RESENHA
GALINDO, Caetano W. Latim em pó: Um passeio pela formação do nosso
português. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
Beatriz Farias Almeida
[Link]
Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino
Universidade Federal de Campina Grande
beaalmeida740@[Link]
Francyelle Loiola Ramos
[Link]
Universidade Federal de Campina Grande
francyellelrm@[Link]
Gabriel Rodrigues de Lucena
[Link]
Universidade Federal de Campina Grande
gabrielrodriguesdelucena222@[Link]
O português é considerado hoje a quarta língua mais falada no mundo. Trata-se,
pois, de um idioma presente em diversos países, em razão, sobretudo, da colonização.
Neste sentido, destaca-se o Brasil como seu principal representante no que diz respeito
ao contingente expressivo de falantes. Mas de onde surgiu a língua que falamos? Como
é possível que um país com proporções continentais seja capaz de falar, quase que
uniformemente, uma mesma língua? É possível que essa comunicação ocorra de
maneira padronizada? Essas e outras questões são respondidas no livro Latim em pó
(2022), de autoria de Caetano [Link] Waldrigues Galindo é um professor,
pesquisador, tradutor e escritor curitibano nascido em 1973, finalista do prêmio Rio de
Literatura em 2016 e ganhador do prêmio Paraná de literatura em 2013. Galindo tem
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obras publicadas nos mais diversos âmbitos da literatura, que vão desde a música e a
poesia, até a ficção e a literatura infantil. Detém, portanto, um repertório de grande
prestígio, no qual sobressaem-se seus trabalhos de tradução do romance clássico
Ulysses e a publicação de Latim em Pó, obra aqui resenhada.
Latim em Pó: Um passeio pela formação do nosso português foi lançado em
2022 pela editora paulista Companhia das Letras. Com uma linguagem prosaica,
Galindo revisita todas as etapas históricas da formação do português enquanto língua
românica, iniciando pela família indo-europeia e desembocando nas influências das
línguas africanas trazidas no período de colonização. Busca, com isso, elucidar todos os
processos e mudanças que culminaram na variedade brasileira da Língua Portuguesa.
Para atender a essa escolha, então, a obra foi organizada em vinte capítulos, obedecendo
um padrão historicamente linear, traçado com a finalidade de descrever as principais
características e contribuições de cada recorte espaço-temporal até os dias atuais.
No que diz respeito às seções introdutórias, intituladas Bem-vinda e Roçar a
língua de Camões, Galindo estabelece um diálogo com o seu interlocutor, a partir do
qual discorre sobre o caráter dinâmico, flexível e plural inerente às línguas humanas.
Para tanto, utiliza-se da figura de Luzia, uma personagem cuja língua materna virá a ser
o português e que resguardará em sua identidade fragmentos sócio-históricos da
formação do seu país de origem e do idioma vigente. É por intermédio da descrição da
aquisição linguística de Luzia que o autor apresenta ao interlocutor algumas das
particularidades características desse processo, como o fato de que mesmo submetida a
condições de vulnerabilidade social e privação do acesso à educação formal, ela ainda
poderá desenvolver sua competência comunicativa, mesmo que não instrumentalizada
com a variedade de maior prestígio. No que compete à abrangência da língua
portuguesa em solo brasileiro, Galindo salienta o monolinguismo predominante a que
somos submetidos, o que não pressupõe o apagamento das mais de 200 línguas faladas
no país, mas lança luz sobre a hegemonia política do português.
