Cultura Woke nas Organizações: Impactos e Estratégias
Cultura Woke nas Organizações: Impactos e Estratégias
ISSN 2177-3866
Resumo
O objetivo deste estudo é apresentar evidências da influência da cultura woke nas práticas e
estratégias das organizações, respaldadas por uma estrutura conceitual sistematizada e
interdisciplinar. Considerando a complexidade do tema, o percurso teórico contempla o
contexto histórico para compreensão do conceito, bem como as perspectivas sociológica,
política, econômica, mercadológica, cultural e teoria crítica. Em termos metodológicos, este
artigo caracteriza-se como um ensaio teórico, uma vez que proporcionou uma capacidade
reflexiva para compreender um fenômeno específico, que é a cultura woke. Como forma de
ilustrar os achados teóricos, a análise foi realizada por meio de cases de quatro empresas que
foram influenciadas pelo wokeism, que permitiu estabelecer conexões fundamentadas a partir
da literatura especializada. Os resultados revelaram que as organizações sofrem influência de
variáveis com origens diferentes que afetam sua evolução e funcionamento, e que a adoção da
cultura woke pode trazer vantagens competitivas, mas também pode gerar conflitos internos e
externos no contexto corporativo. Isso não significa, entretanto, inércia por parte das
organizações. Pelo contrário, as práticas organizacionais estão em um processo recursivo, ou
seja, sofre influências a partir de parâmetros de estruturas institucionais, mas também podem
tomar decisões que, por vezes, podem servir de referência para outras organizações que optam
em imitar práticas bem-sucedidas relacionadas ao movimento woke.
1. Introdução
Há décadas as empresas vêm adotando ações e programas para atrair e reter funcionários
de grupos sub-representados, com o propósito de promover a diversidade e tornar o ambiente
corporativo mais acolhedor. Não obstante, com o crescimento desenfreado das mídias sociais e
com a profundidade da polarização política, tais ações tomaram uma dimensão diferente. Hoje,
empresas seguem um movimento que leva o nome de “Wokeism” ou simplesmente “woke”. De
maneira geral, uma empresa woke é aquela que está comprometida com causas socialmente
progressistas (Wright, 2022). O termo tem sido adotado de forma mais ampla para descrever
uma consciência e vontade de se envolver com questões de justiça social e ambiental por meio
do apoio radical a ações afirmativas e outras políticas destinadas a corrigir desigualdades
históricas.
As causas woke desfrutam do apoio de grandes faixas da comunidade empresarial. Por
exemplo, em julho de 2020, a empresa Goya Foods foi criticada por muitos defensores do
movimento woke por elogiar publicamente o então presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump, que era visto por muitos como um líder com políticas discriminatórias e diversivas.
Após a empresa elogiar Trump durante uma visita à Casa Branca, o CEO da Goya Foods, Robert
Unanue, foi alvo de críticas nas redes sociais e campanhas de boicote à empresa foram iniciadas
(Gillette, 2022). Como resultado, a empresa perdeu alguns de seus principais clientes, incluindo
a rede de supermercados Whole Foods e a rede de mercearias Publix, que pararam de vender
produtos da Goya Foods em suas lojas. A empresa enfrentou uma onda de críticas e protestos
em várias cidades dos EUA, e muitos consumidores pediram um boicote à marca nas redes
sociais.
Embora a empresa tenha tentado se defender das críticas, a ação do movimento woke
acabou levando a uma redução nas vendas e reputação da Goya Foods. O caso da Goya Foods
evidencia como o comportamento woke pode resultar em pessoas ou empresas sendo canceladas
sem terem a oportunidade de se defender ou explicar suas ações. Esse comportamento em massa
atualmente leva o nome de “cultura do cancelamento”. Em suma, a cultura do cancelamento
pode estar relacionada à noção de culpabilidade e levanta preocupações sobre justiça, liberdade
de expressão e suscita necessidade de investigação antes de fazer acusações públicas.
Compreendendo a grandiosidade da influência desse movimento sobre o mundo
corporativo, percebe-se que existem poucas evidências de estudos sobre as origens intelectuais
do movimento woke e como ele difere, em termos de impacto, dos movimentos anteriores em
prol das justiças sociais. Portanto, ainda se questiona o real motivo de tantas empresas estarem
abraçando o wokeism nas suas estratégias de marca e marketing.
