ESPIRITUALIDADE E FAMÍLIA
Ada Nicia Nogueira Diógenes Santos*
Resumo: O conteúdo desenvolvido é produto de uma pesquisa teórica e tem por objetivo explicitar a
relação entre espiritualidade, família e terapia familiar. Para tanto, contextualiza a discussão do tema,
analisa os conceitos de espiritualidade e família. Conclui enfatizando a importância da espiritualidade
para a família e a terapia familiar.
Palavras-chave: Espiritualidade; Família; Terapia familiar; Amorosidade; Solidariedade; Coexistência;
Religião.
Desejamos explicitar que entendemos o tema proposto no contexto que vivenciamos,
onde o verdadeiro sentido da contradição dialética, que conduz à unidade dos contrários, está
presente quando concomitante com a lógica materialista, exacerbada pelo capitalismo,
convivemos, principalmente no hemisfério sul, com a espiritualidade como um tema recorrente
na atualidade, saindo dos limites da religião e sendo assumido por cientistas, intelectuais, artistas
e até empresários. Sempre no sentido de busca de respostas que possam dar conta da
complexidade dos fenômenos, de inspiração para entender e explicar a rede de relações em que
os sistemas são constituídos e se modificam. Enfim, na busca da transcendência.
Entendermos a discussão da espiritualidade em um evento científico, fica fácil se
tivermos clareza das teorias que dão sustentação à temática maior: família e terapia familiar.
Pautados na teoria sistêmica e em autores como Leonardo Boff, Edgar Morin e Fritjof Capra, é
que explicamos a pertinência do tema em debate. Para estes autores, os fenômenos são
complexos porque tecidos em teia, e por isso não podem ser entendidos e explicados de modo
linear; são tecidos juntos, em um sistema que se encadeia numa infinidade de subsistemas
entrelaçados e indivisíveis, não comportando a exclusão da espiritualidade na explicação dos
fenômenos. Afinal, Morin (1998), ao explicar o conceito de complexidade, vai nos colocar o ser
humano como maior exemplo, posto que este é ao mesmo tempo de natureza física, biológica,
cultural, social, psíquica etc. Remete, portanto, para a concepção do ser humano como um ser
integral: matéria, mente e espírito.
Assim entendendo, vamos desenvolver nosso texto escrevendo primeiro sobre
espiritualidade, sobre família, para no final apresentar nossas conclusões.
ESPIRITUALIDADE
Para ser portador de espiritualidade, o ser humano não precisa de inteligência privilegiada
e nem de possuir vultosos bens materiais. Qualquer pessoa que vive em retidão, é solidária e
cultiva o espaço sagrado do espírito no pensar, sentir e agir; é, com certeza, possuidora de
espiritualidade. São esses valores não-materiais que vão definir a espiritualidade e que, em
momento de crise como o que vivemos agora, vão se constituir em busca e condição de
redefinição do ser humano. Por isso, podemos afirmar que a espiritualidade é uma experiência
vivida em todas as dimensões do ser, porque remete ao conceito de espírito, entendido aqui como
algo que transcende a matéria e representa a essência do ser humano.
*
Professora titular da Universidade Católica do Salvador. Mestra em Educação. Especialista em Terapia Familiar.
Conforme o Dalai-Lama (apud Boff, 2001, p.16), “Espiritualidade é aquilo que produz no
ser humano uma mudança interior.” É um conceito dinâmico pois tem em sua base a idéia de
mudança. E não podia ser diferente já que o ser humano é um ser mutante. Mas a mudança que a
espiritualidade produz é de profundidade, aquela que provoca transformação interior e é
exteriorizada através de palavras e atitudes.
São vários os caminhos para a espiritualidade, mas todos passam pelo auto-conhecimento
e pela busca da transcendência. O mais comum é a religião, fato que leva, muitas vezes, as
pessoas a confundirem as duas. Elas convivem e se relacionam, mas uma não pode ser
dependente da outra.
Religião está ligada à fé, à crença no sobrenatural e à possibilidade de salvação,
normalmente condicionadas a dogmas religiosos, rituais e orações que, embora possam levar à
mudança interior, nem sempre acontece. Constitui uma das mais significativas obras da
humanidade, mas não é sinônimo de espiritualidade.
