Fundamentos do Direito Internacional Privado
Fundamentos do Direito Internacional Privado
Privado: fundamentos
e aplicação
Autor
Celso Gomes Polaino
Objetivos
Neste conteúdo, estudaremos a formação do Direito Internacional Privado na utilização dos
regulamentos internos e tratados dos Estados. Os temas a serem tratados serão:
fundamentos; ótica do Direito Internacional Privado; aplicação, normas e princípios do Direito
estrangeiro; estrutura da norma de Direito Internacional Privado; e princípios existentes no
Direito Internacional Privado. A partir desses conceitos, serão desenvolvidas competências
com habilidades de conhecimentos e interpretações das normas e dos tratados que estão
amparados no Direito Internacional Privado.
1
Direito internacional privado:
fundamentos e aplicação
1.1 Introdução
Apresentação
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Fonte: AmnajKhetsamtip/[Link]
Há diversos conceitos que procuram determinar esse Direito, porém, aquele tido como
adequado na atualidade, segundo a professora Maristela Basso, pertence ao professor Antonio
Boggiano: “[…] um sistema normativo destinado a realizar as soluções justas dos casos
jusprivatistas multinacionais, desde o ponto de vista de uma jurisdição estatal, de uma
pluralidade de jurisdições estatais a coordenar ou, raras vezes, da jurisdição de um tribunal
internacional” (Basso, 2011, p. 5).
Esse Direito pode, ainda, ser conceituado como um regulador das relações jurídicas que
abrangem efeitos em mais do que um ordenamento jurídico, visando assistir a regulamentação
das relações em um contexto de organização e de fortalecimento da globalização.
Enfim, constata-se que, além das normas processuais, há as regras “diretas” (demonstram
fatos e respectivas soluções de situações no âmbito da justiça privada com objeto estrangeiro)
e as “indiretas” (não demonstram fatos nem efeitos jurídicos, mas apontam a lei pertinente à
situação concreta).
Pessoas;
Bens ou coisas;
Fatos ou negócios;
Casamento;
Sucessão;
Processo.
Portanto, nesses casos, os “tipos de fato” podem ser classificados em: “fato comum” (regulado
exclusivamente por normas jurídicas internas), “fato estrangeiro” (regulado exclusivamente por
normas jurídicas estrangeiras) e “fato misto” (“fato comum” acrescido de um ou mais
elementos estrangeiros).
O Direito Internacional Privado estabelece a norma a ser aplicável nos casos envolvendo
“elemento estrangeiro” e “fatos mistos”. Logo, consoante Gustavo Ferraz de Campos Monaco e
Liliana Lyra Jubilut, aquele é entendido como “[…] o aspecto fático que faz com que a relação
jurídica envolva um fato misto, deixando de ser um tema a ser resolvido pelo Direito Interno e
passando a ser objeto do Direito Internacional Privado” (Monaco; Jubilut, 2012, p. 16).
Destarte, perante as diferentes ordens legais envolvidas nas relações jurídicas, aparece um
“concurso de leis” ou um “concurso de jurisdição”, que são objetos do Direito Internacional
Privado. Além disso, é imperativo destacar que a “Convenção de Direito Internacional Privado”,
mais conhecida por “Código de Bustamante” (ratificado no Brasil pelo Decreto n. 18.871/1929),
aborda as questões civis com implicações internacionais, compreendendo pessoas (por
exemplo, situações que envolvam nascimento, domicílio, pessoas jurídicas, direito de família
etc.), bens, obrigações, Direito Comercial e contratos.
1.2 Fundamentos
Constata-se que o Direito Internacional Privado existe em razão do intercâmbio de pessoas
entre os países nos mais diversos aspectos da vida humana naquilo que se refere à
globalização, ou seja, as relações jurídicas são diversificadas e ultrapassam fronteiras físicas e
humanas, bem como tangenciam os diversos tipos de bens (móveis ou imóveis, materiais ou
imateriais, fungíveis ou infungíveis etc.).
