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Introdução aos Direitos Humanos e Cidadania

A disciplina de Direitos Humanos e Cidadania aborda os aspectos históricos, fundamentos e conceitos dos direitos humanos, destacando sua evolução e a importância da dignidade humana. A aula apresenta a classificação dos direitos humanos em gerações, conforme proposta por Karel Vasak, e discute a relação entre direitos humanos e direitos fundamentais no contexto nacional e internacional. O estudo enfatiza a necessidade de uma compreensão contínua e crítica dos direitos humanos frente às demandas sociais contemporâneas.

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Introdução aos Direitos Humanos e Cidadania

A disciplina de Direitos Humanos e Cidadania aborda os aspectos históricos, fundamentos e conceitos dos direitos humanos, destacando sua evolução e a importância da dignidade humana. A aula apresenta a classificação dos direitos humanos em gerações, conforme proposta por Karel Vasak, e discute a relação entre direitos humanos e direitos fundamentais no contexto nacional e internacional. O estudo enfatiza a necessidade de uma compreensão contínua e crítica dos direitos humanos frente às demandas sociais contemporâneas.

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Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Unidade 1
Aspectos Introdutórios Aos Estudos Dos Direitos Humanos E Cidadania

Aula 1
Direitos Humanos: Antecedentes Históricos, Fundamento E Conceito

Direitos humanos: antecedentes históricos, fundamentos e conceito

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Ponto de Partida

Olá, estudante!

Esta aula se propõe a apresentar breve notícia histórica sobre a proteção dos direitos humanos,
evidenciando que foram criadas e estendidas progressivamente aos povos as instituições
jurídicas de defesa da dignidade humana contra a violência, o aviltamento, a exploração e a
miséria. Na sequência, serão contemplados os fundamentos dos direitos humanos, levando-se
em conta a abordagem filosófica ou jusnaturalista, que trata o estudo como sendo os direitos
humanos inerentes a todas as pessoas, independente do tempo e lugar; a universalista ou
internacionalista, que identifica os direitos humanos como sendo inerente a todas as pessoas,
em quaisquer lugares, porém, num certo tempo; e a positivista ou constitucional que analisa os
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

direitos humanos em um determinado tempo e lugar. Por fim, serão apresentados alguns
conceitos que identificam a matéria no plano interno e no sistema internacional.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
de que ao final de nossa disciplina você desenvolva competências técnicas específicas para sua
atuação profissional.

Vamos Começar!

A expressão “direitos humanos” chega ao século XXI com grande força e vitalidade, sendo
largamente utilizada em manifestações da sociedade civil, em questões políticas e para vindicar
novos direitos. Pelo uso excessivo e, por vezes, indiscriminado da expressão, ela acaba por
incorrer em certa vagueza e imprecisão. Nessa esteira, Rey Pérez afirma que a “expressão
Direitos humanos é problemática por dois motivos: porque apresenta diversos significados e
porque existem diversas palavras que querem expressar seu conceito” (Pérez, 2011, p. 19,
tradução livre).

Algumas expressões geralmente são empregadas para fazer menção a tais direitos: “direitos
fundamentais”, “direitos naturais”, “direitos do homem”, “direitos individuais”, “direitos humanos
fundamentais”, “liberdades públicas”, etc. No campo doutrinário são observadas advertências
para a ausência de consenso quanto à terminologia mais adequada para referir-se aos direitos
humanos e aos direitos fundamentais que revelam pontos de vista favoráveis e contrários ao
emprego desses ou daqueles termos.

Normalmente a expressão “direitos humanos” é empregada para denominar os direitos previstos


nas declarações e convenções internacionais, ao passo que “direitos fundamentais” são aqueles
que passaram a ganhar relevo nas cartas constitucionais dos Estados nacionais.

Pode-se afirmar que os direitos humanos formam um conjunto de faculdades e instituições que,
em cada momento histórico, concretizam as exigências da dignidade, da liberdade e da
igualdade, as quais devem ser reconhecidas pelos ordenamentos jurídicos em nível nacional e
internacional. Portanto, possuem ao mesmo tempo caráter descritivo (direitos e liberdades
reconhecidos nas declarações e convenções internacionais) e prescritivo (alcançam as
exigências mais vinculadas ao sistema de necessidades humanas e que, devendo ser objeto de
positivação, ainda assim não foram consubstanciados).

Para se chegar nesse nível de compreensão, o processo evolutivo dos direitos humanos passou
por diversos momentos, onde podem ser assinalados marcos históricos relevantes na
Antiguidade, especialmente na Grécia e Roma; na Idade Média, com a Magna Carta de 1215; na
Idade Moderna, especialmente com as Declarações de Direitos, cujo destaque é a Declaração
dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, que denota grande relevância por representar “o
atestado de óbito do Ancien Régime”, constituído pela monarquia absoluta e pelos privilégios
feudais, traduzindo-se como primeiro elemento constitucional do novo regime político; e, na Era
Contemporânea, especialmente com as mudanças produzidas no sistema internacional após a
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Segunda Grande Guerra Mundial e a consequente criação da Organização das Nações Unidas,
em 1945, onde a valorização dos direitos humanos passou a ter uma dimensão universal, com
desdobramentos e repercussões para os Estados nacionais.

Siga em Frente...
Atualmente é possível afirmar que nenhum indivíduo se sobrepõe aos demais. Para se chegar
nesse estágio, evidencia-se que foram criadas paulatinamente as instituições jurídicas de defesa
da dignidade humana contra a violência, o aviltamento, a exploração e a miséria. A dignidade
humana apresenta-se como valor básico que fundamenta os direitos humanos e tende a
explicitar e satisfazer as necessidades da pessoa humana na esfera moral.

Segundo Norberto Bobbio, todas as declarações recentes de direitos humanos compreendem,


além dos direitos individuais tradicionais, que consistem em liberdades, também os chamados
direitos sociais, que se constituem em poderes. Os primeiros exigem da parte dos outros
(incluídos aqui os órgãos públicos) obrigações puramente negativas, que implicam a abstenção
de determinados comportamentos; os segundos só podem ser realizados se for imposto a
outros (incluídos aqui os órgãos públicos) um certo número de obrigações positivas. Eles são
antinômicos no sentido de que o desenvolvimento deles não pode proceder paralelamente: a
realização integral de uns impede a realização integral de outros.

Pode-se afirmar que a compreensão dos direitos humanos guarda relação com os documentos
produzidos no sistema internacional, como Declarações (Declaração Universal dos Direitos
humanos, de 1948) e outros tratados internacionais (Pactos de Direitos Civis e Políticos, de 1966,
etc.), por referir-se àquelas posições jurídicas que se reconhecem ao ser humano como tal,
independentemente de sua vinculação com determinada ordem constitucional, ao passo que a
terminologia que se aplica no plano doméstico dos Estados nacionais relaciona-se aos direitos
fundamentais à medida que são reconhecidos na esfera do direito constitucional positivo de
determinado Estado. Os direitos fundamentais constituem a principal garantia com que contam
os cidadãos de um Estado de Direito de que o sistema jurídico e político em seu conjunto será
orientado pelo respeito e pela promoção da dignidade da pessoa humana.

A valorização da dignidade da pessoa humana ganha importância tanto no âmbito do direito


interno dos Estados (com a previsão legislativa consagrada nas Constituições substanciais e/ou
formais na categoria de direito fundamental e, não tão raramente, na categoria de estrutura
organizacional dos próprios Estados) como no plano internacional (em especial com a
celebração de vários tratados internacionais). Esse princípio, o da dignidade da pessoa humana,
adquiriu contornos universalistas desde que a Declaração Universal de Direitos do Homem o
concebeu em seu preâmbulo:

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família


humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz
no mundo. [...] Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos
direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

direitos do homem e da mulher, e que decidiram promover o progresso social e melhores


condições de vida em uma liberdade mais ampla.

Na sequência, seu artigo 1º proclamou que todos os seres humanos nascem livres e iguais em
dignidade e direitos. Dotados de razão e consciência, devem agir uns para com os outros em
espírito e fraternidade. Jorge Miranda (2000) sistematizou características da dignidade da
pessoa humana: a) reporta-se a todas e a cada uma das pessoas, e é a dignidade da pessoa
individual e concreta; b) cada pessoa vive em relação comunitária, mas a dignidade que possui é
dela mesma, e não da situação em si; c) o primado da pessoa é o do ser, não o do ter; a liberdade
prevalece sobre a propriedade; d) a proteção da dignidade das pessoas está além da cidadania
portuguesa e postula uma visão universalista da atribuição de direitos; e) a dignidade da pessoa
pressupõe a autonomia vital da pessoa, a sua autodeterminação relativamente ao Estado, às
demais entidades públicas e às outras pessoas.

Vamos Exercitar?
O tema relativo aos direitos humanos, notadamente os que estão relacionados a violações
sistemáticas de direitos, surge com frequência dentre as preocupações dos estudos voltados às
ciências jurídicas e sociais e suscitam debates calorosos.

Ao longo dos anos variaram as correntes, os enfoques e os instrumentos de análise empregados


desde a tradição clássica até aos estudos contemporâneos e, por isso, a importância de se
conhecer os antecedentes históricos sobre os direitos humanos.

Eles, os direitos inerentes à pessoa humana, não se apresentam como “produtos acabados”; ao
contrário, demandam evolução contínua e alargada na medida em que há novas demandas e
espaços que se apresentam em sociedade.

Não restam dúvidas de que o assunto é vasto, múltiplo, complexo e delimitá-lo torna-se tarefa
necessária na atual conjuntura social, permeada pela regulação jurídica e a presença de
operadores jurídicos cada vez mais requisitados para atuar diante do descumprimento do Estado
das suas obrigações em efetivar os direitos econômicos, sociais e culturais e promover as
condições básicas de dignidade para a pessoa humana como uma indispensável medida de
promoção da inclusão econômica e social.

Conforme acentuado, o marco que se tornou a grande alavanca no processo de


internacionalização dos direitos humanos foi a Carta das Nações Unidas, de 1945, que em seu
art. 1º deixa claro o objetivo de buscar uma cooperação internacional para a solução de
problemas de caráter econômico, social, cultural ou humanitário; promover e estimular o respeito
aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo,
língua ou religião.

Observa-se que há nos dias atuais grande preocupação na tutela dos direitos humanos (seja no
plano doméstico, seja no plano internacional). Porém, de outra banda, são evidências lesões de
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

diversas matizes que aviltam a dignidade humana.

Não se pode olvidar que muitas lesões que são produzidas em relação aos direitos humanos
decorrem do momento que vive a humanidade e, em larga medida, impulsionado pela
globalização.

Por essas razões o conhecimento da matéria torna-se imprescindível para que sejam utilizados
os instrumentos e mecanismos que estão postos à disposição das pessoas físicas para fazer
frente aos abusos, às atrocidades e às barbáries, seja utilizando o arcabouço jurídico normativo
que se apresenta no plano doméstico, seja pelos que estão disponíveis no sistema internacional.

Os direitos humanos, que pertenciam ao domínio constitucional, estão em migração contínua e


progressiva para uma direção internacional que os elege e acomoda suas tensões em padrões
primários supranacionais. Nota-se que na busca incessante do reconhecimento,
desenvolvimento e realização dos maiores objetivos por parte da pessoa humana e contra as
violações perpetradas pelos Estados e pelos particulares, o direito tem se mostrado um
instrumento vital para a uniformização, o fortalecimento e a implementação da dignidade da
pessoa humana. A dignidade da pessoa humana constitui um verdadeiro valor que deve,
impreterivelmente, servir de orientação a qualquer interpretação do direito que a regulamenta.

Saiba mais
Debater acerca dos direitos humanos é importante e principalmente a partir do início do século
XX tem recebido destaque e ampliação em nível mundial, considerando diversos aspectos de
preocupação quanto à dignidade da pessoa humana. Nesse sentido, leituras que possam
subsidiar reflexões sob essa perspectiva são relevantes. Portanto, faça a leitura do texto Direitos
humanos e globalização para aprofundamento crítico.

Referências
COMPARATO, F. K. A afirmação histórica dos direitos humanos. São Paulo: Saraiva, 1999.

FERRAJOLI, L. Los fundamentos de los derechos fundamentales. 2. ed. Madrid: Trota, 2005.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. Direitos humanos e globalização. Amazonas: CONPEDI, [s. d.]. Disponível em:
[Link]
Acesso em: 14 out. 2023.

LUÑO, A. E. P. Los derechos fundamentales. 7. ed. Madrid: Tecnos, 1998.

MIRANDA, J. Manual de direito constitucional. 3. ed. Coimbra: Ed. Coimbra, 2000.


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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

PÉREZ, J. L. R. El discurso de los derechos: una introducción a los derechos humanos. Madrid:
Universidad Comillas, 2011.

SANTAGATI, C. J. Manual de derechos humanos. 2. ed. Buenos Aires: Ediciones Jurídicas, 2009.

Aula 2
As Ondas Dimensionais Dos Direitos Humanos

As ondas dimensionais dos direitos humanos

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Ponto de Partida
Atualmente existe um rol significativo de direitos humanos reconhecidos no plano internacional e
interno dos Estados que envolvem os direitos civis, políticos, sociais, econômicos, culturais, de
meio ambiente, da paz etc. A abordagem histórica para a compreensão do estudo dos direitos
humanos é relevante e tem se discutido a forma e o momento em que eles foram concebidos.

A presente aula se propõe a apresentar a classificação dos direitos humanos a partir dos
estudos formulados por Karel Vasak, que correspondem aos denominados direitos de primeira
dimensão ou geração, direitos de segunda dimensão ou geração e direitos de terceira dimensão
ou geração. A classificação apresentada pelo referido autor passou a ser utilizada pela doutrina,
pela jurisprudência e também pela prática nacional e internacional.
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Os direitos humanos não se desenvolveram no mesmo período. Ao contrário, os direitos


inerentes à pessoa humana foram sendo modificados e alargados com o passar dos anos, a
partir de contextos históricos distintos.

Vamos Começar!

Karel Vasak, ao realizar uma palestra no Instituto Internacional de Direitos Humanos, cuja sede
encontra-se em Estrasburgo, no ano de 1979, apresentou uma classificação sobre os direitos
humanos que levou em consideração antecedentes históricos importantes e, de forma didática,
identificou as fases evolutivas dos direitos humanos a partir do que ficou conhecido como
dimensões ou gerações de direitos humanos.

Nesse sentido, o autor ao levar em conta a história e as aspirações axiológicas que culminaram
por dar uma identidade própria, os classificou em direitos de primeira, de segunda e de terceira
geração.

Os direitos de primeira geração surgiram com as revoluções burguesas dos séculos XVII e XVIII e
valorizavam a liberdade. Os direitos de segunda geração decorrem dos movimentos sociais-
democratas, que se desenvolveram, especialmente, no início do século XX, como a Revolução
Russa, cuja ênfase precípua estava ancorada na igualdade. E os direitos de terceira geração
estariam intimamente ligados às experiências sofridas pela humanidade por ocasião da Segunda
Guerra Mundial e da onda de descolonização que a seguiu, refletindo os valores da fraternidade.

Com base nos estudos de Vasak, criou-se o entendimento sobre a classificação dos direitos
humanos a partir das três dimensões anteriormente consagradas, sendo, portanto, admitida pela
doutrina e pela jurisprudência, no plano interno e também no sistema internacional. Ademais, os
estudos acabaram por ganhar novos contornos ao serem formuladas novas classificações, como
os direitos de quarta e de quinta dimensão.

Com efeito, apesar da aceitação pela jurisprudência e pela doutrina, por ser uma compreensão
bastante didática, inclusive, há de se apresentar uma ressalva, consubstancia em aportes
doutrinários fortes, como nos estudos formulados por Antônio Augusto Cançado Trindade, que
registrou, com propriedade, que ao classificar os direitos humanos a partir de gerações, pode-se
levar a um mal-entendido de que os direitos inerentes à pessoa humana se fragmentam.

Por óbvio que os direitos humanos não se “sucedem” ou acabam por substituir uns aos outros.
Ao contrário, eles se expandem e se fortalecem. Os direitos humanos consagrados revelam a
natureza complementar de todos os direitos voltados à proteção dos indivíduos.

Porém, conforme anteriormente assinalado, a classificação por ondas geracionais ou


dimensionais que foram formuladas por Vasak demonstra de maneira clara como os direitos
humanos foram conquistados ao longo do tempo, em particular com marcos teóricos dos
séculos XVIII, XIX e XX, ao identificar os direitos civis e políticos; os direitos econômicos, sociais
e culturais; e os direitos da autodeterminação dos povos, do meio ambiente equilibrado, etc.,
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

respectivamente. Os direitos anteriormente identificados podem também ser compreendidos,


para melhor compreensão e caracterização, a partir da tríade: Liberdade, Igualdade e
Fraternidade.

Assim, pode-se afirmar que os denominados direitos de primeira geração ou dimensão estão
voltados aos direitos individuais; os direitos de segunda dimensão relacionam-se aos direitos
coletivos e, por fim, os de terceira dimensão têm pertinência com os direitos de natureza difusa.

Siga em Frente...

Os direitos de primeira geração ou de base liberal se fundam numa separação entre Estado e
sociedade que permeia o contratualismo dos séculos XVIII e XIX. O Estado desempenha papel de
controle, prevenção e repressão de ameaça ou lesão de direito. Porém, em relação aos
chamados direitos de primeira geração, o papel do Estado na defesa desses direitos se
manifesta tanto em seu tradicional papel passivo (abstenção de violar os direitos humanos), bem
como no que tange à atuação ativa, ao exigir ações estatais para garantia da segurança pública,
administração da justiça etc. Dividem-se em direitos civis e direitos políticos.

Os civis são aqueles que mediante garantias mínimas de integridade física e moral asseguram
uma esfera de autonomia individual, de modo a possibilitar o desenvolvimento da personalidade
de cada um. São direitos titulados pelos indivíduos e exercidos, em sua grande maioria,
individualmente, embora alguns somente possibilitem o exercício coletivo (liberdade de
associação). O Estado tem o dever de abstenção ou de não impedimento e de prestação,
devendo criar instrumentos de tutela como a polícia, o Judiciário e a organização do processo.

No que tange aos direitos políticos, que encontram seu núcleo no direito de votar e ser votado, a
seu lado se reúnem outras prerrogativas decorrentes daquele status, como o direito de postular
um emprego público, de ser jurado ou testemunha, de prestar o serviço militar e até de ser
contribuinte.

Os direitos de segunda geração correspondem aos direitos sociais, econômicos e culturais que
resultam da superação do individualismo possessivo decorrente das transformações
econômicas e sociais ocorridas no final do século XIX e início do século XX, especialmente pela
crise das relações sociais decorrentes dos modos liberais de produção, acelerada pelas novas
formas trazidas pela Revolução Industrial.

Os direitos sociais são aqueles necessários à participação plena na vida da sociedade, incluindo
o direito à educação, a instituir e manter a família, à proteção à maternidade e à infância, ao lazer
e à saúde etc. Os direitos econômicos destinam-se a garantir um padrão mínimo de vida e
segurança material, de modo que cada pessoa desenvolva suas potencialidades, e os direitos
culturais dizem respeito ao resgate, ao estímulo e à preservação das formas de reprodução
cultural das comunidades, bem como à participação de todos nas riquezas espirituais
comunitárias.
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Quanto aos direitos de terceira geração, surgem como resposta à dominação cultural e como
reação ao alarmante grau de exploração não mais da classe trabalhadora dos países
industrializados, mas das nações em desenvolvimento e por aquelas já desenvolvidas, bem
como pelos quadros de injustiça e opressão no próprio ambiente interno dessas e de outras
nações revelados mais agudamente pelas revoluções de descolonização ocorridas após a
Segunda Guerra Mundial. Atuam ainda como afirmação contemporânea de interesses que
desconhecem limitações de fronteiras, classe ou posição social e se definem como direitos
globais ou de toda a humanidade (direito à paz, à autodeterminação dos povos e ao meio
ambiente equilibrado).

Hodiernamente há autores que defendem a existência dos direitos de quarta e quinta dimensão.
Os de quarta, voltados ao direito à democracia, à informação e ao pluralismo; e os direitos de
quinta geração, são aqueles que levam em consideração o cuidado, a compaixão e o amor por
todas as formas de vida, reconhecendo que a segurança humana não pode ser plenamente
realizada se não identificar o indivíduo como parte do todo. Voltados especialmente para a
identidade individual, o patrimônio genético e a proteção contra o abuso das técnicas de
clonagem.

Vamos Exercitar?
O órgão do Estado ao realizar vistoria em uma determinada propriedade rural constatou que ela
não cumpria sua função social (artigo 5º, XXIII da CF/88), classificando o imóvel como
improdutivo.

Com base nessa declaração, o Chefe do Poder Executivo emitiu Decreto declarando o imóvel de
interesse social para fins de reforma agrária e iniciou processo administrativo de desapropriação
por interesse social nos termos do artigo 184 da Constituição da República.

Inconformado com a decisão administrativa, o proprietário do imóvel impetrou Mandado de


Segurança em face do chefe do Poder Executivo, alegando, dentre outros fundamentos, a
inexpropriabilidade do seu imóvel rural para efeito de reforma agrária, pelo fato de ele se situar
em área de relevante interesse ambiental, definida pela Constituição da República como
patrimônio nacional (artigo 225, §4º).

O caso foi afinal apreciado pelo Poder Judiciário, que, em decisão proferida sobre a matéria,
entendeu que o direito de todos ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, típico direito de
terceira geração, de caráter difuso, e o consequente dever do Poder Público de proteção ao
patrimônio ambiental, não impediria a priori a intervenção estatal na propriedade privada em
razão de relevante interesse social, uma vez que o art. 225 da CF/88 não proíbe a utilização das
áreas constitucionalmente declaradas como patrimônio nacional, para fins de reforma agrária,
desde que respeitadas as condições necessárias à preservação ambiental, na forma da lei.

A partir do caso apresentado, é possível identificar o conflito que envolve direitos de diferentes
dimensões, sendo certo, nesse particular, a colisão de direitos de primeira, de segunda e de
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

terceira geração. Isso porque estão presentes o direito individual à propriedade privada, previsto
no artigo 5º, inciso XXII; o direito coletivo à reforma agrária, previsto no artigo 5º, inciso XXIV,
cominado com o artigo 184 e também com o artigo 6º; e, por fim, o direito de todos ao meio
ambiente equilibrado, previsto no artigo 225, todos da Constituição da República Federativa do
Brasil de 1988.

A bem da verdade, embora estejam devidamente tutelados na Carta Magna, e também


consagrados em tratados internacionais de direitos humanos, o embate de direitos apresenta-se
como uma realidade na sociedade hodierna, pois envolvem interesses que se apresentam, por
vezes, em campos antagônicos, como no caso indicado. Surge, a partir dos aspectos suscitados,
a necessidade de compor os conflitos que estão postos, devendo haver compatibilização dos
interesses que estão evidenciados.

Sem embargo, a partir de fatos e casos concretos torna-se possível indicar quais direitos devem
ceder em favor de outros, independentemente das gerações envolvidas, ou seja, não há
hierarquia ou aspectos preponderantes que a priori possam indicar sobre a validade de um direito
de primeira, de segunda ou de terceira geração, mas sim, a partir da ponderação de valores que
ensejam a interpretação dos casos apresentados.

Saiba mais

Para ampliar o seu conhecimento, indicamos a leitura do artigo Direitos humanos e políticas
públicas de combate à pobreza no contexto da globalização.

Referências

BALMANT, L. E.; GUERRA, S. Direitos humanos e políticas públicas de combate à pobreza no


contexto da globalização. Cadernos de Dereito Actual, nº 7 Extraordinario, 2017, pp. 25-42.
Disponível em:
[Link] Acesso em:
14 jan. 2023.

BOBBIO, N. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

BONAVIDES, P. Curso de direito constitucional. 14. ed. São Paulo: Malheiros, 2004.

COMPARATO, F. K. A afirmação histórica dos direitos humanos. São Paulo: Saraiva, 1999.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

MARSHALL, T. H. Classe social, “status” e cidadania. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

SAMPAIO, J. A. L. Direitos fundamentais. Belo Horizonte: Del Rey, 2004.


Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

SARLET, I. A eficácia dos direitos fundamentais. 4. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004.

Aula 3
A Cidadania Na Formação Do Estado Democrático De Direito

A cidadania na formação do Estado democrático de direito

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Ponto de Partida

Herkenhoff (2001) conceitua cidadania como a qualidade ou o status de cidadão e ressalta que o
conteúdo de cidadania se ampliou historicamente, ultrapassando o conteúdo civil e político de
sua formulação original. Em sua opinião, além da dimensão civil e política, a cidadania possui
outras quatro dimensões: social, econômica, educacional e existencial.

A cidadania apresenta-se como status e, ao mesmo tempo, como objeto de direito fundamental
das pessoas. Isso porque, num mundo no qual Estados ocupam um lugar central, manter
vínculos e participar de um determinado Estado corresponde à participação na vida jurídica e
política que ele propicia e a se beneficiar da defesa e da promoção dos direitos que ele abarca na
sua estruturação, tanto internamente como nas relações com outros Estados.

A cidadania como um status do sujeito, um direito a ter direitos, é indispensável para a


concretização da democracia. Ela é um corolário do princípio democrático, pois reforça a
dimensão do poder emanado pelo povo e nele fundamentado, como fonte de sua legitimação. A
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

estrutura política e social ergue-se através da cidadania e dela não pode prescindir se, de fato,
pretende manter-se fiel ao modelo de Estado Democrático de Direito.

Vamos Começar!

A análise do modelo inglês de construção da cidadania foi objeto de estudo por Thomas
Humprey Marshall e sua classificação tornou-se parâmetro comum nas abordagens sobre
cidadania, especialmente nas Ciências Sociais. Segundo seu entendimento, as liberdades
firmaram-se a partir de três momentos distintos, no decorrer de três séculos: a) os direitos civis,
que podem ser expressos pela igualdade perante a lei e pelos direitos do homem, no século XVIII;
b) os direitos políticos, que ganham amplitude no século XIX, em decorrência da ampliação do
direito de voto, no sentido do sufrágio universal; c) os direitos sociais, no século XX, pela criação
do Estado de Bem-Estar (Welfare State). A cidadania moderna, que se desenvolveu na sociedade
liberal, surgiu da unificação do Estado e separação funcional deste.

Os elementos que compõem os direitos de cidadania não surgiram em uma mesma época. Ao
contrário, tiveram sua evolução e seu apogeu em contextos históricos distintos. Os períodos de
destaque de cada direito da cidadania ficam nítidos nessa busca de caminhos distintos e
autônomos desses elementos.

Com efeito, embora a origem e o crescimento da cidadania tenham ocorrido em meio ao


desenvolvimento capitalista, caracterizado por desigualdades, fundamenta-se em uma ideia de
igualdade básica, já que constitui um status concedido àqueles que são membros integrais de
uma comunidade. Logo, a cidadania é compatível com a desigualdade de classes, porque não
obstante seja a sociedade estratificada em classes e surjam desigualdades entre elas, pelos
direitos mínimos garantidos criam-se mecanismos de igualdade social.

No Brasil pode-se afirmar que a cidadania passa por uma crise peculiar, em razão do
desenvolvimento histórico que fugiu a trajetória desenhada por Marshall em relação ao modelo
da Inglaterra, posto que nesse país o processo levou à consolidação dos direitos civis, políticos e
sociais, na medida em que, na sequência indicada, o exercício de um conduzia a conquista do
outro, operando uma lenta edificação movida pelo próprio povo, sedimentando-se como um
sólido valor coletivo. Os direitos políticos precederam os direitos civis, antes mesmo que o povo
tivesse lutado, e por vontade própria, buscado os direitos civis, que foram “outorgados”.

A cidadania foi arquitetada de cima para baixo, com o Estado paternalista aquinhoando direitos
políticos às pessoas sem que houvesse uma real reivindicação e conquista desses mesmos
direitos, o que prejudicou a consolidação da consciência cidadã no Brasil, em função da falta de
sentimento constitucional. A herança colonial deixou marcas no campo dos direitos civis, pois a
escravidão, os latifúndios e o Estado patrimonialista comprometido com interesses privados,
foram transpostos para o novo país e perduraram por um período longo ou, ainda, mantêm seu
vigor, o que dificultou a solidificação dos direitos civis.
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

A trajetória sucintamente descrita revela que o modelo tradicionalmente propalado de cidadania


definido por Marshall não foi seguido no Brasil, onde os direitos políticos foram “outorgados” por
uma elite dominante. Todo o quadro gerou um déficit ou uma “deformação” no rumo da
cidadania, principalmente em relação à eficácia dos direitos fundamentais no Brasil, vistos como
uma “generosidade” das elites e uma possibilidade remota de compromisso por parte do Estado
brasileiro, que perpetua e legitima a concentração de renda e a desigualdade social.

Siga em Frente...
A cidadania ocupa papel central na construção do Estado Democrático de Direito, tendo em vista
que este não pode prescindir da participação popular como fonte legitimadora. Apresenta-se
como fator indispensável para a promoção da inclusão social e para combater a desigualdade.

O cidadão apresenta-se como agente reivindicante que autoriza o desabrochar de direitos novos.
Por isso, a nova ideia de cidadania requer a expansão dos processos de realização democrática,
inclusive adoção de técnicas inovadoras de participação direta como instrumentos novos de
acesso do povo à condução do poder público, sem prejuízo dos recursos democráticos
tradicionais, além de toda uma construção social que retrate efetivamente os intentos dos
cidadãos expressos na ordem constitucional e seja capaz de refletir o tipo de sociedade
almejado pela soberania popular.

