ARCHITECTON-Revista de Arquitetura e Urbanismo. ISSN 2236-6849, Vol. 7, Nº 11, 2022. p.
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O CEMITÉRIO DE SANTO AMARO (RECIFE/PE) E SEU POTENCIAL
TURÍSTICO: UM NOVO OLHAR
THE SANTO AMARO CEMETERY (RECIFE/PE) AND ITS TOURIST POTENTIAL: A
NEW LOOK
Winnie Emily Fellows1
Faculdade Damas da Instrução Cristã
Luciana Santiago Costa2
Faculdade Damas da Instrução Cristã
Daivson Silva do Nascimento3
Faculdade Damas da Instrução Cristã
Resumo
Uma pesquisa feita pelos autores em 2021 mostrou várias concepções de cemitério, sendo uma delas, o entendimento
de cemitérios como museus, considerando que guardam símbolos que expressam cultura, crenças e valores do passado
de vários grupos, obras de arte, que retratam momentos distintos da passagem do tempo e, celebridades sepultadas,
que dão identidades ilustres ao sepulcrário. Considerando o potencial do cemitério de Santo Amaro (Recife/PE), a
questão norteadora da pesquisa foi: como transformar o cemitério de Santo Amaro em local de visitação e rota turística,
valorizando suas obras e ampliando a sua sociabilidade? A hipótese adotada foi que a realização de ações para inserir
novos usos, pode valorizar o seu acervo e ampliar a sociabilidade e a visitação. Este artigo tem por objetivo apresentar
recortes da referida pesquisa, mostrando o referencial teórico que deu suporte ao desenvolvimento do trabalho, os
exemplos de cemitérios utilizados como destino de turismo cultural, e o resultado da consulta feita a representantes de
órgãos governamentais, funcionários do cemitério, estudantes e professores das mais diversas áreas. Por fim este artigo
apresenta os caminhos apontados pela pesquisa para tornar o cemitério de Santo Amaro mais visitado e atrativo,
valorizando suas obras e ampliando sua sociabilidade.
Palavras-chave
Cemitério. Musealização. Turismo cultural.
Abstract
A survey carried out by the authors in 2021 showed several conceptions of cemetery, one of them being the understanding of cemeteries as
museums, considering that they keep symbols that express culture, beliefs and values of the past of various groups, works of art, which depict
different moments of the passage of time and buried celebrities, who give illustrious identities to the sepulchral. Considering the potential of
the Santo Amaro cemetery (Recife/PE), the guiding question of the research was: how to transform the Santo Amaro cemetery into a place
of visitation and tourist route, valuing its works and expanding its sociability? The hypothesis adopted was that carrying out actions to
insert new uses can enhance its collection and increase sociability and visitation. This article aims to present excerpts from that research,
showing the theoretical framework that supported the development of the work, the examples of cemeteries used as a destination for cultural
tourism, and the result of the consultation made to representatives of government agencies, cemetery employees, students and professors from
different areas. Finally, this article presents the ways pointed out by the research to make the Santo Amaro cemetery more visited and
attractive, valuing its works and expanding its sociability.
Keywords
Cemetery. Musealization. Cultural tourism.
1 Arquiteta e Urbanista, Doutora em Desenvolvimento Urbano pelo MDU/UFPE (2009). Coordenadora e Professora
do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade DAMAS, Recife/PE. E-mail: [Link]@[Link]
2 Arquiteta e Urbanista, Doutora em Desenvolvimento Urbano pelo MDU/UFPE (2011). Professora do Curso de
Arquitetura e Urbanismo da Faculdade DAMAS, Recife/PE, entre 2010 e 2022. Professora da Faculdade ESUDA,
onde leciona na Graduação do curso de Arquitetura, desde 1996 até os dias atuais, e no curso de Design de Interiores
desde 2019 até os dias atuais. E-mail: lucianasc@[Link].
3 Arquiteto e urbanista pela Faculdade DAMAS (2021), Recife/PE. E-mail: daivson6b@[Link].
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1 INTRODUÇÃO
Cemitérios são lugares sagrados, que preservam as memórias dos falecidos, onde a
família encontra uma maneira de ficar mais próximo daqueles que perderam, e trazer de certa forma
um conforto (REIS e TRINDADE, 2018). Segundo o Conselho Nacional de Meio Ambiente
(CONAMA), cemitério é a área destinada a sepultamentos (BRASIL, 2003). Para Rodrigues e
Garcia (2017), é um lugar que se transforma em espaço no cotidiano com a participação de
empresas, funcionários, trabalhadores e visitantes que modificam seu ambiente diariamente.
