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Avaliação Geriátrica Ampla: Importância e Benefícios

A Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) é um processo multidimensional que visa identificar deficiências e planejar cuidados para idosos, especialmente aqueles com multimorbidade. A AGA melhora a precisão diagnóstica, identifica riscos e orienta intervenções, sendo considerada o padrão-ouro na medicina geriátrica. Sua aplicação tem demonstrado benefícios significativos, incluindo redução de mortalidade e hospitalizações, além de promover a qualidade de vida dos pacientes idosos.

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Avaliação Geriátrica Ampla: Importância e Benefícios

A Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) é um processo multidimensional que visa identificar deficiências e planejar cuidados para idosos, especialmente aqueles com multimorbidade. A AGA melhora a precisão diagnóstica, identifica riscos e orienta intervenções, sendo considerada o padrão-ouro na medicina geriátrica. Sua aplicação tem demonstrado benefícios significativos, incluindo redução de mortalidade e hospitalizações, além de promover a qualidade de vida dos pacientes idosos.

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Avaliação Geriátrica Ampla


Siulmara Cristina Galera • Elizabete Viana de Freitas • Elisa Franco de Assis Costa •
Rosina Ribeiro Gabriele

Como Geriatra, eu sou, por definição, um especialista em


sutileza e em complexidade e demasiadamente cônscio da
interação entre os aspectos físicos, sociais e psicológicos que
afetam as vidas de cada um dos meus pacientes idosos.
(Hazzard, 2004)

Introdução
O aumento da expectativa de vida foi uma das principais conquistas do desenvolvimento
médico, social e econômico do século XX, trazendo como consequência, quase que
invariavelmente, multimorbidade e incapacidade. Essas situações, apesar de não serem
exclusivas da velhice, têm prevalência aumentada, de forma substancial, com a idade (Banerjee,
2015).
Barnett et al. (2012) demonstraram que 65% dos indivíduos entre 65 e 84 anos e 82%
daqueles com 85 anos ou mais são portadores de multimorbidade, ou seja, de duas ou mais
doenças crônicas.
Indivíduos com multimorbidade tendem a apresentar grande complexidade e vulnerabilidade,
pois sofrem de mais problemas cognitivos, funcionais e psicossociais; têm maiores riscos de que
as suas doenças, especialmente as complicações agudas, manifestem-se de forma obscura ou
atípica, retardando o diagnóstico e o início do tratamento; e são muito mais propensos a
iatrogenia, fragilização, síndromes geriátricas, admissões e readmissões hospitalares e
institucionalização. Portanto, requerem acompanhamento constante no sistema de saúde.
A avaliação geriátrica ampla (AGA) é a resposta a essa complexidade e, geralmente, inclui a
avaliação do paciente em vários domínios, sendo mais comumente incluídos o físico (médico), o
mental, o social, o funcional e o ambiental. A condição funcional do paciente com idade
avançada é um dos parâmetros mais importantes da avaliação geriátrica. O termo funcional é
usado em seu sentido estrito, cujo significado é a habilidade do idoso de funcionar na arena da
vida diária. A evidência de declínio funcional faz pressupor a existência de doença ligada ao
quadro e que, algumas vezes, não está diagnosticada, decorrente, em geral, das manifestações
clínicas atípicas inerentes a essa faixa etária, constituindo um desafio à prática clínica (Sattar et
al., 2014).
Os princípios básicos da avaliação geriátrica surgiram há mais de 60 anos, no Reino Unido,
com a médica inglesa Marjory Warren, que, em 1936, iniciou obstinado trabalho de reabilitação
de pacientes incapacitados em um hospital londrino. Muitos deles recuperaram a mobilidade e
receberam alta. O resultado positivo deste trabalho introduziu o conceito do cuidado
interdisciplinar e a necessidade de uma avaliação ampla dos pacientes geriátricos, com o objetivo
de esquematizar um plano terapêutico. Na década de 1940, ela publicou artigo no British
Medical Journal (BMJ) intitulado “Cuidando do cronicamente doente”, no qual demonstrava a
importância da avaliação de vários domínios e da reabilitação (Costa, 2003).
Posteriormente, surgiram vários serviços geriátricos na Inglaterra que adotaram o método da
dra. Warren. Na década de 1970, o Department of Vetterans Affairs (VA) americano criou as
primeiras Unidades de Avaliação e Manuseio Geriátrico (GEM; do inglês, Geriatric Evaluation
Units) utilizando a AGA para estabelecer o prognóstico e planejar o cuidado do idoso
hospitalizado por meio de equipes interdisciplinares. Em 1990, três quartos das unidades do VA
tinham o programa GEM (Ribeiro, 2010). Atualmente, a AGA é amplamente difundida no
mundo e aplicada, além do contexto hospitalar, nas instituições de longa permanência (ILP),
emergências, ambulatórios e atendimento domiciliar.
Para facilitar a avaliação geriátrica, são usados instrumentos capazes de detectar sinais de
demência, delirium, depressão, efeitos colaterais de medicamentos, fragilidade, déficits visuais e
auditivos, bem como de grandes síndromes geriátricas e perda do equilíbrio e da capacidade
funcional. Esses instrumentos também são úteis para predizer prognóstico, tolerabilidade ao
tratamento e riscos de morte e incapacidade. O conjunto dos instrumentos de avaliação –
procedimentos, regras e técnicas – tem como meta avaliar o idoso de forma global (Sattar et al.,
2014; Costa et al., 2019).
Com a identificação das condições funcionais do paciente, associadas ou não às doenças
crônicas e às síndromes geriátricas, é possível desenvolver um plano de cuidados que vise não só
ao tratamento das doenças diagnosticadas como também retardar o aparecimento de
incapacidades, amenizá-las ou mesmo revertê-las.

Definições
A AGA é um processo diagnóstico multidimensional, geralmente interdisciplinar, para
determinar as deficiências, incapacidades e desvantagens do idoso e planejar o seu cuidado e
assistência a médio e longo prazos, tanto do ponto de vista médico como psicossocial e
funcional. A diferença da AGA para um atendimento médico habitual é que ela prioriza o estado
funcional e a qualidade de vida, utilizando instrumentos de avaliação (testes, índices e escalas),
facilitando a comunicação entre os membros da equipe interdisciplinar e a comparação evolutiva.
É utilizada preferencialmente nos idosos frágeis e portadores de multimorbidade (Costa;
Monego, 2003; Parker et al., 2018).
A AGA é também conhecida como Avaliação Geriátrica Multidimensional (AGM) ou
Avaliação Geriátrica Global (AGG) e é considerada o padrão-ouro para a avaliação de idosos, ou
seja, é chamada de “coração e alma da medicina geriátrica” (Solomon, 2000).
Os seus objetivos principais são realizar um diagnóstico global, desenvolver um plano de
tratamento e reabilitação, gerenciando os recursos para esse fim.
Ela é capaz de identificar diminuições da capacidade, limitações das atividades e mesmo
restrições à participação (desvantagens) do paciente idoso, mas se utilizada isoladamente da
avaliação clínica tradicional não identifica as condições de saúde (distúrbios ou doenças)
responsáveis por elas. Por outro lado, se uma avaliação médica padrão obtém bons resultados em
uma população de não idosos, os resultados tendem a falhar na detecção dos problemas
prevalentes na população idosa. Esses desafios referem-se, principalmente, às síndromes
geriátricas e às doenças ocultas e/ou com manifestações atípicas, cuja identificação é
fundamental para a adequação terapêutica e para a prevenção da incapacidade nessa população.
A AGA faz parte da avaliação clínica do idoso, sendo fundamental nos pacientes portadores
de multimorbidade e em uso de vários medicamentos. Essa avaliação deve ser fundamentada em
uma anamnese criteriosa e com a observação das peculiaridades indispensáveis à boa
comunicação entre o médico e o paciente idoso. Nesses pacientes, a cura da doença pode não ser
a prioridade, mas sim a preservação da função, da independência e da qualidade de vida (High et
al., 2019).

Benefícios e evidências
Existem evidências suficientes que justificam a aplicação da AGA em pacientes idosos;
dentre elas, destacam-se (Luk et al., 2000; Wildiers et al., 2014; Costa et al., 2019):

■ Complementa a avaliação clínica tradicional e melhora a precisão diagnóstica


■ Identifica se há diminuição da capacidade e limitação das atividades, sejam elas de causa
motora, mental ou psíquica
■ Detecta problemas médicos inaparentes
■ Identifica o risco de declínio funcional
■ Avalia os riscos nutricionais
■ Identifica riscos de iatrogenia
■ Prediz desfechos desfavoráveis, como mortalidade, perda funcional e fragilização
■ Orienta para as medidas de preservação e restauração da saúde
■ Define os parâmetros de acompanhamento do paciente
■ Direciona para as modificações e adaptações ambientais
■ Define critérios para hospitalização e institucionalização.