No Brasil, há vários problemas, inclusive de natureza histórica, para a organização da


participação popular e o consequente exercício da cidadania, especialmente por meio dos
movimentos sociais, levando-se em consideração o relevante papel que desempenham na
consolidação do Estado Democrático de Direito.

A herança colonial deixou marcas no campo dos direitos civis, pois a escravidão, os latifúndios e
o Estado patrimonialista comprometido com interesses privados, foram transpostos para o novo
país e perduraram por um período longo, ou ainda mantêm vigor, o que dificulta a solidificação
dos direitos civis.

Na ideia de república encontra-se embutida não a “noção de quem manda”, mas “para que
manda”. O poder está a serviço do bem comum, da coisa coletiva ou pública como um bem
superior ao particular. Condena-se a tendência de quem está no poder a se apropriar do bem
público como se fosse sua propriedade privada. Conquanto, seja menos exigente em relação aos
cidadãos, posto que aceita que estes sejam movidos, sobretudo, por seus interesses
particulares.

Bem mais do que um regime específico, a república consiste num modo de exercer o poder,
voltada à coisa pública e cujo poder é atribuído pelo povo em eleições periódicas. O maior
antagonista da república nos dias de hoje não é tanto a monarquia, mas a usurpação da coisa
pública por interesses particulares, ou seja, o patrimonialismo que infelizmente é um traço
característico da história “republicana” brasileira.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

O patrimonialismo significa que o Estado é visto como um bem pessoal, patrimônio que designa
a propriedade transmitida por herança de pai para filho. O Estado é dirigido pelo governante
como uma empresa pessoal, no quadro do capitalismo mercantil e, como consequência, gera
corrupção ao seu redor e neutraliza a iniciativa dos produtores. A corrupção torna-se um dado
intrínseco ao sistema como resultado de uma exacerbação do Estado e não uma mera prática
pessoal. Enfim, a marca do patrimonialismo permeia a organização do espaço público brasileiro
e dá um contorno ao Estado pouco movido pela busca dos interesses da coletividade.

Assim, os grupos menos favorecidos da sociedade sucumbem devido à falta de políticas


públicas realmente voltadas para a realização de planos de melhoria da condição de vida de
segmentos expressivos de cidadãos, e que geralmente são lembrados como cidadãos apenas
nos períodos eleitorais. Tudo isso revela um modelo de sociedade no qual a república foi
proclamada, porém muito pouco vivenciada e cujo espírito público pouco influi sobre a
construção coletiva e estatal, caracterizando uma cidadania de baixa densidade.

Vamos Exercitar?
A cidadania como um status do sujeito, um direito a ter direitos, é indispensável para a
concretização da democracia. Ela é um corolário do princípio democrático, pois reforça a
dimensão do poder emanado pelo povo e nele fundamentado, como fonte de sua legitimação. A
estrutura política e social ergue-se através da cidadania e dela não pode prescindir se, de fato,
pretende manter-se fiel ao modelo de Estado Democrático de Direito.

A cidadania, definida pelos princípios da democracia e do pluralismo político, constitui-se na


criação de espaços sociais de canalização do conflito e da luta (movimentos sociais) e na
fixação de instituições permanentes para a expressão política (partidos, órgãos públicos),
significando conquista e consolidação social e política. A cidadania passiva, outorgada pelo
Estado, se diferencia da cidadania ativa, na qual o cidadão, portador de direitos e deveres, é
essencialmente gerador de direitos para abrir novos espaços de participação política.

Não se pode olvidar de se estabelecer uma inter-relação entre cidadania e direitos humanos em
razão da identificação e pertinência dos conceitos, mas pelo fato de que a evolução de um
acarreta a implementação do outro. Portanto, é possível apresentar uma dimensão política, civil e
social da cidadania.

Ser cidadão implica a efetiva atribuição de direitos nas três esferas mencionadas, porque
careceria de sentido participar do governo sem condições de fazer valer a própria autonomia,
bem como sem dispor de instrumentos asseguradores das prestações devidas pelo Estado, em
nome da igualdade de todos. A cidadania pressupõe participação efetiva na vida política e com
preservação do poder de autodeterminação pessoal, seja em termos de impor abstenções ao
Estado, seja em termos de lhe exigir prestações.

Nos Estados contemporâneos a técnica da representação popular é indispensável para a


manifestação da vontade coletiva. Contudo, a cidadania não se limita apenas à manifestação
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

periódica, por meio de eleições, para a composição dos cargos eletivos do Poder Executivo e
Legislativo. O seu conteúdo vem sendo revisto e tem sofrido reformulação.

Numa conjuntura na qual se intensifica a circulação das pessoas e em que, apesar dos pesares,
se afirma a liberdade individual, a pertença a uma comunidade política, embora sendo
permanente, já não tem de ser perpétua como no passado. De acordo com as projeções de Jorge
Miranda, o direito à cidadania, futuramente, será acompanhado, dentro de determinados limites,
de um direito de escolha da cidadania. Em suma, a cidadania não é um dado, mas um construído
pelos próprios cidadãos nas suas dimensões civil, política, social, jurídica, econômica, cultural,
dentre outras. Os cidadãos são os reivindicantes e portadores do poder estatal, exercido pelos
representantes por eles escolhidos, conforme os parâmetros instituídos em lei.

Saiba mais
O artigo Construção da cidadania e da democracia no Brasil: tarefas inacabadas, discorre sobre a
cidadania e a democracia no Brasil, leia e amplie seus conhecimentos!

Referências
BOBBIO, N. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

BONAVIDES, P. Curso de direito constitucional. 14. ed. São Paulo: Malheiros, 2004.

CARVALHO, J. M. de. Os bestializados – o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo:
Companhia das Letras, 1987.

CASTRO JÚNIOR, O. A. de. Considerações sobre o processo histórico de consolidação da


cidadania brasileira. In: GUERRA, S. (coord.). Direitos Humanos: uma abordagem interdisciplinar.
Rio de Janeiro: América Jurídica, 2003. v. I.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. Direitos humanos e cidadania. São Paulo: Atlas, 2012.

GUERRA, S.; EMERIQUE, L. M. B. Construção da cidadania e da democracia no Brasil: tarefas


inacabadas. [S. l.: s. n.: s. d.]. Disponível em:
[Link]
Acesso em: 15 jan. 2023.

HERKENHOFF, J. B. Como funciona a cidadania. 2. ed. Manaus: Valer, 2001.

MARSHALL, T. H. Classe social, “status” e cidadania. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.


Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

SARLET, I. A eficácia dos direitos fundamentais. 4. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004.

Aula 4
Cidadania: Uma Construção Necessária No Brasil, A Participação Popular E As Políticas Públicas

Cidadania: uma construção necessária no Brasil, a participação popular e as


políticas públicas

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Bons estudos!

Ponto de Partida

A participação popular se apresenta como necessidade fundamental e sua ausência cria e recria
antagonismos espaciais, degenerando-se em violência tanto na esfera pública quanto na privada,
pois são esferas absolutamente imbricadas e que se retroalimentam constantemente, mantendo
um status quo aparentemente imutável.

Trata-se de uma modalidade de política pública de longo prazo, que tem a pretensão de atingir a
raiz da problemática e não os sintomas ou consequências e que parte do princípio de que as
pessoas precisam compreender o paradigma posto pela “Era dos Direitos Humanos” e sua
mensagem normativa humanitária.

O modo de vida humano está encravado numa cultura que gera o individualismo, o medo e o
autoritarismo numa perene desconsideração da alteridade do outro como um igual. Este é o
espectro que nos acompanha. Evidencia-se, portanto, que persiste um hiato entre os atos
cotidianos públicos e privados atentatórios a alteridade e dignidade humana, bem como a
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

mensagem humanística contida nos documentos de direitos humanos universalmente


reconhecidos.

Vamos Começar!
O princípio da cidadania figura como um corolário do princípio democrático. O poder emanado
do povo manifesta-se por meio do exercício da cidadania nas suas mais amplas possibilidades.
Em qualquer das modalidades democráticas (direta, indireta ou semidireta) a cidadania encontra-
se presente e é indispensável para a caracterização do regime.

A ideia de cidadania aparece nos estudos de Celso Lafer (1999), principalmente na abordagem
sobre a crise dos direitos humanos. Tal crise tem repercussão direta na condição de total
dominação dos indivíduos almejada pelos Estados totalitários, pois em tais estruturas as
pessoas muitas vezes são tratadas como supérfluas, sem lugar no mundo.

Para Hannah Arendt, os direitos humanos pressupõem a cidadania como um princípio, pois a
privação dela repercute na condição humana, posto que o ser humano privado de proteção
conferida por um estatuto político esvazia-se da sua substância de ser tratado pelos outros
como semelhante, isto é, como igual. Disso, conclui que o primeiro direito humano é o direito a
ter direitos, o que só é possível mediante o pertencimento, pelo vínculo da cidadania, a algum
tipo de comunidade juridicamente organizada e ser tratado dentro dos parâmetros definidos pelo
princípio da legalidade.

Indubitavelmente que a cidadania ocupa um papel central na construção do Estado Democrático


de Direito e que a democracia não se resume apenas a um regime político com partidos e
eleições livres; é, antes de tudo, uma forma de existência social. Uma sociedade democrática é
aberta e permite sempre a criação de novos direitos. O que se nota, apesar das várias direções
possíveis de estudo da cidadania, é que a participação, o atuar, o agir para construir o seu próprio
destino é inerente à sua ideia. O que muda, ao longo dos tempos, são os graus e as formas de
participação e sua abrangência.

A Constituição de 1988 consagra o aspecto político-jurídico da cidadania, instituindo-a como um


princípio fundamental do Estado Democrático de Direito (art. 1º, II). Tal princípio encontra-se
concretizado em grande medida no Título II (Dos direitos e garantias fundamentais), Capítulo IV
(Dos direitos políticos), onde estão incluídos os direitos e as obrigações de caráter político dos
cidadãos brasileiros (art. 14 a 16).

Porém, não se pode olvidar que o sentido do princípio da cidadania é bem mais amplo do que a
titularidade de direitos políticos, pois qualifica os participantes da vida do Estado, reconhecendo
os indivíduos como pessoas integradas na sociedade estatal (art. 5º, LXXVII da Constituição de
1988), sendo certo que o funcionamento do Estado estará submetido à vontade popular, o que
tem conexão com a ideia de soberania popular (art. 1º, parágrafo único), com os direitos
políticos (art. 14) e com o conceito de dignidade da pessoa humana (art. 1º, III), com os objetivos
da educação (art. 205), como base e meta primordial do regime democrático.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Siga em Frente...

Muitas são as discussões em torno do pluralismo e variados os tipos de pluralismo existentes.


Não bastasse esse nível de complexidade, o pluralismo recebe conotações que designam
especificidades de acordo com o âmbito de seu estudo: "pluralismo político", "pluralismo social",
"pluralismo jurídico", etc. Frente a essa amplitude de possibilidades, a atenção estará centrada
em aspectos genéricos com a intenção de servir de suporte para pontuar o princípio do
pluralismo político conforme configurado no ordenamento constitucional.

Com base nas lições de Hannah Arendt, é possível concluir que o processo de asserção dos
direitos humanos, enquanto invenção para a convivência coletiva, requer um espaço público em
que somente se tem acesso por intermédio da cidadania. Por isso, para ela, o primeiro direito
humano, do qual derivam todos os demais, é o direito a ter direitos, cuja experiência totalitária
demonstrou que só podem ser exigidos por meio do acesso pleno à ordem jurídica oferecido
pela cidadania.

A cidadania tem relação direta com a participação no processo de tomada de decisões políticas.
O caráter democrático dessa participação decorre principalmente da sua igualdade e liberdade,
pois igualdade de participação significa que nas decisões que cabem à cidadania, seus membros
contam com igual poder de decisão, o que é expresso pela igualdade de votos (art. 14, caput, da
Constituição de 1988) – vinculada com a escolha de governantes em eleições periódicas, livres e
imparciais (art. 1º, parágrafo único; art. 14; art. 60, § 4º, II) –, pelo igual direito de concorrer a
cargos eletivos (art. 14) e pela independência dos representantes eleitos pelos cidadãos (art. 1º,
parágrafo único).

A liberdade de participação significa que os cidadãos devem contar com oportunidades iguais
para articular, esclarecer e expressar suas opiniões e seus interesses nos assuntos públicos.
Isso se manifesta por meio da liberdade de expressão, que deve incluir a possibilidade de crítica
do governo, do regime político, da ordem socioeconômica ou da ideologia prevalecente (art. 5º,
IV); da liberdade de informação, inclusive o direito de buscar fontes alternativas de informação,
que devem existir e ser protegidas por lei (art. 5º, XIV); e de liberdade de associação, que deve
garantir especialmente sua independência em relação ao Estado (art. 5º, XVII).

A cidadania é a manifestação das prerrogativas políticas que um indivíduo tem dentro de um


Estado Democrático, sendo certo que o exercício dessas prerrogativas é fundamental, visto que
sem a participação política do indivíduo nos negócios do Estado e em questões de interesse
público, não se pode falar em democracia que se encontra consubstanciada na ideia de que todo
poder do Estado emana do povo (art. 1º, parágrafo único, da Constituição de 1988).

De fato, todo o poder estatal é poder de direito, sendo certo que o Estado não é o seu sujeito ou
proprietário, mas o seu âmbito material de responsabilidade e atribuição. O Estado também não
é a origem do poder, mas sim o povo, ou seja, o poder estatal não está no povo, mas emana dele
e entende esse poder como exercido por encargo do povo e em regime de responsabilização
realizável perante ele.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Esse emanar é normativo, por isso deve desembocar em sanções concretas, tendo na
democracia sua variante ativa. Segundo Friedrich Müller, só se pode falar com ênfase de povo
ativo quando estão em vigor, praticam-se e são respeitados os direitos fundamentais individuais
e políticos. Portanto, a ideia de cidadania guarda proximidade e se inter-relaciona com os
conceitos de nacionalidade e de povo, embora não comporte igual significado.

Vamos Exercitar?
Preliminarmente, impende assinalar que o pluralismo demanda uma situação na qual não haja
um poder monolítico, mas sim vários centros de poder bem distribuídos territorialmente e
funcionalmente; o indivíduo tem a otimização máxima do potencial da participação na formação
das deliberações que lhe dizem respeito, o que é uma essência da democracia. Apesar de o
pluralismo reconhecer a importância dos grupos, das sociedades parciais, não afasta a
importância decisiva do grupo universal formado pelos cidadãos, diferenciado do aparelho do
Estado.

Atualmente, embora associe-se a ideia de pluralismo à democracia, como lembra Bobbio (1992),
existem sociedades pluralistas não democráticas e democráticas não pluralistas, por exemplo, a
sociedade feudal era pluralista, mas não era democrática (era composta por um conjunto de
várias oligarquias).

Impõe-se à Constituição um rol de problemas postos pelo pluralismo político aos quais precisa
enfrentar, tais como a garantia da independência dos grupos em relação ao Estado; a relevância
e as formas de sua participação no processo político; a institucionalização dos conflitos entre os
diferentes grupos e entre esses e os cidadãos não associados.

Oferecer soluções a esses problemas numa democracia é importante tanto pelo fato de que a
presença desses grupos é positiva, posto que alavancam a participação dos cidadãos no espaço
público, como também por não excluir o receio de que a realização dos fins almejados pelos
grupos seja possível às expensas do restante da sociedade.

Por fim, deve ser assinalado que ao enfatizar os desafios da construção de um modelo de
pluralismo compatível com as demandas sociais contemporâneas, torna-se necessário sublinhar
certos aspectos da correlação do pluralismo político-social com a democracia, tal como foi
previsto no texto constitucional.

Nessa esteira, colocam-se como pontos de destaque da íntima conexão entre a democracia e o
pluralismo: a) a contribuição para a correção da tendência de centralização e de fortalecimento
do Estado, junto à privatização do indivíduo; b) a permissão para o florescimento de sentimentos
forjados para o bem coletivo, em oposição aos interesses privados consubstanciados em
privilégios; c) a incorporação de grupos dominados que possuem um direito a serem incluídos
para somar esforços visando à utilidade pública; d) a diversificação da representação que foi
reduzida à abstração do cidadão e para limitar a soberania do Estado; e) a descrição e defesa de
um sistema oposto à oligarquia ou a uma elite no poder; f) a constatação de que nenhum valor
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

socialmente instituído é puro, absoluto e unívoco, face à diversidade de cosmovisões presentes


no tecido social; g) a relação de cooperação social amistosa entre indivíduos desiguais nas suas
oportunidades de vida, entretanto iguais no fundamento que lhes dá permissão de exigir alguma
coisa do seu governo, o que supõe o pluralismo, posto que não haveria laço durável entre
indivíduos que não fossem livres para escolher e que se sentissem reprimidos na sua identidade
e frustrados nos seus interesses; h) a necessidade de o pluralismo não ficar reduzido apenas ao
pluralismo de direito, mas caminhar em direção a um pluralismo de fato, a fim de que o consenso
seja um dado fundamental da democracia.

Saiba mais

No texto sugerido a seguir, você conhecerá ainda mais sobre a participação popular nas políticas
públicas:

ALBUQUERQUE, M. do C. Participação popular nas políticas públicas. São Paulo: Instituto Pólis,
2006.

Referências
ALBUQUERQUE, M. do C. Participação popular nas políticas públicas. São Paulo: Instituto Pólis,
2006. Disponível em:
[Link]
pular_politicas_publicas.pdf?sequence=1. Acesso em: 15 jan. 2023.

BOBBIO, N. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

CARVALHO, J. M. de. Os bestializados – o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo:
Companhia das Letras, 1987.

CHAUÍ, M. Cultura e democracia. São Paulo: Moderna, 1984.

FAORO, R. Os donos do poder. São Paulo: Globo/Publifolha, 2000.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. Direitos humanos e cidadania. São Paulo: Atlas, 2012.

HERKENHOFF, J. B. Como funciona a cidadania. 2. ed. Manaus: Valer, 2001.

LAFER, C. A reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o pensamento de Hannah


Arendt. São Paulo: Companhia das Letras,1999.

MIRANDA, J. Teoria do Estado e da Constituição. Rio de Janeiro: Forense, 2002.


Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

SANTOS, W. G. dos. Razões da desordem. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

SARLET, I. A eficácia dos direitos fundamentais. 4. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004.

Aula 5
Encerramento da Unidade

Videoaula de Encerramento

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Ponto de Chegada
Olá, estudante!

Considerando a competência essencial desta unidade de ensino, que é conhecer os


antecedentes históricos, os fundamentos e a definição dos direitos humanos, você
necessariamente deverá iniciar pelo reconhecimento dos aspectos introdutórios aos estudos dos
direitos humanos e, ainda, da cidadania.

Os aspectos em questão iniciam nos fundamentos históricos dos direitos humanos


jusnaturalistas e avançam até o positivismo, determinando nessa trajetória histórica os
conceitos de direitos humanos a cada tempo e sua terminologia, também vinculada ao tempo e à
história da sociedade a que se refere.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Conhecer as dimensões dos direitos humanos e reconhecer a que direitos estão relacionadas
cada uma dessas dimensões é fundamental para entender a cidadania na perspectiva da
formação do Estado democrático de direito, onde a organização da participação popular no
exercício da cidadania é princípio fundante. Princípio este que no campo jurídico nacional tem
lugar central na construção da democracia e no desenvolvimento de políticas públicas de
atuação frente os direitos humanos e sociais.

É Hora de Praticar!

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Olá, estudante!
É chegado o momento de colocar em prática os conhecimentos auferidos por ocasião dos
estudos até aqui realizados. Assim, serão apresentados fatos e encaminhadas algumas
questões sobre uma situação hipotética para que ao final você possa emitir sua opinião sobre o
caso apresentado.
Ao compor o quadro de um importante escritório de advocacia, cuja atuação marcante está
voltada à proteção dos direitos humanos (defesa de direitos individuais, coletivos e difusos), foi
formulada uma consulta jurídica para que seja emitido entendimento (parecer) sobre o caso
abaixo indicado:
Trata-se o presente sobre consulta formulada pelo Sr. João Pedro, que solicita esclarecimentos
referentes aos direitos fundamentais garantidos na Constituição Federal brasileira, no que tange
à colisão do direito à moradia e o direito ao meio ambiente equilibrado, com base no princípio da
dignidade da pessoa humana.
Para tanto, alega que o órgão ambiental realizou vistoria em uma determinada propriedade rural
e constatou que ela não cumpria sua função social (art. 5º, XXIII da CF/88), classificando o
imóvel como improdutivo. Com base nessa declaração, o Presidente da República emitiu Decreto
declarando o imóvel de interesse social para fins de reforma agrária e iniciou processo
administrativo de desapropriação por interesse social nos termos do art. 184 da Constituição da
República.
Assim, questiona:

1. Como se relacionam o direito individual à propriedade privada (art. 5º, XXII CF/88), o direito
coletivo à reforma agrária (art. 5º, XXIV c/c 184 e art. 6º da CF/88) e o direito de todos ao
meio ambiente equilibrado (art. 225 CF/88)?
2. Há algum critério de hierarquia ou de preponderância entre eles?
3. Por fim, qual a forma mais adequada de resolução de possíveis conflitos entre esses
direitos?
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Assim, requer a edição de parecer jurídico levando em consideração as normas vigentes, bem
como o entendimento nos tribunais acerca da problemática.

1. Pode-se afirmar que os direitos humanos formam um conjunto de faculdades e instituições


que, em cada momento histórico, concretizam as exigências da dignidade, da liberdade e
da igualdade, as quais devem ser reconhecidas pelos ordenamentos jurídicos em nível
nacional e internacional. Nesse sentido, os direitos humanos possuem, ao mesmo tempo,
dois tipos de caráter, determine-os a partir da reflexão.
2. Os direitos sociais são compreendidos como necessários à participação plena na vida da
sociedade, podendo ser considerado o direito à educação, à sustentabilidade familiar, à
proteção da infância, saúde e lazer. De acordo com essa afirmativa e com os estudos
realizados, direitos sociais são pertencentes a qual dimensão de direitos humanos?

Atualmente existe um rol significativo de direitos humanos reconhecidos no plano internacional e


interno dos Estados, inerentes aos direitos civis, políticos, sociais, econômicos, culturais, de meio
ambiente, da paz, etc. Tem-se discutido muito a forma e o momento em que os direitos humanos
foram concebidos, tendo sido consagrada pela doutrina e pela jurisprudência (doméstica e
internacional) a apresentação dos direitos humanos em ondas geracionais ou por dimensões.
Pode-se afirmar que os direitos se firmaram a partir de três momentos distintos, no decorrer de
três séculos: os direitos civis, que podem ser expressos pela igualdade perante a lei e pelos
direitos inerentes à pessoa humana, no século XVIII; os direitos políticos ganharam amplitude no
século XIX, em decorrência da ampliação do direito de voto no sentido do sufrágio universal; os
direitos sociais, no século XX, pela criação do Estado de Bem-Estar (Welfare State).
Evidencia-se, pois, que os elementos que compõem os direitos humanos não se desenvolveram
na mesma época. Pelo contrário, tiveram seu desenvolvimento e apogeu em contextos históricos
distintos. Impende relembrar que os direitos humanos não se “sucedem” ou “substituem” uns aos
outros, mas antes se expandem, se acumulam e fortalecem, interagindo os direitos individuais e
sociais.
Ocorre o fenômeno da expansão, da cumulação e do fortalecimento dos direitos humanos
consagrados, revelando a natureza complementar de todos os direitos humanos. Com efeito, o
presente caso versa sobre colisão de direitos, onde verifica-se a questão que envolve o direito de
propriedade, o direito de moradia e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, isto é,
os direitos de primeira, segunda e terceira geração.
Por se tratar de direitos humanos que estão declarados em textos solenes, seja no plano
internacional ou no sistema interno, como no caso descrito, evidencia-se que não há qualquer
grau de hierarquia entre os citados direitos. Portanto, para análise de situações como a
mencionada, para solucionar o problema deve ser utilizado o critério da ponderação de bens e
interesses.
Por fim, ao se reafirmar que não há hierarquia entre direitos humanos, independentemente das
gerações que estejam envolvidas, deve-se enfatizar que não há uma resolução em definitivo para
colisão de direitos humanos/fundamentais, e sim a análise que deverá ser observada no caso
concreto.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

BOBBIO, N. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.


CARVALHO, J. M. de. Os bestializados – o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo:
Companhia das Letras, 1987.
CHAUÍ, M. Cultura e democracia. São Paulo: Moderna, 1984.
FAORO, R. Os donos do poder. São Paulo: Globo/Publifolha, 2000.
GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.
GUERRA, S. Direitos humanos e cidadania. São Paulo: Atlas, 2012.
HERKENHOFF, J. B. Como funciona a cidadania. 2. ed. Manaus: Valer, 2001.
MIRANDA, J. Teoria do Estado e da Constituição. Rio de Janeiro: Forense, 2002.
SANTOS, W. G. dos. Razões da desordem. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
SARLET, I. A eficácia dos direitos fundamentais. 4. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004.
,
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Unidade 2
Direitos Humanos No Sistema Internacional

Aula 1
As Três Vertentes Da Tutela Internacional Do Individuo

As três vertentes de tutela internacional do indivíduo

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Ponto de Partida
Olá, estudante!

Os direitos humanos não se apresentam como um “produto” acabado. Ao contrário, eles


sofreram muitas mudanças ao longo dos séculos. No estudo da história dos direitos humanos
são evidenciadas transformações significativas que vão da negação até o reconhecimento pleno
de um sistema internacional protetivo dos direitos dos indivíduos.

De acordo com o estudo formulado por Peces Barba (1991), o processo histórico de evolução
dos direitos humanos passa por quatro fases: processo de positivação; processo de
generalização; processo de internacionalização; e processo de especificação.

Nesse sentido é que são apresentadas as três vertentes da proteção internacional da pessoa
humana: o Direito Internacional Humanitário, o Direito Internacional dos Refugiados, com
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

desdobramentos no instituto do asilo, e o Direito Internacional dos Direitos Humanos.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
de que ao final de nossa disciplina você desenvolva competências técnicas específicas para sua
atuação profissional.

Vamos Começar!
Ainda que o direito internacional tenha origens que remontem ao antigo direito das gentes, pode-
se dizer que sua faceta moderna, que coloca o indivíduo no centro do seu espectro de proteção,
nasce posteriormente a esse contexto.

Se as primeiras raízes do novo direito internacional começam a nascer no fim do século XIX, com
o surgimento do direito internacional humanitário, pode-se afirmar, de outro lado, que o segundo
pós-guerra se constitui em um marco para novos paradigmas do direito internacional. Esse é o
momento histórico em que se inaugura o sistema de proteção das Nações Unidas e toda uma
construção normativa iniciada com a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Para se compreender esses passos, ainda que de forma breve, é importante trazer alguns
conceitos que possam identificar as três vertentes internacionais de proteção do indivíduo.

O Direito Internacional Humanitário, também denominado Direito Internacional dos Conflitos


Armados, é parte do Direito Internacional Público. Apresenta-se como um corpo de normas
internacionais, de origem convencional ou consuetudinária, destinado especificamente a ser
aplicado nos conflitos armados, internacionais ou não internacionais, que limita o direito das
partes em conflito de escolher livremente os métodos e os meios utilizados na guerra, ou que
protege as pessoas e os bens atingidos, ou que possam ser atingidos pelo conflito. Embora não
tenha a pretensão de proibir a guerra, tampouco a ambição de definir sua legalidade ou
legitimidade, evidencia-se que deve ser aplicado quando o recurso à força foi infelizmente
imposto e o que resta é reduzir o sofrimento das pessoas que não participam ou que deixaram
de participar das hostilidades.

O foco do Direito Internacional Humanitário relaciona-se à limitação dos meios e métodos


utilizados durante o conflito, entendendo-se por meio o tipo de arma utilizada durante os atos de
beligerância, enquanto o método significa a maneira de utilizar tal arma. Os beligerantes não têm
o direito ilimitado e aleatório de utilizar de forma arbitrária, cruel e desumana armas e métodos
que possam causar sofrimento desnecessário.

Quanto ao instituto dos refugiados, abarca várias situações relacionadas a perseguições por
motivos de raça, religião, nacionalidade, opiniões políticas que contrariem os interesses de
grupos à frente de um Estado etc. As normas internacionais que se aplicam para os refugiados
decorrem do contexto de grandes conflitos internacionais produzidos no curso do século XX e
dos diversos problemas advindos deles, tendo sido nomeado, em 1921, como Alto Comissário
para os Refugiados o Sr. Fridjof Nansen, ainda sob o funcionamento da Liga das Nações.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Porém, a amplitude da matéria deu-se em decorrência dos acontecimentos produzidos durante a


Segunda Guerra Mundial, na qual milhares de pessoas foram deslocadas de seus Estados de
origem. Sob a batuta da ONU, criou-se o Alto Comissariado das Nações Unidas para os
Refugiados (ACNUR), com o propósito de encontrar soluções duradouras para a questão dos
refugiados.

Siga em Frente...
No caso do Direito Internacional dos Direitos Humanos, evidencia-se que está relacionado ao
pós-Segunda Guerra, tendo seu desenvolvimento sido atribuído às monstruosas violações de
direitos humanos da era Hitler e à crença de que parte dessas violações poderia ser prevenida se
um efetivo sistema de proteção internacional em favor do indivíduo já existisse. A pessoa
humana passou a ser foco da atenção internacional e a dignidade humana se estabeleceu, até
certo ponto, como princípio universal e consolida a ideia de limitação da soberania nacional,
reconhecendo que os indivíduos possuem direitos inerentes à sua existência que devem ser
protegidos.

