A HISTÓRIA E O CONTEXTO MUSICAL DA SANFONA NO NORDESTE DO BRASIL
Lucas Campelo do Nascimento[1]
EIXO TEMÁTICO: Pesquisa fora do contexto educacional
RESUMO: Esse artigo é um recorte da pesquisa de mestrado intitulada “Os processos de aprendizagem
musical de Dominguinhos na sua prática da sanfona” que está sendo desenvolvido na UFBA. O artigo tem
como objetivo fazer uma breve retrospectiva dos caminhos percorridos por esse instrumento, suas
características nas mais diversas culturas e essencialmente no nordeste brasileiro. É uma pesquisa
bibliografia cuja metodologia utilizará como instrumentos documentos referentes. Nas considerações finais
fica revelado a significação cultural da sanfona na musica e na história social de para o sanfoneiro do
nordeste.
Palavras-chave: História; Sanfona; Nordeste brasileiro
ABSTRCT: This article is part of a research master&39;s titled "The music learning processes in their
practice of Dominguinhos Concertina" which is being developed in UFBA. This article has the intention to
make a brief review of the paths taken by this instrument, its characteristics in various cultures it along
with the context of northeastern Brazil. It’s a research bibliografic and the metodologic utilizará como
instrumentos documentos referentes. In the concluding remarks it is evident the significacion the History
social the Accordion; Brazilian Northeast
Nas considerações finais fica revelado a significação cultural da sanfona na musica e na história social de
para o sanfoneiro do nordeste.
Key words: History; Accordion; Brazilian Northeast
INTRODUÇÃO
O artigo é um recorte da pesquisa de mestrado intitulada “Os processos de aprendizagem musical de
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Dominguinhos na sua prática da sanfona” que está sendo desenvolvida no mestrado de Educação Musical
na Universidade Federal da Bahia sob a orientação do Prof [Link] Sacramento de Almeida/UFBA.
Primeiramente para compreender a história da sanfona no nordeste brasileiro precisamos viajar no tempo
e descobrir quais foram os contexto em que esta se originou Sendo assim, este artigo tem como objetivo
fazer uma retrospectiva histórica dos caminhos percorrido na história da safona e suas características nas
mais diversas culturas.
É uma pesquisa bibliografia cuja metodologia utilizará como instrumentos documentos referentes que
substancie o tom da significação e importância para o nordestino. Para tanto o artigo está estruturado em
três dub-itens 1-As origens da sanfona que retrada seu movimento evolutivo. 2- As marcas de sanfona e
suas histórias, retratando a diversidade e valoração das suas marcas. 3- A chegada do acordeão no Brasil.
Que analisa seu movimento social no nordeste. ;4- A Sanfona para o Nordestino que dá relevância a
significação sócio afetiva da sanfona para o nordestino. 5- As considerações finais. Onde revelado a
significação cultural da sanfona na musica e na história social para o sanfoneiro do nordeste.
As origens da sanfona
Esse instrumento musical que chamamos de sanfona no nordeste do Brasil, de teclado e de palhetas
livres,[2] possui vários nomes por todo o mundo.[3] Observando o seu princípio de produção sonora
básico de palhetas livres, podemos traçar semelhanças e um parentesco, segundo Hermosa (2013), com o
primeiro instrumento musical detentor do mesmo principio sonoro chamado de órgão de boca do sudeste
da Ásia. Nesse caso, estamos apenas encontrando uma de suas vértebras centrais desse corpo que foi se
modificando, se estratificando, incorporando outros elementos no decorrer de seu caminho, e a depender
desses elementos e suas variantes é que nasceu essa família de instrumentos aerofones com duas seções
de teclas e ou botões e um fole no meio.
Na história desses instrumentos de boca, o que mais aparece ligado à origem da sanfona é o Tcheng,[4]
acredito que isso se deva porque esse foi o instrumento que mais obteve êxito ao chegar à Europa.
Segundo Hermosa (2013) o Tcheng é levado para Rússia ocidental pelos Tártaros, [5] e teria Marco Polo o
levado à Itália por volta do ano de 1300.[6] Nesse período, muitos tratados, pesquisas completas sobre o
Tcheng foram sendo desenvolvidas e trazidas da China[7] demonstrando assim o interesse e curiosidade
pelos mecanismos desse instrumento. Desse modo, observando esses experimentos e pesquisas sobre o
Tcheng, o Ocidente foi capaz de desenvolver uma estrutura par ao agrupamento de uma dúzia, até
centenas de palhetas em um pequeno instrumento portátil, o que demonstra uma verdadeira significação
para a história da sanfona.