Nos estudos clínicos em que se avalia a capacidade funcional e a qualidade de vida, a AGA
identifica populações de risco, favorece investimento em saúde, qualidade de vida e bem-estar e,
principalmente, permite o planejamento de ações e políticas de saúde (Costa; Monego, 2003).
Entre os benefícios da AGA, demonstrados em diversos estudos, encontram-se: precisão
diagnóstica, melhora do estado funcional e mental, melhora do humor, redução da mortalidade,
diminuição de internação hospitalar e de institucionalização, diminuição da necessidade de
assistência domiciliar, redução do uso de medicamentos e da iatrogenia, diminuição do uso e dos
custos do sistema de saúde, além de maior satisfação com o atendimento (Luk; Orm; Woo,
2000).
Por outro lado, ajuda a estabelecer critérios para a internação hospitalar ou em ILP; orienta
adaptações ambientais, reduzindo as hostilidades dos locais em que vivem com a colocação de
rampas, adequação de pisos, barras de apoio em corredores e banheiros etc.; avalia o grau de
comprometimento mental, motor ou psíquico; estabelece metas nutricionais e de otimização
terapêutica; além de ser elemento fundamental para a criação de políticas públicas de ação na
saúde e de destinação de recursos. Apesar de o maior benefício ser identificado entre os idosos
frágeis e os doentes, a maioria dos pacientes é beneficiada pela AGA, especialmente nos
programas que incluem a avaliação, a reabilitação e o acompanhamento a longo prazo.
A AGA também é um importante preditor de desfechos desfavoráveis, ou seja, tem valor
prognóstico, para pacientes cirúrgicos, oncológicos e ortopédicos (Puts et al., 2012; Wildiers et
al., 2014; Kim et al., 2014; Prestmo et al., 2015). Nos idosos em estágio avançado de doença
renal adquire importância para detectar fragilidades e consequentemente propor medidas para
melhoria destes pacientes (Goto et al., 2018).
A clássica metanálise publicada em 1993 por Stuck et al. incluiu 28 estudos controlados,
perfazendo um total 10 mil pacientes, e demonstrou que a maioria dos benefícios encontrados
nesses estudos apresentavam significância estatística e clínica. Foram observados redução do
risco de morte, aumento das chances de voltar a residir na comunidade, redução das readmissões
hospitalares, além de maiores chances de melhora cognitiva e funcional.
Com o objetivo de examinar os efeitos de avaliação multidimensional preventiva em visitas
domiciliares de idosos residentes na comunidade foi realizada uma metanálise na qual foram
incluídos 21 ensaios clínicos randomizados que, apesar de heterogênios, avaliaram 14.597
participantes. Os autores concluíram que a intervenção com visitas domiciliares preventivas
contando com avaliação multidimensional e exame clínico tem o potencial de reduzir a perda
funcional de idosos (Huss et al. 2008).
Ellis et al. (2011), em revisão sistemática e metanálise, compararam o uso da AGA com o
cuidado tradicional em idosos admitidos em hospitais. Foram avaliados 10.315 participantes em
22 ensaios clínicos randomizados realizados em seis países e a conclusão dos autores foi de que a
avaliação por meio da AGA aumenta a possibilidade de os idosos estarem vivos e em seu próprio
domicílio 12 meses depois da internação. Parker et al. (2018) buscaram revisões e metanálises,
em diversos bancos de dados, que descrevem hospitais que utilizavam AGA nos pacientes
internados, confirmando a definição de AGA como “processo multidimensional e
multidisciplinar que identifica as necessidades médicas, sociais e funcionais e o desenvolvimento
de um plano de cuidados integrados/coordenados para atender essas necessidades”, e
demonstraram que os idosos com doenças agudas eram os mais beneficiados avaliando os
desfechos de morte, deficiência e institucionalização.
A AGA também é útil nas unidades de emergência. Em estudo de coorte belga, Deschodt et
al. (2015) observaram que, dentre os indivíduos de 75 anos e mais atendidos nas unidades de
emergência que receberam alta, a capacidade para executar as atividades instrumentais da vida
diária (AIVD), a mobilidade, as condições nutricionais e a cognição eram melhores que dentre
aqueles que foram hospitalizados. Aqueles que após alta necessitavam de fisioterapia e
assistência para preparar alimentação, portanto com maior incapacidade funcional, tiveram
maiores chances de reinternação hospitalar. Os autores sugerem que a AGA tem potencial para
identificar os idosos atendidos na emergência com maiores riscos de ficarem hospitalizados, bem
como de serem readmitidos logo após a alta.
Os princípios e processos da AGA têm sido gradativamente incorporados a outras
especialidades médicas, incluindo a oncologia (Sattar et al., 2014; Wildiers et al., 2014; Kalsi et
al., 2015), cardiologia (Forman et al., 2017), ortopedia (Kim et al., 2014; Prestmo et al., 2015) e
nefrologia (Goto et al., 2018).
As evidências têm demostrado que a AGA só é eficaz se existir um processo de identificação
dos idosos que realmente possam se beneficiar de sua aplicação, se a avaliação resultar em um
plano de cuidado, e se o plano de cuidado for implementado, preferencialmente, por equipe
interdisciplinar (High et al., 2019).
As implicações clínicas desses estudos sugerem que a AGA deve se tornar um procedimento
padrão para o atendimento dos idosos e expertise clínica é necessária para implementação das
abordagens com base nesse tipo de avaliação. Geriatras devem ser treinados para utilizar a AGA
da mesma forma que utilizam testes laboratoriais e exames de imagem, pois ela tem valor
diagnóstico, prognóstico e como norteadora do tratamento (Stuck; Illif, 2011).

Estrutura e componentes
Para lidar com a complexidade dos problemas desses idosos, o profissional necessita coletar,
organizar e usar adequadamente, de forma sistemática e com objetivos definidos, uma vasta
gama de informações clínicas e funcionais relevantes. Por isso, a AGA tem que ser completa, de
modo a permitir um diagnóstico funcional, identificar os indivíduos em risco, estruturada, para
que possa servir para acompanhamento da evolução e definição do prognóstico do paciente, não
ser extensa e ter um custo razoável (Paixão; Reichenhein, 2005).
Sua estrutura pode variar dependendo da expertise da equipe que a aplicar e das
especificidades do local onde é realizada. Entretanto, apesar dessa variação, possui
características constantes como o fato de ser sempre multidimensional, utilizar instrumentos
padronizados para avaliar todos os fatores que interferem na saúde do idoso, e de avaliar no
mínimo as quatro principais dimensões, que são a capacidade funcional, as condições médicas, o
funcionamento social e a saúde mental (Costa, 2013).
Os parâmetros avaliados pela AGA são:

■ Equilíbrio, mobilidade e risco de quedas


■ Função cognitiva
■ Condições emocionais
■ Deficiências sensoriais
■ Capacidade funcional
■ Estado e risco nutricional
■ Condições socioambientais
■ Polifarmácia e medicações inapropriadas
■ Comorbidades e Multimorbidade
■ Outros.

Equilíbrio, mobilidade e risco de quedas


Com o processo de envelhecimento, o aparelho locomotor e o sistema sensorial sofrem
importantes modificações. Desta forma, a avaliação do equilíbrio, da mobilidade e o risco de
quedas são itens fundamentais da AGA. Além do exame clínico tradicional, uma avaliação
neurológica básica deve ser realizada para que tenhamos informações importantes que, somadas
aos testes descritos a seguir, possam dar um diagnóstico mais preciso, facilitando a elaboração de
um plano de cuidados adequado ao paciente.

■ Get-up and go test (teste de levantar e andar)


Proposto por Mathias em 1986. Nele, o indivíduo é observado ao levantar-se de uma cadeira
reta com encosto alto, braço e assento com altura aproximada de 46 cm, ficar parado
momentaneamente, caminhar três metros, voltar, após girar 180°, para o mesmo local e sentar-se,
novamente. É recomendado realizar um teste antes da avaliação definitiva, para que o indivíduo
se familiarize. Importante que esteja usando seu calçado usual e, caso faça uso, de seu auxiliar de
caminhada habitual, como bengala ou andador. Com esse teste, é possível avaliar o equilíbrio do
paciente sentado, o equilíbrio durante a marcha e a transferência. A interpretação deste teste é a
seguinte: (1) normalidade; (2) anormalidade leve; (3) anormalidade média; (4) anormalidade
moderada; (5) anormalidade grave. Sendo que escore de 3 e mais pontos indica risco aumentado
de quedas (Mathias et al., 1986).
A principal limitação desse teste é ser uma avaliação imprecisa; os escores extremos são mais
fáceis (1 e 5), mas os escores intermediários são menos claros, o que pode explicar a
variabilidade de escores obtida por diferentes avaliadores (Podsiadlo; Richardson, 1991).

■ Timed up-and-go test (teste de levantar e andar cronometrado)


Em revisão sistemática, Schoene et al. (2013) concluíram que o teste não é útil para
discriminar caidores de não caidores em idosos saudáveis e nos com alta performance, mas útil
em idosos menos saudáveis e com baixa performance. A capacidade preditiva e a precisão
diagnóstica do timed up-and-go test (TUG) são, na melhor das hipóteses e no geral, moderadas.
Desta forma, os autores recomendam associação de avaliação multifatorial de risco de quedas
para um melhor resultado.
Por outro lado, Silva et al. (2019), em revisão sistemática e metanálise, considerando que há
um período de transição na capacidade motora entre o envelhecimento saudável e demência,
sugerem que a utilização deste teste poderia ser útil para o diagnóstico e estadiamento de estados
de pré-demência e doença de Alzheimer.
Apesar das limitações, o teste é rápido, não necessita de equipamentos e treinamentos
especiais e pode ser incluído em uma avaliação médica de rotina (Podsiadlo; Richardson, 1991).

■ Teste de equilíbrio e marcha


A grande propensão dos idosos à instabilidade postural e à alteração de marcha aumenta o
risco de quedas. Isso torna fundamental o conhecimento das condições de equilíbrio e marcha
nessa população, e o teste proposto por Mary Tinetti em 1986 é capaz de avaliar essas condições.
A validade do teste em todas as suas versões (POMA-I, POMA-Ia e POMA-II) foi também
realizada por Tinetti (ver uma versão na Tabela A.8 do Apêndice on-line).
Em 2003, Gomes realizou adaptação do teste para ser utilizado na população brasileira
institucionalizada, recebendo o nome de Performance Oriented Mobility Assessment – Brasil
(POMA-Brasil). Ishizuka (2008) realizou a tradução, adaptação e validação da versão POMA-II
no Brasil, concluindo ser esta uma versão confiável. Há várias versões sendo utilizadas no Brasil,
sendo que muitas versões não se correlacionam com o original e não é definida qual versão está
sendo utilizada, o que precisa ser definido e padronizado (Ishizuka, 2008).
A presença de sarcopenia interfere no equilíbrio e na mobilidade e consequentemente
predispõe a quedas. Portanto, faz-se necessária a identificação deste quadro. A revisão em 2018
do consenso elaborado pelo European Working Group on Sarcopenia in Older People
(EWGSOP) definiu que o diagnóstico de sarcopenia é feito utilizando-se três critérios: (1) baixa
força muscular; (2) baixa quantidade ou qualidade muscular; (3) baixo desempenho físico, sendo
que a presença do critério 1 (considerado agora o critério mais importante) é sarcopenia
provável, critério 1 mais critério 2 é sarcopenia confirmada e critério 1 mais os critérios 2 e 3 é
sarcopenia grave (Cruz-Jentoft et al., 2018).