Primeiramente, o fenômeno woke nas organizações compartilha pontos em comum com
movimentos anteriores adotados pelas companhias para atingir objetivos sociais mais amplos
por meio da implementação de políticas de ações afirmativas na contratação e promoção e o
envolvimento em responsabilidades sociais. No entanto, o movimento woke tem uma
fundamentação histórica e intelectual que se difere desses antecessores.
As ideias e comportamentos woke são baseados na teoria crítica e na teoria
interseccional, concepções filosóficas que emergiram da Escola de Filosofia de Frankfurt e do
pensamento francês pós-moderno (Foss & Klein, 2023; Wright, 2023). Na sua concepção atual,
a teoria crítica prioriza a experiência pessoal subjetiva sobre os dados objetivos, enfatiza a
identidade do grupo sobre as características individuais e vê a maioria das relações sociais por
meio de uma lente opressora e vitimista, conceituando os atos de racismo e sexismo em termos
de desigualdades estruturais, em vez de preconceitos pessoais (Lindsay & Pluckrose, 2020).
Em segundo lugar, a rápida adoção do wokeism durante a última década justifica um
processo de investigação. Afinal, se o woke corporativo é simplesmente um reflexo da rápida
mudança nos costumes sociais e culturais (Rumelt, 1995), então por que as empresas o adotam
tão rapidamente enquanto muitas vezes se adaptam lentamente a outros choques externos (como
por exemplo às mudanças tecnológicas disruptivas, às mudanças regulatórias e às mudanças
climáticas e ambientais)? Estariam as empresas conscientes da legitimidade quando se curvam
diante do movimento? E essas práticas empresariais woke são principalmente um reflexo da
mudança de valores e conceitos na sociedade ou estaria o wokeism corporativo apenas
sinalizando virtudes?
De modo geral, as empresas woke estão atraindo um grande interesse entre estudiosos,
mas ainda não apareceram um número razoável de estruturas gerais que analisem as causas e
consequências do wokeism nos ambientes internos e externos das organizações. Por outro lado,
é importante ressaltar que ainda persiste uma dificuldade em debater abertamente sobre o tema,
uma vez que diversas discussões levantadas em ambientes corporativos correm o risco de serem
consideradas ofensivas e enfrentarem ameaças de indivíduos adeptos ao wokeism, que tendem
a intimidar seus oponentes ao silêncio a fim de defender as suas causas.
Por fim, esta pesquisa tem como motivação os interstícios teóricos e empíricos sobre o
tema, com o objetivo de compreender os efeitos da adoção da cultura woke nas práticas e
estratégias organizacionais, numa perspectiva interdisciplinar. Dessa maneira, os resultados
têm potencial para contribuir para o avanço do conhecimento sobre as razões por trás dos
princípios woke e obter uma compreensão mais aprofundada dos propósitos e da legitimidade
desse movimento, e oferecer subsídios para que as empresas tomem decisões sobre como
integrar ou responder à cultura woke, considerando as implicações e os desafios que isso pode
trazer para suas operações e reputação.
2. Fundamentação Teórica
Considerando a complexidade e interdisciplinaridade do tema, na sequência são
apresentados alguns conceitos que possibilitam uma visão mais abrangente e bem estruturada
sobre a cultura woke, organizados da seguinte maneira: (2.1) Cultura woke: origem e conceito;
(2.2) Teoria crítica, Interseccionalidade e escola de Frankfurt; (2.3) Contextualizando:
corporações woke; (2.4) Contexto macroeconômico; (2.5) Politização do movimento; (2.6)
Polarização político-ideológica e mudanças nos hábitos de consumo; (2.7) A perda da verdade
no domínio público; (2.8) Cultura do cancelamento (call-out culture); (2.9) Teoria institucional
e a legitimação das mudanças sociais e de governança nas empresas.
O cenário atual tem imposto às empresas uma crescente pressão para que suas
estratégias e comportamentos se adaptem às tendências sociais, culturais e políticas mais
amplas. Parece haver uma força invisível que dita, com rigor, o que as organizações devem
fazer para manter uma certa reputação. Esse fenômeno é conhecido como Cultura woke, uma
força que promove a conscientização social e a inclusão por meio de ativismos, mas que pode
gerar controvérsias e debates austeros sobre o papel das empresas na sociedade.
