REDE DE ATENÇÃO
PSICOSSOCIAL E
INTERSETORIALIDADE
Professora: Gleiciane Kelen Lima
Mestre em Enfermagem pela UFC
Doutoranda em Cuidados Clínicos pela UECE
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
Realizar um breve resgate dos conhecimentos da turma sobre a reforma
psiquiátrica e do papel do enfermeiro nesse contexto.
Apresentar e discutir sobre os objetivos da RAPS.
Compreender a importância do território e da intersetorialidade para os
serviços de saúde e saúde mental.
Para refletir...
Na visão de Focalt (1978), para a sociedade, há uma dificuldade em aceitar que o
diferente nem sempre é transgressor, bem como nem sempre é louco, ou seja, nem sempre
quem se comporta de forma distinta dos preceitos sociais cometerá crimes, bem como, nem
sempre possui um transtorno mental aquele que apresenta comportamentos com um pouco de
exagero.
o Qual o papel do Enfermeiro, na sociedade, no período pós reforma psiquiátrica?
Usuário
Proporcionar ao usuário um momento para pensar/refletir.
Exercer boa comunicação.
Exercitar a habilidade da empatia.
Acolher o usuário e suas queixas emocionais como legítimas.
Oferecer suporte na medida certa;
Reconhecer os modelos de entendimento do usuário.
Família
Oferecimento de acolhimento, escutas regulares e periódicas;
Grupos de orientação aos familiares;
Grupos de cuidado aos cuidadores;
Intervenções domiciliares que diminuam a sobrecarga da família cuidadora;
Oferecimento de dispositivos da rede social de apoio
onde os cuidadores possam ter garantido também espaços
de produção de sentido para sua vida, vinculadas a atividades
prazerosas e significativas.
Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
Conjunto de serviços de
Integrante da Rede de Atenção à
saúde que, distribuídos por um
Saúde (RAS).
território, se articulam para a
Esse agrupamento de serviços de
prestação da assistência em saúde
saúde em redes temáticas visa cumprir com
mental para aqueles que necessitam os princípios e diretrizes do SUS, além dos
dela, incluindo-se as pessoas em direitos à saúde previstos pela Constituição
abuso de crack, álcool ou outras Federal Brasileira de 1988 (BRASIL, 2014).
drogas (BRASIL, 2014).
Comunidades Terapêuticas
COMUNIDADES TERAPÊUTICAS
Instituições privadas, sem fins lucrativos, integrantes do
Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (Sisnad)
(Decreto Presidencial n.º 9.761/2019),
Possuem caráter intersetorial e interdisciplinar, que
prestam serviços de acolhimento residencial, de caráter
transitório, com adesão e permanência voluntárias de
pessoas com transtornos decorrentes do uso, abuso ou
dependência de substâncias psicoativas.
UNIDADES DE ACOLHIMENTO
São residências temporárias (até 6 meses) para pessoas com necessidades
decorrentes do uso de álcool e outras drogas, acompanhadas nos CAPS, em
situação de vulnerabilidade social e/ou familiar e que demandem acolhimento
terapêutico e protetivo.
Oferecem cuidados contínuos de saúde, com funcionamento 24h, em um ambiente
de moradia inserido na comunidade, e de acordo com o PTS elaborado e pactuado
com a pessoa usuária e o CAPS de referência.
Existem UAs para adultos (maiores de 18 anos) e para crianças e adolescentes (de
10 a 18 anos incompletos).
O acesso às Unidades de Acolhimento só deve ocorrer por meio dos CAPS e,
necessariamente o usuário deve estar sob os cuidados do CAPS.
LEITOS DE SAÚDE MENTAL EM HOSPITAL GERAL
Este é um serviço do componente de Atenção Hospitalar da RAPS, que oferece
tratamento hospitalar para casos graves relacionados à problemas de saúde
mental e a as necessidades decorrentes do uso prejudicial de álcool e outras
drogas.
Tem como finalidade assegurar a retaguarda clínica e psiquiátrica, especialmente,
em situações de crise, abstinências e intoxicações severas.
Preconiza-se que as internações sejam de curta duração até a estabilização
clínica, com a posterior coordenação e encaminhamento para cuidados contínuos
em outros serviços extra-hospitalares da RAPS, seguindo um plano terapêutico
personalizado.