■ Avaliação de sarcopenia
A triagem para sarcopenia pode ser feita utilizando-se o SARC-F, um questionário de cinco
itens, de fácil aplicação, que é autorrelatado pelos pacientes. A força muscular é avaliada
principalmente pela força de pressão palmar, a mensuração da massa muscular pode ser feita por
meio de métodos antropométricos e/ou da bioimpedância e/ou da densitometria corporal total, e
o desempenho muscular é avaliado principalmente pelo teste do levantar e andar cronometrado
(Timed Up and Go Test), velocidade da marcha e pelo Short Physical Performance Battery
(SPPB) (Cruz-Jentoft et al., 2018; Cruz-Jentoft; Sayer, 2019). Para maiores informações, ver
Capítulo 91.

■ Velocidade de marcha
É medida pelo tempo, em segundos e milésimos de segundo, que o indivíduo leva para
percorrer 4 metros. O cálculo é feito pela média de três tentativas (normal > 0,8 m/s) e avalia o
desempenho muscular (ver Capítulo 91).

■ Circunferência da panturrilha
É a medida antropométrica mais sensível e mais utilizada para avaliação da massa muscular
em idosos (normal ≥ 31 cm). A técnica para realizar esta medida é descrita no tópico “Estado e
risco nutricional” neste mesmo capítulo.

■ Força de preensão palmar


Está relacionada à força total do corpo. Não há consenso em relação à técnica a ser utilizada
na medida da força de preensão palmar. Descreveremos as mais comuns: utiliza-se o
dinamômetro manual modelo Jamar®, e a técnica é realizada com o indivíduo sentado com
ombro aduzido e neutramente rodado, cotovelo flexionado a 90°, antebraço em posição neutra e
o punho entre 0° e 30° de extensão e 0° a 15° de desvio ulnar. O resultado é a média de três
medidas realizadas no membro dominante com intervalo de 60 segundos entre cada medida.
Outra forma é a realização de três medidas em cada membro (intercaladas) e é considerada a
maior medida independente (Sousa-Santos; Amaral, 2017). Não há consenso na literatura
também em relação aos escores, sendo considerados sarcopenia, segundo o EWGSOP na sua
mais recente revisão, os valores para mulheres < 16 kg e para homens < 27 kg e < 16 e < 26 kg
segundo o FNHI (Studenski et al., 2014; Cruz-Jentoft et al., 2018; Cruz-Jentoft; Sayer, 2019).
Nas situações em que há uma incapacidade de avaliar a força de preensão palmar em razão
das limitações físicas da mão decorrentes, por exemplo, de artrite, sequelas de acidente vascular
encefálico (AVE) etc., o teste da “subida da cadeira” para avaliação dos músculos das pernas
(grupo dos músculos quadríceps) pode ser utilizado. É realizado solicitando que o indivíduo se
levante cinco vezes a partir de uma posição sentada, sem usar seus braços; o teste é
cronometrado, sendo o ponto de corte normal menor que 15 segundos (Beaudart et al., 2016;
Cruz-Jentoft et al., 2018).

Função cognitiva e condições emocionais


A cognição é o processo de aquisição de conhecimento e inclui, entre outras funções
cognitivas, atenção, raciocínio, pensamento, memória, juízo, abstração e linguagem. As
alterações cognitivas podem levar a perda de autonomia e a progressiva dependência. Por meio
desta avaliação, podem ser identificados quadros demenciais e depressivos, principais alterações
da saúde mental do idoso. Testes de rastreio devem ser simples, rápidos e reaplicáveis, além de
dispensarem material complementar e conhecimento especializado para serem utilizados por toda
a equipe interdisciplinar (Bertolucci et al., 1994).
Existem várias escalas e testes para a avaliação inicial do estado cognitivo, como: Miniexame
do Estado Mental (MEEM), Teste de Fluência Verbal (FV), Teste do Desenho do Relógio
(TDR), Montreal Cognitive Assessment (MoCA), entre outros. A Escala de Depressão Geriátrica
(EDG) de Yesavage é utilizada no rastreio de depressão, problema frequente entre os idosos e
que cursa, frequentemente, com alteração cognitiva e incapacidade funcional.

■ Miniexame do estado mental


Importante instrumento de rastreio, de fácil e rápida aplicação, avalia os principais aspectos
da função cognitiva. Foi proposto em 1975 por Folstein et al., sendo que, no Brasil, foi
modificado por Bertollucci et al. (1994) e Brucki et al. (2003) para ser aplicado em nosso meio,
tanto no ambiente hospitalar, no ambulatorial quanto no domicílio e com forte influência da
escolaridade. No nosso meio, não há consenso em relação aos pontos de corte; porém, o mais
utilizado são os escores propostos por Brucki et al. (2003) (Tabela 9.1).

■ Teste de fluência verbal


O teste de FV avalia, predominantemente, a linguagem e a memória semântica, além da
função executiva. Trata-se de teste rápido e com notas de corte definidas pela escolaridade.
Solicita-se ao paciente relacionar o maior número de itens de uma categoria semântica (p. ex.,
frutas, animais) ou fonêmica (palavras que se iniciam com determinada letra) em um minuto. Em
nosso meio, utiliza-se mais frequentemente a categoria semântica nomeando animais/minuto. A
interpretação é a contagem do número de itens, excluindo as repetições, as oposições regulares
de gênero (p. ex., gato/gata computa apenas 1 e boi/vaca computa 2). Para indivíduos sem
escolaridade e até 8 anos incompletos, o nível de corte é 9 itens. Para os com 8 ou mais anos de
escolaridade, o ponto de corte é 13 itens (Brucki et al., 1997; Nitrini et al., 2005).

■ TABELA 9.1 Miniexame do estado mental.

Orientação Ano 5 pontos


temporal (qual é o Mês
... ?)
Dia do mês
Dia da semana
Hora

Orientação Local específico 5 pontos


espacial (onde Local genérico
estamos?)
Bairro ou rua próxima
Cidade
Estado

Memória Nomear três objetos e pedir ao paciente que repita: “carro, 3 pontos
imediata vaso, tijolo”
Se ele não conseguir, ensinar até aprender, no máximo até 6
vezes

Atenção e cálculo Pedir que o paciente diminua 7 de 100 (5 vezes sucessivas) 5 pontos
Alternativa: soletrar a palavra “mundo” na ordem inversa

Memória de Repetir os três objetos nomeados antes 3 pontos


evocação

Linguagem Mostrar um relógio e uma caneta e pedir que os nomeie 2 pontos

Pedir que repita: “nem aqui, nem ali, nem lá” 1 ponto

Seguir o comando de três estágios: 3 pontos


“pegue este papel com a mão direita, dobre-o ao meio e
coloque-o no chão

Ler e executar a ordem: “feche os olhos” 1 ponto


Escrever uma frase 1 ponto

Copiar o desenho: 1 Ponto

Interpretação: pontuação mínima de acordo com a escolaridade – analfabetos, 20 pontos; 1 a 4 anos de estudo, 25 pontos; 5 a 8
anos de estudo, 26 pontos; 9 a 11 anos de estudo, 28 pontos; superior a 11 anos de estudo, 29 pontos. (Fonte: Folstein et al., 1975;
modificada por Bertollucci et al., 1994 e Brucki et al., 2003.)

■ Teste do desenho do relógio


O TDR avalia funções executivas, memória, habilidades visuoconstrutivas, abstração e
compreensão verbal. Tem a vantagem de ser de fácil aplicação. Para realizá-lo, forneça ao
paciente papel em branco, lápis ou caneta. Em seguida, solicite ao indivíduo que desenhe um
relógio com todos os números e os ponteiros marcando 2:45 (duas horas e 45 min). Devido à
limitação deste teste em indivíduos com baixa escolaridade, recomenda-se utilizar naqueles com,
no mínimo, 4 anos de escolaridade (Fuzikawa et al., 2003; Nitrini et al., 2005).
Não há consenso quanto às notas de corte; porém, a proposta de Sunderland et al. (1989) é a
interpretação mais utilizada em nosso meio (Tabela 9.2).

■ Montreal Cognitive Assessment


O MoCa é uma ferramenta de triagem cognitiva breve, desenvolvida para avaliação de
problemas cognitivos leves, apresenta alta sensibilidade e alta especificidade para detecção de
comprometimento cognitivo leve (CCL), principalmente nos pacientes com desempenho na faixa
normal do MEEM. Teste de apenas uma página com um tempo estimado de 10 min para
aplicação, com pontuação máxima de 30 pontos, cobrindo oito domínios cognitivos
(visuoespacial/executivo, nomeação, memória, atenção, linguagem, abstração, evocação tardia e
orientação), sendo muito útil para utilização por médicos em linha de frente. O ponto de corte de
26 pontos e mais é considerado normal (Nasreddine et al., 2005). Na versão aplicada no Brasil, o
ponto de corte foi 24/25 pontos com boa sensibilidade e especificidade em indivíduos com o
mínimo de 4 anos de escolaridade (Memória et al., 2012) (ver Figura A.2 do Apêndice on-line).

■ Escala de depressão geriátrica


A EDG é utilizada para rastreio de quadros depressivos em idosos, pois, nesta faixa etária, as
manifestações são muito atípicas. Ela é de fácil aplicação e o paciente tem que replicar questões
com resposta dicotômica sim/não. A versão original é de 30 itens, mas há versões de 15, 10, 4 e
1 itens. A versão simplificada de quatro itens é adequada para o uso de rotina em nível primário
de saúde (Castelo et al., 2007). A versão de 15 itens é a mais utilizada em nosso meio, tendo sido
validada em nosso país (Yesavage; Brink, 1983; Almeida; Almeida, 1999a; Almeida; Almeida,
1999b). A EDG deve ser aplicada em idosos capazes de compreender as perguntas do
questionário, não sendo adequada para pacientes sabidamente com déficit cognitivo (Tabela 9.3).

■ TABELA 9.2 Critérios para avaliação do desenho do relógio.

