UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA
DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA
GAEL GUERREIRO BOTELHO HERMETO DE ALMEIDA
ESTADO DE SUSPENSÃO BUROCRÁTICA:
uma etnografia sobre o processo de Requalificação Civil de pessoas não-
binárias no Rio de Janeiro
NITERÓI
2024
GAEL GUERREIRO BOTELHO HERMETO DE ALMEIDA
ESTADO DE SUSPENSÃO
BUROCRÁTICA:
uma etnografia sobre o processo de Requalificação Civil de
pessoas não-binárias no Rio de Janeiro
Monografia apresentada ao Departamento de
Antropologia do Instituto de Ciências Humanas e
Filosofia da Universidade Federal Fluminense
como requisito parcial à obtenção do título de
Bacharel em Antropologia
Orientadora: Profa. Dra. Lucía Eilbaum
NITERÓI
2024
GAEL GUERREIRO BOTELHO HERMETO DE ALMEIDA
ESTADO DE SUSPENSÃO
BUROCRÁTICA:
uma etnografia sobre o processo de Requalificação Civil de
pessoas não-binárias no Rio de Janeiro
Monografia apresentada ao Departamento de
Antropologia do Instituto de Ciências Humanas e
Filosofia da Universidade Federal Fluminense
como requisito parcial à obtenção do título de
Bacharel em Antropologia
BANCA EXAMINADORA
Profª. Drª. Lucía Eilbaum (Orientadora) - UFF
______________________________________________________________
Profª. Draª – Fernanda da Escossia - UERJ
______________________________________________________________
Prof. Dr. Lucas de Magalhães Freire - UERJ
_______________________________________________________________
NITERÓI
2024
Agradecimentos
Durante minha trajetória acadêmica, fiquei muito atento aos encontros que a vida me
proporcionou. De início, demorei a me sentir pertencente e à altura do universo intelectual e
científico. No entanto, à medida que me arrisquei em matérias com nomes indecifráveis ou
cursos para desenvolver habilidades incipientes, fui surpreendido com pesquisas e
pesquisadores admiráveis, de um caráter unicamente humano. Por alguma razão, sempre ia
parar em núcleos que estudavam violência e conflito, sempre me perguntando o porquê do
universo querer tanto que eu me especializasse em conflito.
Esse questionamento me fez reparar e refletir sobre o tipo de pessoas dispostas a
estudar esse tipo de temática. Foi em uma aula da Ana Claudia Cruz sobre racismo que, eu e
minha bronca de adolescente recém-chegado na universidade, aprendi sobre a tensão que uma
mulher precisa travar para ser respeitada num universo guiado pela fraternidade masculina.
Foi ao reconhecer que, por trás da professora que exigia presença e tirava ponto por tudo,
existia uma força enorme sustentando sua presença naquele espaço. Não só passei a respeitar
profundamente a Ana, como ganhei seu cuidado e apreço. Agradeço muitíssimo a ela por,
durante o cenário apocalíptico da pandemia, ter acolhido minhas questões e me reorientado
com palavras afetuosas.
Outro nível de entendimento sobre administração de tensões foi o próprio desenrolar
sobre a minha noção de conflito. Foi nas aulas de Felipe Berocan, professor sensacional, que
ao abordar o pensamento alemão me trouxe a percepção do conflito não só como algo inerente
à sociedade, mas como construtor dela. É a partir da tensão e da alteridade que novos grupos
se criam e vínculos se fortalecem - ou se desfazem. No nosso caso, a tensão fortaleceu e
trouxe uma grande amizade e admiração.
Na mesma época, encontrei um pote de ouro, meu Babalorixá Léo Vieira.
Antropólogo, estudante de conflitos e fomentador de política pública para povo de terreiro,
compartilha comigo a grave questão de incontinência facial - não passa nada. Agradeço seus
conselhos, sua escuta, seu amor e acolhimento em todos os âmbitos da vida. Surefumí, babá.
A conclusão que tirei é de que os conflitos estão presentes em tudo que está em
relação, e foi com a minha mestra Tina Castro, que pude nomear esse talento e empuxo que
sinto em direção às pessoas. Ela revolucionou minha relação com conhecimento e me
explicou, pela linguagem dos astros, que independente de inseguranças, eu sei saber a beça.
Além disso, tive a sorte de ter a melhor orientadora possível. Quem diria que alguém
tão calma e tranquila poderia estudar assuntos tão dolorosos e revoltantes? Foi com a
sistematização e olhar simplificador das coisas que a Lucía orientou e tornou viável esse
trabalho. Sou profundamente grato pelas trocas e, principalmente, pela paciência. Me sinto
agraciado por trabalhar com uma pesquisadora profundamente inteligente e parceira que, além
de tudo, gosta das minhas piadas.
Portanto, a realização deste trabalho é fruto de muitas mãos, presenças e afetos.
Agradeço aos meus interlocutores e colegas de luta, que me abriram espaço para conhecer
suas vivências e resistências. À minha terapeuta, Alice, a maioral, por segurar todas as ondas
em quaisquer tempestades. À antropologia, que me abriu os olhos não só para o mundo, mas
para mim mesmo. Essa formação me atravessa e me compõe, mais do que como profissional,
mas como pessoa. Aos colegas de orientação pelas trocas e auxílios nos momentos de
desespero.
Sou grato à UFF, à bolsa do CNPq e ao Programa de Iniciação Científica da
Proppi/UFF, bem como ao INCT-Ineac, que viabilizaram este trabalho. À Justiça Itinerante,
Defensoria Pública e Fiocruz, assim como aos movimentos sociais como CoNB, ABRANB,
Encontro NB RJ, e a todes que constroem espaços de existência digna e tratam o afeto como
motor político.
Agradeço todos os mestres que me ajudaram a encarar meu medo da escrita, com
conselhos, comentários, escuta e incentivo. À professora Antônia Burke, que me ensinou que
saber escrever é saber pensar. À Débora Martins, que me suportou alguns semestres pedindo
para corrigir textos e sempre se manteve muito cuidadosa e solícita por acreditar em uma
construção coletiva de saber. Ao professor Edilson, que exerce sua vocação com excelência, e
me trouxe outra perspectiva sobre o fazer acadêmico. Agradeço pelas trocas em aula que
foram fundamentais na construção de um arcabouço e estofo teórico do presente trabalho.
Agradeço à minha família de sangue, que me protegeu, amou e sempre fez de tudo por
mim. Sem meu pai, que me convenceu a entrar pro curso de antropologia, eu não teria
encontrado a ciência que nasci pra fazer. Sem mamãe, não haveria espaço para respiro e a
autocobrança ia corroer minha mente. Sem minhas avós, faltariam elogios e palavras de
incentivo. Sem minha dinda, que é minha maior conselheira e amiga do mundo, faltaria…
tudo.
Às demais famílias que construí pela vida, agradeço Oli, meu ex-companheiro e
melhor amigo, que parou o que estava fazendo para fazer comentários e me auxiliar na feitura
desta pesquisa, você me inspira. À Clara Lima e sua disposição infinita de se doar a quem
você ama, agradeço as correções virginianas deste trabalho e as lambidas leoninas na minha
jubinha. À Clara Ramos, colega de profissão e uma grande parceira, disposta a abrir todas as
janelas e embarcar em todas as minhas viagens.
Bia Segatto, meu amor e consciência fora do corpo. Luca, quem me apoia e arrasa
junto comigo. Noah, minha amora mais doce do jardim. Anna Banana, que esteve comigo na
elaboração do trabalho que fundamenta essa pesquisa, sem palavras pra você - você já tem
todas elas. Ian, meu irmão de astrologia, antropologia e não-binariedade, que sigamos
compartilhando todas as ciências do bem viver juntes. Lara, minha irmã que está comigo por
onde eu vou. Marisa, minha calma e apoio para todas as horas. Vocês lançam amor para além
de fronteiras e estão comigo em todas as minhas conquistas.
À Maria Oliveira, agradeço o privilégio das trocas e a dedicação de compor com suas
percepções na lapidação deste trabalho. À Bibi Perez, seu apoio e incentivo me dão coragem
de ir além; nosso amor é garantido até a próxima encarnação.
Não posso deixar de agradecer meu grupo de amigas amadas, interioranas, lindas e tão
diferentes de mim. Sem minha família niteroiense, teria sido impossível sobreviver à
faculdade. Vitória Lorenzi, Gabi Pimenta, Brenda Lordello e Yasmin Tulasi, vocês são casa e
me inspiram, vocês me impulsionam a chegar mais longe, mas sempre com a certeza da pausa
pro cafézinho.
A lista é infinita porque sou cercado de pessoas excepcionais que me apoiam desde o
processo de formação até as apostas desta pesquisa. A entrega foi de corpo e alma, e os
resultados vão além da academia. O desejo era fazer um trabalho de conclusão de curso que
fizesse jus à minha trajetória na faculdade, e ele fez jus a tudo que a faculdade me
proporcionou: amizades, autoestima, e até um novo nome.
Como filho do dia primeiro de novembro, Dia de Todos os Santos, agradeço a todes
elus pela proteção. Agradeço ao meu pai Ogum, que me fez guerreiro e me reergue perante as
quedas. Finalizo essa etapa orgulhoso do caminho percorrido até aqui.
Obrigado a todes que acompanharam e apoiaram essa trajetória, amo e honro vocês.
“Pessoas ligadas entre si em grupos se esforçam em conformidade com o caráter e a posição
dos grupos a que pertencem para mudar o mundo em torno da natureza e da sociedade ou
tentar mantê-lo em uma determinada condição. É o sentido desta vontade de mudar ou de
manter, desta atividade coletiva, que produz o fio condutor para a emergência de seus
problemas, seus conceitos e suas formas de pensamento.”
(1936: 4) Mannheim, Karl (1936). Ideology or Utopia? London, Routeledge: Kegan and Paul
“querer outro mundo é algo que não se faz sem que se entre, também, em um processo de
invenção de si”
Coimbra, Cecilia. Fragmentos de Memórias Malditas (s.d.)
RESUMO
A partir do acompanhamento dos atendimentos e ações de requalificação civil
promovidos pela Justiça Itinerante do Rio de Janeiro, em parceria com o Núcleo de Defesa
dos Direitos Homoafetivos e Diversidade Sexual (Nudiversis), órgão da Defensoria Pública
do Estado do Rio de Janeiro, o presente trabalho pretende analisar as mobilizações sociais,
políticas e institucionais no âmbito da garantia de direitos e cidadania para a população não-
binária. Com um recorte transepistemológico, busco evidenciar as especificidades jurídicas
desses processos, analisando os avanços e retrocessos na luta por reconhecimento social e
jurídico dessa população. A partir da análise teórico-etnográfica, defendo a tese de que os
processos de requalificação civil podem ser compreendidos como ritos de passagem, em que
as pessoas não-binárias ocupam uma posição de "persona liminar" (Turner, 1967), sendo
abjetas pela estrutura política binária vigente e mantidas em condições intraestruturais de
suspensão. Além disso, pretende-se contribuir para o debate sobre o desenvolvimento de
políticas públicas voltadas às pessoas não-binárias no Brasil, explorando também o impacto
ontológico que o reconhecimento dessas identidades acarreta ao ordenamento jurídico
brasileiro, historicamente fundamentado em um sistema colonial, patriarcal e binário.
Palavras-chave: Requalificação civil; Não-binariedade; Direitos trans; Rito de Passagem;
Burocracia
ABSTRACT
Drawing on an analysis of services for civil status rectification provided by the Justiça
Itinerante (Itinerant Court) of Rio de Janeiro, in partnership with the Núcleo de Defesa dos
Direitos Homoafetivos e Diversidade Sexual – Nudiversis (Center for the Defense of
Homoaffective Rights and Sexual Diversity), an agency of the Public Defender’s Office of the
State of Rio de Janeiro, this study examines the social, political, and institutional
mobilizations aimed at securing rights and civic participation for non-binary individuals.
Adopting a trans-epistemological approach, this work highlights the legal specificities of
these processes and assesses both the progress and setbacks in the struggle for social and legal
recognition of this population. Through a theoretical-ethnographic analysis, I argue that civil
status readjustment processes function as rites of passage, in which non-binary individuals
assume a "liminal" status (Turner, 1967), marginalized by the prevailing binary political
structure and held in a state of suspension. Furthermore, this study seeks to contribute to
discussions on the development of public policies for non-binary people in Brazil, while also
exploring the ontological impact of recognizing these identities within the Brazilian legal
system—historically rooted in a colonial, patriarchal, and binary framework.
Keywords: civil status readjustment; non-binary; trans rights ; rite of passage; bureaucracy
Sumário
Introdução.......................................................................................................................................................
Capítulo 1: Apresentação dos temas.......................................................................................................
1.1 A não-binaridade como desobediência de gênero...........................................................................
1.2 A requalificação civil: identidade e documentos............................................................................
1.3 Retificação x Ratificação x Requalificação - o papel da documentação para a
construção subjetiva e legitimação material da própria vida................................................................
Capítulo 2: Cronologia política do direito à requalificação civil..........................................................
2.1 O que se tem até agora sobre esse direito e como se chegou..........................................................
2.2 Via judicial X Via administrativa - Entraves do sistema................................................................
2.3 A Reivindicação da Não-Binaridade e sua Relação com a Estrutura Política................................
2.4 O campo sexo nos documentos e sua relevância............................................................................
Capítulo 3: A prática no Rio de Janeiro: narrativas do campo...........................................................
3.1 O mutirão e o trabalho de campo: atores, procedimentos e desafios..............................................
3.2 Como se dá a requalificação civil na prática: O cansaço invisível.................................................
3.3 Trabalho de campo: Produzindo no campo e para o campo...........................................................
3.4 O Processo de Requalificação Civil como Rito de Passagem........................................................
Conclusão...................................................................................................................................................
Referências Bibliográficas........................................................................................................................
Introdução
“Meu primeiro contato com a transgeneridade não se mostrou esclarecedor ou libertador, pois
me trouxe uma definição problemática e datada do que ela é. O amplamente difundido conceito
patológico de que pessoas trans nasceram no corpo errado nada me despertou além de confusão
e incômodo. Finalmente, aos 20 anos, após me aprofundar nos debates de gênero, me envolver
com a comunidade trans e compreender de fato o que é a transgeneridade, sei que ela não se
baseia no auto-ódio, mas sim no extremo oposto disso. A identidade trans, na qual está inclusa
a não-binária1, se baseia na autonomia e na liberdade, na possibilidade de delinearmos nossas
formas físicas e mentais com nossos próprios moldes. Ela nos livra de pré-suposições que a
sociedade possa nos obrigar a ter sobre nós mesmes e dá a possibilidade de nos reconstruirmos,
pautando nossas escolhas em quem realmente somos. Ela se baseia na autoaceitação, não no
contrário.”
Esse é um dos trechos da minha carta de “Apresentação do caso” para participar da
primeira ação de gênero neutro promovida pela Justiça Itinerante 2. Em 2021, quando passei a
me reconhecer como uma pessoa trans, tudo aconteceu muito rápido. A urgência de um novo
nome, e a garantia de que essa identidade fosse respeitada, fez com que eu buscasse proteção
jurídica. Sem um documento que oficializasse esse novo reconhecimento seria impossível as
pessoas à minha volta levarem a sério essa mudança. Fui informado, me falha a memória por
quem, sobre o serviço prestado gratuitamente pela Defensoria Pública e entrei em contato por
um número de WhatsApp disponibilizado no perfil de uma rede social do Nudiversis na
época.
Por uma sorte divina, ou pelo privilégio de entender minimamente os processos
burocráticos aos quais estava me submetendo, consegui rapidamente minha documentação
atualizada - ou pelo menos uma parte dela. Em apenas dez dias consegui minha nova certidão
de nascimento e a de inteiro teor - aquela que documenta toda e qualquer alteração feita em
documentos originais. Logo agendei com o Detran a segunda via da identidade e fui
impactado pelas contradições dos sistemas de registro civil. Lá me explicaram que, mesmo
1 Não há consenso sobre a não-binariedade se incluir ou não na categoria trans, porém, de modo geral, as
demandas sobre essas identidades estão inseridos na agenda transgênero. Para mais entendimento sobre esse
debate, ler: HARTEMANN, Gabby. Nem ela, nem ele: Por uma arqueologia (trans*) além do binário. Revista
de Arqueologia Pública: Revista eletrônica do Laboratório de Arqueologia Pública de Unicamp, v. 13, n. 1, p.
99-115, 2019.
2A ação não beneficiou apenas pessoas não-binárias, mas foi a primeira que permitiu uma requalificação em
massa para o “terceiro gênero”. Acesso: [Link]
[Link]
constando na minha certidão “sexo não-binárie”, não houve uma atualização para registrar
aquela opção. As possibilidades que tive foram de alterar para masculino - e ter que tirar
certificado de reservista3 - ou manter o sexo feminino. Naquele momento compreendi o meu
não-lugar. Me tornei um ser liminóide (Turner, 2005) com o compromisso de abrir caminho
para aqueles que não se encaixam nos polos da estrutura binária de divisão sexual.
Quando participei do mutirão de requalificação civil, havia poucas referências às quais
eu pudesse recorrer, tanto no sentido teórico-acadêmico quanto no sentido jurídico. Com o
passar dos anos, pude perceber essa pauta tomando forma e força, e nossos direitos avançarem
mediante muita luta e articulação política. Diante desse cenário, este trabalho nasceu da
necessidade de explorar as bases teóricas e os marcos jurídicos que fundamentam os
processos de requalificação civil no Brasil, especialmente no que diz respeito às demandas
específicas das pessoas não-binárias, seus acessos e dificuldades ao exercício de cidadania,
assim como às mobilizações por políticas públicas efetivas voltadas a essa comunidade.
A pesquisa foi conduzida com base no trabalho de campo realizado na Justiça
Itinerante do Rio de Janeiro, durante o ano de 2024, onde acompanhei atendimentos de
retificação de registro civil de pessoas trans/não-binárias. Entrevistei juízes, defensores
públicos, técnicos de justiça, ativistas e pessoas que buscavam esse serviço. O trabalho foi
desenvolvido a partir de uma abordagem etnográfica, com ênfase na cronologia do
aprendizado em campo, observando como os saberes e as práticas se constroem e se
transformam, apresentando não apenas o ponto de vista jurídico, mas também as experiências
vividas por aqueles/as/us que atravessam esse sistema e as dificuldades burocráticas
enfrentadas.
Além disso, por conta do meu envolvimento com o campo e participação ativa em
coletivos de articulação política não-binárie, meu trabalho resultou em um mutirão de
requalificação que beneficiou 27 pessoas que desejavam alterar nome e/ou gênero. Pude
acompanhar “todo”4 o processo, desde a documentação inicial até o desenrolar dos demais
procedimentos de atualização em sistemas públicos e privados. Atualmente, eu e
companheires de luta, embaixadores do CoNB RJ 5, mantemos contato com as pessoas
3 Documento expedido pelo Ministério da Defesa aos jovens do sexo masculino de 18 anos que se alistam às
Forças Armadas.
4 A noção de totalidade diante o processo de requalificação civil de pessoas não-binárias é limitada por não
parecer ter de fato uma finalização. Por isso, no desenrolar do texto, relaciono o ato de requalificação civil como
um rito de passagem no qual o ator do ritual permanece no estágio liminar, em um estado de iminente suspensão.
5 Coletive Não-Binárie do Rio de Janeiro.
atendidas via canais no Whatsapp, oferecendo auxílio e encaminhamento de questões
burocráticas e, sobretudo, acolhimento e apoio em suas trajetórias.
Para isso, essa monografia foi organizada da seguinte maneira: no primeiro capítulo,
apresento as discussões que cercam meu objeto de análise. No tópico 1.1, busco dar os
contornos sobre o grupo estudado, trazendo uma definição para a não-binariedade partindo da
diferenciação entre sexo biológico e identidade de gênero. Pautado na primazia da diferença
sexual, o ordenamento jurídico brasileiro ainda trata sexo e gênero como sinônimos, ainda que
reconheça o direito a autodeterminação de pessoas transgênero. Nesse contexto, defendo que
a não-binariedade emerge como uma reivindicação epistemológica desse sistema político. No
tópico seguinte, 1.2, discuto brevemente o direito à requalificação civil, apresentando um
panorama deste processo antes do provimento que regularizou esse direito às pessoas trans em
2018, e como se faz no caso de pessoas não-binárias. Para fechar o capítulo, no 1.3, partindo
das ideias de Peirano (2006), trago uma situação etnográfica para fundamentar o argumento
da documentação para além de uma formalidade, mas uma forma de reconhecimento e
legitimação da existência em sociedade. No fim, trago a discussão entre os usos das palavras
retificação, requalificação e ratificação no contexto da requalificação civil, analisando como
essas escolhas linguísticas refletem as dinâmicas políticas e identitárias envolvidas nesse
processo.
No segundo capítulo, abordo a cronologia política do direito à requalificação civil,
assim como seus desdobramentos nos casos de pessoas não-binárias. No tópico 2.1, apresento
as normativas que possibilitaram o acesso à requalificação diretamente em cartórios,
explorando os fundamentos jurídicos dessas decisões. Em seguida, discuto as dificuldades
enfrentadas por pessoas não-binárias por não serem incorporadas nestas decisões, e os
primeiros casos de averbação “nb” pelo Brasil. Por fim, destaco a defasagem nos dados
oficiais devido à subnotificação desses processos, o que dificulta uma mensuração precisa da
sua abrangência. No tópico seguinte, 2.2, apresento as vias de acesso ao serviço, divididas
entre a esfera administrativa e a via judicial. Com um caso etnográfico, analiso as exigências,
limitações e desafios de cada modalidade. No 2.3, apresento a ausência de reconhecimento
jurídico para pessoas não-binárias e os impactos práticos dessa invisibilização, destacando
como a estrutura binária dos documentos oficiais e do sistema legal brasileiro restringe a
existência social dessas identidades. Finalmente, no 2.4, sugiro algumas discussões sobre a
presença do campo “sexo” nos documentos de identificação civil, questionando sua relevância
e as implicações para as pessoas não-binárias.
