Desafios da Regionalização da Saúde em Angola
Desafios da Regionalização da Saúde em Angola
Abstract Introdução
fundamentais para organização dos sistemas de blioteca da OMS). A página de buscas da Internet
saúde em muitos países africanos. O mesmo se “Google” ([Link] possibilitou
verifica em Angola, onde, ainda que timidamen- um amplo acesso às mais diversificadas fontes
te, priorizam-se investimentos no nível dos cui- de dados. As palavras-chave utilizadas foram:
dados secundários, o que agrava sobremaneira distritos sanitários, distritalização, municipali-
as dificuldades de acesso e utilização dos servi- zação, regionalização, descentralização e acesso
ços de saúde pela população. em saúde (em Português, Inglês e Francês), de
A discussão da temática torna-se ainda mais forma isolada e/ou combinada com as palavras
relevante pelo fato de estar em curso em Angola, “Angola” e “África”. Outra expressão pesquisada
desde 1999, a implementação de um programa foi “situação sócio-sanitária de Angola”. Todo o
de desconcentração e descentralização adminis- trabalho de pesquisa e categorização de dados
trativas com vista à melhoria do acesso da popu- foi realizado de 3 de agosto de 2006 a 2 de dezem-
lação aos serviços públicos 2. bro de 2007.
Este artigo tem por objetivo discutir os be- Todos os artigos e documentos passaram por
nefícios, possibilidades e dificuldades para a uma leitura em profundidade, orientada pelas
implementação da regionalização do sistema de categorias: situação de Angola, descentralização,
serviços de saúde de Angola, considerando seu aspectos conceituais, princípios organizativo-as-
contexto sócio-sanitário. sistenciais, benefícios, condições e dificuldades
para a regionalização em saúde, ordenados de
forma a permitir uma adequada apresentação e
Metodologia abordagem. Foi selecionada principalmente bi-
bliografia recente, dos anos 2000 (Tabela 1).
O presente estudo apóia-se numa revisão biblio- Foram incluídos todos os trabalhos que se
gráfica. Assim, considerando os objetivos traça- enquadravam na temática, inclusive alguns das
dos, buscaram-se autores brasileiros, uma vez décadas de 70 a 90, considerando as caracterís-
que, no Brasil, está ainda em curso a reforma sa- ticas semelhantes dos contextos dos referidos
nitária, existindo uma vasta produção bibliográ- estudos ao de Angola hoje.
fica sobre a temática. Portanto, foram seleciona- Foram excluídos os artigos fora da temática
dos trabalhos de autores reconhecidos na área. traduzida pelas categorias acima.
Com o propósito de identificar estudos e dis-
cussões sobre a desconcentração e descentrali-
zação das políticas públicas em curso em Angola Caracterização da situação de Angola
e também a fim de levantar dados sobre a sua
situação sanitária, efetuou-se um deslocamento Situada no Sudoeste de África, conta com 18
àquele país, o que permitiu o acesso a publica- províncias, 163 municípios e 475 comunas. Tem
ções sobre esse processo, sobre o seu sistema de aproximadamente 1.246.700km2, com uma po-
saúde e a relatórios estatísticos recentes do Mi- pulação estimada em 15.107.000 habitantes 3,
nistério da Saúde de Angola. encontrando-se cerca de 49% ainda concentrada
Para complementar as informações, foram nos grandes centros urbanos, resultado da guerra
utilizados documentos do CRA/OMS e de outras que o país enfrentou desde a independência, em
organizações das Nações Unidas, como também 1975, até 2002. A taxa de alfabetização é de 42%,
páginas da internet de instituições da União Eu- segundo o Instituto Português de Apoio ao De-
ropéia. senvolvimento (IPAD) 4. Além da língua oficial,
Considerando a necessidade de se analisa- o Português, existem no país vários grupos et-
rem outras experiências regionais e mundiais, nolingüísticos, expressando-se em mais de vinte
recorreu-se a autores africanos ou com estudos línguas nacionais, línguas maternas da maioria
sobre o continente, a autores internacionais e a da população 5.
