Análise da Pontianak em Folklore HBO
Análise da Pontianak em Folklore HBO
DOI: 10.14393/LL63-v40-2024-12
RESUMO: Este artigo tem como objetivo principal analisar a figuração do horror com base na
representação da figura feminina no folclore asiático, a partir da lenda de Pontianak, a mulher-
vampiro, tendo como objeto de estudo o episódio “Nobody” da série de terror Folklore, produzida
pela HBO Max em 2018. Criada como uma antologia que reúne um acervo de tradições e crenças do
continente asiático, Folklore (2018) apresenta histórias com diferentes perspectivas da condição
humana e seu elo com acontecimentos e figuras sobrenaturais. Em “Nobody”, o telespectador se
depara com a história do imaginário popular malásio: Pontianak. Quando uma jovem enterrada
clandestinamente em um terreno de uma construção de um empreendimento imobiliário é
encontrada pelos operários, essa entidade surge e assombra aqueles homens em busca de justiça.
PALAVRAS-CHAVE: Pontianak. Horror. Mulher-vampiro. Folclore asiático. Malásia.
ABSTRACT: This article aims to analyze the depiction of horror based on the representation of the
female figure in Asian folklore by focusing on the legend of Pontianak, the vampire woman. The study
centers on the episode "Nobody" from the horror series Folklore produced by HBO Max in 2018.
Created as an anthology that brings together a collection of traditions and beliefs from the Asian
continent, Folklore (2018) presents stories with different perspectives on the human condition and
its connection to supernatural events and figures. In "Nobody," the viewer is introduced to the story
of the Malaysian popular myth Pontianak. When a young woman buried clandestinely on a plot of
land slated for real estate development is discovered by the workers, this entity emerges and haunts
those men in search of justice.
KEYWORDS: Pontianak. Horror. Vampire woman. Asian folklore. Malaysia.
* Doutor em Letras. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – Campus
Itaquaquecetuba. ORCID: 0000-0002-9292-3536. E-mail: rodrigofaqueri(AT)[Link].
asiático. Serão usadas diferentes bases teóricas que apresentem discussões relevantes sobre o
horror, bem como da utilização de personagens monstruosas-femininas em produções
audiovisuais.
Quando falamos de mitos, nos vem à ideia de histórias contadas pelos povos antigos
que fogem de uma caracterização da realidade fática. Entretanto, cabe destacar que a
mitologia está relacionada aos estudos dos mitos e traz em sua essência a necessidade dos
povos primordiais em tentar explicar os acontecimentos de sua época relacionados à sua vida
de uma maneira palpável.
Dessa maneira, não podemos negar o valor dessas narrativas ao longo da história
humana, pois elas foram vitais para a construção do imaginário popular, bem como da
manutenção das narrativas históricas relativas a diferentes povos. Também cabe destacarmos
que nas sociedades arcaicas, as histórias consideradas sagradas, que buscavam retratar o real,
contavam a criação do mundo e os feitos heroicos daquele povo. Essas histórias não serviam
para entreter a população, mas sim para registrar fatos históricos e a tentativa de compreensão
de fenômenos primordiais de surgimento da vida e do universo, regendo os padrões culturais
e sociais de determinada sociedade. Já as narrativas profanas são aquelas que serviam para
entreter a população com seu teor cômico, além de apresentarem curiosidades que aguçavam
o interesse daqueles que as ouviam.
Assim, os mitos tinham a função de ajudar o homem a ter conhecimento da origem do
mundo e de sua própria origem, além de serem mecanismos de manutenção das histórias ao
longo dos séculos, demonstrando sua caraterística atemporal. É importante, neste ponto,
evidenciarmos, conforme Eliade (2001, p. 6) que a ideia de narrativas míticas não pode estar
atrelada a um exemplo da ficção, visto que elas representam as histórias verdadeiras e sagradas
de um povo, sendo assim, uma tradição a ser passada de geração a geração. Neste contexto, a
definição de mito é algo muito complexo, pois abrange a realidade de uma cultura que pode
ser observada por diferentes ângulos, épocas e perspectivas.