As normas do Direito Humanitário, especialmente a Convenção de Genebra de 1864, previram o


regramento em situações de guerra, no intuito de minimizar a dor e o sofrimento de soldados
prisioneiros, doentes e feridos em situações de conflito armado. Porém, é a partir de 1945, com a
proclamação da Carta da ONU, que o sistema internacional de proteção dos direitos humanos
ganha força e destaque, ao “inaugurar” o Direito Internacional dos Direitos Humanos.

Dentre vários artigos da Carta da ONU, o artigo 55, alínea c, dispõe que as Nações Unidas
favorecerão o respeito universal e efetivo aos direitos humanos e das liberdades fundamentais
para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião.

Além disso, o artigo 56 estabelece que para a realização dos propósitos enumerados no artigo
55, todos os Membros da Organização se comprometem a agir em cooperação com esta, em
conjunto ou separadamente.

Mas foi em 1948 que a ONU descreveu o significado de direitos humanos na Declaração
Universal de Direitos Humanos, adotada sem discordância, mas com abstenções por parte das
nações do bloco soviético, África do Sul e Arábia Saudita.

Nos anos seguintes, foram promovidos vários acordos internacionais, entre eles a Convenção
Europeia de Direitos Humanos (1950); o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (1966); a
Convenção Interamericana de Direitos Humanos (1969); os Acordos de Helsinque (1975); e a
Carta dos Povos Africanos de Direitos Humanos (1981).

Hoje não há povo que negue uma carta de direitos e o respectivo mecanismo de efetivação, o
que, todavia, ainda não significa uma garantia de justiça concreta, porquanto esses direitos
podem variar ao sabor do pensamento político ou filosófico informador de determinado Estado.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Indubitavelmente que o necessário desenvolvimento das instituições de proteção e promoção


dos direitos humanos é importante para todas as pessoas, sejam elas pobres ou ricas, bem
como para existir paz e segurança no mundo.

Nesse sentido, é possível inferir que no sistema internacional há três vertentes de proteção
internacional do indivíduo: o Direito Internacional Humanitário; o Direito Internacional dos
Refugiados; e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. Em que pese terem normas próprias,
apresentam como objetivos comuns a salvaguarda dos indivíduos.

Por essa razão que autores, como Cançado Trindade, por exemplo, procuram estabelecer
aproximações e convergências entre os “direitos” indicados ao assinalarem matérias relativas à
proibição da tortura e de tratamento ou punição cruel, desumana ou degradante, a detenção e
prisão arbitrárias, as garantias do devido processo legal, a proibição de discriminação de
qualquer tipo etc.

Ressalta-se que embora existam traços marcantes de aproximação dos “direitos” anteriormente
indicados, não se pode olvidar que o emprego das expressões, quando utilizadas como
sinônimos, deve ser evitado, pois possuem origens históricas distintas e aplicações igualmente
diferenciadas, o que por vezes acaba por trazer grandes dúvidas aos iniciantes do estudo.

Vamos Exercitar?
O século XX foi marcado pelas trágicas consequências para a humanidade advindas da eclosão
de grandes conflitos mundiais. Porém, é possível afirmar que a Segunda Guerra Mundial se
apresenta como marco de afronta à dignidade da pessoa humana.

No pós-guerra os direitos da pessoa humana ganharam extrema relevância, ao serem


consagrados internacionalmente como resposta às atrocidades cometidas durante o período
indicado.

Os direitos humanos ganham força sob a égide da Organização das Nações Unidas, tendo sido
produzidos vários documentos internacionais para a proteção dos referidos direitos (Declaração
Universal de Direitos Humanos; Pacto de Direitos Civis e Políticos e Pacto de Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais; Convenção sobre discriminação racial; Convenção sobre os
direitos da mulher; Convenção sobre a tortura; Convenção sobre os direitos da criança etc.).

A fase legislativa dos direitos humanos corresponde à criação de quadro normativo extenso que
procura efetivamente vincular a Organização Internacional aos seus propósitos, bem como a
certas disposições contidas em seu ato de criação.

Assim, a proteção internacional dos direitos humanos defere um status e um standard


diferenciados para o indivíduo, isto é, apresenta um sistema de proteção à pessoa humana, seja
nacional ou estrangeiro, diplomata ou não, um núcleo de direitos insuscetíveis de serem
derrogados em qualquer tempo, condição ou lugar.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

O vasto número de documentos internacionais que foram produzidos sob os auspícios da ONU
em matéria de direitos humanos fez com que a dignidade da pessoa humana passasse a se
inserir entre os principais interesses da sociedade internacional.

Há uma visão de que a sociedade internacional forma um todo e os seus interesses predominam
sobre os dos Estados individualmente. Outra consequência relevante da internacionalização
desses direitos relaciona-se com a soberania dos Estados, cuja noção vai sendo alterada de
forma sistemática, ou seja, os direitos humanos deixam de pertencer à jurisdição doméstica ou
ao domínio reservado dos Estados.

Dessa forma, os direitos humanos que pertenciam ao domínio constitucional estão em uma
migração contínua e progressiva para uma diligência internacional. Na busca incessante do
reconhecimento, do desenvolvimento e da realização dos maiores objetivos por parte da pessoa
humana e contra as violações que são perpetradas pelos Estados e pelos particulares, o Direito
Internacional dos Direitos Humanos tem se mostrado um instrumento vital para a uniformização,
o fortalecimento e a implementação da dignidade da pessoa humana que se constitui como um
verdadeiro valor na sociedade internacional e deve servir de orientação a qualquer interpretação
do Direito Internacional Público.

Ao se solidificar a ideia de que os direitos humanos permeiam todas as áreas da atividade


humana e correspondem a um novo ethos de nossos tempos, a dignidade da pessoa humana
passa a ser considerada como núcleo fundamentador dos ordenamentos jurídicos (nacional e
internacional), entendendo-se como o conjunto de normas que estabelecem os direitos que os
seres humanos possuem para o desempenho de sua personalidade e determinam mecanismos
de proteção a tais direitos.

No caso das normas de Direito Internacional dos Direitos Humanos, estas encontram-se
intimamente relacionadas com o tema da subjetividade internacional do indivíduo, tendo se
desenvolvido após a Segunda Guerra Mundial. São construídos os seus alicerces com base em
princípios distintos dos que imperam no Direito Internacional Clássico, que desconhecia o
indivíduo como sujeito de direito internacional, o que vai trazer grandes repercussões em sua
autonomia dogmática e na atuação prática.

Foram criados diversos mecanismos de proteção na ordem jurídica internacional, como por
exemplo no âmbito da Organização das Nações Unidas o sistema de relatórios; de queixas; de
reclamações interestatais; o Conselho (antiga Comissão) de Direitos Humanos; etc. E também
nos sistemas regionais de proteção dos direitos humanos, a ser posteriormente demonstrado.

Saiba mais
O livro Direitos humanos e migrações forçadas: introdução ao direito migratório e ao direito dos
refugiados no Brasil e no mundo, de Gustavo de Lima Pereira, é uma obra recente que faz uma
leitura contemporânea do tema da migração cuja repercussão acentuada é uma novidade no
campo nacional, tendo em vista a observância do contexto das migrações internacional é claro,
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

uma vez que as migrações nacionais são muito mais comuns. Nesse sentido, leituras que
possam subsidiar reflexões sob essa perspectiva são relevantes. Por isso, sugiro a leitura do livro
todo, mas em especial do capítulo 3: A proteção dos refugiados e a nova Lei de Migração no
Brasil.

Referências
ARÉCHAGA, E. J. Derecho internacional público. Montevideo: Fundación de Cultura Universitaria,
1995.

DE LIMA PEREIRA, G. Direitos humanos e migrações forçadas: introdução ao direito migratório e


ao direito dos refugiados no Brasil e no mundo. Porto Alegre: Editora da PUCRS, 2022.

GUERRA, S. Direitos humanos na ordem jurídica internacional e reflexos para a ordem


constitucional brasileira. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2014.

GUERRA, S. Direito Internacional dos Direitos Humanos. 3. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2020.

GUERRA, S. Direito internacional humanitário e a proteção internacional do indivíduo. Porto


Alegre: Sérgio Fabris, 2008.

PECES­BARBA, G. Curso de derechos fundamentales. Madrid: Eudema, 1991.

TRINDADE, A. A. C.; PEYTRIGNET, G.; RUIZ DE SANTIAGO, J. As três vertentes da proteção


internacional dos direitos da pessoa humana. San José/Brasília: IIDH, 1996.

Aula 2
A Proteção Dos Direitos Humanos Pós 2 Guerra Mundial

A proteção dos direitos humanos pós-Segunda Guerra Mundial

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Ponto de Partida
Olá, estudante!

A Organização das Nações Unidas, ao ser criada no ano de 1945, inaugura um novo momento no
campo das relações internacionais ao integrar o indivíduo como sujeito de Direito Internacional.
Os direitos da pessoa humana passam a ser universalizados, propiciando a criação de um
verdadeiro “código internacional dos direitos humanos”.

Os Estados instituíram na Carta de São Francisco – a Carta da ONU – a necessidade de


preservar as futuras gerações do “flagelo da guerra” e, para tanto, atuar para a manutenção da
paz e da segurança internacional, bem como para a valorização e a proteção da pessoa humana,
de modo que os Estados devem promover e proteger os direitos humanos com ações que
possam estar acompanhadas de atitudes que demonstrem a intenção em cooperar com os
trabalhos desenvolvidos na esfera internacional. Nessa esteira, as etapas de produção
normativa, de promoção e de proteção ganham relevo para a compreensão da matéria.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
de que ao final de nossa disciplina você desenvolva competências técnicas específicas para sua
atuação profissional.

Vamos Começar!
Após a hecatombe da Segunda Guerra Mundial, durante a qual o mundo teve a oportunidade de
assistir a uma série de barbaridades envolvendo milhares de pessoas, sentiu-se a necessidade
de criar mecanismos que pudessem garantir proteção aos seres humanos, florescendo o Direito
Internacional dos Direitos Humanos.

O moderno Direito Internacional dos Direitos Humanos é um fenômeno do pós-guerra e seu


desenvolvimento pode ser atribuído às monstruosas violações de direitos humanos da era Hitler
e à crença de que parte dessas violações poderia ser prevenida se um efetivo sistema de
proteção internacional dos direitos humanos já existisse, o que motivou o surgimento da
Organização das Nações Unidas, em 1945.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

O Direito Internacional dos Direitos Humanos afirma-se em nossos dias, com inegável vigor,
como ramo autônomo da ciência jurídica contemporânea, dotado de especificidade própria.
Trata-se essencialmente de um direito de proteção, marcado por uma lógica própria, voltado à
salvaguarda dos direitos dos seres humanos, e não dos Estados.

Com efeito, os direitos inerentes à pessoa humana passaram a ocupar lócus privilegiado ao
serem consagrados no ordenamento jurídico internacional. Ao serem considerados objeto
principal, pode-se afirmar que os indivíduos possuem direitos inerentes à sua existência que
devem ser protegidos.

A Organização das Nações Unidas tem sua atuação voltada para a manutenção da paz e para a
segurança internacional, bem como para a valorização e a proteção da pessoa humana, período
em que houve vertiginoso crescimento de documentos internacionais voltados aos indivíduos.

A importância e a envergadura das atividades desenvolvidas pelas Nações Unidas no sentido de


promover e proteger os direitos humanos se expandem com o passar dos anos, atuando em
várias frentes, como na construção e difusão de uma consciência voltada à proteção dos direitos
humanos; no processo legislativo; na vigilância; no fomento aos estudos; como instância de
promoção e de proteção dos direitos humanos.

Com as ações deflagradas pelas Nações Unidas, consolida-se o movimento de


internacionalização dos direitos humanos, no qual as relações dos Estados com seus nacionais
deixam de ter apenas o interesse doméstico e passam a ser de interesse internacional, e
definitivamente o sistema internacional deixa de ser apenas um diálogo entre Estados, sendo a
relação de um Estado com seus nacionais uma questão de interesse internacional.

Por fim, pode-se afirmar que o sistema de proteção internacional dos direitos humanos no
âmbito da Organização das Nações Unidas caracteriza-se como um sistema de cooperação
intergovernamental que tem por objetivo a proteção dos direitos inerentes à pessoa humana.
Esse sistema é inaugurado no ano de 1945, com a criação da referida Organização Internacional,
onde fica evidente que o sistema acaba por convergir para a proteção dos direitos humanos, ao
consagrar princípios fundamentais de seu texto normativo, bem como explicitar que a proteção
dos direitos humanos é um meio importante para assegurar a paz.

Siga em Frente...
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, consolida a ideia de uma ética universal
e ao combinar o valor da liberdade com o da igualdade, enumera os direitos civis e políticos (arts.
3º ao 21), como também os direitos sociais, econômicos e culturais (arts. 22 ao 28), isto é, os
denominados direitos de primeira e segunda dimensão. Ademais, também proclama a
indivisibilidade dos direitos humanos. É possível afirmar que as questões voltadas à
indivisibilidade e à universalidade dos direitos humanos tornam-se temas globais e a dignidade
da pessoa humana passou a refletir o fundamento de muitas Constituições a partir de então.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Embora a universalidade dos direitos humanos tenha sido proclamada com a Declaração de
1948, a matéria ganhará amplitude de forma inequívoca a partir das duas Conferências Mundiais
de Direitos Humanos, a de Teerã, de 1968, e a de Viena, de 1993.

A Conferência Mundial de 1968, objetivou examinar os progressos alcançados nos vinte anos
transcorridos desde a aprovação da Declaração Universal, de 1948, bem como instou os Estados
a aderirem os pactos e outros instrumentos internacionais de direitos humanos.

A Conferência de Viena, no ano de 1993, estabeleceu importantes pressupostos programáticos


indispensáveis à universalização dos direitos humanos, tais como a inter-relação entre
desenvolvimento, direitos humanos e democracia; a legitimidade do monitoramento internacional
de suas violações; o direito ao desenvolvimento e a interdependência dos direitos fundamentais.
Confirmou-se também a ideia de que os direitos humanos extrapolam o domínio reservado dos
Estados, invalidando o recurso abusivo ao conceito de soberania para encobrir violações, ou seja,
os direitos humanos não são mais matérias exclusivas das jurisdições nacionais.

Apesar da diversidade de interesses dos Estados, a constitucionalização das regras de conduta


da sociedade, no que se refere à proteção dos direitos humanos, é cada vez mais premente.

Além da fase que corresponde a produção normativa internacional sobre direitos humanos, não
se pode olvidar das ações de promoção que, da mesma forma, torna-se imprescindível pela ação
e realização de congressos, conferências, seminários, publicações e todas as demais ações que
estejam voltadas à difusão da matéria, posto que para se estabelecer a proteção de maneira
efetiva, necessário que sejam conhecidos os mecanismos e procedimentos que estão à
disposição para tal.

No sistema onusiano, ganha relevo o órgão dotado de competência para proteção dos direitos
humanos, qual seja o Conselho de Direitos Humanos. Todavia, deve-se registrar que há outros
órgãos, cuja competência originária não esteja voltada aos Direitos Humanos, mas que também
atuam de maneira reflexa. A título ilustrativo, cita-se o artigo 13 da Carta, que atribui à
Assembleia Geral a possibilidade de iniciar estudos e fazer recomendações, destinados a
promover cooperação internacional no terreno político e incentivar o desenvolvimento
progressivo do Direito Internacional e sua codificação; promover cooperação internacional nos
terrenos econômico, social, cultural, educacional e sanitário e favorecer o pleno gozo dos direitos
humanos e das liberdades fundamentais, por parte de todos os povos, sem distinção de raça,
sexo, língua ou religião.

Também torna-se digno de registo o Alto Comissariado para os Direitos Humanos, cujas
atribuições principais são: promover e proteger o gozo de todos os direitos civis, políticos,
econômicos e culturais; desempenhar as tarefas designadas pelos órgãos competentes do
sistema das Nações Unidas, formulando recomendações para promoção dos direitos humanos;
proporcionar serviços de assessoramento e assistência técnica e financeira; coordenar
programas de informação e educação em direitos humanos; aumentar a eficiência do
mecanismo internacional de proteção dos direitos humanos. Ademais, deve-se enfatizar que
existem os sistemas regionais de proteção, a exemplo do europeu, americano e africano, que
serão analisados na sequência.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Vamos Exercitar?
Os direitos humanos, que pertenciam ao domínio constitucional, estão em migração contínua e
progressiva internacionalização sendo certo afirmar que na busca incessante do
reconhecimento, do desenvolvimento e da realização dos maiores objetivos por parte da pessoa
humana e contra as violações perpetradas pelos Estados e pelos particulares, o Direito
Internacional dos Direitos Humanos tem se mostrado um instrumento vital para a uniformização,
o fortalecimento e a implementação da dignidade da pessoa humana.

A dignidade da pessoa humana passa a ser considerada como núcleo fundamentador do Direito
Internacional dos Direitos Humanos (e também do direito interno), entendido como o conjunto de
normas que estabelecem os direitos que os seres humanos possuem para o desempenho de sua
personalidade, e determinam mecanismos de proteção a tais direitos. Nesse sentido, é possível
inferir que há vários mecanismos de proteção na ordem jurídica internacional para a proteção de
direitos, cujo destaque é o Conselho de Direitos Humanos.

O órgão foi criado em 15 de maio de 2006, ao substituir a antiga Comissão de Direitos Humanos,
por força da Resolução nº 60/251, com a aprovação de 170 países, havendo quatro votos contra
(Estados Unidos, Israel, Ilhas Marshall e Palau) e três abstenções (Venezuela, Irã e Belarus).

O Conselho, por meio da Resolução nª 60/251, também chamou a si a responsabilidade de


prosseguir com todos os mandatos, mecanismos, funções e responsabilidades da Comissão,
visando manter um sistema de procedimentos especiais, de denúncia e de grupo de trabalhos.

No tocante aos procedimentos de denúncia (complaint procedures), a Resolução nº 5/1 permite


que indivíduos e organizações possam trazer reclamações sobre violações para a apreciação do
Conselho. Cria, também, dois Grupos de Trabalho distintos: o primeiro é o Grupo de Trabalho em
Comunicações (Work Group on Communications), responsável por examinar as denúncias com
base nos critérios de admissibilidade previamente estabelecidos. Após análise, a denúncia será
submetida ao Estado interessado para que este possa se manifestar a respeito das alegações
sobre violações de direitos humanos levadas ao seu conhecimento.

O segundo é o Grupo de Trabalho em Situações (Work Group on Situations), que, com base nas
informações e recomendações fornecidas pelo Grupo de Trabalho em Comunicações, elabora
relatório que será submetido ao Conselho. Outra criação da Resolução nº 60/251 é o Comitê
Consultivo (Advisory Committee), que substitui a antiga Subcomissão de Promoção e Proteção
dos Direitos Humanos. Sua atribuição consiste em fornecer opiniões consultivas de experts ao
Conselho, baseadas em estudo e pesquisa prévios.

O Conselho de Direitos Humanos conta ainda com outros órgãos subsidiários, que foram
estabelecidos pela antiga Comissão de Direitos Humanos, incluindo: o Mecanismo de
Especialistas em Direitos Humanos dos Povos Indígenas; o Fórum sobre Questões Minoritárias; o
Fórum Social; e o Fórum sobre Empresas e Direitos Humanos.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

A agenda do Conselho de Direitos Humanos deve definir os itens a serem tratados pelo Conselho
de Direitos Humanos em suas reuniões ordinárias, que são acomodadas no programa de
trabalho anual e de cada sessão do Conselho. Essa agenda deve se basear nos princípios de
universalidade, imparcialidade, objetividade, não seletividade, diálogo construtivo e cooperação,
previsibilidade, flexibilidade e transparência, accountability, equilíbrio, caráter inclusivo,
perspectiva de gênero, implementação e acompanhamento de decisões e é composta por 10
itens: questões de organização e procedimentos; Relatório Anual do Alto Comissariado para os
Direitos Humanos e do Secretário-Geral da ONU; promoção e proteção de todos os direitos
humanos, civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, incluindo o direito ao desenvolvimento;
situações de direitos humanos que requerem a atenção do Conselho; órgãos e mecanismos de
direitos humanos; Revisão Periódica Universal; situação dos direitos humanos na Palestina e
outros territórios árabes ocupados; seguimento e implementação da Declaração e Programa de
Ação de Viena; racismo, discriminação racial, xenofobia e outras formas de intolerância,
seguimento e implementação da Declaração e Programa de Ação de Durban; assistência técnica
e reforço da capacidade institucional.

Saiba mais
O livro Direitos humanos e migrações forçadas: introdução ao direito migratório e ao direito dos
refugiados no Brasil e no mundo, de Gustavo de Lima Pereira, é uma obra recente que faz uma
leitura contemporânea do tema da migração cuja repercussão acentuada é uma novidade no
campo nacional, tendo em vista a observância do contexto das migrações internacional é claro,
uma vez que as migrações nacionais são muito mais comuns. Nesse sentido, leituras que
possam subsidiar reflexões sob esta perspectiva são relevantes. Por isso, sugiro a leitura do livro
todo, mas em especial o capítulo 2: A proteção internacional para pessoas em situação de
refúgio.

Referências

DE LIMA PEREIRA, G. Direitos humanos e migrações forçadas: introdução ao direito migratório e


ao direito dos refugiados no Brasil e no mundo. Porto Alegre: Editora da PUCRS, 2022.

DINH, N. Q.; DAILLIER, P.; PELLET, A. Direito internacional público. 2. ed. Lisboa: Calouste
Gulbenkian, 2003.

GUERRA, S. Direito Internacional dos Direitos Humanos. 3. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2020.

GUERRA, S. Curso de direito internacional público. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

MARTINS, A. M. G. Direito internacional dos direitos humanos. Coimbra: Almedina, 2006.


Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

SALCEDO, J. A. C. Curso de derecho internacional público. Madrid: Tecnos, 1991.

TRINDADE, A. A. C. La protección internacional de los derechos económicos, sociales y culturales


en el final del siglo. In: EL DERECHO INTERNACIONAL EN UN MUNDO EN TRANSFORMACIÓN.
Montevideo: Fundación de Cultura Universitaria, 1994.

Aula 3
Os Sistemas Regionais De Proteção Dos Direitos Humanos

Os sistemas regionais de proteção dos direitos humanos

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Ponto de Partida
Olá, estudante!

Além do sistema global de proteção dos direitos humanos registra-se, com elevada importância,
os sistemas regionais de proteção internacional dos direitos humanos: o europeu, o
interamericano, o africano, além do incipiente sistema árabe. É interessante notar que todas as
Convenções preveem de diferentes modos a expressão dignidade da pessoa humana ou direitos
inerentes à pessoa humana em seus preâmbulos, embora não possuam necessariamente
perspectivas idênticas.

Fato é que nenhum dos sistemas regionais é estanque ou completamente enclausurado em si


mesmo. Pelo contrário, convenções de direitos humanos são instrumentos vivos, cujo diálogo
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

recíproco entre os órgãos encarregados de dar efetividade à promoção e proteção dos direitos
humanos acabam por promover um constante aprendizado recíproco. Essa concepção que
conjuga a necessidade de sistemas de monitoramento e, ainda, uma visão dos direitos humanos
como interdependentes está diretamente relacionada às Conferências de Teerã e de Viena. Essa
última enfatiza, em particular, as conexões entre direitos humanos, desenvolvimento e
democracia.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
de que ao final de nossa disciplina você desenvolva competências técnicas específicas para sua
atuação profissional.

Vamos Começar!
A Convenção Europeia de Direitos Humanos de 1950, em seu preâmbulo, apresenta um primeiro
“considerando” que se reporta à DUDH, de 1948. Em seguida, afirma que a CEDH se “destina a
assegurar o reconhecimento e aplicação universais e efetivos dos direitos nela enunciados”.
Reconhece como bases para justiça e paz no mundo, tanto “num regime político
verdadeiramente democrático” quanto o “respeito dos direitos do humanos”. Conclui que os
governos dos Estados Europeus, com base nisso, tomou essas primeiras providências para
“assegurar a garantia coletiva de certo número de direitos enunciados na Declaração Universal”.

A Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969 é posterior à Carta da OEA de 1948 e à


Declaração Americana de Direitos e Deveres de 1948, que são documentos centrais na
estruturação desse sistema regional de proteção dos direitos humanos. A Carta da OEA foi
reformada pelos Protocolos de Buenos Aires (1967), Cartagena de Índias (1985), Washington
(1992) e Managua (1993). Seu preâmbulo contempla a “missão história da América” em oferecer
ao indivíduo uma “terra de liberdade, favorável ao desenvolvimento de sua personalidade e justas
aspirações de conviver em paz” e propiciar mediante a sua “mútua compreensão e seu respeito à
soberania de cada um”.

Nessa linha, o preâmbulo entende que a “democracia representa condição indispensável para a
estabilidade, paz e desenvolvimento da região”. Já em um contexto diverso da Guerra Fria, a
Carta Democrática Interamericana de 2001 reafirmou, por meio da Assembleia Geral, o
compromisso da OEA com a democracia representativa. São basicamente essas as diretrizes
para uma organização intergovernamental realizar uma sintonia fina entre respeito à soberania e
à efetivação dos direitos humanos.

O sistema africano foi concebido por meio de sua Carta, aprovada pela Conferência Ministerial
da Organização da Unidade Africana (OUA) em Banjul, Gâmbia, em janeiro de 1981, e adotada
pela XVIII Assembleia dos Chefes de Estado e Governo da Organização da Unidade Africana
(OUA) em Nairóbi, Quênia, em 27 de julho de 1981. A perspectiva adotada foi mais coletivista,
global, comunitária e focada nos direitos de 3ª geração/dimensão quando comparada com as
Convenções Europeia e Americana. Isso fica evidente a começar pela própria parte final do nome
empregado para designar o documento “... e dos povos”.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Essa perspectiva também fica evidente em três partes do preâmbulo. A primeira parte enfatiza a
liberdade, igualdade, justiça e dignidade como objetivos a serem realizados para atender as
“aspirações dos povos africanos” e conclui, ainda no preâmbulo, com a importância de, nos
termos do art. 2º da Carta, “eliminar sob todas as suas formas o colonialismo da África” por meio
da cooperação e coordenação com os instrumentos da Carta da ONU e da DUDH.

A segunda traça a diretriz para se adotar os direitos humanos em sua universalidade, o que
significa, na Carta Africana, “dedicar particular atenção ao direito ao desenvolvimento”, já que os
“direitos civis e políticos são indissociáveis dos direitos econômicos, sociais e culturais”.

A terceira merece ser enfatizada: “os povos continuam a lutar pela sua verdadeira independência
e pela sua dignidade, e comprometendo-se a eliminar o colonialismo, neocolonialismo, apartheid,
o sionismo, as bases militares estrangeiras de agressão e quaisquer formas de discriminação,
nomeadamente as que se baseiam na raça, etnia, cor, sexo, língua, religião ou opinião política”.
Por fim, há de ressaltar que também existe o incipiente sistema árabe.

Siga em Frente...
A região do continente europeu, abrangida pelo Conselho da Europa, é a parte do mundo mais
desenvolvida no que tange à proteção dos direitos humanos, nos termos da Convenção Europeia
para a Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais. Essa necessidade de
proteger os direitos humanos ocorreu, em grande medida, em razão das atrocidades que foram
praticadas especialmente por ocasião da Segunda Guerra Mundial no velho continente. O
sistema europeu possui dispositivos que são consagrados na Convenção Europeia para a
Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais, bem como em instrumentos da
União Europeia e a Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia.

No caso do sistema africano, este foi concebido pela sua Carta, aprovada pela Conferência
Ministerial da Organização da Unidade Africana (OUA) em Banjul, Gâmbia, em janeiro de 1981, e
adotada pela XVIII Assembleia dos Chefes de Estado e Governo da Organização da Unidade
Africana (OUA) em Nairóbi, Quênia, em 27 de julho de 1981. Apresenta como objetivos
fundamentais a defesa da soberania dos Estados, bem como da integridade territorial e
independência de seus membros, o desenvolvimento e a integração socioeconômica do
continente africano e o respeito aos direitos humanos. Além da Carta Africana sobre Direitos
Humanos, o sistema africano de proteção aos direitos humanos apresenta outros documentos
importantes e que versam sobre temas específicos, como a Convenção para eliminação dos
mercenários e a Carta Africana sobre os direitos e bem-estar da criança.

Destaca-se que o texto produzido na África distingue-se em seus traços gerais dos documentos
produzidos na Europa e na América, pois ao invés de consagrar de forma preponderante os
direitos civis, como os outros continentes, o aludido texto preconiza a proteção de direitos dos
povos. Foi assim que os Estados africanos estabeleceram nesse documento internacional
direitos relativos à afirmação da independência, da autonomia e do progresso dos referidos
Estados.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Quanto ao sistema de proteção internacional dos direitos humanos no continente americano,


evidencia-se que este abarca os procedimentos contemplados na Carta da Organização dos
Estados Americanos, na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e na
Convenção Americana de Direitos Humanos. O sistema americano, num primeiro momento,
atribuía competências para todos os Estados-membros, por força da Carta da Organização dos
Estados Americanos e da Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem.

