcional, ou seja, o
Presidente possui direito de veto das leis aprovadas pelo Congresso, veto esse
superável por maioria de 2/3; tal como vários atos do Presidente têm de ser
confirmados pelo Senado, como por exemplo, nomeações para altos cargos e
assinatura de tratados internacionais, possuindo, igualmente, o poder de fazer
cessar o mandato do Presidente em caso de crimes ou outras infrações
(impeachment), assumindo o Senado funções judiciais para esse efeito.
d) Judicial review:
Judicial review designa o poder de controlo dos tribunais sobre a validade
constitucional da legislação, impedindo a aplicação das disposições legais que
contradigam as normas e os princípios constitucionais (fiscalização da
28
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
constitucionalidade pelos órgãos judiciais). Este instituto, que viria mais tarde a ser
consagrado também por outros sistemas constitucionais, teve a sua origem nos
Estados Unidos.
Com base nestes pressupostos, os tribunais assumiram o poder de recusar a
aplicação de leis inconstitucionais, emergindo claramente a ideia da Constituição
como limite aos poderes legislativo e executivo.
Criou-se, assim, um sistema de fiscalização da constitucionalidade difusa, isto é,
não existe apenas um órgão jurisdicional competente para apreciar a
constitucionalidade das leis.
4.2.4. Influência do constitucionalismo americano:
A influência do constitucionalismo americano, fez-se sentir, sobretudo, nos países
da América Latina, após a independência, e no Brasil, após a proclamação da
República. Estes países adotaram sistemas de governo presidencialistas, à imagem
do sistema norte-americano. No entanto, em muitos casos, derivaram para
regimes ditatoriais ou originaram situações de conflito insanável entre o presidente
e o congresso.
A importância decisiva do constitucionalismo americano reside talvez na difusão de
alguns dos princípios anteriormente referidos, em particular o federalismo e a
fiscalização da constitucionalidade por parte dos tribunais (judicial review).
4.3. França
4.3.1. Mais de dois séculos de revoluções e constituições:
O constitucionalismo francês apresenta contornos bem distintos do britânico e do
norte-americano. Ao contrário do que sucedera nos Estados Unidos, a Revolução
em França fez-se para destruir as estruturas e instituições que a antecederam. A
Revolução prolongou-se por um período relativamente longo, não tendo criado
uma ordem constitucional estável.
4.3.2. As principais constituições:
a) A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão:
O primeiro texto de valor constitucional saído da Revolução foi a Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, que proclamava como direitos naturais
do homem um conjunto de direitos baseados na liberdade, na segurança e na
propriedade, largamente inspirado na Declaração de Virgínia.
29
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Apesar da instabilidade política que se seguiu, a Declaração permaneceu como
uma das conquistas fundamentais da Revolução, sendo, ainda hoje, a carta de
direitos fundamentais em França.
4.3.3. A Constituição da V República:
A necessidade de superar a instabilidade governativa e parlamentar da IV
República conduziu ao surgimento da Constituição que vigora atualmente,
aprovada por plebiscito, em setembro de 1958.
a) Estado unitário:
A França é constitucionalmente um Estado unitário fortemente centralizado.
Ao contrário de outros grandes Estados europeus, que ou são federações ou se
encontram regionalizados, França só muito tarde aceitou fenómenos de
descentralização política através da criação de regiões, dotadas de limitada
autonomia.
b) Sistema de governo “semipresidencialista”:
Tendo por objetivo fortalecer a autoridade do Chefe de Estado e do Governo, a
Constituição introduziu um sistema de governo de base parlamentar, porém,
limitado por uma componente presidencialista forte.
O traço mais marcante do sistema de governo da Constituição de 1958 é o sistema
de governo híbrido, que conjuga traços de natureza parlamentar, designadamente
a formação do governo de acordo com a composição do parlamento, bem como a
responsabilidade do governo perante o parlamento, com uma forte componente
presidencial, tendo o Presidente importantes poderes, designadamente o poder de
superintender no governo, dissolver livremente o parlamento, convocar
referendos, etc..
c) Sistema eleitoral maioritário de duas voltas:
O sistema eleitoral tradicional na V República é um sistema eleitoral maioritário,
em círculos uninominais, à maneira britânica, porém, com a particularidade de
requerer a maioria absoluta. Se nenhum candidato a obtiver na primeira eleição,
realiza-se uma segunda volta, em que só podem concorrer os candidatos que
tenham obtido uma certa percentagem na primeira volta.
d) Fiscalização limitada da constitucionalidade das leis
30
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Uma das características tradicionais do constitucionalismo francês é a ausência do
controlo judicial da constitucionalidade das leis.
A conceção da lei como expressão da vontade geral do povo afastou, desde cedo, a
possibilidade de outro poder questionar a conformidade das leis com a
Constituição.
Fiscalização só preventiva, feita pelo Conselho Constitucional: as leis, depois de
promulgadas, não podem ser postas em causa pelos tribunais; a estes compete
aplicar as leis, não podendo recusar-se a aplicá-las.
4.3.4. A influência do constitucionalismo francês:
O constitucionalismo francês é, particularmente, rico pela tendência universal dos
valores proclamados pela Revolução Francesa e pela grande influência que
exerceram na Europa, na América Latina e, mais tarde, em certas regiões do
continente africano.
A Carta Constitucional de 1830 foi o modelo das monarquias constitucionais de
tendência liberal, seguido em Portugal, em Espanha e na Grécia. Influenciou,
também, a Constituição belga de 1831, ainda hoje em vigor.
Na sequência da I Guerra Mundial, foram influenciados pelo constitucionalismo
francês os países que nasceram da queda do Império Austro-Húngaro e outros que
consagraram pela primeira vez as instituições republicanas.
Em especial, a Constituição de 1958 “exportou”, entre outros traços, o sistema de
governo semipresidencialista, a eleição direta do Presidente da República por
maioria absoluta (se necessário com uma 2ª volta) e o sistema eleitoral de maioria
absoluta para os deputados.
4.4. Alemanha
4.4.1. Da unificação alemã de 1871 à reunificação de 1990:
Na versão alemã da monarquia constitucional, o rei continuou a ser o titular do
poder soberano, aceitando limitar o seu poder mediante a outorga de uma
Constituição.
4.4.2. A Lei Fundamental de Bonn, 1949:
A Lei Fundamental de 1949 da República Federal da Alemanha, ou Constituição de
Bona, foi elaborada por uma assembleia com poderes constituintes, tendo entrado
em vigor após aprovação dos parlamentos dos Estados federados.
31
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Esta Constituição criou regras especificas para a restrição de direitos fundamentais,
determinando que a restrição só pode ser feita por lei geral e abstrata, na estrita
medida necessária e não pode afetar o núcleo essencial do direito em causa.
A Constituição consagrou, também, um sistema de governo parlamentar. O
Parlamento é composto por duas câmaras: o Budestag, órgão representativo do
povo, e o Budesrat, onde têm assento os representantes dos Lander.
No que se refere à fiscalização da constitucionalidade, efetua-se um controlo por
via incidental – controlo concreto: o juiz de um caso concreto submete ao Tribunal
Constitucional a questão da inconstitucionalidade de uma norma, suspendendo-se
o processo até à decisão deste Tribunal.
Controlo por via principal (controlo abstrato), posteriormente à entrada em vigor
dos atos objeto de controlo (controlo sucessivo).
O controlo preventivo da constitucionalidade incide apenas sobre leis que aprovam
tratados internacionais.
O sistema alemão consagrou, ainda, o recurso direto de constitucionalidade, nos
termos do qual qualquer cidadão ou pessoa coletiva privada pode interpor recurso
de anulação junto do Tribunal Constitucional dos atos jurídicos dos poderes
públicos que violem os seus direitos fundamentais.
4.5. Espanha
4.5.1. Revoluções e constituições:
Ao longo do século XIX, a sucessão de revoluções e contrarrevoluções, fruto das
lutas entre liberais (moderados e progressistas) e conservadores e de crises de
sucessão monárquica, deu origem a cinco Constituições (1812, 1837, 1845, 1869,
1876), cuja vigência foi por vezes intercalada por períodos de interrupção
constitucional.
As razões desta instabilidade constitucional prendem-se com a ausência de uma
classe social sobre a qual se pudesse apoiar o movimento constitucional liberal,
aliada à ausência de um Estado forte e ao carácter partidarista das constituições.
4.5.2. Da Constituição de Cádis de 1812 à Constituição de 1978
Imposta sublinhar os principais passos do constitucionalismo espanhol. Apesar da
heterogeneidade de textos e projetos constitucionais, é possível distinguir três
períodos no constitucionalismo espanhol até ao franquismo: constitucionalismo
liberal (1812-1868), constitucionalismo democrático (1868-1931) e
constitucionalismo social (1931-1936).
32
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
a) O constitucionalismo liberal:
A Constituição de Cádis é a primeira constituição de Espanha, elaborada e
proclamada em 1812, pelas Cortes Constituintes convocadas para o efeito;
declarada nula em 1814 pelo poder monárquico restaurado, foi restabelecida,
novamente, em 1820.
Pôs fim ao absolutismo monárquico e abriu caminho ao nascimento das
instituições fundamentais do Estado liberal, sendo de destacar, a soberania da
nação, os direitos fundamentais, o sistema representativo, o princípio da
separação de poderes, o princípio da legalidade, segundo o qual o governo só
poderia atuar com base no respeito pela lei.
A Constituição de Cádis foi a principal fonte de inspiração da Constituição
portuguesa de 1822. Existindo, no entanto, diferenças substanciais entre os dois
textos das quais se destacam: o catálogo dos direitos fundamentais – na
Constituição portuguesa existe um capítulo próprio para os direitos fundamentais,
enquanto que na Constituição de Cádis os direitos fundamentais surgem dispersos
pelo texto constitucional; o sistema eleitoral previsto para as cortes ordinárias
subsequentes: a Constituição portuguesa optou por eleições diretas, enquanto que
na Constituição espanhola estava previsto um sistema de eleições indiretas em
quatro graus; a Constituição portuguesa estabeleceu o recenseamento eleitoral
oficioso, que falta na Constituição espanhola.
b) O constitucionalíssimo democrático:
A Constituição de 1869 proclamou o sufrágio universal, que fez radicar na
soberania nacional pondo em causa a autoridade histórica e tradicional da Coroa.
A vontade da Nação converte-se no único elemento legitimador de todo o poder e
é ela que determina a forma de Estado e de governo a adotar.
A nova Constituição fez depender o gozo dos direitos constitucionalmente
consagrados das regras que oportunamente fossem fixadas por lei (lei esta que,
nessa configuração dos direitos dos indivíduos, tinha de respeitar os direitos da
Nação e os atributos essenciais do poder público).
c) Constituição da II República (1931-39):
Traduziu um projeto de transformação social que ia além da institucionalização do
poder político e da consagração e garantia dos direitos e liberdades dos indivíduos.
Proclamava o princípio da soberania popular (os poderes dos órgãos da República
emanam do povo), pretendia instaurar uma República democrática dos
trabalhadores de todas as classes.
33
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Consagrava, portanto, a limitação de direitos individuais em nome do interesse
social, a subordinação da riqueza do país aos interesses da economia nacional, a
proteção dos trabalhadores, a liberdade de associação sindical, a proteção do
campesinato, a intervenção do Estado na economia determinada pela necessidade
de racionalizar a produção e de assegurar os interesses da economia nacional.
Contudo, três outros fatores revelam a importância histórica da Constituição de
1931 nomeadamente a organização territorial do poder, o sistema de justiça
constitucional e o regime jurídico de proteção dos direitos fundamentais.
d) A Constituição de 1978:
A Constituição de 1978 consagra um regime de monarquia constitucional
democrática, com um sistema de governo de tipo parlamentar “racionalizado”, à
maneira alemã. Os traços fundamentais desta Constituição são os seguintes:
a) Reconhecimento das comunidades autónomas, com autonomia político-
administrativa;
b) Sistema de governo parlamentar, sendo o governo chefiado por um “presidente do
governo”, que é responsável perante o parlamento, mas que somente pode ser
demitido mediante uma “moção de censura construtiva” (à maneira alemã);
c) Parlamento bicameral, com Senado e Congresso dos Deputados, sendo os
deputados eleitos por sistema de representação proporcional, com cláusula
barreira;
d) Sistema de fiscalização da constitucionalidade pelo Tribunal Constitucional;
e) Reconhecimento do “recurso de amparo”, inspirado na Constituição da II
República.
f) Um dos traços mais marcantes da Constituição de 1978 é a sua estabilidade: só foi
objeto de uma pequena revisão.
Capítulo V - História constitucional portuguesa
5.1. Traços gerais do constitucionalismo português:
5.1.1. Contextualização:
O constitucionalismo português, à semelhança do que sucedeu em outros países,
afirmou-se, essencialmente, como reação ao absolutismo monárquico.
34
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Do que se tratava era de, através de um diploma fundamental escrito, limitar o
poder, estabelecer a separação dos poderes, instituir um governo representativo,
reconhecer e proteger as liberdades individuais, garantir o direito de propriedade e
a liberdade de comércio e indústria, libertar a economia e a sociedade do controlo
do Estado e das corporações profissionais.
5.1.2. A descontinuidade formal:
Do ponto de vista formal, a história constitucional portuguesa caracteriza-se por
uma considerável descontinuidade e instabilidade constitucional.
Em dois séculos, Portugal conheceu seis diferentes textos constitucionais,
nomeadamente as Constituições de 1822, 1826, 1838, 1911, 1933, 1976. Três
durante a monarquia constitucional e três durante a República; três durante o
século XIX e três durante o século XX.
5.1.3. A via revolucionária:
Excetuando a Carta Constitucional de 1826 todas as demais foram precedidas e
originadas por atos revolucionários.
Constituição de 1822, precedida pela revolução de agosto de 1820;
Constituição de 1838, precedida pela revolução de setembro de 1836;
Constituição de 1911, precedida pela revolução de 5 de outubro de 1910;
Constituição de 1933, precedida pela revolução de 28 de maio de 1926;
Constituição de 1976, precedida pela revolução de 25 de abril de 1974.
A implantação e consolidação do constitucionalismo acompanharam o processo de
implantação e consolidação do liberalismo e da democracia entre nós, o qual,
porém, sofreu de instabilidade, avanços e recuos, revoluções e contrarrevoluções.
5.1.4. Os períodos da história constitucional portuguesa:
Foi muito atribulado e instável o período de implantação e consolidação do
constitucionalismo liberal-monárquico.
A história constitucional portuguesa conheceu distintos períodos ou fases. Numa
versão simplificada, podemos distinguir quatro períodos:
1. O constitucionalismo liberal monárquico, do seu início até ao fim da monarquia
(Constituições de 1822, 1826 e 1838);
2. O constitucionalismo liberal republicano, correspondente ao período da I República
(Constituição de 1911);
35
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
3. O constitucionalismo corporativo e autoritário, correspondente ao período do
“Estado Novo” (Constituição de 1933);
4. O constitucionalismo democrático, desde a revolução de 25 de Abril de 1974
(Constituição de 1976).
5.2. A Constituição de 1822
5.2.1. Contexto histórico-político:
O constitucionalismo entrou em Portugal no contexto da luta contra o absolutismo.
A primeira constituição portuguesa, datada de 23 de setembro de 1822, surge por
efeito da revolução de 1820.
Porém, antes disso, ocorreu, em 1807, uma “Súplica” de uma constituição de um
rei constitucional dirigida ao Imperador francês em nome de uma “Junta de três
estados do Reino”. Baseada na Constituição francesa de 1799, contudo, a
suplicação não teve seguimento.
Com a Constituição de 1822, não se pretendia propriamente derrubar a
monarquia. Pelo contrário, o que a maior parte dos revolucionários desejava era
que o Rei, D. João VI, que tinha ido para o Brasil, regressasse a Portugal e
reassumisse o poder, expulsando os ingleses que cada vez mais se iam apoderando
desse mesmo poder, e, por outro lado, pondo fim ao descalabro económico do
país.
Assim, o que se pretendeu foi instaurar uma monarquia constitucional, isto é, um
regime baseado na separação dos poderes e no governo representativo, em que o
monarca deve partilhar alguns dos seus poderes com o parlamento e, para além
disso, deve exercer apenas os poderes que a Constituição lhe atribui e nos exatos
termos nela regulados.
5.2.2. Procedimento constituinte:
Esta Constituição foi elaborada e aprovada pelas Cortes Gerais Extraordinárias e
Constituintes da Nação Portuguesa eleitas para o efeito. O monarca, regressado do
Brasil, teve de aceitar e jurar o texto constitucional que lhe foi submetido.
Tratou-se, portanto, de um procedimento constituinte representativo ou indireto,
levado a cabo por uma assembleia constituinte soberana, isto é, por uma
assembleia com poderes não só para elaborar, mas, também, para aprovar a
constituição.
O processo constituinte teve duas fases:
36
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
1. Em março de 1821 foram definidas e aprovadas pelas Cortes as “Bases da
Constituição”. Estas Bases, juradas pelo Rei, serviriam, posteriormente, de
documento de orientação para o trabalho subsequente das Cortes Constituintes.
2. Posteriormente, foram elaborados pelas Cortes os preceitos constitucionais que
seriam reunidos num documento único, a Constituição, novamente jurada pelo Rei.
5.2.3. Principais influências recebidas:
A Constituição espanhola de Cádis de 1812, também ela precedida por uma
revolução liberal, constitui a principal fonte de inspiração da Constituição
portuguesa de 1822.
Essa mesma constituição, por sua vez, inspirou-se nas constituições francesas de
1791 e 1795. Assim sendo, a nossa primeira constituição acabou por conservar
algumas das ideias liberais oriundas de França, nomeadamente a separação de
poderes, a soberania nacional, o regime representativo e o reconhecimento dos
direitos e deveres individuais.
5.2.4. Os direitos fundamentais:
A Constituição de 1822 consagra uma série de direitos e deveres que se encontram
enunciados no título I, nos 19 primeiros artigos da Constituição, transparecendo,
desta forma, a importância atribuída a esta matéria.
Os principais traços característicos neste domínio são:
O reconhecimento dos principais direitos e liberdades individuais: o direito à
liberdade, o direito de propriedade, o direito à segurança;
O peso considerável dado às garantias das liberdades, nomeadamente as garantias
na esfera penal;
A distinção estabelecida entre direitos individuais e “direitos da Nação”;
A ausência dos atuais direitos económicos, sociais e culturais, direitos esses que
exigem prestações do Estado;
A conivência com a escravatura em mais de um preceito, contrariando, assim, as
conceções cristãs e liberais que a inspiraram.
5.2.5. A organização do poder político
[Link]. Os princípios inspiradores fundamentais:
37
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
a) Princípio da soberania nacional (arts. 26º e 27º):
O poder soberano pertence à Nação e já não ao monarca. Assim, o monarca deixa
de ser o titular do poder soberano e passa a ser um simples representante da
Nação, exercendo uma parte do poder em nome dela.
b) Princípio representativo (arts. 26º, 27º, 32º, 94º):
Sendo a Nação uma entidade abstrata, é necessário que o poder de que ela é
titular seja exercido, em nome dela, por representantes legalmente eleitos.
c) Princípio da separação de poderes (art. 30º):
O legislador constituinte de 1822 optou pela trilogia clássica de Montesquieu:
poder legislativo, poder executivo e poder judicial.
