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Narrativas e Cartografia na Várzea, Recife

O artigo discute a elaboração de uma cartografia do bairro da Várzea, em Recife, por acadêmicos de Arquitetura e Urbanismo, utilizando registros fotográficos, desenhos e entrevistas com moradores para promover uma nova percepção da paisagem cultural urbana. A pesquisa foi dividida em quatro etapas: observação, registro, exploração e apropriação, visando integrar experiências acadêmicas e memória urbana através da educação patrimonial. O trabalho destaca a importância da mídia-criativa como ferramenta para narrar a história sociocultural do local e a necessidade de um olhar analítico sobre a cidade.

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Narrativas e Cartografia na Várzea, Recife

O artigo discute a elaboração de uma cartografia do bairro da Várzea, em Recife, por acadêmicos de Arquitetura e Urbanismo, utilizando registros fotográficos, desenhos e entrevistas com moradores para promover uma nova percepção da paisagem cultural urbana. A pesquisa foi dividida em quatro etapas: observação, registro, exploração e apropriação, visando integrar experiências acadêmicas e memória urbana através da educação patrimonial. O trabalho destaca a importância da mídia-criativa como ferramenta para narrar a história sociocultural do local e a necessidade de um olhar analítico sobre a cidade.

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ARCHITECTON-Revista de Arquitetura e Urbanismo. ISSN 2236-6849, Vol. 7, Nº 11, 2022. p.

71- 82

NARRATIVAS DO OLHAR: EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E ELABORAÇÃO


CARTOGRÁFICA NO BAIRRO DA VÁRZEA, RECIFE
GAZE-GUIDED NARRATIVES: HERITAGE EDUCATION AND CARTOGRAPHIC
ELABORATION IN VÁRZEA NEIGHBORHOOD, Recife

Jessica Aline Tardivo1


IFPE-Instituto Federal de Pernambuco Unibra

Adriano Dias de Andrade2


UFPE

Resumo
Este trabalho constrói uma narrativa do olhar, na qual um grupo de acadêmicos do curso de Arquitetura e Urbanismo
elaboraram uma cartografia possível do bairro da Várzea, Zona Oeste da cidade do Recife, com registros fotográficos,
desenhos e entrevistas junto aos moradores locais, buscando, assim, formar uma nova percepção (com)partilhada sobre
a imagem da paisagem cultural urbana do território, através de ações que vislumbram, também, a educação patrimonial.
A investigação se dividiu em quatro etapas de atividades: observação, registro, exploração e apropriação. A trama dessas etapas
tem possibilitado a ampliação de atividades de natureza mídia-criativa pelo bairro, abrangendo como resultado conexões
entre as experiências acadêmicas e a memória urbana.

Palavras-chave
Educação Patrimonial. Bairro da Várzea. Cartografias urbanas. Paisagem cultural.

Abstract
This work aims to build a gaze-guided narrative, in which a group of academics from the Architecture and Urbanism course elaborated a
possible cartography of the Várzea neighborhood, West Zone of the city of Recife, by means of pictures, drawings and interviews with local
residents, seeking, thus, to form a new (shared)perception about the image of the urban cultural landscape of the territory, through actions
that also envisage heritage education. The investigation was organized into four stages of activities: observation, recording, exploration and
appropriation. The plot of these stages has enabled the expansion of media-creative activities in the neighborhood, encompassing as a result
connections between academic experiences and urban memory.

Keywords
Heritage education, Várzea Neighborhood, urban cartographies. Cultural landscape.

1 Doutora em Arquitetura e Urbanismo IFPE-Instituto Federal de Pernambuco Unibra - Centro Universitário


Brasileiro. E-mail: [Link]@[Link].
2 Doutor em Letras; Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo UFPE-Universidade Federal de Pernambuco Unibra -

Centro Universitário Brasileiro E-mail: [Link]@[Link]

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1 INTRODUÇÃO

A cartografia é então não apenas uma forma de representação, mas também uma
estratégia de análise do lugar e das relações sociais, subjetivas e culturais que nele
ocorrem a partir de novas estruturas.

