DAVID BOHM
A Totalidade e a
Ordem Implicada
Tradução MAURO DE CAMPOS SILVA
Revisão Técnica NEWTON ROBERVAL EICHENBERG
EDITORA CULTRIX
São Paulo
Título do original: Wholeness and the Implicate Order
Copyright © David Bohm 1980 Publicado originalmente
por Routledge & Kegan Paul Ltd.
Sumário
Agradecimentos 8
Introdução 9
CAPÍTULO 1 - Fragmentação e totalidade 19
Apêndice: Resumo da discussão sobre as formas
ocidentais e orientais de percepção da totalidade 42
CAPÍTULO 2 - O reomodo - uma experiência com a
linguagem e o pensamento 51
1. Introdução 51
2. Uma investigação em nossa linguagem 52
3. A forma do reomodo 58
4. A verdade e o fato no reomodo 69
5. O reomodo e suas implicações na nossa visão global
de mundo 75
CAPÍTULO 3 - A realidade e o conhecimento considerados
como processos 77
1. Introdução 77
2. O pensamento e a inteligência 79
3. A coisa e o pensamento 83
4. O pensamento e o não-pensamento 87
5. O campo do conhecimento, considerado como processo
94
CAPÍTULO 4 - Variáveis ocultas na teoria quântica 98
1. Os principais aspectos da teoria quântica 98
2. Limitações impostas ao determinismo pela teoria
quântica 100
3. Sobre a interpretação do indeterminismo na teoria
quântica 101
4. Argumentos a favor da interpretação do
indeterminismo mecânico-quântico enquanto estado
irredutível de ausência de lei 103
5. A solução de Bohr para o paradoxo de Einstein,
Rosen e Podolsky - a indivisibilidade de todos os
processos materiais 108
6. Interpretação preliminar da teoria quântica em
termos de variáveis ocultas 111
7. Críticas de nossa interpretação preliminar da
teoria quântica em termos de variáveis ocultas 116
8. Avanços em direção a uma teoria mais detalhada das
variáveis ocultas 121
9. Tratamento das flutuações quânticas 124 W. O
princípio da incerteza de Heisenberg 126
11. A indivisibilidade dos processos quânticos 130
12. Explieação da quantização da ação 135
13. Discussão sobre experimentos para sondar o nível
subquântico 147
14. Conclusão 152
CAPÍTULO 5 - A teoria quântica como indicação de uma
nova ordem na física 154
Parte A: O desenvolvimento de novas ordens, conforme o
revela a história da física 154
1. Introdução 154
2. O que é ordem? 159
3. Medida 162
4. A estrutura como um desenvolvimento a partir da
ordem e da medida 164
5. Ordem, medida e estrutura na física clássica 166
6. A teoria da relatividade 167
7. A teoria quântica 175
CAPÍTULO 6 - A teoria quântica como indicação de uma
nova ordem na física 189
Parte B: A ordem implicada e a ordem explicada na lei
física 189
1. Introdução 189
2. Totalidade indivisa - a lente e o holograma 193
3. Ordem implicada e ordem explicada 197
4. O holomovimento e seus aspectos 201
5. A lei no holomovimento 208
Apêndice: A ordem implicada e a ordem explicada na lei
física 210
CAPÍTULO 7-O proceder do universo e da consciência: o
dobramento e o desdobramento 228
1. Introdução 228
2. Resumo, contrastando a ordem mecanicista na física
com a ordem implicada 228
3. A ordem implicada e a estrutura geral da matéria
236
4. A teoria quântica como indicação de uma ordem
implicada multidimensional 246
5. A cosmologia e a ordem implicada 250
6. A ordem implicada, a vida e a força da necessidade
global 255
7. A consciência e a ordem implicada 258
8. A matéria, a consciência e seu fundamento comum
271
Notas 280
Índice remissivo 285
Agradecimentos
O autor e o editor gostariam de agradecer, pela
permissão em reproduzir material protegido por
direitos autorais, a The Van Leer Jerusalém Foundation
(Capítulos 1 e 2 de Fragmentation and Wholeness,
1976), aos editores de The Academy (Capítulo 3 de The
Academy, vol. 19, na 1, fevereiro de 1975), à Academic
Press Ltd (Capítulo 4 de Quantum Theory Radiation and
High Energy Physics, parte 3, editado por D. R. Bates,
1962), e à Plenum Publishing Corporation (Capítulos 5
e 6 de Foundations of Physics, vol. 1, ns 4, 1971, pp.