No entanto, ainda não podemos dizer que até aqui já tínhamos uma sanfona, mas passamos a encontrar
uma estrutura onde as palhetas já podiam ser fixadas em algo. Nessa ocasião, é que em 1821, na
Alemanha Buschman[8] cria um Harmônica de mão ao conseguir construir uma estrutura onde palhetas
livre metálicas afinadas e fixadas numa placa formando uma escala, gerava som através do sopro. Nesse
momento ainda nos perguntamos onde estão o fole e os botões do acordeão
Em seis de maio de 1829,[9] Cyrus Demian patenteia um brinquedo com um fole entre duas caixas, onde
em uma dessas havia cinco chaves, ou botões, que quando pressionadas individualmente pelo executante
mais o ar gerado do fole, soava um acorde. Desse modo, surge o nome acordeão. Apesar de Demian ser
creditado pela invenção do acordeão, há indícios de que um instrumento com a mesma estrutura já existia
datado de 1820.[10]
No entanto, independente do verdadeiro surgimento do acordeão, é a partir do patenteamento de Demian
que esse instrumento não para mais de evoluir e de se modificar até aproximadamente 1959, quando
surge o sistema conversor. Dentre o surgimento dos registros[11] ao sistema conversor do acordeão final
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em 1959 realizado por Vittorio Mancini, e é desse modo que a titulação e crédito por cada modificação e
ou surgimento de um novo acordeão foi sendo realizado por cada novo inventor criando e recriando.
As marcas de sanfona e suas histórias
Na construção do acordeão existe uma hierarquia em relação à qualidade e à capacidade de cada
instrumento, ou seja, apesar de todos serem de uma grande marca, existe aqueles modelos superiores e
inferiores. Sendo assim, chegamos a um entendimento para quando formos observar o nascimento das
marcas matrizes de sanfona. Outra característica importante é o nome de cada marca de sanfona, onde o
nome era herdado pelo sobrenome da família de seu inventor.
Como é o caso da marca alemã Hohner, onde, no sul da Alemanha, o seu inventor e relojoeiro Matthias
Hohner inicia a produção de harmônicas e, logo depois, de acordeões. A marca Hohner até a atualidade é
uma marca conceituadíssima no mundo musical, além de ser muito prestigiada por vários instrumentistas.
Atualmente, possui um design dos mais arrojados dentre as marcas de acordeão.
Outras marcas que precisam ser comentadas e observadas são as oriundas da Itália. Dentre as mais
famosas estão a Victoria, Borsini, Zero Sette, Dallapé, Scandally, e Paolo Soprani. Esta última que possui
uma história que em muito retrata como se davam o encontro desses prováveis artesãos, marceneiros,
relojoeiros com esse instrumento trazido por transeuntes que passavam pelas suas casas no campo, onde
alguns se encantavam por aquela caixa sonora, muitas vezes ainda rudimentar e terminavam comprando
de alguma forma o instrumento, e depois deviam desmontar para estudar e conhecer seu funcionamento.
Além da cidade de Castelfidardo na Itália, também existiam outros centros de pequenas indústrias de
acordeões pelo mundo, dentre elas estão Paris (França), Klingenthal e Trosingen (Alemanha), Tula
(Rússia). O acordeão assim como a concertina[12] teve uma aceitação imediata, sendo que podemos
observar culturalmente a presença desses instrumentos nas áreas rurais de suas sociedades, participando
de festas populares e religiosas, servindo e compondo as trilhas sonoras do povo nas mais diversas
situações e nas composições de suas tradições. Também, é preciso destacar que a concertina fez muito
sucesso entre os marinheiros ingleses e da Grã-Bretanha em geral. Dessa aceitação generalizada podemos
destacar o auge da exportação de acordeões da Itália entre a década de 1950 e 1960, refletida no Brasil
pelo auge dos métodos de acordeão e ensino obrigatório nas escolas que infelizmente não duraram mais
de uma década.
A chegada do acordeão no Brasil
Apesar de termos a sanfona como um instrumento que em muito representa a cultura musical do país,
sendo no sul ou no nordeste, a única coisa que podemos dizer ser genuinamente nacional é a
representatividade musical criada pelos músicos brasileiros.
O Acordeão chega ao Brasil no século XIX pelos imigrantes, principalmente, italianos e alemães que ficam
concentrados em sua maioria nas regiões dos estados de Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul.