Conforme Ariés (1977), com o passar do tempo o espaço destinado aos mortos
sofreu constante mudanças. Nos séculos XVIII e XIX, houve uma mudança dos sepultamentos
(de católicos), de dentro das igrejas e fora delas, nos seus adros, cemitérios ou catacumbas
(inumações “intramuros”), para cemitérios construídos longe desses locais (inumações
“extramuros”) sob os pressupostos das teorias higienistas pregadas pelas escolas de medicina
europeias, como as francesas, que defendiam desde o final do século XVIII a teoria de infecção do
ar atmosférico, interpretação que perdurou durante todo o século XIX.
Por volta da segunda metade do século XIX, as visitas aos cemitérios passaram a
ser cada vez mais frequentes e, com elas, o culto dos mortos tornava-se uma prática familiar. No
inicio do século XX se inicia uma maior apropriação nos cemitérios, sendo utilizados como um
lugar de sociabilidade e lazer (MOTTA, 2009).
Neste período, o gosto pelo túmulo de família passava a ser uma importante
referência para as elites urbanas, que logo se adaptaram aos novos padrões de uso e apropriação
dos cemitérios públicos. Depois de alguns anos de inaugurados, os cemitérios passaram a concorrer
entre si pela grandiosidade e luxo que suas construções tumulares eram capazes de exibir. Os
primeiros cemitérios brasileiros seguiram a assimilação dos artefatos tumulares ao gosto estrangei-
ro. Desta forma, os cemitérios podem ser considerados como verdadeiros museus a céu aberto,
que contêm grandes fontes de histórias, ricos acervos de artes e diversidade estilística. Através
deles, é possível acompanhar a evolução arquitetônica dos séculos passados e a opulência
econômica e política das cidades.
Entretanto, nos dias de hoje a grande maioria dos cemitérios vem perdendo o seu
significado como local de sociabilidade e encontros. Hoje, o cemitério, para a maioria das pessoas,
é um local de tristeza e morbidez, e associado aos adjetivos como medo e pavor, o que instiga o
imaginário popular a criar histórias e fantasias que se transformam em lendas (REIS e
TRINDADE, 2018)
Na cidade do Recife/PE, está localizado o cemitério Público Bom Jesus da
Redenção, popularmente conhecido como cemitério de Santo Amaro, localizado em bairro de
mesmo nome. É o primeiro cemitério público de Pernambuco. Foi construído em um contexto de
uma crise sanitária (febre amarela, 1849 – 1850). Sua inauguração data de 1° de março de 1851
(CASTRO, 2007).
É um dos mais importantes e originais cemitérios do Brasil. Nele, encontram-se
sepultados as mais variadas classes sociais, como escravos, barões e políticos, além de pessoas
vinculadas às irmandades religiosas e anônimas, tendo assim um espaço repleto de monumentos
marmóreos e sepulturas caiadas, distribuídos por áreas específicas. Retrata a sociedade
pernambucana do século XIX.
Para Silva (2017) o cemitério de Santo Amaro possui monumentos funerários que
são verdadeiras obras de arte, além de possuir vários mausoléus imponentes. Existe um processo
de musealização do cemitério em curso, incluído um documento que pede o seu tombamento
devido à importância deste espaço como repositório de obras de arte, sobretudo plásticas e de
arquitetura (TAVARES e BRAHM, 2018).
Nos dias de hoje, o cemitério é pouco utilizado socialmente. Existem poucas visitas
e, portanto, quase não existe sociabilidade. “Seria um ponto turístico do Recife, como acontece nas
diversas cidades da Europa e mesmo das Américas, mas, infelizmente, não é de visitação habitual
nem indicado por nenhum dos guias por nós consultados” (SILVA, 2017).
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Os cemitérios Père-Lachaise, em Paris, da Recoleta, em Buenos Aires, São João Batista,
no Rio de Janeiro e da Consolação, em São Paulo, podem ser vistos como exemplos de inclusão
em rota turística guiada e orientada.
No cemitério de Santo Amaro há um grande acervo que guarda a história da
sociedade pernambucana ao longo de dois séculos, e que pode ser catalogado a fim de entrar em
rota de passeio guiado como forma de socialização e integração cultural. A pesquisa teve por
justificativa a retomada das discussões sobre a inclusão do Cemitério de Santo Amaro em rota de
atração turística e eventos culturais, e na valorização ao patrimônio histórico contido entre seus
muros. Considerando o potencial do cemitério de Santo Amaro (Recife/PE), a questão norteadora
da pesquisa foi: como transformar o cemitério de Santo Amaro em local de visitação e rota turística,
valorizando suas obras e ampliando a sua sociabilidade? A hipótese adotada foi que a realização de
ações para inserir novos usos, pode valorizar o seu acervo e ampliar a sociabilidade e a visitação.
