AIRON ALISSON PEREIRA
O “SAMBA MODERNO” E O PAGODE ROMÂNTICO EM FLORIANÓPOLIS:
HISTÓRIA, BANDAS E CARACTERÍSTICAS
FLORIANÓPOLIS, SC
2007
2
UDESC - UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA
CENTRO DE ARTES
DEPARTAMENTO DE MÚSICA
AIRON ALISSON PEREIRA
O “SAMBA MODERNO” E O PAGODE ROMÂNTICO EM FLORIANÓPOLIS:
HISTÓRIA, BANDAS E CARACTERÍSTICAS
Trabalho de conclusão do curso de
licenciatura em música orientado pela
Profa. Dra. Maria Ignez Cruz Mello.
FLORIANÓPOLIS, SC
2007
3
Este trabalho é dedicado à Prof. Dra.
Maria Ignez Cruz Mello e à todos aqueles
que conseguem ajudar, ou dar apoio ao
próximo, superando os problemas e as
dificuldades que aparecem no percurso da
vida, que a princípio fariam o mais bravo
e corajoso ser humano recolher-se em seu
lar esperando a tempestade passar.
4
AGRADECIMENTOS
Agradeço,
Primeiramente às bandas, seus integrantes, produtores e empresários que se mostraram
sempre prontos a ajudar.
À Áurea, que na reta final me passou informações importantes que levaram este trabalho
por um outro caminho.
Aos meus pais, Mário Neves Pereira e Eliéti Beatriz Nagel Pereira, que me deram
educação, apoio e suporte para que chegasse até aqui, e minha irmã Marina Beatriz Nagel
Pereira que, além de todo apoio, corrigiu todas as minhas vírgulas, pontos e conjugações
verbais.
Ao meu primo Thiago Baby, com seu bom humor e me ajudando com o abstract.
À professora Vânia Muller, que acreditou em mim, e me fez crescer como pessoa e como
músico.
Aos meus colegas de curso, pelas brincadeiras e conversas nos corredores que me
ajudaram a continuar cursando a Licenciatura, e que, ao estranhar o assunto deste
trabalho, estavam me incentivando cada vez mais a prosseguir e a pesquisar.
A minha namorada, Alice Grolli Pimentel, que suportou as longas horas de minha
“presença ausente”, e que corrigiu, argumentou e discutiu parágrafos inteiros ao longo
dos meses.
Minha orientadora Profa. Maria Ignez que, apesar de tudo, continuou me orientando,
pressionando e incentivando até a última semana.
5
Resumo
Este trabalho trata de duas correntes do samba atual, identificados aqui como “samba
moderno”, e pagode romântico na cidade de Florianópolis, focando especialmente na
tensão existente entre elas. Esta tensão é vista sob a ótica do que Piedade (2005) chamou
de “fricção de musicalidades”. Inicia com uma breve história do samba e alguns
comentários sobre as transformações ocorridas neste gênero musical na década de 70.
Segue-se então um mapeamento das bandas atuantes na cidade, uma discussão sobre o
repertório e as características harmônicas e estilísticas que são definidoras de cada uma
das correntes, e uma descrição dos instrumentos utilizados, ressaltando “batidas” e
“levadas” características. Esta discussão segue de perto a idéia de “musema”, como
adotada por Philip Tagg (2004).
Palavras-chave: samba, pagode, Florianópolis
Abstract
This paper talks about two varieties of the current samba identified here as “modern
samba”, and “romantic pagode” at the city of Florianópolis, it observes specially the
tension between them. The tension is showed under Piedade (2005) point of view, which
is called of “friction of musicalities”. It starts with a quickly exposion of samba history
and a few comments about the transformations that happened in this genre at the 70’s.
Then, it shows the current bands in the city. A debate about the songs played on the
concerts and the harmonic and stylistic characteristics that define each of two varieties,
and a description of used instruments, it also stands out the “beats” and “levadas”
characteristics. This discussion follows the idea of “musemes” that was adopted by Philip
Tagg (2004).
Key-words: Samba, pagode, Florianópolis
6
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO 07
2 O "SURGIMENTO" DO PAGODE ROMÂNTICO E A FRICÇÃO 09
COM O “SAMBA MODERNO”
3 O PAGODE EM FLORIANOPOLIS 26
3.1 LEVANTAMENTO DOS DADOS 28
4 MAPEANDO AS BANDAS 33
4.1 BANDA KATENDÊ 33
4.2 BANDA SWING MANEIRO 38
4.3 BANDA SAMBA AÍ 42
4.4 O REPERTÓRIO DOS SHOWS 45
5 OS INSTRUMENTOS 48
5.1 O PANDEIRO 48
5.2 O TAM-TAM E O REBOLO 49
5.3 O GANZÁ OU CHOCALHO 50
5.4 O TAMBORIM 50
5.5 O SURDO 51
5.6 O REPIQUE DE MÃO 51
5.7 CONGAS 52
5.8 A BATERIA 52
5.9 O CAVAQUINHO 53
5.10 O BANJO 54
5.11 O BAIXO 54
5.12 O VIOLÃO 55
5.13 O TECLADO 55
5.14 NAIPE DE METAIS 56
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS 57
BIBLIOGRAFIA 59
ANEXOS 65
7
INTRODUÇÃO
O presente trabalho, realizado ao longo do primeiro semestre de 2007, apresenta
um breve estudo do contexto musical em que se realiza o pagode na cidade de
Florianópolis, como se deu seu desenvolvimento regional e qual sua relação com o
mercado dos bens musicais, focando na trajetória de algumas bandas. Este estudo baseia-
se principalmente em entrevistas realizadas com integrantes de três grupos de pagode da
cidade de Florianópolis e também em entrevistas com “Sabará”, vocalista de um dos
primeiros grupos de Florianópolis, o Senti Firmeza.
Apresento uma breve história do samba, salientando como se deu sua
transformação na década de 70, considerada por vários autores como aquela onde
ocorreram acontecimentos paradigmáticos, que posteriormente dariam origem ao “samba
moderno” e em seguida ao pagode romântico.
Estes dois gêneros continuam muito presentes no cenário nacional, sendo
responsáveis por uma grande porcentagem das vendas de CD no Brasil. Contudo, a
relação entre eles não se dá sem um certo conflito, o que nos leva a pensar em um
conceito cunhado por Piedade (2005), o de “fricção de musicalidades”, a princípio
pensado para lidar com as tensões presentes entre a música instrumental brasileira e o
jazz norte-americano, sendo aqui transposto para o cenário do samba nacional.
Escolhi este tema pois o samba e o pagode sempre fizeram parte da minha vida. Já
pequeno, eu conheci a escola de samba Unidos da Coloninha, que meu pai e minha mãe
freqüentavam. Como meus pais gostavam e gostam muito de samba, foi o gênero mais
escutado em minha casa desde minha infância. Morei no morro da Coloninha muito
tempo, em seguida fui para o Estreito, bairro vizinho ao Morro da Coloninha, onde o
samba também é muito cultivado e onde pude, junto com meus amigos, escutar e
vivenciar este gênero musical. Participei de dois grupos de pagode tocando violão, e no
mesmo período, entrei em uma escola de música que era voltada para o samba e o
chorinho. Lá me aprofundei na música, vindo então a cursar uma faculdade de Música. A
partir de então, passei a ter contato com outros gêneros musicais, visto que o samba não
faz parte da grade curricular do curso de graduação. Observei que dentro da faculdade,
8
inclusive, muitas vezes o samba, e mais especificamente o pagode, são discriminados
pelos colegas. Felizmente, há uma área de Etnomusicologia no Departamento de Música
da UDESC, na qual pude receber orientação para desenvolver este trabalho.
O samba, assim como várias manifestações populares, se enquadra perfeitamente
como objeto de estudo no campo da Etnomusicologia. Tomando de empréstimo as idéias
de Netti (2005), que define o campo com grande amplitude, mostrando que o interesse
desta área recai sobre toda a música humana, podemos compreender este estudo como
algo que deve se dar em termos comparativos de sistemas musicais e culturais, e que tem
como base os métodos e técnicas antropológicas de pesquisa.
9
CAPÍTULO 2
O "SURGIMENTO" DO PAGODE ROMÂNTICO E
A FRICÇÃO COM O SAMBA MODERNO
A palavra pagode significa festa (...). Em 1977 começaram as peladas
seguidas de pagode no Cacique de Ramos1. Numa daquelas quartas-feiras,
Beth Carvalho apareceu lá, levada pelo ex-jogador do Vasco Alcir Portela.
Os instrumentos novos, o som diferente, o partido-alto de qualidade, tudo
despertou o faro de Beth. Depois de durante um ano com a turma e ouvir
muitos sambas bons, ela levou tudo, turma e sambas, para o estúdio. O
resultado foi “De pé no chão”, um de seus melhores discos. (BLANC,
VIANNA e SUKMAN, 2004. p. 106)
O surgimento do samba, segundo a versão dos baianos, vem do final do século
XIX, início do século XX, e é produto da mistura de alguns gêneros da música negra, dos
escravos da época, como explica Guimarães, “Os baianos, com justo orgulho, chamam a
si a paternidade do samba, que data dos fins do primeiro império. Até aí só existiam o
jongo, o batuque e o cateretê. Mais tarde veio o fado e por último o samba – que
progrediu e venceu toda a linha” (GUIMARÃES, 1978. p. 27),
Já Felipe Trotta (2006) defende a idéia de que o Rio de Janeiro foi o palco dessa
geniosa invenção. O final do século XIX, início do século XX no Brasil foi um período
onde “o debate intelectual brasileiro já associava a questão da identidade (e da pouca
unidade) nacional ao problema do ‘atraso’ do Brasil” (Vianna, 1999. p. 63). Os olhos se
voltaram para os mestiços, que antes eram vistos com maus olhos pela sociedade e
considerados como o motivo real do atraso brasileiro. Eles virariam agora identidade
nacional, principalmente com a Obra Casa Grande e Senzala de Gilberto Freire,
considerada “(...) a [obra] que primeiro articulou com êxito essa história Brasileira que
todo Brasileiro gosta (por motivos claros e escuros) de contar para ele mesmo: que somos
uma cultura ‘mestiça’ e misturada” (Citado em VIANNA, 1999. p. 76), mostrada com
1
Cacique de Ramos é um antigo bloco de carnaval localizado no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro
10
muito orgulho por jornais e intelectuais da época. “Mistura, mistura em todos os lugares,
sempre mistura, eis a obra mais clara, mais garantida, mais durável das grandes
sociedades e das civilizações poderosas” (apud VIANNA, 1999. p. 65). Logo, a música
que é fruto dessa gente, fruto da combinação de vários gêneros tocados até então, ganhou
rapidamente reconhecimento, passando posteriormente a ser um símbolo nacional.
