Identidade Narrativa em Ega e Jesus
Identidade Narrativa em Ega e Jesus
br/ojs
ISSN on-line: 1983-4683
Doi: 10.4025/actascilangcult.v45i2.65182
LITERATURA / LITERATURE
Universidade Federal do Maranhão, Av. João Alberto, 700, 65700-000, Bacabal, Maranhão, Brasil. *Autor para correspondência. E-mail: [Link]@[Link]
RESUMO. Françoise Ega (1920-1977) conheceu Quarto de despejo: diário de uma favelada e a autora desta
obra ao ler a revista francesa Paris Match, no caminho para o trabalho. A trajetória de Carolina Maria de
Jesus (1914-1977) e sua obra se tornaram elementos de inspiração para que a escritora antilhana
desenvolvesse Cartas a uma negra: narrativa antilhana. Nesta, Françoise Ega endereça uma série de cartas
para a escritora brasileira, e compartilha com ela suas reflexões, sonhos e problemas. As autoras não se
conheceram, contudo, suas existências convergiam em alguns aspectos, a exemplo da identidade. Por isso,
este artigo se propõe a analisar como se articulam o tempo e a memória para a construção da identidade
narrativa de Françoise Ega e de Carolina Maria de Jesus. O aporte teórico se baseia nos trabalhos de Ricoeur
(2010), para quem a identidade é uma categoria de prática, pois prioriza o ‘quem’ da ação. Além disso, os
trabalhos de Candau (2021), Certeau (1998), Glissant (2021), entre outros autores.
Palavras-chave: subjetividade; narrativa antilhana; narrativa brasileira; tempo; memória.
The narrative identity in Cartas a uma negra, by Françoise Ega, and Quarto de
despejo, by Carolina Maria de Jesus
ABSTRACT. Françoise Ega (1920-1977) met Quarto de despejo: diário de uma favelada and the author of
this work, while reading the French magazine Paris Match, on the way to work. The trajectory of Carolina
Maria de Jesus (1914-1977) and her work became elements of inspiration for the Antillean writer to develop
Cartas a negra: narrativa antilhana. In it, Françoise Ega addresses a series of letters to the Brazilian writer,
and shares with her your reflections, dreams and problems. The authors did not know each other, however,
their existences converged in some aspects, such as identity. Therefore, this article aims to analyze how
time and memory are articulated for the construction of the narrative identity of Françoise Ega and Carolina
Maria de Jesus. The theoretical contribution is based on the works of Ricoeur (2010), for whom identity is a
category of practice, because it prioritizes the ‘who’ of the action. In addition, the works of Candau (2021),
Certeau (1998), Glissant (2021), among other authors.
Keywords: subjectivity; Antillean narrative; Brazilian narrative; time; memory.
Introdução
Este artigo se situa no conjunto de trabalhos acadêmicos sobre Cartas a uma negra: Narrativa antilhana, de
Françoise Ega, e Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus. Selecionamos aqueles
que julgamos que mais se destacaram no debate sobre as escritoras.
A obra de Françoise Ega foi publicada no Brasil no ano de 2021. Um ano antes, Samanta Vitória Siqueira já
havia publicado dois artigos sobre a mesma: ‘Tudo o que tu escreveste, eu sei- a tradição de uma literatura
escrita por mulheres diaspóricas: o encontro da brasileira Carolina Maria de Jesus com a martinicana
Françoise Ega’ (Siqueira, 2020); e ‘Aquela que diz não à sombra: biografia e obra da escritora martinicana
Françoise Ega’, dividindo a autoria com Karina de Castilhos e Lucena (Siqueira & Lucena, 2020).
Um ano após a publicação de Cartas a uma negra: Narrativa antilhana, Samanta Vitória Siqueira publica
sua dissertação, Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus e cartas a uma negra, de Françoise Ega: uma
literatura amefricana (Siqueira, 2022).
No ano de 2022, Larissa Emanuele da Silva Rodrigues de Oliveira publica o artigo, ‘Cartas a uma negra’ que
se desenvolve a partir do olhar sobre “Quarto de despejo”’ (Oliveira & Almeida, 2022) e posteriormente sua
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dissertação: O atlântico em travessia: narrativas identitárias para além do tempo em Cartas a uma negra:
narrativa antilhana, de Françoise Ega e Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus
(Oliveira, 2023).
