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História de Moçambique: Cronologia e Períodos

O documento apresenta uma análise da história de Moçambique, abordando a periodização dos eventos históricos desde a comunidade primitiva até a era contemporânea. Ele detalha as características de cada período, as fontes históricas disponíveis e a importância da tradição oral, além de discutir a organização social, econômica e política das comunidades moçambicanas ao longo do tempo. A obra é elaborada por Dr. Estêvão Ricardo Inguane e serve como um recurso educacional para a compreensão da história do país.

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História de Moçambique: Cronologia e Períodos

O documento apresenta uma análise da história de Moçambique, abordando a periodização dos eventos históricos desde a comunidade primitiva até a era contemporânea. Ele detalha as características de cada período, as fontes históricas disponíveis e a importância da tradição oral, além de discutir a organização social, econômica e política das comunidades moçambicanas ao longo do tempo. A obra é elaborada por Dr. Estêvão Ricardo Inguane e serve como um recurso educacional para a compreensão da história do país.

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História de Moçambique

Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Unidade I: Introdução à História


1.1. Periodização da História de Moçambique 1º Grupo
1.1.1. Os conceitos de periodização
A História tem como função localizar os acontecimentos no tempo e no espaço, isto implica periodizar e
elaborar a respectiva cronologia.

[Link]. A Cronologia
A cronologia é o ordenamento sequencial dos factos históricos, de acordo com as datas e/ou períodos da
sua ocorrência.
A cronologia – descrição ou registo de eventos organizados em função do tempo.

[Link]. Periodização
Periodizar – é dividir os acontecimentos históricos em grandes épocas, utilizando critérios como:
a organização política, social, económica e ideológica.

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


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Assim, Periodização – é a divisão dos fenómenos históricos em grandes épocas, destacando-se as


características principais que diferenciam um período do outro.

Períodos da História de Moçambique

Período Sub-período Características


 Predomínio da técnica lítica;
I Comunidade
 Uma divisão natural e social;
primitiva: caçadores
 Organização baseada em bandos, sem classes
e recolectores (séc.
sociais e consequentemente sem Estado;
III – IV n.e.)
 Prática da 1ª arte rupestre.
 Fixação Bantu em Moçambique;
II  Introdução e desenvolvimento da agricultura,
metalurgia e pecuária;
Pré-mercantil (séc.  A transição da economia recolectora para a
IV - IX) economia produtora;
 Surgimento das comunidades sedentárias semi-
permanentes;
Arabi –  1ª Exploração de recursos de forma intensiva,
III 1ª Fase:
persa fundamentalmente entre o Zambeze e o alto
Penetração Afro- (séc. IX – Limpopo;
mercantil (séc. IX – asiática XII)  Delimitação dos grupos etnolinguísticos;
XIX)  Intercâmbio comercial entre Moçambique
(Sofala) e o mundo extra africano.
Asiática  Edificação das primeiras sociedades de classe e
– dos primeiros Estados: Estado do Zimbabwe,
Africana:
Mwenemutapa e Marave;
Arabi –
swahili  Estabelecimento dos primeiros grupos islâmicos
(séc. XII na costa nortenha de Moçambique.
– XVII)
 Fixação portuguesa em Sofala (1505) e início de
conflitos com mercadores árabes;
 Ciclo de Ouro: formação de prazos e
desagregação dos Mwenemutapas;
 Ciclo de Marfim: desenvolvimento e
2ª Fase: Europeia –
desagregação dos Marave;
Indiana (séc. XVI –
 Ligação de Moçambique ao vice-reinado da
XIX)
Índia;
 Ciclo de escravos e emergência dos estados
militares, ajauas e reinos afro-islâmicos da costa;
 Mfecane e a formação do estado de Gaza.
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1ª Fase: Dominação  Ocupação efectiva e montagem do aparelho


do capital político administrativo;
Estrangeiro não  Trelamento de Moçambique com o capital
português (1886 – estrangeiro não português e surgimento de
1926) companhias majestáticas.
IV
 Introdução do Nacionalismo económico de
2ª Fase:
Penetração Salazar;
Nacionalismo
 Extinção das companhias majestáticas;
imperialista (séc. económico de
 Introdução de culturas obrigatórias;
Salazar (1926/30 –
XIX - XX)  Colonatos e planos de fomentos;
1962/4)
 Contestação a situação interna e formação de
movimentos nacionalistas.
 Abolição formal do indíginato e das culturas
3 ª Fase: Crise e
obrigatórias, introdução das propriedades dos
reestruturação do
colonos;
colonialismo
 Formação da Frente de libertação de
português (1962 -
Moçambique e inicio da luta de libertação;
1965)
 Política de portas abertas e construção de HCB;
 Governo de transição.
V 1ª Fase:  Proclamação da independência nacional;
Moçambique pós Monopartidarismo  Institucionalização de um estado marxista;
independência (1975 – 1992/4)  Desenvolvimento de uma economia dirigida;
(1975 aos nos dias)
 Guerra civil e acordos de paz.
 Eleições legislativas e multipartidárias;
Multipartidarismo
 Introdução da democracia parlamentar;
economia de mercado;
 Municipalização.

1.2. As fontes da História de Moçambique: tipos, as suas limitações e importância da tradição oral
2º Grupo

1.2.1. Conceito
Para que possamos relatar os acontecimentos do passado de Moçambique, torna-se necessário que haja
vestígios que nos permitam conhecê-los e datá-los. Estes vestígios denominam-se documentos ou fontes
históricas; que são os vários vestígios ou materiais deixados pelos homens, e que o historiador utiliza
para reconstruir o passado histórico.

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1.2.2. Tipologia das fontes da História de Moçambique


As fontes históricas geralmente podem ser apresentar-se em três grupos: tradicionais, monumentais e
escritas.
[Link]. Fontes Materiais ou Monumentais – são vestígios que sobraram do passado e que podem
contribuir para o conhecimento histórico.
Ex: estátuas, edifícios, arma, utensílios domésticos, restos humanos (ossadas, esqueletos, múmias), e.t.c.

[Link]. Fontes tradicionais ou orais – são narrativas transmitidas oralmente de geração em geração.
Ex: lendas, canções populares, crenças, usos e costumes, e.t.c.

[Link]. Fontes escritas – são todos documentos escritos. Ex: livros, cartas, papeis, jornais, escrituras,
inscrições.
As fontes escritas podem ser classificadas de acordo com material usado na sua inscrição (papiro,
bronze, pedra ou pergaminho) ou de acordo com o conteúdo do texto (fontes epigráficas, diplomáticas,
arquivísticas, narrativas ou literárias).
[Link].1. Fontes Epigráficas – são aquelas que se encontram gravadas em materiais duros como pedra;
bronze; cerâmica; e constam normalmente de textos curtos com fins comemorativos, funerários, [Link].

Ex1: placas de inauguração de um edifício, estátuas, praças, e.t.c.

Ex2: placas funerárias (onde vêm os dados do falecido).

[Link].2. Fontes Arquivísticas – são aquelas que constam os documentos de carácter oficial (tratados,
diplomas), ou jurídico (escrituras notarias, actos de assembleias, sentenças, inventários, registos
paroquiais).

[Link].3. Fontes Narrativas ou Literárias – compreendem a narrativas históricas (ex: os anais e as


crónicas), narrativas literárias (ex: romances, novelas, contos, e.t.c.). Estas fontes subdividem-se de
acordo com os materiais usados, com as técnicas adoptadas (impressos e manuscritos) e com o conteúdo
(obras históricas, obras literárias).

1.2.3. A importância da tradição oral para a história de Moçambique

1.2.4. As limitações das fontes da história de Moçambique

Falta de informações escritas fiáveis;


Inacessibilidade de fontes aos historiadores e fraco nível de desenvolvimento tecnológico.

Unidade II: Moçambique – da comunidade primitiva ao surgimento das sociedades de exploração

2.1. As comunidades de caçadores e recolectores

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Os primeiros habitantes do território que hoje constitui Moçambique foram os Khoisan ou Hotontes.
Estes remontam cerca de 12000 anos a sua presença na África Austral e subsistiram em Moçambique até
finais do 1º milénio d.c. Ocupavam as savanas dos rios Zambeze e Limpopo, chegando até ao leste do
rio Zambeze.

2.1.1. Características dos Khoisan

Modo de vida: os khoisan eram nómadas, ou seja, não tinham permanência fixa.

Organização económica: os Khoisan tinham como base económica: a recolecção, caça e a pesca. O
produto final era dividido por igual e destinava-se apenas para o consumo imediato.

O trabalho era dividido segundo o sexo e idade. Segundo o sexo: os homens iam à caça e a pesca;
enquanto as mulheres dedicavam-se à recolecção e ao preparo dos alimentos.

Organização social: os khoisan viviam organizados em bandos ou grupos de recolectores e caçadores,


dirigidos por anciões ou idosos. Mas, estes também trabalhavam de igual modo como os outros.

Organização ideológica: os khoisan tinham crenças mágicas. Veneravam os espíritos dos antepassados
mortos, aos quais faziam oferendas, pois acreditavam que estes espíritos lhes traziam protecção

2.2. Os povos de origem Bantu 3º grupo


2.2.1. A Expansão e a fixação Bantu
[Link]. Causas da expansão bantu
A procura de terras aráveis – devido ao aumento do deserto de Sahara;
O aumento populacional na floresta equatorial;
A disputa de terras entre as várias linhagens;
A difusão da tecnologia de ferro e da agro-pastorícia.

[Link]. As teorias sobre a expansão Bantu

Martin Hall resumiu as teorias explicativas sobre a expansão do povo Bantu, em três:

1. A Teoria linguística – os bantu não eram uma nova raça, mas sim povos falantes de línguas
aparentadas entre si – as línguas bantu.

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O processo de expansão da população Bantu teria resultado, da expansão encetada na Orla noroeste das
Grandes florestas congolesas, e de uma migração relativamente rápida para o sul, á cerca de 3000 anos.
Esta teoria tem várias vertentes:

 Para Joseph Greenberg – a migração bantu deu-se em direcção ao sul, a partir da zona de
fronteira entre os Camarões e a Nigéria;

 Malcom Guithrie – defende que o centro da expansão teria sido a região do Luba, na província
do Saba no Zaire.

A Teoria Racíca – os bantu eram uma nova raça que teria imigrado para o sul, substituindo ou
absorvendo as comunidades primitivas que habitavam a África Austral. Esta teoria foi rapidamente
criticada e abandonada.

A Teoria da domesticação de animais e plantas e da expansão do ferro

A difusão da nova tecnologia de ferro e da cerâmica e à domesticação das plantas e animais permitiram
a sedentarização das populações e o surgimento da desigualdade social. Em suma, a expansão bantu em
Moçambique, ocorreu como consequência do conhecimento da agro-pastoricia e do processo do fabrico
do ferro.

2.3. As sociedades moçambicanas após a fixação bantu: características

2.3.1. Organização económica

A base económica era a agricultura de cereais (mapira e mexoeira). No sul do Zambeze, essa
actividade era acompanhada pela criação de gado bovino, enquanto no norte do mesmo rio, a
recoleccão era indispensável à dieta alimentar. Outras actividades eram: olaria, tecelagem, metalurgia,
caça e recoleccão.
2.3.2. Nível de relações de produção
A agricultura determinava o nível das relações de produção permanente. As unidades de produção
constituíam-se em torno de grupos de parentes com sanguíneos definidos por via paterna sul do
Zambeze e por via materna ao norte.
A caça e a pesca praticadas individualmente não configuravam nas relações de produção duradouras. Os
grupos desfaziam-se no final de cada caçada ou campanha de pesca.

A maioria dos agricultores (mulheres) eram formados por pessoas livres que produziam para famílias
alargadas e em alguns casos eram utilizados como escravos domésticos na agricultura. Como produtoras
as mulheres detinham uma certa autoridade e controlo sobre os celeiros, mas estavam geralmente
excluídas da posse de bens mais valiosos e duradouros, como o gado.
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2.3.3. Organização social e política

Os bantu estavam organizados em linhagens ou famílias alargadas. A frente de cada linhagem ou


família alargada estava um chefe (Mwene, Humu, Aysene Mbumba, e.t.c.), com poderes políticos,
jurídicos e religiosos e um conselho de anciões.

O poder político era hereditário e exercido pelos homens, isto é, passava do pai para o filho mais velho
– sistema patrilinear, no sul do Zambeze. E do tio materno para o sobrinho – sistema matrilinear, no
norte do Zambeze.

Na linhagem matrilinear, o filho nascido de um casamento pertence à família da mãe; pratica-se a


Uxorilocalidade; isto é, com o casamento o homem deixa a sua povoação e vai para a da mulher. A
educação dos filhos não é assegurada pelo pai; mas pelo tio materno. Na transmissão do poder, este
passa para o sobrinho, filho da irmã mais velha. As mulheres dedicam-se à agricultura e os homens à
pesca, a caça e à construção de casas.

Na linhagem patrilinear - o filho nascido de um casamento pertence à família do pai. Pratica-se a


virolocalidade, isto é, com o casamento, a mulher transfere-se para a povoação do marido.

A terra era património e não propriedade das linhagens, não podia ser alienada, mas apropriada pela
força militar. Cabia ao chefe a função de assegurar, periodicamente a sua distribuição pelos membros da
linhagem. Os chefes também tinham a função de manutenção das relações entre os membros da
linhagem, a resolução de litígios, o controlo de impostos, das alianças matrimoniais, a saúde, e.t.c.

O conjunto desses chefes e anciões constituíam a classe dominante. Abaixo, encontrava-se a classe
dominada, constituída pelos homens livres (também com suas linhagens) e escravos domésticos. Esta
última classe era obrigada a pagar tributos.

2.3.4. Organização ideológica

As crenças mágico-religiosas constituíam a arma da manutenção do poder, da coesão social e da


aparente imobilidade. Os chefes das linhagens (anciões-sacerdotes) comunicavam-se com os
antepassados para pedir para si e seu povo: as chuvas, boas colheitas, protecção para a caça, guerras e
viagens. A crença na feitiçaria e curandeiros exprimia os conflitos sociais, a coerção moral, política e a
dependência familiar.

Vocabulário
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Linhagem - é um grupo de parentes, cujos membros descendem de um antepassado comum, através da


filiação materna e paterna.

Sistema Patrilinear – é um sistema cujo indivíduo se encontra sob autoridade e controlo dos membros
da sua linhagem agnática, em especial do pai e tios paternos.

Sistema Matrilinear – é um sistema cujo poder é assumido pela via feminina.

N.B: As primeiras aldeias das sociedades sedentárias localizavam-se, preferencialmente junto dos rios,
lagos e outras fontes de água, para melhor aproveitar a água para a irrigação dos campos, pastagem e
consumo. As casas eram construídas de madeira e, em seguida maticadas as paredes com barro.

A Transição da Economia Cinegética para uma Economia de Produção

A transição da economia cinegética (caça e recolecção) não foi violenta, tal facto explica-se pelo
seguinte: os Khoisan dedicavam-se a caça e a recoleccão, não dominavam o maneio do solo, por isso,
não constituíam perigo aos agricultores bantu;
Por sua vez, os bantu encontravam-se numa fase inicial da prática agrícola, sendo uma agricultura
itinerante, eles nunca se apropriavam das florestas dos khoisan; mas também porque os bantu
incorporavam actividades cinegéticas que eram do domínio dos khoisan.

Todavia, apesar destas situações os khoisan ficaram confinados nas áreas mais inóspitas de África
meridional, isto, resultou do abate progressivo das florestas e desajustes dos ecossistemas de que os
khoisan dependiam, obrigando-os a imigrar para as zonas não conquistadas pelos Bantu.

O início da diferenciação etnolinguística em Moçambique

As unidades e atribuições etnolinguísticas que conhecemos hoje são o resultado de um longo processo
de transformações e assimilações dos bantu dos anos 200 d.c. como também da diferenciação entre
povos de filiação matrilinear e patrilinear.

Assim, os nomes das unidades etnolinguísticas surgiram em períodos diferentes: os nomes Makua
(Makhuwa) e Lómuè, já existiam nos finais do século XVI. Com o desaparecimento do Estado Marave,
afirmaram-se nomes etnolinguísticos como: Nianja, Yao, Mwani e Maconde.
Os Chopi e Ndau surgiram aproximadamente em 1830, durante o Mfecane. No séc. XVII surge a língua
Sena, enquanto que o Shona teve significado actual no séc. XIX (1850 – 1885), e ficou aceite em
Moçambique no séc. XX; Tsonga ou Ronga e Matswa ou Tswa – séc. XVIII; Changana – séc. XIX.
Em suma, temos como grupos etnolinguísticos de Moçambique:

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Macua e Lomuè – no norte (Nampula, sul de Cabo Delegado, norte da Zambézia e sudeste do
Niassa); Maconde – em Cabo Delegado;
Kote, Nahara e Muâni - na costa norte de Moçambique, Nampula e Cabo Delgado.
Ajua, Yao, Cheua, Tauara, Nsenga e Nianja – Niassa, Tete e alta Zambézia; Chuabo – na
Zambézia;
Shona: Sena e Ndau – em Sofala, Zambézia e Tete; Nhúngue – Tete. Tewe e Báruè – Manica;
Tsonga – sul de Moçambique: Changana – Gaza e Maputo; Ronga – Maputo;
Bitonga e Chopi – Inhambane.

Unidade III: O ESTADOS DE MOÇAMBIQUE E A PENETRAÇÃO MERCANTIL


ESTRANGEIRA 4º grupo

3.1. O Surgimento da diferenciação social

Na comunidade primitiva, o trabalho era dividido por sexo e idade, praticava-se a caça e a recolecção,
utilizando instrumentos de trabalho rudimentares. A principal forma de organização social era em
bandos, e mais tarde famílias alargadas ou linhagens e clãs, onde todos trabalhavam e o produto final
era distribuído por igual.

Com a descoberta da agricultura e pastorícia, o homem torna-se sedentário e surge a diferenciação


social, pois estas actividades exigiam maior divisão do trabalho. A introdução de novas actividades
(metalurgia, tecelagem, olaria, e.t.c.) deu origem a novas profissões em que cada membro da
comunidade tinha uma função.