359-81 e vol. 3, na 2, 1973, pp.139-68).
Introdução
Este livro é uma coleção de ensaios (ver
"Agradecimentos") que representam a evolução do meu
pensamento nos últimos vinte anos. Talvez seja útil
uma breve introdução para indicar quais as principais
questões que serão discutidas e como estão
relacionadas.
Eu diria que, em meu trabalho científico e
filosófico, minha principal preocupação tem sido a de
entender a natureza da realidade, em geral, e a da
consciência, em particular, como um todo coerente, o
qual nunca é estático ou completo, mas um processo
infindável de movimento e desdobramento. Assim, quando
olho para trás, vejo que mesmo quando criança,
fascinava-me o enigma, na verdade o mistério, da
natureza do movimento. Toda vez que se pensa em alguma
coisa, essa coisa parece ser apreendida como algo
estático, ou então como uma série de imagens
estáticas. No entanto, na experiência efetiva do
movimento, sente-se um processo de fluxo ininterrupto
e indiviso, ao qual se relaciona a série de imagens
estáticas no pensamento, como uma seqüência de
fotografias ("paradas") poderiam estar relacionadas à
realidade de um carro em movimento. Esta questão, é
claro, já foi, em sua essência, levantada
filosoficamente há mais de dois mil anos nos paradoxos
de Zenão; mas, até agora, não se pode dizer que teve
uma solução satisfatória. Além disso, há a questão do
que é a relação entre pensamento e realidade. Como
mostra uma cuidadosa observação, o próprio pensamento
encontra-se num processo efetivo de movimento. Isto
quer dizer que se pode sentir, no "fluxo da
consciência", uma sensação de fluência diferente
daquela que se reconhece no movimento da matéria em
geral. Desse modo, será que o próprio pensamento não
faz parte da realidade como um todo? Mas, então, o que
poderia significar uma parte da realidade "conhecer"
outra, e até que ponto isto seria possível? O conteúdo
do pensamento nada mais nos dá que "instantâneos"
abstratos e simplificados da realidade, ou pode ir
além, apreendendo de algum modo a própria essência do
movimento vivo que sentimos na experiência efetiva?
Está claro que, ao refletir e ponderar sobre a
natureza do movimento, tanto no pensamento quanto no
objeto do pensamento, chega-se inevitavelmente à
questão da totalidade. A noção de que aquele que pensa
(o Ego) está, pelo menos em princípio, completamente
separado, e é independente, da realidade sobre a qual
ele pensa, acha-se obviamente assentada com muita
firmeza em toda a nossa tradição. (É evidente que esta
noção é quase universalmente aceita no Ocidente, mas
no Oriente há uma tendência geral para negá-la verbal
e filosoficamente, ao mesmo tempo em que tal abordagem
permeia a maior parte da vida e da prática diária,
assim como acontece no Ocidente.) Experiências gerais
do tipo acima descrito, juntamente com uma grande dose
de conhecimento científico moderno sobre a natureza e
a função do cérebro como o local em que ocorre o
pensamento, sugerem com muita força que uma tal
divisão não pode ser mantida de modo consistente. Mas
isto nos coloca frente a um desafio muito difícil:
Como pensar coerentemente uma única, ininterrupta e
fluente existência de fato como um todo, contendo
tanto o pensamento (a consciência) como a realidade
externa conforme a experimentamos?
Evidentemente, isso nos leva a considerar a nossa
visão de mundo total, que inclui nossas noções gerais
acerca da natureza da realidade, juntamente com
aquelas que dizem respeito à ordem global do universo,
isto é, a cosmologia. Para enfrentar esse desafio,
nossas noções de cosmologia e da natureza geral da
realidade devem ter espaço em si para permitir uma
avaliação consistente da consciência. Vice-versa,
nossas noções de consciência devem ter espaço em si
para entender o que significa ser o seu conteúdo a
"realidade como um todo". Os dois conjuntos de noções,
juntos, devem ser de tal forma a permitir uma
compreensão de como a realidade e a consciência se
relacionam.
Essas questões, é claro, são muito amplas e, de
qualquer maneira, talvez nunca sejam resolvidas por
completo e definitivamente.