Mas o processo de reconhecimento do samba “não se deu exatamente desse modo
iluminado” ([Link]. p. 97). Muitas autoridades tentaram acabar com o samba desde seu
princípio. No começo, o samba era não só visto como um tipo de música inadequada para
a aristocracia da época, como também era proibido e perseguido pelas autoridades. A
alternativa encontrada pelos músicos foi praticar o samba dentro dos terreiros de
umbanda, pois, como a religião era permitida, os policiais não poderiam invadir os
terreiros para acabar com a música - apesar de muitas vezes isto ter acontecido. Um dos
principais locais responsáveis pelo cultivo do samba foi a casa da Tia Ciata, por volta de
1915. Lá se reuniam os principais sambistas da época, e foi o local de nascimento do
primeiro samba gravado em disco, a música Pelo Telefone. Na verdade, existem algumas
polêmicas a respeito deste assunto.
A primeira é a respeito do autoria. Donga afirma que a música é dele, já que
tratou de, na época, registrá-la em todas as instituições responsáveis. Apesar do registro,
Moura (1983) conta que de acordo com grande parte dos cronistas musicais e
pesquisadores, o tema teria sido feito na casa de Tia Ciata e teria sido nomeado como
Solto como um pássaro. Veio da turma da casa de Tia Ciata a atitude mais forte.
Em cima da bucha, ainda nas vésperas de carnaval de 17, saía no jornal:
‘Do Grêmio “Fala gente” recebemos a seguinte nota: Será cantado
Domingo, na Av. Rio Branco, o verdadeiro tango Pelo Telefone, dos
inspirados carnavalescos, o imortal João da Mata, o maestro Germano, a
nossa velha amiguinha Ciata e o inesquecível bom Hilário.” (MOURA,
1983. p. 80)
Veja a letra cantada no Domingo de Carnaval:
Pelo telefone Mandou avisar
A minha boa gente Que meu bom arranjo
11
Era oferecido Que esse arranjo é teu!
Para se cantar É do bom Hilário
E da velha Ciata
Ai, ai, ai, Que o Sinhô escreveu
Leve a mão na consciência,
Meu bem Tomara que tu apanhes
Ai, ai, ai, Para não tornar a fazer isso
Mas porque tanta presença, Escrever o que é dos outros
Meu bem? Sem olhar o compromisso
Ô que caradura
De dizer nas rodas
A segunda polêmica é a respeito se foi realmente este o primeiro samba gravado.
Roberto Moura cita que, antes de Pelo Telefone, já havia sido gravado o partido-alto2de
Alfredo Carlos Bricio, Em casa de Baiana, em 1913, e A viola está magoada, cantado
por Baiano em disco de 1914. Mas Pelo Telefone seria, sim, o primeiro samba gravado a
fazer sucesso. ([Link]. p. 77).
Nessa época, o samba começava a fazer parte dos blocos de carnaval que saíam às
ruas do Rio de Janeiro. Monique Augras nos dá uma idéia da situação da época:
Do lado dos ricos, havia os préstitos das grandes sociedades, fundadas, em
sua maioria, em meados do século passado. Do lado pobre, saíam às ruas
‘blocos’, grupos pobremente fantasiados com apetrechos improvisados,
‘cordões’, agrupamentos de mascarados já mais organizados, e ‘ranchos’.
(AUGRAS, 1998. p. 17)
As bandas dos blocos de carnaval do início do século XX tocavam principalmente
marcha, fox, maxixe e toada sertaneja, como explica Gilberto Gil (MÚSICA DO
2
Identifico dois tipos de partido alto. O primeiro é a música com caráter de improviso, onde, em uma roda
de samba, cada música tem sua vez de improvisar um verso. O outro é um gênero, diferente do samba,
caracterizado por uma levada específica.
12
BRASIL, 1998). Só depois, que o samba passou a ser a principal música dos blocos
carnavalescos.
O surgimento do primeiro Samba Enredo é uma grande polêmica. A Escola de
Samba Unidos da Tijuca haveria saído com um samba em 1933, evento acompanhado
pelo Jornal O Globo. O segundo registro data de 34, feito pela Mangueira. Mas a dúvida
permanece, pois a Mangueira não desfilou em 1934. Após o registro de 1934, só
encontraremos o próximo samba em 38, de Antenor Gargalhada, da Salgueiro; seguido
por Paulo da Portela em 1939 (AUGRAS, 1998. p. 74-76). Isto quer dizer que temos
apenas 70 anos de Samba Enredo na avenida. Com o Samba Enredo, surgiram as Escolas
de Samba, nome dado aos blocos que se localizavam nos morros do Rio de Janeiro, pois
ali era o local onde se formavam os sambistas, onde aprendiam a fazer samba ([Link]. p.
63).
No bairro de Ramos, subúrbio do Rio de Janeiro, existe até hoje o Bloco de
Carnaval Cacique de Ramos. Em meados da década de 70, foram instituídos encontros
sempre às quartas à noite, com futebol, cerveja e muita música, sendo este um espaço
aberto para novos compositores. Este foi o palco do nascimento do novo jeito de se fazer
samba, ao qual chamarei de “Samba Moderno”, como explica a principal figura
responsável por mostrar e gravar essa nova cara do samba, Beth Carvalho. Em entrevista
concedida a Gilberto Gil (MÚSICA DO BRASIL, 1998), ela comenta a música Vou
Festejar do Disco “De pé no chão”, da seguinte maneira:
Eu consegui resumir o pagode que tava rolando, isto é, com a
instrumentação de tam-tam, banjo e repique de mão, com um samba de
carnaval, (...) e com isso a música [Vou Festejar] estourou no pais inteiro,
o bloco se levantou, o samba mudou o som (...).
Beth Carvalho se refere ao samba que estava “rolando” em encontros semanais no
Bloco Cacique de Ramos, onde alguns compositores e instrumentistas se destacaram,
como explica Galinsky (1996):
13
Dos encontros semanais no Cacique emergiu o influente Fundo de
Quintal. Inicialmente formado por Bira, Ubirany, Sereno, Jorge Aragão,
Neoci, Almir Guineto e Sombrinha (os últimos dois a integrarem o cacique
em 79), o grupo não tinha intenções de se tornar profissional...3
Assim surgiu o Grupo Fundo de Quintal, a principal influência sobre os grupos de
pagode que apareceriam posteriormente, na década de 80.
Mas o pagode foi além do samba moderno, esse novo jeito de fazer samba com
alguns novos instrumentos. O jeito de abordar o amor nas letras, a harmonia mais tensa, a
bateria, o baixo, o teclado (ou sintetizador), tudo isso mudou ainda mais a cara do samba,
mudança feita principalmente pelas bandas de pagode paulistas. Podemos observar as
mudanças na fala de Luisinho Salles, pagodeiro da COHAB de São Paulo:
(...) Acho que é uma evolução (...) e o samba ta ficando cada dia melhor.
Colocaram um baixo, uma bateria, um carrilhão4, um efeito né, ai foi
melhorando, e é o que está acontecendo, ta evoluindo... infelizmente o rio de
janeiro ficou preso à escola de samba, ficou preso a um tamborim, pandeiro,
não precisava de cavaquinho, tinha que ter um rebolinho e acabou, e isso aí foi
agredindo ao público. O que é que aconteceu: São Paulo arriscou, colocou um
contra-baixo, colocou um teclado, mandou mixar, não é aquela coisa de fundo
de quintal mais. (Luisinho Salles em entrevista ao programa Música do Brasil,
1998)
O principal grupo responsável pela criação desta nova sonoridade foi o Raça
Negra, como explica Felipe Trotta (2006) em sua tese, defendendo a inovação por parte
do grupo, sem influências do samba moderno.
Nós nunca tocamos Fundo de Quintal. Eu sempre dizia que o Raça Negra
está mais pra Tim Maia do que pra Fundo de Quintal. Então era essa mistura
de samba com essas influências da black music, mais o samba-rock, o Swing
de Jorge Benjor e a gente misturava um pouco samba, mais pagode e samba.
O samba do Fundo de Quintal, do Almir Guineto, do Zeca Pagodinho, da
Jovelina Pérola Negra, da Beth Carvalho, esse samba nós nunca tocamos. Eu
3
Tradução do autor. Original em (Galinsk, 1996: pg 3-4)
4
Instrumento com vários canos massiços de ferro, em ordem decrescente de tamanho.
14
pessoalmente escutava, até hoje gosto, mas não influenciava na nossa
levada, no nosso jeito de tocar (Luiz Carlos em entrevista concedida a Trotta
(2006) em, 8/4/2005).
Trotta explica que o grupo surgiu da mesma maneira que o grupo Fundo de
Quintal. Após os jogos de futebol entre os amigos, eles se dirigiam à um bar, e Luiz
Carlos, vocalista do grupo, levava seu violão e lá tocava suas músicas. O evento foi
aumentando, até que foi preciso colocar um microfone de tanta gente que ia lá para ver a
brincadeira. Pouco tempo depois foram convidados a tocar em uma casa noturna, e, em
seguida, em várias outras. Até que o grupo gravou uma “fita demo” e conseguiu gravar
seu primeiro LP em 1991 (Raça Negra, 2001), vendendo 1,6 milhões de cópias.
Após o fenômeno Raça Negra surgiram outros grupos como o Negritude Júnior e
o Só pra Contrariar, que Trotta explica como ecos da música do grupo.
Nesse mesmo período, surgia na Bahia a “Axé Music” ou o “Pagode Baiano”. O
grupo “Gera Samba”, que posteriormente passou a se chamar “É o Tchan”, é um dos
pioneiros desse jeito de fazer samba baiano. Na verdade, como diz o próprio “É o Tchan”
e também Mônica Leme (2003) em sua dissertação sobre este grupo, eles fizeram um
grande trabalho no sentido de transformar os Lundus e as Umbigadas que já faziam parte
da cultura baiana em uma música mais popular, com instrumentos e harmonias da música
Pop. Desta forma, o grupo trouxe para o centro da cena, não somente a música, mas
também a dança sensual (ou pode-se dizer até sexual) que era praticada nas festas
populares.
Podemos analisar que, após toda essa transformação de “Matrizes Culturais” (ver
LEME, 2003. p. 56-59), em que as Umbigadas e Lundus foram transformadas em samba
e este em gêneros industrializados, talvez até modernizados (como vemos na fala de
Luisinho Salles), ocorre o que Piedade (2005) chama de “Fricção de Musicalidades”.
Neste quadro, há diferentes grupos de pessoas que possuem uma determinada
musicalidade de samba, entendendo aqui musicalidade como
Uma espécie de memória musical-cultural que os nativos compartilham.
Musicalidade seria, assim, um conjunto de elementos musicais e
simbólicos, profundamente imbricados, que dirige tanto a atuação quanto a
15
audição musical de uma comunidade de pessoas (PIEDADE, 2005. p.
199 – 200).
