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Agressão e o Modelo Pain-Aggression

O artigo discute a escassez de informações sobre agressão na Análise do Comportamento, destacando a importância do modelo 'pain-aggression' desenvolvido na década de 1960. Embora a pesquisa sobre agressão tenha avançado, seus achados raramente são incorporados em materiais didáticos, criando uma lacuna na formação de analistas do comportamento. O modelo 'pain-aggression' continua a influenciar a pesquisa psicofarmacológica, mas o debate sobre sua centralidade na compreensão da agressão permanece sem resolução.

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Agressão e o Modelo Pain-Aggression

O artigo discute a escassez de informações sobre agressão na Análise do Comportamento, destacando a importância do modelo 'pain-aggression' desenvolvido na década de 1960. Embora a pesquisa sobre agressão tenha avançado, seus achados raramente são incorporados em materiais didáticos, criando uma lacuna na formação de analistas do comportamento. O modelo 'pain-aggression' continua a influenciar a pesquisa psicofarmacológica, mas o debate sobre sua centralidade na compreensão da agressão permanece sem resolução.

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REVISTA BRASILEIRA DE ANÁLISE DO COMPORTAMENTO / BRAZILIAN JOURNAL OF BEHAVIOR ANALYSIS, 2016, Vol. 12, No. 1, 65-74.

AGRESSÃO E ANÁLISE DO COMPORTAMENTO: A HISTÓRIA DO MODELO DE “PAIN-AGGRESSION”

AGRESSION AND BEHAVIOR ANALYSIS: THE HISTORY OF "PAIN-AGGRESSION" MODEL

PEDRO FELIPE DOS REIS SOARES


MARCUS BENTES DE CARVALHO NETO

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ, BRASIL

RESUMO
Os principais manuais e obras conceituais de Análise do Comportamento (AC) trazem poucas informações sobre os
determinantes do comportamento agressivo. Ainda que a AC tenha produzido uma farta literatura de pesquisa básica sobre o
assunto, é rara a inclusão desses estudos em trabalhos didáticos e/ou de sistematização. A ausência de tais achados na
formação básica dos analistas do comportamento pode ocasionar uma lacuna perigosa para quem deveria ser capaz de lidar
com fenômenos comportamentais socialmente relevantes, como a violência. Os objetivos do presente trabalho foram
apresentar os resultados fundamentais produzidos pela literatura analítico-comportamental sobre agressão e indicar algumas
repercussões teórico-metodológicas na produção científica sobre o tema. Os experimentos de AC voltados à investigação
deste fenômeno examinaram diversas características da relação entre dor/estimulação aversiva e comportamento agressivo.
Essas investigações, desenvolvidas na década de 1960 por pesquisadores principalmente da área de controle aversivo,
culminaram em um modelo animal pioneiro no estudo experimental da agressão: o “pain-aggression”. Pesquisadores de
inclinação mais naturalística do comportamento agressivo questionaram o status desse modelo como central para a
compreensão da agressão. O debate entre vertentes não resultou em conciliação entre as perspectivas. Atualmente, o modelo
ainda repercute especialmente na pesquisa psicofarmacológica.
Palavras-chave: pain-aggression, comportamento agressivo, controle aversivo, história, análise do comportamento.

ABSTRACT
The main handbooks and conceptual works in Behavior Analysis (BA) provide little information on the determinants
of aggressive behavior. Even though BA has produced extensively on basic research about the subject, it is rare the inclusion
of those studies in didactic and/or systematization works. The absence of such findings in the basic training of behavior
analysts may lead to a dangerous gap for those who should be able to deal with socially relevant behavioral phenomena, such
as violence. The objectives of the present work were to present the main results produced by the behavior-analytic literature
about aggression and indicate some theoretical and methodological repercussions in the scientific production on the subject
matter. The BA experiments focused on the investigation of this phenomenon by examining many features of the relation
between pain/aversive stimulation and aggressive behavior. These investigations, mainly developed in the 1960s by
researchers in the area of aversive control of behavior, culminated in a pioneer animal model in the experimental study of
aggression: the “pain-aggression”. Researchers with a more naturalistic view of the aggressive behavior questioned the “pain-
aggression” status as a central model for the comprehension of the aggression. The debate between the different views did not
resulted in conciliation. Currently, the model still reverberates, especially in the psychopharmacological research.
Key words: pain-aggression, aggressive behavior, aversive control, history, behavior analysis.

_______________________
Trabalho financiado pelo CNPq com bolsa de mestrado ao primeiro autor e bolsa de produtividade em pesquisa ao segundo
autor. Endereço para correspondência: Rua Augusto Corrêa, 01, Cidade Universitária, Campus do Guamá, Núcleo de Teoria
e Pesquisa do Comportamento. Belém-PA, Brasil. CEP: 66075-110. E-mail: pedrofrsoares@[Link]

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P. F. R. SOARES, & M. B. CARVALHO NETO