Posteriormente, com a Convenção Americana de Direitos Humanos, os procedimentos e


instrumentos ali previstos passaram a ser aplicados tão somente aos Estados-partes do referido
tratado internacional. Por essa razão é que se costuma afirmar que no âmbito americano existe
um sistema duplo de proteção dos direitos humanos: o sistema geral, baseado na Carta e na
Declaração, e o sistema que abarca apenas os Estados signatários da Convenção que além de
contemplar a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, como no sistema geral, também
alcança a Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Por fim, ressalta-se que embora o sistema de proteção regional dos direitos humanos esteja
funcionando em vários pontos do globo, deve-se alertar que no mundo árabe ainda não passa de
uma grande aspiração, pois os direitos humanos para os povos árabes, em regra, apresentam-se
como um poder derivado de um poder divino, o que acaba por produzir situações complexas para
alguns segmentos da população, como no caso das mulheres.

Vamos Exercitar?
A Convenção para a proteção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais foi
concebida pelo Conselho da Europa, tendo sido aberta à assinatura em Roma, no dia 4 de
novembro de 1950, e entrou em vigência no mês de setembro de 1953. A Convenção Europeia
para a Proteção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais foi e continua a ser o
mais importante catálogo europeu de direitos.

A experiência bem-sucedida de um texto que vigora por tanto tempo, sucessivamente renovado e
ampliado por protocolos adicionais, cuja garantia foi confiada a um verdadeiro tribunal é o
principal fator que converge no sentido de fazer da Convenção a mais exemplar realização e
objetivos realizados pelo Conselho da Europa. Outro ponto importante da referida Convenção
relaciona-se à instituição de órgãos destinados a fiscalizar o respeito aos direitos humanos
declarados no referido documento internacional, como também julgar os casos que ensejassem
a violação dos direitos por Estados signatários do Tratado.

Três instituições ficavam responsáveis pelo controle: a Comissão Europeia dos Direitos do
Homem (criada em 1954), o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (instituído em 1959) e o
Comitê de Ministros do Conselho da Europa, composto pelos ministros dos negócios
estrangeiros dos Estados-membros ou pelos seus representantes. A existência de órgãos
incumbidos de fiscalizar o respeito aos direitos humanos e julgar as suas eventuais violações foi
sem dúvida um grande marco para a evolução do sistema de proteção dos direitos humanos no
plano internacional.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

No sistema africano, além da Carta Africana sobre Direitos Humanos, ganha relevo cinco
instrumentos vinculativos ainda não ratificados por todos os Estados, a saber: Carta Africana
sobre a Democracia, Carta da Criança, Convenção dos Refugiados, Protocolo da Mulher e
Protocolo sobre o Estabelecimento do Tribunal Africano. Dentre as Instituições de Garantia e de
Controle da Carta Africana, as principais são a Comissão Africana, que busca promover e
garantir a realização dos Direitos Humanos no continente, e a Corte Africana, que reforça a
atuação da Comissão com seu caráter contencioso e consultivo. A Comissão é a primeira a
analisar os casos, porém como não possui caráter vinculante, apenas pode fazer recomendações
aos Estados. A Corte, por outro lado, tem força vinculante e pode punir os Estados por sua
negligência ou violação direta dos direitos humanos.

O sistema interamericano consagra a Carta, que é um documento mais abrangente no que tange
ao número de Estados a ela submetidos, porém menos protetivo, por abarcar apenas a Comissão
como órgão voltado à proteção dos direitos humanos, e a Convenção, que se apresenta como
documento hábil para os Estados que reconhecem a jurisdição da Corte Interamericana.

Para melhor compreensão do sistema interamericano de proteção dos direitos humanos, devem
ser levados em consideração dois aspectos: o contexto histórico e as peculiaridades da região,
pois trata-se de uma região marcada por elevado grau de exclusão e desigualdade social ao qual
se somam democracias em fase de consolidação. A região convive ainda com as reminiscências
do legado dos regimes autoritários ditatoriais, com uma cultura de violência e de impunidade,
com a baixa densidade dos Estados de Direito e com a precária tradição de respeito aos direitos
humanos no âmbito doméstico.

Dois períodos assim demarcam o contexto latino-americano: o período dos regimes ditatoriais e
o período da transição política aos regimes democráticos, marcado pelo fim das ditaduras
militares na década de 1980, na Argentina, no Chile, no Uruguai e no Brasil.

Saiba mais
Para refletirmos sobre os sistemas regionais de proteção dos direitos humanos, deixo a
sugestão que reflita sobre a perspectiva da leitura do texto Defesa dos direitos humanos:
sistemas regionais. Pense nesse tema sob o aspecto da institucionalização de um sistema cuja
base é a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.

Referências
BICUDO, H. Defesa dos direitos humanos: sistemas regionais. Estudos Avançados, v. 17, p. 225-
236, 2003. Disponível em: [Link]
Acesso em: 20 out. 2023.

GUERRA, S. Direito Internacional dos Direitos Humanos. 3. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2020.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o controle de


convencionalidade. 3. ed. Curitiba: Instituto Memória, 2020.

MACHADO, J. E. M. Direito internacional. Do paradigma clássico ao pós­11 de setembro. 3. ed.


Coimbra: Editora Coimbra, 2006.

PIOVESAN, F. Temas de direitos humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.

ROCHA, J. C. de S. da; BACIO, D. N. H. O sistema africano de proteção de direitos humanos: uma


análise crítica. INTER. Revista de Direito Internacional e Direitos Humanos da UFRJ. v. 3, n. 1,
2020.

TRINDADE, A. A. C. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Porto Alegre: Sergio
Antonio Fabris Editor, 1997.

Aula 4
Os Órgãos De Proteção Dos Direitos Humanos No Sistema Interamericano

Os órgãos de proteção dos direitos humanos no sistema interamericano

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Ponto de Partida
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Olá, estudante!

O Sistema Interamericano de Direitos Humanos apresenta-se como uma ferramenta de


importância inestimável para a garantia efetiva dos direitos humanos no continente americano,
pois através dos dois órgãos de proteção dos direitos humanos previstos nos documentos
internacionais americanos (a Comissão Interamericana e a Corte Interamericana) garante-se não
só o acompanhamento da conduta dos Estados-membros, como também a possibilidade de se
julgar casos atentatórios aos direitos humanos. Os referidos órgãos, que são responsáveis pela
proteção dos direitos humanos no continente americano, possibilitam a resolução de casos de
presumida violação de direitos e liberdades contidas na Convenção Americana sobre direitos
humanos, por meio de um procedimento que se inicia na Comissão e que poderá ter a sua
apreciação na Corte com a consequente condenação do Estado por atos atentatórios aos
direitos inerentes à pessoa humana.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
de que ao final de nossa disciplina você desenvolva competências técnicas específicas para sua
atuação profissional.

Vamos Começar!
Por meio do funcionamento dos órgãos de proteção dos direitos humanos no sistema
interamericano é possível acompanhar a conduta dos Estados-membros que envolvam
atentados aos direitos humanos, como também que os Estados sejam julgados com a
correspondente sentença condenatória que deverá ser cumprida, sob pena de sanções de
natureza política perante a Organização dos Estados Americanos. Trata-se de matéria de grande
interesse na medida em que as decisões proferidas pela Corte Interamericana produzem efeitos
significativos para os Estados que são parte dos tratados internacionais de direitos humanos e
que reconhecem a jurisdição da Corte.

Nesse sentido, a título inaugural, apresenta-se a Comissão Interamericana de Direitos Humanos,


cuja sede encontra-se em Washington, que é um órgão da Organização dos Estados Americanos
criado para promover a observância e a defesa dos direitos humanos, bem como para funcionar
como órgão consultivo da Organização nessa matéria. Ela representa todos os Estados
integrantes da Organização dos Estados Americanos. Seus membros devem ser eleitos pela
Assembleia Geral da Organização, de uma lista de candidatos propostos pelos governos dos
Estados-membros.

A competência da Comissão alcança todos os Estados-partes da Convenção Americana em


relação aos direitos da pessoa humana nela consagrados, bem como a todos os Estados
integrantes da Organização dos Estados Americanos, em relação aos direitos consagrados na
Declaração Americana de 1948. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos é constituída
por sete pessoas de alta autoridade moral e reconhecido saber em matéria de direitos humanos,
cuja missão precípua é a de promover a observância e a proteção dos direitos da pessoa
humana no âmbito do continente americano. Os integrantes da Comissão são eleitos por quatro
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

anos e só poderão ser reeleitos uma vez, sendo igualmente vedada a participação na Comissão
de mais de um nacional de um mesmo país.

Em relação à Corte Interamericana de Direitos Humanos, apresenta-se como uma instituição


judicial independente e autônoma regulada pelos artigos 33, b e 52 a 73 da Convenção
Americana de Direitos Humanos, bem como pelas normas do seu Estatuto, tendo sido instalada
em 1979. Situada na cidade de São José, Costa Rica, sua criação tem origem na proposta
apresentada pela delegação brasileira à IX Conferência Interamericana realizada em Bogotá, no
ano de 1948. Composta por sete juízes, nacionais dos Estados-membros da Organização, eleitos
a título pessoal dentre juristas da mais alta autoridade moral, de reconhecida competência em
matéria de direitos humanos, que reúnam as condições requeridas para o exercício das mais
elevadas funções judiciais, de acordo com a lei do Estado, do qual sejam nacionais ou do Estado
que os propuser como candidatos.

Os juízes da Corte são eleitos por um período de seis anos e poderão ser reeleitos uma vez, em
votação secreta, pelo voto da maioria absoluta dos Estados-partes na Convenção, na Assembleia
Geral da Organização dos Estados Americanos, de uma lista de candidatos propostos pelos
mesmos Estados. A Corte também pode contar com juízes ad hoc para tratar de determinadas
matérias, conforme estabelece o artigo 55 da Convenção Americana, cujos requisitos são os
mesmos dos demais juízes da Corte.

A Corte Interamericana de Direitos Humanos, originada por meio do Pacto de São José da Costa
Rica (Convenção Americana sobre Direitos Humanos – 1969), apresenta como objetivos a
aplicabilidade do referido tratado internacional na ordem jurídica dos Estados-membros que a
compõem, conforme preceitua o artigo 1º. Quanto às funções da Corte Interamericana, são
classificadas e definidas pela Convenção Americana em duas categorias: contenciosa (artigos
61, 62 e 63) e consultiva (artigo 64).

Siga em Frente...
Muito embora a Comissão Interamericana de Direitos Humanos tenha diversas atribuições, pode-
se afirmar que sua principal função está relacionada à promoção, observância e defesa dos
direitos humanos. Para alcançar esse desiderato, no que tange à promoção dos direitos
humanos, deve a Comissão preparar estudos, relatórios e propor recomendações aos Estados,
tendo em vista a adoção de medidas que favoreçam o sistema de proteção aos direitos humanos
no plano doméstico, como também conhecer petições individuais e comunicações interestatais
que contenham denúncias de direitos que tenham sido aviltados, nos termos da Convenção.

Ela realiza seu trabalho com base em três pilares: o sistema de petição individual; o
monitoramento da situação dos direitos humanos nos Estados-membros; e a atenção a linhas
temáticas prioritárias. Por meio dessa estrutura, a Comissão considera que, no contexto da
proteção dos direitos de toda pessoa sob jurisdição dos Estados americanos, é fundamental dar
atenção às populações, às comunidades e aos grupos historicamente submetidos à
discriminação. Digno de registro, o fato de que qualquer pessoa, grupo de pessoas ou entidade
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

não governamental legalmente reconhecida em um ou mais Estados-membros da Organização,


nos termos do artigo 44, pode apresentar à Comissão petições que contenham denúncias ou
queixas de violação dessa Convenção por um Estado-parte.

Inicialmente, a competência da Comissão estava adstrita à promoção dos direitos humanos por
meio de preparação de estudos e relatórios, bem como de recomendações aos governos dos
Estados, com vistas à adoção de medidas em prol dos direitos humanos no plano doméstico dos
seus respectivos territórios. Hodiernamente possui também competência para efetiva proteção
dos direitos humanos em razão do conhecimento de petições individuais e de comunicações
interestatais que contenham denúncias de violações aos direitos previstos na Convenção
Americana.

Quanto à Corte Interamericana de Direitos Humanos, evidencia-se que ela pauta suas atuações
em prol da observância dos principais documentos internacionais protetivos aos direitos
humanos e propicia significativos avanços nessa matéria no âmbito do continente americano.
Nesse sentido, houve modificações no campo dos direitos humanos e até mesmo no próprio
funcionamento do Estado, por exemplo, os estudos que envolvem a soberania, que passa a ser
mitigada à medida que os Estados se submetem à obrigatoriedade da jurisdição da Corte
Interamericana de Direitos Humanos. Os Estados, ao se tornarem signatários da Convenção
Americana, geram para si um dever, qual seja, o de adequar sua legislação e jurisdição interna
para que estas estejam em consonância com as normas externas e com a jurisprudência da
Corte Interamericana, sendo necessária a observância do controle de convencionalidade.

A adesão da República Federativa do Brasil ao sistema da Corte Interamericana de Direitos


Humanos é vantajosa para o Estado e também para a pessoa humana, posto que a partir do
desenvolvimento dos mecanismos coletivos de aferição de eventual violação de direitos
humanos ganha o indivíduo, por ter acesso a mecanismos internacionais de proteção; ganha
todo e qualquer Estado, por neutralizar os mecanismos unilaterais; e ganha a sociedade
internacional como um todo, por ser a proteção dos direitos humanos essencial rumo ao
estabelecimento de uma sociedade humana justa, igual e em paz. Por fim, conclui-se que os
compromissos assumidos pelo Estado brasileiro junto ao Sistema Interamericano e,
particularmente, ao reconhecer a jurisdição da Corte, alcançou resultados significativos, tendo
sido apreciados diversos casos que envolveram a República.

Vamos Exercitar?
O controle de convencionalidade em sede nacional ocorre quando aplica-se a Convenção
Americana de Direitos Humanos ou normas de direitos humanos incluídas em tratados
internacionais ao bloco de constitucionalidade ao invés de utilizar o direito interno, mediante um
exame de confrontação normativo (material) em um caso concreto e elabora uma sentença
judicial que protege os direitos da pessoa humana.

Nesse caso, corresponde ao controle de caráter difuso, em que cada juiz aplica esse controle de
acordo com o caso concreto que será analisado. Isso se dá na esfera interna (controle de
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

convencionalidade) por intermédio da atuação dos tribunais e juízes internos que terão a
competência de aplicar a Convenção em detrimento da legislação interna, em um caso concreto,
a fim de proteger direitos mais benéficos à pessoa humana. Se por um lado os juízes de primeiro
grau e os tribunais estão submetidos ao império da lei estatal, por outro também não se pode
olvidar que um tratado internacional quando ratificado pelo Estado é incorporado à ordem
jurídica interna.

Ao ratificar um tratado internacional de direitos humanos, o Estado se vincula a ele. Assim, é


dever do Estado garantir mecanismos no plano interno que estejam afinados com as normas
internacionais, que passam a fazer parte do ordenamento jurídico interno do Estado, impondo
desafios para sanar o conflito que uma norma poderá apresentar em relação à outra.

Ao se realizar o controle de convencionalidade é possível inferir que o profissional do direito não


é obrigado a indicar apenas um fundamento normativo para tutelar direitos em favor do
indivíduo, sendo, portanto, possível utilizar mais de uma norma (interna ou internacional) que
possibilite o diálogo entre elas, com o intuito de alcançar o resultado mais adequado em
benefício dos interesses da pessoa humana.

Sem embargo, ao ocorrer um conflito entre uma norma de direito internacional e uma norma
infraconstitucional, os tribunais e os juízes nacionais poderão aplicar dois tipos de controles: o
controle de constitucionalidade e o controle de convencionalidade, que poderá ser realizado
tanto pela via difusa quanto pela via concentrada. Assim, a norma interna de natureza
infraconstitucional terá validade se conseguir passar por esses dois dispositivos de controle: o
primeiro tem a finalidade de verificar se a lei infraconstitucional é compatível com a Constituição
e o segundo serve para averiguar se há violação de direitos consagrados em tratados
internacionais de direitos humanos ratificados pelo país.

O controle de convencionalidade deve ser exercido pelos órgãos da justiça nacional


relativamente aos tratados de direitos humanos aos quais o país se encontra vinculado. Trata-se
de adaptar ou conformar os atos ou as leis internas aos compromissos internacionais
assumidos pelo Estado, que criam para estes deveres no plano internacional com reflexos
práticos no plano do seu direito interno. Ou seja, não somente os tribunais internacionais devem
realizar esse tipo de controle, mas também os tribunais internos.

Por fim, registra-se que o controle de convencionalidade doméstico consiste numa sindicância
de compatibilidade entre o direito estatal e o internacional dos direitos humanos, que irão trazer
vários desdobramentos para a ordem jurídica interna.

Saiba mais
Saber mais a respeito de um tema, seja qual for, é necessariamente dedicar-se a realizar
diferentes leituras para diversas reflexões. No texto sugerido há indicação específica quanto ao
Controle de Convencionalidades e diz: “[...] A partir das mudanças perpetradas na arena
internacional em favor dos direitos da pessoa humana, é que existe a necessidade premente de
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

se discutir o Controle de Convencionalidade, que garante controle sobre a eficácia das


legislações internacionais e permite dirimir conflitos entre direito interno e normas de direito
internacional [...]”. Faça a leitura do texto Controle de convencionalidade de Sidney Guerra para a
Revista Jurídica e aprofunde reflexões sobre o tema.

Referências
CANTOR, E. R. Control de conveniconalidad de las leys y derechos humanos. Méxixo, D.F.: Porruá,
2008.

GUERRA, S. Direito Internacional dos Direitos Humanos. 3. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2020.

GUERRA, S. Controle de convencionalidade. Revista Jurídica, v. 1, n. 46, p. 1-21, 2017.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o controle de


convencionalidade. 3. ed. Curitiba: Instituto Memória, 2020.

MACHADO, J. E. M. Direito internacional. Do paradigma clássico ao pós­-11 de setembro. 3. ed.


Coimbra: Editora Coimbra, 2006.

PIOVESAN, F. Temas de direitos humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.

PIOVESAN, F. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 7. ed. São Paulo: Saraiva,
2006.

ROCHA, J. C. de S. da; BACIO, D. N. H. O sistema africano de proteção de direitos humanos: uma


análise crítica. INTER. Revista de Direito Internacional e Direitos Humanos da UFRJ. v. 3, n. 1,
2020.

TRAVIESO, J. A. Derechos humanos y derecho internacional. 2. ed. Buenos Aires, Editorial


Heliasta, 1996.

TRINDADE, A. A. C. Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. Porto Alegre: Sergio
Antonio Fabris Editor, 1997.

Aula 5
Encerramento da Unidade
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Videoaula de Encerramento

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Bons estudos!

Ponto de Chegada
Olá, estudante!

Considerando a competência essência desta unidade, revisitar os estudos voltados à proteção


internacional dos direitos humanos é muito importante. Para tanto, devem ser analisados
antecedentes importantes voltados às três vertentes de proteção internacional do indivíduo;
abordar o sistema das Nações Unidas, com a correspondente abordagem global de
proteção para na sequência identificar os sistemas regionais, com maior ênfase o sistema
interamericano e o controle de convencionalidade.

Foram apresentados aspectos históricos sobre a proteção internacional do indivíduo, que


corresponde às três vertentes, o Direito Internacional Humanitário, o Direito Internacional dos
Refugiados e o Direito Internacional dos Direitos Humanos. Ademais, foi abordado o processo de
positivação; o processo de generalização; o processo de internacionalização; e o processo de
especificação.

Os pontos relativos à proteção internacional dos direitos humanos após a Segunda Guerra
Mundial, com a criação da Organização das Nações Unidas, em 1945, com o consequente
reconhecimento da subjetividade internacional do indivíduo, e os sistemas regionais de proteção
dos direitos humanos receberam destaque especial, ocasião em que foram indicados pontos
importantes dos referidos sistemas, notadamente o europeu, africano e americano, que na aula
seguinte ganhou destaque.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Os órgãos de proteção dos direitos humanos do sistema americano ganharam relevo, in casu, a
Comissão Interamericana e a Corte Interamericana de Direitos Humanos foram apresentadas no
sentido da aplicabilidade do controle de convencionalidade para emprego da norma mais
benéfica em favor da pessoa humana.

Indubitavelmente que ao compreender esses conteúdos, você será capaz de se debruçar de


maneira satisfatória, não apenas na proposta prática a ser realizada, mas também em outras que
versem sobre a proteção internacional do indivíduo.

É Hora de Praticar!

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Olá, estudante!
É hora de colocar em prática os conhecimentos auferidos por ocasião dos estudos colhidos
nesta unidade. Para tanto, foi escolhido o caso paradigmático que envolveu o Estado brasileiro
junto ao sistema interamericano de proteção dos direitos humanos - República Federativa do
Brasil versus Damião Ximenez Lopes.
Sobre o caso, com texto adaptado, analise a situação que envolve o sistema internacional e o
interno em relação à proteção dos direitos humanos e explique por que a demanda que envolveu
Damião Lopes foi submetida aos órgãos de proteção do sistema interamericano (Comissão e
Corte).
“Damião Lopes, pessoa com deficiência, foi internado em uma casa de Repouso do Sistema
Único de Saúde, em uma cidade no estado do Ceará - Brasil, sem quaisquer marcas de agressão
física. Alguns dias depois, sua mãe ao visitá-lo na unidade de saúde, o encontrou agonizando,
com diversos hematomas pelo corpo, com as mãos amarradas e sinais de tortura, vindo a falecer
nesse mesmo dia sem apoio médico.
A justiça brasileira foi acionada nas esferas criminais e civis. Porém, em face da morosidade do
Estado brasileiro para verificação da matéria e a consequente não prestação jurisdicional, a
matéria foi levada ao sistema interamericano pelos familiares de Damião para apreciação do
caso.
A partir do texto apresentado, pergunta-se:

a. Qual o principal papel da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e quais são os


requisitos para que o órgão aprecie a matéria?
b. Sobre a decisão proferida pela Corte Interamericana, quais desdobramentos para o Estado
brasileiro?
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

De que maneira os antecedentes históricos e as três vertentes de proteção internacional


(Direito Internacional Humanitário, Direito Internacional dos Refugiados e Direito
Internacional dos Direitos Humanos) moldaram a atual abordagem global de proteção dos
direitos humanos?
Como a criação da Organização das Nações Unidas em 1945 e o reconhecimento da
subjetividade internacional do indivíduo transformaram a proteção dos direitos humanos no
cenário global e regional? Quais são as implicações dessa transformação para a proteção
dos direitos humanos hoje?
Em que medida o controle de convencionalidade, aplicado pela Comissão Interamericana e
pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, fortalece a proteção dos direitos humanos
no sistema interamericano? Como essa prática pode ser vista como um avanço na
aplicação de normas mais benéficas para a pessoa humana?

a. Qual o principal papel da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e quais são os


requisitos para que o órgão aprecie a matéria?
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos apresenta como principal função a defesa dos
direitos humanos. Para tanto, prepara estudos, relatórios e propõe recomendações aos Estados,
tendo em vista a adoção de medidas que favoreçam o sistema de proteção aos direitos humanos
no plano doméstico, como também conhece petições individuais e comunicações interestatais
que contenham denúncias de direitos que tenham sido aviltados, nos termos da Convenção
Americana sobre Direitos Humanos.
Preliminarmente, importante destacar que qualquer pessoa, grupo de pessoas ou entidade não
governamental legalmente reconhecida em um ou mais Estados-membros da Organização pode
apresentar à Comissão petições que contenham denúncias ou queixas de violação dessa
Convenção por um Estado-parte. (Petições e denúncias - art. 44).
Nessa esteira, para que seja apresentada uma denúncia na Comissão Interamericana são
observados alguns pressupostos, a saber: a) que a petição contenha o nome, a nacionalidade, a
profissão, o domicílio e a assinatura da pessoa ou das pessoas ou do representante legal da
entidade que submeter a petição; b) uma relação de fato ou situação que se denuncia
especificando o lugar e a data das violações alegadas, bem como o nome das vítimas e
possíveis autoridades que tenham tomado conhecimento dos fatos; c) a indicação pelo
peticionário do Estado que pretensamente causou a violação dos direitos humanos consagrados
na Convenção Americana; e d) indicar se utilizou ou não a jurisdição interna ou a impossibilidade
de não usá-la.
Ademais, há outros fatores que são importantes de serem observados: a) que hajam sido
interpostos e esgotados os recursos da jurisdição interna, de acordo com os princípios do Direito
Internacional; b) que seja apresentada dentro do prazo de seis meses, a partir da data em que o
presumido prejudicado em seus direitos tenha sido notificado da decisão definitiva; c) que a
matéria da petição ou comunicação não esteja pendente de outro processo de solução
internacional; d) coisa julgada; e) a falta de fundamentação (manifesta improcedência).
b. Sobre a decisão proferida pela Corte Interamericana, quais desdobramentos para o Estado
brasileiro?
Quanto às decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos, evidencia-se que são
imperativas e exigíveis dentro do território dos países que ratificaram a Convenção Americana de
Direitos Humanos, sendo certo que as reparações decorrentes de responsabilidade internacional
do Estado por violações aos direitos humanos têm sido processadas da seguinte forma: a)
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

restituição na íntegra, eliminando-se todos os efeitos da violação, levando-se à reparação do


dano emergente e lucros cessantes; b) cessação do ilícito, considerada exigência básica para a
eliminação das consequências do ilícito internacional, devendo o Estado violador interromper sua
conduta ilícita, esclarecendo-se que isso não impede outras formas de reparação; c) satisfação,
entendida como um conjunto de medidas capazes de fornecer fórmulas extremamente flexíveis
de reparação a serem escolhidas em face de casos concretos pelo juiz internacional; d)
indenização, cabendo ao Estado infrator indenizar pecuniariamente a vítima pelos danos
causados, caso a violação não possa ser completamente eliminada pelo retorno ao status quo;
e) garantias de não repetição, que são a obtenção de salvaguardas contra a reiteração da
conduta violadora de obrigação internacional.
No caso em particular do Damião Ximenez Lopes, a Corte assim dispôs da matéria:

DECLARA, Por unanimidade, que 2. O Estado violou, em detrimento do senhor Damião


Ximenes Lopes, tal como o reconheceu, os direitos à vida e à integridade pessoal
consagrados nos artigos 4.1 e 5.1 e 5.2 da Convenção Americana, em relação com a
obrigação geral de respeitar e garantir os direitos estabelecida no artigo 1.1 desse
tratado, nos termos dos parágrafos 119 a 150 da presente Sentença. 3. O Estado
violou, em detrimento das senhoras Albertina Viana Lopes e Irene Ximenes Lopes
Miranda e dos senhores Francisco Leopoldino Lopes e Cosme Ximenes Lopes,
familiares do senhor Damião Ximenes Lopes, o direito à integridade pessoal
consagrado no artigo 5 da Convenção Americana, em relação com a obrigação geral
de respeitar e garantir os direitos estabelecida no artigo 1.1 desse tratado, nos termos
dos parágrafos 155 a 163 da presente Sentença. 4. O Estado violou, em detrimento
das senhoras Albertina Viana Lopes e Irene Ximenes Lopes Miranda, familiares do
senhor Damião Ximenes Lopes, os direitos às garantias judiciais e à proteção judicial
consagrados nos artigos 8.1 e 25.1 da Convenção Americana, em relação com a
obrigação geral de respeitar e garantir os direitos estabelecida no artigo 1.1 desse
tratado, nos termos dos parágrafos 170 a 206 da presente Sentença. 5. Esta Sentença
constitui per se uma forma de reparação, nos termos do parágrafo 251 dessa mesma
Sentença. 84 E DISPÕE, Por unanimidade, que: 6. O Estado deve garantir, em um prazo
razoável, que o processo interno destinado a investigar e sancionar os responsáveis
pelos fatos deste caso surta seus devidos efeitos, nos termos dos parágrafos 245 a
248 da presente Sentença. 7. O Estado deve publicar, no prazo de seis meses, no
Diário Oficial e em outro jornal de ampla circulação nacional, uma só vez, o Capítulo
VII relativo aos fatos provados desta Sentença, sem as respectivas notas de pé de
página, bem como sua parte resolutiva, nos termos do parágrafo 249 da presente
Sentença. 8. O Estado deve continuar a desenvolver um programa de formação e
capacitação para o pessoal médico, de psiquiatria e psicologia, de enfermagem e
auxiliares de enfermagem e para todas as pessoas vinculadas ao atendimento de
saúde mental, em especial sobre os princípios que devem reger o trato das pessoas
portadoras de deficiência mental, conforme os padrões internacionais sobre a
matéria e aqueles dispostos nesta Sentença, nos termos do parágrafo 250 da
presente Sentença. 9. O Estado deve pagar em dinheiro para as senhoras Albertina
Viana Lopes e Irene Ximenes Lopes Miranda, no prazo de um ano, a título de
indenização por dano material, a quantia fixada nos parágrafos 225 e 226, nos termos
dos parágrafos 224 a 226 da presente Sentença. 10. O Estado deve pagar em dinheiro
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

para as senhoras Albertina Viana Lopes e Irene Ximenes Lopes Miranda e para os
senhores Francisco Leopoldino Lopes e Cosme Ximenes Lopes, no prazo de um ano,
a título de indenização por dano imaterial, a quantia fixada no parágrafo 238, nos
termos dos parágrafos 237 a 239 da presente Sentença. 11. O Estado deve pagar em
dinheiro, no prazo de um ano, a título de custas e gastos gerados no âmbito interno e
no processo internacional perante o sistema interamericano de proteção dos direitos
humanos, a quantia fixada no parágrafo 253, a qual deverá ser entregue à senhora
Albertina Viana Lopes, nos termos dos parágrafos 252 e 253 da presente Sentença.
12. Supervisionará o cumprimento íntegro desta Sentença e dará por concluído este
caso uma vez que o Estado tenha dado cabal cumprimento ao disposto nesta
Sentença. No prazo de um ano, contado a partir da notificação desta Sentença, o
Estado deverá apresentar à Corte relatório sobre as medidas adotadas para o seu
cumprimento. O Juiz Sergio García Ramírez deu a conhecer à Corte seu Voto
Fundamentado e o Juiz Antônio Augusto Cançado Trindade deu a conhecer à Corte
seu Voto Separado, os que acompanham a presente Sentença. 85 Redigida em
espanhol e português, fazendo fé o texto em espanhol, em San José, Costa Rica, em 4
de julho de 2006.
Corte Interamericana de Direitos Humanos, 2006.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

BRASIL. Decreto nº 678, de 6 de novembro de 1992. Promulga a Convenção Americana de


Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), de 22 de novembro de 1969. Brasília, 1992.
Disponível em: [Link] Acesso em: 16 jan.
2024.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Caso Ximenes Lopes Versus Brasil.


