0% acharam este documento útil (0 voto)
3 visualizações90 páginas

Novela "Intertextual" de Júpiter

Intertextual é uma obra fictícia da autora Júpiter, pseudônimo de Jackeline Irene Fernandes Túlio, que combina elementos de narrativa poética e crítica à arte contemporânea. A história gira em torno de personagens como Marta e Emiliano, explorando suas vidas e relações em um contexto de música e teatro. O livro é descrito como um manual de escrita criativa, destacando a originalidade e ousadia da autora na construção de suas histórias.

Enviado por

ernestopesselap
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
3 visualizações90 páginas

Novela "Intertextual" de Júpiter

Intertextual é uma obra fictícia da autora Júpiter, pseudônimo de Jackeline Irene Fernandes Túlio, que combina elementos de narrativa poética e crítica à arte contemporânea. A história gira em torno de personagens como Marta e Emiliano, explorando suas vidas e relações em um contexto de música e teatro. O livro é descrito como um manual de escrita criativa, destacando a originalidade e ousadia da autora na construção de suas histórias.

Enviado por

ernestopesselap
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Título: Intertextual

Autora: Júpiter

Diagramação: Marlena Edições

Revisão: Luana Mendes

ISBN: 971-018-057-093-302

Registo: 547/2023

Todos os Direitos reservados ao autor.


Trata-se de uma obra fictícia, toda e
qualquer semelhança com eventos reais
trata-se da imaginação da autora para
tornar a obra mais rica
Júpiter, pseudónimo de Jackeline Irene
Fernandes Túlio. Licenciada em Direito
pela Universidade Metodista. É casada,
apaixonada por Astronomia e mãe de um
filho.
Para o Aristides,

Meu filho, minha luz.


Prefácio

A primeira vez que vi a Jackeline, ela entrou para a


sala do curso, rindo bastante alto. No meio de tantos jovens
que tentaram parecer intelectuais, lá estava ela com tantos
piercings no corpo, um sorriso alegre e um caderno pequeno
e verde.

Quando li pela primeira vez algo escrito por ela,


me apaixonei de tal forma que passei a rondá-la durante
todo o curso.

InterTextual, nasce de uma conversa na turma e se


transformou nessa bela novela que o caro leitor agora tem
em mãos, essa tão estranha palavras foi inventada pela
Jackeline na junção dos vocábulos: Inter – Entre/Fora e
Textual – Texto, que significa segundo a mesma é um texto
entre outros textos.

A escrita da Jackeline fala por si. Ela investe uma


narrativa agradável que desliza entrelinhas sem se esforçar,
a naturalidade como ela cria seus personagens e suas
histórias a convertem numa das melhores escritoras que tive
o privilégio de ler.
Pois, nessa lépida geração de novos escritores, ela
consegue ser uma eximia contadora de histórias e ainda uma
grande literata, uma escritora de mãos cheias e de sonhos
mais cheios ainda.

Passeando entre classicismo e o neo-


contemporâneo, Jackeline transforma esse livro num
festival de palavras, aonde história, os tempos narrativos, os
espaços e os personagens, são todos metáforas de ideias, ora
subjectivos, ora objectivos.

Ao narrar Marta, e todos os personagens que


florescem dela, Jackeline mostra na sua monótona forma de
escrever que a arte literária se sobrepõe a história. O
esteticismo será a técnica mais utilizada, de narrativa
poética quando necessária, filosófica e crua. A obra trata
novamente sobre esse vazio que se traz no ADN da
escritora.

Para autora, seus ideais se sobrepõe a seus


personagens. Nessa onda de ideais, a autora ainda traz nessa
obra uma interessante crítica a nova arte contemporânea,
como ela se constitui e quais pressupostos ela toma.

O que faz de Intertextual, não apenas um livro,


mas um manual de escrita criativa, pois não se vê escritores
do nível de Jackeline com tanta frequência nessa nova
geração angolana, e com tamanho nível de ousadia ao criar
uma história em histórias completamente aleatórias.
Demonstrando que a literatura se faz de tantas moldes e
formas infinitas.

Convido o caro leitor a entrar nessa romaria de palavras e se


embriagar com tão original forma de se fazer literatura.

Luana Mendes

Professora
Gosto de ouvir, mas não sei se sou a hábil conselheira.
Ouço muito. Da voz outra, faço a minha, as histórias
também. E no quase gozo da escuta, seco os olhos. Não
os meus, mas de quem conta. E, quando de mim uma
lágrima se faz mais rápida do que o gesto de minha mão
a correr sobre o meu próprio rosto, deixo o choro viver.
E, depois, confesso a quem me conta, que emocionada
estou por uma história que nunca ouvi e nunca imaginei
para nenhuma personagem encarnar. Portanto estas
histórias não são totalmente minhas, mas quase que me
pertencem, na medida em que, às vezes, se (con)fundem
com as minhas. Invento? Sim invento, sem o menor
pudor. Então as histórias não são inventadas? Mesmo as
reais, quando são contadas. Desafio alguém a relatar
fielmente algo que aconteceu. Entre o acontecimento e a
narração do fato, alguma coisa se perde e por isso se
acrescenta. O real vivido fica comprometido. E, quando
se escreve, o comprometimento (ou o não
comprometimento) entre o vivido e o escrito aprofunda
mais o fosso. Entretanto, afirmo que, ao registar estas
histórias, continuo no premeditado acto de traçar uma
escrevivência.

Irene? Não. Jackeline? Jamais! Evaristo.


1

(Cortazar)

De olhos semicerrados no divã entre o grande salão


e o quarto de Carlos, o segurança; Dr. Emiliano descansava
antes do início do concerto. Na sua cabeça ainda estavam às
imagens da mesa de exame, a longa escrivaninha metálica,
quase nua, aonde repousava apenas as pastas de arquivos, e
um velho telefone de fios que a muito não chamava, com o
irromper do novo século, lá tinham os pacientes preferido
ligar para o seu número de telefone em preferência ao
telefone do consultório, pertencente a uma empresa quase
extinta, o cheiro de fármacos, o abajur quadriculado, o
pequeno caderno receituário, uma maca coberta por um
biombo, perto da porta, um pequeno divã forrado de couro
branco, lembrava-se de ter regado as duas plantas finas que
ficavam de cada lado das duas janelas de seu consultório ou
que não tivera trancado a prateleira superior, aonde
guardava alguns de seus instrumentos: um estetoscópio, um
estojo de algodão de metal inox, um frasco de álcool etílico
de noventa graus, pelo menos as prateleiras embutidas com
o relatório dos pacientes e os produtos farmacêuticos, sabia
que tivera trancado.

Subindo as longas escadarias do teatro, estava


Marta, cansada com os altos saltos de ponta fina. A
escadaria enorme - usada por causa da falha dos elevadores,
passava um ar sombrio e furtivo, para quem as subisse
sozinho.

Parada no estreito corredor que dava entrada a sala


do teatro esquina, viu seu amigo Dr. Emiliano deitado
naquele divã, pensou estar farto da falta daqueles concertos
mórbidos, aos quais já lhe tivera confidenciado que apenas
os assistia por conveniências burguesas (ou talvez só
pensava nos seus pacientes velhinhos feridos que deviam
estar numa cama de hospital cercados por outros médicos e
estudantes e enfermeiras amavelmente impessoais). Mal a
avistou prontamente se colocou em pé, com as visíveis
olheiras de cansaço contrastando com mais belo sorriso que
ela sempre amou ver.

Marta, dona do teatro, herança familiar, adquirida de


seu pai ávido amante dos palcos e as luzes da ribalta, exímio
dramaturgo, porém nos últimos anos de sua vida, ficaria
famoso por compor óperas, aventurou-se mesmo em tentar
fazer uma sinfonia, porém, o piano nunca foi seu forte,
quando tentou apresentar na última ceia de natal que
confraternizou com a sua família, notou-se o desajeito dele,
errando diversos acordes. De tal modo que até o seu Golden
Retriever uivou irritado pelos agudos desajustados da sua
sinfonia. Momento que Marta guardou com carinho na
memória, e após o passamento físico de seu pai,
frequentaria a escola das belas artes, e acabaria por se tornar
numa das melhores compositoras de sinfonias que se
conhecia entre os fidalgos apreciadores da subtil arte da
música clássica. Ente os jornais e as várias premiações;
acabou sendo considerada, de maneira telegráfica para
vender como: A BEETHOVEN DO NOVO SÉCULO.

Para Marta, os prémios eram apenas consequências


do trabalho, e a gestão de seu teatro, e a criação de novos
talentos de palco era seu maior orgulho e ocupação. Disto
viveu uma vida celibatária, após cinco dezenas de vida,
dizia sempre em seus discursos que nunca lhe faltou um
homem que lhe fizesse falta. Passara maior parte de sua
vida cuidando dos negócios de seu pai, e mais tarde os
próximos anos tratando da mãe doente. Filha única crescera
em meio a todas essas comodidades, crescendo como uma
princesa protegida dentro das paredes de sua mansão. A
Grand LeVier, como era tratada entre os citadinos, foi sua
residência durante toda a vida, e tirando algumas noites
dormidas em hotéis de outras cidades nas suas raras
viagens, a vida inteira pernoitou no quarto da enorme
mansão.

Conhecera Emiliano, seu mais fiel amigo, ainda na


infância, quando seus pais, médicos também visitavam os
pais dela, esses amigos de longa data, e na altura Emiliano,
também filho único, os acompanhava em todas as suas
visitas. Altura que perto da entrada da adolescência, seus
pais cogitavam em vagas conversas a possibilidade de num
futuro próximo Emiliano cortejar a nobre menina. Ideia que
a princípio agradou a todos, porém com o passar dos anos,
Emiliano tivera que viajar para o outro lado do mundo, de
modo a cursar Medicina, voltaria vários anos depois, casado
com a bela musa, Leonor com quem tivera seus três filhos,
altura essa, encontrara em Marta uma bela mulher
transformada pelo tempo, porém, amargurada pelas
lembranças e as recentes perdas de seus pais. A amizade
entre eles retornaria forte, passados vinte anos entre
conversas, bailes, visitas ao teatro, a amizade deles
permanecia a mesma.

(…)

Trajado com um fato simples, um belo casaco cinza


pesado com acastanhadas cotoveleiras, uma fina gravata
castanha, sob uma camisa branca, no rosto a barba por
fazer, Emiliano sentado na tribuna superior com Marta,
acabou pegando no sono, Marta apenas sorriu e continuou a
ouvir a sinfonia que a pianista destramente executava com
os devidos acordes sendo feitos no tempo certo. De olhos
fechados ouvindo seu ―Soneto da Primavera‖, Marta se
sentia transportada a essa fase da sua vida, das primaveras
bailadas no jardim de casa, aonde os arbustos cobriam as
paredes com toldos de pétalas de flores de diversas cores,
nos canteiros, cresciam as belas rosas; o chão coberto pela
grama verde, beijadas pelas pequenas gotas que água que se
assemelhavam a pequenos quartzos azuis, em um dos
carvalhos no quintal, repousava no cimo uma casa de
árvore, também se cobria o jardim naquele momento, altos
jacarandás, nos cantos longos eucaliptos selvagens, uma
diversidade de plantas sob outros canteiros, o jardim
paradisíaco abraçava a beleza da natureza, coisa que atraia
esquilos que se escondia entre os ramos e folhas das
árvores, aproveitando as saborosas nozes que cresciam nos
carvalhos espalhados pelo quintal.

A sinfonia terminou.

Marta foi despertada do seu sonho lúcido com um


ruidoso barulho de palmas, a menina fazendo vénia para a
plateia e a seguir as cortinas se fechando anunciando o fim
do primeiro acto da noite. Os aplausos também despertaram
Emiliano, esse sim, sonegava cansado durante toda a
apresentação. Olhou para Marta que não fez caso do
sucedido apenas deu um largo sorriso, entendendo o amigo.