O termo "woke" surgiu para descrever uma suposta mudança cultural em direção a uma
maior conscientização e sensibilidade em questões relacionadas à justiça social, diversidade,
inclusão e, às vezes, meio ambiente (McDonald & Gonzales, 2023). Embora seja atualmente
parte do vernáculo afro-americano (AAVE), a palavra "woke" é consideravelmente mais antiga
do que sua primeira entrada no dicionário (Holliday, 2016). Na verdade, o primeiro uso
politicamente correto de "woke" ocorreu em 1962, no artigo da revista americana The New
York Times intitulado "If You're Woke You Dig It" ("Se você estiver acordado, entenderá", em
tradução livre), onde a palavra fazia parte de um glossário de gírias afro-americanas.
Décadas mais tarde, em 2014, após a morte de Michael Brown pela polícia norte
americana na cidade de Ferguson, Missouri, o termo “stay woke” (em português “fique
acordado”) se tornou a palavra de ordem de advertência dos ativistas do movimento Black Lives
Matter nas ruas, usada em um contexto específico: ficar atento à brutalidade policial e às táticas
injustas da polícia (Steinmetz, 2017). Em 2017, o dicionário inglês Oxford acrescentou então
este novo significado da palavra “woke”, definido como: “estar consciente sobre temas sociais
e políticos, especialmente o racismo”.
Entretanto, embora a terminologia tenha surgido como parte de um movimento racial,
atualmente ela abrange políticas progressistas relacionadas a uma ampla gama de lutas sociais,
que defendem causas como igualdade racial e social, feminismo, o movimento LGBT+, o uso
de pronomes de gênero neutro, o multiculturalismo, a vacinação, o ativismo ecológico e o
direito ao aborto (BBC News, 2022). Todos esses movimentos são considerados elementos da
Cultura woke, pois compartilham uma base comum de ideias da teoria crítica, uma
amalgamação de conceitos originados na Escola de Frankfurt.
“Woke” normalmente se refere a disposições e comportamentos individuais e usa
“wokeism” para significar ideologias, movimentos sociais e regras legais fundamentadas em
características como a centralidade da identidade de uma pessoa em termos de gênero, raça ou
preferência sexual; e a ideia de que o sexismo, o racismo e outras formas de discriminação não
são características de comportamentos individuais, mas estão inseridos em estruturas sociais
(Lindsay & Pluckrose, 2020)
Em razão disso, percebe-se que o conceito de woke é subjetivo e pode ser interpretado
de diferentes maneiras. Como o termo foi adaptado por pontos de vista diferentes, ele pode
desencadear emoções tanto positivas quanto negativas. Segundo o dicionário americano
Merriam-Webster, o termo é usado com desaprovação para referir-se a alguém politicamente
liberal (em termos de raça, social e sexual, por exemplo) e em especial de forma insensata ou
extremista. Ou seja, para algumas pessoas ser woke é ter consciência social, questionando
paradigmas e normas opressoras historicamente impostas pela sociedade. Para outras, o termo
descreve hipócritas que acreditam que são moralmente superiores e que querem impor as suas
ideias progressistas sobre os demais.
Trazendo essa perspectiva para a dimensão organizacional, existe a imposição de
ideologias que visa intimidar seus detratores ao silêncio em razão dos direitos humanos, e isso
pode criar um ambiente de trabalho hostil e intimidador, onde as pessoas sentem medo de
expressar suas opiniões ou cometer erros. Por meio da cultura do cancelamento, da teoria crítica
de raças e do racismo estrutural, a natureza contestada do termo impõe uma barreira preventiva
à discordância produtiva, desencadeando uma barreira à comunicação. Em termos de negócios,
o fato de se identificar woke pode ter implicações diversas, dependendo de como é executado,
implicações estas que serão abordadas ao longo do desenvolvimento deste trabalho.
Uma corporação woke é então definida como uma empresa que adota as ideologias e
causas woke não apenas por meio de práticas internas que priorizam a Diversidade, Igualdade
e Inclusão (DEI) na contratação e promoção, aquisição de fornecedores sustentáveis ou
diversos, e doação para causas socialmente progressistas - mas também em estratégias de
marca, marketing e outras não mercadológicas (Douthat, 2018).