10
Entretanto, sempre me pareceu importante haver uma
contínua investigação de propostas que visem a
enfrentar o desafio aqui assinalado. Obviamente, a
tendência que prevalece na ciência moderna é contra um
tal empreendimento. Em vez disso, ela é dirigida
principalmente para previsões teóricas relativamente
detalhadas e concretas que apresentam pelo menos
alguma promessa de eventuais aplicações pragmáticas.
Parece que é necessária agora uma explicação do por
que de eu querer ir com tanta veemência contra a
corrente geral predominante.
Ao lado do que sinto ser a importância intrínseca
de questões tão fundamentais e profundas, eu chamaria
a atenção para o problema geral da fragmentação da
consciência humana, que é discutido no Capítulo 1. Aí
é proposto que as distinções largamente difundidas e
infiltradas entre as pessoas (raça, nação, família,
profissão, etc., etc.) e que agora impedem a
humanidade de trabalhar em conjunto pelo bem comum, e
mesmo pela sobrevivência, têm como um dos fatores-
chave de sua origem um tipo de pensamento que trata as
coisas como sendo inerentemente divididas,
desconectadas e "fracionadas" em partes constituintes
ainda menores. Cada parte é considerada como
essencialmente independente e existente por si mesma.
Quando o homem pensa em si próprio dessa maneira,
é inevitável que tenda a defender as necessidades de
seu próprio "Ego" contra as dos outros; ou, se ele se
identificar com um grupo de pessoas do mesmo tipo,
defenderá esse grupo de um modo semelhante. Ele não
consegue pensar seriamente na humanidade como a
realidade básica, cujas reivindicações vêm em primeiro
lugar. Mesmo que tente levar em consideração as
necessidades da humanidade, sua tendência é vê-la como
algo separado da natureza, e assim por diante. O que
estou propondo aqui é que o modo geral como o homem
pensa a totalidade, isto é, a sua visão geral do
mundo, é crucial para a ordem global da própria mente
humana. Se ele pensar a totalidade como constituída de
fragmentos independentes, então é assim que sua mente
tenderá a operar. Mas, se ele consegue incluir tudo,
coerente e harmoniosamente, num todo global indiviso,
ininterrupto e ilimitado (pois todo limite é uma
divisão ou ruptura), então sua mente tenderá a mover-
se de modo semelhante, e disto incluirá uma ação
ordenada dentro do todo.
11
Evidentemente, como já indiquei, nossa visão geral de
mundo não é o único fator importante nesse contexto.
De fato, deve-se dar atenção a muitos outros fatores,
tais como emoções, atividades físicas, relações
humanas, organizações sociais, etc. Mas, talvez, por
não termos no presente nenhuma visão de mundo
coerente, há uma tendência geral a ignorar quase que
por completo a importância psicológica e social de
tais questões. Minha sugestão é que uma visão de mundo
apropriada, adequada para o seu tempo, geralmente é
aquela dos fatores básicos essenciais para a harmonia
no indivíduo e na sociedade como um todo.
O Capítulo 1 mostra que a própria ciência está
exigindo uma visão de mundo nova e não-fragmentária,
no sentido de que a atual abordagem que analisa o
mundo em partes independentemente existentes não
funciona muito bem na física moderna. Mostra também
que tanto na teoria da relatividade como na teoria
quântica, noções que impliquem a totalidade indivisa
do universo proporcionariam um modo muito mais
ordenado de considerar a natureza geral da realidade.
No Capítulo 2, tratamos do papel da linguagem em
efetuar a fragmentação do pensamento. Mostramos que a
estrutura sujeito-verbo-objeto das línguas modernas
implica que toda a ação surge num sujeito separado,
atuando ou sobre um objeto separado, ou então
reflexivamente em si próprio. Esta estrutura difundida
conduz, no todo da vida, a uma função que divide a
totalidade da existência em entidades separadas, que
são consideradas essencialmente fixas e estáticas em
sua natureza. Indagamos então se é possível
experimentar com novas formas de linguagem, onde o
papel fundamental será dado ao verbo, antes que ao
substantivo. Tais formas terão como conteúdo uma série
de ações que fluem e se fundem umas nas outras, sem
separações ou rupturas bem definidas. Assim, tanto na
forma como no conteúdo, a linguagem estará em harmonia
com o movimento fluente e ininterrupto da existência
como um todo.