Tais comunidades buscam dominar os diversos elementos desta música negra,
herdada de escravos vindos da áfrica e regada à percussão. Hoje o samba está
representado por três correntes: “samba de raiz”, que busca uma aproximação com a
sonoridade mais próxima das décadas de 30 e 40 (que, pela limitação deste trabalho, não
será abordado); o samba moderno, que inclui alguns novos elementos criando uma nova
sonoridade; e outro grupo que domina toda essa musicalidade, mas busca sua própria
identidade, identificado aqui como pagode romântico:
A utilização do termo [de raiz, na década de 90] evidencia que designar
uma música como “samba” não era mais suficiente, tornando-se necessário
explicar mais, associar a prática musical a um conjunto mais específico de
elementos semelhantes e característicos do gênero. Na prática, significava a
criação de uma demanda por um maior refinamento na classificação da
categoria samba (TROTTA, 2006. p. 171).
A primeira corrente, identificada aqui como samba moderno, está localizada no
Rio de Janeiro. Mesmo surgindo bem antes do pagode romântico, os integrantes do
Cacique de Ramos, precursores do samba moderno como Jorge Aragão, Arlindo Cruz e
Sombrinha, Dudu Nobre, Zeca Pagodinho, só vieram a se tornar “mega artistas” no final
da década de 90 com a “despopularização” do Pagode Romântico, como explicou
Adalberto, da banda Swing Maneiro, em entrevista. Segundo ele, não que não tivessem
uma certa fama antes dessa época, mas só vieram a “explodir” na mídia nesse período.
A busca por esta identidade de samba moderno iniciou na década de 70, em
encontros realizados sempre às quartas-feiras à noite no Bloco Cacique de Ramos, o que
deu origem ao Grupo Fundo de Quintal. Nestes encontros, os músicos faziam grandes
modificações no samba, principalmente no que se refere à instrumentação. No Cacique
surgiram o Repique de Mão, o Tam-Tam (com a mesma função que o surdo) e o Banjo
(com a mesma função do cavaquinho). Com as inovações, principalmente a introdução do
Tam-Tam, o samba poderia ser feito apenas com instrumentos de colo. Não quero dizer
aqui que o cavaquinho e o surdo tenham sido desvalorizados, pelo contrário: aumentou-se
16
assim a gama de timbres, dando mais variedade aos arranjos, por exemplo, podendo
destacar mais as mudanças de intensidade (como a entrada característica do surdo no
refrão) e modificando profundamente a levada, deixando-a mais dinâmica e elaborada.
(Ver página 49 - 50, O Tam e o Repique de Mão). Aqui, as letras falam muito de amor,
como em toda a história do samba, mas o pensamento parece mudar no samba moderno,
como explica Trotta: “No pensamento musical do samba dos anos 1980, a dor do amor já
não apresenta a mesma permanência de antes, devendo ser superada em busca da
felicidade”. (TROTTA, 2006. p. 122).
Faz parte da sonoridade do samba moderno, como também faz parte do samba de
raiz, as progressões I, VI7 ou VIm, IIm, V7, I, podendo haver algumas tensões em
qualquer um dos acordes, e também a cadência caindo para o quarto grau, como Vm, I7,
IV, IVm6 (ou V, ou V/VI, ou #VIº), IIIm (ou I), VIm, IIm, V7, I. Como nos trechos das
músicas abaixo:
Tiro ao Álvaro – Demônios da Garoa (1980)
Tonalidade Ré Maior
D B7
De tanto levar frechada do teu olhar
Em A7 Am (II/IV) D7 (V/IV)
Meu peito até, parece sabe o que
G (IV) Gm (IVm) F#m (IIIm)
Tauba, de tiro ao álvaro
Bm (VIm) Em (II) A7 (V) D
Não tem mais onde furar
Caviar – Zeca Pagodinho (2002)
Tonalidade de Sol Maior
G E7 Am7
Caviar é comida de rico curioso fico, só sei que se come
D7
Na mesa de poucos fartura adoidado
G
Mas se olha pro lado depara com a fome
Dm G7 Cadência para o quarto grau
Sou mais ovo frito, farofa e torresmo
17
C (IV)
Pois na minha casa é o que mais se consome
D7 (V) G (I) E7 (V/II)
Por isso, se alguém me perguntar
Am (II) D7 (V) G (I)
O que é caviar? Só conheço de nome
A chuva cai – Beth Carvalho (1980)
Tonalidade de Ré Maior
E7 A7 Am (Vm ou II/IV) D7 (V/IV) Cadência para o quarto grau
Que está cansado de sofrer desilusão
G (IV) A7 (V) D (I) Bm (VIm) Em (II) A7 (V) D (I)
Espero que a natureza faça você mudar de opinião
Coisa de Pele – Jorge Aragão (2002)
Tonalidade de Sol Maior
G7M G6
Podemos sorrir
F#m7/5b B7/9b
Nada mais nos impede
Em7
Não dá pra fugir
Dm7 (Vm ou II/IV) G7 (V/IV) Cadência para o quarto grau
Dessa coisa de pele
C7M (IV) Cm (VIm)
Sentida por nós
Bm7/5b (II/II) E7/9aum (V/II)
Desatando os nós
A7/9 (V/V) A7/9b
Sabemos agora
Am7 (II) D4/7/9 (V)
Nem tudo que é bom vem de fora
G7M (I) G6
E a nossa canção...
Da Música – Arlindo Cruz e Sombrinha (1996)
Tonalidade de Sol Maior
Dm (II/IV) G7 (V/IV) Cadência para o quarto grau
A vida não podia por muito mais tempo nos ter separado
C7M (IV) Cm (IVm)
18
Foi bom pra você
Bm7 (IIIm) E7 (VI7)
Melhor para mim
Am7 (II) D7 (V) Dm (II/IV) G7 (V/IV)
nossa parceria carece de não mais ter fim
C7M (IV) Cm6 (IVm)
Se tem tudo a ver
Bm7 E7
Deixemos assim
Am7 D7 G7M D7
O nosso caso é exceção, é sim (da música)
A grande Família – Dudu Nobre (2001)
(música tema da série global “A grande Família”)
Tonalidade Si bemol Maior
Fm (II/IV) Bb7 (V/IV) Eb (IV) Ebm (IVm) F7 (V) Bb (I) Bb A Ab G7
Esta família é muito unida, e também muito ouriçada
C7 F7 Cm7 F7/9 Bb
Brigam por qualquer razão, mas acabam pedindo perdão.
Cm7 F7/9 Bb
Pirraça pai, pirraça mãe, pirraça filha
Cm7 F7/9 Bb
Eu também sou da família, também quero pirraçar…
Identifico esta seqüência de acordes (cadência II – V IV) como um “musema”
do samba moderno, pois, segundo Philip Tagg (2004):
A análise musemática permite a identificação de significantes e
significados com base nos dois tipos de consistência demonstrável. [1]
interobjetiva ou intertextual, isto é, a mesma ou similar estrutura (designada
neste estágio de pesquisa em termos construcionais) usados em diferentes
trabalhos por diferentes músicos pertencendo à mesma cultura musical
básica; [2] o mesmo ou similar fenômeno paramusical conectado por
diferentes indivíduos, pertencendo à mesma cultura musical básica, e às
mesmas ou semelhantes estruturas musicais. (TAGG, 2004. p. 2)
19
Trotta também utiliza a análise musemática, dizendo que determinados acordes
no samba podem ser diversas vezes utilizados neste universo musical com um mesmo
significado (TROTTA, 2006. p. 24). No caso apontado acima, não seria apenas um
acorde, como explica Trotta, mas uma seqüência de acordes utilizada pelos defensores da
corrente samba moderno. Observo que, naturalmente, alguns artistas do pagode
romântico utilizam estes “musemas” apontados acima, pois, afinal, muitos sofreram as
influências da sonoridade do samba moderno, como o grupo Swing Maneiro (segundo
Adalberto, pandeirista do grupo, em entrevista cedida no dia 06/06/2007) e também o
grupo Art Popular, em entrevista ao Programa Músicas do Brasil (1998), dizendo que:
A gente cantava vários sucessos(...), Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Leci
Brandão, Alcione, Jovelina Pérola Negra. Aí depois nós começamos a tocar
outros estilos dentro do pagode, a gente cantava essa daqui ó [Manoel, de
Tim Maia]. (Leandro Lehart em entrevista ao programa Música do Brasil,
1998).
Outros “musemas” que caracterizam o samba moderno são o som do Tam-Tam,
do Repique de Mão e do Banjo, introduzidos pela corrente no final da década de 70.
Anderson Ávila, da banda Katendê, em entrevista cedida no dia 09/06/2007, explica que
o som da banda está mais para o samba do que para o pagode, devido à valorização que a
banda dá à percussão na mixagem final, fator que deve ser considerado componente da
sonoridade do samba moderno.
A segunda corrente, chamada de pagode romântico, está localizada
principalmente em São Paulo. Após o lançamento do grupo Raça Negra, que caracterizou
uma nova “levada” para o pagode romântico, principalmente marcada pelo violão, muitos
outros grupos foram buscar inovações e se lançar no mercado com essa nova sonoridade.
Mas mesmo no Raça Negra, que afirma que não ter sofrido influências do samba
moderno, pode-se observar o uso do tam-tam, elemento introduzido pelo grupo do
Cacique de Ramos. Essa nova “levada”, marcada pelo violão, foi o uso do Padrão Benjor
(TROTTA, 2006. p. 93) e é usada até hoje, como na música Livre para Voar – (grupo F-
unit, 2006) e Desculpe, mas eu vou chorar – (grupo Raça Negra, 2001).
20
A partir daí esta corrente busca cada vez mais inovar e encontrar sua própria
identidade. Podemos observar através da fala de Luisinho Salles que ocorre a introdução
de novos elementos no pagode romântico, como o Baixo, a Bateria e o uso de
Sintetizadores (ou teclados).
Aqui os grupos não dão tanta importância à sonoridade da percussão na mixagem
como no samba moderno, e utilizam freqüentemente o teclado (ver O Teclado, página
55), naipes de sopro, e, apesar de buscarem sua própria identidade, utilizam os
instrumentos introduzidos ao samba pela primeira corrente. A harmonia no pagode
romântico utiliza mais tensões, e o uso da 7M em graus como I e IV é bastante comum,
assim como o uso de nonas em acordes V7. Dando mais sentimento às letras (ou talvez às
melodias e à forma de cantar), as músicas agora falam de saudade, amor e sexo,
felicidade no amor e sofrimento. (TROTTA, 2006. p. 145 – 152).
Segundo Sandrinho, em entrevista concedida no dia 04/06/2007, as letras dos
grupos de pagode romântico em atuação são bem menos trabalhadas e pensadas, mas ao
mesmo tempo as melodias são mais bonitas e mais elaboradas. Exponho a seguir alguns
trechos de músicas para observarmos a questão dos acordes.