A Análise do Comportamento (AC) apresenta, subprodutos da coerção; a reflexão sobre questões


desde cedo, interesse na investigação, compreensão e contemporâneas assume como fatos científicos a agressão
intervenção sobre fenômenos comportamentais básicos e induzida por punição e privação – presumivelmente com
complexos com algum impacto social visando à resolução base em alguns dos experimentos indicados, uma vez que
dos problemas humanos. Um desses problemas sociais nenhum estudo foi diretamente citado.
fundamentais seria a violência, em que a agressão é o Em manuais publicados nos anos 90, o tema da
elemento básico (Carvalho Neto, Alves, & Baptista, 2007). agressão permaneceu como subtópico do controle
No primeiro manual da disciplina, o “Principles of aversivo/extinção operante e sem a adição de referências
Psychology” (Keller & Schoenfeld, 1950), o novas. Em “Learning” (Catania, 1998), citando alguns dos
comportamento agressivo é caracterizado como um mesmos estudos dos anos 60 e 70, a agressão é discutida
subproduto emocional da extinção operante. Já em com brevidade na subseção sobre extinção operante e
“Science and Human Behavior” (Skinner, 1953), a também nas subseções sobre fuga e punição. No
agressão é abordada de forma um pouco mais ampla: é “Understanding Behaviorism: Behavior, Culture and
mencionada a conexão entre agressão e extinção operante e Evolution” (Baum, 2005) são discutidos possíveis valores
é debatido o controle do comportamento agressivo e seu evolutivos do comportamento agressivo e sua ocorrência
provável valor de sobrevivência. Trabalhos empíricos, frente à estimulação aversiva, mas nenhum trabalho
mesmo que filiados a outras tradições de pesquisa, não são experimental é citado.
citados em nenhum dos dois livros. Esses primeiros Se por um lado a relativa escassez de referências
manuais são pouco informativos quanto ao controle do aos experimentos sobre agressão em manuais clássicos dos
comportamento agressivo. anos 50, 60 e 70 parece refletir o caráter ainda recente de
Maior atenção foi conferida à agressão a partir da uma nova área de pesquisa, por outro, a manutenção dessa
década de 1960, com a condução de experimentos com tendência nos manuais contemporâneos, a partir dos anos
animais não-humanos nos quais a agressão deixou de ser 80, evidencia a baixa penetração dessa literatura nos livros
considerada mero efeito colateral da extinção e passou a adotados para prover a formação dos novos analistas do
ocupar o lugar de variável dependente a ser examinada em comportamento, por mais ampla e sistemática que tenha
condições controladas (e.g., Azrin, Hutchinson, & Hake, sido essa linha de investigação. Considerando que a
1966; Ulrich & Azrin, 1962). Os principais trabalhos de temática da violência e da agressão permanecem críticas
sistematização e teóricos da época passaram a descrever para qualquer teoria psicológica que se pretenda
essas investigações, conferindo algum suporte empírico ao socialmente relevante, existiria uma lacuna significativa no
tratamento da agressão. No “Principles of Behavior material usado na formação básica dos analistas
Analysis” (Millenson, 1967), a seção sobre comportamento comportamentais. O objetivo do presente artigo é sanar, ao
emocional contém uma descrição dos métodos e resultados menos parcialmente, essa lacuna, oferecendo uma
de uma investigação em que foi examinada a indução de apresentação didática dessa literatura quase esquecida e
agressão por extinção operante (Azrin et al., 1966). Em refletindo sobre o seu status atual.
“Contingencies of Reinforcement: A Theoretical Analysis”
(Skinner, 1969), ao abordar as interações entre “Pain-aggression”: Um modelo animal de agressão
contingências filogenéticas e ontogenéticas e o controle da Os poucos experimentos citados nos manuais de
agressão, são descritos os principais resultados de uma AC sobre comportamento agressivo compõem, em
pesquisa na qual a consequência para uma resposta conjunto com outras investigações, um aglomerado robusto
operante arbitrária consistia na apresentação de um objeto de estudos que delinearam um dos modelos animais mais
que poderia ser agredido; verificou-se que esta resposta tradicionais e influentes no estudo experimental da
operante ocorria em alta frequência quando o sujeito era agressão (Archer, 1989; Berkowitz, 1993; Blanchard &
submetido a choque elétrico, e com uma frequência Blanchard, 1977; Viken & Knutson, 1992): “pain-
reduzida na ausência do choque (Azrin, Hutchinson, & aggression” – algo como “agressão induzida por dor” ou
McLaughlin, 1965). “agressão induzida por estimulação aversiva”. O
Apesar da crescente produção experimental sobre procedimento básico consiste na apresentação de
agressão a partir dos anos 60, este avanço não foi estimulação aversiva não-contingente, geralmente choque
incorporado de maneira sistemática aos manuais e livros de elétrico, através do piso de uma câmara experimental a dois
divulgação de AC subsequentes. Por exemplo, no livro organismos, em geral ratos; o resultado frequente dessa
“About Behaviorism” (Skinner, 1974) a agressividade manipulação é a ocorrência de uma reação agressiva
ainda é um subtema da discussão a respeito do estereotipada entre os sujeitos experimentais, com alto grau
comportamento inato (territorialidade e autodefesa) e de consistência entre choque-agressão (Hutchinson, 1973;
nenhum experimento é citado. Ao final dos anos 80, o Ulrich, 1966; Ulrich & Azrin, 1962).
trabalho conceitual “Coercion and Its Fallout” (Sidman, Este modelo foi amplamente utilizado por
1989) aborda o comportamento agressivo em vários psicólogos experimentais e por pesquisadores vinculados a
contextos e com especial consideração na seção sobre outras disciplinas interessados em comportamento