Avaliação: 10 a 6 – desenho do relógio e números corretos

10 Ponteiros estão na posição correta

9 Leve erro nos ponteiros

8 Erros mais intensos nos ponteiros

7 Ponteiros completamente errados

6 Uso inapropriado dos ponteiros (uso de mostrador digital ou circulação de números, apesar de
repetidas instruções)

Avaliação: 5 a 1 – desenho do relógio e números incorretos

5 Números em ordem inversa ou concentrados em alguma parte do relógio. Ponteiros presentes


de alguma forma

4 Distorção da sequência numérica, números faltando ou colocados fora dos limites do relógio

3 Números e mostrador não correlacionados. Ausência de ponteiros

2 Alguma evidência de ter entendido as instruções, mas o desenho apresenta vaga semelhança
com um relógio

1 Não tentou ou não conseguiu representar um relógio


Fonte: Sunderland et al., (1989).

A despeito da realização dos testes tanto para detecção de demência quanto para depressão, é
bom lembrar que eles têm caráter de rastreio e não de diagnóstico, devendo-se, então, utilizar os
critérios da Classificação Internacional de Doenças (CID) e/ou do Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). É possível encaminhar o paciente para testes
neuropsicológicos mais elaborados para confirmar um diagnóstico.

Deficiências sensoriais
Os déficits sensoriais relacionados a visão e audição aumentam muito com o avançar da
idade, tornando-se empecilho para a realização das atividades da vida diária (AVD).
Idosos com deficiência visual têm sua saúde e bem-estar comprometidos, pois podem perder
sua carteira de motorista e sua independência, isolar-se socialmente, apresentar depressão,
quedas com consequente redução da sua qualidade de vida.
A perda auditiva subdiagnosticada e, consequentemente, subtratada interfere na validade e na
confiabilidade das avaliações funcionais, pois reduz pontos em testes de avaliação cognitiva,
colocando pacientes em faixa de deficiência cognitiva e até demência. Além disso, essa perda
está associada a maiores taxas de hospitalização, readmissão e eventos clínicos diversos,
inclusive declínio cognitivo (High et al., 2019).

■ TABELA 9.3 Escala de Depressão Geriátrica de Yesavage – versão de 15 itens.

Perguntas Sim Não

1. Você está basicamente satisfeito com sua vida? (10, 4, 1) 0 1

2. Você deixou muitos de seus interesses e atividades? (10, 4) 1 0

3. Você sente que sua vida está vazia? 1 0

4. Você se aborrece com frequência? (10) 1 0

5. Você se sente de bom humor a maior parte do tempo? (10) 0 1

6. Você tem medo de que algum mal vá lhe acontecer? 1 0

7. Você se sente feliz a maior parte do tempo? (10, 4) 0 1

8. Você sente que sua situação não tem saída? (10) 1 0

9. Você prefere ficar em casa a sair e fazer coisas novas? (10, 4) 1 0

10. Você se sente com mais problemas de memória do que a 1 0


maioria?

11. Você acha maravilhoso estar vivo? 0 1

12. Você se sente um inútil nas atuais circunstâncias? (10) 1 0

13. Você se sente cheio de energia? (10) 0 1

14. Você acha que sua situação é sem esperanças? 1 0

15. Você sente que a maioria das pessoas está melhor do que você? 1 0
(10)
Total ___ pontos
Interpretação: > 5 pontos, sugestiva de depressão. Nota: as indicações 10, 4 e 1 que aparecem ao lado das questões indicam os
itens incluídos na GDS-10 (10 itens),GDS-4 (4 itens) e GDS-1 (1 item). (Fonte: Yesavage; Brink, 1983; Almeida; Almeida,
1999a,b.)

As deficiências relacionadas ao olfato e ao paladar também se acentuam com o


envelhecimento e a capacidade discriminatória diminui. O desempenho em testes de capacidade
olfatória tem uma correlação com os testes de avaliação cognitiva. Tanto as alterações olfatórias
quanto do paladar influenciam na aceitação do paciente aos alimentos.
A avaliação sensorial e os testes indicados para esse fim são descritos no capítulo referente
aos órgãos dos sentidos (Capítulo 12).

Capacidade funcional e capacidade intrínseca


Em 2015, no Relatório Mundial de Saúde, a Organização Mundial da Saúde (OMS)
inaugurou uma nova perspectiva sobre a definição de envelhecimento saudável. O documento
considerou a heterogeneidade da população idosa e destacou a relevância do curso de vida e das
capacidades intrínseca e funcional na tomada de decisão e elaboração do plano terapêutico.
Capacidade intrínseca é a soma de todas as capacidades físicas e mentais de uma pessoa em um
dado momento, e a capacidade funcional diz respeito à interação do indivíduo com seu ambiente
(OMS, 2015).
A capacidade funcional é definida como a aptidão do idoso para realizar determinada tarefa
que lhe permita cuidar de si mesmo e ter uma vida independente em seu meio. A funcionalidade
do idoso é determinada pelo seu grau de autonomia e independência, sendo avaliada por
instrumentos específicos.
As atividades básicas de vida diária (ABVD) são aquelas que se referem ao autocuidado, ou
seja, são as atividades fundamentais necessárias para realizá-lo: tomar banho, vestir-se, promover
higiene, transferir-se da cama para a cadeira e vice-versa, ter continência, capacidade de
alimentar-se e deambular. A incapacidade de executar estas atividades identifica alto grau de
dependência e exige uma complexidade terapêutica e um custo social e financeiro maior (Tabela
9.4).
As escalas utilizadas baseiam-se em informações dos pacientes e dos cuidadores e devem ser
simples e de rápida avaliação, podendo ser utilizadas por todos os membros da equipe
interdisciplinar.
As escalas mais utilizadas para avaliação das ABVD no nosso meio são a Escala de Katz e o
Índice de Barthel.
A Escala de Katz está incluída na maioria das avaliações multidimensionais. Sua elaboração
é baseada na conclusão de que a perda funcional segue um padrão igual de declínio, isto é,
primeiro se perde a capacidade de banhar-se, seguida pela incapacidade de vestir-se, transferir-se
e alimentar-se e, quando há recuperação, ela ocorre em ordem inversa. Esta escala, que foi
proposta em 1963 para avaliar pacientes internados e posteriormente adaptada para a
comunidade, tem a grande limitação de não avaliar o item deambulação. Apresenta adaptação
transcultural para o Brasil, o que facilita o seu uso de forma adequada em nosso meio (Katz et
al., 1963; Katz; Akpom, 1976; Lino et al., 2008) (Tabela 9.5).

■ TABELA 9.4 Atividades básicas de vida diária (ABVD).

Cuidados pessoais Comer


Banhar-se
Vestir-se
Ir ao banheiro

Mobilidade Andar com ou sem ajuda


Transferir-se da cama para a cadeira e vice-versa
Mover-se na cama

Continência Urinária
Fecal
Fonte: Costa et al., (2019).

Outra escala muito utilizada mundialmente é o Índice de Barthel para avaliação da


independência funcional e mobilidade. Avalia dez funções: banhar-se, vestir-se, promover
higiene, usar o vaso sanitário, transferir-se da cama para cadeira e vice-versa, manter
continências fecal e urinária, capacidade para alimentar-se, deambular e subir e descer escadas.
Essa escala permite ainda uma gradação mais ampla na classificação da dependência, indo desde
a dependência total (0 ponto) até independência máxima (100 pontos). Originalmente, foi
desenvolvida para avaliar o potencial funcional e os resultados do tratamento de reabilitação dos
pacientes vítimas de AVE, mas mostrou-se muito útil na avaliação de idosos em geral (Tabela
9.6). Foi validada no Brasil para idosos em atendimento ambulatorial (Mahoney; Barthel, 1965;
Minosso et al., 2010).

■ TABELA 9.5 Avaliação das atividades básicas de vida diária (ABVD) – Escala de Katz.

1. Tomar banho (leito, banheira ou chuveiro)


( ) Não recebe ajuda (entra e sai da banheira sozinho, se este for o modo habitual de tomar banho). (I)
( ) Recebe ajuda para lavar apenas uma parte do corpo (p. ex., as costas ou uma perna). (I)
( ) Recebe ajuda para lavar mais de uma parte do corpo, ou não toma banho sozinho. (D)

2. Vestir-se (pega roupa, inclusive peças íntimas, nos armários e gavetas, e manuseia fecho, inclusive os
de órteses e próteses, quando forem utilizadas).
( ) Pega as roupas e veste-se completamente, sem ajuda. (I)
( ) Pega as roupas e veste-se sem ajuda, exceto para amarrar os sapatos. (I)
( ) Recebe ajuda para pegar as roupas ou vestir-se, ou permanece parcial ou completamente sem roupa.
(D)

3. Uso do vaso sanitário (ida ao banheiro ou local equivalente para evacuar e urinar; higiene íntima e
arrumação das roupas)
( ) Vai ao banheiro ou lugar equivalente, limpa-se e ajeita as roupas sem ajuda (pode usar objetos para
apoio como bengala, andador ou cadeira de rodas e pode usar comadre ou urinol à noite, esvaziando-
o de manhã). (I)
( ) Recebe ajuda para ir ao banheiro ou local equivalente, ou para se limpar ou para ajeitar as roupas após
evacuação ou micção, ou para usar a comadre ou urinol à noite. (D)
( ) Não vai ao banheiro ou equivalente para eliminação fisiológica. (D)

4. Transferências
( ) Deita-se e sai da cama, senta-se e levanta-se da cadeira sem ajuda (pode estar usando objeto para
apoio como bengala, andador). (I)
( ) Deita-se e sai da cama e/ou senta-se e levanta-se da cadeira com ajuda. (D)
( ) Não sai da cama. (D)

5. Continência
( ) Controla inteiramente a micção e a evacuação. (I)
( ) Tem “acidentes” ocasionais. (D)
( ) Necessita de ajuda para manter o controle da micção e evacuação; usa cateter ou é incontinente. (D)

6. Alimentação
( ) Alimenta-se sem ajuda. (I)
( ) Alimenta-se sozinho, mas recebe ajuda para cortar carne ou passar manteiga no pão. (I)
( ) Recebe ajuda para alimentar-se, ou é alimentado parcialmente ou completamente pelo uso de cateteres
ou fluidos intravenosos. (D)
Instruções: para cada área de funcionamento listada, assinale a descrição que se aplica (a palavra “ajuda” significa supervisão,
orientação ou auxílio pessoal): I – independente; D – dependente. Interpretação: 0 – independente em todas as seis funções; 1 –
independente em cinco funções e dependente em uma função; 2 – independente em quatro funções e dependente em duas
funções; 3 – independente em três funções e dependente em três funções; 4 – independente em duas funções e dependente em
quatro funções; 5 – independente em uma função e dependente em cinco funções; 6 – dependente em todas as seis funções.
(Fonte: Katz et al., 1963; Katz; Akpom, 1976; Lino et al., 2008.)
Para uma vida independente e ativa na comunidade, executando as atividades rotineiras do
dia a dia, o idoso deve usar os recursos disponíveis no meio ambiente. O conjunto dessas
atividades foi denominado AIVD (Tabela 9.7). Estão relacionadas com a realização de tarefas
mais complexas, como arrumar a casa, telefonar, viajar, fazer compras, preparar os alimentos,
controlar e tomar os remédios e administrar as finanças. De acordo com a capacidade de realizar
essas atividades, é possível determinar se o indivíduo pode ou não viver sozinho sem supervisão.