Quanto à definição de folclore, ela é notada no século XIX, em 1845, ao ser utilizada
pelo arqueólogo Willian Thoms em um artigo destinado a uma revista londrina como um
e/ou estar grávida no momento de sua morte. Nesta perspectiva, cabe ressaltarmos a figuração
da mulher em narrativas como as do objeto deste estudo.
Se observarmos narrativas ao longo da história ocidental, por exemplo, encontramos a
figura da mulher em diversas histórias, como protagonistas ou não, com características
comumente relacionadas à sua figura. Conforme aponta Rufinoni (2017, p. 286):
do vocábulo remonta o irlandês arcaico (“Ben síde”), que significaria “mulher fada” (Monaghan,
2008, p. 34).
Neste aspecto, as pontianaks se assemelham às banshees nas narrativas modernas:
uma mulher assassinada que busca vingança por este ato. A questão da vocalização também
está presente, visto que, quando uma pontianak está por perto o choro de uma criança é suave,
bem como o choramingo de um cachorro, já quando ela está longe o choro da criança é alto,
assim como o latido estridente do cachorro. A origem do termo seria uma corrupção da
expressão em malaio “perempuan mati beranak”, cujo significado seria “a mulher que morreu
no parto”. Outra figura que se assemelha à pontianak é o fantasma indonésio kuntilanak. Este
fantasma, porém, costuma assumir a forma de um pássaro que suga o sangue de mulheres
jovens e virgens.
Estudiosos também apontam a figura de pontianak relacionada com a figura vampiresca
de Langsuir. Segundo as narrativas folclóricas asiáticas, Langsuir é um vampiro oriundo de um
fantasma de uma mulher que morreu enquanto estava grávida ou estava dando à luz. Segundo
o antropólogo Skeat, uma Langsuir é uma entidade que aparece pela morte de seu filho, que
assumiu a figura de um fantasma, um Pontianak:
flew off into the dark and gloomy forest from whence she came. (Skeat, 1900,
p. 326)1
No caso da narrativa malaia, a pontianak contemporânea assume muitas das
características da mulher-vampiro Langsuir, descrita por Skeat no início do século XX. A
descrição corporal que o antropólogo faz de Langsuir acaba por parecer muito ao aspecto que
se dá à figura de pontianak nos contos malaios contemporâneos. Chama a atenção a suntuosa
beleza, as unhas grandes, os cabelos longos, além do fato da perda do filho ou de estar grávida
no momento de sua morte. Comumente, as figuras de Langsuir, pontianak e kuntilanak são
relacionadas e (con)fundidas nas histórias folclóricas com pequenas diferenças em suas
aparições nas narrativas, reforçando as transformações existentes pelo contato de diferentes
culturas ao longo dos séculos.
Além disso, acredita-se que o fantasma pontianak aparece nas regiões de plantações de
bananas, já que seu espírito reside nas árvores durante o dia. Os malaios também acreditam
que esses fantasmas rastreiam suas vítimas pelo cheiro de suas roupas penduradas fora de casa.
Com isso, neste país, as pessoas costumam não deixar suas roupas penduradas secando fora
de casa à noite. Outro aspecto característico das pontianaks é a fragrância de jasmins, que pode
ser sentida na presença deste ser sobrenatural e, logo após, se materializar em um odor
horrível.
