Universidade São Tomas de Moçambique
Faculdade de direito
Claida Jéssica Pedro Cândido
Tema:
Proteção e garantias dos consumidores no ordenamento jurídico moçambicano
Maputo, dezembro de 2024
Universidade São Tomas de Moçambique
Faculdade de direito
Claida Jéssica Pedro Cândido
Tema:
Proteção e garantias dos consumidores no ordenamento jurídico moçambicano
Supervisor: Pedro Lavieque, PhD.
Monografia para obtenção do grau de licenciatura em direito
Maputo, dezembro de 2024
INTRODUÇÃO
O presente projecto tem como tema: A Protecção e Garantias dos Consumidores no
Ordenamento Jurídico Moçambicano. O tema insere-se no âmbito daquilo que a doutrina cunha
de os novos ramos de direito, concretamente, o direito do consumidor, que é uma disciplina
transversal entre o direito privado e o direito público, que visa proteger um sujeito de direito, o
consumidor, em todas as suas relações jurídicas frente ao fornecedor um profissional, empresário
ou comerciante. Quanto à sua relevância o tema tem merecido atenção a nível internacional por
parte dos vários sujeitos do direito internacional. Outrossim, a nível nacional, os Estados têm
cada vez mais demonstrado interesse em implementar políticas com vista a proporcionar à
qualidade dos bens e serviços aos seus cidadãos e garantir o equilíbrio no âmbito das relações de
consumo. Como fundo da pesquisa do trabalho terá em vista reflectir sobre a eficácia da
implementação da lei que institui em Moçambique um sistema de defesa do consumidor no
âmbito das relações de consumo da venda e fornecimento de produtos alimentícios, ou dito por
outras palavras, géneros alimentícios. É, precisamente por se pretender perceber o estágio da
protecção do consumidor no comércio da venda de géneros alimentícios em Moçambique que se
embarca nesta missão investigativa.
[Link]ção temática
O presente projecto tem como tema: A Protecção e Garantias dos Consumidores no
Ordenamento Jurídico Moçambicano. O tema insere-se no âmbito daquilo que a doutrina cunha
de os novos ramos de direito, concretamente, o direito do consumidor, que é uma disciplina
transversal entre o direito privado e o direito público, que visa proteger um sujeito de direito, o
consumidor, em todas as suas relações jurídicas frente ao fornecedor um profissional, empresário
ou comerciante.
1.1. Delimitação do tema no espaço
O presente tema de pesquisa limitar-se-à ao espaço territorial moçambicano, concretamente, na
Cidade de Maputo. Primeiro, por a Cidade de Maputo, ser a capital do país; segundo, por ser o
lugar onde se concentram grandes focos das actividades comerciais. Outrossim, no que atine a
um estudo do direito comparado, o tema de pesquisa, abrangerá alguns ordenamentos jurídicos
dos países membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) que adoptam o
sistema jurídico romano germano, tais como: Portugal, Brasil e Angola.
1.2. Delimitação do tema no tempo
A reflexão sobre este tema teve como epicentro a legislação que institui um sistema
moçambicano de defesa do consumidor, nomeadamente a lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro,
cujo objectivo é assegurar os direitos do consumidor em Moçambique. Desta feita, havendo
amiúde sujeições dos consumidores (a parte mais vulnerável das relações de consumo) à
situações que ameaçam pôr em perigo a sua vida, saúde e segurança física.
[Link]ção
O tema da pesquisa: A Protecção e Garantias do Consumidor no Ordenamento Jurídico
Moçambicano, insere-se num contexto mundial, histórico, moderno e actual. Desde a
antiguidade constituiu preocupação dos governos garantir a inocuidade dos alimentos através da
institucionalização de normas alimentares que visam assegurar a aptidão dos alimentos
nutritivos, que se produzam em quantidades suficientes capaz de cobrir as necessidades da
população mundial que cresce de forma galopante. Relembra-nos, Ian Ramsay, apud, Bruno
Miragem que “as origens do direito do consumidor, de que a organização de grupo dos
consumidores, a partir dos seus interesses específicos, foi a base do “consumerismo”. Por ser
difícil imaginar um comércio de produtos alimentícios sem normas e, por não ser bastante a
liberdade para assegurar a liberdade, pois, os mais fortes depressa se tornam opressores, cabe
aqui ao Estado, intervir para proteger os fracos. Foi o que sucedeu entre 1897 e 1911, quando o
império austro-húngaro elaborou um conjunto de normas descrições de produtos para uma ampla
variedade de alimentos e que foi nominado: CodexAlimentarius Austríaco. O actual Codex
Alimentarius sobre normas e diretrizes relativos aditivos alimentares contaminação e resíduos de
medicamentos veterinários nos alimentos, surgido da conferência sobre aditivos nos alimentos,
realizado em 1955 e, organizado pela FAOe OMS, donde se criou uma comissão mista –
denominada - Comissão de Codex, foi, inspirado pelo codex alimentarius austriacus.