O poder legislativo cabia, fundamentalmente, às Cortes, concebidas como uma
assembleia legislativa unicameral. Apesar de o texto constitucional fazer referência
à “sanção” real das leis, logo dá a entender que a sua recusa mais não era do que
de um simples veto político suspensivo. As Cortes tinham, ainda, competências
políticas.
O poder executivo foi confiado ao monarca, assistido por um Conselho de Estado,
concentrando-se nele, embora com alguns limites, a totalidade deste poder. O
monarca possuía poderes típicos de um chefe de Estado, mas, também, poderes
típicos de um chefe do Executivo. No exercício destes últimos poderes, ele era
auxiliado por Secretários de Estado.
Finalmente, o poder judicial competia aos tribunais.
De salientar a proibição de interferência do poder executivo no poder legislativo,
não podendo o monarca dissolver as Cortes, e no poder judicial.
[Link]. Forma de Estado:
A Constituição de 1822 adotou, como forma de Estado, a monarquia constitucional
hereditária.
[Link]. Caracterização genérica do sistema de governo:
A Constituição de 1822 optou por uma combinação atípica dos princípios
monárquico, da soberania nacional e representativo, combinação essa
caracterizada por uma partilha de poderes, bastante rígida, entre as Cortes e o
monarca.
Não se trata de um sistema parlamentar, faltando, para tal, um elemento
fundamental que é, precisamente, a responsabilidade política do executivo perante
38
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
o parlamento. Os Secretários de Estado são responsáveis perante as Cortes, mas
trata-se de uma simples responsabilidade jurídico-penal, sendo no mais
independentes delas. Em contrapartida, o Rei também não podia dissolver o
Parlamento. A forma de governo estava, portanto mais próxima do
presidencialismo norte-americano, de separação estrita dos poderes legislativo e
executivo.
5.2.6. A vida da Constituição de 1822:
A Constituição de 1822 teve dois períodos de vigência, um imediatamente
subsequente à sua aprovação, outro a seguir à sua restauração decretada pela
Revolução setembrista de 1836:
de 1822 a 1823;
de 1836 a 1838.
Ambos os períodos foram breves, não tendo a Constituição chegado a funcionar
verdadeiramente. No primeiro período, ela cedeu ao triunfo da contrarrevolução
absolutista. No segundo, ela vigorou transitoriamente enquanto não era aprovada
a Constituição de 1838.
5.3. A Carta Constitucional de 1826
5.3.1. Contexto histórico-político:
A revolução de 1823 denominada Vila-Francada, chefiada pelo Infante D. Miguel foi
de sinal contrário à revolução de 1820. D. Miguel era um absolutista e, portanto,
pretendia a restauração do regime anterior à revolução de 1820.
No entanto, as sementes do liberalismo tinham sido lançadas pela revolução de
1820, pelo que D. João VI preferiu adotar uma via mais realista e moderada,
prometendo ao país a elaboração de uma Carta Constitucional para substituir a
Constituição de 1822, demasiado radical para o monarca. Chegou a haver um
projeto oficial da Carta Constitucional, mas o certo é que ele nunca foi posto em
prática.
Desta forma, quando D. João VI morreu, o filho primogénito, D. Pedro, na altura
Imperador do Brasil, era simultaneamente o príncipe real de Portugal e, por isso, a
regência aclamou o Imperador do Brasil como Rei de Portugal.
Porém, D. Pedro optou por abdicar do trono português a favor da sua filha Maria
da Glória, que era ainda criança. Impôs, por isso, algumas condições: uma delas
que ela casasse com o seu tio D. Miguel e, outra condição, que a Carta
Constitucional fosse posta em vigor.
Importa sublinhar que D. Pedro IV abdicou do trono português após ter assinado a
Carta Constitucional, que foi redigida no Rio de Janeiro, sendo lá impressa e
assinada (29 de abril de 1826), posteriormente remetida para Lisboa.
39
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
5.3.2. Procedimento constituinte:
A Carta Constitucional foi concedida à Nação pelo monarca, D. Pedro IV. Tratou-se,
pois, de um procedimento constituinte monárquico.
Tratava-se de uma forma de os monarcas afirmarem a sua própria soberania,
distinguindo os textos constitucionais, por eles elaborados de acordo com a sua
própria vontade, daquelas constituições que contavam com a participação, ou pelo
menos com o consentimento, da Nação.
5.3.3. Principais influências recebidas:
A Carta é uma constituição muito mais conservadora do que a Constituição de
1822.
A principal fonte de inspiração foi a Carta constitucional brasileira de 1824,
também emitida por D. Pedro. Através da constituição brasileira, a nossa
constituição acabou, igualmente, por receber influências da Carta Constitucional
francesa de 1814.
Como exemplos dessas influências, aponta-se a consagração da sanção real das leis
e a existência de uma Câmara dos Pares, com membros hereditários e vitalícios
nomeados pelo monarca. Sendo, ainda, de realçar a previsão de um “poder
moderador” atribuído ao Rei, que acumulava com a chefia do poder executivo.
5.3.4. Direitos fundamentais:
Os direitos dos cidadãos foram, nesta Carta, relegados para um único e último
artigo do texto constitucional. Neste preceito estavam previstos os direitos
tipicamente liberais, oriundos da constituição “vintista”, lado a lado com novos
direitos, liberdades e garantias, tais como a liberdade de deslocação e emigração, a
garantia da não retroatividade das leis, liberdade de trabalho e empresa, entre
outros.
Deve ainda mencionar-se a consagração de direitos e garantias da nobreza e da
burguesia.
5.3.5. Organização do poder político
[Link]. Os princípios inspiradores fundamentais:
a) Princípio monárquico (art. 4º):
O monarca passa a ser o titular e detentor do poder soberano, aceitando, contudo,
ceder parte do seu poder, comprometendo-se, por outro lado, a exercer o poder
que lhe cabe de acordo com os esquemas constitucionais.
b) Princípio representativo (art. 4º):
A Carta optou por um regime representativo, sem qualquer intervenção direta do
povo na condução da vida política do país.
40
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
c) Princípio da separação de poderes (art. 10º):
A grande novidade introduzida pelo texto constitucional de 1826 foi a consagração
de um quarto poder, o denominado poder moderador. Este novo poder foi
atribuído ao monarca. E compreende, entre outras faculdades, a de nomear os
Pares, a de sancionar os decretos das Cortes, a de dissolver a câmara dos
deputados e a de nomear e de demitir os ministros.
Relativamente ao poder legislativo, este foi atribuído às Cortes. Trata-se de uma
assembleia legislativa bicameral, composta pela Câmara dos Deputados,
correspondendo esta a uma câmara eletiva, cujos membros eram escolhidos por
meio de sufrágio censitário e indireto; e pela Câmara dos Pares, que, por sua vez,
era uma câmara composta por membros hereditários, presentes por direito
próprio, e por membros vitalícios nomeados pelo rei.
O poder executivo pertence ao monarca. Aqui surgem os Ministros de Estado, que
exercem o poder executivo em nome do Rei. Desta forma, os atos do Rei, como
titular do poder executivo, carecem de referenda dos Ministros.
O poder judicial compete, por último, aos tribunais.
[Link]. Forma de Estado:
Foi adotada, como forma de Estado, a monarquia hereditária.
[Link]. Caracterização genérica do sistema de governo:
A Carta de 1826 optou por uma combinação dos princípios monárquico e
representativo.
Em 1822 havia um regime fortemente representativo. O poder soberano pertencia
à Nação e era exercido pelos seus representantes, as Cortes Gerais e o monarca.
Por outro lado, a Carta Constitucional é uma forma política mista, combinando-se
uma monarquia limitada com uma monarquia representativa. Apesar de se
declarar que o Rei era um representante da Nação, juntamente com as Cortes
Gerais, ele era mais do que isso, porque detinha a titularidade do poder soberano.
Não era, porém, uma concentração total, uma vez que as Cortes Gerais também
dispunham de alguns poderes, nomeadamente o poder de revisão constitucional e
o poder legislativo.
Com o tempo, acentua-se a estrutura mista do regime, com a perda progressiva de
poderes por parte do Rei e o reforço dos poderes das Cortes. Evoluiu-se, assim, de
uma monarquia representativa para um regime parlamentar dualista, em que o
executivo era responsável, em simultâneo, perante as Cortes e perante o Rei.
5.3.6. Vida e revisões da Carta Constitucional
a) Vigência:
41
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
A Carta Constitucional de 1826 teve formalmente três períodos de vigência (1826 a
1828, 1834 a 1836 e 1842 a 1911), mas político-constitucionalmente podemos
assinalar cinco períodos. Assim:
1. de 1826 a 1828: usurpação de D. Miguel, regresso ao pré-constitucionalismo e
guerra civil;
2. de 1834 a 1836: termo da guerra civil, Convenção Évora-Monte;
3. de 1842 a 1911: golpe de Consta Cabral até à Implantação da República. Esta
período pode ser subdivido nos seguintes:
1. de 1842 a 1851: restabelecimento da Carta e início da sua longa vigência de
décadas;
2. de 1851 a 1891: período de maturidade e estabilidade do cartismo
constitucional;
3. de 1891 a 1910: declínio da legitimidade política da Carta e do liberalismo
cartista.
b) Revisões constitucionais:
A Carta Constitucional voltou a ser colocada em vigor depois de 1842, após o fim
da Constituição setembrista de 1838, vindo a manter-se em vigor até ao fim da
monarquia. Durante esse longo período, a Carta sofreu várias alterações, que
foram atenuando os seus traços mais conservadores.
1852: eleição direta dos deputados, atenuação do sufrágio censitário, comissões
parlamentares de inquérito, abolição da pena de morte para crimes políticos;
1885: legislatura de três anos; eletividade de uma parte dos Pares, direito de
reunião, limitação do poder de dissolução parlamentar pelo rei;
1895: Revisão por decreto ditatorial, posteriormente ratificado por lei de 1896:
eliminação dos pares eletivos, supressão das limitações ao poder de dissolução;
1907: Eliminação do número fixo de pares vitalícios.
5.4. A Constituição de 1838
5.4.1. Contexto histórico-político:
A Carta Constitucional vigorou somente até 1828, no seu primeiro período de
vigência, terminando com a restauração absolutista por D. Miguel. De 1828 a 1834
verifica-se um novo período de interrupção do regime constitucional, culminando
com uma guerra civil entre 1832 a 1834, entre liberais e absolutistas (partidários de
D. Miguel). Com a vitória dos liberais é restaurada a Carta Constitucional,
correspondendo ao seu segundo período de vigência.
42
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
A Revolução de setembro de 1836, desencadeada pela ala liberal mais progressista,
marca o auge das lutas entre os “vintistas”, mais radicais e democratas e, portanto,
defensores da Constituição de 1822, e os “cartistas”, mais conservadores e,
portanto, defensores da Carta Constitucional.
Foi, então, derrubado o Governo conservador e a oposição democrática chegou ao
poder. É reposta em vigor a Constituição de 1822. Sendo imediatamente eleita
uma assembleia constituinte, que viria a aprovar a Constituição de 1838.
5.4.2. Procedimento constituinte:
A Constituição de 1838 foi elaborada por uma assembleia constituinte eleita pelo
povo: as Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes.
Inicialmente pretendia-se apenas que as Cortes revissem a Constituição de 1822.
Posteriormente, porém, ser-lhe-iam concedidos poderes constituintes para
elaborar uma nova constituição. Depois de discutida e votada nas Cortes, ela foi
submetida à aprovação da Rainha D. Maria II, que a aceitou e jurou.
A realização do texto constitucional seria, assim, o produto de uma cooperação
entre as Cortes e o monarca, resultando, pois, de um concurso de duas vontades, a
real e a parlamentar.
Assim sendo, poder-se-á afirmar que foi utilizado um procedimento constituinte
misto representativo-monárquico ou um procedimento constituinte representativo
ou indireto.
5.4.3. Principais influências recebidas:
A nova Constituição é, essencialmente, um compromisso entre as duas que a
antecederam. Menos radical do que a de 1820, menos conservadora do que a
Carta de 1826. Face a isto pode afirmar-se que a Constituição de 1838 foi
influenciada por estas duas constituições portuguesas.
Da Constituição de 1822 conservou-se, fundamentalmente, a teoria da soberania
nacional, a inexistência do poder moderador e o sufrágio direto na eleição dos
deputados.
Da Carta Constitucional de 1826 manteve-se, fundamentalmente, o bicameralismo
do parlamento e a vastidão dos poderes do monarca.
Influenciaram, ainda, esta Constituição a Carta Constitucional francesa de 1830, a
Constituição belga de 1831 e a Constituição espanhola de 1837.
5.4.4. Direitos fundamentais:
Os direitos e liberdades voltam a estar enunciados num compartimento próprio, no
início da Constituição, tal como na Constituição de 1822.
43
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Como aspetos essenciais neste particular domínio verifica-se um maior equilíbrio
entre as liberdades e as respetivas garantias e, ainda, a circunstância de, neste
novo texto constitucional, figurarem novos direitos e liberdades, nomeadamente
as liberdades de reunião e de associação.
5.4.5. No domínio da organização do poder político
[Link]. Os principais princípios orientadores:
a) Princípio da soberania nacional (art. 33º):
No plano da fundamentação da legitimidade do poder soberano, dá-se a
substituição da teoria da soberania monárquica que inspirou a Carta
Constitucional, pela teoria da soberania da Nação.
b) Princípio representativo (art. 4º):
Afirma-se o carácter representativo das instituições. Sendo os seus principais
representantes o parlamento e o monarca.
c) Princípio da independência ou separação dos poderes (art. 35º):
Constata-se a adoção da tripartição clássica de poderes: o poder legislativo, o
poder executivo e o poder judicial.
O poder legislativo era exercido pelas Cortes, as quais foram instituídas como um
parlamento bicameral, havendo a Câmara dos Deputados e a Câmara dos
Senadores.
O poder executivo foi atribuído ao monarca que o exercia através dos seus
Ministros e Secretários de Estado. Enquanto chefe do Executivo, o rei dispunha,
entre outros, dos seguintes poderes:
a) Poder de sancionar e promulgar as leis, exceto as de revisão constitucional;
b) Poder de dissolver a Câmara dos Deputados, quando assim o exigir a salvação do
Estado;
Por último, existia o poder judicial que era atribuído aos tribunais.
[Link]. Forma de Estado:
Uma vez mais, é escolhida a forma de Estado monárquica-hereditária, na sua
modalidade de monarquia constitucional ou limitada.
[Link]. Caracterização genérica do sistema de governo
A forma de Estado é ainda a monárquica; mas, no referente à governação
propriamente dita, os poderes estão cada vez mais concentrados no parlamento,
com o consequente apagamento político do Rei.
44
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Encontra-se, pois, um regime político misto, com uma tendência parlamentar
bastante forte. Podendo, assim, caracterizar-se o regime como um
parlamentarismo dualista ou orleanista.
5.4.6. Vida da Constituição de 1838:
A vigência da Constituição de 1838 foi de curta duração, terminando subitamente
em 1842, com o golpe de Estado de Costa Cabral, restaurando a Carta
Constitucional.
5.5. A Constituição de 1911
5.5.1. Contexto histórico-político:
A crise da Monarquia desencadeia-se no final do século XIX, dando lugar ao
nascimento do Partido Republicano.
Vários foram os acontecimentos histórico-políticos que provocaram a decadência
do regime monárquico, destacando-se o Ultimato inglês de 1890, a crise
económica e financeira, a desagregação dos partidos monárquicos com sucessivas
divergências, a conivência régia com a repressão do “franquismo” e o regicídio em
1908.
A primeira tentativa de revolução republicana teve lugar a 31 de janeiro de 1891,
no Porto. No entanto, a implantação da República só ocorreu na sequência da
Revolução de 5 de outubro de 1910.
Com o fim do constitucionalismo monárquico, o constitucionalismo republicano
inicia-se com a eleição de uma assembleia constituinte e a consequente elaboração
da Constituição de 1911.
5.5.2. Procedimento constituinte:
Foi empregue um procedimento constituinte representativo ou indireto. A
Constituição de 1911 foi elaborada e aprovada por uma assembleia constituinte
eleita pelo povo: a Assembleia Nacional Constituinte. Esta assembleia constituinte
soberana, para além de elaborar o texto constitucional, também o aprovou a 21 de
agosto de 1911.
5.5.3. Principais influências recebidas:
As Constituições republicanas suíça e brasileira são referenciadas como as
principais fontes de inspiração do primeiro texto constitucional republicano.
Da Constituição suíça de 1891 conservou-se a impossibilidade de dissolução das
câmaras pelo Presidente da República e o referendo local. Por sua vez, da
Constituição brasileira de 1891 reteve-se a fiscalização judicial da
constitucionalidade das leis, o habeas corpus, a equiparação de direitos entre
portugueses e estrangeiros, etc.
45
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Observa-se, ainda, influências das leis constitucionais francesas de 1875.
5.5.4. Direitos fundamentais:
A nossa primeira constituição republicana possui um catálogo de direitos
fundamentais ainda muito marcado pelo individualismo liberal.
Encontra-se, por um lado, a consagração da proibição da pena de morte, do direito
de habeas corpus, da liberdade de religião e culto. Por outro lado, é instituído um
igualitarismo jurídico-político, com a consequente extinção dos títulos
nobiliárquicos.
Apesar do impulso presente no ideário republicano, constata-se uma presença
muito modesta dos direitos sociais, que foram reduzidos à obrigatoriedade e à
gratuidade do ensino primário elementar.
5.5.5. Organização do poder político
[Link]. Princípios orientadores:
1. Princípio republicano (art. 1º):
Derrubada a monarquia, a adoção do regime republicano constitui uma sequência
lógica. A legitimidade republicana baseia-se na igualdade política, na
temporariedade dos mandatos políticos e na responsabilidade de todos os cargos
políticos, na rejeição de títulos nobiliárquicos. Associados a estes valores encontra-
se, ainda, o princípio do Estado laico.
2. Princípio da soberania nacional (art. 5º):
O texto constitucional de 1911 reconhece o princípio da soberania nacional,
embora a entidade “Nação” seja cada vez menos entendida no sentido liberal-
burguês e cada vez mais num sentido democrático.
3. Princípio representativo:
A opção por um regime representativo resulta clara do primeiro texto
constitucional republicano.
4. Princípio da separação de poderes (art. 6º):
O poder legislativo acha-se atribuído ao parlamento, designado de “Congresso”.
Trata-se de um parlamento bicameral, composto pela Câmara dos Deputados e
pelo Senado, ambos eleitos diretamente.
Para além das competências legislativas, as câmaras dispunham, ainda, de outras
funções, nomeadamente funções eleitorais e o controlo político do Ministério.
O poder executivo é partilhado pelo presidente da República e pelos Ministros.
Por ultimo, o poder judicial encontra-se atribuído aos tribunais.
[Link]. Forma de Estado:
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
A Constituição de 1911 reconhece a forma de Estado republicana, vista como a
única compatível com uma conceção democrática da organização política da
sociedade.
[Link]. Apreciação genérica do sistema de governo:
Quanto à forma de governo, poder-se-á falar de um parlamentarismo atípico.
Procurou-se, assim, realizar um equilíbrio entre o parlamentarismo monista e o
parlamentarismo de assembleia.
5.5.6. Vida e revisões da Constituição de 1911:
A Constituição de 1911 passou por três períodos, delimitados pelo Golpe de Estado
de Sidónio Pais e pelo seu governo.
Com a reforma de 1918 foi prevista a eleição direta do Presidente da República,
alterando a forma de governo num sentido presidencialista. No entanto, esta
reforma foi de curta duração e em breve foi restaurada a Constituição e retornou-
se ao sufrágio indireto. Importa destacar que a Constituição foi ainda objeto de
outras revisões.