2 ORIGEM DOS CEMITÉRIOS NA EUROPA E NO BRASIL
Na antiguidade greco-romana, os mortos eram enterrados fora das cidades em vastos
espaços subterrâneos ou a beira das estradas. Uma fila de lápides e sepulturas ladeava estradas ao
recepcionar os viajantes que chegavam as cidades (Figura 01). Nesse momento, os costumes de
transcrever inscrições nas lápides e deixar flores sobre os túmulos, presente até os dias de hoje,
foram as primeiras formas de preservar e cultuar a memória do morto (MUMFORD, 1998).
Figura 01-Via Ápia. Principal estrada da Roma Antiga
Fonte: FORMENTIN, 2020
Após a sociedade receber a influência do Cristianismo, a aglomeração dos defuntos
passou a acontecer próximo aos lugares sagrados, como tumba de santos e templos religiosos. Isso
aconteceu devido à esperança do Juízo Final e ressurreição dos mortos (FARGETTE-VISSIÈRE,
2009). Assim foram iniciados enterros nos adros ou átrios que precediam a entrada principal das
igrejas, nos centros das cidades, sendo uma nova morada dos mortos em um estreito convívio com
os vivos, denominada de Campo-Santo.
Em plena Idade Média, os mortos passaram a lotar as dependências das igrejas e o
seu entorno, sendo a Igreja a primeira a preservar os túmulos. Segundo Araújo (2006), foi quando
surgiram os cemitérios propriamente ditos, onde se enterravam os mortos de categoria dentro das
Igrejas, e os pobres nos adros, tudo nos limites paroquiais, definindo-se um espaço sagrado. Nas
cidades medievais, os cemitérios se formavam dentro e próximo as Igrejas e tinham o poder de
atrair muitas pessoas. Por isso, a última morada representava muito mais que uma necrópole.
Em 1776, na França, como conta Pacheco (2000), uma ordem de Luíz XVI interdita
os sepultamentos nas igrejas, mosteiros, conventos e capelas particulares, com exceção dos corpos
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das entidades eclesiásticas. O édito foi baseado em campanhas médicas sucessivas contra os
enterramentos nas igrejas, que se apoiavam em relatos sobre pessoas que morreram por se expor a
vapores maléficos oriundos de cadáveres carcomidos. Acreditava-se que a matéria orgânica animal
em decomposição, sob influência da temperatura, umidade e ventos, formava vapores ou miasmas
nocivos à saúde.
No Brasil, a prática de sepultamento nas igrejas e nos seus entornos foi trazida pelos
portugueses (Figuras 02 e 03). Os cemitérios fora da Igreja só surgiram no início do século XIX,
quando os médicos, influenciados pelas ideias higienistas europeias, começam a intervir nos setores
da saúde pública. As orientações higienistas recomendavam a localização das necrópoles longe das
cidades, em terrenos arejados e longe de fontes d’água. Em 28 de outubro de 1828, foi promulgada
lei imperial que trazia recomendações às câmaras para que elaborassem posturas relativas ao
estabelecimento de cemitérios fora dos recintos dos templos (ARAÚJO, 2006).
Figura 02 – Capela e cemitério de Nossa Senhora Figura 03 - Igreja de São Pedro dos
do Rosário. Caeté/MG Clérigos, Recife/PE
Fonte: TRIPADVISOR, 2013 Fonte: Pedro Valadares, 2009
Já no século XXI, há uma variação nos tipos de cemitério, sendo horizontais - os do
tipo tradicionais e parque ou jardim - e verticais. Cada um atende uma determinada crença e cultura
e conta a história daquela sociedade, que se preocupa com os mortos e com uma forma de se
manter a memória e o respeito (Figuras 04 e 05).
Figura 05 – Cemitério Jardim das Palmeiras, Campo
Figura 04 – Cemitério vertical no cemitério de Santo Grande/MS
Amaro, Recife/PE
Fonte: autores, 2021 Fonte: SIQUEIRA, 2020
3 REFERENCIAIS DE CEMITÉRIOS COM POTENCIAL TURÍSTICO
Os cemitérios como conhecemos hoje fazem parte do contexto urbano das cidades
mais populosas ao redor do planeta. Estas cidades dispõem de um rico atrativo turístico e cultural
que despertam interesses particulares e coletivos. Desta forma, viajantes atravessam oceanos e
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continentes para admirar o que certa localidade revela de sua cultura. Os cemitérios oitocentistas
tradicionais atraem olhares curiosos de quem pretende contemplar seu acervo artístico sempre
impressionista, sua arquitetura tumular - que retrata a opulência econômica de seu protegido, onde
pode se ver o que se praticava à época - e até desfrutar das histórias contadas empiricamente através
de seus moradores mais célebres.