PROGRAMA DE VOLTA PARA CASA
É uma estratégia de desinstitucionalização e política de Auxílio-reabilitação
psicossocial (R$ 500,00)
inclusão social, criada pela lei federal 10.708 de 31 de
julho de 2003, destinado às pessoas em pessoas com
sofrimento psíquico, egressas de internação de longa
permanência em hospitais psiquiátricos.
O principal objetivo é promover a autonomia, auxiliar na
construção de projetos de vida e ampliar a participação
social e cidadania dos beneficiários.
Isso envolve também suas famílias e a comunidade.
SERVIÇOS DE RESIDÊNCIA TERAPÊUTICA (SRT)
São moradias assistidas, de natureza permanente ou por períodos prolongados,
sob a responsabilidade das equipes do CAPS.
Devem acolher preferencialmente egressos de internações prolongadas, com
transtornos mentais com acentuada vulnerabilidade, sem suporte social e
econômico, e sem vínculos familiares ou com vínculos frágeis.
A partir da Portaria n.º 3.588/2017 passaram a ser autorizadas a acolher outras pessoas com
necessidade deste tipo de acolhimento, por exemplo, pacientes com transtornos mentais
graves moradores de rua e egressos de unidades prisionais comuns, reconhecendo a
necessidade de grandes contingentes de pacientes com transtornos mentais graves
nessas condições.
A RAPS tem como diretrizes:
O respeito aos direitos humanos, garantindo a autonomia e a liberdade das pessoas;
A promoção da equidade, reconhecendo os determinantes sociais da saúde;
O combate a estigmas e preconceitos; a garantia do acesso e da qualidade dos
serviços, ofertando cuidado integral e assistência multiprofissional, sob a lógica
interdisciplinar;
A atenção humanizada e centrada nas necessidades das pessoas;
O desenvolvimento de estratégias de Redução de Danos.
FLUXO RECOMENDADO
A porta de entrada do sistema é preferencialmente os serviços da APS, mas também
são portas de entrada do sistema:
os CAPS.
os Serviços de urgência e emergência.
LINHAS DE CUIDADO
Para contribuir com esses fluxos, o MS tem desenvolvido linhas de cuidados, de forma a
orientar e ordenar os fluxos locais:
As linhas de cuidado já publicadas estão disponíveis em:
[Link]
Atualmente estão publicadas:
• LC TEA
• LC Tabagismo
• LC Depressão
• LC Álcool e Drogas
• LC Ansiedade
Equipe Multiprofissional
Reuniões da Equipe Multiprofissional
Trabalho interprofissional
O fortalecimento da Atenção Básica enquanto serviço de base comunitária é
uma das metas da Política Nacional da Atenção Básica (PNAB) e elemento essencial
para o cuidado integral em saúde.
Entretanto, uma vez que outros serviços de saúde precisem ser acionados
para a continuidade do cuidado, muitos desafios podem aparecer.
A interlocução dos serviços de saúde que compõem uma RAPS, portanto,
pode ser bastante complexa.
De que maneira a intersetorialidade pode contribuir para a
efetividade da RAPS no cuidado integral às pessoas em sofrimento
mental?
Quais são os desafios para sua implementação na prática?"
Somente os serviços de saúde disponíveis num território pode ser insuficiente para garantir
saúde à população. Instituições como escolas, ONGs, institutos de previdência, associações de
bairro, grupos religiosos, empresas e quaisquer outros também podem ser acionados.
1. Diferentes arranjos organizativos podem ser propostos para uma RAPS, mas as premissas das ações a
serem executadas devem sempre pautar-se na proposta de integralidade, continuidade do cuidado,
construção de vínculos horizontais e atuação comunitária, como prevê a Portaria nº 3.088/2011.
Assinale a alternativa que NÃO apresenta ação pautada nessas premissas:
a. Promover ações tendo a APS como eixo central na gestão do cuidado.
b. Pessoas com transtornos mentais ou em abuso de crack, álcool e outras drogas devem realizar
tratamento exclusivamente nos CAPS AD.
c. Articulação constante com serviços que compõem o território como escolas, creches e organizações
não governamentais.
d. Utilizar o apoio matricial e oferecer apoio matricial independente do serviço da RAPS em que estiver e
superar desafios em conjunto com a equipe de saúde, buscando suporte em outros serviços da RAPS.