A vida política da I República foi muito atribulada, com uma grande instabilidade
governativa e numerosas manifestações de violência política.
5.6. A Constituição de 1933
5.6.1. Contexto histórico-político:
A revolução de 28 de maio de 1926 deu início a um período de Ditadura militar,
que durou até 1933.
O principal objetivo era o de pôr termo à grande instabilidade política que marcou
a I República, em especial, a frequência das crises ministeriais.
A indisciplina partidária e também parlamentar influenciou o novo regime saído da
revolução de 1926, o qual preconizava um executivo forte e a reforma dos
partidos.
Porém, a tentativa de corrigir a República deu lugar a um projeto mais ambicioso,
tendente a pôr fim à República parlamentar e a instituir um regime conservador
autoritário. Posto isto, as liberdades foram suspensas, a censura à imprensa foi
consolidada, os partidos políticos da República foram proibidos e os seus dirigentes
lançados no exílio, as ações contra a Ditadura foram severamente reprimidas.
Nesse sentido, Salazar elaborava e submetia diretamente a plebiscito nacional
aquilo que veio a ser a Constituição do Estado Novo.
5.6.2. Procedimento Constituinte:
Optou-se por um procedimento constituinte direto. Desta forma, foi criado um
Conselho Político Nacional ao qual competia apreciar os projetos de constituição
47
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
que fossem apresentados. No entanto, a sua atenção incidiu sobre o projeto de
Salazar.
Apreciado e aceito pelo referido Conselho Nacional, em seguida publicitado nos
jornais, o projeto de constituição foi submetido a uma consulta popular. De acordo
com os resultados oficiais, a maioria dos portugueses com direito de voto, aceitou
o projeto. Com a data oficial de 11 de abril de 1933, a Constituição entrou em vigor
a 23 de setembro de 1933.
5.6.3. Principais influências recebidas:
Notam-se algumas influências estrangeiras, designadamente da Constituição
imperial alemã de 1875, da Constituição de Weimar e do fascismo italiano.
Contudo, as raízes maiores desta Constituição encontram-se tanto na Carta
Constitucional de 1926, como na Constituição de 1911.
5.6.4. Direitos fundamentais:
Os direitos fundamentais foram quase todos condensados num único preceito. As
leis reguladoras encarregaram-se de eliminar alguns dos direitos mais importantes,
implementando, por outro lado, a censura prévia à imprensa, a autorização
administrativa para reuniões e manifestações, entre outras limitações.
Menção especial merecem os partidos políticos. A verdade é que a Constituição de
1933 não proibia expressamente a existência de partidos políticos. No entanto,
tendo em consideração a hostilidade do Estado Novo e Salazar relativamente aos
partidos políticos, era fácil adivinhar que a necessária autorização administrativa
para a criação de um partido não seria facilmente concebida, em favor de um
regime de partido único e de repressão da oposição. Praticamente há a registar a
existência da União Nacional e da Ação Nacional Popular como organização
oficiosa do regime.
5.6.5. Organização do poder político
[Link]. Os principais princípios orientadores:
a) Princípio da soberania nacional (art. 71.º):
De acordo com a ideologia nacionalista, a Constituição de 1933 acentuava
especialmente o princípio da soberania nacional faze ao exterior. Os elementos
estruturais da Nação incluíam, sobretudo, as famílias, as organizações sociais e os
organismos corporativos.
b) Princípio republicano:
A Constituição do Estado Novo manteve fidelidade ao princípio republicano, sendo
o chefe de Estado um presidente da República, diretamente eleito. Todavia, a
maior parte dos princípios republicanos originários foram afastados ou altamente
restringidos.
c) Princípio corporativo:
48
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Portugal era uma república corporativa o que significa que a Nação não assentava
apenas nos indivíduos, mas, também, numa série de “corpos intermédios” dos
quais se destacam a família, a Igreja e as autarquias locais, bem como os
organismos corporativos propriamente ditos.
d) Principio da separação de poderes:
O texto constitucional de 1933 não faz referência expressa ao principio da
separação de poderes, apenas mencionando a existência de órgãos de soberania.
Inicialmente, o poder legislativo foi confiado à Assembleia Nacional, concebida
como um parlamento de base eletiva. Contudo, o Governo gozava, desde o início,
da faculdade de emitir legislação quando a Assembleia não se encontrasse reunida,
ou em casos de emergência. Por este motivo, o Governo, em breve, tornou-se o
órgão legislativo quase exclusivo.
Para além de fazer as leis, a Assembleia Nacional possuía outro tipo de
competências, como fossem as de aprovar convenções internacionais, de autorizar
o Governo a cobrar as receitas do Estado e a pagar as despesas públicas, de
deliberar sobre a revisão constitucional decorridos 10 anos sobre a última revisão.
O poder executivo foi atribuído ao Governo, órgão colegial composto pelo
Presidente do Conselho e seus Ministros. O Presidente do Conselho era nomeado
livremente pelo Presidente da República e só era responsável perante ele, sendo o
Governo independente de votações da Assembleia Nacional.
[Link]. Forma de Estado:
Apesar do forte apoio dos círculos monárquicos ao Estado Novo, a forma de Estado
republicana não foi posta em causa. Mas trata-se de uma República corporativa,
fortemente intervencionista, nacionalista e autoritária, anti-individualista,
antiliberal e antiparlamentarista.
[Link]. Caracterização genérica do sistema político:
Inicialmente, o sistema de governo podia ser classificado como um
presidencialismo atípico, ou seja, como um regime próximo do sistema
presidencial, mas que apresentava algumas distorções por comparação com este
último.
Por força das sucessivas revisões constitucionais, caminhou-se, progressivamente,
para um modelo de governação que Marcello Caetano designou de
Presidencialismo de Primeiro-Ministro. Isto é, transitou-se de um regime
caracterizado, simultaneamente, pelo apagamento político do Chefe de Estado e
do parlamento e pelo protagonismo do chefe do executivo.
A degradação da posição do Presidente da República foi reforçada pela mudança
do sistema de eleição que passou a ser feita por via de um colégio eleitoral.
5.6.6. Vida e revisões da Constituição de 1933:
Na longa vigência da Constituição de 1933 podem demarcar-se várias fases:
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
a) 1933 – 1945: fase triunfante do Estado Novo e consolidação autoritária das suas
instituições;
b) 1945 – 1959: fase de estabilidade;
c) 1959 – 1969: decadência e enfraquecimento;
d) 1969 -1974: fase final do estado Novo, sob a governação de Marcello Caetano.
A Constituição de 1933 sofreu várias revisões.
Caracterizado pela excecional estabilidade, derivada do sistema autoritário, da
ausência de liberdades e da proibição dos partidos políticos, o Estado Novo não
tinha verdadeiras eleições, sempre ganhas, aliás, pelos candidatos da União
Nacional/Ação Nacional Popular.
No fundo, o Estado Novo acabou por ser essencialmente caracterizado pela longa
ditadura pessoal do Chefe do Governo.
Capítulo VI - A Constituição de 1976
6.1. Origem e influências
6.1.1. Origem e fontes:
A Constituição da República Portuguesa, de 2 de abril de 1976, começou por ser
uma criação da revolução de 25 de Abril de 1974. Ao pôr fim ao regime do Estado
Novo, a revolução pôs termo, igualmente, à vigência da Constituição que lhe serviu
de suporte e, portanto, a Constituição de 1933.
Uma nova Constituição era, na verdade, um dos objetivos primordiais da
revolução. Comprova isso, precisamente, o programa do Movimento das Forças
Armadas que desencadeou e dirigiu a ação revolucionária.
A Assembleia Constituinte veio a ser eleita um ano depois, a 25 de abril de 1975, e
a Constituição foi, efetivamente, concluída a 2 de abril de 1976, tendo entrado em
vigor a 25 de abril desse mesmo ano.
As fontes imediatas do texto originário da Constituição foram, por um lado, os
projetos apresentados à Assembleia Constituinte pelos vários partidos políticos e,
por outro lado, a segunda Plataforma de Acordo Constitucional, celebrada em
fevereiro de 1976 entre o Conselho da Revolução e os partidos representados na
Assembleia Constituinte, para substituir o acordo anteriormente realizado em abril
de 1975, que os projetos daqueles partidos incorporavam.
Mas, além das fontes imediatas, há que ter em conta as fontes mediatas, que
influenciaram tanto os projetos da Constituição e a Plataforma de Acordo
Constitucional como a discussão na Constituinte. São de mencionar os textos
constitucionais revolucionários, designadamente, o próprio programa do MFA e a
50
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Lei n.º 5/75 de 14 de maio, que institucionalizou o MFA e criou o Conselho da
Revolução; depois, os documentos e as proclamações revolucionárias, de caráter
doutrinário ou não, saídos a público especialmente no verão de 1975; finalmente,
os estudos e as propostas vindos então a lume e que influenciaram alguns dos
projetos apresentados na Assembleia Constituinte.
6.1.2. A CRP e as anteriores constituições portuguesas:
A Constituição da República Portuguesa é a sexta das constituições portuguesas e a
terceira no século XX. Mas nenhuma das precedentes constituições portuguesas
serviu de fonte principal desta Constituição.
No entanto, a Constituição insere-se, precisamente, na corrente constitucional
protagonizada pela tradição liberal-radical e democrático-revolucionária das
Constituições de 1822, 1838 e 1911, sendo numerosos os princípios e preceitos
através dos quais ela comparticipa nesse património comum.
Para além de que há na Constituição certas soluções e institutos particulares que
se podem reconduzir às constituições portuguesas anteriores. É o que acontece
nomeadamente com a proibição da pena de morte, a figura dos «crimes de
responsabilidade» dos titulares de cargos políticos, o conceito de órgãos de
soberania, a fiscalização judicial da constitucionalidade.
A influência da Constituição de 1933 é significativa e comprova-o, desde logo, a
eleição direta do Presidente da República e de alguns dos seus poderes; de
algumas soluções em matéria do estatuto dos membros do Governo; do poder
legislativo do Governo e da ratificação dos decretos-leis; de diversas designações,
como as de «autarquias locais», «direitos, liberdades e garantias».
Em todo o caso, a Constituição é certamente a mais original de todas as
constituições portuguesas e aquela que mais marcadamente rompe com a
Constituição precedente.
6.1.3. A CRP, as constituições estrangeiras e o direito internacional:
Não admira que se encontrem na Constituição várias soluções e formulações
semelhantes com constituições estrangeiras posteriores à II Guerra Mundial. É,
nomeadamente, o caso da Constituição italiana (1948) e da Lei Fundamental de
Bona (1949), no que respeita a alguns aspetos dos direitos fundamentais. É o caso
também da Constituição francesa de 1958, no que respeita a alguns traços do
sistema de governo. É o caso, ainda, de algumas constituições do antigo bloco
comunista, quanto a alguns aspetos dos direitos económicos e sociais e da
constituição económica.
Não deve esquecer-se, também, a influência de algumas declarações e convenções
internacionais, especialmente em matéria de direitos fundamentais, a começar
pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (art. 16º, n.º 2).
51
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
6.2. A transformação da CRP
6.2.1. As revisões constitucionais:
a) A primeira revisão:
A revisão constitucional de 1982 foi extensa e profunda, modificando em maior ou
menor medida boa parte do texto originário da Constituição aprovado em 1976.
Três alterações destacam-se:
1. A substancial diminuição da componente ideológico-programática que
caracterizava a versão primitiva da Constituição;
2. A eliminação do Conselho da Revolução;
3. A mudança do sistema de governo, deixando o Governo de ser responsável
perante o Presidente da República, que perdeu o poder ordinário de o demitir.
b) A segunda revisão:
A segunda revisão foi menos extensa do que a primeira, mas não menos profunda,
introduzindo alterações relevantes para um grande número de preceitos
constitucionais.
O traço mais característico da segunda revisão é a flexibilização da constituição
económica, através de numerosas alterações de natureza estrutural e conceptual,
destacando-se: a eliminação do princípio da irreversibilidade das nacionalizações,
passando a ser admitidas as privatizações; o aligeiramento das imposições
constitucionais em matéria de reforma agrária, tendo sido suprimida esta mesma
expressão e de planeamento económico, que foi esvaziado. O objetivo socialista foi
substituído pelo princípio da “economia mista”.
São, ainda, de assinalar: a eliminação de alguns dos limites materiais de revisão
formalmente previstos e a criação da figura das «leis orgânicas», com processo de
formação específico e valor normativo reforçado em relação às leis ordinárias.
c) A terceira revisão:
A revisão constitucional de 1992 foi uma revisão extraordinária e teve por objetivo
apenas as adaptações constitucionais necessárias para permitir a aprovação e
ratificação do Tratado da União Europeia ou Tratado de Maastricht, assinado a 7 de
fevereiro de 1992.
As alterações constitucionais foram quase exclusivamente as imprescindíveis para
afastar as disparidades do Tratado da União Europeia com a Constituição,
nomeadamente quanto à partilha de soberania inerente à união (art. 7º n.º 6),
quanto aos direitos eleitorais dos cidadãos comunitários residentes em Portugal
(art. 15º, n.º 6), quanto à perda de funções emissoras autónomas do Banco de
Portugal, com a prevista criação da moeda única europeia (art. 105º). Alterou-se
também a regra relativa aos intervalos da revisão constitucional (art. 284º).
d) A quarta revisão:
52
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
A revisão de 1997 foi mais reforma empreendida na Constituição.
No âmbito dos direitos fundamentais, as inovações são significativas.
A democracia participativa beneficiou de alguns ajustamentos nomeadamente,
participação dos cidadãos na convocação de referendos e de procedimentos
legislativos por intermédio de iniciativas legislativas populares, alargamento das
matérias objeto de referendo, reforço do papel dos cidadãos independentes de
partidos políticos.
Num plano político-organizatório, abriu-se caminho à reforma do sistema eleitoral
para a Assembleia da República e à diminuição do número de deputados, bem
como à reforma do sistema de governo das autarquias locais.
Finalmente, um dos mais significativos princípios republicanos, o dever de serviço
militar, deixou de ter apoio positivo-constitucional, a favor da natureza voluntária
do serviço militar.
e) A quinta revisão:
O impulso para o novo procedimento constitucional de revisão foi fornecido pela
necessidade de dar guarida a um tratado internacional: o Tratado de Roma de
1998.
A quinta revisão introduziu inovações em quatro domínios, sendo de destacar o
domínio dos direitos, liberdades e garantias, diminuindo, de certo modo, o
conteúdo garantístico de alguns direitos, como é o caso das restrições à
inviolabilidade de domicílio, da diminuição de garantias referentes à expulsão e
extradição e da expressa exclusão do direito à greve dos agentes das forças de
segurança, embora, neste último caso, se tenha positivado também o seu direito
de associação sindical.
Relevante, ainda, é a proclamação do português como língua oficial.
f) A sexta revisão:
A sexta revisão constitucional ficou marcada por três grandes alterações
constitucionais:
1. Estabeleceu-se o princípio de que o direito da União Europeia vigora na ordem
interna nos termos por ele mesmo previstos, incluindo, portanto, o efeito direto e
a primazia sobre o direito interno, o que o torna imune ao controlo da sua
constitucionalidade.
2. Alargou-se a competência legislativa das regiões autónomas, ressalvada
competência legislativa exclusiva dos órgãos de soberania.
3. Veio admitir-se expressamente a limitação dos mandatos de cargos políticos
executivos.
53
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
g) A sétima revisão:
A sétima revisão constitucional foi mais uma vez uma revisão extraordinária, destinada
a admitir o referendo direto de tratados da União Europeia (art. 295.º).
6.3. Características político-constitucionais da CRP
6.3.1. Carácter pós-revolucionário:
A Constituição nasceu de uma revolução e a ela deve muito do seu conteúdo. Além
disso, a Constituição, na sua versão originária, era, pelo seu conteúdo, uma
Constituição caracteristicamente pós-revolucionária.
Contudo, a primeira e a segunda revisões constitucionais eliminaram praticamente
todas as marcas explícitas da narratividade revolucionária.
Em todo o caso, o carácter originariamente revolucionário da Constituição
permanece gravado no preâmbulo e o seu rasto persiste em algumas
reminiscências explícitas como é o caso do art. 46.º, n.º 4 relativo à proibição de
organizações de ideologia fascista.
6.3.2. Caráter compromissório:
A Constituição surgiu como um compromisso entre as várias forças políticas que
intervieram na sua elaboração, uma plataforma de convergência entre diferentes
projetos políticos e sociais, um compromisso entre o princípio liberal e o princípio
socialista; entre os clássicos direitos de liberdade e os modernos direitos positivos
de natureza económica e social; entre a legitimidade eleitoral e a legitimidade
revolucionária; entre um sistema de governo parlamentar e a existência de um
Presidente da República diretamente eleito; entre a unidade do Estado e a
autonomia local e regional; entre a democracia representativa e de partidos e a
democracia de participação popular direta; entre a fiscalização da
constitucionalidade difusa e incidental e a fiscalização concentrada e abstrata.
Contudo, não se tratava de uma sobreposição de projetos, mas sim da sua
conjugação num projeto constitucional unitário e coerente.
As sucessivas alterações confirmaram a aprofundaram a convicção de que esta
Constituição é expressão de um contrato social sobre a organização da
comunidade, entre as diversas forças políticas, económicas, sociais e culturais
historicamente representativas e socio-politicamente renovadas.
6.4. Principais opções constitucionais da CRP:
a) Uma comunidade inclusiva:
A Constituição é, desde logo, o estatuto jurídico da comunidade política, baseada
na dignidade humana, na igualdade e na solidariedade (art. 1.º).
Respeitando a liberdade e a igualdade dos seus membros, a comunidade
representada por esta Constituição é indiferente não somente à origem, género ou
54
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
etnia das pessoas, mas também às suas opções religiosas ou outras opções de
consciência. Por outro lado, a Constituição é aberta à inclusividade social e à
integração do outro.
b) Uma república baseada na cidadania:
Optando deliberadamente pela noção de cidadania, a Constituição acentua, desde
o início, a dimensão republicana da comunidade, baseada na participação dos
cidadãos na comunidade política.
c) Uma carta abrangente de direitos fundamentais:
A reação da comunidade internacional às tragédias contemporâneas de genocídio
e racismo conduziu a uma crescente constitucionalização do direito internacional
dos direitos humanos.
d) A primazia da igualdade de direitos e da igualdade social:
A Constituição consagrou, logo no texto originário, as dimensões fundamentais do
princípio da igualdade.
e) Constitucionalização da economia e da organização social:
A Constituição optou deliberadamente pela constitucionalização da vida
económico-social, assente em três pilares:
1. Intervenção do Estado na economia;
2. Constitucionalização dos direitos específicos dos trabalhadores;
3. Constitucionalização dos direitos sociais e das correspondentes obrigações do
Estado.
f) Um Estado unitário, mas descentralizado:
A Constituição não deixa dúvidas sobre a caracterização do Estado como Estado
unitário (art. 6.º), com uma só constituição e um sistema central de “órgãos de
soberania”.
g) Uma democracia primordialmente representativa:
A opção constitucional primordial é sem dúvida a democracia representativa,
através da eleição popular dos principais órgãos do poder político.
h) Um sistema de governo de base parlamentar:
Como é um sistema de governo próprio de uma democracia parlamentar, as
eleições parlamentares (e não as eleições presidenciais) são as eleições decisivas
no sistema político, servindo não somente para eleger a Assembleia da República,
mas também para a escolha do primeiro-ministro e das respetivas opções
governativas.
i) O objetivo transformador da sociedade:
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Mesmo após as revisões constitucionais, a Constituição de 1976, continua fiel aos
paradigmas da modernidade, procurando uma melhor organização da relação
homem/mundo e das relações intersubjetivas, de acordo com um projeto de
«sociedade livre, justa e solidária» (art. 1º).
j) Parte integrante de um “constitucionalismo multinível”:
A Constituição funda e conserva a memória social e política e identifica os traços
estruturantes da existência coletiva tanto no contexto interno, como no contexto
externo, face à “constituição” da União Europeia e à constitucionalização da
coletividade internacional.
k) Estabilidade e garantia constitucional:
Outras opções decisivas da relacionam-se com o modelo de constituição
“semirrígida” e com a fiscalização judicial da constitucionalidade das normas
jurídicas. Trata-se, desta forma, de assegurar uma relativa estabilidade da
constituição e a sua primazia normativa na ordem jurídica.