Quando observamos a colonização do sul do Brasil muito claramente podemos notar as influências
européias na cultura nacional, onde encontramos inúmeras comunidades italianas, alemãs, dentre outras.
Influências essas que modelam e inserem na brasilidade os costumes, as tradições no dia a dia dessas
nações estrangeiras e formam esse Brasil plural. Desse modo, as danças, os gêneros musicais também
entram e formam a cultura musical do local, além de seus instrumentos musicais passarem a ser os
instrumentos dessas populações que em determinado momento também vão criar sua identidade musical
se manifestando perante a sociedade.
Já no nordeste brasileiro, há indícios históricos e culturais que apontam para outros caminhos. Na história
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do Brasil, o processo de povoamento do interior do nordeste, principalmente a região do sertão, tem
predominância da presença portuguesa, emigração essa que foi realizada em diversos fluxos, e que na
segunda metade do século XIX até meados dos primórdios do século XX, eram da metade norte de
Portugal, onde o acordeão diatônico era extremamente popular. Podemos observar também outras
influências ibérico-mourísca na formação da cultura sertaneja como quando encontramos as violas, os
aboios, a rabeca, as formas vocais dos romances medievais, elementos do artesanato do barro, e as
cantigas de romarias que em Portugal são chamadas de benditos.
Além das influências culturais herdadas dos colonizadores, quando a sanfona chega ao nordeste ela sofre
um grande modificação em sua afinação, o que diferencia completamente a cultura musical nordestina
quando comparada a do sul. Enquanto no sul a afinação se deu por escalas diatônicas, no nordeste a
afinação se deu por escalas cromáticas, o que gerou uma maior diversificação melódica, permitindo a
execução de músicas com melodias e harmonias mais complexas, como por exemplo, o choro. Devido a
esse cromatismo herdado dos afinadores informais, que faziam ajustes dos materiais, promovendo
adaptações e que desenvolveram uma competência não formal para afinar e consertar seus foles. De outro
modo, observamos que no Sul e Sudeste:
a sanfona chegou por mãos de imigrantes de nações que detinham a tecnologia
de fabricação do instrumento...Alguns Luthiers emigraram para o país trazendo
esse conhecimento e iniciaram a fabricação no Brasil, concentrada no Sul e no
sudeste, seguindo os padrões estabelecidos na Europa. (SESC 2011)
A Sanfona para o Nordestino
Podemos afirmar que a sanfona faz parte do nordestino, assim como a rachadura do chão vermelho
castigado pela seca de dentro da vegetação acinzentada pela falta de água, que de verde só tem o brilho
da algaroba, transforma-se em uma só coisa com esse chão. Do mesmo modo que em outras culturas a
sanfona tem um papel social e se faz presente na tradição musical, nos momentos mais diversos do
cotidiano do nordestino, como nos afirma Sulamita (2006):
Nessa tradição, tais homens (sanfoneiros) desempenham relevante papel,
animando, sobretudo em contextos rurais, mas também na cidade, festas de
casamento, batizado, aniversário de alguém ou alguma instituição, e, nos tempos
atuais, as “festas dos idosos”, além de outras, cujo móvel é sempre a vontade de
alegrar, de brincar.
A sanfona é um instrumento do povo, historicamente é a sanfona que embala a dureza daquele pequeno
agricultor que parece absorver, em sua maioria das vezes, uma grande dificuldade financeira, as
dificuldades do sertão, somatizando pelas altas temperaturas do sol e quando se encontra com a sanfona,
respira aliviado.
Dentro de toda essa história existe um personagem, uma entidade que foi o maior responsável pela
divulgação, exaltação e valorização da sanfona no cenário brasileiro, o rei do baião, Luiz Gonzaga. Falar de
sanfona e não falar de Luiz Gonzaga é falar das estrelas sem falar do universo. Este foi o artista, cantor,
sanfoneiro, ator, compositor que mais valorizou e enalteceu suas origens, seu povo nordestino, carregando
uma sanfona no peito e seu gibão.[13] Em suas mais de 500 composições as principais temáticas eram o
homem, sua terra e sua luta. Foi um artista que ultrapassou quatro décadas de movimentos musicais onde
sempre sustentou a bandeira de seu estilo musical, que, aliás, inventou o baião, sempre se fortalecendo e
buscando a formação e construção da identidade de seu povo do sertão, brasileiro.