Por outro lado, o aumento da produção culminou com o aumento da população e da existência de
excedentes agrícolas – surgindo os primeiros sinais da diferenciação social, pois os chefes apropriaram-
se dos excedentes produzidos pela população. Ver organograma da diferenciação social

Prática da agro - pastorícia

Sedentarização

Aumento da produção + acumulação de excedente

Aumento da população Apropriação das riquezas por parte de alguns

Diferenciação social

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3.2. A abordagem teórica sobre a origem do Estado

3.2.1. A concepção marxista

O Estado é um órgão especial que surgiu num certo momento da evolução histórica da humanidade.
Nasceu da divisão da sociedade em classes. O Estado é uma consequência da sociedade de classes e
máquina de domínio de uma classe sobre a outra, isto é, o estado é um instrumento nas mãos da classe
dominante com objectivo de manter o domínio desta classe sobre a sociedade.

Para Karl Marx, o Estado consiste na especialização de um pequeno número de indivíduos com
determinadas funções não administrativas. Segundo Lenine – o Estado é produto e a manifestação do
carácter irrenunciável das contradições de classe.

Em suma, para a concepção marxista, o Estado é resultado da luta de classes entre os exploradores e
explorados, e nasce como um instrumento de coação, ou para exprimir a classe explorada.

3.2.2. A Concepção Liberal

O Estado é uma instituição organizada política, social e juridicamente, ocupando um território definido,
onde a lei máxima é uma constituição escrita, e dirigido por um governo que tem uma soberania
reconhecida interna e internacionalmente.

3.2.3. A Concepção Totalitária

O Estado subsistiu-se ao corpo político e identifica-se com a comunidade nacional. É o único meio de
vivência e expressão da vida cívica.

N.B: os elementos constituintes do Estado são: o território – espaço sobre o qual assenta a unidade
estatal; a população – conjunto de cidadãos que sustentam a vida estatal; a soberania – força que
legitima o Estado.

Em Moçambique, o Estado foi resultado do desenvolvimento das forças produtivas ocasionadas pela
introdução de tecnicas de produção, das quais o ferro e a agricultura assumem a função de base.

3.3. O Estado do Grande Zimbabwe 5º Grupo

3.3.1. Origem e localização espacial e temporal

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No século IX, uma migração trouxe ao planalto entre o Zimbabwe e o Limpopo, povos pastores
karangas (membros do actual povo shona), que foram de grandes construtores grandes muralhas de
pedra (Madzimbabwe ou casas de pedra). Foi o primeiro Estado de Moçambique, e existiu entre 1250 a
1450. Localizava-se entre os rios Limpopo e Zambeze.

Os Madzimbabwes eram uma demonstração de poder e, separavam a classe dominante da dominada.


Os restantes habitantes residiam fora das muralhas. Na capital (o Grande Zimbabwe) concentrava-se o
poder político e económico. Existia também um outro centro regional – o Manyikeni – localizado no
actual distrito de Vilanculos em Inhambane, a 50 km da baia de Vilanculos e a 450 km do Grande
Zimbabwe.

3.3.2. Actividades económicas

A base económica no Grande Zimbabwe era a agricultura e a pastorícia. Na agricultura produziam: a


mapira, o milho e a mexoeira. Na pastorícia criavam: o gado bovino, ovino e caprino. Também já
trabalhavam na mineração e faziam objectos de adorno. A existência de minas de ouro conferiu ao
estado a sua participação no comércio a longa distância com mercadores estrangeiros.

Foi este comércio que tornou Manyikeni num entreposto comercial tão importante. O comércio tornou-
se na principal actividade económica, com entrada dos árabes.

Principais produtos importados

 Tecidos e pérolas árabes; missangas de vidro colorido, porcelanas, louça vidrada, e garrafas de
vidro.

3.3.3. Organização político-social

A sociedade estava dividida em duas classes: a dominante – constituída pelo rei, auxiliado por um
conselho de anciões; e a classe dominada – composta pela comunidade aldeã.

3.3.4. Causas do declínio

 A seca do rio Save que dificultava a comunicação com a costa;


 As lutas clânicas pelo controlo do comércio a longa distância (entre o clã Rozwi, chefiado por
Mutota, e o clã Torwa);

 O aumento demográfico na região do planalto e a procura de terras férteis e de sal.

3.4.O Estado do Mwenemutapa

3. 5. Origem

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O Império Monomotapa (também grafado Mwenemutapa ou Muenemutapa, que era o título do seu
chefe) foi um império que floresceu entre 1440 – 1450, (estendendo-se até ao século XVII) na região sul
do rio Zambeze, entre o planalto do Zimbabwe e o Oceano Índico, com extensões provavelmente até ao
rio Limpopo. Foi fundado por Nyatsimba Mutota (primeiro Mwenemutapa) líder do clã Rozwi.

3.3.5. Estados vassalos

O núcleo central de Mwenemutapa situava-se entre os rios Mazoe e Luia; era circundado por vários
estados vassalos ou satélites, como: Bárué; Butua; Manica; Maungwe; Quiteve; Quissanga;
Sedanda. Estes estados eram dirigidos por parentes dos Mwenemutapas e estes nomeados, tinham a
tendência de se rebelar quando o poder central enfraquecia. Os chefes dos Estados vassalos, pagavam
tributo ao Mwenemutapa reinante.

3.3.6. Organização sócio económica

A sociedade shona caracterizava-se pela coabitação de dois níveis distintos:


 A comunidade aldeã – (a musha ou incube), estruturada pelas relações de parentesco;
 A aristocracia dominante – controlava o comércio a longa distância e dirigia as comunidades.

A articulação entre estas duas classes encerrava relações de exploração do homem pelo homem,
materializada pelas obrigações e direitos que cada uma tinha para com outra. As comunidades aldeãs,
sob a direcção dos mwenemushas, garantiam com o seu trabalho a manutenção e a reprodução da
aristocracia, e esta concorria para o equilíbrio e reprodução social de toda a sociedade com o
desenvolvimento de actividades não directamente produtivas.

Obrigações das comunidades aldeãs (mushas)

1ª Pagar: Impostos em trabalho

 Prestação de sete dias de trabalho mensais nas propriedades dos chefes;


 Mineração do ouro, quer para alimentar o comércio a longa distância, quer para importar
produtos de luxo;
 Construir casas para os membros das classes dominantes;
 Transportar as mercadorias de e para os estabelecimentos comerciais.
2ª Pagar: Imposto em géneros
 Marfim, peles e penas de alguns animais e aves, respectivamente;
 Materiais para construção de casas para a classe alta;
 Primícias das colheitas (tributo simbólico) e uma parte da produção (tributo regular).

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Obrigações da classe dominante


 Orientar as cerimónias de invocação das chuvas;
 Garantir a segurança das pessoas e seus bens;
 Assegurar a estabilidade política e militar;
 Servir de intermediários entre os vivos e os mortos.
3.3.7. Actividades económicas
A base da economia Estado de Mwenemutapa a era agricultura, onde produziam: o milho, a mapira, a
mexoeira e o naximim. Ao longo das zonas fluviais e costeiras, cultivavam o arroz (normalmente para a
venda). Esta agricultura era praticada com recurso à enxada de cabo curto. Também dedicavam-se à
pastorícia, o artesanato, o comércio e à mineração.

A mineração e o comércio eram controlados pela aristocracia dominante. A prática da mineração


ocupava uma pequena parte do ano (depois da colheita). Mais tarde este cenário mudou com a presença
mercantil estrangeira, onde a mineração passou a ser uma imposição.

3.3.8. Organização político-administrativa

Na sociedade shona, o Estado era personalizado pela pessoa do soberano, o Mwenemutapa, que deveria
desligar-se da sua origem terrena para conferir à «realeza» um carácter sagrado. Tornava-se assim, o
representante e o símbolo da unidade das comunidades. A fim de quebrar as ligações com a sua
linhagem, o mambo cometia no momento da sua entronização, o incesto com uma parente próxima (sua
irmã).

A autoridade do mambo processava-se por meio dos seus subordinados territoriais que integravam o
aparelho do Estado. Além de nove funcionários, três principais esposas do soberano desempenhavam
funções importantes.

Existia ainda sob as ordens do mambo os mutumes (mensageiros) e os infices (guarda pessoal do
mambo). Mais abaixo, encontravam-se os chefes provinciais designados por Fumos ou Encoses. Ao
nível das comunidades aldeãs (mushas), encontravam – se os Mukuros ou Mwenemushas – chefes de
aldeias (geralmente o ancião mais velho).

Para o cargo de Fumo, elegia-se os que tinham muita riqueza. Enquanto governante, o Fumo deveria de
forma ostentária (festas, doação,) redistribuir não apenas os bens que acumulara antes de ser nomeado,
como aqueles que recebia enquanto chefe.
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Depois que ficava pobre era destituído através de uma cerimónia onde lhe era atribuído certos símbolos
de prestigio, e passava a pertencer o grupo dos grandes por mérito.
3.3.9. A Ideologia

A religião foi um factor integrador fundamental do sistema político Mwenemutapa. Proprietário do


“saber”, da fecundidade da terra e depositários da ordem do mundo, os Mwenemutapas constituíam os
antídotos mais eficazes contra a desordem. Sua morte significava caos (choriros).

Praticava-se o culto aos espíritos dos antepassados – os Muzimus. Os Muzimus mais respeitados e
temidos eram o dos reis. Os especialistas que garantiam a ligação entre os vivos e os mortos eram
chamados swikiros (também denominados mbondoros). Associados ao poder político, os swikiros eram
o suporte das classes dominantes.

3.4. Os Estados Marave 6º grupo

O termo Marave foi usado pela primeira vez em 1616 e para designar várias formações etnolinguísticas.
Localizava-se ao norte do rio Zambeze, limitado a leste pelo rio Shire e o lago Malawi, e ao ocidente
pelo vale do Luangua.

Limites: Norte – Malawi; Sul – rio Zambeze; Este – Rio Luangua e a Oeste – Rio Chire.

3.4.1. Formação

Os Estados Marave formaram-se a partir de sucessivas camadas de imigrantes provavelmente oriundos


da região do Luba - congo), liderados pelo chefe Chanfole do clã phiri, entre 1200 e 1400. Os conflitos
dinásticos levaram à segmentação do clã original e novas linhagens se estabeleceram a oeste, sul e
sudeste do território ocupado pelos Caronga. Assim, Undi, um irmão de Caronga, move-se para o oeste
estabelecendo a hegemonia da sua linhagem sobre povos de língua Cheua – abrangendo o norte de Tete.

Por outro lado, Kaphwiti e Lundu anexaram as populações do vale do Chire. O Estado formado pela
dinastia dos carongas passou a ter, como estados satélites: Undi, Lundu, Biwi e Kaphwiti. Todos estes
estados eram governados por membros oriundos do clã phiri.

3.4.2. Principais actividades económicas

A principal actividade económica dos povos Maraves era a agricultura e o comércio a longa distância.
Pode-se aceitar que a Mapira era o cereal mais cultivado entre o Chire e Luangua. Cultivava-se também
o milho, mexoeira, amendoim, leguminosas, etc. A agricultura era itinerante sobre queimadas, sendo a
enxada de cabo curto como único instrumento utilizado. No estado Marave, para a produção agrícola
havia uma forma de cooperação entre os camponeses designada por Dima, que previa entre outros
aspectos garantir maior produção e productividade. É certo que os Maraves produziam e

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comercializavam as enxadas da metalurgia. Por outro lado, havia uma produção considerável de tecidos
de algodão para troca, designadas por “Machiras”.

Um outro produto saído do território Marave era o Sal e há evidências de que ele era adquirido por
mercadores Ajauas e Bisa.

Fonte económica do poder dos chefes

Tal como sucedia no império de Mwenemutapa, os benefícios da classe dominante provinham


essencialmente dos diversos tributos que recebiam e do controlo que exercia sobre o comércio a longa
distância. Existiam vários tributos, destacando-se:

Tributos regulares: marfim, tabaco, géneros alimentícios, esteiras, panos, trabalho regular nas terras
dos chefes, construção de casas e assegurar a manutenção da capital.

Tributos rituais: primícias das colheitas e as taxas devidas ao facto de os chefes orientarem as
cerimónias mágico-religiosas.

Ainda no Estado Undi, os súbditos eram obrigados a cultivar produtos para o interesse geral conhecidos
por “Munda ya Chiweta”. Com o produto do trabalho dos súbditos o Undi sustentava os visitantes e
litigantes, entretinha jogos e danças e socorria os necessitados.

Recebiam ainda taxas de vassalagem que incluíam penas vermelhas de certos pássaros, marfim, peles de
leão e de leopardo, tributo de trânsito dos comerciantes designado por Mororo ou chupeta.

3.4.3. Estrutura sócio-político e administrativa

Undi: Chefe máximo do Estado

Mambo: Chefe dos territórios conquistados

Mwene Dziko: Chefe Territorial

Mwene Mudzi ou Fumo: Chefe da aldeia

Todavia, há que salientar que cada chefe era servido por um conjunto de conselheiros os mbili, singular
ambili. Havia igualmente um corpo de funcionários subalternos como mensageiros e guarda do chefe.
Todos os chefes estavam ligados por laços de parentesco. Os membros da aldeia, os Mwene Mudzi eram
geralmente membros seniores das matrilinhagens locais, sendo o núcleo matrilinear básico designado

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por bele, formado pela mulher, por suas irmãs casadas e ou solteiras, filhos não casados, filhos das irmãs
e por incorporação pelo marido da mulher e pelos maridos das filhas da mulher.

[Link] das crenças mágico-religiosas

As crenças mágico-religiosas do Estado Marave eram destinadas a evocação das chuvas, a fertilidade
das terras, ao controlo das cheias. Esses cultos eram dedicados a entidades supremas como era o culto
do Muári ou Muáli, o culto de Chissumpi, que era a veneração de espíritos naturais e o culto de
Makewana.

A penetração dos Caronga-Phiri não foi violenta de tipo militar. Foi no entanto seguida de absorção
gradual dos cultos nativos. O domínio dos territórios através da absorção e adaptação da ideologia local
foi acompanhado pela prática de casamentos com mulheres dos clãs nativos. Em alguns casos, o Undi
casava com a irmã do chefe local, dando-lhe em troca uma das suas irmãs para ser esposa.

Assim, pode-se concluir que enquanto a sul do Zambeze a ocupação territorial de Nhatsimba Mutota foi
essencialmente de natureza militar, a norte do Zambeze a ocupação territorial dos Maraves se fez pela
conquista da esfera ideológica expressa nos santuários e nos rituais. A aristocracia dominante Caronga
era obrigada a casar-se com as mulheres saídas do clã Banda (clã originário da região).

3.5. A Penetração mercantil asiática – árabe-persa (séc. IX - XVI) 7º Grupo

Os árabes – persas chegaram em Moçambique a partir do séc. IX provenientes do Golfe Pérsico e da


Península Árabe e fixaram-se de forma lenta e progressiva ao longo da costa, particularmente na Ilha
de Moçambique, Quelimane e Sofala; onde estabeleceram relações comerciais com os povos locais.

De acordo com relatos de alguns geógrafos, existia com as «terras de Sofala» um comércio bastante
activo; no séc. X (943 n.e.) Al- Masudi (viajante árabe) refere que bilad as sufala (a terra de Sofala)
estava dependente de Sayuna – um centro comercial localizado na foz do rio Zambeze.

Factores da penetração árabe-persa


Económicos:
 A procura do ouro e marfim;
 O desenvolvimento do comércio – onde trocavam tecidos de seda; louça de vidro e de porcelanas
por ouro e, mais tarde por marfim.

Geográficos:
 O conhecimento náutico e terem uma situação geográfica privilegiada, levou os mercadores
asiáticos a procurarem a força dos ventos e monções.
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Religioso: a difusão da religião islâmica.


O comércio com os asiáticos (chineses, árabes malaios, indonésios e persas)

Produtos importados (trazidos)


 Tecidos brancos de algodão e multicores; Missangas e porcelanas da Índia.
Produtos levados (exportados)
 Ouro, marfim, escravos domésticos, carapaças de tartaruga, resina, serra e âmbar.

Consequências ou impacto da presença árabe-persa em Moçambique

A nível político

 Surgimento de chefacturas

 Surgimento de novas unidades políticas denominadas Reinos Afro-Islâmicos da Costa: Sultanato


de Angoche; e Xeicados de Sancul, Quitangonha e Sangage;

 Centralização do poder, isto é, os chefes dos Estados começaram a delimitar as suas fronteiras
para o controle das rotas comerciais.

A nível social
 Aprofundamento das desigualdades sociais;
 Surgimento de novos núcleos linguísticos: o Swahili na costa norte, Mwani – costa de Cabo
Delegado; o Koti em Angoche e o Nahara na Ilha de Moçambique.
A nível Cultural:
 A difusão do islão no norte (ao longo da costa);
 Difusão do modo de vestir (uso dos Cofiós, brincos no nariz Mwalide);
 Modos de construção de casas e templos, nos casamentos e ritos funerários.
A nível económico
 Integração de Moçambique na economia-mundo;
 Elevação do padrão de vida de consumo da classe dominante (os chefes passaram a ter acesso à
produtos de prestigio);

 Introdução de novas culturas agrícolas: bananeira, Coqueiro, Laranjeira, Limoeiro, Cana-de-


açúcar, Inhame e Arroz.

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3.7. A Penetração Mercantil Europeia: séc. XV – XIX 8º grupo

3.7.1. Factores da penetração


[Link]. Económicos:

Os portugueses chegaram em Moçambique nos meados do séc. XV (1498), chefiados por Vasco da
Gama, onde embarcaram pela primeira vez no rio Inharime, (Inhambane). Foi o ouro que trouxe-os a
Moçambique, dando início a uma nova etapa da história de Moçambique – a fase do ouro (1505 -1693).

A presença portuguesa em Moçambique e o Ciclo do Ouro: 1505- 1693

A actividade mercantil árabe-swahili em Moçambique data antes do séc. XI n.e. No início do séc. XVI
existiam milhares de mouros (termo que os portugueses designavam os árabes - swahili), no Estado do
Mwenemutapa, estes não comercializavam apenas: trabalhavam também o cobre e o ferro.

O ouro era o principal artigo de comércio, isto quer dizer que, muito antes da chegada dos portugueses
os árabes - swahili controlavam o ouro vindo do Mwenemutapa. Foi fundamentalmente o ouro que
trouxe os portugueses a Moçambique; porque o ouro permitia-lhes comprar, entre outras coisas, as
especiarias asiáticas com as quais a burguesia portuguesa penetrava no mercado europeu de
produtos exóticos.