No capítulo 3, apresento minha imersão no campo de pesquisa e a conexão construída
com os atores responsáveis pelo processo de requalificação no Rio de Janeiro. No tópico 3.1,
introduzo as funções desempenhadas por esses atores, além de mencionar os procedimentos
necessários e os desafios envolvidos na requalificação civil. Com uma abordagem
cronológica, busco evidenciar como as relações estabelecidas em campo me conduziram não
apenas ao universo da militância, mas também a me engajar na organização de um mutirão
que resultou na retificação dos documentos de 27 pessoas não-binárias. No 3.2 trago as
especificidades testemunhadas em campo dos processos de requalificação, além de trazer
exemplos da minha própria experiência. No próximo tópico, o 3.3, conto sobre minha
experiência de trabalho em campo, onde fui posto por um juiz para registrar casos de
requalificação, tendo acesso a todos os documentos e dados das pessoas assistidas, além de
um login próprio na plataforma. Ao longo do texto, também aprofundo mais sobre a
experiência de organizar um mutirão, e a participação ativa no nascimento de um coletivo de
pessoas não-binárias do Rio. Por último, e não menos importante, me debruço sobre as teorias
de Turner (2006), traçando um paralelo entre o processo de requalificação civil e sua teoria
sobre ritos de passagem. Neste tópico defendo a condição jurídica-social de pessoas não-
binárias como um estado de liminaridade, marcado pela ambiguidade e invisibilidade, onde a
falta de reconhecimento legal as mantém em uma posição intraestrutural entre categorias fixas
de gênero.
Ao todo, essa pesquisa teve como propósito investigar as interseções entre cidadania,
reconhecimento social e jurídico, e contribuir para o avanço do debate acerca da
regulamentação e regularização da situação de pessoas não-binárias no país.
Capítulo 1: Apresentação dos temas
1.1 A não-binaridade como desobediência de gênero
Antes de mais nada, é preciso compreender a diferença entre sexo biológico e
identidade de gênero. O sexo biológico é atribuído ao nascimento com base em características
sexuais, primárias ou secundárias, sendo classificado entre endosexo 6 ou intersexo7,
tipicamente identificado à nascença por médicos com base nos genitais. Atribuída a uma
natureza biológica, a primazia da diferença sexual está cunhada em inovações científicas,
6 Pessoas com características sexuais que se adequam às noções típicas de masculino ou feminino.
7 Pessoas com características sexuais que não se adequam às noções típicas de masculino ou feminino.
enunciando um regime de verdades pautado na dessemelhança sexual (Alvim, Mação,
Rodrigues, 2021).
Já a identidade de gênero é como cada pessoa se percebe e se identifica no espectro de
gênero, podendo ou não estar alinhada ao sexo biológico designado no nascimento. Ainda
assim, por mais que essa seja uma discriminação teórica a respeito de conceitos mobilizados
para diferenciar características fisiológicas daquelas que são construídas socialmente, no
cotidiano do brasileiro médio, e para o ordenamento jurídico do país, as duas resguardam uma
relação conjuntiva. Os efeitos dessa indiferenciação acarretam uma ideologia de gênero
biologizante, cissexista e binária.
A não-binaridade (nb) entra na equação como uma reivindicação epistemológica do
nosso sistema político (Andrade, 2023). Sendo um termo guarda-chuva que engloba diversas
identidades de gênero — como agênero, gênero fluido, bigênero, genderqueer, entre outras
(Santos, 2023) —, essa pluralidade desafia a normatividade produzindo e evidenciando
experiências específicas de gênero formuladas por aquelas/es/us que se identificam dessa
forma (Caetano, 2023).
Enquanto a ideologia de gênero vigente reduz pessoas a genitálias – muitas vezes não
identificadas de acordo com sua “real natureza” 8 – e reforça papéis sociais dualistas, onde um
conjunto de símbolos, comportamentos e normas é permitido e o outro é automaticamente
proibido, há indivíduos reivindicando sua complexidade e especificidade existencial. Essa
reivindicação, que se estende desde o nível celular até o nível subjetivo, representa uma
recusa explícita a papeis sociais impostos desde o nascimento. A não-binariedade se manifesta
como uma afirmação da singularidade de cada ser, desafiando narrativas reducionistas e
promovendo uma compreensão sobre a multiplicidade e autonomia de autodeterminação de
cada indivíduo.
O entendimento do gênero como uma construção sociocultural, e não como um fator
ontológico da humanidade, desnaturaliza as categorias mobilizadas pelo ocidente para
organizar as relações humanas. A intelectual nigeriana Oyěwùmí (2004) argumenta que as
concepções de raça e gênero foram moldadas e disseminadas a partir da era moderna,
produzidas e atualizadas ao longo do tempo por epistemologias euro-americanas, coloniais e
8 Casos de pessoas intersexuais que não tem seus sexos definidos por negligência dos procedimentos médicos de
identificação do sexo biológico dos fetos – muitas vezes limitados à morfologia percebida à olho nu em exames
de ultrassom- são recorrentes. SPINOLA-CASTRO, A.M. A importância dos aspectos éticos e psicológicos na
abordagem do intersexo. São Paulo, Scielo Brasil, 2004. Disponível em:
[Link] Acesso: 10/11/2023
imperialistas, produzindo divisões hierárquicas que classificam os corpos e suas práticas.
Essa perspectiva crítica transcende a percepção essencialista de gênero, enraizada pelo
universalismo ocidental, para pensá-lo como dispositivo de controle social que, segundo
Butler (2018), opera por meio da repetição de performances dentro de estruturas reguladoras
rígidas, criando a ilusão de uma substância ou essência natural.
No contexto brasileiro, o sistema de divisão sexual (Preciado, 2022) foi um dos
dispositivos disciplinares de estruturação da sociedade colonial, importado da Europa e
sobreposto às demais culturas existentes. No intuito de dominação e perpetuação de opressões
que posicionaram os sujeitos cisgêneros, heterossexuais e brancos como normativos e
superiores, os corpos dissidentes foram categorizados como ferramentas de exploração
(Santos, 2023). Como defende Oyèrónkẹ́ (2004), gênero é o princípio organizador da família
— branca e europeia — e a distinção de gênero é a fonte primária da hierarquia e opressão.
Dessa forma, o conceito de cisheterocolonialidade é articulado pelo movimento não-binário
para mapear a normatização binarista imposta pelo regime colonial no processo constituição
do país.
Autores como Núñez (2023) defendem que os sistemas de poder e hierarquia entre
raça e gênero vão muito além de aspectos genéticos e fenotípicos. A posição que os corpos
ocupam no mundo é permeada por uma ideologia de monoculturas da fé (Núñez, 2023), que
atua como uma atualização das dinâmicas coloniais, perpetuando a violação da singularidade
e a redução da multiplicidade dos seres em apenas uma forma legítima de existir.
Ao questionar e reestruturar as bases dessas lógicas, a transgeneridade subverte os
valores heterociscoloniais ao desbinarizar a relação sexo-corpo. Nesse sentido, a não-
binariedade emerge como uma reivindicação política que desafia as estruturas hegemônicas e
propõe uma nova linguagem e um novo olhar sobre os direitos e identidades de gênero.
Sob uma ótica contra-colonial (Bispo, 2023), pretendo apresentar como o
ordenamento jurídico brasileiro ainda se pauta em modelos de hierarquias coloniais e
patriarcais, ao separar categoricamente a população entre homem (masculino) e mulher
(feminino). A partir dessa perspectiva, apresento a experiência prática resultante do meu
trabalho de campo, além da minha própria trajetória como pessoa não-binária, que não
encontra espaço definitivo em um sistema legal e jurídico fundamentado pelo paradigma da
cisheterocolonialidade.
1.2 A requalificação civil: identidade e documentos
Até o ano de 2017, para uma pessoa trans ter sua identidade reconhecida no sistema
legal brasileiro, era necessário entrar com uma ação na justiça, apresentar laudos médicos,
psiquiátricos, psicológicos e passar por diversas intervenções cirúrgicas – não
necessariamente desejadas pela pessoa – para ser “comprovada” a necessidade da mudança 9.
Tais procedimentos, além de denunciarem um sistema jurídico-social que historicamente
patologiza identidades trans, impõem ônus violentos a esses indivíduos para que se
enquadrem em atribuições cis-heterossexual normativas de gênero.
Nos anos que se seguiram, a situação do reconhecimento jurídico da população trans
avançou, mas permaneceu distante de ser a ideal. Atualmente, segundo a Arpen-Brasil 10,
pessoas trans “binárias”11 já tem seu direito garantido de retificar seus documentos
diretamente em cartórios, sem a necessidade de cirurgias de redesignação sexual ou entrada
com ação judicial. Esse avanço jurídico representa o reconhecimento da autodeterminação
como uma das bases fundamentais do exercício cidadão. Contudo, o acesso a essa política
ainda apresenta desafios, como o valor para a emissão das certidões e a quantidade de
documentos necessários para iniciar o pedido de requalificação.
No estado do Rio de Janeiro, o Núcleo de Defesa dos Direitos Homoafetivos e
Diversidade Sexual (Nudiversis) da Defensoria Pública auxilia as pessoas trans que tiveram
suas tentativas frustradas pela via administrativa para retificar seus documentos. Segundo o
coordenador do núcleo, em entrevista para essa pesquisa, a judicialização acaba sendo uma
alternativa mais simples e viável do que reunir todas as certidões exigidas pelos cartórios. A
defensoria encaminha os pedidos de ações judiciais e, em parceria com a Justiça Itinerante
9 O trabalho de maior relevância acerca do processo de requalificação civil pré-provimento 73/2018 é o de
Lucas Feire (2016): Sujeitos de papel: sobre a materialização de pessoas transexuais e a regulação de acesso a
direitos, Cadernos Pagu (48). Realizado também no Núcleo LGBTQIAP+ da Defensoria Pública, seu trabalho
serviu de referência para esta pesquisa. Para compreender melhor como se davam as ações, acessar:
[Link]
10 Associação dos Registradores de Pessoas Naturais. Informação encontrada em: “Decisões do STJ foram
marco inicial de novas regras sobre alteração no registro civil de transgêneros”. Superior Tribunal de Justiça,
Brasília, 2023. Disponível em: [Link]
2023/29012023-Decisoes-do-STJ-foram-marco-inicial-de-novas-regras-sobre-alteracao-no-registro-civil-de-
[Link]#:~:text=Segundo%20a%20Associa%C3%A7%C3%A3o%20dos%20Registradores,registro
%20o%20nascimento%20da%20pessoa Acesso em: 09 nov.2023
11 O termo é utilizado para se referir a pessoas trans que se identificam com a identidade oposta no espectro de
gênero a que lhe foi atribuída no nascimento. Utilizo as aspas por considerar uma incongruência etimológica,
teórica e prática, que, entretanto, não cabe discutir neste trabalho.
(JI), viabiliza a emissão de sentenças que substituem os documentos adicionais exigidos pelo
Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Quando se trata de pessoas não-binárias, o processo é ainda mais complicado. Por não
se identificarem com nenhum dos gêneros existentes no sistema jurídico, o indivíduo precisa
reclamar uma medida judicial para, assim, demandar a categorização de um gênero que seja
“neutro”. No contexto carioca, a sentença emitida pela Justiça Itinerante para esse tipo de
demanda é composta por três páginas de fundamentos fatídicos12 e ainda depende de um
panorama jurisprudencial13 para validar o direito à autodeterminação de pessoas fora do
espectro binário. Ainda assim, o atendimento da defensoria segue sendo a via mais fácil de
acesso, por garantir gratuidade no serviço.
O primeiro caso de averbação da não-binariedade em documentos ocorreu em 2020,
onde foi autorizado o registro de “sexo não especificado” na certidão de nascimento de Aoi
Berriel. A solicitação foi feita pela Defensoria Pública do estado e autorizada pelo Juiz
Antônio da Rocha Lourenço Neto, da 1ª Vara de Família da Ilha do Governador. É descrito na
sentença que “o direito não pode permitir que a dignidade da pessoa humana agênero seja
violada sempre que o mesmo ostentar documentos que não condizem com a sua realidade
física e psíquica” 14. Essa decisão inaugurou uma sequência de deliberações que reconhecem
novos marcadores de sexo em documentos oficiais.
Por mais que o direito seja reconhecido para pessoas trans, há uma limitação incutida
no paradigma que sustenta o ordenamento jurídico: o regime da diferença sexual. Para
Preciado (2023), este regime se configura como uma “epistemologia política do corpo”, que
tampouco serve para representar a realidade, mas busca produzir e legitimar uma ordem
política e econômica patriarcal e heterocolonial (Preciado, 2023). Dessa forma, os empecilhos
epistemológicos que o reconhecimento da diversidade de gênero traz ao paradigma vigente do
ordenamento jurídico brasileiro faz com que este encontre soluções provisórias que deixam
esse segmento da população em uma posição de vulnerabilidade.
12 São os elementos factuais do caso que servem de sustentação para a decisão judicial, determinantes para a
análise do/a/e juiz/a/e.
13 A jurisprudência serve de referência para julgamentos de casos que ainda não possuem legislação específica,
utilizando decisões de demais tribunais para verificar uma tendência ou base legal que sustente ou valide uma
decisão.
14 “Em decisão inédita no Rio, Justiça autoriza que pessoa não-binária tenha documento com a inscrição ‘sexo
não especificado” Disponível em: [Link]
tenha-documento-com-inscricao-sexo-nao-especificado-24650004
Sem uma regulamentação específica para a federação inteira, a requalificação de
pessoas não-binárias fica à mercê dos critérios de cada tribunal, bem como das políticas ou
iniciativas de cada estado. Tornando a alteração, em muitos casos, inócua, pois a preservação
da identidade é ferida pelos demais sistemas de identificação civil, que não reconhecem
marcadores de gênero fora do espectro binário.
1.3 Retificação x Ratificação x Requalificação - o papel da documentação para a
construção subjetiva e legitimação material da própria vida
“É como se sem a documentação eu não existisse.” (Jake (sobrenome?), 2024,
Fiocruz)
Jake15 é morador de Petrópolis, uma pessoa negra e trabalha no castelo de Itaipava.
Quando perguntei sobre a relevância da alteração de seus documentos para sua vida prática,
elu me explicou que sem a documentação adequada, sua identidade é frequentemente
deslegitimada por outros: “No seu RG não diz que esse é seu nome, nem seu gênero.” A
afirmação ecoa não apenas como uma violência, mas como uma síntese das vivências de
pessoas não-binárias que buscam na requalificação civil uma forma de se proteger. Mais do
que um registro burocrático, os documentos assumem o papel de produtores de realidades
sociais e ocupam uma posição intransponível na reivindicação da existência de minorias
políticas. Eles reconhecem presenças e, sobretudo, determinam quem é visível aos olhos do
Estado.
Neste subcapítulo, parto das ideias de 1) Peirano (2006), para analisar o papel do
documento para a construção subjetiva e material da vida em sociedade. Em seguida, busco
explorar os sentidos que os interlocutores atribuem ao documento, considerando como ele vai
além de uma mera formalidade jurídica para se tornar uma forma de reconhecimento e
legitimação da existência social. Também apresento a ênfase dada à alteração do nome civil,
atribuída pelos interlocutores, como uma ferramenta prática de reconhecimento político e
validação pessoal. Por fim, discuto os diferentes usos das palavras retificação, requalificação
e ratificação no contexto da requalificação civil, analisando como essas escolhas linguísticas
refletem as dinâmicas políticas e identitárias envolvidas nesse processo.
15 Para me referir aos interlocutores que solicitaram anonimato, ou apenas não consegui ter contato para
autorizar o uso de seus nomes reais, optei por utilizar nomes fictícios, respeitando, contudo, os pronomes de
preferência informados por cada pessoa. Em alguns casos, o uso de pronomes pode variar, seja porque a pessoa
não expressou uma preferência específica, seja porque manifestou conforto com o uso de mais de um pronome.
Essa flexibilidade é uma característica presente na comunidade não-binária, onde os pronomes podem ser usados
como uma ferramenta para afirmar identidades e desconstruir normas linguísticas de gênero.
Pensar sobre documentos é pensar a história da construção de um Estado-nação que,
no caso brasileiro, foi estabelecido de forma vertical e centralizadora, sem mobilização
popular ou unificação identitária de um povo. A relação que a população tem com o próprio
exercício cidadão se dá de forma hierárquica, mediada por documentos, legitimados pelo
próprio Estado, no contexto de uma tradição fortemente cartorial pautada pela fé pública, ou
seja, a presunção de verdade outorgada aos documentos produzidos pelo Estado (Kant de
Lima, 2010; Eilbaum, 2008). Os documentos não apenas regulamentam a cidadania, mas
também estruturam a relação entre indivíduo e poder público, criando uma dinâmica onde o
reconhecimento é condicionado e unilateral: eles fazem o cidadão. Sob a perspectiva de
Peirano (2006), reconheço que a emissão e o uso de documentos não apenas refletem
realidades sociais, mas as produzem ativamente. Para a autora, os documentos são marcos
obrigatórios na inserção do indivíduo na coletividade representada pelo Estado, conferindo-
lhe direitos, deveres e uma identidade singularizada (Peirano, 2006).
Inspirando-se na teoria semiótica de Charles S. Peirce (1955), Peirano (2006) analisa
os documentos como representações que conectam os traços que singularizam o indivíduo a
uma coletividade pertencente ao mesmo território, em que os critérios para definir as
informações relevantes para designar esse cidadão são determinados por órgãos públicos
(Peirano, 2006, p.35). Essa conexão é realizada por meio de uma relação de secondness16, isto
é, uma vinculação direta e reativa entre o documento e a pessoa que ele representa. Para
Peirano (2006), a eficácia dos documentos reside justamente na sua capacidade de atestar a
singularidade do indivíduo por meio de signos indéxicos, como a fotografia, a impressão
digital e a assinatura, enquanto simultaneamente o insere dentro de um repertório legal e
jurídico do Estado, composto por dados referenciais como nome, filiação e data de
nascimento. Ou seja, no processo de descrever quem é esse indivíduo, ele também é
construído, para tornar-se único (Peirano, 2006). Por sua parte, Ferreira (2015) afirma que os
documentos:
Não são artefatos estéreis e autocontidos, e sim objetos materiais do
direito, da administração e da governança, dotados de múltiplas
capacidades (Navaro-Yashin, 2007, p. 95), e, por isso mesmo,
acionados segundo parâmetros não apenas formais, mas também
morais. (Ferreira, 2015, p.228)
16 O tipo de signo “secondness” a que Peirano se refere são aqueles referentes ao seu objeto “não por
similaridade ou analogia, mas em razão de uma conexão dinâmica entre o objeto individual e os sentidos ou
memória da pessoa de quem ele é signo” (Peirano, 2006, p 35).
Apesar das tentativas do Estado de manter uma identificação racional e impessoal, não
é possível controlar completamente a força social e simbólica que os documentos carregam
para os cidadãos. O caráter autoritário da administração governamental brasileira coloca o
poder público como integrador da nação e mediador de identidades, criando um canal de
participação desigual para os cidadãos, que se veem isolados e à mercê das exigências do
sistema burocrático estatal. A obrigatoriedade do documento carrega em si o revés de
despossuir ou negar o reconhecimento social àqueles que não o possuem (Peirano, 2006),
sendo o elemento fundamental que garante o direito à cidadania, às políticas públicas, ao
emprego, à moradia, etc. Assim, o sentido atribuído aos documentos é o de pertencimento a
uma coletividade partilhada, onde aquilo que se é passa a ser atestado e validado por uma
entidade superior, o que possibilita o “encurtamento de certas discussões”, pois há uma
legitimidade automática à identidade do portador. Nas palavras do interlocutor Gau, “o
documento fala por mim quando eu fico com medo de me colocar”.
O que pude observar é que, para as pessoas trans, os documentos com nome e gênero
antigos são tratados com certo desleixo e negação, ao ponto de quase se desmancharem nas
mãos. No entanto, após a retificação, a relação vira outra. Para Gau, a nova documentação é a
oportunidade de mostrar com orgulho, pela primeira vez, sua identidade. Essa mudança não é
apenas simbólica: ela transforma relações sociais e afirma o lugar do indivíduo dentro do
corpo social. Para a interlocutora Angel, essa mudança é uma forma de dizer: “isso aqui é
sério, pessoas como eu existem.”.
No que tange às demandas das pessoas não-binárias, percebi uma ênfase maior
atribuída à mudança do nome de registro. Um dos meus interlocutores reflete sobre como o
nome é central para a existência, onde a imposição de um nome que não corresponde à sua
identidade é vista como uma violência simbólica e prática. Hoje, o direito ao nome social, isto
é, a incorporação do nome utilizado socialmente pela pessoa trans à identidade oficial, é uma
conquista que se insere em um contexto de lutas travadas pelo movimento travesti e
transexual17. Essas batalhas pavimentaram o caminho para o reconhecimento legal de
identidades trans/não-binárias. Ainda assim, o nome social é mantido ao lado do nome civil,
tendo uma aplicabilidade falha no sentido de garantir o direito ao nome dessas pessoas.