estudos e recomendações da OMS para a Região
Africana. Perfil político-administrativo
A consulta foi feita nas bibliotecas e bases
virtuais, como a SciELO (Scientific Electronic A Constituição estabelece um sistema político
Library Online), a BVS (Biblioteca Virtual em semipresidencial. No nível subnacional, o poder
Saúde) e a PAHO (acervo da biblioteca da Orga- está concentrado nos governos de província e nos
nização Pan-Americana da Saúde), além de nas seus governadores, nomeados pelo Presidente da
bases de dados da MEDLINE (Literatura Interna- República. No entanto, com a descentralização
cional em Ciências da Saúde), LILACS (Literatura de responsabilidades administrativas, do nível
Latino-Americana e do Caribe em Ciências da central para o provincial em curso, o setor da
Saúde) e WHOLIS (sistema de informação da bi- saúde também vive uma descentralização par-
Tabela 1
Bibliografia selecionada.
Brasileiros 7 2 1 6 1 - 17
Africanos ou sobre África 3 - 1 - - - 4
Estudos e dados sobre Angola - 1 - 2 4 6 13
Internacionais - - - 1 - 2 3
Total 10 3 2 9 5 8 37
CRA/OMS: Comitê Regional Africano/Organização Mundial da Saúde; PNUD: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento; MAT: Ministério da
Administração do Território; MINSA: Ministério da Saúde de Angola; INLCS: Instituto Nacional de Luta Contra a Sida de Angola.
cial de autoridade e de orçamento, do Ministério 12,19 enfermeiros por 10 mil habitantes 9, invia-
da Saúde de Angola para hospitais de cuidados bilizando o reforço das redes locais de saúde e
terciários e provinciais e institutos 6. a intensificação de intervenções prioritárias de
saúde que respondam às necessidades das co-
Perfil epidemiológico munidades locais.
Em geral, verifica-se uma profunda assime-
As principais endemias são a malária, que repre- tria na distribuição espacial dos servidores civis
senta 50% da demanda; a tuberculose; o HIV/ do Estado, particularmente com os subuniver-
AIDS; a tripanossomíase africana; a lepra e a sos do pessoal técnico superior e do técnico:
esquistossomose 7, confrontando-se o país com 72% do primeiro e 81% do segundo encontram-
altas taxas de mortalidade infantil (154/mil nas- se na capital, concluindo-se que é profunda a
cidos vivos) 4, sendo a de menores de cinco anos fraqueza institucional na maioria das províncias
na ordem de 250/mil nascidos vivos 3. A morta- de Angola 10.
lidade materna está em torno de 1.500 por 100
mil nascidos vivos. A geral apresenta-se bastante Financiamento da saúde
elevada, 18,8%, para uma taxa de natalidade de
48,4% 4. No período de 1997 a 2001, a despesa do Esta-
Estimativas do Instituto Nacional de Estatís- do com a saúde foi de 3,3% do produto interno
tica (INE) para o ano de 2003, segundo o Insti- bruto (PIB), enquanto a média dos países da Co-
tuto Nacional de Luta Contra a SIDA (INLCS) 8, munidade de Desenvolvimento da África Austral
indicam uma cobertura dos serviços de atenção (SADC) foi de 7,2%. Do total, mais de 50% foram
pré-natal de 66%, uma taxa de utilização infe- destinados ao nível secundário e a unidades cen-
rior a 40%, limitado acesso aos serviços de saú- trais 6.
de, avaliado em 50%, e somente 45% dos partos
são atendidos por profissionais em unidades de Rede de saúde
saúde.
Parte encontra-se ainda degradada, como conse-
Recursos humanos qüência da guerra, baixo investimento em cons-
trução e manutenção, em especial nas zonas pe-
Angola tem cerca 1.458 médicos (nacionais e es- riféricas, registrando-se uma proporção de 0,77
trangeiros) 9, estando mais de 70% concentra- cama para mil habitantes e de 49.852 habitantes
dos na capital, Luanda, e seus arredores, com por centro de saúde 10.