Sentença de 04 de julho de 2006. Disponível em:
[Link] Acesso em: 16 jan. 2024.
GUERRA, S. O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o controle de
convencionalidade. São Paulo: Atlas, 2013.
,

Unidade 3
Direitos Humanos Na Ordem Jurídica Brasileira

Aula 1
Os Fundamentos, Objetivos E Princípios Internacionais Que Regem A República Federativa Do
Brasil

Os fundamentos, objetivos e princípios internacionais que regem a República


Federativa do Brasil

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Ponto de Partida

Olá, estudante!
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Para melhor compreensão do tema do presente estudo, vamos analisar os artigos 1, 3 e 4,


contemplados no Título I da Constituição Federal de 1988, que versa sobre os princípios
fundamentais. Imperioso apresentar, ainda que brevemente, alguns aspectos que envolvem o
sistema de regras e princípios.

Isso porque todo dispositivo posto constitucional ou legal encerra um conteúdo regulamentar,
correspondente a um núcleo de ideias formado por frases escritas em língua nacional. Por seu
turno, o núcleo – que concentra um princípio ou uma regra – emitirá uma ideia mais abstrata ou
mais concentrada para o seu exercício aplicativo.

Na primeira hipótese, a ideia prescrita será inserida no ordenamento jurídico positivo, com a
finalidade precípua de ser condão diretor dos demais dispositivos e, em virtude do seu elevado
grau de abstração e resultante ganho valorativo, receberá a nomenclatura de princípio; na
segunda hipótese, a ideia normativada será inserida no ordenamento jurídico positivo para
determinar e regulamentar uma conduta definida, positiva ou negativa, por parte daqueles que
estiverem sujeitos a ela, recebendo a nomenclatura de Regra, devido ao seu alto grau de
concentração e resultante ganho normativo.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
de que ao final de nossa disciplina você desenvolva competências técnicas específicas para sua
atuação profissional.

Vamos Começar!
O Título I da Carta Magna de 1988 apresenta os Princípios Fundamentais, que compreende os
artigos 1 a 4, sendo necessário, para melhor compreensão deste estudo, a análise do que está
prescrito nos artigos 1, 3 e 4, posto que o artigo 2 trata dos poderes do Estado.

No que tange ao artigo 1º, evidencia-se que a República Federativa do Brasil, formada pela união
indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático
de Direito e tem como fundamentos: a soberania; a cidadania; a dignidade da pessoa humana; os
valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; e o pluralismo político.

Quanto aos objetivos fundamentais que constituem o Estado brasileiro, previstos no artigo 3º,
identificam-se a necessidade de se construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o
desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades
sociais e regionais; e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor,
idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Por fim, quanto aos princípios que regem o Brasil no sistema internacional ganha relevo a
independência nacional; prevalência dos direitos humanos; autodeterminação dos povos; não
intervenção; igualdade entre os Estados; defesa da paz; solução pacífica dos conflitos; repúdio
ao terrorismo e ao racismo; cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; e
concessão de asilo político.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Os princípios, que são mais genéricos e abstratos do que as regras, não estão subsumidos a
uma situação de fato, possuindo uma dimensão de peso ou importância. Para sua aplicação, não
importa que os princípios estejam previstos no texto constitucional ou não.

Canotilho (1998) apresenta cinco critérios para distinguir regras e princípios: a) grau de
abstração: os princípios são normas com um grau de abstração relativamente elevado; de modo
diverso, as regras possuem uma abstração relativamente reduzida; b) grau de determinabilidade
na aplicação do caso concreto: os princípios, por serem vagos e indeterminados, carecem de
mediações concretizadoras, enquanto as regras são suscetíveis de aplicação direta; c) grau de
fundamentalidade no sistema das fontes de direito: os princípios são normas de natureza ou
com um papel fundamental no ordenamento jurídico devido à sua posição hierárquica no
sistema das fontes (ex.: princípios constitucionais) ou à sua importância estruturante dentro do
sistema jurídico (ex.: princípio do Estado de Direito); d) proximidade da ideia de direito: os
princípios são “standards” juridicamente vinculantes radicados na ideia de “justiça” ou na “ideia
de direito”; as regras podem ser norma vinculativas com um conteúdo meramente funcional; e)
Natureza normogenética: os princípios são fundamento de regras, isto é, são normas que estão
na base ou constituem a ratio de regras jurídicas.

Jorge Miranda (1991) afirma que os princípios não se colocam além ou acima do Direito. Sob
uma visão ampla, superadora das concepções positivistas, os princípios fazem parte do
“complexo ordenamental”. Não se contrapõem às normas, mas, tão somente, aos preceitos. As
normas jurídicas é que se dividem em “normas-princípios” e “normas-disposições”. Os princípios
exercem uma ação imediata enquanto diretamente aplicáveis ou diretamente capazes de
conformarem as relações político-constitucionais. Por essa linha, os princípios “exercem
também uma ação mediata tanto num plano integrativo e construtivo como num plano
essencialmente prospectivo. Admitem ou postulam concretizações, densificações, e realizações
variáveis”.

Siga em Frente...

Se antes os princípios ingressaram na temática jurídica sob a forma de enunciados ou diretivas


para a interpretação das leis e preenchimento de lacunas, a doutrina contemporânea prestigia a
tese de bipartição da norma em regras e princípios. De um modo ou de outro, as correntes
doutrinárias advogam essa separação. Os princípios caracterizam-se por abrigar um viés
deontológico (do “dever ser”), são genéricos e abstratos.

Humberto Ávila (2003) sustenta que os princípios podem ser investigados sob dois aspectos: o
primeiro refere-se à exaltação dos valores por ele protegidos e o segundo trata do exame de sua
estrutura – critérios. Os princípios, por essa linha, são normas imediatamente finalísticas, para
cuja concretização estabelecem com menor determinação qual é o comportamento devido, e por
isso dependem mais intensamente de sua relação com outras normas e de atos
institucionalmente legitimados de interpretação para a determinação da conduta devida.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Nessa esteira, é possível inferir que dos princípios fundamentais que estão postos no título I da
Constituição Federal de 1988, possuem (muitos deles) pertinência direta com os aspectos que
envolvem o presente curso, in casu os direitos humanos e a cidadania.

Com efeito, sem ter a pretensão de analisar de maneira pormenorizada cada um dos incisos dos
artigos anteriormente identificados, pode-se afirmar que os direitos humanos permeiam o estudo
do constitucionalismo brasileiro.

A Constituição, como estatuto jurídico do político, define os princípios políticos


constitucionalmente estruturantes, estipula a configuração e disposição organizacional do
Estado e do governo, estabelece as atribuições e competências constitucionais dos órgãos de
direção política e determina princípios, formas e processos fundamentais da formação da
vontade política e das tomadas de decisão pelos órgãos político-constitucionais. Ela versa sobre
as feições e o meio de construção e exprime o poder como instrumento de vontade e decisão; é
uma expressão normativa das forças políticas e sociais e estabelece medidas e fins ao processo
político.

Evidencia-se que após o período de governo militar, as “forças políticas e sociais” influenciaram
diretamente as linhas adotadas para a elaboração da Constituição vigente, isto é, fizeram com
que o Estado brasileiro experimentasse um novo momento em relação à valorização da pessoa
humana, em que deixava para trás o cerceamento, o aviltamento e a limitação de liberdades,
consagrando em seu texto constitucional um rol significativo de direitos fundamentais. Isso pode
ser facilmente evidenciado logo no artigo 1 ao consagrar a dignidade da pessoa humana como
princípio e fundamento para o Estado Democrático de Direito; no artigo 3, que se propõe a
construir uma sociedade ancorada na justiça social e, por fim, no artigo 4, quando são
identificados aspectos que versam sobre a prevalência dos direitos humanos.

Vamos Exercitar?

Como visto, a doutrina majoritária sustenta que a estrutura normativa é composta por princípios
e regras jurídicas. Os princípios, que são mais genéricos e abstratos do que as regras, não estão
subsumidos a uma situação de fato, possuindo uma dimensão de peso ou importância. Para sua
aplicação, não importa que os princípios estejam previstos no texto constitucional ou não.

O conceito de princípios foi elaborado por Josef Esser, em 1956. Para esse autor, os princípios,
ao contrário das normas (regras), não contêm diretamente ordens, mas apenas fundamentos
(critérios para justificação de uma ordem). Ademais, segundo o critério de fundamento de
validade, adotado por Wollf-Bachof e Forsthoff, os princípios seriam diferentes das regras por
serem dedutíveis objetivamente do princípio do Estado de Direito, da ideia de direito ou do
princípio da justiça. Eles funcionariam como fundamentos jurídicos para as decisões. Nessa
linha, Karl Larenz (1989) define os princípios como sendo normas jurídicas que não possuem
uma situação fática determinada, ou seja,
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

enquanto 'ideias jurídicas materiais' são manifestações especiais da ideia de direito, tal como
esta se apresenta no seu grau de evolução histórica, alguns deles estão expressamente
declarados na Constituição ou noutras leis; outros podem ser deduzidos da regulação legal, da
sua cadeia de sentido, por via de uma 'analogia geral' ou do retorno à ratio legis; alguns foram
'descobertos' e declarados pela primeira vez pela doutrina ou pela jurisprudência, as mais das
vezes atendendo a casos determinados, não solucionáveis de outro modo, e que logo se
impuseram na 'consciência jurídica geral', graças à força de convicção a eles inerente. Decisiva
permanece a sua referência de sentido à ideia de Direito.

Larenz, 1989.

Robert Alexy (1993) sustenta que o princípio, como espécie de norma jurídica, não determina as
consequências normativas de forma direta, ao contrário das regras. Daí definir os princípios
como mandamentos de otimização, aplicáveis em vários graus normativos e fáticos. Por suas
palavras, “princípios são proposições normativas de um tão alto nível de generalidade que podem
via de regra não ser aplicados sem o acréscimo de outras premissas normativas e,
habitualmente, são sujeitos às limitações por conta de outros princípios” (Alexy, 1993).

Como salienta Claus-Wilhelm Canaris (1996), diferentemente das normas preceituais, “os
princípios não valem sem excepção e podem entrar entre si em oposição ou em contradição; eles
não têm a pretensão da exclusividade; eles ostentam o seu sentido próprio apenas numa
combinação de complementação e restrição recíprocas”.

Pode-se concluir que os princípios são normas imediatamente finalísticas, para cuja
concretização estabelecem com menor determinação qual o comportamento devido e, por isso,
dependem mais intensamente da sua relação com outras normas e de atos institucionalmente
legitimados de interpretação para a determinação da conduta devida.

Nessa esteira, ao ter a dignidade da pessoa humana como fundamento do Estado Democrático
de Direito, bem como o reconhecimento da centralidade dos direitos humanos, que corresponde
a um novo traço de nossos tempos, evidencia-se que a Carta brasileira ao dispor do assunto nos
artigos que correspondem aos princípios fundamentais conferiu lócus privilegiado da matéria na
ordem jurídica interna, posto que se apresentam como disposições fundamentais que se
irradiam sobre as normas jurídicas (independentemente de sua espécie), compondo-lhes o
espírito e servindo de critério para uma exata compreensão.

Saiba mais

O texto Considerações sobre o conceito de dignidade humana de Lincoln e Nairo para a Revista
Direito GV, traz esclarecimentos sobre o princípio da dignidade humana no cerne das
constituições, tanto dos tratados internacionais quanto nacionais na sociedade moderna. Há de
ser muito contributivo ao seu processo de formação pensar sobre as bases das decisões
judiciais realizando a leitura do material proposto e relacionando-o ao conteúdo de nossa
disciplina.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Referências

ALEXY, R. Teoria de los derechos fundamentales. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales,


1993.

ÁVILA, H. Teoria dos princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 2. ed. São
Paulo: Malheiros, 2003.

BOBBIO, N. Teoria do ordenamento jurídico. 7. ed. Brasília: UNB, 1996.

CANARIS, C. W. Pensamento sistemático e conceito de sistema na ciência do direito. 2. ed.


Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996.

CANOTILHO, J. J. G. Direito constitucional e teoria da Constituição. 2. ed. Coimbra: Almedina,


1998.

DWORKIN, R. Levando os direitos a sério. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

FRIAS, L.; LOPES, N. Considerações sobre o conceito de dignidade humana. Revista Direito GV, v.
11, n. 2, p. 649–670, jul. 2015. Disponível em:
[Link] Acesso em: 1 nov.
2023.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

LARENZ, K. Metodologia na ciência do direito. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,


1989.

MIRANDA, J. Manual de direito constitucional. T. II. Coimbra: Coimbra Editora, 1991.

Aula 2
Os Direitos Humanos Erigidos À Categoria De Direitos Fundamentais No Brasil

Os Direitos Humanos e rígido sà categoria de Direitos Fundamentais No Brasil


Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

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Ponto de Partida

Olá, estudante!

O reconhecimento da dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República


Federativa do Brasil (art. 1º, III, da CR/88) constitui-se marco importante, uma vez que tal valor
impõe-se como critério de orientação e interpretação de todo o ordenamento. A dignidade da
pessoa humana representa significativo vetor interpretativo, verdadeiro valor-fonte que conforma
e inspira o ordenamento jurídico dos Estados de Direito.

No Brasil, após o período de governo militar, as “forças políticas e sociais” influenciaram


diretamente as linhas adotadas para a elaboração da Constituição vigente, isto é, fizeram com
que o Estado brasileiro experimentasse novo momento em relação à valorização da pessoa
humana, em que deixaria para trás o cerceamento, o aviltamento e a limitação de liberdades, ao
consagrar em seu texto constitucional rol significativo de direitos fundamentais, considerados
alicerces de uma comunidade organizada política e juridicamente através de uma Constituição.
No título II da Carta de 1988, são apresentados os direitos e a garantias fundamentais, a serem
analisados.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
de que ao final de nossa disciplina você desenvolva competências técnicas específicas para sua
atuação profissional.

Vamos Começar!
A doutrina situa os direitos fundamentais como direitos jurídicos-positivamente
constitucionalizados. Nesse sentido, José Afonso da Silva (1996). afirma que os direitos
fundamentais são situações jurídicas, objetivas e subjetivas, definidas no direito positivo, em prol
da dignidade, igualdade e liberdade da pessoa humana. Contudo, essa apreciação não deve ser
tomada apenas em seu caráter formal (conforme estabelece o Título II - Direitos e Garantias
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Fundamentais, cujo início se dá no art. 5º e se estende até o art. 17), pois pode não retratar
corretamente o sentido e o alcance conferidos pela Constituição aos direitos fundamentais,
estando em desarmonia com sua feição sistêmica aberta.

Também obstaria imensamente a compreensão do conteúdo e do significado de certas


disposições referentes a esses direitos. É o que se verifica em relação à norma contida no art. 5º,
§ 2º, na qual estão previstos como fundamentais não só os direitos referidos no corpo da atual
Constituição, mas também os decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos
tratados internacionais em que o Brasil seja parte, isto é, situações em que não haja positivação
direta e expressa de determinados direitos fundamentais (este ponto será analisado na Aula 11).

Por fundamental se entende aquilo que é essencial, relevante, necessário, basilar, que serve de
alicerce. A noção de direitos fundamentais está diretamente vinculada à característica da
fundamentalidade. Conforme assentado em outra oportunidade (GUERRA, 2022), um direito pode
ser formal e materialmente fundamental e ao identificar essa dupla noção de um direito, torna-se
proeminente instrumento para auxiliar na interpretação do art. 5º, § 2º, da Constituição de 1988,
que dispõe sobre a abertura do rol a direitos não positivados expressamente no seu texto.

Nessa esteira, pode-se afirmar que o direito formalmente fundamental é aquele que se encontra
positivado na Constituição e que, por consequência: a) consiste em norma que toma assento na
Constituição escrita e ocupa o topo de toda a ordem jurídica; b) é norma constitucional sujeita às
limitações formais (procedimento agravado) e materiais (cláusulas pétreas) de reforma
constitucional (emenda e revisão); c) é norma de aplicação imediata e vincula entidades públicas
(constituem parâmetros materiais de escolhas, decisões, ações e controle dos órgãos
legislativos, administrativos e jurisdicionais) e privadas.

Portanto, ganha destaque nesta etapa do estudo a compreensão dos direitos civis, políticos,
sociais e de nacionalidade, que estão contemplados na Constituição Brasileira de 1988, de
maneira expressa no título II, que se inicia no artigo 5º e termina no artigo 17, como sendo
direitos formalmente fundamentais.

São normas que contam com supremacia no ordenamento jurídico e que, devido à sua
importância para o indivíduo e para a coletividade, receberam tratamento diferenciado pelo poder
constituinte, destacando-se a aplicação imediata de seus comandos e a maior proteção no que
concerne à possibilidade de mudanças do seu conteúdo pelos poderes constituídos.

Os direitos fundamentais, para José Joaquim Gomes Canotilho (1998), são reserva de
Constituição, isto é, tomam parte entre os elementos que identificam a posição da pessoa
humana no mundo estruturante/estruturado da ordem constitucional e são reserva de justiça, o
que significa dizer que há necessidade de uma ordem que aspire a ser justa. A mera legalidade
formal não é suficiente, sendo preciso ter validade intrínseca, o que demanda ser um parâmetro
da legitimidade formal e material da ordem jurídica estatal. Se constituem, pois, como elementos
de ordem jurídica objetiva ao integrar um sistema valorativo que atua como fundamento material
de todo o ordenamento jurídico. Eles se apresentam com duplo caráter: são direitos subjetivos e
são elementos fundamentais da ordem objetiva da coletividade.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Como direitos subjetivos, determinam e asseguram a situação jurídica do particular como


indivíduo e cidadão, garantindo um instituto jurídico ou liberdade de um âmbito de vida –
dimensão individual. Trata-se de um status jurídico material de conteúdo determinado
concretamente e limitado para o particular e para os poderes do Estado. São elementos
fundamentais da consciência jurídica e legitimadores da ordem. Possuem um lado negativo
(defesa contrapoderes estatais) e um lado positivo (atualização das liberdades neles garantidas
– liberdades positivas).

Siga em Frente...
Para melhor compreender os direitos fundamentais, torna-se importante apresentar algumas
características. Porém, deve-se advertir, desde logo, que caracterizar os direitos fundamentais
apresenta-se como empreendimento custoso devido à pluralidade de formas e à abrangência de
conteúdos contidos em seu conjunto. Ainda assim, mesmo diante das exceções inevitáveis, é
possível vislumbrar certos aspectos marcantes dos direitos fundamentais no que tange ao
enfoque jurídico e, nesse particular, a despeito da existência de outras características, entende-se
como oportuno destacar a inalienabilidade, a imprescritibilidade, a irrenunciabilidade e a
indivisibilidade.

Por inalienabilidade entende-se que são direitos que estão fora de qualquer possibilidade de
transferência ou negociação, porque não são de conteúdo econômico-patrimonial. Portanto, são
indisponíveis a qualquer importância. A imprescritibilidade guarda relação com o instituto da
prescrição, que não atinge a exigibilidade de direitos personalíssimos, mesmo que não sejam
individualistas, por isso são exigíveis a qualquer tempo, não comportando prazo de validade. São
irrenunciáveis, posto que o caráter fundamental desses direitos perderia o sentido caso ficasse à
mercê do indivíduo ou da coletividade a capacidade de renunciá-los.

A irrenunciabilidade assegura que, mesmo em circunstâncias excepcionais e/ou de grave


comoção interna, não é admitida a renúncia ou a extinção dos direitos fundamentais, ainda que
ocorram restrições ou limitações temporárias justificadas quanto ao âmbito de sua eficácia. No
tocante à indivisibilidade, indica que não há meio-termo, isto é, o respeito à dignidade da pessoa
humana requer que sejam respeitados os direitos civis, políticos, sociais, de nacionalidade, bem
como aqueles que não estão postos no plano formal, mas também os materialmente
fundamentais.

Conforme acentuado em outro momento deste Curso de Direitos Humanos e Cidadania, não há
distinção entre os direitos humanos, quer sejam direitos civis e políticos, quer sejam direitos
econômicos, sociais e culturais, pois a realização de certo direito pode depender (como
geralmente acontece) do respeito e da promoção de diversos outros, independentemente de sua
classificação. A indivisibilidade e interdependência corroboram para a concorrência dos direitos
fundamentais, isto é, a acumulação ou o intercruzamento de diversos direitos.

Vamos Exercitar?
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Os direitos humanos são consagrados nas declarações de direitos concebidos no âmbito da


sociedade internacional, reconhecidos por Estados soberanos, que produzem efeitos no plano
doméstico em conformidade com a própria ordem jurídica interna de cada Estado.

Conforme acentuado, há vários direitos inerentes à pessoa humana que são reconhecidos no
sistema internacional e no plano doméstico dos Estados nacionais que acabam por receber a
denominação de direitos fundamentais. Nesse passo, reafirma-se que os direitos são
consagrados na ordem constitucional brasileira como sendo formalmente e materialmente
fundamentais, estando contemplados no Título II da Carta de 1988. Por essa razão, nesta aula
são apresentados, no plano geral, os direitos civis, políticos, sociais e de nacionalidade.

Os direitos civis são aqueles que, mediante garantias mínimas de integridade física e moral, bem
assim de correção procedimental nas relações judicantes entre os indivíduos e o Estado,
asseguram uma esfera de autonomia individual de modo a possibilitar o desenvolvimento da
personalidade de cada um. São direitos titulados pelos indivíduos e exercidos, em sua grande
maioria, individualmente, embora alguns somente possibilitem o exercício coletivo (liberdade de
associação).

O Estado tem o dever de abstenção ou de não impedimento e de prestação, devendo criar


instrumentos de tutela, como a polícia, o Judiciário e a organização do processo. A título de
ilustração podem ser apresentados o direito à privacidade, o direito à informação e o direito à
propriedade, todos previstos no artigo 5º da CF.

Os direitos políticos, previstos no artigo 14 da Carta de 1988, encontram seu núcleo no direito de
votar e ser votado e reúnem outras prerrogativas decorrentes daquele status, como o direito de
postular um emprego público, de ser jurado ou testemunha, de prestar o serviço militar e até de
ser contribuinte.

Os direitos sociais guardam estreita relação com a participação plena na vida da sociedade,
incluindo o direito à educação, a instituir e manter a família, à proteção à maternidade e à
infância, ao lazer e à saúde etc. Encontram assento no texto constitucional no Capítulo II, do
Título II, denominado dos Direitos Sociais, como os direitos que estão contemplados no artigo 6º
da Carta de 1988: educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, lazer etc.

Por fim, os direitos inerentes à nacionalidade estão consagrados no artigo 12 da Constituição da


República. A nacionalidade apresenta-se como um vínculo político e jurídico que produz direitos
e deveres recíprocos entre o Estado e a pessoa. Na ordem constitucional brasileira evidencia-se
que o legislador tratou de reservar de maneira específica alguns cargos para os brasileiros natos
por estarem diretamente ligados aos interesses da República Federativa do Brasil, são eles:
Presidente e Vice-Presidente da República; Presidente da Câmara dos Deputados; Presidente do
Senado Federal; Ministros do Supremo Tribunal Federal; integrantes da Carreira Diplomática;
oficiais das Forças Armadas e Ministro de Estado da Defesa. Ademais, deve-se frisar que o
brasileiro nato não pode ser extraditado.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Saiba mais
Sugerimos a leitura de Os Direitos Fundamentais na Constituição Federal de 1988, onde a
discussão em torno dos direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988 parte da
definição ao debate de influências desta legislação como fundamento da viabilização de direitos.
Ao realizar a leitura tenha em mente os aspectos abordados na disciplina, suas percepções e
interpretações e estabeleça um paralelo com os conceitos construídos no texto.

Referências

ABREU, N. M. C. Os Direitos Fundamentais na Constituição Federal de 1988. [S. l.: s. n.: s. d.].
Disponível em:
[Link]
Acesso em: 31 out. 2023.

CANOTILHO, J. J. G. Direito constitucional e teoria da Constituição. 2. ed. Coimbra: Almedina,


1998.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. Curso de direito internacional público. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. Os direitos humanos na ordem jurídica internacional e reflexos na ordem


constitucional brasileira. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2014.

MIRANDA, J. Manual de direito constitucional. 3. ed. Coimbra: Ed. Coimbra, 2000, t. 4.

SARLET, I. W. A eficácia dos direitos fundamentais. 13. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado,
2021.

SILVA, J. A. da. Curso de direito constitucional positivo. 11. ed. São Paulo: Malheiros, 1996.

Aula 3
A Cláusula De Abertura Dos Direitos Fundamentais

A cláusula de abertura dos Direitos Fundamentais

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Ponto de Partida
Olá, estudante!

Como assentado ao longo de nossas atividades, há várias expressões que são utilizadas para
designar os direitos humanos, por exemplo, direitos fundamentais, direitos naturais, direitos
inerentes à pessoa humana, liberdades fundamentais, liberdades públicas etc.

A classificação adotada pela Constituição de 1988 estabeleceu cinco espécies ao gênero para
direitos e garantias fundamentais: direitos e garantias individuais e coletivos; direitos sociais;
direitos de nacionalidade; direitos políticos; e direitos relacionados à existência, organização e
participação em partidos políticos, conforme previsto no Título II da Carta de 1988, o que se
denominou direitos formalmente fundamentais. Tais direitos destinam-se a preservar as pessoas
em suas interações no mundo social e quando expressamente consignados na Constituição,
como no caso brasileiro, esses direitos realizam a missão de defesa das pessoas diante do
poder do Estado.

Entretanto, partindo da formulação apresentada por José Afonso da Silva, os direitos


fundamentais na ordem constitucional brasileira estariam limitados àqueles que estão arrolados
no Título II da Carta Magna (art. 5º ao art. 17). Portanto, a presente aula se propõe a apresentar
direitos fundamentais que decorrem do que se entende como cláusula de abertura.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
de que ao final de nossa disciplina você desenvolva competências técnicas específicas para sua
atuação profissional.

Vamos Começar!

A Constituição alberga as opções políticas fundamentais de uma comunidade, portanto se


sujeita às variações temporais e espaciais identificadoras, em cada caso, do povo e da época
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

histórica que visa regular. O fenômeno político está em grande parte normativamente
disciplinado no estatuto constitucional. Como estatuto jurídico do político, a Carta Constitucional
define os princípios políticos estruturantes, estipula a configuração e disposição organizacional
do Estado e do governo, estabelece as atribuições e competências constitucionais dos órgãos de
direção política e determina princípios, formas e processos fundamentais da formação da
vontade política e das tomadas de decisão pelos órgãos político-constitucionais.

Nessa esteira, as normas constitucionais contam com a supremacia no ordenamento jurídico.


Quanto aos direitos humanos, devido à importância que toca a matéria, receberam tratamento
diferenciado pelo poder constituinte, destacando-se a aplicação imediata de seus comandos e a
maior proteção no que concerne à possibilidade de mudanças do seu conteúdo pelos poderes
constituídos.

Além dos direitos expressos no catálogo da Constituição, há outros que decorrem da ação dos
princípios e dos tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Estado brasileiro seja
parte, consoante à previsão expressa no parágrafo 2 do artigo 5º da Carta. Nessa toada, podem
ser apresentados os denominados direitos materialmente fundamentais como sendo aqueles
que são parte integrante da Constituição material, contendo decisões essenciais sobre a
estrutura basilar do Estado e da sociedade e que podem ou não se encontrarem disposto no
texto constitucional sob a designação de direito fundamental.

Assim sendo, a ideia de fundamentalidade material permite: a) a abertura da Constituição a


outros direitos fundamentais não constantes do seu texto (apenas materialmente fundamentais)
ou fora do catálogo, isto é, dispersos, mas com assento na Constituição formal; b) a
aplicabilidade de aspectos do regime jurídico próprio dos direitos fundamentais em sentido
formal a esses direitos apenas materialmente fundamentais.

A indicação do sentido formal e material de um direito fundamental vem consignada por Jorge
Miranda (1991), quando apresenta o seu entendimento de direitos fundamentais. Na ocasião
adverte que todos os direitos fundamentais em sentido formal também o são em sentido
material, contudo existem direitos em sentido material para além dos direitos em sentido formal.
Portanto, os dois sentidos podem não coincidir.