3.1 Cemitério Père-Lachaise, Paris, França.
É o cemitério mais antigo de Paris. Seu terreno, no leste de Paris, era uma grande área
verde que pertencia a igreja. Foi construído em 1803, por ordem de Napoleão Bonaparte e
inaugurado em 21 de maio de 1804. A concepção do Père-Lachaise foi
do arquiteto neoclássico Alexandre-Théodore Brongniart. Ao longo das alamedas verdes entre
jardins e arborização preservada, os visitantes podem se deparar com uma arquitetura tumular
muito expressiva. Existem túmulos de homens e mulheres que marcaram a história da França e do
mundo, sendo esse um dos principais atrativos do cemitério. São políticos, escritores, atores,
cantores e cientistas notáveis de todas as épocas que repousam no Père-Lachaise, como o casal
Abelardo e Heloísa (Figura 06), o compositor e pianista Fredéric Chopin, o escritor Oscar Wilde
(Figura 07), o ex-presidente Félix Faure e o túmulo mais visitado, do ex-vocalista da banda de rock
The Doors, o cantor Jim Morrison (Figura 08).
Figura 06 – Capela Figura 07 – Túmulo de Oscar Wilde Figura 08 – Túmulo de Jim Morrison
de Abelardo e
Heloisa
Fonte: INFORZATO, 2014
3.2 Cemitério Recoleta, Buenos Aires, Argentina.
O cemitério da Recoleta foi inaugurado em 1822. Surgiu a partir das influências do que
ocorria na Europa e baseado no cemitério parisiense, em um terreno em Buenos Aires, onde existia
o jardim da Basílica de Nossa Senhora do Pilar, que fora construído pelos monges da Ordem dos
Recoletos em 1732. É o primeiro cemitério público da cidade, com enorme importância cultural
para os argentinos.
A partir da segunda metade do século XIX, em decorrência da imigração, registrou-se
um crescimento demográfico da cidade de Buenos Aires, [...]. Disso resultou um processo
de modernização, do qual é exemplo a inauguração, em 1870, da avenida que dá acesso
ao Cemitério da Recoleta. Em decorrência dessas intervenções, verificou-se uma
valorização do bairro, considerado até hoje um reduto da elite portenha [...]. Iniciou-se,
assim o período áureo do cemitério [...]. (BORGES, 2003, p.2 apud NOGUEIRA, 2013,
p. 38).
O principal motivo da sua visitação é a arquitetura tumular. Tamanha a quantidade de
obras de arte e decoração das imponentes tumbas que ali estão presentes, este cemitério é um
exemplo de museu a céu aberto. Recentemente se destacou pela Architectural Digest como um dos
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cemitérios de arquitetura mais interessante do mundo. Celebridades também são motivos de
atração no Recoleta. O túmulo mais visitado é o de Eva Duarte Perón, que foi primeira dama do
ex-presidente Juan Domingo Perón. Além de Evita, descansam na necrópole 25 ex-presidentes do
país, esportistas e escritores como Adolfo Bioy Casares, entre outras personalidades. (Figuras 09
e 10).
Figura 09 – Túmulo de Evita Perón Figura 10 – Vista interior de uma das ruas do
cemitério
Fonte: Guia Melhores Destinos, 2018
3.3 Cemitério São João Batista, Rio de Janeiro, Brasil.
O Cemitério São João Batista foi inaugurado em 1852 por D. Pedro II, sob administração
da Santa Casa de Misericórdia, cujo objetivo era melhorar as condições de salubridade do Rio de Janeiro,
após um surto de febre amarela em 1849. Antes de se tornar um cemitério, a área do São João Batista
era uma chácara, que foi comprada pelo governo imperial (NOGUEIRA, 2013). É um dos cemitérios
mais visitados do Brasil devido ao seu número de túmulos e obras de arte, em uma diversidade
arquitetônica e um longo nicho de histórias.
Outro forte atrativo são os artistas, políticos e celebridades que lá descansam
eternamente, semelhante ao que acontece nos mais famosos cemitérios do mundo. No São João
Batista, estão sepultados diversas personalidades da Literatura como José de Alencar e Vinícius de
Moraes, da Música como Clara Nunes, Cazuza, Carmem Miranda e Tom Jobim, ali também é
possível observar os túmulos de Cândido Portinari, Santos Dumont, Chacrinha e de nove ex-
presidentes da República, entre outros. (Figuras 11 a 13).