cerca de 5 milhões de habitantes, um terço da O sistema de saúde de Angola reflete uma es-
população angolana; em geral, o país tem 0,64 trutura organizacional essencialmente curativa,
médico nacional para cada 10 mil habitantes 9. ainda precária, sem adequado desenvolvimen-
Observa-se também uma elevada concentração to do processo de descentralização e do sistema
de enfermeiros e de outros profissionais da saú- de referência em que os distritos, ou pelo menos
de em Luanda, sendo o coeficiente nacional de os municípios, sejam unidades de importância
impossível e irracional instalar em cada muni- exigida em cada nível e no nível do sistema como
cípio todos os serviços especializados de saúde. um todo. Por conseguinte, a visão dialética da
A criação de regiões de saúde é, pois, condição descentralização prevê que a cada movimento de
sine qua non para a constuição de um sistema descentralização corresponde, até certo ponto,
público de saúde 18 que seja acessível para a po- uma contraposição de centralização relativa. As-
pulação, incluindo a mais necessitada. sim, se a atenção primária deve necessariamente
A descentralização como um processo social, ser prestada desconcentrada e descentralizada-
na prática, apresentará, sempre, fortalezas e de- mente, os níveis secundário e terciário organi-
bilidades, mas a questão central está em desen- zam-se de forma concentrada e centralizada 14.
volver processos de descentralização dos siste- Portanto, a regionalização implica necessaria-
mas de serviços de saúde que maximizem as suas mente que “os serviços com menor grau de espe-
fortalezas e minimizem as suas debilidades. Nes- cialização achem-se espacialmente distribuídos e
se sentido, uma das propostas mais consistentes os mais especializados estejam mais centraliza-
está em instituir, entre os níveis centrais e locais dos” 19 (p. 43).
dos sistemas de serviços de saúde, uma instância O sistema integrado de transferência do pa-
mesorregional, sejam distritos sanitários ou re- ciente por sucessivos níveis de atenção está ba-
giões de saúde 14. Esses argumentos sustentam seado na premissa de que os hospitais são insti-
a necessidade e a importância da proposta da tuições com cuidados especializados e que seus
regionalização dos sistemas de saúde. custos são substancialmente reduzidos através
Consideramos a regionalização como uma da implantação de outros serviços periféricos
das estratégias para (re)organização da rede de mais simplificados e resolutivos. A disponibilida-
serviços e como um dos instrumentos para a de de ambulatórios e serviços domiciliares teria
(re)construção de um sistema de saúde integrado um efeito significativo não tanto sobre a taxa de
de Angola. É um esquema de implantação racio- hospitalização, mas sobre a permanência hospi-
nal dos recursos de saúde, organizados dentro de talar 23.
uma disposição hierárquica, na qual seja possí- Defendemos para Angola a descentralização
vel oferecer uma assistência máxima nos centros dos cuidados primários, cuja rede inclui os postos
primários, sendo os demais serviços utilizados de saúde, dispensários e centros de saúde com
apropriadamente de acordo com as necessida- ou sem camas, e a regionalização dos serviços
des individuais do paciente 19. Dentre os princí- de maior densidade tecnológica, como hospitais,
pios organizativo-assistenciais do distrito sani- atenção ambulatorial especializada e serviços de
tário 20, capazes de conferir a qualidade exigida apoio diagnóstico e terapêutico de referência,
para tornar-se uma opção para responder aos mediante a criação de regiões e microrregiões ou
problemas e necessidades de saúde da realidade áreas sanitárias. No processo de construção des-
local, para além da hierarquização, destacam-se, tes espaços territoriais sanitários, há a necessida-
a orientação por problemas, a intersetorialidade, de de se criarem e implantarem instrumentos e
o planejamento e a programação local. Outros mecanismos que garantam a articulação entre os
princípios são a intercomplementaridade, a inte- serviços de saúde dos distintos níveis e diferentes
gralidade, a adscrição, a heterogeneidade e a au- municípios e bairros, num processo dinâmico e
toridade sanitária local a ser conseguida através flexível denominado referência e contra-referên-
da descentralização. Porém, um Sistema Distrital cia 24, considerado fundamental para se atingir a
de Saúde só pode funcionar plenamente após eqüidade, qualidade e integralidade do cuidado.
implementação da descentralização, devendo ter Concomitantemente, há que se pensar não só em
regulamentação e legislação próprias 21. estruturas de apoio, como vias de acesso e comu-
Um sistema de saúde descentralizado, em nicação, meios de transporte, como também em
uma dinâmica de transferência de recursos e operações de remoção de minas terrestres, uma
autoridade às suas diferentes instâncias, causa vez que a existência desses artefatos é um nefasto
impacto positivo na gestão e nas diferentes mo- legado da guerra naquele país, entre outras.