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HISTÓRIA DO “PAIN-AGGRESSION”

agressivo, especialmente entre as décadas de 1960 e 1970 e sua frequência em 20 ocorrências por minuto eram
(Archer, 1989; Berkowitz, 1993; Soares & Goulart, 2015). parâmetros ótimos para a condução dos demais
Uma derivação do modelo, que acompanhou o crescimento experimentos reportados no trabalho.
das pesquisas sobre esquemas de reforçamento, assumia o Outro grupo de variáveis examinadas estava
caráter aversivo dos procedimentos de extinção operante relacionado à grade eletrificável do piso e o tamanho da
(para uma discussão recente sobre o tema, ver Bravin & caixa experimental. Ulrich e Azrin (1962) verificaram que
Gimenes, 2013) e programava a exposição de sujeitos a randomização das polaridades das barras da grade do piso
experimentais, pombos ou macacos-de-cheiro, a períodos aumentava o número de respostas de luta, pois assim os
alternados de reforçamento e extinção; este arranjo sujeitos pisavam com mais frequência sobre barras de
costumava induzir, sem qualquer aprendizagem prévia, polaridades diferentes e recebiam os choques; os autores
respostas agressivas em relação a outro animal ou ao também observaram que áreas menores do piso
ambiente inanimado, assim que o período de extinção era proporcionavam maior consistência das respostas de luta
iniciado (Azrin et al., 1966; Frederiksen & Peterson, 1977; por conta da maior proximidade entre sujeitos – um indício
Looney & Cohen, 1982). da natureza social do fenômeno. Ulrich e Azrin
Algumas vezes os achados relacionados ao “pain- adicionalmente manipularam especificações
aggression” tiveram sua generalidade ampliada e foram procedimentais como o intervalo entre sessões, os alvos da
considerados elementares para a compreensão do fenômeno reação agressiva e o número de sujeitos presentes na
agressivo também em humanos (Hutchinson, Pierce, Emley, câmara experimental. Diferenças nos intervalos entre
Proni, & Sauer, 1978; Renfrew & Hutchinson, 1983). Para sessões (10 minutos ou 24 horas) não afetaram o padrão de
avaliar a pertinência desta proposta, em termos de sua ocorrência de agressão segundo a frequência dos choques;
validade dentro e fora do contexto analítico-comportamental, não houve indução de agressão quando o outro rato do par
é preciso revisar alguns aspectos histórico-conceituais e foi substituído por uma boneca ou um rato morto (exceto
metodológicos de algumas dessas investigações quando este era movimentado externamente, o que induzia
experimentais. agressão); a reação agressiva ao choque foi observada
mesmo com até oito ratos presentes na câmara
A investigação-base do modelo: Ulrich e Azrin (1962) experimental.
Em 1962, Roger E. Ulrich e Nathan H. Azrin Além do choque elétrico, os autores
publicaram um estudo (Ulrich & Azrin, 1962) no Journal of experimentaram outras formas de estimulação. Um piso
the Experimental Analysis of Behavior (JEAB) contendo pré-resfriado e barulho intenso não foram eficazes para
uma série de experimentos nos quais examinaram alguns gerar respostas de luta, diferentemente de um piso pré-
determinantes da agressão induzida por dor (ou, como os aquecido e o choque por eletrodos em apenas um dos ratos
próprios autores definiram, “luta reflexa em resposta à do par. O grupo de variáveis pré-experimentais examinadas
estimulação aversiva”). Ao dispor dois ratos em uma câmara por Ulrich e Azrin (1962) foram a experiência prévia de
experimental com piso gradeado eletrificável e os expor a convívio entre os ratos, o sexo, a cepa e a própria espécie
choques periódicos incontroláveis nas patas, Ulrich e Azrin utilizada. Não foram verificadas diferenças na freqüência
observaram o engajamento dos sujeitos em um padrão de das respostas de luta comparando: ratos que haviam sido
reação cuja topografia estereotipada remetia à luta: os ratos alojados juntos ou não antes das sessões experimentais;
se erguiam sobre as patas traseiras, assumindo uma postura quatro cepas de ratos diferentes da utilizada nas outras
vertical, e atacavam um ao outro com as patas dianteiras e, avaliações; e sexo dos ratos. Hamsters foram pareados e
eventualmente, com mordidas. Esta reação ocorria apresentaram a luta em resposta ao choque, ao passo que
consistentemente após a aplicação do choque. porquinhos-da-Índia não a exibiram. Ulrich e Azrin,
Aproximadamente 100 ratos foram utilizados como finalmente, expuseram um par de ratos a aproximadamente
sujeitos de pesquisa ao longo dos experimentos relatados. 15.000 choques por um período de 7h30, com o objetivo de
Ulrich e Azrin (1962) examinaram as seguintes categorias de verificar a habituação da reação agressiva; os autores
variáveis: parâmetros dos choques, características do aparato relatam que nas primeiras horas as respostas de luta
experimental, variações nas especificações do procedimento, ocorreram consistentemente e nas últimas horas a relação
tipo de estímulo aversivo, variáveis pré-experimentais e choque-agressão foi menor que 40%.
fadiga do reflexo. Ao avaliar os parâmetros de intensidade e A consistência choque-agressão observada por
frequência, foi verificado que quanto mais frequente e Ulrich e Azrin (1962) os levaram a classificar a reação
intensa era a apresentação dos choques, mais claramente agressiva como um reflexo incondicional. Explicações
identificável era a reação de luta entre os sujeitos; entretanto, alternativas relacionadas ao possível caráter operante da
frequências quase contínuas e intensidades muito altas reação foram descartadas pelos autores com base,
resultavam em predominância de respostas de fuga da principalmente, na ausência de respostas de fuga em
câmara experimental, assim como frequências e intensidades contextos em que era possível emiti-las e na própria
baixas resultavam inconsistentemente em agressão. Ulrich e regularidade das respostas de luta desde a liberação do
Azrin observaram que a intensidade de 2mA para os choques primeiro choque. A partir do estabelecimento de um