6.5. Estrutura e natureza constitucional da CRP
6.5.1. Sistematização:
A sistematização da Constituição compreende uma divisão introdutória sobre a
caracterização do Estado e as opções constitucionais básicas, uma parte dogmática
abrangendo os direitos fundamentais (Parte I) e a ordem constitucional da
economia (Parte II); uma parte organizatória, dedicada à organização do Estado em
sentido lato (Parte III); uma divisão sobre o estatuto constitucional da própria
Constituição, ou seja, a fiscalização da constitucionalidade e a revisão
constitucional (Parte IV) e, por último, uma divisão de Disposições finais e
transitórias.
6.5.2. O âmbito da Constituição:
A Constituição é dos documentos constitucionais, em vigor, mais extensos, sendo,
de longe, a mais extensa das constituições portuguesas. Esta Constituição
pretendeu não deixar fora do seu âmbito nenhum aspeto constitucionalmente
relevante.
Quanto ao desenvolvimento de certas matérias, bastará referir o número de
artigos dedicados, por exemplo, às garantias criminais (arts. 27.º a 32.º), aos
direitos dos trabalhadores (arts. 53.º a 57.º e 59.º) e à política agrícola (arts. 93.º a
98.º), para mostrar como em relação a elas a Constituição não se limitou a
princípios gerais, antes desenvolveu as regras principais do respetivo regime
jurídico.
Portanto, pode, efetivamente, afirmar-se que a Constituição pretendeu consumir
todos os aspetos que considerou constitucionalmente relevantes, fazendo assim
coincidir tendencialmente a “constituição formal” com a “constituição material”.
56
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
6.5.3. A conceção constitucional da CRP
A Constituição é apenas um estatuto organizatório do Estado-instituição ou do
Estado-pessoa-coletiva; é também lei fundamental da sociedade, da coletividade
política, incluindo regras de disciplina de relações sociais.
Não é apenas um limite negativo à atividade do Estado, é também um caderno de
encargos do Estado, das suas tarefas e obrigações no sentido de satisfazer as
necessidades económicas, sociais e culturais dos cidadãos e dos grupos sociais.
Não é apenas, para os cidadãos, uma barreira de defesa perante as intromissões do
Estado; é também, em primeiro lugar, um catálogo de direitos à ação ou a
prestações do Estado; em segundo lugar, uma imposição de deveres perante o
Estado e a sociedade; e, finalmente, uma fonte direta de disciplina das relações
entre os próprios cidadãos.
6.5.4. A CRP como lei constitucional:
A Constituição é, desde logo, uma lei, revestindo a forma típica de qualquer lei.
Sendo uma lei, ela compartilha com as leis em geral um certo conjunto de
características.
Mas a Constituição é uma lei diferente das outras, é uma lei específica. Essa
especificidade está logo na forma especial da sua elaboração, através de uma
Assembleia Constituinte especialmente eleita para o efeito, e nas regras
particularmente exigentes que presidem à sua alteração, estabelecidas por ela
mesma (regras da revisão constitucional); depois, é uma lei necessária, no sentido
de que não pode ser dispensada ou revogada, mas apenas modificada; finalmente,
é uma lei hierarquicamente superior que se encontra no vértice da ordem jurídica,
à qual todas as leis, e normas jurídicas em geral, têm de submeter-se.
Capítulo VII – Os princípios fundamentais da CRP:
7. Formação e estrutura dos “princípios fundamentais”
7.1.1. Anteriores constituições portuguesas:
É comum a todas as constituições portuguesas a existência de um capítulo próprio,
normalmente introdutório que se refere expressamente aos «princípios
fundamentais».
7.1.2. Estrutura e relevância constitucional dos princípios fundamentais:
[Link]. Estrutura dos princípios fundamentais:
Os princípios fundamentais não são homogéneos quanto ao seu objeto e conteúdo,
podendo identificar-se três grupos principais:
1. O primeiro grupo é constituído pelos preceitos que definem e caracterizam
jurídico-constitucionalmente a coletividade política e o Estado em que ela se
organiza, abrangendo, especialmente, os arts. 4.º, 5.º e 6.º;
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
2. O segundo grupo é constituído pelas designadas opções políticas fundamentais
conformadoras da Constituição, que definem a identidade política de Portugal e as
opções quanto ao sistema político, económico e social, abrangendo,
nomeadamente, os arts. 1.º, 2.º e 9.º,
3. O terceiro grupo é constituído pelos preceitos que contêm princípios fundamentais
da ordem jurídico-constitucional, abrangendo normas de âmbito desigual,
designadamente os arts. 2º (princípio do Estado de direito), 3.º (princípios da
constitucionalidade e da legalidade) e 8.º (receção do direito internacional e do
direito da União Europeia na ordem interna).
As restantes normas, ou são enquadráveis, simultaneamente, nos três grupos, ou
são associáveis a um deles.
[Link]. Lugar e função constitucional:
Os princípios fundamentais visam, essencialmente, definir e caracterizar a
coletividade política e o Estado e enumerar as principais opções político-
constitucionais, daí a sua importância no contexto da Constituição.
Os princípios referidos constituem o cerne da Constituição e consubstanciam a sua
identidade intrínseca.
[Link]. Relevância jurídico-constitucional dos princípios fundamentais:
A jurisprudência constitucional, não raro, se apoia nos princípios fundamentais
como fundamento direto de juízos de inconstitucionalidade ou como elemento de
interpretação de outras normas constitucionais. É o que sucede, por exemplo, com
o princípio do Estado de direito democrático (art. 2.º).
7.2. Bases da República do Estado
7.2.1. O país, o povo, a República e o Estado:
A primeira tarefa de uma constituição é identificar a coletividade que ela
“constitui” politicamente e enunciar os seus fins e as suas tarefas. No caso da nossa
Constituição, essa dupla tarefa consta do primeiro e do último preceito dos
Princípios fundamentais (arts. 1.º e 9.º).
7.2.2. República Soberana:
Como afirma o art. 1.º da Constituição “Portugal é uma República soberana”.
O primeiro elemento na definição do Estado é, precisamente, a sua autonomia
política, que se traduz na capacidade de se dotar das suas próprias leis e de exercer
autoridade sobre os seus residentes. Para isso, o Estado necessita de instituições
políticas, assim como dos instrumentos de autoridade necessários.
O princípio da soberania popular constitui o centro do regime democrático. A
soberania emana do povo, pelo que os titulares do poder político são designados,
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
constitucionalmente, como órgãos de soberania exercendo as suas funções em
nome e por delegação do povo.
7.2.3. As bases da República:
A República portuguesa baseia-se em dois valores fundamentais, a dignidade
humana e a vontade popular (art. 1.º). A primeira fundamenta todo o elenco dos
direitos fundamentais e a segunda fundamenta o princípio democrático.
7.2.4. Território e população:
Uma coletividade política organizada em Estado é feita de um território, de uma
comunidade de pessoas nele sedeadas e de um poder político através do qual a
coletividade se exprime e se autodetermina.
a) O território:
O território é o substrato físico, espacial, do Estado, que delimita o âmbito dos seus
poderes, da autoridade das suas leis, ou seja, o âmbito da sua jurisdição (princípio
da territorialidade).
b) Cidadania portuguesa:
Nos termos da lei da nacionalidade são, automaticamente, portuguesas somente
as pessoas nascidas em território nacional, sendo filhas de pai ou mãe portugueses.
Mas, além disso são nacionais portugueses também:
1. Os filhos de pai ou mãe portugueses nascidos no estrangeiro, desde que sejam
registados como tais nos serviços competentes;
2. As pessoas nascidas no estrangeiro com, pelo menos, um ascendente de
nacionalidade portuguesa do 2.º grau na linha reta (avós);
3. As pessoas nascidas no território português, filhas de estrangeiros, se pelo menos
um dos progenitores também aqui tiver nascido e aqui tiver residência;
4. As pessoas nascidas no território português, filhos de estrangeiros que não se
encontrem ao serviço do respetivo Estado, se declararem que querem ser
portugueses e desde que, no momento do nascimento, um dos progenitores aqui
resida legalmente há pelo menos cinco anos;
5. As pessoas nascidas no território português e que não possuam outra
nacionalidade (apátridas).
Portanto, há uma clara preferência pelo critério do ius sanguinis, em que a
nacionalidade depende da nacionalidade dos progenitores ou antepassados, por
oposição ao ius soli, em que a nacionalidade depende do lugar de nascimento.
7.2.5. Os símbolos da república e do Estado:
A Constituição define, explicitamente, os símbolos nacionais que são a bandeira
nacional e o hino nacional.
59
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
7.2.6. A língua portuguesa:
A Constituição definiu o Português como língua oficial da República o que aliás não
podia deixar de ser visto não haver sequer minorias linguísticas entre nós.
7.3. Os fins da República e as tarefas do Estado:
7.3.1. Dos fins da República às tarefas do Estado:
Uma das funções das constituições é definir e delimitar as atribuições do Estado,
enquanto coletividade política organizada. Desta forma, toda a ação dos poderes
públicos carece de habilitação constitucional expressa ou implícita.
O art. 1.º da Constituição estabelece que a República portuguesa está
“empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”. Portanto, os
fins da República são a liberdade, a justiça e a solidariedade.
Os fins da República são, assim, decisivos para definir as tarefas ou atribuições do
Estado, referidas essencialmente no art. 9.º, indo desde a garantia da
independência nacional até a promoção da igualdade entre homens e mulheres.
7.3.2. Do Estado liberal ao Estado social e ao Estado regulador:
O Estado liberal é, por definição, um Estado limitado nos seus fins e atribuições,
centrados na defesa, na segurança, na ordem pública e na justiça. Estava excluída,
aqui, a ação do Estado na esfera económica e social, sendo reservado à ação
individual ou coletiva.
O Estado liberal transformou-se num “Estado intervencionista”. Do ponto de vista
económico e social. Desta forma, o Estado passou a ser o promotor das
infraestruturas essenciais da vida económica e social e o garante do crescimento
económico e do emprego, da estabilidade económica e financeira, do bem-estar
social.
Desde as últimas décadas do século passado, deu-se, porém, um movimento de
desintervenção do Estado. Se se reduziu o papel do Estado como agente
económico (empresas públicas), este foi substituído por uma forte ação na defesa
ativa da concorrência e na regulação da atividade económica privada (“Estado
regulador”); e se o Estado diminuiu a sua responsabilidade na prestação direta de
serviços essenciais, não desapareceu a sua responsabilidade de garantia do acesso
de todos aos serviços de interesse económico geral, como a água, a energia, os
transportes (“Estado garante”).
7.4. O Estado unitário e a descentralização territorial
7.4.1. Estado unitário:
Estado unitário é o contrário de Estado federal. Portugal é um Estado unitário, de
acordo com o art. 6.º da Constituição, permanecendo no Estado o poder
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
constituinte, o poder de revisão constitucional e o poder jurisdicional. Existe
apenas uma cidadania, a portuguesa.
O princípio da unidade do Estado exclui, necessariamente, a separação de qualquer
parte do país e todas as formas de fracionamento do Estado. Assim, unidade de
estado quer dizer uma única República, com uma única Constituição e órgãos de
soberania únicos para todo o território nacional.
Porém, nos termos da Constituição, o princípio da unidade do Estado coabita com
outros três princípios de natureza organizatória:
1. A autonomia política das regiões autónomas dos Açores e da Madeira (art. 6.º e
225.º n.º 2);
2. A autonomia das autarquias locais;
3. A descentralização democrática da administração pública.
7.4.2. Unidade do Estado e princípio da subsidiariedade:
O Estado é subsidiário (auxiliar) dos poderes infraestaduais. As tarefas públicas
devem ser exercidas ao nível mais próximo possível das pessoas, ou seja, não deve
pertencer ao Estado aquilo que de forma eficiente pode ser realizado a nível
regional e autárquico. Por isso, todas as atribuições do Estado, salvo aquelas que
lhe são reservadas diretamente pela Constituição (justiça, defesa, segurança, etc.),
estão sujeitas a um teste de subsidiariedade.
7.5. Os princípios políticos fundamentais da CRP
7.5.1. Objeto e critério dos princípios políticos fundamentais:
Além da definição dos elementos básicos da República e do Estado, o capítulo
introdutório da Constituição inclui os princípios políticos fundamentais. Trata-se de
princípios respeitantes à atividade do Estado.
7.5.2. O princípio republicano:
[Link]. Caracterização:
O art. 1.º da Constituição afirma que “Portugal é uma República soberana”.
Em primeiro lugar, o princípio republicano carateriza um regime sem
fundamentação “teocrática” ou “sagrada”: é um regime de cidadãos e para
cidadãos, baseado na dignidade da pessoa humana e na vontade popular (arts. 1.º
e 2.º).
Neste sentido, a República articula-se com a ideia de democracia, ao pressupor o
acesso de todos os cidadãos aos cargos públicos, e com a ideia de soberania
popular, como elemento legitimador do regime.
Por outro lado, a República transporta também dimensões político-culturais,
essencialmente reconduzíveis à democratização da formação cívica, da cultura e do
ensino.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
[Link]. Conteúdo político jurídico-constitucional do princípio republicano:
São várias as dimensões do princípio republicano.
a) Forma republicana de governo:
O princípio republicano integra a ideia de acesso de todos os cidadãos, em
igualdade, aos cargos de poder político, recusando a ideia de reserva pessoal ou
aristocrática do poder ou de privilégios de nascimento.
b) A igualdade republicana na cidadania:
Na República não há privilégios de nascimento: todos nascem iguais em direitos e
todos gozam da mesma dignidade cívica.
c) Temporariedade, limitação e renovação dos mandatos públicos:
Em terceiro lugar, o princípio republicano impõe a proibição de cargos vitalícios e a
renovação temporal do mandato de todos os cargos políticos (art. 118.º). além
disso, princípio republicano inclui também a ideia da limitação do número de
mandatos sucessivos.
d) Separação entre a esfera pública e os interesses privados:
Um dos temas fulcrais do republicanismo é a separação entre a esfera das
responsabilidades públicas e os interesses privados.
e) Responsabilidade dos titulares de cargos públicos:
A forma republicana implica o princípio da responsabilidade (civil, criminal e
política) de todos os titulares de cargos políticos (art. 117.º-1), não podendo existir
cargos dotados de imunidade.
f) Responsabilidade cívica dos cidadãos:
O republicanismo requer o envolvimento e responsabiliza os próprios cidadãos na
esfera política.
g) A simbologia republicana:
Uma componente importante do princípio constitucional republicano é a origem
republicana dos símbolos nacionais, o hino e a bandeira nacional, adotados no
seguimento da revolução republicana de 1910.
7.5.3. O princípio da independência nacional
[Link]. Dimensões do princípio:
A independência nacional é o necessário resultado externo da soberania da
República (art. 1.º).
O princípio da independência nacional compreende como dimensão principal a
garantia de Portugal como entidade política nacional e estadual própria, baseada
num determinado território (art. 5.º) e numa certa cidadania (art. 4.º), impedindo
a sua fusão com outros Estados, ou a submissão dos órgãos de soberania nacional
ao controlo ou tutela de qualquer outro Estado. Mas, inclui também a ideia de
62
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
autodeterminação, isto é, a capacidade de definir e gerir a sua organização
económica, social e política, bem como de preservar a sua identidade nacional.
[Link]. Independência nacional e cooperação internacional:
O princípio da independência nacional não significa autarcia ou isolamento
internacional; pelo contrário, é perfeitamente congruente com a cooperação
internacional com outros Estados em pé de igualdade e de vantagens mútuas.
O mais recente desenvolvimento da cooperação internacional com implicações
constitucionais foi a criação do Tribunal Penal Internacional, para o julgamento de
certos crimes graves como o genocídio, crimes de guerra, crimes contra a
humanidade.
No quadro das relações internacionais, a Constituição sublinha as relações
especiais de amizade e cooperação com os países de língua portuguesa (art. 7.º,
n.º 4), de que é expressão a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
7.5.4. O princípio democrático:
[Link]. Expressão constitucional do princípio democrático:
A República Portuguesa baseia-se na vontade popular de acordo com o art. 1.º;
Portugal é um Estado de direito democrático baseado na soberania popular, refere
o art. 2.º; a soberania reside no povo, nos termos do art. 3.º; é tarefa fundamental
do Estado garantir o respeito do Estado de direito democrático e defender a
democracia política, ao abrigo do art. 9.º; o sufrágio é a base da designação do
poder político, referido no art. 10.º, n.º 1; a democracia constitui um pressuposto
e um limite da atividade dos partidos, de acordo com o art. 10.º, n.º 2; o poder
político pertence ao povo, de acordo com o art. 108.º; o sistema democrático
compreende a participação direta e ativa dos cidadãos na vida política, como
refere o art. 109.º.
[Link]. Elementos constitutivos do princípio democrático:
O princípio democrático compreende diversas dimensões:
a) Soberania popular:
A autoridade política só pode derivar do próprio povo e não de elementos fora do
povo (ordem divina, ordem natural, ordem hereditária). O povo é, ele mesmo, o
titular da soberania ou do poder.
b) Sufrágio universal, igual, direto, secreto e periódico:
A soberania popular exerce-se através da vontade popular que, por sua vez, se
exprime, essencialmente, pelo voto dos cidadãos, em eleições e referendos. O
sufrágio é universal, igual, direto, secreto e periódico (arts. 10.º-1, 49.º-1, 113.º1).
c) A representação proporcional:
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
A representação proporcional requer um sistema eleitoral proporcional, repartindo
os lugares em disputa pelas forças políticas concorrentes, consoante o seu peso
eleitoral.
d) O pluralismo político e direito de oposição:
A democracia constitucional é uma democracia pluralista ou pluripartidária,
baseada na competição política entre diferentes propostas de governação, na
“contestabilidade” das eleições, no direito de oposição.
e) Os partidos políticos:
Na democracia constitucional da Constituição, os partidos políticos são os
principais protagonistas políticos. Se são os cidadãos que decidem as eleições e os
referendos, são os partidos que mobilizam os cidadãos, animam o debate político,
organizam as campanhas eleitorais e referendárias, apresentam candidatos às
eleições e, no fim, assumem os encargos do governo.
f) A responsabilidade política:
Não existe democracia sem controlo do poder político. Por isso, a Constituição
sublinha a responsabilidade política, bem como a responsabilidade disciplinar,
penal e civil, dos titulares de cargos públicos e regula, especialmente, o controlo da
Assembleia da República sobre o Governo.