Luz das Estrelas – Cantor Belo (2004)
Tonalidade de Ré Maior
D7M 7M G7M
Esta dor não quer passar
A7sus4 D7M
Ficou dentro do coração
G7M
Queria te encontrar
G7M D/F# Em7/9
Falar desta paixão
F#m7 Bm7
De tudo que ficou por aqui
21
G7M G/A A/B G
E não é mais pecado
D7M G7M
Querer você pra mim
A7sus4 D7M 7M e sus
A terra, o céu; o mal e o bem
G7M
Eu quero ser feliz
G7M D/F# Em79 m79
Você tá sem ninguém
F#m7 Bm7
A tempestade já passou
G7M A7sus4
Fica do meu lado
Futuro Prometido – Grupo Sorriso Maroto (2006)
Tonalidade de Sol Maior
G9add 9add D Em7
A lua que prometi está ali
C9add 9add
E o sol só amanhã
G/B C/D D7/b9
E a terra aos seus pés
G9add D Em7
A flor que eu te prometi está ali
C9add G/B Am
Guardada pra te dar e você nem sei não vi...
C7M Bm7
E o futuro prometido eu vim cobrar
Am7 C/D D7/b9
Você jurou me amar e me fazer feliz
C9add Bm7 Am7
Rasguei os planos, foi engano, eu me envolver
Am Bm C9add Bm7 Am7 C/D
Por um coração cigano, leviano que me fez sofrer
Me Faz Feliz – Grupo Jeito Moleque (2005)
Tonalidade de Fá Maior
F7M 7M
Te vi na galera
Cm7 F7 cadência para o quarto grau do samba moderno
Fiquei na espera com o violão utilizando o Padrão Benjor
22
Bb9add/D 9add
E ai foi só você me olhar
Db7M C7/9/11 7, 9 e 11 juntas
Pra eu me apaixonar
F7M Cm7 F7
Tô apaixonado, maluco, vidrado
Bb7M
Preciso de um beijo seu
Bb7M/11 Eb7/9/11 7M e 11
Preciso sentir ....seu calor
Ab7M Db7M 7M Gm7/11 C7/9/11 11
Eu não serei o mesmo sem o teu............. amor
F7M Dm7
Me faz feliz
Bb7M C7/9/11
Me leva com você
Am7 Dm7 Gm7 Bbm7 Eb7/13,
Me dá, me diz que eu sou seu bem querer
Ab7M Db7M Gm7/11
O mundo vai nascer pra nós
As inovações por parte desta corrente foram e são até hoje muito presentes. Já no
final da década de 80, início da década de 90, o pandeiro passou da pele de couro para a
pele de nylon, sendo que o som do primeiro, quando tocado com todo o conjunto, tinha
em destaque suas pratinelas e seu som grave batido com o polegar; já o segundo,
acrescentava ao conjunto seu som agudo tirado tanto com o polegar quanto com o slap
(ver página 48, O Pandeiro), transferindo a importância das pratinelas ao Chimbal (ou
Ximbal, ou Xipô). O Tam-Tam, que era uma grande inovação, deixou de ser novidade na
metade da década de 90, e, às vezes, era substituído pelo Rebolo, que deixava então o
papel da marcação do segundo tempo para o surdo. O som dos violinos e outros timbres
com pouco ataque e muita duração foram adicionados, sendo executados, na grande
maioria das vezes, por sintetizadores.
No capítulo 5, poderemos ver um pouco melhor quais são aqueles que fazem parte
de cada corrente e como as bandas de Florianópolis os tocam atualmente.
Cabe agora a pergunta: o que faz com que certos grupos busquem uma identidade
própria? Ou melhor, quais influências (outras musicalidades) sofrem os indivíduos destes
grupos que os levam a produzirem novas sonoridades? No caso citado por Piedade, a
23
musicalidade comum aos grupos é o Jazz, e os Jazzistas brasileiros buscam sua
identidade através dos elementos da música brasileira. Já no nosso caso, a musicalidade
comum aos grupos é o samba moderno, e os defensores do pagode romântico buscam sua
identidade através de elementos de outras musicalidades.
É fato que muitos compositores de samba entraram no pagode romântico atraídos
pela rentabilidade, e mesmo não se agradando do tipo de música que estavam fazendo,
continuaram compondo. Em declaração de Xande, vocalista e compositor do Grupo
Revelação, um dos grupos de pagode de maior sucesso nos dois últimos anos, observa-se
seu leve desgosto em fazer pagode, justificado pela necessidade de vender seus discos:
Quando você sobe no palco, deve ter bem claro o que agrada e o que não
agrada ao público. Ou você monta um repertório de maneira radical ou
aposta numa troca. Dá carinho e recebe carinho. Eu canto uma para mim
[um samba], e uma para o público [um pagode]”. (BLAN, SUKMAN e
VIANNA, 2004. p. 122).
O grupo Revelação não pode ser considerado um grupo de pagode romântico,
apesar de ser um grupo de pagode. Pois suas características estão muito mais relacionadas
ao samba moderno do que ao pagode romântico, como podemos perceber no exemplo a
seguir em áudio da música Grades do Coração (grupo Revelação, 2005).
(...) do jeito que as coisas estão nós, Zeca Pagodinho, Almir Guineto entre
tantos outros temos que ser chamados de sambistas e não de pagodeiros.
Pagode não é isso que está rolando aí (Palavras de Sereno, no site do
grupo Fundo de Quintal, 2007)
Como explicou Sandrinho, vocalista do grupo Swing Maneiro em sua entrevista
(ver Capítulo 4.2), ao dizer que um determinado conjunto é um grupo de pagode, estamos
dizendo que este grupo toca algum tipo de samba, como samba moderno, Samba-Rock,
Samba-canção, Pagode Romântico, “Pagode Baiano” entre outras subdivisões do samba.
Nas entrevistas com Adalberto, Sandrinho e Anderson Rodrigues, eles definiram a
palavra Samba como sendo algo genérico, comparando com o Rock hoje. Segundo eles,
24
já existiu o “Rock puro”, mas hoje existem, sim, várias subdivisões do Rock, assim
como existem várias subdivisões do samba, como citei anteriormente.
Definidos os dois diferentes gêneros, voltamos agora então à idéia da “fricção de
musicalidades”, onde Piedade explica que o “novo” gênero entra em contato com outras
musicalidades e é diferente justamente porque são percebidas. (PIEDADE, 2005. p. 201)
Temos, então, o samba moderno, corrente que criou sua identidade na década de
70 e se estabeleceu na década de 80 com a sonoridade do tam-tam, repique de mão e
banjo. Temos também o pagode romântico, que criou sua identidade a partir da influência
de outras musicalidades, mas, por mais que no princípio tentasse negar a influência da
sonoridade do samba moderno, incluiu elementos desta corrente em sua música. A tensão
maior entre as duas correntes se deu no final da década de 80, início da década de 90,
onde o pagode romântico buscava incessantemente sua identidade. Vários grupos como
Art Popular tocavam em suas brincadeiras músicas do Fundo de Quintal, ou seja,
dominavam a cultura do samba moderno, mas gravavam pagode romântico tentando se
afastar da outra corrente.
Hoje, além das duas correntes que permanecem e buscam sua sonoridade, já é
possível encontrar uma terceira corrente atuando. Identifico esta nova corrente em bandas
que fundem as duas anteriores para criar um estilo próprio. Ou seja, encontramos bandas
como a Samba Aí, que sua instrumentação é de uma roda de samba exatamente como no
Cacique de Ramos, mas que utiliza harmonias e canta letras do grupo Jeito Moleque.
Veremos a seguir como está o cenário das bandas de pagode hoje em
Florianópolis.
25
CAPÍTULO 3
O PAGODE EM FLORIANÓPOLIS
Florianópolis sempre acompanhou, mesmo com um certo atraso, o
desenvolvimento do samba no Rio de Janeiro. Segundo o documentário Ali na Esquina
(2005), que trata do samba em Florianópolis, o samba começou na capital catarinense
com a criação de um porto da Marinha na cidade nos anos 40. Os marinheiros cariocas
que aqui desembarcavam encontravam alguns bares que já haviam sido pensados para
que eles se sentissem em um ambiente familiar, com rodas de samba e cerveja.
No final dos anos 80, o samba moderno já era praticado nas rodas de samba de
Florianópolis. Em entrevista com Sabará5, ele conta que o grupo Senti Firmeza começou
a surgir nos idos de 1988 e 1989, nas rodas de samba entre amigos na Coloninha (Bairro
de Florianópolis). O grupo foi se profissionalizando, e logo começou a tocar em festas
pela Ilha. Segundo Sabará, o grupo Senti Firmeza foi o primeiro grupo de Florianópolis a
gravar um CD nacionalmente, pela gravadora RGE, em 1998, o disco Abre a Roda.
Vemos no documentário Ali na Esquina que o samba moderno e o “samba de raiz”6, e
estão incluídos aqui outros tipos de samba, como partido alto e samba canção, sempre
tiveram espaço na cidade, pois sempre existiam bares abertos a este tipo de música.
Coloco aqui samba moderno e samba de raiz juntos, pois grande parte dos grupos que
tocam um estilo, tocam o outro também. Vejo que o pagode romântico sofreu certo
preconceito em seu princípio, sendo rejeitado pelos sambistas que lutavam pela
preservação do “samba de raiz” e do samba moderno. Para os sambistas mais
“conservadores”, o samba moderno é considerado um gênero autêntico, que faz parte de
suas tradições, ao contrário do pagode romântico, considerado um gênero comercial, não-
autentico. Sendo o pagode romântico rejeitado pelos sambistas “conservadores”, qual
seria o local mais adequado para sua prática?
5
Wilson Rodrigues da Costa, mais conhecido por Sabará, foi vocalista do grupo Senti Firmeza, um dos
primeiros grupos de pagode da ilha, e hoje é Interprete da Escola de Samba Unidos da Coloninha.
6
Sabará define “samba de raiz” como o samba praticado por grupos que tentam resgatar o samba como era
praticado no início do século XX.
26
Segundo Sabará, mesmo após a gravação do CD, as casas noturnas tinham
receio de contratar as bandas de pagode romântico, mesmo a banda tendo algumas
sonoridades características do samba moderno, como as progressões harmônicas e a
“valorização da percussão” (termo apresentado por Anderson Ávila, do grupo Katendê,
como uma característica do samba moderno). É o caso da música “abre a roda”, principal
música do grupo Senti Firmeza após a gravação de seu CD.
D (I) B7 (V / II)
Abre a roda
Em (II)
Que o samba vai começar
A7 (V) D (I)
Quem sabe canta quem não sabe ajuda no laiá laiá
A falta de casas noturnas para tocar era compensada com os diferentes eventos em
que a banda era contratada, como o Reveillon das Luzes7, entre os anos de 1994 e 1997, e
a primeira edição do Planeta Atlântida8 de Florianópolis, em 1998.