Existe aqui a vontade política e jurídica dos Estados que influenciam as integrações naquilo
que se refere à posição do direito estrangeiro nas relações humanas jurídicas, uma vez que as
normas do Direito Internacional Privado têm origem interna. Logo, há situações da norma
interna a motivar a aplicação de uma regra estrangeira de maneira direta ou indireta, isto é,
uma permissão para aplicação (em alguns casos) das normas de outro país, em um emprego
efetivo do “direito estrangeiro” no Brasil.
Fonte: baona/[Link]
Entretanto, essa “autorização” e essa “decisão interna” são condicionantes à aplicação e à
efetivação do Direito Internacional Privado. Isso é defendido por Gustavo Ferraz de Campos
Monaco e Liliana Lyra Jubilut (2012, p. 21), ao afirmarem que:
[...] tal abertura é uma precondição para a efetividade do Direito Internacional Privado, e
só irá ocorrer se os Estados se entenderem como parte de um todo, em que as pessoas
podem ter relações jurídicas com fatos mistos, e, portanto, não adotarem posturas
isolacionistas.
Com relação à “decisão interna”, tais autores enfatizam que “[…] o direito estrangeiro somente
será aplicado por decisão interna, não violando tal aplicação, desta maneira, a soberania
estatal” (Monaco; Jubilut, 2012, p. 21).
Assim, os objetos do Direito Internacional Privado, com fundamento na Escola Francesa, são: a
nacionalidade, a condição jurídica do estrangeiro, o conflito das leis e o conflito de jurisdições.
Mas a doutrina anglo-americana, que cognomina o Direito Internacional Privado em “conflict of
laws” (conflito de leis), restringe os objetivos aos conflitos das leis e de jurisdição.
O nome “Direito Internacional Privado”, criado por Joseph Story em “Commentaries on the Conflict
of Laws” (1834), foi aplicado por Jean-Jacques Gaspard Foelix em “Traité du Droit International
Privé ou du conflit des lois des differentes nations” (1843).
Em uma visão privatista, esse direito refere-se às hipóteses de aceitáveis soluções para as
situações de conflito de leis proporcionadas pelos ordenamentos nacionais às relações
jurídicas de natureza privada, implicando efeitos simultâneos em dois ou mais ordenamentos
jurídicos.
Ao mesmo tempo, na visão publicista, o direito internacional privado considera uma colisão de
soberanias legislativas originadas na esfera das relações privadas com ênfase na concorrência
de competências legais. Ou seja, se o Estado decidir empregar uma regra de um país
estrangeiro para resolver conflitos que tratem de relações jurídicas com elementos forasteiros,
haverá um reconhecimento formal e material de competência legislativa de outro país (Rozas;
Lorenzo, 1996).
Além disso, o Direito Internacional Privado pode abranger a “dimensão internacional” das
relações jurídicas entre titulares de Direito, originando a proteção de direitos no âmbito
internacional e no contexto extraterritorial. Logo, nessa conjuntura, o estudo de temas como
nacionalidade, condição jurídica do estrangeiro, conflitos de jurisdição e reconhecimento e
execução pela autoridade judiciária local de sentenças originadas em outros países far-se-ia
necessário (Dolinger, 2005).
Enfim, as normas de direito internacional privado são “[…] regras de aplicação, que se destinam
a indicar os casos em que normalmente se deve aplicar a lei nacional, e os que se deve julgar
normalmente competente a lei estrangeira” (Espínola, 1925, p. 337).