[Link]. As três dimensões do princípio democrático:
a) Democracia representativa:
A democracia constitucional da Constituição é, essencialmente, uma democracia
representativa.
A democracia representativa é caracterizada pelo facto de o poder político não ser
exercido diretamente pelo próprio titular da soberania, o povo, como na
democracia direta, mas sim por órgãos representativos eleitos, nomeadamente
uma assembleia representativa (arts. 108.º e 110.º).
Num Estado democrático, o exercício do poder político assenta em duas formas
essenciais: as eleições e os referendos (art. 10.º n.º 1). Pelas eleições, os cidadãos
escolhem os titulares dos órgãos do poder, nomeadamente das assembleias
representativas, a começar pelo parlamento nacional. Pelo referendo, os cidadãos
decidem, ou pelo menos tomam posição, eles mesmos, diretamente, sobre
determinadas questões, em vez dos órgãos representativos.
As eleições são a principal expressão da democracia representativa. O número de
órgãos eleitos pode variar, podendo limitar-se aos órgãos deliberativos ou ampliar-
se a outros órgãos, como sucede entre nós em relação ao Presidente da República
(art. 121.º) e pode suceder com os órgãos executivos do poder local (art. 239.º n.º
3). A democracia representativa é, antes de mais, uma democracia eleitoral,
através de eleições livres e periódicas por sufrágio universal, secreto, igual e direto.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
b) Democracia semidireta:
A democracia semidireta existe como complemento da democracia representativa
(mas não é uma democracia direta), permitindo aos titulares da soberania uma
intervenção direta em determinadas decisões políticas.
Os seus instrumentos são o referendo, a iniciativa legislativa popular e a iniciativa
popular do referendo, assim como a revogação dos mandatos representativos
mediante votação popular.
a) A iniciativa legislativa popular consiste na faculdade de um determinado número
de cidadãos poder apresentar à assembleia legislativa propostas de lei.
b) A iniciativa popular do referendo consiste na faculdade de um determinado
número de cidadãos poder fazer convocar um referendo, por exemplo, para efeitos
de revogação de uma lei acabada de aprovar ou para efeitos de aprovação de uma
lei nova ou outra decisão política.
c) A revogação de mandatos (ou recall) consiste na faculdade reconhecida aos
cidadãos eleitores de, por iniciativa de um certo número deles ou por iniciativa
oficial, serem chamados a decidir a cessação do mandato de um certo titular
eletivo (um deputado, o presidente da república) antes do termo desse mandato.
Trata-se, portanto, de uma destituição popular de titulares de mandatos eletivos,
tratando-se numa forma de responsabilidade política direta perante os cidadãos.
d) Democracia participativa:
A democracia participativa consiste na participação dos cidadãos ou de
organizações sociais (sindicatos, associações profissionais, etc.) nos procedimentos
e na tomada de decisões dos órgãos do poder político através de petições,
representações e abaixo-assinados, da participação em consultas populares sobre
propostas legislativas ou outras decisões políticas, na preparação e recolha de
assinaturas para propostas de legislação ou de referendos.
Trata-se de um complemento “informal” da democracia representativa
(“democracia eleitoral”) e da democracia semidireta (referendos). Ao contrário
destas, é uma “democracia de pressão” ou “de influência”, sem poderes decisórios.
O que distingue a democracia participativa da democracia eletiva (representativa)
e de democracia referendária (em que os cidadãos decidem eles mesmos questões
políticas) é o facto de ela consistir em proporcionar uma intervenção nos
procedimentos e nos órgãos de decisão.
[Link]. Características da democracia constitucional:
A democracia constitucional da CRP apresenta três traços essenciais: democracia
pluriforme, democracia em vários níveis e democracia parlamentar.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
a) Democracia pluriforme:
A democracia constitucional é, essencialmente, uma democracia representativa,
tanto a nível nacional como a nível regional ou local. O povo governa por meio de
eleições e por meio de representantes eleitos. São as eleições que escolhem os
decisores políticos e as respetivas opções políticas. Todavia, a democracia
representativa surge “modificada” por meio da democracia participativa e do
referendo.
b) Democracia multinível:
Em correspondência com a repartição do poder político em vários níveis (poder
local, poder regional, poder nacional, poder da União Europeia), também as
instituições e os mecanismos democráticos se repetem em todos esses níveis.
Assim, há eleições locais, eleições regionais, eleições nacionais e eleições
europeias; e, inclusive, pode haver referendos locais, referendos regionais e
referendos nacionais, contudo, os Tratados da União Europeia não preveem
referendos europeus.
c) Democracia parlamentar:
A democracia constitucional obedece, essencialmente, aos cânones da democracia
parlamentar, pelo menos ao nível nacional e das regiões autónomas. As eleições
para os órgãos representativos e, portanto, os parlamentos, são as eleições
decisivas, não somente na escolha dos respetivos deputados, mas também na
escolha do chefe do executivo e das opções políticas deste.
Num sentido amplo, a democracia parlamentar ou representativa é caracterizada
pelo facto de o poder político não ser exercido diretamente pelo povo (democracia
direta), mas sim por órgãos representativos eleitos, nomeadamente por uma
assembleia representativa.
Numa democracia parlamentar, a principal forma de expressão e intervenção
política são as eleições para os órgãos representativos, os parlamentos. A
democracia parlamentar ou representativa é, antes de mais, uma democracia
eleitoral, concretizada através de eleições livres e periódicas por sufrágio universal,
secreto, igual e direto.
Num outro sentido mais estrito, democracia parlamentar é a democracia
representativa dotada de um sistema de governo parlamentar, em que o poder
executivo incumbe a um governo que resulta das eleições parlamentares e é
responsável politicamente perante o Parlamento
7.5.5. O princípio do Estado de direito:
[Link]. Definição e alcance:
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
O princípio do Estado de direito democrático ocupa um lugar de grande relevo
entre os princípios fundamentais da Constituição. Mencionado no preâmbulo da
Constituição, é definido no art. 2.º.
O Estado de direito tem uma dimensão formal: separação de poderes, princípio da
legalidade, independência dos tribunais, direito de acesso aos tribunais, etc.; uma
dimensão material, que consiste nos mecanismos fundamentais da segurança das
pessoas contra o poder: direitos fundamentais, due process (devido processo
legal), reparação dos prejuízos causados pela ação pública ilegítima, etc..
O princípio do Estado de Direito significa a submissão do Estado ao Direito, isto é,
limitação jurídica do poder público segundo um conjunto de regras que se impõe
externamente ao próprio Estado. Este princípio tem uma aplicação, tanto a nível
do Estado-Poder, limitando a sua atuação, como do Estado-Sociedade, garantindo
direitos fundamentais.
Pressupõe a existência de uma Constituição, correspondente à lei fundamental do
Estado, na medida em que o Estado de Direito é um Estado constitucionalmente
conformado. Inclui, também, a submissão do poder executivo às leis, de acordo
com a separação de poderes. O Governo e a administração só podem atuar se
habilitados pela lei e nos termos da lei (princípio da legalidade).
O Estado de direito é, por último, um Estado de direitos fundamentais. A
Constituição garante a efetivação dos direitos e liberdades fundamentais do
Homem, na sua qualidade de pessoa, cidadão e trabalhador.
[Link]. Dimensões concretizadoras do Estado de direito:
a) O principio da separação de poderes:
A separação de poderes é o primeiro componente do princípio do Estado de
direito, enquanto fator de limitação do poder, de subordinação do poder executivo
à lei e de independência dos tribunais, impedindo a concentração de todas as
funções do Estado (legislar, governar, julgar) num único órgão ou em órgãos
submetidos a um único comando.
b) O principio do Estado constitucional:
A primeira dimensão do Estado de direito é o princípio da constitucionalidade das
formas de organização e ação do poder político.
O “direito” do Estado de direito é, antes de mais, o direito constitucional. Daqui
resulta, essencialmente, a necessidade da fiscalização da constitucionalidade das
67
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
normas infraconstitucionais, impedindo que a Lei Fundamental seja por elas
contrariada.
c) O principio da legalidade da administração:
Toda a atividade administrativa deve ter atrás de si uma lei habilitante, que pode
vincular mais ou menos intensamente a liberdade de ação administrativa.
d) A independência dos tribunais:
Fazendo valer a constitucionalidade e a legalidade da ação do poder público, bem
como protegendo os direitos fundamentais contra a intrusão abusiva daquele, os
tribunais são a principal garantia do Estado de direito.
e) Proibição de crimes e de sanções sem base legal:
Uma das grandes conquistas da modernidade foi a ideia de que ninguém pode ser
condenado criminalmente nem punido por penas que não estejam prevista na lei
nem por factos que não eram crime no momento da sua prática ou punido com
penas superiores às previstas no momento da prática de algum crime. Na CRP
estão explicitamente consagrados no art. 29.º.
f) Proibição de expropriações arbitrários ou sem indeminização.
g) O principio da proporcionalidade:
O princípio da proporcionalidade ou princípio da proibição do excesso é outro dos
princípios intrínsecos do princípio do Estado de direito. É um princípio fundamental
nas situações de exceção constitucional, ou seja, nos casos de declaração de
estado de sítio ou estado de emergência (art. 19.º). Em segundo lugar, assume
particular relevância na limitação das restrições de direitos, liberdades e garantias
(arts. 18.º, n.º 2 e 270.º). Em terceiro lugar, está consagrado, na sua dimensão
originária, como um princípio básico das medidas de polícia (art. 272.º, n.º 2).
h) O principio da proteção da confiança:
Sem expressão textual na Constituição, o princípio da proteção da confiança é um
desenvolvimento doutrinal e jurisprudencial do princípio do Estado de direito,
destinado a proteger os “direitos adquiridos” e as expectativas fundadas dos
cidadãos contra medidas lesivas posteriores dos poderes públicos.
i) O principio da segurança jurídica:
Embora não se detete na Constituição uma consagração inequívoca do princípio da
segurança jurídica, ele emerge em várias normas constitucionais, como, por
exemplo, as normas relativas à não retroatividade das leis penais e das leis fiscais,
e, em geral, das leis restritivas dos direitos, liberdades e garantias, bem como
relativas à intangibilidade do caso julgado.
j) Procedimentação das decisões públicas:
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Uma das dimensões hoje mais sublinhadas do Estado de direito é a exigência de
procedimentalização das ações públicas, de modo que elas não sejam tomadas
precipitadamente nem sob forma sigilosa, mas antes de forma ponderada e
transparente. Tão importante como assegurar a eletividade dos órgãos do poder é
obrigá-los a seguir a tramitação dos procedimentos estabelecidos.
k) O acesso à justiça e as garantias processuais:
O princípio do Estado de direito requer a garantia de acesso de todos ao direito e
aos tribunais para defender os direitos e interesses legítimos lesados, assim como
garantias de um procedimento justo e adequado perante os tribunais, que a
Constituição prevê em vários preceitos.
l) A responsabilidade do Estado pelos danos causados aos particulares:
A responsabilidade civil do Estado e demais entidades públicas está hoje
consagrada no art. 22º da Constituição.
[Link]. Principio do Estado de Direito e princípio democrático:
O Estado de direito só o é verdadeiramente enquanto legitimado e fundado em leis
democraticamente fundadas. Sem democracia, o Estado de direito não passa de
um “Estado legal”, como sucedeu durante Estado Novo em Portugal. Por sua vez, o
Estado democrático só o é genuinamente enquanto a sua organização e
funcionamento assentam no direito e não na prepotência. Assim, por exemplo, por
mais democrático que seja o referendo como método de decisão popular direta,
ele só pode ter lugar nos casos e termos estabelecidos na Constituição. E por mais
fundado que esteja numa maioria democrática, o poder arbitrário e imperativo é
caracterizadamente contrário ao princípio do Estado de direito.
7.5.6. Principio da proteção dos direitos fundamentais
[Link]. Centralidade dos direitos fundamentais na CRP:
Historicamente, o constitucionalismo começou pelo reconhecimento dos direitos
humanos. E, desde então, os direitos fundamentais nunca deixaram de constituir a
base do constitucionalismo liberal. No seculo XX, os direitos de liberdade
originários foram completados pelos direitos económicos, sociais e culturais.
7.5.7. O principio do Estado social:
A Constituição, no seu art. 2.º, define como objetivo do Estado de direito
democrático português a “realização da democracia económica, social e cultural”,
e considera como uma das tarefas fundamentais do Estado promover o bem-estar
e a qualidade de vida do povo e a igualdade entre os portugueses, assim como a
efetivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a
modernização das estruturas económicas e sociais (art. 9.º).
O Estado social é, no fundo, uma extensão do Estado de direito democrático à
organização económica, social e cultural e em particular ao mundo do trabalho,
bem como a expressão das obrigações do Estado para realizar os direitos sociais.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
[Link]. Significado jurídico-constitucional:
Sob o ponto de vista jurídico-constitucional, a consagração do princípio da
democracia económica, social e cultural envolve várias refrações: constitui uma
imposição constitucional, no sentido de desenvolverem atividades conformadoras
e transformadoras no domínio económico, social e cultural, de modo a evoluir-se
para uma sociedade democrática cada vez mais conforme aos objetivos da
democracia social; representa uma autorização constitucional, no sentido de o
legislador democrático e os outros órgãos encarregados da concretização político-
constitucional adotarem medidas necessárias para a evolução da ordem
constitucional, sob a ótica de uma justiça constitucional nas vestes de uma justiça
social; implica a proteção contra o retrocesso social infundado, restringindo a
liberdade de conformação do legislador quanto à diminuição dos direitos sociais já
assegurados por lei, em violação do princípio de proteção da confiança e da
segurança dos cidadãos no âmbito económico, social e cultural; perfila-se como
elemento de interpretação, obrigando o legislador, a Administração e os tribunais a
considerá-lo como elemento vinculado da interpretação das normas dentro do
“espírito” do princípio da democracia económica, social e cultural; impõe-se como
fundamento de pretensões jurídicas dos cidadãos, pelo menos nos casos de defesa
das condições mínimas de existência; serve de princípio diretivo de organização do
poder público, impedindo que a adoção de formas privadas de administração de
prestações estrinja o princípio da universalidade do acesso aos bens públicos.
7.5.8. O princípio da laicidade:
Laicidade significa Estado laico, ou seja, o Estado onde não existe religião oficial, o
Estado é neutro em matéria religiosa e existe separação entre o Estado e as igrejas.
Os principais efeitos lógico-materiais da laicidade do Estado surgem moldados
inequivocamente na Constituição, não somente no princípio fundamental da
separação entre o Estado e as igrejas (art. 41.º, n.º 4), mas também na não
confessionalidade do ensino público (art. 43.º, n.º 3) ou na proibição de beneficiar
ou prejudicar alguém por causa das suas convicções ou das suas crenças ou
práticas religiosas, ou falta delas (art. 41.º, n.º 2).
A laicidade do Estado não tem a ver somente com a autonomia e neutralidade do
Estado face às religiões, mas sim em relação a qualquer sistema de mundividências
de natureza filosófica ou ideológica, ou seja (visão do mundo).
A propósito da liberdade de educação, o Estado laico é aquele que não pode
planear a educação e cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas,
políticas, ideológicas ou religiosas. A laicidade do Estado é tanto uma garantia
básica da liberdade religiosa como da própria liberdade de consciência na medida
em que impede a existência de posições oficiais em matéria de religião ou de
convicções filosóficas, ideológicas ou doutrinárias.
70
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Assim sendo, as dimensões do princípio da laicidade prendem-se com a não
identificação do Estado com nenhuma religião, com a liberdade e igualdade
religiosa, com a separação e neutralidade do Estado perante as Igrejas e com a não
confessionalidade do ensino público.
7.5.9. O princípio da economia mista:
A ordem económica ocupa um grande espaço e tem um grande relevo na
Constituição. Toda a II parte da Lei fundamental é dedicada à organização
económica e nada menos do que dois limites materiais de revisão referem-se à
economia.
A ordem económica constitucionalmente plasmada é triplamente mista: n
coabitação entre a propriedade e a iniciativa privada e a propriedade e iniciativa
pública, sem esquecer o setor social; na articulação entre o mercado e o
planeamento público; na dialética entre eficiência económica e objetivos
extraeconómicos, designadamente a justiça social.
Na sua configuração atual, decorrente das várias revisões constitucionais, a
constituição económica da Constituição é, em geral, plenamente compatível com a
constituição económica da União Europeia.
Capítulo X – Organização do poder político:
8. Princípios gerais:
8.1.1. O Estado e as demais coletividades territoriais:
A organização do poder político prevista na Constituição estrutura-se em três níveis
correspondentes a outros tantos âmbitos territoriais: o âmbito nacional, o âmbito
regional (regiões autónomas) e o âmbito local. Se se acrescentar a União Europeia
tem-se quatro níveis territoriais de organização do poder político.
O Estado já não é a única instância territorial de organização do poder, mas
continua a ocupar uma posição central. Em certo sentido, só o Estado é uma
entidade soberana.
8.1.2. Os órgãos do poder político:
[Link]. A separação entre Assembleia representativa e órgão executivo:
Uma das características do Estado de direito é a separação dos poderes, e isso
implica a distribuição de funções entre vários órgãos. O principal traço comum
entre todas as entidades territoriais é a separação entre uma assembleia
representativa com funções deliberativas, tendo, entre outras, competências
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
normativas nomeadamente legislativas e regulamentares, e um órgão executivo,
com funções de governo.
[Link]. Tipos de órgãos:
a) Órgãos principais e órgãos complementares ou auxiliares:
Os primeiros são aqueles que participam na formação e na execução da vontade
das respetivas entidades territoriais. Os segundos são os que têm funções
auxiliares. Assim, no caso do Estado, são órgãos principais os órgãos de soberania.
Entre os órgãos auxiliares contam-se, por exemplo, o Conselho de Estado e o
Conselho Económico e Social.
b) Órgãos políticos e órgãos jurisdicionais:
Uma distinção essencial é a que se estabelece entre os órgãos que definem e
executam a vontade política da respetiva entidade territorial, e os órgãos
jurisdicionais, que são os tribunais, órgãos independentes, a quem compete
controlar esses órgãos políticos.
c) Órgãos independentes e órgãos dependentes ou subordinados:
São órgãos independentes aqueles que gozam de autodeterminação, sem
subordinação a outros. É o caso dos órgãos representativos e dos órgãos
jurisdicionais.
Órgãos dependentes são os que estão subordinados aos órgãos representativos,
por serem por eles designados ou por responderem politicamente perante eles. Tal
é o caso em geral dos órgãos executivos.
d) Órgãos eletivos e órgãos não eletivos:
Nos órgãos eletivos, a regra é a eleição por sufrágio direto, secreto e periódico. São
os órgãos diretamente representativos, onde se incluem o Presidente da República,
a Assembleia da República e as assembleias das regiões autónomas e as das
autarquias locais.
Os titulares ou membros dos demais órgãos são, em geral, eleitos ou designados
pelos órgãos representativos.
e) Órgãos uninominais e órgãos colegiais:
Órgãos singulares ou uninominais são compostos por um único titular.
Órgãos colegiais são compostos por vários titulares. Só podem decidir mediante a
presença de mais de metade dos seus membros, quorum deliberativo. Em geral,
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
decidem por maioria simples, mas existem diversas maiorias qualificadas ou
agravadas.
f) Órgãos simples e órgãos complexos:
Os órgãos complexos são formados por uma pluralidade de órgãos. É o que se
passa, por exemplo, com a Assembleia da República que compreende o plenário, o
presidente e a mesa, a comissão permanente, as comissões parlamentares.