■ TABELA 9.6 Avaliação das atividades básicas de vida diária (ABVD) – Índice de Barthel.

Pontuação Atividade

1. Alimentação

10 pontos Independente: capaz de usar qualquer talher. Come em tempo razoável

5 pontos Ajuda: necessita de ajuda para passar manteiga, usar sal e pimenta etc.

0 ponto Dependente: não consegue levar comida do prato à boca

2. Banho

5 pontos Independente: capaz de tomar banho (esfregar-se) sozinho, em chuveiro ou banheira

0 ponto Dependente: necessita de auxílio de outra pessoa para o banho

3. Vestuário

10 pontos Independente: capaz de pegar as roupas, vestir-se, amarrar sapatos e despir-se

5 pontos Ajuda: necessita de ajuda, mas realiza pelo menos 1/2 das tarefas em tempo razoável

0 ponto Dependente: necessita de ajuda, não cumpre a condição anterior

4. Higiene pessoal

5 pontos Independente: capaz de lavar as mãos e o rosto, escovar os dentes e barbear-se, sem
ajuda

0 ponto Dependente: necessita de ajuda de outra pessoa em qualquer das atividades do item
anterior

5. Evacuações

10 pontos Continente: não apresenta incontinência, consegue usar supositórios ou enemas, sozinho

5 pontos Incontinente ocasional: apresenta episódios ocasionais de incontinência (acidentes) ou


necessita de ajuda para uso de supositórios ou enemas

0 ponto Incontinente: apresenta incontinência fecal


6. Micção

10 pontos Continente: não apresenta incontinência; quando necessário é capaz de lidar sozinho com
sonda vesical ou outro dispositivo

5 pontos Incontinente ocasional: apresenta episódios ocasionais de incontinência (acidentes) ou


não consegue lidar, sem ajuda, com sonda vesical ou outro dispositivo

0 ponto Incontinente: apresenta incontinência urinária

7. Uso do vaso sanitário

10 pontos Independente: usa o vaso sanitário ou urinol. Senta-se e levanta-se sem ajuda, mesmo
que use barras de apoio. Limpa-se e veste-se sem ajuda

5 pontos Ajuda: necessita de ajuda para manter o equilíbrio, limpar-se e vestir-se

0 ponto Dependente: recebe auxílio direto de outra pessoa ou não desempenha a função

8. Passagem cadeira-cama

15 pontos Independente: não necessita de ajuda na transferência. Se utiliza cadeira de rodas, faz
tudo sozinho

10 pontos Ajuda mínima: requer supervisão ou apoio para efetuar transferência

5 pontos Grande ajuda: capaz de sentar, mas necessita de assistência total para passagem

0 ponto Dependente: incapaz de sentar-se e incapaz de colaborar durante as transferências

9. Deambulação

15 pontos Independente: capaz de caminhar sem ajuda pelo menos 50 metros, mesmo com
bengalas, muletas, prótese ou andador

10 pontos Ajuda: capaz de caminhar pelo menos 50 metros, mas necessita de ajuda ou supervisão

5 pontos Independente em cadeira de rodas: capaz de manobrar a cadeira de rodas e movimentar-


se por pelo menos 50 metros

0 ponto Dependente: incapaz de caminhar ou utilizar cadeira de rodas conforme definido

10. Escadas

10 pontos Independente: capaz de subir ou descer escadas sem ajuda ou supervisão, mesmo com
muletas, bengalas ou apoio no corrimão

5 pontos Ajuda: necessita de ajuda física ou supervisão, ao descer e subir escadas

0 ponto Dependente: incapaz de subir escadas


■ TABELA 9.7 Atividades instrumentais de vida diária (AIVD).

Dentro de casa Fora de casa

Preparar a comida Manusear o dinheiro


Fazer as tarefas domésticas Fazer compras
Lavar e cuidar do vestuário Usar os meios de transporte
Executar trabalhos manuais Deslocar-se (compromissos sociais, religiosos, ir
Manusear medicação ao médico)

Usar o telefone

Fonte: Costa et al., (2019).

A escala de Lawton é uma das mais utilizadas para avaliação das AIVD e foi desenvolvida
avaliando idosos da comunidade em 1969. Em algumas circunstâncias, deve ser relevada a
incapacidade de uma pessoa realizar tarefas para as quais não tenha habilidade, como cozinhar,
por exemplo, prejudicando a análise de sua independência. Esta escala não está validada em
nosso meio, além de apresentar várias versões de traduções livres (Lawton; Brody, 1969;
Lawton, 1971). Há uma versão disponível na Tabela A.3 do Apêndice on-line.
Outra escala muito utilizada para avaliação das atividades instrumentais é o Questionário de
Pfeffer para as Atividades Funcionais. Proposto em 1982, comparou idosos sadios com os que
possuíam déficit cognitivo; portanto, tem grande importância no diagnóstico e acompanhamento
das demências. Há uma adaptação e validação em andamento, já tendo sua primeira fase
publicada (Sanches et al., 2011). A escala é muito utilizada em nosso meio para avaliar se o
déficit cognitivo é acompanhado de limitações funcionais. A versão mais utilizada em nosso
meio é a que foi empregada no Projeto SABE, disponível na Tabela 9.8 (Pfeffer et al., 1982;
Lebrão; Laurenti, 2005).

■ TABELA 9.8 Questionário de Pfeffer para atividades funcionais.

Perguntas Pontos

1. Ele(a) é capaz de cuidar do seu próprio dinheiro?

2. Ele(a) é capaz de fazer as compras sozinho (p. ex., de comida e roupa)?

3. Ele(a) é capaz de esquentar água para café ou chá e apagar o fogo?

4. Ele(a) é capaz de preparar comida?

5. Ele(a) é capaz de manter-se a par dos acontecimentos e do que se passa na


vizinhança?
6. Ele(a) é capaz de prestar atenção, entender e discutir um programa de rádio, televisão
ou um artigo do jornal?

7. Ele(a) é capaz de se lembrar de compromissos e acontecimentos familiares?

8. Ele(a) é capaz de cuidar de seus próprios medicamentos?

9. Ele(a) é capaz de andar pela vizinhança e encontrar o caminho de volta para casa?

10. Ele(a) é capaz de cumprimentar seus amigos adequadamente?

11. Ele(a) é capaz de ficar sozinho(a) em casa sem problemas?


Mostre ao informante as opções e leia as perguntas. Anote a pontuação: 0 – sim, é capaz; 0 – nunca o fez, mas poderia fazer
agora; 1 – com alguma dificuldade, mas faz; 1 – nunca fez, e teria dificuldade agora; 2 – necessita de ajuda; 3 – não é capaz.
Interpretação: < 6 pontos – normal; ≥ 6 pontos – comprometido. (Fonte: Pfeffer et al., 1982; Lebrão; Laurenti, 2005.)

As atividades avançadas de vida diária (AAVD) são as atividades cotidianas, voluntárias


específicas para cada indivíduo e influenciadas por fatores socioculturais, educacionais e
motivacionais. São mais complexas que as atividades básicas e as instrumentais e não estão
incluídas na avaliação funcional do idoso de forma sistematizada. Os exemplos são dirigir
automóvel, praticar esportes, pintar, tocar instrumento musical, participar de serviços voluntários
ou atividades políticas, entre outras. Essas atividades não são fundamentais para uma vida
independente, porém, demonstram maior capacidade e podem contribuir para melhor saúde física
e mental e, por conseguinte, melhor qualidade de vida. São importantes para avaliação de
programas de promoção à saúde e reabilitação (Dias et al., 2011).