Espiritualidade relaciona-se a
Qualidades do espírito humano – tais como amor e compaixão, paciência e
tolerância, capacidade de perdoar, contentamento, noção de responsabilidade,
noção de harmonia – trazem felicidade tanto para a própria pessoa quanto para
os outros. [...] Não existe portanto nenhuma razão pela qual um indivíduo não
possa desenvolvê-las, até mesmo em alto grau, sem recorrer a qualquer sistema
religioso ou metafísico. (BOFF, 2001, p.21)
A religião leva à espiritualidade quando não fica apenas na pregação e possibilita uma
prática que transforma o ser humano, dando-lhe uma visão ética do mundo, com atitudes de
amorosidade e compaixão para com os que sofrem, desenvolvendo um sentimento de
responsabilidade para com seus semelhantes, e aberto para acolher as mensagens que o cosmo
passa a todo momento. O contrário disso é quando conduz ao fundamentalismo.
A prática espiritual, que é o exercício da espiritualidade, é ética e possibilita um
movimento permanente de transformação interior em conexão com o exterior. Para esta, a
filosofia e a arte também podem contribuir bastante. Mas, como a religião, podem levar a um
outro caminho, bem diverso da espiritualidade.
Para Boff (2001), os pais fundadores dos caminhos espirituais (Buda, Jesus Cristo, Paulo
de Tasso, Ghandi etc) são pessoas carismáticas e que mergulharam de modo profundo nos
mistérios do Ser e tiveram, em decorrência disso, suas vidas transformadas a partir de uma
profunda mudança interior.
A essência da espiritualidade está na transformação interior que não se fecha em si. “A
partir do interior, ela desencadeia uma rede de transformações na comunidade, na sociedade, nas
relações com a natureza e com o universo inteiro” (BOFF, 2001, p.36).
A humanidade, ao longo de sua história, conforme Boff (2001), percorre dois caminhos
de espiritualidade, relacionados com a religiosidade: o ocidental, que afirma o caminho pessoal
com Deus que inclui o todo (“uma alma que se ilumina, ilumina o mundo” – Santa Tereza
d’Ávila), e o oriental, que afirma ser o caminho do todo (uma experiência de totalidade) que
inclui Deus. É uma experiência mística e ecológica. Não existe um caminho melhor que o outro,
pois a relação com Deus é pessoal. É um encontro entre desiguais que gera uma aliança (re-
ligare), na qual o diálogo é fundamental. Para o Dalai-Lama (apud Boff, 2001), a melhor religião
é a que te faz melhor, mais sensível, amoroso, humanitário e responsável. Assim, a experiência
da espiritualidade é de libertação.
Espiritualidade remete à experiência, mais especificamente, à vivência do espiritual.
“Desenvolver a espiritualidade é desenvolver a nossa capacidade de contemplação, de escuta das
mensagens e dos valores que impregnam o mundo à nossa volta” (BOFF, 2001, p.72). Como
toda experiência, ela tem uma dimensão pessoal, não podendo, portanto, seguir caminhos
preestabelecidos; revela-se na capacidade do ser humano de dialogar consigo mesmo e com o
outro e traduz-se em uma vida amorosa, pautada pela compaixão, sensibilidade de escuta do
outro e responsabilidade.
Seguindo esta estrutura de pensamento que coloca a visão de espiritualidade dentro de um
contexto maior, compatível com a teoria sistêmica, trataremos a seguir, baseada nesta teoria, da
concepção de família.
FAMÍLIA
Consideramos a atenção à família, tanto através de estudos quanto de ações, importante
por diferentes razões que poderíamos de modo resumido expressar, afirmando a nossa crença de
que a família, por ser uma estrutura na qual um conjunto de exigências funcionais se organizam,
conforme os membros interagem, vai se constituir no primeiro e mais freqüente espaço em que
as pessoas se deparam com a possibilidade diária de aprendizagem da difícil tarefa de conviver e
partilhar experiências, podendo, no exercício da mesma, atingir a coexistência.
O foco dado aqui à família não fica restrito a ela mesma. Primeiro, por ser um fenômeno
multidimensional e complexo; segundo, porque nos pautamos por um referencial sistêmico, a
nosso ver, o que melhor possibita tratar as questões aqui postas. Assim, não vamos nos restringir
aos limites do espaço privado, pois reconhecemos que a convivência familiar passa por questões
étnico-culturais, psicossociais, econômicas etc. Na forma como vem se modificando e
estruturando a família nos últimos tempos, é impossível falar de um modelo único. “[...] Ela se
manifesta como um conjunto de trajetórias individuais que se expressam em arranjos
diversificados e em espaços e organizações domiciliares peculiares” (FERRARI;
KALOUSTIAN, 1998, p.14).