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protocolo experimental fidedigno para a investigação de estabelecer uma predisposição para agredir: a exposição
um fenômeno cuja explicação era predominantemente inicial aos estímulos aversivos tornava a própria
restrita à abordagem etológica (e.g. Buss, 1961), a AC oportunidade para emissão da resposta agressiva de
passou a pesquisar o assunto. mordida um estímulo reforçador (Azrin, Hutchinson et
al., 1965).
Desenvolvimentos fundamentais Em paralelo aos esforços para cercar o fenômeno
Os primeiros trabalhos sequentes à investigação de com a identificação de suas variáveis elementares de
Ulrich e Azrin (1962), majoritariamente publicados no controle e obter dados com maior confiabilidade, um
JEAB, procuraram verificar a generalidade da agressão grupo de experimentações estabeleceu vínculos com a
induzida por estimulação aversiva e realizar variações nas literatura mais tradicional de controle aversivo. As
medidas utilizadas. O fenômeno agressivo de luta foi interações entre a resposta agressiva de luta gerada por
observado em macacos-de-cheiro (Azrin, Hutchinson, & choque elétrico e respostas de fuga/esquiva à esta
Hake, 1963) e em gatos (Ulrich, Wolff, & Azrin, 1964). estimulação foram avaliadas, inicialmente em ratos.
Outros estudos complementaram o trabalho inicial com a Verificou-se que o choque elétrico induzia respostas de
avaliação de parâmetros ainda não investigados luta de forma inconsistente quanto havia a possibilidade
previamente em pares de ratos: para maior consistência na de fugir e/ou esquivar-se dessa estimulação (Ulrich, 1967;
ocorrência da luta, a duração de 0,5s para o choque era um Ulrich & Craine, 1964; Ulrich, Stachnik, Brierton, &
valor ótimo (Azrin, Ulrich, Hutchinson, & Norman, 1964); Mabry, 1966). Uma avaliação mais pormenorizada dessas
fatores como maior idade, maior contato social prévio e interações revelou que a interferência de respostas de luta
maior histórico de indução de respostas agressivas foram (em ratos) e mordida (em macacos-de-cheiro) sobre a
diretamente relacionados a maiores frequências de aquisição de repertórios de fuga/esquiva dependia da
respostas de luta, assim como castração e isolamento pré- efetiva ocorrência do estímulo aversivo; para os casos em
experimental reduzia esta probabilidade (Hutchinson, que o choque era evitável, havia predominância das
Ulrich, & Azrin, 1965). respostas operantes (Azrin, Hutchinson, & Hake, 1967).
Com o desenvolvimento de um aparato para Uma terceira linha de investigação verificou a indução de
contenção de movimento e aplicação de choques elétricos respostas agressivas por meio de estímulos aversivos
diretamente na cauda de macacos-de-cheiro (Hake & condicionais previamente pareados com estímulos
Azrin, 1963), foi possível observar com mais precisão a aversivos incondicionais (Vernon & Ulrich, 1966, com
indução de respostas agressivas (mordidas) em um único ratos; posteriormente com macacos-de-cheiro em
sujeito por vez. Este refinamento metodológico, que seria Hutchinson, Renfrew, & Young, 1971).
implementado na maior parte das pesquisas posteriores Um segundo incremento no equipamento para
com macacos-de-cheiro, evitaria os severos danos físicos estudo de comportamento agressivo de morder em
tipicamente observados quando do pareamento e aplicação macacos-de-cheiro consistiu na adição de um tubo
de choque nesses animais (e.g., Azrin et al., 1963). É emborrachado que permitia a automação das medições de
importante observar que a medida comportamental de frequência, intensidade e duração de mordidas induzidas
agressão é sofisticada com a inclusão deste aparato: ainda por choque elétrico (Hutchinson, Azrin, & Hake, 1966).
preservando o critério topográfico da resposta agressiva, A efetivação do aparato propiciou o exame mais
esta agora deixa de ser observada como luta (o que envolve cuidadoso das características da resposta agressiva de
um agrupamento de diferentes respostas) e passa a ser morder (Azrin et al., 1967), assim como a verificação de
registrada especificamente como resposta de morder, em que tais respostas agressivas ocorrem com maior
macacos-de-cheiro. frequência nos segundos imediatamente após o choque e
O aperfeiçoamento no aspecto da automação do quando a intensidade e a duração do choque são maiores
aparato experimental permitiu a observação de indução de (Hutchinson, Azrin, & Renfrew, 1968). Buscando
comportamento agressivo também diante de objetos (bola aumentar o grau de confiabilidade das medidas, o mesmo
de tênis) (Azrin, Hake, & Hutchinson, 1965; Azrin, tipo de aparato experimental foi adaptado para a pesquisa
Hutchinson, & Sallery, 1964 1) – até então, era presumida a com ratos: houve individualização do sujeito
natureza social do fenômeno (Ulrich & Azrin, 1962). Tal experimental (semelhante ao realizado por Hake & Azrin,
equipamento foi utilizado também em um arranjo que 1963) e aplicação de choques incontroláveis diretamente
demonstrou que a estimulação aversiva inicial poderia na cauda, com um alvo à frente do focinho do animal,
apropriado para mordidas (Azrin, Rubin, & Hutchinson,
1968). A restrição de movimento também foi utilizada em
1
Nesse estudo, há dados nos dois experimentos mostrando que pesquisas sobre indução de respostas agressivas de bicar
apesar da resposta agressiva ter sido produzida inicialmente de por extinção operante (Azrin et al., 1966) e por esquemas
maneira eliciada pelo choque, o que acontece após a agressão, de reforçamento intermitentes, ambos em pombos –
como sua consequência, também modula a emissão de novas
porém, apenas o pombo-alvo era mantido imóvel. Para os
respostas agressivas, o que introduz um componente operante ao
fenômeno (Carvalho Neto, 1997). objetivos do presente trabalho, não serão detalhados os