17 Sobre a normativa que consolidou o direito a nome social em documentos: “Você sabia que pessoas trans e
travestis têm direito a serem tratadas pelo nome social?” Acesso em:
[Link]
travestis-tem-direito-a-serem-tratadas-pelo-nome-social
Existem muitos testemunhos de transfobia institucional que não respeitam o nome social,
fazendo a demanda por alteração do nome civil urgente para essa comunidade.
Embora a alteração do campo “sexo” também seja relevante, alguns interlocutores
destacaram que essa modificação tem um caráter mais “político”, voltado à representatividade
não-binárie. Para Angel e Max, a presença do marcador não-binário no registro civil é
entendida como um ato político e educativo. Esse marcador desafia a cisnormatividade e
funciona como um argumento que legitima suas existências, além de abrir espaço para outras
pessoas não-binárias. Na lógica dos movimentos sociais, mais visibilidade implica mais
direitos para a comunidade. Por outro lado, a questão do nome de registro assume uma
dimensão mais imediata e prática, refletindo diretamente na vivência cotidiana. Em muitos
casos, o medo desencadeado pela exposição do nome morto em transferências bancárias, por
exemplo, as obrigava a mentir e dizer que aquela conta era de algum parente.
Um dos pontos sensíveis dessa discussão foi a criação da CIN: nova Carteira de
Identidade Nacional, que tem como objetivo a integração do Registro Geral (RG) com o
Cadastro de Pessoa Física (CPF). A unificação desses dados objetiva um reconhecimento em
tempo real para todos os órgãos de identificação nacional, para reduzir fraudes e combater a
fragmentação dos sistemas de identificação civil. Segundo o site do governo, a CIN possibilita
“que diferentes áreas do governo atuem de modo integrado para atender as necessidades dos
cidadãos18.”
Em maio de 2023, o Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI)
anunciou mudanças no novo RG (a CIN), incluindo a unificação do campo “nome”, que
eliminaria a distinção entre nome civil e nome social, e a exclusão do campo “sexo”. Essa
indistinção de nome é essencial para minimizar o sofrimento e evitar gatilhos emocionais,
visto que o nome de batismo é, muitas vezes, representante de um enclausuramento psíquico.
No entanto, a medida foi revertida, mantendo o formato anterior, proposto pelo ex-governo de
Jair Bolsonaro, com campos separados: o “nome social” aparece em letras menores, abaixo do
“nome de registro”, e o campo “sexo” permanece. Para pessoas trans que já retificaram seus
documentos, na teoria, o campo “sexo” não apresentaria um problema. No entanto, quando
emiti minha CIN, esperava que constasse a sigla “NB”, já que minha certidão de nascimento
registra ‘sexo: não-binárie’ e o sistema do DETRAN já reconhece demais identidades de
18“Carteira de Identidade Nacional CIN”. Acesso em:
[Link]
carteira-de-identidade-nacional-cin-1/carteira-de-identidade-nacional-cin
gênero. Todavia, pessoas dissidentes do sistema binário são identificadas pela CIN com a letra
“X”, seguindo o modelo internacional que indica um sexo “não-identificado”.
Esse recuo por parte do governo aponta a manutenção dessas categorias como uma
perpetuação de violências contra pessoas trans/não-binárias, expondo-as a humilhações e
discriminações em um país que lidera os índices de assassinatos dessa população 19. Trata-se
da reafirmação de um não-lugar, que persiste a despeito dos avanços conquistados pela
comunidade. Um dos meus interlocutores, que já utilizava o nome social em sua identidade
durante o processo de requalificação, comentou: “A nova identidade, não sei se você viu, o
nome é minúsculo, então não dá pra ver a assinatura nem nada. A galera só vê o primeiro
nome (de registro/nome morto) e continua (se referindo a pessoa com o nome errado) tipo
foda-se”.
Compreendendo que o nome registrado em documentos oficiais é frequentemente
priorizado em relação ao nome pelo qual a própria pessoa se apresenta, a alteração nesses
registros torna-se uma forma material de afirmar a identidade e o reconhecimento social
daquilo que se é. A retificação é descrita como um rompimento com o que a sociedade espera,
representada pelo nome e gênero designados ao nascimento, e também uma proteção para a
vida burocrática que depende de cadastros, logins, contas bancárias, folhas de pagamento e
diplomas universitários. Muitas pessoas trans relatam experiências de medo e desconforto em
situações cotidianas envolvendo a apresentação de documentos. Gau narra o significado
prático da retificação do documento:
Quando eu mudei do Rio e fui para uma cidade que ninguém me conhecia, todo
mundo me conheceu e conhece até hoje pelo meu nome. Só que tinha uma parada,
era uma cidade pequena, as pessoas não sabiam direito o que eram pessoas trans…
Enfim, no geral, eu vivia um medo constante de quando fosse tirar meu cartão de
crédito ou se meu RG caísse/alguém pedisse para ver como era meu RG, eu ia ter
que explicar, e a gente sabe que pessoas cis tem uma ótima memória pra lembrar de
nome morto. E eu sinto que são pequenas ansiedades que vão ser dissipadas, vão
deixar de existir, porque tem um documento ali. (Gau, 2024, Fiocruz)
Por fim, busco ressaltar que a escolha de palavras como "retificação", "ratificação" e
"requalificação" na descrição dos processos que envolvem a alteração de documentos para
refletir a identidade de gênero de uma pessoa não é meramente semântica. Ao identificar um
padrão na utilização desses termos, reconheci implicações simbólicas para compreender a
relação entre a documentação.
19 “Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo”. Acesso em:
[Link]
mais-mata-transexuais-no-mundo
“Retificação”, que significa tornar reto ou alinhar, é o termo mais amplamente
utilizado no cotidiano das pessoas inseridas no campo, tanto aquelas atendidas quanto por
operadores do direito. Esse termo geralmente apareceu acompanhado de um complemento
para esclarecer o objeto a ser corrigido ou em sua flexão adjetiva, referindo-se a documentos
já alterados (documentos retificados). Por outro lado, o termo "requalificação", que remete a
atribuir nova qualidade, foi frequentemente usado em comunicações institucionais, como nas
notícias da Defensoria Pública, e por operadores do direito em contextos técnicos, sem a
utilização de um complemento nominal, sendo percebido como autoexplicativo. Sua exceção
de uso foi no formato de complemento nominal, completando o sentido do substantivo "Pai"
na ideia de “Pai da Requalificação” (ao se referir ao juiz que criou o serviço, como narro no
próximo capítulo). Já "ratificação", que significa confirmar ou validar algo, não foi usado por
interlocutores no campo em referência à alteração de documentos. Contudo, foi mencionado
por pessoas externas ao contexto, que questionaram por que esse termo não era empregado no
processo na suposição de que não haveria, de fato, uma alteração, mas uma afirmação daquela
identidade experienciada pela pessoa.
Capítulo 2: Cronologia política do direito à requalificação civil
2.1 O que se tem até agora sobre esse direito e como se chegou
Com a retirada da transexualidade da lista de doenças e distúrbios mentais da
Classificação Estatística de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) 20, em 2018, a
população trans e travesti alcançou um marco no reconhecimento de sua dignidade e
existência, desvinculando suas identidades de uma perspectiva patologizante. Até então
tratada como doença mental pela Organização Mundial de Saúde (OMS), essa categorização
reforçava estigmas e preconceitos que impactavam diretamente a saúde e os direitos à
cidadania dessa população.
No mesmo ano, a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4275 21 foi julgada
procedente pelo Supremo Tribunal Federal (STF), dando uma nova interpretação ao art. 58 da
20 BRASIL. OMS retira transexualidade da lista de doenças e distúrbios mentais. Ministério dos Direitos
Humanos, 22 jun. 2018. Disponível em:
[Link]
transexualidade-da-lista-de-doencas-e-disturbios-mentais#:~:text=A%20mudan%C3%A7a%20atende%20a
%20uma,1%C2%AA%20de%20janeiro%20de%202022. Acesso em: 13 dez. 2024.
21 BRASIL. Supremo Tribunal Federal STF - Ação Direta de Incostitucionalidade: ADI 4275 DF - Distrito
Federal XXXXX-88.2009.1.00.0000. Disponível em: [Link]
Acesso: 13 dez. 2024
Lei 6015/7322, de modo a reconhecer às pessoas transgênero o direito de substituir prenome e
sexo diretamente no registro civil, sem as submeter a procedimentos patologizantes, como
hormonização ou cirurgias compulsórias. A partir dessa decisão, o Conselho Nacional de
Justiça (CNJ) foi responsável pelo Provimento nº 73/201823, que protocolou o processo para
que essas alterações fossem realizadas diretamente em cartório24.
Os fundamentos desse avanço se ancoram nos princípios constitucionais de dignidade
da pessoa humana e igualdade perante a lei, assim como em compromissos nacionais, como o
Pacto de São José da Costa Rica, que garante o direito ao nome, ao reconhecimento da
personalidade jurídica e à proteção da honra e dignidade 25. Contudo, ao mesmo tempo que o
Provimento 73 formalizou esse direito, ele trouxe desafios práticos, principalmente no que diz
respeito à sua aplicação administrativa. A burocratização do processo o tornou inacessível
para a maior parte da população, e as pessoas não-binárias ficaram submetidas à
judicialização que culmina em meses e anos para garantir a retificação de nome e/ou gênero.
Uma pesquisa da Antra em 2022 revelou que 65% das pessoas trans enfrentam
dificuldades para retificar documentos devido a custos, burocracia e transfobia institucional 26.
No caso das pessoas não-binárias, as dificuldades enfrentadas requerem uma adequação do
Provimento 73, uma vez que o reconhecimento dessas identidades ainda não foi incorporado
pelo sistema legal brasileiro. Nos casos analisados de jurisprudência, as pessoas não-binárias
que recorreram à via judicial haviam tentado previamente resolver a questão pela via
administrativa, diretamente nos cartórios, antes de buscar assistência de defensores públicos
ou advogados especializados na causa LGBTIAP+.
Como mencionado anteriormente, em 2020, Aoi Berriel foi a primeira pessoa a
conquistar o direito de registrar no campo de sexo a opção “não especificado”. Este caso,
realizado com o apoio da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, marcou a primeira
22 NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Art. 58 da Lei nº 6.015 | Lei de Registros
Públicos, de 31 de dezembro de 1973. Leis Civis Comentadas e Anotadas. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2019. Disponível em: [Link]
de-dezembro-de-1973. Acesso em: 23/1/2025
23 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Provimento nº 73 de 28 de junho de 2018. Dispõe sobre a
averbação da alteração do prenome e do gênero nos assentos de nascimento e casamento de pessoa transgênero
no Registro Civil das Pessoas Naturais (RCPN). Diário da Justiça Eletrônico do CNJ, n. 119, p. 8, 29 jun. 2018.
24 Vale dizer que essas alterações só são permitidas a maiores de 18 anos.
25 COMUNICAÇÃO RECIVIL. Recivil EAD – Provimento nº 73/2018 do CNJ. YouTube, 26 nov. 2018.
Disponível em: [Link] . Acesso em: 13 dez. 2024.
26 Diagnóstico sobre o acesso à retificação de nome e gênero de travestis e demais pessoas trans no Brasil.
Dinsponível em: [Link]
decisão no Brasil a reconhecer uma identidade além dos marcadores binários de gênero. Em
2021, Idris Kawabe, de Santa Catarina, tornou-se a segunda pessoa no país a conquistar o
mesmo feito. Ainda em 2021, no Piauí, a Justiça do estado permitiu que uma pessoa alterasse
o registro para "sexo não binário", incluindo a possibilidade de adotar a flexão neutra na
linguagem com hífen, com “não-binárie”, no sentido de não utilizar um termo binarizado ao
se referir a uma identidade neutra.
Nesse mesmo ano, o movimento intersexual celebrou um avanço com o Provimento
122/202127, que garantiu o direito de crianças intersexo terem em seus registros o campo
“sexo ignorado”. Nos anos seguintes, diversas sentenças foram deliberadas contemplando
diferentes marcadores identitários. Atualmente, já são reconhecidos, pelo menos, 13
marcadores no registro civil, ampliando as possibilidades de representação com termos como:
“sem gênero”, “agênero”, “agênero não especificado”, “não determinado”, “não binário”,
“não binárie”, “não binario”, “não binarie”, “não-binária” e “X”.
Em 2022, o TJBA atendeu ao requerimento do Ministério Público e a Defensoria
Pública da Bahia de aplicar aos casos de pessoas não-binárias o Provimento 73, para que fosse
possível alterar o nome para incluir ou retirar termos ligados a gênero, ou descendência,
remover a indicação de gênero (feminino ou masculino) e incluir "não-binário". O pedido
poderia ser feito em qualquer cartório do estado, que o enviaria ao cartório onde a pessoa foi
registrada para oficializar a mudança28. A promotora e defensoras do caso argumentaram
sobre a relevância da decisão para pessoas não-binárias:
São pessoas não-cisgênero e que vêm sofrendo dupla
discriminação, com obstaculização de direitos por não se
enquadrarem nem como pessoas cisgênero, nem como
pessoas transgênero binárias. (Cardoso, 2022)29
Em 2023, o DF também determinou que pessoas não-binárias pudessem alterar nome e
gênero em cartórios extrajudiciais30. O estado já havia testemunhado duas ações realizadas
pelo Projeto Cidadania Não Binária31, que buscou ouvir pessoas não-binárias interessadas em
27 Provimento Nº 122 de 13/08/2021. Disponível em: [Link]
28 CARDOSO, Maiama. Pessoas não-binárias poderão alterar nome e gênero em registro de nascimento sem
autorização judicial na Bahia. Direitos Humanos, Ministério Público da Bahia, 12 de maio de 2022. Disponível
em: [Link]
29 Ibid.
30 MLC. “Pessoas não-binárias podem alterar gênero e nome em cartórios extrajudiciais”. Site TJDFT, 2023.
Disponível em: [Link]
genero-e-nome-em-cartorios-extrajudiciais
31 Projeto Cidadania Não Binária realiza 70 audiências para retificação de documentos de pessoas trans e não
binárias. Disponível em: [Link]
retificar documentos e promoveu mutirões que disponibilizaram sentenças favoráveis para a
alteração de prenome e gênero. Ao reconhecer as demandas dessa população, a alteração dos
documentos foi também assimilada ao Provimento 73/2018, e passou a ser realizada
“independentemente da edição de ato normativo”, ou seja, sem a necessidade de uma
elaboração, aprovação e publicação de uma norma ou regra jurídica que regule o
procedimento.
Entretanto, houve casos em que esse direito, mesmo sendo defendido, foi questionado
e submetido a práticas patologizantes, como acontecia antes da retirada da transgeneridade da
lista de doenças mentais da OMS. Em dezembro de 2022, no DF, Gahbi entrou com uma ação
individual com o apoio da Comissão de Diversidade Sexual da OAB-DF e, durante o
processo, o Ministério Público solicitou um relatório psiquiátrico para emitir parecer
favorável ao pedido. Gahbi relatou: “Minha psicóloga e minha psiquiatra escreveram o
documento, dizendo que não há patologia em como uma pessoa se identifica” 32. No fim, a
decisão foi favorável a Gabhi, que hoje tem em seus documentos o sexo de registro “não
binário”.
No Rio de Janeiro, o juiz da Justiça Itinerante da Central, conhecido como “Pai da
Requalificação” por criar o serviço junto à ex-coordenadora do Núcleo de Direitos
Homoafetivos e Diversidade Sexual (Nudiversis) da Defensoria Pública, realizou um feito
inédito: uma ação de requalificação civil que alterou o campo sexo de 47 pessoas para “não-
binárie”. Realizado na Justiça Itinerante da Fiocruz, esse mutirão possibilitou que nós – eu fui
uma das pessoas contempladas – levássemos a sentença ao cartório onde fomos registrades 33 e
emitíssemos novas certidões com a garantia de gratuidade de justiça. A retificação de tantas
pessoas ao mesmo tempo foi histórica e se tornou uma tradição do programa. Foi nesse
contexto, em parte, com esses atores, que desenvolvi o trabalho de campo para essa pesquisa e
no qual participei, inclusive, da organização de um mutirão, como narro em um próximo
capítulo.
Os mutirões de retificação ocupam uma posição importante para a divulgação e
alcance desses atendimentos, principalmente para pessoas que vivem no interior do estado e
não tem como comparecer presencialmente na capital. No meu campo pude perceber como,
32 Conheça Gahbi, brasiliense que conquistou na Justiça mudança de gênero para não binário. Disponível em:
[Link]
genero
33 O uso da linguagem neutra aqui é para contemplar o reconhecimento de identidades daquelus que se
identificam apenas com pronomes neutros.
mesmo no “estado mais fácil” 34 para fazer a retificação de prenome e gênero nas certidões,
muitas pessoas não-binárias estão alheias ao próprio direito. De todos os atendimentos que
acompanhei, a maioria era para pessoas trans que queriam alterar o campo sexo ou para
masculino ou para feminino. Cheguei a me questionar se era uma questão de baixa demanda
ou de falta de conhecimento daquele serviço, e pude constatar que, com uma população
estimada em mais de um milhão de pessoas 35, as articulações políticas não-binárias ainda são
embrionárias e as políticas públicas, inexistentes.
Essa lacuna na visibilidade não-binárie se reflete na dificuldade de acessar dados
quantitativos sobre os processos de requalificação. Na minha visita à defensoria, solicitei o
percentual de casos de averbação da não-binariedade nas certidões e me deparei com o fato de
que não há um registro sistemático desse número. Ela me explicou que os únicos dados
disponíveis são divulgados pontualmente em notícias sobre mutirões ou casos individuais que
chegam à grande mídia. Essa falta de informações concretas reforça o ciclo de invisibilidade,
já que a ausência de dados estatísticos contribui para a falsa noção de que a demanda é baixa.
Na realidade, a subnotificação e a pouca difusão de informações sobre o direito à retificação
revelam um cenário em que muitas pessoas permanecem sem acesso a esse reconhecimento
legal, seja por desconhecimento, seja pelos entraves burocráticos ainda existentes.
2.2 Via judicial X Via administrativa - Entraves do sistema
“Faz 440 dias, em 24 do 3 de 2023, que Thomas me levou no escritório da Nudiversis
do Centro onde ele fez o Processo dele. Levei os documentos necessários, mas segui
uma cartilha do PoupaTrans de São Paulo que pedia uns 10 documentos que eu
arranjei e descobri não serem precisos; coisas como histórico criminal e
comprovante com a Justiça Eleitoral e do Trabalho são exemplos. Embora isso eu
tinha esquecido a Certidão de Nascimento, então mandei virtualmente no extinto
número deles na segunda, dia 27. Presumindo que foi aí que realmente deram entrada
em meu processo, esperei 4 meses até a audiência que ocorreu dia 2 do 8 no ônibus
da Justiça Itinerante da Maré, mas ninguém nos avisou sobre essa parte do Processo
antes. Levei Sami no escritório do Centro para ajudar elu no processo dia 28/ 7 e foi
aí que me contaram que eu tinha que estar na Maré na quarta seguinte. Elu
conseguiu que o pessoal agendasse junto de mim na próxima semana, então elu
esperou da sexta que abriu o requerimento até a quarta em que fomos nós 2 até a
Fiocruz. Lá pegaram nossas identidades e nos devolveram falando que era preciso ter
um número de registro na própria Fiocruz, foi aí que nós andamos de um lado a outro
34 Dado repetido no meu campo diversas vezes por vários atores, alguns deles que realizam ações de retificação
pelo país e apontam a facilitação que existe no processo do Rio de Janeiro.
35 Estudo realizado pela Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) estimou que cerca de 1,19% da população
se autodeclara não-binário no Brasil. Notícia acessível no link: [Link]
pioneiro-na-america-latina-mapeia-adultos-transgeneros-e-nao-binarios-no-brasil/
de lá para um escritório de vidro preto bem pequeno onde pegaram nossos dados,
mandaram a gente correr porque o ônibus ia partir em 2 horas e foi cerca de 1 hora e
meia até a gente andar tudo e achar a sala porque ninguém trabalhando lá sabia
indicar, um homem trans e outras pessoas estavam na mesma, mas nós 3 fomos
mandades de volta primeiro e pra voltar rápido eu carreguei ele nas costas e todo
mundo correu. Lá a gente entregou de novo a identidade e agora o número de
registro da Fiocruz, depois nos entregaram as 3 sentenças e assinamos, uma para
nós, outra para o cartório e uma para o governo manter. Só que o Juiz em expediente
esqueceu de assinar as sentenças de mim e Sami, mas a técnica administrativa viu e
recolheu para ajeitar. Depois disso levei Sami até seu cartório na Tijuca e
entregamos a sentença dele com tempo de espera de 1 mês para emissão da de inteiro
teor e certidão de nascimento atualizada. Fomos então atrás do meu no centro, mas
nós não paramos no lugar errado que era um ofício de notas onde um advogado leu
minha certidão e avisou que meu cartório era no Tanque em Jacarepaguá. Marcamos
de ir lá, mas elu ficou doente e eu tive ansiedade de ir sozinhe, por isso demorei mais
ou menos 1 mês para ir com meu advogado, que é meu ex e trans formado em direito,
mas quando eu e ele chegamos lá a advogada olhou o papel e viu que na verdade era
mesmo no centro. Então eu e ele fomos para o centro onde ele trabalha e procuramos
o cartório certo, erramos e fomos parar em um de casório e isso foi engraçado, nessa
descobrimos que havia 3 prédios com mais de 1 cartório no quarteirão e por isso nos
perdemos tanto, achamos o cartório certo no quarteirão e entreguei a sentença. Me
deram um número de espera e mandaram aguardar 1 mês e meio. Eu voltei na última
semana de Novembro e anularam meu processo porque o juiz havia redigido minha
sentença a datando para o Réveillon de 1969 e disseram que eu precisava resolver
isso, mas não sabiam como. Voltei na defensoria do centro a um quadro do meu
cartório e um dos funcionários pegou uma cópia da sentença para enviar ao
escritório da justiça do estado e afirmou que em uma semana eles teriam atualizado
esse erro de digitação por não ser um grande problema e eu receberia um PDF para
baixar, imprimir e entregar ao cartório. Baixei o app da Defensoria 2 semanas depois
por desconfiar dele, mas só consegui ser aprovade na verificação de perfil na semana
anterior ao Carnaval. Estranhei não ter recebido nada e entrei em contato pelo
aplicativo onde disseram que eu nunca estive lá para informar um erro na sentença e
que na verdade eu havia faltado meu compromisso e aparentemente nunca compareci
à minha audiência judicial para receber a sentença em 2 do 8, embora eu tenha
escrito o número do processo da sentença. Inventaram que eu deveria refazer o
processo e eu mandei e-mail direto ao governo do estado onde me falaram para
voltar à Fiocruz na quarta às 9 da manhã para emissão de nova sentença caso
houvesse algo de errado com a original. No dia 10 de abril eu retornei e entreguei o
documento grifado com marca-texto na data de 1969 e os atendentes riram de mim
pra pegar minha identidade e me botar na fila a fim de emitir uma sentença nova.