Figura 11 – Túmulo de Figura 12 – Túmulo de Figura 13 – Visita guiada apresentando os
Carmem Miranda Santos Dumont mais ilustres túmulos
Fonte: RIO PAX, 2021
3.4 Cemitério da Consolação, São Paulo, Brasil.
Foi inaugurado oficialmente em 15 de agosto de 1858 em consequência a lei que
obrigava as Câmaras Municipais a construírem cemitérios a céu aberto. O objetivo inicial do
cemitério foi de garantir salubridade, pois até o momento, os enterros ainda eram realizados nas
regiões centrais da cidade, dentro e em torno das igrejas. Com a demanda de uma paulista burguesa
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e após a construção de novas necrópoles na cidade, o local passou a abrigar obras de arte de
escultores famosos para memorar as famílias ricas.
De acordo com Nogueira (2013), o cemitério da Consolação é a necrópole nacional
mais bem estruturada para atrativo turístico. Nele, é possível observar grandes obras de arquitetura
tumular como o “Grande Anjo”, de Brecheret, a “Prece”, de Bruno Giorgi, e “Último Adeus” de
Alfredo Olinani (Figuras 14 e 15), entre outros.
Figura 14 – Último Adeus, de Alfredo Olinani Figura 15 – Prece dos anjos em torno de
Cristo, de Francisco Leopoldo e Silva
Fonte: FORTUNATO, 2010
Fonte: ROVIELO, 2018
Ao caminhar nas ruas e alamedas deste Campo-Santo, entre os jazigos ali presentes, é
possível visitar diversas personalidades, como a Marquesa de Santos e o Barão de Itapetininga; as
figuras dos presidentes Washington Luís e Prudente de Moraes; ou apreciar algumas celebridades
que marcaram a Belle Époque, como Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e
Monteiro Lobato. Há uma riqueza artística e histórica (OSMAN e RIBEIRO, 2007).
4 O CEMITÉRIO DE SANTO AMARO, RECIFE/PE
No Recife, as discussões parlamentares sobre a higienização dos sepultamentos
iniciaram-se em outubro de 1840, no governo de Francisco do Rêgo Barros, levando menos de um
ano para criação da lei n°. 91, de 07 de maio de 1841, que proibia as inumações nas igrejas e em
seus adros e orientava as novas práticas e formas. Porém, a lei n°. 91/1841 foi ignorada por quase
10 anos, continuando os sepultamentos nas igrejas a serem tolerados. Nenhuma gestão se
prontificou em disponibilizar recursos para a construção de um cemitério público, pois não
promovia o embelezamento da cidade (CASTRO, 2007).
Em 1842, foi formada uma comissão encarregada para preparar um plano para
construção de um cemitério. Esta comissão composta, sobretudo pelo engenheiro Louis Lèger
Vauthier, iniciou os estudos sobre a área que deveria ser utilizada para a construção do cemitério.
O projeto foi concluído em 1843 e o local escolhido foi o centro do bairro de Santo Amaro
(CASTRO, 2007).
Diante do entrave político à obtenção de recursos para as obras do cemitério, os
estudos foram deixados de lado, pois a obra sanitária não era vista como prioridade. Até meados
de 1847 as preferências eram por obras de embelezamento da cidade, como a construção do teatro
de Santa Izabel. Com a chegada da epidemia de febre amarela em 1849 e o aumento considerável
no número de mortes, a construção do cemitério viria a ser considerada obra de máxima urgência.
O Sr. Francisco do Rêgo Barros já não era mais o presidente da província e o então novo presidente,
Honório Hermeto Carneiro Leão, nomeou o Sr. José Mamede Alves Ferreira engenheiro chefe das
obras públicas, substituindo Vauthier que não mais prestava serviços a Pernambuco. A nova
comissão reproduziu com pequenas alterações a execução do projeto inicial. Essa troca na chefia
gerou divergências na história pernambucana sobre qual engenheiro teria sido o idealizador do
Cemitério (CASTRO, 2007). Em 01 de março de 1851, o Cemitério de Santo Amaro foi inaugurado
(TAVARES e BRAHM, 2018). (Figura 16).
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O traçado arquitetônico adotado para o cemitério foi quadrangular (Figura 17), talvez
por influência dos cemitérios franceses (não defendida por Vauthier, pois segundo ele, a forma
circular seria mais econômica, bela e funcional). Suas alamedas e alíneas radiais convergem para a
capela central, formando quadras que dividem o cemitério em 4 setores e facilita a localização das
sepulturas. Um muro cerca a necrópole e tem construído uma vala ao redor dele para escoamento
das águas das chuvas (CASTRO, 2007).