Estado e risco nutricional


Informações sobre o estado nutricional são importantes na avaliação da condição de saúde de
um indivíduo. A heterogeneidade dessa população dificulta a uniformização da avaliação
nutricional geriátrica, determinando que esse processo adote critérios para os idosos entre 60 e
70 anos, próximos dos adotados pelos adultos mais jovens, e outros para os mais idosos. Sendo
assim, principalmente para estes últimos, não existe um método único e eficiente para estabelecer
as condições nutricionais, carecendo de valor preditivo para a mortalidade. Inúmeros motivos
podem levar o idoso ao quadro de desnutrição. Viver sozinho desestimula o indivíduo a preparar
alimentos; restrições funcionais podem incapacitá-lo de ir às compras e de cozinhar, por
exemplo. Pacientes em condições sociais adversas e do sexo masculino são mais suscetíveis aos
quadros de desnutrição.
A Miniavaliação Nutricional (MAN), de Guigoz et al. (1994), foi o primeiro instrumento
validado para avaliação nutricional especificamente do idoso. O objetivo da MAN é avaliar o
risco de desnutrição para poder intervir quando necessário. Inclui 18 itens, atingindo um escore
máximo de 30 pontos, sendo que entre 17 e 23,5 há risco de desnutrição; abaixo de 17,
caracteriza desnutrição; e, acima de 24, considera-se bom o estado nutricional. As perguntas são
sobre medidas antropométricas, como peso, altura, perda de peso, informações dietéticas,
referentes à alimentação, informações sobre estilo de vida, medicação, além da autopercepção
sobre o estado de saúde (ver Tabela A.4 do Apêndice on-line).
A versão reduzida da MAN (MNA®-SF) foi validada por Kaiser et al. (2009) em idosos
residentes na comunidade e tem se mostrado útil para identificar os em risco nutricional. É uma
versão de rápida aplicação (Tabela 9.9) e tem uma grande vantagem: na impossibilidade de
calcular o índice de massa corporal (IMC), pode ser substituído pela medida da circunferência da
panturrilha (CP), ideal para ser utilizada na atenção primária (Nestlé Nutrition Institute, 2009;
Kaiser et al., 2009; Costa, 2019).
As medidas antropométricas fazem parte da avaliação nutricional. O IMC, desenvolvido por
Lambert Quételet no fim do século XIX, é obtido pela razão do peso (kg) pela altura (m) ao
quadrado (kg/m2). Apesar de ter limitações para uso na população idosa, devido às alterações na
composição corporal com o processo de envelhecimento, é muito utilizado para avaliação da
composição corporal de idosos. Não há consenso sobre quais os pontos de corte ideais para esta
população, se os parâmetros definidos pela OMS ou os valores definidos por Lipschitz (1994):
baixo peso ≤ 22 kg/m2, eutrofia 22 a 27 kg/m2 e obesidade ≥ 27 kg/m2. Estes têm sido os valores
mais aceitos para população idosa.

■ TABELA 9.9 Miniavaliação nutricional (MAN) – versão reduzida.

Triagem Pontos

A. Nos últimos 3 meses houve diminuição da ingesta alimentar em razão da perda


de apetite, problemas digestivos, dificuldades para mastigar ou deglutir?
0 = Diminuição grave
1 = Diminuição moderada
2 = Sem diminuição da ingesta

B. Perda de peso nos últimos 3 meses


0 = Superior a três quilos
1 = Não sabe informar
2 = Entre um e três quilos
3 = Sem perda de peso

C. Mobilidade
0 = Restrito ao leito ou à cadeira de rodas
1 = Deambula, mas não é capaz de sair de casa
2 = Normal

D. Passou por algum estresse psicológico ou doença aguda nos últimos 3 meses?
0 = Sim
2 = Não

E. Problemas neuropsicológicos
0 = Demência ou depressão grave
1 = Demência leve
2 = Sem problemas neuropsicológicos

F1. Índice de massa corporal = [peso (kg)/altura (m)2]:


0 = IMC < 19
1 = 19 ≤ IMC < 21
2 = 21 ≤ IMC < 23
3 = IMC ≥ 23

Se o cálculo do IMC não for possível, substituir a questão F1 pela F2

F2. Circunferência da panturrilha (CP) em cm


0 = CP < 31
1 = CP ≥ 31

Pontuação de triagem (máximo 14 pontos)


12 a 14 pontos: estado nutricional normal
08 a 11 pontos: sob risco de desnutrição
0 a 7 pontos: desnutrição
IMC: índice de massa corporal. (Fonte: Guigoz, 2006; Kaiser et al., 2009; Nestlé Nutrition Institute, 2009.)

A medida da circunferência do braço (CB) avalia gordura subcutânea e musculatura.


Inicialmente é definida a linha média do braço entre o olécrano e o acrômio com o braço
flexionado a 90°; neste local, é feita a medida da CB, que deve estar relaxado ao longo do corpo,
no membro não dominante, com a palma da mão voltada para a coxa. Uma importância clínica
desta medida é para a definição do tamanho do manguito para medida adequada da pressão
arterial (Costa et al., 2019).
A CP é a medida mais sensível e mais utilizada para avaliação da massa muscular em idosos.
Realizada na maior circunferência no espaço entre joelho e tornozelo, sendo considerado valor
normal o ponto de corte de 31 cm, medido no membro não dominante (Costa et al., 2019). Os
demais parâmetros para avaliação nutricional estão definidos em capítulo específico.
Condições socioambientais
Esta talvez seja a dimensão mais complexa e difícil de ser quantificada, provavelmente pela
heterogeneidade dos seus componentes. Devem ser avaliadas as relações e as atividades sociais,
os recursos disponíveis de suporte (social, familiar e financeiro), sabendo com que tipo de ajuda
o idoso pode contar, caso necessite. Esses fatores influenciam diretamente o planejamento
terapêutico.
Os sistemas de suporte social podem ser informais, que são as relações entre membros de
uma família, entre amigos e vizinhos, e sistemas formais que são hospital-dia, centro-dia,
instituições de longa permanência, atendimento domiciliar e programas de capacitação de
cuidadores.
A ausência de suporte social adequado ao idoso piora as condições de saúde e, reduz a
capacidade funcional; portanto, faz-se necessária a avaliação adequada desse item. Deve-se
perguntar sobre sua vida social e utilizar o Apgar da família (Smilkstein et al., 1982). Há uma
versão modificada por Meiner (2011) em que são colocadas as mesmas perguntas e pontuações
referentes à família, mas para os amigos (Tabela 9.10).
Outros aspectos que devem ser avaliados são as necessidades especiais e a adaptação do
ambiente. A residência do idoso deve ser adaptada às suas limitações, de forma a preservar ou
recuperar a independência, além de evitar quedas e todas as suas consequências.
Importante avaliar se o cuidador é um cuidador formal ou informal, se é capacitado e bem
treinado e, principalmente, se apresenta estresse, pois cuidador não capacitado e não treinado
e/ou estressado não conseguirá manter um bom padrão de atendimento ao idoso com
consequências na sua saúde e qualidade de vida.

Polifarmácia e medicações inapropriadas


Polifarmácia pode ser definida como o uso regular de múltiplos medicamentos e, com o
envelhecimento, o número deles aumenta pela necessidade de controlar várias crônicas
coexistentes (multimorbidade). Além do mais, atualmente, para o controle de uma única
condição crônica – hipertensão arterial, por exemplo – podem ser necessários vários
medicamentos. Portanto, a polifarmácia, muitas vezes, não é errada, e sim necessária, mas não
deixa de ser uma situação de risco, pois existe uma relação direta entre o número de
medicamentos usados e o risco de eventos adversos, incluindo aqueles mais graves com óbito.
Um dos grandes desafios tem sido estabelecer o critério operacional com a definição de um
ponto de corte do que seria o número de medicamentos utilizados por um indivíduo a partir do
qual se consideraria polifarmácia. Gnjidica et al. (2012) demonstraram que cinco ou mais
medicamentos seriam o número mais adequado para definir polifarmácia, sendo que, para isso,
estimaram a relação do número de medicamentos usados com desfechos adversos importantes na
assistência geriátrica, como fragilidade, incapacidade, mortalidade e quedas.

■ TABELA 9.10 Apgar da família e dos amigos.

Está satisfeito e pode contar com seus familiares (amigos) para resolver seus 0 − Raramente
problemas? 1 − Ocasionalmente
2 − Frequentemente

Está satisfeito com a forma com que seus familiares (amigos) conversam e 0 − Raramente
compartilham os problemas com você? 1 − Ocasionalmente
2 − Frequentemente

Está satisfeito com a forma com que seus familiares (amigos) acatam e apoiam 0 − Raramente
suas vontades e decisões? 1 − Ocasionalmente
2 − Frequentemente

Está satisfeito com a forma com que seus familiares (amigos) expressam 0 − Raramente
afeição e respondem às suas emoções, como raiva, sentimentos de culpa, 1 − Ocasionalmente
medo, afeto?
2 − Frequentemente

Está satisfeito com a forma com que você e seus familiares (amigos) 0 − Raramente
compartilham o tempo juntos? 1 − Ocasionalmente
2 − Frequentemente
Pontue a escala para os familiares e para os amigos separado. Escore: < 3 pontos, acentuada disfunção nas relações familiares e
de amizade; 4 a 6 pontos, moderada disfunção nas relações familiares e de amizade; > 6 pontos, disfunção leve ou ausente.
(Fonte: Smilkstein et al., 1982; Meiner 2011.)

Além do número de medicamentos, o risco de desfechos desfavoráveis em idosos também


está relacionado com o uso de medicamentos inapropriados, os quais são definidos como aqueles
que não apresentam evidência clara de eficácia ou cujo risco de reações adversas excede os
benefícios clínicos esperados e que podem ser substituídos por alternativas mais bem toleradas.
Existem listas validadas, com recomendações baseadas em evidências, de medicamentos
considerados inapropriados para idosos. As mais usadas são os critérios de Beers, da American
Geriatrics Society (AGS, 2019), e o critério STOPP/START.
Na atualização dos critérios de Beers, de 2019, o painel de especialistas contou com
profissionais de diversas áreas clínicas e experiências diversas, o que enriqueceu o trabalho com
importantes revisões, adições e exclusão de medicamentos. Importante reforçar que os critérios
são incapazes de considerar a complexidade de todos os pacientes, devendo, portanto, ser um
guia para apoiar a tomada de decisão clínica, e não a “palavra final” se uma droga é apropriada
ou inadequada para um paciente especificamente. Além disso, esses critérios não devem ser
aplicados a paciente em fim de vida ou em cuidados paliativos quando os riscos e benefícios da
terapia medicamentosa podem seguir outros critérios.
O critério STOPP/START (Screening Tool of Older Person’s Prescriptions/Screening Tool to
Alert doctors to Right Treatment), criado em 2008 por médicos e farmacêuticos irlandeses,
organizando os medicamentos de acordo com cinco sistemas fisiológicos, discute a prescrição
potencialmente inapropriada, a qual engloba os medicamentos potencialmente inapropriados
(STOPP) e as potenciais omissões na prescrição (START) (O’Mahony et al., 2015).
Convém ressaltar que a relação de medicamentos usados deve fazer parte da anamnese no
exame clínico tradicional e que a AGA não pode ser dissociada deste na avaliação dos idosos. A
melhor forma de se obter a relação das medicações utilizadas, prescritas ou não, é fazer um
inventário medicamentoso, também conhecido como “teste da sacola de remédios”, mostrado na
Tabela 9.11.
A avaliação dos medicamentos somada aos demais parâmetros avaliados na AGA tem grande
importância para nortear o que se convencionou de “desprescrição”, ou seja, o processo
sistemático de identificação e descontinuação de medicamentos nas situações nas quais os danos
existentes ou potenciais suplantam os benefícios existentes ou potenciais, dentro do contexto dos
objetivos de cuidado individual de cada paciente, do seu estado funcional, expectativa de vida,
valores e preferências (Scott et al., 2015).