— Perdeu um belíssimo desempenho da Berta. —


Disse sorrindo Marta.

— Vamos fingir que eu fico sentido por isso. —


Ironizou Emiliano.

— Vós homens da ciência, não sabem apreciar a


beleza da arte. Meu Emiliano anda tão trancafiado na lógica
cura do corpo humano que nunca consegues observar a
subtil beleza subjectiva da arte.

Emiliano nada disse.

No palco entrara uma menina franzina aparentando


ter pouco mais de treze primaveras, de maneira rápida fez
uma vénia à plateia e sentou-se desajustada no piano.

Fez-se silêncio.

Na plateia, na parte de baixo, central do teatro, o


reduzido público de pouco mais de vinte pessoas. Um deles
era Hugo, a quem só o fugir de seus pensamentos e da
chuva miúda que caia lá fora, o tinha levado para dentro
daquele teatro, também o preço, e a belíssima imagem de
Marta Ruz, o fez entrar, para então descobrir que não se
tratava, pois, de um espectáculo dela, antes uma companhia
sinfónica infantil, que decidira homenageá-la, e na verdade
se tratava do primeiro de três dias de espectáculo, que seria
protagonizado por elas. A segunda actuação já ia começar e
não havia quase ninguém além de alguns anciãos calvos,
outros barbudos e outros; as duas coisas, com jeito de serem
do bairro ou da família das crianças, duas mulheres de uns
quarenta, quarenta e cinco anos, de casacos vetustos e
guarda-chuvas escorrendo água, uns poucos jovens, em sua
maioria casais, e discutindo violentamente, em meio a
empurrões, barulho de papel de bala e rangidos das
péssimas cadeiras vienenses.

Cheirava a noite de chuva, a grande sala estava


gelada e húmida, ouvia-se um falar confuso na parte
superior do teatro, atrás de Hugo, onde estaria Marta Ruz,
mulher que ele reconheceu do cartaz na entrada. O homem
ao lado dela acendeu o seu cachimbo; e Hugo puxou
depressa um cigarro. Não se sentia muito bem, havia
entrado água em um dos seus sapatos, o cheiro de mofo e de
roupa molhada o enjoava um pouco. Um cigarro talvez o
acalmasse um pouco. Logo em seguida, o teatro se
transformou num nublado céu de nicotina. A pianista que
posicionava a partitura tossiu pelo forte cheiro de tabaco.
Hugo olhou para o programa, um pequeno papel que
foi dado à entrada do salão. A primeira actuação tivera sido
feita por Berta Ivan, uma garota prodígio do piano, que aos
catorze anos já tivera tocado, mais de duas mil canções, e
refeito diversas sinfonias famosas, a composição de Marta
que tivera tocado foi ―O Soneto da Primavera‖, uma das
primeiras composições de Marta, pela tivera sido indicada a
diversos prémios, além de ter sido utilizada como trilha
sonora num premiado filme. Informações que Hugo soube
lendo o folheto em suas mãos. A menina que estava sentada
no piano naquele momento se chamava Giovana Olivier,
tocaria o ―Vendaval Nos Montes Sombrios‖, a mais famosa
das composições de Marta, representava o pináculo dos seus
vinte e cinco anos de carreira, a famosa soneta, ganhara
fama mundial quando um então pianista mundialmente
famoso na altura, Morrison Gray, tivera plagiado os vinte
primeiros acordes de Marta, descoberta a façanha, Marta
entrara num processo-crime polémico contra Morrison que
terminara benéfico para o seu lado, e que por outro lado
representara o fim de Morrison. O pequeno historial terá
feito Hugo se concentrar realmente na pequena pianista e a
título de curiosidade ouvir a sonata que foi até plagiada.

A caracterização era adequada na medida em que o


gênio musical de Marta tendia à osmose, à interfusão e à
interfonia, paralisadas pelo excesso individualista do
Oriente e condenadas a não desembocar numa criação
superior e sintética não fora a mediação da intuição genial
de Chopiner.

As luzes então se apagaram. Mais ou menos


quarenta mãos descarregaram alguns secos aplausos, vários
fósforos perderam a cabeça, Hugo se esticou o mais que
pôde na cadeira e sentiu-se melhor.

Começaram a soar os quarenta e cinco acordes do


primeiro movimento descontínuo. Entre o primeiro
movimento e o segundo transcorreram três segundos, entre
o segundo e o terceiro, doze segundos. Ao chegar ao décimo
quinto acorde, Giovana tinha decretado uma pausa de vinte
e cinco segundos. Hugo, que num primeiro momento havia
apreciado o bom uso do dó maior que Giovana fazia durante
o silêncio, notou que a reincidência o degradava
rapidamente. Entre os acordes 9 e 10 estalaram tosses, entre
o 11 e o 12 alguém riscou energicamente um fósforo, entre
o 14 e o 15 deu para ouvir claramente a expressão ―Ah, que
merda é essa!‖ proferida por um velho calvo. Lá pelo
vigésimo acorde, uma das damas mais vetustas, um
verdadeiro picles virginal, empunhou energicamente um
guarda-chuva e abriu a boca para dizer alguma coisa que o
acorde 21 misericordiosamente esmagou. Divertido, Hugo
olhava para Marta Ruz, na parte de cima com o rosto
horrorizado, desconfiando de que esperava que a pianista
pudesse ver a sua desaprovação com aquilo que chamavam
de rabo do olho. Por esse olhar de perfil minúsculo e
ganchudo de Marta Ruz deixava filtrar um olhar
cinzaceleste, e Hugo imaginou que talvez a infeliz tivesse
começado a calcular o número de ingressos vendidos. No
acorde 23 um senhor de rotunda calva endireitou o corpo
indignado e, depois de bufar e soprar, saiu da sala cravando
os saltos dos sapatos no silêncio de oito segundos
confeccionado por Giovana. A partir do acorde 24 as pausas
começaram a diminuir, e do 36 ao 38 estabeleceu-se um
ritmo de marcha fúnebre que não deixava de ter sua graça.
Giovana retirou os sapatos dos pedais, pôs a mão esquerda
sobre o regaço, e se lançou ao segundo movimento. Esse
movimento durava apenas quatro compassos, cada um deles
com três notas de igual valor. O terceiro movimento
consistia principalmente em sair dos registos extremos do
teclado e avançar cromaticamente para o centro, repetindo a
operação de dentro para fora, tudo isso em meio a contínuas
tercinas e outros adornos. Num dado momento, que nada
permitia prever, a pianista parou de tocar e se ergueu
bruscamente, saudando com um ar quase desafiador, mas no
qual Hugo teve a impressão de discernir uma ponta de
insegurança e mesmo de medo. O casal composto por Marta
e Emiliano aplaudiu com raiva o desastroso desempenho da
menina, Hugo se pegou aplaudindo também mas sem saber
por quê (e quando soube se irritou e parou de aplaudir).

A sala agora reduzida a poucas pessoas que


suportaram ouvir as desafinadas notas de Giovana,
esperavam que a menina se levantasse e partisse.

Giovana, horrorizada, olhava para frente, suas


colegas, riam de sua desastrosa atuação, tivera feito tudo
comoo ensaiado e tocado as notas certas,não percebia em
que tinha falhado.

O cochichar de vozes na plateia, e a desaprovação de


cabeça de sua professora madame Julie, e mais importante,
o horrorizado olhar de Marta Ruz, sua maior inspiração, fez
com que Giovana invés de sair ao fim de sua apresentação,
começasse a tocar uma sinfonia completamente
desconhecida pelo público que imploravam que Giovana
fosse embora, e outra pianista viesse para então prosseguir a
última soneta da noite, no caso a aclamada ―Ode dos
Renegados‖, também premiada composição de Marta Ruz.

Mas o sol menor de Giovana anunciava outra coisa.

Giovana repetia incansavelmente dois ou três temas


para depois se perder em infinitas variações, retalhos de
bravura (bastante mal tocados, com buracos e cerzidos por
toda parte) e solenidades de catafalco montado sobre
carretinha, interrompidas por bruscas pirotecnias às quais o
misterioso Erikin Kinvin se entregava com deleite.

Vieram os arpejos orgásticos que anunciavam o


final, repetiram-se sucessivamente os três temas (um dos
quais saía directo do Don Juan de Strauss), e Giovana
despejou uma chuva de acordes cada vez mais intensos
arrematados por uma citação histérica do primeiro tema e
dois acordes nas notas mais graves, o último dos quais soou
acentuadamente em falso pelo lado da mão direita, mas
eram coisas que podiam acontecer com qualquer um, e
Marta aplaudiu com entusiasmo, realmente divertindo-se. A
pianista ficou de frente com um de seus estranhos
movimentos de mola e cumprimentou o público. Como
parecia contá-lo com os olhos, não podia deixar de
comprovar que restavam apenas oito ou nove pessoas.
Digna, Giovana saiu pela esquerda e a lanterninha correu a
cortina e fechou-se.
2

(Perec)

Ao certo, a história de Leonor podia começar assim,


lenta, neste reduto neutro que é de todos e não é de
ninguém, onde as pessoas se cruzam quase sem se ver, onde
a vida e os viventes passavam uns pelos outros, nos
desencontros da vida, no fino desconforto de uma nação em
guerra; seu pai Edison, ávido militar de alto escalão de
patente, findada a guerra, viria a ser reconhecido como um
herói. Porém foi em um agitado trem partindo para o norte,
que sua mãe Katherine estará pressionando dois dedos sobre
o latejante ferimento no pescoço de Edison, seu pai.
Enquanto o trem atravessa a paisagem rural a mais de 240
quilómetros por hora, ela tentara fechar a carótida. Se não
fizer isso, Edison morre. Saber isso, ela sabia, mas o medo
de perder seu amado, misto ao pânico de estarem naquele
trem reféns de ladrões, com seu marido no chão, pois
tentara resistir e sofrera um golpe de faca de um deles.

Então Edison morre.


Se há gritos, Katherine não os ouve; se o som do
vento lambendo a janela é alto, ele não o regista. Está
totalmente concentrada, de olhos marejados. O ladrão está
armado, imobilizando as outras pessoas no chão. Uma
mulher geme. Katherine sente como se as pessoas a volta
dela são as únicas outras pessoas do mundo.

Ao que se diz, essa foi sua última memória lúcida,


pois, desde então, perdera a razão. Do trem que mais tarde
foram resgatados pela polícia, foi removido o corpo de
Edison, cujo velório, fora protagonizado por inúmeras
homenagens e entregas de faixas, que na cabeça de Leonor,
apesar de nova, não trariam seu pai de volta.

Dada a loucura da mãe, Leonor e seus dois irmãos,


cresceriam no rancho de sua avó Martina, crescendo em
volta a vegetação, os animais de campina, as montanhas
esverdeadas pela vegetação e o musgo, para Leonor a visita
aos rios cristalinos que corriam mais para baixo, aonde os
ventos não eram tão selvagens e uivantes e seus rostos, e o
aprendizado na cozinha, representavam sua maior paixão.
Até que certo, seu irmão Vicente num de seus raros
momentos de bom humor com ela, lhe apresentara Perec, a
princípio nada percebeu do que seu irmão relatava, para ela,
era só a paixão de um jovem que a subtil arte da literatura
lhe corria nas veias, mas, ela queria a todo custo ser amiga
de seu irmão, pois, desejava que seus irmãos a
considerassem útil para algo, nem que fosse para ouvir, seus
discursos moratórios sobre a sensibilidade de Perec, ao
olhar a sua cidade, nos olhos de Vicente com um brilho
fumegante, cintilava a paixão ao relatar a construção de
Perec, de narrativas da condição urbana. Ao lançar um olhar
curioso sobre a Cidade, ele distende o tempo e as coisas
banais do dia-a-dia e traz à tona uma possibilidade de fazer
a Cidade enquanto não se faz nada.