Assim, Moçambique passou a constituir uma reserva de meios de pagamento das especiarias e essa
foi a razão por que os portugueses apareceram primeiro como mercadores e, só mais tarde como
colonizadores efectivos. A fixação portuguesa fez-se inicialmente no litoral, onde fundaram feitorias:

1505 – Fundação da feitoria de Sofala;

1507 – Fundação da feitoria da Ilha de Moçambique;

1530 – Fundação das feitorias de Sena e Tete

1544 – Fundação da feitoria de Quelimane.

Com a fundação da feitoria de Sofala, esperava-se controlar as vias de escoamento do ouro


provenientes do Império de Mwenemutapa, que tinha Sofala como seu terminal. Até 1530, os
portugueses e árabes lutavam pela hegemonia comercial, sendo que lentamente os últimos foram
substituídos como intermediários comerciais. A partir de 1530, os portugueses decidem penetrar no vale
do Zambeze e como corolário Sena e Tete são fundados, agora tratava-se não já do controlo das vias de
escoamento do ouro, mas sim, do próprio acesso às zonas de produção.

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A Penetração Portuguesa no Estado do Mwenemutapa – Ciclo do Ouro: 1505 – 1693

Como encontraram resistência dos shona-caronga, os portugueses penetraram pela via da ideologia,
enviando em 1561 o padre jesuíta Gonçalo de Silveira para baptizar o Mwenemutapa reinante e outros
membros da corte. Ao penetrar pela via ideológica, os portugueses pretendiam:

 Monopolizar o comércio do ouro; impedir a acção dos mercadores asiáticos; influenciar as


decisões políticas do imperador em seu benefício e, obrigar os camponeses a desviarem-se da sua
principal actividade produtiva para se dedicarem à mineração do ouro.

Apesar de baptizado, o Mwenemutapa acusou o padre de feitiçaria, condenando-o à morte. Como


retaliação, os portugueses enviaram em 1571 uma expedição militar chefiada por Francisco Barreto
com intuito de conquistar as zonas auríferas e punir os assassinos do padre Gonçalo de Silveira.

Mas, diante de conflitos interdinásticos (séc. XVII), Gatsi Lucere (o Mwenemutapa reinante), sentindo-
se impotente para acabar a revolta de Mathuzianye viu-se obrigado a pedir auxílio aos portugueses em
1607, tendo vencido o seu oponente.

Como agradecimento Gatsi Lucere, cedeu as minas do ouro do seu Estado aos portugueses. E com a
morte deste, subiu ao trono o seu filho Caprazine (1627), que era contra a presença portuguesa. Este,
viria a ser substituído pelo seu tio Mavura que foi baptizado tendo mudado de nome para Filipe II e por
meio de um tratado, declarou-se vassalo de Portugal em 1629.

Pelo tratado de 1629, Mavura fez enormes concessões militares, económicas e políticas a Portugal, a
saber:

 Aceitar uma força militar de 50 soldados na corte;

 Permitir a criação de prazos;

 Não obrigar os mercadores portugueses a pagarem os impostos (curva);

 A livre circulação de homens e mercadorias;

 Facilitar o estabelecimento da igreja católica; obrigatoriedade do Mwenemutapa consultar o


capitão português de Massapa antes de tomar uma decisão;

 Não obrigar aos funcionários e mercadores portugueses a observância das regras protocolares
quando recebidos na corte (tirar o chapéu, descalçar, ajoelhar...).

Mavura ao fazer concessões, atentava contra o direito consuetudinário Shona que defendia que a terra
não podia ser vendida, nem alienada, o que constituía uma grande falta de respeito para com os

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espíritos dos antepassados. Com este tratado, o imperador deixou de representar e executar a vontade
dos antepassados e tornou-se, portanto, desmerecedor do cargo.

Assim, em 1693, o Mwenemutapa Afonso Nhacunimbite, insatisfeito com os portugueses, convidou o


chefe do Butua, Changamire Dombo, para liderar um levantamento contra eles. E em dois anos,
conseguiu expulsá-los. Este levantamento teve como consequência o fim do Ciclo do Ouro e o Início
do Ciclo de Marfim.

Consequências da presença portuguesa no Estado do Mwenemutapa 9º GRUPO

A erosão da economia das mushas foi evidente nos meados do séc. XVIII, quando milhares de
camponeses passaram a dedicar menos tempo à agricultura e mais tempo à mineração quer directamente
para os portugueses quer para o Mwenemutapa. Muitas pessoas morriam nas minas por aluimentos
provocados por deficientes condições de trabalho.

Eram sobretudo mulheres e crianças que trabalhavam nas minas em condições duras e perigosas, ao
penetrar nas escuras galerias à procura do ouro. O trabalho forçado nas minas provocou, por outro lado,
a fuga de comunidades inteiras, particularmente nas áreas mineiras.

A antiga renda em género foi gradualmente transformada, nos estados com minas de ouro, numa renda
em trabalho de prospeção mineira.

3.5. A Penetração Mercantil Portuguesa nos Estados Marave: O Ciclo de Marfim (1693 -1750/60)

Com o levantamento de 1693, que constitui a primeira forma de resistência em Moçambique, a produção
e a comercialização do ouro diminuiu e o marfim passou a ser o produto mais procurado pelos
mercadores.
No entanto, nos territórios situados entre o rio Luangua e Quelimane fazia-se bastante comércio de
marfim e a produção, bem como a sua comercialização era controlada pelas classes dominantes phiri,
especialmente pelos phiri karonga e lundu, e em troca recebiam tecidos e missangas. Tal como o ouro
para a aristocracia karanga, o marfim representava para os phiri uma das suas principais fontes de
reprodução. Razão pela qual, a divisão social de trabalho nos Estados Marave, sobretudo nos Estados de
Caronga e Lundu, contemplava a organização da caça ao elefante.

No terceiro quartel do século XVI, os guerreiros nianjas dos Lundu, encetaram um movimento dos
comerciantes árabes-swahili com mercadorias destinadas aos Caronga, ocupando Lomuè, Angoche,
Macuana (Uticulo e Cambira – Ilha de Moçambique), e.t.c. Esta expansão abriu uma nova rota
comercial (Chire - Mussuril) favorável especialmente aos Lundu que, para melhor a controlarem,

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22

instalaram chefes Phiri. Porém, em 1622 os Caronga fizeram uma aliança militar com os portugueses e
os Lundu foram derrotados, passando os phiri a controlar virtualmente a rota Chire – Mussuril. Em
1687, o comércio de marfim passou a ser com os Ajauas, vindos do lago Niassa, estes, não só eram
melhores produtores de marfim, mas também de azagaias e tabaco.

O comércio de marfim conheceu o início do seu fim nos finais do séc. XVIII e princípios do séc. XIX,
quando a venda do homem como mercadoria se tornou uma prática normal.

Decadência dos Estados Marave


 A concorrência dos ajauas provenientes do Niassa, no comércio de marfim;
 Conflitos no seio da classe dominante (entre Caronga e Lundu) pelo poder;
 Os bloqueios dos portugueses às trocas entre árabes – swahili e os phiri, com a penetração no
vale do Zambeze a partir de 1530;
 A política de casamentos com as filhas de chefes Undi;
 A invasão dos Nguni provenientes do movimento Mfecane.

3.6. Os Prazos da Coroa em Moçambique 10º GRUPO

3.6.1. Processo de formação

Os prazos foram pequenas unidades políticas estruturadas no interior dos estados de Mwenemutapa por
mercadores chineses, indianos e portugueses, ocupando a área que cobria a região do vale do Zambeze.
A origem dos prazos deveu-se a um processo de aquisição de terras por parte dos indivíduos acima
referidos às autoridades locais obedecendo três critérios distintos:

 Doação – alguns dos prazos surgiram a partir da doação de terras pelos chefes africanos aos
mercadores, algumas vezes casados com as filhas desses chefes.

 A compra – outras terras foram adquiridas por mercadores aos chefes africanos a partir da
compra, exercendo assim, o seu domínio político, económico e social;

 A conquista – finalmente houve mercadores que usaram via militar para retirar as terras dos
africanos, ocupando-as sem o consentimento desses.

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Em 1618 foram estipuladas algumas directrizes que deviam ser seguidas pelos senhores prazeiros a
saber:

 Foi estipulada uma taxa anual a ser paga pelos prazeiros à fazenda (então ministério das finanças
português);

 A obrigatoriedade de renovação das concessões das terras de três em três vidas (gerações);

 Em caso de morte do titular das terras, a transferência da propriedade devia ser feita por via
feminina, isto é, a herança passava do senhor prazeiro para a sua mulher geralmente de origem
portuguesa ou para ou para a filha mais velha como forma de evitar casamentos entre brancos e
negros, e dessa forma pretendia-se atrair maior número de mulheres portuguesas para a colónia o
que permitiria o povoamento branco dos mesmos.

Entretanto, ao surgirem os Prazos, a coroa portuguesa atribuiu-lhes o estatuto legal e a obrigação de


pagarem foros. Isto quer dizer: Portugal pretendeu dar aos Prazos do Vale do Zambeze o estatuto dos
“feudos” portugueses e a natureza da estrutura feudal que dominava a sua sociedade. (Serra, 2000:65)

Formalizando o sistema de prazos em Moçambique, o governo português pretendia acelerar a


colonização de Moçambique com o incremento da população branca.

Não obstante o esforço da coroa portuguesa neste sentido, o sistema idealizado por Portugal enfrentou
grandes dificuldades para a sua efectivação o que contribuiu para o seu fracasso. Estas dificuldades
prenderam-se com o facto de a maioria dos proprietários dos prazos terem sido indivíduos considerados
personongratos por várias razões; a saber:

 Eram criminosos; opositores do regime português e desertores do exército que se encontravam


em Moçambique a cumprir suas penas, razão pela qual não se identificavam com os interesses da
coroa;

 Outra força oposta aos interesses portugueses estava relacionada ao facto de pelo seu número
reduzido, os prazos encontrarem-se dispersos o que não permitia a promoção de acções com vista
a incutir nos africanos hábitos e costumes portugueses. Pelo contrário eram os portugueses que
acabavam assimilando os valores culturais africanos;

 Por outro lado, os prazos eram militarmente superiores em relação ao exército português, o que
limitava a capacidade de pressão sobre os prazos por parte do governo português;

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 A tentativa teve pouco êxito, primeiro porque a força administrativa – militar portuguesa era
normalmente fraca e, segundo, porque quem " mandava " e quem impunha a "lei" no vale do
Zambeze eram os próprios prazeiros;

 Como se referiu anteriormente, muitas terras foram adquiridas pelos prazeiros sem a
comparticipação da coroa, e por está razão os senhores prazeiros não reconheciam a autoridade
portuguesa nas terras sob seu domínio.

3.6.2. Organização Administrativa dos Prazos da Coroa

Os senhores prazeiros gozavam de uma independência quase total em relação à coroa portuguesa no que
diz respeito à administração dos seus territórios. Assim, os prazeiros estipulavam livremente os preços e
leis a serem cumpridas, e tinham os seus próprios exércitos constituídos por escravos guerreiros
conhecidos por "A-chicundas", assim como mercenários de diversas origens incluindo portugueses,
pelos quais mantinham a defesa dos territórios e faziam incursões militares.

O prazo era dividido em aringas. No topo do prazo encontrava-se o mambo auxiliado por: Fumos,
Chuangas, Muanamambos, Mussambazes e A-chicundas.

3.6.3. A base Económica dos Prazos do Vale do Zambeze

O sustento dos senhores prazeiros era feito com base nas pilhagens feitas contra outros estados e
chefaturas africanas. Cobrança de imposto aos camponeses, o comércio de escravos e a extracção e
comércio de ouro.

3.6.4. Estrutura Social

Deve-se salientar que, os prazos constituíam uma síntese de produção, uma pré-existente na região,
constituída por dois níveis:

 O da comunidade aldeã (mushas), que constituía a classe mais baixa na hierarquia, a aristocracia
dominante (com Mambo à cabeça) que ocupava o topo. Está classe, tinha como obrigação
sustentar a classe dominante, produzindo para si e para o senhor prazeiro;

 Outro, constituído pelos senhores prazeiros e os a-chicundas aliados à autoridade tradicional


(mambos e fumos), que constituíam a classe dominante.

3.6.5. Categoria de Escravos

 Os A-chicundas - eram escravos guerreiros responsáveis pela defesa do território, pela captura
de escravos para a venda e pela cobrança de impostos;

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 Mussambazes – eram escravos comerciantes;


 Chuangas – escravos inspectores: fiscalizavam as actividades dos mambos e fumos;
 Mucazambos ou Muanamambos – escravos responsáveis pela administração interna;
 Miacoda – escravos que dirigiam a actividade de mineração do ouro.

3.6.6. O Aparato Ideológico

A nota mais importante neste ponto é o facto de como se disse anteriormente, ao invés de serem os
senhores prazeiros a incutir nos africanos os seus hábitos e costumes, acabaram sendo eles a adoptar as
práticas mágico-religiosas dos africanos. Assim, destaca-se a adopção do muave1. Também foi adoptada
pelos prazeiros a veneração dos espíritos dos antepassados dos nativos bem como os cultos para a
invocação das chuvas, sucesso nas colheitas, terras férteis, e.t.c; os senhores prazeiros africanizaram-se.

3.6.7. Decadência dos Prazos

A decadência dos prazos teve lugar por volta da 1ª metade do séc. XIX como consequência de diversos
factores, a saber:

 O crescente interesse dos prazeiros pelo comércio de escravos, facto que os levou a vender os
camponeses e os a-chicundas, resultando na fragilização da produção e defesa dos prazos;
 As invasões Nguni, iniciadas em 1832, onde até 1849 Sochangana, tinha dominado cerca de 28
dos 48 prazos existentes e;
 A ausência de força militar e administrativa portuguesa eficiente e, as secas e a fome.

3.7. O Comércio de Marfim e a expansão colonial: o papel da companhia dos Mazanes 11º Grupo

Quando os portugueses fixaram-se em Moçambique, duas fontes de rendimento se destacavam: os


direitos aduaneiros cobrados na Ilha de Moçambique e Quelimane e o comércio. A coroa não conseguiu
lucrar com os prazos, e o pouco lucro que conseguia ia para Goa onde se encontrava o vice-rei
português.

1
Uma bebida tóxica que servia para provar a culpabilidade ou não do indivíduo em relação a determinado delito ou feitiçaria.
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26

Já no séc. XVII, a Índia era uma verdadeira metrópole comercial de Moçambique. Em 1686, o
monopólio comercial entre a Ilha de Moçambique e Diu foi entregue aos baneanes, isto é, à
Companhia dos Mazanes2 - constituída por mercadores indianos e ricos armadores, situados em Diu.
Privilégios da companhia dos Mazanes
 O monopólio de artigos de exportação como: marfim, âmbar e caracaças de tartarugas;
 A protecção dos jesuítas e do vice-rei português na Índia;
 Apoio logístico e comercial.
A formação da companhia dos Mazanes reflectia as contradições existentes entre o rei em Portugal e o
vice-rei na India, onde iam todas as riquezas provenientes de Moçambique. Em 1687 chegaram os
primeiros sete baneanes à Ilha de Moçambique.

N.B: O forte capital e ligações com o mercado indiano, a sua capacidade de negócio, o seu
comportamento e os privilégios recebidos fizeram com que a companhia controlasse todo o comércio a
grosso e a retalho entre Diu, Goa e a Ilha de Moçambique.

O rápido sucesso da companhia dos Mazanes

O sucesso imediato da companhia dos Mazanes foi motivado pelos seguintes factores:

 Trafico regular com os macuas dos reinos vizinhos e sazonalmente com mercadores yao. Este
comércio era feito pelos portugueses que recebiam a crédito a mercadoria fornecida pelos
baneanes;
 Envio para o interior de mercadores africanos – os patamares – que actuavam como
intermediários do comércio entre a costa e o interior;
 Como os baneanes entregavam as suas mercadorias a crédito, cobrando em juros de 10%, quem
não conseguisse saldar as suas dívidas perdia tudo a favor deles.
As principais zonas do comércio de marfim

Durante o séc. XVII, o marfim era produto mais procurados na Europa e na Ásia, visto que era usado
para a produção de bolas de bilhares, bijuterias e artigos usados nas cerimónias núpcias hindus. Assim,
as principais zonas de comércio de marfim em Moçambique eram:

 Ilha de Moçambique; Chire; Mossuril; lago Niassa; Delagoa Bay (baia de Maputo);
 Macuana: Uticulo, Cambira e Uocela – o comércio da Macuana era das principais fontes de
obtenção de riqueza dos comerciantes.
Os principais intervenientes no comércio de marfim

2
A Companhia dos Mazanes foi fundada em 1686, localizava-se em Diu
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27

 Comerciantes baneanes, comerciantes e governadores portugueses, chefes yao, chefes phiri –


lundu, chefes macuas e chefes nhaca.
A separação de Moçambique de Goa: sua importância

A 19 de Abril de 1752 por decreto-régio do rei D. José I, Goa separa-se de Moçambique, sendo
nomeado governador e capitão – geral de Moçambique D. Francisco de Melo e Castro.
Com a separação, a coroa portuguesa pretendia que Moçambique se subordinasse directamente a Lisboa
e não a Goa, pois pretendia obter o controlo do comércio em Moçambique. Em 1753, o governador-geral
procura acabar com a ingerência de Goa na administração financeira e comercial de Moçambique e, em
1758, os baneanes são proibidos de possuir qualquer propriedade na Ilha de Moçambique.

3.8. O Ciclo de escravos 12º Grupo

3.8.1. Início do tráfico de escravos em Moçambique

Na segunda metade do século XVIII, a procura de escravos ultrapassou a procura do ouro e marfim. Já
não se tratava de adquirir uma matéria-prima de origem mineral (ouro) ou animal (marfim), mas sim de
comprar ou de capturar aquele que tirava o ouro à terra e a presa ao elefante: o Homem, o próprio
produtor, tratava-se da matéria-prima humana. De 1645 a 1671, o arquipélago das ilhas de Cabo
Delegado vivia exclusivamente do comércio de escravos.

3.8.2. Intervenientes e o destino dos escravos

Numa 1ª fase cerca de 1740, os escravos eram adquiridos pelos franceses, que os levavam para as suas
plantações de açúcar e café nas ilhas Mascarenhas, no Índico. Na segunda fase e dadas as solicitações
de mão-de-obra na América do Sul, sobretudo do Brasil para assegurar a produção nas plantações de
açúcar, café, algodão e cacau, nas minas de diamantes destacaram-se nesta fase: os mercadores
brasileiros, norte e centro - americanos. Esta fase durou até a 1ª metade do século XIX.