Palacios (2009, p. 4)

Conforme assinala o arquiteto chileno Marcos Valencia Palacios (2009), acreditamos


que a cidade é um campo complexo aberto para diferentes diálogos, relações e experimentações
educativas. Dentre as inúmeras possibilidades de leitura das cidades, o projeto MemoriAR,3 cujas
atividades serão apresentadas em recorte neste trabalho, constrói uma narrativa do olhar, na qual um
grupo de acadêmicos do curso de Arquitetura e Urbanismo elaboram uma cartografia possível do
bairro da Várzea, Zona Oeste da cidade do Recife, com registros fotográficos, desenhos e
entrevistas junto aos moradores locais, buscando, assim, formar uma nova percepção
(com)partilhada sobre a imagem da paisagem cultural urbana do território.
Por meio de ações que vislumbram também a Educação Patrimonial, a pesquisa, que
apresentamos a seguir, se dividiu em quatro etapas de atividades: observação, registro, exploração e
apropriação. A trama dessas etapas tem possibilitado a ampliação de atividades de natureza mídia-
criativa pelo bairro, abrangendo como resultado conexões entre as experiências acadêmicas e a
memória urbana.
Além desta introdução, organizamos este artigo em quatro seções que discutem as
bases teóricas nas quais nos apoiamos, descrevem as etapas arregimentadas para execução da
pesquisa e refletem sobre nossos achados.

2 MÍDIA-CRIATIVA E EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

Nesta pesquisa, tomamos o termo mídia-criativa como processo que une instrumentos
de mídias com práticas criativas e sensíveis de aprendizagem, para narrar, por meio da estética
audiovisual, a história sociocultural de um lugar (TARDIVO, 2019). Em várias iniciativas
contemporâneas, intervenções e projetos se cercam de recursos digitais para falar de arquitetura e
percepção, como exemplo podemos citar as propostas do arquiteto alemão Joachim Sauter4. Pela
compreensão de Sauter (2008, p. 73), os recursos e mídias digitais facilitam a produção de trabalhos
e exercícios de criação que têm por referência a memória de duas maneiras distintas, a (1) primeira
possibilitando o registro da percepção e a “visualização de resquícios culturais em camadas
digitais”; e a (2) segunda, propiciando intervenções no ambiente físico, que causam rupturas no
caminho cotidiano dos indivíduos.
Acreditamos que essa compreensão, quando aproximada da abordagem da Educação
Patrimonial, facilita a criação de meios interativos para observação de um bem cultural, no nosso
caso o bairro. Não obstante, é importante apreender que essa abordagem foi sistematizada na
década de 1990, pela museóloga brasileira Maria de Lourdes Horta em parceria com as educadoras
Evelina Grunberg e Adriane Queiroz, com o objetivo primário de vivenciar objetos de exposição,

3 Este trabalho apresenta um recorte da pesquisa realizada no âmbito do Projeto de Iniciação Científica “MemoriAR:
uma cartografia urbana da Várzea”, aprovado e fomentado por meio do Programa Institucional de Pesquisa e Extensão
do Centro Universitário Brasileiro - Unibra, 2022.1. A equipe do projeto é composta pelos autores deste artigo Jessica
Aline Tardivo (orientadora) e Adriano Dias de Andrade, além dos acadêmicos em Arquitetura e Urbanismo Arcelon
Alves Freire Neto, Bruna de Lira Brayner Gomes Lelis, Myllena Fernanda Jerônimo da Silva e Suellen Keyla Silva
Soares, a quem agradecemos pelas indispensáveis colaborações para o projeto.
4 Trabalhos de Sauter podem ser acessados por meio do seu site. Disponível em:
[Link] Acesso em: 10 ago. 2022.
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em especial do patrimônio material em museus (IPHAN, 2014). Nesse processo, as etapas de


observação, registro, exploração e apropriação faziam parte de um percurso no qual os visitantes
desenvolviam pensamentos críticos em atividades criativas, artísticas, rodas de conversa, entre
outras, para dialogar sobre os bens de caráter material (IPHAN, 2014).
No Brasil essa visão foi ampliada para o (re)conhecimento das diferentes definições de
bens patrimoniais, especialmente nas práticas do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional). Na pesquisa aqui relatada, defendemos que, para olhar a cidade atual e as
pessoas que nela habitam, é preciso compreender que a cultura digital já faz parte do espaço
concreto. Nesse sentido, o emprego das mídias digitais para observação e registro da memória
facilita a troca e o recebimento de informação de forma rápida e dinâmica. Além disso, pode
propiciar a observação de diferentes culturas, a vivência em espaços híbridos e a interatividade. Tal
entendimento é exemplificado através da Figura 1:

Figura 1. Diagrama de resultados de observação da cidade a partir do intermédio das mídias digitais

Fonte: Tardivo, 2019, p. 67.

O diagrama da Figura 1 demonstra resultados possíveis por meio da mediação de


interfaces, a qual amplia o alcance da comunicação, da imagem e dos próprios registros da pesquisa.
Acreditando nesta hipótese, optamos por construir uma narrativa do bairro da Várzea, ouvindo,
por meio de gravações de vídeos e áudios, as vozes daquelas e daqueles que cotidianamente
vivenciam o bairro, fotografando detalhes da sua paisagem e desenhando em modelos gráficos
recortes de suas fachadas.

3 PARAR E VER

Ver a cidade e enquadrar sob perspectiva analítica o território, sua composição


paisagística, sua morfologia, seus rebatimentos históricos e suas gentes exige tempo e vontade. É
necessário tempo ‒ um tempo dedicado a uma atividade particular. Esse tempo não se confunde
com o perambular cotidiano entre os bairros para execução das nossas atividades seculares. Esse
tempo para enxergar a cidade sob o escrutínio de uma pesquisa-ação é um tempo pedagógico, que,
como em outros cenários de aprendizagem, é relativo aos sujeitos e às suas vontades. É, portanto,
um tempo individualizado (mas não individual), próprio da construção pessoal de cada uma/um,
que, em contato com o Outro e com a cidade, estabelece seus próprios parâmetros interpretativos
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e constrói suas próprias paisagens culturais a respeito dos territórios em que estão imersos naquele
tempo-pesquisa.
Neste trabalho, para observar a cidade, estamos pautados por estudos de formação da
percepção, que apareciam com relevância em pesquisas do campo da arquitetura, arte e cinema na década
de 1960. Em especial, para tratar sobre a paisagem urbana, nos debruçamos sobre o olhar do urbanista
americano Kevin Lynch (1980), do cineasta alemão Wim Wenders (1994) e do psicanalista
brasileiro Plínio Montagna (2009). Além dessas contribuições, esta pesquisa toma como inspiração
reflexiva os estudos do educador Paulo Freire (2001), que dimensiona a cidade enquanto território
político capaz de educar os sujeitos. Em complemento, tomamos o conceito de multiletramentos,
abordado pela linguista Roxane Rojo (2012), como ferramenta conceitual e metodológica que
justifica nossa proposição multissemiótica, através da elaboração de fotografias, desenhos à mão
livre e desenhos assistidos pelo computador, para a realização de ações de Educação Patrimonial e
de construção de uma cartografia sensível do lugar.
De forma sucinta, pontuamos aqui que Lynch (1980) abordou a formação da
percepção e a imagem da cidade a partir da relação direta entre o homem e o espaço. Essa
percepção, na visão do urbanista, era construída pela imagem mental e pela experiência de cada
observador da cidade. Na publicação “A imagem da cidade”, o autor observa que a formação da
imagem mental é dada pela vivência individual, uma vez que as interpretações da cidade “vão se
modificando de acordo com suas experiências no lugar”. Portanto, conforme Lynch (1980, p. 14):

Esta imagem mental da cidade é o produto da percepção imediata e da memória, da


experiência passada, e ela está habituada a interpretar informações e comandar ações. A
necessidade de conhecer e estruturar é tão importante e tão enraizada no passado que
esta imagem tem uma grande relevância prática e emocional no indivíduo.

