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Identidade Narrativa em Ega e Jesus

O artigo analisa a identidade narrativa em 'Cartas a uma Negra' de Françoise Ega e 'Quarto de Despejo' de Carolina Maria de Jesus, destacando como tempo e memória influenciam essa construção. Embora as autoras não tenham se conhecido, suas vidas e experiências como mulheres negras se entrelaçam, refletindo questões de identidade e subjetividade. O estudo utiliza teorias de Paul Ricoeur e outros autores para explorar a relação entre narrativa, identidade e a experiência cultural das autoras.

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Ana Paula Reis
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Identidade Narrativa em Ega e Jesus

O artigo analisa a identidade narrativa em 'Cartas a uma Negra' de Françoise Ega e 'Quarto de Despejo' de Carolina Maria de Jesus, destacando como tempo e memória influenciam essa construção. Embora as autoras não tenham se conhecido, suas vidas e experiências como mulheres negras se entrelaçam, refletindo questões de identidade e subjetividade. O estudo utiliza teorias de Paul Ricoeur e outros autores para explorar a relação entre narrativa, identidade e a experiência cultural das autoras.

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Acta Scientiarum [Link]

br/ojs
ISSN on-line: 1983-4683
Doi: 10.4025/actascilangcult.v45i2.65182
LITERATURA / LITERATURE

A identidade narrativa em Cartas a uma Negra, de Françoise


Ega, e Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

Larissa Emanuele da Silva Rodrigues de Oliveira e Lucélia de Sousa Almeida*

Universidade Federal do Maranhão, Av. João Alberto, 700, 65700-000, Bacabal, Maranhão, Brasil. *Autor para correspondência. E-mail: [Link]@[Link]

RESUMO. Françoise Ega (1920-1977) conheceu Quarto de despejo: diário de uma favelada e a autora desta
obra ao ler a revista francesa Paris Match, no caminho para o trabalho. A trajetória de Carolina Maria de
Jesus (1914-1977) e sua obra se tornaram elementos de inspiração para que a escritora antilhana
desenvolvesse Cartas a uma negra: narrativa antilhana. Nesta, Françoise Ega endereça uma série de cartas
para a escritora brasileira, e compartilha com ela suas reflexões, sonhos e problemas. As autoras não se
conheceram, contudo, suas existências convergiam em alguns aspectos, a exemplo da identidade. Por isso,
este artigo se propõe a analisar como se articulam o tempo e a memória para a construção da identidade
narrativa de Françoise Ega e de Carolina Maria de Jesus. O aporte teórico se baseia nos trabalhos de Ricoeur
(2010), para quem a identidade é uma categoria de prática, pois prioriza o ‘quem’ da ação. Além disso, os
trabalhos de Candau (2021), Certeau (1998), Glissant (2021), entre outros autores.
Palavras-chave: subjetividade; narrativa antilhana; narrativa brasileira; tempo; memória.

The narrative identity in Cartas a uma negra, by Françoise Ega, and Quarto de
despejo, by Carolina Maria de Jesus

ABSTRACT. Françoise Ega (1920-1977) met Quarto de despejo: diário de uma favelada and the author of
this work, while reading the French magazine Paris Match, on the way to work. The trajectory of Carolina
Maria de Jesus (1914-1977) and her work became elements of inspiration for the Antillean writer to develop
Cartas a negra: narrativa antilhana. In it, Françoise Ega addresses a series of letters to the Brazilian writer,
and shares with her your reflections, dreams and problems. The authors did not know each other, however,
their existences converged in some aspects, such as identity. Therefore, this article aims to analyze how
time and memory are articulated for the construction of the narrative identity of Françoise Ega and Carolina
Maria de Jesus. The theoretical contribution is based on the works of Ricoeur (2010), for whom identity is a
category of practice, because it prioritizes the ‘who’ of the action. In addition, the works of Candau (2021),
Certeau (1998), Glissant (2021), among other authors.
Keywords: subjectivity; Antillean narrative; Brazilian narrative; time; memory.

Received on September 28, 2022.


Accepted on September 27, 2023.