Em todos os casos, conseguimos perceber uma metamorfização da figura da mulher nas
narrativas asiáticas. Além disso, também podemos notar que sejam fantasmas, fadas ou
mulheres-vampiro, em todas as versões existe a personificação do monstruoso na figura
feminina. Neste aspecto, as narrativas de horror apresentam o monstruoso-feminino, termo
defendido por Barbara Creed em seus estudos sobre o gênero. A autora afirma que
1
A Langsuir original (cuja personificação se supõe ser uma espécie de coruja noturna) é descrita como sendo uma
mulher de beleza deslumbrante, que morreu do choque ao ouvir que seu filho nasceu morto, e havia assumido a
forma do Pontianak. Ao ouvir esta terrível notícia, ela "bateu palmas" e, sem mais avisos, "voou relinchando para
uma árvore, na qual se empoleirou". Ela pode ser reconhecida por seu manto verde, por suas unhas afiladas de
comprimento extraordinário (uma marca de beleza) e pelas longas mechas pretas que ela permite cair até os
tornozelos - apenas, ai de nós! (pois a verdade deve ser dita) para esconder o buraco na parte de trás do seu
pescoço através do qual ela suga o sangue das crianças! Essas propensões semelhantes a vampiros podem, no
entanto, ser combatidas com sucesso se os meios corretos forem adotados, pois se você conseguir pegá-la, cortar
suas unhas e mechas luxuriantes e colocá-las no buraco do pescoço, ela se tornará mansa e indistinguível de uma
mulher comum, permanecendo assim por anos. Casos têm sido conhecidos, de fato, nos quais ela se tornou esposa
e mãe, até que lhe foi permitido dançar em uma festa na aldeia, quando ela imediatamente reverteu para sua
forma fantasmagórica e voou para a escura e sombria floresta de onde veio. (Tradução livre).
[…] definitions of the monstrous as constructed in the modern horror text are
grounded in ancient religious and historical notions of abjection – particularly
in relation to the following religious abominations: sexual immorality and
perversion; corporeal alteration, decay and death; human sacrifice; murder;
the corpse; bodily wastes; the feminine body and incest. These forms of
abjection are also central to the construction of the monstrous in the modern
horror film. (Creed, 2007, p. 8-9)2
2
As definições do monstruoso, conforme construídas no texto de horror moderno, têm suas raízes em noções
antigas religiosas e históricas de abjeção - particularmente em relação às seguintes "abominações" religiosas:
imoralidade e perversão sexual; alteração corporal, deterioração e morte; sacrifício humano; assassinato; o
cadáver; resíduos corporais; o corpo feminino e incesto. Essas formas de abjeção também são centrais para a
construção do monstruoso no filme de horror moderno. (Tradução livre)
estar aplacado e ao que em vão nos consumimos em satisfazer, enquanto não está dominado”
(Chevalier; Gheerbrant, 2003, p. 2635). É inegável também a relação entre a imagem de uma
pontianak com a de uma bruxa já que “a bruxa suga o sangue das vítimas ou devora-lhes os
órgãos, fazendo com que elas definhem até morrer” (Russell; Alexander, 2019, p. 10).
Como podemos observar, todos esses elementos anteriormente mencionados fazem
parte de uma composição imagética da figura monstruosa da mulher no imaginário das
sociedades. As diferentes formas em que esta criatura aparece em diferentes culturas só
mostra a necessidade do ser humano em materializar sua visão sobre seu inconsciente e tentar
compreender seus desejos e pensamentos. Fadas, bruxas, mulheres-vampiro, sereias, todas
elas formam parte das diferentes representações da mulher em narrativas de diferentes
culturas que evocam o sobrenatural na tentativa de desvendarem e elucidarem os mais
profundos pensamentos humanos.
A parceria das produções audiovisuais com a história de Pontianak é antiga nos países
asiáticos. Figura famosa nas produções cinematográficas de horror deste continente, Pontianak
começou a ter suas primeiras aparições nas grandes telas na década de 1950, com os filmes
Dendam Pontianak (1957), Sumpah Pontianak (1958) e Anak Pontianak (1958). Esta trilogia do
cinema malaio foi muito popular quando lançada e despertou o interesse da população local
pelo gênero de horror nas décadas seguintes até 1970.
Dirigida por B. N. Rao, a primeira aparição da famosa figura folclórica asiática foi em
Pontianak (1957), em que se contava a história de Comel, a primeira personificação de
pontianak nos cinemas.