Até a publicação deste artigo, somente uma tese sobre as obras em destaque foi publicada, escrita por
Maria Clara Braga Machado Campello, Meu pranto, seu canto: correspondências possíveis entre as obras de
Carolina Maria de Jesus e Françoise Ega (Campelo, 2022).
Quarto de despejo: diário de uma favelada, por sua vez, tem sido uma obra debatida há mais tempo. Como
parte do acervo da escritora está disperso em diferentes instituições, o site Vida por Escrito1, que se trata de
um projeto com informações biobliográficas de Carolina Maria de Jesus, tem recuperado e catalogado diversas
produções sobre a autora.
Raffaella Andrea Fernandez (2006) desenvolveu uma dissertação de mestrado intitulada: Carolina Maria
de Jesus: uma poética de resíduos, na qual discorre sobre o processo de escrita da autora. E dá continuidade ao
debate por meio da tese de doutorado: Processo criativo nos manuscritos do espólio literário de Carolina Maria
de Jesus (Fernandez, 2015).
Aline Alves Arruda publicou uma tese no ano de 2015 intitulada, Carolina Maria de Jesus: projeto literário e
edição crítica de um romance inédito (Arruda , 2015), em que investiga a existência de um projeto literário de
Carolina Maria de Jesus e todos os gêneros que a autora desenvolveu um processo de escrita.
Analisamos vinte artigos sobre Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, dez
versam sobre questões de identidade, escrita periférica e questões de gênero. Os outros dez possuem foco na
interdisciplinaridade, em que a autora e sua obra são analisadas no campo das ciências sociais e da história.
Considerando estas informações, vemos que o presente artigo se difere dos trabalhos que foram destacados
anteriormente, pois, ao propor analisar como se articulam o tempo e a memória para a construção da
identidade narrativa das autoras já citadas; parte da necessidade de elevar a produção de Françoise Ega e
Carolina Maria de Jesus não somente a um nível estético-estrutural; mas, também de diálogo com outras
abordagens da Crítica Literária, como a filosofia e a sociologia.
Dessa forma, esse artigo apresenta os seguintes tópicos: ‘Introdução’; ‘Identidade narrativa: o eu
enunciador entre o tempo, a história e a memória’; ‘A identidade narrativa de Françoise Ega e Carolina Maria
de Jesus’; ‘Tempo e memória em Cartas a uma negra: Narrativa antilhana e Quarto de despejo: diário de uma
favelada’ e ‘Considerações Finais’.
duro de toda a nossa investigação; pois é somente nessa busca que se respondem com uma pertinência
suficiente a aporética do tempo e a poética da narrativa” (Ricoeur, 2010, p. 463)
O capítulo ‘A ‘pessoa’ e a referência identificadora’, da obra O si-mesmo como outro, de Paul Ricoeur, indica um
caminho inicial para uma compreensão sobre essa busca, bem como pela identidade do sujeito. Esta compreensão
norteia ainda o olhar sobre a identidade narrativa das obras de Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus.
O filósofo afirma que “[...] identificar alguma coisa é poder levar outrem a conhecer a coisa de que temos
a intenção de falar, dentro de uma gama de coisas particulares do mesmo tipo” (Ricoeur, 2014, p. 1). Em outras
palavras, desenvolve-se um trajeto de referência identificadora, a primeira possibilidade de encontrar o
conceito de pessoa, no sentido da palavra.
Para a construção desta referência identificadora a linguagem é utilizada, porque põe os indivíduos em
condições de designar outros indivíduos. Vale dizer que quando se trata de individualização, Ricoeur afirma
que a atribuição das individualidades pode partir de graus muito variáveis de especificação e que é um
processo inverso ao da classificação.
No processo de individualização estão o ‘eu’ e o ‘tu’, os quais Ricoeur afirma que estão na qualidade de
interlocutores da enunciação, que é tratada pelo filósofo como ‘acontecimento do mundo’. Portanto,
conscientes de sua interlocução, os indivíduos se autodesignam tornando-se um si: “[...] poder de
autodesignação que já não faz da pessoa apenas uma coisa de um tipo único, mas um si” (Ricoeur, 2014, p. 7).
