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Jorge Lucas e o Magnetismo da Lua

O conto 'Aluado' narra a infância de Jorge Lucas, um garoto da periferia que, ao ser seduzido pela Lua, abandona frequentemente as brincadeiras, gerando mistério entre os amigos. Anos depois, ele se torna um astronauta, realizando o sonho de sua mãe e quebrando expectativas sociais. A história reflete sobre desigualdades sociais e a importância da educação na ascensão social.

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Jorge Lucas e o Magnetismo da Lua

O conto 'Aluado' narra a infância de Jorge Lucas, um garoto da periferia que, ao ser seduzido pela Lua, abandona frequentemente as brincadeiras, gerando mistério entre os amigos. Anos depois, ele se torna um astronauta, realizando o sonho de sua mãe e quebrando expectativas sociais. A história reflete sobre desigualdades sociais e a importância da educação na ascensão social.

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Aluado

Os frenéticos anos oitenta apenas começavam. A rua já era pavimentada, coberta pelo asfáltico manto negro.
Entretanto, a terra vermelha ainda se fazia presente sob as unhas roídas de toda a molecada.
O campinho, hoje raro até mesmo nas mais longínquas periferias, era de terra, como os incontáveis terrenos
baldios existentes naquela época. Apenas alguns ralos matinhos, que não podia se chamar de grama, se reproduziam e
cresciam no entorno da cancha que emanava poeira, enquanto os habilidosos pés descalços davam o devido trato à velha
bola de capotão, cobiçado prêmio, conquistado a duras penas com o total preenchimento do álbum de figurinha do
campeonato nacional de futebol.
[...]
Eram sempre muitos mais meninos do que as meninas a tramarem os pegas e as disputas, mas na brincadeira de
roubar bandeira elas mandavam. Um risco feito com um pedaço de tijolo dividia a rua em dois campos e cada time tinha
de defender sua bandeira – representada por um chinelo, por uma camiseta ou por qualquer objeto que pudesse ser
facilmente conduzido em uma corrida – de ser roubada pelos oponentes que invadiam o território e tentavam tomá-la
sempre ao ritmo de muita correria. Aquele que fosse tocado em campo adversário deveria ficar imóvel até que fosse
salvo por um companheiro, ou até que um dos dois times vencesse ao roubar primeiro a bandeira do adversário. A
molecada era boa nessa brincadeira, afinal, naquela idade… Põe correria nisso!
Naquele tempo nem se sonhava com um fenômeno similar ao reluzente raio jamaicano que desfila nas pistas o
poder e a velocidade emergente de seus negros músculos, demolindo o tempo e acumulando recordes. Mas que ali alguns
eram bons candidatos, ah, isso eram. Bastava que um desses olheiros os visse, acreditasse e investisse naqueles talentos
a serem lapidados, especialmente o pequenino da casa do quintal arborizado da esquina. Jorge Lucas, acinzentadas
perninhas finas, doces olhos cor de mel e o cabelinho pixaim sempre cortado à máquina, era o mais lépido, o mais
ligeiro. A bandeirinha, quase invariavelmente, acabava em suas mãos.
Jorge Lucas era sempre o primeiro a ser escolhido para o rouba-bandeira, mas por vezes, estranhamente,
abandonava a brincadeira em pleno ápice e desatava carreiras a esmo em volta do quarteirão.
A meninada, então, se levantava incrédula da calçada e punha-se a debater sobre o que levava a tais atitudes.
Esses rompantes davam-se sempre nas tardes de céu azul e poucas nuvens, mas mesmo ocorrendo com alguma
frequência durante anos, não se chegava, nesses debates, a nenhuma conclusão convincente e definitiva.
Alguns anos se passaram e os episódios foram ficando mais raros, até o momento em que, quando o pequeno
Jorge já gozava de seus treze anos ou quatorze anos, ocorreu o último que se soube, e que, aparentemente, foi definitivo,
derradeiro.
Era uma sexta-feira do mês de abril, céu de outono, límpido, azul e de raríssimas nuvens que cobriam e
descobriam a Lua, que teimava em se mostrar inteira, enquanto a molecada corria à solta atrás da bola no poeirento
campinho de terra. Subitamente, o pequeno Jorge, de cabeça raspada e olhos cor de mel, abandonou a pelada e retomou
o velho debate sobre as razões de tal fenômeno, até que no meio da fervente conversa ouviu-se a frase que provocou um
estalo e a reflexão conjunta:
— Alguém já reparou que isso sempre acontece quando a Lua aparece de dia?
Eis que surgiu a pergunta que poderia elucidar os fatos e todos esses estranhos eventos; observação que todos