É, neste contexto que Moçambique, por ser membro da FAO, OMS, também se orienta no
sentido de implementar políticas com o fim de garantir a qualidade dos géneros alimentícios aos
seus cidadãos. Não só, o Estado Moçambicano, no que se refere à vigilância em saúde tem em
conta: segurança alimentar, incluindo riscos alimentares (cf. al. c), art. 10, Lei n.º 3/2022, de 10
de Fevereiro). Em resultado disso, o Estado Moçambicano vem desde há muito aprovando leis
cujas matérias se referem à qualidade dos bens e serviços e têm em vista a protecção da vida,
saúde e da segurança física. A título exemplificativo: Art. 92 (CRM), Diploma Ministerial n.º
73/82, de 23 de junho, Decreto n.º 15/2006, de 22 de junho, Decreto n.º 81/2020, de 9 de
Setembro, Decreto n.º 19/2021, de 9 de Abril, Decreto n.º 43/2017, Lei n.º 22/2009, de 28 de
Setembro.
[Link]
A inocuidade e a qualidade dos alimentos sempre foi (é) uma das grandes preocupações da
Humanidade. O tema sobre a protecção do consumidor no que concerne à segurança alimentar
tem merecido bastante destaque a nível mundial. Como testemunho disso, a Organização das
Nações Unidas Para Alimentação e a Agricultura (FAO) e, a Organização Mundial da
Saúde(OMS), estabeleceram em 1963, uma comissão, designada, Codex Alimentarius
Comission, como plataforma internacional que se propõe a solucionar a disputa sobre a
segurança alimentar e protecção do consumidor.
Neste substrato, o Estado, Moçambicano, não se mostrou indiferente à questão. Daí que, tem por
via legislativa emanado normas positivas com o fim de salvaguardar a protecção dos
consumidores no que se refere à qualidade de produtos alimentícios que estes consomem.
Muito recentemente, por força do disposto no artigo 89, e, no n.º 1, artigo 178, ambos, da
Constituição da República, a Assembleia da República, aprovou a Lei n.º 3/2022, de 10 de
Fevereiro, Lei da Saúde Pública, que revogou a Lei n.º 8/82, de 23 de Junho, que estabelece o
Regime Jurídico sobre Crimes Contra a Saúde Pública. Não só, no âmbito do direito à
informação que, per si, consubstancia um direito fundamental que é garantido ao consumidor,
faz-se mister, a divulgação e a promoção da lei da defesa do consumidor e legislações conexas à
sociedade com o fim de torná-las cada vez mais públicas e do conhecimento de todos os cidadãos
independentemente do seu status social. Cidadãos, esses, que afinal, são simultaneamente
consumidores. A outra razão, assenta, na importância que as relações de consumo representam
no dia-a-dia das actividades comerciais ou mercantis.
Justifica-se, outrossim, pela proliferação do comércio da venda de comida nos transportes
particulares. Também, constitui motivação a necessidade de reflectir sobre um tema que parece
tem merecido pouco debate público em várias plataformas da sociedade moçambicana.