O processo de interlocução entre os sujeitos sugere também uma referência a uma das acepções do
dialogismo de Bakhtin (2006, p. 140), sobretudo quando este filósofo afirma que o estudo do diálogo pressupõe
a investigação das formas usadas na citação do discurso: “[...] essas formas refletem tendências básicas e
constantes da recepção ativa do discurso de outrem, e é essa recepção, afinal, que é fundamental também para
o diálogo”. E argumenta sobre os contextos do diálogo: “É evidente que o diálogo constitui um caso
particularmente evidente e ostensivo de contextos diversamente orientados” (Bakhtin, 2006, p. 141).
Esses contextos diversamente orientados podem ser vistos como uma alusão à identidade, dada a
dificuldade de sua depuração conceitual (Candau, 2021). Se pensada na perspectiva do indivíduo, a identidade
pode ser um estado de uma instância administrativa como o documento da identidade que define nome,
naturalidade e data de nascimento. Pelo viés da representação, a identidade se refere a uma ideia ou conceito
de quem o sujeito é: “[...] uma representação – eu tenho uma ideia de quem sou – e um conceito, o de
identidade individual, muito utilizado nas Ciências Humanas e Sociais” (Candau, 2021).
Outro autor, Glissant, vê que a identidade depende de como uma sociedade participa da relação global. O
estudioso a compreende como um elemento variável: “A identidade não é mais apenas permanência, ela é
dotada de variação, sim, uma variável controlada ou desesperada” (Glissant, 2021). Para o escritor antilhano,
existem dois tipos de identidade: a identidade-raiz e a identidade-relação. A primeira é fundada remotamente
em uma visão ou mito da criação do mundo, em que determinado grupo toma a posse de uma terra que passa
a ser território. A segunda se trata de uma vivência consciente e contraditória do contato entre as culturas.
No que se refere à Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus, ambas possuem uma identidade em comum,
são mulheres negras, que, respectivamente, dispõem da cultura antilhana e brasileira. Nesse sentido, as
experiências contidas nas obras que escreveram, embora sejam distintas no sentido cultural, apresentam
algumas semelhanças, a exemplo da luta para sobreviver com o pouco dinheiro que recebiam em função de
seus empregos. Dessa maneira, as escritoras transpuseram a realidade empírica para a linguagem verbal.
O reconhecimento da realidade na obra de Françoise Ega é evidente quando a autora comenta sobre a
situação de uma parcela da população antilhana em Marselha, na França. Na carta ‘18 de março de 1963’, a
escritora relata a visita de Solange a sua residência. E transcreve a fala de sua amiga, que ao ler as notícias de
um jornal antilhano publicado em Marselha, encontra-se furiosa por perceber que o círculo antilhano na
metrópole francesa não auxilia os antilhanos que realizam trabalhos terceirizados, como as domésticas: “Veja
bem, eu mesma lhe direi que, quando esses caras veem um antilhano infeliz de mãos bem calejadas, eles os
esmagam de uma só vez” (Ega, 2021, p. 82).
Para além do reconhecimento, sem dele se distanciar, Françoise Ega relata como os antilhanos,
incorporados à cultura da metrópole haviam mudado a sua maneira de pensar as Antilhas: “Claro, Carolina,
eu sabia que a estupidez antilhana havia chegado até aqui” (Ega, 2021, p. 82), a situação incomoda a escritora
que reitera sua impotência diante deste fato: “‘Eu sei! Eu sei’ E isso me incomoda. ‘Saber’ e ‘não poder’”são
palavras que nesses momentos assumem um significado horrível” (Ega, 2021, p. 82). O seu incômodo revela
como ela percebia a importância de ter consciência racial e conhecimento da própria história, um meio de
estabelecer uma identidade essencialmente antilhana.
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Em relação a Carolina Maria de Jesus, pode-se ver que o diário ‘22 de junho’ delineia o reconhecimento da
realidade a partir da descrição de um evento promovido por um político. Ao mesmo tempo em que a escritora narra
sob o ponto de vista de participante da festa, “Passei na dona Julita para dizer-lhe que nós iamos numa festa”
(Jesus, 2014, p. 68), também narra sob o ponto de vista de observadora, “Os que não ganhou cartão ficou chorando
e dizendo que não tinha sorte. Percebi que o povo da favela gosta de ganhar esmolas” (Jesus, 2014, p. 68).
