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Complexidade na Pesquisa Interdisciplinar

O documento discute a complexidade na pesquisa interdisciplinar, destacando a interconexão entre fatores ambientais, sociais e econômicos, exemplificada pela morte de botos no Lago Tefé. A obra critica a separação do saber e a especialização, propondo uma visão holística e ecológica que reconhece a interdependência dos fenômenos. A complexidade ambiental é apresentada como uma nova compreensão que integra saberes diversos e busca soluções para os desafios globais.
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Complexidade na Pesquisa Interdisciplinar

O documento discute a complexidade na pesquisa interdisciplinar, destacando a interconexão entre fatores ambientais, sociais e econômicos, exemplificada pela morte de botos no Lago Tefé. A obra critica a separação do saber e a especialização, propondo uma visão holística e ecológica que reconhece a interdependência dos fenômenos. A complexidade ambiental é apresentada como uma nova compreensão que integra saberes diversos e busca soluções para os desafios globais.
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Uma breve conversa sobre “a

complexidade” na pesquisa
interdisciplinar

Prof. Pedro Baía Júnior


Um fato
Um problema
Morte de Botos no
Lago Tefé, AM

Possíveis causas: aumento de


temperatura e agente infeccioso

???
Aumento de temperatura do lago Tefé e a
proliferação de agentes infecciosos

??? ???
Aquecimento
global

Aumento na contração de gases de efeito estufa na atmosfera

Queima de combustíveis fósseis, resultante das atividades


industriais e de transporte
Desmatamento e queimada de florestas
....
Expansão da
Exploração Expansão da monocultura (dendê
Exploração mineral
madeireira pecuária e soja)

Desmatamento, Poluição e
fragmentação e Construção de degradação de
degradação de infraestrutura de cursos d’água
habitat transporte
(estradas, portos,
hidrovias)

perda da biodiversidade conflitos fundiários


crescimento das periferias
violência, expropriação e
redução das estratégias ausência de saneamento
deslocamento de grupos
tradicionais de subsistência
tradicionais
desemprego e violência
pobreza
suicídio entre indígenas
Mundialização

“[...] hoje vivemos uma época de


mundialização, todos os nossos grandes
problemas deixaram de ser particulares
para se tomar mundiais: o da energia e,
em especial, o da bomba atômica, da
disseminação nuclear, da ecologia, que é
o da nossa biosfera, o dos vírus, como a
AIDS, imediatamente se mundializam.”

(Morin, 2003, p.1)


Separação do saber
“Vivemos numa realidade multidimensional,
simultaneamente econômica, psicológica, mitológica,
sociológica, mas estudamos estas dimensões
separadamente, e não umas em relação com as outras.”

“O princípio de separação torna-nos talvez mais lúcidos


sobre uma pequena parte separada do seu contexto, mas
nos torna cegos ou míopes sobre a relação entre a
parte e o seu contexto.” (Morin, 2003, p.2)
Separação do saber

“Deveríamos, portanto, ser animados por um


princípio de pensamento que nos
permitisse ligar as coisas que nos parecem
separadas umas em relação às outras. Ora,
o nosso sistema educativo privilegia a
separação em vez de praticar a ligação.”

(Morin, 2003, p.2)


Separação do saber
“ [...] o método experimental, que permite
tirar um "corpo" do seu meio natural e
colocá-lo num meio artificial, é útil, mas tem
os seus limites, pois não podemos estar
separados do nosso meio ambiente; o
conhecimento de nós próprios não é
possível, se nos isolarmos do meio em que
vivemos. Não seríamos seres humanos,
indivíduos humanos, se não tivéssemos
crescido num ambiente cultural onde
aprendemos a falar, e não seríamos seres
humanos vivos se não nos alimentássemos
de elementos e alimentos provenientes do
meio natural.” (Morin, 2003, p.2)
Separação do saber

“Não podemos, portanto, compreender


o ser humano apenas através dos
elementos que o constituem.”