Após os capítulos iniciais, nos quais o autor apresenta muito claramente sua(s)
perspectiva(s) linguística(s), somente na seção O povo dos cavalos adentramos
propriamente na análise do longo percurso histórico e linguístico que atravessa toda a
obra. Pode-se supor que esse ponto de partida é o latim, no entanto, Galindo vai ainda
mais longe. Se já é uma certeza linguística bem aceita que o português ―veio‖ do latim,
resta outra pergunta menos discutida: de onde veio o latim? Essa resposta possui limites
de objetividade, tanto em relação à maleabilidade das fronteiras linguísticas, quanto por
motivos técnicos, visto que, devido aos escassos registros escritos, por muito tempo, foi
difícil precisar uma língua-mãe do latim. Contudo, o ponto de inflexão dos estudos
filológicos foi a proposição de William Jones, em 1786, de que não apenas o latim e o
grego, como também o sânscrito, eram aparentados. Seria essa uma relação
aproximadamente fraternal — nenhum idioma precedeu o outro, eram todos derivados
de uma mesma língua-mãe. Essa nova perspectiva deu um novo rumo para os estudos
histórico-comparativos sobre a origem das línguas, que vinham se desenvolvendo desde
o século XVII. Diante dessas pesquisas, elaborou-se, então, a chamada hipótese indo-
europeia, centrada, conforme o palpite William Jones, na ideia de que o latim, o grego e
o sânscrito tiveram origem de um mesmo idioma, ou conjunto de dialetos de um mesmo
idioma, denominado proto-indo-europeu.
Os capítulos subsequentes, Roma e A outra Roma, são o ponto da obra em que
Galindo se volta para a mais emblemática língua da herança indo-europeia: o latim, que
representava a civilização romana, tão historicamente proeminente por suas conquistas.
A magnitude da extensão territorial do Império Romano abrangia os mais diversos
povos, culturas e línguas, que, em maior ou menor grau, interagiam com a língua latina,
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modificando-a e sendo modificadas por ela, processo denominado romanização. Sendo
assim, o autor salienta a impossibilidade de falar do latim como idioma uno: bem como
Roma foi um mundo inteiro, o latim também foi muitos, não somente pelas variações
provenientes das dimensões tanto espacial quanto temporal do Império Romano, como
também pela variação do eixo diastrático, ou seja, aquela que independe de fatores
geográficos ou históricos.
A língua falada pela elite nunca será a mesma da ―boca do povo‖, e foi
justamente essa última variante, entre tantos latins, que deixou a herança mais valiosa: o
sermo vulgaris, em outras palavras, ―a língua do povo‖, hoje conhecida por latim
vulgar. Galindo desconstrói, portanto, a visão elitista que temos do latim,
desmascarando a crença de que a variante clássica teria sido ―mãe‖ de algumas das
maiores obras da Era Moderna e destacando a importância da classe trabalhadora no
processo histórico e linguístico da formação das línguas românicas.
Os dois capítulos seguintes, Os “bárbaros” e as aspas e Os “árabes” e as aspas
já tangenciam um ―protótipo‖ do português, ou seja, abordam os processos de
diferenciação e individualização da língua falada na Península Ibérica, que, a esse
ponto, já não podia mais ser considerada latim. Esses processos foram, sobretudo,
marcados por duas invasões: de um lado, a dos povos germânicos, que receberam dos
latinos a alcunha de ―bárbaros‖; do outro, a dos povos islâmicos. Já nos próprios títulos
Galindo problematiza as terminologias comumente difundidas para se referir a esses
povos, fundamentadas na noção do Outro, embora sem apagar ou romantizar o violento
contexto bélico.
Entre as diversas contribuições linguísticas desses dois grupos étnicos na
formação do português, o pesquisador enfatiza a atuação dos suevos no Noroeste da
Ibéria, responsável pelo surgimento do galego-português, que, posteriormente, se
ramificaria no português. Aqui, o autor sublinha a tendência que temos de uniformizar
os fenômenos linguísticos em sentido estritamente linear, quando, na prática, esses
frequentemente se dão de forma transversal ou lateral. Por exemplo, tendemos a
simplificar que ―o português veio do latim‖, quando o português ―veio‖ do galego, que
veio do latim, que foi atravessado por interferências de diversas línguas germânicas, e,
enfim, idas e vindas do dinamismo natural das línguas.
Quanto à influência ―árabe‖, trata-se de um processo ainda mais singular.
Primeiro, por ser um superestrato exclusivo da Ibéria, que, por isso, não influenciou
nenhuma outra língua românica e contribuiu para a singularização do português face a
essas. Segundo, porque se configura como um elemento de choque muito mais forte,
com um grande distanciamento entre os povos, não apenas no aspecto linguístico como
também no cultural e no religioso, o que resultou em marcas linguísticas quase que
exclusivamente lexicais, enquanto o superestrato germânico foi mais além, penetrando
no nível morfossintático.