2. “Analisando a intersetorialidade, Monnerat e Souza (2021) apontam para a necessidade de um
enfrentamento intersetorial através da conformação de uma rede de proteção social, com a construção de
interfaces entre setores e instituições governamentais (e não governamentais), sobretudo em uma
sociedade como a do Brasil, com grandes limites estruturais e desigualdades sociais. Essa rede tem como
propósito enfrentar os complexos problemas sociais, que ultrapassam a alçada de um só setor de governo
ou área de política pública, tornando quase uma imposição a integração entre as políticas” Nesse
contexto, o enfrentamento intersetorial deve:
a. Acontecer pela atuação isolada de cada serviço governamental ou não.
b. Ignorar os limites estruturais e desigualdades sociais.
c. Buscar interlocução somente com serviços governamentais.
d. Limitar-se aos serviços municipais, considerando-se a existência de limites estruturais.
e. Haver integração de políticas públicas no intuito de superar as desigualdades sociais.
Teoria em prática – CASO 1
Teoria em prática – CASO 1
Mariana, uma jovem de 24 anos, casada, mãe de dois filhos (um de 3 anos e outro de 6 anos) e
estudante universitária, chega à Unidade Básica de Saúde falando de forma desconexa, bastante
acelerada, o que é acompanhado de expressão corporal de muita agitação. Há três anos faz
acompanhamento para seu quadro de Transtorno Bipolar no CAPS e na APS, e durante todo esse
período, nunca havia entrado “crise”. Claudio, marido de Mariana, chega à Unidade Básica de
Saúde um pouco depois dela e explica aos profissionais de saúde que, na última semana,
Mariana começou a manifestar pensamentos repetitivos e bastante agitação, mesmo fazendo uso
correto dos medicamentos que foram prescritos e participando ativamente de atividades na
comunidade em que mora, conforme recomendado para manter seu quadro clínico estável.
Teoria em prática – CASO 1
Ao conversar com Claudio, os profissionais de saúde percebem que, na próxima semana, inicia-se o
último ano da graduação em Pedagogia que Mariana faz, porque sempre quis ser professora de
educação infantil, além de ser bastante habilidosa com crianças. Mas, há duas semanas, a mãe de
Mariana, que ajudava a cuidar de Samuel, filho de 3 anos de Mariana, faleceu. Claudio também teve
uma mudança no turno de trabalho e agora precisará trabalhar no horário noturno, mesmo horário em
que Mariana estaria na faculdade. Vitor, o filho de 7 anos de Mariana, teve baixo desempenho escolar
no último ano e está bastante inquieto porque terá que cursar novamente a 1ª série do ensino
fundamental. Não bastasse tudo isso, este ano, Mariana precisará conciliar seus horários de trabalho
com os horários de estágio da graduação. Sem trabalhar, Mariana não pode pagar a faculdade. Se
Claudio não trabalhar, o sustento da casa fica prejudicado.
Que estratégias de cuidado a equipe da APS pode utilizar para conduzir este caso?
Teoria em prática – CASO 2
Teoria em prática – CASO 2
Sr. Anastácio, morador de rua e dependente químico, acaba de chegar ao CAPS, devido
à morte de um familiar próximo. Encontra-se deprimido e isolado do resto dos pacientes.
Quando este é recebido na recepção, aponta-se que já é um paciente do serviço,
contudo apresentava-se ausente desde então. Em acolhimento, relatou tristeza
profunda e se culpabiliza muito pelo acontecido.
Com isso, discuta e elabore um plano cuidados multiprofissional para acolher
este paciente apontando quais os possíveis componentes da RAPS e quais
estratégias intersetorias podem ser acionados para auxiliar nesta assistência.
Vamos recapitular?
Ordenadora do cuidado
Intersetorialidade/Território
Rede de Atenção Psicossocial
Equipe Multiprofissional Fatores de risco e proteção
Atividade para casa
Leitura dos artigos abaixo para discussão na
próxima aula:
“O cuidar de enfermagem em saúde mental na
perspectiva da reforma psiquiátrica”
“Referenciais teóricos que norteiam a prática
de enfermagem” em saúde mental