Uma característica marcante das empresas woke é sua adesão ao que se convencionou
chamar de “capitalismo woke”. Esse sistema se baseia na adoção de práticas, linguagem e
imagens progressistas e politicamente de esquerda por grandes corporações e instituições de
apoio, como agências governamentais, militares, organizações sem fins lucrativos e similares
em favor dos seus próprios fins (Wright, 2022).
A transformação dos valores e crenças predominantes em diferentes estratos da
sociedade tem impactado significativamente os modelos de negócios, a organização do local de
trabalho, as práticas de contratação e marketing das empresas. Essas mudanças desempenham
um papel fundamental na promoção do wokeism, levando as empresas a se envolverem em
sinalizações dispendiosas para demonstrar sua suposta superioridade no mercado. De fato, o
wokeism deu origem a um setor ou ecossistema inteiro que busca aproveitar as oportunidades
geradas pelo movimento.
Ilustrando a disseminação de tais iniciativas em todos os setores e regiões, Rufo (2022)
relata que todas as empresas da Fortune 100 têm um programa formal DEI em vigor. Dados do
LinkedIn sugerem um aumento de 71% nas funções gerenciais relacionadas à diversidade de
2017 a 2021 (Schifter, 2021). Após a morte de George Floyd em 2020, o Walmart prometeu
US$ 100 milhões para estabelecer um Center for Racial Equity, enquanto o Google ajudou a
organizar o Fifteen Percent Pledge, no qual grandes varejistas, incluindo Macy's, Nordstrom,
Crate and Barrel, Old Navy e Ulta, prometem adquirir 15% de seus produtos de fornecedores
de propriedade de negros. A maioria das principais empresas de tecnologia dos EUA prometeu
milhões de dólares para instituições de caridade de justiça racial, como a Black Lives Matter.
Em abril de 2021, mais de 100 empresas globais assinaram uma carta aberta no Washington
Post, organizada pela Black Economic Alliance, contestando as mudanças nas leis de direito de
voto da Geórgia.
A crescente adoção dessas ideias nas salas de reuniões das empresas indica uma
mudança de valores e crenças semelhante ao impacto social e econômico da contracultura nas
décadas de 1950 e 1960 em vários países (Marcuse, 1955). Esse movimento desafiou as normas
sociais conservadoras da época, fomentando a diversidade cultural e valorizando as identidades
individuais. Ao notar semelhanças entre o movimento woke e a contracultura e levando em
consideração os fundamentos da teoria crítica que sustentam ambos, pode-se sugerir que o
wokeism também abrange princípios anticapitalistas. Isso gera perspectivas controversas
quando as empresas buscam lucro por meio da adoção de políticas woke em suas práticas e
estratégias de mercado.
O termo “cancelamento” (do inglês, “call-out”) refere-se à prática de usar a mídia social
como uma plataforma para criticar qualquer ação considerada moralmente repreensiva (Duchi,
2019). Entretanto, a capacidade de se comunicar, informar e organizar online vem criando
mudanças na forma como o ativismo é realizado pelos indivíduos. Para as “pessoas woke”, se
trata de uma forma de protesto não violento que permite empoderar grupos historicamente
marginalizados da sociedade e corrigir comportamentos que eram parte do status quo.
Uma característica do wokeism que está intimamente ligada com as suas
fundamentações históricas, é o aumento da vigilância em massa em relação ao comportamento
particular “ofensivo” e a crescente intolerância da expressão de ideias por meio das redes
sociais. Os críticos da cultura woke questionam os métodos coercitivos adotados por pessoas
que eles acusam ser “policiais da linguagem” – sobretudo em expressões e ideias consideradas
misóginas, homofóbicas ou racistas (BBC, 2022) – esses são vistos como métodos típicos
adotados pelos ativistas digitais e por qualquer outra pessoa que faça campanha por uma
sociedade mais igualitária (Ahmad, 2015). Ao evidenciar o comportamento opressivo, esses
atores contam com a moralidade e poder do público online, uma "multidão vigilante"
(Rheingold, 2003), para subverter a dinâmica de poder e afetar o discurso visto como racista,
sexista e, de alguma forma, silenciar um indivíduo ou grupo. Em última instância, esse tipo de
dinâmica tem como objetivo final o boicote social e profissional.