O autor também se preocupa em expor certas dúvidas e objeções levantadas sobre a concepção
de direito fundamental em sentido material, sendo a primeira delas a neutralidade que poderia
supor-se equivalente a um radicalismo aos valores permanentes da pessoa humana. A segunda
sugere que por abarcar uma diversidade de concepções poderia levar a um relativismo inseguro.
A terceira pontua que conceber os direitos fundamentais à mera expressão escrita numa
Constituição de um determinado regime político seria o mesmo que admitir que a não
consagração ou a consagração insatisfatória, ou mesmo a violação sistemática de certos
direitos seria, no mínimo, natural, só porque foram considerados de menor relevância para um
regime político.

Nessa ótica, não faria qualquer diferença acrescentar a um direito a designação de fundamental,
pois esses direitos só seriam fundamentais quando dispostos como tais por um determinado
regime político. Contudo, o autor rebate essas críticas ao afirmar que por serem os direitos
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

fundamentais direitos básicos da pessoa que numa determinada época e lugar constituem o
nível da sua dignidade, eles dependem das filosofias políticas, sociais e econômicas e das
circunstâncias históricas.

O conceito de direitos fundamentais materiais não se reduz apenas aos direitos estabelecidos
pelo poder constituinte, mas são direitos procedentes da ideia de Constituição e de Direito
dominante, do sentimento jurídico coletivo, o que dificilmente tornariam totalmente distanciados
de um respeito pela dignidade da pessoa humana.

Siga em Frente...
Mesmo que a essa ideia ou sentimento correspondesse a uma Constituição material
desfavorável aos direitos das pessoas, o problema não seria tanto dos direitos fundamentais em
si mesmos, mas sim um problema relativo ao caráter do regime político correspondente que tem
assento na questão de sua legitimidade.

Qualificar como direitos fundamentais apenas os direitos em sentido formal seria o mesmo que
abandonar a sua historicidade, pois de pronto se negaria a possibilidade de consagração de
outros direitos que, ao longo do tempo, adquiriram relevância para a sociedade ao ponto de
serem considerados sob o caráter de sua fundamentalidade. Nota-se, a partir das considerações
trazidas até o momento, que o caráter fundamental dos direitos não está diretamente
correlacionado à sua previsão na Constituição.

A partir da análise detida do conteúdo dos direitos fundamentais, torna-se possível a conferência
de sua fundamentalidade material, isto é, da condição de conterem, ou não, decisões
fundamentais sobre a estrutura do Estado e da sociedade, de modo especial, em relação à
posição nestes ocupada pela pessoa humana. Para chegar-se a um conceito adequado
constitucionalmente dos direitos fundamentais, é preciso mensurar que qualquer conceito
genérico e universal somente parece cabível, à medida que aberto, de modo a permitir a sua
constante adaptação à luz do direito constitucional positivo.

Nesse sentido, a noção de direitos fundamentais deve contemplar uma visão inclusiva de todas
as posições jurídicas relacionadas às pessoas, que, do ponto de vista do direito constitucional
positivo foram por seu conteúdo e relevância (fundamentalidade em sentido material) integradas
expressamente ao texto da Constituição e tornadas indisponíveis aos poderes constituídos
(fundamentalidade formal), bem como as que, por sua substância e importância, possam
alcançar-lhes equiparação, tornando-se parte da Constituição material, possuindo, ou não,
assento na Constituição formal (aqui considerada a abertura material do catálogo).

Embora existam normas que não se enquadram nos parâmetros (reconhecidamente empíricos e
elásticos) traçados para a identificação dos direitos materialmente fundamentais e não esteja
em discussão a importância da matéria e a pertinência de sua previsão na Constituição formal
com o objetivo de evitar sua disponibilidade ampla por parte do legislador ordinário, não se
poderá deixar de considerar que incumbe ao constituinte a opção de estender à condição de
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

certas situações (ou posições) que, em sua opinião, devem ser objeto de proteção especial,
compartilhando o regime da fundamentalidade formal e material peculiar dos direitos
fundamentais.

O significado material de direitos fundamentais leva em consideração que são fundamentais


aqueles direitos que apesar de se encontrarem fora do catálogo, por seu conteúdo e sua
importância, podem ser equiparados aos direitos formalmente (e materialmente) fundamentais.
No caso brasileiro, pode-se afirmar que a partir da previsão expressa no art. art. 5º, § 2º da
Constituição de 1988, consagra a abertura a outros direitos não expressamente referidos no
texto constitucional.

Vamos Exercitar?

O princípio da abertura material do catálogo dos direitos fundamentais da Constituição de 1988


está plenamente reconhecido pela jurisprudência pátria. O Supremo Tribunal Federal reconheceu
como fundamentais o direito à observância do princípio da anterioridade tributária na criação de
novos tributos (art. 150, III, "b"), o direito à saúde (art. 196) e o direito ao meio ambiente (art.
225).

Portanto, já há uma posição reconhecida pelo "guardião da Constituição" sustentando a


existência de direitos fundamentais fora do catálogo amparados pelo mesmo regime jurídico dos
direitos nele previstos. Nesse sentido, a título ilustrativo, apresenta-se o entendimento firmado
pelo Supremo Tribunal Federal (MS 22.164, Rel. Min. Celso de Mello, DJ 17/11/95) em relação ao
meio ambiente como direito fundamental:

O direito a integridade do meio ambiente — típico direito de terceira geração — constitui


prerrogativa jurídica de titularidade coletiva, refletindo, dentro do processo de afirmação dos
direitos humanos, a expressão significativa de um poder atribuído, não ao indivíduo identificado
em sua singularidade, mas, num sentido verdadeiramente mais abrangente, a própria
coletividade social.

Enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) — que compreendem as


liberdades clássicas, negativas ou formais — realçam o princípio da liberdade e os direitos de
segunda geração (direitos econômicos, sociais e culturais) — que se identificam com as
liberdades positivas, reais ou concretas — acentuam o princípio da igualdade, os direitos de
terceira geração, que materializam poderes de titularidade coletiva atribuídos genericamente a
todas as formações sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um momento
importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos humanos,
caracterizados, enquanto valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial
inexauribilidade.

Como se vê, os direitos e as garantias amparados na norma ampla do art. 5º, § 2º têm existência
assegurada no universo constitucional, caracterizados pelo regime ou sistema dos direitos
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

fundamentais, pelo regime ou princípios adotados pela Constituição ou pelos tratados


internacionais firmados.

Cumpre ao intérprete descobri-los em cada caso e descrevê-los na sua essência, na sua


densidade, na sua dinâmica e abrangência no sistema constitucional, concretizando a sua
integração no ordenamento jurídico.

Quando se toma por base a distinção entre direito fundamental formal e material no direito
constitucional brasileiro, deve-se considerar a adesão a determinados valores e princípios que
não são precisamente dependentes do constituinte, mas também respaldados na ideia
dominante de Constituição e no senso jurídico coletivo.

Uma vez que os direitos fundamentais expressamente garantidos são justificáveis pela só
referência ao texto constitucional que os estipulam, os direitos materiais, não formalizados, têm
no art. 5º, §2º sua justificação. Ocorre a adstrição dos direitos materiais como normas de direito
fundamental a partir de uma fundamentação correta que demonstra que eles atendem às
exigências de dignidade, liberdade e igualdade, além de levarem em conta as condições
disciplinadas no dispositivo mencionado é básico para o reconhecimento desses direitos como
fundamentais, que não contrariem o regime e os princípios adotados pela Constituição.

Em relação aos direitos decorrentes dos tratados internacionais em que a República Federativa
do Brasil seja parte, a solução está no fato de, nos próprios tratados, já se acharem escritas as
disposições que contêm as normas de direito fundamental. A cláusula de abertura ou da não
tipicidade (art. 5º, §2º) possui um amplo alcance, podendo incluir as diferentes modalidades de
direitos fundamentais (como o meio ambiente), independente da condição de serem direitos de
caráter defensivo ou prestacional.

Saiba mais
Na obra A abertura constitucional a novos direitos fundamentais, as autoras tratam dos direitos
fundamentais a partir da cláusula de abertura constitucional considerando sua amplitude e,
portanto, inviabilidade de discussão singular. A complexidade deste debate destaca pontos de
compreensão e caracterização dos direitos fundamentais não aplicados no texto constitucional
que tenham sido considerados no campo dos direitos fundamentais. Dito isso, aponto a
necessidade de reconhecimento dessas questões e sugiro a leitura que segue.

Referências

ALEXY, R. Teoria de los derechos fundamentales. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales,


1993.

ÁVILA, H. Teoria dos princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 2. ed. São
Paulo: Malheiros, 2003.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

BOBBIO, N. Teoria do ordenamento jurídico. 7. ed. Brasília: UNB, 1996.

CANARIS, C. W. Pensamento sistemático e conceito de sistema na ciência do Direito. 2. ed.


Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996.

CANOTILHO, J. J. G. Direito constitucional e teoria da Constituição. 2. ed. Coimbra: Almedina,


1998.

DWORKIN, R. Levando os direitos a sério. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

EMERIQUE, L. M. B.; GOMES, A. M. M.; SÁ, C. F. A abertura constitucional a novos direitos


fundamentais. Revista da Faculdade de Direito de Campos, ano VII, nº 8, junho, 2006. Disponível
em: [Link] Acesso em: 1 nov. 2023.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

LARENZ, K. Metodologia na ciência do direito. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,


1989.

MIRANDA, J. Manual de direito constitucional. T. II. Coimbra: Coimbra Editora, 1991.

Aula 4
Os Tratados Internacionais De Direitos Humanos No Brasil

Os tratados internacionais de Direitos Humanos no Brasil

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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Ponto de Partida

Olá, estudante!

Ao celebrar um tratado internacional de direitos humanos o Estado assume vários deveres, posto
que os dispositivos que estão concebidos no referido documento internacional alcançam
pessoas e/ou grupos de pessoas. Céticos, que não acreditam nos direitos humanos, comumente
perguntam quais seriam as razões para que o Estado viesse a assumir obrigações, às vezes tão
complexas, no plano das relações internacionais. Quais seriam os “lucros”?

Tem sido apresentado alguns aspectos interessantes para “justificar” a assunção de


compromissos no plano internacional e no plano doméstico em matéria de direitos humanos. A
começar pelo denominado “processo de internacionalização dos direitos humanos”, que decorre
principalmente das barbáries praticadas por ocasião da Segunda Grande Guerra Mundial.

Outro fator que tem sido apontado corresponde à vontade de muitos governos na aquisição de
legitimidade política no campo internacional e, por consequência, o distanciamento de práticas
atentatórias aos direitos humanos aplicadas no passado. Ademais, não se pode olvidar dos
movimentos sociais, universidades, pesquisadores e outros segmentos que desenvolvem
trabalho profícuo na promoção e proteção dos direitos humanos, em razão do quadro de penúria
social que muitos ainda se encontram.

Nesse sentido, a compreensão e o estudo dos tratados de direitos humanos se apresentam


como matéria relevante em face da disposição expressa no texto constitucional, notadamente
nos parágrafos 2 e 3 do artigo 5º da Carta Magna.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
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Vamos Começar!

Tratado é um termo genérico que pode servir para designar um acordo entre dois ou mais
Estados para regular um assunto, determinar seus direitos e obrigações, assim como as regras
de conduta que devem seguir, mas em nenhum caso é aplicável a um acordo entre um Estado e
uma pessoa privada. A Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados, de 1969, estabelece no
artigo 2º, a, que “tratado” significa um acordo internacional concluído por escrito entre Estados e
regido pelo Direito Internacional, quer conste de um instrumento único, quer de dois ou mais
instrumentos conexos, qualquer que seja sua denominação específica.

Do conceito anteriormente indicado podem ser sublinhados alguns aspectos importantes


(características), a saber: a) acordo internacional entre Estados; b) celebrado por escrito; c)
regido pelo direito internacional; d) qualquer que seja sua denominação; e) conste de um
instrumento único ou em dois ou mais instrumentos conexos.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Algumas condições também devem ser levadas em consideração para que um tratado
internacional produza efeitos jurídicos, tais como: a capacidade das partes; a habilitação dos
agentes signatários; o consentimento mútuo e o objeto lícito e possível. Em relação ao primeiro
aspecto, capacidade das partes, evidencia-se, como regra geral, que poderão concluir tratados os
Estados (incluído a Santa Sé) e as Organizações Internacionais, conforme estabelece a
Convenção de Viena.

Quanto à habilitação dos agentes signatários de um tratado internacional, ela é realizada por
meio dos “plenos poderes” que conferem aos negociadores o “poder de negociar e concluir” o
tratado, conforme estabelece o artigo 2º, c, da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados.
Trata-se de um documento expedido pela autoridade competente de um Estado, designando uma
ou várias pessoas para representar o Estado na negociação, adoção ou autenticação do texto de
um tratado, para manifestar o consentimento do Estado em obrigar-se por um tratado ou para
praticar qualquer ato relativo a um tratado. Estão dispensados da carta de plenos poderes os
chefes de Estado e de Governo; os Ministros das Relações Exteriores; Chefe de Missão
Diplomática, junto ao Estado em que se encontram acreditados, e o tratado é entre o Estado
acreditante e o acreditado.

Em relação ao objeto lícito e possível, em conformidade com o artigo 53 da Convenção de Viena


sobre o Direito dos Tratados, “é nulo o tratado que, no momento de sua conclusão, conflita com
uma norma imperativa de direito internacional geral”. Para os fins da presente Convenção, uma
norma imperativa de direito internacional geral é uma norma aceita e reconhecida pela
comunidade internacional dos Estados no seu conjunto, como norma da qual nenhuma
derrogação é permitida e que só pode ser modificada por nova norma de Direito Internacional
geral da mesma natureza É impreterível o consentimento dos pactuantes, dado que o tratado
nada mais é que um acordo de vontades. A anuência deve ser isenta de vícios, pois o erro, o dolo,
a corrupção e a coação deterioram o assentimento do Estado.

Os tratados internacionais são constituídos geralmente por duas partes: o preâmbulo e a parte
dispositiva, mas poderão apresentar uma terceira parte, que são os anexos. O preâmbulo contém
geralmente um enunciado das finalidades do tratado e a enumeração das partes contratantes. A
parte dispositiva é redigida sob a forma de artigos, sendo que nela estão fixados os direitos e
deveres das partes contratantes. Para que o tratado internacional seja realizado, são observadas
fases ou etapas, quais sejam, negociação, redação do texto, assinatura, ratificação, promulgação,
publicação e registro.

A negociação corresponde à etapa em que os Estados discutem seus interesses e estabelecem


o conteúdo do tratado. O artigo 7 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, de 1969,
apresenta quais são as pessoas que estão investidas de plenos poderes e que poderão participar
da fase de negociação de um tratado internacional. A negociação pode ser feita diretamente de
governo a governo ou por meio dos plenipotenciários, culminando com a redação do texto de um
tratado internacional, que normalmente é redigido em forma de artigos.

Siga em Frente...
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Após a observância da etapa da negociação, ocasião em que os plenipotenciários possuem a


oportunidade de se manifestarem sobre os pontos de vista dos Estados que estavam
representando, chega-se o momento para redigir o texto do tratado internacional. Nesse ponto,
são observados aspectos de natureza geral, como a identificação dos Estados que estão
pactuando sobre a matéria, a exposição de motivos, bem como os objetivos a serem alcançados
pelos Estados signatários.

Em seguida à redação do texto, os agentes envolvidos precisam assinar o documento para


garantir a autenticidade dele, conforme estabelece o artigo 10 da Convenção de Viena:

O texto de um tratado é considerado autêntico e definitivo: a) mediante o processo previsto no


texto ou acordado pelos Estados que participam da sua elaboração; ou b) na ausência de tal
processo, pela assinatura, assinatura ad referendum ou rubrica, pelos representantes desses
Estados, do texto do tratado ou da Ata Final da Conferência que incorporar o referido texto.

Na sequência, ocorre a ratificação, considerada a fase mais importante do processo de


conclusão dos tratados, pois confirma a assinatura e dá validade a ele, conforme preceitua o
artigo 14 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. Essa etapa leva em conta a
previsão correspondente no plano doméstico de cada Estado.

No Brasil, é realizada pelo Poder Executivo com o ad referendum do Congresso Nacional,


conforme estabelece o art. 84, VIII, combinado com o art. 49, I, da Constituição Federal. Após,
ocorre a promulgação, que é o ato jurídico, de natureza interna, pelo qual o governo de um Estado
afirma ou atesta a existência de um tratado por ele celebrado e o preenchimento das
formalidades exigidas para sua conclusão e, além disso, ordena sua execução dentro dos limites
aos quais se estende a competência estatal. Ela ocorre normalmente após a troca ou o depósito
dos instrumentos de ratificação e estabelece a vigência do tratado no âmbito interno do Estado.

Por fim, a publicação, como sendo a condição necessária para que o tratado seja aplicado na
ordem interna do Estado. Publica-se no Diário Oficial da União o texto do tratado e o decreto
presidencial. Há ainda a etapa relativa ao registro, requisito estabelecido na Carta da
Organização das Nações Unidas, que tem por escopo fazer com que o Estado que celebrou o
tratado internacional possa invocar para si, junto à organização, os benefícios do acordo
celebrado.

Vamos Exercitar?
Apresentados os aspectos necessários para compreensão do que são tratados internacionais,
chega-se o momento de verificar a hierarquia normativa deles ao serem incorporados no plano
interno brasileiro, notadamente os que versam sobre direitos humanos.

Impende assinalar que muito embora existam quatro correntes doutrinárias, conforme assentado
em outra oportunidade (Guerra, 2022), sobre a incorporação dos tratados internacionais na
ordem jurídica interna (natureza supranacional, natureza constitucional, natureza de lei ordinária
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

e caráter supralegal), serão abordadas no presente estudo apenas as que estão voltadas aos
direitos humanos, quais sejam de natureza constitucional e supra legal.

Conforme apresentado ao longo deste curso, o legislador constituinte brasileiro, ao elaborar a


Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, atribuiu grande importância aos estudos
voltados aos direitos humanos. Neste caso em particular, que ganha relevo os tratados
internacionais de direitos humanos incorporados ao plano interno, vale destacar a previsão
expressa no artigo 5º, parágrafos 2º e 3º da Carta de 1988, in verbis:

§ 2º Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do


regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República
Federativa do Brasil seja parte.

§ 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em


cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos
membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.

Preliminarmente, importante registrar que o artigo 5º, § 2º e 3º da Constituição de 1988 consiste


no acréscimo ao elenco dos direitos constitucionalmente consagrados, dos direitos e garantias
expressos em tratados internacionais sobre proteção internacional dos direitos humanos em que
o Brasil é parte. Reafirma-se que a Constituição brasileira de 1988 dispensa tratamento
privilegiado aos tratados de direitos humanos onde a pessoa humana passa a ocupar posição
central, sendo certo que a incorporação das normas internacionais de direitos humanos no
direito interno constitui-se fundamental e de alta prioridade.

Ao fazer a interpretação da Constituição, entende-se, nesta corrente – natureza constitucional –,


que poderão ser incorporados novos direitos fundamentais a partir do momento em que o Brasil
tenha ratificado os citados documentos internacionais sobre direitos humanos e, com a inserção
do § 3º do art. 5º, não restam dúvidas de que se encerrou por definitivo as controvérsias
jurisprudenciais e doutrinárias sobre a natureza constitucional dos tratados internacionais de
direitos humanos.

Quanto à natureza supralegal, evidencia-se que a teoria foi concebida no Brasil, no Supremo
Tribunal Federal, em sessão realizada no dia 29 de março de 2000, com o voto do Ministro
Sepúlveda Pertence, que teorizou sobre a possibilidade de os tratados de direitos humanos, ao
serem incorporados ao ordenamento jurídico brasileiro, terem uma natureza supralegal, ou seja,
como os tratados internacionais não podem afrontar a supremacia da Constituição, os que
versam sobre direitos humanos deveriam ocupar um local especial no ordenamento jurídico
brasileiro, significando dizer que estariam abaixo da Constituição, mas acima das leis ordinárias.
Essa ideia foi concebida no RHC 79.785-RJ.

Saiba mais
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

A proposta do artigo Da prevalência dos tratados de direitos humanos sobre a Constituição é


uma reflexão sobre os tratados de direitos humanos com natureza supraconstitucional, de modo
que você consiga aprimorar os saberes em torno da relação das normas internacionais para com
as normas nacionais. Vamos lá!

Referências

BALMANT, L.; GUERRA, S. Da prevalência dos tratados de direitos humanos sobre a Constituição.
Rev. Jur., Brasília, v. 10, n. 90, Ed. Esp., p. 01-34, abr./maio, 2008. Disponível em:
[Link] Acesso em: 30 out. 2023.

CANÇADO TRINDADE, A. A. Tratado de direito internacional dos direitos humanos. Porto Alegre:
Sérgio Antônio Fabris Editor, 2003.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. Curso de direito internacional público. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

LAFER, C. A internacionalização dos direitos humanos: constituição, racismo e relações


internacionais. São Paulo: Manole, 2005.

PIOVESAN, F. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. São Paulo: Max Limonad,
2002.

RAMOS, A. de C. Teoria geral dos direitos humanos na ordem internacional. Rio de Janeiro:
Renovar, 2005.

Aula 5
Encerramento da Unidade

Videoaula de Encerramento

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Ponto de Chegada
Olá, estudante!

Considerando a competência essência dessa unidade, revisitar os estudos voltados aos direitos
humanos na ordem jurídica brasileira, vamos considerar in casu a matéria que consagra os
direitos fundamentais previstos no Título II da Constituição Federal de 1988, bem como os
pontos relativos ao estudo dos princípios e tratados internacionais de direitos humanos que são
internalizados.

Assim, foram contemplados os estudos relativos aos princípios fundamentais insculpidos na


Carta de 1988, notadamente os artigos 1º, 3º e 4º dispostos no Título I do referido diploma legal
que guardam relações estreitas com a dignidade da pessoa humana, que se apresenta como
princípio e fundamento para o Estado Democrático de Direito; a construção de uma sociedade
ancorada na justiça social; e a prevalência dos direitos humanos.

Foram abordados pontos relativos aos fundamentos, objetivos e princípios internacionais que
regem a República Federativa do Brasil por meio da previsão consagrada na ordem
constitucional e também aspectos assentados pela doutrina sobre os direitos fundamentais e
suas características.

O estudo sobre a cláusula de abertura também se tornou importante por trazer aspectos que
estão relacionados à supremacia da Constituição e, particularmente, sobre os direitos
fundamentais derivados da ação dos princípios e dos tratados internacionais de direitos
humanos, previstos no artigo 5º, parágrafo 2º da Constituição Federal, oportunidade em que
foram conceituados e caracterizados os denominados direitos materialmente fundamentais.

Finalmente, foram apresentados importantes elementos sobre os Tratados internacionais, que


correspondem às condições de validade e fases, para na sequência identificar o status dos
tratados de direitos humanos que são incorporados à ordem interna brasileira, consoante
previsão dos parágrafos 2º e 3º do artigo 5º da Constituição Federal.

Indubitavelmente que ao compreender os conteúdos mencionados, você será capaz de se


debruçar de maneira satisfatória, não apenas no estudo de caso a ser realizado, mas também em
outros que versem sobre a proteção internacional do indivíduo.
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

É Hora de Praticar!

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Olá, estudante!
É hora de colocar em prática os conhecimentos auferidos por ocasião dos estudos colhidos
nesta Unidade do presente curso. Para tanto, apresento um interessante caso que envolve o
estudo sobre direitos fundamentais. O direito de propriedade, expressos no Título II da Carta
Magna, notadamente no artigo 5º, e o consequente interesse de seu proprietário em usá-la sem
sofrer qualquer tipo de restrição.
O cidadão José da Silva adquiriu uma fazenda, em meados da década de 1990, situada em uma
região montanhosa, possuindo uma casa, na qual passa os fins de semana com a família, e uma
plantação de café nos topos dos morros. Ocorre que, diante da escassez de água que vem se
verificando na região, o órgão ambiental iniciou uma forte fiscalização, autuando os responsáveis
por infrações administrativas, bem como notificando os proprietários rurais a reflorestar as
vegetações situadas em áreas de preservação permanente e reserva legal.
José foi notificado a reflorestar justamente a área da fazenda que vem utilizando para a
plantação de café.
Inconformado com tal ato, José pretende não se responsabilizar pelo replantio da área, pois o
direito fundamental à propriedade está consagrado na Constituição Federal no artigo 5º, inciso
XXII e, portanto, poderá usá-la conforme lhe convém.
Pergunta-se:

a. José possuí razão?


b. Os princípios são considerados normas jurídicas?
c. O meio ambiente, que não está consagrado no Título II da CF, apresenta-se como direito
fundamental? Justifique.

Como os princípios fundamentais da Constituição de 1988 refletem a dignidade da pessoa


humana e a justiça social? Como esses princípios são aplicados na prática e sua relevância
para a justiça social?
Como a cláusula de abertura do artigo 5º, parágrafo 2º, reforça a supremacia da
Constituição e a proteção dos direitos fundamentais? Como essa cláusula reforça a
proteção dos direitos fundamentais através da incorporação de tratados internacionais de
direitos humanos?
Qual é o status dos tratados internacionais de direitos humanos na ordem interna brasileira,
quais são as condições para sua incorporação e qual a sua importância para a proteção
dos direitos humanos no Brasil?
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

a. Não assiste razão ao Sr. José da Silva, pois embora o direito de propriedade se apresenta
como direito fundamental consagrado na Constituição Federal de 1988, no artigo 5º, inciso
que estabelece que “é garantido o direito de propriedade”, evidencia-se que ele não é
absoluto e que pode ser devidamente ponderado; até porque, o inciso XXIII do mesmo
diploma legal prescreve que “a propriedade atenderá a sua função social”.
b. Quanto aos princípios, é possível afirmar que se reconhece a plena eficácia dos princípios
no Direito, definindo-os, ao lado das regras, como normas jurídicas. Servem como
balizamento de todo sistema, produzindo seus efeitos sobre diferentes normas, bem como
auxiliando na elaboração, interpretação e aplicação do ordenamento jurídico. Eles possuem
dimensão de peso, que decorre que a sua aplicação deverá ser analisada de acordo com as
características apresentadas pelo caso concreto. A presença dos requisitos tidos como
necessários para sua aplicação não a garante, tendo em vista que a existência de outros
princípios aplicáveis enseja a ponderação entre eles.
c. Sim, embora não se apresente como um direito formalmente fundamental, imperioso
recordar que o Supremo Tribunal Federal o reconheceu como tal, conforme o MS 22.164,
Rel. Min. Celso de Mello, DJ 17/11/95. Conforme visto, os direitos e as garantias
amparados na norma ampla do art. 5º, § 2º têm existência assegurada no universo
constitucional, caracterizados pelo regime ou sistema dos direitos fundamentais, pelo
regime ou princípios adotados pela Constituição ou pelos tratados internacionais firmados.
Cumpre ao intérprete descobri-los em cada caso e descrevê-los na sua essência, na sua
densidade, na sua dinâmica e abrangência no sistema constitucional, concretizando a sua
integração no ordenamento jurídico.

Quando se toma por base a distinção entre direito fundamental formal e material no direito
interno, tem a necessidade de considerar uma adesão a determinados valores e princípios que
não são precisamente dependentes do constituinte, mas também respaldados na ideia
dominante de Constituição e no senso jurídico coletivo. Uma vez que os direitos fundamentais
expressamente garantidos são justificáveis pela só referência ao texto constitucional que os
estipulam, os direitos materiais, não formalizados, têm no art. 5º, § 2º sua justificação. Ocorre a
adscrição dos direitos materiais como normas de direito fundamental a partir de uma
fundamentação correta que demonstra que eles atendem às exigências de dignidade, liberdade e
igualdade, além de levarem em conta as condições disciplinadas no dispositivo mencionado é
básico para o reconhecimento desses direitos como fundamentais, que não contrariem o regime
e os princípios adotados pela Constituição.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

ALEXY, R. Teoria de los derechos fundamentales. Madrid: Centro de estudios políticos y


constitucionales, 1996.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.


GUERRA, S. Hermenêutica, ponderação e colisão de direitos fundamentais. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2007.
,

Unidade 4
Direitos Humanos Das Minorias E Grupos Vulneráveis

Aula 1
Grupos Vulneráveis: Aspectos Conceituais, A Discriminação Racial E Povos Indigenas

Grupos vulneráveis: aspectos conceituais, a discriminação racial e povos


indígenas

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Bons estudos!

Ponto de Partida

Olá, estudante!

A discussão sobre direitos humanos cada vez mais ocupa espaço no cenário nacional e
internacional e nas narrativas contemporâneas desempenha papel frequentemente associado ao
fundamento para legitimação dos processos político-sociais.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Os direitos humanos são faculdades que o direito atribui a pessoas e aos grupos sociais,
expressão de suas necessidades relativas à vida, liberdade, igualdade, participação política,
social ou a qualquer outro aspecto fundamental que afete o desenvolvimento integral das
pessoas em uma comunidade de pessoas livres, exigindo o respeito ou a atuação das demais
pessoas, dos grupos sociais e do Estado, e com garantia dos poderes públicos para restabelecer
seu exercício em caso de violação ou para realizar sua prestação.

É exatamente nessa moldura que o debate hodierno sobre direitos humanos articula-se em torno
das minorias e dos grupos vulneráveis, enquanto titulares de direitos numa sociedade de feitio
complexo e pluralista.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
de que ao final de nossa disciplina você desenvolva competências técnicas específicas para sua
atuação profissional.

