A neve caía como água em uma cachoeira, soprando quantidades
abundantes de gelo incessantemente. O sol não parecia surtir qualquer
efeito sobre o cenário gélido, permanecendo oculto por algumas camadas
de nuvens prateadas. Mais algumas semanas e todas as árvores estariam
nuas, exibindo troncos esbranquiçados e sutilmente fracos. E embora
detestasse assistir ao partir das folhas, Tara tinha de admitir que o inverno
era a melhor época do ano. Plácido, e ao mesmo tempo, imponente. Não
havia nada melhor que o frio demasiado, correndo entre muralhas e
montanhas, atravessando fiordes e assombrando a superfície dos casebres
durante o luar com seu uivo amedrontador.
Talvez fossem, na verdade, espectros de figuras antigas. Fantasmas irados
e sedentos por vingança. Tara gostava de pensar dessa maneira.
Fantasiosa, completamente irreal, mas divertida.
"Katar pediu que traga o produto a ela antes do alvorecer. Caso falhe, será
punida com mais sessões de treinamento intensivo. Ao lado de Gládio,
claro." – Shuan estava parada à porta, os braços escondidos atrás do
corpo.
Doralice suspirou, passando os dedos lesionados na ponta das madeixas
acobreadas.
"Retornarei em duas horas. Diga a ela que eu e Ggou recuperamos o Punhal
de Obsidiana e demos um jeito no arconte. Ele e sua trupe não irão mais
nos perturbar por bastante tempo."
Os passos de Shuan ecoaram por todo o corredor de pedra, pisadas fortes e
brutas como as de um cavalo. Tara não se virou para assistir a colega partir.
Estavam a semanas sem trocar uma única palavra. Desde que uma delas se
foi. Desde a trágica missão que fez com que uma das assassinas da
organização, a melhor amiga de Tara, fosse capturada pelos feéricos.
No dia seguinte, seus restos foram deixados ao pé da muralha de Diásporo.
A língua, os olhos, os dedos, e fragmentos gelatinosos do que deveriam ser
os órgãos internos. Tara sentira vontade imediata de vomitar, regurgitar
todo o frango grelhado que havia ingerido, diretamente na neve molhada.
Porém, não podia. E por isso, aguardou até que retornassem para a
fortaleza novamente, separadas.
Shuan era traiçoeira, ardilosa. E se Tara demonstrasse um único traço de
fraqueza perante a Olheira dissimulada, acabaria presa nas entranhas da
fortaleza, servindo de alimento para as Harpias de Katar.
A paisagem glacial parecia convidá-la para mais uma aventura pelas
florestas frias e traiçoeiramente lisas. Escorregadias ao ponto de fazer com
que qualquer desavisado caia e ganhe uma bela fratura na nuca. Ela ria ao
pensar no quanto os guardas da realeza deveriam estar se esforçando para
chegar até lá. Há dias, semanas, meses. Quem sabe ? Eles nunca
encontrariam o Forte Íngreme. Morreriam tentando, como porcos
desgarrados.
Tara abriu seu armário, vasculhando-o em busca do Armazenador de
Apetrechos, um pequeno recipiente feito de ametista e diamante,
encontrado por Ggou e Gládio num berço de espinhos. Um dos lembretes
de que a magia ainda permanecia viva e operante naquele mundo
moribundo.
"Devolva, Ambâr!" - gritou a ladina, enquanto ainda procurava pelo objeto
no interior do móvel de madeira mogno.
O enorme lobo saltou das sombras, onde sempre costumava ficar. Tara
achava assustador, ter de encarar os olhos de cor amarelo-ouro da besta
todas as noites, enquanto ele caminhava pelo negrume, vigiando o extenso
corredor em busca de possíveis intrusos.
Havia encontrado a criatura a alguns meses atrás, fugindo de caçadores.
Pareciam estar dedicados na missão de matá-lo. Tentaram ludibriar Tara e
convencê-la de que a fera era perigosa. Ela, no entanto, os respondeu com
o tilintar de suas lâminas, que viajaram até a jugular de cada um dos
vagabundos, pintando o branco do solo com um vermelho resplandecente
e marcante. Agora, percebia o quanto era sortuda de tê-lo consigo, tão
perto.
Mas, ainda odiava quando ele roubava seus pertences. Especialmente os
que Gládio havia dado a ela.
"Menino malvado. Não pode!" - falou, arrancando o armazenador da
bocarra fedorenta do animal e examinando a joia cuidadosamente, os
olhos azuis fincados nas cores brilhantes e nos desenhos gravados no
depositário. - "Hora de partir."
౨ৎ
Houve um tempo no qual a terra era verdadeiramente viva. Agora, parecia
estar apenas sobrevivendo às consequências das ações das espécies que
ela mesma abriga. Hipocrisia, crueldade e egocentrismo. O quão
inescrupuloso o ser humano poderia ser? pensava Aristarco, cheio de ódio.