dalidades de atenção. Em adição, dá oportunida- Todavia, para uma exitosa regionalização em
de para que os processos de reforma permitam a saúde, há necessidade de considerar as seguin-
geração e desenho de novos modelos de atenção, tes condições 19: (a) informação demográfica e
papéis e funções, modalidades de capacitação, epidemiológica da população objeto; (b) reali-
sistemas de remuneração e novas formas de par- zação de um inventário atualizado dos serviços
ticipação das instituições, incluindo setores aca- existentes; (c) informação sobre a utilização dos
dêmicos 22. recursos; (d) consenso comunitário sobre as
O princípio da hierarquização está determi- prioridades; (e) conhecimento dos diversos as-
nado pela garantia de resolubilidade que se deve pectos da acessibilidade aos serviços para cor-
dar de acordo com a complexidade tecnológica rigir as principais deficiências do sistema e de
sua prestação; (f) relação entre formação, pelas esferas de poder, situação que coloca em pauta a
entidades educadoras, de graduados nas ciências noção de liderança coletiva, pois “não supõe ape-
de saúde e oportunidades de emprego; (g) novos nas alargar a capacidade de decisão dos dirigentes
mecanismos de cooperação intersetorial com locais e regionais, mas a necessidade de articular
planejamento conjunto, controle de qualidade e várias lideranças, situadas em diversas esferas de
a avaliação dos serviços. poder e níveis do sistema” 27 (p. 1).
As condições supracitadas, mesmo não sa- Logo, com a regionalização, a responsabili-
tisfeitas a priori, devem ser vistas de forma dinâ- dade pela administração do sistema de saúde
mica no próprio processo de implementação da de Angola ficaria distribuída pelos níveis nacio-
estratégia da regionalização. nal, provincial e municipal; no último, algumas
A falta de dados atualizados ou o fato de os atribuições seriam compartilhadas com as au-
dados disponíveis serem estimados e alguns toridades comunais. No entanto, a identificação
pouco confiáveis, ocultando questões potencial- das linhas de intervenção e a conformação dos
mente graves ou ocasionando distorções e erros sistemas funcionais de saúde não seriam ne-
de interpretação, representam duas das grandes cessariamente restritas à abrangência da região
dificuldades para o caso de Angola. Assim, am- político-administrativa (província, município ou
bos deveriam ser o foco das atenções dos formu- comuna), mas respeitariam seus limites como
ladores e implementadores da estratégia, pois unidade indivisível, objetivando garantir a inte-
a informação estratégica sobre a situação em gralidade da assistência e o acesso da população
análise é fundamental por ajudar na formulação aos serviços e ações de saúde consoante as ne-
correta das ações a serem implementadas e por cessidades. Surgiriam, assim, as regiões funcio-
facilitar o consenso, embora esta não seja uma nal-assistenciais, pois as ações correspondentes
dimensão fácil. Por tratar-se de um processo com se dão em territórios concretos, onde as pessoas
várias etapas para a sua implementação, muitas vivem, trabalham, constroem redes de relacio-
das condições poderão ser paulatinamente atin- namento e exercitam o poder 28. Só é possível
gidas mediante a interação entre formuladores, articular as diversas políticas públicas de nível
implementadores e o público-alvo. setorial com incidência provincial e as políticas
Artmann & Rivera 25 chamam a atenção para de âmbito nacional, provincial e local 10 conside-
o fato de que a reestruturação dos serviços de rando-se o território.
saúde pela via da regionalização é um processo Em Angola, por ser um Estado unitário e com
de busca permanente da negociação e da coo- uma dimensão territorial não muito extensa, de
peração, que exige flexibilidade, não passível de acordo com as especificidades geográficas, de-
ser resolvido pela aplicação de um instrumento mográficas, epidemiológicas, econômicas, as
normativo homogêneo. Entretanto, em Angola, províncias e os municípios de grande porte po-
não existe uma tradição de participação dos ór- deriam ser agrupados para a conformação das
gãos locais ou de base nos processos de decisão regiões ou distritos sanitários, enquanto os mu-
dos governos provinciais ou de administração nicípios de menor porte, comunas e/ou bairros,
central. Não há cultura de participação dos ato- por sua vez, para a conformação das microrregi-
res sociais nem de negociação 2, o que exige que ões ou áreas sanitárias.