Os órgãos simples, como o Presidente da República ou o Provedor de Justiça, são
compostos por um só titular ou colégio.
g) Órgãos deliberativos, executivos, consultivos:
Órgãos deliberativos são os que produzem atos de natureza obrigatória.
Órgãos executivos atuam mediante as decisões dos órgãos deliberativos.
Órgãos consultivos atuam a título consultivo, emitindo pareceres ou
recomendações.
8.1.3. Os titulares e os membros dos órgãos:
Os princípios constitucionais respeitantes aos titulares dos cargos políticos são os
seguintes: a temporalidade no exercício do mandato, a incompatibilidade com as
posições suscetíveis de lesar o desempenho do cargo, a responsabilidade.
a) Limitação temporal dos mandatos:
A duração e limitação dos mandatos públicos é um efeito do princípio republicano
exposto no art. 1º da Constituição. Assim, o princípio republicano impõe a
proibição de cargos vitalícios e a renovação temporal do mandato de todos os
cargos políticos, ao abrigo do art.º 118. Além da temporariedade dos cargos
públicos, o princípio republicano inclui também a ideia da limitação do número de
mandatos sucessivos, a começar pelo Presidente da República, cujo mandato só
pode ser renovado uma vez, sem excluir outros titulares de órgãos executivos. No
entanto, a Constituição não prevê explicitamente a limitação de outros mandatos
públicos, incluindo mandatos legislativos (deputados). Resta saber se o princípio
republicano em si mesmo não constitui base suficiente para o seu estabelecimento
por via de lei.
b) Incompatibilidades:
A generalidade dos titulares de cargos políticos estão sujeitos a incompatibilidades
mais ou menos extensas, que os impedem de exercer outros cargos ou certas
profissões ou atividades consideradas lesivas para a imparcialidade ou isenção no
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
desempenho do cargo, quer durante o exercício deste quer depois do seu termo.
No caso dos juízes, é a Constituição que estabelece diretamente a
incompatibilidade genérica com outros cargos ou atividades, de acordo com o art.
216.º, n.º 3.
c) Obrigações de transparência:
Embora sem menção explícita na Constituição, mas com autorização constitucional
no art. 117º, n.º 2, os titulares de cargos políticos e de outros altos cargos públicos
estão sujeitos a obrigações de transparência quanto aos seus interesses
económicos e profissionais e quanto ao seu património e rendimentos.
d) Responsabilidade:
Os titulares de cargos políticos respondem pelo exercício do cargo sob o ponto de
vista da responsabilidade civil, criminal e política, de acordo com o art. 117.º, n.º 1,
e também quanto à responsabilidade financeira, ao abrigo do art. 215º, n.º 1.
e) Casos de irresponsabilidade e imunidades:
Vários dos titulares de cargos políticos gozam de algum tipo de imunidades. Isso
pode consistir numa verdadeira irresponsabilidade ou na proteção contra a
perseguição penal, não podendo ser presos ou julgados sem autorização do órgão
competente. Noutros casos ainda, pode consistir no adiamento da prestação de
responsabilidade penal ou em regras especiais quanto ao órgão e ao
procedimento.
f) Direitos:
Os titulares de cargos públicos não são trabalhadores em sentido próprio, visto que
não existe uma relação de trabalho assalariada, nem estão sujeitos a ordens ou
instruções do empregador. Pela mesma razão, também não são funcionários
públicos. No entanto, estando ao serviço do Estado os titulares de cargos públicos
gozam de alguns dos direitos próprios dos funcionários, como o direito à
remuneração.
8.1.4. Atribuições e competências:
Não se deve confundir atribuições com competências, embora, por vezes, se utilize
o termo “competências” em sentido genérico para designar também as
atribuições. Aquelas pertencem às entidades, estas aos respetivos órgãos.
Em certos casos, a Constituição enuncia, em bloco, as competências ou poderes
conferidos à entidade para desempenhar as suas atribuições, procedendo só
depois à sua repartição pelos vários órgãos da mesma entidade. É o caso das
regiões autónomas.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
As competências servem as atribuições. Os órgãos só podem usar as suas
competências para desempenho das atribuições da respetiva entidade. Chama-se a
isso princípio da especialidade. Usar poderes de um órgão fora das atribuições do
respetivo ente traduz-se num “desvio de poder” que não é uma figura exclusiva do
direito administrativo.
A repartição e articulação de competências entre os vários órgãos da mesma
entidade constituem o cerne da separação dos poderes: cada órgão com poderes
específicos. A prática de atos fora dos poderes do respetivo órgão gera a
incompetência, levando a invalidade do ato em causa.
8.1.5. Funções e atos constitucionais:
[Link]. Funções constitucionais:
Os órgãos constitucionais exercem funções constitucionais e praticam atos
constitucionais. Quanto às primeiras, existem muitas tipologias acerca das funções
do Estado e, por extensão, das demais entidades territoriais do poder político. A
mais antiga e a mais corrente é a que distingue três funções do Estrado: a
elaboração das leis (função legislativa), a execução das leis (função executiva) e a
imposição das leis (função judicial).
É esta tripartição de funções que está na base da clássica teoria da separação de
poderes de Montesquieu, que ainda, hoje, é dominante nas repúblicas
presidencialistas. Todavia, com o tempo tem vindo a prevalecer a ideia de que o
Governo não tem somente a função “derivada” de execução das leis do
parlamento, cabendo-lhe antes a definição das opções políticas e das políticas
públicas, portanto função política em sentido estrito. O elenco das funções do
Estado seria, então, quadripartido e não tripartido.
[Link]. Atos constitucionais:
Os atos políticos, em sentido próprio, são os atos singulares dos órgãos de poder
político, praticados ao abrigo da Constituição no exercício de funções políticas.
Os atos legislativos são os atos dos órgãos que estabelecem normas “primárias”.
Os atos regulamentares são os atos normativos infralegislativos.
Os atos administrativos são os atos individuais e concretos praticados pela
Administração.
Os atos judiciais são os atos dos tribunais no exercício de funções judiciais,
nomeadamente as sentenças que resolvem os litígios submetidos a julgamento.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
8.1.6. As principais manifestações constitucionais da vontade popular
[Link]. As eleições:
Num Estado democrático, o exercício do poder político assenta na vontade popular
e esta assume duas formas essenciais: as eleições e os referendos (CRP, art. 10.º-
1). Pelas eleições, os cidadãos escolhem os titulares dos órgãos do poder,
nomeadamente das assembleias representativas, a começar pelo parlamento
nacional. Pelo referendo, os cidadãos decidem eles mesmos, diretamente, certas
questões, em vez dos órgãos representativos.
8.2. Os órgãos de soberania e a organização política do Estado
8.2.1. A repartição das funções entre os órgãos de soberania:
De acordo com a Constituição, os órgãos superiores do Estado central designam-se
órgãos de soberania, por serem os titulares da soberania nacional. Nos termos do
art. 110.º, os órgãos de soberania são o Presidente da Republica, a Assembleia da
República, o Governo e os tribunais.
8.2.2. O sistema de governo
[Link]. Originalidade do sistema:
Características de presidencialismo:
O Presidente da República é eleito por sufrágio direto e universal.
O direito de veto (136º).
A liberdade de nomeação do primeiro-ministro, embora tendo em conta os
resultados das eleições parlamentares, que a Assembleia da República só pode
rejeitar por maioria absoluta.
Poder autónomo de dissolução parlamentar, embora temporalmente limitado.
Poder de veto na nomeação de um conjunto de altos cargos públicos propostos
pelo Governo
Características de parlamentarismo:
Respeito do Presidente da República pela autonomia do Governo.
Nomeação como primeiro-ministro do líder do partido mais votado nas eleições
parlamentares, mesmo com simples maioria relativa (governo minoritário).
Restrição da dissolução parlamentar às situações de crise política (demissão do
governo).
Progressiva transformação das eleições parlamentares em eleições decisivas para a
escolha do Governo
Estruturalmente, o sistema de governo português é, hoje, um sistema de índole
essencialmente parlamentar, em que o Presidente da Republica não compartilha
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
da função executiva nem da atividade governamental, cabendo-lhe antes um papel
de defesa da Constituição e de regulador e moderador do sistema político.
8.3. O Presidente da República:
O Presidente da República é, no nosso ordenamento jurídico, o Chefe de Estado.
Nos termos do art. 120.º da Constituição, “o Presidente da República representa a
República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o
regular funcionamento das instituições democráticas e é, por inerência,
Comandante Supremo das Formas Armadas”.
Desta forma, o Presidente desenvolve uma função essencial no nosso sistema
político, sendo ele o responsável pelo estabelecimento do equilíbrio entre os
restantes órgãos políticos do Estado e, consequentemente, pela garantia do
regular funcionamento das instituições.
O Presidente da República é eleito por sufrágio universal, gozando, por esse
motivo, de legitimidade democrática direta. A capacidade eleitoral ativa nestas
eleições é conferida a todos os cidadãos portugueses.
Ao cargo de Presidente da República podem candidatar-se todos os cidadãos,
desde que sejam portugueses de origem e que tenham mais de 35 anos, de acordo
com o art. 122.º.
As candidaturas são pessoais, o que significa que os partidos políticos não
assumem, nestas eleições, nenhum peso significativo ao contrário do que sucede
nas eleições parlamentares.
Além disto, apenas se exige que cada candidatura seja subscrita por um mínimo de
7500 cidadãos eleitores e um máximo de 15.000. O sistema eleitoral escolhido para
estas eleições é o sistema de maioria absoluta dos votos validamente expressos, o
que exclui os votos nulos, por serem inválidos, e os votos brancos, por não serem
expressos. Desse modo só é eleito o candidato que tenha mais votos do que os
demais candidatos somados. Quando nenhum dos candidatos obtiver a maioria
absoluta há uma segunda volta da votação, no prazo de três semanas, entre os dois
candidatos mais votados na primeira.
Relativamente ao mandato do Presidente da República tem a duração de cinco
anos sendo superior à da legislatura parlamentar que é de 4 anos. No entanto, o
mandato pode terminar antes dos cinco anos, por morte, incapacitação
permanente ou renúncia, bem como pela perda do cargo, em caso de ausência do
território nacional sem autorização ou de destituição em caso de condenação
penal por crime praticado no exercício de funções.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Para evitar a recondução sucessiva da mesma pessoa no cargo, a Constituição,
impede a recandidatura de quem já tenha feito dois mandatos consecutivos.
O Presidente não goza de imunidades penais. Porém, por crimes praticados fora do
exercício de funções só responde depois de terminado o mandato. Por crimes
praticados no exercício de funções, responde perante o Supremo Tribunal de
Justiça, sob acusação da Assembleia da República, em deliberação aprovada por
2/3 dos deputados, por iniciativa de um quinto dos deputados. De realçar que em
Portugal não existe a figura do impeachment.
8.4. A Assembleia da República:
Uma democracia representativa assenta na existência de uma assembleia,
igualmente, representativa.
A Assembleia da República (o Parlamento) é constitucionalmente definida como a
“assembleia representativa de todos os cidadãos portugueses”, de acordo com o
art. 147.º da Constituição.
São, essencialmente, duas as suas funções. Por um lado, é o órgão legislativo por
excelência; por outro, desempenha relevantes funções na formação do Governo e
na fiscalização política da sua atividade.
A Assembleia da Republica é composta por 180 a 230 deputados. O número efetivo
é definido por lei, aprovado por maioria de 2/3. Importa sublinhar que quanto
maior o número de deputados, maior representação, quanto mais baixo, menor
representação.
Os deputados são eleitos por sufrágio direito universal de todos os cidadãos
portugueses. Realçando que todos os cidadãos portugueses podem ser eleitos
deputados independentemente da idade e da nacionalidade originária.
Cada legislatura dur,a em princípio, quatro anos, de acordo com o art. 171.º.
Contudo, essa duração pode ser encurtada por efeito de dissolução ou pode ser
ampliada no caso de eleições por efeito de dissolução.
Podendo a Assembleia da República ser dissolvida pelo Presidente da República
desde que sejam respeitados os limites temporais previstos no art. 172.º.
A Assembleia da República é um órgão colegial, que integra vários protagonistas
parlamentares e que compreende no seu seio vários órgãos, sendo, portanto, um
órgão complexo. Importa distinguir os atores parlamentares, designadamente, os
deputados e os grupos parlamentares, os órgãos parlamentares, nomeadamente o
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
plenário, comissões parlamentares e Comissão Permanente, e a direção da
Assembleia da República, composta pelo Presidente e mesa.
a) Grupos parlamentares:
É de realçar os grupos parlamentares que correspondem à expressão parlamentar
coletiva dos partidos com representação parlamentar. Embora sendo de criação
voluntária, é imprescindível a sua criação para potenciar a intervenção parlamentar
de cada partido, visto que há poderes que estão reservados aos grupos
parlamentares. Os grupos parlamentares têm a sua própria direção e reúnem para
debater e adotar as posições do grupo. Destacando que podem impor disciplina de
voto e sancionar as suas violações.
b) A comissão permanente:
Lugar de destaque merece, igualmente, a Comissão Permanente da Assembleia da
República, que assegura a continuidade parlamentar entre as sessões legislativas
ou nas suas suspensões, de modo a assegurar a continuidade e a permanente
disponibilidade parlamentar. Os poderes da Comissão Permanente são,
especialmente, de autorizar a declaração do estado de sítio ou do estado de
guerra, dada a urgência de tais decisões e a demora em reunir o plenário da
Assembleia da República.
8.5. O governo:
Na definição constitucional, o Governo é o órgão de condução da política geral do
país e o órgão superior da administração pública.
O Governo é o único que não é eleito, sendo, no entanto, nomeado por um órgão
com legitimidade democrática direta, que é o Presidente da República, e sendo
nomeado de acordo com as eleições parlamentares e responsável perante a
Assembleia da República, que o pode demitir.
O Governo é um órgão colegial e complexo. Chefiado por um Primeiro-Ministro, o
governo integra ministros, secretários e subsecretários de Estado, podendo incluir
vice-primeiros-ministros e compreende um órgão colegial, o Conselho de
Ministros, ao qual competem as decisões mais importantes.
Há vários fatores que podem implicar a cessação do Governo antes de decorrido o
termo da legislatura. A vida útil de um Governo é, por este motivo, muito variável,
já que são diversos os motivos que podem implicar a sua demissão. Destacando
que o Governo pode ser demitido por ato da Assembleia da República ou do
Presidente da República.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Relativamente às moções de rejeição do programa do Governo e de censura,
importa anotar que elas só derrubam o Governo se forem aprovadas por maioria
absoluta.
Relativamente às funções gerais do Governo elas são três: a competência política, a
competência legislativa e a competência administrativa.
8.6. Os tribunais:
8.6.1. A função jurisdicional:
A Constituição da República Portuguesa é a primeira constituição portuguesa a
assegurar a independência em relação a todos os tribunais.
Tal como o Presidente da República, a Assembleia da República e o Governo, os
tribunais são órgãos de soberania. No entanto, eles distinguem-se daqueles três
órgãos, já que são o único órgão de soberania que não exerce o poder político em
sentido próprio, não sendo, portanto, órgãos políticos em sentido estrito.
Assim, é-lhes especialmente confiada a função jurisdicional exercida por juízes,
competindo-lhes administrar a justiça em nome do povo.
8.6.2. Independência dos juízes:
A independência dos tribunais constitui um dos elementos clássicos da teoria da
separação de poderes e da ideia do Estado de direito, sendo um dos pressupostos
da própria ideia de justiça e de garantia dos direitos dos cidadãos. Os juízes não
dependem do poder político, nem estão sujeitos a orientações externas, estando
sujeitos somente à Constituição e à lei.
A independência dos juízes compreende, nomeadamente, um método objetivo de
recrutamento, o mandato de duração predefinida, a inamovibilidade, a
irresponsabilidade e a exclusividade de funções.
A Constituição estabelece, ainda, um sistema de governo próprio dos juízes,
através do Conselho Superior da Magistratura, que inclui quase metade de
membros eleitos pelos próprios juízes, ao qual cabe a nomeação dos juízes e o
exercício da ação disciplinar.
8.6.3. Tribunal Constitucional:
O Tribunal Constitucional é, de entre os tribunais, um tribunal muito especial.
Como estipula o art. 221.º: “o Tribunal Constitucional é o tribunal ao qual compete
especificamente administrar a justiça em matérias de natureza jurídico-
constitucional”.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Este Tribunal é composto por 13 juízes. O seu modo de designação é, no entanto,
peculiar. Dez dos seus membros são eleitos diretamente pela Assembleia da
República, e os três restantes são incorporados por aqueles, sem participação de
qualquer outro órgão constitucional.
Atualmente, são muito vastas as funções do Tribunal Constitucional. O primeiro
grupo dessas competências reside na apreciação da constitucionalidade das
normas jurídicas. Ele é, assim, como que o guardião último da constitucionalidade,
permitindo assegurar a subordinação dos atos normativos à Constituição.
8.7. Órgãos públicos auxiliares:
O Provedor de Justiça (art. 23.º) foi criado, por via legislativa, na fase pré-
constitucional. Tendo sido, essencialmente, pensado para a defesa dos direitos
fundamentais, designadamente perante a Administração. Tem, também, funções
de defesa da Constituição, podendo desencadear no Tribunal Constitucional
processos de fiscalização de constitucionalidade.
A Entidade Reguladora da Comunicação Social (art. 39.º), estende a sua ação a
todos os órgãos de comunicação, públicos ou privados, e não apenas ao setor
público da comunicação social.
A Comissão Nacional de Proteção de Dados, prevista no art. 35º, tem por missão
garantir o direito à proteção dos dados pessoais, nos termos do referido preceito
constitucional e do direito da União Europeia.
8.8. As coletividades territoriais infraestaduais:
8.8.1. O principio da descentralização territorial:
O Estado não é hoje a única pessoa coletiva pública territorial. A par dele, várias
outras pessoas coletivas públicas de base territorial assumem vastas e importantes
atribuições. Para esta alteração mostrou-se decisivo o princípio da descentralização
territorial.
Este princípio é, atualmente, um dos princípios fundamentais no que respeita à
organização do poder público. Por força dele, várias das atribuições que se
encontravam cometidas ao Estado têm sido transferidas para as entidades
territoriais infraestaduais.
Em primeiro lugar, instituíram-se as autarquias locais como autênticas estruturas
de poder local, dotadas de órgãos representativos, que visam a prossecução de
interesses próprios das populações respetivas.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Em segundo lugar, surgiram as regiões autónomas (Açores e Madeira), como
regiões dotadas de autonomia política, ou seja, detentoras de poderes legislativos
e executivos próprios, que lhe proporcionam uma ampla margem de atuação
política, embora sempre com obediência ao princípio da integridade da soberania
do Estado e de acordo com os princípios e normas constitucionais (art. 225.º).
Princípios constitucionais da organização territorial do Estado:
Princípio da unidade do Estado: uma só Constituição, órgãos de soberania unitários
(impede o Estado federal);
Princípio da autonomia política regional dos Açores e da Madeira: órgãos de
governo próprio e autonomia legislativa, governativa, administrativa e financeira;
Princípio da autonomia local: autarquias locais, com atribuições próprias, órgãos
representativos e autonomia de decisão;
Princípio da descentralização administrativa: transferência para as regiões
autónomas e autarquias locais dos poderes políticos e administrativos necessários
para a prossecução dos interesses específicos das respetivas comunidades;
Princípio da subsidiariedade: O Estado e as coletividades territoriais superiores só
devem assumir as tarefas político-administrativas que não possam ser mais bem
desempenhadas pelas coletividades territoriais inferiores.