Introdução
Este artigo se situa no conjunto de trabalhos acadêmicos sobre Cartas a uma negra: Narrativa antilhana, de
Françoise Ega, e Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus. Selecionamos aqueles
que julgamos que mais se destacaram no debate sobre as escritoras.
A obra de Françoise Ega foi publicada no Brasil no ano de 2021. Um ano antes, Samanta Vitória Siqueira já
havia publicado dois artigos sobre a mesma: ‘Tudo o que tu escreveste, eu sei- a tradição de uma literatura
escrita por mulheres diaspóricas: o encontro da brasileira Carolina Maria de Jesus com a martinicana
Françoise Ega’ (Siqueira, 2020); e ‘Aquela que diz não à sombra: biografia e obra da escritora martinicana
Françoise Ega’, dividindo a autoria com Karina de Castilhos e Lucena (Siqueira & Lucena, 2020).
Um ano após a publicação de Cartas a uma negra: Narrativa antilhana, Samanta Vitória Siqueira publica
sua dissertação, Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus e cartas a uma negra, de Françoise Ega: uma
literatura amefricana (Siqueira, 2022).
No ano de 2022, Larissa Emanuele da Silva Rodrigues de Oliveira publica o artigo, ‘Cartas a uma negra’ que
se desenvolve a partir do olhar sobre “Quarto de despejo”’ (Oliveira & Almeida, 2022) e posteriormente sua
Acta Scientiarum. Language and Culuture, v. 45, e65182, 2023
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dissertação: O atlântico em travessia: narrativas identitárias para além do tempo em Cartas a uma negra:
narrativa antilhana, de Françoise Ega e Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus
(Oliveira, 2023).
Até a publicação deste artigo, somente uma tese sobre as obras em destaque foi publicada, escrita por
Maria Clara Braga Machado Campello, Meu pranto, seu canto: correspondências possíveis entre as obras de
Carolina Maria de Jesus e Françoise Ega (Campelo, 2022).
Quarto de despejo: diário de uma favelada, por sua vez, tem sido uma obra debatida há mais tempo. Como
parte do acervo da escritora está disperso em diferentes instituições, o site Vida por Escrito1, que se trata de
um projeto com informações biobliográficas de Carolina Maria de Jesus, tem recuperado e catalogado diversas
produções sobre a autora.
Raffaella Andrea Fernandez (2006) desenvolveu uma dissertação de mestrado intitulada: Carolina Maria
de Jesus: uma poética de resíduos, na qual discorre sobre o processo de escrita da autora. E dá continuidade ao
debate por meio da tese de doutorado: Processo criativo nos manuscritos do espólio literário de Carolina Maria
de Jesus (Fernandez, 2015).
Aline Alves Arruda publicou uma tese no ano de 2015 intitulada, Carolina Maria de Jesus: projeto literário e
edição crítica de um romance inédito (Arruda , 2015), em que investiga a existência de um projeto literário de
Carolina Maria de Jesus e todos os gêneros que a autora desenvolveu um processo de escrita.
Analisamos vinte artigos sobre Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, dez
versam sobre questões de identidade, escrita periférica e questões de gênero. Os outros dez possuem foco na
interdisciplinaridade, em que a autora e sua obra são analisadas no campo das ciências sociais e da história.
Considerando estas informações, vemos que o presente artigo se difere dos trabalhos que foram destacados
anteriormente, pois, ao propor analisar como se articulam o tempo e a memória para a construção da
identidade narrativa das autoras já citadas; parte da necessidade de elevar a produção de Françoise Ega e
Carolina Maria de Jesus não somente a um nível estético-estrutural; mas, também de diálogo com outras
abordagens da Crítica Literária, como a filosofia e a sociologia.
Dessa forma, esse artigo apresenta os seguintes tópicos: ‘Introdução’; ‘Identidade narrativa: o eu
enunciador entre o tempo, a história e a memória’; ‘A identidade narrativa de Françoise Ega e Carolina Maria
de Jesus’; ‘Tempo e memória em Cartas a uma negra: Narrativa antilhana e Quarto de despejo: diário de uma
favelada’ e ‘Considerações Finais’.

Identidade narrativa: o eu enunciador entre o tempo, a história e a memória


Na segunda aporia, limites da narrativa, Ricoeur percebe que uma meditação sobre o tempo não o pensa
verdadeiramente. Por isso, esta aporia surge quando o tempo, escapando de toda tentativa de constituí-lo,
revela pertencer a uma ordem do constituinte sempre-já pressuposto pelo trabalho de constituição.
O filósofo organiza sua análise a partir de arcaísmos gregos e hebraicos, considerando também o pensamento
de Aristóteles, Agostinho e parte da exegese bíblica. Ricoeur se debruça ainda sobre os trabalhos de Husserl e
Heidegger. Nesse sentido, ele argumenta que antes a narrativa refigurava o tempo a partir dos seus recursos de
refiguração interna, enquanto sua análise trata dos limites da refiguração do tempo pela narrativa.
O ‘limite’ é um elemento que contribui para essa refiguração. Ricoeur o analisa em dois sentidos, o
primeiro se refere ao limite interno, ou seja, a ultrapassagem até o esgotamento da arte de narrar. O segundo
é a superação do gênero narrativo por outros gêneros do discurso, que também se dedicam a dizer o tempo.
Dessa maneira, para Ricoeur, a narrativa de ficção é a que está mais bem equipada em razão de suas
variações imaginativas: “Assim, a ficção multiplica as experiências de eternidade e desse modo leva a
narrativa aos limites dela mesma de diversas maneiras” (Ricoeur, 2010, p. 458), bem como pela criação de um
mundo próprio.
Tendo isso em vista, nota-se a formação da terceira aporia, a identidade narrativa, que pode incluir a
ipseidade e a mudança na coesão de uma vida tanto na ficção como na vida empírica: “Ora, uma vida
examinada é, em grande medida, uma vida depurada, clarificada pelos efeitos catárticos das narrativas tanto
históricas quanto fictícias veiculadas por nossa cultura” (Ricoeur, 2010, p. 419).
Para se chegar a uma identidade narrativa, que compreenda não somente a narrativa como também a
identidade, há um processo de busca de si pelo indivíduo e uma busca pela sua comunidade: “Esse é o núcleo