— Percebes Leonor? O mundo se constrói, até


quando só olhamos para ele, a tua acção, ou a falta dela, não
vai impedir que o mundo se forme.

— Percebo em parte meu irmão, mas, perdoe a


minha ignorância, não domino tamanha sabedoria para
poder ler e interpretar Perec com a tua visão de mundo.

— Não te martirizes, acompanha-me para Paris, na


semana que vem, e poderás mais que entender Perec, poder
vivenciá-lo.

— Sabe que não posso, além do mais, nossa avó não


me deixará te acompanhar nessa empreitada.

— Apenas convença-me que queres sulcar nessa


odisseia comigo.
— E nosso irmão Óscar, o deixaremos aqui sozinho?

— Ora, melhor do que eu você que para ele, desde


que existam cavalos que ele possa montar e escovar, de nós
ele nem sentira falta.

— Viajaremos então meu irmão, mostrai-me Perec,


nessa gigante Paris.

(...)

Numa praça pública, se avistava, uma câmara


municipal, uma coletoria de impostos, um comissariado de
polícia, três cafés (um deles vende cigarros), um cinema,
uma igreja em que atuaram Le Vau, Gittard, Oppenord,
Servandoni e Chalgrin, dedicada a um capelão de Clotário
II que foi bispo de Bourges de 624 a 644, festejado a 17 de
fevereiro, uma editora, uma casa funerária, uma agência de
viagens, uma parada de ônibus, uma alfaiataria, um hotel,
um chafariz decorado com as estátuas dos quatro grandes
oradores cristãos (Bossuet, Fénelon, Fléchier e Massillon),
uma banca de jornal, uma loja de artigos religiosos, um
parque de estacionamento, um salão de beleza e muitas
coisas mais.

Leonor descrevera os detalhes, agora com mais


avidez, de olhos fechados, sentada em um banco de jardim,
a cidade se construía assim, na escuridão de seus olhos. Ao
segundo mês em Paris, já ela tinha entendido, pensava já ter
entendido a construção desse mundo criado dos detalhes
insignificantes que construíam a bela praça de Saint-
Dupoint.

Vicente se orgulhara da irmã que descrevera a praça


como nem ele no seu mais respeitável livro terá conseguido
fazer.

— Agora percebes minha irmã. — Disse Vicente. —


Vês o mundo de Perec, como dito por ele que nossa
ignorância em ver a Cidade. Condena-nos nosso ato de ver
ao puro condicionamento mercadológico e espectacular.
Vemos o mundo com olhos objetivos, mecanizados,
procuramos e descodificamos apenas o funcional e
utilitário. Fica evidente a consequente relação que temos
com a construção da Cidade. Um olhar utilitário e
mercadológico constrói Cidades do mesmo tipo. Saint-
Dupoint que tu descreveste, jamais poderá ser replicada e
explicada na visão de outra pessoa. Digo-te mesmo minha
irmã. Perec, na verdade nos ensina a montar nossas vidas,
visões e sonhos, de puzzles de peças distorcidas. Nunca
perca essa visão da vida, nem no seu último suspiro, quando
se sentir morrer, cria essa cidade de sua cabeça e a torne
real.
— Será que nosso pai, conseguiu criar essa cidade
na sua ultima hora meu irmão?

— Que posso te dizer minha irmã, não sei se ele


conheceu Perec.

Passados os anos, Leonor e Vicente, visitaram


diversas cidades do mundo, as quais eram escritas nas
memórias de viagem de Vicente, com as descrições de
Leonor.

Leonor passara a caminhar com um caderno de notas


e procurava com Vicente, um lugar para se acomodar e
observar. Durante viagens seguidas, se instalam em cafés,
tabacarias e bancos no entorno da praça para observar e
registar em seu caderno tudo o que acontecia a seu redor.
Ela vai anotando, em distintos momentos do dia, tudo o que
estava ao alcance do seu olhar: os acontecimentos
quotidianos da rua, a circulação de veículos, pessoas,
animais, nuvens, a passagem do tempo. Seu caderno vira
uma lista de todos aqueles fatos mais insignificantes da vida
quotidiana.

Após vender milhares de livros, seu irmão ficara


rico, e terá passado mais da metade dos bens para Leonor
ainda vivo, e deixado em seu testamento a metade de seus
bens restantes, para seu irmão Óscar, que ambos não viam
há anos, apenas sabiam que sua vida se terá resumido em
viagens vagas e a vida nocturna e boêmia, vida essa
sustentada pelo dinheiro que seu distante irmão Vicente
mandava.

— Leonor, minha irmã e companheira! — Exclamou


ofegante Vicente. — Incalculáveis são os benefícios que a
civilização nos trouxe, incomensurável o poder produtivo de
todas as classes de riquezas originadas pelas invenções e
descobertas da ciência. Inconcebíveis as criações
maravilhosas do sexo humano a fim de tornar os homens
mais felizes, mais livres e mais perfeitos. Sem paralelo as
fontes cristalinas e fecundas da nova vida que ainda
permanece fechada aos lábios sedentos das pessoas que
prosseguem em suas tarefas opressivas e bestiais, meu bom
Lowry, disse isso. Nós lutamos para ter as coisas. Em
nossas viagens vimos diversas pessoas, você melhor do que
eu as descreveu, como eram mesmo?

— De todas as cores humanamente possíveis:


brancos, vermelhos, pretos, amarelos, mestiços de todos os
tipos. Das cores vieram às raças, dos brancos ruivos com
rostos sardentos, aos loiros de olhos azuis, os morenos de
olhos castanhos, aos amarelos asiáticos de olhos rasgados,
ou não, os negros de África, que se diferem aos negros da
Índia, aos árabes de nariz achatados...
— Sim, mas sabes o que vimos mesmo, em
abundância em todas as cores e raças, a pobreza. Essa se via
atrás dos olhos de qualquer um, não tem coloração de olhos
diferente na fome. E muitos de gostariam de ser ricos.
Saberiam ser ricos. Acreditavam que teriam sabido sê-lo.
Saberiam ter se vestido, olhado, sorrido como gente rica.
Teriam tido o tacto, a discrição necessária. Teriam
esquecido sua riqueza, teriam sabido não ostentá-la. Não
teriam se glorificado com ela. Apenas a teriam respirado.
Seus prazeres teriam sido intensos. Gostariam de ter
andado, flanado, escolhido, apreciado. Gostariam de ter
vivido. A vida teria sido uma arte de viver.

— O que pode concluir com isso meu bom irmão?

— Nunca foi sobre concluir minha irmã, foi sempre


ver as coisas como elas são, enxergando seus grandes
valores repletos de colossal nada. Apenas busquei as coisas
pelo conforto.

— Conforto?

— Sim. Essa ausência de simplicidade, de lucidez


quase característica aos homens. O conforto — e isso era
talvez o mais grave — que fazia falta cruelmente. Não o
conforto material, objectivo, mas uma certa desenvoltura,
uma certa descontracção. A Tendência a ficar excitado,
crispado, a ser ávido, quase ciumento. O gosto que tinha o
bem-estar, uma situação melhor, se traduzia no mais das
vezes por um proselitismo idiota: então discorriam muito
tempo, entre conversas, copos e meus amigos, sobre a
genialidade de um cachimbo ou de uma mesa de centro, e os
transformavam em objectos de arte, em peças de museu.
Minha irmã, tudo isso experimentei, por isso, nada mais
quero. Usa então, tu essas coisas para encontrares o teu
ponto de conclusão.

(...)

Vicente terá terminado eremitário numa longínqua


terra, desprovido de qualquer riqueza. A que tivera
conquistado repartiu de modo igual entre seus irmãos,
únicas almas no mundo que até então carregavam
igualmente seu sangue e com os quais partilhava a mesma
linhagem maternal. De Óscar, seu irmão nunca mais soube,
apenas que vivia como um cidadão do mundo, gastando
todo o dinheiro que herdará de Vicente. De sua irmã,
Leonor, receberia cartas, numa correspondência com a qual
trocou todos os anos, até que uma doença tropical, o terá
feito sucumbir de febres altas.

Leonor por sua vez, conheceria Emiliano, no tédio,


do movimentado de Nova Iorque, pensava ela, que o tédio
da viagem foi amplamente compensado pela emoção da
chegada a Nova Iorque, na visão mais espectacular que nos
é dada nesta terra. Os arranha-céus despontam cinzentos no
céu que mal clareou, e pareciam ruínas enormes de uma
monstruosa Nova Iorque abandonada daqui a três mil anos.

Depois, aos poucos, distinguem-se as cores,


diferentes de qualquer ideia que alguém pudesse ter, e um
complicadíssimo desenho de formas. Tudo está silencioso e
deserto, então se começa a ver os carros deslizando. O
aspecto cinzento e maciço e fim-de-século das casas dão a
NY, como Leonor nota de imediato, um ar de cidade polaca.

Viu Emiliano parado, olhando fixamente para si,


naquele festival infinito de pessoas apressadas, e
timidamente acenou para ela. Aceno que prontamente ela
respondeu.

Quando deram por eles, já estão a andar de mãos


dadas pelo Greenwich Village, dormindo abraçados no
Grosvenor que é o hotel elegante do Village, velho mas
limpo; num belíssimo quarto em perfeito estilo Henry James
(estando a um pulo da Washington Square, que em boa
parte ainda é como antigamente) e pagando só pelo fetiche,
míseros sete dólares por dia, garantindo que vão ficar dois
meses e pagando um mês adiantado. Para depois, casarem e
gerarem dois filhos e mudarem-se para a cidade natal de
Emiliano.

Aí, aonde, sua vida chegada aos trinta e cinco anos,


se resumia em visitas ao teatro de Marta, amiga de infância
de Emiliano, e madrinha de seus filhos.

Tentaria a vida de escritora, mas descobriria que


apenas sabia listar coisas, não tinha o espinho criativo de
seu irmão Vicente, não conseguia criar histórias
mirabolantes, nem simples, não tinha imaginação para tal.
Desta feita, sua vida se resumiu a rotina de criar os filhos,
ler os velhos almanaques e grandes obras mundiais, ordenar
os criados, acompanhar seu maridos as festas, realizadas
naquela cidade, a sul de alguns lugares e a norte de outros.

Com o tempo, a doença incurável que mesmo


viajando as nações mais desenvolvidas, nenhuma
apresentava solução para seu problema.

Nem Emiliano, estudando e estudando mais em seu


consultório encontraria a cura para a padecência de Leonor.
Essa entre o definhar do corpo, a perca das forças, há
tempos que aceitou a sua má sorte de bom grado, partiria
com acalma de que terá tido uma boa vida para se viver, e
sem dúvidas, tivera encontrado a coisa, essa que seu irmão
Vicente lhe terá pedido para encontrar, que a fez feliz.
Leonor estava cansada naquela manhã, queria
descansar, não um descanso de simplesmente fechar os
olhos e dormitar por algumas horas, era algo maior, eterno
se calhar.