A garota é encontrada por um velho homem curandeiro na floresta, que a leva para a
sua casa e a adota. Se, quando criança, Comel possuía feições belas e ternas, quando adulta,
tinha o corpo deformado e o rosto feio. Por conta de sua condição, Comel era constantemente
amaldiçoada pelos aldeões e abusada por estes homens. Sua vida muda quando ela descobre
nos pertences de seu falecido pai, um livro que poderia deixá-la bonita.
Em vez de queimar o livro junto com os outros materiais do velho curandeiro, Comel
confecciona o feitiço com os ingredientes listados pelo livro e se torna uma mulher belíssima.
Com isso, ela se muda para a aldeia mais próxima e se casa com Othman, um jovem e belo
rapaz e tem uma filha, Maria. A vida de Comel caminha tranquila até seu marido ser picado por
uma cobra venenosa e, pela urgência e pela dor, pede a sua amada esposa que chupe o seu
sangue pela picada da cobra para retirar-lhe o veneno de seu corpo. O que Comel não sabe,
por haver ignorado as instruções do livro, é que ela não poderia ter contato com sangue de
nenhuma maneira. Ao provar o sangue de seu marido, Comel sente prazer no ato e suga o
sangue de Othman até a sua morte. Por ter bebido todo o sangue de Othman, a mulher se
transfigura e desaparece, sendo somente vista à noite, quando sai em busca de mais sangue
para saciar seu desejo. Assim, ela seduz homens para sugar-lhes o sangue para continuar a
recuperar sua forma e continuar bonita.
Figura 1: Imagem de “Pontianak” (1957). Figura 2: cartaz do filme “Dendam Pontianak” (1957)
Fonte: [Link] Fonte: [Link]
/2012/10/[Link]
In Indonesian cinema, locally made horror films remain a popular genre. The
pontianak, or locally known as the kuntilanak becomes a popular cinematic
figure. The kuntilanak possesses similar traits to the pontianak in Malaysia and
Singapore and in essence, exists was a woman who died at childbirth and
returns from the dead to avenge her death. The first kuntilanak film was
produced in 1962 and remains popular till today. While the first film produced
is titled Kuntilanak (1962), the production of kuntilanak horror films however,
became immensely popular in post-2000 Indonesian cinema. For example,
from 2006 – 2011, a total of ten kuntilanak films were produced. Amongst the
more popular are the kuntilanak series, Kuntilanak Beranak (2009), Jeritan
Kuntilanak and Arwan Kuntilanka Duyung (2011).1
1
No cinema indonésio, os filmes de terror produzidos localmente continuam sendo um gênero popular. O
pontianak, ou conhecido localmente como o kuntilanak, torna-se uma figura cinematográfica popular. O
kuntilanak possui características semelhantes ao pontianak na Malásia e em Cingapura e, essencialmente, é uma
mulher que morreu durante o parto e retorna dos mortos para vingar sua morte. O primeiro filme sobre kuntilanak
foi produzido em 1962 e permanece popular até hoje. Embora o primeiro filme produzido seja intitulado
Kuntilanak (1962), a produção de filmes de terror sobre kuntilanak tornou-se imensamente popular no cinema
indonésio pós-2000. Por exemplo, de 2006 a 2011, um total de dez filmes sobre a figura de kuntilanak foram
produzidos. Entre os mais populares estão a série Kuntilanak Beranak (2009), Jeritan Kuntilanak e Arwan
Kuntilanka Duyung (2011). (Tradução livre)
é articulado, desarticulado e rearticulado pelos seus autores para estabelecerem uma nova
ordem narrativa a fim de sanar os anseios daquele povo (Bovincino, 1994), caminhando para
uma metamorfose contínua e eterna.
Conforme apresenta Menton (2005, p. 266), a ideia de “repetição de acontecimentos
do passado; a simultaneidade do presente e do futuro” pode ser observada na narrativa sobre
pontianak em produções audiovisuais de horror, pois elas possuem em si frequentes diálogos
que remontam um aspecto de atemporalidade para a figura de pontianak, apresentando uma
série de evocações e associações dentro dela mesma e perpetuando sua imagem entre
diferentes sociedades.