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duro de toda a nossa investigação; pois é somente nessa busca que se respondem com uma pertinência
suficiente a aporética do tempo e a poética da narrativa” (Ricoeur, 2010, p. 463)
O capítulo ‘A ‘pessoa’ e a referência identificadora’, da obra O si-mesmo como outro, de Paul Ricoeur, indica um
caminho inicial para uma compreensão sobre essa busca, bem como pela identidade do sujeito. Esta compreensão
norteia ainda o olhar sobre a identidade narrativa das obras de Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus.
O filósofo afirma que “[...] identificar alguma coisa é poder levar outrem a conhecer a coisa de que temos
a intenção de falar, dentro de uma gama de coisas particulares do mesmo tipo” (Ricoeur, 2014, p. 1). Em outras
palavras, desenvolve-se um trajeto de referência identificadora, a primeira possibilidade de encontrar o
conceito de pessoa, no sentido da palavra.
Para a construção desta referência identificadora a linguagem é utilizada, porque põe os indivíduos em
condições de designar outros indivíduos. Vale dizer que quando se trata de individualização, Ricoeur afirma
que a atribuição das individualidades pode partir de graus muito variáveis de especificação e que é um
processo inverso ao da classificação.
No processo de individualização estão o ‘eu’ e o ‘tu’, os quais Ricoeur afirma que estão na qualidade de
interlocutores da enunciação, que é tratada pelo filósofo como ‘acontecimento do mundo’. Portanto,
conscientes de sua interlocução, os indivíduos se autodesignam tornando-se um si: “[...] poder de
autodesignação que já não faz da pessoa apenas uma coisa de um tipo único, mas um si” (Ricoeur, 2014, p. 7).
O processo de interlocução entre os sujeitos sugere também uma referência a uma das acepções do
dialogismo de Bakhtin (2006, p. 140), sobretudo quando este filósofo afirma que o estudo do diálogo pressupõe
a investigação das formas usadas na citação do discurso: “[...] essas formas refletem tendências básicas e
constantes da recepção ativa do discurso de outrem, e é essa recepção, afinal, que é fundamental também para
o diálogo”. E argumenta sobre os contextos do diálogo: “É evidente que o diálogo constitui um caso
particularmente evidente e ostensivo de contextos diversamente orientados” (Bakhtin, 2006, p. 141).
Esses contextos diversamente orientados podem ser vistos como uma alusão à identidade, dada a
dificuldade de sua depuração conceitual (Candau, 2021). Se pensada na perspectiva do indivíduo, a identidade
pode ser um estado de uma instância administrativa como o documento da identidade que define nome,
naturalidade e data de nascimento. Pelo viés da representação, a identidade se refere a uma ideia ou conceito
de quem o sujeito é: “[...] uma representação – eu tenho uma ideia de quem sou – e um conceito, o de
identidade individual, muito utilizado nas Ciências Humanas e Sociais” (Candau, 2021).
Outro autor, Glissant, vê que a identidade depende de como uma sociedade participa da relação global. O
estudioso a compreende como um elemento variável: “A identidade não é mais apenas permanência, ela é
dotada de variação, sim, uma variável controlada ou desesperada” (Glissant, 2021). Para o escritor antilhano,
existem dois tipos de identidade: a identidade-raiz e a identidade-relação. A primeira é fundada remotamente
em uma visão ou mito da criação do mundo, em que determinado grupo toma a posse de uma terra que passa
a ser território. A segunda se trata de uma vivência consciente e contraditória do contato entre as culturas.
No que se refere à Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus, ambas possuem uma identidade em comum,
são mulheres negras, que, respectivamente, dispõem da cultura antilhana e brasileira. Nesse sentido, as
experiências contidas nas obras que escreveram, embora sejam distintas no sentido cultural, apresentam
algumas semelhanças, a exemplo da luta para sobreviver com o pouco dinheiro que recebiam em função de
seus empregos. Dessa maneira, as escritoras transpuseram a realidade empírica para a linguagem verbal.
O reconhecimento da realidade na obra de Françoise Ega é evidente quando a autora comenta sobre a
situação de uma parcela da população antilhana em Marselha, na França. Na carta ‘18 de março de 1963’, a
escritora relata a visita de Solange a sua residência. E transcreve a fala de sua amiga, que ao ler as notícias de
um jornal antilhano publicado em Marselha, encontra-se furiosa por perceber que o círculo antilhano na
metrópole francesa não auxilia os antilhanos que realizam trabalhos terceirizados, como as domésticas: “Veja
bem, eu mesma lhe direi que, quando esses caras veem um antilhano infeliz de mãos bem calejadas, eles os
esmagam de uma só vez” (Ega, 2021, p. 82).
Para além do reconhecimento, sem dele se distanciar, Françoise Ega relata como os antilhanos,
incorporados à cultura da metrópole haviam mudado a sua maneira de pensar as Antilhas: “Claro, Carolina,
eu sabia que a estupidez antilhana havia chegado até aqui” (Ega, 2021, p. 82), a situação incomoda a escritora
que reitera sua impotência diante deste fato: “‘Eu sei! Eu sei’ E isso me incomoda. ‘Saber’ e ‘não poder’”são
palavras que nesses momentos assumem um significado horrível” (Ega, 2021, p. 82). O seu incômodo revela
como ela percebia a importância de ter consciência racial e conhecimento da própria história, um meio de
estabelecer uma identidade essencialmente antilhana.
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Em relação a Carolina Maria de Jesus, pode-se ver que o diário ‘22 de junho’ delineia o reconhecimento da
realidade a partir da descrição de um evento promovido por um político. Ao mesmo tempo em que a escritora narra
sob o ponto de vista de participante da festa, “Passei na dona Julita para dizer-lhe que nós iamos numa festa”
(Jesus, 2014, p. 68), também narra sob o ponto de vista de observadora, “Os que não ganhou cartão ficou chorando
e dizendo que não tinha sorte. Percebi que o povo da favela gosta de ganhar esmolas” (Jesus, 2014, p. 68).
A partir da narração da escritora brasileira, fica evidente que a representação da realidade é uma constante
e mostra que ela dispõe de uma consciência histórica que a faz perceber a razão pela qual ela é moradora da
favela, assim como do seu desejo de obter uma casa de alvenaria. Carolina Maria de Jesus situa a favela e a si
mesma em relação ao seu lugar no tempo, sua situação no mundo e a geografia que lhe é própria. A escritora
fala sobre a chegada de atrações à festa e afirma o que pensa sobre o momento: “O senhor Zuza mandou dois
violeiros tocar e apareceu um palhaço. Que festa sem graça” (Jesus, 2014, p. 69). Ao comentar que a festa está
monótona, Carolina Maria de Jesus reitera, na verdade, como os favelados são constantemente ludibriados
com uma política de pão e circo.
O reconhecimento da realidade, bem como da identidade nas obras de Françoise Ega e Carolina Maria de
Jesus descortina um pluralismo histórico. Segato (2021) define o pluralismo histórico como uma proposta de
devolução aos povos das rédeas de sua própria história; o que é mais interessante que o relativismo, conforme
a estudiosa, uma vez que este último atribui às culturas um grau de inércia. Há que se ressaltar que o
pluralismo não deixa de ser um tipo de relativismo, contudo, “[...] coloca o projeto histórico de um povo como
vetor central da diferença” (Segato, 2021, p. 274).
Esse projeto histórico revela um tempo, ora humano, ora narrativo, mas, sobretudo subjetivo, que fica
entre a narrativa e a identidade; propiciando a permanência do indivíduo no âmbito de uma história e no
próprio mundo, uma vez que o que consta em uma narrativa é resultado da ação humana e do mundo. Por
isso, vale dizer que o tempo de Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus media a relação entre a identidade das
autoras e suas narrativas, o que nos permite retomar Ricoeur (2010), para quem a identidade é uma categoria
de prática, pois prioriza o ‘quem’ da ação. Dessa maneira, ao realizar suas ações, é atribuída ao sujeito, a partir
da união entre história e ficção, uma identidade narrativa.