■ TABELA 9.11 Teste da sacola de remédios.

Solicitar no agendamento da consulta que o paciente ou acompanhante traga uma sacola com todos os
medicamentos em uso pelo paciente

Mostrar cada medicamento e perguntar a posologia, há quanto tempo usa e para que foi indicado

Perguntar sobre outros medicamentos utilizados recentemente (último mês) e sobre a suspensão ou
mudança de dosagem de algum medicamento

Perguntar sobre o uso de medicação injetável, tópica ou aerossóis, de remédios naturais, fitoterápicos,
vitaminas e sobre automedicação

Insistir sobre o uso de analgésicos, anti-inflamatórios, sedativos e hipnóticos, antivertiginosos, antigripais


e antialérgicos

Perguntar sobre a relação entre introdução, aumento ou redução de dose e suspensão de algum
medicamento com: declínio funcional, confusão mental, quedas, incontinência
Fonte: Costa et al., (2019).

Comorbidades e multimorbidade
Comorbidade e multimorbidade têm sido, com frequência, utilizadas como sinônimos. No
entanto, comorbidade é atualmente usada para descrever os efeitos combinados de doenças
adicionais sobre uma “doença índice” (condição principal apresentada pelo paciente), como é
caso das comorbidades em um paciente com câncer. Multimorbidade é a ocorrência em um
mesmo indivíduo de duas ou mais doenças crônicas (Fabbri et al., 2015). No idoso, o que mais
se observa é a presença de multimorbidade, pois a prevalência de doenças crônicas aumenta com
a idade e, na maioria das vezes, é difícil estabelecer qual seria a doença principal já que elas
interagem entre si para determinarem o quadro clínico e todas contribuem para aumentar os
riscos de desfechos desfavoráveis como perda funcional, fragilidade, síndromes geriátricas e
morte.
Entender por que várias doenças podem coexistir em um mesmo indivíduo é complicado e
existem inúmeras razões, incluindo efeitos do acaso, fatores de risco ou mecanismos
fisiopatológicos comuns e complexidades iatrogênicas (Fabbri et al., 2015).
Entretanto, se um idoso com múltiplas doenças crônicas (multimorbidade) é internado com
pneumonia ou fratura de fêmur ou recebe o diagnóstico de câncer e vai iniciar o tratamento
quimioterápico, essas situações passam a ser a “doença índice” e avaliar as comorbidades é de
extrema importância, pois influenciam a expectativa de vida, a tolerância a intervenções
diagnósticas e terapêuticas, no prognóstico funcional e a qualidade de vida. Por isso, índices de
comorbidades devem ser incluídos na AGA, principalmente de pacientes hospitalizados, com
condições agudas, ou com diagnóstico de doença que demandará intervenções terapêuticas mais
invasivas, como é o caso daqueles com doença oncológica.
Da mesma forma que a lista de medicamentos usados, a lista de doenças deve ser obtida
durante a anamnese no exame clínico tradicional do qual a AGA não deve ser dissociada. Índices
de comorbidades, no entanto, não são simplesmente lista de doenças, mas escalas nas quais o
paciente recebe ponto por cada doença que apresente e essa pontuação é relacionada a
prognósticos, principalmente a risco de morte.
Um dos mais utilizados é o índice de comorbidade de Charlson que inclui 19 condições
clínicas selecionadas, registradas como diagnóstico secundário, por seu poder de associação à
mortalidade. As condições clínicas mais frequentes na coorte de pacientes estudados foram
incluídas na escala, sendo estabelecidos pesos para cada uma delas, a partir dos valores dos
riscos relativos de mortalidade em 1 ano na população estudada (Charlson et al., 1987).
Posteriormente, os próprios Charlson et al., validaram a escala acrescendo um ponto para cada
década acima dos 50 anos, sendo esse valor somado ao escore obtido na escala de Charlson
original. Eles concluíram que a escala combinada era um bom preditor do prognóstico e ela
passou a ser chamada de índice comorbidade-idade de Charlson (ICIC) (Charlson et al., 1994).
Apesar de muito utilizado no Brasil em vários estudos de mortalidade hospitalar, não existe
nenhum estudo de validação no país. Iucif e Rocha (2004) avaliaram mais de 20 mil egressos de
internações hospitalares na cidade de Ribeirão Preto (SP) e evidenciaram que o Índice de
Comorbidade de Charlson tem correlação com a mortalidade hospitalar. A Tabela 9.12 mostra o
ICIC e os riscos de morte em 1 ano conforme a pontuação.

■ TABELA 9.12 Índice de comorbidade-idade de Charlson (ICIC).

Peso Condição clínica

1 Infarto do miocárdio
Insuficiência cardíaca congestiva
Doença vascular periférica
Demência
Doença cerebrovascular
Doença pulmonar crônica
Doença do tecido conjuntivo
Diabetes melito leve, sem complicação
Úlcera péptica

2 Hemiplegia
Doença renal grave ou moderada
Diabetes melito com complicação
Tumor
Leucemia
Linfoma

3 Doença do fígado grave ou moderada

6 Tumor maligno, metástase


AIDS

Ponderação da idade

Grupo etário Pontos

0 a 49 0

50 a 59 1

60 a 69 2

70 a 79 3

80 a 89 4
90 a 99 5
Escore: mortalidade em 1 ano – 0 ponto (12%); 1 a 2 pontos (26%); 3 a 4 pontos (52%); ≥ 5 pontos (85%). (Fonte: Iucif; Rocha,
2004.)

Existem outros índices, inclusive mais específicos para a população idosa; porém, todos
também não foram validados no Brasil e convém ressaltar que instrumentos exclusivos de
avaliação de comorbidades podem não ter a acurácia esperada na população idosa para predizer
desfechos desfavoráveis, sendo melhor associá-los a outros componentes da AGA,
principalmente às avaliações da capacidade funcional, cognitiva e nutricional.
Um estudo realizado para avaliar mortalidade comparou componentes da AGA, como o
índice de Barthel para AVD e o Miniexame do Estado Mental, com dois instrumentos de
avaliação de prognóstico e cinco de avaliação de comorbidades, inclusive o Índice de
Comorbidade de Charlson, e a conclusão foi de que nenhum desses instrumentos foi superior a
alguns componentes da AGA para predizer mortalidade em 5 anos de idosos hospitalizados. Os
resultados desse estudo também demonstraram que nenhum dos instrumentos usados melhorou a
acurácia prognóstica da AGA em predizer a sobrevivência e, portanto, agrega mais às crescentes
evidências de que a AGA é melhor preditor do que a avaliação exclusiva de comorbidades. A sua
utilização como componente da AGA, portanto, fica mais restrita a situações específicas como
no caso de internações por doenças agudas e em pacientes que iniciarão tratamento oncológico
(Martínez-Velilla et al., 2014).

Outros parâmetros
Um parâmetro importante é a autoavaliação da saúde do indivíduo, a qual tem sido muito
utilizada em trabalhos populacionais, pois há uma relação direta entre autoavaliação de saúde e
indicadores da capacidade funcional. Uma sugestão é perguntar ao paciente o que ele acha de sua
saúde e mostrar as seguintes opções: muito boa, boa, regular, ruim, muito ruim e sem condições
(quando o paciente não tem condições de responder).
Outro parâmetro de igual importância é a presença ou não de maus-tratos. A avaliação e o
tratamento de maus-tratos em idosos apresentam vários desafios: as vítimas podem esconder o
fato ou ser incapazes de relatá-los devido ao comprometimento cognitivo; a alta carga de
doenças crônicas predispõe a resultados tanto falso-negativos (p. ex., fraturas atribuídas a
osteoporose), como falso-positivos (hematomas espontâneos decorrentes de fragilidade capilar);
barreiras culturais e linguísticas podem impedir divulgação de maus-tratos e um diagnóstico
definitivo de que o fato está ocorrendo pode levar semanas ou meses, fazendo com que os
médicos intervenham antes da confirmação, o que não é conduta normalmente utilizada no
tratamento de doenças médicas. Por essas e outras razões, o rastreio para maus-tratos não é
recomendado rotineiramente pela U.S. Preventive Services Task Force. Porém, a presença de
qualquer sinal de maus-tratos deve conduzir a uma avaliação pormenorizada pela equipe
interdisciplinar envolvida no atendimento ao paciente (ver Capítulo 7).
Outro parâmetro relevante é a estimativa de risco cardiovascular, pois a prevalência de
doenças cardiovasculares na população idosa é muito alta e a conduta de muitos tratamentos irá
variar de acordo com risco cardiovascular (ver Capítulos 31, 33 e 36).
A AGA deverá fornecer também informações específicas relativas ao grupo a que pertence o
idoso, por exemplo, idosos institucionalizados, idosos com neoplasias etc.