Sentada, na sala, ela via em turvantes cortes de


visão, era uma sala de estar, com cerca de sete metros de
comprimento por três de largura. À esquerda, numa espécie
de alcova, um grande sofá de couro preto surrado teria de
cada lado duas estantes de cerejeira clara nas quais livros se
amontoariam, misturados. Acima do sofá, um portulano
ocuparia todo o comprimento da parede. Mais para lá de
uma mesinha baixa, sob um tapete de oração, de seda,
pendurado na parede por três tachas de cobre de cabeça
grande, e que estaria em simetria com o painel de couro, um
outro sofá, perpendicular ao primeiro, forrado de veludo
marrom-claro, levaria a um movelzinho alto sobre pés,
laqueado de vermelho-escuro, guarnecido de três prateleiras
que sustentariam bibelôs: ágatas e ovos de pedra, caixas de
rapé, bomboneiras, cinzeiros de jade, uma concha de
madrepérola, um relógio de bolso de prata, um copo
lavrado, uma pirâmide de cristal, uma miniatura dentro de
uma moldura oval. Mais adiante, depois de uma porta
acolchoada, prateleiras superpostas, formando um ângulo,
conteriam álbuns e discos, ao lado de um toca-discos
fechado do qual só se veriam quatro botões de aço
escovado, e que teria ao alto uma gravura representando a
Times Squares. Da janela, guarnecida com cortinas brancas
e marrons imitando a estamparia de Jouy, se descobririam
algumas árvores, um jardim minúsculo, um pedaço de rua.
Uma escrivaninha de tampa de correr atulhada de papéis,
tinteiros, estaria acompanhada por uma poltroninha de
vime. Uma mesinha ateniense sustentaria um telefone, uma
agenda de couro, um bloquinho. Depois, para lá de outra
porta, depois de uma estante giratória, baixa e quadrada,
sobre a qual estaria um grande vaso cilíndrico de motivos
azuis, cheio de rosas amarelas, dominado por um espelho
oblongo dentro de uma moldura de mogno, uma mesa
estreita, com duas banquetas estofadas de xadrez, levaria de
novo ao painel de couro.

Tudo seria marrom, ocre, fulvo, amarelo: um


universo de cores meio desbotadas, em tons
cuidadosamente, quase preciosamente dosados, no meio das
quais surpreenderiam algumas manchas mais claras, o
laranja quase berrante de uma almofada, alguns volumes
coloridos, perdidos dentro de encadernações. Em pleno dia,
a luz que entraria abundantemente tornaria essa sala meio
triste, apesar das rosas. Seria uma sala para a noite. Então,
no inverno, com as cortinas fechadas, alguns pontos de luz
— o canto das estantes, o dos discos, a escrivaninha, a
mesinha baixa entre os dois sofás, os vagos reflexos no
espelho — e grandes áreas de sombras em que brilhariam
todas as coisas, a madeira envernizada, a seda pesada e rica,
o cristal trabalhado, o couro macio, ela seria refúgio de paz,
terra de felicidade.

Leonor descansou em paz, nesse cenário plácido


comum, que tantas vezes viu.
3

(Bergson)
Tentava fingir por instantes que não havia
conhecimento das teorias da matéria e do espírito. Dr.
Emiliano queria não sentir, queria olhar para o corpo morto
de sua esposa, atirado a palidez, de qualquer jeito que
conseguiu ficar. Mas ele não queria vislumbrar essas
imagens. Queria esquecer que as viu, que as tinha como
últimas de sua esposa.

Todas essas imagens agem e reagem umas sobre as


outras em todas as suas partes elementares segundo leis
constantes, que se chamam leis da natureza, e, como a
ciência perfeita dessas leis permitiria certamente calcular e
prever o que se passará em cada uma de tais imagens, o
futuro das imagens deve estar contido em seu presente e a
elas nada acrescentar de novo. No entanto há uma que
prevalece sobre as demais na medida em que é conhecida,
não apenas de fora, mediante percepções, mas também de
dentro, mediante afecções: o corpo.

Emiliano sabia que esse dia, prontamente chegaria,


mas ninguém está preparado para a despedida, como se
esquece do corpo, se o espírito é forte, e ainda habita as
paredes do peito dos que te amam.

Na sua cabeça, tudo se passa como se, nesse


conjunto de imagens que chamamos universo, nada se
pudesse produzir de realmente novo a não ser por
intermédio de certas imagens particulares, cujo modelo lhe
é fornecido pelo seu corpo. Nisso, para ele, Leonor seria
sempre a garota que acenou desajeitada na Times Square, a
bela donzela, que sabia transformar coisas grandes com
pequenas palavras. Era pois, a mais doce das mulheres.
Amante dos romances, fechada por horas na biblioteca,
tentando descobrir, se um mordomo contaria ao seu novo
senhorio, a história de amor proibida dos antigos
proprietários da suposta mansão.

Se tudo era apenas corpos funcionais, quem poderia


explicar essa angústia crescente em seu peito, a lembrar
dessas banalidades sobre Leonor?

Emiliano tentava entender na sua lógica, em corpos


semelhantes ao seu, a configuração dessa imagem particular
que chamava corpo humano. Percebendo nervos aferentes
que transmitem estímulos aos centros nervosos, em seguida
nervos eferentes que partem do centro, conduzem estímulos
à periferia e põem em movimento partes do corpo ou o
corpo inteiro. Interrogando seu fisiologista e psicólogo
internos sobre a destinação de uns e outros. Eles respondem
que, se os movimentos centrífugos do sistema nervoso
podem provocar o deslocamento do corpo ou das partes do
corpo, os movimentos centrípetos ou pelo menos alguns
deles jazem nascer a representação do mundo exterior. Que
devemos pensar disso?

Morrer? Pensar? O que mais?

Nem nos meses que se seguiam Emiliano conseguia


parar de pensar nisso. Nem Marta o conseguia ajudar.

Sentia, que devia algo para Leonor, como se


descanso dela se terá transformado em seu cansaço.

Em Oslo, encontrara Rothenberg, amigo de Marta,


indiciado a ele, para tentar entender, sua mente.

Seu escritório, aberto, ao canto das aves, e um belo


jardim, que em outra altura, talvez Emiliano o apreciasse,
agora, precisava ele acima de tudo falar para não
enlouquecer.

— Dr. Emiliano; presumo.

— É o que dizes! Agradeço desde já a sua


consideração em me receber.
— Os amigos de Marta, são sempre bem-vindos
aqui. Então, me explica, meu jovem. O que tanto o aflige?

— Por onde começo, nem sei na verdade, mas penso


que a morte de Leonor será um bom começo.

— Claro! Prossiga.

— Faz dois meses que a perdi para o mal que a


deixou mais pálida que os Alpes suíços nos invernais de
Dezembro, ora, de Leonor, não me lembro de ter sido fraca,
a amei realmente, no mais íntimo de mim, desde que a
conheci no agitado da Times Square, nunca mais nossos
caminhos se separaram, de lá para cá trocámos respiração
na mesma cama, e de Leonor nunca tive saudades, jamais
senti sua falta, pois, sua matéria sempre esteve aonde esteve
seu espírito. Caro Rothenberg, diga-me então o que são
essas imagens que se distorcem em milhões de fragmentos
de Leonor. Diga-me o é essa lacerante angústia que sinto,
esse mal sofrer que invade os umbrais de meu peito.

— Meu amigo, Dr. Emiliano, creio que saiba o que é


percepção!

— Talvez não na natureza que a trazes, noutra


talvez, diga-me a tua!
— Toda imagem é interior a certas imagens e
exterior a outras; essa louca ideia, chamamos de percepção.

— O que isso tem a ver com Leonor?

— Ora, meu amigo, sente falta da imagem única de


Leonor, a qual te habituaste amar, por nada sabes sobre
como encarar os fragmentos que ela se tornou para si. Essa
dualidade da mesma imagem sobre o mesmo objecto vista
no mesmo sistema. Ou talvez seja a mesma imagem,
entrando apenas em dois sistemas diferentes de si; se a
amava com a cabeça lógica, a sente saudades com o coração
emotivo.

— Como se explica que as mesmas imagens possam


entrar ao mesmo tempo em dois sistemas diferentes, um
onde cada imagem varia em função dela mesma e na
medida bem definida em que sofre a acção real das imagens
vizinhas, o outro onde todas variam em função de uma
única, e na medida variável em que elas reflectem a acção
possível dessa imagem privilegiada?

— Ora, nenhuma doutrina filosófica contesta que as


mesmas imagens possam entrar ao mesmo tempo em dois
sistemas distintos, um que pertence à ciência, e onde cada
imagem, estando relacionada apenas a ela mesma, guarda
um valor absoluto, o outro que é o mundo da consciência, e
onde todas as imagens regulam-se por uma imagem central,
nosso corpo, cujas variações elas acompanham.

— Não lhe consigo perceber!

— Ora meu amigo, bastaria enunciar semelhante


proposição para perceber seu absurdo. É o cérebro que faz
parte do mundo material, e não o mundo material que faz
parte do cérebro. Suprima a imagem que leva o nome de
mundo material, você aniquilará de uma só vez o cérebro e
o estímulo cerebral que fazem parte dele. Suponha, ao
contrário, que essas duas imagens, o cérebro e o estímulo
cerebral, desapareçam: por hipótese, somente elas irão se
apagar, ou seja, muito pouca coisa, um detalhe
insignificante num imenso quadro. O quadro em seu
conjunto, isto é, o universo, subsiste integralmente.

(…)

Naquela sala, feito apenas de dor e as imagens


distorcidas da mulher, Emiliano, era apenas um paciente,
ele sentiu o olhar que Rothenberg lançara para si, era o
mesmo que todos os dias lançava para seus pacientes.

Mas Rothenberg não olhara assim para Emiliano.


Ele o olhava como um espelho de seus próprios degredos.
Se quando saiu da sua casa na Áustria para se tornar nesse
homem que flutuava entre a matéria e o espírito, quando
conheceu Marta Ruz, em Florença. Se a imagem de Marta,
era sempre a mesma, esbanjando uma beleza sempre
juvenil. Nele, as pessoas se desfaziam nessas imagens que
se criavam desses fragmentos.

— Perceba agora meu amigo, Leonor, sobreviverá em


si por duas formas distintas: em mecanismos motores; e em
lembranças independentes, — Rothenberg ajeitou os óculos, e
um gato entrou na sala. — O reconhecimento de um objecto
presente se faz por movimentos quando procede do objecto, por
representações quando emana do sujeito. Quero com isso dizer
que Passa-se, por graus insensíveis, das lembranças dispostas ao
longo do tempo aos movimentos que desenham sua acção
nascente ou possível no espaço. As lesões do cérebro podem
atingir tais movimentos, mas não tais lembranças.

— Estás afirmando que existe duas imagens distintas


sobre as quais vi Leonor, mas, eu sinto que Leonor ainda é a
mesma.

— Exacto meu amigo! Dessas duas memórias, das


quais uma imagina e a outra repete, a segunda pode substituir a
primeira e frequentemente até dar a ilusão dela. Quando o cão
acolhe seu dono com festa e latidos alegres, ele o reconhece, sem
dúvida nenhuma; mas esse reconhecimento implica a evocação de
uma imagem passada e a reaproximação dessa imagem à
percepção presente? Não consistirá antes na consciência que toma
o animal de uma certa atitude especial adoptada por seu corpo,
atitude que suas relações familiares com seu dono foram
formando pouco a pouco, e que a simples percepção do dono
provoca agora nele mecanicamente?

— Não vamos tão longe! Eu apenas quero perceber


que imagens de Leonor são essas que vejo, sem tanta
metáfora ou filosofias hodiernas. Escuso-me da erudicidade
de suas explicações. Desejo apenas uma explicação simples.

— Meu amigo. Não vê que está tudo claro. Você


apenas precisa deixar Leonor morrer. Ora, o passado fica
melhor no passado. Talvez devesse só deixar que o amor
que sente por Leonor ser o fermento de vida que ainda lhe
resta a cuidar do que terão feito juntos. Não o use como
instrumento de martírio contra si.
4

(Sharrawy)

O que são então as ruas se não catedrais de nossas


dores, nossos caminhos disformes, indefinidos, infinitos. Se
o mundo é nada mais do que essa ode barulhenta de uma
cidade chovendo, nesta mesma chuva que para uns se
mostra poética olhando pelo embaçado de suas janelas
vidradas as gotas se transformando em charcos que desciam
pelas ruas, para outros como Hugo que saíram sem verificar
a imprevisível previsão do tempo daquela cidade a norte de
alguns lugares e a sul de outros — a chuva molhou seu
corpo o fazendo se refugiar naquele velho teatro. De Marta
Ruz, pouco ou nada sabia. Se ele era o tempo um
indescritível vazio, as histórias alienações aleatórias, se não
fosse a beleza de Marta Ruz, naquele olhar maduro e
sedutor no cartaz da entrada que o terá feito adentrar aquele
teatro.