[Link]ÇÃO
No concernente à delimitação do tema pretende-se, reflectir sobre a eficácia de defesa dos
direitos dos consumidores nas relações de consumo que emanam do comércio da venda e
fornecimento de produtos alimentícios à luz da Lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro, e de outras
legislações nacionais e internacionais com ênfase na matéria de protecção ao consumidor. Temos
constatado, no dia-a-dia das relações de consumo, a comercialização e exposição para o consumo
público de géneros alimentares fora do prazo e ou em condições de inobservância de requisitos
higiénicos-sanitários. E sobre este ponto, questiona-se: até que ponto os consumidores vêm os
seus interesses acautelados na esfera desse tipo de comércio em que os produtos fornecidos têm
ou podem ter um impacto directo na saúde dos mesmos
[Link]
A não promoção de uma política educativa para os consumidores através da inserção nos
programas e nas actividades escolares por parte do Estado, associado à rigidezburocrática de
acesso à justiça contribui para a falta de cultura jurídica dos cidadãos.
A falta de implementação efectiva das Leis n.º 22/2009, de 28 de Setembro, Decreton.º27/2016,
de 18 de Julho, por parte do Regulador (Estado) é a maior causa da violação dos direitos do
consumidor em Moçambique
[Link]
6.1 Geral
Compreender e reflectir sobre o sistema moçambicano de defesa dos consumidores.
6.2. Específicos
Reflectir sobre o grau de implementação e efectividade das normas que protegem os
interesses dos consumidores no ordenamento jurídico moçambicano.
Avaliar a adequação da Lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro ao contexto social
moçambicano.
Caracterizar o modo de operacionalização do comércio regido pela lei em causa.
Capitulo I
REFERENCIAL TEÓRICO
1.1 Evolução histórica do consumerismo
Existem evidências históricas que demonstram o quão longínquo é o fenómeno do movimento
“consumerista”. Relatos há que ilustram, por exemplo, o Código Hamurabi, já se previam
determinadas regras ainda que de forma não directa que se destinavam a proteger o consumidor.
À título exemplificativo, a lei n.º 233, preconizava que o arquitecto que construísse uma casa
cujas paredes se revelassem deficientes teria a obrigação de reconstruí-las ou de consolidá-las às
suas expensas. Na Índia, do século XIII a.C., o sagrado Código de Manu, prescrevia multa e
punição, além de ressarcimento de danos, àqueles que adulterassem géneros (Lei n.º 697), ou
entregassem de espécie inferior àquela acertada, ou vendessem bens de igual natureza a preços
diferentes (Lei n.º 698). Tal fenómeno, igualmente, sucedeu na Grécia antiga, em que se
vislumbrava nas Constituições de Atena, a preocupação ainda que latente da defesa dos
consumidores. Explicitava o sábio estagirita (Aristóteles) “são também designados por sorteio os
fiscais do mercado, cinco para o Pireu, cinco para as cidades; as leis atribuem-lhes encargos
atinentes as mercadorias em geral, a fim de que os produtos vendidos não sejam misturados e
nem adulterados. Todavia, no que se refere ao movimento “consumerista” com a consciência dos
interesses a serem defendidos e definindo as estratégias para protegê-los, se faz alusão ao
“movimento dos frigoríficos de Chicago. Em 1891, surge a “Consumer League ˮ, que evoluiu ao
que hoje é denominado “Consumer Union ˮ dos Estados Unidos. Entretanto, o marco histórico
do “consumerismo” e doutrinariamente indicado, deu-se em1962, nos Estados Unidos, com o
célebre discurso do presidente, John Kennedy, proferido no Congresso Norte-americano em que
enunciara a necessidade de protecção do consumidor, referiu como direitos básicos o direito à
segurança, o direito à informação, o direito à escolha e o direito de ser ouvido. A partir de então
a produção legislativa sobre essa matéria avolumou-se nos Estados Unidos. Em 1972, realizou-
se, em Estocolmo, a Conferência Mundial do Consumidor. Por conseguinte, o discurso do
presidente John Kennedy, inspirou, em 1985, a Organização das Nações Unidas, a aprovar a
resolução n.º 39/248, de 16 de Abril, que traçou as directrizes da necessidade de protecção dos
consumidores por entender que estes se encontram numa situação de desequilíbrio das suas
relações com os fornecedores, assim como, cuidou de regulamentar a matéria com vista a
garantir entre outros, os seguintes objectivos:
a) a protecção dos consumidores frente aos riscos a sua saúde e segurança;
b) a promoção e protecção dos interesses económicos dos consumidores;
c) o acesso dos consumidores a uma informação adequada que lhes permita fazer eleições bem
fundadas conforme os desejos e necessidades de cada qual;
d) a educação do consumidor; incluída a educação sobre a repercussão ambiental, social e
económica que temas eleições do consumidor;
e) a possibilidade de compensação efectiva ao c ao consumidor;
f) a liberdade de constituir grupos ou outras organizações pertinentes de consumidores e a
oportunidade para essas organizações de fazer ouvir as suas opiniões nos processos de decisões
que as afectem;
g) a promoção de modalidades sustentáveis de consumo.