Sendo a sanfona o seu instrumento musical, seu instrumento de luta, sua manifestação cultural, criou,
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assim, a representatividade da sanfona no imaginário sertanejo onde esse instrumento fizesse parte de
toda essa teia de valores e significados.
CONCLUSÃO
A sanfona, o nordeste e a história se encontram, se cruzam e seguem adiante em seus caminhos. Dos
diferentes caminhos é revelado que primeiramente a sanfona nasce como acordeão, tendo suas origens na
Ásia nos órgãos de boca, chegando na Europa para desenvolver até se transformar nesse instrumento
orquestral que no nordeste do Brasil chamamos de sanfona. Ficando assim revelada sua evolução e
funcionalidade histórica nos diferentes contextos.
O estudo também deixa evidente a diversidade de valoração das marcas demonstrando que existe marcas
superiores e inferiores nos diferentes contextos registrados na história. Assim como fica evidente que
apesar da sua força sócio cultural ser no nordeste sua entrada no Brasil foi pelo sul e sudeste.
Sem duvida a história da sanfona se entrelaça no nordeste brasileiro com a história do grande sanfoneiro
Luis Gonzaga. o maior responsável pela divulgação, exaltação e valorização da sanfona no cenário
brasileiro, o rei do baião, Luiz Gonzaga.. Ele foi artista, cantor, sanfoneiro, ator, compositor que mais
valorizou e enalteceu suas origens, do povo nordestino.
[1] Graduado em Música pela Escola de Música da UFBA e Mestrando da Faculdade de Educação da UFBA.
[2] Instrumentos de palheta livre são instrumentos musicais aerofones, ou seja, cujo som é produzido
pela vibração de palhetas dentro de uma fresta. São instrumentos de palheta livre, o sheng, a gaita, o
acordeão, a concertina, o bandoneon, o harmônio, entre outros. _
[Link]
[3] No Brasil é chamado de Sanfona no nordeste e no sul de Gaita, Fisarmonica na Itália, Akkordium na
Alemanha, Accordeón na França, dentre alguns países.
[4] O Tcheng é um antigo instrumento chinês de palhetas livres, inventado acerca de 4700 anos. Era
uma espécie de órgão de boca cujo o formato lembrava um fênix, e era composto por uma cabaça que
funcionava como câmara de ar, onde em sua parte superior localizavam-se perfurações onde eram
fixados tubos de bambu dispostos em um feixe circular. SESC Pg.11
[5] HERMOSA, Gorka. The accordion in the century 19Th. Ed. Kattigara. 2013. Pg15
[6] Idem
[7] Idem
[8] A Sociedade da Corte de São Petersburgo, na Rússia, em meados de 1700, recebia escritos regulares
sobre o cheng do violinista e fabricante de instrumentos da Baviera Johann Wilde. Anos mais tarde, um
jesuíta francês, Jean Joseph Marie Amiot, voltou da China com um cheng e publicou, em 1779, o livro,
Mémoire sur la musique des Chinois, com descrição detalhada do instrumento. SESC.
[9] Christien Friedrich Ludwig Buschman
[10] Gorka hermosa 2013
[11] O sueco Fredrik Dillner possui um acordeão do pai Johannes Dillner datado de 1820 com o nome
do inventor registrado no corpo do instrumento: Friedrich Lohner. Datado e realizado pelo criador Jacob
Alexandre, em 1846 em Paris.
[12] Patenteada em 19 de junho de 1829 em Londres pelo físico inglês Charles Wheatstine(1802-1875),
a Concertina é um instrumento onde uma mesma tecla possui um mesmo som independente do sentido
do fole, se aberto ou fechado. A semelhança com o Bandoneon é somente estético e organológico.
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HERMOSA (2013)
[13] O gibão de couro é a roupa típica do vaqueiro nordestino utilizada para proteger-se quando
encontra-se em corrida nas matas tentando dominar um animal
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
SESC, Departamento Nacional. Sotaque do fole. Rio de Janeiro, 2011.
RUGERO, Leo. As Sanfonas de Oito Baixos e a música instrumental. Ensaio elaborado especialmente para
o projeto Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia, patrocinado pela Petrobras através da Lei Rouanet.
[Link]
VIEIRA, Sulamita. Velhos Sanfoneiros. Fortaleza: Museu do Ceará, Secretaria do Estado do Ceará, 2006.
HERMOSA, Gorka. The accordion in the century 19Th. Ed. Kattigara. 2013.
[Link]
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