Vamos Começar!
A valorização da dignidade da pessoa humana ganha importância tanto no âmbito do direito
interno dos Estados como no plano internacional. O papel dos direitos humanos na atual
conjuntura demanda a abertura de frentes de estudo que possam articular e arquitetar saberes,
dispostos tanto a auxiliar na compreensão dos fenômenos produzidos no contexto da
complexidade social hodierna como a oferecer um instrumental para a prática e militância dos
atores sociais na área dos direitos humanos e para os operadores jurídicos, que muitas vezes
carecem de referenciais adequados de abordagem.

De fato, pensar os direitos humanos na atualidade consiste em articular uma ótica intrincada e
imbricada de valores, perpassada por contextos que atingem de forma variada certos segmentos
e grupos sociais. O pluralismo é um dos aspectos que caracterizam o modelo de sociedade
democrática brasileira. A diversidade faz parte do meio social em que vivemos e é um elemento
essencial para o desenvolvimento da comunidade. Partindo desse raciocínio, pode-se observar a
importância da proteção das minorias e dos grupos vulneráveis.

As dificuldades em torno do tema podem ser percebidas na própria construção conceitual das
categorias de estudo, em função da adoção de terminologias que ressaltam determinados
pontos da identificação dos grupos ou sujeitos participantes das relações jurídicas aqui sob
exame, pelo emprego tanto do termo minorias como de grupos vulneráveis.

A noção de minoria correlaciona-se mais estritamente ao elemento numérico referente a um


contingente inferior de pessoas, o que de certa forma pode ser uma caracterização reducionista,
tendo em vista que nos dias de hoje não cabe estabelecer uma divisão com base apenas no
aspecto quantitativo, principalmente porque geraria impasses em relação a grupos que muitas
vezes são socialmente discriminados ou marginalizados, embora não correspondam
estritamente a um grupo inferior numericamente – por exemplo, as mulheres, as crianças, as
pessoas idosas.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Muito embora exista uma confusão conceitual entre minorias e grupos vulneráveis, cumpre
mencionar que a primeira categoria se refere a sujeitos que ocupam posição de não dominância
no país ou grupo social no qual vivem, enquanto os grupos vulneráveis constituem-se num
contingente numericamente expressivo, como as mulheres, crianças e pessoas idosas. Para
efeito deste estudo, a diferenciação conceitual não será levada em consideração de maneira
criteriosa; ao contrário, ambas as terminologias serão utilizadas para identificar as categorias a
serem analisadas.

A valorização da dignidade da pessoa humana ganha importância tanto no âmbito do direito


interno dos Estados como no plano internacional. O papel dos direitos humanos na atual
conjuntura demanda a abertura de frentes de estudo que possam articular e arquitetar saberes,
dispostos tanto a auxiliar na compreensão dos fenômenos produzidos no contexto da
complexidade social hodierna como a oferecer um instrumental para a prática e militância dos
atores sociais na área dos direitos humanos e para os operadores jurídicos, que muitas vezes
carecem de referenciais adequados de abordagem.

Siga em Frente...

De fato, pensar os direitos humanos na atualidade consiste em articular uma ótica intrincada e
imbricada de valores, perpassada por contextos que atingem de forma variada certos segmentos
e grupos sociais. O pluralismo é um dos aspectos que caracterizam o modelo de sociedade
democrática brasileira. A diversidade faz parte do meio social em que vivemos e é um elemento
essencial para o desenvolvimento da comunidade. Partindo desse raciocínio, pode-se observar a
importância da proteção das minorias e grupos vulneráveis.

As dificuldades em torno do tema podem ser percebidas na própria construção conceitual das
categorias de estudo, em função da adoção de terminologias que ressaltam determinados
pontos da identificação dos grupos ou sujeitos participantes das relações jurídicas aqui sob
exame, pelo emprego tanto do termo minorias como de grupos vulneráveis.

A noção de minoria correlaciona-se mais estritamente ao elemento numérico referente a um


contingente inferior de pessoas, o que de certa forma pode ser uma caracterização reducionista,
tendo em vista que nos dias de hoje não cabe estabelecer uma divisão com base apenas no
aspecto quantitativo, principalmente porque geraria impasses em relação a grupos que muitas
vezes são socialmente discriminados ou marginalizados, embora não correspondam
estritamente a um grupo inferior numericamente – por exemplo, as mulheres, crianças e pessoas
idosas.

Muito embora exista uma confusão conceitual entre minorias e grupos vulneráveis, cumpre
mencionar que a primeira categoria se refere a sujeitos que ocupam posição de não dominância
no país ou grupo social no qual vivem. Enquanto os grupos vulneráveis constituem-se num
contingente numericamente expressivo, como mulheres, crianças e pessoas idosas. Para efeito
deste estudo, a diferenciação conceitual não será levada em consideração de maneira criteriosa;
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

ao contrário, ambas as terminologias serão utilizadas para identificar as categorias a serem


analisadas.

Nesta aula serão contemplados os estudos sobre os povos indígenas e também questões que
ainda afligem o Brasil e várias outros Estados nacionais: a discriminação racial. Em relação aos
povos indígenas, após longos anos de injustiças, discriminação, vilipêndio de direitos,
enfrentamentos para a manutenção de suas culturas, tradições, língua, crenças, espiritualidade
acabaram por obter o reconhecimento por parte das Nações Unidas, por meio da Declaração
sobre Direitos dos Povos Indígenas, bem como na Carta Magna brasileira, no artigo 231.

Na mesma toada, evidencia-se que o tema relativo à discriminação racial tem sido objeto de
interesse tanto no sistema internacional como no Estado brasileiro. No plano internacional,
importante destacar que a Convenção Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Racial foi adotada em Nova York, tendo sido aberta para assinaturas em 7 de
março de 1966.

Ela está centrada nos propósitos que norteiam a Carta das Nações Unidas, isto é, os princípios
da dignidade e da igualdade, que devem ser observados em todos os seres humanos, sem
qualquer tipo de distinção. No plano interno, evidencia-se que o Brasil vem desenvolvendo uma
série de ações afirmativas para aumentar as possibilidades de alguns grupos que
tradicionalmente ficaram afastados das oportunidades patrocinadas a outros segmentos
sociais.

Vamos Exercitar?

No curso do século XX, com o desenvolvimento da proteção internacional dos direitos humanos,
organizações indígenas intensificaram as reivindicações com relação aos direitos dos povos
indígenas. No Relatório da Corte Interamericana de Direitos Humanos é possível observar que o
direito ao reconhecimento da personalidade jurídica pelo Estado é uma das medidas especiais
que devem ser proporcionadas aos grupos indígenas e tribais, a fim de garantir que possam
gozar de seus territórios de acordo com suas tradições. Enfatizou que essa é a consequência
natural do reconhecimento do direito dos membros dos grupos indígenas e tribais a gozar de
certos direitos de forma comunitária.

No plano nacional, conforme dados do IBGE (2021), verifica-se que a população brasileira é de
213.373.222 milhões de pessoas, sendo constituída por apenas 817.963 mil indígenas, de 305
diferentes etnias. Necessária, portanto, a proteção especial para esse grupo de pessoas, com
resultados práticos no âmbito do legislativo, como se depreende, por exemplo, do artigo 231 da
Constituição da República ao proclamar que “são reconhecidos aos índios sua organização
social, costumes, línguas, crenças e tradições e os direitos originários sobre as terras que
tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os
seus bens”; ao Poder Executivo, ao promover políticas públicas em face dos povos indígenas,
como no período do Covid-19, quando foram deflagradas ações emergenciais para
enfrentamento à pandemia provocada pelo novo coronavírus, a pedido do Ministério da Saúde; e
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

ao Poder Judiciário, como na emblemática decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal ao
julgar a Pet. nº 3.388, pela demarcação contínua da área de 1,7 milhão de hectares da Reserva
Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, a ser ocupada apenas por grupos indígenas.

Por ação afirmativa entende-se o conjunto de medidas e mecanismos destinados a corrigir


desigualdades e efeitos diretos e indiretos de práticas discriminatórias que incidem no indivíduo
ou em grupos coletivos por razão de raça, cor, etnia, gênero, opção religiosa, criando obstáculos
ou cristalizando barreiras culturais, sociais ou econômicas, ainda que indiretamente, ao acesso
ao crescimento sociopolítico e econômico e ao desenvolvimento humano.

É toda e qualquer prática de governo, órgãos públicos, empresas privadas ou instituições de


ensino que tenha por finalidade eliminar ou reduzir desigualdades, vindas de discriminações
baseadas em questões raciais ou de gênero. Nesse particular, o Brasil vem desenvolvendo uma
série de ações afirmativas e política de cotas para minimizar os problemas anteriormente
indicados.

Pode-se citar, a título ilustrativo, o funcionamento da Secretaria Nacional de Políticas de


Promoção da Igualdade Racial (Seppir), cujas finalidades são: formulação, coordenação e
articulação de políticas e diretrizes para a promoção da igualdade racial; formulação,
coordenação e avaliação das políticas públicas afirmativas de promoção da igualdade e da
proteção dos direitos de indivíduos e grupos étnicos, com ênfase na população negra, afetados
por discriminação racial e demais formas de intolerância; articulação, promoção e
acompanhamento da execução dos programas de cooperação com organismos nacionais e
internacionais, públicos e privados, voltados à implementação da promoção da igualdade racial;
coordenação e acompanhamento das políticas transversais de governo para a promoção da
igualdade racial; planejamento, coordenação da execução e avaliação do Programa Nacional de
Ações Afirmativas; acompanhamento da implementação de legislação de ação afirmativa e
definição de ações públicas que visem o cumprimento de acordos, convenções e outros
instrumentos congêneres assinados pelo Brasil, nos aspectos relativos à promoção da igualdade
e combate à discriminação racial ou étnica.

Saiba mais

A proposta de recomendação de leitura do artigo Minorias e grupos vulneráveis: a questão


terminológica como fator preponderante para uma real inclusão social é para clarificação e
diferenciação dos conceitos de minorias e grupos vulneráveis. Assim, realize a leitura tendo esse
princípio como norteador do processo.

Referências
GOMES, J. B. B. A recepção da ação afirmativa no direito constitucional brasileiro. Revista de
Informação Legislativa, Brasília: Senado Federal, ano 38, n. 151, p. 147, jul.-set. 2001.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

GUERRA, S.; EMERIQUE, L. Direitos das minorias e grupos vulneráveis. Ijuí: Ed. Unijuí, 2008.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. Direitos humanos na ordem jurídica internacional e reflexos na ordem constitucional


brasileira. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2014.

RELATÓRIO Anual da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Disponível em:


[Link]

ROCHA, C. L. A. Ação afirmativa: o conteúdo democrático do princípio da igualdade jurídica.


Revista Trimestral de Direito Público. São Paulo: Malheiros, 1996.

SIQUEIRA, D. P.; CASTRO, L. R. B. Minorias e grupos vulneráveis: a questão terminológica como


fator preponderante para uma real inclusão social. Revista direitos sociais e políticas públicas
(UNIFAFIBE), v. 5, n. 1, p. 105-122, 2017.

Aula 2
LGBTQIA + E Mulheres

LGBTQIA + e mulheres

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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Ponto de Partida

Olá, estudante!

Nesta temática que envolve os grupos vulneráveis, ganha relevo duas categorias de pessoas que
merecem, a exemplo de outras, tratamento diferenciado e destaque em debate. Trata-se do
estudo que envolve as mulheres, no âmbito da percepção do gênero biológico, e o coletivo
LGTBQIA+.

Levando-se em consideração, num plano geral das garantias políticas das minorias, a questão de
orientação sexual no Brasil, no que tange à proteção do grupo LGTBQIA+, trata-se de um
elemento relativamente novo quanto ao desenvolvimento de políticas públicas
antidiscriminatórias.

Em relação à tutela em favor das mulheres, evidencia-se o alargamento de normas jurídicas no


plano doméstico em sintonia com o sistema internacional. Este será o ponto desta aula.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
de que ao final de nossa disciplina você desenvolva competências técnicas específicas para sua
atuação profissional.

Vamos Começar!
Inicialmente, quando se estabeleceu a necessidade de fomentar proteção a pessoas integrantes
desse grupo, a ideia alcançava apenas os gays, as lésbicas e os simpatizantes, sendo, por isso
mesmo, apresentados como pessoas pertencentes ao grupo GLS. Não se tratava de nenhum tipo
de exagero ou modismo estabelecer mecanismos próprios de proteção aos aludidos indivíduos,
haja vista que eram (e ainda são) vítimas de preconceitos, violências físicas e morais.

Com o passar do tempo e consequente fortalecimento da categoria de indivíduos, o grupo


passou a abarcar outros que igualmente são vítimas de segregação: os bissexuais, os travestis,
os transexuais, os transgêneros e, atualmente, alcança todas as orientações sexuais minoritárias
e manifestações de identidade de gênero divergentes do sexo designado pelo nascimento.
Atualmente, o movimento político e social que defende a diversidade e busca mais
representatividade e direitos para essa população passou a utilizar a sigla LGBTQIA+.

O seu nome demonstra a sua luta por mais igualdade e respeito à diversidade. Cada letra
representa um grupo de pessoas. O significado da sigla LGBTQIA+: L = Lésbicas – são mulheres
que sentem atração afetiva/sexual pelo mesmo gênero, ou seja, outras mulheres. G = Gays – são
homens que sentem atração afetiva/sexual pelo mesmo gênero, ou seja, outros homens. B =
Bissexuais – diz respeito aos homens e mulheres que sentem atração afetivo/sexual pelos
gêneros masculino e feminino.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Ainda segundo o manifesto, a bissexualidade não tem relação direta com poligamia,
promiscuidade, infidelidade ou comportamento sexual inseguro. Esses comportamentos podem
ser tidos por quaisquer pessoas, de quaisquer orientações sexuais. T = Transgênero –
diferentemente das letras anteriores, o T não se refere a uma orientação sexual, mas a
identidades de gênero. Também chamadas de “pessoas trans”, elas podem ser transgênero
(homem ou mulher), travesti (identidade feminina) ou pessoa não binária, que se compreende
além da divisão “homem e mulher”.

Q = Queer – pessoas com o gênero queer são aquelas que transitam entre as noções de gênero,
como é o caso das drag queens. A teoria queer defende que a orientação sexual e identidade de
gênero não são resultado da funcionalidade biológica, mas de uma construção social. I =
Intersexo – a pessoa intersexo está entre o feminino e o masculino. As suas combinações
biológicas e desenvolvimento corporal – cromossomos, genitais, hormônios, etc. – não se
enquadram na norma binária (masculino ou feminino). A = Assexual – não sentem atração
sexual por outras pessoas, independentemente do gênero.

Existem diferentes níveis de assexualidade e é comum essas pessoas não verem as relações
sexuais humanas como prioridade. Por fim, o símbolo de “mais” no final da sigla aparece para
incluir outras identidades de gênero e orientações sexuais que não se encaixam no padrão cis-
heteronormativo, mas que não aparecem em destaque antes do símbolo.

Siga em Frente...

Quanto às mulheres, é possível inferir que ao longo dos anos foram vítimas de abusos,
atrocidades e violências diversas. No passado a condição jurídica da mulher em várias partes do
mundo era lamentável (infelizmente esse quadro negativo ainda se apresenta em alguns países).
Em determinados lugares a mulher chegou a ser vista como coisa e instrumento de deleite
masculino. É bem verdade que vários problemas ainda persistem em relação às mulheres,
mesmo com as ações patrocinadas no plano das Nações Unidas e também no plano doméstico.

A luta pelo respeito aos direitos das pessoas LGBT no mundo já tem uma história e a orientação
sexual foi reconhecida teoricamente como uma componente fundamental da vida privada de
cada indivíduo, que deve ser livre de interferências arbitrárias e abusivas por parte de autoridades
públicas. No Brasil, a matéria ganha força a partir da Primeira Conferência Nacional de Lésbicas,
Gays, Travestis e Transexuais, realizada em Brasília, entre 5 e 8 de junho de 2008. Naquela
oportunidade foi produzido o relatório que serviu de espeque para o desenvolvimento de diversas
políticas públicas em favor da categoria, sendo, por isso mesmo, considerado um grande marco
na luta pela Cidadania e pelos Direitos Humanos da população LGBT.

A Conferência teve como tema “Direitos Humanos e Políticas Públicas: o caminho para garantir a
cidadania de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais”, sendo precedida de
conferências estaduais em todas as unidades da federação e incontáveis reuniões preparatórias
de âmbito municipal ou regional. O evento contou com grande participação popular e integrou a
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

agenda desenvolvida no Brasil para comemorar, à época, os 60 anos da Declaração Universal dos
Direitos Humanos.

A proposta era de que todos os conteúdos debatidos fossem transformados em subsídios no


processo de revisão e atualização do Programa Nacional de Direitos Humanos, cujos temas
discutidos e aprofundados nos grupos de trabalho da Conferência LGBT resultaram nas
deliberações e moções que se encontram no relatório. Evidencia-se o esforço do governo e da
sociedade civil na busca de políticas públicas que consigam responder às necessidades,
potencialidades e direitos da população envolvida, a partir da implementação do Plano Nacional
de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Transexuais.

Em relação às mulheres, digno de nota, a Convenção sobre a eliminação de todas as formas de


discriminação contra a mulher, adotada em 1979, que registra a grande preocupação de a mulher
continuar sendo vítima de abusos, constrangimentos e discriminações, pois nas condições
anteriormente indicadas, passam por dificuldades para participar da vida política, econômica,
social e cultural de seu país.

Nessa toada, fomenta aos Estados-partes a se comprometerem a desenvolver uma série de


políticas para eliminar a discriminação contra a mulher, tais como: a) consagrar o princípio da
igualdade entre homem e mulher; b) adotar medidas e leis, com sanções pertinentes, que
proíbam qualquer tipo de discriminação contra a mulher; c) garantir a proteção jurídica efetiva
contra a mulher; d) abster-se de incorrer em todo ato ou prática de discriminação contra a
mulher; e) adotar medidas para que não ocorram discriminações contra a mulher, por quem quer
que seja; f) derrogar leis, inclusive as penais, regulamentos e práticas que constituam
discriminação contra a mulher.

A Constituição brasileira de 1988 erigiu o reconhecimento formal da igualdade entre homens e


mulheres, ao estabelecer no art. 5º que:

todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros
e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade,
à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I – homens e mulheres são iguais em
direitos e obrigações, nos termos desta Constituição.

Vamos Exercitar?

O movimento em favor do reconhecimento do importante papel da mulher na sociedade


brasileira ocorreu pela grande mobilização estabelecida no plano internacional que eclodiu com a
redação da Convenção sobre a eliminação contra todas as formas de discriminação contra a
mulher.

A referida Convenção objetivou o desenvolvimento de políticas públicas voltadas para a mulher,


ou seja, não se trata apenas de buscar mecanismos para que ela não seja discriminada, mas
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

também viabilizar condições para que possa ter maiores oportunidades numa sociedade
tradicionalmente machista, buscando, com isso, a materialização da igualdade entre os sexos.

Significa dizer que as mulheres, a partir do entendimento da Convenção, devem ser titulares de
seus direitos e de suas vontades no mesmo nível que os homens. Em 1993, foi celebrada a
Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher, estabelecendo que a violência
contra a mulher está consubstanciada por qualquer ato de violência baseado no gênero de que
resulte ou possa resultar, inclusive as ameaças de tais atos, coerção ou privação arbitrária da
liberdade, podendo ocorrer na esfera pública ou na esfera privada.

A noção de gênero, que vem expressa no referido texto internacional, pode ser entendida como
construção sociocultural do masculino e do feminino, isto é, são atribuídos papéis diversos para
homens e mulheres em sociedade, estabelecendo direitos e deveres, com estrutura estratificada
e hierarquizada.

No plano doméstico foram sancionadas leis importantes, a exemplo da Lei nº 11.340/2006,


conhecida como “Lei Maria da Penha”, que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e
familiar contra a mulher, dando estrutura aos poderes constituídos para proteger a vítima de
agressões. Digna de destaque também é a Lei nº 12.372/2012, conhecida como Lei Carolina
Dickman, que dispõe sobre a tipificação criminal de delitos informáticos e altera o Código Penal
brasileiro. Lei nº 12.845/2013, que dispõe sobre o atendimento obrigatório e integral de pessoas
em situação de violência sexual e oferece garantias a vítimas de violência sexual, como
atendimento imediato pelo SUS, amparo médico, psicológico e social, exames preventivos e o
fornecimento de informações sobre os direitos legais das vítimas; Lei nº 13.104/2015, que
alterou o art. 121 do Decreto-Lei nº 2.848/1940 – Código Penal, para prever o feminicídio como
circunstância qualificadora do crime de homicídio, e o art. 1º da Lei nº 8.072/1990, para incluir o
feminicídio no rol dos crimes hediondos; Lei nº 14.132/2021, que ficou conhecida como lei
contra Stalking; Lei nº 14.188/2021, que cria o programa Sinal Vermelho contra a Violência
Doméstica e Familiar; Lei nº 14.192/2021, que estabelece normas para prevenir, reprimir e
combater a violência política contra a mulher e altera a Lei nº 4.737/1965 (Código Eleitoral), a Lei
nº 9.096/1995 (Lei dos Partidos Políticos) e a Lei nº 9.504/1997 (Lei das Eleições), para dispor
sobre os crimes de divulgação de fato ou vídeo com conteúdo inverídico no período de
campanha eleitoral, para criminalizar a violência política contra a mulher e para assegurar a
participação de mulheres em debates eleitorais proporcionalmente ao número de candidatas às
eleições proporcionais; Lei nº 14.245/2021, conhecida como “Lei Mari Ferrer”, que se tornou
vítima de um processo judicial que tomou contornos de violência institucionalizada.

Quanto ao LGBTQIA+ destaca-se o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos


Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, aprovado em 2009, que tem
como base as diretrizes e os preceitos éticos e políticos que visam à garantia dos direitos e do
exercício pleno da cidadania.

Nesse sentido é importante ressaltar que a garantia de gênero, orientação sexual, raça/etnia,
origem social, procedência, nacionalidade, atuação profissional, religião, faixa etária, situação
migratória, especificidades regionais, particularidades da pessoa com deficiência é uma
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

preocupação que perpassa todo o Plano e será levada em conta na implementação de todas as
suas ações.

O Plano contempla, numa perspectiva integrada, a avaliação qualitativa e quantitativa das


propostas aprovadas na Conferência Nacional LGBT, considerando ainda a concepção e
implementação de políticas públicas. Dentre os objetivos a serem alcançados destacam-se:
orientar a construção de políticas públicas de inclusão social e de combate às desigualdades
para a população LGBT, primando pela intersetorialidade e transversalidade na proposição e
implementação dessas políticas; promover os direitos fundamentais da população LGBT
brasileira de inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, dispostos no art. 5º da Constituição Federal; promover os direitos sociais da
população LGBT brasileira, especialmente das pessoas em situação de risco social e exposição à
violência; combater o estigma e a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero.

Saiba mais

A proposta de leitura do trabalho Da invisibilidade à pavimentação dos direitos humanos


LGBTQIA+: um diálogo entre as conquistas históricas e a consolidação de direitos é a
aproximação do tema em torno das conquistas das pessoas LGBTQIA+ da perspectiva dos
chamados novos direitos. Com base em suas concepções iniciais e a partir da leitura, pondere
sobre os avanços alcançados e os ainda necessários no âmbito dos novos direitos.

Referências
BRASIL. Lei nº 14.192, de 04 de agosto de 2021. Estabelece normas para prevenir, reprimir e
combater a violência política contra a mulher; e altera a Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965
(Código Eleitoral), a Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995 (Lei dos Partidos Políticos), e a Lei
nº 9.504, de 30 de setembro de 1997 (Lei das Eleições) [...]. Brasília, 2021. Disponível em:
[Link]
2022/2021/lei/[Link]#:~:text=1%C2%BA%20Esta%20Lei%20estabelece%20normas,os%20c
rimes%20de%20divulga%C3%A7%C3%A3o%20de. Acesso em: 16 jan. 2024.

BRASIL. Lei nº 12.845, de 01 de agosto de 2013. Dispõe sobre o atendimento obrigatório e


integral de pessoas em situação de violência sexual. Brasília, 2013. Disponível em:
[Link]
o%20obrigat%C3%B3rio,em%20situa%C3%A7%C3%A3o%20de%20viol%C3%AAncia%20sexual.&t
ext=POLITICA%20SOCIAL%20. Acesso em: 16 jan. 2024.

BRASIL. Lei nº 13.104, de 9 de março de 2015. Altera o art. 121 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de
dezembro de 1940 - Código Penal, para prever o feminicídio como circunstância qualificadora do
crime de homicídio, e o art. 1º da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990, para incluir o feminicídio
no rol dos crimes hediondos. Brasília, 2015. Disponível em:
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

[Link] Acesso em: 16 jan.


2024.

BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência
doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal [...].
Brasília, 2006. Disponível em: [Link]
2006/2006/lei/[Link]. Acesso em: 16 jan. 2024.

BRASIL. Lei nº 14.245, de 22 de novembro de 2021. Altera os Decretos-Leis nos 2.848, de 7 de


dezembro de 1940 (Código Penal), e 3.689, de 3 de outubro de 1941 (Código de Processo Penal),
e a Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995 (Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais) [...].
Brasília, 2021. Disponível em: [Link]
2022/2021/lei/[Link]. Acesso em: 16 jan. 2024.

BRASIL. Lei nº 12.737, de 30 de novembro de 2012. Dispõe sobre a tipificação criminal de delitos
informáticos; altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal; e dá outras
providências. Brasília, 2012. Disponível em: [Link]
2014/2012/lei/[Link]. Acesso em: 16 jan. 2024.

CUADERNILLO de Jurisprudencia de la Corte Interamericana de Derechos Humanos nº 4:


Derechos Humanos de las Mujeres / Corte Interamericana de Derechos Humanos. San José, C.R:
Corte IDH, 2021.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. Direitos humanos na ordem jurídica internacional e reflexos na ordem constitucional


brasileira. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2014.

GUERRA, S.; EMERIQUE, L. Direitos das minorias e grupos vulneráveis. Ijuí: Ed. Unijuí, 2008.

PEREZ, G. C. A proteção dos direitos LGBTI, um panorama incerto. Revista internacional de


Direitos Humanos SUR, v. 1, n.1, 2004.

SILVA, S. G. Da invisibilidade à pavimentação dos direitos humanos LGBTQIA+: um diálogo entre


as conquistas históricas e a consolidação de direitos: De l'invisibilité au trottoir des droits de
l'homme LGBTQIA+: un dialogue entre acquis historiques et consolidation des droits. Revista
Brasileira de Pesquisas Jurídicas (Brazilian Journal of Law Research), v. 1, n. 2, p. 27-44, 2020.

Aula 3
Crianças, Idosos E Pessoas Com Deficiência

Crianças, idosos e pessoas com deficiência


Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

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Ponto de Partida
Olá, estudante!

Nesta temática que envolve os grupos vulneráveis, trataremos de três categorias de relevante
interesse e grande vulnerabilidade: as crianças, os idosos e as pessoas com deficiência.

Apesar da importância, os avanços normativos na proteção dessas categorias de indivíduos


deram-se de maneira recente, sendo recente o período posterior ao período da ditadura militar.

No caso das crianças, a matéria vai ser contemplada no final da década de 1980, com
desdobramentos no plano doméstico em termos constitucionais e infraconstitucionais. Quanto
aos idosos, observa-se o crescimento da legislação no país, especialmente a partir da tutela
constitucional; por fim, quanto às pessoas com deficiência, evidencia-se que a matéria ganha
amplitude apenas no arvorecer do século XXI.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
de que ao final de nossa disciplina você desenvolva competências técnicas específicas para sua
atuação profissional.

Vamos Começar!

No ano de 1989, após “longa gestação”, as Nações Unidas deram mais um passo significativo
em relação à proteção dos direitos humanos ao conceber a Convenção sobre os Direitos da
Criança. Essa Convenção foi proposta nas celebrações do Ano Internacional da Criança, em
1979, tendo-se aguardado dez anos até que seu texto fosse produzido.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Vários foram os fatores para a demora: questões econômicas, sociais, políticas e culturais; o
papel que a criança deveria ter na sociedade, bem como no seio familiar; idade; etc. Após
dilatada espera, o texto consagra que os Estados se comprometem a proteger as crianças de
todas as formas de discriminação e a assegurar-lhes assistência apropriada. Afirma ainda que as
crianças devem crescer em ambiente familiar, em clima de felicidade, amor e compreensão para
que possam ter um desenvolvimento harmonioso e pleno de sua personalidade.

A Convenção estabelece que criança é todo ser humano menor de 18 anos de idade, salvo se, em
conformidade com a lei aplicável à criança, a maioridade seja alcançada antes. Afirma que para
que os objetivos previstos na Convenção possam ser alcançados é importante os Estados
respeitarem os direitos declarados no documento internacional, assegurando a todas as crianças
sujeitas à jurisdição do Estado, em especial:

a. o direito à vida;
b. o direito a ter uma nacionalidade;
c. o direito à educação;
d. o direito à segurança;
e. o direito à livre circulação;
f. o direito à liberdade de pensamento e consciência;
g. o direito a ter uma religião;
h. o direito à saúde;
i. a proteção de interesses em caso de adoção;
j. a proteção ante a separação dos pais;
k. a proteção contra abuso e exploração sexual;
l. a proteção contra o envolvimento com uso e tráfico de drogas;
m. a proteção contra a exploração econômica.

Quanto à proteção dos direitos das pessoas idosas, pode ser evidenciada na elaboração de
normas jurídicas, bem como de políticas públicas, que são indispensáveis para que tais
indivíduos, que ao longo dos anos contribuíram para o desenvolvimento do país e de suas
famílias, possam gozar de maneira plena dessa nova etapa da vida.