Somente em 2001 e 2002, o mercado para as bandas de pagode em Florianópolis
começou a se abrir. As bandas desta época iniciaram uma conquista de novos espaços, de
novas casas noturnas para tocar. O principal mercado que foi aberto naquela época - e
que sustenta as bandas até hoje - são as casas voltadas a um público de alto poder
aquisitivo, ou, utilizando um termo mais atual, “baladas”9. Observei durante a pesquisa
que, tanto na entrevista com a banda Swing Maneiro, quanto na entrevista com a banda
Samba Aí, o tipo de música tocada pelos DJ’s nas baladas é a música eletrônica, ou
música “tecno” mesmo que o show seja de samba.
Como observei em entrevista com Sabará e também com o grupo Katendê, os
grupos de pagode conseguiam se manter, mas nunca foi possível viver só de pagode,
7
Este evento, realizado na virada do ano, iniciou no mandato do prefeito Sérgio Grando, e repetiu-se
durante três anos, acabando com a entrada do novo prefeito.
8
Evento realizado pela Rádio Atlântida que reuniu 30 mil pessoas no primeiro dia de festa, trazendo várias
bandas nacionais em dois dias de shows, iniciando as 16:00hs e terminando as 6:00hs do dia seguinte.
9
Local bastante característico de jovens, com pouca luz, com bebidas alcoólicas, com muita paquera, o
som em um volume bastante alto. O estilo musical é bastante variado, apesar de ter grupos que gostam, por
exemplo, mais de pagode romântico do que Pop Rock.
27
mesmo para um grupo como o Senti Firmeza, que foi uma das bandas de maior
reconhecimento da cidade. No caso do grupo Katendê, apenas um dos integrantes,
Leandro Pereira, não possui outro emprego além o de músico. Assunto abordado também
no documentário Ali na esquina, onde o sambista Marçal fala que seu sonho só estará
realizado no dia em que conseguir viver só de música. A única exceção, dos mais de 26
grupos de pagode que descobri no levantamento que fiz das bandas em atuação em
Florianópolis, é o grupo Swing Maneiro, que veremos a seguir.
3.1 LEVANTAMENTO DOS DADOS
Os primeiros contatos que fiz com as bandas da cidade foram a partir de Daniel
Baby (primo que trabalha na CBV Multieventos, filiada a Band FM - uma das duas rádios
que tocam pagode da ilha, e que, segundo a própria rádio, está em primeiro lugar na
audiência há dez anos). Deste primeiro contato, obtive uma lista com 15 bandas, e, por
diferentes meios, cheguei a mais 11 novos grupos de pagode que listo abaixo:
1. Katendê 14. Por Prazer
2. Swing Maneiro 15. Novos tempos
3. Samba aí 16. Compasso
4. Atrevidos 17. Meu prazer
5. Em cima da hora 18. Pura Sedução
6. Sensatez 19. Papo de Samba
7. Kalenda 20. Telinho e Banda
8. Vem Sambar 21. Teu sorriso
9. Na palma da mão 22. Curtisamba
10. Temporal 23. Intimidade
11. Delírio 24. Apetrechos
12. Só entre nós 25. Samba 10
13. Bom Astral 26. Só entre elas
28
Na CBV Multieventos, fiz também um levantamento das casas noturnas que
tocam pagode hoje na ilha, sendo que apenas o Chico’s Bar é exclusivo de pagode. As
casas noturnas são: Mecenas Bar, Chico’s Bar, El divino Loung, El divino Club,
Guaciara, Creperia da Lagoa, Ilha do Cascaes e Scuna Bar. Isto quer dizer que o cenário
do pagode na ilha mudou bastante comparado há dez anos, época do surgimento do grupo
Senti Firmeza. Não estão incluídas aqui as casas noturnas que contratam bandas de
“samba raiz” e samba moderno, que somam ao menos mais quatro estabelecimentos.
Guardadas as proporções deste trabalho, escolhi três das 26 bandas para entrevistar.
Para a escolha das três bandas, contei com a ajuda do pessoal da CBV Multieventos, que
usaram como principal quesito para escolha a qualidade10 da banda, considerando que
uma banda com qualidade é a mais chamada para eventos e que tem um maior
reconhecimento do público.
As três bandas selecionadas foram Katendê, Swing Maneiro e Samba aí.
3.2 Questões levantadas:
Antes de ir ao encontro dos grupos e iniciar as entrevistas, elaborei, juntamente
com minha orientadora, um questionário que me guiaria nas entrevistas, o que me ajudou
bastante na coleta dos dados. Dividimos as perguntas por temas, para dar uma maior
fluência às perguntas. Exponho então o questionário elaborado.
Questões estilísticas
1. Vocês fazem samba ou pagode?
2. Vocês se consideram pagodeiros?
3. Qual a maior diferença entre o samba e o pagode?
4. Tem alguma diferença no modo de tocar e cantar samba e no modo de tocar e
cantar pagode?
5. Vocês fazem partido alto? O que é partido alto?
10
Qualidade segundo os produtores de eventos Daniel Baby e Anjinho, coordenadores da CBV
Multieventos
29
Sobre a instrumentação e arranjo
1. Quem são os integrantes da banda e quais instrumentos tocam?
2. O que é a cozinha na banda de vocês?
3. Observam mudanças na instrumentação ao longo dos anos, ou na forma de tocar
determinado instrumento?
4. Vocês não usam algum instrumento característico do samba? Porque?
5. Qual a função de cada instrumento na música?
6. Os arranjos são feitos coletivamente?
7. Se for necessário vocês mudam o tom de alguma música?
8. Como a tonalidade de uma música pode influenciar sua execução?
Sobre o mercado de trabalho
1. Quais casas tocam pagode hoje em Florianópolis?
2. Vocês possuem composição própria? Já gravaram algum CD?
3. Como enxergam a possibilidade de sucesso tocando em Florianópolis?
4. Existe um bom mercado para as bandas de pagode aqui em Florianópolis?
5. Qual a relação entre o repertório atual de vocês e as necessidades colocadas pelo
mercado?
6. Contratam algum free-lancer11?
7. O que vocês acham das bandas de samba da ilha, podem ser consideradas
concorrentes?
8. Qual o cachê que vocês cobram hoje, ou quanto pagam por um show de vocês?
9. Alguém tem outro emprego além da música?
10. É possível se sustentar tocando em uma banda de pagode de Florianópolis?
Formação das bandas
1. Existem mulheres tocando nas bandas de pagode de Florianópolis?
2. Como são vista as mulheres neste meio musical?
11
Free-lancer: Nome dado a músicos contratados para fazer shows esporadicamente com a banda. Algumas
bandas exigem que free-lancers ensaiem antes com a banda, outras não.
30
3. Vocês tem algum(a) produtor(a) musical?
4. Alguém estudou ou estuda música de um modo mais acadêmico?
5. Como surgiu o grupo?
6. Possui a mesma formação desde o começo?
7. Todos se conheciam antes de formar a banda, são amigos, parentes, vizinhos?
8. Como vocês vêm o pagode em Florianópolis no decorrer da história?
Logicamente que tais perguntas não foram feitas necessariamente nesta ordem, mas
serviram de guia para uma conversa mais informal. Para a entrevista com Sabará elaborei
outro questionário que exponho abaixo:
Questões sobre a história da Banda
1. Como surgiu a banda Senti Firmeza?
2. Em que ano surgiu?
3. Como era a formação da banda na época?
4. Possuíam empresário, produtor? Como eram distribuídas essas e outras funções?
5. Qual era sua função na banda?
Sobre o mercado de trabalho
6. Existiam muitas casas noturnas que contratavam a banda para tocar?
7. Existiam outras bandas na época?
8. Conseguiam sobreviver com o cachê de músico?
9. Muitos integrantes possuíam outro emprego?
Questões estilísticas
10. Existe diferença entre samba e pagode?
11. Qual era a instrumentação da banda?
12. Mudou alguma coisa no modo de se tocar algum instrumento, desde a época do
surgimento da banda?
Elaboradas as perguntas, parti então ao trabalho de campo. Entrevistei primeiramente
Sabará, e em seguida passei a entrevistar as bandas.
31
CAPÍTULO 4
MAPEANDO AS BANDAS
4.1 Banda Katendê
O primeiro contato foi com Marcelo, empresário da Banda Katendê e com
Anderson, diretor musical da banda. Fui convidado por Anderson para assistir ao ensaio
que seria realizado em 26/04, às 22h, no Estúdio Rafael Bastos, no centro da cidade.
Antes de ir ao ensaio, fiz uma rápida pesquisa no site da banda e descobri que a banda
lançou recentemente seu segundo CD, Ao vivo no Ilha do Cascaes. Encontrei no site a
formação da banda (nove músicos, dois roadies, empresário e produtor), mapa de palco,
instrumentação e um pouco da história. Descobri também que a banda é hoje
“apadrinhada” (TROTTA, 2006. p. 79) pelo grupo Fundo de Quintal.
Conversei, primeiramente, com o Diretor Musical da banda, cargo dado ao
cavaquinista Anderson Ávila. Ele é responsável pela escolha do repertório, definição de
tom, harmonia, arranjo, instrumentação e tem, até mesmo, autoridade para modificar
levadas e jeitos de tocar de qualquer instrumentista da banda. Ao me definir sua função
na banda, observei que algumas perguntas já estavam respondidas. Iniciei questionando a
respeito da história do grupo e fui autorizado a colocar em meu trabalho todas as
informações que fossem coletadas nas entrevistas. Ele me explicou que a banda surgiu da
união de dois grupos de pagode em 1997, o grupo Sabor do Pagode e o grupo Partido
Alto.
Contou-me que apenas a “frente” é a mesma, os músicos “de trás”, “da cozinha”,
mudaram ao longo do tempo. Mas a banda não contrata free-lancer, todos os músicos
contratados ensaiam normalmente com a banda e já compõe o grupo há um certo tempo.
Aproveitei para perguntar o que era a “cozinha” no grupo Katendê. Ele me explicou que
o surdo, a bateria, o violão, o baixo e o teclado formam a “cozinha”, e que a “cozinha”
são os músicos de apoio, os músicos contratados. Relatou que somente ele, dos músicos
da frente, os donos da banda, estudou música academicamente, em cursos de extensão na
32
UDESC e em escolas de música; e dos músicos contratados, o baterista, o tecladista e o
baixista já estudaram música.
Entrei no estúdio junto com a banda. O primeiro a falar foi o produtor, passando
agenda, horários e cachês. Permaneci no estúdio durante todo o ensaio e consegui
transcrever o toque de alguns instrumentistas, como mostro no próximo capítulo.
Enquanto estava no estúdio, conversei um pouco com o violonista da banda, e ele me
contou que o jeito de tocar samba (samba moderno) e o jeito de tocar pagode (pagode
romântico) muda principalmente na parte harmônica. A respeito da rítmica nas levadas,
me contou que o toque do samba tem que ser mais rítmico, devido ao caráter rítmico do
samba, não tão harmônico quanto o do pagode. Tentei fazer algumas perguntas relativas
ao mercado de trabalho, e ele me sugeriu falar com o produtor da banda, que havia
permanecido no estúdio durante todo o ensaio.