A identidade narrativa de Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus


A identidade narrativa é uma identidade compreendida no sentido de um si-mesmo, pois se trata da coesão
de uma vida constituída por várias outras histórias. Ao confrontar a noção de identidade narrativa com as
perplexidades e os paradoxos da identidade pessoal, Ricoeur propõe uma tese, que a teoria narrativa tem uma
de suas principais justificativas no papel que ela exerce, o ponto de vista descritivo sobre a ação e o ponto de
vista prescritivo, no sentido que o autor determina e organiza as ações. E uma tríade se impõe para a relação
entre a constituição da ação e a constituição do si: descrever, narrar e prescrever.
O acontecimento narrativo é o elemento que opera a configuração dessa tríade. Ricoeur não define
precisamente o que a configuração vem a ser. Contudo, entende-se que ela é uma forma de organização dos
acontecimentos por parte do escritor. O acontecimento diferencia ainda um modelo narrativo do outro. Em
seu cerne ocorre o efeito de contingência, a possibilidade que algo ocorra ou não é um efeito de necessidade
referente às necessidades de um si expostas na narrativa.
Os efeitos mencionados ocasionam a composição do enredo, que concilia ainda duas categorias na dialética
da personagem: identidade e diversidade. Assim, Ricoeur (2014, p. 149) afirma que o passo decisivo rumo a
uma concepção narrativa da identidade pessoal é quando se passa da ação a personagem, porque esta última
é aquela que executa a ação na narrativa: “A categoria da personagem, portanto, também é uma categoria
narrativa, e seu papel na narrativa diz respeito à mesma inteligência narrativa do enredo”.
A partir da reflexão sobre a personagem, Ricoeur (2014, p. 149) argumenta sobre esta ser compreendida
por meio de um processo de transferência: “[...] a identidade da personagem é compreendida por transferência
para ela da operação de composição do enredo [...] a personagem, digamos, é composta de enredo”. Dessa
maneira, a narrativa confere à personagem, conforme reitera o filósofo, o poder de começar uma série de
acontecimentos.
É neste sentido que nas narrativas o si busca sua identidade no que Ricoeur (2014, p. 113) chama de “[...] a
escala de uma vida inteira”. Ele reafirma esta noção quando diz que ao falarmos de nós mesmos dispomos de
dois modelos de permanência no tempo: caráter e palavra cumprida, “[...] em ambos, tendemos a reconhecer
uma permanência que dizemos ser de nós mesmos” (Ricoeur, 2014, p. 118).
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A hipótese do filósofo é a de que há uma intervenção da identidade narrativa na constituição conceitual da