Esperei 2 horas até me chamarem, assinei os documentos e avisaram que a anterior
era lixo, foi humilhante um pouco, mas mesmo assim gostei porque teve a primeira
pessoa no processo todo que usou meus pronomes comigo e gostei dessa interação.
Voltei para casa correndo e fui ter aula no Fundão 13 horas, no dia seguinte, quinta-
feira dia 11 do 4, fui sozinhe ao meu cartório e entreguei a sentença nova dessa vez
com a atendente me mandando aguardar 15 dias. Agora estou esperando
ansiosamente pela oportunidade de voltar e finalmente pegar minha certidão
atualizada e a intero teor quando me surgir tempo...e coragem (talvez eu platine o
cabelo por moral antes). Todo mundo que conheço que fez e conheci fazendo isso
afirmou esperar só um mês pela sentença, eu acho que peguei a viagem mais longa.”
Esse foi o relato de Zero, a primeira pessoa a me mandar mensagem quando eu
expliquei em um grupo do WhatsApp de pessoas não-binárias que estava fazendo uma
pesquisa sobre requalificação civil da nossa população e gostaria de narrar algumas histórias.
Elu gostou da ideia e contou que realizou seu processo junto a ume colega formade em
Antropologia pela UFF. O caso de Zero exemplifica tanto as vantagens quanto as
desvantagens de seguir as vias administrativa e judicial. Em um sistema desintegrado e
altamente burocrático, qualquer erro de digitação pode ser determinante na garantia de
direitos fundamentais, como os direitos ao nome e à dignidade da pessoa humana.
Retomando o que foi tratado anteriormente, a regulamentação feita pelo CNJ
estabeleceu um processo burocrático que exige diversas certidões, algumas com prazo de
validade que expira antes de se conseguir as outras, sem uma especificação definida para
todos os cartórios, tornando o processo diferente a depender da instituição que se recorra e
encarecendo o procedimento, tornando-o inacessível para a maioria das pessoas. Segundo
meu interlocutor Vitor, Técnico de Justiça da JI (Manguinhos/Fiocruz), em entrevista no
primeiro dia de campo:
“Esse provimento existiu porque o STF determinou
que as pessoas têm esse direito, e a partir de uma
decisão do STF a decisão precisa ser regulamentada.
“Ah pode, mas pode como?”. Quem decidiu como
seria isso na via administrativa foi o CNJ, afinal de
contas é competência dele. Só que ficou um
processo muito burocrático, onde se exigem muitas
certidões, e muitas pessoas não conseguem efetivar
porque essas certidões são caras e conseguir a
gratuidade costuma ser muito difícil.” (Caderno de
Campo, 2024)
A via administrativa, por sua vez, é o conjunto de procedimentos realizados por órgãos
e entidades da administração pública para resolver questões que não precisam passar pelo
Poder Judiciário. Em outras palavras, ela é uma alternativa à via judicial e serve para tratar de
demandas diretamente com a administração pública, de maneira mais rápida e com uma
resolução já protocolada, diferentemente de um processo judicial. No contexto brasileiro, a
via administrativa é frequentemente relacionada à administração do Estado, porque envolve
ações e decisões de órgãos públicos que cuidam de questões como registros, licenças,
permissões, concessões e outros serviços. No caso da requalificação civil de pessoas trans
“binárias”, aprovado pelo STF e protocolado pelo CNJ, as exigências para a realização do
processo consistem em um passo a passo que envolve, pelo menos, 18 documentos.
Partindo dos documentos pessoais, como RG, CPF, certidão de nascimento atualizada,
título de eleitor, comprovante de residência e, no caso de pessoas casadas ou divorciadas, a
certidão de casamento atualizada, é necessário emitir as demais certidões. O processo começa
pelas certidões eleitorais36, que incluem a Certidão de Quitação Eleitoral, comprovando a
inexistência de débitos com a Justiça Eleitoral, e a Certidão de Crimes Eleitorais, que atesta a
ausência de pendências relacionadas a crimes eleitorais. Ambas são gratuitas e podem ser
obtidas pelo site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Após as certidões eleitorais, são exigidas certidões do distribuidor cível do local de
residência37 dos últimos cinco anos, tanto em âmbito estadual quanto federal. Este serviço
pode estar disponível nos sites do Tribunal de Justiça e da Justiça Federal do estado, mas, em
alguns casos, é preciso comparecer pessoalmente ao distribuidor cível 38. O próximo passo é
obter a certidão do distribuidor criminal referente ao mesmo período e jurisdição
(estadual/federal), seguindo os mesmos procedimentos do distribuidor cível. Além disso, é
necessário emitir a certidão de execução criminal do local de residência dos últimos cinco
anos, disponível pelos mesmos meios.
Outra etapa envolve as certidões dos tabelionatos de protestos 39 de pessoa física e do
local de residência dos últimos cinco anos. Para isso, é necessário identificar os Cartórios de
Protesto da cidade que corresponde à pessoa, e, como mostra o relato de Zero, nem sempre é
tão claro. Uma vez identificado os cartórios corretos, é preciso solicitar as certidões em cada
um deles. Normalmente, essa é a parte que entrava o processo, pois cada cartório exige suas
taxas e muitas vezes os documentos tem data para expirar, tendo que ser emitidos mais de
uma vez caso a pessoa ultrapasse o prazo. Outro documento que também é requisitado é a
certidão da Justiça do Trabalho do local de residência nos últimos cinco anos, que pode ser
36 Aqui a ordem de solicitação dos documentos se faz relevante, pois, algumas certidões dependem da emissão
de outras como pré-requisito para a obtenção das demais.
37 Esse é um documento que informa se há processos judiciais cíveis em nome de uma pessoa ou empresa.
38 Passo a passo disponível em: [Link]
de-nome-e-genero-na-certidao-de-nascimento/1200352203
39 Este documento comprova que não existem dívidas “protestadas”por terceiros (empresas ou pessoas) em
cartório - neste caso, referente ao local em que a pessoa reside.
emitida online. Se aplicável, deve-se incluir a certidão da Justiça Militar, e, por fim, é
necessário preencher o requerimento padrão disponibilizado no Provimento n. 73 do Conselho
Nacional de Justiça (CNJ).
Na notícia que anuncia a decisão conquistada pela Defensoria Pública do Estado da
Bahia de garantir gratuidade na emissão de certidões de protesto 40 para a requalificação civil
de pessoas trans, é relatado que o valor médio das certidões em Salvador era de R$ 22,84 por
tabelionato, e uma pessoa trans precisava emitir documentos em até quatro tabelionatos
distintos41. Além disso, caso essa pessoa tenha residido em outros municípios nos cinco anos
anteriores ao procedimento, é necessário emitir as certidões também nessas localidades, o que
aumenta ainda mais os custos e as dificuldades no processo.
No Rio de Janeiro, encontrar as especificidades da via administrativa é uma grande
dificuldade. Eco, meu interlocutor que acompanhei em uma ida à Fiocruz para entregar as
cópias dos documentos e dar entrada pela via judicial, contou que tentou uma primeira vez
pelo cartório após encontrar uma cartilha do Poupatempo de São Paulo 42. Ele só pretendia
alterar o nome, pois não sabia da possibilidade de incluir o sexo não-binárie ao documento.
Durante sua empreitada pela via administrativa, embora algumas certidões estivessem
disponíveis online, ele não conseguiu emitir todas elas. Nos cartórios de protesto, enfrentou
ainda mais questões, pois não conseguiu acessar as certidões necessárias por conta do custo
destas e, ao longo do processo, a que ele já tinha comprado tinha um prazo que precisava ser
aproveitado para conseguir emitir a próxima, e elu acabou ficando sem dinheiro para dar
continuidade aos trâmites, fazendo seus esforços valerem de nada. As informações confusas e
a liberdade dos cartórios de cobrarem taxas e exigirem diferentes certidões citadas na
regulamentação deste serviço são alguns dos principais impeditivos para se alçar a retificação
civil pela via administrativa.
Por outro lado, a via judicial manteve margens de atuação mais amplas, fundamentada
diretamente nas decisões do STF. No entanto, conforme relatos que acompanhei em campo, o
caminho judicial privado já se mostra extremamente difícil para pessoas trans binárias. No
40 Essas certidões servem para comprovar que não existem dívidas não pagas em seu nome ou no da sua
empresa, especialmente as que foram “protestadas” em cartório por um possível credor.
41 Pessoas trans e não binárias terão gratuidade nas certidões de protesto para adequação de nome, após atuação
da DPE/BA. Disponível em: [Link]
gratuidade-nas-certidoes-de-protesto-para-adequacao-de-nome-apos-atuacao-da-dpe-ba/
42 A mesma citada por Zero, no começo dessa seção, disponível em: [Link]
caso de pessoas não-binárias, profissionais que atuam na área afirmam nunca terem
presenciado um caso de êxito. Essa realidade abriu espaço para iniciativas como as da Justiça
Itinerante e da Nudiversis, que buscam desburocratizar o acesso a esse direito, tornando-se, na
prática, a única opção viável para a retificação de documentos no Rio.
No capítulo 3, apresento com mais detalhes os atores e os procedimentos necessários
para a realização da alteração dos documentos judicialmente no Rio de Janeiro. Nesta seção,
limito-me a explorar a percepção dos operadores do direito e as experiências dos meus
interlocutores/as/es com a via judicial.
Na secretaria do Instituto Nacional de Infectologia (INI), o “escritório de vidro preto”,
citado por Zero no começo deste tópico, eu, Eco e Mori aguardávamos para sermos atendides.
Durante o atendimento, foram solicitadas as cópias dos documentos necessários e elus tiveram
que dar algumas informações para o preenchimento das fichas da Defensoria Pública. Após
esse procedimento, sentamos em uma cantina próxima ao Instituto para conversar sobre o que
elus acharam do processo. Elus acharam simples, mesmo sem terem entendido muito bem o
passo a passo. Eu expliquei que, após a entrega dos documentos, o que resta é aguardar o
contato do técnico de justiça que agenda uma data para elus irem buscar a sentença assinada
por juiz/a/e, promotor/a/e, defensor/a/e e elus.
Quando a juíza da JI (Manguinhos/Fiocruz) me apresentou como registra as sentenças
no sistema do cartório central da Justiça Itinerante 43, me explicou que nenhum estado possui
um sistema integrado e, no âmbito federal, os processos são separados em seções. Em
processos de retificação de registro civil, ela me mostrou que tudo começa com a petição
inicial, distribuída pela Nudiversis, acompanhada de documentos digitalizados. Diferente de
outros litígios44 que envolvem autor e réu, trata-se de uma declaração voluntária que exige
apenas a sentença para regularizar os documentos nos cartórios. A sentença, ainda que já
permita alterações nos registros, precisa ser registrada no sistema estadual para encerrar
oficialmente o caso. Nas palavras da própria juíza: “quando o Estado (eu) já a reconheceu
como trans, agora é preciso levar a sentença para que o cartório esteja de acordo. Quando uma
entidade superior afirma uma coisa, é papel das subordinadas que acatem a medida.”.
43 A Justiça Itinerante possui 28 postos ativos com funcionamento regular no Rio de Janeiro. Nessa pesquisa me
detenho apenas as da Maré/Manguinhos/Fiocruz e Central, pois são as únicas - até então- a oferecer o serviço de
requalificação civil.
44 Disputa levada ao poder judiciário.
Depois de protocolados e juntados ao processo, os documentos são usados para
preencher a descrição dos motivos que levaram a/o autora/or da ação a fazer a solicitação e os
argumentos que justificam sua demanda, resultando na petição inicial, emitida, nesse caso,
pela Defensoria Pública do estado. A sentença, por conseguinte, é o resultado de uma
demanda reconhecida legalmente que registra a decisão do/a juiz/a sobre o processo e serve
para substituir as demais certidões exigidas em cartório - ela ocupa a função de mandado,
esteja declarado na sentença ou não.
A ponte entre a via judicial e a via administrativa revela um dos maiores entraves no
alcance da requalificação. Embora a via judicial possa, muitas vezes, assegurar o direito de
alterar a certidão, a concretização desse direito depende da via administrativa, que
frequentemente apresenta barreiras por transfobia institucional. Um exemplo é o caso de Álex
Sousa de Sá, a primeira pessoa não-binária do Amazonas a ser registrada em cartório, em abril
de 2022, após quase seis meses de luta judicial. Álex precisou viajar ao Rio de Janeiro para
obter uma sentença que permitisse a alteração de seu registro no Amazonas. Com apenas
R$400 mensais de bolsa de iniciação científica (PIBIC) da Universidade Federal do
Amazonas (Ufam), Álex juntou pouco mais de R$2 mil em sete meses e comprou uma
passagem aérea.
“Deu tudo certo”, relatou Álex. “Cheguei no Rio, participei da ação e peguei a
sentença. Naquele momento, eu estava parcialmente uma cidadã não-binária brasileira, só
precisava efetivar a retificação no Amazonas.”45. De volta a Manaus, Álex foi ao cartório do
2º Ofício, no centro da cidade, onde funcionários do cartório alegaram que "esse gênero não
existe" e sugeriram que ela procurasse um juiz. Somente após recorrer à Defensoria Pública
do Amazonas e entrar com um pedido de cumprimento de sentença, Álex conseguiu realizar a
retificação. Antes disso, o próprio sistema de registro do cartório não permitia a inclusão de
pessoas não-binárias, pois estava configurado para reconhecer apenas os gêneros masculino e
feminino. Assim, foi necessário alterar a plataforma do sistema para permitir o
reconhecimento de sua identidade.
Para que o direito seja exercido, é preciso alterar o documento. Contudo, mesmo com
a facilitação proporcionada por iniciativas como a da Justiça Itinerante, ainda há situações em
45 Após luta judicial, Amazonas tem primeira pessoa não-binária registrada em certidão. Acesso em:
[Link]
certid-o-1.249580
que essa alteração não é concretizada, nem mesmo pela via judicial. Mori e Eco são exemplos
de casos que ficaram esquecidos no sistema: elus não foram chamades para comparecer à
Justiça Itinerante, e, ao buscar informações junto à Defensoria Pública, a justificativa recebida
foi de que a alta demanda de processos inviabiliza o atendimento pleno a todes que dependem
desses serviços.
2.3 A Reivindicação da Não-Binaridade e sua Relação com a Estrutura Política
“Perguntei sobre o que mudaria na prática ter em seus
documentos a informação constando “não binário”: ele
dá o exemplo do trabalho, quando separam pessoas entre
homens e mulheres, ele perguntou “e eu, onde eu fico?”.
Pessoas não binárias ficam sem espaço.” (Caderno de
campo, 2024)
Partindo do pressuposto de Turner (2005) sobre “estrutura de posições” como modelo
básico de sociedade, onde as posições sociais são relativamente fixas, quando se trata do
sistema jurídico-legal brasileiro, não há espaço para ambiguidades. A Constituição Federal
(1988) reflete o caráter estritamente binário do aparato sócio-cultural brasileiro, acarretando
processos burocráticos calcados nesse tipo de classificação: estritamente masculino ou
estritamente feminino. Tendo os direitos e deveres cidadãos demarcados a partir de uma
dualidade arbitrária, que trata o fator supostamente biológico (sexo) como um indicador
identitário e comportamental (gênero), qualquer indivíduo que não se adeque a essas
classificações é indefinido e ignorado, ou seja, legalmente, não existe. Como já foi explorado
anteriormente, o processo judicial para que essas existências sejam reconhecidas é altamente
burocratizado, e até ritualístico46.
No inciso III, que apresenta os fundamentos jurídicos que embasam a pretensão de
requalificação civil na sentença disponibilizada pela Justiça Itinerante para pessoas não-
binárias, há uma discussão sobre identidade de gênero, tratada como sinônimo de identidade
sexual. Essa equiparação, no entanto, ignora debates teóricos e científicos sobre a posição
política, social e cultural do gênero, no que tange a autoidentificação de si mesmo e sua
autoexpressão, além da própria noção de “sexo biológico”, a qual não possui existência
científica objetiva. Trata-se de uma construção inserida pela epistemologia política do corpo
(Preciado, 2022), produzida por uma ordem social dominante, que determina o que é
reconhecido ou não como real, tanto social quanto politicamente.
46 Busco desenvolver essa ideia na seção 3.4.
Em “Eu sou o Monstro que vos fala”, Paul Preciado descreve como, a partir dos anos
1940, o desenvolvimento de novas técnicas de representação e manipulação bioquímicas dos
seres vivos inaugurou uma era de produção técnica da diferença sexual (Preciado, 2022, p. 65-
66). Nesse contexto, a ideia de sexo deixa de ser concebida como uma realidade meramente
anatômica e dá lugar à noção de “gênero”, que inaugura um “sentimento de identidade
sexual”. Como nos conta Caia Coelho (2016), “isso toma uma proporção tão grande que
pessoas intersexo recém-nascidas sofrem, compulsoriamente, cirurgias para adequar a
genitália a vaginas e pênis, uma prática violenta contra os Direitos Humanos” 47. Esse
deslocamento possibilita a redução da multiplicidade de experiências subjetivas a categorias
normativas restritas e violentas, vinculando-as a um modelo de temperamento e papeis sociais
determinado por uma suposta condição “biopsíquica”. Tal malabarismo discursivo serve para
submeter e emancipar certos corpos, antes de tudo, pela linguagem.
A questão é que, por se engendrar no campo subjetivo das pessoas, essa discussão
sobre a arbitrariedade do sistema de divisão sexual põe em risco um dos pilares estruturantes
da sociedade: o gênero. À medida que novas descobertas surgem nas ciências naturais e
pautas políticas avançam no reconhecimento identitário, as soluções propostas buscam reiterar
o mesmo paradoxo epistemológico: somos todos homens ou mulheres. Nesse sentido, a não-
binariedade recusa esse modelo universal e antagônico, ao buscar “a legitimação e
mobilização política de todo e qualquer sujeito que tenha se constituído ou que se entenda
como marginal e/ou alheio à cisgeneridade homem-mulher e desobedeça a
cisheteronormatividade.” (Santos, 2023, p.11).
Retomando o debate jurídico sobre o reconhecimento de identidades que recusam tal
definição dicotômica, observa-se que o procedimento de requalificação civil para pessoas
não-binárias ainda se encontra em um processo de construção jurisprudencial. Isso ocorre
porque o reconhecimento dessas identidades ainda não foi incorporado pelo sistema legal
brasileiro. Nesse contexto, a produção de novas interpretações jurídicas enfrenta um campo
tensionado por estruturas normativas centralizadoras para, como diz Peirano (2006),
“modificar a médio e longo prazos a ‘consciência do Brasil’.” (Peirano, 2006, p. 40). Esse
cenário de tensionamento se reflete de maneira concreta nas vivências das pessoas envolvidas
no processo de requalificação civil.
47 Texto “crítica ao binômio sexo/gênero” de Caia Coelho, publicado em 2016, disponível em:
[Link]
Durante a ação de retificação, descrita no capítulo 3, perguntei às pessoas que
participaram o que significava a mudança do nome e do sexo nos documentos. Não houve um
consenso absoluto, mas a questão da “existência” apareceu de formas distintas. A
interlocutora Mathilda conta que, pra ela:
“[...] retificar vai ser muito importante pra essa parte
também da faculdade, mas muito mais como identidade,
pra me reafirmar como pessoa, sentir que eu to aqui.