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HISTÓRIA DO “PAIN-AGGRESSION”

experimentos envolvendo este último tipo de manipulação observada a menor variabilidade nas taxas de luta entre os
(para revisões abrangentes sobre o tema, ver Frederiksen ratos de alojamento individual, foram obtidas taxas
& Peterson, 1977; Looney & Cohen, 1982). equivalentes entre os grupos, em consonância com o
Um dos últimos conjuntos de investigações previamente reportado por Ulrich e Azrin (1962). Em
realizadas por este grupo de pesquisadores verificou que a contrapartida, Hutzell e Knutson (1972) e Creer (1975)
resposta de morder gerada por estimulação aversiva, em registraram diferenças significativas nas taxas de luta
macacos-de-cheiro, poderia ser suprimida por um comparando ratos alojados individualmente e alojados em
estímulo aversivo de mesma natureza e mais intenso, grupos de seis a oito ratos, corroborando os achados de
contingente à ocorrência da resposta agressiva induzida Hutchinson et al. (1965). Em conjunto, estes resultados,
(Ulrich, Wolfe, & Dulaney, 1969; Azrin, 1970). É ainda que diversos, sugeriram um possível efeito de
contemporânea a estas investigações a disseminação do padrões comportamentais pré-experimentais relacionados
interesse pelo modelo de “pain-aggression” para outros ao convívio de grupo em alojamento (i.e. relações de
laboratórios de pesquisa, vinculados inclusive a diferentes dominância e submissão) sobre a frequência de respostas
disciplinas científicas. Uma das explorações mais de luta, o que explicaria os desempenhos diferenciados.
importantes efetuadas por outros grupos de pesquisadores Estudos vinculados a uma compreensão mais
foi a avaliação detalhada da influência das relações naturalista da agressão investigaram em detalhes os
intraespecíficas de dominância-submissão entre os ratos efeitos desses padrões comportamentais. Kimbrell (1969),
pareados sobre as características do episódio de luta. Este com camundongos, verificou uma correlação positiva
aspecto atraiu a atenção tanto de investigadores mais entre a ocorrência de postura corporal verticalizada em
comprometidos com os preceitos analítico- resposta ao choque (um dos comportamentos envolvidos
comportamentais quanto de pesquisadores mais na luta induzida por estimulação aversiva) e o grau de
direcionados à etologia experimental. Um debate público dominância (definido pelo autor como o grau de controle
sobre a natureza do comportamento agressivo foi exercido por um roedor em relação a outro, quando
fomentado, então, entre as duas disciplinas, a partir da pareados em situação anterior de não-choque). Estes
avaliação de cada uma sobre a generalidade do pain- resultados foram replicados com maior rigor
aggression como um modelo animal amplo do metodológico em estudo posterior (Kimbrell & Chesler,
comportamento agressivo. 1971). Similarmente, a investigação de Reynierse (1971)
reportou a formação de relações de dominância e
Sobre a natureza do “Pain-aggression”: Agressão ou submissão (definidas também segundo critério
defesa? observacional) no próprio curso das sessões
Algumas investigações dedicadas ao exame dos experimentais. O desenvolvimento desses padrões sociais
efeitos de relações intraespecíficas prévias entre ratos gerou diferentes frequências de topografias de respostas
optaram por manipular as diferentes configurações de de luta: ratos dominantes apresentaram maior atividade
alojamento dos sujeitos experimentais, tomando por base comportamental geral em resposta ao choque (i.e. postura
as considerações conceituais e metodológicas da tradição vertical de luta, ameaça e agachamento) do que os ratos
de pesquisa desenvolvida por N. H. Azrin e colaboradores submissos. A evidência de que os roedores dominantes
no Anna State Hospital. Hutchinson et al. (1965) já emitiriam mais respostas de luta que os submissos poderia
haviam demonstrado a redução da probabilidade de explicar a variabilidade nas taxas de respostas de luta
emissão de respostas de luta na presença da estimulação obtida por outros estudos (e.g., Creer & Powell, 1971;
aversiva quando do alojamento individual de ratos e o Powell et al., 1969).
possível efeito de interações agressivas propiciadas pelo Além de demonstrar a influência das relações de
alojamento comunal, que aumentariam a taxa de respostas dominância e submissão sobre a frequência de respostas
de luta durante as sessões experimentais (diferentemente de luta, os estudos de Kimbrell (1969), Kimbrell e
do reportado por Ulrich & Azrin, 1962, com menor rigor Chesler (1971) e Reynierse (1971) ressaltaram que o
metodológico). Powell, Francis, Braman e Schneiderman detalhamento da topografia das respostas agressivas de
(1969) alojaram os ratos em duplas e observaram que luta geradas pelo choque elétrico era compatível com
alguns pares exibiram baixa frequência de luta em descrições etológicas de episódios de luta entre roedores
resposta ao choque, comparativamente a outros pares. A (e.g., Grant & Mackintosh, 1963), que atribuíam função
discrepância a respeito dos efeitos do alojamento de “defesa e ameaça” às respostas de luta envolvendo a
individual e comunal sobre a incidência de luta fomentou postura verticalizada. É importante frisar que, no contexto
o exame mais cuidadoso desta variável. da pesquisa etológica do comportamento agressivo, pelo
A hipótese de que diferentes alojamentos menos sete tipos de agressão eram identificados (Moyer,
levariam a diferentes desempenhos foi avaliada 1968) e agrupados em diferentes, mas eventualmente
diretamente comparando a frequência de luta em reação à sobrepostos, sistemas biológicos ofensivos e defensivos.
estimulação aversiva de ratos de alojamento individual e A luta induzida por estimulação aversiva poderia ser
alojamento em duplas (Creer & Powell, 1971): apesar de