a descentralização/regionalização naquele país Dentro de um sistema de serviços regionali-
inclua estas dimensões como processo de apren- zados 23, a distância seria um dos critérios mais
dizagem 26. importantes para estabelecer a distribuição ge-
A cooperação é essencial, tendo em vista que, ográfica das instituições de saúde. Em um pa-
com a regionalização, propõe-se encontrar um ís com grandes distâncias, diferenças regionais
equilíbrio entre a excessiva centralização estru- enormes, destacando-se os extremos entre regi-
tural e a descentralização total dos serviços de ões quase despovoadas e centros urbanos super-
saúde 26. Nesse sentido, a experiência interna- populosos, é preciso pensar com criatividade e
cional indica que existem áreas em que a descen- contextualizar os parâmetros através de adap-
tralização não deve incidir: na definição de ma- tações viáveis, que tragam impactos positivos
cro-políticas de saúde, nas decisões referentes sobre a situação problemática. Essa formulação
aos recursos estratégicos, na regulação de setores cabe perfeitamente para o caso de Angola, que
como de medicamentos e de equipamentos de vive, em adição, problemas de comunicação.
alta densidade tecnológica e na macro-análise de Um estudo feito na Zâmbia 29 concluiu que
situação e tendências de saúde 14. aproximadamente 50% das pessoas que vivem
A experiência de Quebec (Canadá) e da Fran- a menos de 5km de um provedor de saúde de-
ça 25 demonstra que a dinâmica de mudança, co- cidem procurar assistência quando se sentem
mo a que mencionamos neste trabalho, depende mal, e somente 17% daquelas que vivem a mais
de vários indivíduos em diferentes instâncias e de 40km tomam essa mesma decisão. Essa con-
clusão suporta a noção de que o grau de acesso Finalmente, com a estratégia de regionali-
real aos serviços de saúde depende da distância zação, as ações de vigilância, educação, atenção
que se deve percorrer para obtê-los, do tempo ambulatorial e hospitalar seriam favorecidas 15.
de viagem e do seu custo 30. As especificidades Os serviços de atenção primária responderiam
de Angola, no concernente à circulação de pes- melhor às necessidades dos usuários 28, aumen-
soas e bens, deveriam ser levadas em conside- tando, assim, a resolubilidade do sistema de saú-
ração na formulação das políticas para o setor de, desde que houvesse um investimento na rede
da saúde. física e em recursos humanos e tecnológicos.
Onokerhoraye 31 sugere, na Nigéria, uma dis- Apesar de todos esses benefícios, os esforços
tribuição de serviços de saúde segundo a qual para regionalizar um sistema de saúde trazem
os centros de saúde das comunidades deveriam em si um grande peso político, já que essas so-
servir a uma população de 10 mil a 20 mil pesso- luções são de médio e longo prazo, e os líderes
as. Nesses centros, a área de influência é aquela políticos procuram sempre respostas em pra-
em que o usuário tem de percorrer, no máximo, zos muito mais curtos. Na ausência de um pla-
um quilômetro para chegar à unidade de saúde no educacional para os provedores, pessoal de
mais próxima. Este e outros estudos feitos em saúde e o próprio público, o conceito pode an-
África, alguns relativamente antigos, mas já bem tagonizar todos esses elementos, impedindo sua
testados na prática, em virtude da proximidade implementação (Fein, 1982, apud Novaes 19). É
do contexto, podem servir de referência, desde importante sublinhar que a regionalização de
que os seus resultados sejam adaptados às espe- um sistema de saúde com organização hierár-
cificidades locais. Recomenda-se que o estabele- quica da rede é bastante complexa, impondo
cimento das referidas áreas de influência e a de- grandes desafios administrativos relacionados
finição dos padrões médico-assistenciais sejam a diferentes processos, tais como negociação e
adaptados a cada contexto e à realidade de cada geração de consensos, estabelecimento de regras
região e país 32,33. de atuação, distribuição de recursos e interação,
A regionalização da saúde em Angola é um construção de mecanismos decisórios coletivos,
grande desafio, não só pela tradição de centrali- estabelecimento de prioridades e acompanha-
zação, mas também pelos grandes vazios assis- mento 35. Uma legislação apropriada é impres-
tenciais existentes. Contudo, constitui-se numa cindível para permitir o estabelecimento de
importante estratégia, pois facilitaria a discus- uma administração sólida e uma coordenação
são sobre o ajuste da oferta de serviços de saúde, eficiente. Considera-se também crucial para um
diminuiria a pressão da demanda por serviços bom funcionamento dos serviços distritais de
localizados nos grandes centros urbanos com a saúde, para o nível local, a autonomia financeira,
redefinição da porta de entrada para o sistema, a responsabilidade de recrutamento de pessoal e
propiciaria mecanismos para a superação da desenvolvimento de adequadas infra-estruturas
fragmentação dos serviços e para instituição de e capacidades técnicas 36. Finalmente, as deci-
um sistema integrado de saúde 14. Ademais, con- sões políticas devem ser orientadas para criação
tribuiria para criar consciência de pertencimen- da estrutura necessária para o efeito desejado 21.