Para tanto, o primeiro passo na formulação desse entendimento corresponde à identificação de


quem é pessoa idosa. Conceituar “pessoa idosa” é a um só tempo um desafio difícil de ser
concretizado com precisão e sujeito a críticas.

Nesse sentido, Anita Liberalesso Neri e Sueli Aparecida Freire muito adequadamente ponderam
que o processo de envelhecimento ocorre diferentemente para as pessoas, dependendo de seu
ritmo e da época de sua vida, pois a velhice não é um período caracterizado só por perdas e
limitações.

Embora aumente a probabilidade de doenças e limitações biológicas, é possível manter e


aprimorar a funcionalidade nas áreas física, cognitiva e afetiva. Mesmo pessoas comuns podem
alcançar alto nível de especialização em domínios selecionados da inteligência, como a memória
e a solução de problemas. Esse fato dificulta estabelecer com precisão um limite etário ou
periodização da velhice, pois existe grande variabilidade individual e social.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Siga em Frente...

Em relação às pessoas com deficiência, observa-se o que preconiza a Convenção sobre Direitos
das Pessoas com Deficiência (CDPD), de 30 de março de 2007, que é considerada um dos
instrumentos mais importantes na proteção de pessoas com deficiência, no âmbito das Nações
Unidas, uma vez que inovou ao “reconhecer que a deficiência é um conceito em evolução e que
resulta da interação dessas pessoas e as barreiras, devido às atitudes e ao ambiente que
impedem a sua plena e efetiva participação na sociedade em igualdade de oportunidades”.

Dispõe que pessoa com deficiência é “aquela que têm impedimento de natureza física,
intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua
participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.
O objetivo da Convenção da ONU para Pessoas com Deficiências é promover, proteger e
assegurar a fruição plena e equitativa de todos os direitos e liberdades fundamentais conferidos
às pessoas com deficiência, tendo como base a promoção e o respeito pela sua dignidade.

O direito interno brasileiro está alinhado com o sistema internacional no que tange à proteção
das crianças, sendo certo afirmar que a partir da Carta de 1988 e dos documentos internacionais
de proteção à criança é que foram desenvolvidas legislações de proteção no plano
infraconstitucional.

O artigo 227 da Constituição Federal estabelece que

é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta


prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de
colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão.

Referido artigo apresenta a ideia de que deve haver integração efetiva entre a família e o Estado
para que haja o desenvolvimento pleno da criança. Frise-se, por oportuno, que o Brasil ratificou a
Convenção sobre os Direitos da Criança, em 1º de novembro de 1990, logo após a criação da Lei
nº 8.069, de 13 de julho do mesmo ano, tendo o Estatuto da Criança e do Adolescente
reproduzido a preocupação que veio expressa no texto constitucional.

Do mesmo modo, é possível destacar a Convenção sobre Direitos das Pessoas com Deficiência
(CDPD), de 30 de março de 2007, que está em vigência internacional desde 2008, é considerada
um dos instrumentos mais importantes na proteção de pessoas com deficiência, no âmbito das
Nações Unidas, uma vez que inovou ao “reconhecer que a deficiência é um conceito em evolução
e que resulta da interação dessas pessoas e as barreiras, devido às atitudes e ao ambiente que
impedem a sua plena e efetiva participação na sociedade em igualdade de oportunidades”.

Além disso, a referida Convenção da ONU também inova por ser instrumento vinculante aos
Estados, sendo certo que no Brasil essa Convenção, junto com seu Protocolo Facultativo, foi
aprovada com equivalência de emenda constitucional (conforme art. 5º, § 3º, da Constituição da
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

República), o que significa que esta irá prevalecer sobre a legislação pátria no que for mais
favorável às pessoas com deficiência, definidas nos termos do artigo 1º da Convenção como
“aquelas que têm impedimentos de natureza física, intelectual ou sensorial, os quais, em
interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade
com as demais pessoas”.

Por fim, quanto às pessoas idosas, evidencia-se que o ordenamento jurídico brasileiro assegura
rol significativo de direitos para pessoas idosas, em conformidade com o que preconiza a Lei nº
14.423/2022, em seu artigo 2º, que estabelece que

a pessoa idosa goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo
da proteção integral de que trata a Lei, ao garantir, por lei ou por outros meios, todas as
oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu
aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade.

Ademais, é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar à


pessoa idosa, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à
educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao
respeito e à convivência familiar e comunitária.

Por oportuno, o judiciário tem reconhecido, em diversas ocasiões, a prioridade conferida às


pessoas idosas, como no SL 504 AgR/DF – Distrito Federal. Ag. Reg. na Suspensão de Liminar.
Relator(a): Min. Cezar Peluso (Presidente). Julgamento: 22-6-2011. Órgão Julgador: Tribunal
Pleno, onde evidencia-se “Execução. Fazenda Pública. Precatório. EC n. 62/2009. Pagamento
preferencial a pessoa idosa e portadores de doenças graves”.

Vamos Exercitar?

Como já acentuado neste estudo, a dignidade da pessoa humana se apresenta como núcleo
fundamentador da ordem jurídica brasileira e baliza as ações que devem ser deflagradas pelo
Estado (executivo, legislativo e judiciário).

Nesse particular, em relação às pessoas com deficiência, para que haja não apenas o
reconhecimento, mas, sobretudo, a inserção delas nas mais diversas atividades, foram editadas
várias normas que buscam dar maior efetividade aos direitos dessa categoria de indivíduos, além
de diversas manifestações por parte do Judiciário, a exemplo do RMS 32732 AgR/DF – DISTRITO
FEDERAL, [Link]. NO RECURSO ORD. EM MANDADO DE SEGURANÇA, que teve como Relator o
Ministro CELSO DE MELLO (Julgamento realizado em 3-6-2014 – Órgão Julgador: Segunda
Turma. - Ementa: CONCURSO PÚBLICO – PESSOA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA – RESERVA
PERCENTUAL DE CARGOS E EMPREGOS PÚBLICOS (CF, ART. 37, VIII) – OCORRÊNCIA, NA
ESPÉCIE, DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS AO RECONHECIMENTO DO DIREITO VINDICADO PELA
PESSOA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA – ATENDIMENTO.
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Do mesmo modo, ao analisar a legislação brasileira e a norma internacional sobre as crianças,


são evidenciadas “felizes coincidências”, como a ideia central que consagra a proteção integral a
elas.

No campo jurisprudencial, vale destacar o RE 482.611/SC – Santa Catarina, que teve como
Relator o Ministro Celso de Mello, cujo julgamento ocorreu em 23 de março de 2010: “Crianças e
adolescentes vítimas de abuso e/ou exploração sexual. Dever de proteção integral à infância e à
juventude. Obrigação constitucional que se impõe ao Poder Público. Programa Sentinela –
Projeto Acorde. Inexecução, pelo Município de Florianópolis/SC, de referido programa de ação
social cujo adimplemento traduz exigência de ordem constitucional. Configuração, no caso, de
típica hipótese de omissão inconstitucional imputável ao Município. Desrespeito à Constituição
provocado por inércia estatal (RTJ 183/818-819). Comportamento que transgrida a autoridade da
Lei Fundamental (RTJ 185/794-796). Impossibilidade de invocação, pelo Poder Público, da
cláusula da reserva do possível sempre que puder resultar, de sua aplicação, comprometimento
do núcleo básico que qualifica o mínimo existencial (RTJ 200/191-197).

Caráter cogente e vinculante das normas constitucionais, inclusive daquelas de conteúdo


programático, que veiculam diretrizes de políticas públicas. Plena legitimidade jurídica do
controle das omissões estatais pelo Poder Judiciário. A colmatação de omissões
inconstitucionais como necessidade institucional fundada em comportamento afirmativo dos
juízes e tribunais e de que resulta uma positiva criação jurisprudencial do direito. Precedentes do
Supremo Tribunal Federal em tema de implementação de políticas públicas delineadas na
Constituição da República (RTJ 174/687 – RTJ 175/1212-1213 – RTJ 199/1219-1220). Recurso
Extraordinário do Ministério Público Estadual conhecido e provido.

Por fim, quanto à pessoa idosa, é possível afirmar que a Lei nº 10.741/2003 (Estatuto da Pessoa
Idosa) é considerada um grande avanço na proteção aos direitos, uma vez que gozam de todos
os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que
trata a mencionada norma. São asseguradas para as pessoas idosas, pela legislação ou por
outros meios, todas as oportunidades e facilidades para a preservação de sua saúde física e
mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e
dignidade.

Saiba mais
Na leitura do artigo Construindo um novo léxico dos direitos humanos: Convenção sobre os
Direitos das Pessoas com Deficiências, será examinada a convenção sobre os direitos das
pessoas com deficiência, tomando-a como instrumento inicial de direitos humanos a entender a
contribuição para a jurisprudência dos direitos da pessoa com deficiência sobre a perspectiva
dos direitos humanos.

Referências
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do


Adolescente e dá outras providências. Brasília, 1990. Disponível em:
[Link] Acesso em: 16 jan. 2024.

BRSIL. Lei nº 14.423, de 22 de julho de 2022. Altera a Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003,
para substituir, em toda a Lei, as expressões “idoso” e “idosos” pelas expressões “pessoa idosa”
e “pessoas idosas”, respectivamente. Brasília, 2022. Disponível em:
[Link]
2022#:~:text=Altera%20a%20Lei%20n%C2%BA%2010.741,%E2%80%9Cpessoas%20idosas%E2%
80%9D%2C%20respectivamente. Acesso em: 16 jan. 2024.

BRASIL. Lei n° 10.741 de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto da Pessoa Idosa e dá outras
providências. Brasília, 2003. Disponível em:
[Link]
%A3o%20dos%20idosos%20em,acesso%20preferencial%20aos%20respectivos%20locais.
Acesso em: 16 jan. 2024.

DHANDA, A. Construindo um novo léxico dos direitos humanos: Convenção sobre os Direitos das
Pessoas com Deficiências. Sur. Revista Internacional de Direitos Humanos, v. 5, p. 42-59, 2008.

FREIRE, A. da S. Direito da criança e do adolescente com transtorno do espectro autista:


diversidade funcional e dignidade. In: GUERRA, S.; GUERRA, C. G. Direitos humanos: uma
abordagem interdisciplinar. Curitiba: Instituto Memória, 2021.

GUERRA, S. Direitos humanos na ordem jurídica internacional e reflexos na ordem constitucional


brasileira. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2014.

GUERRA, S.; EMERIQUE, L. Direitos das minorias e grupos vulneráveis. Ijuí: Ed. Unijuí, 2008.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

ROCHA, S. M. C. Pessoas idosas no mercado de trabalho: garantia de sua dignidade. Salvador:


Geala, 2017.

TSUTSUI, P. F. O novo conceito de pessoa com deficiência. Disponível em:


[Link]
deficiencia,[Link].

Aula 4
Migrações E Refugiados

Migrações e refugiados
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

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Ponto de Partida

Olá, estudante!

O fenômeno migratório não é recente. Ao contrário, data desde os primórdios das civilizações. O
homem primitivo, quando constatava que a terra que lhe dava os meios necessários para o
sustento próprio e dos seus já estava exaurida, procurava em outras regiões novos campos de
abastecimento.

De certo modo, é possível afirmar que tal situação permanece ainda nos dias atuais, posto que o
movimento migratório manifesta-se de forma intensa, especialmente em direção aos países
desenvolvidos.

Tal fato tem provocado manifestações contrárias de vários segmentos da sociedade civil, sendo
certo que isso ocorre de maneira mais acentuada em algumas regiões do planeta, principalmente
em razão da eclosão de guerras civis, problemas étnicos ou religiosos, conflitos armados e
também por questões ambientais.

Convidamos você a construir esses conceitos a partir do reconhecimento teórico proposto, a fim
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Vamos Começar!

A migração contínua e maciça de grande número de pessoas tem produzido sérias


consequências tanto no local de onde provieram como também para o local de chegada.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Todavia, apesar das dificuldades que são observadas, desde a saída até a chegada ao destino
final, o número de refugiados tem aumentado de maneira significativa em vários cantos do
planeta, posto que as pessoas se deslocam com a esperança de se instalar em determinado
Estado, para dar início a uma “nova vida” sem pressões, contratempos, ameaças e sem os
perigos que se manifestavam em seus países de origem.

O instituto do refúgio nos dias atuais abarca várias situações relacionadas a perseguições por
motivos de raça, religião, nacionalidade, opiniões políticas que contrariem os interesses de
grupos à frente de um Estado.

A Convenção relativa ao estatuto dos refugiados de 1951 define refugiado como qualquer
pessoa que: foi considerada refugiada nos termos dos ajustes de 12 de maio de 1926 e de 30 de
junho de 1928, ou das Convenções de 28 de outubro de 1933 e de 10 de fevereiro de 1938, além
do Protocolo de 14 de setembro de 1939, ou ainda da Constituição da Organização Internacional
dos Refugiados; as decisões de inabilitação tomadas pela Organização Internacional dos
Refugiados durante o período do seu mandato não constituem obstáculo a que a qualidade de
refugiados seja reconhecida a pessoas que preencham as condições previstas no § 2º da
presente seção; em consequência dos acontecimentos ocorridos antes de 1º de janeiro de 1951
e temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões
políticas, encontra-se fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse
temor, não quer valer-se da proteção desse país, ou que, se não tem nacionalidade e se encontra
fora do país no qual tinha sua residência habitual em consequência de tais acontecimentos, não
pode ou, devido ao referido temor, não quer voltar a ele; no caso de uma pessoa que tem mais de
uma nacionalidade, a expressão “do país de sua nacionalidade” refere-se a cada um dos países
dos quais ela é nacional. Uma pessoa que, sem razão válida fundada sobre um temor justificado,
não se houver valido da proteção de um dos países de que é nacional, não será considerada
privada da proteção do país de sua nacionalidade.

Impende assinalar que o conceito estabelecido para refugiado, conforme preconiza a Convenção
de 1951, foi alargado em vários momentos, contemplando situações novas e não agasalhadas
pela referida norma internacional, como se depreende da leitura do Protocolo sobre o Estatuto
dos Refugiados, de 1966.

O conceito para o instituto do refúgio não pode ser estático, posto que a definição não se adapta
facilmente à magnitude, escala e natureza de muitos dos atuais conflitos ou situações de
violência que culminam na movimentação de pessoas, evidenciando que o conceito de refugiado
não é e não pode ser considerado estático, tal qual nenhuma norma ou conceito jurídico é.

O Direito é uma expressão constante da experiência social de modo que as normas refletem
comportamentos e fatos sociais e não o contrário, sob risco de ficarem caducas e ineficazes.
Assim, é preciso ter atenção aos casos empíricos que evidenciam que há muitas outras pessoas
deslocadas que não estão incluídas nas atuais definições de refugiado, todavia também não
estão excluídas.

Cite-se aquelas pessoas que deixaram seus países de origem em razão de situações terríveis,
como miséria econômica generalizada, fragilidade democrática e tantas outras formas de
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

violação ou restrição a direitos fundamentais, mas que não são consideradas oficialmente
refugiadas, vez que essas situações não são vislumbradas no regime atual.

Siga em Frente...

Assim pode-se afirmar que o conceito de refugiado se relaciona a todo indivíduo que, em
decorrência de fundados temores de perseguição, seja relacionada à sua raça, religião,
nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política e também por
fenômenos ambientais, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos
temores, não pode ou não quer regressar a ele.

Segundo Talavera e Moyano (2002),

El concepto de refugiado tal como es definido en la Convención y el Protocolo constituye una


base legal apropriada para la protección de los refugiados a través del mundo. Esto no impide la
aplicación de un concepto de refugiado más amplio. Ambos conceptos de refugiados no deberán
ser considerados como mutuamente excluyentes. El concepto ampliado deberá ser más bien
considerado como un instrumento técnico efectivo para facilitar su amplia humanitaria
aplicación en situaciones de flujos masivos de refugiados. (Talavera; Moyano, 2002)

É possível afirmar, para compreensão do alcance do instituto do refugiado, como todo o indivíduo
que, em decorrência de fundados temores de perseguição, seja relacionado à sua raça, religião,
nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política e também por
fenômenos ambientais, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos
temores, não pode ou não quer regressar a ele.

Segundo dados fornecidos pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, a
partir do ano de 1975, o número de refugiados no mundo cresceu dez vezes, passando de
2.400.000 a 27 milhões. Essas pessoas fugiram de guerras, conflitos e perseguições, sendo que
a proporção é de um refugiado entre 115 pessoas da população mundial. Mais da metade dessa
cifra é de crianças, adolescentes e mulheres que, em alguns casos, como Ruanda e Bósnia,
representam até 75% da população afetada.

No ano de 2020, apesar da pandemia da Covid-19, o número de pessoas que fugiram de guerras,
violência, perseguições e violações de direitos humanos subiu para quase 82,4 milhões, de
acordo com o relatório anual do ACNUR, Tendências Globais. A nova cifra é 4% maior que os 79,5
milhões registrados ao final de 2019 – maior número verificado até então.

O relatório mostra que ao final de 2020 havia 20,7 milhões de refugiados sob o mandato do
ACNUR, 5,7 milhões de refugiados palestinos (sob o mandato da agência UNRWA) e 3,9 milhões
de venezuelanos deslocados fora do seu país. Outras 48 milhões de pessoas foram
categorizadas como deslocadas internas – ou seja, dentro dos seus próprios países.
Adicionalmente, 4,1 milhões de pessoas estavam sob a categoria de solicitantes do
reconhecimento da condição de refugiado. Esses números indicam que apesar da pandemia e
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

dos pedidos de cessar-fogo, conflitos continuam a expulsar pessoas de suas casas. Ao final de
2021, o número de pessoas deslocadas por guerras, violência, perseguições e abusos de direitos
humanos chegou a 89,3 milhões (um crescimento de 8% em relação ao ano anterior e bem mais
que o dobro verificado há 10 anos), de acordo com o relatório Tendências Globais.

Em face disso, no plano interno, a matéria está regrada na Lei nº 9.474, de 22 de julho de 1997,
que criou o Comitê Nacional para os Refugiados – Conare, órgão colegiado vinculado ao
Ministério da Justiça que reúne segmentos representativos da área governamental, da sociedade
civil e das Nações Unidas.

A referida lei estabelece em seu artigo 1º que é reconhecido como refugiado todo indivíduo que:

devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo
social ou opiniões políticas encontre se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não
queira acolher-se à proteção de tal país; não tendo nacionalidade e estando fora do país onde
antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele em função das
circunstâncias descritas no inciso anterior; devido a grave e generalizada violação de direitos
humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país.

Vamos Exercitar?

Apesar de revestir o mais elevado interesse e importância, a situação que envolve os refugiados
ainda se apresenta como um grande desafio. De um lado pode haver uma pessoa que tenha
temor por sua segurança em razão de suas opiniões, de pertencer a uma raça, nação, grupo ou
etnia e que não pode ou não quer voltar para seu país e, portanto, incidir na condição de refúgio.
Por outro lado, os Estados podem ignorar por completo as situações anteriormente descritas,
não sendo obrigados a acolher essa pessoa em seu território.

Segundo dados divulgados pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) na 6ª edição do
relatório Refúgio em Números, ao final de 2020 havia 57.099 pessoas refugiadas reconhecidas
pelo Brasil. Esse número foi modificado, no ano de 2021, tendo o Brasil recebido 29.107
solicitações de reconhecimento da condição de refugiado que, somadas àquelas registradas a
partir do ano de 2011 (268.605), totalizaram 297.712 solicitações exaradas desde o início da
última década.

Evidencia-se, pois, que no atual estágio da proteção dos direitos humanos, seja no plano interno
ou no internacional, não pode mais haver dúvidas quanto à aplicação do instituto do refúgio, que
possui características próprias, podendo ser apresentadas as seguintes:

a. Os Estados-partes naqueles instrumentos internacionais não têm discricionariedade de


conceder ou não o refúgio; dadas as condições objetivas para sua concessão, eles terão o
dever de proceder afirmativamente.
b. O controle de aplicação das normas convencionais sobre refúgio depende de órgãos
internacionais, ficando, portanto, a responsabilidade dos Estados por inadimplência de
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DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

seus deveres, no regime de violação de normas específicas, sob controle de órgãos


internacionais multilaterais.
c. Os motivos para a concessão de refúgio não são as simples perseguições por motivos
políticos, mas ainda outras, por motivos de raça, grupo social, religião e, sobretudo,
situação econômica de grande penúria.
d. Há deveres precisos de os Estados-partes concederem aos refugiados documentos de
identidade e de viagem e, no caso brasileiro, proibições expressas de deportação aos
postulantes, e de casos particulares de proibições de expulsão e de extradição aos
refugiados.
e. Por tratar se de instituto regulamentado sob a égide da ONU, as normas que regem o
refúgio têm salvaguardas de denegação de refúgio a pessoas que tenham cometido um
crime contra a paz, um crime de guerra ou um crime contra a humanidade, no sentido de os
instrumentos internacionais serem elaborados para prever tais crimes, bem como
proibições de conceder refúgio a pessoas culpadas de atos contrários aos fins e princípios
das Nações Unidas” .

O instituto do refúgio precisa ser valorizado nos dias atuais, posto que os refugiados necessitam
deslocar-se para salvar suas vidas ou preservar sua liberdade.

Na grande maioria das vezes, essas pessoas não possuem proteção de seu próprio Estado,
sendo que em muitos casos é seu próprio governo que ameaça persegui-los. Se, porventura, não
houver o devido acolhimento em outros Estados, poderão estar fadadas à morte.

Por isso mesmo é que a determinação da condição de refugiado realiza-se de maneira


individualizada, devendo ser estabelecido o nexo de causalidade entre os acontecimentos
produzidos e a saída do indivíduo.

Saiba mais

O contexto das migrações e do refúgio são nos atuais anos do século XXI constantes no dia a dia
de todas as pessoas. Seja pelo acesso a notícias, seja pela mediação com pessoas que se
encontram em uma dessas situações a todo tempo nos deparamos com o tema. A proposta de
leitura é para que você possa refletir sobre as discussões em torno dos possíveis problemas em
torno do tema. Boa leitura!

GUERRA, S. O instituto jurídico do refúgio à luz dos Direitos humanos. Ius Gentium, v. 7, n. 1, p. 4-
21, 2016.

Referências

GUERRA, S. Curso de direito internacional público. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GUERRA, S. Curso de direitos humanos. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.


Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

GUERRA, S. O instituto jurídico do refúgio à luz dos Direitos humanos. Ius Gentium, v. 7, n. 1, p. 4-
21, 2016.

MAIA, R. L. A. O sentido das diferenças: migrantes e naturais. Lisboa: Fundação Calouste


Gulbenkian, 2003.

MELLO, C. A. Direito internacional americano. Rio de Janeiro: Renovar, 1995.

SOARES, G. Curso de direito internacional público. São Paulo: Atlas, 2002.

TALAVERA, F. N.; MOYANO, L. G. C. Derecho internacional público. Lima: Fondo Editorial de la


PUC, 2002.

Aula 5
Encerramento da Unidade

Videoaula de Encerramento

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Dica para você
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conteúdos importantes para a sua formação profissional. Vamos assisti-la?
Bons estudos!

Ponto de Chegada

Olá, estudante!

A presente unidade de revisão se propõe a revisitar os estudos voltados para a proteção dos
Direitos Humanos na Ordem Jurídica brasileira no que tange aos direitos fundamentais previstos
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

na Constituição Federal de 1988, além de um estudo a respeito dos grupos vulneráveis e


minorias que correspondem aos povos indígenas, LGBTQIA+, mulheres, crianças, idosos,
pessoas com deficiência, migrantes e refugiados.

Foi apresentado no estudo acerca da expansão dos direitos humanos no cenário nacional e
internacional como núcleo fundamentador da legitimação dos processos político-sociais que
atribui a pessoas e grupos sociais a expressão de suas necessidades referentes à vida, liberdade,
igualdade, participação política, social e qualquer outro de natureza fundamental. Além disso, foi
possível compreender a construção conceitual das categorias e terminologias sobre minorias e
grupos vulneráveis, bem como povos indígenas e discriminação racial.

Em seguida, foi apresentada a temática que envolve duas categorias de minorias e grupos
vulneráveis: mulheres e LGBTQIA+. Foram contemplados conceitos, planos de garantias políticas,
questões de orientações sexual no Brasil e a luta pelo respeito aos direitos das pessoas
LGBTQIA+. Além disso, foi possível debruçar brevemente sobre a luta das mulheres pelo
reconhecimento de direitos e proteção jurídica.

Após, foi abordado o tema relativo às crianças, aos idosos e às pessoas com deficiência com a
consequente tutela jurídica no plano doméstico e em documentos internacionais. Por fim, foi
apresentado um relevante tema da atualidade que corresponde ao estudo das migrações e à
tutela jurídica dos refugiados. Para tanto, além da previsão normativa correspondente à matéria,
tornou-se importante a contextualização histórica sobre os motivos pelos quais as pessoas são
levadas a se deslocar de seus países de origem.

Evidencia-se, pois, que a partir da compreensão dos pontos aplicados, você estará apto a
manusear alguns dos principais instrumentos protetivos em matéria de direitos humanos
inerentes aos grupos vulneráveis e minorias, bem como resolver questões que envolvem a
temática em comento.

É Hora de Praticar!

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Olá, estudante!
É hora de colocar em prática os conhecimentos auferidos por ocasião dos estudos colhidos
nesta Unidade do presente curso.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Maria Clara, mulher transgênero, vive com Pedro Henrique por mais de 10 anos. Ela trabalha
numa empresa de telefonia, tendo sido contratada à época ainda com o nome de João Carlos.
Por essa razão, em toda a documentação e registros da empresa ainda constam seu nome de
origem.
Pelas mudanças produzidas, Maria Clara já se reportou ao departamento de recursos humanos
para que alterasse seu registro funcional, fato que ainda não aconteceu. A empresa se recusa a
promover alteração em face a dificuldades operacionais de sistema.
Frise-se que por exigência da empresa, todos os funcionários devem usar o crachá funcional, que
no caso de Maria Clara, uma mulher transgênero, ainda consta o nome de João Carlos.
Nos atendimentos aos clientes, Maria Clara passa por diversos constrangimentos, pois acabam
por perguntar se ela usa o crachá de algum amigo, posto que consta o nome de João Carlos.
No fim de expediente de uma sexta-feira, seu companheiro Pedro Henrique resolveu fazer uma
surpresa e foi buscá-la no trabalho. Um cliente atendido por Maria Clara viu a cena e fez um
comentário jocoso sobre o fato de Maria ser João. Pedro Henrique indignado com os
comentários realizados, após tomar álcool, agride brutalmente Maria Clara, produzindo
ferimentos graves.
De acordo com os fatos narrados, Maria Clara resolve tomar atitudes em relação à empresa e ao
seu companheiro Pedro Henrique. Nesse sentido, quais são os direitos de Maria Clara a partir
dos questionamentos formulados?

a. É possível a utilização do nome social por pessoas transgêneros em seus postos de


trabalho? Fundamente.
b. Existe amparo constitucional e princípios que fundamentam tais direitos?
c. Maria Clara poderá juridicamente exigir reparação por possíveis danos a partir das práticas
desenvolvidas em seu ambiente de trabalho?
d. Por ser mulher transgênero, aplica-se a proteção conferida na Lei Maria da Penha?

Como a Constituição Federal de 1988 contribui para a proteção dos direitos fundamentais
dos grupos vulneráveis e minorias no Brasil?
Quais são os principais desafios enfrentados pelas mulheres e pela comunidade LGBTQIA+
na luta pelo reconhecimento de direitos e proteção jurídica no Brasil?
De que maneira a tutela jurídica de crianças, idosos, pessoas com deficiência, migrantes e
refugiados é abordada tanto no plano doméstico quanto em documentos internacionais?

a. Sim, a matéria encontra guarida não apenas a partir de normas jurídicas no plano interno,
mas também no sistema internacional. O nome social de pessoas transgêneros deve ser
reconhecido e respeitado por todos em ambientes privados e públicos em consonância
com o princípio da dignidade da pessoa humana.
b. Sim, é possível extrair como fundamento o princípio da dignidade da pessoa humana, bem
como o da igualdade, da não discriminação, etc. Ademais, é possível identificar na norma
constitucional vários dispositivos que estão postos e consagrados no Título I, dos
Princípios Fundamentais, e do Título II, dos Direitos e Garantias Fundamentais.
c. Sim, Maria Clara poderá demandar perante o poder judiciário requerendo a condenação da
empresa por danos morais e também imagem.
d. Sim. Por unanimidade, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) estabeleceu que
a Lei Maria da Penha se aplica aos casos de violência doméstica ou familiar contra
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

mulheres transexuais. Considerando que, para efeito de incidência da lei, mulher trans é
mulher também, o colegiado deu provimento ao recurso do Ministério Público de São Paulo
e determinou a aplicação das medidas protetivas requeridas por uma transexual, nos
termos do artigo 22 da Lei nº 11.340/2006, após ela sofrer agressões do seu pai na
residência da família.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

BRASIL. Constituição Federal de 1988. Brasília, 1988. Disponível em:


[Link] Acesso em: 16 jan. 2024.
Disciplina

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

BRASIL. Decreto n° 8.727 de abril de 2016. Dispõe sobre o uso do nome social e o
reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais no âmbito da
administração pública federal direta, autárquica e fundacional. Brasília, 2016. Disponível em:
[Link] Acesso em: 16
jan. 2024.
GUERRA, S. Curso de Direitos Humanos. 7. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2022.

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