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P. F. R. SOARES, & M. B. CARVALHO NETO

classificada como “agressão irritável”, de função o valor de sobrevivência de impedir que zonas do corpo
predominantemente defensiva. comumente atacadas por ratos dominantes (cabeça e
Segundo Grant e Mackintosh (1963), a postura costas) fossem atingidas.
verticalizada, os golpes com as patas dianteiras e as Com base principalmente nesses achados,
eventuais mordidas consistiam em respostas de Blanchard e Blanchard (1977) confirmaram que a luta
preponderância defensiva, observadas com mais induzida por dor/estimulação aversiva, em ratos, tratava-
frequência em roedores submissos, enquanto a se de uma reação biológica de defesa. Como suporte
aproximação lateral e as mordidas nas costas/flanco de adicional, Blanchard, Blanchard e Takahashi (1978,
outro roedor eram respostas de função agressivo-ofensiva, Experimento 1), empregando um delineamento do tipo A
características de roedores dominantes. De fato, Legrand (situação colônia) – B (agressão induzida por choque
e Fielder (1973) parearam camundongos dominantes e elétrico) - A, demonstraram que o padrão de respostas
submissos (definidos segundo observação prévia) e agressivas de ratos dominantes (e.g., ataque lateral) foi
verificaram, na situação de exposição ao choque, que os alterado na condição B para o mesmo tipo de respostas
dominantes emitiam mais respostas de morder do que de que ratos invasores exibiram em todas as condições (e.g.,
luta, enquanto os submissos apresentavam somente postura vertical e “freezing”).
respostas de luta, praticamente sem emitir respostas de A caracterização das respostas agressivas de luta
morder. Estes resultados apoiam a sugestão de Reynierse ao choque elétrico como defensivas foi questionada por
(1971) de que alguns estudos com roedores (e.g. Azrin et Hutchinson (1983). A argumentação principal foi a de que
al., 1968), ao equiparar respostas de morder às respostas as classificações de “dominância” e “submissão”
de luta, estariam tratando igualmente comportamentos observadas nas interações entre os ratos seriam derivadas
com função biológica distinta 2. de relações operantes estabelecidas na própria colônia:
A partir desses resultados, uma série de estudos ratos “dominantes”, usualmente os mais pesados,
etoexperimentais conduzidos por Robert J. Blanchard, D. adquiriam este status por conta da história de
Caroline Blanchard e colaboradores foram realizados com reforçamento de respostas agressivas por reforçadores
o objetivo de avaliar a pertinência da hipótese de que o primários contingentes (e.g., comida, água, contato
fenômeno agressivo acessado pelo modelo de “pain- sexual); ratos “submissos”, de constituição corporal
aggression”, em roedores, consistia apenas em uma modesta, em contrapartida, teriam suas respostas
parcela de um espectro mais complexo de agressão. Estes agressivas reduzidas pela intensa estimulação aversiva
pesquisadores efetuaram observações detalhadas das liberada pelos ratos “dominantes” e estariam limitados à
topografias agressivas exibidas por ratos dominantes, reações de fuga e esquiva. Segundo Hutchinson (1983),
residentes de colônias laboratoriais, e ratos invasores somente as atividades dos ratos dominantes seriam
durante o episódio agressivo, em um modelo denominado consideradas pelos Blanchards como essencialmente
“residente-invasor”. Blanchard, Fukunaga, Blanchard e agressivas, ao passo que os comportamentos dos ratos
Kelley (1975) observaram que ratos dominantes, quando invasores, por exclusão, seriam essencialmente
deparavam com ratos invasores, exibiam uma variedade defensivos. Assim, a diferenciação entre as classificações
de respostas agressivas: rolar sobre o invasor, persegui-lo, entre “dominante” e “submisso” em certo grau seria
mordê-lo e atacá-lo lateralmente; por sua vez, os ratos pouco informativa na descrição precisa do episódio
invasores apresentavam predominantemente a postura agressivo; a análise funcional em ambientes controlados
vertical, comumente tomada como medida de agressão em seria, segundo ele, uma alternativa mais adequada para o
pesquisas empregando o modelo de “pain-aggression”. estudo da agressão (Hutchinson, 1983; Renfrew &
Uma comparação de comportamentos agressivos exibidos Hutchinson, 1983).
por ratos durante a situação de colônia e a situação de A argumentação de Hutchinson (1983) foi
“pain-aggression” (Blanchard, Blanchard, & Takahashi, contestada por Blanchard e Blanchard (1984). Os
1977) revelou predomínio da postura vertical e pesquisadores replicaram que a interpretação de
agachamento nos ratos invasores e nos da situação de Hutchinson era pouco acurada a respeito do surgimento
indução; os ratos residentes exibiram categorias factual ou mesmo hipotético de padrões de dominância e
diferentes de comportamento agressivo, como ataque submissão. Na realidade, o estabelecimento dos diferentes
lateral, ereção dos pelos e mordidas. Adicionalmente, status seria o resultado da interinfluência de tendências
Blanchard, Blanchard, Takahashi e Kelley (1977) comportamentais majoritariamente pré-definidas pela
sugeriram que a postura vertical dos ratos invasores teria biologia dos organismos e aprendizagem ontogenética.
Além disso, Blanchard e Blanchard destacaram que as
2
classificações “dominante” e “submisso” possuíam um
Diante desta lógica, seria a crítica aplicável às investigações lastro científico que remetia a inúmeras áreas do
com macacos-de-cheiro, que consideravam comparáveis as
respostas de morder (e.g. Azrin, Hutchinson et al., 1964) às
conhecimento. Este suporte empírico havia levado os
respostas de luta (Azrin et al., 1963)? autores a investigar a existência e a estrutura
comportamental de sistemas biológicos de agressão, um