(Morin, 2003, p.3)


"O novo paradigma que emerge atualmente pode ser
descrito de várias maneiras. Pode-se chamá-lo de uma
visão de mundo holística, que enfatiza mais o todo
que as suas partes. Mas negligenciar as partes em favor
do todo também é uma visão reducionista e, por isso
mesmo, limitada. Pode-se também chamá-lo de visão de
mundo ecológica, e este é o termo que eu prefiro. Uso
aqui a expressão ecologia num sentido muito mais amplo
e profundo do que aquele em que é usualmente
empregado. A consciência ecológica, nesse sentido
profundo, reconhecer a interdependência
fundamental de todos os fenômenos e o perfeito
entrosamento dos indivíduos e das sociedades nos
processos cíclicos da natureza. Essa percepção
profundamente ecológica está agora emergindo em várias
áreas de nossa sociedade, tanto dentro como fora da
ciência.“ (Capra, 2006)
Inteligência cega
A inteligência cega destrói os conjuntos
e as totalidades, isola todos os seus
objetos do seu meio ambiente.
Ela não pode conceber o elo inseparável
entre o observador e a coisa observada.
As realidades-chaves são desintegradas.
Elas passam por entre as fendas que
separam as disciplinas. As disciplinas
das ciências humanas não têm mais
necessidade da noção de homem.
(Morin, 2005, p.12)
Vencer a especialização
“A especialização abstrai, extrai um objeto de seu
contexto e de seu conjunto, rejeita os laços e a
intercomunicação do objeto com o seu meio,
insere-o no compartimento da disciplina, cujas
fronteiras quebram arbitrariamente a
sistemicidade (a relação de uma parte com o
todo) e a multidimensionalidade dos fenômenos,
e conduz à abstração matemática, a qual opera
uma cisão com o concreto, privilegiando tudo
aquilo que é calculável e formalizável.” (Morin,
2003, p. 12)
“[...] é impossível conhecer tudo do mundo ou captar todas
as suas multiformes transformações. Mas, por mais
aleatório e difícil que seja, o conhecimento dos problemas
essenciais do mundo deve ser tentado para evitar a
imbecilidade cognitiva. Ainda mais que o contexto, hoje, de
Vencer a todo conhecimento político, econômico, antropológico,
especialização ecológico, etc, é o próprio mundo. Eis o problema universal
para todo cidadão: como adquirir a possibilidade de
articular e organizar as informações sobre o mundo. Em
verdade, para articulá-Ias e organizá-Ias, necessita-se de
uma reforma de pensamento.” (Morin, 2003, p. 12)
As Conexões Ocultas: ciência para uma
vida sustentável, Fritjof Capra (2002)

Desenvolve uma compreensão sistêmica e

unificada que integra as dimensões biológicas,

cognitivas e sociais da vida e demonstra

claramente que a vida, em todos os seus

níveis, é inextricavelmente interligada por

redes complexas.
“Os sistemas vivos são fechados no
que diz respeito à sua organização - são
redes autopoiéticas -, mas abertos do
ponto de vista material energético. Para
se manter vivos, precisam alimentar-se
de um fluxo contínuo de matéria e
energia assimiladas do ambiente. De
modo inverso, as células, como todos os
organismos vivos, produzem dejetos
continuamente, e esse fluxo de matéria -
alimento e excreção - estabelece o lugar
que elas ocupam na teia alimentar.”
(Capra, 2002, p.30)
A Teia da Vida: uma nova compreensão
científica dos sistemas vivos, Fritjof
Capra (2006)

• Capra apresenta uma visão abrangente e


interdisciplinar da vida, explorando as
conexões entre os sistemas biológicos,
ecológicos e sociais.

• Ele argumenta que a vida é uma teia complexa


de relações, e que a compreensão dessas
relações é essencial para resolver os desafios
globais que enfrentamos hoje.
Separação do saber