Porque eu acho que ainda, hoje em dia, eu não sinto que
eu estou presente no mundo. Sinto que ainda não sou um
ser humano aqui, o que existe é outra pessoa e essa outra
pessoa não sou eu. Acho que vai muito nesse lugar de
reafirmar minha identidade, dizer que estou aqui, estou
vive e é isso”. (Mathilda, 2024, Fiocruz)
Como já foi discutido anteriormente, há algo de incontornável na afirmação identitária
e garantia de direitos cidadãos no ato de possuir documentos. Por outro lado, há quem recuse
essa dimensão central dos documentos na legitimação de si. A interlocutora Ocss, por
exemplo, relativiza essa lógica ao afirmar: “É, não é sobre ‘agora eu existo’. Não, eu sempre
existi, mas agora eu sou oficial.”. Sua fala sugere um deslocamento da ideia de que a
existência depende do reconhecimento estatal, apontando para uma dimensão em que a
identidade precede o documento. Essa tensão é fundamental, pois evidencia que a ausência ou
a inadequação dos registros civis não apaga a existência de alguém – no sentido de
desaparecer com a materialidade do corpo –, ainda que possa inviabilizar o acesso a direitos
básicos. O desafio, portanto, não é apenas garantir o acesso aos documentos, mas questionar
as estruturas que condicionam a legitimidade das identidades à chancela estatal.
Essa questão se torna ainda mais relevante quando analisamos os dados estimados
sobre a população trans e não-binária no Brasil. Em uma pesquisa pioneira, a Faculdade de
Medicina de Botucatu (FMB), em parceria com a UNESP, estimou que a proporção de
indivíduos identificados como transgêneros ou não-binários na população adulta brasileira é
de aproximadamente 2% (0,69% pessoas trans binárias e 1,19% não-binárias) em uma
população estimada em 2020 pelo Banco Mundial em 212,6 milhões de cidadãos. Mesmo
com a subnotificação e a dificuldade ao acesso à retificação, são mais de 2 milhões de pessoas
estimadas - apenas no Brasil - a se identificarem como fora do espectro binário de gênero.
Dito isso, a integração da pessoa não-binária ao sistema legal, e à sociedade brasileira,
destaca-se como um objetivo necessário, porém, a sua não incorporação à Constituição
Federal inviabiliza que este reconhecimento seja oficializado e obrigatório a todos os sistemas
de identificação públicos e privados. Felizmente, existem algumas articulações políticas não-
binárias buscando alternativas ao modelo vigente de registro civil e pleiteando algum tipo de
regulamentação por parte do Estado. As discussões envolvem desde uma pauta mínima para
determinar um marcador comum às identidades não-binárias, até a defesa de um campo aberto
para o sexo. Em um artigo publicado na Revista Feminismos da Universidade Federal da
Bahia (UFBA), também é abordada a possibilidade de não identificação do sexo “biológico”
no nascimento. Tais discussões visam analisar as perspectivas possíveis no que tangencia o
campo sexo, questionando sua imposição categórica de um modelo estrita e arbitrariamente
binário.
2.4 O campo sexo nos documentos e sua relevância
Nesta seção, pretendo trazer algumas discussões sobre a presença do campo “sexo”
nos documentos de identificação civil, questionando sua relevância e as implicações para as
pessoas não-binárias. O objetivo não é esgotar o tema, mas examinar quais documentos
exigem o preenchimento deste campo, como as normativas atuais funcionam e como elas
impactam a vivência destes indivíduos cujas identidades de gênero não se encaixam nas
categorias tradicionais de masculino e feminino.
O artigo 54, parágrafo 2º, da Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973, faz parte da Lei
de Registros Públicos, que regulamenta os serviços de registro civil no Brasil. Nesse artigo,
encontra-se o campo sexo ao lado da “cor” como obrigatórios. Sem uma definição específica
sobre esse marcador, a tradição do direito reconhece dois sexos - e, portanto, dois gêneros
humanos: feminino ou masculino. Mas, como exclama Wider (2017), as mudanças na
compreensão científica do “gênero humano” podem soar assustadoras para a tradição, visto
que “para a Professora de Biologia Molecular da Universidade de Brown, Anne Fausto
Sterling, cinco são os sexos e para o Professor de Sexualidade e médico brasileiro Ronaldo
Pamplona da Costa eles são onze sexos”48.
Nesse contexto, o ordenamento jurídico se torna mais um produtor de sexo do que um
reconhecedor desse campo. Implementando como obrigatório o registro de sexo “legal” ou
48 WIDER, Roberto. A designação obrigatória do sexo na certidão de nascimento. Questionamentos. IBDFAM,
Belo Horizonte, 10 maio 2017. Disponível em: [Link]
%C3%B3ria+do+sexo+na+certid%C3%A3o+de+nascimento.+Questionamentos.
“civil”, em um prazo de 15 dias após o nascimento 49, não é possível alcançar uma
correspondência exata desse campo relativo a todos os fatores que compõem o sexo a um
recém-nascido. Portanto, em um estado democrático de direito, que se pretende isonômico 50,
qual é a relevância da determinação do sexo civil? Seria esse um marcador indispensável à
organização social, ou apenas uma imposição normativa que carece de justificativa
atualizada?
Ainda que essas perguntas não tenham uma resposta exata, algumas articulações
políticas e até unidades de federação buscam soluções para essas questões. No caso da
Alemanha, uma lei foi aprovada em novembro de 2013 autorizando que os bebês recém
nascidos não tivessem identificação de sexo, para que, em idade adulta, tivessem a liberdade
de optar pela definição que os melhor representasse. Na Argentina, os cidadãos que não
quiserem se identificar como feminino ou masculino, podem optar pelo marcador X no
passaporte e documento de identidade nacional (DNI). Na Holanda, foi decidido que o campo
sexo fosse excluído dos documentos para que pessoas que não se reconhecem dentro do
espectro binário de gênero se sentissem mais “à vontade”51.
Por outro lado, na Argentina, parte da sociedade civil se reuniu para protestar contra a
medida usando as palavras de ordem: “Não somos um X!”. O presidente explicou que essa é a
forma admitida em convenções internacionais a que a Argentina faz parte 52. Eu mesmo, ao
emitir minha carteira de identidade nacional (CIN) pelo DETRAN, me deparei com um “X” e
fiquei incomodado pela suposta indefinição que aquele marcador denota.
Até 2023, o DETRAN não oferecia opções além de F e M, mas, posteriormente, após
muitos casos de averbação da não-binariedade em documentos do Rio de Janeiro, diversas
alternativas foram incluídas para contemplar as múltiplas identidades de gênero como
“agênero”, “bigênero”, “andrógeno”, “fluido” entre outros. No entanto, para uma emissão
uniforme do documento, o marcador disponível é o tal do “X”. Para outros sistemas que ainda
vinculam direitos aos sexos “binários”, é mantida a designação atribuída no nascimento 53, o
que cria desafios para a integração de sistemas administrativos e jurídicos. Assim, mostra-se
49 Texto publicado no Suplemento do DOU, de 16/9/1975, por determinação do art. 2º da Lei nº 6.216, de
30/6/1975, incluindo alterações e renumeração de dispositivos decorrentes das Leis nºs. 6.140/1974 e
6.216/1975.
50Refere-se ao princípio de isonomia do direito, onde todos os indivíduos são iguais perante a lei.
51 Trecho retirado da notícia: [Link]
[Link]
52 Trecho retirado da notícia: [Link]
sejamos-todes-e-ninguem-se-importe-com-o-sexo-das-pessoas/
53 Dado que pretendo aprofundar no capítulo 3, seção 3.4.
necessário mapear os diferentes sistemas de registro civil para possibilitar uma padronização e
maior uniformidade nos dados.
As experiências pessoais de interlocutores dessa pesquisa evidenciam os impactos
dessas normativas que não admitem a integração plena de identidades plurais. Eco
compartilhou um pensamento ao refletir sobre a complexidade da experiência de lidar com
documentos que não reconhecem sua identidade: “É como se nossa existência fosse secreta, o
governo sabe que eu sou não-binário, mas as outras pessoas (e sistemas) não.”.
No Brasil, a exigência do campo sexo nos documentos varia conforme a instituição, e
as opções disponíveis, conforme a legislação determinada para cada um. Atualmente,
documentos como passaporte, certidão de nascimento, INSS, carteira de trabalho, Receita
Federal e o novo RG incluem o campo sexo. Nos sistemas previdenciário, prisional e militar,
as opções são restritas aos sexos tradicionais (feminino e masculino). Antes da proposta do
governo Bolsonaro (e sua posterior aplicação no governo Lula), o RG não exigia essa
informação. A Carteira Nacional de Habilitação (CNH) também não cobrava o campo sexo,
mas, em uma atualização de 2024, passou a incluí-lo no formulário de emissão.
Durante o preenchimento do formulário para emissão do passaporte brasileiro, por
exemplo, o sexo é cobrado conforme consta no documento de identificação. O que é curioso
nesse processo é a distinção feita entre sexo e gênero na explicação dos documentos exigidos,
sendo o primeiro tratado como um mero identificador “biológico”, e especificado que não há
exigência de informação referente ao gênero no passaporte. As normas da Aviação Civil
incluem o campo sexo na impressão do documento, exigindo uma “comprovação” deste,
definido como “categorias inatas do ponto de vista biológico”, que deve ser corroborado por
certidão de nascimento, casamento ou outro documento de identificação que contenha a
informação. Por sua vez, como já foi explorado nas discussões anteriores, tais documentos, ao
serem alterados, partem da autodeterminação de gênero do indivíduo. Ainda assim, o
passaporte obedece às mesmas regras internacionais que a Argentina, ao registrar aquelus fora
do espectro binário com um “X”.
Analisando a percepção das pessoas entrevistadas, o incômodo com o campo sexo se
tornou latente com as alterações previstas para a nova carteira de identidade (CIN). Ao
perguntar sobre o registro do sexo designado no nascimento, Eco afirma que “nem sabia que
podia se incomodar”. Para elu, a ausência do campo “sexo” no RG - documento mais presente
no cotidiano - fazia se sentir mais à vontade, já que não havia o risco de expor a
incongruência de sua identidade declarada com aquela designada na certidão. O desconforto
só se intensificou quando as mudanças para incluir o campo “sexo” nas identidades passaram
a ser discutidas. Mori e Eco, em conjunto, abordam como a divulgação do “sexo” no
documento se torna uma questão sobre como aquilo é levado ao setor público, incluindo a
sociedade. Mori aponta que, sempre que precisa assinar algo ou ir ao médico e é chamade
pelo nome “morto”, sente como se estivesse mentindo. Eco, por sua vez, diz se sentir um
“agente secreto”, como se estivesse constantemente escondendo algo essencial sobre sua
identidade. No campo sexo sem alteração, como aponta Mori, a sensação é de “uma ponta
solta, uma mentirinha, uma coisa em aberto”.
Com ideias pautadas na teoria de “contrassexualidade” de Preciado (2000), tais
exemplos são mobilizados para reivindicar o modelo social que trata performances de gênero
normatizadas como verdades biológicas (Butler, 2001), e defende o direito fundamental à
autodeterminação, abrangendo a liberdade de não se reconhecer com um único gênero,
permitindo que o registro civil reflita a inexistência de uma identidade pré-determinada. No
entanto, soluções como abolir o campo sexo nos documentos, na realidade brasileira, envolve
a insegurança jurídica que determinados grupos podem enfrentar, especialmente em políticas
públicas voltadas a segmentos específicos, como as mulheres. Por outro lado, mudar o
marcador de sexo para gênero serviria para acompanhar os avanços científicos da pluralidade
biológica, psíquica e social humana, contudo, apresenta desafios logísticos, já que demandaria
a alteração de documentos para mais de 200 milhões de pessoas. Diante desses entraves, o que
está sendo pleiteado por movimentos sociais não-bináries é a padronização dos marcadores
não-binários nos documentos e a adaptação de políticas previdenciárias, carcerárias e de
alistamento militar para incluir essas identidades.
Capítulo 3: A prática no Rio de Janeiro: narrativas do campo
3.1 O mutirão e o trabalho de campo: atores, procedimentos e desafios.
Ao chegar no prédio do centro da cidade em que fica a sede do Núcleo de Defesa dos
Direitos Homoafetivos e Diversidade Sexual (Nudiversis), fui atendido pela defensora N.
Expliquei meu interesse em acompanhar os atendimentos de pessoas não-binárias e ela me
explicou que o papel da Defensoria era coletar os documentos e encaminhar os pedidos de
ações daquelus que desejam fazer a requalificação. Ela recomendou que eu fosse à Justiça
Itinerante (JI) de Manguinhos/Fiocruz, na quarta-feira, pois todos os casos eram
encaminhados para lá.
Depois de 3 anos da ação que me beneficiou, chegar na Fiocruz foi reencontrar um
espaço familiar. No site dizia que os atendimentos eram de 9h às 15h e eu queria chegar lá
com tempo de acompanhar pelo menos um dos encaminhamentos. O caminho continuava o
mesmo, o ônibus da JI se encontrava estacionado em uma parte reclusa, mas relativamente
próxima à entrada da Rua Leopoldo Bulhões - mais perto da estação de trem de Manguinhos.
Ao chegar no meu destino, reconheci pessoas que se diferenciam da cisheteronormatividade
que estavam ali para receber as sentenças assinadas pela juíza. Fui até a entrada do ônibus
buscar algum contato e fui atendido por uma advogada do Centro de Cidadania LGBTI+ da
Capital, que me orientou a entrar em contato com Biancka, responsável pelos
encaminhamentos dos casos.
De prontidão, Biancka surgiu ao meu lado, me explicou que os atendimentos já
haviam acabado e eu questionei o horário colocado no site. Ela reconheceu a incongruência e,
com gentileza, me deu um folheto com as informações sobre o serviço, embora o documento
também repetisse o horário incorreto. O ponto mais marcante foi quando ela escreveu seu
número pessoal no papel, informando que seus atendimentos ocorriam todas as terças-feiras e
me convidando a acompanhá-los. Em seguida, Biancka me apresentou a Vitor, o técnico de
justiça da Justiça Itinerante — um homem cis, branco e gay. Conheci também a juíza, uma
mulher cis e branca, e o promotor, outro homem cis e branco. Essas apresentações me
permitiram apresentar minha pesquisa e ser convidado a frequentar a JI (Maré/Manguinhos)
uma vez na semana, todas as quartas-feiras, que eram os dias dos atendimentos de retificação.
Com o princípio de ampliar o acesso à Justiça em regiões comumente negligenciadas e
fomentar cidadania por meio de atendimentos à população, a Justiça Itinerante é um programa
do Tribunal de Justiça do estado coordenado pela Divisão de Justiça Itinerante (DIJUI). Sua
arquitetura consiste em um – literal – ônibus, separado em quatro salas: a entrada, parte do
motorista, semelhante à de um ônibus comum de viagens; a da/o/e defensora/o/e, com uma
mesa para atendimento e uma impressora ao lado; a dos técnicos de justiça e estagiários, que
costumam fazer a gestão dos atendimentos em suas mesas e com os computadores do
programa; e a última, com uma mesa virada de frente à entrada do veículo, sendo a do/a/e
juiz/a/e com um/e/a promotor/e/a auxiliando.
Até o início de 2024, quando iniciei meu trabalho de campo, os casos de
requalificação civil para pessoas trans/não-binárias eram praticamente todos encaminhados ao
ônibus da JI estacionado na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), localizada em Manguinhos. O
motivo dessa concentração de casos era simples: a “gambiarra burocrática” que esses
servidores conseguiram fazer para maximizar o alcance do serviço, beneficiando pessoas de
diferentes localidades do estado.
Por meio de uma parceria com o Instituto Nacional de Infectologia (INI), também
localizado na Fiocruz, tornou-se possível atender as demandas das pessoas que vivem mais
distantes do raio de atendimento da Justiça Itinerante. Na secretaria do Instituto, as pessoas
interessadas podem preencher a ficha de cadastro da Defensoria Pública, entregar as cópias
dos documentos necessários e obter um número de protocolo de atendimento. Para atribuir
competência territorial, esse protocolo estabelece um vínculo formal entre a pessoa atendida e
a Fiocruz, permitindo que o processo de requalificação civil as contemple. Assim, com um
comprovante de residência do estado e o número de protocolo fornecido pelo INI, torna-se
viável alcançar o público que reside nas regiões mais afastadas da zona metropolitana do Rio
de Janeiro.
Essa colaboração foi motivada, sobretudo, pela quantidade expressiva de pessoas trans
que o INI acolhe, não apenas para tratamentos médicos e profiláticos, como a PrEP, mas
também para encaminhamentos cirúrgicos e suporte na transição de gênero. As filas para
obtenção de remédios gratuitos na farmácia enchem desde cedo, e é possível perceber a
presença de muitas pessoas dissidentes de gênero, principalmente mulheres trans e travestis.
Este foi um ponto surpreendente da pesquisa, por eu não imaginar que um instituto voltado
para área de infectologia reuniria um público LGBTNAP+ tão grande. Uma das minhas
interlocutoras, Giselly, uma mulher trans, afirma: A Fiocruz é uma mãe.
No prédio de Ensaios Clínicos do Instituto, pude acompanhar o trabalho da Biancka
Fernandes, educadora comunitária e coordenadora do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça
da Fiocruz, além de uma das lideranças da equipe jurídica do INI. Biancka, que diariamente
acolhe muitas pessoas trans, explicou como sua atuação começou a transformar o espaço
institucional. Incômodos com prontuários contendo nomes errados a levaram a questionar a
administração do Instituto, o que resultou na implementação do uso de nome social nas
identificações de pacientes, formalizada pela Cooperação Social da Fiocruz.
Ela destacou que suas iniciativas, como a política de contratação de pessoas trans em
todos os setores da Fiocruz — o que aumentou significativamente a empregabilidade dessa
população —, é fruto de uma construção coletiva, envolvendo as vivências das pessoas trans
que atravessam o Instituto, incluindo as quatro outras travestis que trabalham no INI. Sua
busca por transformar o espaço institucional reflete a vontade de “acabar com as violências
constantes”. Por mais que sua formação seja em pesquisa clínica, a posição política que seu
corpo trans a circunscreve, fez com que a direção a colocasse no comitê para representar a
unidade de infectologia.
Observando a posição dos atores para a efetivação do acesso, é possível concluir que
se não há agentes que fomentem e reforcem a necessidade de mudança, ela simplesmente não
acontece. Na prática, a requalificação civil para pessoas trans é um processo que transita entre
diferentes instituições e depende da articulação de esforços conjuntos. O INI e a Nudiversis
são responsáveis por captar o público e recolher as cópias dos documentos, e após o
recolhimento desses dados, o núcleo da Defensoria tem a função exclusiva de distribuir as
petições iniciais que serão deliberadas judicialmente pela juíza/juiz da Justiça Itinerante.
Além disso, diversos grupos, movimentos sociais e lideranças políticas têm se
articulado em parceria com a Defensoria Pública e a Justiça Itinerante para promover ações de
requalificação civil. Durante meu primeiro dia acompanhando os casos encaminhados para a
Fiocruz, conheci o assessor da deputada estadual Dani Balbi, GabVan. Figura conhecida pelo
transativismo54, GabVan tem como uma das suas principais causas a requalificação civil. Ele
viaja o Brasil inteiro ajudando pessoas que desejam fazer a alteração dos documentos,
orientando e fazendo associações desses grupos às defensorias de cada estado, organizando
mutirões e buscando atender as demandas de cada grupo. Uma de suas observações foi de
como, no Rio de Janeiro, a organização feita pelas três instituições (INI, JI e Defensoria
Pública) tem um efeito de fato facilitador para contemplar a demanda por requalificação. No
entanto, acompanhando os casos de perto, pude perceber muitos desafios nos processos das
pessoas não-binárias.
Entre essas dificuldades, estão as demoras nos cartórios, que, em alguns casos, levam
até dois meses para entregar a nova certidão, mobilizando argumentos de que estariam
deferindo o processo ou conferindo antecedentes criminais da pessoa antes de liberar a
documentação. Além disso, há situações em que os cartórios não estipulam um prazo claro
para a entrega ou sequer notificam quando o documento está pronto. Também testemunhei
casos em que as pessoas receberam apenas a certidão de inteiro teor ou apenas a certidão de
54 Movimento de ativismo que luta pelos direitos transgênero. Para compreender mais, ler Baptista 2021.
Disponível em: [Link]
nascimento, sendo obrigadas a recorrer novamente para obter a documentação completa.
Esses impasses trazidos pelos cartórios apontam para uma cultura que, na maioria dos casos,
visa o lucro por meio da burocratização dos processos. São raras as exceções em que se pode
reconhecer os esforços de alguns profissionais em tornar a população ciente de seus próprios
direitos e oferecer um serviço humanizado e justo.
Uma vez estabelecida minha rotina de campo na JI da Fiocruz, pude acompanhar o
procedimento interno da Justiça Itinerante para a emissão de sentenças, que consiste em
etapas que garantem a conferência de informações e a correta emissão do documento. O
processo começa com o acesso à área de já cadastrados do site “casadafamília”, criado por um
amigo do Juiz "pai da requalificação", apenas para esse serviço. Trata-se de um sistema que
emite a sentença com toda a fundamentação necessária, conforme o demarcador de sexo, e
que reúne os casos das pessoas que entregaram seus documentos no INI e cujos processos
foram distribuídos pela Nudiversis. A busca pelo caso da pessoa assistida pode ser feita pelo
número do processo, pelo nome social, pelo nome morto ou pelo CPF. Erros de digitação ou
acentuação atrapalham a localização do registro. Uma vez encontrado o caso, a equipe clica
na opção de alterar para verificar se todas as informações estão corretas.