Contudo, sublinha-se que o século XX, foi o século do iluminismo em matéria de defesa do
consumidor, pois, muitos Estados e organizações internacionais viram-se impelidos a
implementar normas que visassem mitigar o desequilíbrio existente no seio das relações de
consumo.
1.1.1 Fundamentos pré-constitucionais à constitucional de defesa do consumidor em
moçambique
Em Moçambique, não obstante, as Constituições de 1975 e 1990, não terem de forma expressa
consagrado ao texto constitucional normas que directamente protegessem ao consumidor, isso
não significou a inexistência de normas cujo escopo é defender os interesses do consumidor no
ordenamento jurídico moçambicano. Como ilustrativo, do que dissemos supra, temos a Lei n.º
5/82, de 9 de Junho 12 , cujas normas, previa a defesa do consumidor, respectivamente: o artigo
13 (Incumprimento de medidas em prejuízo da conservação de bens), punia todo aquele que por
inerência do cargo que ocupa não agisse no sentido de impedir a deterioração, alteração,
corrupção, inutilização ou perca de matérias-primas, produtos elaborados ou outros bens; o artigo
15 (Incumprimento de normas de segurança), punia todo aquele que não cumprisse com as
normas de seguranças destinadas a evitar o perigo da produção e disso resultar um prejuízo; o
artigo 22 (Defesa do escoamento), sancionava em casos de retardar, perturbar ou, por qualquer
forma, prejudicar o escoamento ou produtos, ou o correcto abastecimento das estruturas de
produção ou de comercialização; o artigo 24 (Desvio de produtos), punia todo o comerciante que
ao invés de revender os produtos a que tivesse obrigação os alienasse. Também, a Lei n.º 8/82,
de 23 de Junho cujo preâmbulo anuncia: “deste modo, há que regular e controlar o resultado das
actividades produtivas que possam influenciar negativamente o estado de saúde da população,
alertar e esclarecer produtores e consumidores e estabelecer medidas punitivas para as entidades
que, por ignorância ou deliberadamente, infrinjam as normas estabelecidas para a defesa da
saúde do nosso povo.” Repare-se, que o preâmbulo da referida lei, já mencionava naquela altura
a palavra - consumidor. Uma leitura rápida e atenta à lei (anteriormente citada), ilustra com
clareza que por exemplo, os n.ºs 1 e 2, do artigo 1, o legislador, cuida de definir e elencar o que
epigrafou como géneros alimentícios; no artigo2, n. º1, alíneas a) e b), diz-nos quais os tipos
legais do crime contra a saúde pública; no artigo3, estatuiu as respectivas sanções; nos artigos 7 e
8, respectivamente, o abate clandestino e abate de rezes impróprias para o consumo. Outros
exemplos ilustrativos, de leis que de alguma forma se destinavam a defender o consumidor são: a
Portaria n.º 11/78, de 14 Janeiro, que estatui aos estabelecimentos de fabrico, o uso de uma
caderneta para o controlo sanitário; o decreto n.º 12/82, de 23 de Junho, que em súmula indica a
necessidade de verificação das condições de higiene sanitária a ser observado na produção,
transporte, armazenamento de produtos alimentares; o diploma ministerial n.º 51/84, de 03 de
Outubro, regulamenta os requisitos a serem preenchidos pelos estabelecimentos alimentares; o
diploma ministerial n.º80/87, de 01 de Julho 14 , que regula o processo de importação de
produtos alimentares.