A cacofonia da menina do segundo acto salva pela


belíssima performance da última menina de facto tivera
valido a pena. Ao fim do espectáculo as poucas palmas
fracas que se ouviu, quando Marta desceu para o palco. Se
existia beleza maior que de Marta, Hugo não a conhecia.

E quem era Hugo?

Um personagem que encontramos nos encontros e


nos desencontros da vida, diriam uns, outros o definiram
como Hugo que viera rico de uma empreitada pelo médio
oriente, que diziam seus amigos dos tempos da Sardenha,
que se perdiam os dias sentados nos cafés dos becos
apertados, becos desfilados pelos estendais de roupas, ora,
se não eram as roupas estendidas nos varais das ruas um
facto comum que os turistas adoravam fotografar. Hugo,
sonhador como era não terá vendido mesmo seus sonhos
para Solene, tivera sido um homem que passara certo dia
por Sardenha que lhe terá falado das riquezas do médio
oriente. Que a pobreza de Sardenha, apenas a aceitavam os
tolos. Solene, a princípio ébria nesse amor juvenil por
Hugo, aceitava de bom grado partilhar a visão de mundo
dele. Mas a vida se faz nos acasos e nos acasos. Entre o
vendedor de sonhos Hugo; e Juliano, que edificara seus três
cafés e um salão por Sardenha, a escolha fora fácil. De
Hugo apenas teve suspiros, sonhos e beijos. Bom seria se a
vida fosse feita por esses moldes, mas agressiva como ela é,
sobrevivem os que melhor se adaptam as suas regras.
Hugo partiria mesmo, em certo Outono, que não
falarei das árvores se desnudando das suas folhas, para não
soar cliché, mas falarei do sol do oriente, lá aonde o sol
nascia bravo, percebera a regra desse mundo, aonde os
homens não são definidos pela sua inteligência mas pela sua
força para sobreviver.

Abdul Aziz Salim, fora o homem com quem Hugo


trocara correspondência que lhe encaminhara naquela
empreitada. Se a cor branca de sua pele se queimava no sol
escarnecido, as rezas para outro deus que pelas ruas de
Sardenha, nunca ouviu falar, as mulheres dispostas atrás de
seus hijabs, a língua que mais parecia cantada que falada,
tudo isso nos anos que esteve por lá teve que aprender,
escravo de seu ócio e seu crescente libido pela prosperidade.

Se as mãos se sujavam de negro pelo crude retirado


nas profundezas do deserto árido, as convivências se
limpavam, nas belas casas que conhecia, adornadas e ricas
em incontáveis tapetes marroquinos vindos da bela nação de
África.

Se converteria ao Islamismo, mais pelas


conveniências do que pelas crenças, ora, que se para
sobreviver tivesse que se prostrar a Alá, que assim fosse,
afinal não são os homens seres que se relacionam melhor
com quem lhes fale a língua, é como diz-se que quem fala
sobre nós nos chega a cabeça e quem fala como nós nos
chega ao coração.

Abdul, oferecera sua filha Salima para o nobre


estrangeiro a ter como esposa, linda e inocente como era e
catapulta para entrar então nessa próspera família, que se
sabia Abdul tinha apenas um filho, distante agora, que se
precisasse de um homem de confiança para lhe cuidar das
terras e das mulheres, que já lhe pesavam os anos. Do
casamento surgiram dois filhos, aos quais Abdul ainda teve
o deleite de os ver nascer e dar seus primeiros passos.
Partiria pouco tempo depois.

Hugo, homem de casa agora, tomara as posses de


seu sogro como suas e as filhas como esposas, a sogra que
nada poderia fazer observara o homem embranquecendo sua
família, que se nasciam árabes de narizes empinados agora.

A ambição e o cansaço do deserto fizeram mesmo


com que Hugo, vender os poços de petróleo, as casas e
partir em certo Julho para Frankfurt. Se os gritos de
contestação de sua sogra soaram altos, não foram ouvidos
por Hugo que desembarcara com as então três mulheres,
oito filhos e uma sogra idosa.

O dinheiro investido em lojas e acções, lhes dava


certo conforto, do deserto para os campos aráveis aonde
seus filhos cresciam, suas mulheres transformadas agora em
camponesas cuidavam da casa, tinha também seus
trabalhadores que lhe cultivavam o campo e levavam os
produtos frescos para Berlim aonde seriam vendidos.

Essa cidade de Berlim, agora unificada, que se


queria no sombrio passado recente que se tornasse a capital
cultural do mundo, ora, agora era apenas uma cidade
cinzenta que as pessoas passam uma pelas outras. Que se
crescia a economia e se decrescia a tal cultura, que verdade
seja dita também nunca fora grande coisa, pensara Hugo.
Que se comparasse a Paris, cidade que conheceu. Se de
cultura não conhecia nada, de amores também não; afinal, o
amor, sentimento difuso do qual só lhe servira de interesse.
Se as três esposas, lhe eram apenas garantia de tranquilidade
da vida.

Deambulatório pela Europa, se em Praga conhecera


um homem que lhe disse que era então o amor, elemento
essencial da vida. Que se vivia por ele, para ele. Que amor
era arte, que buscasse arte e encontraria o amor.

Se mais tarde acabou no teatro agora descaído de


Marta Ruz, que em tempos se dizia ser dos mais
movimentados lugares daquela cidade. Agora apenas uma
sombra fugaz, cansada e vivendo apenas das memórias tal
como velhos soldados.
Se ouvia que Marta Ruz quisera vender o teatro.

E Marta Ruz; essa Marta, que lhe despertara algo


novo, algo que se elevara a simples luxúria de ela ser
mulher, essa Marta da qual ele cumprimentou, abraçada à
um estranho homem de olhar cansado e cotoveleiras no
casaco, esguio com o rosto pontiagudo, lhe lembrara o
velho amigo Alessandro dos tempos da Sardenha, que se
ouvia agora que era um respeitado escritor.

Os outros dias de espectáculo os assistiu sem falta,


porém, Marta faltara nos dois dias, e mesmo após ele
manifestar sua intenção de comprar o teatro, deixara tudo a
cargo de um responsável qualquer.

Sem Marta, de nada lhe servia o interesse pelo


teatro, se Marta era esse platonismo em que ele projectara
esse amor.

Se esgotava o tempo, e em breve volveria a


Frankfurt. Se falava da esposa morta do amigo íntimo de
Marta. Dr. Emiliano, o homem do casaco com as
cotoveleiras. Entendia então o afastamento de Marta.
Sentia-se agora culpado por querer partir, achando
desinteresse da parte de Marta pela sua pessoa e do seu
interesse em comprar seu teatro, ao qual ela terá dedicado
toda sua vida.
Marta o viu, duas semanas depois no Centro. Estava
na Standard Library a escolher livros. Lhe bateu nas costas,
o reconhecendo. Se foi verdadeiro o sorriso surpreso de
Hugo, o de Marta era melancólico e distante, o olhar
salgado. Oxalá tivesse tal intimidade com ela para que lhe
oferecesse um abraço, um que lhe acalentasse o crescente
sofrer que lhe via nos olhos.

Eles conversaram. Se antes ela era a mesma, com o


olhar estranho e distante, com as rugas de maturidade. Os
olhos calmos que lembravam alfazema, com palavras
despropositadas, porém convictas as quais ele as sentiu
sedutoras no seu platónico sentir.

As semanas se converteram em meses, e quando se


encontravam, fosse no café ou agora no teatro que pertencia
a ambos, reatam uma conversa aleatória, como a aplicação
da arte, para a evolução dos espaços subdesenvolvidos, ou
quando Marta lhe falasse dos acordes, Hugo, se limitava a
ouvir, meio sério com os olhos que agora já não conseguiam
esconder seu amor. Incontáveis foram as vezes que
almoçaram juntos, e lhe contava sobre suas experiências e
as histórias entre a Sardenha e o Médio Oriente. Que tinha
uma vasta família, esse detalhe escondeu de Marta.

Que se fosse por amor, que Alá lhe perdoasse as


mentiras.
Se Marta fosse o fim da sua busca sofrida por sentir
o que o se contava nos livros de Shevrada nas suas cartas
apaixonadas para Azra, esse pujante amor que chega a doer
no peito quando o coração palpita por ele e a distância
impede de o trazer até si.

É provável que nenhum habitante conheça tão bem


quanto Marta os arredores daquela cidade, porque ninguém
costumava ir aos bares escondidos, cafés antigos, velhas
papelarias, loja de antiguidades, mais que ela, ninguém
vagueiava mais que Marta, sem plano, sem rumo — aonde
os olhos levam-na —, por seus umbrais e janelas, por suas
ruas, espelhos e planícies. Com Hugo agora, encontrava
também lugares novos e agradáveis, ou novas belezas nos
antigos.

Mas o que mais lhe agradava é o lugar de onde se


elevam as torres góticas e sombrias de seu teatro. Do alto do
edifício, à direita, podia se ver quase toda cidade; uma
quantidade espantosa de casas e igrejas que se apresenta aos
olhos como um majestoso anfiteatro: um quadro magnífico,
em especial quando iluminado pelo sol, quando seus raios
vespertinos incidem sobre as inumeráveis cúpulas douradas
e as inumeráveis cruzes que se elevam ao céu! Em baixo
estendem-se os passeios e as pessoas sempre apressadas
correndo aos seus destinos, e ao longe a Grand LeVier se
apresentava exuberantemente verde e florida, e longe deles,
para lá do horizonte, corre um rio claro, que se agita com os
remos leves dos barcos de pesca, ou borbulha sob o leme
dos barcos de carga que vêm navegando desde os pontos
mais longe da cidade e suprem de cereais a ávida cidade.

Nesse cenário plácido, olhando pelas janelas


envidradas que finalmente Marta deixou seus lábios se
perderem aos lábios de Hugo.

Ora, era então o amor que eles descobriram um no


outro, pela primeira vez.
5

(Gógol)
A manhã já ia bem adiantada, o que para o campo
não é nada cedo, quando Óscar acordou ao lado de uma
mulher, que roncava. Ao se lembrar que eles voltaram para
casa às quatro horas da manhã, e transaram por pelo menos
duas horas teve pena de despertá-la. Calçou então as
pantufas que mandara vir de Paris e, vestido em uma
camisola branca cujas pregas ondulavam ao longo de seu
corpo como cascata, entrou em seu toucador, lavou-se com
água tão fresca quanto sua tez e se aproximou do espelho.
Depois de se olhar umas duas vezes, concluiu que não
estava nada mal naquela manhã.

Esta circunstância, aparentemente insignificante,


obrigou-o a ficar diante do espelho por mais duas horas. Por
fim, vestiu-se de forma elegante e foi tomar a fresca no
jardim. O tempo era magnífico, privilégio exclusivo dos
dias de verão no sul. O sol do meio-dia abrasava com todo o
furor de seus raios, mas passear pelas alamedas densas e
escuras era muito refrescante e as flores aquecidas pelo sol
triplicavam o seu perfume.
Óscar se esquecera completamente que já eram doze
horas e que a mulher estranha ainda dormia. Já tinham
chegado aos seus ouvidos os roncos da sesta de dois
cocheiros e um lacaio, que dormiam na estrebaria atrás do
jardim. Mas ele permaneceu sentado na alameda
sombreada, de onde se avistava uma estrada longa, e se pôs
a observar absorto a imensidão deserta, quando de repente
uma nuvem de poeira ao longe chamou a sua atenção. Ao
fixar o olhar, logo distinguiu duas viaturas. À frente
avançava uma mais ligeira com quatro lugares, em que
vinha sentado o carteiro com suas grossas dragonas
brilhantes sob o sol e, ao seu lado, o coronel, seu velho
amigo. Logo atrás dela vinha uma segunda com quatro
lugares, ocupado pelo advogado.