identidade pessoal. Dessa maneira, ele entende que esta intervenção ocorre por meio do caráter que é “[...] o conjunto
das marcas distintivas que possibilitam reidentificar um indivíduo humano como sendo o mesmo” (Ricoeur, 2014, p.
115). Os traços descritivos na narrativa farão com que o escritor acumule duas identidades, numérica e qualitativa2,
além da permanência no tempo. E a palavra cumprida se trata de uma negação de mudança, no sentido de que a
linguagem é mantida e que o outro tem confiança na fidelidade do indivíduo escrevente.
Nesse sentido, Ricoeur percebeu que a teoria da ação dispõe de uma lacuna em relação à dimensão
temporal, porque não levava em conta o fato de que a pessoa de quem se fala e o agente do qual a ação depende
tem uma história. E isto resultou na omissão da problemática da identidade pessoal “[...] que só pode articular-
se precisamente na dimensão temporal da existência humana” (Ricoeur, 2014, p. 111-112).
Dessa forma, Ricoeur comenta que o que está em questão no seu estudo é a unidade analógica do agir
humano. Na perspectiva dos estudos sobre este agir estão: a descrição, narração e prescrição, que propiciam
o entendimento de uma polissemia do agir, especialmente em uma história. Então ele argumenta acerca da
teoria da ação, que em relação à questão do si, acarreta modificações no plano do agir humano. Esta teoria,
requerendo certa autonomia, fez com que o filósofo realizasse uma aliança entre a tradição analítica, a
tradição fenomenológica e a hermenêutica. Esta aliança evidencia que pensar identidade implica imergir em
uma perspectiva interdisciplinar.
Quando Ricoeur diz que a teoria narrativa tem uma de suas principais justificativas no papel que ela exerce,
em que pode haver os pontos de vista descritivos e prescritivos, ele chama atenção para como é importante a
maneira pela qual um escritor organiza sua narrativa. Por essa razão, em Cartas a uma negra: Narrativa antilhana é
possível perceber que Françoise Ega organiza sua obra a partir do gênero carta, porque encontra neste formato a
possibilidade de estabelecer um diálogo permanente com Carolina Maria de Jesus. Tal diálogo representa a
necessidade de Ega de atravessar o atlântico em busca de seu passado, consciente de que outra mulher negra, como
Carolina Maria de Jesus passara por experiências semelhantes às dela. A travessia é feita pela palavra3.
O primeiro diálogo ocorre a partir da primeira carta da obra da escritora antilhana, principalmente neste
fragmento: “Pois é, Carolina, as misérias dos pobres do mundo inteiro se parecem como irmãs” (Ega, 2021, p.
5). Ao dizer isto, Françoise Ega afirma que, embora ambas estejam em lugares distintos, passam por situações
referentes à vida em sociedade semelhantes.
A carta ‘Maio de 1962’ também exemplifica o diálogo entre Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus. Nela, a
escritora francesa conta que descobriu a escritora brasileira em um ônibus quando ia para o trabalho, pois havia
lido uma reportagem sobre ela na revista Paris Match. Além disso, ao imaginar como a escritora luta para conseguir
comida, Ega afirma que isto é o que as aproxima: “Na favela, você nunca foi capaz de pensar em nada além do pão
de cada dia. Penso que é isso que me aproxima de você, Carolina Maria de Jesus” (Ega, 2021, p. 7).
Os outros diálogos que Ega tem com Carolina Maria de Jesus acontecem quanto ela relata acontecimentos
de seu cotidiano para a escritora brasileira, como na carta ‘1° de setembro’, na qual Ega tenta um trabalho
como datilógrafa, mas não consegue a vaga porque a empresa deseja pessoas com experiência: “Carolina, que
experiência estou fazendo! Tinha lido num jornal que precisavam de uma datilógrafa para uma vaga
temporária” (Ega, 2021, p. 30).
Na carta ‘30 de janeiro’ Françoise Ega dedica doze parágrafos à festa por ocasião do batizado do filho de
Roland, amigo de seu marido, e parte da história de vida dele com Janine, sua mulher. A experiência de Ega
revela a sua imersão psicológica em um cotidiano sempre em movimento. Ao chegar à casa de Roland,
Françoise Ega a compara com a favela, descrevendo-a para a escritora brasileira. A descrição se torna ainda
mais interessante pelo fato de a escritora francesa nunca ter conhecido uma favela do Brasil: “Minha pobre
Carolina, esse pardieiro se localiza no centro de Marselha, e é como em qualquer favela, apenas uma nuance
diferencia os habitantes uns dos outros: ou são otimistas, ou são desesperados” (Ega, 2021, p. 67-68).
Na carta ‘31 de março de 1963’, Françoise Ega começa sua carta mencionando o nome de Carolina Maria
de Jesus. Pressupõe-se que o motivo desta ocorrência na carta seja pelo fato de a escritora francesa ter
terminado o seu livro. Sentindo-se insegura, Françoise Ega se questiona: “Eu, uma pobre negra? Tinha eu o
direito de dizer coisas bonitas em um francês meia-boca? É isso que me preocupa!” (Ega, 2021, p. 88). Os