Contudo, o momento triunfal na seara de defesa do consumidor em Moçambique, deu-se com a
Constituição de 2004,quando se introduziu ao Capítulo V, Direitos e Deveres Económicos,
Sociais e Culturais, o artigo 92 , com a epígrafe: Direitos dos consumidores; no n.º 1, refere-se
aos direitos dos consumidores como sendo: direito à qualidade dos bens e serviços consumidos; à
formação e à informação, à protecção da saúde, da segurança dos seus interesses económicos,
bem como à reparação de danos; o n.º 2, trata da matéria atinente à publicidade, proibindo todas
as formas de publicidade oculta, indirecta ou enganosa; e, o n.º3, dedica-se às entidades públicas
e privadas de defesa dos consumidores, e o direito que essas entidades têm do apoio do Estado,
de serem ouvidas sobre as questões que digam respeito à defesa dos consumidores, e do
reconhecimento legal à legitimidade processual para a defesa dos seus associados. Parece, sem
sombra de dúvida ser na história do constitucionalismo moçambicano, a primeira vez que uma
Constituição, diga-se, Lei Mãe, de forma expressa, aberta, directa e, explícita, veio tratar da
matéria inerente à defesa dos consumidores em Moçambique. Destarte, constituindo um novo
direito que veio se juntar ao leque dos direitos fundamentais já existente no ordenamento jurídico
interno.
Ora, sendo o Estado Moçambicano, signatário e membro da FAO, OMC, OMS, cujas normas
internacionais validamente aprovadas e ratificadas, vigoram na ordem jurídica moçambicana,
exvis, do art. 18, n.º 1, CRM, não havia outro caminho se não o de conformar-se comas normas
internacionais em matéria da defesa do consumidor. As relações de consumo também se
alicerçam às práticas de publicidade, que muitas vezes influenciam e determinam na tomada de
decisão de consumir.
Foi por se reconhecer a relevância da publicidade no seio das relações de consumo que no
mesmo ano em que se aprovou a Constituição de 2004, outrossim, foi aprovado o
Decreton.º65/2004, de 31 de Dezembro 17 , do qual destacamos os seguintes princípios:
princípio da identificabilidade (art.6); publicidade oculta ou dissimulada (art.7); princípio da
veracidade(art. 8); publicidade enganosa (art.9); princípio do respeito pelos direitos do
consumidor (art.10); saúde e segurança do consumidor (art.11). Volvidos, cincos após a
aprovação da Constituiçãode2004, eis que, a Assembleia da República, aprovou a Lei n.º
22/2009, de 28 de Setembro, que instituiu em Moçambique um sistema de defesa do consumidor
em vista a salvaguardar os seus direitos. Sete anos após a aprovação da Lei n.º 22/2009, de 28 de
Setembro, o Conselho de Ministro cria o Decreto n.º 27/2016, de 18 de Julho, Regulamento da
Lei da Defesa do Consumidor. Com a aprovação da lei de defesa do consumidor em
Moçambique e do respectivo regulamento veio-se materializar e consolidar de forma especial o
previsto no artigo92 da Constituição da República, por conseguinte, concretizando-se um sistema
de defesado consumidor no ordenamento jurídico moçambicano.
1.2 Definição do Direito do Consumidor
O direito do consumidor, insere-se no pacote do designado, Novos Direitos. Inicialmente, houve,
na doutrina, a preocupação de saber se se podia empregar a expressão direito do consumo ou
direito do consumidor. Segundo, o Prof. MIRANDA, Jorge (2007) opta-se pela primeira,
objectiva, revelando no essencial, o acto de consumo. A segunda centra-se na figura do
consumidor, tendo um carácter essencialmente subjectivo. A conclusão dessa discussão foi de
que se podia adoptar indistintamente as duas expressões. Contudo, nós sufragamos a orientação
subjectivista, que se vinca na figura do consumidor. Dado que, fundamentalmente, o Direito do
Consumidor, ao estabelecer um conjunto de princípios e regras fá-lo em vista a proteger o sujeito
consumidor. Assim sendo, o direito do consumidor, define-se, como sendo o conjunto de
princípios e regras destinadas à protecção do consumidor. Desta definição, fica patente que a
expressão de realce, não é o consumo, percepcionado como tal, o objecto da tutela dos princípios
e regras que constituem este novo ramo de Direito, mas sim, o próprio consumidor.