8.8.2. As regiões autónomas:
O atual quadro da autonomia legislativa regional provém da revisão constitucional
de 2004, que a ampliou imensamente, eliminando a submissão da legislação
regional aos princípios gerais das leis gerais da República, e a invocação de um
interesse específico regional-
Os poderes legislativos são, portanto, os seguintes:
a) legislar sobre as matérias de competência legislativa regional especificamente
enunciadas no art. 227º.
b) legislar sobre todas as matérias enunciadas nos estatutos regionais, salvo se
estiverem reservadas à competência legislativa da República (al. a) do art. 227.º,
n.º 1);
c) legislar, mediante autorização da Assembleia da República, sobre as matérias de
reserva de competência legislativa relativamente reservada da Assembleia da
República, com algumas ressalvas (al. b) do art. 227.º, n.º 1);
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
d) desenvolver legislativamente as leis de bases da Assembleia da República (al. c) do
art. 227.º-1);
e) transpor as diretivas da União Europeia em matérias da sua competência legislativa
própria (art. 112º, n.º 8).
O poder legislativo regional cabe às Assembleias Legislativas Regionais, sem
possibilidade de autorização legislativa aos governos regionais. No entanto, os
governos regionais têm competência legislativa exclusiva no que respeita à sua
própria organização e funcionamento (art. 231º, n.º 6), o que replica igual poder do
Governo da República.
As regiões autónomas possuem, também, o poder de iniciativa legislativa junto da
Assembleia da República, o que lhes dá a possibilidade de influenciar a legislação
da República em matérias de competência exclusiva da Assembleia da República.
O poder legislativo regional está submetido à Constituição e ao estatuto político-
administrativo da respetiva região, nos termos vistos acima, bem como às leis de
autorização legislativa, leis de bases e leis-quadro da República, quando for caso
disso.
A fiscalização da respetiva conformidade cabe sempre ao Tribunal Constitucional,
de acordo com os arts. 280.º, n.º 2 e 281.º, n.º 1.
A legislação regional afasta a legislação da República nos respetivos territórios. Se e
enquanto as regiões autónomas não exercerem a sua competência legislativa
própria, aplicam-se as leis da República (art. 228º, n.º 2).
8.8.3. As autarquias locais:
As autarquias locais são pessoas coletivas territoriais dotadas de órgãos
representativos, que visam a prossecução de interesses próprios das populações
respetivas (art. 235.º).
São pessoas coletivas públicas territoriais infraestaduais, constituídas pelos
agregados populacionais residentes em determinadas circunscrições territoriais,
dotadas de autonomia na gestão dos interesses próprios dessas mesmas
coletividades, através de órgãos representativos.
São três as categorias de autarquias locais: as freguesias, os municípios e as regiões
administrativas (art. 236.º). Todavia, estas últimas nunca foram instituídas, e a sua
criação está sujeita à prévia realização de um referendo nacional, o qual, realizado
em 1998, teve resposta negativa.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
8.9. A Administração Pública:
A primeira nota a salientar é a presença na Constituição de um conjunto de
disposições relativas à Administração pública, ou seja, de uma “constituição
administrativa”, codificada num capítulo próprio (arts. 266.º e seguintes).
A administração do Estado subdivide-se numa administração estadual direta,
composta pelos serviços centrais e pelos serviços periféricos; numa administração
estadual indireta composta pelos institutos públicos e empresas públicas; o mesmo
sucede relativamente à administração regional autónoma e à administração
autárquica.
O artigo 268.º enuncia os direitos e garantias dos particulares perante a
administração. Estas garantias, que constituem direitos de natureza similar aos
direitos, liberdades e garantias, mostram-se instrumentos preciosos para a tutela
dos direitos e interesses legalmente protegidos face à Administração e constituem
das dimensões do princípio do Estado de direito.
8.10. As Forças Armadas:
A filosofia constitucional da defesa nacional é bem transparente: a defesa nacional
consiste na defesa do país de agressões (ou ameaças de agressão) externas; a
defesa nacional é uma tarefa e uma obrigação do Estado, competindo a sua
definição e direção aos órgãos de soberania da República, não podendo ser
transferida para as entidades infraestaduais; as Forças armadas são apenas uma
estrutura ao serviço de uma das componentes da defesa nacional, a defesa militar,
não tendo nenhuma outra função política (art. 275.º); as Forças armadas não são
um corpo autónomo dotado de autogoverno (como sucedeu no período
constitucional transitório entre 1976 e 1982), antes obedecem aos órgãos de
soberania competentes; a defesa nacional e as Forças armadas continuam a
assentar no dever da defesa da Pátria de todos os cidadãos (art. 276.º).
8.11. A organização constitucional do poder político e a União europeia:
Hoje, é impossível ter uma ideia completa da organização constitucional nacional
sem ter em conta a ordem constitucional da União Europeia.
Em primeiro lugar, vários dos seus órgãos são compostos por representantes dos
Estados-membros. Em segundo lugar, a União Europeia desempenha várias
atribuições e poderes políticos, legislativos, administrativos e jurisdicionais em vez
dos Estados-membros; e, no exercício das atribuições que lhe foram conferidas
pelos Tratados as instituições comunitárias exercem competências que implicam
uma compressão das competências dos órgãos de soberania nacionais. Em terceiro
lugar, todos os órgãos de soberania, e não só, têm poderes no respeitante à União
Europeia.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Por tudo isto, a organização constitucional do poder político e a ordem de
atribuições de poderes e competências tem de ser completada, para não dizer
modificada, pelo que decorre da ordem jurídica comunitária.
Capítulo XI – a Constituição e as fontes de direito
9. O elenco constitucional das fontes de direito:
9.1. As fontes transnacionais
9.1.1. O direito internacional:
As fontes de direito internacional vigentes na ordem jurídica interna estão
indicadas no já referido art. 8.º, nºs. 1, 2 e 3. Estas normas distinguem o direito
internacional geral ou comum, formado pelas normas de direito consuetudinário e
pelos princípios gerais de direito partilhados pelos diversos Estados (n.º 1), o
direito internacional convencional (n.º 2) e a chamada “legislação internacional”,
ou seja, as normas emanadas de organizações internacionais (nº 3).
9.2. Os atos normativos do Estado
9.2.1. Centralidade normativa do Estado:
Apesar da existência das fontes normativas transnacionais e infraestaduais, o
Estado continua a ser o fulcro do sistema normativo.
O poder normativo do Estado compreende o poder legislativo e o poder
regulamentar. Contrariamente à doutrina clássica da separação de poderes, o
poder legislativo não compete exclusivamente à assembleia representativa, sendo
compartilhado pelo Governo. Também o poder regulamentar é compartilhado
entre o Governo e outras entidades do Estado, num fenómeno de desconcentração
do poder regulamentar.
9.2.2. A repartição de competência legislativa entre a Assembleia da República e o
Governo:
Esse dualismo legislativo faz com que, no nosso ordenamento constitucional, a
reserva de lei parlamentar seja também uma forma de delimitar as competências
dos órgãos com poder legislativo. Assim, a Constituição, ao criar a reserva de lei
parlamentar, procede à repartição de competências no seio do poder legislativo,
atribuindo primazia à competência legislativa do Parlamento.
Neste contexto, a reserva absoluta designa a área de competência legislativa
conferida apenas e só à Assembleia da República. Por seu turno, a reserva relativa
abrange as matérias em que a Assembleia da República possui competência
legislativa reservada, podendo, porém, o Governo legislar sobre elas, desde que
com autorização parlamentar (artigo 165.º).
85
1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Porém, em todas as matérias não abrangidas pela reserva legislativa da Assembleia
da República (absoluta e relativa), o Governo pode legislar livremente, em
concorrência com a Assembleia, podendo alterar e revogar leis da Assembleia, e
vice-versa.
Caso a Assembleia da República ou Governo legislem sobre matérias reservadas ao
outro, há uma inconstitucionalidade orgânica, por incompetência, que torna
inválidos os atos legislativos em causa.
9.2.2. Categorias de leis
a) Leis constitucionais:
As leis constitucionais são as leis de revisão constitucional, uma forma de lei que a
Constituição reserva apenas para as leis que aprovam alterações da própria
Constituição. A aprovação das leis constitucionais compete, em exclusivo, à
Assembleia da República e carece de maioria de 2/3 dos deputados, de acordo com
o art. 286º, n.º 1. Assim, o legislador ordinário não pode determinar que outras
matérias ficam sujeitas à forma de lei constitucional.
b) Leis estatuárias:
As leis estatutárias são as leis da Assembleia da República que aprovam os
estatutos político-administrativos de cada uma das regiões autónomas (Açores e
Madeira), onde está contida a definição das suas atribuições, a organização e as
competências dos seus órgãos, bem como a regulação dos seus poderes.
São leis aprovadas exclusivamente pela Assembleia da República, insuscetíveis de
autorização legislativa ao Governo, em cujo procedimento participam as próprias
regiões. São elas quem elabora e apresenta o respetivo projeto à Assembleia.
Importa sublinhar que os estatutos ocupam uma posição privilegiada no plano da
hierarquia das fontes: devem considerar-se leis reforçadas, porque têm de ser
respeitadas não somente pelos decretos legislativos regionais e pelos decretos
regulamentares regionais, mas também pelas demais leis da República.
c) Leis orgânicas:
A categoria das leis orgânicas foi introduzida na Constituição com a revisão de
1989. Correspondem a leis ordinárias de regime especial. Estas só existem em
matérias de competência exclusiva da Assembleia e estão vinculadas ao princípio
da tipicidade, isto é, só o são aquelas que a Constituição considera como tais (art.
166.º n.º 2).
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
A Constituição delimita o seu universo por intermédio de dois critérios: matéria e
procedimento. As matérias sujeitas a lei orgânica são, em geral, de importância
político-institucional especialmente relevante (art. 166.º n.º 2).
O procedimento legislativo parlamentar de elaboração e aprovação das leis orgânicas
apresenta algumas especificidades importantes relativamente ao procedimento
normal:
a) A votação na especialidade da maior parte das leis orgânicas é feita no plenário e
não na comissão (art. 168.º 4.º CRP);
b) As leis orgânicas têm de ser aprovadas por maioria absoluta dos deputados em
efetividade de funções (art. 168.º n.º 5), e, em alguns casos, mesmo por maioria de
2/3 (art. 168.º n.º 6);
c) A sua confirmação após eventual veto presidencial carece da maioria de 2/3 dos
deputados presentes, desde que superior à maioria absoluta dos deputados em
efetividade de funções (136.º-3);
d) a fiscalização preventiva da constitucionalidade das leis orgânicas pode ser pedida
não só pelo Presidente da República, mas também pelo Primeiro-Ministro ou um
quinto dos deputados em efetividade de funções (278.º- 4).
Além disso, sendo leis reforçadas (art. 112º-3), as leis orgânicas têm de ser
respeitadas por outras leis, sob pena de “ilegalidade reforçada”, cujo regime de
fiscalização judicial se aproxima do regime da fiscalização da constitucionalidade,
sendo também competência do Tribunal Constitucional (arts. 280º-282).
e) Leis de bases:
As leis de bases são leis que se limitam a definir as opções político-legislativas
fundamentais, cujo desenvolvimento legislativo será deixado ao Governo e às
assembleias legislativas regionais.
Consagram os principais vetores de um regime jurídico: o parlamento traça a
moldura, dentro da qual o Governo vai exercer os seus poderes legislativos,
mediante decretos-leis de desenvolvimento, e as assembleias legislativas regionais,
mediante decretos legislativos regionais de desenvolvimento. Em vários casos a
reserva de competência legislativa da Assembleia limita-se às bases gerais.
As leis de bases gozam de poder legislativo reforçado, nos termos do art. 112º, n.º
3 da Constituição, sendo ilegais os decretos-leis ou decretos legislativos regionais
que as infrinjam.
f) Leis de enquadramento ou leis-quadro:
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
As leis de enquadramento ou leis-quadro estabelecem os parâmetros normativos
para ulteriores atos legislativos concretos ou singulares de aplicação. Estas leis
visam regular efetivamente o setor a que se referem. As leis-quadro não carecem
de desenvolvimento para poderem ser aplicadas, mas sim de aplicação em cada
caso concreto. A lei-quadro tem vocação para uma utilização múltipla.
As leis que concretizarem as leis-quadro e que as não respeitarem são obviamente
inválidas, discutindo-se se se trata de casos de inconstitucionalidade ou de
ilegalidade. Propende-se para a ilegalidade, a não ser que o diploma de aplicação
da lei-quadro seja inconstitucional por outro motivo.
g) Leis de autorização:
As leis de autorização legislativa são leis através das quais a Assembleia da
República delega competências legislativas da sua reserva relativa (art. 165º) a
outro órgão, passando este a ter competência legislativa para emanar atos
normativos com força de lei. No nosso ordenamento constitucional, há dois tipos
de leis de autorização:
1. as leis de autorização ao Governo (autorização legislativa horizontal);
2. as leis de autorização às assembleias legislativas regionais (autorização legislativa
vertical).
Ao conceder a autorização para legislar sobre certas matérias, a Assembleia não
perde o poder de legislar sobre as mesmas, podendo, a todo o tempo revogar,
tácita ou expressamente, a autorização legislativa concedida. A concessão da
autorização legislativa limita-se às matérias de reserva relativa da competência
legislativa da Assembleia da República (art. 165º), nunca podendo ser concedida no
âmbito de reserva absoluta da competência legislativa da Assembleia (art. 164º) ,
sob pena de uma inconstitucionalidade orgânica, e sendo totalmente
desnecessária em matérias concorrentes, em que o Governo possuí competência
legislativa originária (art. 198º, n.º1, al. a)).
Nos termos do art. 165º, nº 2, as leis de autorização legislativa têm de definir o
objeto, o sentido e a duração da autorização, pelo que não pode haver
autorizações genéricas, nem por tempo indeterminado.
As leis de autorização legislativa são de exclusiva iniciativa governamental, não
podendo a Assembleia da República conferir autorizações não pedidas; o mesmo
vale em relação às autorizações legislativas em favor das assembleias legislativas
regionais.
9.2.3. Decretos-Leis:
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
O decreto-lei traduz-se, nos termos da Constituição da República Portuguesa, num
ato legislativo aprovado pelo Governo (n.º 1 do artigo 112.º e artigo 198.º).
Nos termos do art. 198.º, o Governo possui os seguintes tipos de decretos-leis:
a) Competência legislativa originária: em matérias não reservadas à Assembleia o
Governo pode criar atos legislativos em concorrência com a mesma (art. 198.º n.º 1
al. a)).
b) Competência legislativa delegada: nas matérias enumeradas no art. 165.º, o
Governo pode legislar se tiver previamente autorização legislativa da Assembleia
(art. 198.º n.º 1 al. b)).
c) Nas matérias de reserva absoluta e relativa, em que a AR se limita a proceder à
fixação dos princípios ou das bases gerais, o Governo pode editar decretos-leis de
desenvolvimento dessas leis da Assembleia, dentro dos quadros traçados pela
Assembleia (art. 198.º n.º 1 al. c)).
d) Competência legislativa exclusiva: abrange as matérias respeitantes á sua própria
organização e funcionamento (art. 198.º n.º 2). Aqui existe uma reserva de
decreto-lei.
Por outras palavras, os decretos-lei podem regular qualquer matéria, sendo o seu
âmbito material de intervenção apenas limitado pelas normas constitucionais que
estabelecem a reserva político-legislativa da Assembleia (arts. 161.º, 164.º e 165.º).
Em todas as matérias não abrangidas pela reserva parlamentar existe uma
concorrência normativa do Governo e da Assembleia, podendo os decretos-leis
revogar, alterar, suspender e interpretar leis da Assembleia.
9.3. As leis:
9.3.1. principais sentidos do termo “lei”:
A principal fonte legislativa a nível interno é a lei.
Num sentido amplo, lei pode querer significar qualquer norma jurídica, designando
genericamente o conjunto de normas jurídicas vigentes no ordenamento estadual
português. É a este sentido que se refere o artigo 13.º, n.º 1.
Num segundo sentido, ainda muito amplo, fala-se em leis para designar as normas
superiores do ordenamento jurídico, abrangendo a Constituição e as leis de revisão
constitucional (leis constitucionais) e as leis ordinárias.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Num sentido menos genérico, lei significa qualquer diploma normativo interno,
emanado ao abrigo da função legislativa, distinto quer da Constituição (as leis são
infraconstitucionais) quer dos regulamentos (que são diplomas infralegislativos).
Por fim, em sentido estrito, lei quer designar apenas os diplomas legislativos da
Assembleia da República, emanados ao abrigo da sua função legislativa, de acordo
com o procedimento constitucionalmente fixado. Dentro desta categoria, como se
viu acima, podemos identificar ainda várias espécies, designadamente as leis
comuns, as leis de valor reforçado, como as leis orgânicas, as leis de bases ou as
leis do orçamento, entre outras.
9.3.2. Reserva de lei:
Designa as situações em que, segundo a Constituição, certas matérias só podem
ser reguladas por via de lei e não por regulamento – reserva de ato legislativo. Tal é
caso dos crimes e penas (arts. 27º, 28º e 29º), dos impostos (art. 103º) e das
restrições aos direitos, liberdades e garantias (art. 18º-2).
Nessas matérias não pode haver regulamentos, nem a lei pode remeter para
regulamentos. Tem de ser o legislador a definir todas as normas sobre essas
matérias. Em geral, a reserva de lei supõe também a reserva parlamentar de lei,
que corresponde à reserva de competência legislativa da Assembleia da República,
mas não exclui a autorização legislativa ao Governo.
Face ao exposto, conclui-se então que, quando não há reserva de lei, as leis podem
ser complementadas por regulamentos.
9.3.3. O veto legislativo:
Ao receber um ato legislativo da Assembleia ou do Governo para promulgação, o
Presidente da República pode tomar uma de três atitudes:
1. Promulgá-lo como lei ou decreto-lei, consoante os casos;
2. Recusar a promulgação, dentro do prazo estipulado, vetando-o justificadamente e
reenviando-o para a Assembleia ou para o Governo, conforme os casos (veto
político);
3. Requere ao Tribunal Constitucional, dentro do prazo constitucionalmente
estipulado, que aprecie a respetiva constitucionalidade (veto por
inconstitucionalidade).
O veto político distingue-se do veto por inconstitucionalidade por ser uma
faculdade autónoma do Presidente da República regulado no art. 136.º, enquanto
que o veto por inconstitucionalidade é necessariamente precedido de um juízo de
inconstitucionalidade do Tribunal Constitucional, decretado na sequência do
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
pedido da fiscalização preventiva formulado pelo Presidente da República (arts.
136.º n.º 5 e 278.º), sendo, nesse caso, obrigatório.
O veto político tem de ser fundamentado, isto é, tem de indicar os argumentos
que o motivaram, relacionados com razões de oportunidade política ou com o
sentido da lei.
No entanto, o veto político presidencial não é definitivo, podendo ser superado pela
Assembleia da República, que pode fazer uma de três coisas:
1. Conformar-se com o veto e encerrar o procedimento sem lei;
2. Corrigir a lei, se for caso disso, para corresponder às objeções presidenciais,
reenviando para o mesmo um outro diploma, que nessa altura abre um novo
processo de promulgação (ou de novo veto);
3. Insistir em confirmar o diploma, sem alterações, forçando o Presidente da
República a promulgá-lo.