A 3ª fase vai desde a abolição oficial do tráfico de escravos, em 1836 e 1842, quando a saída clandestina
de escravos fazia-se através dos Xeicados de Quitangonha, Sancul e Sangage e do Sultanato de
Angoche, e dos Prazos.

3.8.3. Os locais de recrutamento de escravos em Moçambique

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


28

Os escravos eram adquiridos por excelência no vale do Zambeze e na faixa litoral norte, o “interland”,
do rio Ligonha à Baía de Memba. Outras áreas de menor importância foram o “interland” de Inhambane
e a Baía de Maputo. De salientar que as populações de origem Macua foram as mais sacrificadas e
levadas para as Ilhas francesas (Mascarenha, Reunião, Comores e Madagáscar), Golfo Pérsico, Brasil,
Cuba e Zanzibar.
Durante todo o século XIX o panorama político e económico do norte de Moçambique foi
completamente dominado pela captura, transporte, comercialização e exportação de escravos.

3.8.4. Meios ou formas de obtenção de escravos

Para a obtenção de escravos, os chefes das várias tribos envolviam-se em guerras e os que saíam
derrotados eram feitos reféns e consequentemente transformados em escravos; também eram feitos
escravos os que tivessem dívidas de impostos.

3.8.5. As medidas abolicionistas

Ao longo do século XIX foram promulgadas pelas potências com interesses coloniais no Índico
(particularmente a Inglaterra) várias leis abolicionistas. Para o inglês Eric Williams, a abolição do tráfico
de escravos servia poderosamente aos interesses económicos da Inglaterra industrial nascente.

A 25 de Março de 1807 a Inglaterra aboliu o tráfico negreiro; em 1810, Portugal faz vagas promessas de
não tráfico negreiro entre a costa Ocidental africana e as Américas, e em troca de abertura do mercado
britânico dá-se o tratado bilateral Luso-Britânico, onde Portugal comprometia-se a não usar a sua
bandeira para o comércio de seres humanos. Em 1817 foram os franceses a decretar as suas disposições
abolicionistas.

A 10 de Dezembro de 1836 foi publicado o decreto abolicionista Sá da Bandeira - que proibia o tráfico
de escravos em todas as possessões portuguesas. E em 1842 foi assinado o tratado anglo-português,
que comparava o tráfico de escravos com à pirataria, autorizando a marinha britânica a inspeccionar os
navios com bandeira portuguesa e cria comissões para julgar os presos.

Portanto, foi a partir de 1842 que o tráfico negreiro foi legalmente considerado contrabando
simultaneamente pela Inglaterra, Portugal e Brasil, tornando mais difícil a sua prática. No entanto, as leis
nunca tiveram efeitos imediatos. No caso de Moçambique, a reacção as mesmas provocaram uma
reestruturação incontrolável do tráfico negreiro, que se tornou mais sinistroso que no passado, por causa
dos interesses esclavagistas na região e as fracas capacidades colonialistas da burguesia portuguesa.

3.8.6. O Impacto do tráfico de escravos para as sociedades moçambicanas

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


29

O tráfico de escravos provocou: o desalojamento da força de trabalho, o que resultou na estagnação das
sociedades moçambicanas; a fuga das populações, originando grandes zonas despovoadas; a paralisação
do desenvolvimento da população; fome e miséria; decréscimo demográfico; em algumas zonas como,
como nos prazos e no Estado dos Ajua, notou-se a reestruturação sócio - económica de tipo empresa de
captura e caça de escravos provocando a degradação dos vales socais e morais.

N.B: No entanto, a escravatura levou ao enriquecimento da Europa e de uma minoria dos chefes locais.

OS ESTADOS MOÇAMBICANOS DO SÉCULO XIX 13º grupo

Os Estados Militares do Vale do Zambeze

Estados Militares – é um termo usado para designar a enorme militarização da empresa de caça e uso
de escravos, com a sua fortificação mãe – a aringa e outras fortificações secundárias.

Formação dos Estados Militares do vale do Zambeze


Em 1820 e 1960, foram criadas as bases para a formação dos Estados militares do vale do Zambeze,
produto dos «escombros dos antigos prazos». Estes constituíam uma versão mais complexa dos prazos.
Os estados possuíam um exército de A-chicundas, com espingardas. Estes estados estendiam-se do
Zumbo ao Indico. A base de rendimento era essencialmente o comércio de escravos e, em menor
escala, do comércio de marfim.
Factores da origem dos Estados Militares
 A invasão do exército de Mwenemutapa (1820/35) aos prazos provocando a funga dos prazeiros,
A-chicundas e a população;
 As invasões dos Nguni: Zwangendaba e Nguana (1830/44) provocaram o abandono das feiras
do Zumbo e de Manica. Cerca de 1840, os Nguni tinha ocupado 28 dos 46 prazos que ainda
existiam;
 O tráfico de escravos no vale do Zambeze para o Brasil, levou os prazeiros gananciosos de lucros
a exportar o próprio sustentáculo dos prazos – os A-chicundas.
Esses três factores contribuíram para a eclosão das dinastias dos «senhores de escravos». Áreas de
antigos prazos foram ocupadas e milhares de A-chicundas foram reagrupados a troco de tecidos,
bebidas e de armas de fogo. Por outro lado, o governo português, receoso do ataque dos Nguni no vale
do Zambeze, resolveu conceder apoio aos senhores de escravos, dando-lhes patentes administrativas e
militares (capitão – mor ou sargento – mor).
Os Estados militares foram fundados por comerciantes de marfim e escravos, conhecidos por
muzungos (brancos): europeus, goeses e seus descendentes de casamentos com africanos.

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Os principais Estados Militares do vale do Zambeze

Estado Ano de fundação Fundador Base económica


Macanga 1770 – 1859 Gonçalo Caetano Pereira (Dombo –
Dombo)

Massangano 1849 Joaquim da Cruz (Nhaude) Comércio de


1855 – 1879 António Vicente da Cruz (Bonga) escravos, marfim,

Massingir 1800 Paulo Mariano Vaz dos Anjos e cobrança de imposto


Fernando Vaz dos Anjos (mussoco) em
géneros, dinheiro e
Gorongosa Manuel António de Sousa (Gouveia)
trabalho.
Maganja da Costa 1862 – 1898 Bonifacío da Silva (Mpasso)

Matequenha e 1800 Dona Júlia da Cruz (Guengue)


Kanhemba

Makololo 1858 Antigos carregadores de Levingstone Comércio marfim, e


cobrança de imposto

Base económica
Os Estados Militares viviam essencialmente do comércio de escravos e, em menor escala, do comércio
de marfim. A cobrança do mussoco (imposto), que podia ser em trabalho, em espécie e, mais tarde em
dinheiro, foi uma importante fonte económica do poder da aristocracia. A pilhagem e a incursão aos
Estados vizinhos também constituíam uma importante fonte de capitação de riquezas.

Estrutura social

A estrutura social dos Estados militares era mais complexa do que a dos prazos. Os chuangas – faziam
o papel de inspectores administrativos e fiscais, policiavam os Mambos e Fumos.
Os A-chicundas facilmente ganharam a sua liberdade. Encontravam-se organizados em regimentos – as
butacas, á frente dos quais estava o Mucazambos ou Cazembe. Cada regimento dividia-se em Pelotões
(ensacas) dirigidos pelos lugares-tenentes dos Mucazambos.
Os A-chicundas tornavam-se escravos através de: da captura num ataque militar, entrega aos prazeiros
em anos de escassez agrícola ou fuga a acusações de feitiçaria.

Chefe do Estado Militar

A-chicundas
Chuangas
Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane
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Mambos e Fumos

Comunidade aldeã

Ideológica

Através da política de africanização, a classe dominante tentou afastar a ideia de súbditos locais e
intrusos. Adoptaram os rituais e os símbolos da realeza local (Macanga, Kanyemba e Massangano). O
Estado de Macanga adoptou a investidura do rei e a manutenção dos locais sagrados.

Decadência

Até 1830, a maior parte dos estados militares estava em declínio. Este declínio teve como causas:
 As secas e a fome; A ausência de uma força militar e administrativa portuguesa;
 A competição entre os prazeiros e entre estes e os povos vizinhos;
 O desenvolvimento do tráfico de escravos, que chegou a obrigar alguns prazeiros a vender os
seus camponeses e os A-chicundas;
 As invasões Nguni, que começaram em 1832. Por volta de 1840, Sochangane tinha ocupado 28
dos 46 prazos que foram incorporados no Estado de Gaza.

Os Estados Ajauas ou Yao 14º grupo

O termo «yao» significa um monte sem árvores e sem qualquer tipo de vegetação.

Localização geográfica

Os Estados Ajauas desenvolveram-se nas zonas macuas, actuais províncias de Nampula, Niassa e Cabo
Delegado, tendo como centro de poder político a região de Muembe – Niassa. Era limitado por quatro
rios: Ocidente – Lucheringo; Sul – Luambala; Oriente – Lugenda, e, Norte – Rovuma.

Organização política e social

Até meados do séc. XVIII, os ajauas viviam em pequenas comunidades matrilineares designadas por
Mbumba – sob a autoridade de um irmão mais velho, o Asyene Mumba.

Como sociedade matrilinear, as mbumbas agrupavam irmãs casadas e os seus maridos, irmãs solteiras,
homens solteiros e crianças.

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3.9. Os Reinos Afro - Islâmicos da Costa

3.9.1. Origem

Os Reinos afro-islâmicos da Costa são resultado da presença árabe em Moçambique no séc. IX, que
instalaram-se na costa (particularmente na Ilha de Moçambique e Quelimane), numa 1ª fase, e, mais
tarde, no vale do Zambeze e planalto do Zimbabwe (séc. XIII).

Constituem os reinos afro-islâmicos da costa os Xecados de Sancul, Quitangonha, Sangage, Moma e


Tungue, e, o Sultanato de Angoche.

3.9.2. Relação entre os reinos Afro - Islâmicos e Portugal

Portugal procurou aliciar os dirigentes (sultões e xeques), dando-lhes títulos administrativo-militares


como os de capitão-mor. Desta forma, Portugal procurava garantir (teoricamente) que os sultanatos e
xecados se subordinassem à administração portuguesa.

Na prática, esta subordinação era fictícia, pois existia enquanto Portugal não interferisse contra seus
interesses. Os reinos continuavam autónomos porque Portugal não tinha recursos humanos, financeiros
e militares para conseguir dominá-los.

3.9.3. Aspectos Comuns dos reinos Afro - Islâmicos da Costa


 Prática do comércio de escravos; prática da religião islâmica;
 Eram bastante importantes na região da Macuana;
 Teoricamente estavam subordinados à Coroa Portuguesa, mas na prática, eram independentes.

3.9.4. O Sultanato de Angoche

Segundo a tradição “Xiraz” o Sultanato de Angoche tem a sua origem com à fixação de refugiados de
Quiloa já estabelecidos em Quelimane e Ilha de Moçambique. Estes refugiados eram dirigidos por
Mussa Quanto e Hassani (este último morreu durante a viagem foi enterrado em Mafamale, a sudoeste
de Angoche). Mussa Quanto, em visita ao túmulo de Hassani, reconheceu as potencialidades de
Angoche como ponto estratégico do tráfico de escravos e instalou Xosa filho de Hassani como sultão.

[Link]. Estrutura Social e Política do Sultanato de Angoche

A sociedade angocheana era basicamente patrilinear, os filhos de Xosa e sua esposa macua, Mwana
Moapeta, deram origem a quatro linhagens: Inhanandare, Inhamilala, Mbilizini e Inhaitide.

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Inicialmente, a linhagem dominante era a do Inhanandare. Durante tês gerações, o sultanato seguiu o
modelo patrilinear através da linhagem de Inhanandare. O panorama mudou com a morte do 4º sultão
sem deixar descendente varão, assumiu o trono a sua irmã Milidi, casada com Inhamilala.

A morte da sultana sem deixar descendentes conduziu à uma guerra civil pelo poder entre os Inhamilala
e Inhanandare, culminando com a expulsão da linhagem Inhanandare. Estes acontecimentos ocorridos
na 2ª metade do séc. XVI, enfraqueceram a estrutura política e o comércio, facilitando a penetração
portuguesa.

Em 1849, Hassan Issufu, da linhagem Inhamilala, usurpou o poder com auxílio dos portugueses e
Mussa Mahomed Sahib foi comandante militar do sultanato. Em 1854, ocorreu o ataque de João
Bonifácio Alves da Silva, rei do Estado Militar da Maganja da Costa, dando-se a fuga de Mussa para
Madagáscar em 1861.

A partir de 1862, Mussa, iniciou a reconquista de Angoche numa luta com carácter de “jihade” que
durou 15 anos. Mussa teve apoio de Madagáscar, Ilhas Mascarenhas e traficantes do norte de
Moçambique. Começou por atacar Sangage, Sancul e Imbamela, aliados dos portugueses em finais de
1864 até 1877, altura da sua morte. Angoche seria ocupado em 1910 pelos portugueses.

[Link]. Decadência

São várias as causas do declínio do Sultanato de Angoche, a saber:

 O enfraquecimento político causado pela morte do quarto sultão sem sucessor masculino;
 As rivalidades internas e as lutas linhageiras;
 O declínio do comércio de escravos;
 As campanhas de ocupação efectiva a partir de 1885.
3.9.5. O Xeicado de Sancul 15º grupo
[Link]. Origem
O Xecado de Sancul surgiu no séc. XVI, foi fundado por povos imigrantes da Ilha de Moçambique.
Localizava-se entre Lumbo e Mongicual.
[Link]. Estrutura Social e aparato Ideológico
No Xecado de Sancul, a sucessão do poder era feita por alternância de linhagens para evitar conflitos.
Este fenómeno trouxe uma certa estabilidade até ao séc. XIX. O xeicado tinha uma lealdade à Coroa
portuguesa. Mas apesar desta lealdade, o xeque foi assassinado em 1753 por um comandante português.

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


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Este incidente levou os sucessores do xeque a romperem as relações com a Coroa. No século XIX,
dirigentes de Sancul traficavam escravos, e toda tentativa de impedir este negócio foi infrutífera, pois os
benefícios abrangiam os governantes portugueses.

A partir de 1877, ocorreram mudanças causadas pelo agudizar dos conflitos entre os intervenientes doo
tráfico, tendo culminado com a captura, em 1880 de Makusi Omar capitão-mor de Sancul e traficante.
Em substituição de Makusi Omar, em 1886, a coroa nomeou Molidi Vulai, demonstrando a sua
incapacidade de controlar o poder dos traficantes. A religião dominante era o islamismo.

A Base económica: A actividade económica principal era a venda de escravos.


[Link]. A Decadência de Sancul
A soberania de Sancul começou a ser ameaçada a partir de 1885, quando Portugal iniciou o processo de
ocupação efectiva, encontrando uma forte resistência dirigida por Suali Bin Ibraimo.

O Xeicado de Quitangonha

Tal como o Sancul, este Xeicado foi fundado no séc. XVI por imigrantes da Ilha de Moçambique. Uma
aliança com portugueses que perdurou até ao último quarto do séc. XVIII permitiu o florescimento do
comércio de escravos em Quitangonha.

Mas desde 1755, altura em que os dirigentes de Quitangonha começaram a negociar com traficantes, o
Xeicado adquiriu maior autonomia, monopolizando o comércio esclavagista na zona norte entre a Baía
de Nacala e a de Conducia e contrariando os interesses de outros traficantes, incluindo os portugueses.

O Estado de Gaza: 16º Grupo

O Mfecane e o Estado de Gaza

Mfecane (na língua zulu) também denominado Difaqane ou Lifaqane – é a designação dada ao período
de grande convulsão social (lutas e transformações políticas), seguidas de migrações a partir da segunda
metade do séc. XVIII até princípios do séc. XIX de populações Nguni (vátuas) para o Norte.

Causas do Mfecane
 O crescimento comercial na baia de Maputo, que levava a constantes lutas inter-linhageiros pelo
controlo das rotas para o interior;

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


35

 A necessidade de controlo de mais áreas com recursos e domínio de mais comunidades a fim de
aumentar mais riquezas com cobrança de tributos;
 A crise ecológica (facto que provocou anos sucessivos de seca e fome) – acelerou a tensão entre
as linhagens pelo controlo das melhores terras para a agricultura e pastorícia;
 O aumento da população, causado pela crescente prática de poligamia, condicionando o aumento
de espaço residencial.
Formação
Por volta de 1770, existiam na Zululândia vinte reinos que disputavam entre si o controlo das rotas
comerciais com a baía de Lourenço Marques, bem como o domínio de terras férteis e pastagens. Entre
1810 e 1821, estes reinos ficaram reduzidos a dois: o de Nduandue (chefiado por Zuide); e o de Mtetua
(chefiado por Dinguisuio).

Conflitos entre estes dois reinos culminaram com a captura e morte de Dinguisuio pelas forças de Zuide.
Tchaka Zulu decide vingar a morte do seu pai adoptivo (Dinguisuio), perseguindo Zuide e seus amigos
até as últimas consequências. Uma parte dos Nduandue derrotados submete-se a Tchaka, e outra foge.
Entre os que fugiram contam-se:

 Zwangendaba, Nqaba Msane e Nguane Maseko, que por algum tempo se fixaram no interior de
Moçambique. Assim, por volta de 1890, Estados dominados por descendentes de Maseko e
Zwangendaba incluíam territórios do Niassa e Tete.\;

 Sobhuza, fixou-se no território da actual Suzailândia;

 Sochangane (Manicusse), que fixou-se no sul de Moçambique, onde fundou o Estado de Gaza.

Assim, o Império de Gaza resultou do processo de conquista militar do sul de Moçambique por exércitos
Nguni, chefiados por Sochangane. Este Estado abrangia as regiões situadas entre a Baía de Maputo e o
rio Zambeze. O nome Gaza provém do apelido do pai de Sochangane, cujos domínios localizavam-se no
actual Gazankulo, na África do Sul. Sochangane tendo fundado o império, deu o nome do pai – Gaza. O
Estado de Gaza foi fundado por Sochangane (Manicusse), entre 1821-1858.

Com a sua morte em 1858, sucede-lhe o seu filho Maueue. Uma vez no trono, este hostilizou seus
irmãos, em particular Mzlia, reinos vizinhos e comerciantes. Estes

Por sua vez, dirigidos por Mzila e com apoio de alguns membros da aristocracia Nguni, comerciantes e
do governador de Lourenço Marques (Onofre de Andrade) respectivamente, organizam uma coligação
que vence Maueue (1861 – 1864).