“Por outro lado, durante muito tempo, a ciência


ocidental foi reducionista (tentou reduzir o
conhecimento do conjunto ao conhecimento
das partes que o constituem, pensando que
podíamos conhecer o todo se conhecêssemos
as partes); tal conhecimento ignora o
fenômeno mais importante, que podemos
qualificar de sistêmico, da palavra sistema,
conjunto organizado de partes diferentes,
produtor de qualidades que não existiriam se
as partes estivessem isoladas umas as
outras.” (Morin, 2003, p.3)
A falsa racionalidade
A inteligência parcelar, compartimentada, mecânica, disjuntiva, reducionista,
quebra o complexo do mundo, produz fragmentos, fraciona os problemas, separa o
que é ligado, unidimensionaliza o multidimensional.
Trata-se de uma inteligência ao mesmo tempo míope, presbita, daltônica, zarolha.
Elimina na casca todas as possibilidades de compreensão e de reflexão, matando
assim todas as chances de julgamento corretivo ou de visão a longo termo.
Quanto mais os problemas se tomam multidimensionais, mais há incapacidade
para pensar essa multidimensionalidade; quanto mais a crise avança, mais progride
a incapacidade de pensá-la; quanto mais os problemas se tomam planetários, mais
se tornam impensados. Incapaz de considerar o contexto e o complexo planetário, a
inteligência cega produz inconsciência e irresponsabilidade.
(Morin, 2003, p. 14)
Paradigma da Complexidade

A complexidade nos convida a enxergar o ambiente como um


sistema dinâmico, interligado e imprevisível. Não podemos mais
separar o homem da natureza; somos parte integrante dela.

Esse paradigma reconhece que as relações ecológicas, sociais,


econômicas e culturais são intrincadas e influenciam-se
mutuamente.

(Leff, 2009)
Definições de Complexidade

(Lukosevicius et al., 2016)


Paradigma da
complexidade

Desafia o paradigma de um mundo


regular e previsível e contraria a ideia
de que o mundo é representado pela
metáfora de uma máquina.

(Lukosevicius et al., 2016)


“a crise ambiental é uma
crise do conhecimento”

(Leff, 2012, p. 19).

Retornando ao fato,
ao problema...
“[...] é uma nova compreensão do mundo,
incorporando o limite do conhecimento e
a incompletude do ser. Implica saber que
A complexidade a incerteza, o caos e o risco são ao mesmo
Ambiental tempo um efeito da aplicação do
conhecimento que procurou anulá-los e
uma condição intrínseca do ser e do
conhecimento.” (Leff, 2000)
A complexidade Ambiental

“[...] é uma nova compreensão do mundo, incorporando o limite do


conhecimento e a incompletude do ser. Implica saber que a incerteza, o
caos e o risco são ao mesmo tempo um efeito da aplicação do conhecimento
que procurou anulá-los e uma condição intrínseca do ser e do conhecimento.”
(Leff, 2000)
“[...] implica uma nova compreensão do
mundo que incorpore conhecimentos e
saberes enraizados em cosmologias,
A complexidade mitologias, ideologias, teorias e saberes
Ambiental práticos que estão nos alicerces da
civilização moderna, no sangue de cada
cultura, no rosto de cada pessoa.” (Leff, 2000)
“[...] procura saber o que as ciências ignoram
porque na lógica da descoberta científica seus
paradigmas teóricos lançam sombras sobre o
real, desconhecem outros campos científicos e
avançam subjugando saberes.”

O saber “[...] é a inquietação sobre o nunca sabido, o


que fica por saber sobre o real, o saber que está
ambiental: sendo forjado e que propicia a emergência ‘do
ainda não é.”

“[...] leva a construir novas identidades, novas


racionalidades e novas realidades.”

(Leff, 2012, p. 56)


“[...] não apenas gera um conhecimento científico
mais complexo e objetivo; também produz novas
significações sociais, novas formas de
subjetividade e posicionamento político diante
do mundo.”

“[...] une-se aos processos de revalorização e


O saber reinvenção de identidades culturais, das práticas
tradicionais e dos processos produtivos das
ambiental: populações urbanas, camponesas e indígenas”

“[...] reconhece as identidades dos povos, suas


cosmologias e seus saberes tradicionais como
parte de suas formas culturais de apropriação de
seu patrimônio de recursos naturais.”

(Leff, 2012, p. 51)


“Os movimentos socioambientais de hoje não
só reclamam a terra, mas um território, um
espaço para ser restaurado e reconstruído
desde as profundas raízes de suas identidades
culturais, como o habitat onde possam
desenvolver seu habitus, seus imaginários e
suas práticas, para preservar o patrimônio
biocultural, para imaginar e reiventar seus
mundos de vida sustentáveis.”