O que se propõe aqui não é uma nova linguagem como
tal, mas, de preferência, um novo modo de utilizar a
linguagem existente - o reomodo (modo fluente).
Desenvolvemos um tal modo como uma forma de
experimentação com a linguagens que pretende
principalmente esclarecer a função fragmentária da
linguagem comum, em vez de fornecer um novo modo de
falar que possa ser utilizado na comunicação prática.
No capítulo 3, as mesmas questões são consideradas
num contexto diferente. Ele começa com uma análise
sobre como a realidade pode ser considerada, em
essência, um conjunto de formas num movimento ou
processo universal subjacente, e então pergunta como o
nosso conhecimento pode ser apreciado da mesma
maneira. Assim, o caminho pode estar aberto para uma
visão de mundo em que a consciência e a realidade não
estariam separadas uma da outra. Esta questão é
discutida extensamente e chegamos à noção de que nossa
visão geral de mundo é, ela própria, um movimento
global de pensamento, que tem de ser viável no sentido
de que a totalidade das atividades que dela fluem
estejam geralmente em harmonia, tanto em si mesmas
quanto em relação ao todo da existência. Uma tal
harmonia é considerada possível somente se a visão de
mundo fizer parte de um processo infindável de
desenvolvimento, evolução e desdobramento, que se
ajusta como parte do processo universal que é o
fundamento de toda a existência.
Os três próximos capítulos são um tanto mais
técnicos e matemáticos. No entanto, grande parte deles
deve ser compreensível para o leitor leigo, uma vez
que as partes técnicas não são inteiramente
necessárias para o entendimento, embora acrescentem um
conteúdo significativo para aqueles que podem
acompanhá-las.
O Capítulo 4 lida com as variáveis ocultas na
teoria quântica. No momento, a teoria quântica é o
meio mais básico disponível na física para entender as
leis fundamentais e universais relacionadas à matéria
e seu movimento. Como tal, é evidente que deve ser
seriamente considerada em qualquer tentativa de
desenvolver uma visão de mundo global. A teoria
quântica, conforme atualmente constituída, apresenta-
nos um grande desafio, se é que estamos de fato
interessados numa tal aventura, pois não há nela
qualquer noção consistente do que possa ser a
realidade subjacente à constituição e a estrutura
universal da matéria. Logo, se tentarmos utilizar
visão de mundo predominante, baseada na noção de
partículas descobrimos que as "partículas" (tais como
os elétrons)
12
13
podem também manifestar-se como ondas, movimentar-se
descontinuamente, que não há lei nenhuma que se
aplique detalhadamente aos movimentos efetivos das
partículas individuais, e que somente previsões
estatísticas podem ser feitas sobre grandes agregados
dessas partículas. Se, por outro lado, aplicarmos a
visão de mundo em que o universo é considerado como um
campo contínuo, descobrimos que este campo também deve
ser descontínuo, bem como semelhante a partículas, e
que está tão solapado em seu comportamento efetivo
quanto é exigido na visão, em termos de partículas, da
relação como um todo.
Parece claro, então, que nos defrontamos com uma
profunda e radical fragmentação, e também com uma
confusão consumada, se tentamos pensar o que poderia
ser a realidade tratada por nossas leis físicas.
Atualmente, os físicos tendem a evitar essa questão
adotando a atitude segundo a qual as nossas visões
globais concernentes à natureza da realidade são de
pouca ou nenhuma importância. Supõe-se que tudo o que
conta na teoria física seja o desenvolvimento de
equações matemáticas que nos permitam prever e
controlar o comportamento de grandes agregados
estatísticos de partículas. Essa meta não é
considerada meramente por sua utilidade pragmática e
técnica; mais do que isso, na maioria dos trabalhos em
física moderna há uma pressuposição de que esse tipo
de previsão e de controle é tudo do que trata o
conhecimento humano.
Essa espécie de pressuposição de fato está de
acordo com o espírito geral de nossa época. Mas a
minha principal proposta neste livro é que não podemos
simplesmente prescindir de uma visão de mundo global.