Alguns pesquisadores sobre o tema debatem o impacto das plataformas de mídia social
sobre as taxas de participação política nos ambientes organizacionais. Segundo Duchi (2019),
o conflito sobre o cancelamento está situado dentro da estrutura da “economia da atenção”:
Como todos os cancelamentos devem receber atenção para ter impacto, argumenta-se que a
presença de um público se torna um motivador para o uso indevido da convocação, não mais
empregada como uma ferramenta de protesto, mas como uma forma de construir a persona
online como um ativista socialmente “woke”.
Além do ambiente organizacional privado, esse fenômeno também se aplica em
dimensões sociais. Skoric et al. (2010) examinam o fenômeno dos "sites de vergonha social"
(p.182) no contexto asiático, onde os comportamentos indesejáveis no espaço público, como
erros de direção e estacionamento ou deixar de limpar as necessidades do cachorro, são
registrados por meio de câmeras vigilantes e compartilhados online, e podem ser até mesmo
exposto em outdoors, com o objetivo de gerar vergonha no infrator e, assim, impor normas.
Apesar de serem atores nos mercados, as empresas estão inseridas em contextos sociais
e institucionais (Williamson, 1999). A teoria institucional, desenvolvida por sociólogos, tais
como Scott (1975), oferece uma visão mais ampliada de como as instituições condicionam
comportamentos, inclusive as estratégias e ações tomadas pelas empresas. Essa literatura
enfatiza as dimensões cognitivas e normativas das instituições. Por exemplo, os sistemas
jurídicos não apenas regulam o comportamento social por meio de regras explícitas ou normas
implícitas que estabelecem prêmios e punições, recompensas e penalidades, mas também
podem ser investidos de conteúdo moral (moldando a estrutura normativa) e refletir
determinadas expectativas sociais (o que afeta a cognição).
No caso do wokeism, ele opera nos diferentes níveis da estrutura institucional. As
crenças sobre formas estruturais e institucionais de racismo, sexismo, fluidez de gênero, a
importância das metas e programas de DEI e a responsabilidade das empresas de promover
mudanças sociais, culturais e políticas, criam expectativas que as empresas devem considerar,
não apenas para atrair clientes, trabalhadores e outras partes interessadas, mas também para
manter a legitimidade, como é o caso da responsabilidade social corporativa (Zerbini, 2017).
Outro aspecto da análise sociológica institucional é que as dimensões das instituições
são refletidas em níveis inferiores da estrutura institucional por meio de processos de
isomorfismo institucional, na busca de "legitimidade" (ou seja, conformidade com os elementos
centrais das instituições conforme percebidos por outros) e práticas institucionais (Foss, 2023).
Por exemplo, no contexto empresarial, as dimensões regulatórias das instituições podem
influenciar as políticas e regulamentos de recursos humanos, enquanto as dimensões normativas
e cognitivas afetam as normas de trabalho, influenciando recursivamente as obrigações morais
predominantes e as suposições sobre pontualidade, cortesia e obediência à autoridade, entre
outros aspectos.
Em termos simples, a estrutura institucional não só define como as empresas são
organizadas internamente, mas também influencia a maneira como elas interagem com
funcionários, clientes e outras partes interessadas. Isso acontece porque as pessoas procuram
ser consideradas legítimas, agindo de acordo com as normas e regras estabelecidas pelas
instituições. Ou seja, os comportamentos das empresas e seus atores estão em linha com as
expectativas e padrões regulatórios, normativos e cognitivos das instituições relevantes.
Com base na teoria institucional, é possível então argumentar que as organizações são
influenciadas por fatores externos que afetam sua evolução e funcionamento. Isso não significa,
entretanto, inércia por parte das organizações. Pelo contrário, as práticas organizacionais estão
em um processo recursivo, ou seja, sofre influências a partir de parâmetros de estruturas
institucionais, mas também podem tomar decisões que, por vezes, podem servir de referência
para outras organizações que optam em imitar práticas bem-sucedidas, inclusive, relacionadas
à cultura woke.