Na concepção de Wenders (1994), a leitura e a construção da imagem mental, ou


imagem imaginada da cidade, não é apenas uma interpretação estática. Ou seja, a imagem:

[...] não é seguramente um conceito muito claro e unívoco, ela pode querer dizer todo
tipo de coisas, algumas completamente abstratas e outras bem concretas. ‘A imagem da
cidade’ [...], sob a perspectiva do cinema, por exemplo, [...] parece estar sempre em
movimento e plena mudança (WENDERS,1994, p. 181).

Wenders (1994, p. 181), ainda fazendo menção à pesquisa de Lynch (1980), pontua
que a imagem é constituída "pelo modo de vida, pelo conhecimento e pelas expectativas de cada
observador”.
Acreditamos, então, que, no processo de pesquisa, cada pesquisador é capaz de criar
uma narrativa mnemônica específica enquanto observa a cidade, uma vez que cada pessoa tem
experiências anteriores diferentes umas das outras, fazendo com que o lugar de observação tenha
sensibilidades distintas, que podem ser atribuídas não somente às experiências compensatórias, mas
igualmente às angústias, frustrações e alegrias.
Nosso entendimento se aproxima da ideia de percepção de Montagna (2009), o qual
sugere que:
[...] não interessa apenas a cidade ou a rua em si, mas suas reverberações em cada um de
nós, que por seu turno nos levam a depositar nela nossos sentimentos, fantasias, anseios,
ansiedades [...]. Dessa maneira [...] a cidade só existe na exata medida do olhar oblíquo
que contém a subjetividade necessária à vida [...] (MONTAGNA, 2009, p. 157).

Refletindo sobre o caráter educativo das cidades e sobre as relações políticas


constitutivas das nossas relações sociais na urbe, Paulo Freire (2001, p. 13-14) defende que as
cidades podem comunicar, “quase como se as cidades gesticulassem ou andassem ou se movessem
ou dissessem de si, falando quase como se as cidades proclamassem feitos e fatos vividos nelas por
mulheres e homens que por elas passaram”. Para o educador, a tarefa educativa das cidades é uma
questão também de memória:
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No fundo, a tarefa educativa das cidades se realiza também através do tratamento de sua
memória e sua memória não apenas guarda, mas reproduz, estende, comunica-se às
gerações que chegam. Seus museus, seus centros de cultura, de arte são a alma viva do
ímpeto criador, dos sinais de aventura do espírito. Falam de épocas diferentes, de apogeu,
de decadência, de crises, da força condicionante das condições materiais. (FREIRE, 2001,
p. 14).

No cenário atual de desenvolvimento social e urbano, mesmo em países e


regiões marcadamente desiguais do ponto de vista da distribuição de renda e do acesso a políticas
públicas e bens culturais, não é mais possível ou desejável falar de letramento no singular, para
abarcar apenas o processo contínuo de imersão e apreensão de formas verbais (orais e escritas) de
linguagem, que permitem os sujeitos falarem e escreverem, em contextos e registros diversos, e
exercerem de forma plena sua cidadania.
É consenso entre os pesquisadores (do campo linguístico especificamente,
mas também das ciências da educação e da aprendizagem em geral) que o mundo contemporâneo,
atravessado pelas tecnologias da informação e comunicação que se originaram com o advento da
internet (com mais força a partir da versão 2.0), impõe cenários múltiplos de aprendizagem e de
apreensão da realidade, por meio da linguagem, que envolvem o campo da cibercultura e do
hipertexto. Dessa forma, para as práticas educativas, de acordo com Rojo (2012, p. 21), “são
necessárias novas ferramentas — além das da escrita manual (papel, pena, lápis, caneta, giz e lousa)
e impressa (tipografia, imprensa) — de áudio, vídeo, tratamento da imagem, edição e diagramação”.
A (sobre)vivência neste mundo conectado passou a exigir a apropriação
de novas formas sociais contemporâneas de agir no mundo, instanciadas por meio de práticas de
linguagem e, certamente, no contexto de reconhecimento da diversidade social e humana. Isso
implica em diversas camadas de aprendizagem social, ou letramentos, que são realizadas, muitas
vezes, de maneira complementar e sistemática. Na apreensão de Rojo (2012, p. 13), multiletramentos
é um conceito que refere pelo menos dois importantes aspectos das sociedades contemporâneas,
especialmente as urbanas: a multiplicidade cultural e a multiplicidade semiótica.
De acordo com a autora (2012, p. 23), os estudos têm apontado as
seguintes características sobre os multiletramentos:

(a) eles são interativos; mais que isso, colaborativos;


(b) eles fraturam e transgridem as relações de poder estabelecidas, em especial as relações
de propriedade (das máquinas, das ferramentas, das ideias, dos textos [verbais ou não]);
(c) eles são híbridos, fronteiriços, mestiços (de linguagens, modos, mídias e culturas)
(ROJO, 2012, p. 23).
Inspirados por essas reflexões e formas de compreender a cidade e as relações de
apropriação do homem, os pesquisadores do projeto MemoriAR saíram a campo para elaborar
uma cartografia de conexão entre o eu e a cidade, entre o eu e o outro, através de ações multissemióticas,
que consideram a aprendizagem da/na cidade na forma dos multiletramentos.

4 OUVIR E REGISTRAR

Como dissemos, neste trabalho, relata-se a experiência de pesquisa-ação, no campo da


cartografia e da Educação Patrimonial. Para tanto, conforme citado na seção anterior, partimos de
proposições teóricas que consideram a natureza educativa das cidades e encaminhamos os
procedimentos metodológicos tendo em consideração os multiletramentos. Nesta seção, indicamos
de forma mais sistemática os aspectos metodológicos que nortearam a investigação.
Esta pesquisa tem como território de imersão e interesse o bairro da Várzea, na Zona
Oeste do Recife, que faz fronteira com a cidade de Camaragibe, integrante da região metropolitana
do Recife. O território está ilustrado na Figura 2:

Figura 2 - Território do bairro da Várzea, Recife.

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Fonte: Recorte de imagem do Google Maps, 2022. Disponível em: [Link] Acesso em: 11
ago. 2022.

A investigação tomou como norte as seguintes etapas: (i) imersão no território


investigado; (ii) realização de entrevistas com moradores do bairro; (iii) levantamentos fotográficos;
(iv) realização de desenhos à mão livre e desenhos assistidos por computador. Com exceção da
última etapa, que ainda está em desenvolvimento no momento em que escrevemos este texto, todas
as demais foram realizadas de maneira concomitante e circular, sem uma hierarquia previamente
estabelecida, durante o primeiro semestre do ano de 2022.
A etapa (i) consistiu no desbravamento coletivo do bairro pelos pesquisadores. O
grupo era bastante heterogêneo, formado por sujeitos que nunca haviam estado no bairro e por
sujeitos que já residiam naquele território ou o conheciam de forma mais pessoal.
Essa imersão ocorreu de duas formas. Primeiro, em grupo, os pesquisadores
transitaram conjuntamente pelo bairro, seguindo um trajeto previamente discutido e acertado, que
privilegiava edificações de interesse histórico, tais como: a Igreja Matriz Imperial da Várzea Nossa
Senhora do Rosário; o edifício do atual Educandário Magalhães Bastos; e as ruínas do chamado Casarão
da Várzea, onde funcionou no século passado o primeiro hospital odontológico da América Latina.
Depois desse trajeto inicial, os pesquisadores também andaram a ermo pelo bairro, procurando
suas próprias razões para atravessar ruas e vilas, casas e comércios, fachadas históricas e
contemporâneas. A etapa (i) está ilustrada por meio da Figura 3, abaixo:

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Figura 3. Imersão dos pesquisadores pelo bairro da Várzea, Recife.

Fonte: Arquivos da pesquisa, 2022.