Assim, podemos afirmar que a família se constitui em espaço de interação de indivíduos
com demandas individuais e trajetórias de vida inter-relacionadas, onde alguns membros saem,
novos membros se agregam, mas por ser um sistema aberto, nunca deixa de ser família,
mudando apenas a estrutura e os arranjos.
Minuchin (1982) afirma que o sistema familiar possui três propriedades. A primeira diz
respeito ao fato de que uma transformação que se processe, produzirá, pelo menos, uma
possibilidade de mudança. A segunda propriedade afirma que o sistema familiar está organizado
em torno do apoio, regulamentação, proteção e socialização de seus membros. A terceira e
última afirma que o sistema familiar tem a propriedade de se autoperpetuar.
Seguindo a lógica dos axiomas supracitados, podemos afirmar que a família atende a dois
objetivos inter-relacionados. Um interno, de preservação e proteção física e psicossocial de seus
membros, outro externo, de aculturação dos filhos (é a chamada socialização primária, passada
pela família e que vai se constituir na raiz e referencial cultural do ser). Ambos são muito fortes e
se constituem na base de sustentação do indivíduo, ao longo de sua vida. Podemos ainda dizer,
com base nestas afirmações, que é a família quem dá a seus membros o cunho de identidade,
tanto no sentido do pertencimento, quanto de separação. Dependendo de como estes são
administrados na família, vai se constituir a matriz de identidade de cada um dos membros.
Se no seu objetivo interno a família vai se constituir em matriz de desenvolvimento
psíquico, no objetivo externo vai fazer a ligação com a sociedade, assegurando a socialização de
seus membros e, conseqüentemente, a continuidade da cultura. Mas, ao assim fazer, vai passar
por transformações, decorrentes das mudanças socioculturais havidas na sociedade. Por isso,
afirmamos, que a família existiu e existirá, porém, mudando sempre em suas funções e estrutura,
na medida em que muda a sociedade, pois existe uma interdependência entre ambas. A família,
por ser um sistema aberto dinâmico e em transformação, vai estar sempre mudando na proporção
em que muda a sociedade. Como exemplo, podemos citar o processo de socialização que cada
vez mais cedo sai da família e passa para a escola, para os meios de comunicação de massa, para
a babá etc.
De qualquer forma, podemos afirmar que a família constitui o espaço que oferece
garantia de desenvolvimento aos seus membros, principalmente os filhos, independente da forma
como se estruture.
É a família que propicia os aportes afetivos e sobretudo materiais necessários ao
desenvolvimento e bem-estar dos seus componentes. Ela desempenha um papel
decisivo na educação formal e informal, é em seu espaço que são absorvidos os
valores éticos e humanitários, e onde se aprofundam os laços de solidariedade.
É também em seu interior que se constroem as marcas entre as gerações e são
observados valores culturais. A família, enquanto forma específica de
agregação, tem dinâmica própria, afetada pelo processo de desenvolvimento
sócio-econômico e pelo impacto da ação do estado através de suas políticas
econômicas e sociais. (FERRARI; KALUSTIAN, 1998, p.12)
Mesmo sofrendo os efeitos do sistema econômico, social, cultural e político no qual se
insere, a família pode ser entendida como uma unidade de referência para o sujeito. Por isso é
importante, na análise da mesma, incluir a dimensão psicológica, com ênfase na teoria do
vínculo, dando visibilidade ao sistema de laços afetivos que qualificam uma vivência em comum
que, com a maturidade do ser, leva a experiência da amorosidade no grupo familiar.
Pensar a família hoje, é entendê-la em um ambiente de transição e como um sistema que
a identificação e relação entre os seus membros, de modo integrado e em permanente interação
com o meio. É um conceito que remete à idéia de um grupo psicossocial concreto, relacionado à
cultura de uma determinada sociedade. Implica toda uma rede de parentescos e vínculos. Deste
contexto não podemos excluir as crises, mas devemos entendê-las como oportunidade de
mudança e crescimento, característica de todo sistema aberto.