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Mzila, empossado como novo rei, aliou-se aos ingleses. Morre em 1884 e a sucessão do trono é
disputada por três dos seus filhos: Mafemane, Mundungawe e Como-Como. Mundungawe sai
vencedor e adopta o nome de Ngungunhane o «invencível».

Cronologia da evolução do Estado de Gaza

Tempo Acontecimentos
1821-1858 Sochangane funda o Estado de Gaza
1858-1864 Maueue herda o poder e entra em conflito com os irmãos.
1862 Transferência da capital de Chaimite para Mossurize (Manica).
1864-1884 Mzila torna-se Inkosi do Estado de Gaza.
1884-1895 Ngungunhane, filho de Mzila herda o trono.
1889 A capital é novamente transferida, desta vez, para Manjacaze.

Organização sociopolítica

O Estado ou Império de Gaza era governado pelo rei auxiliado pela rainha-mãe, conselheiros, família
real, governadores provinciais e comandantes militares.

Para controlar o vasto império, o Estado foi dividido em reinos, à frente dos quais estava o Hossana –
responsável pela cobrança dos tributos, distribuição de terras, resolução de litígios, mobilização de
regimentos e nomear os indunas.

Por sua vez, os reinos subdividiam-se em províncias, dirigidas pelos Indunas (governadores). As
províncias subdividiam-se em povoações, lideradas pelos Munumussanas.

A diferenciação social era notável; existia a classe dominante constituído pela alta aristocracia da
linhagem do rei e a média aristocracia: Nguni de menor categoria e assimilados – ex- cativos,
designados tinhloko (cabeça). Os rapazes assimilados eram incorporados no exército Nguni e na
administração do território, enquanto as raparigas eram convertidas em esposas dos Nguni sem
obrigatoriedade de pagar o lobolo.

A classe dominada era constituída pelos tonga, chopi e shona. Estes pagavam à classe dominante a
renda em produtos, trabalho, moedas e garantia a segurança alimentar do exército e dos mensageiros.

Organização económica

Os Nguni praticavam a agricultura (mapira, mexoeira, milho grosso e naximim); caça, a pesca, a
criação de gado e o comércio (exportação de marfim, tecidos, escravos, artigos de ferro e cobre).

Fonte económica do poder dos chefes

Além do pagamento de tributos em géneros agrícolas, as populações dominadas pagavam aos Nguni
tributos em marfim e em dinheiro (libra esterlina), ganho nas minas na África do Sul.

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Ideologia

Os Nguni praticavam crenças mágico-religiosas, lideradas pelo rei, pois, o exercício do poder real não
estava dissociado do exercício magico. O mais importante culto era celebrado em Fevereiro (período do
nkanhú), festa tradicional das primícias, era designado por Nkwaya (culto agrário).
Os cultos destinados a «dar força» aos homens que iam a guerra – Mbengululu, e os de invocação da
chuva. O culto Nkwaya servia para aliviar as tensões e sociais e era o garante da unidade e da
prosperidade do estado de Gaza.

Fim do trimestre

Unidade 4: O PEROÍODO DA DOMINAÇÃO COLONIAL EM MOÇAMBIQUE E O


MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO NACIONAL

4.1. O papel específico de Portugal na penetração imperialista em Moçambique

Como é que Portugal, não sendo uma potência imperialista, continuou sendo uma potência colonial?
Como explicar o seu papel na conferência de Berlim?

Nos finais do séc. XIX, a economia portuguesa estava em transição do Feudalismo para o Capitalismo.
A indústria, os transportes, a banca, e.t.c; estavam numa fase embrionária e dependia muito de países
como a Inglaterra, França e Alemanha. Assim, a participação de Portugal na conferência, só pode ser
entendida se tomar em consideração que a França, a Inglaterra e a Alemanha esperavam explorar as suas
colónias, conjuntamente com Portugal.

Outra explicação possível é que Portugal – procurando tirar proveito da sua condição de «potência
menor», num jogo de alianças tácticas, e aproveitando, nos conflitos entre as grandes potências, a recusa
destas em aceitar que qualquer outra delas obtivesse uma hegemonia territorial ou estratégica superior à
das outras – tenha surgido como intermediário da exploração capitalista que, fazendo lucrar, lucrava. Ex:
a cedência de importantes áreas de Moçambique ao capital estrangeiro não português, sob forma de
companhias.

A outra razão: foi a condição de potência não imperialista, e, por isso não ameaçadora, que Portugal
conseguiu obter de facto as suas colónias. Na verdade, foram três, as formas que, conjugadas, deram
origem ao fenómeno da exploração imperialista em Moçambique:

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 Estado colonial português; Capital internacional, expresso nas companhias; e, o Capital mineiro
sul-africano.

4.2. A corrida Imperialista e a Delimitação das Fronteiras Moçambicanas

A necessidade da ocupação efectiva determinada pela Conferência de Berlim em 1885, levantou uma
nova questão, a da delimitação de fronteiras, o único facto que a partir daí, legitimaria a posse de
territórios em África. Foi entre conflitos, arbitrariedades e tratados que se definiu o traçado das actuais
fronteiras de Moçambique.

4.2.1. Fronteira Sul – Ocidental

No século XVII, portugueses, austríacos e holandeses lutavam pelo controlo da Baía de Lourenço
Marques, que os primeiros asseguravam ter descoberto em 1544. O problema se agravou em 1820,
quando o inglês William Owen, ignorando os direitos históricos de Portugal, assinou vários tratados com
chefes de Delagoa Bay, procurando afastar a influência portuguesa e consolidar a britânica.

Owen, via na Delagoa Bay uma excelente saída para os produtos vindos do Cabo; uma base estratégica
para atacar os bóeres; uma importante reserva de mão-de-obra barata para as plantações britânicas na
África do Sul; e, uma zona que impediria a continuada entrega de armas aos zulu.

Portugal respondeu assinando em 1869 com o Transvaal, o primeiro tratado de delimitação de fronteiras
(até ao paralelo 26º 30’ sul). Estabeleceu-se os montes Libombos como fronteira de Moçambique e
Suazilândia e com a parte oriental do Transval. O reconhecimento desta fronteira apenas foi possível a
24 de Julho de 1875, com a arbitragem do então presidente francês Mac – Mahon, a favor de Portugal.

4.2.2. Fronteira Centro

A 20 de Agosto de 1890 Portugal e Inglaterra assinam um acordo, em que o primeiro cedia além da
delimitação das fronteiras, como as liberdades de comércio, navegação nos rios, lagos e portos. A 14 de
Novembro de 1890 é assinado um Modus Vivendi. E a 11 de Junho de 1891 é, assinado um tratado de
fronteiras entre os dois países, reconhecendo as actuais fronteiras de Moçambique com o Malawi,
Zâmbia, Natal e Zimbabwe. Este acordo foi o mais importante para a definição das fronteiras de
Moçambique.

4.2.3. Fronteira Norte

Em Dezembro de 1886, Portugal e a Alemanha assinaram um tratado reconhecendo-se o rio Rovuma


como sendo a fronteira norte de Moçambique. Mais a definição desta fronteira, originou mais tarde

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conflitos militares entre os dois países, quando o segundo hasteou a sua bandeira nas duas margens do
Rovuma e, em 1894 penetrou a sul e expulsou as tropas portuguesas (ocupando Quionga).

4.3. Colonização e teorias de resistência

Colonização é a ocupação de um novo território estrangeiro por um poder político-militar. O país


conquistador chama-se metrópole e o conquistado torna-se uma colónia.

4.3.1. Tipos de colonização

 A colonização de ocupação de novos territórios, perseguindo ou exterminando os indígenas


(colonização de povoamento);

 Colonização de exploração - um pequeno número de colonos sobrepõe-se aos autóctones para a


exploração de riquezas do seu país.

 Colonização mista – o colonato europeu explora directamente as riquezas, ao mesmo tempo que
certos colonos enquadram os indígenas.

O direito à colonização tem sido defendido por numerosos argumentos, na sua generalização
contestáveis. Motivos ideológicos e morais, baseados na ideia do «indígena» que seria necessário
educar ou fazer evoluir e na convicção da superioridade moral da raça branca, legitimariam muitas
agressões e opressões.

4.3.2. As teorias de resistência

Qual foi a atitude dos africanos perante a irrupção do colonialismo, que traz consigo tao fundamental
mutação na natureza das relações existentes entre eles e europeus nos três últimos séculos?

Na sua esmagadora maioria, a autoridades e dirigentes africanos foram profundamente hostis a essa
mudança e declararam-se decididos a manter o seu status quo e, sobretudo, assegurar a sua soberania e
independência, pelas quais nenhum deles estava disposto a transigir. Manifestaram a sua determinação
em opor-se aos europeus e em defender a sua soberania, a sua religião e o seu modo de vida tradicional.

Segundo Ranger, T. O. (1991:69-86), existem três teorias:

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1. Em primeiro lugar, afirmou-se que a resistência africana era importante, já que provava que os
africanos nunca se haviam resignado à pacificação europeia. Na verdade, todos tipos de
sociedade africana resistiram e a resistência manifestou-se em quase todas as regiões de
penetração europeia.

2. Em segundo lugar, sugeriu-se que longe de desesperada ou ilógica, essa resistência era muitas
vezes movida por ideologias racionais e inovadoras:

a) O princípio da soberania

A ideia de soberania proporcionou a base de ideologia da resistência, com as devidas correções.

b) A Religião

As doutrinas e símbolos religiosos, regra geral, apoiavam-se nas questões da soberania e da


legitimidade. A legitimidade dos dirigentes era consagrada por uma investidura ritual; quando um
dirigente e seu povo decidiam defender a sua soberania apoiavam-se naturalmente nos símbolos e
conceitos religiosos.

3. Em terceiro lugar, argumentou-se que os movimentos de resistência não eram insignificantes;


pelo contrário, tiveram consequências importantes em seu tempo, e tem ainda hoje notável
ressonância.

Consequências e relevância da resistência africana

Do ponto de vista da soberania, as resistências aconteceram para a sua reconquista e o triunfo do


nacionalismo africano.

Contribuíram para novos agrupamentos em torno de ideias. Trouxeram consigo melhoria da situação de
povos revoltados.

4.4. A Ocupação Militar e a Resistência Colonial no Sul, Centro e Norte

Após a C. de Berlim, Portugal lançou-se no processo de destruição das unidades políticas


moçambicanas, destacando-se dois momentos: a ocupação militar (campanhas de pacificação) e a
instalação do sistema colonial. Perante a ocupação do seu território, um processo que durou mais de
duas décadas (1886-1920), os moçambicanos resistiram para defender a sua soberania, independência, e
valores culturais. Nessas resistências, utilizaram como forma de luta: a aliança ou diplomacia e o
confronto directo.

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[Link]. A resistência no Sul de Moçambique

As campanhas militares tiveram início no sul de Moçambique em 1895. O Império de Gaza foi definido
como o primeiro alvo das campanhas de ocupação, visto que constituía uma ameaça ao plano de
ocupação colonial concebido pelos portugueses. Assim, a sua destruição seria uma base forte para a sua
afirmação como potência colonizadora, bem como para o início das guerras de conquista a norte do
território.

O Comissário-régio de Moçambique, António Enes, enviado com objectivo de conquistar o Estado de


Gaza, preparou o seu plano de ataque, numa 1ª fase (diplomático) e na 2ª (militar). Não obstante, vários
emissários portugueses estabelecerem contactos com Ngungunhane com intuito de:

 Impedir que Ngungunhane ganhasse forças no campo militar, convencendo-o de que não
haveria ataque ao seu território;
 Impedir a aliança de Ngungunhane com a Companhia de Moçambique, para a cobrança de
imposto no seu território;

 Evitar o estabelecimento de negociação com a British South Africa Company.

Enes usou como pretexto, a revolta de Marracuene contra o aumento de imposto de palhota, para iniciar
as campanhas de ocupação no sul de Moçambique. Diante desta situação, o chefe de Magaia (Mahazule)
e de Zixaxa (Nuamantibjana) lideram uma rebelião contra os portugueses a 2 de Fevereiro de1895.
Derrotados, estes refugiara-me no território de Ngungunhane.

Os portugueses, tentaram sem sucesso obter de Ngungunhane a extradição dos dois chefes. Diante da
recusa do imperador de entregar os fugitivos, os portugueses decidiram atacar militarmente o Império.
As suas operações desenrolaram-se em três frentes:

 8 de Setembro de 1895 – batalha de Magul- região onde se encontrava refugiado


Nuamantibjana;

 Outubro de 1895 – batalha de Bilene e Xai-Xai - os portugueses penetra pelo rio Limpopo,
submetendo Xai-Xai e Bilene;

 7 de Novembro de 1895 – batalha de Coolela, perto de Manjacaze.

O exército português foi conduzido por antigo cabo de guerra Macuacua Binguana Mondlane, indicando
caminhos livres de obstáculos. A 7 de Novembro, ao lado de uma lagoa quando iam avançando para
Kraal do rei, o exército português foi surpreendido por todos os lados pelo Mahoungné, Godide e

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


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Inhamanga (filhos de Ngungunhane), e por Quêto, durante 40 minutos. Os guerreiros de Ngungunhane


utilizando táctica de meia-lua.

Mas, viram-se perante uma reviravolta dos portugueses, segundo Pelissier (1994:297) “ a diferença de
alcance das espingardas foi decisiva e podemos afirmar até que se os portugueses não tivessem
combatido de pé, o número de mortos e feridos teria sido insignificante.” Maguiguana (chefe militar de
Gaza) não estava no comando devido a sua ida a Bilene com intuito de recrutar homens para a guerra,
outros 3 tios de Ngungunhane, não o apoiaram e levaram as suas tropas para fora de Gaza. Ngungunhane
não participou na batalha porque estava na floresta onde decorria uma cerimónia mágico-religiosa que
deveria lhe assegurar a vitória.

Segundo Serra (2000:375) “a violência desorganizou o Estado de Gaza e Ngungunhane refugiou-se em


Chaimite com os seus chefes fiéis, enquanto a maior parte de outros se aliava aos portugueses. ”
Ngungunhane acabaria por ser preso (28 de Dezembro de 1895) por Mouzinho de Albuquerque,
nomeado governador do distrito de Gaza, então criado.

Ngungunhane, viria a ser deportado depois para Açores (Portugal), juntamente com seu filho Godide,
onde veio perder a vida em 1906.

[Link]. Desagregação do Estado de Gaza

Apesar da prisão do rei, a resistência continuou, agora liderada por Maguiguana Cossa e Djambul, que
mobilizam a população no sentido de não pagar mais tributo aos portugueses e sobretudo resistir a esta
penetração. Derrotado em Macontente, Maguiguana retira-se em direcção ao Transval, tendo sido morto
a 21 de Julho de 1897.

Outra figura importante na região, foi Nguanaze, de Maputo, que fugindo aos portugueses, passou para o
território Britânico, a sul da Ponta de Ouro, onde veio restabelecer o seu reino.

[Link]. Causas da derrota do Estado de Gaza

A derrota do Estado de Gaza frente aos portugueses, deveu-se a vários factores, dois quais se destacam:

 A relativa debilidade do Estado de Gaza; a superioridade militar dos portugueses;

 As contradições internas movidas pela pouca vontade de combater, e pela concentração de etnias
submetidas pelo Estado de Gaza.

4.3.2. A Resistência no Centro de Moçambique

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


43

Politicamente, a zona centro apresentava uma fragmentação, dum lado, existiam os Estados militares e
do outro lado os prazos. A grande fragmentação política e a elevada militarização das formações
políticas, herdado do período de captura e tráfico de escravos, exigiam de Portugal a mobilização de
grandes recursos e de apoio externo. A conquista militar desta região foi promovida conjuntamente pelo
Estado colonial e pelas Companhias de Moçambique e Zambézia.

A formação política que mais problema criou aos portugueses foi o Estado de Báruè, que resultou da
desagregação do Estado de Mwenemutapa. A 30 de Julho de 1902, as forças portuguesas, compostas por
três pelotões de soldados portugueses e africanos e por 2 mil soldados de reserva, invadiram Báruè.

Após uma longa resistência, as unidades militares de Báruè, comandadas por oficiais corajosos como
Macombe Hanga, Mafunde, Cambuemba, Candendere, Inhangana e Cavunda, foram derrotadas em
1902. A resistência continuou em 1904, uma nova revolta deu-se contra o trabalho forçado e os abusos
coloniais, mas novamente fracassa.

Em 1917, uma nova aliança pan-étnica irrompe no vale do Zambeze, sob a direcção de Báruè.

[Link]. Causas da revolta no Estado de Báruè em 1917

 A construção de uma estrada em 1914, ligando Tete a Macequece, passando pelas terras dos
bárués;
 O recrutamento de mão-de-obra de forma compulsiva sem nenhuma remuneração;
 O recrutamento de milhares de moçambicanos para o serviço militar obrigatório para combater
os alemães e servirem de carregadores de material;
 A violação das mulheres virgens; a opressão colonial.

Utilizando o factor religioso Báruè, foi dirigido por Nongwe-Nongwe inicia a 27 de Março de 1917 a
revolta, com a tomada de Chemba, Tambara e Chiramba. Em Abril os portugueses foram expulsos de
Cheringoma, Zumbo, Inhaminga, Massangano e Gorongosa. Com ajuda dos angoni, os portugueses
conseguiram pôr fim a resistência dos baruístas em Junho de 19183.

[Link]. Factores da vitória dos portugueses na região de Báruè

 Utilização de inovações tecnológicas no material bélico: metralhadora e artilharia;


 O recrutamento de tropas externas; erros tácticos e deserções que afectaram as tropas de
Báruè.
4.4. O Período do Colonialismo Português (1930-1962)

3
Embora existissem focos isolados de resistência até 1920.
Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane
44

4.4.1. A Montagem do Aparelho Colonial

Segundo Hedges (1999:1) “após a Conferência de Berlim, foram definidas novas formas de
relacionamento entre as potências europeias e os territórios colonizados, o que em Moçambique se
traduziu na delimitação das fronteiras, na ocupação militarem, administrativa e económica.” Assim, a
implantação do colonialismo português efectivou-se, inicialmente, através da conquista militar, onde o
Estado colonial português ia montando o sistema de administração directa.