O produtor Anderson Rodrigues passou que o “cachê cheio” da banda é R$
1.500,00, mas normalmente as casas pagam entre R$ 900,00 e R$ 1.300,00, exceto
quando tocam para a Rádio Band FM, que aí acontecem parcerias e o cachê cai para R$
400,00 ou R$ 500,00. Dos músicos da banda, apenas Rodrigo Bitencurt não possui outra
atividade remunerada, todos os outros possuem empregos com carteira assinada durante o
dia, mesmo a banda tendo shows todos os finais de semana. Os músicos contratados
recebem em média R$ 50,00 por show, já os integrantes da banda recebem por volta de
R$ 100,00. Além dos músicos é preciso pagar também a Topic ou Van (carro com 12
lugares) para transporte dos músicos até o local do show, pagar o produtor e o empresário
e 2 roadies. Se calcularmos 10 shows por mês, a R$ 1.000,00 por show, temos um total
de R$ 10.000,00 mensais divididos entre 12 pessoas, mais divulgação, site, transporte e
instrumentos, segundo o produtor, os integrantes da banda ganham em média R$ 800,00 e
os músicos contratados R$ 500,00 por mês.
Após uma longa conversa com o produtor da banda, já no final do ensaio, fiz
algumas perguntas direcionadas a cada músico, a respeito do toque de cada instrumento
que estará exposto no capítulo dos instrumentos. Apresento alguns documentos
encontrados no site:
33
34
35
36
O trabalho de Diretor Musical, que Anderson Ávila executa na banda, é
bastante importante e fundamental para a profissionalização de qualquer banda de
pagode, isto é, se for uma pessoa competente no cargo, que entenda profundamente de
pagode. Observei que em vários momentos sua autoridade dentro da banda era tanta, que
ele reservava-se o direito de corrigir bruscamente qualquer músico, sendo que estes
executavam o que lhes era pedido, como em uma relação de chefe e empregado. Destaco
aqui a aspereza com que os músicos que não executavam certo eram tratados, como em
algumas frases do tipo: “toca isso direito, rapaz”, “não, não faz isso”, e até com algumas
brincadeiras com tom de ameaça: “não toca direito não pra ver se a gente não chama
outro”.
O cachê da banda, principalmente dos músicos contratados, é baixo, considerando
a quantidade de pessoas envolvidas no processo. Segundo o produtor, é inviável para as
casas pagarem um cachê maior, considerando também que existem mais de 26 bandas em
Florianópolis, e que se uma banda recusa-se a tocar por determinado cachê, outras 25
estão na fila para ocupar o espaço.
4.2 BANDA SWING MANEIRO
Para conseguir contato com a banda, tentei outro caminho sem ser o número de
telefone conseguido na CBV Multieventos, número este do escritório para contato de
shows. Procurei o vocalista da banda Sandrinho, que reside ao lado da residência de meus
pais. Na primeira conversa que tive com ele, falamos rapidamente sobre a possibilidade
da entrevista, e se mostrou bastante acessível. Tentei me comunicar através de ligações e
não obtive muito sucesso. Então retornei a casa dele no dia 04/06/2007 para marcar a
entrevista, quando ele me contou que no dia seguinte haveria um ensaio. Não perdi tempo
e logo iniciei a entrevista em uma conversa descontraída. Comecei perguntando sobre a
história da banda, e ele respondeu que fazia parte do grupo Senti Firmeza, mas saiu por
volta de 1995, quando entrou em um grupo que se chamava Swing. Devido a alguns
atritos, os músicos da banda saíram para formar a banda Swing Maneiro, restando apenas
o dono da banda Swing.
37
A Swing Maneiro existe, então, desde 1997, completando 10 anos neste ano.
Segundo ele, a banda Swing Maneiro foi a principal responsável pela abertura deste novo
mercado para as bandas de pagode. “Tá loco, onde já se viu! Naquela época banda de
pagode tocando no Café Cancun12”. Já que a banda Senti Firmeza, mais voltada para o
Samba Moderno, agora (2000 – 2001) começava a sumir do cenário de Florianópolis, a
Swing Maneiro tomou seu lugar nas festas e abriu novos mercados, novos locais de
trabalho. Segundo Sandrinho, o pagode no cenário nacional, principalmente em São
Paulo, entrou em queda, cedendo lugar ao Funk e ao Hip-Hop e foi graças aos grupos de
Florianópolis, que conseguiram manter o pagode em alta na Ilha, que os grupos nacionais
conseguiram se reerguer. Em uma rápida pesquisa, constatei que os grupos de pagode
tiveram seu auge entre 1996 e 2001. Após este período, muitos vocalistas de grupos
importantes abandonaram seus grupos para fazer carreira solo, como Leandro Lehart (Art
Popular), Netinho (Negritude Júnior), Belo (Soweto) e Alexandre Pires (Só Pra
Contrariar), reflexo da “despopularização” do pagode. Só após 2005, que voltaram a
aparecer grupos novos com repercussão nacional, como os grupos Revelação, Sorriso
Maroto, Jeito moleque e Inimigos da HP, segundo os integrantes da banda.
Perguntei também sobre a diferença entre samba e pagode, e ele me disse
primeiramente que não havia diferença, que tudo era samba. Mas que, assim como no
Rock existem os “sub-gêneros”, como o Heavy metal, o Pop Rock, etc., existe também o
Samba Rock, o Samba Funk, o Samba Moderno, o Pagode Romântico entre outros. E
que, na verdade, o pagode é a reunião de amigos para fazer qualquer tipo de samba, por
isso o nome “grupo de pagode”. Como sabia que Sandrinho toca cavaquinho na banda,
aproveitei para perguntar sobre as diferenças harmônicas entre o samba moderno e o
pagode romântico. Ele contou que a harmonia do pagode é bem mais trabalhada (mais
dissonante) do que a do samba. No samba, a harmonia é mais simples, mas a letra é mais
trabalhada; ao contrário do pagode, que possui uma harmonia complexa, mas uma letra
pouco elaborada.
12
Antiga casa noturna de Florianópolis, hoje chamada El Divino Lounge. Na época (2000) era uma das
principais casas de música eletrônica da Ilha, voltada a um público com alto poder aquisitivo.
38
Sandrinho também relatou que a banda já possui três CD’s gravados e, no final
do ano, grava seu DVD. O último CD foi gravado há dois anos, e, nessa época, o
repertório da banda era praticamente de músicas próprias, inserindo apenas algumas
músicas de maior repercussão nacional. Hoje, devido à gravação do DVD no final do
ano, e por Florianópolis ser uma cidade freqüentada por muitos turistas no verão e “a
galera estar pedindo novas músicas”, a banda resolveu “dar um ar para o ouvido da
galera” - ou seja, deixar um pouco de lado suas músicas próprias -, para no final do ano
entrar com tudo com o DVD.
A banda cobra um cachê de R$ 1,500,00 para shows na cidade e R$ 3,500,00 para
shows fora. Eles fazem, em média, 20 shows por mês. Todos os integrantes da banda
conseguem se sustentar com a profissão, recebendo, em média, um salário de R$
1.100,00 os músicos contratados e R$ 800,00 os roadies. Não tive acesso ao salário do
Empresário, do Produtor, do Divulgador e dos “donos” da Swing Maneiro
Conversei no dia 06/06/2007, quarta-feira, com o pandeirista da banda, Adalberto,
em uma casa noturna chamada Guaciara, no Estreito, bairro continental de Florianópolis.
Conversamos sobre questões de mercado e sobre a história do pagode em Florianópolis.
Ele contou que desde o princípio da banda, o público alvo era diferente do público
das bandas de “samba raiz” e “moderno”. O público que começava a se formar era uma
elite que freqüentava baladas para ouvir música eletrônica e Pop-Rock (por coincidência,
ou não, quando entramos no Guaciara a música que permaneceu tocando até o início do
show era eletrônica, tipo de música a que ele se referia no momento da entrevista), e aos
poucos a banda começou a abrir novos espaços.
O primeiro show da banda foi através do produtor Bolacha, no Banana Melão,
casa noturna que se localizava na Rua Bocaiúva, próximo à avenida Beira Mar Norte,
localidade onde moram até hoje pessoas com alto poder aquisitivo. Mas, segundo ele, a
banda sempre manteve a “cabeça no lugar” e a humildade, jamais se esqueceram do local
de onde vieram. Sandrinho conta que, quando a comunidade convida a banda para
eventos como festas com fundos beneficentes, ou simplesmente festas da comunidade,
não cobram o cachê ou reduzem bastante para viabilizar a contratação da banda.
Exponho abaixo o documento encontrado no site da banda:
39
Vejo que a banda Swing Maneiro teve um papel fundamental na disseminação do
pagode em Florianópolis, juntamente com a banda Senti Firmeza. Mas a primeira foi
mais além e conseguiu abrir um mercado inexistente na cidade. Observei no show, que a
banda faz sua música com uma alegria contagiante e mistura diversos tipos de samba,
incluindo até mesmo um momento de Funk. Observei também que o grupo utiliza, boa
parte do tempo e ao mesmo tempo, o cavaquinho e o banjo. Quando acontece essa
combinação, Sandrinho toca cavaquinho e Vinícius toca Banjo. Além dos dois, a banda
conta com Marinho (violão), Everton (rebolo e repique de mão), Adriano (surdo),
Adalberto (pandeiro), Tuca (baterista), Guedelee (baixista), Cristiano (tecladista),
Marcelo e Dudu (percussão geral).
O profissionalismo necessário para que os músicos da banda consigam ter sua
renda somente da mesma é indispensável. Segundo Sandrinho, a banda conseguiu chegar
onde sempre sonharam, em um nível de profissionalismo que almejavam desde o
começo.
40
4.3 BANDA SAMBA AÍ
O contato com a banda Samba Aí foi feito através de telefone com seu
empresário, Diego Mafra (número conseguido através da CBV Multieventos). Diego se
mostrou bastante interessado e disposto a colaborar. Entrei em contato em abril para ver a
possibilidade de entrevistar a banda e obtive uma resposta positiva. Dia 2 de junho, voltei
a fazer contato, e marcamos a entrevista para uma terça-feira (05/06), às 23:00. Mas,
infelizmente, por falta de comunicação, não foi possível. Nos dias seguintes, tentei fazer
novamente contato com o empresário, mas não consegui. Consegui entrar em contato
com Dilton (produtor da banda) no dia 09/06, que foi bastante receptivo. Marcamos a
entrevista para sexta-feira (15/06) na casa noturna Chico`s Bar, a única da ilha exclusiva
de pagode. Me encontrei com a banda em um restaurante ao lado do local do show e
iniciei a entrevista.
Logo de início, reconheci dois integrantes que haviam tocado comigo na banda
Da Hora em 2002. Eles também me reconheceram e conversamos um pouco sobre os
acontecimentos da época. Contei a eles um pouco do trabalho que estava realizando, e
iniciei a entrevista.