A família brasileira é um exemplo claro de sistema aberto. Constituída de imigrantes
europeus, das mais diversas culturas e localidades, se associa aos imigrantes africanos/escravos e
aos índios, habitantes nativos, e vai constituir-se com características próprias oriundas dos
valores, hábitos e costumes das três etnias constitutivas do povo brasileiro.
Como toda história do ser humano se inscreve através de suas instituições, a família vem
a ser aquela que mais tem sofrido alterações, mas que também mais dinâmica e capacidade de
adaptação tem revelado. Esta percepção sistêmica de família pontua novos valores para a relação
entre os seus membros, pautados no desenvolvimento da afetividade e no fortalecimento de
vínculos, permitindo assim o princípio da auto-organização, autonomia e auto-transcendência,
características de todo sistema vivo.
É dentro desta visão sistêmica que vai surgir a terapia familiar, como uma proposta de
trabalho terapêutico voltado para famílias em crise.
CONCLUSÕES
A experiência da espiritualidade na família cria a condição para que o sistema familiar
pratique o diálogo, pois abre a possibilidade de escuta, compreensão e aceitação respeitosa do
outro como ele é. Seus membros vão ser capacitados para se alegrar e se enternecer com as
realizações um do outro, assim como também ter compaixão e continência para com as dores.
Quebra a relação de autoritarismo, dominação e posse, permitindo uma relação de comunhão e
coexistência.
A experiência espiritual (espiritualidade) na família não combina com o autoritarismo,
gerador de conflitos, intolerância e rebeldia, e que não permite a expressão da amorosidade e da
afetividade. Pelo contrário, em famílias que vivenciam a espiritualidade, a afetividade e a
solidariedade são estimuladas, possibilitando o entendimento e o crescimento interior de cada um
de seus membros, respeitando suas idiossincrasias.
O desenvolvimento da espiritualidade torna-se condição para caracterização da família
como um sistema aberto, quando desenvolve, em cada membro da família, a capacidade de
escuta das mensagens e valores que impregnam o mundo interno e externo da mesma.
Principalmente nos momentos de crise e de sofrimento, onde a família que tem espiritualidade,
ao invés de cair na revolta, vai buscar o significado da experiência intensa que está vivendo.
O terapeuta de família também precisa viver a experiência espiritual (espiritualidade)
para desenvolver a capacidade de escuta das mensagens e valores que impregnam o mundo de
cada família, ter compaixão, continência e amorosidade no atendimento às famílias, e cada
família deve viver no seu seio a espiritualidade para poder coexistir a partir desta experiência
espiritual que permite diálogo, respeito e amorosidade às diferenças individuais.
Muitas das doenças, principalmente psíquica, têm uma dimensão espiritual (questões não
resolvidas e recalcadas). A espiritualidade vivida na família e na terapia familiar vai permitir
trabalhar as doenças de um modo mais completo por atingir as suas causas mais profundas.
Trabalhar o tema espiritualidade e família num congresso de terapia familiar, não só é
pertinente, como também coerente com o pensamento sistêmico e o pensamento científico atual.
Reflete uma transformação, característica de quem vivencia a espiritualidade.
REFERÊNCIAS
BOFF, Leonardo. Espiritualidade: um caminho de transformação. [Link]. Rio de Janeiro: Sextante,
2001.
BOFF, Leonardo. Fundamentalismo: a globalização e o futuro da humanidade. Rio de Janeiro:
Sextante, 2002.
CARVALHO, Antonio César Perri de. Introdução- a família em um mundo em transformação.
In: CARVALHO, Antonio César Perri de (Org.). A família, o espírito e o tempo. São Paulo:
USE, 1994.
CAPRA, Frritjof. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. São Paulo:
Cultrix, 1982.
CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo:
Cultrix, 1996.
FERRARI, Mário; KALOUSTIAN, Sílvio Manoug. Introdução. In: KALOUSTIAN, Sílvio
Manoug (Org.). Família brasileira: a base de tudo. [Link]. São Paulo: Cortez; Brasília: UNICEF,
1998.
MINUCHIN, Salvador. Famílias: funcionamento & tratamento. Tradução de Jurema Alcides
Cunha. Porto Alegre: Artes médicas, 1982.
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. [Link]. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 1998.
MUTTON, Márcia Justino Rossini. Família, religião e sociedade. In: CARVALHO, Antonio
César Perri de (Org.). A família, o espírito e o tempo. São Paulo: USE, 1994.
NEUBURGER, Robert. O mito familiar. São Paulo: Sumus, 1999.