1.2.1 Relação de Consumo
A lei n.º 22/2009, de 28 de Setembro, incide sobre as relações taxativamente consideradas de as
relações de consumo. Por relações de consumo, entende-se, as relações bilaterais em que num
polo temos o fornecedor que pode figurar como produtor, fabricante, importador, comerciante
prestador de serviços, ou então, aquele se dispõe a fornecer bens e serviços a terceiros; noutro
Polo, temos, o consumidor, aquele que se sujeita às condições impostas por titulares de bens ou
serviços no atendimento das suas necessidades de consumo. Ora, a relação de consumo é
instituída através de um acto de consumo, que nasce, quase sempre, na base de um contrato que
tem como partes integrantes o consumidor e o fornecedor. Por conseguinte, o contrato de
consumo consiste na convenção mediante a qual o consumidor adquire, para fins pessoais, bens
ou serviços oferecidos por empresários, e cujo âmbito é regulado pela lei de Defesa do
Consumidor.
O decreto-lei sobre o regime jurídico dos contratos comerciais, indica-nos duas classificações
contratuais possíveis: a) contratos de livre estipulação (n.º 1, artigo 24, conjugado como n.º 1,
artigo 405, do Código Civil), que são aqueles em que as partes têm a liberdade de celebração e
de estipulação; e, b) contrato de adesão, à luz do n.º 2, do artigo 24, da lei citada, consiste na
convenção cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas
unilateralmente por uma parte, sem que a outra possa contestar ou modificar substancialmente o
seu conteúdo. Nas relações de consumo, esta segunda classificação dos contratos (contratos de
adesão), são o protótipo. Quase sempre (senão sempre), o sujeito vulnerável (o consumidor) vê-
se na situação de sujeição face às imposições pré-estabelecidas pelo fornecedor. Sublinhamos,
que nem todos os contratos podem ser considerados ou tidos como de consumo. Pois, esses,
podem estar inseridos nas relações entre empresas. V.g., cessão de direitos autorais e da
constituição de associação, cooperativa ou sociedade civil. No nosso ordenamento jurídico,
pensamos que os contratos entre os particulares estão submetidos a três regimes jurídicos
distintos, nomeadamente: o civil, o comercial e o de consumo.
Ora, a lei de defesa do consumidor , define, os principais sujeitos da relação de consumo,
respectivamente, consumidor e fornecedor: Consumidor - Todo aquele a quem sejam fornecidos
bens, prestados serviços ou transmitidos quaisquer direitos, destinados ao uso não profissional,
ou tarifa, por pessoa que exerça com carácter profissional uma actividade económica que vise a
obtenção de benefícios; Fornecedores – Todas as pessoas singulares ou colectivas, publicas ou
privadas com carácter profissional (incluindo profissionais liberais), que habitualmente
desenvolvem actividades de produção, fabrico, importação, construção, distribuição ou
comercialização de bens ou serviços a consumidores, mediante a cobrança de um preço. Disto,
fica patenteado que no âmbito das relações de consumo, o consumidor e o fornecedor são os
sujeitos principais daquela relação jurídica de consumo. Sem os quais é quase que impensável
falar de relações de consumo nos termos em que se vem referindo.
1.2.2Tipos de consumidores
O processo de tomada de decisões indica que as pessoas solucionam os seus problemas através
de quatro funções: raciocínio, intuição, emoção e sensação. Considerando as circunstâncias, as
motivações, que caracterizam o consumidor tende a deixar-se influenciar ou levar por cada uma
das quatros funções acima descritas. Os consumidores do tipo racionais, são analíticos, exactos,
não valorizam suficientemente os aspectos emocionais. Estes, frequentemente são vistos como
insensíveis, duros e frios, o que não é necessariamente verdade. Os intuitivos, valorizam as
possibilidades existentes, tendem a encarar o quadro geral sem aprofundar questões de pormenor.