Me contaram que a banda iniciou seus ensaios em agosto de 2003, e se lançaram
ao mercado em dezembro do mesmo ano com um show na casa noturna Cachaçaria da
Ilha, casa esta que antes ainda não havia aberto espaço para as bandas de pagode de
Florianópolis. Cederam-me também o convite utilizado nesta data (anexo). Contam que
foram responsáveis também pela introdução do pagode na casa Chico’s Bar e na Creperia
da Ilha, trazendo assim para eles o mérito de terem sido a principal banda a abrir mercado
na ilha.13
Ao perguntar sobre a formação da banda, tive uma surpresa, já que a banda conta
apenas com seis músicos, sendo que os cinco que fazem o show na frente do palco são
donos da banda e apenas um músico é contratado para tocar Surdo (André). Os outros
cinco são: Felipe (Cavaquinho), Raphael (Violão), Sérgio (Rebolo), Rodrigo (Pandeiro),
Edson (Reco-Reco). A Samba Aí conta também com um produtor e um empresário, já
13
Observo aqui que todos os entrevistados tentaram chamar para si o mérito da abertura do novo mercado para as
bandas em Florianópolis.
41
citados anteriormente, e dois roadies. A banda ainda não possuí CD gravado, mas já
gravou três músicas próprias, sendo que uma delas, Tô na boa, ficou 5 semanas na
primeira colocação na Rádio Regional FM (outra das duas rádios que tocam pagode em
Florianópolis). As outras duas músicas gravadas são Jogo do Amor e Amor Real.
O cachê da banda varia hoje de R$ 600,00 a R$ 900,00 reais, que são distribuídos
no final do mês entre todos. Os “sócios” da banda, expressão utilizada pelo produtor, são
os que levam a maior parcela no final do mês. Os roadies ganham em média R$ 700,00.
Infelizmente não tive acesso ao restante dos salários.
Observei todo o show da banda e achei bastante interessante tanto a sonoridade da
banda, sem baixo, sem bateria e sem teclado, quanto a alegria imposta no show, sempre
rindo, brincando, e até marcando os tempos com gritos de “ei” e “rou” para acelerar e
aumentar a dinâmica. Outro diferencial que notei da banda foi o uso de arranjos vocais
com acordes utilizando principalmente os graus I, III e V, backin vocals que nas outras
duas bandas entrevistadas tinham apenas a função de fazer “coro”, cantando a mesma
melodia em uníssono, relembrando a sonoridade dos pagodes (festas).
A seguir o documento encontrado no site da banda:
42
43
4.4 O REPERTÓRIO DOS SHOWS
Pude observar que o repertório escolhido para os shows varia muito de uma banda
para outra, dosando a quantidade de músicas próprias colocadas no repertório e a
quantidade de diferentes gêneros tocados durante o show. É interessante notar que
qualquer música pode ser adaptada à sonoridade de qualquer banda, somente uma análise
mais profunda desta sonoridade é que poderia classificar determinada banda como
fazendo parte da corrente samba moderno ou “pagode romântico. Observando a
instrumentação das bandas, observei que a Samba Aí é a que mais se aproxima do samba
moderno, pelo fato de não utilizar teclado, bateria e baixo. Vejo que as bandas utilizam
de maneiras diferentes os variados instrumentos, criando assim sua própria identidade.
O repertório também é um importante elemento formador da identidade das
bandas. A Katendê, por exemplo, tem um repertório com aproximadamente 79% de
composições próprias. A banda Samba Aí mistura versões de músicas do mundo do Rock,
Pop-rock, e MPB em seu repertório, além de executar os diferentes tipos de samba. E a
Swing Maneiro, conforme observei durante o show, inclui funk e pagode baiano em seu
repertório.
O repertório da banda Katendê é praticamente formado por músicas próprias, pelo
fato da banda está buscando seu espaço no mercado e divulgando suas composições. São
15 músicas gravadas pela banda e apenas 4 de outros grupos, sendo a primeira do grupo
Razão Brasileira, grupo que surgiu em 1981; a décima sétima do Tentasamba; décima
oita e décima nona do grupo Fundo de Quintal, que apadrinhou a banda participando da
gravação do último CD. Sua sonoridade se aproxima do pagode romântico, apesar de dar
maior importância à percussão na mixagem final.
Repertório da banda Katendê:
Nome Compositor
01 NATURALMENTE Villanova
02 NOSSO LANCE É PRA VALER Mano Cris
03 SÓ POR AMOR TE DEIXEI Celinho Copa Lord / Jean
04 A VIDA NÃO É SÓ VOCÊ Januário / Jean
05 O SAMBA É QUENTE Dudu Nobre / [Link]ça / Moisés Santiago
06 PRA GENTE SE AMAR Anderson Ávila / Fábio Rogério / C. Ramo
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07 KATENDÊ CHEGOU Carlos Caetano / Flavinho Silva
08 MEU AMOR (MINHA FLOR) Dedé Paraíso / Andó / Paulo Ferreira
09 NINGUÉM É DONO DE NINGUÉM André Renato / Felipe Silva
10 LIÇÃO DO AMOR Dudu KDS / Neném
11 O BICHO VAI PEGAR Dudu KDS
12 INCONFORMADO André Renato / Felipe Silva
13 A NOITE É TODA NOSSA Anderson Ávila / Fábio Rogério
14 VAI PEGAR FOGO Carlos Caetano / Leozinho
15 NOSSO GRITO André Renato / Sereno / Riquinho
16 PERFUME DO AMOR André Renato / Riquinho
17 NÃO DA PRA ENTENDER Carlos Caetano
18 PELA HORA Adriano Ribeiro / Carlos Caetano
19 IRENE Beto sem Braço / Geovana
A banda Samba Aí tem uma sonoridade bem diferente das outras. Em seu
repertório estão incluídas músicas de Jota Quest, Charlie Brown Jr., Cazuza e Marisa
Monte, artistas que não fazem parte do mundo do samba. Além das músicas
diferenciadas, também fazem parte de seu repertório composições de “pagode baiano”,
pagode romântico, samba moderno e, no final do show, fazem um momento de samba
enredo. Devido a pouca variedade de instrumentação e de arranjo, a sonoridade da banda
permanece a mesma durante todo o show.
Repertório do grupo Samba aí:
Música Artista
01 Novos Tempos Revelação
02 Sem Radar Jeito Moleque
03 Ta faltando Sentimento Turma do Pagode
04 Mais uma vez Jota Quest
05 Lucidez Fundo de Quintal
06 Ta em cima da hora Jeito Moleque
07 Condinome Beija-Flor Cazuza
08 Bem que se quis Marisa Monte
09 Livre pra voar Rodriguinho
10 Para de Bobeira Refla
11 Novo Tempos Revelação
12 Amor Perfeito Babado Novo
13 Cobertor Babado Novo
14 Senhor do tempo Charlie Brown
15 Tô na boa Samba Aí
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Infelizmente não tive acesso à lista de músicas da banda Swing Maneiro, mas
observei que em seus shows conseguem recriar sonoridades diferentes, como a do samba
moderno, do pagode romântico, do pagode baiano e do funk. Seu repertório é composto,
em sua maioria, de músicas de outros grupos, inserindo duas ou três músicas próprias.
46
CAPÍTULO 5
OS INSTRUMENTOS
Neste capitulo, pretendo expor as levadas básicas de cada instrumento que têm
participação constante nos grupos de pagode, deixando claro desde já que estas não são
as únicas levadas existentes ou as únicas variações existentes, pois as variações são feitas
em quase todos os compassos, parte característica deste gênero musical. Segue abaixo os
instrumentos mais comuns que aparecem nas bandas de pagode de Florianópolis.
5.1. Pandeiro14
No início da década de 80, os pandeiros utilizados no samba moderno ainda eram
de couro (foto à direita, abaixo), só no final da década de 80, início da década de 90, é
que os pandeiro começaram a ser de nylon (foto à esquerda).
14
As transcrições dos instrumentos, pandeiro, tam-tam, rebolo, surdo, ganzá, bateria, baixo, violão e
cavaquinho foram extraídas das observações feitas das bandas. Já o repique de mão e as congas foram
transcritas de meus conhecimentos na área.
47
5.2 O Tam-Tam e o Rebolo:
Segundo os grupos de pagode entrevistados, a função do tam-tam é dar a
marcação principal da música, marcando o segundo tempo forte do samba. O Rebolo é
bastante parecido com o Tam-Tam, mas é tocado com mais batidas, variando e
improvisando mais.
Tam-Tam
48
Rebolo
5.3 Ganzá ou Chocalho
É tocado balançando para frente e para trás, sendo que o primeiro movimento é
sempre para frente. Suas acentuações podem variar, podendo acompanhar a batida do
tamborim.
5.4 Tamborim15
15
A célula rítmica demonstrada é extraida de TROTTA, 2006. pg. 53 e adequada por mim ao toque do
tamborim.
49
Acredito que o Tamborim seja um dos instrumentos mais conhecidos, e mais
característicos do samba, devido ao seu caráter de contraponto, dando o balanço. A batida
realizada no Cavaquinho e a realizada no tamborim são bastante parecidas.
5.5 Surdo
Instrumento principal na marcação do samba, marcando forte o tempo dois. Já
fazia parte de orquestras no século XVIII. Há duas décadas a forma de tocar está sendo
modificada. A principal alteração é que foram acrescentadas batidas no aro, imitando a
batida do Tam-Tam, como podemos observar na partitura acima, transcrição feita por
mim observando o instrumentista do grupo katendê.
5.6 Repique de Mão
50
Este instrumento é o mais “nervoso” do samba, o que faz mais variações, ou
como o próprio nome já diz, o que repica a levada da percussão. Este foi um dos
instrumentos que surgiu no Cacique de Ramos, levado por Ubirany. A sua característica
principal é de “rufar” muito, normalmente duas ou até três vezes a cada groove.
5.7 Congas
As congas entraram em uso no início da década de 90,
mas já não são muito utilizadas hoje. Seu toque varia bastante
de músico para músico. Exponho acima um dos toques
possíveis a ser realizado na conga.
5.8 Bateria
A bateria foi introduzida ao samba posteriormente, como observamos no primeiro
capítulo na fala de Luisinho Salles. Seu toque em semi-colcheias no chimbal toma o lugar
das pratinelas do pandeiro, deixando-o mais livre em suas variações. A caixa é tocada
repousando a baqueta sobre a pele e tocando com sua ponta no aro, ou invertendo a
baqueta e tocando, não com a ponta, mas sim com a parte de trás da baqueta no aro. Se
51
observarmos na partitura, a caixa toma o lugar do tamborim, apesar de não precisar
seguir a batida apontada a baixo, podendo variar muito contrapontisticamente.