Assim, Maristela Basso destaca que, nessa perspectiva situada no “método clássico” ou
“contratual”, há uma sobrecarga da noção de “conflito de leis no espaço”, uma vez que o
magistrado, ao contemplar o fato ou a relação jurídica, necessitará:
1.4
Aplicação, normas e princípios do
direito estrangeiro
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Nesse contexto, no que tange à norma instrumental brasileira, ela determina que
qualquer das partes a alegar direito estrangeiro deve provar o conteúdo e a vigência,
desde que o juiz determine (Novo Código de Processo Civil, art. 376: “A parte que
alegar direito municipal, estadual, estrangeiro ou consuetudinário provar-lhe-á o teor
e a vigência, se assim o determinar o juiz”). De tal modo, o ordenamento jurídico
nacional autoriza ao juiz exigir a prova do texto e da vigência da lei estrangeira
invocada pela parte (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, art. 14: “Não
conhecendo a lei estrangeira, poderá o juiz exigir de quem a invoca prova do texto e
da vigência”).
A doutrina majoritária que estuda o “Direito Internacional Privado” compreende, ainda, que a
norma estrangeira deverá receber a mesma interpretação conferida no país de origem,
conforme ressalta Gustavo Bregalda Neves (2012) em seus estudos. No mesmo sentido,
Maristela Basso (2016) entende que o juiz nacional deve encontrar os métodos de
interpretação no país de origem da lei estrangeira que precisa ser aplicada ao caso em análise,
pois não é admissível interpretar uma norma forasteira sem se transportar a nação de origem a
essa lei. Luiz Antônio Severo da Costa (1968, p. 35), ainda, traz o entendimento de que “[…] a
interpretação da lei estrangeira deve ser feita no estado de espírito dessa legislação, pois os
termos, os conceitos e os institutos jurídicos têm o sentido e conteúdo que ali lhe são dados”.
Nesse sentido, o Direito nacional e o internacional são meios para se alcançar uma
mesma finalidade, que é a melhor administração da justiça (possível) dentre as
diferenças existentes.
Assim, para auxiliar nas efetivações desses tipos de julgamentos, ressalta-se a existência da
“Convenção Interamericana sobre Prova e Informação acerca do Direito Estrangeiro”, de 1979,
aplicável ao Brasil, visto que estabelece e permite às autoridades judiciárias ou eventualmente
outras autoridades de um Estado contratante solicitar informações sobre o texto, a vigência, o
sentido e o alcance legal do seu direito.
Serão considerados meios idôneos para os efeitos desta Convenção, entre outros, os seguintes:
Essa convenção foi reiterada posteriormente, em 1992, pelo “Protocolo de Las Leñas sobre
Cooperação e Assistência Jurisdicional” em matéria civil, comercial, trabalhista e administrativa.
Contudo, apesar dessa sistemática processual, existe o direito da lex fori (lei do local onde corre a
ação judicial), que se emprega aos casos de impossibilidade de aplicação do direito alienígena em
razão da indeterminação das partes na demanda.
Por conseguinte, em uma integração entre a “ordem pública interna” (que pauta as relações
jurídicas na esfera interna de uma nação, naquilo que se refere ao Direito Privado e ao Direito
Público) e a “ordem pública internacional” (que se apresenta no plano do Direito Internacional
Privado, bem como obsta e gere a aplicação do direito estrangeiro, o reconhecimento dos atos
executados e das declarações de vontade de fatos ocorridos no exterior e a execução de
sentenças proferidas por tribunais estrangeiros), o controle deve ser realizado por juízes e
tribunais, avaliando e decidindo sobre o que é ou não contrário à ordem pública brasileira.
Assim, devem ser estudadas as regras do Direito Internacional Privado naquilo que se refere às
normas indiretas, diretas e qualificadoras, bem como a estrutura da norma desse direito
quanto à unilateralidade, à bilateralidade e às medidas justapostas.
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A fonte da norma pode ser legislativa, doutrinária ou jurisprudencial; [...] pode ser interna
ou internacional, conforme sejam criadas pelos órgãos internos de um Estado ou em
coordenação com outros Estados por meio de tratados e convenções. Quanto à sua
natureza [...] é geralmente conflitual, indireta, não solucionadora da questão jurídica em
si, mas indicadora do direito interno aplicável, daí ser classificada como sobredireito.