Em paralelo, é necessário acessar o sistema da Justiça Itinerante, chamado DCP
(Distribuição de Controle de Processo), que funciona como o sistema oficial do tribunal. Ele
substitui os casos físicos armazenados em pastas, permitindo a visualização digital de todo o
processo, desde a petição inicial até o protocolo do INI e os documentos anexados. Nesse
sistema, a equipe verifica informações como o telefone de contato da pessoa assistida, seu
nome social, o protocolo da Fiocruz (que, em caso de ausência ou erro, é preenchido como
“SIGILOSO” para agilizar o procedimento), o nome do juiz ou juíza responsável, o
representante legal, e se há solicitação de alteração de sexo ou gênero. No campo sexo há as
opções: “masculino”, “feminino” ou “não binárie”, e a principal diferença entre as sentenças
de pessoas não-binárias e as demais está na fundamentação, especialmente em questões
previdenciárias, o que torna o documento um pouco mais extenso.
Após a conferência das informações, a equipe imprime a sentença, mas antes disso há
algumas opções: imprimir um resumo para conferência, que geralmente é revisado sem a
necessidade de impressão; imprimir as instruções sobre o que fazer após a decisão de
mudança de nome e gênero, embora, na prática, a versão diagramada pela Nudiversis seja
mais didática e utilizada com frequência; ou imprimir a sentença propriamente dita.
Após alguns meses inserido nesse mesmo cotidiano, os atendimentos que acompanhei
eram sempre os mesmos: o técnico de Justiça entrava em contato com as pessoas que haviam
sido registradas no casadafamília para irem assinar as três vias da sentença, uma para o
cartório, outra para a Justiça Itinerante e outra para ficar guardada com ela, podendo ser
utilizada para tentar gratuidade em demais órgãos de registro. Em seguida, os estagiários
orientavam o que fazer após a decisão em mãos e a pessoa assistida ia embora. Em certo
ponto, meu papel de pesquisador foi atravessado pela demanda de auxiliar nos atendimentos,
mas só se tornou crítico quando fui avisado de que os casos de requalificação seriam todos
enviados ao novo ônibus da JI da Central. Nessa transferência de campo fui posto na função
de registrar os casos no site casadafamília pelo juiz responsável pela JI da Central. Também
me foi disponibilizado o acesso a uma base de dados com um login feito pelo próprio juiz.
Tudo isso supôs um certo protagonismo que resultou, por exemplo, na organização do mutirão
que descrevo na seção 3.3.
Paralelamente ao meu trabalho de campo, eu também estava inserido em um grupo de
WhatsApp dedicado a encontros de pessoas não-binárias e entrei para a organização do maior
Encontro Não-Binárie realizado no Brasil até então. A proposta era transformar esse grupo em
um movimento maior, de representatividade não-binárie do Rio de Janeiro e luta por garantia
de direitos. Durante a visita à Justiça Itinerante da Central, reencontrei GabVan, que sugeriu a
realização de uma ação de retificação no Dia Internacional da Visibilidade Não-Binária 55, a
mesma data que estipulamos para o Encontro NB. As ideias casaram e esse primeiro passo
dele serviu de semente para transformar as conexões que fiz em campo em uma ponte para a
promoção de um mutirão dedicado exclusivamente à população não-binárie. Os passos
seguintes ficaram sob minha conta e das pessoas do Encontro NB RJ, que, posteriormente,
deu origem ao CoNB RJ56.
3.2 Como se dá a requalificação civil na prática: O cansaço invisível
Nesta seção, pretendo apresentar com mais detalhes os casos de Mori e Eco, que
acompanhei ao INI para levarem suas documentações e darem entrada no processo de
alteração de documentos, além do meu próprio processo e as experiências que tive ao longo
dos anos sendo uma pessoa “retificada”.
55 A data é a interseção entre o Dia da Mulher (8/3) e o Dia do Homem (19/11), dia 14 de Julho.
56 Conto nas seções que se sucedem mais detalhes desse processo.
Em certo ponto da minha pesquisa, percebi a ausência de histórias específicas. Essa
lacuna me fez refletir sobre o papel da antropologia e sua metodologia: narrar fatos vividos
empiricamente. Como a maioria das pessoas atendidas pela Justiça Itinerante não eram não-
binárias, e quando eram, elas já haviam dado entrada no processo, eu senti a necessidade de
buscar histórias que partiam do “ponto zero”. Lembrei que fazia parte do grupo de WhatsApp
de encontros de pessoas não-binárias do Rio de Janeiro, o Encontro NB RJ, e decidi perguntar
se alguém já havia iniciado ou pretendia dar entrada no processo de requalificação.
O contato com meus interlocutores se deu de forma simples. Apresentei a proposta da
minha pesquisa e expus meu desejo de acompanhar os casos desde a solicitação. Muitas das
pessoas não conheciam esse serviço e eu fiquei encarregado de apresentá-lo e desmistificá-lo,
propondo fazer uma “excursão” à Fiocruz para que, quem tivesse interesse, levasse os
documentos e desse entrada no pedido de retificação de prenome e gênero. Algumas pessoas
demonstraram interesse em ir, mas no fim, apenas Eco e Mori se comprometeram de fato.
Durante nossos encontros, emergiram diálogos interessantes e relatos sobre tentativas
anteriores, que ilustraram as dificuldades de acesso e o complexo entendimento dos processos
burocráticos envolvidos57.
Eco foi uma das primeiras pessoas a responder à minha mensagem no grupo e, embora
demonstrasse interesse, estava cheio de dúvidas. Elu disse que queria mudar os documentos,
mas preferia esperar “até dar pra colocar NB”, porque “só o nome” não valeria a pena.
Expliquei que a alteração para “sexo não-binárie” já era possível e compartilhei como foi a
minha própria experiência. Paralelamente, enviei uma mensagem ao Vitor, técnico da JI
(Maré/Fiocruz), perguntando sobre o primeiro passo para quem desejava iniciar a retificação e
se havia a possibilidade de fazer algo online ou se seria necessário ir presencialmente ao INI
para entregar os documentos. A resposta veio rápida, pois era uma mensagem padrão enviada
àquelus que buscavam orientação inicial:
“Boa tarde. Vc tem que levar as cópias de RG, CPF,
comprovante de residência e certidão de nascimento na
Fiocruz-INI-Conteiner da prevenção, numa terça-feira na
parte da manhã. Posteriormente seu pedido irá pra
Defensoria Pública, assim q a Defensoria transformá-lo num
processo, agendo com vc para retirada da sentença. Att”.
57 No tópico 2.2 narro algumas dessas dificuldades.
Eco, no entanto, pediu alguns dias para reunir os documentos necessários. Foi aí que
surgiram mais dúvidas: como conseguir o número do CPF que não constava em seu RG
(expliquei que poderia ser obtido pelo site da Receita Federal); se o fato de sua identidade
estar com um nome social que ele não usava mais comprometeria o processo; se a mudança
afetaria sua entrada em países que proíbem pessoas LGBTQIA+; e como proceder sem um
comprovante de residência em seu nome, questionando se uma declaração seria suficiente.
Enquanto discutíamos, Eco fez uma confidência: achou o processo fácil demais para
ser verdade. “Parece um plano de cinco anos pra resolver…”, e eu fui sincero ao dizer que, na
verdade, é uma vida resolvendo. Apesar disso, concordamos que é preciso partir de algum
lugar e finalizamos o planejamento. Marcamos o dia, enviamos a mensagem no grupo, e
algumas pessoas demonstraram interesse. Para facilitar a organização, criei um novo grupo
chamado “Retificaçãum NB”, onde continuaríamos as conversas e o acompanhamento dos
passos necessários.
Com o grupo montado e data marcada, fomos para a Fiocruz de trem, pegamos o
carrinho da instituição e fomos até o Instituto de Infectologia levar as cópias dos documentos.
Na secretaria do INI, fomos atendidos por duas funcionárias que solicitaram todos os
documentos previamente mencionados, além do número da carteirinha do SUS, para poder
realizar o vínculo dus assistides com a instituição. Eco enfrentou dificuldades em obter o
número e demonstrou certa desorientação no processo. O problema foi resolvido com a
instalação do aplicativo do SUS no telefone e a recuperação do login pelo número de CPF. Ao
finalizarmos o atendimento, Eco perguntou se era para deixar a versão original da certidão de
nascimento com as secretarias, e nós orientamos que não, os documentos exigidos são apenas
cópias. Felizmente, elu lembrou que trouxe consigo uma cópia autenticada, o que possibilitou
a troca do documento.
Em relação à declaração de residência, que havia surgido como dúvida, ela é exigida
em casos de pessoas que não possuem comprovantes no próprio nome e, normalmente,
precisa ser redigida a próprio punho por responsáveis legais, como pais ou outros indivíduos
com vínculo oficial com o imóvel. Esses responsáveis podem ser proprietários, locatários ou
moradores que formalizem sua relação com o endereço por meio de documentos que
comprovem a titularidade ou vínculo residencial, além da ligação com a pessoa que solicita o
comprovante. Porém, a secretária que atendeu Eco não aceitou a declaração feita pelo pai e
exigiu que ele mesmo assinasse uma declaração emitida pela Defensoria Pública, apesar de as
informações fornecidas serem as mesmas.
A assinatura dos papéis foi realizada com os nomes sociais que se tornariam o registro
oficial, sem que os nomes sociais incutidos nos documentos interferissem nos escolhidos para
a alteração do registro. Após a entrega dos documentos, Mori recebeu um número de
protocolo do INI, que teoricamente seria necessário na Justiça Itinerante – na prática, o
técnico consulta diretamente no sistema do casadafamília. No entanto, Eco não recebeu o seu
número de protocolo. Ainda assim, isso não representava um impeditivo para o atendimento,
pois, caso fosse necessário resgatá-lo, ele poderia ser facilmente acessado posteriormente.
Infelizmente, no caso de Eco e Mori, o acesso à retificação nunca foi alcançado. Esse
fato aparenta ser reflexo de uma diferença dos atendimentos individuais aos atendimentos
coletivos, como os realizados em mutirões. Embora o coordenador da Nudiversis defenda o
modelo de atendimento “pingadinho” — em que o fluxo é organizado para um pequeno
contingente de pessoas, facilitando o manejo da demanda —, muitas pessoas acabam
desassistidas, com seus documentos engavetados e suas petições iniciais nunca formalizadas.
Na primeira ação, realizada em 2021, a situação não era muito diferente do que é hoje:
pessoas não-binárias recorreram à Defensoria Pública para emitir um ofício solicitando um
terceiro gênero, enviaram seus documentos por um canal de WhatsApp do Nudiversis e foram
encaminhadas ao ônibus da Justiça Itinerante em Manguinhos para receber as sentenças
assinadas no dia 28/11. Durante o meu atendimento, a estagiária da Defensoria me enviou a
ficha de cadastro e a declaração de hipossuficiência para preencher, e eu as encaminhei pelo
próprio chat de WhatsApp, junto aos demais documentos — RG, CPF, comprovante de
residência e título de eleitor.
Além disso, foi solicitado um relato de caso, do qual o trecho que inicia este trabalho
foi extraído. Basicamente, tratava-se de uma redação em que eu deveria declarar minha
transgeneridade, apontando “comprovações do meu relato”, como “fotos, vídeos, gravações,
testemunhas, etc.”. Eu cheguei a questionar a relevância deste relato, e alegaram ser “parte do
protocolo”. Não há dúvidas de que, em comparação aos processos que exigiam laudos
psiquiátricos e cirurgias de redesignação sexual, esse tipo de procedimento é uma mera
formalidade, porém, há algo de vexatório no reduzir a própria experiência de ser a um “relato
de caso” que depende de testemunhas para se legitimar. Denuncia um sistema que mantém a
cisgeneridade como norma, e os corpos trans como desviantes, sem um real reconhecimento
de igualdade.
Após receber a sentença e ir ao meu cartório de registro, este ficou responsável por
avisar quando as certidões estivessem prontas, mas solicitou que eu entrasse em contato para
obter informações sobre o andamento. Contudo, por mais facilitado que seja o acesso às
sentenças favoráveis, as certidões novas são apenas uma pequena parcela de um longo
processo. Com as novas certidões de nascimento e de inteiro teor, eu e as demais pessoas
beneficiadas pela ação poderíamos retificar os outros documentos, como a carteira de
identidade, o título de eleitor e o CPF. Perante a desintegração e falta de uniformidade dos
sistemas nacionais de identificação civil, retificar documentos acaba sendo um exercício
contínuo e solitário. A partir do momento que se tem a certidão retificada, a pessoa fica
jogada à própria sorte para correr atrás das demais alterações, sem a garantia de gratuidade de
justiça.
Seguindo a cartilha elaborada pela Defensoria Pública, JI e o programa
TransGarçonne da UFRJ58 destinada a orientar o público sobre a requalificação civil,
apresentarei o passo a passo para a solicitação dos demais documentos, conforme me foi
entregue na ação da qual participei. É importante destacar que, em alguns casos, determinados
documentos são exigidos como requisito para a emissão de outros. No entanto, essa ordem
nem sempre é (ou precisa ser) rigorosamente seguida.
O primeiro documento que serve como base para os atos de mudança de nome e
gênero nos demais registros é a Certidão de Inteiro Teor. Este documento atesta o nome e o
sexo anteriores, assim como a alteração para a nova forma de reconhecimento. Ele funciona
como prova para as demais instituições de que a mudança foi realizada, devidamente
autenticada pelo cartório, e que é necessário atualizar essas informações nos sistemas.
Contudo, a demora dos cartórios para entregar a nova certidão foi um problema recorrente –
em alguns casos, a espera durou até dois meses. Uma das justificativas apresentadas foi a de
que o cartório estava deferindo o processo e verificando os antecedentes da pessoa para
liberar a documentação. Além disso, houve situações em uma pessoa barrada na porta do
cartório e impedida de pegar o documento novo simplesmente por estar usando uma roupa
“muito curta”.
58 “O TransGarçonne é um programa de extensão universitária da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) que promove ações gratuitas com o objetivo de fortalecer as trajetórias de vida e de trabalho da
população trans.” Trecho retirado da matéria: [Link]
Entre os casos mais recorrentes nos cartórios, houve situações em que estes não
entraram em contato para estipular um prazo para a entrega do documento, além de episódios
em que as pessoas receberam a certidão com o sexo errado ou apenas uma das certidões (de
nascimento ou de inteiro teor). Diante dessas falhas, as pessoas atendidas precisam tomar a
iniciativa de buscar informações e corrigir os erros para garantir o acesso à sua cidadania
plena.
A situação é ainda mais complicada para pessoas com filhes. Nina, por exemplo, ao
tentar retificar a certidão de sua cria, enfrentou cobranças abusivas nos cartórios, mesmo
apresentando a sentença judicial que garantia o direito. A justificativa do cartório é de que a
decisão era para Nina e não para a criança, e exigiu uma taxa de 800 reais que, na virada do
ano, passaria de R$1000. Segundo uma das pessoas não-binárias atuante na área do direito
que contribuiu para o recolhimento de dados de dificuldades enfrentadas por pessoas nb
durante o processo de requalificação no Rio de Janeiro: “Isso pode ser resolvido no
NUDIVERSIS, no NAC (Núcleo de Atendimento do Cidadão) ou no Centro de Cidadania
LGBTI+, que emitem documentos que dão isenção às taxas.”. Entretanto, Nina não chegou a
acionar esses órgãos, ainda.
Uma das pessoas, nascida na Alemanha e registrada em Brasília, trouxe a questão para
o campo: o que acontece com aquelus que residem no Rio de Janeiro, podem ser atendides
pela Justiça Itinerante (JI), mas têm seus registros em cartórios de outras localidades? Nesses
casos, o técnico jurídico, como Vitor, precisa abrir uma solicitação formal para o cartório
responsável no estado de origem da pessoa. Em seguida, é necessário aguardar o envio dos
documentos para o Rio de Janeiro. Assim que os documentos chegam, o técnico de justiça
entra em contato com a pessoa atendida para buscar as certidões. No entanto, no caso de Gau,
registrado em São Paulo, a demora para receber a documentação nova foi tanta, que ele optou
por fazer a viagem até a cidade de origem para emitir a nova documentação.
Em seguida, caso a pessoa seja casada ou divorciada, é necessário comparecer ao
cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais (RCPN) onde o casamento foi registrado para
solicitar a alteração. No caso de Antônio, que acompanhei durante o mutirão promovido por
nós, do Coletivo Não Binárie do Rio de Janeiro (CoNB 59), ao chegar ao 4º RCPN do Rio de
Janeiro, um funcionário informou que, por elu ser uma pessoa divorciada, sua ex-cônjuge
59 Na seção 3.3, apresento com mais detalhes o mutirão promovido por nós, do Coletive Não Binárie do Rio de
Janeiro, uma iniciativa que teve origem no Encontro NB RJ.
deveria assinar um “termo de ciência” autorizando a alteração do nome na certidão. O termo
entregue pelo cartório consistia em uma declaração em primeira pessoa, com lacunas a serem
preenchidas pela ex-companheira, referindo-se a ela como “concordante”. Sem a “ciência” e o
“acordo” de sua ex, Antônio não poderia avançar para o próximo passo: a emissão de seu
novo RG.
No Rio de Janeiro, o órgão responsável pela emissão do Registro Geral (RG) é o
DETRAN. Para agendar um horário, é necessário solicitar a segunda via da carteira de
identidade e escolher uma das unidades disponíveis. No entanto, é comum haver reclamações
sobre a dificuldade de encontrar cartórios acessíveis e com horários viáveis, especialmente
para aquelus que trabalham. Para quem não encontra opções de agendamento adequadas, resta
a tarefa de acessar o site em horários específicos, como às 10h das manhãs de segunda e
sexta-feira, quando novos horários são disponibilizados. Ainda assim, essas vagas costumam
ser preenchidas rapidamente e muites permanecem com a Certidão de Inteiro Teor por meses
sem conseguir prosseguir com o processo. Vale salientar que o Registro Geral serve como
forma de garantia de segurança e autoestima no acesso a lugares, sendo o documento mais
exigido para a identificação civil. Contudo, ao finalmente conseguir agendar, a pessoa
atendida precisa apresentar o Comprovante de Pessoa Física (CPF), o RG antigo, a Certidão
de Inteiro Teor e o comprovante de pagamento do DUDA 60, estimado em R$51,18 hoje.
Atualmente, o DETRAN conta com mais de 10 tipos de marcadores de gênero diferentes para
registrar em seu sistema interno, e, aquelus que não estão registrades com uma das categorias
da dicotomia sexual “feminino” ou “masculino” são designades com um "X" na Carteira de
Identidade.
O passo seguinte é a atualização do Cadastro de Pessoa Física, o famoso CPF. Este é
um dos registros mais importantes de ser retificado, pois, é com esse documento que se
cadastra na maioria dos sistemas de identificação, como contas bancárias, plano de saúde,
matrículas em universidades, etc. Existem muitas instituições que usam de referência os
registros da Receita Federal para preencher os dados da pessoa atendida. No meu caso, foi
durante uma ida ao hospital que soube desse mecanismo. Mesmo apresentando minha carteira
de identidade já retificada na emergência, ao receber a pulseira de identificação, o nome
60 O DUDA (Documento Único do DETRAN de Arrecadação) é uma taxa emitida pelo Departamento de
Trânsito (DETRAN).
exibido era o meu nome morto. Assim, de forma inesperada e em um momento de
vulnerabilidade da minha saúde, descobri que meu CPF ainda não havia sido atualizado.
A alteração é possível de ser feita diretamente pelo site da Receita Federal, mas a
maioria das cartilhas orienta a enviar um e-mail a um canal de atendimento da Receita voltado
ao público trans, apresentando uma foto ou PDF da Certidão de Inteiro Teor, o RG atualizado
e o gênero com o qual se identifica. Apesar da suposta simplicidade do procedimento, muitos
relatam que, mesmo após seguirem os procedimentos indicados, enfrentam longos períodos de
demora, recebendo retorno apenas após insistentes pedidos repetidos por semanas ou até
meses. Em um caso que acompanhei, a solicitação de alteração foi condicionada à retificação
prévia do título de eleitor, um documento que, por sua vez, só poderia ser alterado após a
atualização do CPF no sistema da Receita Federal. Foi alegado que havia um “erro no
sistema”, colocando a pessoa em um ciclo burocrático sem saída. Para resolver a situação, foi
necessário recorrer novamente à via judicial e contar com o apoio de contatos internos na
Receita Federal. No fim do processo, é emitido um comprovante da Receita com o novo
nome, porém, por não contemplar marcadores de sexo além do binarismo sexual, mantem-se,
assim, aquele designado ao nascimento.
Para a atualização do Título de Eleitor, é possível requerer diretamente no site do
Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) ou em alguma unidade do Cartório
Eleitoral mais próxima. No site, são exigidas fotos da Certidão de Inteiro Teor, do RG e do
CPF já retificados, além de uma selfie61 segurando o próprio documento. Nos cartórios
eleitorais o atendimento é feito mediante agendamento prévio, em que os documentos
exigidos são os mesmos do site, com exceção da selfie, e o acréscimo de um comprovante de
residência – também já retificado ou no nome de algum parente da pessoa que está requerendo
a mudança. Embora o tempo de espera para a alteração normalmente seja curto, há casos em
que o processo demorou mais de um mês para ser concluído.
O que é essencialmente relevante em relação às reclamações sobre a demora nos
procedimentos é que, durante o período de espera, os direitos das pessoas ficam, na prática,
suspensos. Isso significa que elas enfrentam limitações no acesso a serviços básicos, como
saúde e educação, e também a direitos civis, como votar ou formalizar contratos, devido à
incompatibilidade entre seus documentos desatualizados e sua identidade reconhecida. Dois
exemplos disso são o meu caso e o de Igor Leonardo com o INSS, em que perdemos
61 Uma fotografia do próprio rosto.
oportunidades de trabalho e, além disso, enfrentamos grande estresse ao buscar informações e
auxílio para resolver a situação.