Se viam todos juntos, de certo não lhe trariam boas


notícias.

— O saúdo meu amigo Óscar e lhe trago, minhas


sentidas palavras de conforto por seu infortúnio. — Disse o
Coronel descendo do carro.

— O único infortúnio que tenho é essa vossa


intromissão aos meus aposentos num dia tão bonito de sol
sevilhano. — Disse Óscar com ar aborrecido.
— Ora, creio que não saiba ainda! — Exclamou o
Coronel.

— Sr. Óscar é sobre isso que lhe vim informar. —


Disse o advogado apressado que vinha atrás. — Sua irmã
Leonor faleceu na noite de ontem. Recebemos uma
chamada de seu cunhado, porém não lhe conseguimos
localizar para informar atempadamente.

(…)

A razão lhe caíra agora. Único sobrevivente de sua


casa. Seu pai, morto no comboio por um meliante, sua mãe
sucumbida a loucura, seu irmão Vicente, este responsável
pelo estilo de vida que ele levara, este que lhe deixara
metade de tudo que ganhou na vida como escritor, até ter se
aposentado em um país tropical aonde sucumbiu em febres.
Sua irmã, esta que pacientemente durante todos os anos
trocava correspondência com ele, que nem sempre ele
respondia a missiva.

Óscar cresceu selvagem nos campos, entre os


cavalos e as apostas, a escola desistiu aos catorze anos, não
era culto como seus irmãos, mas da cultura deles aos
dezoito anos começara a receber deles, cartas que lhe viam
de todas as partes do mundo, com dinheiro o qual ele
gastava a seu bel-prazer, gastando sem investir. Desde então
dinheiro nunca lhe faltou, nunca precisou trabalhar, o valor
enviado que era para ser repartido entre eles e os restantes
habitantes da casa da avó Martina que os acolhera, no
padecimento de seus pais, Óscar nunca os deixou ver um
único tostão.

Se estavam todos mortos agora, era fruto do mal


agradecimento deles, que maldição de quem só te fez bem,
pega mais forte.

Incrédulo correu para dentro de casa, no escritório


abriu caixa aonde guardara as cartas da irmã, às quais
muitas nem as abriu. Então Óscar chorou amargamente, seu
grito foi tão forte que a mulher deitada no quarto levantou
assustada.

Perdera Leonor, sua irmã Leonor que o carregara nas


costas quando pequeno, a quem para ele corria para lhe tirar
uma farpa na mão, ou que sempre lhe guardava comida
quando crescia e chegava tarde, e lhe castigavam ao jejum,
sabia que estaria em baixo da sua cama um copo de leite e
um pão feito pela manhã para que pelo menos lhe acalmasse
a apetência.

Com as lágrimas que correram quase intraváveis,


Óscar abrira uma carta qualquer da irmã:
Querido Óscar,

Meu bom irmão, lhe escrevo à partir da Rússia, Vicente e


eu estamos aqui para terminar um romance. Estamos
conhecendo alguns lugares. Espero que estejas bem; reparei que
não respondeu a minha última missiva. Penso que estarás
ocupado em tuas coisas, e não lhe quero chatear. Apenas escrevo
porque sinto saudades tuas meu irmão.

Não saber de ti, me fere o coração.

Mando além do dinheiro, um exemplar do último livro do


teu irmão Vicente, peço que leias este, tem um personagem muito
bom chamado Óscar. Eu pedi que ele te eternizasse.

Peço que escrevas também para ele, que se por ele não
tenhas nenhum afecto, ao mínimo agradeças, ao dinheiro que ele
envia sempre de maneira pontual para as tuas necessidades, meu
irmão.

Por favor, me escreva de volta, meu irmão.

Com amor, sua irmã Leonor.

Não respondera nem as mais simples cartas da irmã,


recordara que a última vez que a viu foi por alguns minutos
no seu casamento, pois chegara bêbado, e saiu minutos
depois com uma jornalista desconhecida, igualmente
bêbada.

Seus sobrinhos, apenas os conheceu em fotos, que a


irmã enviava junto com as suas missivas.

Percebera que as cartas da irmã, as que ele não leu,


não eram apenas cartas de cumprimentos, havia em muitas
delas, cartas de desabafo para ele, cartas sobre seus medos,
lhe contara tudo e todos os sofrimentos dos quais padeceu
durante todos esses anos:

Querido Óscar,

Sinto a cada dia o meu corpo mais cansado, Emiliano diz


que é consequência do tratamento que faço, eu porém, sinto que
estou morrendo.

Morrendo infeliz, pois, tu, meu único irmão vivo, não me


vens visitar, não me permites ao menos olhar no teu rosto e te
pedir desculpas por lhe ter abandonado. Perdoai-me meu irmão,
não sei o que mais posso fazer para conquistar seu amor. Toda
vez que penso nisso; sinto uma dor lacerante atravessando meu
peito.

Peço-lhe que ao menos respondas essa minha carta, nem


que for uma carta em branco apenas assinada com o teu nome
meu irmão.
Preciso saber que você ao menos leu o que escrevi para
si.

Emiliano diz que eu devia parar de escrever para ti, pois,


é como falar com as paredes. Ele diz que tu não amas nada a não
ser você mesmo. Mas eu sei que não é assim meu irmão. Eu
conheço o teu coração, sei que estás apenas magoado com a
vida. Eu sei que um dia tu entrarás pelos meus umbrais e me
darás um abraço. E tudo será esquecido.

Meu irmão, peço que respondas e digas quando virás nos


ver, pois, sinto que o meu tempo é escasso nessa terra.

Amo-te até ao infinito.

Com todo amor, sua irmã Leonor.

(...)

Aconteceu de Óscar viajar para a cidade ao sul de


uns lugares e a norte de outros, para que pelo menos velasse
a irmã. Levava consigo apenas a caixa com a
correspondência de sua irmã.

O trem, cortava as paisagens verdes pela janela, as


substituindo as vezes, por um longo campo castanho e
morto de vegetação recém queimada, se via ainda ao longo
do troço, campos agrícolas que se estendiam infinitos até o
horizonte.

A linha não estava ainda concluída, os comboios


andavam com atraso, e os passageiros eram acomodados de
qualquer jeito. Não importava a classe do bilhete comprado,
dava tudo na mesma: todos se sentavam misturados.
Mistura era coisa da qual Óscar nunca gostou.

Bares, nas estações, ainda não havia; muitas pessoas,


com frio, aqueciam-se com o cantil de viagem.

As bebidas esquentantes desenvolvem a


sociabilidade e a disposição à conversa. Mais do que tudo
fala-se da estrada, e com condescendência, coisa rara entre
os passageiros.

Óscar as vezes respondia, porém seus pensamentos


andavam distantes, a cabeça perdida, nas histórias que
vivera com a irmã, ou das coisas que ela terá lhe dito.

— Pois é, o serviço da companhia não é lá grande


coisa — disse um militar —, mas, vá lá, sejamos gratos a
ela; é melhor do que viajar pelas estradas de terra abatida. A
carro, em um dia não chegaríamos, mas, aqui, lá pela manhã
estaremos no destino e pode-se voltar ainda amanhã.
Para um funcionário público é uma beleza poder
passar o dia de amanhã com os parentes e, depois de
amanhã, estar de volta ao serviço.

— Pois é exactamente isso que eu dizia — apoiou-o,


levantando-se e segurando-se no encosto de um banco, um
eclesiástico grande e magrelo. — Pois então, lá numa
cidade um diácono perdeu a goela e tem orado à Glória
eterna que nem um galo. Convidaram-me a fazer a missa da
noite por uma notinha de dez. Resmungarei a ―Glória
eterna ao Senhor” e à noite estarei de volta ao meu
povoado.

— Bem, aqui os companheiros não são para toda a


vida, mas só por uma hora — disse um comerciante.

— É-é-é-é, mas um sujeito ou outro, vá que só uma


hora connosco, pode ser lembrado para toda a vida, depois
— objectou-lhe o diácono.

Óscar permanecia calado, apertado a caixa das cartas


de sua irmã ao peito, como se de eu tesouro se tratasse.

— Como é lá isso? — Perguntara o outro ao


diácono.
— Por exemplo, um terrorista, com todos os seus
paramentos, com todas aquelas misturas químicas e
revólver-buldogue.

— Tais escórias são lá para a polícia.

— São da conta de todos, porque, sabem, é só uma


sacudidela... e bum! Estamos todos mortos.

— Pare, por favor... Para que foi falar duma coisa


dessas já tão tarde. Não há cá ninguém desse escalão.

— Pode sair um agora, neste exacto momento, do


campo lá de fora.

— Melhor dormirmos.

Ao amanhecer chegara a cidade, seu cunhado que


reconheceu, das fotos de casamento que a irmã lhe enviara,
lhe recebera na estação. Junto dele, estava uma mulher, que
ele não conhecia. Era Marta. Distante. Talvez, o crepuscular
do dia lhe conferia aquela austeridade a tal hora da manhã.

Leonor fora a enterrar numa brilhante manhã cinza.

Óscar olhava para o céu que lhe presenteara tão doce


dádiva nessa hora de angústia. Lembrara que na noite
passada viajando acordado num trem em que os homens
amontoados uns nos outros, passavam entre as estações com
os rostos cada vez mais coléricos. Ao enterrar a irmã,
apenas lhe vieram a cabeça os pensamentos sobre as partes
felizes desse longo encontro de vida que ele teve com ela.
Queria ele regressar aos encantos da sua vida, quando a
felicidade se resumia em sol, na montanha esverdeada
cristalina e nas desvairadas corridas de cavalos – por que
será que as pessoas não podem fazer isso todos os dias?
Todas as meninices se fossem eternas, bom seria que o
coração nunca aprendesse a sofrer, e talvez seja isso que ele
buscou em toda vida. Apenas não sentir demais para não
sofrer, talvez essa solidão era nada mais que um refúgio,
uma fuga talvez dessa senilidade que lhe corroía o corpo.

Após o cemitério, saíram para ir à igreja depois do


enterro. Óscar viu as mulheres entrando com as mãos
apertadas nas contas do terço e iam armadas com suas
bíblias e falavam de pegar a cerimónia como se fosse um
ônibus. Sorriu para elas de um jeito benevolente, por detrás
de seu casaco ateísta, e na porta acendeu seu cigarro
existencialista.

Se a senilidade lhe tinha finalmente encontrado sem


que ele desse por conta, nessa sua percepção de que de nada
lhe servia tal prostração ao inexistente deus. Talvez agora
devesse olhar para ele, como as mulheres apressadas o
olham. Se fosse deus uma necessidade de ser senil, se deus
na verdade fosse o ponto que se equilibraria a dor que
sentia, e todas as tubulações na sua mente. Talvez devesse
só olhar para deus nesse espectro. Que o da salvação ele não
o precisava. Óscar partiu, deixando Emiliano, Marta e os
sobrinhos entre as rezas pela alma da sua irmã.
6

(Lispector)
“Talvez o amor seja esse resquício de alma que
sobra quando as pessoas se esquecem de ser humanas.”

A verdade cairia sobre Marta Ruz, como uma


bigorna cai de modo aleatório para cima de um personagem
de cartoon. O fim com Hugo no leblón, parada na cidade
agora fria do inverno.

“Talvez o amor seja o enquadro nos nossos peitos


cansados de não sentir; seja o fim do charlatanismo sobre
sermos insensíveis e se aloja em nós na pusilanimidade de
que nunca mais vai partir”.

Queria Marta, não ter dado tudo de si naquele chão


frio, que cairia quando tentava com esforço pegar as pautas
das suas primeiras composições, guardadas no cimo da
pesada estante de seu escritório. Cairia imóvel. Preocupado
Hugo a veria no chão, a dor latente na cabeça, seria
substituída com abafadas gargalhadas, findada com os olhos
de um se perdendo entre a avenida que se via na íris do
outro. O encontro de beiçanas. Queria Marta esquecer isso.
“Então o amor será essa parte de nós a qual nunca
iremos fugir.”