Também existem normas substanciais, diretas [...]. No plano do direito convencional,
fonte internacional, as normas podem ser indiretas quando seguem o método conflitual,
como também diretas, quando adotam regras materiais uniformes. Existem ainda as
normas conceituais ou qualificadoras, que se restringem a definir determinados
institutos do Direito Internacional Privado. Quanto a sua estrutura as normas podem ser
unilaterais ou bilaterais (Dolinger, 1997, p. 47, grifo nosso).
O direito estrangeiro deverá ser provado, desde que os fatos ocorridos tragam a necessidade de
utilização desse direito.
[…] os fatos afirmados pelas partes hão de ser suficientemente provados no processo,
não sendo legítimo que o juiz se valha de seu conhecimento privado para dispensar a
produção da prova de algum fato de cuja existência ou veracidade esteja ciente por
alguma razão particular.
Enfim, ao adotar esse procedimento, haverá um respeito mútuo entre os países por meio do
Direito Internacional Privado, uma vez que proporciona um Direito da Integração, afastando-se
a ideia de supranacionalidade e afirmando uma alma internacional entre os Estados
envolvidos.
[…] não solucionam a questão jurídica propriamente dita, não dizem se a pessoa é capaz
ou incapaz, se o contrato é válido ou não, se o causador do dano a outrem é civilmente
responsável ou não, se certos colaterais herdam ou não, e assim por diante (Dolinger,
2011, p. 207).
De tal modo, vale ressaltar as características:
No ordenamento jurídico nacional, há algumas normas diretas que se relacionam com o Direito
Internacional Privado, como a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (Lei n. 12.376
de 2010, cuja antiga denominação era “Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro” e apresenta
as últimas atualizações efetivadas por meio da Lei n. 13.655 de 2018), artigo 7º, § 5º, que
possibilita ao naturalizado casado adotar o regime da comunhão parcial de bens:
Além disso, nessa convenção, pode ser sublinhado o artigo 53, ao regulamentar que “O
comprador deverá pagar o preço das mercadorias e recebê-las nas condições estabelecidas
no contrato e na presente Convenção” (Dolinger, 2011, p. 208).
1) pelo lugar da residência habitual; 2) pelo lugar do centro principal dos seus negócios;
3) na ausência dessas circunstâncias, considerar-se-á como domicílio o lugar da
simples residência; 4) em sua falta, se não houver simples residência, o lugar onde se
encontrar” (Dolinger, 2011, p. 209).
1.5
Estrutura da norma de Direito
Internacional Privado
1.5.1 Normas unilaterais x normas multilaterais
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Isto é, a lex fori é definida como o direito do país a que pertence o tribunal suscitado para o
julgamento de determinada causa ou sob cuja perspectiva se analisa uma situação
internacional. De tal modo, ocorre uma aplicação da própria lei nacional quando há um conflito
de normas, com fins a obter uma solução presente na diversidade.
Comparemos duas normas clássicas de DIP para apreender a distinção entre as normas
unilaterais e as bilaterais.
O Código de Napoleão, de 1804, prescreve em seu art. 3º, alínea 3ª:
As leis concernentes ao estado e à capacidade das pessoas regem os franceses,
mesmo residentes em país estrangeiro.
O art. 20 da lei italiana de 1995 manteve o princípio da nacionalidade como reguladora
da capacidade civil das pessoas em seu art. 20, com a seguinte redação:
A capacidade jurídica da pessoa física é regida por sua lei nacional.
Nessa disputa, houve uma globalização da norma, já que todas as pessoas humanas devem
obedecer às leis do seu país observando a nacionalidade. Logo, a outra regra concentra a
aplicação da lei para os pátrios.