Se tentarmos fazer isso, veremos que acabamos ficando
com quaisquer visões de mundo (geralmente inadequadas)
que calhem de estar mais à mão. De fato, descobre-se
que os físicos não são realmente capazes apenas de
ocupar-se de cálculos com o objetivo de previsão e
controle: eles julgam necessário usar imagens baseadas
em algum tipo de noções gerais sobre a natureza da
realidade, tais como "as partículas que são os blocos
de construção do universo"; mas essas imagens agora
são altamente confusas (p. ex., essas partículas
movem-se descontinuamente e também são ondas). Em
resumo, estamos aqui frente a um exemplo que demonstra
a
14
necessidade forte e profunda de algum tipo de noção da
realidade em nosso pensamento, mesmo que seja
fragmentária e confusa.
Minha sugestão é que, a cada estágio, a ordem
apropriada de operação da mente requer uma apreensão
global do que é geralmente conhecido, não apenas em
termos formais, lógicos, matemáticos, mas também como
intuição, em imagens, sentimentos, uso poético da
linguagem, etc. (Talvez possamos dizer que isso
envolve a harmonia entre o "cérebro esquerdo" e o
"cérebro direito".) Este modo de pensar global não é
somente uma fonte fértil de novas idéias teóricas: é
necessário para que a mente humana funcione de forma
harmoniosa, o que, por sua vez, pode ajudar a tornar
possível uma sociedade ordenada e estável. Conforme
indicado nos capítulos iniciais, porém, isto requer um
fluxo e um desenvolvimento contínuos de nossas noções
gerais de realidade.
No Capítulo 4, a preocupação é dar um início ao
processo de desenvolvimento de uma visão coerente do
tipo de realidade que poderia ser a base das previsões
matemáticas corretas efetuadas na teoria quântica.
Tais tentativas têm sido geralmente recebidas na
comunidade dos físicos de um modo um tanto confuso,
pois há um sentimento generalizado de que, se deve
haver alguma visão geral de mundo, ela tem de ser
entendida como a noção "aceita" e "final" sobre a
natureza da realidade. Mas, desde o começo, minha
atitude tem sido a de que nossas noções referentes à
cosmologia e à natureza geral da realidade estão em
contínuo processo de desenvolvimento, e que talvez se
tenha de iniciar com idéias que sejam meramente algo
como um aperfeiçoamento daquilo que até agora se
encontra disponível, e daí avançar para idéias
melhores. O Capítulo 4 apresenta os reais e graves
problemas que confrontam qualquer tentativa de prover
uma noção consistente da "realidade quântica
mecânica", e indica uma certa abordagem preliminar
para uma solução desses problemas em termos de
variáveis ocultas.
No Capítulo 5, explora-se uma diferente abordagem
dos mesmos problemas. Faz-se uma investigação das
nossas noções básicas de ordem. A ordem em sua
totalidade é, em última análise, evidentemente
indefinível, no sentido de que permeia
15
tudo o que somos e fazemos (linguagem, pensamento,
sentimento, sensação, ação física, as artes, atividade
prática, etc.). Porém, durante séculos, na física, a
ordem básica tem sido aquela da grade retilínea
cartesiana (ligeiramente ampliada, na teoria da
relatividade, para a grade curvilínea). Durante esse
tempo, a física passou por um enorme desenvolvimento,
com o aparecimento de muitos aspectos radicalmente
novos, mas a ordem básica permaneceu essencialmente
inalterada.
A ordem cartesiana é adequada para análises do
mundo em partes existentes separadamente (por exemplo,
partículas ou elementos de campo). Neste capítulo,
contudo, examinamos a natureza da ordem com maior
generalidade e profundidade, e descobrimos que tanto
na relatividade como na teoria quântica a ordem
cartesiana leva à sérias contradições e confusões.
Isto porque ambas as teorias sugerem que o efetivo
estado de coisas é a totalidade ininterrupta do
universo, antes que a análise em partes independentes.
Não obstante, as duas teorias diferem radicalmente em
suas noções detalhadas de ordem. Assim, na
relatividade, o movimento é contínuo, causalmente
determinado e bem definido, enquanto que na mecânica
quântica é descontínuo, não-causalmente determinado e
não bem definido. Cada teoria está comprometida com
suas próprias noções de modos de existência
essencialmente estáticos e fragmentários (a
relatividade com a de eventos separados, conectáveis
por meio de sinais, e a mecânica quântica com um
estado quântico bem definido). Vê-se assim a
necessidade de um novo tipo de teoria que abandone
esses compromissos básicos e, no máximo, recupere
alguns aspectos essenciais das antigas teorias
enquanto formas abstratas derivadas de uma realidade
mais profunda, onde prevaleça a totalidade
ininterrupta.