já haviam feito ao menos uma vez, mas nunca se deram conta do que realmente acontecia. Relembrando cada qual uma
ocasião específica em que o fato se repetira, chegaram à conclusão de que Jorge Lucas era mentalmente sequestrado
pela Lua em suas aparições diurnas. O menino corria seduzido pelo magnetismo da Lua.
A história que passou a ser contada repetidas vezes pela turma que vivenciou os fenômenos acabou ganhando
ares de lenda. Na rua, algumas pessoas mais velhas, com lembranças, experiências e causos contados em suas cidades
de origem em todo o interior de São Paulo e até do Brasil, terminaram por imprimir ainda mais credibilidade à história,
principalmente porque, depois deste último ocorrido, Jorge Lucas desapareceu da rua e não deu o ar da graça nos dias
seguintes, nem mesmo para ajudar a levantar a poeira do campinho de terra.
Teria sido o menino realmente sequestrado ou abduzido pela Lua? Mesmo com toda sua leveza e ligeireza?
Mesmo com todas as bandeirinhas conquistadas? — A rua indagava. Correu então, de boca em boca, a história de que,
como toda mulher grávida que se enche de desejo de comer algo e não sacia esse desejo antes do fim da gestação acaba
gerando um filho com uma marca de nascença alusiva ao que foi desejado, assim teria ocorrido à Dona Conceição. Ela
que, com seus gestos largos e tranquilos, com uma imensa força interior que se agigantava a cada contratempo, criou o
seu menino sozinha, cujo pai ninguém, nem mesmo o próprio Jorge, conheceu.
Contava-se que Dona Conceição, ao ver pela TV, aos três meses de gestação, a inacreditável imagem do
astronauta Neil A. Armstrong, dando seu enorme passo para a humanidade sobre o solo lunar, foi tomada por um louco
e insaciável desejo de também caminhar sobre o solo do longínquo e belo satélite. O menino, por sua vez, teria tomado
inconscientemente para si o desejo irrealizável de sua mãe, e era absorvido pelo magnetismo da Lua toda vez que essa
dava as caras em límpidos dias ensolarados.
Na semana seguinte, quando ainda não se havia visto o menino de volta à rua, o caminhão parou em frente da
casa da esquina e os homens puseram-se a carregar móveis e objetos, e acomodar tudo sobre a carroceria do veículo que
levaria de vez a mudança, e deixaria para trás o rastro de dúvida sobre o que, verdadeiramente, ocorrera com o velocista
menino dos doces olhos de mel, que todos aguardavam para ver subir no caminhão, mas essa expectativa foi frustrada.
Mudança ajeitada no caminhão, apenas Dona Conceição subiu à boleia e partiu. Mas onde estaria o magricelinha
das pernas acinzentadas?
[...]
Porém, assim como tudo ocorreu de forma inesperada – o sumiço de Jorge Lucas e a mudança de Dona
Conceição –, o inesperado ocorre também agora, coisa de trinta anos mais tarde, quando todos, surpreendidos diante de
seus televisores, recebem a notícia da mais nova tripulação a ser enviada ao espaço.
As imagens tomam conta da tela enquanto o apresentador discorre sobre essa nova empreitada.
“A NASA divulgou na tarde de hoje a formação de uma nova equipe de astronautas que participará no próximo
mês, em missão conjunta com Rússia e China, de uma jornada de exploração do solo lunar. A equipe, que já trabalha há
dez meses no projeto, conta com tripulantes das três nações empreendedoras, mais o primeiro astronauta brasileiro a
integrar uma expedição que pisará, depois de quarenta e cinco dias, o solo lunar.”
E o apresentador continua:
“Formado na Academia da Força Aérea Brasileira em Pirassununga, interior de São Paulo, onde morou desde
os treze anos de idade, vindo da capital, o Capitão Jorge Lucas de Oliveira Conceição embarcará em sua mais longa e
importante viagem em busca de novas fronteiras.”
A televisão então corta para a equipe de astronautas formada por dois americanos, um russo, um chinês e, nesse
momento, o mais ilustre brasileiro em sua impecável farda de Capitão, com medalhas que realçam o brilho negro de sua
retinta pele. Com os olhos marejados e voz embargada a fluir entre os trêmulos e grossos lábios, diz emocionado diante
das câmeras e do mundo inteiro:
— Será mais que a realização de um sonho meu, a indescritível satisfação de realizar um divino desejo de minha
querida mãe, Dona Conceição.
A Lua cheia iluminava as calçadas. As cadeiras voltaram, desta vez num dia de feira, e o zum-zum-zum das
conversas preencheu a noite com intermináveis considerações.
— Viram só? E não é que o neguitinho aluado chegou lá?
— Vai chegar…
— Não é? São Jorge Lucas da Conceição!