Essa distinção pode ser demonstrada em um último exemplo, igualmente apresentado por
Jacob Dolinger, pela comparação entre uma regra italiana de 1942 e uma regra alemã de 1900,
conforme demonstrado:
As relações patrimoniais entre cônjuges são reguladas pela lei nacional do marido ao
tempo da celebração do casamento (Dolinger, 2011, p. 210).
A regra germânica, no art. 15, estabelecia:
O regime matrimonial de bens será regulado de acordo com as leis alemãs quando o
marido, ao tempo da celebração do casamento, for alemão (Dolinger, 2011, p. 210).
Afinal, essas regras utilizam técnicas legislativas diferentes, mesmo com iguais princípios: a
italiana responde à pergunta “Que lei se aplica?”, ao passo que a alemã responde à pergunta
“Quando se aplica a lei alemã?”. Todavia, mesmo com a técnica desigual e a essência
uniforme, essas regras também se destacam por apresentar o mesmo efeito, uma vez que os
tribunais expediram em toda parte as normas multilaterais, em contrapartida às regras
unilaterais tidas no conjunto de preceitos (Kahn-Freund, 1976, p. 88).
h31.5.2 Posicionamentos doutrinários (divergências)
Enfim, autores alemães como Von Bar e Schnell, acompanhados por Niboyet na França,
compreendem que o Direito Internacional Público veda a um Estado atribuir ou negar
competência à lei de outro Estado, isto é, a imposição de competência a quem não a deseja
implica tratá-lo como um desigual, uma vez que não deve existir competência imposta em um
âmbito de Estados iguais obrigados a se respeitarem (Mayer, 1977).
1.6
Princípios existentes no Direito
Internacional Privado
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Neste tópico, podemos verificar os princípios gerais aplicados ao Direito Internacional Privado
que, ao longo dos tempos, estão demonstrados nos tratados e nos costumes.
A doutrina, contudo, ressalta a boa-fé, a probidade, o direito adquirido, a segurança jurídica,
entre outros. Logo, há princípios capitais com finalidades de cooperação e assistência
jurisdicional essenciais ao Direito Internacional Privado, como o Protocolo de Las Leñas sobre
Cooperação e Assistência Jurisdicional em Matéria Civil, Comercial, Trabalhista e
Administrativa, de 27 de junho de 1992, consagrador dos princípios básicos da cooperação e
assistência jurisdicional.
Acesse a página na internet do Ministério da Justiça e Segurança Pública para conhecer e estudar
o Protocolo de Las Leñas, e ter acesso a ele pelo link: [Link]
[[Link]
internacional-em-materia-civil/arquivos/protocolo-las-lenhas/view] .
Por conseguinte, manifesta-se nesse protocolo o princípio da aplicação, uma vez que o âmbito
de emprego é a cooperação e a assistência jurisdicional em matéria civil, comercial, trabalhista
e administrativa entre os integrantes do Mercosul.
Contudo, nas relações entre os países, seja membro do Mercosul ou não, a comunicação
oficial/legal se faz por meio da carta rogatória (instrumento jurídico de cooperação entre dois
países). Ressalta-se a inexistência da obrigação legal de constituir um advogado no
estrangeiro para acompanhar essa carta, já que vigora o princípio da isenção de custas quanto
ao seu cumprimento.
Figura - Mercosul
Fonte: mtcurado/iStock
No contexto da interação entre os Estados, naquilo que se refere ao reconhecimento e à
execução de sentença e laudos arbitrais, os procedimentos que determinam a aplicação da
competência dos respectivos órgãos jurisdicionais, com fim ao reconhecimento e à execução
das sentenças ou dos laudos arbitrais, serão regidos pela lei do Estado requerido, consagrando
o princípio da execução de sentença no âmbito das conexões entre as justiças dos diferentes
povos.
Esses procedimentos têm por essência o princípio da garantia processual, ou seja, em nossa
pátria, há o artigo 5º, incisos XXXV, LIV e LV da Constituição Federal de 1988, que garante o
livre acesso à justiça para as pessoas para obter as execuções/efetivações (ou prestação
jurisdicional) dos seus direitos perante os tribunais brasileiros:
XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito;
LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal;
LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são
assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes.