Figura 16 – Vista da entrada do Cemitério de Santo Amaro-1859 Figura 17 - Traçado do
cemitério de Santo Amaro
Fonte: COSTA e CASTRO, 2015
Sendo um dos mais importantes cemitérios oitocentistas do Brasil, o cemitério de
Santo Amaro torna-se referência museológica por retratar a sociedade pernambucana do século
XIX. Ali estão sepultadas diversas personalidades de todas as classes sociais, desde os tempos do
Império. São barões, escravos, políticos, novos ricos e pessoas vinculadas às irmandades religiosas
e anônimas. Dos séculos XX e XXI, as personalidades são políticos, artistas e músicos. Jazigos
suntuosos, dignos de apreciação, exibem o desejo de pessoas que não queriam ser enterradas em
valas comuns, nem esquecidas com o passar do tempo e são guardadas por símbolos e figuras de
anjos que os velam (TAVARES e BRAHM, 2018).
Ao chegar ao cemitério de Santo Amaro por sua entrada principal, o visitante se depara
com seu gradil de ferro desenhado e produzido pela Casa de Fundição “Cristóvão Starr & Cia”,
encomendado pela Câmara Municipal do Recife na segunda metade de 1850, mas instalado após a
inauguração da necrópole. Sobre os pilares, figuras de anjos clamando aos céus recebem quem
chega ao sítio. (Figura 18). Pode ser visto na entrada principal do cemitério, uma placa indicativa
com o mapa de localização, com identificação dos setores, quadras, blocos, ruas e alamedas, para
fins de facilitar o acesso aos visitantes. O totem mostra os 4 setores e 44 quadras, numerando as
personalidades mais célebres que descansam neste Campo-Santo. Em seus 14 hectares e meio é
possível verificar túmulos de poetas, escritores, músicos, políticos e anônimos como Joaquim
Nabuco, Barão de Mecejana, Chico Science, Carlos Pena Filho, Capiba, Menina Sem Nome,
Manoel Borba, Naná Vasconcelos, Miguel Arraes, entre tantos outros. O visitante consegue
remontar a história da sociedade pernambucana através das mais importantes personalidades
inumadas ali. (Figura 19).
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Figura 18 - Entrada principal do cemitério Figura 19 - Totem com planta esquemática do
cemitério
Fonte: autores, 2021
Entre os políticos, há um grande destaque a suntuosidade do jazigo/capela do
abolicionista Joaquim Nabuco. Segundo Tavares e Brahm (2018), a obra do escultor Giovanni
Nicolini foi confeccionada na Itália e instalada em Recife em 1914. Apresenta um busto do político
logo à frente do jazigo onde há uma representação de homens, mulheres e crianças negras, ex-
escravos, cortejando seu caixão. Outro túmulo suntuoso é o de Manoel Borba, ex-governador do
estado. Seu mausoléu apresenta uma figura feminina de braços abertos, logo abaixo um leão, ambos
em bronze. Abaixo das patas do leão, uma frase que ficou famosa: “Pernambuco não se deixará
humilhar”. Em estilo Art Déco, o mausoléu de Agamenon Magalhães, outro ex-governador,
também se destaca. Na composição, há uma estátua de corpo inteiro do político, ladeado por quatro
imagens femininas que se identificam por justiça, lei, história e virtude. (Figuras 20, 21 e 22).
Figura 20 - Jazigo de Figura 21 - Jazigo de Figura 22 - Mausoléu de Agamenon Magalhães
Joaquim Nabuco Manoel Borba
Fonte: autores, 2021
Entre os músicos, ganha destaque o mangue boy Francisco de Assis França, mais
conhecido como Chico Science, um dos principais representantes do movimento Mangue Beat.
Chico faleceu em fevereiro de 1997, vítima de um acidente de carro. Seu túmulo foge dos
tradicionais, pois apresenta cores vibrantes, além de trechos de suas músicas e frases que marcaram
sua carreira. Outro músico que descansa na necrópole é Lourenço da Fonseca Barbosa, mais
conhecido como Capiba, que faleceu também em 1997. Entre os poetas, Carlos Pena Filho é
considerado um dos mais importantes em Pernambuco. Formado em Direito pela faculdade de
Direito do Recife, teve sua carreira prematuramente encerrada aos 31 anos de idade em decorrência
de sua morte. Entre ou anônimos mais visitados, estão a Menina Sem Nome e o Menino
Alfredinho, procurados para a busca de ajuda e conforto e para agradecimentos por graças
recebidas. (Figuras 23 a 26).