A etapa seguinte (ii) consistiu dos encontros dos pesquisadores com moradores do
bairro, que representam distintas relações práticas e afetivas com o local, desde moradores que
habitam na Várzea há gerações, constituindo uma história de relação familiar centenária, até
moradores que chegaram ao bairro há poucos anos com o intuito de residir próximos à
universidade, uma vez que o bairro abriga a Universidade Federal de Pernambuco.
Esses momentos foram encaminhados na casa das pessoas, em cafés do bairro, na
praça principal e, também, nas áreas das edificações de interesse histórico. Esse aspecto ressalta
um importante elemento contextual para a pesquisa, que implica no reconhecimento e na
compreensão de símbolos verbais (as entrevistas), que são produzidos nas próprias realidades
materiais (casas, cafés, praças, edificações) a que fazem referência e que são objeto de instanciação
da memória pelas suas falas. As entrevistas foram gravadas em áudio e vídeo e estão ilustradas por
meio da Figura 4, a seguir:

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Figura 4 - Momentos de entrevistas com moradores da Várzea, Recife

Fonte: Arquivos da pesquisa, 2022.

A etapa (iii) refere os levantamentos fotográficos realizados pelos pesquisadores nos


momentos de imersão no território. Com esses levantamentos, objetivou-se o registro imagético
do bairro, não apenas de suas fachadas históricas, casas e ruas, mas dos movimentos próprios que
naquele local tomam corpo na forma de manifestações culturais diversas.
Assim, foi possível registrar desde detalhes de gradis de ferro do século passado,
passando por murais de pichações espontâneas, grafites temáticos, até manifestações culturais
como a capoeira. O registro fotográfico desses acontecimentos materiais e imateriais serviram de
exercício para desacostumar o olhar cotidiano dos pesquisadores e levá-los a enxergar o bairro a
partir da perspectiva de uma elaboração cartográfica, num movimento que permite a Educação
Patrimonial ganhar relevância pessoal para cada uma/um. O levantamento fotográfico pode ser
conferido na Figura 5:

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Figura 5 - Detalhe de gradil de ferro registrado durante levantamento fotográfico no bairro da Várzea, Recife.

Fonte: Arquivos da pesquisa, 2022.

A etapa (iv) foi estabelecida devido à necessidade de continuação das atividades já


realizadas, uma vez que os processos de imersão em campo, escuta ativa e registro fotográfico
implicaram de maneira orgânica a percepção do grupo de pesquisadores, no seu olhar sobre a
cidade, isto é, permitiram o estabelecimento de uma prática pedagógica de Educação Patrimonial,
que, por seu turno, exigiu a proposição de um produto final, resultado dos entrecruzamentos das
percepções do grupo, mas elaborado por meio da sensibilidade única de cada sujeito: os desenhos à
mão livre e pelo computador. Esta última etapa, embora ainda embrionária, pode ser ilustrada por meio
da Figura 6, logo abaixo:

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Figura 6. Desenho em Autocad da Igreja Matriz Imperial da Várzea.

Fonte: Arquivos da pesquisa, 2022. Desenhistas: Leticia Ferreira da Silva e Emanuel Antônio da Silva.

Além dessas quatro etapas, como ação ulterior desta pesquisa, objetiva-se a
transmutação dos desenhos na forma de cartões-postais, que serão expostos no bairro da Várzea,
com a participação dos agentes do território que foram entrevistados, e com a interação dos
moradores e frequentadores do bairro no momento da exposição. Com isso, pretende-se, também,
fomentar a inquietação das pessoas ao se depararem com paisagens pretensamente reconhecíveis,
das ruas e praças que contornam as suas casas e comércios, na forma de cartão postal. Desse modo,
espera-se, então, reforçar o sentimento de pertencimento ao bairro e suscitar a consciência para
questões do patrimônio histórico da cidade, aspectos que perpassam a Educação Patrimonial.

5 COMPREENDER E RESSIGNIFICAR

No trajeto desta investigação, ao tomarmos a cartografia como caminho ‒ ou como


registro de um processo ‒ e a Educação Patrimonial como etapas de diálogo sobre a cidade,
compreendemos que a percepção sobre a paisagem cultural é, de fato, reconstruída a cada nova
imersão no lugar. Nesse aspecto, elaboramos uma estratégia para leitura da cidade, conforme ilustra
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a Figura 7, na qual os resultados e dados coletados em cada prática realizada não foram produtos
de uma composição única; do contrário, eles alimentaram o discurso e “abriram o olhar” para
outras indagações sobre a cidade.