5.9 Cavaquinho
O cavaquinho importado do fado português para as práticas populares
brasileiras tornou-se um dos principais símbolos sonoros identificadores do
choro e, posteriormente, do samba. Ao mesmo tempo, esse processo pode
ocorrer com o próprio gênero musical, que, desvinculado de sua origem
territorial, pode ser incorporado ao vocabulário musical de outras regiões,
que irão reconhecê-lo como “seu”. Os exemplos são inúmeros e vão desde
o reggae maranhense ao rock brasileiro, passando pelo samba paulista.
(TROTTA, 2006. p. 26)
52
5.10 Banjo
Abaixo, três integrantes do Cacique de Ramos tocando banjo, instrumento surgido
no local. O banjo tem, basicamente, a mesma levada do cavaquinho e a mesma afinação,
mas, como seu som tem menor duração que o som de um cavaquinho, ele ganhou o
caráter de “rufar” entre um acorde e outro, ou no final de um groove.
Arlindo Cruz tocando banjo Jorge Aragão tocando banjo Beth Carvalho (Banjo) e
Filha Luana (Repique de Mão)
5.11 Baixo
Desde de sua inserção no samba, o baixo tem a mesma função do surdo, marcar o
tempo dois (tempo forte do samba), e faz isso tocando, na maioria dos casos, a quarta
abaixo da tônica do acorde. Por exemplo, se tivéssemos um baixo de 4 cordas com a
afinação Sol, Ré, Lá, Mi (da corda mais aguda para a mais grave), acompanhando um
acorde de Dó maior, ele tocaria a nota Dó (terceira casa da corda Lá) no tempo 1 e a nota
Sol (terceira casa da corda Mi) no tempo 2. Veja a partitura a baixo:
53
5.12 Violão
Segundo o violonista da banda Katendê, a principal função do violão é dar o
fundo harmônico para o cantor. Sua levada é bastante parecida com a do cavaquinho, mas
utiliza o mesmo recurso do baixo, com as mesmas notas.
5.13 Teclado
Instrumento utilizado principalmente para fazer solos, imitando timbres como
saxofones e violinos. Também “dá suporte harmônico para o vocalista”, palavras do
tecladista do grupo katendê. Como explica Felipe Trotta:
A sonoridade do teclado chegou rapidamente ao repertório romântico
brasileiro, que desenvolveu uma especial predileção pelo timbre das
“cordas” fazendo a “cama”. A ambientação do teclado ao fundo, ao mesmo
tempo que amplia a sensação de afetividade, de introspecção, forja um
clima de sofisticação à canção e estabelece uma associação direta com a
“modernidade” do repertório da música pop internacional e seu ambiente
simbólico. (TROTTA, 2006. p. 154)
54
5.14 Naipe de Metais
Instrumentação característica do samba de gafieira (Música do Brasil, 1998),
entrou no pagode no começo da década de 90. Executa principalmente solos, no início,
refrão ou final de músicas, raramente atacando em contratempo. Fazem parte do naipe os
saxofones soprano e alto, trompete. Hoje, o naipe de metais é pouco utilizado, já que um
tecladista pode fazer o trabalho de três instrumentistas.
55
CAPÍTULO 6
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tratei da dicotomia entre o samba moderno e o pagode romântico, definindo
algumas de suas características. Contudo, devido às dimensões deste trabalho, não pude
fazer uma análise mais aprofundada. Discuti também o termo “fricção de musicalidades”
de Piedade (2005) sob a visão de que o samba moderno e o pagode romântico entram em
tensão em um determinado período da história. Abordei estes gêneros através de alguns
elementos musicais, utilizando o modelo de “análise musemática” de Philip Tagg. Desta
forma, procurei mostrar que os elementos da primeira corrente foram identificados a
partir de sua instrumentação característica e suas progressões harmônicas básicas, I, VIm,
IIm, V, e a cadência para o quarto grau apontado nos exemplos. Já os elementos da
segunda corrente foram identificados a partir de uma sonoridade mais harmônica do que
percussiva, tendo a “cozinha” formada principalmente pelo teclado, bateria e baixo, e as
letras que agora tratam do amor de uma outra forma, falam de saudade, amor e sexo,
felicidade no amor e sofrimento.
O samba, em seus diferentes formatos, nunca esteve longe da Ilha, ele vem sendo
cultivado, aprimorado, aperfeiçoado em diferentes localidades de Florianópolis. Hoje,
para um grupo ter seu trabalho reconhecido, é preciso que ele apresente algum
diferencial, seguindo as exigências do mercado, buscando inclusive um diferencial que o
projete nacionalmente.
Vimos que a banda Senti Firmeza representou um marco na cidade ao conseguir
gravar seu CD por uma gravadora nacional em 1998, após quase 10 anos de história. Este
trabalho repercutiu muito bem em Florianópolis e conseguiu abrir portas para outras
bandas da Ilha. Uma dessas bandas, que surgiu em 1997, foi a banda Swing Maneiro, a
mais antiga que continua em atuação na cidade. As duas bandas iniciaram o processo de
abertura do mercado de trabalho na região, reforçado pelas bandas que surgiriam logo
depois. A segunda banda entrevistada, a banda Katendê, surgiu em 2000 e já gravou dois
CD’s, e estão buscando divulgação nacional para o segundo. A terceira banda, a Samba
56
aí, é a que apresenta de modo mais inusitado, devido a sua instrumentação reduzida.
Não possui baixo, bateria e teclado, mas mesmo assim consegue passar a sonoridade do
pagode romântico através das letras e das harmonias dissonantes e dos arranjos vocais
formando acordes, diferente de coro no samba moderno.
Os pagodes, ou seja os encontros nas festas, continuam acontecendo nos bares,
nos aniversário, onde amigos tocam por algumas garrafas de cerveja, ou simplesmente
depois do jogo de futebol, com um bom churrasco e uma cerveja bem gelada. Acredito
que a característica principal do samba, que possui desde seu princípio, a de animar
festas, nunca se perderá, por mais que seus elementos musicais se modifiquem, o samba
sempre estará sendo cultivado por todas as gerações.
Não posso deixar de expressar minha imensa satisfação ao ver que foi possível
pesquisar no final de minha faculdade o assunto que fez parte de minha história, o samba.
A área de pesquisa etnomusicológica permitiu que empreendesse esta investigação que,
apesar de inicial, pode ter contribuído para futuros estudos. Apesar do samba ser objeto
de vários estudos, o pagode, como um sub-gênero do samba, continua à margem não só
deste tipo de pesquisa como também continua a sofrer grande preconceito junto aos
músicos acadêmicos, mesmo que este gênero seja considerado por muitos como uma das
identidades do Brasil.
57
BIBLIOGRAFIA
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Ed. Cultrix, 1956.
AUGRAS, Monique. O Brasil do Samba-Enredo. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio
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que as canções têm música?). IN: Revista Brasileira de Ciências Sociais. Nº 31, Junho de
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de Janeiro: Ed. Casa da Palavra, 2004.
GODI, Antonio Jorge Victor dos Santos. Música Afro Carnavalesca: das multidões para o
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LOPES, Nei. O Samba Na Realidade…: A utopia da ascensão social do sambista. Rio de
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58
MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. Funarte, 1983.
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TAGG, Philip. Para que serve um musema? Antidepressivos e a gestão musical da
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TROTTA, Felipe da Costa. Samba e mercado de música nos anos 1990. Tese de
Doutorado apresentada à Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de
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UFRJ,1995.
59
Vídeos utilizados na pesquisa:
MÚSICA DO BRASIL. Direção: Belisário Franca. Roteiro e Pesquisa: Hermano Vianna.
Produção Executiva: Victor Civita Neto. Direção de Fotografia: Flávio Ferreira. Direção
Musical: Beto Villares. Montagem: Sérgio Mekler. [Editora Abril], 1998. DVD (31 min).
ALI NA ESQUINA. Direção: Graziela Storto e Rita Piffer. Produção: André Barbosa e
Cristine Corrêa. Direção de Fotografia: Marx Vamerlatti. Técnico de Som: Gustavo
Fioravante. Arte Gráfica: Radji Schucman. Edição: Graziela, Radji e Rita. Edição de
Som: Renato Pimentel. Finalização: Michel V. Cunha. Produção independente. DVD (1h
30min).
60
Sites consultados:
FUNDO DE QUINTAL. Integrantes – Sereno. Disponível em:
[Link] Acesso em 31 de
maio de 2007, às 21:33h.
PLANETA ATLÂNTIDA. Histórico. Disponível em:
[Link]
§ion=Histórico&estado=2&redirected=true. Acesso em: 26 de maio de 2007, às
22:00h.
KATENDÊ. Material para shows. Disponível em:
[Link] Acesso em: 02 de junho de 2007, às 17:35h.
SAMBA AÍ. Contratante. Disponível em: [Link]
Acesso em: 19 de junho de 2007, às 22:30h.
SWING MANEIRO. Contratante. Disponível em:
[Link] Acesso em: 09 de junho de 2007, às
14:00h.
SORRISO MAROTO. Multimídia. Disponível em:
[Link] Acesso em: 09 de junho de 2007, às 22:10h.
REVELAÇÃO. Discografia. Disponível em: [Link] Acesso
em: 19 de junho de 2007, às 19:40h.
61
Entrevistas realizadas por ordem cronológica:
Sabará (Ex vocalista do grupo Senti Firmeza)
19/04/2007 – Coloninha (Florianópolis)
Grupo Katendê ( Anderson Ávila, Carlos André da Silva, Fabio Rogério, Gustavo
Gabriel Lopes, Carlos Ramon Pinto, Leandro Pereira, Rodrigo Bitencurt, Luciano Victor
Faccin). 26/04/2007 – Centro (Florianópolis)
Sandrinho (Vocalista do grupo Swing Maneiro)
04/06/2007 – Balneário (Florianópolis)
Adalberto (Pandeirista do grupo Swing Maneiro)
06/06/2007 – Canto (Florianópolis)
Grupo Samba Aí (Dilton de Souza, Filipi Luchi, Sérgio Brasil, Edson Costa Jr, Rodrigo
Dias, Raphael Hardt, André Luiz)
15/06/2007 – Lagoa da Conceição (Florianópolis)
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DISCOGRAFIA
Arlindo Cruz e Sombrinha
Da música (1996)
Belo
Belo seu fã ao vivo (2004)
Beth Carvalho
De pé no chão (1978)
O essencial de Beth Carvalho (1999)
Dudu Nobre
Moleque Dudu (2001)
F-unit
Música única - Livre pra voar (2006)
Jeito Moleque
Me faz feliz ao vivo (2005)
Jorge Aragão
Ao vivo convida (2002)
Katendê
Ao vivo no Ilha do cascaes (2006)
Raça Negra
Raça Negra (2001)
Revelação
Ao vivo (Olimpo) (2005)
Senti Firmeza
Abre a Roda (1998)
Sorriso Maroto
É diferente (2006)
Swing Maneiro
Ao vivo (2005)
Zeca Pagodinho
Deixa a Vida Me Levar (2002)