Na seção que concerne à origem do Português, após uma explanação sobre o
período de formação das línguas românicas, Galindo se detém mais à questão da
formação e normatização da Língua Portuguesa. No capítulo intitulado A Reconquista, o
autor se debruça sobre os eventos bélicos que envolveram o processo de retomada da
península Ibérica e que culminaram na vitória lusitana e na reconquista do território,
propiciando a edificação de uma sociedade que, mais adiante, viria a ser conhecida
como o Estado nacional português. Posteriormente, redireciona a discussão, mais uma
vez, para o aspecto linguístico, mostrando que por mais que os povos islâmicos tenham
sido derrotados no confronto político-militar, sua influência no campo linguístico já
estava mais do que estabelecida, mostrando-se significativa no que tange aos sistemas
léxico e fonético-fonológico do idioma que falamos hoje.
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Após o período de Reconquista da Península Ibérica, Portugal passou por um
processo de especiação linguística, resultando na cisão definitiva entre o galego e o
português, de modo que se fazia necessário a regulamentação da língua oficial do
território. Para explicar o processo de institucionalização do idioma, Galindo reservou o
capítulo Antes de nós. No decorrer dessa seção, é elucidado, de forma didática e sem
muitos parênteses, como se deu o estabelecimento de uma norma da língua portuguesa,
desde o processo de bilinguismo, até as necessidades perceptíveis de padronização dos
sons e das palavras faladas em seu idioma comum. Sublinha, então, o surgimento de
uma gramática e a modernização da língua portuguesa e de sua literatura de maneira
forçada e veloz, ocasionada pela influência de ideias renascentistas, muito presentes na
Itália naquela época.
O autor introduz a chegada da língua portuguesa no novo mundo com o capítulo
Kriol, que narra o momento em que os Portugueses partiram ao mar em busca de
territórios para colonizar. O contato entre as línguas dos colonizadores e dos
colonizados provocou tanto alterações no português, quanto o surgimento dos
denominados crioulos. Línguas crioulas nada mais são do que o resultado da interação
entre dois ou mais idiomas sob o contexto de aquisição irregular e comunicação
emergencial. Considerando o panorama geral das expansões marítimas, foi na África
que houve uma maior profusão desse fenômeno. Além disso, ainda nesse capítulo,
Galindo pontua que, no Brasil, não houve registros de línguas crioulas, devido à
maneira como se deu a colonização no nosso território.
No bojo dessas discussões, situa-se o capítulo Cabral. O autor não poupa
palavras para desmascarar o mito da colonização pacífica, destacando todos os
problemas e violências sofridas pelos povos originários do Brasil durante o domínio dos
portugueses. Galindo salienta, também, a participação dos povos nativos na constituição
da variedade da língua portuguesa que aqui se estabeleceria, rompendo com a ideia de
que as línguas nativas seriam menos complexas que as europeias e, por isso, não
poderiam influenciá-las. Na sequência, no capítulo intitulado Gerais, o escritor retoma a
informação de que no Brasil não há registros de línguas crioulas, mas explica que outro
tipo de dinâmica era utilizado para que fosse possível estabelecer a comunicação entre
os povos originários e os povos colonizadores, as Línguas Gerais.
No breve capítulo chamado Morte, o pesquisador explica como os esforços da
elite de Portugal, mobilizados com o propósito de apagar e exterminar grupos étnico-
culturais originários e, consequentemente, uma variabilidade linguística ímpar, foram
bem-sucedidos em muitas de suas aplicações. É impossível separar a língua da cultura
de um povo, logo, a imposição linguística implica também na imposição cultural, e era
exatamente essa a intenção da coroa portuguesa ao tentar impedir a circulação de
línguas gerais no Brasil. O autor evidencia, ainda, a importância da resistência cultural e
da memória desses povos, empreendida por autores que hoje conseguem expor as
violências experienciadas por seus ancestrais no processo de colonização.
No que compete à compreensão da formação do português brasileiro (PB) e a
sua cisão com as particularidades características da variedade europeia, Galindo versa,
no capítulo Áfricas, como as iniciativas de descrição e sistematização das línguas
africanas alcançaram o continente cerca de duzentos anos após a eclosão de estudos
linguísticos voltados para o cenário europeu, de modo que a reconstrução genealógica
dos idiomas africanos pode nunca alcançar a plena completude, visto que é provável que
centenas de línguas tenham sucumbido nesse espaço e tempo.