Este tipo de consumidor aprecia a novidade. Os emocionais, estes seguem as suas preferências e
antipatias. Por norma, seguem as sugestões dos especialistas desde que aparentem veracidade. Os
sensoriais, têm uma percepção muito correcta da realidade. Analisam detalhadamente os
pormenores através de um bom enquadramento no contexto. Contudo, apesar desses perfis, deve-
se sublinhar que os mesmos não são puritanos, podendo encontrar um pouco dos mesmos em em
cada um dos consumidores. Em Moçambique, esta situação sobre os perfis dos consumidores
torna-se cada vez mais difícil de determinar com exactidão. Pois, as condições sócios culturais,
económicas e a pobreza, aliada à baixa qualidade da educação (formal e informal), dificultam de
tal forma determinar os tipos dos consumidores acima referidos. Afirma-se, que pelo o facto do
grosso da população consumidora viver abaixo da linha da pobreza torna-se difícil determinar os
tipos de consumidores com base nas definições acima enunciada. Apesar disso, é possível
encontrar em Moçambique consumidores com algumas das qualidades acima elencadas.
1.3 Metodologia
O presente tema da pesquisa terá como método os seguintes: quanto ao método de abordagem
será indutivo, quanto ao método de procedimento será comparatístico, e quanto ao tipo de
pesquisa será qualitativa e quanto ao procedimento da pesquisa consistirá na revisão
bibliográfica. Justifica-se o recurso aos métodos acima referenciados pelo seguinte: quanto ao
método qualitativo o presente tema privilegiará a análise dos saberes e das práticas dos próprios
actores que actuam na área sobre o qual incide o tema; recorrer-se-á a técnica de entrevista e
questionários; quanto ao método comparatístico, neste trabalho investigativo se examinará a
legislação, a doutrina de outros países relativos ao tema em alusão, e a pesquisa bibliográfica
consistirá em embasar teoricamente a minha investigação .
1.4 Questões éticas
Neste projecto de monografia, as questões éticas, as questões éticas desempenharão um papel
importante, assegurando que a pesquisa seja conduzida de forma responsável e conformidade
com os princípios éticos e académicos. As medidas a serem tomadas incluem:
Consentimento do informado
Durante a coleta de dados, todos os participantes envolvidos serão informados sobre o objectivo
da pesquisa a fora como os dados serão utilizados e seu direito de desistir da participação a
qualquer momento sem sofrer quaisquer consequências. o consentimento será obtido por meio de
termo escrito.
Confidencialidade e anonimato
Para proteger a privacidade dos participantes, todos os dados pessoais serão tratados de forma
confidencial. Os nomes dos participantes ou informações que possam identifica-los não serão
divulgados.
Uso responsável de fontes
Todas as fontes de informação que serão utilizadas serão devidamente citadas, de acordo com as
normas académicas, garantindo a originalidade do trabalho e evitando plágio.
Imparcialidade e objectividade
A pesquisa será conduzida de forma imparcial, evitando preconceitos ou inclinações pessoais. As
análises e conclusões serão baseadas em fatos e na interpretação objetiva dos dados e da
legislação moçambicana.
Conformidade com as normas legais
A monografia será desenvolvida em conformidade com a legislação aplicável em moçambique,
incluindo normas relacionadas a proteção de dados e privacidade dos consumidores, assegurando
a legitimidade dos métodos utilizados.
1.5 Plano de exposição ou estrutura
Este trabalho está estruturado em introdução, desenvolvimento, conclusão e recomendações. Da
introdução fazem parte a contextualização, descrição do problema, justificativa, delimitação do
tema (no espaço e no tempo), hipóteses, objectivos (geral e específicos) e, o método. O
desenvolvimento está estruturado em dois capítulos. O capítulo um, dedica-se a indicar um
enunciado geral sobre o direito do consumidor, desde a sua evolução histórica, aos fundamentos
pré-constitucionais à constitucionais em Moçambique de defesa do consumidor,
1.6 CRONOGRAMA DE ACTIVIDADES
Actividade Descrição Novemb Dezemb Janei Feverei Març Abr
ro ro ro ro o il
[Link]ção do Delimitação do
Tema e tema, x
Objectivos objectivos e
hipóteses de
pesquisa.
[Link]ão Levantamento
Bibliográfica de fontes x
inicial principais:
livros, artigos,
legislações
relevantes.
[Link]ção de Estruturação do
Projecto projecto com
pesquisa introdução, x
metodologia, e
cronograma.
[Link]álise da Estudo
Legislação detalhado da
Nacional sobre Lei de Defesa x
Proteção do do Consumidor
Consumidor e outras
normativas.