Pensava que talvez seu bom amigo Emiliano


estivesse certo quando afirmou que um dia o amor viria até
si, ele vem em velocidade de cruzeiro. E rompe tudo que
estiver a sua frente.

Quando viu, Hugo, no dia que ela queria não ter


visto. No dia em que os seus olhos estavam distantes, em
que se tinha já desfeito do teatro, vendido a ele mesmo. Ele
diria na voz distante: “estou voltando para as minhas
esposas em Frankfurt”.

De tudo; Hugo se tornou em questão de segundos


nesse sem fim, feito tal seu prazer. Nesse vazio vaso frágil,
que agora quebra-se de novo, e de novo; e novamente se
preenche de vida fresca.

Os olhos de Marta agora têm carregado esta pequena


sinfonia de tristeza por dentre os montes e os vales, e
soprado através deles melodias eternamente novas,
coléricas, plúmbeas... vazias.

Emiliano a encontrara perdida nesses pensamentos,


sentada numa das várias poltronas da Grand LeVier. Seus
olhos olharam por milésimos para Emiliano entrando
acompanhado pelo mordomo.
— Bons ventos que o trazem para aqui meu amigo.
Sê bem-vindo a minha prisão.

— Vou ignorar tal depreciação da majestosa e


libertadora Grand LeVier. Deduzindo que seja consequência
de seu corolário. — Emiliano olhou para as cartesianas
abertas. — Ora, pelo menos já lhe agrada a luz e a paisagem
que vem do jardim, presumo.

— Por mim se vai pela cidade dolente; se vai à


eterna dor e se vai entre as perdidas gentes.

— Então agora recitas Dante?

— Pouco importa quem recite. Ou o que faça, na


verdade, pouco me importa até Hugo. Vejo agora quão tola
fui em me deixar corromper por tão néscia necessidade
parva.

— O amor é assim minha doce amiga. Ele magoa,


mas o que seriamos então sem ele? Se nossa vida, se resume
em aceitá-lo em nós.

— Se engana Emiliano. — Marta serviu dois copos


de whisky e entregou um deles para o Dr. Emiliano. — Na
verdade, vivemos pelo infindável nada, o amor é como deus
que buscamos nas rezas. Um sentido para o que não tem
sentido.
— Vivo a vida, pensando nos meus pacientes, todos
os dias da minha vida tenho nas mãos o poder de dar vida
ou tirar uma. Nego-me à aceitar que isso é um infindável
nada.

— Todas as ações, todos os sentimentos, todos os


factos são vazios em si mesmos, desprovidos de qualquer
significado. Sim, viver é algo tão sem sentido quanto
morrer, e estamos aqui pelo mesmo motivo que as pedras:
nenhum.

— Quão sem esperança, tens vivido minha amiga.


Se agora não lhe digo uma palavra de consolo. Deve-se
também a minha ineficácia para falar de dores, se ainda
tenho o coração dilacerado pela partida de Leonor.

— Meu amigo, nem tudo o que vivemos resulta


numa realização, resulta às vezes numa tentativa. O que
também é um prazer. Pois nem em tudo podemos pegar ou
controlar. Às vezes quero apenas tocar em assuntos como
esse. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem
pegar com as duas mãos.

Os copos agora vazios repousavam sobre a pequena


mesa de centro que separava as poltronas. Num voto
silencioso entre os dois, Marta encheu novamente seus
copos com o whisky de carvalho escocês.
— Talvez apenas tenha medo da solidão. Talvez as
imagens de Leonor que encaro no frio escuro sejam a
solidão se personificando.

— Você é um homem honrado e decente, ter medo é


a prova disso. Sobre Leonor que mais posso falar meu
amigo? Como lhe disse, sou péssima dando conselho.
Talvez a vida seja apenas uma trilha longa e tortuosa cheia
de armadilhas e cobras, e sobre ela se caminha para
encontrar sentido dessa vida ou chegar a locais onde a vida
vive. E como essas cobras, as trilhas da vida estão na
verdade prontas para trocar a velha pele por uma nova, e
tais ocorrências levam tempo, com as necessárias
interrupções. Hoje, os pés das nossas trilhas quem sabe se
deram início a uma dessas interrupções. Pode ser que
aqueles cujos anos tenham muitas temporadas sejam sempre
os primeiros a reacender sua rompida amizade com a terra,
ou pode ser que simplesmente tenha ocorrido dessa
maneira.

Calados num dos salões da Grand LeVier, vazios, no


entanto cheios de questões sobre quem eram, partilhando no
silêncio além da amizade, essa tristeza do abandono, da
partida e do amor. Essa descoberta das imagens
fragmentadas de seus amores.
No espelho que se projecta para eles que está perto
da porta. Parece que estão vendo suas vidas acontecer
através de uma tela de TV com chuvisco. Sentindo-se tão
distantes deste mundo. Quase estrangeiros nestes corpos.
Como se tivessem esvaziado todas as lembranças felizes do
interior da suas mentes.

Emiliano fecha os olhos e já não lembra mais de


como é ficar feliz. O peso no peito vai parar dentro da
barriga porque sabe que precisa levantar e viver amanhã
fingindo que não voltara a desaparecer pouco a pouco.

Marta queria poder esticar o braço e encostar nas


coisas. Queria sentir quando as coisas encostam em si.
Queria viver. Queria de volta sua vontade de viver.
7

(Beah)
Naquela noite Marta sonhara.

A brisa dava pequenos empurrões em seu corpo


esquelético, coberto com um pano roto, fino e esgarçado de
muitas lavagens, rumo ao que um dia fora sua cidade. Ela
descalçara as sandálias, colocara-as sobre a cabeça e com
cuidado pusera os pés sobre a trilha, despertando a terra
endurecida com passos suaves. De olhos fechados, conjurou
o doce cheiro das flores que se transformariam em grãos de
café, perfume que o sopro esporádico do vento bafejava no
ar. Era um frescor que costumava tomar conta da Grand
LeVier e achar seu caminho até o nariz dos visitantes a
muitos quilômetros de distância. Tal aroma era para o
viajante uma promessa de vida pela frente, de um lugar para
descansar e matar a sede, e talvez para pedir orientação se
estivesse perdido. Mas hoje o aroma a fez chorar,
começando devagarinho, com soluços que então foram se
tornando um choro do passado. Um pranto, quase uma
canção, para chorar o que se perdera enquanto a memória se
recusava a partir, e um pranto para celebrar o que restava,
por pouco que fosse, para infundir-lhe resíduos do
conhecimento antigo. Ela balançava o corpo ao som de sua
própria melodia, e o eco de sua voz a preencheu primeiro,
fazendo-a tremer, e então preencheu toda a Gran LeVier
agora vazia. Ela lamentou por quilómetros, arrancando
arbustos que sua força permitia puxar e jogando-os ao lado
da trilha.

Finalmente chegou à cidade silenciosa, sem ser


saudada pelo cantar dos galos, pela voz das crianças
jogando, pelo som do ferreiro golpeando ferro em brasa
para fazer uma ferramenta, nem pelo som da fumaça
subindo dos fornos. Parou em frente ao teatro. Mesmo sem
esses sinais de um tempo que parecia estar muito longe,
sentiu-se tão feliz por estar de volta ao lar que se descobriu
correndo para dentro do teatro, as pernas subitamente
ganhando mais força, apesar da idade. Mas, ai dela, ao
chegar caiu em prantos. A canção do passado abandonou
abruptamente sua língua. O teatro fora queimado fazia
algum tempo, e os pilares remanescentes estavam escuros
da fumaça. Lágrimas consumiram seus profundos olhos
castanhos e lentamente rolaram por sua longa face até as
maçãs do rosto ficarem encharcadas. Ela chorou para aceitar
o que sabia ter acontecido, mas também para permitir que as
lágrimas caíssem no chão e chamassem de volta, em forma
de espírito, os que haviam partido. Chorava agora porque
não fora capaz de fazê-lo por todos esses anos, pois mantê-
lo vivo exigiu separar-se de todo modo da vida e do amor,
esse amor que lhe tirava agora seu amado teatro reduzido à
cinzas. Entre os corredores e salões carbonizados, ela sentiu
que passara por muitas cidades e aldeias que se
assemelhavam àquilo que seus olhos molhados agora
encaravam. Uma cidade em particular lhe parecera mais
assustadora que as outras — havia filas de crânios humanos
em ambos os lados da trilha que conduzia até ela. Quando a
brisa vinha, o que ocorria com frequência, ela sacudia os
crânios, fazendo com que girassem lentamente e parecessem
virar as órbitas vazias enquanto ela passava apressada.
Apesar dessas visões, ela se recusara a empenhar a mente na
possibilidade de que sua própria alma estivesse também
carbonizada. Talvez tenha sido a maneira de manter a
esperança dentro de si, para continuar alimentando a
determinação de seguir a caminho do lar. Ela não queria
falar o nome desse lar, nem mesmo em pensamento.

O “Vendaval Nos Montes Sombrios” fora liberado


aos ouvidos do vento, mesmo com a desorientada sinfonia.
Ela recuperou o controle dos pés e começou a caminhar pela
cidade. Havia ossos, ossos humanos, por toda parte, e tudo o
que ela podia dizer era se pertenciam a uma criança ou a um
adulto.

(Gorina)
Se Geovana tivesse só errado os acordes até então
seria apenas um dia normal na vida de uma artista, afinal
não é o erro uma condicionante de aceitar o contrato
humano? Mesmo que no fundo ela sabia que tivera sido
fruto da inveja de suas companheiras. Mas para sua
professora não fora a desastrosa apresentação de Geovana
que tivera sido a condicionante para o seu afastamento das
próximas apresentações, mas sua ousada apresentação final,
a qual apesar do gáudio do mísero público tivera sido na sua
percepção uma enorme falta de respeito a sua companhia.

Ou talvez se tratasse de mera colisão ideológica com


os preceitos ousados que os artistas contemporâneos tinham
ao elaborar a sua música. Essa música actual que não se
tinha uma unanimidade de critérios para determinar a sua
filiação. Essa que para muitos tinha a certidão marcada
naquele ano de 1985, quando soaram os primeiros
compassos de Tristão e Isolda, de Wagner. Outros
asseguram que o cromatismo wagneriano é um antecedente
importante, mas apenas um antecedente, e o autor de
Parsifal não teve consciência que aquela efervescência
espiritual (o cromatismo tristaneco); na verdade, nas obras
posteriores a Tristão, Wagner parece não fazer muito caso
da sua transcendente descoberta.

Mas naquele dia, ouvindo os improvisados acordes


de Geovana, Marta que ao fim do evento, a parabenizou
pela ousadia pela qual fora mais tarde condenada. Afirmou
que tais deliquescências harmónicas lhe fizeram lembrar de
Pelléas et Mélisande, que realmente eram definidas como o
conceito musical moderno plástico. Falou apaixonadamente
sobre o impressionismo como importunante que Geovana
repetiu a seu deleite.

Afastada, Geovana tocava no seu quarto em prantos,


com as lágrimas iam lhe caindo nas mãos que docilmente
desfilavam nas teclas. Tocava a escandalosa “Sagração da
Primavera” de Stravinsky.

Ora, se os compositores mais antigos, entendessem


porventura que essa música nova que surgia em revolta era
a zona de expressão desses novos jovens que vão crescendo,
se eles percebessem que essa mutação que dava na arte era
inevitável, afinal, que artistas eles seriam se não contassem
as coisas do seu tempo. Se entendessem que a arte não será
definida como boa ou má pela sua linguagem erudita, mas
pelo significado que ela carrega para as gentes de sua
geração.