No campo mundial, os mesmos direitos de acesso e de garantia são assegurados pelo Pacto
Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966), aprovado pela Organização das Nações
Unidas e pela Convenção Americana de Direitos Humanos de San José da Costa Rica (1969)
(Rechsteiner, 2008). Por conseguinte, há o princípio do instrumento público, que garante a
liberdade de um Estado-membro (por exemplo, do Mercosul) para expedir regras que
determinem a validade probante de atos ou de fatos jurídicos em outros países como se
tivesse ocorrido nos mesmos domínios territoriais desse Estado.
De tal modo, esse acondicionamento é de ampla valia prática, mas não escusa
automaticamente a legalização do documento, segundo as normas do país no qual será
oferecido. A imunidade de toda legalização, certificação ou formalidade análoga, entretanto,
está prevista pelo protocolo apenas para os documentos, “[…] como as escrituras públicas e os
documentos que certifiquem a validade, a data e a veracidade da assinatura ou a conformidade
com o original, e que sejam tramitados por intermédio da Autoridade Central” (Rechsteiner,
2008, p. 380).
Uma referência importante foi a elaboração da 37ª Convenção sobre Acordos de Eleição de Foro,
originada na Conferência de Haia de Direito Internacional Privado em 30 de junho de 2005
([Link] um marco ao convênio
sobre acordos de eleição de foro da Comunidade, em 26 de fevereiro de 2009 ([Link]
[Link]/ [[Link] ).
Dentre os tratados, o Brasil celebrou vários acordos bilaterais com outros países,
especialmente na área da cooperação judiciária em matéria civil, comercial,
trabalhista e administrativa. De tal modo, estão em vigor tratados desse gênero com
todos os parceiros do Mercosul, com a Espanha, com a Itália e com a França.
Assim, nesse contexto de tratados que regulam temas e assuntos de interesses internacionais
entre Países para evitar conflitos, ressalta-se que nos Direitos envolvidos o Direito
Internacional Privado proporciona meios de se alcançar uma boa administração da justiça
frente aos empenhos de homens de boas pretensões para se conquistar decisões
internacionais razoáveis e suficientes.
Para refletir
Imagine que ocorreu insuficiência de prova do direito estrangeiro em um determinado processo
judicial que envolva o Direito Internacional Privado.
Com relação ao conceito desse direito, observa-se que se trata de um regulador das relações
jurídicas com efeitos em diferentes ordenamentos jurídicos, mas sempre visando amparar as
regulamentações das relações, em um âmbito de organização e fortalecimento da
globalização.
Logo, há Direito Internacional Privado porque existem intercâmbios de pessoas entre os mais
diferentes Estados e nas mais múltiplas perspectivas da vida humana. Ou seja, as relações
jurídicas são diferentes e extrapolam fronteiras físicas e humanas. O direito internacional
privado também abrange a “dimensão internacional” das diferentes relações jurídicas, sempre
com foco na proteção de direitos no âmbito internacional e no contexto extraterritorial.
No ordenamento jurídico brasileiro há uma determinação de que qualquer das partes que
alegar direito estrangeiro deve provar o conteúdo e a vigência, desde que o juiz determine.
Nesse sentido, a doutrina majoritária do direito internacional privado entende que a norma
estrangeira deverá receber a mesma interpretação conferida no país de origem em território
brasileiro. O entendimento majoritário da doutrina brasileira caminha no entrosamento de que
os fatos julgados por um magistrado que necessitem das normas do direito estrangeiro
precisarão ser provados.