Durante a feitura desta pesquisa, tive a oportunidade de trabalhar em uma livraria para
compensar o baixo retorno financeiro que permeia a vida de um jovem universitário médio. O
trabalho envolvia atendimento ao público, contato direto com o mercado editorial e uma
rotina de dez horas semanais, aos fins de semana, em um shopping próximo à minha casa. Eu
adorava o trabalho e o realizava com dedicação, convivendo com boas companhias em um
ambiente agradável. Por ser em um shopping, a burocracia exigia que meu vínculo
empregatício fosse mediado por um contrato, e as donas quiseram me contratar com carteira
assinada apenas para os finais de semana. Eu nem sabia que isso era possível, mas aceitei na
hora. Elas me enviaram a “ficha cadastral do empregado”, e eu a preenchi até a parte que
exigia o número do PIS, contido na carteira de trabalho. Foi então que surgiram os problemas.
Atualmente, a Carteira de Trabalho é digital, e sua emissão depende de um cadastro no
site do governo ([Link]). Nada muito difícil, já que a digitalização dos documentos faz parte
de um projeto de governo para desburocratizar e “tornar mais acessível” o devir cidadão 62.
Contudo, ao solicitar a emissão da minha carteira, fui surpreendido por uma mensagem: havia
uma incongruência entre os dados da Receita Federal e do INSS. Isso aconteceu mesmo
depois de eu já ter regularizado minha situação na Receita Federal em março de 2022, que,
segundo as cartilhas de requalificação, uma vez atualizado o nome na Receita, o sistema do
INSS atualiza automaticamente. No entanto, o INSS não havia atualizado meu nome,
bloqueando a emissão da carteira.
No dia 9 de maio de 2024, entrei em contato com o INSS, que me informou sobre a
necessidade de comparecer presencialmente a uma agência com os documentos atualizados. A
data mais próxima disponível para atendimento era 27 de maio. Minhas chefes se mostraram
compreensivas e pacientes, concordando em esperar, acreditando que o problema seria
resolvido rapidamente. No dia marcado, compareci à agência do INSS e dei início ao processo
de alteração com certa dificuldade - os atendentes não faziam ideia do que eu estava exigindo
ali. Depois de muito explicar, consegui uma previsão de conclusão: disseram que estaria tudo
resolvido até 10 de junho. Mais uma vez, minhas chefes demonstraram apoio e concordaram
62 Para uma melhor contextualização sobre o surgimento do site [Link] e o projeto de desburocratização do país,
ver Peirano (2006).
em aguardar. No entanto, ao entrar em contato novamente no dia 10 de junho, fui informado
que o prazo real era, na verdade, de mais um mês.
Esse atraso foi a gota d’água. As proprietárias da livraria, apesar de toda a paciência,
não podiam mais esperar, pois seriam penalizadas com multa caso eu continuasse trabalhando
sem o vínculo empregatício regularizado. Assim, fui demitido. A incongruência nos sistemas,
a morosidade do INSS e a falta de profissionais capacitados para lidarem com um caso de
retificação de documentos afetaram não apenas a mim. O caso de Igor Leonardo relata sobre
os trâmites incansáveis que uma pessoa retificada precisa enfrentar, sem contar com as
transfobias direcionadas no caminho.
Retificado desde abril de 2024, Igor Leonardo estava em busca de emprego e
precisava de sua Carteira de Trabalho para a emissão. Assim como eu, ao acessar o site de
emissão da carteira, alegaram que haviam dados divergentes na Receita Federal. Diante disso,
começou uma verdadeira maratona de tentativas de contato com a Receita. Chegou a enviar
mais de um e-mail, mas os e-mails nunca chegaram ao destino. Tentou ir presencialmente em
duas ocasiões e, em uma delas, foi surpreendido com a informação de que o sistema estava
fora do ar. Voltou para casa sem resolver nada, tendo gasto passagens à toa. Finalmente, em
dezembro de 2024, conseguiu ser atendido presencialmente.
Durante o atendimento, a funcionária da Receita verificou os dados e afirmou que não
havia qualquer divergência registrada no sistema. Ele explicou que havia recebido a
notificação pelo site do INSS e, então, foi instruído a procurar o Ministério do Trabalho no
AeroTown. No ministério, a atendente, além de não poder resolver o problema de Igor, ainda
o fez passar pelo momento constrangedor de perguntar na frente de todos os atendentes e
assistidos qual seu nome “antigo”. Ele disse que não responderia a pergunta, pois só tinha um
nome: Igor Leonardo. No final do atendimento, a mesma atendente o orientou a comparecer
presencialmente ao INSS.
Na agência do INSS no Jardim Oceânico, que não exige agendamento prévio, foi
informado que questões como a dele não eram mais resolvidas presencialmente e que entrasse
em contato pelo telefone 135. Voltando para casa, percebeu que havia perdido sua carteira de
identidade no caminho. Hoje, Igor aguarda a emissão de uma nova carteira de identidade e a
atualização do processo iniciado pelo canal do 135. Os documentos necessários já foram
enviados como anexos e, ainda em janeiro de 2025, continua esperando por uma solução
definitiva, sem sua carteira de trabalho.
Uma das questões que é possível perceber durante o processo é o desânimo crescente
da pessoa de conseguir ter todos os documentos regularizados. Parece que toda vez surgem
novos “sistemas” que ainda precisam ser atualizados, em que precisa ser feita uma nova
solicitação, mais uma fila de espera e mais situações vexatórias com profissionais que não
compreendem os processos ou dão informações difusas. Como diz o interlocutor TH: “A
gente mata o nome morto 50 vezes (e parece que nunca morre)”.
No Sistema Único de Saúde, Nina deu entrada em uma Unidade de Saúde com o
pedido de retificar seu Cartão Nacional de Saúde (CNS) - Cartão SUS. Com apenas Certidão
de Inteiro Teor e RG retificado em mãos, a alteração foi realizada sem impasses e Nina
conseguiu ter seu cadastro atualizado. Contudo, ao ir tomar vacina, a atendente não achava o
cadastro delu para lançar a vacina. Ao buscar seu CPF no sistema, aparecia o nome morto, e a
atendente explicou que daria esse problema em todas as clínicas caso não fosse atualizado o
CPF dentro do sistema do SUS. Elu mostrou o comprovante da Receita com o CPF
atualizado, e outro atendente explicou que, por os sistemas não conversarem entre si, era
preciso fazer essa solicitação manualmente, gerando esse tipo de desconforto.
Para a emissão do passaporte, o processo é simples e também pode ser realizado
online. No site da Polícia Federal é possível acessar o formulário e preenchê-lo com seus
dados. Neste formulário existem dois campos interessantes que, apenas quem passou pelo
procedimento de requalificação é capaz de traduzir: “nome anterior” e “motivo da mudança”.
Caso a pessoa tenha tido um passaporte anteriormente, é preciso preencher o “nome antigo”
com o nome que consta no documento anterior, e na parte de “motivo” a pessoa irá preencher
“alteração por registro em cartório - provimento 73/2018 CNJ”. Após finalizar a solicitação, é
preciso pagar uma taxa sem previsão de isenção para qualquer pessoa.
Uma das etapas que também tem gerado problemas é o alistamento no exército.
Pessoas que requalificaram para não-binárie, mas foram designadas como do sexo masculino
ao nascimento, enfrentam barreiras para dar baixa no documento, mesmo quando fazem uso
de bloqueadores de testosterona e aplicam estrogênio para alinhar sua expressão de gênero ao
“feminino”. No caso de Ian, ao se matricular em uma universidade federal no sudeste, foram
enviados todos os documentos exigidos pela instituição, incluindo a certidão de inteiro teor,
que constava o sexo e o nome anteriores. Ao que tudo indica, a instituição cometeu um erro
na inscrição delu, resultando em uma pendência em sua matrícula: o certificado de reservista.
A coordenadora do curso lamentou ao afirmar que, para a emissão do diploma, o documento
de alistamento militar é necessário. O que não faz sentido nesta exigência é o fato de Ian ter
sido designado ao nascimento como do sexo feminino e, portanto, de acordo com leis que
ainda diferenciam os sexos de forma binária, a regra aplicada para pessoas não-binárias seria
manter o sexo de “origem”63. O que parece, nesse caso, é a interpretação binarista de sua
expressão de gênero a partir de seu nome, comumente atribuído ao público masculino.
Nos casos de cadastros privados, como bancos, empresas contratantes e planos de
saúde, as alterações precisam ser realizadas segundo as regras específicas de cada instituição,
sem existir um procedimento padronizado. Isso gera uma série de dificuldades e
inconsistências para pessoas não-binárias. Um exemplo visto em campo foram empresas
contratantes que, mesmo após a alteração do cadastro, insistem em utilizar o nome morto,
desrespeitando a identidade de seus funcionários. Outras instituições, como bancos, limitam o
reconhecimento da mudança ao registrar o novo nome no campo de "nome social", sem
efetivar a atualização completa no cadastro principal. Nesses casos, tem sido preciso ficar em
cima das empresas explicando de forma insistente a diferença entre nome social e de registro
para efetuar a mudança.
Nos planos de saúde, o cenário pode beirar o trauma. Há relatos de pessoas que
passaram anos sendo tratadas pelo nome morto devido à recusa das operadoras em atualizar
nome e sexo, sob a justificativa de exigirem uma longa lista de documentos. No meu caso,
mesmo quando esses documentos foram apresentados, a atualização não foi realizada. Foi
preciso que o dono da empresa que contrata o plano do qual eu faço parte acessasse o próprio
portal para poder realizar uma alteração no contrato. Tiveram outros casos que apenas a
abertura de um processo judicial resultou na retificação do nome – mas não do sexo.
Nos bancos, a alteração se mostra como uma das mais importantes no dia a dia dos
interlocutores. Por conta do alto fluxo de transferências bancárias, folhas de pagamento, uso
de cartões e demais trâmites bancários que permeiam o cotidiano, o nome de registro alterado
é um símbolo de alívio. Embora eu mesmo não tenha enfrentado muitas questões em alterar
63 Ler trecho da sentença que diz respeito às leis de diferenciação sexual para pessoas não-binárias na
introdução da seção 3.4.
meus documentos nas instituições nas quais tenho contas, foi comum ouvir relatos de
atravancamentos nos processos.
Conversando com o coordenador da Nudiversis em um dia na JI Manguinhos, ele
comentou sobre as diversas possibilidades que surgem mesmo após a requalificação civil.
Existem casos de pessoas que optam por alterar novamente o sexo registrado – como de
feminino para não-binário ou de não-binário para feminino – ou o nome. Eu testemunhei um
caso de uma pessoa que buscava a averbação de "indeterminado", por estar passando por
avaliação médica para descobrir se era intersexo. Ela foi orientada pelo defensor de que, nesse
caso, seria necessário um laudo médico, e que a entrasse em contato com a defensoria para
agendar um atendimento individual e estudar as possibilidades. Houve pessoas que desejaram,
assim que conseguiram a certidão nova, retificar de novo para fazer algum tipo de alteração
no nome ou, finalmente, alterar o campo sexo. No entanto, segundo o coordenador, até o
momento não foram atendidas pessoas que desejassem retornar ao nome ou sexo de registro.
3.3 Trabalho de campo: Produzindo no campo e para o campo64
Nesta seção conto sobre minha experiência de trabalho em campo, onde fui posto por
um juiz para registrar casos de requalificação, tendo acesso a todos os documentos e dados
das pessoas assistidas, além de um login próprio na plataforma. Ao longo do texto, também
aprofundo mais sobre a experiência de organizar um mutirão, e a participação ativa no
nascimento de um coletivo de pessoas não-binárias do Rio.
Quando fui avisado sobre a transferência dos casos de requalificação civil da JI
Manguinhos para o ônibus da Central, vivi um aperto no peito. Minha relação com meus
interlocutores da Justiça Itinerante da Fiocruz já estava consolidada, a rotina me trazia alegria
e meu peixe com legumes era pedido independentemente de eu ter chegado no horário. Eu
compreendia a forma de recepção e dinâmica deles, sendo convidado, muitas vezes, a
participar dos atendimentos. Por já ter sido contemplado por esse serviço, eu sabia falar em
primeira pessoa sobre os próximos passos a serem dados após a sentença.
64 Esse título faz alusão ao trabalho de Silvia Aguião (2014), em que a autora adentrou o trabalho de campo
com foco em observação etnográfica, e acabou por se envolver em parte do processo de implementação de um
programa do governo do estado do Rio de Janeiro. In.: AGUIÃO, Silvia. Produzindo o campo, produzindo para
o campo: um comentário a respeito de relações estabelecidas entre "movimento social", "gestão governamental"
e "academia". In: CASTILHO, S.; LIMA, A.; TEIXEIRA, C. (orgs.). Antropologia das práticas de poder:
reflexões etnográficas entre burocratas, elites e corporações. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2014.
Ao chegar na Justiça Itinerante da Central, me encaminhei para a última cabine do
ônibus, a sala do Juiz anteriormente mencionado, conhecido como o “pai da requalificação”.
Mesmo sem conseguir exprimir muitas palavras, me apresentei, disse que era estudante e
estava fazendo uma pesquisa para a minha monografia sobre o processo de requalificação de
pessoas não-binárias. Ele demonstrou saber quem eu era e pediu ao Técnico de Informática
que me desse um computador para eu ajudar com o registro dos pedidos no site casadafamilia.
Ele alegou ser “benéfico para a minha pesquisa” ficar registrando as pessoas no site. Em
menos de 10 minutos de interação eu já estava sentado, utilizando um computador do
Tribunal de Justiça e um login próprio na plataforma.
Por ser uma sede nova, os funcionários ainda não eram fixos, e havia uma rotatividade
de defensores, promotores e técnicos de justiça provenientes de outras itinerantes, dos quais
não conheciam os procedimentos específicos da requalificação civil, algo até então restrito à
JI da Fiocruz. Por isso, o dia não havia sido sistematizado, e as funções de cada um não eram
óbvias. Foi necessário que as duas mulheres presentes, Laura e Preta — técnica de justiça do
dia e estagiária de direito, respectivamente —, organizassem as etapas. Laura ficou
responsável por verificar o que estava "juntado" (categoria nativa), ou seja, quais documentos
já estavam registrados no DCP (sistema do cartório da JI), gerando os números de processo
(distribuição) e imprimindo-os. Enquanto isso, Preta ficou encarregada de redigir as petições
iniciais dos processos já enumerados por Laura. Minha função foi registrar as pessoas
atendidas no sistema casadafamília, garantindo o controle e o encaminhamento dos casos.
Uma das coisas que mais me chamou atenção foi que, na Central, os atendimentos são
realizados diretamente pelo juiz. Diferentemente da Itinerante em Manguinhos
(Maré/Fiocruz), onde os documentos são recolhidos no INI, distribuídos pela Defensoria,
juntados pela Itinerante, e as sentenças são impressas e assinadas antes do assistido ser
chamado para o atendimento, na Central tudo acontece ao mesmo tempo. Caso a pessoa esteja
esperando há muito tempo, o próprio juiz pode recebê-la, realizar o atendimento, cumprir
todas as etapas burocráticas e, em alguns casos, nem registrar no sistema casadafamília.
Diferente também da juíza de Manguinhos, que utiliza dois monitores para juntar a sentença
assinada ao processo e finalizá-lo no DCP, na Central os processos finalizados ficam sob
responsabilidade da estagiária e da técnica de justiça.
No ônibus, reencontrei GabVan. Ele se lembrou da minha pesquisa e comentou que,
desta vez, não havia trazido nenhuma pessoa não-binária para requalificação. Nosso contato
foi amistoso, e foi reconfortante ter alguém familiar naquele espaço. GabVan sugeriu que eu
informasse meu nome e pronomes aos presentes para reduzir os equívocos, mas, ainda assim,
precisei lidar com os erros recorrentes dos operadores de justiça. Esses erros expõem o
despreparo de muitos profissionais em relação às demandas específicas das pessoas trans.
Antes de partir, eu e GabVan tivemos a conversa sobre organizar a ação de requalificação em
massa para o Dia Nacional da Visibilidade Não-Binária.
A primeira medida tomada para executar a ação foi entrar em contato com as pessoas
da Justiça Itinerante de Manguinhos. Vitor topou, mas disse que eu precisava entrar em
contato com a Defensora N. apresentando a proposta. No primeiro momento, tive a impressão
de não fazer ideia do que estava fazendo, mas sabia que esse seria o teste para saber se eu
estava fazendo uma boa pesquisa. Então, fui com medo mesmo. Expliquei que realizaríamos o
evento em celebração ao Dia da Visibilidade Não-Binária no dia 14 de julho, um domingo, na
KuzinhaNem, uma extensão da CasaNem65. A ideia do projeto era organizar um mutirão com
foco na requalificação civil de pessoas não-binárias, em homenagem à data. Em relação à
logística, pretendia-se recolher, até o final do evento, o número de interessades em realizar a
requalificação e, posteriormente, encaminhar todos os documentos necessários até o final de
julho para que as petições iniciais fossem elaboradas. Embora a data da ação principal ainda
estivesse em aberto, a expectativa era que ela ocorresse em meados de agosto.
A proposta para o grande Encontro NB RJ foi um Arraial Julino, com comidas típicas,
frutas, almoço, suco e um galão de água decorado com luzes coloridas, todos disponibilizados
gratuitamente para es convidades. O evento contou com uma feira de exposição e vendas de
artes e adornos produzidos por pessoas não-binárias, além de performances, roda de conversas
e pronunciamentos para levantar as pautas do coletivo. Grandes figuras da cena trans, como
Indianarae, Gabvan e outras, estiveram presentes, contribuindo com pronunciamentos
emblemáticos para fortalecer e comunidade. A organização foi conduzida por nós do
Encontro NB RJ, contando com o apoio da KuzinhaNem, ABRANB, IBRAI e da deputada do
Rio de Janeiro Dani Balbi.
Durante minha fala no microfone do evento, anunciei que realizaríamos uma ação
organizada com a Defensoria Pública e a Justiça Itinerante no dia 28 de agosto. Para dar conta
65 “A CasaNem é um centro de acolhimento para pessoas LGBTQUIA+ em situação de vulnerabilidade social.
O objetivo da casa, além de abrigo para essas pessoas, é também qualificação, estudo e formação de projetos. O
projeto da CasaNem é um desdobramento do pré-vestibular “PreparaNem”, que começou em 2015.”. Trecho
retirado do site: [Link]
da demanda e manter os dados organizados, criei um e-mail apenas para receber os
documentos das pessoas interessadas, e uma das colegas da organização, Ocss, produziu um
formulário do Google para que is interessades preenchessem.
A defensora N., que ficou responsável por elaborar todas as petições iniciais e
distribuí-las para a Justiça Itinerante, já havia nos alertado sobre a alta demanda. Ela contava
apenas com o apoio de uma estagiária para dar conta das três ações de requalificação
programadas para o mês de agosto. Por isso, planejamos um prazo para o envio dos
documentos, mas, devido às circunstâncias, tivemos que estendê-lo até o dia anterior ao
evento para garantir que todas as pessoas interessadas pudessem participar.
As circunstâncias em questão foram resultados da falta de preparo e comunicação
entre as partes organizadoras. Algo que aprendi convivendo com pessoas ligadas à burocracia
e à política, como também através dos trabalhos de Roberto Kant Lima (2010), é que
informação é poder. Repassar as instruções e os combinados é um privilégio de quem está
muito bem posicionado como uma figura de interesse nesse contexto. Ninguém busca outra
pessoa por mera cordialidade ou coleguismo, para orientar sobre o caminho correto ou
esclarecer dúvidas. A circulação de informações geralmente segue interesses específicos, e
quem detém o poder tende a priorizar as ações que reforçam sua posição ou relevância. O
senso de companheirismo só parece ocorrer quando há interesses em comum em jogo. Como
o interesse de promover uma ação plenamente voltada para pessoas não-binárias era
majoritariamente meu, tive que correr atrás dos dados.
Preparei o formulário com Ocss, baseado nos documentos exigidos pela Fiocruz na
hora de recolher as inscrições das pessoas que desejavam retificar: RG, CPF, comprovante de
residência e número de cadastro no SUS. O Google Forms cria automaticamente uma planilha
com cada pergunta separada em colunas, organizando as informações de todas as pessoas de
maneira centralizada. No entanto, me pediram para transformar os dados de cada pessoa em
uma pasta no Google Drive. Isso geraria um trabalho desnecessário, do meu ponto de vista, já
que a defensora poderia simplesmente usar a planilha. Ela alegou estar sem acesso aos
documentos, mas bastava baixá-los. Essa organização paralela gerou ruídos.
Com a planilha pronta e os documentos de todes es interessades enviados, N. me
alertou que ainda faltavam dois documentos exigidos pela Defensoria Pública: ficha de
Cadastro e a Declaração de Hipossuficiência, que continham informações essenciais para a
elaboração das sentenças, pois eram citadas nelas e também integravam o banco de dados da
Defensoria para viabilizar esse serviço. Com apenas 20 dias até a ação, precisei mobilizar
participantes da organização do Encontro NB RJ para recolher esses novos documentos des
inscrites, enfrentando um fator dificultador: a necessidade de imprimir as fichas, enviar as
fotos delas preenchidas ou assinar digitalmente pelo site do [Link] – uma exigência para
garantir a validade das assinaturas.