(LEFF, 2021)
“Para os Yanomami, a ‘terra-floresta’ urihi a não é de nenhuma maneira um espaço
exterior à sociedade, cenário mudo e inerte das atividades humanas e simples campo
de recursos cujo domínio se deveria controlar. Trata-se mais de uma vasta entidade
viva dotada, como todas as outras, de uma imagem-essência (utupë a) a que a que
os xamãs chamam Urihinari a. Essa imagem (urihi a nẽ utupē) refere-se primeiro à
unidade visível da floresta, à sua forma corporal: o solo é assim sua "pele exterior"
(sipo si) e a vegetacão, sua pilosidade. Ela também remete a seu animatio vital: a
floresta é dotada de um sopro (urihi wixia), exalação úmida cujo frescor garante seu
‘valor de fertilidade’ (urihi a në rope), isto é, a força de crescimento tanto de sua
vegetação como a de todas as plantas cultivadas nas roças que ali são abertas.”

(Albert e Kopenawa, 2023, p. 42-43)


“Como os humanos, a ‘terra-floresta’ sofre e sente dor quando derrubam suas árvores.
Ela morre quando é incendiada, dando lugar a uma terra seca e quente, onde vai se
instalar Ohinari a, o espírito da fome. Diz-se então que ‘a floresta tem valor de fome’, urihi
a në ohi, e que essa entidade maléfica sopra, dia após dia, seu pó xamânico nas narinas
dos humanos a fim de enfraquecê-los para deles se alimentar.

Os ‘seres humanos’ (yanomae thë pë) não são, obviamente, os únicos habitantes da
‘terra-floresta’, longe disso. Várias classes de não humanos interagem com eles em
permanência, seja por intercâmbios diretos, seja pela mediação dos xamãs. São, em
primeiro lugar, os animais (yaro pë), ex-humanos transformados em caça no
tempo das origens.”

(Albert e Kopenawa, 2023, p. 43-44)


“... os homens utilizam as reservas naturais (...) progressivamente,
como fonte e depósito para os produtos indesejados. Como os
ecossistemas globais são limitados, outras espécies de natureza viva
são reprimidas e por fim eliminadas. A sociedade industrial reduz a
multiplicidade natural. Não é somente na disputa concorrencial num
plano do sistema econômico que ela representa tendência
monopolistas. Concorrentes são eliminados (de maneira simples e
comovente) na medida em que lhes são retiradas as bases vitais:
concorrentes que não conseguem se defender, povos indígenas,
espécies animais e vegetais”
(ALTVATER, 1995).
Antropoceno Capitaloceno
E o meu problema de
pesquisa:

• É um problema complexo?

• Quais suas “conexões ocultas”?

• Que elementos estou negligenciando em


minhas hipóteses?
Referências
ALBERT, B; KOPENAWA, D. O espírito da floresta. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.
CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Editora Cultrix, 2002.
CAPRA, Fritjof. A Teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Editora Cultrix, 2006.
LEFF, Enrique. Pensar la complejidade ambiental. In: La complejidad ambiental. Siglo XXI Editores, 2000, (pp.7-53)
LEFF, Enrique. Aventuras da epistemologia ambiental: da articulação das ciências ao diálogo de saberes. São
Paulo, Cortez, 2012.
LUKOSEVIVIUS, A.P; MARCHISOTTI, G.G.; SOARES, C.A.P. Panorama da complexidade: principais correntes,
definições e constructos. Sistema & Gestão, n. 11, pp 455-456, 2016.
MITCHELL, Melanie. Complexity: a guided tour. New York, NY: Oxfor, 2009.
MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento complexo. In: MARTINS, Francisco M.; SILVA, Juremir M.
(Org.). Para navegar no século XXI: tecnologias do imaginário e cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.
MORIN, E. A complexidade do pensamento complexo (O pensamento complexo da complexidade). In: MORIN, E.;
CIURANA, E.R.; MOTTA, R. D. Educar na era planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem no
erro e na incerteza humana. São Paulo: Cortez Editora, 2003.
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto: Editora Sulina, 2005.

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