Após a retirada do prego da nuca da garota, a narrativa confere ao espectador o
surgimento de pontianak, que irá atacar os homens cruéis daquela construção. O imigrante
chinês, que desconhece a história folclórica malaia, acaba sendo protegido por essa figura
monstruosa, como se esta lhe fosse grata por libertá-la. Assim, ela começa a aparecer para os
trabalhadores da construção.
Todos aqueles que possuem comportamentos contestáveis e que ferem a dignidade
humana serão atacados pela figura da jovem pontianak. O primeiro ato é o surgimento do
prego na comida do chefe-capataz logo após este dizer que os trabalhadores não deveriam
reclamar por comer todos os dias a mesma comida de baixa qualidade enquanto a sua refeição
possui melhores alimentos. O homem se engasga ao comer sua refeição e acaba por cuspir um
prego, justamente o mesmo objeto retirado da nuca da garota assassinada.
Figura 4: Prego aparece na garganta do chefe-capataz que o cospe logo após se engasgar.
Fonte: Khoo (2018, 00:21:06).
Assim, a garota começará a perseguir aqueles que demonstram atos maldosos junto
aos demais. Isso reflete a característica de vingança atribuída à imagem de pontianak em
diferentes épocas em que sua narrativa se faz presente no imaginário popular. Acresce-se à
narrativa da jovem em “Nobody”, o fato de ela ter sido perseguida, sequestrada, estuprada e
morta por três homens daquela região em que se está dando a construção do empreendimento
no início do episódio.
A materialização da jovem como pontianak se dá quando o guarda da construção
questiona Peng, o imigrante chinês, sobre ele ter realmente queimado o corpo encontrado.
Logo após o episódio do prego, a mulher-vampiro aparece e ataca o guarda que tem seu corpo
aberto e o coração devorado pela jovem.
The basic definition of any horror film may be centred around its monster
character, and the conflict arising in the fantastical and unreal monster’s
relationship with normality – as represented through a pseudo-ontic space
constructed through filmic realism – provides the necessary basic terms for
its (filmic) existence. (Russell, 1998, p. 252)2
2
A definição básica de qualquer filme de terror pode se centrar em torno de seu personagem monstro, e o conflito
surgindo na relação do monstro fantasioso e irreal com a normalidade - conforme representado por meio de um
espaço pseudo-ontológico construído por meio do realismo cinematográfico - fornece os termos básicos
necessários para sua existência (cinematográfica). (Tradução livre)
Figura 6: na ordem, da esquerda para direita: 1. Aparição de Pontianak; 2. Unhas de pontianak no peito de sua
vítima; 3. Jovem pontianak devorando o coração de uma vítima.
Fonte: Khoo (2018, 00:26:05; 00:34:57; 00:35:32).
Nestas cenas, podemos observar o que Creed apresenta sobre abjeção e figura feminina
nas narrativas de horror. A autora destaca a necessidade de o homem representar a figura da
mulher com características que a rebaixem e a excluam da sociedade, pois o espaço permitido
para a mulher na sociedade é de vulnerabilidade e de subalternidade, não cabendo espaço para
o protagonismo positivo da mulher, mas sim a monstruosidade de sua figura, que será
representada por seres sobrenaturais asquerosos sedentos por vingança e sangue, como uma
bruxa:
The witch sets out to unsettle boundaries between the rational and irrational,
symbolic and imaginary. Her evil powers are seen as part of her “feminine”
nature; she is closer to nature than man and can control forces in nature such
as tempests, hurricanes and storms. In those societies which lack centralized
institutions of power, a rigid separation of the sexes is enforced through ritual.