A partir da narração da escritora brasileira, fica evidente que a representação da realidade é uma constante
e mostra que ela dispõe de uma consciência histórica que a faz perceber a razão pela qual ela é moradora da
favela, assim como do seu desejo de obter uma casa de alvenaria. Carolina Maria de Jesus situa a favela e a si
mesma em relação ao seu lugar no tempo, sua situação no mundo e a geografia que lhe é própria. A escritora
fala sobre a chegada de atrações à festa e afirma o que pensa sobre o momento: “O senhor Zuza mandou dois
violeiros tocar e apareceu um palhaço. Que festa sem graça” (Jesus, 2014, p. 69). Ao comentar que a festa está
monótona, Carolina Maria de Jesus reitera, na verdade, como os favelados são constantemente ludibriados
com uma política de pão e circo.
O reconhecimento da realidade, bem como da identidade nas obras de Françoise Ega e Carolina Maria de
Jesus descortina um pluralismo histórico. Segato (2021) define o pluralismo histórico como uma proposta de
devolução aos povos das rédeas de sua própria história; o que é mais interessante que o relativismo, conforme
a estudiosa, uma vez que este último atribui às culturas um grau de inércia. Há que se ressaltar que o
pluralismo não deixa de ser um tipo de relativismo, contudo, “[...] coloca o projeto histórico de um povo como
vetor central da diferença” (Segato, 2021, p. 274).
Esse projeto histórico revela um tempo, ora humano, ora narrativo, mas, sobretudo subjetivo, que fica
entre a narrativa e a identidade; propiciando a permanência do indivíduo no âmbito de uma história e no
próprio mundo, uma vez que o que consta em uma narrativa é resultado da ação humana e do mundo. Por
isso, vale dizer que o tempo de Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus media a relação entre a identidade das
autoras e suas narrativas, o que nos permite retomar Ricoeur (2010), para quem a identidade é uma categoria
de prática, pois prioriza o ‘quem’ da ação. Dessa maneira, ao realizar suas ações, é atribuída ao sujeito, a partir
da união entre história e ficção, uma identidade narrativa.
2 Segundo Ricoeur, a identidade numérica é uma categoria que dispõe de várias referências que designam uma coisa, sem formar elementos diferentes, apenas um que se deixa ver
como único. A identidade qualitativa se caracteriza pela semelhança extrema, no sentido de que algo irá sempre identificar o sujeito, embora a ele sejam atribuídas outras referências
(Ricoeur, 2014).
3 Na obra Por um feminismo afro-latino-americano, Lélia Gonzalez usa o conceito ‘amefricanidade’ como símbolo de uma travessia, que não nos leva para o outro lado, mas, nos
transforma no que somos hoje. Nesse sentido, entendemos que as obras de Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus dialogam através do conceito citado e também pela semelhança
nos enunciados referentes à vida como mulher negra em uma sociedade excludente.
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questionamentos fazem com que a escritora imagine vários cenários nos quais as pessoas que conheceriam
seu livro somente se penalizariam por ver a ‘tentativa’ de uma mulher negra no âmbito da escrita.
Ainda nesta carta, Françoise Ega conta que escreveu para o repórter que falou sobre Carolina Maria de
Jesus na Revista Paris Match, como forma de conseguir obter a compreensão de um profissional que já
conhecesse uma escrita que foge dos padrões canônicos, mas, ainda assim, demonstra não ter esperanças. A
espera por uma resposta faz a escritora ler alguns fragmentos de sua obra para os filhos. E sua filha chora,
indicando que um dos trechos lidos é muito triste.