to à região sanitária, fortaleceria a cooperação Tomando como base autores aqui trabalha-
institucional, ofereceria um mecanismo mais efi- dos e o contexto apresentado, para a formulação
ciente para a distribuição de recursos humanos e e, sobretudo, para a implementação da regiona-
equipamentos entre todos os estabelecimentos, lização de saúde em Angola, podem surgir várias
inter-relacionando o central e o periférico, a fim dificuldades, considerando-se que são neces-
de facilitar a referência de pacientes, fluxo de re- sárias mudanças substanciais na organização e
gistros médicos e a consulta aos médicos espe- funcionamento dos sistemas de saúde, pressu-
cialistas por parte de generalistas 19. pondo operações de grande complexidade téc-
Realizada num processo participativo, po- nica, política, logística, administrativa e comu-
deria promover maior aceitação e conhecimen- nicativa. Apresentamos, a seguir, as que se nos
to dos serviços por parte da população, acesso afiguram mais preocupantes:
pronto dos usuários a serviços de qualidade ao a) Déficit de profissionais, destacando-se tam-
menor custo social e econômico possível, bem bém as distorções na sua distribuição, com uma
como proporcionar a constituição de mecanis- grande concentração nos grandes centros ur-
mos mais adequados de supervisão e o con- banos e em cinco províncias do litoral, onde se
trole 16,28. Com a regionalização, as autorida- encontram, por exemplo, 85% dos médicos do
des locais poderiam determinar as prioridades país 10. A grande dificuldade consistiria na falta
concernentes à prestação de serviços de saúde de profissionais para a periferia.
na sua área de jurisdição e alocar recursos de b) Não percepção imediata pelo público da lógi-
acordo com essas prioridades 15,34. ca de regionalização da assistência, o que pode
Resumo Colaboradores
Este artigo apresenta a situação da saúde de Angola M. S. Oliveira participou do levantamento da literatura
no período 2000-2007, discute a regionalização do sis- e de dados, revisão bibliográfica, análise dos dados e
tema de saúde como importante instrumento para a redação do artigo. E. Artmann colaborou na orienta-
melhoria tanto do acesso aos serviços de saúde daque- ção metodológica, desenho da pesquisa e redação do
le país, quanto da utilização destes, e aponta condi- artigo.
ções e desafios para a sua implementação. O artigo se
apóia numa revisão bibliográfica de: (a) autores bra-
sileiros, considerando-se que, no Brasil, ainda decorre
a reforma sanitária com vasta produção bibliográfica
sobre a temática; (b) autores africanos, ou com estudos
sobre a África, e internacionais, em vista da necessida-
de de se analisarem experiências regionais e mundiais
relativas ao assunto e (c) estudos e recomendações da
Organização Mundial da Saúde sobre a descentrali-
zação/regionalização em saúde. Ficou demonstrada a
necessidade de reformas no sistema de saúde de Ango-
la, o qual apresenta enormes deficiências de estrutura-
ção e funcionamento, o que leva à baixa resolubilida-
de dos seus serviços. A regionalização foi considerada
como uma importante estratégia para reestruturação
do sistema de saúde, ao lado de outras que não são fo-
co principal deste estudo. A avaliação do seu impacto
só poderá ser feita a longo prazo.
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