Diásporo, seu lar, havia sido dominada pela tirania dos humanos. Violada
de todas as maneiras possíveis. Agora, servia como ponto de venda para os
comerciantes da alta nobreza e escravocratas vindos de outros continentes
distantes. Os feéricos desapareceram, ouviu falar deles pela última vez em
uma conversa no Bosque Friorento, onde a viu pela primeira vez. Ela. A
Amazona.
Cabelos castanhos, compridos e perfeitamente cacheados. Lábios
carnudos e da mesma cor das centifólias que cresciam no Norte. Pele
ligeiramente bronzeada, denunciando sua ancestralidade dúbia e por fim
os olhos, brilhantes como safiras. Sentiu seu coração palpitar e jurou que
teria um infarto. Mas caso morresse, não poderia mais apreciá-la. A donzela
armada, apreciadora da neve e ágil como o disparar de uma flecha. Ela,
certamente, era a mulher perfeita para ele.
Contentou-se em assistir às caminhadas dela durante meses. Deixava de
caçar somente para vê-la outra vez, para ter o prazer de enxergar seu olhar
desafiador, imutável e rebelde. Apenas por suas características, Aristarco a
reconheceu como uma guerreira formidável. E não poderia estar mais
certo.
Dois anos se passaram, e a moçoila continuava a vir ao mesmo lugar todos
os dias. Havia aprendido a dominar a arte das Espadas-Gêmeas, e agora
ostentava duas grandes lâminas em suas mãos, levando-as para todo lugar.
Sentiu-se tão perdido por sua destreza com as cimitarras que sequer notou
quando foi atingido por uma maldita faca de ferro.
A queimadura progrediu depressa, corroendo a carne e manchando a pele
com um negro tão profundo que Aristarco pensou estar liberando algo
maligno de dentro de si. Os caçadores saltaram dos arbustos enevoados,
erguendo arcos, espadas e estilingues de metal. Era o fim, pensou Aristarco,
a ponto de perder os sentidos.
O feérico buscou abrigo na mata recoberta por gelo, esgueirando-se entre
as plantas e procurando uma forma de despistar os predadores, que
gritavam feito loucos logo atrás, entoando um cântico antigo, que
vangloriava a imagem do humano e declarava guerra e morte contra
qualquer aberração que não fossem eles mesmos.
Ao tentar descer por uma área específica, Aristarco acabou caindo e
colidindo com um aglomerado de árvores congeladas. A força fez com que
perdesse o equilíbrio, cedendo à fraqueza e por fim, aceitando seu destino
trágico. Ele morreria, assim como todos os outros seres mágicos que
estavam do outro lado da muralha imortal de Diásporo durante o saque. Os
ossos doíam, a queimação se alastrava rapidamente e o ar se tornava mais
ríspido a cada segundo. Quando se deu conta, seus olhos já haviam
começado a se fechar, levando-o para o além, onde encontraria com os
outros. Com a sua família.
Porém, lá estava ela.
Célere e habilidosa, inigualável em combate. Tara emergiu de repente,
atravessando o agrupamento de vegetação frígido e se pondo diante do
enorme lobo. Se prestou ao serviço de tentar ouvir a justificativa dos
caçadores para o abate. Todavia, se deu conta de que o que se passava na
mente de cada um dos porcos era o resultado da alienação gerada pelos
Grandes Informantes, que sussurravam constantemente falácias acerca
dos feéricos e de outras criaturas mágicas, criando o caos pelos becos dos
reinos próximos. E sem prolongar o diálogo, a dama saltou, cravando suas
lâminas no peito de cada um dos caçadores em um período extremamente
curto de tempo e esbanjando maestria enquanto rodopiava
habilidosamente no ar, fatiando a matéria ao seu redor. Bruxa, feiticeira,
vadia! Gritavam, segundos antes de se afogarem no próprio sangue e
provarem o gosto do próprio veneno. Áspero, insípido e profundamente
desagradável.
No fim, Tara certificou-se de que o último sabor que provariam na Terra
seria o da própria morte.
Ao concluir a tarefa, ela sorriu, despejando o líquido rubra no chão e
deixando que a natureza cumprisse com o seu papel fundamental de lavar
toda a carnificina feita ali. Bastou apenas alguns passos para que ela
chegasse até Aristarco, ainda ofegante por conta do esforço da luta.
“Você está péssimo, amigão. Mas não tão ruim quanto eles, certo? Você é
um lobo, deve estar acostumado com a dor.”
E como estava.
A partir daí, Aristarco só se lembra de ser levado para o Forte Íngreme,
onde recebeu cuidados médicos de uma doce mulher chamada Blanca. No
dia seguinte, já estava curado e saudável, cortesia do fator de cura
acelerado que possuía por conta de sua herança nobre. Blanca e os demais
certamente acharam estranho como um lobo sobrevivera a um disparo tão
bem executado. Mas, logo desistiram da ideia de investigar as origens da
criatura assim que Aristarco usou de um pouco de sua magia enfraquecida
para confundir a mente dos membros da O.L.F. Passaram-se alguns dias e
Tara o adotou como companheiro, levando-o todas as noites para caçadas
por vilarejos minúsculos. Surrupiar moedas de ouro dos Guardas Reais era
o passatempo preferido de ambos.