Partindo disso, observa-se que a tristeza e a angústia são sentimentos constantes nos relatos de Carolina
Maria de Jesus. No diário ‘23 de junho’, ela relata sua ida ao mercado para comprar meio quilo de carne para
fazer bifes. A variação de preços a deixa nervosa e por conta disso a escritora reflete sobre a vaca: “Pensei na
desventura da vaca, a escrava do homem. Que passa a existência no mato, se alimenta com vegetais [...] Depois
de morta é dividida. Tabelada e selecionada” (Jesus, 2014, p. 70). A escritora conclui esta reflexão ao afirmar
que o mundo é como o homem branco quer. Em seguida, a autora finaliza o diário destacando o seu cansaço:
“Eu estava cançada, deitei. Não tive coragem nem de trocar roupa” (Jesus, 2014, p. 70).
No diário ‘20 de junho’ Carolina Maria de Jesus afirma que sua vida é marcada pela condição do ‘fantástico’,
no sentido de que tudo está fora da ordem convencional das coisas. Este comentário faz a escritora destacar
três acontecimentos: o cuidado com a filha Vera que ainda se encontra doente. E precisa tomar leite, um
alimento caro que diminui o pouco dinheiro que é usado para várias necessidades; A ausência do pai de Vera,
que não a conhece; e o desejo, neste dia, de comprar um sapato para a filha, de modo que ao catar papel pela
rua consegue quarenta e um cruzeiros.
O diário ‘15 de junho’ inicia com o destaque a uma notícia de jornal, que fala sobre o suicídio de uma
mulher e seus três filhos devido às dificuldades para sobreviver. Carolina Maria de Jesus relaciona a notícia
com a sua situação na favela: “[...] A notícia do jornal deixou-me nervosa. Passei o dia chingando os políticos,
porque eu também quando não tenho nada para dar aos meus filhos fico quase louca” (Jesus, 2014, p. 63).
O diário ‘21 de junho’ apresenta algumas das lembranças de Carolina Maria de Jesus como catadora de
papel e mãe. Neste diário, especialmente, percebe-se que entre uma experiência e outra a escritora não fala
de si, no sentido de destacar o apreço pela leitura ou a natureza em uma linguagem poética; como faz nos
diários ‘19 de maio’ e ‘20 de maio’ (Jesus, 2014), por exemplo, e isto deixa ver que as lembranças deste dia são
assinaladas a partir de uma busca pela sobrevivência e pelo afeto dos filhos; a exemplo de Vera, quando ganha
um par de sapatos: “Ela sorriu e disse-me: que está contente comigo e não vai comprar uma mãe branca. Que não
sou mentirosa. Que falei que ia comprar os sapatos, e comprei. Que eu tenho palavra” (Jesus, 20214, p. 67).
Os fragmentos de Françoise Ega e de Carolina Maria de Jesus destacados anteriormente, mostram que as
autoras representam ‘escalas de uma vida inteira’, por duas razões: a intervenção da identidade narrativa na
constituição da identidade pessoal e os modelos de permanência no tempo, caráter e palavra cumprida.
Considerando que o caráter é o conjunto de marcas que possibilitam identificar um indivíduo como sendo o
mesmo, nota-se a presença do caráter nas obras de ambas as autoras, pela maneira como elas organizam as
narrativas, carta e diário, respectivamente, e por falarem de si mesmas. Quanto à palavra cumprida, que diz
respeito a uma linguagem mantida, observa-se que esta se faz notar por meio do uso dos gêneros já citados
pelas escritoras.
Diante destas considerações, convém retomar Ricoeur, que comenta como a literatura é um vasto
laboratório para experiências intelectuais, nas quais se manifestam as ‘duas significações de permanência no
tempo, a narrativa e a identidade’. Dessa maneira, o filósofo afirma que por meio das significações
mencionadas ocorre o contrário do modelo aristotélico, pois o enredo é posto a serviço da personagem:
“Atinge-se assim o polo extremo de variação, em que a personagem deixou de ser um caráter” (Ricoeur, 2014,
p. 156). Embora deixe de ser um caráter, a variação entre a narrativa e a identidade permite que a personagem
transite por este último elemento, e pela narrativa, sem perder os traços que a designam, o que ocorre com
Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus.