NERI, Samuel. Aluado. In: RIBEIRO, Esmeralda; BARBOSA, Márcio (org.). Cadernos negros 40: contos.
São Paulo: Quilombhoje, 2017. p. 253-258.
Atividades:
1. Qual é o principal evento narrado no conto?
A conquista profissional e a ascensão social de um garoto negro da periferia.
2. O título do conto é “Aluado”. Que características esse título atribui ao personagem Jorge Lucas?
Características de lunático, amalucado, uma pessoa que vive no mundo da Lua.
3. No conto, só Jorge Lucas e Dona Conceição são nomeados. Explique por que apenas esses
personagens são nomeados. Porque o enredo que se desenvolve é sobre eles; as demais personagens
são secundárias
4. A vida das personagens do conto é marcada pelas diferenças sociais. Explique como eram os:
a) tipos de brincadeira e de brinquedo das crianças. Futebol e rouba-bandeira.
b) locais em que brincavam. Em campos de terra batida e na rua.
5. No desfecho do conto, há uma quebra da expectativa em relação ao personagem Jorge Lucas. Como
essa quebra ocorre? O personagem Jorge Lucas, descrito como um menino aluado e de quem pouco
ou nada se esperava, surge como um astronauta, profissão que poucos têm condições de exercer.
6. O conto sugere ao leitor uma reflexão para conscientizar as pessoas das desigualdades sociais. Que
conscientização essa história provoca? Em sua opinião, qual é a importância dessa reflexão na
sociedade? Essa conscientização mostra a importância da escola e da educação na formação pessoal e
profissional de jovens de classes sociais menos favorecidas, o que confirma que, além de ser um dos
principais fatores de mobilidade e ascensão social no nosso país, a educação também é fundamental
para enfrentar e superar os preconceitos de todas as ordens.

Atividades: Elementos do conto


1. O narrador inicia contando como era a vida das crianças. Em que momento um fato inesperado dá
início ao conflito? O momento em que, subitamente, Jorge Lucas abandona o jogo.
2. O desfecho é a resolução do conflito. Qual é o desfecho desse conto? Lucas surge como um
astronauta na televisão e a rua volta a ser o ponto de encontro dos moradores.
3. Qual é o espaço onde se passa a história? Como ele ajuda a construir os sentidos do texto? A história
ocorre em uma comunidade ou bairro de periferia, onde ainda há campinhos ou campos de terra batida
e crianças jogam descalças e brincam na rua, o que pressupõe um lugar de casas e pessoas simples
4. Como é o narrador desse texto? O narrador é em 3ª pessoa e é onisciente.
5. Em relação aos fatos narrados, o que o narrador demonstra?
( ) Proximidade, como se participasse das brincadeiras e dos jogos no campinho.
( ) Distanciamento, como se apenas os observasse, ainda que demonstre alguma simpatia pelas
personagens.
( x ) Conhecimento de toda a história e de pensamentos e emoções das personagens.
( ) Desconhecimento, pois só conta o que as personagens vivenciam.

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