70
HISTÓRIA DO “PAIN-AGGRESSION”

ofensivo e outro defensivo. Blanchard e Blanchard, por Johnson, & Holbrook, 1981), época que coincide com o
fim, sugeriram que as críticas de Hutchinson poderiam ser maior número de publicações envolvendo o modelo de
desenvolvidas como um programa de pesquisa “pain-aggression”. Apesar disso, o trabalho de Azrin et
experimental, o que conferiria mais credibilidade às al. (1966), com pombos, permaneceu como referência
interpretações sobre as variáveis fundamentais envolvidas importante em discussões aplicadas sobre as propriedades
na agressão. indutoras de agressão de procedimentos envolvendo
Se, de um lado, a análise de Hutchinson (1983) extinção operante (e.g., Lerman & Vorndran, 2002).
careceu de precisão na descrição dos episódios agressivos Se por um lado a subárea aplicada da AC (AAC)
responsáveis por produzir padrões de dominância e não manteve um desejável intercâmbio com a subárea
submissão, a posição de Blanchard e Blanchard (1984) básica no que se refere à produção de conhecimento sobre
apelou para um internalismo biológico auto-evidente na agressão, o modelo experimental desenvolvido e
explicação da origem desses padrões. Os compromissos aprimorado nos laboratórios de AC foi adotado pela
conceituais elementares acerca da natureza do Psicofarmacologia Experimental como uma opção válida
comportamento agressivo impediram uma conciliação: para mensurar os efeitos de fármacos sobre respostas
Hutchinson era defensor do estudo controlado de um agressivas (Fard, Bahaeddini, Shomali, & Haghighi,
sistema unitário de agressão, ao passo que os Blanchards 2014; Miczek, 1987). Um modelo psicofarmacológico
eram adeptos de uma concepção naturalista e dualista do experimental para o estudo de agressão em humanos,
fenômeno. A literatura científica sobre agressão posterior denominado Point Subtraction Aggression Paradigm
ao debate (Archer, 1989; Miczek, 1987; Viken & (PSAP) (Cherek, 1981), apresenta, entre suas
Knutson, 1992) revela a coexistência das propostas no fundamentações empíricas, o modelo de “pain-
leque de técnicas experimentais para o estudo da aggression” (Miczek, 1987) e é relativamente bem-aceito
agressão, em especial na Psicofarmacologia na comunidade científica como um índice de mensuração
Experimental. em laboratório da agressividade humana (Geniole,
MacDonell, & McCormick, no prelo).
Análise do Comportamento, “pain-aggression” e O PSAP tem como procedimento elementar a
algumas repercussões exposição do participante a um computador com um
Apesar de alguns esforços em manter ativo o software que disponibiliza duas contingências: em uma
interesse da AC pela investigação dos determinantes delas, o participante P1 precisa pressionar uma tecla um
fundamentais da agressão induzida por estimulação número n de vezes para produzir pontos trocáveis por
aversiva (e.g., Hutchinson, 1977; Hutchinson et al., dinheiro; na outra contingência, um número n de pressões
1978), o tema, junto com toda produção sobre o controle a outra tecla retira pontos de um participante P2 (que está
aversivo, gradativamente foi reduzido a partir da década realizando a mesma tarefa simultaneamente em outro
de 1970 (Catania, 2008; Critchfield & Rasmussen, 2007; lugar, tendo P1 como par), contudo sem adicionar os
Lerman & Vorndran, 2002; Perone, 2003; Soares & pontos removidos ao seu próprio contador. É importante
Goulart, 2015; Todorov, 2001). O enfraquecimento desta sublinhar que P2 é fictício, portanto, a retirada de pontos
agenda de pesquisa, entretanto, não significou um de P1 por P2 consiste em uma manipulação do próprio
abandono do interesse da AC pelo comportamento procedimento, empregada para induzir P1 a remover
agressivo em geral. Investigações experimentais sobre pontos de P2 (resposta agressiva). A administração de
agressão em contextos aplicados, envolvendo substâncias como nicotina (Cherek, 1981) e álcool
especialmente crianças com atraso no desenvolvimento, (Dougherty, Cherek, & Bennett, 1996) é relacionada à
compuseram e compõem até hoje um amplo programa de variação na frequência das respostas agressivas.
pesquisa que se propõe a reduzir a incidência de Algumas vantagens em relação ao “pain-
“comportamentos-problema” a partir do emprego de aggression” distinguem o PSAP: acessa o comportamento
variadas soluções comportamentais (para uma revisão agressivo não mais por sua topografia (assim evitando os
desses trabalhos, ver Brosnan & Healy, 2011). problemas relacionados a uma análise meramente
Esta produção de conhecimento de caráter morfológica do comportamento), mas por sua função
tecnológico sobre o comportamento agressivo, entretanto, primeira de resultar em dano a um alvo (Renfrew, 1997);
guarda mais semelhanças metodológicas com a própria deixa de envolver a exposição dos sujeitos experimentais
literatura da Análise Aplicada do Comportamento – AAC a estimulação dolorosa (tanto a aplicada pelo pesquisador,
(ver Pelios, Morren, Tesch, & Axelrod, 1999) do que com quanto a desferida por um sujeito em relação a outro); e
os procedimentos e técnicas desenvolvidos pela pesquisa agrega em um mesmo contínuo de respostas a indução de
animal sobre agressão. O descompasso entre o agressão pela perda de pontos e o reforçamento operante
conhecimento básico e aplicado sobre comportamento deste responder pela retirada de pontos de outro
agressivo no contexto da AC caracterizou a interlocução participante. Estas diferenças tornam o PSAP um modelo
(ou a falta dela) entre esses campos de pesquisa durante que permite um exame mais complexo da agressão
as décadas de 1960 e 1970 (Poling, Picker, Grossett, Hall- induzida por estimulação aversiva em contextos humanos.