Figura 7 - Estratégia para leitura da cidade

ESTRATÉGIA PARA LEITURA DA CIDADE

RECONHECIMENTO REGISTRO:
FOTOGRÁFICO Entrevistas, vídeos e
Mapa Mental desenhos

Uso de Mídias digitais e atividades


artísticas Observação dos atores sociais do
para os pesquisadores observarem o lugar
local

DIFERENTES PROPOSTAS CARTOGRAFIA


PERCEPÇÕES EDUCATIVAS SENSÍVEL
(Olhar dos (Participação junto (Escrita coletiva
pesquisadores) à comunidade) sobre o Lugar)
Resultado
Fonte: Arquivos da pesquisa, 2022.

Conforme expõe o diagrama da estratégia, as mídias, neste caso, foram mediadoras


tanto da observação quanto do registro e da apropriação, uma vez que os pesquisadores se
conectaram a suportes distintos de imagem para perceber recortes do bairro e da vida de seus
moradores. Ou seja, para a ação proposta, fez-se um zoom sobre a história do lugar. Assim, os
nossos olhos, então provocados pela fotografia, pararam de olhar o todo e passaram a enxergar
pequenos detalhes da imagem urbana.
Ao tomarmos diferentes possibilidades semióticas como ferramentas de elaboração
cartográfica, consideramos os processos dos multiletramentos como inspiração teórico-metodológica
para ações de Educação Patrimonial. Portanto, concordamos com Rojo (2012, p. 25) quando
defende que:

A possibilidade de criação de textos, vídeos, músicas, ferramentas, designs não


unidirecionais, controlados e autorais, mas colaborativos e interativos, dilui (e no limite
fratura e transgride) a própria ideia de propriedade das ideias: posso passar a me apropriar
do que é visto como um “fratrimônio” da humanidade e não mais como um
“patrimônio”. (ROJO, 2012, p. 25).

Ao longo desta trajetória de pesquisa, nossa sensibilidade foi instigada pela escuta ativa
de trechos de áudios (e vídeos) nos quais moradores narram recortes de suas lembranças. Além
disso, a nossa reflexão sobre o patrimônio foi aprofundada por meio do desenho, e inúmeros foram
os sentidos despertados pelo cheiro, pelo clima, pela música alta na esquina da praça, pelo som das
crianças no parque, entre outros símbolos que personificam a cidade. Afirmamos, como resultado
desta narrativa, que o vislumbre dos diversos relances do olhar, nesta elaboração cartográfica, nos
permitiu (re)conhecer muitas Várzeas.

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REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. Política e educação: ensaios. São Paulo: Cortez, 2001. Disponível em:
[Link]
Acesso em: 10 ago. 2022.

HORTA, Maria de Lourdes Parreira; GRUNBERG, Evelina; QUEIROZ, Adriane. Guia básico
de Educação Patrimonial. Brasília: IPHAN/ Museu Imperial, 1999.

IPHAN. Educação Patrimonial: histórico, conceitos e processos. Brasília: Instituto do


Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Superintendência em Brasília, 2014.

LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1980.

MONTAGNA, Plínio. As Tramas do Invisível. In: TANIS, Bernardo e KHOURI, Magda Guimarães
(Orgs.). A psicanálise nas tramas da cidade. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009, p. 153-153.

PALACIOS. M. V. Cartografias urbanas. Imaginarios, huellas, mapas. DU&P: revista de


diseño urbano y paisaje. Santiago, v. 16, n. 16, 2009.

ROJO, Roxane. Pedagogia dos multiletramentos: diversidade cultural e de linguagens na escola. In: ROJO,
Roxane; MOURA, Eduardo (Orgs.). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial,
2012.

SAUTER, Joachim. Interfaces in public and semi-public spaces. Berlin: Heidelberg Springer-
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TARDIVO, Jessica Aline. Educação, memória e cidade: observação e registro cognitivo da


paisagem cultural. 2019. 255 f. Tese (Doutorado em Teoria e História da Arquitetura e do
Urbanismo) – Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos, Universidade de São Paulo, São
Carlos, 2019.

WENDERS, Wim. A Paisagem Urbana. Revista do Patrimônio Histórico. IPHAN, Rio de


Janeiro, n. 23, p. 180-189, 1994.

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