No Capítulo 6 vamos mais além para encetar um
desenvolvimento mais concreto de uma nova noção de
ordem, que possa adequar-se a um universo de
totalidade ininterrupta. Esta é a ordem implicada ou
dobrada. Na ordem dobrada, espaço e tempo não são mais
os fatores dominantes que determinam as relações de
dependência ou independência de diferentes elementos.
Em vez disso, é possível uma espécie completamente
diferente de conexão básica de elementos, de onde
nossas noções
16
ordinárias de espaço e tempo, juntamente com aquelas
de partículas materiais existentes separadamente, são
abstraídas como formas derivadas da ordem mais
profunda. Essas noções ordinárias de fato aparecem
naquilo que é chamado de ordem explicada ou
desdobrada, que é uma forma especial e distinta
contida na totalidade geral de todas as ordens
implicadas.
No Capítulo 6, a ordem implicada é apresentada de
um modo geral, e discutida matematicamente num
apêndice. O sétimo e último capítulo, porém, é uma
apresentação mais detalhada (embora não-técnica) da
ordem implicada, incluindo sua relação com a
consciência. Isso leva a uma indicação de algumas
linhas ao longo das quais talvez seja possível
enfrentar o desafio urgente de se desenvolver uma
cosmologia, bem como um conjunto de noções gerais
referentes à natureza da realidade que sejam adequadas
ao nosso tempo.
Finalmente, espera-se que a apresentação do
material destes ensaios possa ajudar a transmitir ao
leitor como o próprio assunto efetivamente se
desdobrou, de maneira que a forma do livro seja, por
assim dizer, um exemplo do que pode se entender como o
seu conteúdo.
17 e 18
CAPÍTULO 1 -
Fragmentação e totalidade
O título deste capítulo é "Fragmentação e
totalidade". É de especial importância considerar esta
questão nos dias de hoje, pois agora a fragmentação
será muito difundida, não apenas por toda a sociedade,
mas também em cada indivíduo; e isto leva a uma
espécie de confusão geral na mente, criando uma série
interminável de problemas e interferindo tão
seriamente com a clareza da nossa percepção que nos
impede de resolver a maior parte deles.
Assim, a arte, a ciência, a tecnologia e o
trabalho humano em geral são divididos em
especialidades, sendo cada uma delas considerada como
essencialmente separada das outras. Não satisfeitos
com esse estado de coisas, os homens propuseram
assuntos interdisciplinares adicionais, com a intenção
de unir essas especialidades.
Mas esses novos temas, em última análise, serviram
principalmente para acrescentar outros fragmentos
separados. Portanto, a sociedade como um todo tem-se
desenvolvido de forma tal que se encontra fracionada
em nações e em diferentes grupos religiosos,
políticos, econômicos, raciais, etc. Em
correspondência, o ambiente natural do homem tem sido
visto como um agregado de partes existentes
separadamente, a serem exploradas por diferentes
grupos de pessoas. Da mesma forma, cada ser humano
individual foi fragmentado num grande número de
compartimentos separados e conflitantes, conforme seus
diferentes desejos, metas, ambições, lealdades,
características psicológicas, etc., a tal ponto que em
geral se admite que certo grau de neurose é
inevitável, enquanto que muitos indivíduos, que vão
além dos limites "normais" da fragmentação, são
classificados como paranóides, esquizóides,
psicóticos, etc.
19
É evidente que é ilusória a noção de que todos esses
fragmentos existem separadamente, e essa ilusão não
faz outra coisa senão levar a um conflito e a uma
confusão infindáveis. De fato, a tentativa de viver de
acordo com a noção de que os fragmentos estão
realmente separados é, em essência, o que tem levado à
série crescente de crises extremamente urgentes, com
as quais, hoje, nos defrontamos. Assim, como bem se
sabe agora, esse modo de vida é o que vem ocasionando
a poluição, a destruição do equilíbrio da natureza, a
superpopulação, a desordem política e econômica em
escala mundial, e a criação de um ambiente global que
não é saudável, seja física ou mentalmente, para a
maioria das pessoas que nele têm de viver.
Individualmente, desenvolveu-se um sentimento muito
difundido de impotência e desespero em face do que
parece ser uma massa avassaladora de forças sociais
desiguais, que está além do controle, e mesmo da
compreensão, dos seres humanos por ela envolvidos.