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Figura 23 - Túmulo de Figura 24 - Túmulo Figura 25 - Túmulo da Figura 26- Túmulo do
Chico Science de Carlos Pena Filho Menina Sem Nome Menino Alfredinho
Fonte: autores, 2021
Segundo Lemos (2019), com a chegada da corte portuguesa ao Brasil em 1808, as
influências trazidas da Europa resultaram em construções de edificações nas principais cidades do
império a partir daquele momento. Aos poucos as cidades iam se refazendo com um novo estilo
arquitetônico condizente com a nobreza. Essa aceitação entrou nos muros do cemitério de Santo
Amaro, que apresenta túmulos com os mais diversos estilos arquitetônicos com o que se produzia
em cada época, retratados nas datas impressas nas lápides de cada mausoléu. Em maior número,
são encontrados jazigos perpétuos com traços Neogóticos e Ecléticos, formas mais comuns a
época em que o cemitério foi construído. Porém, dentre eles, também encontram-se representações
em Neoclássico, Art. Déco e Modernista, vistos em alguns túmulos. (Figuras 27 a 30).
Figura 27 - Mausoléus com traços Neoclássicos Figura 28 - Mausoléus com traços Neogóticos
Figura 29- Mausoléus com traços Ecléticos Figura 30 – Mausoléus Modernistas e Neoegípcio
Fonte: autores, 2021
A simbologia também está muito presente no cemitério de Santo Amaro. Segundo
Lemos (2019), os símbolos artísticos são uma identificação da cultura através da crença e da fé. A
arte tumular pretende demonstrar o gosto artístico da família, o status e as origens étnicas. Os
cemitérios preservam essa identidade. Na tipologia tumular, destacam-se artefatos cristãos como a
imagem de Jesus Cristo, Santos e crucifixos. Alegorias de bustos dos falecidos, mulheres em
desolação, ampulhetas com asas, vasos. Figuras antropomórficas, que são representações de formas
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humanas como anjos e crianças. Zoomorfos, representações de animais como leão, patas de leão,
cão, pássaros, etc. Fitomórficos, representações de elementos vegetais: guirlandas, flores, folhas
etc. e elementos ligados ao fogo: tochas, piras, chamas, lamparinas etc. (Figuras 31 a 35) (LEMOS,
2019).
Figura 31 - Imagens de Cristo sobre túmulos Figura 32 - Imagens antropomórficas
Fonte: autores, 2021
Figura 33 - Imagens de Figura 34 - Imagens Figura 35 - Símbolos
mulheres desoladas que representam o falecido da arquitetura tumular
Fonte: autores, 2021
Localizado em meio ao centro urbano da cidade do Recife, uma área bastante
movimentada, o cemitério de Santo Amaro representa um oásis de paz e tranquilidade. Todo
campo é bastante arborizado por diversas espécies vegetais convidativas às mais diversificadas
espécies de aves que compõem um belo cenário aos visitantes da necrópole. Há uma distribuição
estratégica de bancos pelas alamedas e áreas com espelhos d’água que torna um passeio entre os
moradores perpétuos bastante confortável. Cabe lembrar que outro motivo de visitação deve-se a
inauguração em 2016 da Ala das Orquídeas, primeira Ala da Alameda das Irmandades, fruto de
uma parceria entre a Evolution Tecnologia Funerária e a Arquidiocese de Olinda, utilizando
princípios sustentáveis e ecológicos. A Alameda das Irmandades é composta por alas: a Ala das
Orquídeas e a Ala Flor do Carmelo. (Figuras 36 e 38).
Figura 36 - Arborização Figura 37 - Ala das Orquídeas Figura 38 - Ala Flor do Carmelo
dentro do cemitério
Fonte: autores, 2021 Fonte: Evolution Tecnologia Funerária, 2021
4.1 Outros olhares
Outro ponto de interesse a ser destacado da pesquisa dos autores foi a busca por outros
olhares sobre o potencial do Cemitério Santo Amaro como destino turístico-cultural
(NASCIMENTO, 2021). Foram feitas três tipos de consulta:
1. Entrevistas com representantes de órgãos de governo: a) Fundação do Patrimônio
Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE), b) Secretaria de Turismo e Lazer
do Estado de Pernambuco (SETUR), c) Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer da
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Cidade do Recife e d) Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife
(EMLURB);
2. Entrevista com funcionários do cemitério; e
3. Aplicação de questionário online, divulgado para arquitetos e urbanistas, professores e
estudantes da área da arquitetura, urbanismo e afins, familiares de pessoas enterradas
no cemitério e a população da cidade de uma maneira geral.