5. Estudo de Análise de
casos e decisões x
jurisprudência judicias
relevantes e
jurisprudência.
[Link]álise Comparação
Comparativa(ou com outras
tros países) legislações de x
proteção ao
consumidor(Br
asil, Portugal).
[Link] Coleta de dados
s/Questionário(s com
e necessário) especialistas e x
consumidores
[Link]ção da Redação do
Primeira Versão conteúdo,
do Trabalho incluindo x
análise critics e
densevolviment
o de
argumentos.
[Link]ão e Releitura do
Correções Trabalho ,
ajustes de x
estrutura e
conteúdo.
[Link]ão Reunião com o
com Orientador orientador para
feedback e x
possiveis
ajustes.
11. Preparação e Elaboração de
Defesa apresentação e x x
ensaio para
defesa.
[Link]ão Entrega da x
Final e Defesa versão final do
trabalho e
defesa.
1.7 ORÇAMENTO
Categoria Descrição Quantidad Custo Custo
e unitário(MT) Total(MT)
Pesquisa Compra de 3 2.500 7.500
Bibliográfica Livros
relacionados
ao direito e
ordenamento
jurídico
moçambique
Consultas em Impressão de 100 páginas 10 1.000
Bibliográfica artigos e
s cópias de
legislação
relevantes
Consultas em Transporte 10 viagens 500 5.000
Bibliotecas para acesso a
bibliotecas
em Maputo
Entrevista Deslocamento 8 viagens 500 4.000
para
entrevistar
juristas e
consumidores
Gravação de Compra de 1 2.000 2.000
Dados gravador para
audio para
entrevistas
Comunicação Ligações para 20 50 1.000
agendamento chamadas
de entrevista
Redação Impressão de 50 páginas 10 500
rascunhos
para revisão
do orientador
Impressão Impressão e 3 cópias 1.500 4.500
Final encadernação
de 3 cópias
para defesa
Imprevistos Reserva para - - 2000
custos não
previstos
Total 27.50MT
1.8 REFERÊNCIA BILIOGRÁFICA
Doutrina
MIRANDA, Jorge, (2007), Manual de Direito Constitucional, Tomo IV, Direitos Fundamentais,
3ª Edição, Coimbra.
ALMEIDA, Carlos Ferreira de os Direitos dos Consumidores, Almedina, Coimbra. ALVES,
Carlos Teixeira, 2003, Satisfação do Consumidor, Escolar Editora, Lisboa.
GOUVEIA, Jorge Bacelar (2015), Direito Constitucional de Moçambique, IDiLP. MIRAGEM,
Bruno, 2016, Curso de Direito do Consumidor MIRAGEM, Bruno, 2020, Manual de Direito do
Consumidor, Thomson Reuters, Revista dos Tribunais,
Legislações
Nacionais
Decreto n.º 27/2016, de 18 de Julho, Regulamento da Lei de Defesa do Consumidor.
Decreto n.º 38/2016, de 31 de Agosto, Código de Publicidade
Diploma Ministerial n.º 73/82, de 23 de Junho,
Decreto n.º 15/2006, de 22 de Junho- Regulamento sobre os requisitos Higiênico-. Sanitários
Decreto n.º 81/2020, de 9 de Setembro- Regulamento interno do instituto do Instituto Nacional
de Normalização e Qualidade, IP -
Decreto n.º 19/2021, de 9 de Abril- Regulamento da Lei que cria o Sistema Nacional de
Qualidade, abreviadamente designado SINAQ
Decreto n.º 43/2017,
Lei n.º 1/2018, de 12 de Junho, Constituição da República de Moçambique
Lei n.º 22/2009, de 28 Setembro, Lei de Defesa do Consumidor.
Lei n.º 34/2014, de 31 de Dezembro- Lei do Direito à Informação em Moçambique.
Lei n.º 3/2022, de 10 de Fevereiro-Lei da Defesa, Preservação e Promoção da Saúde Pública.
Resolução n.º 2/2016, de 20 de Abril- Estatuto Orgânico do Ministério da Indústria e Comércio.
Estrangeiras
Codex Alimentarius, 5.ª Edição
Lei n.º 8.078, de 11 de Setembro de 1990, Edição 2020/2021