A montagem processou-se em diferentes fases nas diversas partes do país. Por exemplo nas zonas com
resistências mais prolongadas, ou acesso difícil, a 1ª etapa deu-se através da ocupação militar quase
permanente (capitanias-mores em Nampula e partes da Zambézia, comando milita em Gaza), noutros
locais como Maputo em 1896, Portugal fez directamente à divisão do território em circunscrições civis
que de modo geral, deram origem aos actuais distritos. Na óptica de Hedges (Ibd:2) “nestas divisões,
foram instalados os administradores e chefes de postos, bem como régulos africanos, escolhidos pelo
regime colonial, em substituição dos antigos chefes.” E de acordo com Serra (2000:206), nomeado
Comissário-régio de Moçambique em 1895, António Enes deu origem a escola do Estado colonial, pelo
qual o Estado colonial se regeu e criou no mesmo ano, a circunscrição do indígena.

Enquanto os indígenas eram divididos em circunscrições e estas, por sua vez, em regedorias, unidades
administrativas especiais nasceram para agrupar os colonos: os concelhos divididos por freguesias. Em
1907, Aires de Orenelas (discípulo de Enes), então Ministro da Marinha e responsável das Colónias
ordena a publicação da Reforma Administrativa de Moçambique, com a qual entre outras coisas, se
criou a Secretaria dos Negócios Indígenas. Especializada na inventariação, catalogação, e distribuição
de mão-de-obra para dentro e fora de Moçambique.

No mesmo ano da publicação da Reforma, e no decorrer do governo de Freire de Andrade, foi


introduzida no país a carreira administrativa. Serra (Ibid:207) aventa que: atribuíram-se aos
administradores amplos poderes para o governo das populações indígenas que passou a ser-lhes
exigido o conhecimento dos ouso e costumes indígenas e a prática de serviço no interior.” Seria o
gestor da força de trabalho e juiz do bom comportamento dessa força, o administrador tornou-se também
um antropólogo de carreira, o pesquisador da organização social do «nativos».

De salientar que o objectivo central do colono na era imperialista, era aproveitar a força de trabalho local
de maneira mais directa e permanente do que no período anterior. Os mecanismos de aproveitamento

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


45

desta força, incluía o trabalho forçado nas plantações e da comercialização dos produtos para o
campesinato.

A política portuguesa reservava a Moçambique o papel de produtor de matéria-prima para a metrópole.


Para tal, foram publicados vários decretos e regulamentos, com objectivo de amordaçar os
moçambicanos no estreito e desumano perímetro da sua condição de «indígena4».

Em 1894, um decreto substituía a pena de prisão dos indígenas nascidos no Ultramar (Angola e
Moçambique) pela de trabalho correccional de 15 dias a um ano. O trabalho correccional,
sucessivamente reinstituído nos códigos de trabalho rural de 1890/92, 1899, 1911, 1914 e 1926,
tornou-se numa punição específica dos indígenas.

A transformação de Moçambique numa colónia de produção foi acompanhada por dois pressupostos
mutuamente condicionados:
 As colónias deviam produzir matérias-primas e, por consequência deviam fornecer os produtores
dessas matérias-primas.
 Os produtores dessas matérias-primas pertenciam a raças inferiores e, como tal, deviam trabalhar
para as raças superiores.
4.4.2. A Economia Colonial

Características Gerais

Uma das características principais do colonialismo português foi o seu carácter dependente, pois toda a
sua actuação estava subordinada ao capital estrangeiro não português. A economia moçambicana era
essencialmente de serviços, uma reserva de força de trabalho e um campo aberto ao investimento
estrangeiro. Por isso, Portugal teve de ceder 2/3 do território moçambicano ao capital estrangeiro sob
forma de Companhias e transformou o Sul de Moçambique num reservatório de mão-de-obra para as
minas e plantações sul-africanas.

Outras características são a violência da ordem colonial e a corrupção que se desenvolvia nas relações
económicas e sociais. Pelo Decreto de 30 de Julho de 1890, o rei português declara que: “o sistema de
organizar em companhias é o único que presentemente pode ser aplicado com vantagens nos domínios
ultramarinos”.

4
Indígenas todos aqueles que, nascidos no Ultramar, de pai e mãe indígenas, não se distinguissem pela sua instrução e
costumes comum da sua raça.
Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane
46

Assim, foram criadas Companhias Majestáticas, com direitos soberanos: de administrar, lançar, colectar
e cobrar impostos, de passar licenças comerciais, possuir forças militares e policiais. No fundo, as razões
que levaram à criação das Companhias foram:

 O atraso económico de Portugal, com uma agricultura e indústria dependente do estrangeiro;

 A falta de autonomia financeira de Portugal, semi-colónia inglesa, que lhe permitisse promover a
ocupação efectiva dos seus territórios; e a valorização das economias coloniais.

4.4.3. O Norte e a Companhia do Niassa

A sociedade do Norte de Moçambique, dividida em pequenos reinos afro-islâmicos, em chefaturas


(Eráti, Chaca, Imbamela, Marrovene, Mulai e Meto), confederações de chefaturas (Namarrais) e
sociedade linhageiras (Macondes), opôs-se à penetração estrangeira.

A produção para o mercado, o imposto de palhota e a venda da força de trabalho para fora e dentro do
país, constituíram a base da exploração capitalista no período entre 1886-1930.

4.4.1. A Companhia do Niassa

A Companhia do Niassa obteve a sua carta em Setembro de 1891, por 25 anos (que mas tarde foram
estendidos por mais 35 anos). A Companhia só seria formada em Março de 1893 e em Setembro de
1894 tomou posse formalmente dos territórios que compreendiam as actuais províncias do Niassa e
Cabo Delegado e de algumas ilhas situadas próximo da costa. Era um território que se estendia do
Rovuma ao Lúrio, com uma superfície aproximada de 160 mil km².

A Companhia devia pagar ao governo português 7,5% do lucro líquido total ou 10% quando o dividendo
pago em acções subisse para 10% ou mais. Ela utilizou como formas de exploração económica:
 Cobrança do imposto de palhota; utilização do trabalho forçado;

 Monopólio de taxas aduaneiras de importação e exportação do comércio de armas de fogo, do


fabrico e da venda de bebidas alcoólicas, da exportação de esponjas, corais, pérolas e âmbar da
costa e ilhas situadas na área da sua jurisdição;

 Exportação de mão-de-obra para a África do Sul, Zaire, Baixa Zambézia e Mombaça;

 Utilização de milhares de homens no transporte de mercadorias a longa distância.

A actuação da Companhia pode dividir-se em quatro períodos, a saber:

Primeiro período: 1891 – 1898

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


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Vagos projectos de desenvolvimento do Niassa (nome que designava na época as actuais províncias de
Cabo Delegado e Niassa). A direcção financeira da Companhia do Niassa passou de Lisboa para
Londres. Na realidade, o objectivo principal era o desenvolvimento da região, mas a sua influência não
se espalhou mais do que a alguns pontos isolados da costa. O acontecimento mais importante deste
período foi a introdução do imposto de palhota em 1898.

Segundo período: 1899 – 1913

É marcado pelo: abandono dos projectos de ocupação e desenvolvimento do território; início em 1905 da
exportação de mão-de-obra para a África do Sul; e em 1913 interrupção do trabalho, migratório para
África do Sul.

Entre 1897 – 1908 a Companhia foi administrada sucessivamente por três grupos financeiros: Ibo
Syndicate- 1897; Ibo Investiment Trust- 1899 e Niassa Conslidated- 1908, isto, fez com que em 1909, a
Companhia abandonasse o objectivo do desenvolvimento económico e passasse a ser, fornecedora de
força de trabalho migrante, para as minas de cobre do Catanga (Congo), para a construção do porto der
Mombaça e para algumas Companhias da Baixa Zambézia (Companhia do Borror).

Terceiro período: 1914 – 1918

O mundo encontrava-se mergulhado na I Guerra Mundial. Os territórios da Companhia foram invadidos


pelas tropas alemães. Combates entre imperialistas (alemães, portugueses e ingleses) envolvendo
populações moçambicanas, caracterizam este período.

A Companhia muda de mãos em 1913 – 1914, passando para um consórcio bancário alemão que obteve
a maioria das acções do Niassa Consolidated. Porém, o governo britânico confiscou-as em 1917,
vendendo-as posteriormente a um grupo inglês.

Quarto período: 1919 – 1929

Após ter conseguido dinheiro, a Companhia organiza uma expedição contra os Macondes, entre 1919 –
1920, último foco de resistência no norte de Moçambique. Durante este período, a Companhia virou-se
para o aumento do nível do imposto de palhota como forma de aumentar os seus rendimentos,
expandindo e intensificando os abusos que sempre cometera.

4.4.2. Principais produtos de exportação

Oleaginosas – para a França e Holanda; a urzela, a cera, o pau-preto, a borracha e o café – para
Zanzibar; a goma, copal, o milho, o arroz, a mexoeira, o gergelim, o feijão, a mandioca, e.t.c; que em
pequenas quantidades exportava para outros territórios de Moçambique.
Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane
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4.4.3. Decadência

A Companhia do Niassa a não conseguir rentabilizar o seu investimento e entrou em declínio, pelas
seguintes razões:
 As suas terras eram menos promissoras do que as da Companhia de Moçambique;

 Não estava estrategicamente posicionada; não conseguia atrair capitais;

 A cobrança/aumento de impostos conduziu ao despovoamento dos seus territórios;

 A resistência dos Yao e dos Macondes elevaram os custos da administração.


Assim, foram assinados novos acordos com o governo português, passando a administração da
Companhia para o Estado português em 1929.

4.5. Os Prazos e a Companhia da Zambézia

O declínio dos prazos na 2ª metade do séc. XVIII possibilitou, nos primórdios do séc. XIX, o
aparecimento de Estados cujas dinastias reinantes, profundamente envolvidas no comércio de escravos,
questionaram a soberania portuguesa. Pressionado pelas grandes potências imperialistas, Portugal
procedeu à "ocupação efectiva " da Zambézia e destruiu aqueles Estados, enquanto em 1890 fazia
promulgar legislação que, repondo muitas das características dos antigos Prazos da Coroa, atraiu o
capital internacional e fomentou o desenvolvimento do sistema de plantações destinadas às indústrias
europeias.

No entanto, o recenseamento, o trabalho forçado, os baixos salários, a exploração desenfreada dos


recursos naturais e as migrações caracterizaram a penetração imperialista na Zambézia, entre 1890 e
1930. Assim, em 1888, o governo português nomeou uma comissão encarregada de estudar reformas nos
. Um ano depois, a comissão identificava três tipos de Prazos no vale do Zambeze:

 Os Prazos de fazenda industrial, que fabricavam tijolos e produziam bebidas alcoólicas;


 Os Prazos fiscais que cobravam o mussoco; e, os Prazos feudais.

Perante este quadro, a comissão concluiu que Moçambique não reunia condições para ser uma colónia
de povoamento ou colónia comercial, mas sim, para colónia de plantação. Assim, sugeriu que se
mantivesse o sistema de prazos para se incrementar o sistema de plantações e que parte do mussoco
fosse cobrada em trabalho.

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


49

Com base nesse relatório, a 18 de Novembro de 1890 publicava-se um decreto do futuro Comissário-
régio de Moçambique António Enes, que num dos artigos dizia o seguinte: “o arrendatário fica
obrigado a cobrar dos colonos, em trabalho rural, pelo menos metade da capitação de 800 réis,
pagando esse trabalho aos adultos na razão de 400 réis por semana e aos menores na de 200 réis.”

N.B: Enes abria as portas da Zambézia ao capital estrangeiro através da modernização da antiga renda
em género que era o mussoco.

4.5.1. A Companhia da Zambézia

Fundada em 1892 (nasceu da fusão da Sociedade dos Fundadores da Companhia Geral da Zambézia,
criada em 1880, a Central África and Zoutpambberg Exploration Company), a companhia da Zambézia
não possuía direitos majestáticos, pois era uma Companhia arrendatária.

A maior parte das acções foram compradas por sul-africanos, ingleses, alemães, franceses e pelos
príncipes de Mónaco, encontrando-se as duas sedes principais em Lisboa e Paris. Exercendo as suas
actividades numa área de cerca de 110 000 Km², cobria as terras agrícolas mais férteis de Moçambique.

O decreto de 24 de Setembro de 1892 concedia à Companhia da Zambézia a administração por conta


própria e pelo período de 10 anos os Prazos da Coroa situados a norte do rio Zambeze e a oeste dos rios
Luenha e Mazoe. O sistema de prazos legislado em 1890, deu à Companhia o controlo sobre as forças de
trabalho (os camponeses tinham que pagar metade de mussoco em trabalho rural e outra em dinheiro) e
os recursos naturais no seu território, bem como o monopólio de mercado sobre a produção camponesa.

4.5.2. O Mussoco

Foi um dos mecanismos de que o colonial-capitalismo se serviu para produzir periodicamente a mão-de-
obra necessária. O mussoco, não era um simples mecanismo fiscal imposto aos trabalhadores, que estes
pudessem remir com o produto da venda de mandioca, peixe ou de coco: era também, obrigatoriedade
de trabalho nas plantações (onde os trabalhadores estavam organizados em grupos chamados ensacas, à
frente dos quais estava um chefe, o sacunda).

[Link]. Impacto do Mussoco e do trabalho nas plantações

a) Emigração maciça de produtores para áreas de Companhias menos exigentes, para territórios sob
controlo do Estado ou para o exterior: As causas da emigração eram basicamente as seguintes:

 Diferenças entre os montantes dos impostos cobrados em Moçambique e no exterior;

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 Serviços forçados após a liquidação do mussoco; serviços gratuitos a prestar ao Estado;


 Vexames sofridos no recrutamento de voluntários.
b) Destruição de infra-estrutura económica africana local;
c) Semi-proletarização do campesinato.

4.6. O Centro e a Companhia de Moçambique

4.6.1. Origem

A Companhia de Moçambique teve como predecessoras a «Société des Fundateur de lá Compagnie


General du Zambeze» (1878/79) e a Companhia de Ophir (1884), que foi transformada como companhia
mineira em 1888.

Em 1891, Paiva de Andrade propôs ao governo português a organização de uma sociedade com
privilégios políticos e económicos a semelhança da BSAC5, a iniciativa foi acolhida e restaurou-se a
Companhia de Moçambique. Dai, foi aprovado o decreto de 11 de Fevereiro que atribui poderes
Majestáticos à Companhia que ocupava uma área de 130 km², entre o Save e o Zambeze (actuais
províncias de Sofala e Manica). A mesma tomou posse através dos seus representantes em África em
Maio de 1892. O decreto de 17 de Maio fixou o prazo da sua validade jurídica até o ano de 1942.

Direitos concedidos à Companhia

 Monopólio do comércio a longa distância; Colecta de impostos e taxas;


 Construção e exploração de portos e vias de comunicação;
 Transferência de terras a pessoas particulares ou colectivas;
 Privilégios bancários (emissão de moeda e de selos postais).

Direitos concedidos ao governo português

 Receber 10% dos dividendos distribuídos e 7.5% dos lucros, bem como a garantia de
recuperação do território uma vez expirado o prazo. A Companhia obrigava-se a manter-se
portuguesa no estatuto e instalar a sua sede em Lisboa e o governador do território e a maioria da
administração tinha que ser portuguesa.

4.6.2. O Sistema Tributário: Mussoco e Imposto de palhota

5
British South Africa Campany
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Com a penetração crescente do capitalismo, o mussoco (renda em género) passou a ser cobrado em
trabalho e depois em dinheiro, o que exprime uma profunda mudança nas relações sociais de produção.
O Imposto de palhota foi introduzido ao abrigo do decreto de 9 de Julho de 1892, de acordo com este
regulamento, os proprietários de palhotas ou cubatas situadas no interior do território ficavam obrigados
ao pagamento do imposto anual de 900 réis por palhota ou cubata, utilizada como habitação.

Portanto, o Mussoco e o imposto de palhota eram um mecanismo de dominação do capital sobre o


trabalho. O regime de caderneta individual indígena permitiu à companhia um maior controlo sobre a
população e consequentemente mais receitas resultantes da cobrança de impostos.

4.6.2. A Política Concessionária

A política concessionária baseava-se no direito de posse sobre a terra para exploração agrícola, mineira,
construção, e.t.c; atraindo capitais estrangeiros.

4.6.3. Concessões Mineiras

O arrendamento de terras para a exploração de pedras e metais preciosos e de minas em geral,


concentrava-se na actual província de Manica. Várias sociedades adquiriram terras em volta de
Macequece, iniciando-se a prospecção e a exploração mineira (ouro). A Companhia instalou uma
delegação do Serviço dos Negócios indígena e o Fundo de Crédito Mineiro, para satisfazer a
necessidade da mão-de-obra e assistência financeira necessária.

4.6.4. Concessão na Infra-estrutura dos transportes

As concessões mais importantes foram feitas à The Beira Railway, sociedade formada com capitais
ingleses (BSAC), que construiu o caminho-de-ferro Beira-Macequece (concluído a 10 de Julho de 1900)
e à The Port Beira Devolopemnt Corporation que em 1929 concluiu a construção do porto da Beira.
Estes empreendimentos, permitiram a companhia:

 Beneficiar das receitas derivadas dos direitos alfandegário sobre a importação e exportação e o
transito de mercadorias de e para a Rodésia;

 Dinamizar o incremento da agricultura colonial e das minas de Manica, baixando os custos de


transporte; Facilitou o escoamento de excedentes e produção comercial camponesa;

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 Permitiram também, a integração da economia de Moçambique no espaço económico da África


Austral através de uma articulação estrutural directa as necessidades de acumulação de capital
nas colónias vizinhas (Rodésia e RSA).

4.6.5. Concessões agrícolas

Entre as concessões agrícolas mais importantes destacam-se a do prazo de Gorongosa (Companhia de


Gorongosa - 1895), o prazo de Chupanga (Companhia de Luabo), concessões de terrenos em Marromeu,
Búzi e Moribane, respectivamente à Sociedade açucareira da África Oriental (1900); Companhia
Colonial do Búzi (1898) e a Companhia de Moribane. A actividade produtiva colonial nos territórios da
companhia, desenvolveu-se segundo dois eixos:

 A Economia de plantação com culturas viradas para o mercado externo como: a sacarina, o
coqueiro, o algodão e a borracha.

 “Farms” com culturas de milho, fruticultura e horticultura.

4.6.6. A Pequena produção familiar camponesa nos territórios de Manica e Sofala

Os produtos que mais se destacaram na agricultura familiar eram além do algodão, a borracha, o milho,
as oleaginosas, o arroz, a mandioca, a mapira, a Mexoeira e o feijão, cujos excedentes eram
comercializados para complementar a dieta alimentar dos trabalhadores do sector capitalista.