Viu-se no início deste tópico que identidade narrativa trata-se da coesão de uma vida acrescida de outras
histórias. Quando pensada no contexto da narração, ela leva em conta a identidade pessoal, pois, há que ser
considerado que o quem da ação tem uma história. História que pode ser compreendida por meio da dimensão
temporal da existência humana (Ricoeur, 2014). Por isso, compreendida a identidade narrativa e os modelos
de permanência do tempo, caráter e palavra cumprida, parte-se para a dimensão temporal de Cartas a uma
negra: Narrativa antilhana e Quarto de despejo: diário de uma favelada a partir da relação entre tempo e
memória que dão base para um entendimento mais amplo sobre a identidade narrativa.
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brasileira que condena a população pobre e negra a uma situação de vulnerabilidade; ternura e amor, quando
a escritora relata em vários diários a preocupação com os filhos e comenta sobre os seus sonhos.
Neste sentido, percebe-se que ambas as autoras representam narrativamente as suas realidades empíricas
na ficção, o que contribui para que suas identidades se formem, principalmente por elas serem personagens e
escritoras de si mesmas. Não por acaso, elas compartilham alguns sonhos. Na carta ‘Pentecostes de 1962’, Ega
se imagina uma mulher rica que compraria uma casa no campo: “[...] Se fosse rica [...] Eu teria uma casa
ensolarada no campo, longe do barulho dos motores, ouviria o vento cantar nas árvores altas, que não
faltariam ao redor” (Ega, 2021, p. 10-12). E Carolina Maria de Jesus revela o sonho de sair da favela: “É que eu
estou escrevendo um livro, para vende-lo. Viso com esse dinheiro comprar um terreno para eu sair da favela”
(Jesus, 2014, p. 27); e o diário ‘8 de agosto’: “Se Deus auxiliar-me hei de sair daqui, e não hei de olhar para
trás” (Jesus, 2014, p. 188).
Por isso, Cartas a uma negra: Narrativa antilhana e Quarto de despejo: diário de uma favelada concedem às
escritoras a permanência no tempo por meio de cinco elementos: a relação entre a identidade narrativa e a
identidade pessoal; o caráter e a palavra cumprida; e a relação entre tempo e a memória. Estes elementos
oportunizam uma travessia simbólica pelo atlântico em relação a Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus.
As paisagens-palavra de Françoise Ega e de Carolina Maria de Jesus encontram-se, principalmente, pela
palavra, e também pela transposição dos acontecimentos do mundo empírico para a ficção, o que propicia o
desenvolvimento de uma identidade narrativa antilhana e uma brasileira. Estas identidades estão com a
fronteira sempre aberta, tomando de empréstimo o pensamento de Glissant (2021, p. 58): “A paisagem de tua
palavra é a paisagem do mundo. Mas sua fronteira está aberta”.
Considerações finais
Este trabalhou objetivou a analisar como se articulam o tempo e a memória para a construção da identidade
narrativa de Françoise Ega e de Carolina Maria de Jesus em suas respectivas obras, Cartas a uma negra:
Narrativa antilhana e Quarto de despejo: diário de uma favelada.
Ao mostrar como se desenvolve a identidade narrativa, de Françoise Ega e de Carolina Maria de Jesus, por
meio de suas obras, este artigo destacou que os acontecimentos de uma vida caracterizam o conceito de
identidade narrativa e os seus aspectos: a intervenção da identidade narrativa na constituição da identidade
pessoal e os modelos de permanência no tempo, caráter e palavra cumprida.
Por meio da linguagem, as autoras citadas efetuam a passagem de um presente ao outro, falando de si
mesmas. A palavra é, portanto, uma alternativa contra a solidão, busca registrar o instante como forma de dar
sentido ao que foi vivido. Além disso, esta palavra se firma pela subjetividade e dispõe de uma fronteira
sempre aberta, levando em consideração o tom de denúncia em alguns trechos das narrativas, tanto na obra
de Ega como na obra de Carolina Maria de Jesus.
Cartas a uma negra: Narrativa antilhana e Quarto de despejo: diário de uma favelada são obras que dão outro
sentido para os acontecimentos da vida de uma mulher negra. Graças às suas ordenações narrativas, Françoise
Ega e Carolina Maria de Jesus mostram à sociedade e aos seus leitores que são o próprio tempo e que sua busca
pela identidade narrativa, para além do tempo, da memória e da história, encontra-se no olhar incessante
sobre si, a transitar continuamente na fronteira aberta do passado, presente e futuro.
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