71
P. F. R. SOARES, & M. B. CARVALHO NETO

Azrin, N. H. (1970). Punishment of elicited aggression.


Considerações Finais Journal of the Experimental Analysis of Behavior,
Os experimentos envolvendo o modelo de “pain- 14(1), 7-10.
aggression” podem ser considerados contribuições Azrin, N. H., Hake, D. F., & Hutchinson, R. R. (1965).
relevantes no tratamento analítico-comportamental da Elicitation of aggression of aggression by a physical
agressão, a despeito de sua inclusão superficial e blow. Journal of the Experimental Analysis of
assistemática em manuais contemporâneos da disciplina. Behavior, 8(1), 55-58.
Como argumentado pela literatura em controle aversivo Azrin, N. H., Hutchinson, R. R., & Hake, D. F. (1963).
(e.g., Critchfield & Rasmussen, 2007; Lerman & Pain-induced fighting in the squirrel monkey. Journal
Vorndran, 2002; Todorov, 2001), a AC ainda precisa of the Experimental Analysis of Behavior, 6(4), 620.
explorar mais acuradamente os efeitos desse tipo de Azrin, N. H., Hutchinson, R. R., & Hake, D. F. (1966).
estimulação sobre o comportamento. Nesta tarefa, as Extinction-induced aggression. Journal of the
informações fornecidas pelo modelo de “pain- Experimental Analysis of Behavior, 9(3), 191-204.
aggression” sobre a aplicação não-contingente de Azrin, N. H., Hutchinson, R. R., & Hake, D. F. (1967).
estimulação aversiva podem ser úteis. Além disso, a Attack, avoidance, and escape reactions to aversive
relevância do conhecimento sobre “pain-aggression” shock. Journal of the Experimental Analysis of
também é demonstrada por seu uso corrente na Behavior, 10(2), 131-148.
Psicofarmacologia Experimental, o que denota alguma Azrin, N. H., Hutchinson, R. R., & McLaughlin, R.
penetração no âmbito do estudo científico do (1965). The opportunity for aggression as an operant
comportamento agressivo. reinforcer during aversive stimulation. Journal of the
Contudo, ainda é preciso considerar que uma Experimental Analysis of Behavior, 8(3), 171-180.
proposta analítico-comportamental da compreensão do Azrin, N. H., Hutchinson, R. R., & Sallery, R. D. (1964).
fenômeno agressivo precisa ir além de um conjunto Pain-aggression toward inanimate objects. Journal of
restrito de estudos empíricos alicerçados nos princípios the Experimental Analysis of Behavior, 7(3), 223-228.
da AC. Outros modelos experimentais, como o Azrin, N. H., Rubin, H. B., & Hutchinson, R. R. (1968).
“residente-invasor” dos Blanchards, compõem uma Biting attack by rats in response to aversive shock.
proposta científica complementar de estudo da agressão e Journal of the Experimental Analysis of Behavior,
oferecem informações importantes a respeito da natureza 11(5), 633-639.
do fenômeno. Uma extensão empírica da proposta Azrin, N. H, Ulrich, R. E., Hutchinson, R. R., & Norman,
interpretativa de Hutchinson (1983) pode ter lugar nesta D. G. (1964). Effect of shock duration on shock-
tarefa. Efeitos ainda pouco conhecidos de variáveis induced fighting. Journal of the Experimental Analysis
ambientais sobre a agressão também podem ser of Behavior, 7(1), 9-11.
examinados a partir do modelo PSAP, de notável Baum, W. M. (2005). Understanding behaviorism:
aceitação na Psicofarmacologia Experimental. Conforme Behavior, culture and evolution. Malden: Blackwell.
indicado por Virues-Ortega, Hurtado-Parrado, Cox e Pear Berkowitz, L. (1993). Pain and aggression: Some findings
(2014), a AC se encontra em um estágio promissor de and implications. Motivation and Emotion, 17(3), 277-
interação entre pesquisa básica e aplicada, facilitando 293.
uma produção integrada entre evidências experimentais e Blanchard, R. J., & Blanchard, D. C. (1977). Aggressive
perspectivas conceituais, rumo a uma teoria behavior in the rat. Behavioral Biology, 21(2), 197-
comportamental mais completa da agressão. 224.
Por fim, ao reapresentar os estudos fundamentais Blanchard, D. C., & Blanchard, R. J. (1984). Inadequacy
de “pain-aggression” e discutir algumas das implicações of pain-aggression hypothesis revealed in naturalistic
geradas pelas perspectivas conceituais e metodológicas settings. Aggressive Behavior, 10, 33-46.
adotadas, esperamos adicionar contribuições à formação Blanchard, R. J., Blanchard, D. C., & Takahashi, L. K.
básica em AC. As informações aqui reportadas podem (1977). Reflexive fighting in the albino rat:
auxiliar o analista do comportamento na reflexão crítica a Aggressive or defensive behavior? Aggressive
respeito do comportamento agressivo e de seus Behavior, 3, 145-155.
determinantes ambientais como elementos importantes do Blanchard, R. J., Blanchard, D. C., & Takahashi, L. K.
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