A cultura do algodão ocupava o primeiro lugar entre os produtos destinados à exportação. A companhia
distribuía gratuitamente as sementes, detinha o monopólio da comercialização, fixava os preços e
garantia a supervisão geral. Sendo uma cultura quase inteiramente sob controlo da companhia, os
camponeses tinham de vender o produto a preços fixados pela mesma.

O milho representava na economia do território a cultura mais importante pelo seu papel na alimentação
da população em geral e particularmente na alimentação dos trabalhadores. A mesma importância tinha
a mandioca, dada a sua abundância e facilidade de produção.

4.6.7. A Agricultura dos colonos em Manica e Sofala

Pelo artigo 10º da Carta Orgânica da Constituição da Companhia obrigava-a perante o governo
português, a instalar no seu território, nos primeiros 5 anos de actividades, mil famílias de colonos
portugueses ou seus descendentes. Neste sentido, a companhia obrigava-se a providenciar os seguintes
adiantamentos aos colonos: habitação; terrenos de culturas; alfaias; fertilizantes e outros insumos.

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


53

Os primeiros anos, foram desastrosos para os colonos, mortes, desaparecimentos, fugas para territórios
vizinhos por motivos de impossibilidade de pagar a dívida e troca de agricultura pela actividade
comercial. A causa do fracasso da colonização teria residido na falta de capital e de preparação técnica
e pouca experiência prática de agricultura, numa altura em que o conhecimento das condições agrícolas
da região era diminuto. Tal situação, fazia com que os colonos dependessem inteiramente do apoio da
companhia no investimento em infra-estruturas, assistência técnica e fornecimento de mão-de-obra.

A partir de 1910, com a subida ao governo do território de João Pery de Land, a Companhia começou a
ganhar confiança na agricultura dos colonos pela importância que a sua produção podia ter no
abastecimento do mercado interno, sobretudo da comunidade colonial cada vez mais crescente. Assim, a
companhia intensificou a política de atracção de mais colonos, oferecendo-lhes consideráveis vantagens:

 Assistência técnica - aluguer barato de máquinas, fornecimento de fertilizantes, distribuição de


sementes e, sacos.

 Crédito agrícola; Cedência de terras férteis e facilidades na angariação de mão-de-obra barata.

As propriedades dos colonos concentravam-se ao longo da linha férrea Beira-Macequece, nas


circunscrições de Neves Ferreira, Chimoio e Manica. O milho representava a principal cultura destinado
ao consumo interno e à exportação, praticavam também a fruticultura e horticultura.

Entre 1892 a 1942, a história da agricultura dos colonos foi marcada por uma violenta luta de classes
entre a classe dos agricultores colonos apoiados pela Companhia e o campesinato africano. Tal facto
deveu-se a necessidade dos colonos em transformar o campesinato africano numa força de trabalho
barato e de impedir a concorrência da agricultura comercial camponesa no mercado pelo facto de
constituir uma séria ameaça a sobrevivência da produção colona, particularmente o milho.

Assim, em 1936, foi estabelecida a Comissão Directora do Comércio do Milho (CDCM), definida
como organismo de coordenação agrícola para assistência directa aos agricultores, com função de
organizar e controlar a produção, distribuição e comercialização do milho.

4.6.8. A Política Laboral

O crescimento da economia colonial com o desenvolvimento das plantações e farms, exploração mineira
e com o aumento da actividade no caminho-de-ferro e porto da Beira, exigia a definição da política
laboral mais adaptada as crescentes actividades.

Assim, em 1907, entrou em vigor o regulamento geral do trabalho dos indígenas no território da
companhia de Moçambique:

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


54

 Regulamento para o fornecimento de indígenas à particulares nos territórios de Manica e Sofala;


 Regulamento para o recrutamento de indígenas de Manica e Sofala.

Três aspectos essenciais ressaltam desses regulamentos:

 A institucionalização do trabalho forçado

Impunha-se pela lei a obrigatoriedade de prestação do trabalho assalariado por todos indivíduos em
idade activa. Nos termos desta lei o camponês era colocado perante um dilema: vender coercivamente a
sua força de trabalho ou dedicar-se à culturas viradas ao mercado externo, em ambos os casos, em
detrimento da economia familiar de subsistência.

 Estabelecimento de um sistema de controlo rigoroso da força de trabalho

A Companhia determinou que cada trabalhador deveria ser portador de um certificado (Caderneta
Individual de Identificação Indígena) estabelecido entre 1926/7, declarando o tempo de serviço
prestado, as respectivas datas de início e término do contrato, tendo em vista impedir de modo mais
prático a mobilidade e o emprego livre dos trabalhadores antes e depois dos contratos.

Todos os indivíduos de sexo masculino com idade igual ou superior a 14 anos, foram obrigados a ter a
sua caderneta onde se registavam os contratos de trabalho cumpridos e a sua situação criminal.

 Interdição de recrutamentos para serviços fora do território

Era considerado neste âmbito, crime a chamada «emigração clandestina» e seria punida por penas que
iam até 20 meses de trabalho forçado sem remuneração, mas devia pagar o imposto de palhota. Um
policiamento rigoroso devia impedir a fuga dos trabalhadores para fora do território.

No entanto, estas medidas possibilitaram à Companhia minimizar o problema de escassez de mão-de-


obra, como também possibilitou o pagamento de salários baixos. E tiveram como consequências:

 Fugas para os países vizinhos ou outras zonas da colónia;


 Adopção de nomes falsos, por parte dos camponeses; a falta de mão-de-obra;
 A revolta de Báruè de 1905 e 1917.

4.7. O Sul e o Trabalho Migratório

4.7.1. A situação económica e política do sul do Save em 1880

Em 1880, os Estados do sul de Moçambique eram politicamente independentes do colonialismo


português, destacando-se os mais dominantes: Gaza com a sua capital na zona de Mossurize; e Maputo,

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55

ao sul da baía do mesmo nome, que dominava a zona entre os montes Libombos e a costa, incluindo a
chefatura de Tembe.

Embora esses Estados não estivessem sob controlo do poder colonial, estavam ligados ao comércio
europeu e asiático através de pequenos estabelecimentos portugueses em Inhambane e L. Marques. Para
se analisar este papel do comércio inserido numa perspectiva de penetração global capitalista na África
Austral, impõe-se uma periodização da história de L. Marques antes de 1885:

1º Período: 1840 – 1870: Características:

 O crescimento da caça ao elefante e das exportações do marfim; extinção completa dos elefantes;
 Estabelecimento no Sul Moçambique de uma rede de comércio asiático com produtores e
compradores africanos;
 Início da exportação de mão-de-obra para a colónia britânica do Natal, de produtos agrícolas
capitalistas (algodão e açúcar) e a construção do porto de Durban;
 A grande seca e a fome de 1860/61 e, o início da monitorização da economia do Sul.

2º Período: 1870 – 1885: Características

 O fim da caça ao elefante e da exportação do marfim em longa escala;

 Surgimento da exportação do milho e peles para Natal e de amendoim para Marselha;


 Estreitamento de laços económico entre o Sul, as colónias britânicas e as repúblicas bóeres.

Entretanto, duas razões concorreram para o estabelecimento de laços económicas entre o sul de
Moçambique, as colónias britânicas e as Repúblicas bóeres independentes e, consequente
desenvolvimento capitalista colonial, a saber:

 A abertura das minas de Kimberley que concorreu para s migração da força de trabalho do sul de
Moçambique;

 Depois de 1874, Lourenço Marques e o sul de Moçambique ficaram estreitamente ligados ao


desenvolvimento económico regional, a partir da exploração do ouro em Lydenburg, a leste do
Transval e rapidamente Lourenço Marques tornou-se um local de trânsito, por via terrestre de
recrutadoras e equipamentos até Lydenburg.

Efeitos do desenvolvimento para o sul de Moçambique

 Crescimento de empreendimentos económicos em Lourenço Marques, incluindo a construção de


lojas armazenistas e hotéis; Escassez de mão-de-obra no interior de Moçambique;
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56

 Início do trabalho migratório para as minas de ouro o leste do Transval;

 Expansão da rede comercial no interior, largamente controlada pelos asiáticos e que absorvia os
salários dos mineiros.

4.7.2. Factores Endógenos e Exógenos

O trabalho migratório para África do Sul explica-se pela convergência de diversos factores internos e
externos. A necessidade de mão-de-obra abundante e barata, pago em dinheiro nas plantações do Natal,
nos caminhos-de-ferro e portos de Durban e nas minas de diamante em Kimberley, coincidem com uma
crise generalizada que impunha a procura de alternativas de sobrevivência no sul de Moçambique.

[Link]. Factores Endógenos (Internos)

 A guerra civil no império de Gaza (opunha as facções lideradas por Muzila e Mawewe);

 A crise alimentar (provocada pela seca que afectou toda a África Austral nos anos de 1862);

 A Peste bovina (que dizimou grande parte do gado bovino).

Recorde-se que, o gado bovino era par os tsongas o principal símbolo do poder económico e principal
fonte de compensação matrimonial (lobolo). A alternativa temporária que os tsongas encontraram para
suster a crise do gado, a partir de 1840, foi aumentar a importação de enxadas para a compensação
matrimonial.

[Link]. Factor Exógeno (Externo)

 O pagamento da mão-de-obra em dinheiro.

4.7.3. Os Acordos sobre o trabalho entre Portugal e a África do Sul

1867 – Os governos do Natal e de Portugal estabeleceram um acordo que permitia a saída voluntária de
trabalhadores migrantes para Natal.

1897 – (18 de Novembro) Promulgado por Mouzinho de Albuquerque um acordo que visava o
engajamento ou controlo de indígenas para a África do Sul, já que Portugal era estava de reprimir a
emigração clandestina e a incapacidade do seu capital para explorar a mão-de-obra local. Assim, a
exportação de mão-de-obra legalizada, iria garantir a entrada de divisas para a solução de alguns
problemas como dos portos, caminho-de-ferro e comércio português no sul. O recrutamento poderia ser
feito em qualquer dos distritos de Moçambique.

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


57

Modus Vivendi: 1901 – o principal objectivo do acordo era dar sequência aos acordos de recrutamento
celebrados em 1897. Os contratos de trabalho tinham a duração máxima de 1 ano com um período de
repouso de 6 meses.

Aditamento de 1904 – ficou definido que os produtos da indústria de uma das colónias estariam livres
de direitos alfandegários na outra colónia quando as partes constituintes de tais produtos fossem
originárias da colónia exportadora. Facto que abalou as poucas indústrias existentes em Moçambique.

A Convenção de 1909 – este acordo estabelecia:

 A passagem por L. Marques de 50% à 55% do tráfego ferroviário da área do rand;


 O monopólio de recrutamento da força de trabalho foi garantido à Wenela6 que podia actuar nas
zonas moçambicanas sob controlo governamental, à excepção dos territórios da Companhia de
Moçambique;
 O direito de Portugal receber uma taxa por cada mineiro recrutado, a ser pago pelas minas;
 Um sistema de pagamento diferido de salários (numa base voluntária).

A Convenção de 1928 – este acordo devia vigorar durante dez anos:

 Mantinha em vigor todos os pontos acordados anteriormente, no que diz respeito ao porto de
Lourenço Marques;

 O período do contrato era de 12 meses, extensivos por mais 6 meses, era proibido voltar a
empregar os trabalhadores antes de estes terem passado pelos 6 meses em Moçambique;

 Estabelecia um sistema de pagamento diferido obrigatório, nos termos de que uma parte dos
salários era entregue à curadoria e pago aos trabalhadores depois do seu regresso à Moçambique;

 Estipulava que o número de moçambicanos nas minas fosse reduzido para 80 mil até 1933.

Acordo de 1965 – autorizava o estabelecimento de outras empresas recrutadoras. Como consequência


disto, viriam a constituir-se outras três, agências de recrutamento, a ATAS, a ALGOS e a CAMON, que
iniciariam a sua actividade em 1967, recrutando trabalhadores para as minas não filiais da Câmara das
minas e para agricultura na África do Sul.

4.7.4. Consequências do trabalho migratório para o Sul de Moçambique

 A monetarização da economia do Sul de Moçambique, com a introdução da libra esterlina;


 Aumento da rede comercial no Sul de Moçambique;
6
Witwarsrand Native Labour Association. O seu monopólio foi quebrado em 1965, com a criação das três agências.

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 Diminuição da mão-de-obra das comunidades;


 Readaptação de certas instituições sociais (lobolo) em função do salário. Assim, o lobolo que
anteriormente era pago em gado bovino e mais tarde me enxada, foi sendo gradualmente feito em
dinheiro;
 O sistema de tributação que anteriormente compreendia apenas as rendas em trabalho e em
géneros, foi gradualmente feito em dinheiro (libra);
 E a crise alimentar provocada pela seca, foi parcialmente minimizada pelo dinheiro.

4.8. A política social

4.8.1. A emergência do proletariado urbano

A emergência do proletariado urbano moçambicano, esta estreitamente ligada a construção e


desenvolvimento de portos e caminhos-de-ferro, que vai fazer surgir os primeiros aglomerados urbanos,
para os quais começaram a convergir obrigatoriamente e, por vezes voluntariamente, largas camadas de
pessoas, que constituíram os primeiros trabalhadores assalariados urbanos. As obras de construção
exigiam a utilização de grandes contingentes de mão-de-obra, recrutados em regime de trabalho
obrigatório, para as cidades, surgiu paralelamente a migração para o exterior.

O crescimento urbano exigiu, por outro lado, mais trabalho assalariado para garantir a manutenção das
diversas actividades surgidas e como resposta às exigências criadas pela fixação dos primeiros grupos de
colonos portugueses, como obras públicas, turismo, remoção de lixo, trabalho doméstico, e.t.c; o que
deu origem ao aparecimento de camadas semi-proletarizadas urbanas. Serra (Ibid:412)

Foi no entanto, em Lourenço Marques (portos e caminho-de-ferro) que se estabeleceram as secções


numericamente mais significantes do embrionário proletariado urbano, sendo o porto o principal
empregador dessa mão-de-obra. Estes eram atraídos pelos centros urbanos com objectivo de melhorar as
condições de vida, com melhores salários, com o dinheiro para pagar o lobolo ou o imposto.

4.8.2. Características do proletariado urbano

Desenvolveu-se uma camada proletária urbana, com um nível de instabilidade bastante acentuado; eram
trabalhadores não qualificados; concentravam-se na sua maioria numa base étnica e regional; tinham
salários médios.

N.B: Diferentemente do proletário europeu, o africano continuava apegado ao mundo rural.

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


59

4.8.3. A luta do proletariado urbano

A partir de 1900 deu-se a consolidação do colonialismo no Sul de Moçambique e, paralelamente,


reforçaram-se os laços económicos com a África do Sul, continuando a exploração da força migrante.
Devido a necessidade de mão-de-obra barata, foi instituído o trabalho forçado na região Sul do Save. E
para supervisionar o recrutamento de trabalhadores para as minas sul-africanas e o uso interno, foi criada
em 1904 a Curadoria dos Negócios Indígenas e Emigração.

Na visão de Serra (Ibid:417), “o governo colonial tentou sempre impedir o pagamento de salários
elevados.” Mas, de qualquer forma, o nível salarial nos caminhos-de-ferro e algumas empresas privadas,
atraiu muitos trabalhadores. No entanto, as injustiças salariais quer para os trabalhadores voluntários
(contactados), quer para s contratados, eram visíveis, o que levouz os trabalhadores ferro-portuários a
protestarem e a organizarem greves.

A medida que o porto e caminhos-de-ferro de Lourenço Marques iam sendo controlados pelo Estado
colonial, o surto de greves foi se agudizando envolvendo mais grupos e sectores de trabalho. O exemplo
disso, segundo Pereira (2010: 115), “foram as manifestações reivindicativas ocorridas nas cidades de
Lourenço Marques em 1905 (trabalhadores voluntários da empresa Llingham Timber) e 1906
(trabalhadores da Delagoa Bay).” As principais reivindicações do proletariado assentavam-se nos
aumentos ou reajustamentos salariais.

4.8.4. A 1ª Guerra Mundial e a crise económica e social da década de 20

Em Maio de 1915, Portugal entra na I Guerra Mundial ao lado dos aliados contra a Alemanha, e como
resultado, o escudo português desvaloriza-se em relação a libra inglesa e as consequências foram:

 Crise monetária; aumento de preços dos produtos de 1ª necessidade; especulação desenfreada;

 Queda dos salários dos trabalhadores rurais e urbanos; aumento do mussoco e imposto de
palhota;

 Agravamento das condições de vida do proletariado, do pequeno funcionário público e dos


empregados domésticos.

Com o fim do conflito, a situação não melhorou, a crise manteve-se e veio a tomar maiores dimensões,
agravando ainda mais a situação do proletariado urbano. Alguns, optam pela migração para os territórios
vizinhos onde o trabalho era mais bem remunerado, outros optam por desertar do trabalho pouco pago

Historia 12α Classe Elaborado por Dr. Estêvão Ricardo Inguane


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(provocando a falta de mão-de-obra). O cenário, vai conduzir a eclosão de novas greves do proletariado
urbano.

Cronologia das greves no século XX


Ano Principais acontecimentos
1919 Greve dos estivadores (negros).
1920 Greve do pessoal da empresa de transportes urbanos (brancos).
Greve dos ferroviários (brancos).
1921 Greve dos estivadores (negros).
1923 Greve do pessoal da empresa de transportes urbanos (brancos).
Agosto: greve geral na Beira. Paralisação geral e concertada de trabalhadores e pequenos
1925 empresários brancos, em protesto contra uma série de medidas decretadas pela
administração da Companhia majestática.
Setembro: Lourenço Marques. Reivindicação dos trabalhadores a duplicação dos salários e
melhores condições de vida.

Analisada a luta do proletariado urbano, pode-se concluir que:


 Foi uma acção isolada e sem coordenação com os restantes trabalhadores;
 Não houve uma reunião entre os trabalhadores moçambicanos e portugueses;
 A ideologia racista que os separou também separou, por sua vez, o próprio proletariado entre si;
 Foi uma luta económica através de acções directas (graves) e acções indirectas (manifestações);
A reacção (estratégia) do Estado colonial
 Aliciamento dos principais mentores das greves;
 A táctica de «dividir para reinar», dando algumas regalias aos assimilados e mulatos;
 Repressão, utilizando a polícia e outros instrumentos de repressão.
Assim, o Estado colonial procurou e conseguiu impedir o surgimento de um proletariado forte e unido,
bloqueando, no seio dos trabalhadores moçambicano, em particular, o desenvolvimento de uma
consciência de classe.