Autoria
Celso Gomes Polaino
Autor
Mestre em Ciências, na área Direito Penal, pela Faculdade de Direito da Universidade de São
Paulo (FDUSP), com orientação do professor titular Vicente Greco Filho. MBA em Gestão
Empresarial, na área Administração de Empresas, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Cursou
especialização lato sensu em Processo e Procedimento Eletrônico na Universidade Católica
Dom Bosco (UCDB), no Departamento de Direito Civil e Direito Processual Civil, e
especialização lato sensu em Direito Penal e Processo Penal na Universidade Gama Filho
(UGF). Estudou no Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). Integrou o Instituto dos
Advogados de São Paulo (IASP: Comissão dos Jovens Advogados). É funcionário do Banco do
Brasil S.A. e professor de cursos de pós-graduação em Direito Processual Penal e Direito
Internacional Privado no Instituto Phorte e na Central de Cursos (São Paulo/SP). Foi consultor
jurídico do Centro de Estudos e Pesquisas da Administração Municipal (Cepam). Lecionou
como professor assistente e substituto em Direito Processual Civil juntamente com o ex-
docente titular e atual Ministro do Superior Tribunal de Justiça-STJ Paulo Sérgio Domingues
na Faculdade de Direito de Sorocaba (Fadi). Advogado regularmente inscrito na Ordem dos
Advogados do Brasil do Estado de São Paulo (OAB/SP). Bacharel pela Faculdade de Direito de
Sorocaba (FADI).
Elementos
No contexto jurídico, “elementos” podem se referir a diferentes conceitos, dependendo do
contexto: a) Noção fundamental ou que compõe uma doutrina, como, por exemplo, a doutrina
dos elementos da razão pura de Kant; b) princípio de uma ciência; c) expressão de uma
realidade na qual se encontra um conceito, como, por exemplo, o conceito do elemento
negativo de Hegel; d) tudo que entra na formação de um ato, de um fato ou coisa; cada uma
das partes mais simples do todo composto, que pode ser identificado em qualquer ramo ou
instituto do direito material ou do direito formal; daí falar-se em elementos do direito, elemento
do negócio jurídico etc. Fonte: Diniz (2005, p. 328).
BASSO, M. Curso de Direito Internacional Privado. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2016.
BAPTISTA, O. Teoria Geral do Processo Civil. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006.
BUCHER, E. Vers une convention mondiale sur la compétence et les jugements étrangers. La
Semaine Judiciaire, n. 2, p. 77-133, 2000.
DINIZ, M. H. Dicionário Jurídico. 2. ed. rev. atual. e aum. São Paulo: Saraiva, 2005.
DOLINGER, J. Direito Internacional Privado: parte geral. 4. ed. atualizada. Rio de Janeiro:
Renovar, 1997.
DOLINGER, J. Direito Internacional Privado: parte geral. 8. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2005.
DOLINGER, J. Direito Internacional Privado: parte geral. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2011.
ESPÍNOLA, E. Elementos de Direito Internacional Privado. Rio de Janeiro: J. Ribeiro dos Santos,
1925.
MONACO, G. F. C.; JUBILUT, L. L. Direito Internacional Privado. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 16.
(Coleção Saberes do Direito, 56).
NEVES, G. B. Direito Internacional - 11. 4. ed. São Paulo: Saraiva 2012. (Coleção OAB nacional -
1ª fase).
RECHSTEINER, B. W. Direito Internacional Privado: teoria e prática. 11. ed. rev. e atual. São
Paulo: Saraiva, 2008.
ROZAS, J. C. F.; LORENZO, S. S. Curso de derecho internacional privado. 3. ed. Madrid: Civitas,
1996.
Bibliografia Geral
BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Decreto n.
6.891, de 2 de julho de 2009. Promulga o Acordo de Cooperação e Assistência Jurisdicional em
Matéria Civil, Comercial, Trabalhista e Administrativa entre os Estados Partes do Mercosul, a
República da Bolívia e a República do Chile. Diário Oficial da União, Brasília, 3 jul. 2009.
Disponível em: [Link]
[[Link] . Acesso em:
14 maio 2021.