Dentro de um grupo separado, criado especificamente para a organização da
requalificação na comunidade do Encontro NB RJ, os participantes se dividiram em equipes e
começaram a enviar mensagens pelo WhatsApp para agilizar o processo. Eu assumi a
responsabilidade pelos e-mails, já que tinha acesso à planilha de dados des inscrites. Não me
parecia ético compartilhar informações sensíveis (como o nome morto e o sexo designado ao
nascimento) com os demais integrantes do grupo. Dessa vez, porém, não pude evitar: foi
necessário criar pastas individuais para cada pessoa atendida, organizando os respectivos
documentos faltantes manualmente, uma a uma.
A equipe começou a agir rapidamente, enquanto N. me mantinha atualizade sobre as
pendências. A lista de desafios incluía: pessoas que já haviam concluído a retificação e não
poderiam participar; aquelas que não haviam especificado se desejavam alterar o sexo; quem
solicitou alteração no sobrenome; pessoas que enviaram RGs com nome de solteira, apesar de
estarem casadas (essas precisaram assinar a ficha com o nome de casada); inscrites sem
endereço ou comprovante de residência no próprio nome; e casos em que apenas o lado com
foto da identidade foi enviado.
Fiz de tudo para resolver todas essas questões antes do prazo de 14 de agosto, que N.
havia estipulado para concluir as requalificações. Apesar do esforço coletivo, só conseguimos
finalizar todas as pendências no dia 27 de agosto, um dia antes da ação, tendo dois ausentes,
pois não responderam aos nossos contatos.
O dia da ação foi um sucesso. Cheguei ao local às 8h30 com Gau, após pegarmos
metrô e trem. No caminho, compramos 20 pães e levei 10 tangerinas e 10 maçãs para um
pequeno café da manhã. Chegamos antes da juíza, do Vitor e da defensora. As mesas para o
mutirão já estavam dispostas do lado de fora, e algumas pessoas aguardavam pelos
atendimentos de serviço social. Muitos se dirigiam a nós com dúvidas sobre como proceder
ou com quem falar. A minha postura e familiaridade com o espaço fizeram com que alguns
assumissem que eu fazia parte da equipe oficial. Pedi mesas para organizarmos as comidas
que a equipe do Encontro NB disponibilizou.
Conversando com Gau, elu revelou ainda não compreender completamente o impacto
do que estava fazendo. Comentou que só entenderia plenamente quando tivesse os
documentos em mãos, mas, ao mesmo tempo, estava feliz. Enquanto os integrantes da
organização do Encontro NB RJ chegavam, montamos nosso setor de acolhimento e
orientação. Penduramos a bandeira do Encontro NB RJ em uma árvore e organizamos uma
mesa de café da manhã com direito à cachaça e cigarro. Ao final do evento, as comidas que
sobraram foram distribuídas entre as demais pessoas atendidas pela Justiça Itinerante.
Vitor chegou por volta das 9h15, e os outros integrantes da equipe, incluindo os
estagiários, chegaram logo depois. A juíza foi a primeira a se apresentar e, simpaticamente,
me cumprimentou mandando um beijo de longe. Organizei uma lista com a ordem de chegada
das pessoas para garantir prioridade no atendimento das sentenças. A pedido do Vitor, recolhi
os documentos de identificação (RG) de todas as pessoas presentes, incluindo aquelas que
chegaram atrasadas de atendimentos anteriores. Por conta disso, o número de atendimentos no
mutirão aumentou, totalizando 27 pessoas não-binárias e mais alguns gatos-pingados
“binários”.
As sentenças levaram algumas horas para serem preparadas, e, quando cerca da
metade já estava pronta, começaram os atendimentos. Foi necessário liberar uma das mesas
que estávamos usando para que a equipe pudesse entregar as sentenças e fornecer as
explicações necessárias. Vitor me perguntou se eu queria ajudar, e pela empolgação com tudo
que estava acontecendo, aceitei. Auxiliei no atendimento de cerca de 15 pessoas, entregando
as sentenças e explicando os próximos passos. Informei a todas sobre o grupo de
requalificação no WhatsApp da comunidade do Encontro NB RJ, onde poderiam compartilhar
o andamento dos casos e relatar quaisquer dificuldades.
Houve também casos de pessoas de fora do Rio de Janeiro, como quatro participantes
de São Paulo, incluindo Gau. Para esses casos, Vitor solicitou no final do dia que os cartórios
enviassem a documentação diretamente aos endereços de cada ume. Ele também forneceu seu
número de contato para que essas pessoas pudessem cobrar o envio das certidões. Expliquei
que, após as certidões estarem prontas, seria necessário seguir um passo a passo, como
atualizar o RG antes de emitir um novo CPF e as outras etapas subsequentes.
Durante o evento, entrevistei algumas pessoas, sempre pedindo autorização
previamente, e gravei as conversas no meu celular. Foram diálogos sem roteiro, que
trouxeram percepções preciosas e emocionantes sobre as experiências de quem participou -
alguns relatos foram retratados na seção anterior, 3.2. Ao final do dia, recebi uma marmita de
almoço e encerramos as atividades.
A juíza agradeceu, disse que gostaria de trabalhar conosco novamente, pois tudo foi
perfeitamente organizado e executado, sem dores de cabeça ou documentos faltantes. O
coordenador do Nudiversis reclamou das pastas separadas de RG, CPF, certidões e demais
documentos — disponibilizadas pelo próprio Google Forms — e enfatizou que nós, da
“ponta” dos mutirões, precisávamos “cooperar para que todas as documentações fossem
enviadas no prazo, evitando ‘travar’ o funcionamento do núcleo”. Mesmo com as
reclamações, perguntei sobre a possibilidade de estabelecermos um dia fixo no mês para que
nós, do Encontro NB RJ, levássemos pessoas captadas pelo coletivo para os mutirões de
requalificação. Garanti que já havia compreendido o processo e que, na próxima vez, não
haveria falhas nesse sentido, esclarecendo que o principal fator de atraso foram as fichas
cadastrais da Defensoria, que não tivemos acesso no primeiro momento. Ele explicou que não
tinha autonomia para formalizar parcerias sozinho e que precisaria recorrer à administração
superior para propor a institucionalização da nossa colaboração. Me orientou a produzir um
ofício formal, explicando o objetivo da parceria e solicitando o apoio da Defensoria, para que
ele pudesse encaminhar aos seus superiores.
O Encontro NB RJ, por questões internas e estratégicas, se reorganizou como CoNB
RJ – Coletive Não Binárie do Rio de Janeiro 66. Foi criada uma nova conta no Instagram para a
captação de integrantes e divulgação de nossas iniciativas e articulações não-binárias, além de
uma comunidade no WhatsApp estruturada em diferentes núcleos de atuação, como grupos de
estudo, ponto de acolhimento, parcerias, rolés, tesouraria, entre outros. Visando fortalecer a
comunidade, promover debates, fomentar a empregabilidade, produzir pesquisas e dados
sobre nossa população e propor políticas voltadas à garantia de nossos direitos, a missão do
CoNB é ampliar, defender e efetivar os direitos da comunidade não-binária. Os princípios de
afeto, alteridade, horizontalidade, autonomia, coletividade e interseccionalidade orientam
nossa atuação.
66 Link de acesso ao Instagram do coletivo: [Link]
O trabalho de campo, além de expandir minha perspectiva sobre os direitos políticos
do grupo minoritário do qual faço parte, me trouxe pessoas queridas e engajadas na
construção de mudanças estruturais e envolvidas com a política institucional, ampliando meu
horizonte de atuação para além das tensões individuais do cotidiano. É comum que pessoas
como eu, mis interlocutories e companheires de luta se sintam “maluques” por questionarem
certas lógicas que fundamentam nossa sociedade, descredibilizando o próprio entendimento
de si. O relato de Marini retrata como essa inconformação com a expectativa alheia gera
sofrimento, mas também, autopreservação:
“Sempre tive essa vontade, até quando eu era criança eu
me apresentava com outro nome, inventava outros nomes
para não ter que falar aquele. Então nome sempre foi uma
condição; você não ter nome você não existe e você ter
um nome que você não quer implica uma condição de
existência incômoda, invasiva, violenta. É muito
violento.”. (Marini, 2024, Fiocruz)
3.4 O Processo de Requalificação Civil como Rito de Passagem
“Apesar desta sentença reconhecer o direito da parte autora em ter seu registro como
não binárie, reconhece-se também que tais pessoas são invisíveis, eis que não há
previsão legislativa, não há leis específicas e políticas públicas adequadas que tutelem
tais indivíduos. Consequentemente, como forma de evitar que a parte requerente venha
a sofrer qualquer prejuízo, quando o exercício de direito e cidadania estejam atrelados
ao gênero binário, a parte poderá valer-se de seu gênero registral originário.” (Sentença
de Ação de Requalificação Civil para Gênero Não Binarie, 2024)
Para compreender melhor a posição jurídica-social de pessoas não-binárias, irei
apresentar a ideia de “ser-transicional” ou “persona liminar” de Victor Turner (1967). A teoria
de Turner sobre rituais de passagem, debruçada na percepção de Arnold van Gennep, é uma
abordagem antropológica que busca entender as transformações socioculturais ocorridas
durante os chamados ritos de passagem. Para esses autores, tais ritos são compostos por três
fases: separação, margem e agregação. O período de margem, ou também chamado de
liminar, é um momento de transição entre estados, onde qualquer tipo de condição estável é
temporariamente suspensa. Durante este período, o sujeito torna-se “estruturalmente, ou
mesmo fisicamente, invisível” (Turner, 2005, p.139), em que não é mais o que era e ainda não
é o que será.
A persona liminar se encontra em posição intraestrutural (Turner, 2005), ou seja, não
está presente na estrutura porque é uma condição transitória. O paralelo possível com as
identidades trans, em especial as identidades não-binárias, a meu ver, é que a estrutura política
binária vigente abjeta esses corpos e identidades às margens, mantendo-as suspensas em
condições intraestruturais. O exercício cidadão é limitado às leis que não especificam gênero,
só sendo possível garantir direitos que não exijam o cumprimento de uma definição binarista.
Os estágios definidos pelo autor nos ritos de passagem só são identificáveis no processo de
requalificação de pessoas trans “binárias”, pois o seu reconhecimento jurídico é possível em
todos os sistemas de identificação públicos e privados.
Sendo o campo do direito estruturante para a participação social, ele opera por meio de
categorias de identificação cidadã que, alinhadas ao pensamento de Turner (2005), podem ser
compreendidas como estados relativamente fixos e estáveis. No caso da transição entre
masculino e feminino, essa mudança pode e deve ser reconhecida por todos os sistemas de
identificação, pois não exige uma reestruturação dos registros, apenas a substituição de um
estado fixo por outro. No caso não-binárie, a pessoa não encontra uma posição fixa dentro do
sistema normativo, o que a coloca na condição de "ser-liminóide" (Turner, 2005). Diferente
da passagem entre dois polos predefinidos, sua existência não atravessa um estado de margem
para alcançar um novo ponto de chegada, pois "do outro lado" não há uma categoria
previamente legitimada. Assim, como afirma Turner (2005), os seres-transicionais, bem como
as pessoas não-binárias, “não estão nem vivos, nem mortos e, de outro [lado], estão vivos e
mortos. Sua condição é de ambiguidade e paradoxo, uma confusão de todas as categorias
costumeiras.” (Turner, 2005, p.141).
No penúltimo item da sentença de requalificação, que inaugura este subcapítulo,
evidencia-se justamente esse estado “invisível” de pessoas não-binárias nas estruturas legais e
administrativas que ainda delimitam direitos exclusivamente entre “homens” e “mulheres”,
sem estabelecer uma regulamentação que contemple especificamente pessoas dissidentes
dessa norma. Diante desses sistemas que perpetuam a separação binária de gênero, a
exigência de manter o “sexo de origem” nos cadastros implica a manutenção de um status
quo heterocisnormativo e de violência institucional sistemática, além de um silenciamento e
apagamento das demandas por legitimação de identidades que confrontam a lógica vigente.
Esse tipo de “solução” demonstra que, embora seja possível oferecer algum reconhecimento,
esse reconhecimento é limitado e condicionado.
Até 2021, o item da sentença finalizava com a seguinte formulação:
“Consequentemente, como forma de evitar que a parte requerente venha a sofrer qualquer
prejuízo, admite-se que não efetue a alteração do sexo constante da certidão de nascimento”.
Tal contradição, presente em uma petição que reivindica justamente a alteração de sexo na
certidão, admite a posição de um não-lugar reservado às pessoas não-binárias, forçando
muitas delas a recorrerem a soluções alternativas para afirmarem suas identidades nos
registros oficiais.
Pelo acesso garantido pelas decisões judiciais ao reconhecimento pleno do gênero
“nb” ser restrito às certidões de nascimento, sem a exigência de que os demais órgãos
públicos adequem seus sistemas para incluir esse marcador, muitas pessoas optam por
“hackear o sistema”67. Como afirma Peirano, “diferentes documentos enfatizam diferentes
modelos alternativos de cidadania” (Peirano, 2006, p. 39). Para acessarem esses tais modelos
alternativos, nos cadastros em que a opção não-binárie não é contemplada, muites inserem
identificações de sexo distintas, alternando entre feminino e masculino em cada um,
adaptando a autodesignação conforme o contexto. Essa estratégia, frequentemente necessária
para assegurar uma vivência digna e evitar situações constrangedoras, é enquadrada
juridicamente como falsificação ideológica, sujeitando indivíduos a possíveis acusações
criminais. Tal paradoxo evidencia um fracasso das instituições em atender às demandas
sociais, além de transferir a responsabilidade da inadequação estrutural para as próprias
pessoas não-binárias.
O modelo ideal na perspectiva de Turner seria, na fase inicial - equiparada à separação
nos ritos de passagem -, em que os indivíduos se distanciam e rompem com suas condições
anteriores, os não-binários se afastariam das categorias estritamente binárias e abandonariam
essa definição tradicional de masculino ou feminino em suas certidões. Durante o momento
liminar, onde o sistema legal ainda não reconhece plenamente essas identidades, e a
ambiguidade persiste na definição jurídica de gênero, esse indivíduo fica suspenso, sem
identificação. Contudo, na fase de agregação, ocorre a reintegração do indivíduo à sociedade,
agora em uma nova posição ou status. Idealmente, a etapa final do processo de requalificação
67 Para um aprofundamento sobre estratégias de “hackeamento da heterocracia”, ver: PRECIADO, Paul.
Manifesto Contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual. Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro.
Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
civil seria equivalente à agregação, onde a pessoa não-binária é reintegrada ao sistema legal
com sua identidade reconhecida e respeitada. Entretanto, não é isso que ocorre na prática.
Se uma pessoa requalifica seus documentos para “não-binárie” no Rio de Janeiro – ou
em qualquer outro estado do Brasil –, ela terá de enfrentar a exaustiva desintegração dos
sistemas de identificação civil, como já descrito. Apesar de retificada nas certidões, enfrentará
barreiras burocráticas, como no sistema do INSS, onde, além de não existir nenhuma regra
específica ou espaço para inclusão de um regime de aposentadoria para pessoas não-binárias,
a demora para alcançar a retificação do nome é penosa e impõe ônus práticos à sua vida
cotidiana68. Além disso, a dor da surpresa de abrir uma plataforma ou receber um e-mail em
que se referem a você com seu nome morto é equivalente ao conceito de “mal-estar”
mobilizado por Peirano (2006), como reconhecer uma falsificação da própria assinatura. No
entanto, é preciso pontuar que, ao ver o nome atualizado na plataforma, o que se sente não é
só alívio, mas uma euforia de estar nascendo de novo. Assim, afirma Turner, “o ritual é
transformador, e a cerimônia, confirmatória” (Turner, 2006, p.139).
Como já foi dito, por ainda não terem sido incorporadas à Constituição Federal – ação
que ainda demanda muitos debates e disputas políticas –, as identidades não-binárias não são
oficialmente reconhecidas, nem têm seu registro obrigatório em todo o sistema de
identificação público ou privado. Apesar de avanços jurídicos que possibilitam a retificação
das certidões, a ausência de reconhecimento institucional pleno mantém essas identidades em
um estado de liminaridade eterno, sem conseguir concluir o rito de passagem de um
entendimento identitário a outro. Essa condição de suspensão burocrática, na qual não há um
marco legal consolidado que reconheça a existência plena dessas pessoas, resulta em
apagamento, insegurança e soluções improvisadas para acessar direitos básicos.
Para que o ritual se torne completo, seria preciso tensionar com os fundamentos do
aparato jurídico e cultural do país; desbinarizar a Constituição. Isto é, para que o processo de
retificação de documentos para pessoas não-binárias no Brasil revele avanços, é essencial que
se crie espaço na estrutura sociocultural e jurídica para a inclusão definitiva dessas
identidades em seu sistema legal, garantindo que todes tenham acesso à cidadania de acordo
com seus entendimentos de si. Dessa forma, a luta pela inclusão das pessoas não-binárias não
se limita à retificação documental, mas exige uma transformação mais ampla, capaz de
68 Na seção 3.2 abordo com detalhes os ônus impostos pela demora do sistema do INSS com o meu caso e o de
Igor Leonardo.
assegurar que suas existências sejam reconhecidas e respeitadas em todas as esferas da
sociedade.
Conclusão
Finalizar um trabalho deste porte não é uma tarefa fácil. Acredito ser importante
pontuar que a intenção deste estudo não foi esgotar, nem estabelecer uma percepção única
sobre a não-binariedade e seus horizontes políticos. Ao adentrar o universo da militância, tive
contato com diversas pessoas que, assim como eu, se identificam fora do espectro tradicional
de gênero e, à sua maneira e entendimento, repudiam esse sistema heterociscolonial. Esse
percurso evidenciou que a luta por reconhecimento jurídico não se resume a um processo
burocrático, mas serve como ferramenta de disputas simbólicas e materiais por existência,
cidadania e dignidade. A requalificação civil de pessoas não-binárias, tema central deste
trabalho, revelou-se não apenas uma demanda por documentos adequados, mas uma
afirmação de identidades que desafiam a rigidez das normas estatais e sociais.
Dessa forma, a integração da não-binaridade ao aparato legal e social brasileiro
depende de reformas para garantir a igualdade, dissolver assimetrias sociais, reiterar o direito
à autodeterminação e viabilizar o reconhecimento pleno dos direitos civis para todas as
pessoas, independentemente de sua identidade de gênero. A analogia com o conceito de
“persona liminar” de Turner (2006), destaca o caráter intraestrutural, de remodulação do
sistema político, jurídico e social atribuído a tais identidades. A partir desta ótica, o “ser
liminóide” ou, a pessoa não binária, em seu estado de suspensão, tensiona com a estrutura
política vigente uma reconfiguração epistemológica do sistema classificatório que se pauta a
legislação brasileira
Sendo assim, o processo de retificação de documentos só será alcançado com plena
eficácia após a superação do atual modelo de registro civil, a ser modificado de forma que
compreenda as diversas representações possíveis do sistema sexo/gênero (Lando, Nascimento,
Monte, Queiroz, 2018). Assim sendo, a legislação atual, apesar de ter galgado melhorias para
o reconhecimento de identidades trans, precisa evoluir para acompanhar a compreensão
crescente da diversidade de gênero e romper com ideias estigmatizantes, discriminatórias e
marginalizantes.
As experiências narradas aqui, construídas a partir da pesquisa de campo, das ações do
CoNB RJ e da interlocução com diferentes coletivos e instituições, mostram que o direito,
enquanto campo estruturante, pode tanto produzir quanto tensionar as violências
cisnormativas. No entanto, também abre brechas para reconfigurações possíveis,
especialmente quando articulado com práticas de resistência e epistemologias decoloniais que
questionam as bases do binarismo de gênero.
Concluo, portanto, que o reconhecimento das identidades não-binárias vai além de um
ato jurídico. Trata-se de uma transformação epistemológica, política e social que exige o
enfrentamento das estruturas que insistem em invisibilizar existências dissidentes. Esta
pesquisa confirmou que a luta por um novo mundo é necessária e urgente. É preciso
pavimentar o caminho de quem vem depois, e essas iniciativas são cruciais em uma sociedade
fundada pela desigualdade, indiferença e marginalização de certos corpos e subjetividades.
Ainda há muito a ser feito, e este trabalho é apenas uma entre tantas vozes que se somam na
construção de um futuro onde a diversidade dos modos de ser seja não apenas tolerada, mas
legitimamente integrada e acolhida. Um documento, longe de ser apenas um papel, é um
símbolo pertencimento social, e a luta por espaço político, se faz em coletivo. Como afirma a
interlocutora Angel:
“É uma parada que a sociedade precisa entender que
existem pessoas dessa forma. Cada vez mais tratar isso
como uma coisa naturalizada, padrão. Acho que quanto
mais gente fizer isso, mais no futuro vai ser uma coisa
que as pessoas não vão achar estranho, não vai ser uma
dificuldade, vai ser uma coisa de maior acesso no restante
[aqui elu se referia a requalificação em outros estados, no
sentido de se tornar uma decisão para toda a federação a
possibilidade de implementação de sexo não-binárie nas
certidões]. Pega lá ‘no rio, tantas pessoas alteraram’, po,
tem mais necessidade de outras pessoas alterarem
também. Então eu acho que é uma coisa boa, tipo,
caramba! Até ali no nascimento tá dizendo que eu sou
uma pessoa não-binária, então acho isso muito maneiro.”
(Angel, 2024, Fiocruz)
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