O objetivo nesta seção não foi esgotar a complexidade da significativa teoria
institucional, mas estabelecer uma aproximação com o conceito de “wokeism”, sugerindo uma
nova forma de “lógica institucional”, ou seja, um conjunto de crenças e práticas que influenciam
como as organizações interpretam e respondem a situações e estímulos externos. Essas crenças
e práticas organizacionais estabelecem ordem em áreas específicas da vida social e fornecem
regras formais e informais de ação e interação que orientam e restringem os tomadores de
decisão organizacionais em suas tarefas.
4. Metodologia
O artigo caracteriza-se como um ensaio teórico, uma vez que proporcionou uma
capacidade reflexiva para compreender uma determinada realidade a partir de uma opção
consciente e intencional. De acordo com Meneghetti (2011), no ensaio, embora os
procedimentos de coleta e evidenciação do mundo empírico não sejam o centro de sustentação
da sua forma, não se nega a importância da evidência empírica como proposição elementar da
produção de conhecimento.
Nesse sentido, a análise foi realizada por meio de cases de quatro empresas que foram
influenciadas pelo wokeism, que permitiu estabelecer conexões fundamentadas a partir da
literatura especializada. A escolha dos cases foi a partir de um critério intencional de escolha
(Maxwell, 2005), notadamente, com foco em empresas que adotaram práticas relacionadas à
cultura woke, ou que apresentaram características relacionadas ao tema. A análise, em
particular, foi realizada usando a técnica de análise de conteúdo (Bardin, 2011), procurando
pontos convergentes sobre a cultura woke, ou de ações que são da própria natureza da empresa.
Quanto à construção teórica, além dos critérios para seleção dos artigos com foco em
revistas qualificadas a partir das plataformas Scimago, Sucupira e Proquest, (norteados pelo
recorte teórico já mencionado), uma leitura analítica permitiu o desenvolvimento de uma
“costura” teórica que deu origem às reflexões deste estudo. Após a identificação das evidências
práticas presentes nos cases, que apresentam similaridades com os elementos constituintes da
cultura woke, foi realizada uma análise das perspectivas teóricas que permitiram uma
sustentação respaldada dos resultados pela literatura especializada sobre o tema.
5.1 Case 1: Ável Investimentos é processada por não adotar princípios woke de igualdade e
diversidade no seu quadro de colaboradores
5.2 Case 2: Target sofre reações negativas ao lançar coleção Pride de itens para crianças
Uma cafeteria localizada em Toronto, Canadá, surgiu com princípios woke de ser
revolucionária ao sistema capitalista. A cafeteria, inaugurada no ano de 2022, se intitula como
um “café anticapitalista, anticolonial, loja e espaço comunitário radical em terras roubadas”
(Sims-Less, 2022). Ela surgiu com a intenção de protestar conta o sistema capitalista que,
segundo eles, “lucra imoralmente sobre trabalhadores honestos” e com a tentativa de provar a
eficiência de um sistema socialista de distribuição igualitária de capital.
A cafeteria ganhou fama pelo seu modelo de negócios “pague o quanto puder”, que era
subsidiado por bebidas caras. Ela oferece todas as bebidas e produtos de panificação que
qualquer outra cafeteria, com uma exposição e venda de livros e artes comunistas (Menon,
2023). No entanto, para compensar o pagamento dos custos, os clientes teriam que escolher
pagar um valor relativamente alto para que o negócio se mantivesse. O estabelecimento acabou
sendo alvo de críticas dos próprios consumidores, já que muitos diziam ser contraditório cobrar
preços altos por cafés e bebidas que são normalmente baratos, especialmente em um café que
se intitula anticapitalista.
Depois de pouco mais de um ano de funcionamento, The Anarchist foi à falência. Seu
proprietário progressista anunciou que estaria fechando o estabelecimento devido à “falta de
riqueza capital” (Sims-Less, 2023). Além disso, em sua nota de despedida, o dono também se
queixou de como "a falta de riqueza geracional/capital semente de fontes eticamente falidas me
deixou incapaz de resistir ao inverno tranquilo ou de crescer da maneira necessária para ser
sustentável a longo prazo".
Uma característica importante, mas não unânime da ideologia woke anticapitalista, é a
visão de que o lucro é intrinsecamente imoral. No entanto, esse argumento pode ser contestado
ao considerar que o lucro é justamente o que sustenta empresas saudáveis e possibilita o
reinvestimento e a geração de empregos, desde que respeitando as leis da economia, como
destacado por estudiosos economistas como Adam Smith (1776) e Ludwig von Mises (1940).