Os resultados destas consultas podem ser assim sintetizados:
Há uma clareza por parte dos órgãos de governo quanto ao potencial do cemitério como
destino de turismo cultural, seja pela sua riqueza histórica, seja pelo seu potencial atrativo,
e há uma posição favorável à inclusão do cemitério no turismo cultural da cidade, e o
cuidado quanto à necessidade de compatibilização desse novo uso com a preservação do
local;
Os funcionários do cemitério também são favoráveis ao uso do cemitério como destino
turístico-cultural, inclusive lamentam o pouco movimento e o desinteresse pela visitação,
pois o Campo-Santo tem, segundo eles, muito a ensinar;
A grande maioria dos respondentes aos questionários se mostrou favorável à utilização do
cemitério Santo Amaro como destino de turismo cultural da cidade
Estes resultados somados às análises feitas pelos autores deixaram claro o potencial do
Cemitério Santo Amaro como destino do turismo cultural, o que levou a algumas sugestões de
ações concretas como contribuição à efetivação deste uso.
5 AÇÕES PARA POTENCIALIZAR O TURISMO NO CEMITÉRIO DE SANTO
AMARO
Os cemitérios oitocentistas são dotados das mais variadas particularidades que instigam
a curiosidade e ensinam bastante sobre a sociedade ao qual está inserido. Não à toa são
considerados museus, porém são seus motivos e temas que os tornam peculiares. Pode-se conhecer
a construção daquele lugar através do que pode ser visto naquela necrópole. A integração da
sociedade com o passado tende a manter viva a memória de uma cultura. Desta forma, pretende-
se que as ações propostas a seguir possam despertar cada vez mais o interesse da população para
um novo olhar ao Cemitério de Santo Amaro.
1. Realização de inventários dos túmulos, jazigos e mausoléus históricos;
2. Criação de circuitos temáticos;
3. Realização de visitas guiadas;
4. Promoção de aulas no cemitério;
5. Elaboração de um projeto com vistas a preservação do patrimônio funerário;
6. Maior utilização da capela central, com mais missas em mais dias da semana;
7. Incentivo à implantação de novos usos no cemitério;
8. Ampliação dos QR codes;
9. Realização de inventário das espécies vegetais presentes no cemitério;
10. Promoção de ações conjuntas entre a população e os órgãos responsáveis pela preservação
do patrimônio funerário no Cemitério histórico de Santo Amaro;
11. Inserção e acessibilidade - Desenho Universal.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pensar cemitério como museu, conforme ensina Castro (2007) foi o ponto de partida para
compreensão do Cemitério de Santo Amaro como destino de turismo cultural. Foram pesquisados
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diversos exemplos de cemitérios que já agregaram esse novo uso, tanto em cidades brasileiras como
em cidades de outros países.
Consultados representantes de órgãos de governo, funcionários do cemitério,
arquitetos e urbanistas, professores e estudantes da área da arquitetura, urbanismo e afins, familiares
de pessoas enterradas no cemitério e a população da cidade de uma maneira geral, observou-se um
interesse praticamente unânime na utilização do Cemitério de Santo Amaro como destino de
turismo cultural.
Em função dos resultados favoráveis obtidos seja nas pesquisas bibliográfica, seja na
pesquisa in loco, seja na avaliação das respostas às entrevistas e ao questionário, foram sugeridas
ações para potencializar o turismo cultural no cemitério de Santo Amaro e para despertar cada vez
mais o interesse da população para um novo olhar ao Cemitério de Santo Amaro.
Os resultados da pesquisa, resumida aqui neste artigo, comprovaram a hipótese
adotada, de que a realização de ações para inserir novos usos, tais como visitações guiadas ao
cemitério, pode valorizar o seu acervo e expandir a sociabilidade e a visitação. E estas ações devem
ir muito além de visitações guiadas, passando pela realização de inventário dos túmulos, jazigos e
mausoléus históricos, pela criação de circuitos temáticos, pela promoção de aulas no cemitério, pela
elaboração de um projeto com vistas à preservação do patrimônio funerário, por uma maior
utilização da capela central, pela implantação de novos usos no cemitério, pela ampliação dos QR
codes, pela realização de inventários das espécies vegetais presentes no cemitério, pela criação de um
site específico sobre o cemitério, pela promoção de ações conjuntas entre a população e os órgãos
responsáveis pela preservação do cemitério, e pela inserção da acessibilidade-desenho universal.
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