De fato, até certo ponto, sempre foi necessário e
adequado para o homem, em seu pensamento, dividir e
separar as coisas, de modo a reduzir os problemas a
proporções controláveis; pois, evidentemente, se em
nosso trabalho técnico prático tentássemos lidar com o
todo da realidade de uma só vez, ficaríamos atolados.
Logo, de certa forma, a criação de matérias especiais
de estudo e a divisão do trabalho foram avanços
importantes. Mesmo antigamente, a primeira compreensão
que o homem teve de que não era idêntico à natureza
foi um passo crucial, pois tornou possível uma espécie
de autonomia em seu pensamento, que lhe permitiu ir
além dos limites imediatos da natureza, a princípio em
sua imaginação e, finalmente, em seu trabalho prático.
No entanto, essa habilidade do homem em separar a
si próprio do ambiente, bem como em dividir e
distribuir as coisas, levou em última instância a um
largo espectro de resultados negativos e destrutivos,
pois ele perdeu a consciência do que estava fazendo e,
deste modo, estendeu o processo de divisão além dos
limites dentro dos quais este opera adequadamente. Em
essência, o processo de divisão é uma maneira
conveniente e útil de pensar sobre as coisas,
principalmente no domínio das atividades práticas,
técnicas e funcionais (p. ex., dividir um terreno em
diferentes campos onde várias safras serão
cultivadas).
20
Todavia, quando este modo de pensamento é aplicado de
uma forma mais ampla à noção do homem a respeito de si
mesmo e a respeito do mundo todo em que vive (isto é,
à sua visão de mundo pessoal), então ele deixa de
considerar as divisões resultantes como meramente
úteis ou convenientes e começa a ver e a experimentar
a si próprio, e ao seu mundo, como efetivamente
constituídos de fragmentos separadamente existentes.
Guiado por uma visão pessoal de mundo fragmentária, o
homem então age no sentido de fracionar a si mesmo e
ao mundo, de tal sorte que tudo parece corresponder ao
seu modo de pensar. Ele assim obtém uma prova aparente
de que é correta a sua visão de mundo fragmentária,
embora, é claro, negligencie o fato de que é ele
próprio, agindo de acordo com o seu modo de pensar, a
causa da fragmentação que agora parece ter uma
existência autônoma, independente da sua vontade e do
seu desejo.
Desde tempos imemoriais, os homens têm consciência
desse estado de fragmentação aparentemente autônomo e
projetam mitos de uma "idade de ouro" ainda mais
antiga, antes que a ruptura entre o homem e a natureza
e entre o homem e o seu semelhante tivesse ocorrido.
De fato, o ser humano sempre buscou a totalidade -
mental, física, social, individual.
É instrutivo considerar que a palavra health
(saúde) em inglês baseia-se na palavra anglo-saxônica
hale, que significa "inteiro" [whole, em inglês: isto
é, estar com saúde é estar inteiro, o que é mais ou
menos o equivalente, penso, da palavra hebraica
"shalem". Igualmente, o inglês holy [sagrado, santo
baseia-se na mesma raiz que whole. Tudo isso indica
que o homem sempre sentiu que a integridade ou
totalidade é absolutamente necessária para que a vida
valha a pena ser vivida. No entanto, durante eras, ele
geralmente viveu em fragmentação. Certamente, a
questão de por que isso tudo ocorre exige atenção
cuidadosa e séria consideração.
Neste capítulo, a atenção será focalizada no papel
sutil, mas crucial, de nossas formas gerais de
pensamento em sustentar a fragmentação e frustrar os
nossos mais profundos anseios com vstas à totalidade
ou integridade; com o fim de dar à discussão um
conteúdo concreto, falaremos até certo ponto, em
termos de
21
pesquisas científicas correntes, que é um campo
relativamente familiar para mim (embora, é claro,
também se tenha em mente a importância global das
questões em exame).
O que será enfatizado, em primeiro lugar, na
pesquisa científica e depois num contexto mais geral,
é que a fragmentação está sendo continuamente
produzida pelo hábito quase universal de tomar o
conteúdo do nosso pensamento por "uma descrição do
mundo como ele é". Ou então, poderíamos dizer que,
nesse hábito, considera-se o pensamento como estando
em correspondência direta com a realidade objetiva.