4.8.5. Causas do fracasso da luta do proletariado

A falta de unidade (dentro do sector ferro-portuário havia divisão entre contratados e não
contratados, entre estivadores e trabalhadores do cais e entre portuários e ferroviários);

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A acção do Estado colonial, quer cooperando com empresas privadas, de forma a garantir mão-
de-obra barata não qualificada, quer utilizando a força militar e policial para reprimir, controlar e
impedir a organização dos trabalhadores.

O Nacionalismo Económico de Salazar e a situação das colónias


O nacionalismo económico de Salazar manifestou-se no «Acto Colonial» na «Carta Orgânica» de
1930. A legislação marcou o fim da autonomia formal da província de Moçambique, que passou a
chamar-se “colónia”. Concretamente, o nacionalismo económico centralizou os poderes legislativos e
financeiros nas mãos do Ministro das colónias, visando colocar Portugal a par das restantes potências
colonizadoras, em termos de capacidade de, nomeadamente, dominar e explorar os territórios
ultramarinos.

Moçambique, como parte do Império Colonial, viu serem introduzidas políticas proteccionistas como
forma de impedir que qualquer país viesse instalar uma indústria. Nenhum país poderia importar algo de
Moçambique sem o aval das autoridades de Portugal. A única moeda que deveria circular em
Moçambique até essa altura, deveria ser apenas a portuguesa (o escudo).

O Acto Colonial7 definiu o dever de Portugal de civilizar e de defender as suas colónias e o direito da
sua posse e exploração exclusiva, limitando a intervenção económica de países estrangeiros. Como
consequência, reforçou-se a tutela metropolitana sobre as colónias, tendo-se abandonado a política de
descentralização administrativa e de abertura ao capital estrangeiro.

Ao invés disso, insistiu-se na fiscalização da metrópole sobre os governadores coloniais e no


estabelecimento de um regime económico de tipo “pacto colonial”, segundo o qual caberia às colónias
serem meros fornecedores de matérias-primas para Portugal.

Marcos do Nacionalismo económico de Salazar


 Criação da zona de escudo com objectivo de controlar rigorosamente o comércio exterior das
colónias em benefício da metrópole;

 Proibição do uso de moedas doutros países nas operações internas da colónia;

 A centralização de territórios as divisas nos cofres do Estado. Portugal impôs um sistema de


licenças de importações e exportações «Fundo Cambial» em relação às trocas com outros países

7
Acto Colonial – conjunto de leis referentes a administração das colónias e constantes da Constituição de 1933, publicadas
pelo decreto nº 18578, em 18 de Junho de 1930.

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62

e as suas colónias. Assim, tinha assegurado o fornecimento do algodão, a matéria-prima mais


procurada pela sua indústria. Passou a incentivar, financeiras, as concessionárias algodoeiras
(que exportavam das colónias).

Características do colonial-fascismo

 O Estado colonial passa a dirigir toda a política laboral, particularmente através da Direcção dos
Serviços e Negócios Indígenas;
 O Estado cria a zona de escudo (1932), impondo um sistema de licenças de exportação e
importação;
 Incrementa o sistema de agricultura forçado de algodão e do arroz. Em 1938, cria a Junta de
Exportação do Algodão Colonial (JEAC);
 Incrementa a cultura do chá, sobretudo na Zambézia;
 Introduz os planos de fomento;
 Limita o poder das companhias majestáticas. Em 1942, com a cessação dos poderes da
companhia de Moçambique, Portugal passa a controlar efectivamente Moçambique.

A política social no período de Salazar

O governo de Salazar usou os meios de propagação como: a radio, televisão, e outros para criar uma
imagem de falsidade acerca da realidade que se passava, na colónia. Havia terminologias utilizadas pelas
autoridades coloniais respeitantes aos grupos raciais existentes em Moçambique.

As palavras: branco, asiático, goês-caneco, paquistanês, indiano-monhé e indígena são termos que não
exprimem unicamente o grupo racial a que pertencem, mas também o seu lugar na escala social colonial
portuguesa. O africano é conhecido no sentido pejorativo ou inferioridade racial, por: cafre, negro,
indígena, pé-descalço ou português de cor. O termo africano ou moçambicano raramente é usado.

A população moçambicana vivia em aldeamentos rurais. Somente 4/5% viviam nos arredores das
cidades, sendo estes locais conhecidos por bairros de caniço. Na sua vida diária, o moçambicano esteve
sujeito às seguintes normas:

 Trabalho forçado; caderneta indígena; interdição de deslocamento e de actividade económicas;


limitação de acesso a clubes, teatros, e.t.c.

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A colonização mental

O sistema colonial tinha como preocupação principal utilizar a ciência e a cultura como força visando
negar a personalidade nacional e acentuar a dependência em relação ao estrangeiro. Assim, o
objectivo do ensino era despersonalizar o moçambicano, desligá-lo do seu país e da sua origem,
levando-o assim, a negar, a desprezar, a envergonhar-se do seu povo e da sua classe, a perder a
iniciativa criadora e só reconhecer como válidos os valores do colonizador.

Através da educação, o colonialismo pretendia separa os africanos dos seus povos e incentivar os valores
e mentalidade ocidental. O africano escolarizado tendia a desprezar a sua cultura, os valores da sua
comunidade, desenvolver o sentido de que a cultura africana era inferior à europeia.

A natureza da educação rudimentar

A partir de 1930, o governo colonial procedeu a modificações no sistema educacional de Moçambique;


passou a controlar directamente o ensino destinado à população negra. O objectivo do governo colonial
era criar um sistema capaz de «habilitar o indígena» para ser trabalhador barato da economia colonial,
ou como intermediário entre o Estado colonial e as massas.

O ensino rudimentar, segundo a lei nᵒ 238 de 15 de Maio de 1930, e a Concordata de 1940, tinha como
finalidade tirar gradualmente o indígena de uma vida de selvagem para uma vida civilizada. Este
ensino era de inteira responsabilidade das missões católicas.

Os primeiros anos deste ensino são chamados de adaptação, equivalente ao jardim-de-infância e aos
dois primeiros graus: 1ª classe (1º grau) e 2ª classe (2º grau) tinham como finalidade iniciar as crianças
africanas na língua portuguesa e nos rudimentos de leitura, escrita e aritmética, trazendo-as ao nível
da criança portuguesa no início da escola primária.

Principais disciplinas
a) Língua portuguesa;
b) Aritmética e sistema métrico;
c) Geografia e História de Portugal;
d) Desenho e trabalhos manuais;
e) Educação física e higiene;
f) Educação moral e Canto coral.

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A idade limite para admissão à escola secundária era de 14 anos de idade e era raro que uma criança
africana tivesse iniciado os estudos a tempo de ter acabado os 1ºs anos, os 3 anos da escola rudimentar e
os 5 da primária. O grande valor atribuído a igreja no ensino é a influência sociocultural por ela
exercida sobre o grupo de africanos cristianizados. Tornar-se cristão não significava apenas ser membro
da igreja católica, mas sim aceitar um certo número de princípios da sociedade euro-portuguesa.

O papel das Missões Católicas

As missões católicas em Moçambique foram formadas por portugueses, espanhóis e italianos de


diferentes seitas: jesuítas; franciscanos, capuchinos e beneditanos. Pouco depois da inauguração do
Estado Novo em 1926, no Estatuto das Missões Católicas Portuguesas, o governo português
manifestou a sua intenção de garantir as missões católicas protecção e ajuda do Estado sob forma de
subsídios e de concessão livre de terrenos em Moçambique. A nova constituição de 1933 reforçou essa
política em relação às missões católicas, «entanto que instituições de educação e instrumentos de
civilização».

Algumas actividades mais importantes das missões eram a fundação de escolas para crianças africanas
e europeias, tendo criado escolas elementares, secundárias e profissionais. Portanto, a
responsabilidade de educar o povo africano foi entregue à igreja católica.

A educação elementar que a igreja dava aos africanos era de conteúdos elementares e religiosos, com
grande parte do horário preenchido por aprendizagem da religião; além disso, o nível de matérias
ensinadas tais como: português, leitura e aritmética era muito baixo. A história e geografia eram
somente de Portugal.

O objectivo principal deste ensino era um desvio geográfico da presença dos nossos pensamentos. Ou
seja, pretendiam transferir a nossa atenção para as belezas de Portugal e da Europa.

O crescimento da população colona – os Colonatos

Os portugueses enviados após 1930 fixaram-se em lugares denominados «colonatos». Os colonatos


desenvolviam actividades agrícolas, pecuária e algumas indústrias transformadoras do ramo alimentar.
Nestes colonatos foram incluídos cerca de 3000 portugueses e 2000 africanos.

Os colonos eram providos de ajuda económica e técnica. Os africanos eram obrigados a enfrentar
dificuldades não só da falta de ajuda, mas também do facto de terem sido transferidos para locais

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totalmente desconhecidos, juntando-se a sabotagem e descriminação racial dos administradores


portugueses e dos próprios colonos brancos.

Os colonos ficavam instalados em sítios mais férteis e com melhores condições agrícolas e outras
vantagens. Estes passaram a utilizar os africanos como mão-de-obra.

Principais colonatos

 Colonato do Limpopo – Gaza;


 Colonato de Révuè e Sussundenga – Manica;
 Colonato de Nova Madeira – Niassa.
Colonatos – eram regiões de ordenamento e fixação dos colonos europeus, organizados no modelo da
propriedade rural portuguesa, com objectivo de absorver a massa proletarizada em Portugal e estabelecer
barreiras ao desenvolvimento nacionalista em Moçambique.

Os Planos de Fomento

Em 1937 foi publicado um plano de fomento sexenal, que seria financiado pelos excedentes
governamentais acumulados e pelas receitas dos portos e caminho-de-ferro.

O plano contemplava a construção para o interior da Ilha de Moçambique, os esquemas de irrigação do


vale do Limpopo e do Umbeluzi, o caminho-de-ferro de Tete, o desenvolvimento do porto de Nacala e
investimento agrícola e rodoviário. A implementação do plano foi interrompida pela eclosão da II G.M.

Porém, a partir da década 50, o governo deu um novo impulso à exploração dos recursos de
Moçambique. Iniciaram deste modo, os planos de fomento.

O Primeiro Plano de Fomento (1953 – 1958)

O primeiro Plano de Fomento contemplava o «aproveitamento de recursos e povoamento», prevendo


investimentos na ordem de 1848500 contos. Estes investimentos eram assim distribuídos:

 Caminho-de-ferro, portos e transportes aéreos……………………………………………...…63%


 Aproveitamento de recursos e povoamento….………………………………………………...34%
 Diversos...……………………………………………………………………………………….3%

O plano não previa a atribuição de quaisquer verbas nem para a investigação científica, nem para a
saúde pública e ensino. A principal obra do plano foi caminho-de-ferro Lourenço Marques –
Malvérnia (300km), concluído em 1956.

O Segundo Plano de Fomento (1959 – 1964)


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O 2º Plano de Fomento surgiu na continuidade do anterior. Tinha seus investimentos dirigidos para os
seguintes sectores:

 Povoamento dos colonatos (particularmente do Limpopo);

 Comunicações e transporte;

 Aproveitamento de recursos agrícolas, florestais, pecuários, hidroeléctiricas, hidroagrícolas,


estudos de cartografia geral e geológicas.

Eram um plano que visava essencialmente de fomento da produção e de povoamento e continuava a não
contemplar a indústria. Apenas uma pequena verba foi destinada a instrução, a saúde e abastecimento de
água.

A Luta Clandestina dos Movimentos Nacionalistas moçambicanos

A década de 60, era caracterizada pelas independências africanas, em Moçambique aumentava a


repressão colonial. Em 16 de Junho de 1960 deu-se o massacre de Mueda. Por outro lado,
desenvolviam-se as actividades clandestinas no exterior e fora do alcance da PIDE, formando-se
movimentos com caracter regional, destacando-se:

1. União Democrática Nacional de Moçambique (UDENAMO), fundada em 1960, em Salisbury


(Rodésia do Sul), chefiado por Adelino Gwambe.

2. União Nacional Africana de Moçambique Independente (UNAMI), fundada em 1960 na


Niassalândia, por exilados de Tete, chefiados por Baltazar Chagonga.

3. União Nacional Africana de Moçambique (MANU), nasceu em Fevereiro de 1961, em Mombaça,


e Quénia, da fusão das antigas associações dos Makondes e Makuas na Tanzânia («Tanganhica –
Mozambique Makonde Union» e «Zanzibar Makonde and Makua Union»), dando origem a:
Mozambique African Nation Union.

N.B: Estes três movimentos não tinham um programa elaborado que tivesse à luta contra o regime
colonial, por um lado, e por outro, nem conhecimento sobre a política colonial.

As s organizações unitárias contra o colonialismo português

Paralelamente à dinamização do movimento anti-colonial em Moçambique e territórios vizinhos, entre


1957 – 1961, começou uma nova fase na evolução das organizações anticolonialistas radicais na Europa.

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Entre 15 a 18 de Novembro de 1957, teve lugar, na casa de Marcelino dos Santos, em Paris, a «reunião
de consulta e estudo para o desenvolvimento da luta contra o colonialismo português», com Amílcar
Cabral, Guilherme Espírito, e outros.

Entre 18 e 20 de Abril de 1961, teve lugar em Casablanca, a Conferência das Organizações


Nacionalistas das Colónias portuguesas (CONCP), que constitui 1º encontro dos movimentos opostos
ao colonialismo português. Moçambique foi representado na conferência pela UDENAMO e Marcelino
dos Santos foi eleito Secretário-geral.

A formação da FRELIMO e a luta de libertação nacional

Os movimentos formados, desintegraram-se devido: ao tribalismo, regionalismo, racismo e falta de uma


clareza nos seus objectivos e estratégias. Assim, a ideia do nacionalismo foi concretizada com esforço
de Eduardo Chivambo Mondlane, que em 1961 de visita a Moçambique, inteirou-se sobre o modelo
de vida dos moçambicanos, tendo iniciado contactos com os movimentos que lutavam contra o
colonialismo e mobiliza os grupos do exterior para a criação de um movimento nacional.

Com apoio de Julius Nyerere e dos estudantes no exterior, como Joaquim Chissano, Mariano Matsinhe,
Marcelino dos Santos, discutiram a plataforma da unidade acional, concretizada a 25 de Junho de 1962
com a fusão dos três movimentos, resultando na criação da Frente de Libertação de Moçambique
(FRELIMO).

A 1ª direção eleita da FRELIMO era constituída por: Eduardo Mondlane – presidente; Uria Timóteo
Simango – vice-presidente; David José Mabunda – secretário-geral; João Munguambe – secretário de
defesa; Filipe Samuel Magaia – vice-secretário da defesa; Baltazar da Costa Changonga – secretário de
saúde. A 25 de Setembro de 1964, iniciou-se a luta armada de libertação, em Chai, na província de Cabo
Delegado.

A crise do colonialismo português e a revolução dos Cravos

A partir da Segunda Guerra Mundial, o governo salazarista sofreu grandes pressões internacionais para
descolonizar as suas possessões. Portugal responde filiando-se tacticamente na NATO (1949),
transformando as colónias em províncias ultramarinas (1951) e filiando-se na ONU (1955), após
comprometer-se a acabar com o trabalho forçado; intensifica a criação de infra-estruturas nas colónias.
(planos de fomento); instala a PIDE em Moçambique (1957) e transforma os indígenas em cidadãos,
abolindo formalmente as culturas forçadas do arroz e do algodão (1961).

Assim, no período 1961 – 1973, verifica-se uma reestruturação do capital português:

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 Nos antigos sectores de produção, viradas basicamente para exportação, assiste-se à mecanização
(ex: na produção do açúcar) e à viragem da produção camponesa africana para a produção pelos
colonos (caso do algodão);

 Adopta-se uma política de portas abertas, convidando o capital estrangeiro a investir nos
territórios coloniais.

Em 1969, foi aprovada a construção da barragem de Cahora Bassa, com a partição do capital sul-
africano e rodesiano.

A política de portas abertas não foi só uma necessidade política para assegurar o apoio daqueles contra
os MLN. Foi também uma necessidade económica perante a incapacidade do capital português de
modernizar por si só a base produtiva. Com a construção da HCB, Portugal pretendia que fosse:

 Um obstáculo à passagem dos guerrilheiros da FRELIMO para o sul do Zambeze;

 Uma área de fixação de colonos, que constituiriam uma barreira ao avanço da luta de libertação
nacional

Em 1970, os portugueses prepararam a ofensiva Nó Górdio, dirigida por Kaúza de Arriaga, com o
objectivo de acabar com a FRELIMO. A derrota ou descalabro desta operação acelerou a crise do
capitalismo em Moçambique: cessaram os grandes investimentos imperialistas activos desde 1961, a
burguesia colona intensificou a fuga de divisas, principiou a sabotagem económica e cresceu o êxodo
dos colonos.

Por outro lado, a derrota de Arriaga e a abertura da frente de Manica e Sofala, levou ao desespero e
descontentamento dos soldados e do povo português, cansado de perder seus filhos e de sustentar uma
guerra injusta em Moçambique, Angola Guiné-Bissau e Cabo Verde. Foi assim, que a 25 de Abril de
1974 ocorreu o golpe de estado em Portugal contra o governo fascista – revolução dos Cravos.

A intensificação da luta e a pressão internacional levaram o novo governo a encetar as primeiras


negociações com a FRELIMO, que iniciaram a 05 de Junho de 1974. Em 07 de Setembro de 1974
foram assinados os acordos de Lusaka (Zâmbia), levando a criação do governo de transição a 20 de
Setembro, dirigido por Joaquim A. Chissano, com objectivo de prepara as condições para a
independência.

Em Maio de 1975, Samora M. Machel inicia em Nangade a viagem triunfal norte, em Junho, no Tofo,
o Comité Central da FRELIMO reuniu-se e definiu a natureza e os objectivos do novo estado que ia

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nascer. Foi aprovada a Constituição da República de Popular de Moçambique, e a 25 de Junho de


1975, foi proclamada a independência.

Bibliografia:

MUSSA, Calos. História 12ª classe. Maputo: Texto Editores, 2008


PERREIRA, José Luís. História 12. Maputo: Longman. 2010
SERRA, Carlos (coord.). História de Moçambique. Vol. 1 e 2. Maputo: Livraria Universitária, 2000.

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