Se a Assembleia da República confirmar o voto por maioria absoluta dos deputados
em efetividade de funções (maioria de 2/3 dos deputados presentes nos casos do
art. 136.º n.º 3), o Presidente da República deve promulgar, não podendo exercer
o direito de veto pela segunda vez. Um novo veto do Presidente da República só é
admissível no caso de a Assembleia da República tenha introduzido alterações ao
diploma, tratando-se, assim, de um novo diploma.
Podem ser também objeto de veto político e de constitucionalidade os diplomas
legislativos do Governo, sendo que neste caso o Presidente da República não tem
de fundamentar a sua decisão, limitando-se a comunicar por escrito o “sentido do
veto” (art. 136.º n.º 4), nem o Governo a pode superar. O que o Governo pode
fazer é apresentar uma proposta de lei à Assembleia da República com o mesmo
conteúdo do diploma governamental vetado e depois, se o Presidente da República
vetar também o diploma correspondente, forçar uma suspensão do veto, se
houver maioria parlamentar para confirmar o diploma.
9.4. Os regulamentos
9.4.1. O poder regulamentar:
Os regulamentos são atos normativos praticados no exercício da função
administrativa pelo Governo ou outra autoridade administrativa, sendo, portanto,
diplomas infralegislativos. Na nossa ordem constitucional, os regulamentos são
atos normativos derivados, cujo fim é completar ou fazer executar as leis. Não há
regulamentos sem uma prévia base legal. Salvo as leis que incidam sobre matérias
de reserva de lei absoluta os demais atos legislativos (leis, decretos-leis e decretos
legislativos regionais) podem ser objeto de regulamentos de aplicação.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
A Constituição atribui expressamente poder regulamentar ao Governo, como órgão
superior da Administração pública (art. 182.º), devendo utilizar esse poder para
elaborar os regulamentos necessários à boa execução da lei (199.º, n.º 1, al. c); aos
órgãos das regiões autónomas, a quem, por sua vez, compete regulamentar a
legislação regional; e às autarquias locais (artigo 241.º). Mas a lei pode,
obviamente, conferir poderes regulamentares a outras entidades ou órgãos
públicos.
Os regulamentos do Governo podem assumir a forma de decretos regulamentares.
Estes decretos regulamentares gozam de um regime especial: são os únicos que
necessitam de promulgação do Presidente da República, podendo ser objeto de
veto político (136.º, n.º 4); o Ministério Público está obrigado a recorrer para o
Tribunal Constitucional das decisões dos tribunais que recusem a aplicação de
normas constantes de decreto regulamentar com fundamento em
inconstitucionalidade (280.º, n.º 3).
9.4.2. Espécies de regulamentos:
Os regulamentos pressupõem, necessariamente, uma lei anterior, que eles visam
regulamentar ou que habilita a sua emissão.
De facto, na sua relação com a lei, os regulamentos podem revestir duas modalidades:
a) Regulamentos executivos: desenvolvem o regime jurídico contido numa lei,
concretizando os seus preceitos e estabelecendo os meios administrativos da sua
aplicação. Trata-se necessariamente regulamentos complementares de uma lei,
sem os quais as leis correspondentes não podem ser aplicadas.
b) Regulamentos independentes: são regulamentos cuja lei habilitante se limita a
definir a competência “subjetiva e objetiva para a sua emissão”, nos termos do art.
112.º, n.º 8, 2.ª parte. São independentes quanto ao conteúdo, visto que a lei
habilitante se limita a indicar a autoridade competente e o objeto sobre que pode
incidir o regulamento, sendo omissa quanto ao regime jurídico a estabelecer.
9.4.3. Regulamentos e principio da legalidade da Administração:
Uma das regras básicas do Estado de direito é o princípio da legalidade da
Administração, segundo o qual esta não pode invadir o domínio eventualmente
reservado à lei e só pode atuar nos termos da lei. Ele é uma decorrência do
princípio da separação de poderes e da subordinação do poder executivo ao poder
legislativo.
Num entendimento exigente, o princípio da legalidade compreende três dimensões:
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
1. Princípio da precedência da lei: toda a ação administrativa deve estar habilitada
por lei, não podendo ela desenrolar-se à margem da lei (daí a não aceitação de
regulamentos absolutamente independentes);
2. Princípio do respeito pela reserva de lei: segundo o qual a Administração não pode
intervir onde, por determinação da Constituição ou da lei, só a lei possa intervir;
3. Princípio da primazia da lei: segundo a qual a ação administrativa não pode
contrariar a lei.
9.4.4. As relações de hierarquia ou de primazia entre as diferentes fontes
normativas:
Tradicionalmente, só se falava no princípio da constitucionalidade (conformidade
de todo o direito infraconstitucional com a Constituição) e no princípio da
legalidade (conformidade de toda a ação administrativa, incluindo a atividade
regulamentar, com a lei).
Se se pressupor uma ordem jurídica ordenada numa pirâmide hierárquica de três
níveis de normas: a Constituição, como lei fundamental, a lei e o regulamento
administrativo. A primeira prevalecia sobre a lei e o regulamento, a lei prevalecia
sobre o regulamento. No entanto, atualmente, a ordem jurídica é muito mais
complexa. Há as normas de direito internacional e as normas da EU. Há a
diversificação de várias categorias de leis, com relações de prevalência entre elas.
Há o aparecimento da legislação das regiões autónomas, com a sua esfera própria
de ação, imune a uma submissão geral às leis da República.
a) Princípio da constitucionalidade: todas as normas devem ser conformes à
Constituição.
b) Princípio da supremacia do direito internacional: o direito infraconstitucional
interno deve ser conforme às normas de direito internacional.
c) Princípio da prevalência do direito da União Europeia: o direito interno deve ser
conforme ao direito comunitário (tratados e leis comunitárias).
d) Princípio da supremacia das leis reforçadas: Todas as leis comuns devem ser
conformes às leis de valor reforçado.
e) Princípio da supremacia dos estatutos regionais: os diplomas do Estado e os
diplomas regionais devem respeitar os estatutos regionais.
f) Princípio da legalidade: Todos os regulamentos administrativos devem ser
conformes às leis.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
g) Princípio da supremacia dos regulamentos superiores sobre os regulamentos
inferiores: os regulamentos das entidades inferiores devem respeitar os
regulamentos das entidades tutelares.
Capítulo XIV – a revisão da Constituição:
10. Natureza e sentido da revisão constitucional
10.1. Sentido da relativa rigidez constitucional:
A revisão constitucional consiste em alterar ou modificar a Constituição. Por um
lado, a Constituição não pode ser imutável, pois nenhuma lei humana o é; por
outro lado, porém, a revisão da Constituição não pode ser uma decisão livre do
legislador, como se se tratasse de uma lei comum. Desta forma, a Constituição não
só não pode ser infringida por qualquer outra norma, como também não pode ser
livremente alterada.
O sistema de revisão constitucional definido na Constituição pretendeu conciliar
duas exigências opostas: garantir uma suficiente estabilidade da lei fundamental;
facultar a necessária flexibilidade constitucional, permitindo as mudanças
constitucionais que se revelem indispensáveis.
10.2. O procedimento de revisão
10.2.1. Os trâmites procedimentais:
As leis de revisão constitucional não obedecem ao mesmo procedimento das leis
ordinárias. Com efeito, as leis de revisão constitucional estão sujeitas a um
procedimento legislativo próprio (arts. 285.º e 286.º).
Importa, desde logo, distinguir entre as revisões ordinárias e as revisões
extraordinárias. As primeiras podem ocorrer passados cinco anos desde a última
revisão ordinária, sem necessidade de uma resolução de assunção de poderes de
revisão (a revisão é desencadeada automaticamente pela apresentação de
qualquer projeto de revisão), o que não favorece a estabilidade constitucional, na
medida em que dá a qualquer deputado o poder de pôr em movimento o processo
de revisão constitucional em qualquer altura, passados cinco anos sobre a última
revisão ordinária. As revisões extraordinárias podem ocorrer a qualquer momento,
desde que a Assembleia decida fazê-las, em resolução aprovada por maioria de 4/5
dos deputados.
Qualquer que seja a modalidade de revisão, o procedimento de revisão
propriamente dito é iniciado pela apresentação de um projeto de revisão, sendo de
distinguir as seguintes fases:
1. Apresentação de um projeto de revisão constitucional;
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
2. Apreciação em comissão parlamentar: Não existe discussão e votação na
generalidade, como sucede nas leis ordinárias. Segue-se, portanto, diretamente a
apreciação dos projetos numa comissão parlamentar especial;
3. Discussão e votação no plenário: A aprovação de alterações requer sempre uma
maioria de 2/3 dos deputados em efetividade de funções, qualquer que seja a
modalidade de revisão;
4. Votação final global: esta fase não consta da Constituição, visto que a revisão
constitucional deve considerar-se consumada com a votação na especialidade.
5. Promulgação e publicação: a promulgação não pode ser recusada (art. 286.º-3),
podendo essa norma ser interpretada literalmente no sentido de impedir tanto o
veto político como o veto por inconstitucionalidade. Mas a melhor interpretação é
a que restringe essa proibição ao veto político, sendo natural que o Presidente da
República não possa recusar a promulgação por discordância política com a
revisão, que depende somente da Assembleia. Mas já faz menos sentido excluir a
fiscalização preventiva da constitucionalidade e o consequente veto obrigatório em
caso de o Tribunal Constitucional se pronunciar pela inconstitucionalidade.
10.3. As alterações constitucionais e a Constituição revista:
A revisão constitucional pode consistir na:
1. Modificação de um determinado preceito constitucional (“substituições”) – efeito
modificativo;
2. Eliminação de determinado preceito ou conjunto de preceitos (“supressões”) –
efeito revogatório;
3. Introdução de um novo preceito ou conjunto de preceitos (“aditamentos”) – efeito
inovatório.
10.4. Os limites materiais da revisão
10.4.1. Sentido dos limites materiais:
A revisão serve para alterar a Constituição, mas não para mudar de Constituição. É
esta consideração que leva a admitir limites materiais à revisão, sejam eles limites
expressos, sejam eles, inclusivamente, limites implícitos, que pretendem impedir
as revisões aniquiladoras da identidade constitucional.
1. Limites temporais à revisão constitucional:
A Constituição só pode ser revista a título ordinário decorridos cinco anos sobre a
última revisão ordinária (art. 284º, n.º 1), sem prejuízo da ocorrência de revisões
extraordinárias desencadeadas por decisão de uma maioria qualificada de 4/5 dos
deputados em efetividade de funções (art. 284º, n.º 2).
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
As revisões extraordinárias não interrompem a contagem do quinquénio
necessário para a retoma do poder de revisão ordinária. Em qualquer caso,
passados cinco anos sobre a última revisão ordinária ou uma vez deliberada a
assunção de poderes de revisão extraordinária, o procedimento de revisão
constitucional é aberto pela apresentação de qualquer projeto de revisão, devendo
os demais ser apresentados no prazo de 30 dias. Não existe prazo para a conclusão
do procedimento, mas o procedimento caduca com o termo da legislatura (art.
167º, nº 5).
2. Limites materiais à revisão constitucional:
Trata-se de um núcleo de 14 matérias elencadas no artigo 288º, que formam o
núcleo identitário da Constituição, não podendo, em princípio, ser alteradas pelo
poder de revisão constitucional.
Existem, no entanto, três teses fundamentais quanto à possível alteração desses
limites materiais: tese da revisibilidade, da irrevisibilidade e da dupla revisibilidade.
A possibilidade de revisão dos limites materiais de revisão que não sejam de
considerar essenciais é tanto mais de admitir, quanto mais numerosos eles forem e
quanto mais se valorizar a ideia de que a “geração constituinte” não pode vincular
excessivamente ad eternum as gerações vindouras. Ao abrigo deste entendimento
foi possível que, pela revisão constitucional de 1989, um dos limites materiais de
revisão originário fosse eliminado e dois outros fossem modificados.
3. Limites circunstanciais à revisão constitucional:
Traduzem-se no impedimento de realizar uma revisão constitucional em períodos
de perturbação da ordem política ou social, tais como durante o estado de sítio ou
o estado de emergência, entendendo-se que tal perturbação poderá coagir os
órgãos encarregados da revisão, que não terão a serenidade suficiente para a
efetuar com rigor. Durante tais períodos a revisão não pode ser iniciada, nem
continuada, nem concluída e se já foi iniciada ficará suspensa, nos termos do artigo
289º. Se for efetuada, deverá ser considerada como inexistente.
4. Limites formais à revisão constitucional:
Podem dizer respeito ao órgão competente para exercer a iniciativa de revisão, ao
órgão competente para aprovar a lei de revisão e às maiorias necessárias para
aprovação da lei de revisão.
Assim, o órgão competente para exercer a iniciativa de revisão são os Deputados
(artigo 285º, nº1), diferindo do processo legislativo ordinário em que a iniciativa é
mais alargada.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
O órgão competente para aprovar a lei de revisão, é a Assembleia da República
(artigo 286º, nº1; 161º, a; 166º nº1), ou seja, o órgão legislativo ordinário.
Pode-se, ainda, considerar como limite formal a exigência de publicação do texto
completo da Constituição em cada revisão (artigo 286º, nº2).
5. Limites procedimentais:
Regras que introduzem particularidades em determinadas fases do processo de
revisão constitucional. Aqui, a iniciativa pertence aos Deputados (285º, n.º 1). A
maioria de aprovação terá que ser uma maioria agravada de dois terços dos
Deputados em efetividade de funções (286º, n.º 1). Não há lugar ao veto político
(286º, n.º 3). O texto constitucional revisto tem de ser publicado na íntegra (287º).
10.4.2. Força vinculativa dos limites materiais:
Teoria da irrevisibilidade: sendo as cláusulas sobre a revisão constitucional criadas
pelo poder constituinte originário, só uma nova manifestação do mesmo poder
constituinte originário as poderia modificar ou eliminar, nunca uma lei de revisão
constitucional, que é sempre, em relação àquele, um poder constituído e não
constituinte.
Teoria da revisibilidade: as cláusulas de revisão constitucional não ostentam
nenhuma força especial em relação aos restantes preceitos constitucionais e se a
Constituição, na sua versão original, admitiu o poder de revisão constitucional,
então deve daí concluir-se que o mesmo também se exerce sobre o próprio regime
de revisão constitucional, ao mesmo tempo que se pode rever o conteúdo que por
elas se encontrava abrangido.
Teoria da dupla revisibilidade (ou revisibilidade faseada): a modificação das
matérias protegidas pelas cláusulas de revisão constitucional deve acontecer a dois
tempos, primeiro eliminando-se a cláusula que protege a matéria que se quer
atingir e só depois, numa outra revisão constitucional, se poderia rever ou eliminar
o instituto ou o princípio que deixou de estar constitucionalmente protegido pela
cláusula de proteção entretanto revogada.
10.5. Inconstitucionalidade das leis de revisão constitucional:
10.5.1. Invalidade das leis de revisão:
As leis de revisão constitucional que não respeitarem os requisitos e os limites
constitucionais de revisão não são válidas. O poder de revisão constitucional, como
poder constituinte derivado que é, está subordinado à Constituição.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
São principalmente quatro os fundamentos de inconstitucionalidade das leis de
revisão constitucional: leis de revisão emanadas de órgãos sem poderes de revisão
constitucional ou emanadas do órgão competente mas na ausência de poderes de
revisão ou votadas pelo órgão competente e no uso de poderes de revisão, mas
sem terem obtido a maioria qualificada constitucionalmente exigida; leis de revisão
constitucional que não indiquem taxativa e expressamente as alterações a
introduzir no texto constitucional; leis de revisão constitucional que não tenham
respeitado o processo próprio previsto no art. 2.º; leis de revisão constitucional
que infrinjam os limites materiais de revisão.
10.5.2. Fiscalização da constitucionalidade:
Seja como inexistentes como inconstitucionais, as leis de revisão constitucional hão
de estar sujeitas a controlo de constitucionalidade. Resta saber se a
inconstitucionalidade das normas de revisão pode ser controlada: em sede de
controlo preventivo; em sede de controlo sucessivo abstrato; em sede de
fiscalização concreta.
A possibilidade de controlo preventivo dependerá da possibilidade de não
promulgação das leis de revisão. O art. 286.º, n.º 3 proíbe a recusa de
promulgação, o que implica proibição de veto. Literalmente, poderia entender-se
que essa proibição vale tanto em relação ao veto político como em relação ao veto
de inconstitucionalidade. Todavia, é de defender uma interpretação diferente,
visto que não se compreende que o Presidente não tenha a faculdade de se
recusar a promulgar uma lei de revisão patentemente inconstitucional, suscitando
a sua fiscalização preventiva. Se existe caso em que se pode justificar a fiscalização
preventiva da constitucionalidade é justamente na revisão constitucional, para
impedir que a Constituição chegue a ser inconstitucionalmente alterada e a entrar
em vigor com essa alteração.
Quanto ao controlo sucessivo, por via abstrata, pelo Tribunal Constitucional e por
iniciativa das entidades referidas no art. 281.º, n.º 2, nada há que a impeça. Por sua
vez, os tribunais, eles próprios submetidos à Constituição, poderão também
apreciar a constitucionalidade formal, orgânica ou material das leis de revisão, com
os consequentes recursos até se chegar a uma decisão do Tribunal Constitucional,
nos termos do art. 280.º.
10.5.3. Efeitos da constitucionalidade:
Como quer que seja configurado o vício da lei ou da norma, inexistência ou
inconstitucionalidade, a declaração não poderá deixar de ter por efeito a nulidade
das normas em causa e a repristinação (reposição em vigor) das normas da
Constituição ilegitimamente alteradas ou suprimidas pela lei de revisão.
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
10.6. Revisão constitucional, mutação constitucional e transformação
constitucional:
A revisão constitucional é um processo de alteração formal e de modificação
“discreta” (descontínua) do texto constitucional. Estando obrigadas a respeitar os
limites materiais existentes, as revisões constitucionais não põem em causa a
continuidade e a identidade da Constituição. Mudam a Constituição, mas não
transformam a Constituição.
As “mutações constitucionais” resultam em modificações da Constituição sem
revisão do texto constitucional, por efeito de evolução interpretativa ou da
formação de costumes ou “convenções” constitucionais (o costume não pode
anular normas constitucionais, mas pode mudar a sua interpretação ou criar novas
normas constitucionais). O texto da Constituição mantém-se inalterado, mas o seu
sentido muda.
Nem as revisões constitucionais nem as mutações constitucionais são suscetíveis
de constituir fontes de transformação constitucional, ou seja, de mudança da
identidade constitucional. Todavia, há modificações constitucionais que, pelas suas
implicações sistémicas, podem “impactar” a Constituição mais profundamente do
que as revisões “ordinárias”. Por outro lado, a cumulação de revisões e mutações
constitucionais pode ter o mesmo efeito. Os efeitos do conjunto de revisões e
mudanças constitucionais podem ser maiores do que os das partes; a acumulação
de mudanças quantitativas pode transformar-se em mudança qualitativa.
AGRADECIMENTOS:
Adriana Borges
Ana Rita Alves
David Silva
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1º ano de Direito Direito Constitucional CAD
Eduardo Leão
Érica Araújo
Gabriel Pinho
João Paulo Silva
Manuela
Marlene Ferreira
Matilde Campos
Miguel Ledo
Pedro Gomes
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direito verificado seja comunicado a um dos membros para posterior correção.
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