Além disso, o lucro serve como um estímulo para os empreendedores buscarem melhorias nos
processos, o que historicamente contribuiu para a redução dos preços de bens e serviços e para
o aprimoramento da qualidade deles.
Ao concluir a análise da influência da cultura woke na cafeteria anticapitalista The
Anarchist, fica evidente que a gestão eficiente dos recursos financeiros é fundamental para a
sobrevivência de qualquer empreendimento, o que contrapõe as expectativas do movimento. O
fato de o estabelecimento ter sido obrigado a fechar devido à insuficiência de recursos
financeiros ressalta a importância inquestionável da administração das receitas e de distribuição
de capital por meio do livre mercado e da interação entre oferta e demanda. Essa realidade
revela que ser revolucionário contra o sistema capitalista requer uma reavaliação quando se
deseja manter um empreendimento de maneira justa e honesta. É preciso considerar a
necessidade de equilibrar ideais e princípios com a viabilidade econômica e a responsabilidade
financeira, a fim de garantir a sustentabilidade e o sucesso de um negócio.
6. Considerações finais
O objetivo deste estudo foi apresentar evidências da influência da cultura woke nas
práticas e estratégias das organizações, respaldadas por uma estrutura conceitual sistematizada
e interdisciplinar. Os resultados revelaram que as organizações sofrem influência de variáveis
com origens diferentes e complexas que afetam sua evolução e funcionamento. Isso não
significa, entretanto, inércia por parte das organizações. Pelo contrário, as práticas
organizacionais estão em um processo recursivo, ou seja, sofre influências a partir de
parâmetros de estruturas institucionais, mas também podem tomar decisões que, por vezes,
podem servir de referência para outras organizações que optam em imitar práticas bem-
sucedidas.
A análise dos dados sugere que a ampla adoção de políticas e iniciativas de diversidade,
equidade e inclusão, inspiradas na estrutura conceitual e nos princípios da teoria crítica, pode
gerar restrições à liberdade de expressão no ambiente de trabalho e além dele. A adesão pública
de causas progressistas, como a representação LGBT+, a contratação declaradamente
segmentada por raça, gênero e identidade sexual e o anticapitalismo, são os exemplos mais
visíveis dessa influência e podem ser vistos como movimentos mais segmentadores do que
inclusivos pelas perspectivas sociais.
Outro aspecto que merece destaque, é a relação controversa entre a ideologia woke e a
lógica instrumental / calculativa, observada em todos os cases analisados neste estudo. Embora
sejam cases isolados, ficou evidente que a influência dos preceitos do movimento em cada uma
das empresas retratadas está de alguma forma associada a estratégias de lucro. Isso suscita
questionamentos sobre a autenticidade dessas ações, já que a busca pelo lucro pode influenciar
a forma como as empresas adotam a ideologia woke, levantando a uma perspectiva hipócrita
em relação aos seus propósitos, por contrariarem seus próprios princípios.
Conforme observado, o wokeism apresenta tanto oportunidades quanto desafios para as
empresas. Ele tem implicações importantes tanto para o ambiente externo da empresa quanto
para a forma como as empresas organizam suas atividades internamente. No entanto, em uma
empresa orientada por propósitos, a cultura de trabalho deveria ser mais sobre os talentos e
contribuições dos funcionários para atingir objetivos compartilhados e menos sobre crenças
individuais ou posições políticas.
A contribuição deste estudo, portanto, está em duas perspectivas: teórica, à medida que
traz um tema global e emergente à luz de uma estrutura conceitual histórica e contextualizada
nos âmbitos político, econômico, social e gerencial; e empírica, uma vez que apresenta
evidências práticas de empresas reais que foram impactadas pela cultura woke. Além disso, os
resultados contribuem para a construção do conhecimento sobre a legitimidade da ideologia
woke e o papel das empresas nesse contexto.
Nesse sentido, sugere-se pesquisas futuras sobre a influência da cultura woke nas
práticas e estratégias organizacionais, com foco na aplicação dos modelos existentes sobre as
fontes de vantagem competitiva, especialmente no que se refere ao desempenho financeiro, à
performance de mercado e às consequências das práticas de gestão de recursos humanos das
organizações sob as políticas determinadas pela cultura woke.
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