Aplicação
A AGA pode ser feita pelo médico em seu consultório, no entanto, é mais bem realizada por
uma equipe interdisciplinar, nos diferentes locais de atendimento ao idoso, como pronto-socorro,
enfermaria, centro de reabilitação, ambulatório, clínicas de outras especialidades e em programas
de atendimento domiciliar.
No Brasil, atualmente a AGA se encontra no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde
2016, que define algumas orientações para a realização da AGA na medicina suplementar. Essas
orientações podem ser aplicadas em todas as outras situações, em uma tentativa de uma
padronização (ANS, 2016).
O uso de testes de triagem é muito útil em unidades não geriátricas como os serviços de
ortopedia e oncologia e nas unidades básicas de saúde. Já nas unidades geriátricas, todos os
pacientes devem ser submetidos a uma avaliação ampla. Entretanto, muitos dos testes de triagem
foram desenvolvidos e validados para pacientes oncológicos ou estão em processo de adaptação
transcultural e validação em nosso meio. Dentre eles convém citar:

■ G8 – Geriatric 8: instrumento desenvolvido para pacientes com neoplasias hematológicas e


que consta de 8 perguntas retiradas da miniavaliação nutricional (MAN) somadas a um item que
divide os idosos em três grupos etários (menos que 80 anos, entre 80 e 85 anos e maiores que 85
anos). O escore máximo é de 17 pontos e valores menores ou iguais a 14 são indicativos de risco
e justificam a realização da avaliação geriátrica (Bellera et al., 2012)
■ aCGA – Abbreviated Comprehensive Geriatric Assessment (Avaliação Geriátrica Ampla
Abreviada): composta por três questões sobre AVD, quatro questões sobre AIVD, quatro
questões do MEEM e quatro questões da EDG. Diferente de outros instrumentos de triagem, não
há uma pontuação de corte, e sim recomendações dependendo das dificuldades. São elas: EDG ≥
2 – completar a EDG de 15 pontos, uma dificuldade em AVD – completar a avaliação das AVD,
uma dificuldade em AIVD – completar a avaliação das AIVD, e pontuação no rastreio cognitivo
≤ 6 – completar o MEEM (Overcash et al., 2004)
■ VES-13 – Vulnerable Elders Survey (Inquérito de Idosos Vulneráveis) 13: foi desenvolvido
com o objetivo de identificar idosos vulneráveis residentes na comunidade. Os critérios
estabelecidos pelos autores para definir vulnerabilidade foram: idade igual ou superior a 65 anos
e alto risco de declínio funcional ou morte em 2 anos (Saliba et al., 2001). É composto de quatro
partes. A primeira é a idade, a segunda é uma pergunta sobre autoavaliação de saúde, a terceira é
composta de seis perguntas sobre atividades físicas e a quarta de cinco perguntas sobre AVD. O
escore máximo é de 10 pontos e valores maiores ou iguais a 3 indicam vulnerabilidade,
suscitando a aplicação da AGA. O VES-13 teve sua adaptação transcultural para o português
realizada por Maia, Duarte, Secoli, Santos e Lebrão e publicada em 2012. A Tabela 9.13 mostra
a versão final adaptada para o português.

Esses instrumentos são úteis nos serviços de atenção básica e se o rastreio indicar a presença
de risco ou de vulnerabilidade, o idoso deverá ser submetido à avaliação geriátrica. Caso
contrário, recomenda-se acompanhamento na rede básica com rastreios periódicos.

Telemedicina em geriatria e avaliação geriátrica ampla


Em 2018, a população idosa brasileira ultrapassou os 30 milhões de habitantes e naquele ano
havia apenas seis médicos geriatras para cada 100 mil idosos em nosso país, sendo que mais de
75% destes profissionais atuavam nas regiões Sudeste (1094; 60,2%) e Sul (279; 15,4%)
(Scheffer et al., 2018). Além da desigualdade na distribuição demográfica destes especialistas, a
incapacidade funcional e custos com viagens e alimentação dificultam o acesso de pacientes a
serviços médicos especializados.

■ TABELA 9.13 Versão final do Vulnerable Elders Survey (VES-13) adaptada para o português.

1. Idade _________

Pontuação: 75 a 84 anos – 1 ponto; ≥ 85 anos – 3 pontos

2. Em geral, comparando com outras pessoas de sua idade, você diria que sua saúde é: ruim, regular, boa,
muito boa ou excelente

Pontuação: ruim e regular – 1 ponto

3. Em média, quanta dificuldade você tem para fazer as seguintes atividades:

Nenhuma Pouca Média Muita Incapaz


dificuldade dificuldade dificuldade dificuldade de fazer

Curvar-se, agachar ou ajoelhar-


se?

Levantar ou carregar objetos


com peso aproximado de 5 kg?
Elevar ou estender os braços
acima do nível do ombro?

Escrever ou manusear ou
segurar pequenos objetos?

Andar 400 metros


(aproximadamente 4
quarteirões)?

Fazer serviço doméstico pesado


(esfregar o chão, limpar janelas
etc.)

Pontuação: 1 ponto para cada resposta “Muita dificuldade” ou “Incapaz de fazer”

4. Por causa de sua saúde ou restrição física, você tem alguma dificuldade para:

a. Fazer compras de itens pessoais (produtos de higiene pessoal ou medicamentos)?

( ) Sim – você recebe ajuda para fazer compras? Sim Não

( ) Não

( ) Não faço compras – isso acontece por causa da sua idade? Sim Não

b. Lidar com dinheiro (como controlar suas despesas ou pagar contas)?

( ) Sim – você recebe ajuda para lidar com dinheiro? Sim Não

( ) Não

( ) Não lido com dinheiro – isso acontece por causa da sua idade? Sim Não

c. Atravessar o quarto andando? (é permitido o uso de bengala ou andador)

( ) Sim – você recebe ajuda para andar? Sim Não

( ) Não

( ) Não ando – isso acontece por causa da sua idade? Sim Não

d. Realizar tarefas domésticas leves (lavar louças, fazer limpezas superficiais)?

( ) Sim – você recebe ajuda para realizar tarefas leves? Sim Não

( ) Não

( ) Não faço tarefas domésticas leves – isso acontece por causa da sua idade? Sim Não

e. Tomar banho de chuveiro ou banheira?


( ) Sim – você recebe ajuda para tomar banho de chuveiro ou banheira? Sim Não

( ) Não

( ) Não tomo banho de chuveiro ou banheira – isso acontece por causa da Sim Não
sua idade?

Pontuação: considerar 4 pontos para uma ou mais respostas “Sim”.


Classificação final: não vulnerável – pontuação < 3 pontos; vulnerável – pontuação ≥ 3 pontos. (Fonte: Maia et al., 2012.)

Durante a pandemia de covid-19, foram adotadas medidas sanitárias como a recomendação


de distanciamento social, especialmente para os grupos de risco, como é o caso dos idosos.
Serviços de geriatria e oncologia buscaram alternativas para garantir o atendimento dos pacientes
e evitar visitas desnecessárias aos serviços de saúde e, neste contexto, a telemedicina teve papel
crucial. Instrumentos foram adaptados, com ressalvas, para a aplicação a distância, na tentativa
de mitigar as dificuldades de aplicação da AGA, durante a pandemia (DiGiovanni et al., 2020;
Sanchez-Rodriguez et al., 2020). O Conselho Federal de Medicina (CFM), em carácter de
excepcionalidade, reconheceu no Ofício CFM n. 1756/2020-CONJUR a possibilidade da
utilização da telemedicina para fins de orientação, monitoramento e interconsulta durante a
pandemia de covid-19. Esta decisão foi regulamentada em caráter temporário pela Portaria no
Ministério da Saúde no 467/2020 (Brasil, c2020).
Há interesse da indústria e de agências governamentais e serviços de saúde em tecnologias
aplicadas no cuidado com a pessoa idosa, facilitando a comunicação e interação entre usuários,
cuidadores e profissionais. O uso de tecnologias na comunicação favorece a colaboração
interdisciplinar e aproxima especialistas dos pacientes com problemas de mobilidade e dos
profissionais de saúde que trabalham distante dos centros urbanos (Pilloto et al., 2018). Vale
ressaltar que a telemedicina não substitui a complexidade de uma visita domiciliar e a
comunicação não verbal que apenas o contato “olho no olho” pode proporcionar. No entanto,
atendimentos em tempo real por videoconferências podem garantir aos pacientes com
imobilidade, dificuldade de acesso a transporte ou que residem distante dos grandes centros
urbanos a oportunidade de avaliação pelo especialista (DiGiovanni et al., 2020).
Algumas experiências de aplicação da AGA ou de seus instrumentos têm sido utilizadas na
tentativa de reduzir o tempo das consultas ou facilitar a avaliação e comunicação de pacientes
com dificuldade de acesso aos serviços especializados em Geriatria. Embora estas experiências
não tenham reduzido o tempo de consulta com o especialista, contribuíram com a redução do
tempo com atividades administrativas como elaboração de relatórios e auditorias e agilizando a
interpretação de escalas de rastreio ou estratificação de risco. Este campo se abre para a
Geriatria, precisamos planejar como utilizar melhor a tecnologia, avaliar quais instrumentos são
factíveis de serem aplicados a distância e como utilizar a tecnologia de modo que a “alma da
Geriatria” se mantenha intacta.

Considerações finais
O idoso deve ser avaliado globalmente e parâmetros como capacidade funcional e aspectos
cognitivos, sociais, psicológicos e culturais nunca devem ser deixados para o segundo plano. A
dificuldade é como fazer a avaliação de tantos dados de forma estruturada, sistemática e dentro
de um tempo razoável. Apesar de nem sempre os protocolos permitirem que esses quesitos sejam
cumpridos, atualmente, com os conhecimentos e estudos que demonstram eficácia e as
limitações da AGA, ela ainda permanece como instrumento de grande importância na assistência
ao idoso, pois é capaz de detectar incapacidades, condições clínicas ocultas, riscos de
fragilização, limitações das atividades e mesmo restrições à participação (desvantagens). Além
de ser ferramenta fundamental para o planejamento terapêutico a médio e a longo prazos e
continua sendo parte essencial da abordagem interdisciplinar ao paciente geriátrico. Convém
ressaltar que os instrumentos de avaliação, como relatado anteriormente, são fundamentais no
balizamento da rotina e dos protocolos de aplicação.
A AGA introduz o conceito da promoção de vida saudável para o idoso, por meio de uma
abordagem diagnóstica multifacetada dos problemas físicos, psicológicos e funcionais,
focalizando a preservação e/ou a recuperação funcional, ao contrário da tradicional medicina
curativa. E mesmo que com pequenas modificações entre os diversos grupos, precisa ser
incorporada como rotina na moderna prática clínica, possibilitando uma ação preventiva e de
reabilitação, contribuindo para uma expectativa de vida saudável e maior.

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