Além disso, o autor suscita a reflexão de que as pesquisas linguísticas,
embebidas de uma visão ocidentalocêntrica, precisam experimentar a reformulação dos
seus métodos de abordagem, ou seja, trocar as lentes para enxergar contextos étnico-
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culturais díspares, como o caso da própria organização destas línguas em troncos,
famílias e ramos. Referente a isso, a obra resenhada traz-nos uma nova perspectiva de
compreensão do contexto africano, dessa vez, voltando-se para a transversalidade
inerente às relações estabelecidas entre idiomas africanos não aparentados
genealogicamente, mas que coexistem em um mesmo ambiente, o que favorece a troca
de traços gramaticais.
Em contraponto às narrativas hegemônicas, responsáveis por difundir a ideia de
que as contribuições afro-diaspóricas não ultrapassaram o nível lexical da língua
portuguesa, no capítulo destinado ao Pretoguês, Galindo disserta sobre a possibilidade
de que a vivência nos contextos multilíngues a que estavam expostos em África tenha
fomentado, nos indivíduos escravizados, diferentes perspectivas de como lidar com a
pluralidade linguística. Neste viés, Galindo defende que o processo de aquisição
linguística irregular, somado ao alto contingente de negros africanos que se moviam em
massa por toda a extensão do território brasileiro para atender às demandas dos ciclos
econômicos, foram responsáveis pela lusitanização do país e pelas profundas
transformações da língua aprendida.
Por fim, nos capítulos de encerramento, o pesquisador, em um movimento
circular, retoma de forma mais consistente problematizações que haviam sido
anteriormente apresentadas no percurso da obra. Como exemplo disso, temos então os
casos da variação diastrática e do abismo que separa a norma-culta ensinada na escola
do português falado pelo nosso povo, consequência da insistência em prosseguir
baseando nossa prática escolar na variedade europeia do português, ainda tida como
referência de prestígio, enquanto o nosso pretoguês – o português moldado por
africanos e afrodescendentes – segue sendo marginalizado. Galindo, portanto, conclui
sua obra com a mesma tese com que a inicia: o português (como toda língua) é, foi e
será para sempre plural; e a nossa variedade brasileira de hoje é uma colcha de retalhos
que reúne em si heranças indo-europeias, latinas, germânicas, árabes, indígenas,
africanas, e outras incomensuráveis particularidades.
Acreditamos ser pertinente mencionar como a linguagem empregada na escrita
de Latim em Pó transcende a característica seleção vocabular de cunho acadêmico,
aproximando-se do discurso literário, que enreda o leitor com expressões próprias do
cotidiano e, sobretudo, com posicionamentos muito bem demarcados a respeito de uma
história, que ao longo de muitos anos, foi narrada apenas da perspectiva do colonizador.
O diálogo que o autor estabelece com seus interlocutores aproxima-os da história de
formação de uma língua que lhes foi negada sob o pretexto de que o mínimo deslize de
seus falantes poderia macular essa rocha monolítica que nos fizeram acreditar ser o PB.
Nesse sentido, Galindo, através de uma progressão de ideias que atravessa os
séculos e perpassa os mais diversos povos e civilizações, traz à luz contribuições
linguísticas e culturais inviabilizadas pelo epistemicídio orquestrado pelas camadas
dominantes. Posto isso, acrescemos que por se tratar de um material produzido com a
finalidade de propor um estudo horizontal, contemplando os assuntos a partir de um
panorama histórico geral, é um livro que agrega ao seu público tanto leitores iniciantes
— discentes nos primeiros períodos das graduações em letras ou simplesmente
interessados nos estudos da língua portuguesa — quanto pesquisadores mais experientes
da área, uma vez que conta com a presença de estudos recentes, que ganham contornos
cada vez mais expressivos nas áreas da Linguística moderna. Recomendamos, pois, a
sua adoção no currículo dos cursos de formação de professores de língua portuguesa
como uma leitura indispensável.
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