2 Segundo Ricoeur, a identidade numérica é uma categoria que dispõe de várias referências que designam uma coisa, sem formar elementos diferentes, apenas um que se deixa ver
como único. A identidade qualitativa se caracteriza pela semelhança extrema, no sentido de que algo irá sempre identificar o sujeito, embora a ele sejam atribuídas outras referências
(Ricoeur, 2014).
3 Na obra Por um feminismo afro-latino-americano, Lélia Gonzalez usa o conceito ‘amefricanidade’ como símbolo de uma travessia, que não nos leva para o outro lado, mas, nos

transforma no que somos hoje. Nesse sentido, entendemos que as obras de Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus dialogam através do conceito citado e também pela semelhança
nos enunciados referentes à vida como mulher negra em uma sociedade excludente.
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questionamentos fazem com que a escritora imagine vários cenários nos quais as pessoas que conheceriam
seu livro somente se penalizariam por ver a ‘tentativa’ de uma mulher negra no âmbito da escrita.
Ainda nesta carta, Françoise Ega conta que escreveu para o repórter que falou sobre Carolina Maria de
Jesus na Revista Paris Match, como forma de conseguir obter a compreensão de um profissional que já
conhecesse uma escrita que foge dos padrões canônicos, mas, ainda assim, demonstra não ter esperanças. A
espera por uma resposta faz a escritora ler alguns fragmentos de sua obra para os filhos. E sua filha chora,
indicando que um dos trechos lidos é muito triste.
Partindo disso, observa-se que a tristeza e a angústia são sentimentos constantes nos relatos de Carolina
Maria de Jesus. No diário ‘23 de junho’, ela relata sua ida ao mercado para comprar meio quilo de carne para
fazer bifes. A variação de preços a deixa nervosa e por conta disso a escritora reflete sobre a vaca: “Pensei na
desventura da vaca, a escrava do homem. Que passa a existência no mato, se alimenta com vegetais [...] Depois
de morta é dividida. Tabelada e selecionada” (Jesus, 2014, p. 70). A escritora conclui esta reflexão ao afirmar
que o mundo é como o homem branco quer. Em seguida, a autora finaliza o diário destacando o seu cansaço:
“Eu estava cançada, deitei. Não tive coragem nem de trocar roupa” (Jesus, 2014, p. 70).
No diário ‘20 de junho’ Carolina Maria de Jesus afirma que sua vida é marcada pela condição do ‘fantástico’,
no sentido de que tudo está fora da ordem convencional das coisas. Este comentário faz a escritora destacar
três acontecimentos: o cuidado com a filha Vera que ainda se encontra doente. E precisa tomar leite, um
alimento caro que diminui o pouco dinheiro que é usado para várias necessidades; A ausência do pai de Vera,
que não a conhece; e o desejo, neste dia, de comprar um sapato para a filha, de modo que ao catar papel pela
rua consegue quarenta e um cruzeiros.
O diário ‘15 de junho’ inicia com o destaque a uma notícia de jornal, que fala sobre o suicídio de uma
mulher e seus três filhos devido às dificuldades para sobreviver. Carolina Maria de Jesus relaciona a notícia
com a sua situação na favela: “[...] A notícia do jornal deixou-me nervosa. Passei o dia chingando os políticos,
porque eu também quando não tenho nada para dar aos meus filhos fico quase louca” (Jesus, 2014, p. 63).
O diário ‘21 de junho’ apresenta algumas das lembranças de Carolina Maria de Jesus como catadora de
papel e mãe. Neste diário, especialmente, percebe-se que entre uma experiência e outra a escritora não fala
de si, no sentido de destacar o apreço pela leitura ou a natureza em uma linguagem poética; como faz nos
diários ‘19 de maio’ e ‘20 de maio’ (Jesus, 2014), por exemplo, e isto deixa ver que as lembranças deste dia são
assinaladas a partir de uma busca pela sobrevivência e pelo afeto dos filhos; a exemplo de Vera, quando ganha
um par de sapatos: “Ela sorriu e disse-me: que está contente comigo e não vai comprar uma mãe branca. Que não
sou mentirosa. Que falei que ia comprar os sapatos, e comprei. Que eu tenho palavra” (Jesus, 20214, p. 67).
Os fragmentos de Françoise Ega e de Carolina Maria de Jesus destacados anteriormente, mostram que as
autoras representam ‘escalas de uma vida inteira’, por duas razões: a intervenção da identidade narrativa na
constituição da identidade pessoal e os modelos de permanência no tempo, caráter e palavra cumprida.
Considerando que o caráter é o conjunto de marcas que possibilitam identificar um indivíduo como sendo o
mesmo, nota-se a presença do caráter nas obras de ambas as autoras, pela maneira como elas organizam as
narrativas, carta e diário, respectivamente, e por falarem de si mesmas. Quanto à palavra cumprida, que diz
respeito a uma linguagem mantida, observa-se que esta se faz notar por meio do uso dos gêneros já citados
pelas escritoras.
Diante destas considerações, convém retomar Ricoeur, que comenta como a literatura é um vasto
laboratório para experiências intelectuais, nas quais se manifestam as ‘duas significações de permanência no
tempo, a narrativa e a identidade’. Dessa maneira, o filósofo afirma que por meio das significações
mencionadas ocorre o contrário do modelo aristotélico, pois o enredo é posto a serviço da personagem:
“Atinge-se assim o polo extremo de variação, em que a personagem deixou de ser um caráter” (Ricoeur, 2014,
p. 156). Embora deixe de ser um caráter, a variação entre a narrativa e a identidade permite que a personagem
transite por este último elemento, e pela narrativa, sem perder os traços que a designam, o que ocorre com
Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus.
Viu-se no início deste tópico que identidade narrativa trata-se da coesão de uma vida acrescida de outras
histórias. Quando pensada no contexto da narração, ela leva em conta a identidade pessoal, pois, há que ser
considerado que o quem da ação tem uma história. História que pode ser compreendida por meio da dimensão
temporal da existência humana (Ricoeur, 2014). Por isso, compreendida a identidade narrativa e os modelos
de permanência do tempo, caráter e palavra cumprida, parte-se para a dimensão temporal de Cartas a uma
negra: Narrativa antilhana e Quarto de despejo: diário de uma favelada a partir da relação entre tempo e
memória que dão base para um entendimento mais amplo sobre a identidade narrativa.
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Tempo e memória em Cartas a uma negra: Narrativa antilhana e Quarto de despejo:


diário de uma favelada
Certeau (1998) afirma que a memória é feita pelo sujeito e pela circunstância que este participa. Ao ser
finalizada, esta circunstância se perde, no sentido de não acontecer mais da mesma forma. Desta perda surge
a lembrança, o que contribui para a memória ser entendida como a categoria que toca as circunstâncias e
imprime suas marcas sobre encontros sucessivos. Assim, acontecimentos anteriores só serão lembrados por
novas circunstâncias. Esta noção sobre a memória mostra também que ela, o tempo, a história e a identidade
se conjugam para produzir uma história de vida.
Inicialmente, o tempo opera sobre a memória a partir do momento em que há uma ocasião e/ou
circunstância, além de um sujeito, e se unem pormenores concretos a uma conjuntura da totalidade desta
experiência (Certeau, 1998). Neste sentido, considera-se que a circunstância é um momento oportuno para a
realização de algo, a experiência é a vivência desse momento, e o acontecimento é a materialização da
experiência na obra.
Em Cartas a uma negra: Narrativa antilhana pode-se citar como exemplo de circunstância carta ‘10 de dezembro
de 1962’, que tem como acontecimento o relato em que Ega insiste para conhecer uma patroa considerada ruim
pela zeladora de um prédio e a insistência desta funcionária para que a escritora trabalhe na sua casa.
A carta ‘24 de dezembro’ é uma circunstância que consiste em dois acontecimentos: o frio intenso que
impossibilita Ega de trabalhar em alguma casa e o processo de escrita do seu primeiro livro, que é tido como
um filho: “[...] Um primeiro livro é engraçado, é como o primeiro filho” (Ega, 2021, p. 57).
Na obra Quarto de despejo: diário de uma favelada vê-se como circunstância o diário ‘8 de junho’ em que o
relato apresenta alguns detalhes de como há comida para o almoço neste dia; a comparação que a escritora
desenvolve entre o seu barraco e as casas de alvenaria; e a ausência de água, que fazia com que os favelados
pedissem água aos vizinhos que moravam nas casas de alvenaria.
O diário ‘9 de junho’ pode ser visto como uma circunstância pela presença de alguns acontecimentos, como
no primeiro parágrafo em que Carolina Maria de Jesus conta que sua filha recebera uma bexiga inflável de um
senhor, o que suscita no parágrafo seguinte a recordação dos sofrimentos que a escritora passou depois do
nascimento de Vera Eunice.
Pensar sobre os acontecimentos antes da memória contribui para o entendimento de que o tempo, por ser
uma categoria subjetiva, propicia que o sujeito o perceba como uma qualidade associativa e emocional. Assim,
o tempo, na perspectiva dos acontecimentos, fomenta uma base para discussão sobre a memória. Antes de fazer
vir à tona a memória, o sujeito efetua a passagem de um presente ao outro, porque ele é o próprio tempo.
Veja-se por exemplo a carta ‘2 de abril de 1963’, de Françoise Ega, em que a autora, ao sair em busca do
livro de história do filho, aproveita para perguntar a três livreiros como publicar um livro em Marselha; vai
ainda atrás de um emprego como faxineira. Entre estes dois acontecimentos, há a insegurança de Ega em
relação a si mesma, porque não acredita ser possível publicar um livro. A configuração desta carta – e da obra
– ocorre quando a escritora francesa conta sobre os acontecimentos deste dia para Carolina Maria de Jesus:
“[...] Pense um pouco, Carolina, eu carregava uma sacola de compras de crochê” (Ega, 2021, p. 91).
Na carta ‘8 de abril de 1963’, Françoise Ega, inicia um ateliê de costura e conclui que a iniciativa não fora
vantajosa para si: “Minha pobre Carolina, só consegui costurar quatro pijamas em seis dias! Tive que
interromper meu trabalho a todo momento por qualquer bobagem” (Ega, 2021, p. 94). A escritora francesa
recorre à segunda opção de emprego, trabalhadora doméstica. As contingências ocorridas nesta carta ilustram
que a vida de uma mulher negra antilhana dispõe de poucas opções e se movimenta continuamente para o
exercício de trabalhos instáveis.
No diário ‘6 de julho’ a escritora brasileira comenta: “Esquentei o arroz e os peixes e dei para os filhos.
Depois fui catar lenha. Parece que eu vim ao mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade” (Jesus,
2014, p. 81). Antes de realizar estas ações em destaque no fragmento, a escritora já indica na entrada do diário
o momento em que despertou e ajudou uma vizinha com problemas de saúde. E ao dizer que veio ao mundo
predestinada a catar, Carolina Maria de Jesus insinua a repetição de suas ações como uma forma de dar
destaque a uma rotina de intensa vulnerabilidade social.
Françoise Ega elabora uma metáfora sobre a memória a partir do fogo: “As cinzas das memórias não são
apenas restos de fogueiras. Há também as brasas de sofrimento, as achas de lenha da maldade, os ramos da
ternura e do amor” (Ega, 2021, p. 89). Em Quarto de despejo: diário de uma favelada, as brasas de
acontecimentos da memória de Carolina Maria de Jesus também consistem em maldade; de uma sociedade
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brasileira que condena a população pobre e negra a uma situação de vulnerabilidade; ternura e amor, quando
a escritora relata em vários diários a preocupação com os filhos e comenta sobre os seus sonhos.
Neste sentido, percebe-se que ambas as autoras representam narrativamente as suas realidades empíricas
na ficção, o que contribui para que suas identidades se formem, principalmente por elas serem personagens e
escritoras de si mesmas. Não por acaso, elas compartilham alguns sonhos. Na carta ‘Pentecostes de 1962’, Ega
se imagina uma mulher rica que compraria uma casa no campo: “[...] Se fosse rica [...] Eu teria uma casa
ensolarada no campo, longe do barulho dos motores, ouviria o vento cantar nas árvores altas, que não
faltariam ao redor” (Ega, 2021, p. 10-12). E Carolina Maria de Jesus revela o sonho de sair da favela: “É que eu
estou escrevendo um livro, para vende-lo. Viso com esse dinheiro comprar um terreno para eu sair da favela”
(Jesus, 2014, p. 27); e o diário ‘8 de agosto’: “Se Deus auxiliar-me hei de sair daqui, e não hei de olhar para
trás” (Jesus, 2014, p. 188).
Por isso, Cartas a uma negra: Narrativa antilhana e Quarto de despejo: diário de uma favelada concedem às
escritoras a permanência no tempo por meio de cinco elementos: a relação entre a identidade narrativa e a
identidade pessoal; o caráter e a palavra cumprida; e a relação entre tempo e a memória. Estes elementos
oportunizam uma travessia simbólica pelo atlântico em relação a Françoise Ega e Carolina Maria de Jesus.
As paisagens-palavra de Françoise Ega e de Carolina Maria de Jesus encontram-se, principalmente, pela
palavra, e também pela transposição dos acontecimentos do mundo empírico para a ficção, o que propicia o
desenvolvimento de uma identidade narrativa antilhana e uma brasileira. Estas identidades estão com a
fronteira sempre aberta, tomando de empréstimo o pensamento de Glissant (2021, p. 58): “A paisagem de tua
palavra é a paisagem do mundo. Mas sua fronteira está aberta”.