Se essa geração de Geovana apresentava com maior


agudez os problemas de sua época, a qual há-de ser o fim ou
objecto ultimo da criação e onde a cisão entre o purismo da
«arte pela arte» será a criação em função a realidade social.
Ou que a arte se comprometa agora em adquirir matizes e
um carácter mais dramático e a tradição que reina entre as
correntes estéticas. Que se busca agora falar dos programas
de actuação e a tradução do mundo das realidades.

Seria bom que se percebesse que esse mundo que


vivemos que tem como ponto de partida o caos, esse que
como conta Sharrawy, é inevitável. Mas cujo fermento vem
já de épocas afastadas. Se assim se entendesse; se
perceberia que a arte é nada mais que a concepção plástica
tão real ou abstrata como de Kandinsy, Paul Klee ou
Mondrian.

Por não se perceber essas facetas, Geovana tocava


triste, já não era Stravinsky, seus acordes agora pareciam
desajeitados, em muitos aspectos pareciam forjados das
vivências estruturais tristes que agora a definiam. Ser
Picasso ou Currie, nada é mais do que valores vigentes que
servem para surpreender, não pelas suas cabriolas estéticas,
a que nos habituamos, mas pelo forte sentido que por vezes
se interpreta e cria a consciência estética do seu tempo.

Mas lá estava Geovana perdida nos dias, na


companhia de arte, escondendo-se em sorrisos falsos pouco
depois do fim de mais um de seus armistícios entre as
lágrimas e a depreciação, olhando para essa eclosão do
sistema serial ao qual estava presa, através do ensino das
velhas e chatas composições de Leibowitz, olhando a sua
volta, a companhia se enchendo dos rostos coléricos de
crianças que como ela tentavam cada uma não errar uma
nota, umas nas suas flautas, outras em oboés, violinos,
pianos, clarintes, clarinetes baixos e saxofones. Tocando a
marcha fúnebre que os então espectadores na sua maioria
pessoas demasiado senis para aceitar qualquer mudança a
tradição estética que seus ouvidos estavam habituados a
ouvir.

Talvez naquele momento, Geovana enfim tenha


percebido o que tanto sua professora dizia, que não era uma
questão de ser contra a revolução artística, era senão que
ninguém dos que compravam tal arte, tinha interesse na
revolução, para eles bastava que se embriagassem pela doce
sonoridade dos instrumentos proscritos, pelo timbre neutro e
distante dos instrumentos de lingueta simples, que para eles
era o máximo que podiam experimentar de tal modernidade.

(Poe)
É às águas, e a esses vastíssimos campos que o
homem oferece seus cânticos de amor? Não, por certo.
Esses hinos, cujos acentos perdem-se no espaço, são como
notas duma harpa eólia, arrancadas pelo roçar da brisa; ou
como sussurrar da folhagem em mata espessa. Esses carmes
de amor e de saudade, o homem os oferece a seus deuses.

Talvez terminar seja um desafio maior que


continuar, o que se diz é não é uma questão de amar de
modo certo ou errado, é sobre visualizar mundos. Assim
naquele dia frio de inverno Marta, talvez tenha percebido
que nunca foi sobre descobrir a vida, sempre foi sobre vive-
las, ela era esse epitáfio fúnebre de uma artista agora sem
um teatro, era o chocalhar da mata vazia. Era o vento, ia
para todas as direcções e no fim, era nada…vazia.
Ora, mas se as pessoas em algum momento
percebem esse vazio que se prega em Marta, elas agora
como Marta, teriam aprendido a viver quando houve
oportunidade para isso. A vida toda tivera sido uma artista
em palco, e tinha percebido que artistas não são pessoas, são
versões delas; facetas, fragmentos. Pessoas estão acima dos
entalhes rotulares, acima de todas as partes teóricas de seu
todo, personagens, rótulos, profissões, doenças, paixões,
estados emocionais, tristezas, alegrias.

Então essas são as pessoas, o conjunto de tantos


pontos, vivendo tantas vidas e vivendo tantos rótulos.

Marta queria que Hugo morresse.

Contudo não era senão um pensamento, embora


terrível, e um pensamento que lhe gelou até a medula dos
ossos com a feroz volúpia do seu horror. É, simplesmente, a
ideia do que seriam suas sensações durante o mergulho
precipitado naquelas águas que se mostravam plácidas; tal
placidez que ela desejara para si.

Marta se sente na borda do precipício entrando a


cada vez mais no rio.

Perscrutando o abismo e lhe vem, a náusea e a


vertigem. Seu primeiro impulso é fugir ao perigo.
Inexplicavelmente, porém, fica.
Pouco a pouco, sua náusea, sua vertigem, o seu
horror confundem-se numa nuvem de sensações
indefiníveis. Gradativamente, e de maneira mais
imperceptível, essa nuvem toma forma, como a fumaça da
garrafa donde surgiu o génio nas Mil e uma Noites. Mas
fora dessa nuvem à borda do precipício de seu fim, uma
forma se torna palpável, bem mais terrível que qualquer
génio ou qualquer demónio de fábulas.

Era uma mulher, parada, olhando para ela, envolta


de outras pessoas, talvez, ou não, as coisas se faziam
confusas quando a aflição por se salvar luta com os pulmões
queimando por falta de ar. Quando existe água em todos os
lados, e ainda assim tudo parece plácido.

Ela se deixara ficar. Envolta pelas águas que não se


agitavam nem com a sua presença. Se era o fim que fosse
assim, nesse festim, nessa perca de oxigénio concedida por
ela as águas. Nesse abrupto silêncio, nessa falta de palco,
para aplaudir sua apresentação ao fim do acto.

Durante toda a sua vida, Marta sentiu-se atraída


pelas águas. Imagens do litoral permearam sua infância,
quando sua família tinha uma casa de praia em Richered.
Suas composições- especialmente A valsa das ondas, Rumo
ao farol e o marinheiro - estão cheias de imagens da água e
do mar. Essas imagens continuariam a povoar seu espírito
até naquele momento final de sua vida.

Então algo se moveu na água: seu peixe favorito,


com a cauda em forma de leque. O dourado seguiu atrás.
Depois, ela viu um relâmpago de prata - a carpa grande ...

— Nós mesmos… — pensou ela.

E, encontrando na água cinzenta um lume de fé,


ficou a seguir com os olhos, esperançosa e sem raciocinar,
os peixes ...

Parecia que da terra subiam torrentes de águas


verdes, submergindo-a. Mas era tudo ficional. Era o fim.
Uma escolha sem volta que somente se consumaria sem
rendição. Sem voltas.

Marta fecha os olhos para a eternidade.


10

(Júpiter)

O velório de Marta foi feito dois dias depois do


fatídico dia. Tão enfadonho e sombrio facto terá assustado
os habitantes daquela cidade ao norte de alguns lugares e a
sul de outros.

Emiliano estava lá, parado em frente da lápide de


sua amiga. Desentendendo as razões que a levaram a tal
insípida consumação.

O frio da solidão castiga. Emiliano pensava nessas


imagens disformes que ainda não conseguia perceber.
Andava pela cidade sem vê-la, voltara ao teatro, agora
baptizado por Hugo, mesmo a distância de ―Teatro Marta
Ruz”.
Ele viu a Grand LeVier ser vendida a uma família
qualquer, o dinheiro de Marta sendo doado pelas várias
companhias de arte do mundo que Marta visitara.

Viu seus filhos crescendo. Se viu mudando com eles


para Paris. Se viu casando novamente com Juliette. Se viu
divorciando dela anos depois. Se viu voltando para a cidade,
agora completamente esquecida da existência de Marta.

Ou talvez não.

No meio frio na praça pública em que as pessoas,


apenas passam uma pelas outras sem se notarem, sentada
em um piano executando perfeitamente os quarenta e seis
acordes dos “Vendavais dos Montes Sombrios” olhando
para algumas pessoas paradas, entre elas Emiliano. A moça
agora executava todos acordes na mais perfeita sincronia de
tempo. O tocava tão perfeito como se a Marta e a ela mesma
devesse isso. Quando último dó maior soou contínuo, se fez
silêncio.

A seguir explodiram milhares aplausos na praça


pública, com o teatro velho se observando atrás de outros
prédios.
Este livro foi apresentado como trabalho de final de
curso de escrita criativa, ministrado na Academia Paulista
pela professora Ana Maria Ferreira.
Nota da Autora
Desde os primórdios na minha curta vida como
escritora, sempre quis escrever uma história sobre as
histórias de outras pessoas, sempre achei que podia
implementar minhas palavras entre outras palavras e criar
uma história mais rica. Por esse motivo, meus livros
favoritos estão completamente rabiscados.

Eu criei a minha história em várias histórias. A quem


diga que se trata de plágio. Mas, para mim é apenas um
texto entre outros textos.

Além dos dez autores ai sobrescritos existem outras


tantas almas que estavam comigo, escrevendo juntos.
Olhando para a Marta se afogar sem fazer nada, pois a
história estava contada. A mim coube apenas a
responsabilidade de uni-la.
Claro que contei com o apoio do melhor grupo
literário angolano que é a Monólogos Team. E sim, estou
em fase agradecimentos:

A professora Ana Maria Ferreira, um dos maiores


seres que conheci na minha miserável vida literária.

Ao Martinho Santos, um dos seres com mais luz que


conheço, trabalhamos muito para a concepção dessa coisa
que parece uma novela.

Ao meu esposo Orlando, a quem podem culpar pela


morte da Marta, foi sugestão dele em uma de nossas
conversas de travesseiros.

A Luana Mendes, a baixinha gigante como gosto de


lhe chamar. Um ser tão cheio de luz, que quase lutou
comigo porque disse para ela revisar o meu livro, mas não
alterar nenhum sentido das palavras. E fez um trabalho que
amei.

A Petra Valhovic, grande amiga que conheci em


Budapeste, e me falou de filosofia com uma paixão que
nunca tinha ouvido antes e muitas dessas nossas conversas
se converteram em partes desse livro.

Aos escritores que tirei citações, ideias ou


pensamentos, ou coisas parecidas a isso de seus livros e usei
nessa coisa. Desculpa pela ousadia, mas obrigado por me
inspirarem.

BIBLIOGRAFIA

 Anthony Sadler, 15h17 Trem Para Paris


 António Lobo Antunes, Ontem Não Te Vi Em
Babilónia
 Clarice Lispector, Amor
 Clarice Lispector, Crónicas Para Jovens
 Conceição Evaristo, Insubmissas: Lágrimas
De Mulheres
 Dante, A Divina Comédia
 Edgar Allan Poe, O Demónio Da
Perversidade
 George Perec, A Vida Modo De Usar
 George Perec, As Coisas
 George Perec, Tentativa De Esgotamento De
Um Local Parisiense
 Henri Bergson, Memória E Matéria: Ensaio
Sobre A Relação Da Memória E O Corpo
 Ingrid Newcastle, Crisálidas E Casulos
 Ishmael Beah, O Brilho Do Amanhã
 Júlio Cortázar, Rayuela
 Júpiter, Algumas Lágrimas Não Saem Pelos
Olhos
 Júpiter, Ensaios: Cigarros E Café
 Luís Sepúlveda, Encontro Num País Em
Guerra
 Maria Firmina Dos Reis, Úrsula
 Olavo Bilac, As Viagens
 Sharrawy, Notas Da Mesma Sinfonia
 Tomo, Contos Russos
 Valls Gorina, O Que É A Música?
 Valter Hugo Mãe, A Máquina De Fazer
Espanhóis
LIVROS PUBLICADOS PELA MARLENA EDIÇÕES:

1. Ainda Vejo-Te Marlena, Sharrawy


2. O Vilão Não Morre Neste Livro, Lúcio Silveira
3. Tudo Pela Humanidade, Lúcia Carina
4. Um Homem Chamado Caos, Sharrawy
5. O Homem Que Pintava Mulheres Nuas Sharrawy
6. Intertextual, Júpiter

Você também pode gostar