In such societies the two sexes are in constant conflict. Women are regarded
as “baleful schemers”, the feminine is seen as “synonymous with a radical evil
that is to be suppressed” (Kristeva, 1982, 70). Irrational, scheming, evil – these
are the words used to define the witch. The witch is also associated with a
range of abject things: filth, decay, spiders, bats, cobwebs, brews, potions and
even cannibalism. (Creed, 2007, p. 76)3
Como bem exposto acima, a figura da jovem pontianak, que busca por vingança é a
representação desta figura monstruosa da mulher, que subjuga os homens e suas maldades. É
importante destacarmos que a jovem não ataca em nenhum momento Peng, o imigrante
chinês que a liberta, e acaba no final por tornar-se uma protetora dele e de sua família que se
encontra a quilômetros de distância. Peng da mesma forma retribui essa proteção à entidade
ao não conseguir cravar novamente o prego em sua nuca conforme ordenado pelos outros
homens e por um xamã trazido para solucionar o caso das mortes dos trabalhadores da obra.
3
A bruxa começa a perturbar os limites entre o racional e o irracional, o simbólico e o imaginário. Seus poderes
malignos são vistos como parte de sua natureza “feminina”; ela está mais próxima da natureza do que o homem
e pode controlar forças na natureza, como tempestades, furacões e tempestades. Em sociedades que carecem de
instituições centralizadas de poder, uma separação rígida dos sexos é imposta por meio de rituais. Nessas
sociedades, os dois sexos estão em constante conflito. As mulheres são consideradas “intrigantes malévolas”, o
feminino é visto como “sinônimo de um mal radical que deve ser suprimido” (Kristeva, 1982, 70). Irracional,
maquiavélica, malévola - são as palavras usadas para definir a bruxa. A bruxa também é associada a uma série de
coisas abjetas: sujeira, decomposição, aranhas, morcegos, teias de aranha, poções e até canibalismo. (Creed,
2007, p. 76)
simbologia milenar. Bruxas, fadas, sereias, vampiras, fantasmas e tantas outras figurações
representam a sede humana pelo grotesco na imagem da mulher.
Em outros episódios da referida série, a figura da mulher é encontrada com a
monstruosidade do imaginário asiático. Exemplo disso é o episódio “Grandma’s Kiss”, presente
na segunda temporada, em que se tem a história de uma avó encarcerada em um asilo pela
filha e deseja ver seus netos. Para isso, ela recorre ao sobrenatural para contar histórias e dar
um beijo de boa noite nas crianças.
Fato é que a figura de pontianak e suas diferentes formas nas narrativas asiáticas abrem
espaço para diferentes debates sobre a representação da mulher em produções audiovisuais
de horror, bem como a ressignificação dos corpos femininos e suas imagens, baseadas em
concepções solidificadas ao longo dos séculos por constructos majoritariamente masculinos.
Assim, abre-se o diálogo para que sejam discutidos essas figurações e seus desdobramentos
em diferentes artes e mídias.
Referências
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ELIADE, M. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
LEE, A. Y. B.; AHMAD, M. The digital villain: mapping cross-cultural fears of the Pontianak in
Malaysian, Singaporean and Indonesian cinemas. Paper presented at the Indonesia
International Communication Conference, 10-11 December, Universitas Indonesia, Jakarta,
2015.
MONAGHAN, P. The encyclopedia of Celtic mythology and folklore. New York: Checkmark
Books, 2008.
NOBODY. Episódio da série Folklore. Produção de Eric Khoo. Singapura: HBO Max Asia, 2018.
RUFINONI, S. R. Figurações da mulher no cinema de Lars Von Trier. Via Atlântica, v. 18, n. 1,
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RUSSELL, D. J.; ALEXANDER, B. História da bruxaria. Trad. Álvaro Cabral, William Lagos. 2. ed.
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RUSSELL, D. J. Monster Roundup: reintegrating the horror genre. In: BROWNE, N. (ed.).
Refiguring American film genres, theory and history. Berkeley: University of California Press,
1998. p. 233-254. DOI: [Link]