Considerações finais
Este trabalhou objetivou a analisar como se articulam o tempo e a memória para a construção da identidade
narrativa de Françoise Ega e de Carolina Maria de Jesus em suas respectivas obras, Cartas a uma negra:
Narrativa antilhana e Quarto de despejo: diário de uma favelada.
Ao mostrar como se desenvolve a identidade narrativa, de Françoise Ega e de Carolina Maria de Jesus, por
meio de suas obras, este artigo destacou que os acontecimentos de uma vida caracterizam o conceito de
identidade narrativa e os seus aspectos: a intervenção da identidade narrativa na constituição da identidade
pessoal e os modelos de permanência no tempo, caráter e palavra cumprida.
Por meio da linguagem, as autoras citadas efetuam a passagem de um presente ao outro, falando de si
mesmas. A palavra é, portanto, uma alternativa contra a solidão, busca registrar o instante como forma de dar
sentido ao que foi vivido. Além disso, esta palavra se firma pela subjetividade e dispõe de uma fronteira
sempre aberta, levando em consideração o tom de denúncia em alguns trechos das narrativas, tanto na obra
de Ega como na obra de Carolina Maria de Jesus.
Cartas a uma negra: Narrativa antilhana e Quarto de despejo: diário de uma favelada são obras que dão outro
sentido para os acontecimentos da vida de uma mulher negra. Graças às suas ordenações narrativas, Françoise
Ega e Carolina Maria de Jesus mostram à sociedade e aos seus leitores que são o próprio tempo e que sua busca
pela identidade narrativa, para além do tempo, da memória e da história, encontra-se no olhar incessante
sobre si, a transitar continuamente na fronteira aberta do passado, presente e futuro.

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